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Rebecca Cook

Entrevistada por
Debora Diniz

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Reitor
Ricardo Vieiralves de Castro

Vice-reitor
Paulo Roberto Volpato Dias

EDITORA DA UNIVERSIDADE DO
ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Conselho Editorial
Antonio Augusto Passos Videira
Flora Süssekind
Italo Moriconi (presidente)
Ivo Barbieri
Luiz Antonio de Castro Santos
Pedro Colmar Gonçalves da Silva Vellasco

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Rebecca Cook
Entrevistada por
Debora Diniz

Rio de Janeiro
2012

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Copyright  2012, EdUERJ.
Todos os direitos desta edição reservados à Editora da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. É proibida a duplicação ou reprodução deste
volume, ou de parte do mesmo, em quaisquer meios, sem autorização
expressa da editora.

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Editor Executivo Italo Moriconi
Assistente Editorial Fabiana Farias
Coordenadora Administrativa Rosane Lima
Coordenador de Publicações Renato Casimiro
Coordenadora de Produção Rosania Rolins
Coordenador de Revisão Fábio Flora
Revisão Andréa Ribeiro
Capa Heloisa Fortes
Projeto e Diagramação Emilio Biscardi

Esta coleção e a série televisiva que lhe deu origem contam com o apoio da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
CNRS - Images/Media
Consulado Geral da França/RJ
CTE/SR-3/UERJ

CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUS/PROTEC

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Sumário

Apresentação................................................. 7
Maria Andréa Loyola

Introdução................................................... 11
Debora Diniz

Entrevista.................................................... 21

Estereótipos sexuais na justiça


brasileira..................................................... 51
Ela Wiecko V. de Castilho

Direito e ciência como instrumentos


de controle da sexualidade
das mulheres............................................... 63
Ana Carolina da Costa e Fonseca

Trajetória profissional................................. 71

Principais trabalhos.................................... 73

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Apresentação
Maria Andréa Loyola

A
coleção Pensamento Contemporâneo
consagrou este número ao pensamen-
to da jurista Rebecca Cook, entrevistada por Debora
Diniz, antropóloga especializada em estudos de gênero
e bioética da Universidade de Brasília (UnB).
Professora e pesquisadora da Universidade de
Toronto, no Canadá, Rebecca Cook se distingue tanto
por uma expressiva e inovadora produção acadêmica na
área do direito quanto por sua militância, em foros aca-
dêmicos e políticos, em prol dos direitos humanos, com
destaque dos direitos das mulheres. A especificidade e o
interesse de seu trabalho repousam no fato de que ela se
vale, na defesa daqueles direitos, de argumentos teóricos
e de casos concretos envolvendo situações em que os
direitos das mulheres estão em pauta. Por meio dessa
casuística, que engloba diferentes temas em diferentes
culturas, Cook e alguns colaboradores vêm mostrando
como os estereótipos de gênero fundamentam os argu-
mentos de advogados, promotores e juízes relativamente
às mulheres. Crenças culturais, religiosas e normas de
gênero, muitas vezes medicamente embasadas, podem
conduzir a práticas sociais injustas, legitimadas pelo
direito, e, em muitos casos, a práticas realmente cruéis

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contra as mulheres, o que ela demonstra com vários
exemplos, habilmente explorados por Debora Diniz.
Abordando a mutilação genital feminina, o
aborto, a mortalidade materna e a epidemia de Aids,
entre outros temas que constituem objeto de seus estudos,
Cook defende a ideia de que, assim como os direitos
humanos são universais e não podem ser desconsiderados
em nome de soberanias nacionais e culturais, a injustiça
contra as mulheres não pode ter fronteiras, devendo ser
combatida de modo universal. E ela insiste, ao longo
da entrevista, que, nesse combate, o direito constitui
um instrumento fundamental de defesa das mulheres.
Debora Diniz introduz neste volume o pen-
samento de Rebecca Cook e relata ainda o contexto de
sua entrevista, realizada em Toronto. Como nos números
precedentes da coleção Pensamento Contemporâneo, a
entrevista é acompanhada por comentários de especia-
listas da área do entrevistado; no caso, por especialistas
da área do direito que enfatizam os direitos da mulher.
O primeiro comentário, “Estereótipos sexuais na justiça
brasileira”, é de Ela Wiecko V. de Castilho, professora da
UnB, especializada em Direito Público, e subprocuradora
geral da República, do Ministério Público Federal. O
segundo, “Direito e ciência como instrumentos de con-
trole da sexualidade das mulheres”, é de Ana Carolina da
Costa e Fonseca, filósofa formada em Ciências Jurídicas e
Sociais, professora de Filosofia, na Universidade Federal
de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), e de
Filosofia do Direito, na Fundação Escola Superior, do
Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Seguindo os objetivos que orientam a cole-
ção, são também apresentados um resumo da trajetória
profissional de Rebecca Cook e uma relação de seus

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principais trabalhos, de modo a permitir ao leitor maior
aproximação com a entrevistada e seu pensamento.

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Introdução
Debora Diniz*

R ebecca Cook é uma jurista internacional-


mente conhecida por suas ideias e ações
no campo da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos.
Com rara habilidade – que combina litígio estratégico
e sensibilidade cultural –, Cook, em parceria com a
jurista australiana Simone Cusack, acaba de lançar a
obra mais ousada de sua carreira, Gender stereotyping:
transnational legal perspectives.1 Cook é conhecida das
2

feministas latino-americanas pelo diálogo permanente


com várias gerações de juristas e ativistas de movimentos
sociais. Como uma das diretoras do Programa Interna-
cional sobre Leis em Saúde Sexual e Reprodutiva na
Universidade de Toronto, ministra cursos e desenvolve

*
Antropóloga, mestra e doutora em Antropologia. É profes-
sora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora do
Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis).
Atualmente, é membro do Research Project Review Panel
(RP2), do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa
da Organização Mundial da Saúde (OMS). Desenvolve
projetos de pesquisa sobre bioética, feminismo, direitos
humanos e saúde.
1
Estereótipos de gênero: perspectivas legais transnacionais
seria a tradução não oficial (a obra já foi traduzida para a
língua espanhola: Estereotipos de género: perspectivas
legales transnacionales. Bogotá: Profamilia, 2011).

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estudos que contam com a presença de pesquisadoras
latino-americanas especializadas em direitos humanos.
Na América Latina, mantém contato estreito com femi-
nistas argentinas, colombianas e mexicanas sobre casos
de aborto, em particular sobre anencefalia, ou o caso
ainda nebuloso de feminicídio da cidade de Juárez, no
México. Sua mais recente participação na Suprema
Corte canadense foi a respeito do direito à poligamia
por grupos religiosos. A tese de Cook é de resistência à
poligamia como um direito das comunidades religiosas,
por entendê-la como expressão da desigualdade imposta
às mulheres.
A entrevista aqui reproduzida foi realizada
durante meu semestre sabático no programa, em 2010,
quando tive a oportunidade de acompanhar os debates
provocados pelo lançamento do livro e pelo curso
ministrado por Cook sobre direitos humanos, sexuais
e reprodutivos.
O argumento central de seu novo livro é
simples: os estereótipos de gênero, em particular os
estereótipos sobre as mulheres, restringem direitos e
violam a igualdade. Um estereótipo é uma visão abran-
gente ou preconceituosa de atributos e características que
alguns grupos ou indivíduos possuem ou mesmo que a
sociedade espera que possuam. No campo de gênero,
estereotipar é uma ação política de controle sobre os
corpos das mulheres. Cook e Cusack fazem uma análise
comparada de diferentes decisões de cortes fundamen-
tadas em estereótipos contra os direitos das mulheres.
As primeiras palavras da introdução são uma espécie de
ponto de partida fatalista sobre o fenômeno sociológico
da classificação por estereótipos: “Estereotipar é parte da
natureza humana” (2010, p. 1). As autoras não devem

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ser tidas como ingênuas e levadas pela literalidade do
conceito de natureza como algo inerente ao humano:
natureza indica, antes, práticas arraigadas às relações
sociais ao ponto de serem naturalizadas. É nesse lugar
silencioso da cultura, que se reproduz até nas instituições
do Estado, que os estereótipos de gênero alimentam os
argumentos de advogados, promotores e juízes em casos
concretos envolvendo os direitos das mulheres. Cook e
Cusack olham para os efeitos dos estereótipos nas cortes,
os espaços que deveriam ser capazes de romper com
essas marcas cegas da desigualdade contra as mulheres.
Há momentos do livro em que não é clara
a diferença entre estereótipos e narrativas culturais de
gênero sobre homens e mulheres. O conceito de cultura
foi usado com dupla cautela pelas autoras. A primeira
cautela foi tomada por receio do imperialismo ético e
jurídico que acompanha iniciativas transnacionais em
direitos humanos. É preciso identificar práticas opressi-
vas de estereotipagem para que os dispositivos jurídicos
possam intervir e garantir a igualdade de oportunidade
às mulheres. Ou seja, não há relativismo com culturas
que proíbem as mulheres de frequentar escolas ou que as
impedem de ascender a carreiras de prestígio reservadas
aos homens. O livro assume uma prescrição igualitarista
entre homens e mulheres internacionalmente válida, o
que basta como tese ousada para autoras que se lançam
com sensibilidade transnacional. Já a segunda cautela se
dá pela harmonia de vocabulário com o documento-base
do livro: a Convenção para a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação contra Mulheres (CEDAW,
na sigla em inglês). No direito internacional, esse é um
termo polissêmico e muitas vezes utilizado para incluir
o domínio da religião na vida social, como ocorre na

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CEDAW. As religiões são instituições que, de diversas
maneiras, estereotipam injustamente as mulheres.
Ao perseguir os estereótipos e demonstrar suas
consequências injustas para os direitos das mulheres, as
autoras pretendem levar a sério o artigo 5A da CEDAW
e mostrar um dos caminhos possíveis para eliminar
a discriminação. Os estereótipos podem ser formas
de discriminação injusta. Certamente, nem todos são
negativos; por isso, o desafio está em nomear aqueles
que são danosos ou impõem obstáculos às mulheres. A
verdadeira ação de proteção aos direitos humanos das
mulheres deve ser a de erradicar os estereótipos, senão
da vida social, ao menos da ação das cortes. Há ainda
os estereótipos sobre os homens, cujas consequências
são também sentidas pelas mulheres. Essa talvez seja a
principal ausência do livro, pois gênero e mulheres se
confundem na análise dos casos concretos.
A verdade é que, assim como as autoras
propuseram um uso estratégico e uniforme do conceito
de cultura, gênero se viu reduzido a um conceito ope-
racional. Em sua compreensão mais tradicional, sexo e
gênero são dicotomias analíticas. Não há corporificações,
mas biologia reproduzida pelo corpo sexuado. Os este-
reótipos de gênero são atributos, normas, prescrições
assinaladas por cada contexto social na matéria sexuada.
O dualismo sexo-gênero é reavivado com vigor pelas
autoras. Mas, novamente, seria injusto levantar o dedo
e acusá-las de passar ao largo dos últimos vinte anos de
debate feminista. É essa a concepção igualitarista sobre
mulher, sexualidade e gênero que alcançou as cortes e
que o direito internacional majoritariamente favorece nos
litígios. Como em grande parte das obras jurídicas com

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projeto político de alterar a interpretação judicial, coe-
rência teórica e estratégia argumentativa se confundem.
O curioso é que mesmo essa concepção
analítica tímida sobre como operar com as teorias fe-
ministas e de gênero foi capaz de tornar o livro uma
peça robusta de enfrentamento à opressão das mulheres
nas cortes. Minha hipótese é de que há tanto a ser
feito nesse campo para a igualdade das mulheres que
conceitos simples – mas operacionais e propostos por
autoras com profundo conhecimento do funcionamento
das cortes internacionais – são o suficiente para provocar
uma reviravolta na forma de reconhecer os problemas e
na tomada de decisão. Segundo as autoras, o percurso
analítico do livro é de “metodologia transnacional”, isto
é, a empiria não se restringe a um país ou a uma região
do mundo. O globo é reduzido a histórias recorrentes em
que cortes nacionais ou internacionais se fundamentam
em estereótipos de gênero para impedir às mulheres o
acesso a educação, saúde, trabalho ou segurança.
Este me parece ter sido o principal desafio
dos trabalhos mais recentes de Cook: como se referir à
diversidade de povos e regimes políticos que discriminam
as mulheres sem se deixar afugentar pelo fantasma do
relativismo cultural? A resposta é tão simples que soa tri-
vial: as culturas não são justas e, portanto, a desigualdade
não pode ser justificada em nome da soberania cultural.
Cook e Cusack não querem impor um único regime de
funcionamento de gênero às diferentes sociedades, mas
não hesitam em analisá-las à luz de uma matriz norma-
tiva comum – a CEDAW. É essa aposta na ação política
pelos mecanismos normativos internacionais a principal
identidade de Cook no cenário do feminismo global. Ela
é uma jurista não só hábil no manejo e na interpretação

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dos marcos de direitos humanos, mas também sensível
às histórias concretas de vida das mulheres.
Estereótipos são o tema atual de uma longa
agenda de pesquisa e ativismo político de Cook. Entre
suas obras, o conhecido “livro verde” inspirou uma gera-
ção de pesquisadoras na interface dos direitos humanos
e da saúde, em dezenas de países: Saúde reprodutiva e
direitos humanos: integrando medicina, ética e direito
foi publicado em coautoria com Bernard Dickens e
Mahmoud Fathalla (2004).2 O livro é um manual de
1

boas práticas de justiça para temas desafiantes da assis-


tência em saúde; por isso, seu leitor é tão diversificado.
Num momento em que a bioética ainda se aproximava
de outros saberes, afastando-se da hegemonia médica
e filosófica, Cook e seus colaboradores anteciparam
algumas das principais questões que tocariam o direito.
De maneira similar ao estudo sobre os estereótipos, o
globo não tem fronteiras: da mutilação genital feminina
ao aborto, da morte materna à epidemia do HIV/Aids, a
agenda de questões foi tão ampla quanto os interesses
da autora.
O compromisso relativista de Cook não
lhe permitiu descrever a prática de mutilação genital
de meninas e adolescentes em termos tão dramáticos
para a diversidade cultural. Há uma controvérsia de
ponto de partida sobre o ritual de mutilação sexual das
mulheres: se é uma prática cultural que se justificaria em
seus próprios termos ou se é uma violação de direitos
fundamentais das mulheres pela perversa mutilação do

2
Intitulado Reproductive health and human rights: inte-
grating medicine, ethics and law, o livro foi traduzido para
vários idiomas. Em português, foi editado pela Cidadania,
Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia).

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corpo. Nesse jogo interpretativo, importa saber como
se descrevem as práticas, pois não há neutralidade
nos enunciados. O sumário do “livro verde” indica a
tentativa permanente de diálogo da autora com outros
povos e suas normas: “incisão genital feminina” foi a
forma escolhida para descrever o que também se entende
como circuncisão e mutilação. No intuito de proteger as
mulheres submetidas ao ritual, Cook e seus coautores
se recusam a descrever a prática como “mutilação”,
e se justificam: “O termo ‘incisão genital feminina’ é
uma tentativa para encontrar uma linguagem que tenha
um valor neutro, mas que descreva adequadamente a
natureza da operação” (2004, p. 269).
No entanto, esse duplo movimento de sensi-
bilidade narrativa e asserção política parece ser parte da
estratégia metodológica do trabalho de Cook no campo
dos direitos humanos. Basta ler o capítulo “Incisão genital
feminina (circuncisão/ mutilação)” para reconhecer a voz
de uma incondicional defensora dos direitos humanos
das mulheres. Dado o espírito metodológico do “livro
verde”, o capítulo se inicia com um caso: uma mulher
leva sua filha de nove anos a um médico. O pedido é
de circuncisão higiênica da menina. A mãe argumenta
que, caso o médico se recuse a circuncidar a menina,
a sogra o fará por meios tradicionais com uma parteira.
A pergunta de Cook e seus colaboradores aos leitores é
também a pista para sua resposta: “O que deve o Dr. D
fazer, considerando-se os aspectos médicos, éticos, legais
e de direitos humanos?” (2004, p. 268). A sensibilidade
cultural se limitou aos termos descritivos para as práticas.
Não há um “considerando-se a cultura de cada mulher”.
Esse jogo entre sensibilidade narrativa e
asserção política é eficaz no “livro verde”, um manual

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destinado à formação de jovens especialistas de diferentes
áreas do conhecimento. Acompanhei um dos cursos de
Cook voltados para juristas em que tal livro era uma obra
de referência para os temas sobre saúde e sexualidade.
A linguagem “neutra” e a estratégia argumentativa por
perspectivas facilitavam a leitura de quem desejava crer
que não havia uma autora conduzindo o leitor para uma
única abordagem – a da universalidade e incondicionali-
dade dos direitos humanos para as mulheres. Desse modo,
todos os capítulos do “livro verde” seguem o mesmo
rito de enunciação: tema, histórico, aspectos médicos,
aspectos éticos, aspectos legais, aspectos de direitos
humanos, abordagens (deveres clínicos, obrigações dos
sistemas de saúde, ação social frente às condições sub-
jacentes). Uma leitura atenta do sumário mostra que a
trilha está na direção da ação política. Os preâmbulos
são atalhos argumentativos para aproximar o leitor de
temas delicados, como o aborto.
Além de jurista acadêmica, Cook atua em
cortes canadenses e internacionais como especialista em
temas de direitos das mulheres. Recentemente, dedicou-se
a uma questão delicada sobre os limites da liberdade reli-
giosa na Suprema Corte canadense: o direito à poligamia.
Cook defende que a poligamia é uma forma de subalter-
nização das mulheres que viola seus direitos humanos.
Na fronteira entre liberdades individuais, religiosas e
igualdade de gênero, essa talvez seja uma das questões
mais desafiantes de sua carreira. Como o caso ainda não
foi decidido pela corte, sua posição não foi publicada.
Sua participação como amicus curiae, amiga da corte,
já é reconhecida em várias cortes latino-americanas. O
caso da Costa Rica, que baniu a medicina reprodutiva

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do país, é outro tema que chamou sua atenção, assim
como o de anencefalia, na Suprema Corte da Argentina.
Como uma das editoras temáticas do perió-
dico médico International Journal of Gynecology and
Obstetrics, Cook aproxima a bioética, o direito, a saúde
sexual e reprodutiva. Nesse periódico, um dos mais im-
portantes da ginecologia e da obstetrícia internacional,
escreve para médicos como jurista. É interessante lê-la
nesse espaço, pois ali talvez esteja expressa uma de suas
maiores qualidades – a de generosidade argumentativa.
Ela é capaz de se manter como rigorosa jurista, mas
sensível à diversidade de sua audiência. Já escreveu
sobre temas tão atuais quanto o aborto, as tecnologias
reprodutivas e a objeção de consciência por médicos,
também explorados na primeira parte da entrevista re-
produzida neste livro.
A conversa com Cook ocorreu em seu ga-
binete, repleto de livros, papéis e fotos perdidas que
contavam instantes de sua carreira dedicada à justiça
de gênero. A primeira entrevista, a mais longa de nos-
sas conversas, perseguiu seus principais temas e obras,
apesar de os neurônios de Cook estarem voltados para
a questão do estereótipo, assunto da segunda parte da
entrevista. Para situar suas ideias, assisti a seu curso
na Universidade de Toronto, ocasião fabulosa para ver
seus livros em ação e seus métodos sendo aplicados nos
casos trazidos pelas alunas. A entrevista foi um diálogo
enriquecido por trechos de decisões, na melhor tradição
das leituras de casos para elucidar as questões teóricas
que explorávamos. Após transcrita e editada, a entrevista
foi revista por Cook, que ainda a refinou com detalhes,
lembranças e um final gentil, para registrar o momento
histórico em que o Brasil é chefiado por uma mulher.

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Referências

COOK, Rebecca e CUSACK, Simone. Gender stereo-


typing: transnational legal perspectives. Filadélfia:
University of Pennsylvania Press, 2010.
­­——; DICKENS, Bernard; e FATHALLA, Mahmoud.
Saúde reprodutiva e direitos humanos: integrando
medicina, ética e direito. Rio de Janeiro: Oxford/
Cepia, 2004.

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Entrevista* 1

Direito, saúde e reprodução

Debora Diniz (DD) – Como jurista feminista,


você não se restringe a aplicar as leis de maneira es-
tratégica para garantir a igualdade para as mulheres,
mas a pensar o direito. Por isso, iniciarei esta entrevista
com uma pergunta ousada: como o direito pode ser
utilizado para promover a igualdade para as mulheres?
Rebecca Cook (RC) – O direito tem muitos
propósitos, e há diversas visões sobre eles. Um desses
propósitos é que o direito é uma forma de estruturar o
mundo. Ele cria estruturas normativas e valores com
os quais vivemos. É frequentemente usado para manter
valores, preservar as regras que nos orientam. Também
pode ser utilizado para mudar essas normas, para redis-
tribuir poder e recursos.
O direito tem sido usado para alcançar a justiça
de gênero; ele transforma as estruturas econômicas em
alguns países, garantindo que as mulheres sejam remu-
neradas igualmente aos homens, por exemplo, ou que te-
nham acesso a cuidados específicos às suas necessidades
de saúde. A justiça de gênero aborda os diferentes tipos
de dano que as mulheres sofrem. Costumo me basear no

*
Uma versão reduzida desta entrevista foi publicada em
2011, na Revista Estudos Feministas, v. 19, n. 2.

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trabalho de Nancy Fraser para explicar isso.1 Ela explica2

que os danos podem ser entendidos em termos de sua


negação de dignidade individual e valor (os efeitos de
reconhecimento) e de sua negação da alocação justa de
bens públicos (os efeitos de distribuição).

DD – Você pode dar alguns exemplos de


justiça por reconhecimento e por distribuição em que
o direito foi útil para as mulheres?
RC – No sistema de saúde, o direito tem sido
usado para garantir que as mulheres sejam tratadas
como igualmente capazes de tomar decisões médicas
e morais. Os tribunais têm reconhecido os efeitos de
negação de dignidade – os efeitos de reconhecimento
– de exigir que as mulheres obtenham autorização de
seus maridos para acessar cuidados de saúde. Conse-
quentemente, os tribunais, em muitos países, cancelaram
as exigências de autorização do cônjuge para habilitar
as mulheres a tomarem suas próprias decisões sobre
seus cuidados de saúde.
O direito também tem sido usado para garantir
que as mulheres tenham acesso a recursos de saúde. O
Tribunal Constitucional do Chile, por exemplo, ampliou
as provisões constitucionais do país sobre igualdade
sexual para rejeitar uma política de saúde privada que
impunha taxas mais altas para as mulheres do que para
os homens. O tribunal explicou que essas taxas mais altas
dificultavam o acesso das mulheres a cuidados de saúde,
negando a elas, portanto, acesso igual ao dos homens.

1
Há várias publicações de Nancy Fraser traduzidas para a
língua portuguesa. Na biblioteca virtual Scielo, há artigos
centrais a respeito do modelo de justiça fraseriano (nota
da entrevistadora).

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Nesse exemplo, o direito foi utilizado para compensar
os efeitos de distribuição de taxas mais elevadas para
mulheres. Para a vida pública, os tribunais determinaram
que as mulheres não podiam ser impedidas de servir a
júris e parlamentos e tornar-se membros das profissões
jurídicas e médicas. Uma vez que elas participem mais
igualmente da vida pública, poder e recursos ficam
distribuídos de maneira mais igual.

DD – Como o direito de não discriminação


sexual tem sido aplicado para demandas de justiça
distributiva para as mulheres?
RC – De muitas formas e em muitos países.
Recentemente, a Corte Interamericana de Direitos Huma-
nos aplicou o direito de não discriminação sexual para
responsabilizar o Paraguai por não oferecer os serviços de
saúde necessários para uma mulher indígena, a Sra. Ruíz,
sobreviver ao parto.2 Ela morreu no parto porque não
3

recebeu atenção médica adequada. Consequentemente, a


corte decidiu que o Estado paraguaio violou o direito dela
à vida e o de exercer aquele direito, sem discriminação,
da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Essa
violação aconteceu porque o governo não tomou as me-
didas positivas necessárias para prevenir riscos ao direito
à vida da Sra. Ruíz. Agora, o Paraguai está obrigado a
estabelecer políticas de saúde adequadas para prevenir
a mortalidade materna, como oferecer atendimento por
meio de pessoal treinado para lidar com cuidados antes,
durante e depois do parto. A corte também exigiu que

2
Corte Interamericana de Direitos Humanos. Xákmok Kásek
indigenous community v. Paraguay. Merits, reparations and
costs. Julgamento de 24 de agosto de 2010, série C, n. 214.

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o país siga os passos necessários para a documentação
adequada de mortes maternas.

DD – Você diria que essa decisão sobre o


Paraguai é histórica?
RC – Sim, eu diria que essa decisão é histó-
rica, pois é a primeira vez que uma corte determina que
um Estado é obrigado a adotar medidas positivas para
prevenir a morte de uma mulher no parto.

DD – A recente notificação do Brasil pelo


Comitê para a Eliminação da Discriminação contra as
Mulheres é também um caso histórico. Alyne da Silva
Pimentel estava grávida de seis meses quando morreu,
em 2001. Sua história trágica é um exemplo de morte
materna evitável: ela não recebeu tratamento médico
adequado e faleceu após peregrinar por hospitais e pos-
tos de saúde. O caso foi levado ao comitê por um grupo
de organizações feministas. O que esse caso significa?
RC – Esse é um caso histórico para o Bra-
sil e as mulheres do mundo que estão sob o risco de
morrer durante a gravidez e o parto. O comitê afirmou
que negligenciar cuidados de saúde de que apenas as
mulheres precisam é uma forma de discriminá-las. Ele
poderia aplicar esse princípio às evidências do proces-
so de Alyne da Silva Pimentel, a fim de exigir que o
Estado ofereça os recursos necessários para que cada
mulher no Brasil sobreviva à gravidez e ao parto. Essa
decisão também agregaria sentido à provisão constitu-
cional brasileira, que exige a proteção da maternidade.
O governo brasileiro teria de garantir, por exemplo, a
disponibilidade de medicamentos apropriados, como
misoprostol, para prevenir a hemorragia (sangramento

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excessivo) no parto e no pós-parto, que é a maior causa
de mortalidade materna.

DD – Esses casos do Paraguai e do Brasil


nos mostram que algumas decisões judiciais têm o poder
de alterar o curso interpretativo sobre alguns direitos.
RC – Acho que as decisões judiciais são im-
portantes porque são fóruns em que os direitos humanos
podem ser articulados, como o das mulheres de serem
livres de todas as formas de discriminação. Os tribunais
aplicam tais direitos, por exemplo, para exigir que os
Estados corrijam suas violações, de modo a garantir
que as mulheres vivam com segurança a gravidez e o
parto. As decisões judiciais também contam poderosas
histórias reais sobre como as sociedades e os governos
negligenciam mulheres como a Sra. Ruíz e Alyne da
Silva Pimentel. As decisões judiciais não são o começo
nem o fim, mas são parte de um longo processo a fim de
redistribuir poder e recursos para, por exemplo, reduzir
a mortalidade materna.

DD – Nesse movimento de uso do direito para


a garantia da vida das mulheres, qual seria o papel do
direito penal?
RC – Historicamente, ele tem sido usado
para controlar a moralidade ou deter alguns dos piores
crimes, como o estupro e o assassinato. Está agora se
distanciando de um de seus usos históricos, o de con-
trolar a moralidade. O caso conhecido como KL versus
Peru serve de exemplo. KL ficou grávida aos 17 anos,
e descobriu-se que seu feto era anencéfalo; não tinha a
parte superior do cérebro. Um ginecologista e obstetra
do Hospital Nacional Arcebispo Loayza escreveu que

25

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a continuação da gravidez impunha um risco à vida de
KL. Recomendou o aborto, que a lei peruana autoriza
nesse caso e que KL e a mãe dela consentiram. Porém,
seguindo suas crenças religiosas, o diretor do hospital se
recusou a autorizar o aborto. O hospital exigiu que KL
desse à luz e amamentasse um bebê que, previsivelmente,
morreu quatro dias após o nascimento. Ela sofreu uma
depressão profunda, que uma análise psiquiátrica cons-
tatou ter tido grave impacto sobre seu desenvolvimento
e sua saúde mental.
KL moveu uma ação tendo como base o
Protocolo Opcional do Pacto Internacional dos Direitos
Civis Políticos. O Peru tinha ratificado tal protocolo,
permitindo a seus cidadãos processá-lo perante o Co-
mitê de Direitos Humanos caso as soluções domésticas
fossem ineficazes para que qualquer sujeito exercesse
seus direitos. O comitê analisou a conduta do Estado de
acordo com as provisões do pacto e considerou que o
Peru tinha violado o direito de KL de estar livre de tra-
tamento cruel, desumano ou degradante. Esse tratamento
consistiu no fato de o diretor do hospital ignorar o risco
de morte, expresso na carta do ginecologista e obstetra
do hospital, e obrigar KL a suportar o estresse de ver as
deformidades grosseiras de seu bebê e de amamentá-lo
sabendo que ele logo morreria. Outra violação conside-
rada foi a interferência arbitrária e ilícita no direito de
privacidade de KL. Essa interferência se refere ao fato
de o diretor (de um hospital público) negar a KL um
procedimento ao qual ela legalmente tinha direito, bem
como o seguimento da recomendação do ginecologista.

DD – Então, ao identificar violações ao di-


reito de KL de estar livre de tratamento desumano ou

26

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degradante e de ter privacidade, o Comitê de Direitos
Humanos condenou o Peru por ter permitido que um
servidor público, um diretor de um hospital público,
usasse o direito penal para impor sua moralidade?
RC – Sim, essa é uma forma de caracterizar
essa decisão do Comitê de Direitos Humanos.

DD – Esse caso se aproxima de uma discussão


ética importante e atual na América Latina, em parti-
cular na Cidade do México, após a descriminalização
do aborto em 2008, ou na Colômbia, após a decisão
da Suprema Corte em 2006. Os profissionais de saúde
têm direito à objeção de consciência, isto é, em nome
de suas crenças privadas, podem recusar o atendimento
de saúde às mulheres?3 4

RC – Os profissionais de saúde têm direito à


sua própria consciência, mas esse não é um direito ilimi-
tado. Apenas aqueles que estão participando diretamente
do procedimento podem invocar o direito de consciência.
A lei colombiana, por exemplo, permite que eles façam
objeção, com base em argumentos religiosos, à partici-
pação em procedimentos aos quais se oponham, como
fertilização in vitro, aborto e esterilização contraceptiva.
A Suprema Corte da Colômbia esclareceu que apenas os
que participam diretamente dos procedimentos podem
invocar esse direito e não participar. Aqueles não envolvi-
dos diretamente no procedimento, como administradores
de hospitais, não podem invocar suas crenças religiosas
para se recusar a exercer suas funções.4 5

3
Para uma discussão sobre objeção de consciência no
Brasil, ver Diniz (2011).
4
Tribunal Constitucional da Colômbia. Decisão T-209,
de 2008.

27

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DD – Mas essa não é uma questão restrita ao
aborto. Temos casos recentes nos Estados Unidos, por
exemplo, em que farmacêuticos se negaram a entregar
medicamentos prescritos por médicos para mulheres,
como foi o caso da pílula do dia seguinte. Esses pro-
fissionais não só não entregaram o medicamento, como
retiveram a receita. Essa me parece ser uma questão em
que os temas da religião e da medicina se cruzam com
muita intensidade. Como os tribunais a têm enfrentado?
RC – Debates sobre as restrições ao acesso
das mulheres a serviços de saúde com base em crenças
religiosas e morais, e não científicas, têm crescido. Eles
abordam, por exemplo, se a contracepção de emergência,
também chamada de pílula do dia seguinte, deve ser
disponibilizada. Embora não seja contestado o direito
dos indivíduos de ter suas crenças religiosas, para as
associações de profissionais a questão é se essas crenças
devem ditar o escopo legal do oferecimento de cuidados
em saúde. A maioria dos tribunais considera arbitrárias
as decisões de ministérios da Saúde e de agências de
aprovação de medicamentos terapêuticos, se elas forem
inapropriadamente motivadas por fatores que não a
evidência científica de segurança. A arbitrariedade na
tomada de decisões constitui um abuso de autoridade e
uma violação da lei. Quando as políticas públicas dos
países fundamentam suas decisões em vieses religiosos
ou políticos, estão ilicitamente ignorando seu dever de
proteger a saúde pública e de ter razões baseadas em
evidências para suas decisões.123

1
2

3
28

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DD – E como os tribunais têm usado a ciência
na área de saúde reprodutiva?
RC – Essa é uma questão fascinante. Talvez
4

uma forma de responder a ela seja contrastar duas deci-


sões sobre a distribuição de contracepção de emergência,
uma do Reino Unido e outra da Argentina.5,6 Em 2000,
uma norma do Reino Unido reclassificou a contracepção
de emergência para permitir o acesso sem prescrição.
Essa reclassificação gerou grande debate médico, legal
e público sobre se a contracepção de emergência era
um medicamento abortivo quando usada para prevenir a
implantação de um óvulo fertilizado. A Sociedade para
a Proteção de Crianças não Nascidas moveu uma ação
judicial para proibir o acesso sem prescrição. Requeria
uma determinação judicial de que a contracepção de
emergência era abortiva, devendo, portanto, estar sujeita
à legislação britânica sobre aborto. A lei permite o aborto
em casos específicos e sob a avaliação de dois médicos.
O juiz rejeitou o argumento da Sociedade. Ele explicou:

A palavra ‘aborto’ [na legislação britânica sobre


aborto] hoje significa o término de uma gravidez
já estabelecida, e não há gravidez estabelecida
anteriormente à implantação. O entendimento
médico atual do que significa ‘aborto’ exclui re-
sultados gerados por pílula, minipílula ou pílula
do dia seguinte. Por consequência, uma vez que
4

5
Tribunal Superior Administrativo da Inglaterra. Smeaton
v. Secretary of State for Health [2002] 2 Family Law
Reports 146.
6
Suprema Corte da Argentina. Portal de Belen – Asociación
sin Fines de Lucro c/ Ministerio de Salud y Acción Social
de la Nación s/ amparo, 5 de março de 2002. Recurso de
Amparo, p. 709, XXXVI.

29

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a pílula do dia seguinte é usada antes mesmo do
início do processo de implantação e que não se
pode desimplantar um óvulo, ela não pode, como
matéria de lei, causar um ‘aborto’.

DD – Então, o juiz disse que a gravidez,


para os propósitos da lei, começaria na implantação?
RC – Sim. Ao determinar que o pensamento
médico atual entende que a gravidez começa na im-
plantação, e não na fertilização, o juiz rejeitou o racio-
cínio baseado na “teofisiologia”, que um crítico havia
condenado como uma vergonha para a jurisprudência.
Segundo o juiz, a questão de quando uma vida humana
é iniciada, como matéria moral, é diferente da de quando
a gravidez começa para os propósitos da lei.

DD – O que o juiz fez foi separar “lei” de


“moralidade religiosa”.
RC – Isso. O juiz afirmou claramente que “a
questão que tenho que decidir não é se a venda e o uso
da pílula do dia seguinte são moral ou religiosamente
certos ou errados. O que tenho que determinar é se isso
pode constituir uma infração [criminal]”.

DD – E a decisão judicial na Argentina?


RC – Em contraste com a decisão britânica,
a Suprema Corte da Argentina proibiu o uso da contra-
cepção de emergência ao oferecer total proteção legal
ao óvulo fertilizado antes da implantação, fundamen-
tando seu raciocínio em doutrinas religiosas expressas
na Constituição que afirmam que a vida começa na
concepção. Ao mesmo tempo, a corte não considerou

30

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os direitos das mulheres argentinas, também protegidas
pela mesma Constituição.

DD – Mas, voltando ao direito penal, um


campo do direito tradicionalmente utilizado para con-
trolar o corpo das mulheres: você acha que os esforços
argumentativos de usar o direito penal para controlar
a moralidade vão continuar?
RC – Essas tentativas vão continuar. Porém,
deve-se apontar que, nos lugares onde as decisões
judiciais não se baseiam em evidências de avaliações
médicas predominantes e no conhecimento do impacto
de tais decisões na saúde e nos direitos das mulheres,
os tribunais perderão legitimidade, respeito público e
influência.
Durante muito tempo, as sociedades fizeram
da reprodução e da gravidez lugares de opressão às
mulheres. As sociedades punem as mulheres por sua
sexualidade e, ao fazê-lo, privilegiam a dos homens. A
forma como a lei controla a reprodução e a intimidade
sexual é muita injusta com as mulheres. Não exigimos
que os homens usem seus corpos contra sua vontade.
Em contraste, ao negar às mulheres o aborto, nós as
forçamos a usar seus corpos contra sua vontade. Isso é
o que aconteceu com KL.

DD – O que significa “não exigimos que os


homens usem seus corpos contra sua vontade”?
RC – Os homens não podem ser forçados
a dar seu sangue para uma criança. Tenho certeza de
que a maioria dos homens daria seu sangue volunta-
riamente para ajudar seus filhos, mas a lei não pode
forçá-los a fazê-lo.

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DD – Então, seria injusto descrever o aborto
como um conflito de direitos?
RC – Acho que, se você quer enquadrar dessa
forma, seria. Garantir o direito à vida a embriões desde
o momento da concepção é injusto com as mulheres.
Esse mesmo enquadramento dos direitos é muito pre-
judicial aos interesses delas, não apenas em termos de
seu direito de experimentar a gravidez e o parto com
segurança, mas também de seus direitos de forma geral
na sociedade.

DD – O debate sobre o aborto está reduzido


a um falso dilema moral na maioria dos países da Amé-
rica Latina: os direitos das mulheres versus os direitos
do feto. Você disse que as mulheres têm direitos, mas
a vida pré-natal tem interesses, não direitos.
RC – Uso o termo “direitos” em seu sentido
legal. Toda pessoa, ao nascer, tem direitos que precisam
ser protegidos. Em contraste, o Estado tem interesses
em proteger a vida pré-natal. A vida pré-natal é um
valor social muito importante. Tem de ser protegida
coerentemente com os direitos das mulheres.

DD – A maioria das Constituições tem pro-


visões sobre o direito à vida. Algumas dessas provisões
protegem a vida que está prestes a nascer ou a protegem
desde a concepção. Como essas provisões podem ser
aplicadas coerentemente com as obrigações constitu-
cionais de proteger os direitos das mulheres à vida, à
liberdade e à igualdade?
RC – Formas de proteger a vida pré-natal
de modo consistente com os direitos das mulheres in-
cluem uma nutrição melhor durante a gravidez, como

32

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a ingestão de suplementos de ácido fólico. A proteção
da vida pré-natal coerentemente com os direitos das
mulheres também pode exigir a redução da mortalidade
materna, geralmente associada à morte do feto ou da
criança logo após a morte da mãe. A quantidade anual
de mortes maternas de mulheres grávidas no mundo é
estimada atualmente em 358 mil. Outras medidas para
proteger a vida pré-natal coerentemente com os direitos
das mulheres incluem:

a) diminuição das mortes perinatais, estimadas


em 5,9 milhões por ano no mundo (mortes de feto ou
recém-nascido prematuro que ocorrem ao final da gra-
videz – a partir da 22a semana de gestação –, durante o
nascimento da criança ou até sete dias de vida);
b) diminuição dos abortos, inclusive os de
repetição, de gravidezes desejadas;
c) medidas para lidar com condições so-
cioeconômicas e socioculturais subjacentes, como
redução de vulnerabilidades econômicas e sociais de
mulheres grávidas – inclusive violência de parceiros
íntimos contra mulheres grávidas –, que geralmente
resultam em aborto.

DD – Que leis exigem a proteção da vida


pré-natal coerentemente com os direitos das mulheres?
RC – O Estatuto Espanhol sobre Saúde Sexual
e Reprodutiva e Interrupção Voluntária da Gravidez, de
2010, exige a proteção da vida pré-natal coerentemente
com os direitos das mulheres. A nova lei espanhola
requer que o Estado informe as mulheres com gravidez
não desejada sobre assistência caso escolham se tornar

33

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mães. Também requer que as mulheres reflitam por algum
tempo sobre a decisão de abortar ou não.

DD – E de volta aos tribunais: o que disseram


sobre a proteção da vida pré-natal coerentemente com
os direitos das mulheres?
RC – Em 2010, o Tribunal Constitucional
de Portugal acolheu a constitucionalidade da reforma
de 2007 da lei de aborto.7 Essa reforma permite que
uma mulher decida terminar a gravidez durante as pri-
meiras dez semanas de gestação, desde que passe por
aconselhamento e um período de reflexão de três dias.
O tribunal explicou que o não nascido não é detentor
de direitos na provisão de direito à vida da Constituição
portuguesa. Esclareceu ainda que ele deve ser protegido
como um valor objetivo. Proteger a vida pré-natal como
um valor objetivo pode até exigir que o Estado garanta
mais recursos para reduzir mortes perinatais.

DD – O Tribunal Constitucional da Colômbia,


na decisão sobre aborto de 2006, enfrentou a questão
de proteger a vida pré-natal coerentemente com os
direitos das mulheres?
RC – Enfrentou. Esse tribunal declarou in-
constitucional a proibição criminal de todos os abortos.8
Ao fazê-lo, reconheceu o valor constitucional da vida,
inclusive a fetal. Distinguiu o valor da vida e o alegado
direito legal à vida. Determinou que o direito legal à vida
é limitado a um ser humano nascido, ao passo que o

7
Tribunal Constitucional de Portugal. Acórdão n. 75/2010,
de 23 de outubro de 2010.
8
Tribunal Constitucional da Colômbia. Decisão C-355/06,
de 2006.

34

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valor constitucional da vida pode ser protegido antes do
nascimento do feto. Segundo o tribunal, o Estado pode
proteger a vida pré-natal, mas deve fazê-lo apenas de
modo compatível com os direitos das mulheres: “O direito
de uma mulher à dignidade proíbe seu tratamento como
mero instrumento de reprodução. Seu consentimento é
essencial à decisão fundamental de mudança de vida de
dar à luz uma pessoa”.

Estereótipos de gênero

DD – O que levou você e Simone Cusack a


escreverem um livro sobre estereótipos, questão aparen-
temente mais da sociologia do que do direito?
RC – Houve várias motivações. Uma delas
foi a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas
de Discriminação contra Mulheres (também conhecida
como Convenção das Mulheres). Seu artigo 5A requer
que os Estados-membros tomem todas as medidas apro-
priadas para modificar os padrões sociais e culturais de
conduta de homens e mulheres com o intuito de eliminar
preconceitos em todas as práticas, habituais ou não,
baseadas na ideia de inferioridade ou superioridade de
um dos sexos ou em papéis estereotipados para homens
e mulheres. Esse é um artigo fascinante da Convenção
– o primeiro do tipo na legislação internacional em
direitos humanos. Exige que os Estados eliminem as
práticas sociais de gênero que subordinem as mulheres.
Simone e eu queríamos descobrir como essa provisão
estava sendo aplicada e explorar como podia ser aplicada
mais eficientemente.
Outra motivação foi examinar como estereó-
tipos de gênero agem em diferentes setores para negar

35

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benefícios e impor ônus às mulheres. Minha coautora,
Simone Cusack, estava trabalhando no tema de como
estereótipos negam às mulheres o acesso à justiça
corretiva, particularmente àquelas que tinham sido sub-
metidas a violência. Eu já vinha trabalhando em como
estereótipos embutidos em políticas e práticas de saúde
inibiam o acesso das mulheres a cuidados em saúde.
Nós nos unimos para explorar como as generalizações
sobre os papéis e as capacidades das mulheres podem
ser comuns entre os diferentes setores.

DD – O que são estereótipos e o que é es-


tereotipar?
RC – O termo “estereótipo” vem do grego.
Stereo significa sólido; e tipo, molde. Foi usado pela
primeira vez por um técnico francês para descrever o
processo de impressão no qual um molde feito de metal
era usado para duplicar o material original. Estereótipo
se refere a uma visão generalizada ou a um pré-conceito
sobre as capacidades ou os papéis dos membros de um
grupo, o que torna desnecessária a consideração das
capacidades de um membro em particular.
O termo “estereotipar” indica o processo
de atribuir a um indivíduo características e papéis
específicos em razão do pertencimento daquela pessoa
a determinado grupo. Então, estereotipar é tratar uma
pessoa como um molde, ignorando sua singularidade.
No estereótipo de gênero, são ignoradas as necessida-
des individuais das mulheres, tratadas de acordo com
a categoria mulher.

36

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DD – Você disse no livro que estereotipar
é parte da natureza humana. Se é parte da natureza
humana, como isso pode ser mudado?
RC – Talvez a mudança possa vir pelo
melhor entendimento de nossas próprias motivações
para estereotipar. No livro, nos baseamos no trabalho
de Anthony Appiah para explicar que se estereotipa
para maximizar a simplicidade e a previsibilidade,
atribuir a diferença e compor identidades. Para tanto,
nos inspiramos em generalizações para destilar a com-
plexidade. Muitas políticas públicas são baseadas em
generalidades, porque o sistema administrativo não tem
a capacidade de administrar cada indivíduo com base em
suas necessidades. Então, por exemplo, categorizamos
as pessoas por idade. As leis permitem que se casem
apenas depois de atingirem certa idade, ignorando o
fato de que alguns adolescentes podem ter maturidade
para se casar antes.
Ao estereotipar para marcar a diferença,
rotulamos as pessoas de forma que não tenhamos de
levar um tempo para reconhecê-las como tais. Falsa-
mente atribuímos uma característica ou um papel a
um indivíduo por causa do pertencimento dele a um
grupo em particular. Então, por exemplo, hierarquias
masculinas em instituições religiosas rotulam as mu-
lheres como incapazes de liderança moral sem que se
considere que uma mulher poderia ser bastante elegível
à liderança espiritual.
Também estereotipamos para compor identi-
dades, prescrever papéis e comportamentos nos quais
esperamos que homens e mulheres se enquadrem.
Compomos identidades ao prescrever como os indiví-
duos devem se comportar em razão do pertencimento

37

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a determinado grupo. Todas as sociedades têm códigos
de modéstia, castidade e obediência para as mulheres.
Quando estas não seguem esses códigos, são frequen-
temente estereotipadas de modo hostil.

DD – No livro, vocês definem grandes tipos


de estereótipo. Quais são eles?
RC – Exploramos quatro formas de estereótipo
de gênero: de sexo, sexual, de papel sexual e composto.
Estereótipos de sexo são generalizações sobre
as capacidades físicas, emocionais e intelectuais de
mulheres e homens. Por exemplo, o estereótipo de que
os homens são mais fortes do que as mulheres. Mas há
mulheres mais fortes do que homens. Frequentemente,
estereótipos de sexo sobre as capacidades físicas das
mulheres impedem a consideração de mulheres mais
fortes para empregos que requerem força física. Pouco a
pouco, os tribunais estão começando a desmontar esses
estereótipos ao permitir que mulheres apropriadamente
qualificadas se candidatem a empregos tradicionalmen-
te reservados para homens, como o de bombeiros ou
pilotos de avião.
Já os estereótipos sexuais são generalizações
sobre a sexualidade de mulheres e homens. O estereótipo
das mulheres como promíscuas é frequentemente usado
para degradá-las. No livro, analisamos uma decisão
do Tribunal Constitucional da África do Sul sobre a
criminalização do trabalho sexual. O caso Jordan foi
aberto para descriminalizar o trabalho sexual na África
do Sul.9 Os autores da ação pensavam que a crimina-

9
Tribunal Constitucional da África do Sul. Jordan v. S.
(6) SA 642. 2002.

38

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lização do trabalho sexual era injusta para as mulheres
porque são majoritariamente mulheres os profissionais
do sexo. Argumentaram que a construção do crime de
prostituição envolvendo apenas o profissional do sexo
(geralmente uma mulher), e não o cliente (frequente-
mente um homem), discriminava as mulheres. A maior
parte do tribunal rejeitou essa afirmação e manteve a
criminalização do profissional do sexo, e não do cliente.

DD – Houve algum voto dissidente?


RC – Sim, acho que os juízes dissidentes
entenderam a questão corretamente. Explicaram que a
caracterização legal das profissionais do sexo como as
infratoras primárias perpetuava o estereótipo sexual das
mulheres como maliciosas, em violação ao princípio da
igualdade.

DD – Há ainda dois grandes tipos de estere-


ótipo – os de papéis sexuais e os compostos.
RC – Estereótipos de papéis sexuais são
generalizações sobre os papéis e comportamentos apro-
priados para mulheres e homens. Exemplos comuns são
as generalizações de que as mulheres devem ser mães,
donas de casa e cuidadoras, e de que os homens devem
ser provedores de alimento.
No livro, discutimos o caso Leves, de New
South Wales, na Austrália, exemplo de como estereótipos
de papéis sexuais inibem o progresso das mulheres.10
Naquele caso, Melinda Leves recebeu a oferta de apenas
um curso optativo, o de economia doméstica, na escola

10
Tribunal de Apelação de New South Wales, Austrália.
Haines v. Leves, 8 NSWLR 442. 1987.

39

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onde estudava, a Canterbury Girls High School. Não lhe
foi oferecido o curso de artes industriais, por exemplo,
que seu irmão havia feito na Canterbury Boys High
School. O tribunal concluiu que era discriminatório basear
o currículo escolar em estereótipos de papéis sexuais
das mulheres como donas de casa e dos homens como
provedores de alimento. Explicou que essas diferenças
curriculares limitariam as escolhas futuras das garotas em
relação a educação, vocações e carreiras. As diferenças
curriculares ofereciam um ponto de partida desigual
e inferior para as escolhas educacionais futuras e as
perspectivas de emprego.
Já os estereótipos compostos são o quarto
tipo que exploramos no livro. O gênero estabelece in-
terseções com outros traços, como raça, classe, origem,
nacionalidade, orientação sexual ou deficiência, para criar
estereótipos compostos que impedem a eliminação de
todas as formas de discriminação. Discutimos o caso de
uma mulher lésbica francesa que recorreu ao Tribunal
Europeu de Direitos Humanos para obter a autorização
do Estado para adotar uma criança (Cook e Cusack,
2010).11 Seus traços de mulher solteira e lésbica foram
compostos de tal forma que lhe foi negada a autorização
para adotar. Ela foi submetida ao falso estereótipo de
que as lésbicas não podem ser boas mães. Se ela fosse
uma mulher solteira e heterossexual, poderia ter sido
autorizada a adotar uma criança.

DD – Há outras formas de estereótipo de


gênero?

11
Tribunal Europeu de Direitos Humanos. E.B. v. France.
Appl. n. 43546/02, 22 de janeiro de 2008.

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RC – Espero que, com o tempo, sejam identi-
ficadas outras formas, as quais continuarão a enriquecer
o entendimento de como as práticas sociais de gênero
subordinam as mulheres.

DD – Vocês têm duas preocupações nesse


livro: uma é teórica; a outra, metodológica. De um
lado, apresentam casos diferentes e provam que os
estereótipos trazem consequências perversas para as
mulheres, deixando-as em desvantagem. De outro, ofe-
recem um enquadramento que permite ao leitor fazer
estudos em seus países, em suas realidades, usando essa
metodologia. Estou certa?
RC – Está. Simone Cusack estava muito
segura de que queria que o livro incluísse um capítulo
sobre a metodologia da nomeação. Nomear é um instru-
mento para revelar um dano que passaria despercebido
e identificar como ele prejudica as pessoas. No livro,
usamos a analogia do diagnóstico médico. Você não pode
tratar uma doença sem diagnosticá-la. Similarmente ao
estereótipo, você primeiro tem de nomeá-la, identificar
suas formas e explorar seus danos. Uma vez nomeado o
estereótipo, as sociedades podem começar a tratá-lo ou
mesmo erradicá-lo. Por isso, o capítulo sobre nomeação
é tão importante.

DD – O livro trata de estereótipos de gênero,


mas explora muito mais estereótipos de mulheres do
que de homens.
RC – Sim, o livro focaliza os estereótipos
de mulheres.

41

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DD – Isso não se deu por ser um fato em-
pírico os tribunais focalizarem mais os estereótipos de
mulheres do que de homens?
RC – Os tribunais não necessariamente fo-
calizam mais os estereótipos de mulheres do que de
homens. Estes são frequentemente estereotipados em
seu detrimento. Como resultado, têm movido várias
ações, particularmente nos lugares onde lhes é negada
a licença para assistência à família.
Em determinado caso, um homem requereu
prestações familiares para ficar em casa cuidando de
seu filho pequeno porque sua mulher havia morrido.12
Pela lei, se um homem tivesse morrido e deixado a
mulher e os filhos, ela teria direito a prestações fami-
liares. Nesse caso, o homem ganhou a ação perante a
Suprema Corte dos Estados Unidos. Significativamente,
a Suprema Corte abordou os estereótipos de homens
como provedores de alimento e de mulheres como
donas de casa. A corte explicou que era chegada a
hora de desmanchar esses estereótipos porque resultam
em discriminação contra os homens.
Em outro caso, um estudante queria ficar em
casa para cuidar de seu filho e estudar.13 Solicitou ao
Estado as prestações para assistência à família a que
sua esposa teria tido direito caso tivesse ficado em casa
para cuidar da criança. Sua esposa desejava continuar
trabalhando, pois já tinha finalizado os estudos. Nes-
se caso, o homem perdeu a ação perante o Tribunal
Europeu de Direitos Humanos. Os juízes dissidentes

12
Suprema Corte dos Estados Unidos. Weinberger v. Wie-
senfeld, 420 U.S. 636. 1975.
13
Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Petrovic v.
Austria, 33 E.H.R.R. 307. 1998.

42

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explicaram que o tribunal, ao negar as prestações fa-
miliares ao homem, estava discriminando-o, já que, se
ele fosse mulher, teria os benefícios garantidos. Ainda
segundo esses juízes, o fundamento nos estereótipos
de papéis sexuais de homens como provedores de ali-
mento os prejudicava porque lhes negava o benefício
da licença para assistência familiar. Além disso, esse
estereótipo de papel sexual também prejudicava a
esposa, pois fortalecia e perpetuava o estereótipo de
mulheres, e não de homens, como cuidadoras.

DD – Quando as cortes começaram a en-


frentar os estereótipos de gênero na América Latina?
RC – Talvez o caso mais importante na
América Latina seja uma ação movida por María Eu-
genia Morales de Sierra contra a Guatemala, no final
dos anos 1990, perante a Comissão Interamericana de
Direitos Humanos.14 Conheci María Eugenia há pouco
tempo numa reunião no Peru e fiquei muito instigada
por ela. O caso dizia respeito a provisões do Código
Civil da Guatemala que definiam papéis conjugais e
responsabilidades no casamento. As provisões impug-
nadas davam aos maridos o poder e a responsabilidade
de sustentar financeiramente o lar, representar publi-
camente a família e administrar a propriedade desta.
Em contraste, essas mesmas provisões obrigavam as
esposas a cuidar das crianças e do lar. Além disso, o
código condicionava o direito das mulheres de assumir
trabalhos remunerados à dispensa de seus papéis como

14
Comissão Interamericana de Direitos Humanos. María
Eugenia Morales de Sierra v. Guatemala, caso 11.625, re-
latório n. 4/00, OEA/Ser.L/V/II.111, doc. 20 rev. 929. 2000.

43

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mães e donas de casa, bem como ao consentimento
de seus maridos.

DD – O que a comissão decidiu?


RC – A comissão decidiu que uma lei que
refletia noções estereotipadas dos papéis das mulheres
e dos homens era uma forma de discriminação das
mulheres que o Estado deveria mudar. Explicou que o
Código Civil da Guatemala subordinava as habilidades
das esposas para agir numa série de situações à vontade
de seus maridos e as privava de suas capacidades legais.

DD – Por que a decisão da Comissão Inte-


ramericana foi tão significativa?
RC – Foi a primeira vez que um tribunal de
direitos humanos nomeou não só o estereótipo de papel
sexual das mulheres como mães e cuidadoras e dos ho-
mens como provedores de alimento, mas também a razão
de isso prejudicá-las. Ao fazê-lo, o tribunal determinou
que estereotipar mulheres casadas enquadrando-as em
papéis específicos ao sexo é uma forma de discriminação
que o Estado fica obrigado a remediar.

DD – Qual é a relação entre estereótipos e


discriminação?
RC – Quando os estereótipos têm o efeito de
negar um benefício ou impor um ônus às mulheres e
não aos homens, como foi o caso do Código Civil da
Guatemala, são uma forma de discriminação.

DD – Todo estereótipo é ruim para as


mulheres?

44

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RC – Há um debate sobre isso. Certamente,
quando os estereótipos impõem ônus ou negam benefí-
cios, são ruins para elas. Mas é importante explicar que
estamos constantemente aprendendo com os psicólogos
sobre a natureza prejudicial do estereótipo e seus efeitos
secundários sobre as pessoas. Então, mesmo quando os
estereótipos não negam um benefício ou impõem um
ônus, ainda podem ser degradantes ou negar a dignidade.

DD – Há bastante interesse na decisão do


caso do Campo Algodoeiro na América Latina. O que
aconteceu naquele caso?
RC – A Corte Interamericana de Direitos
Humanos considerou o México responsável, sob a Con-
venção Americana de Direitos Humanos e a Convenção
sobre a Prevenção, Punição e Erradicação da Violência
contra as Mulheres (a Convenção de Belém do Pará),
pela falha da polícia em investigar os desaparecimentos
e assassinatos de três mulheres imigrantes pobres, duas
das quais eram menores de idade.15 Os corpos dessas
três mulheres, Claudia Ivette Gonzalez, Esmeralda Her-
rera Monreal e Laura Berenice Ramos Monarrez, foram
encontrados em Algodoeiro, um campo de algodão perto
de Juárez, no México.16
A decisão é importante por uma série de
razões. Para começar, foi a primeira vez que a corte
considerou as obrigações positivas do Estado de respon-
der à violência contra mulheres por atores privados. A
corte analisou os assassinatos das três no contexto da
violência massiva contra mulheres e da discriminação

15
Corte Interamericana de Direitos Humanos. Gonzalez et
al. v. México, 16 de novembro de 2009.
16
Sobre esse caso, ver Segato (2005).

45

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estrutural e entendeu que a violência baseada em gênero
constitui discriminação de gênero.

DD – O que a corte decidiu e, o mais im-


portante, como enfrentou os estereótipos?
RC – A corte decidiu que o Estado violou
as obrigações sob a convenção de não discriminar em
conexão com a obrigação de garantir o direito à vida, à
integridade física, mental e moral, a ser livre de trata-
mento desumano ou degradante e o direito a liberdade e
segurança pessoal. Essas múltiplas violações ocorreram
com as três vítimas. Além disso, a corte considerou que
o Estado estava impedindo o acesso do parente mais
próximo de cada vítima à justiça e a um julgamento
justo, bem como a um recurso simples, rápido e efetivo
e a proteções da convenção.
A corte examinou o testemunho das mães
das vítimas para mostrar como os servidores do Estado
tinham criado estereótipos sexuais degradantes dos pa-
péis, dos atributos e das características das vítimas, em
parte para justificar sua negligência das obrigações de
investigar. Citou ainda o testemunho da mãe de Esme-
ralda Herrera: quando ela registrou o desaparecimento
da filha, as autoridades lhe disseram que “ela não tinha
desaparecido, mas estava por aí com os namorados ou
os amigos”, e “que, se alguma coisa tivesse acontecido,
era porque ela tinha procurado, porque uma boa menina,
uma boa mulher, fica em casa”. Relevantemente, a corte
concluiu que “os comentários feitos pelos servidores
de que as vítimas teriam saído com um namorado ou
de que levavam uma vida desonrosa [...] constituem
estereótipos”.

46

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A corte registrou as declarações feitas pelos
servidores para identificar como os estereótipos hostis e
desdenhosos foram perpetuados no contexto do sistema
de justiça criminal:
Tendo em mente as afirmações feitas pelo Estado
[...], a subordinação das mulheres pode ser associa-
da a práticas baseadas em estereótipos de gênero
dominantes socialmente e persistentes, uma situação
exacerbada quando os estereótipos são refletidos,
implícita ou explicitamente, nas políticas e práticas
e, particularmente, no raciocínio e na linguagem
das autoridades policiais judiciais, como nesse caso.

DD – Como a corte relacionou os estereótipos


à violência?
RC – Significativamente, a corte explicou que
“a criação e o uso de estereótipos se tornam uma das
causas e consequências da violência contra mulheres
baseada em gênero”.

DD – Você participou do caso?


RC – Indiretamente... Minha coautora e eu,
com o Centro de Justiça e Direito Internacional, ajui-
zamos um documento como amicus curiae no caso.
Argumentamos que o estereótipo prejudicial de gênero
no sistema de justiça criminal contribuía para a indi-
ferença oficial aos desaparecimentos e assassinatos de
mulheres em Juárez.

DD – Você acha que a decisão terá impacto


para além do México?
RC – A decisão do caso Algodoeiro definiti-
vamente criou uma consciência desse fenômeno bastante

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além do México. Espero que ela promova um entendi-
mento melhor das experiências vividas pelas mulheres,
inclusive dos hostis estereótipos de gênero no Canadá,
por exemplo, onde os desaparecimentos de mulheres
indígenas persistem tragicamente.

DD – Seria demais considerar que a elimi-


nação de estereótipos restritivos de gênero é necessária
para que um país se desenvolva?
RC – Se os países se beneficiarão totalmente
da criatividade e liderança de suas populações femininas,
não precisarão levar a sério a importância de eliminar
os estereótipos restritivos das mulheres. Estes são fre-
quentemente rompidos por indivíduos extraordinários,
como Dilma Rousseff. Como primeira mulher presidenta
do Brasil, ela está quebrando o estereótipo de que as
mulheres são incapazes de liderança.
Se os países querem progredir, têm de fazer
mais do que desmanchar estereótipos de gênero. Têm
de nomear os estereótipos comuns de gênero em cada
setor, criar consciência e entendimento de como eles
inibem as mulheres e implementar estratégias, incluindo
a reforma legal, para eliminá-los.

Referências

COOK, Rebecca e CUSACK, Simone. Gender stereo-


typing: transnational legal perspectives. Filadélfia:
University of Pennsylvania Press, 2010.
DINIZ, Debora. “Objeção de consciência: direitos e deve-
res dos médicos na saúde pública”. Revista de Saúde
Pública, out. 2011, v. 45, n. 5, pp. 981-5.

48

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SEGATO, Rita Laura. “Território, soberania e crimes de
segundo estado: a escritura nos corpos das mulheres
de Ciudad Juárez”. Revista Estudos Feministas, Flo-
rianópolis, ago. 2005, v. 13, n. 2, pp. 265-85. Dispo-
nível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0104-026X2005000200003&lng=en&
nrm=iso (acesso em 11 abr. 2011).

49

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Estereótipos sexuais na
justiça brasileira
Ela Wiecko V. de Castilho* 1

A entrevista de Rebecca Cook nos convida


a olhar para dentro e ao redor de nós,
a fim de identificar e compreender os estereótipos que
servem para categorizar, opor e desigualar mulheres e
homens. Neste breve comentário, apresento resultados
de pesquisas realizadas no âmbito da justiça criminal
brasileira que revelam julgamentos baseados em estere-
ótipos. São focalizados processos de estupro, homicídio
e lesão corporal.
Em pesquisa pioneira, publicada em 1983,
Mariza Corrêa analisou um conjunto de processos
judiciais de homicídios passionais praticados por ho-
mens contra mulheres, no período de 1952 a 1972,
na cidade de Campinas. Observou que as estratégias

*
Graduada em Direito e em Língua e Literatura Francesas,
especialista em Direito Público, mestra em Direito Público e
doutora em Direito. É professora da Universidade de Brasí-
lia (UnB), subprocuradora-geral da República do Ministério
Público Federal, vice-presidente regional da Associação
Internacional de Direito Penal e pesquisadora do Instituto
de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis). Tem ex-
periência na área de direito, com ênfase em direito público.

51

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da acusação e da defesa operavam numa lógica de
oposição de estereótipos. Se a acusação qualificava a
vítima como “mulher honesta”, “boa mãe”, “dona de
casa perfeita”, o homem não era “honesto”, “bom pai”
ou “esposo dedicado”. De seu lado, a defesa afirmava
que a vítima tinha “vida irregular”, “não cuidava dos
filhos nem da casa”. Quanto ao homem, “não bebia”,
era “bom pai” e “provia todas as necessidades da casa”.
A autora concluiu que a responsabilidade do crime era
julgada a partir do ajustamento do acusado e da vítima
ao papel socialmente atribuído a eles como cônjuges, e
não a partir da conduta praticada. Embora distintos, os
estereótipos compartilham uma mesma moral sexual.
Em 1987, Danielle Ardaillon e Guita De-
bert publicaram trabalho na mesma linha, que buscou
analisar a lógica dos julgamentos em processos de
espancamento, estupro e assassinato de mulheres
ocorridos, entre 1981 e 1986, em seis capitais brasi-
leiras. Observaram que, nos casos de espancamento
e assassinato, a estratégia da defesa não procurava
negar a existência do crime, mas atenuar a culpa.
Nos de estupro, era discutida fundamentalmente a (in)
existência do crime a partir de uma “luta entre defesa
e acusação no sentido de ver, em primeiro lugar, se
acusado e vítima se encaixa[va]m nos estereótipos dos
protagonistas de um estupro” (p. 27). Se presentes os
estereótipos, ficava caracterizado o estupro, este era
objeto de punição severa. Entretanto, na avaliação das
autoras, “a condenação do crime de estupro não parece
liberar a mulher da discriminação, nem garantir seus
direitos de cidadã. Pelo contrário, ela tende a aprisionar
todas as mulheres a um estereótipo único: a expressão
do recato e do pudor” (p. 34).

52

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Nos casos de espancamento, que corresponde
aos crimes de lesão corporal leve, grave ou gravíssima,
o sistema criminal também opera com estereótipos sobre
comportamentos e relações consideradas normais entre
homens e mulheres. Assim é que se assiste “ao julga-
mento do papel do homem nessa esfera (doméstica), e
não propriamente à avaliação da agressão cometida”
(p. 53). O que se julga é a adequação do acusado ao
estereótipo de bom provedor do lar. Perceberam as
autoras dificuldade maior na punição e, quando esta
ocorre, “a tendência é aplicar a pena mínima estipulada
na lei” (p. 54).
Nos casos de homicídio, foram identificadas
duas lógicas. A primeira, mais frequente, “não julga o
crime propriamente dito, mas faz uma avaliação da vida
da vítima e do acusado na tentativa de mostrar a ade-
quação de cada um deles ao que se imagina que deveria
ser o comportamento correto de um marido e de uma
esposa” (pp. 63-4). Ou seja, trata-se da mesma lógica
identificada nos estupros e espancamentos. A segunda,
menos frequente e mais recente, exige a punição do
crime com base no direito à vida.
Na mesma época, Wânia Pasinato Izumino
(2004) fez um estudo de 83 processos – relativos a lesões
corporais e homicídios praticados por homens contra
mulheres – que tramitaram entre 1984 e 1989 em vara
criminal e tribunal do júri, no fórum regional de Santo
Amaro, na cidade de São Paulo. Na conclusão, a autora
reafirmou a assertiva de Ardaillon e Debert (1987) de que
as decisões judiciais buscam adequar vítimas e agressores
“aos modelos de comportamento socialmente determi-
nados, sem que haja qualquer crítica a esses modelos”
(2004, p. 268). Todavia, ela percebeu uma “mudança de

53

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interpretação” do modelo decorrente de transformações
sociais e econômicas que levaram as mulheres a entrar
no mercado de trabalho. Assim, avaliou que as decisões
judiciais aparentemente dependem da “postura das vítimas
ao denunciarem as agressões à polícia, e dela dependem
também as possibilidades de criminalização do conflito
de gênero” (p. 271). Entre os casos de homicídio, não foi
identificado o uso pela defesa do argumento da legítima
defesa da honra, mas de argumentos semelhantes, na
medida em que “se colocam em debate os motivos dos
crimes e as circunstâncias em que eles ocorreram”, inclu-
sive “questões relativas ao comportamento do homem e
da mulher e sua adequação aos papéis sociais” (p. 272).
Note-se que, ao analisar decisões judiciais em
processos de guarda de filhos menores, pensão alimentí-
cia, uso do nome do marido e outros de direito de família,
no período de 1970 a 1990, Silvia Pimentel, Beatriz di
Giorgi e Flávia Piovesan também verificaram que “o
Poder Judiciário projeta a imagem da mulher, por vezes
atribuindo-lhes a qualidade de recato e dependência,
por vezes rompendo com essa concepção estereotipada,
reconhecendo sua independência e realizando a efetiva
igualdade entre os gêneros” (1993, p. 19).
Voltando ao âmbito criminal, registre-se ainda
o projeto desenvolvido por Silvia Pimentel, Ana Lúcia
Schritzmeyer e Valéria Pandjiarjian, que procurou revelar
nos discursos presentes em 101 processos judiciais em
cinco regiões brasileiras, entre 1985 e 1994, “a maior ou
menor incidência de estereótipos sociais na influência dos
julgamentos condenatórios e absolutórios em crimes de
estupro” (1998, p. 27). As autoras concluíram que “réus
e vítimas têm os comportamentos referentes à sua vida
pregressa julgados durante o processo, em conformidade

54

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com os papéis tradicionalmente determinados a homens
e a mulheres” (p. 203).
Para Pimentel, Schritzmeyer e Pandjiarjian,
apesar de não haver previsão legal, “há uma exigência
de que as vítimas se enquadrem no conceito jurídico de
‘mulher honesta’” (p. 203). Especialmente em se tratan-
do de adultas, prevalece o julgamento da honestidade e
moralidade da mulher sobre “a análise e o julgamento
do ato em si” (p. 204). A vítima precisa provar que não
concorreu para a ocorrência do fato. Num dos casos
analisados, de incesto, em que o pai foi absolvido, as
autoras ressaltam que o “silêncio respeitoso em relação
à sexualidade do pai é manifestação inequívoca da acei-
tação de papéis socialmente diferenciados para homens
e mulheres. Para os homens, total liberdade e, para as
mulheres, contenção e pudicícia” (p. 106).
Nos homicídios praticados por homens contra
mulheres em decorrência de suposta ou real infidelidade
delas, ou de rompimento da relação amorosa, a utilização
do argumento da “legítima defesa da honra” foi objeto
de pesquisa de Silvia Pimentel, Valéria Pandjiarjian
e Juliana Belloque (2006). Esse é um argumento que
mistura “ao direito a moral patriarcal [...], no sentido
da proteção do casamento e da família patriarcal em
detrimento das pessoas que a integram; de defesa da
moral social e pelo ato adúltero da mulher, que vitimi-
zaria não só o cônjuge ou companheiro traído, como o
próprio Estado” (pp. 131-2).
No Brasil, o argumento da legítima defesa da
honra não constitui hipótese legal de exclusão do crime
de homicídio, nem a honra conjugal ou da família é um
atributo pessoal do homem. Mas essa tese, mesmo mino-

55

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ritária, continuou a ser invocada, às vezes com sucesso,
em todas as regiões do país nessas duas últimas décadas.
Por último, mencionemos os estudos realizados
no âmbito do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a
Mulher (Nepem), da Universidade de Brasília (UnB), em
que foram analisados acórdãos em processos relativos
a estupro, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e
Territórios, no período de 1964 a 1997. Juliana Capra
Maia (2000) registra que há dois caminhos lógicos de
interpretação do mesmo fato ilícito: dar ou não relevân-
cia ao comportamento social e sexual da mulher. No
primeiro, o julgador considera importantes os costumes
sociais. No segundo, a liberdade na escolha de quando
e com quem manter relações sexuais.
No tema do tráfico de pessoas para explo-
ração sexual, a análise de um conjunto de 23 decisões
judiciais revelou

a subsistência da concepção da mulher como sexo


frágil, e do seu papel tradicional no contexto
familiar. É inadmissível nessa concepção que a
mulher exerça a prostituição por livre e espontânea
vontade. Mas, ao mesmo tempo, não há grande
preocupação com essa mulher que se viu compelida
a prostituir-se. Seu comportamento inclusive serve
para reprovar com menos rigor a conduta da pessoa
acusada (Castilho, 2008, p. 121).

Outros crimes submetidos ao sistema criminal,


como o infanticídio, o aborto e o adultério, já merece-
ram ou estão a merecer análise visando identificar os
estereótipos em que se baseiam as decisões.

56

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O crescente encarceramento feminino tem
provocado estudos sobre as características discrimina-
tórias na execução das penas privativas de liberdade,
bem como na criminalização acentuada de mulheres
por tráfico de drogas. A explicação mais comum é de
que o aumento do encarceramento feminino resulta da
entrada de mulheres no mercado de trabalho, avaliada
como sinal da igualdade de oportunidades para ambos
os sexos. Mas não se aprofunda a reflexão acerca das
razões pelas quais as condições do encarceramento são
piores do que as dos homens. Talvez o estereótipo do
papel do sexo da mulher forneça uma explicação.
As mulheres, mesmo que disputem postos de
trabalho com os homens no mercado formal e informal,
continuam sendo vistas como mães e reprodutoras dos
valores da família. Quando praticam crimes, especial-
mente de tráfico de drogas, o castigo é mais duro, e
a interpretação da lei, mais severa. Se ficam grávidas,
paradoxalmente, não recebem o cuidado devido. Há casos
em que dão à luz algemadas. Após o parto, as crianças
são retiradas de seu convívio.2 Esse paradoxo, presente
na maioria das sociedades, é ressaltado por Rebecca
Cook. A mulher-mãe é posta num pedestal, mas pouco
se faz para assegurar gravidez e parto seguros.
Os estudos citados foram realizados na vigên-
cia de normas expressamente discriminatórias contra a
mulher, como a que extinguia a punibilidade do estupro
pelo casamento da ofendida com terceiro ou que quali-
ficava o crime de estupro como contrário aos costumes.

2
Situação alterada com o advento da lei n. 11.942, de 28
de maio de 2009 (Brasil, 2009).

57

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Como se viu, identificou-se, a partir dos anos
1980, uma tendência de crítica ao julgamento com base
em padrões de comportamento sexual. É necessário ainda
analisar a conduta da justiça criminal após a entrada
em vigor da Lei Maria da Penha e das várias leis que
alteraram o Código Penal de 1940, principalmente no
título relativo à tutela dos costumes.
A Lei Maria da Penha, n. 11.340, de 2006,
em seu artigo 8o, inciso III, inclui entre as diretrizes da
política pública que visa coibir a violência doméstica e
familiar contra a mulher “o respeito, nos meios de co-
municação social, dos valores éticos e sociais da pessoa
e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados
que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e
familiar”. No entanto, ainda é muito forte na interpretação
dada pelo Judiciário a lógica de julgamentos baseados
em estereótipos sexuais e dos papéis sociais atribuídos
a homens e a mulheres. Vai nesse sentido a decisão do
Superior Tribunal de Justiça que declarou que a ação
penal por lesões corporais leves no contexto de violência
doméstica ou familiar contra a mulher é condicionada
a representação. Igualmente, a decisão de um juiz que
denominou a Lei Maria da Penha de “diabólica” e
afirmou que “a desgraça humana começou no Éden
por causa da mulher. Todos nós sabemos, mas também
em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade
emocional do homem. O mundo é masculino e assim
deve permanecer” (Zero Hora, 7 fev. 2011).
É interessante contrastar o resultado das pes-
quisas no âmbito da justiça criminal com o que ocorre
na do trabalho, na qual está em curso um “processo de
desnaturalização da categoria mulher”, identificado por
pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Plane-

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jamento (Cebrap) em 2009 (Nobre e Rodríguez, 2009,
p. 50). Os pesquisadores explicam que,

tradicionalmente, o espírito da CLT e da legislação


sobre o trabalho da mulher é proteger a mulher
no que diz respeito a: a) duração da jornada de
trabalho; b) trabalho noturno; c) trabalhos perigosos
e insalubres; d) repouso semanal; e) gravidez; f)
maternidade; g) moralidade (p. 50).

Com o advento da Constituição de 1988, “em


vez de proteção, trata-se de proibir a discriminação da
mulher, ou seja, seu tratamento diferenciado, exceto em
casos em que ela se justifique” (p. 51). Na análise dos
julgados, os autores concluem que “qualquer diferen-
ciação que venha a ser criada em favor da mulher em
legislação infraconstitucional deve ser muito bem justi-
ficada para não ser julgada inconstitucional pelo TST”
(p. 51). O estereótipo da mulher como “sexo frágil”
não tem mais espaço no mundo do trabalho e mesmo
o de mulher-mãe é relativizado, como nos casos de
adoção e estabilidade provisória da gestante. Entretanto,
está ausente a “tematização de uma série de problemas
sabidamente graves para a implementação da igualdade
entre homens e mulheres” (p. 51), como a discrimina-
ção salarial e em cargos de chefia. Essa discriminação
decorre de um estereótipo, o da incapacidade da mulher
para decidir e atuar na esfera pública.
Em suma, de um lado, as pesquisas mostram
algumas fissuras nos padrões socioculturais de homens
e mulheres operados pelo sistema judicial. De outro, é
inegável que ainda são mantidos os padrões que funda-
mentam a ideia de superioridade do homem. Por isso,

59

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se metodologicamente a luta antidiscriminatória deve
começar pela discussão do estereótipo, é necessário es-
quadrinhar mais e melhor os estereótipos que presidem
a organização do Judiciário, bem como dos julgamentos.

Referências

ARDAILLON, Danielle e DEBERT, Guita Grin. Quando


a vítima é mulher: análise de julgamentos de crimes de
estupro, espancamento e homicídio. Brasília: Conselho
Nacional dos Direitos da Mulher, 1987.
BRASIL. Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006. Lei Maria
da Penha. Cria mecanismos para coibir a violência do-
méstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o
do artigo 226 da Constituição Federal, da Convenção
sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discrimina-
ção contra as Mulheres e da Convenção Interamericana
para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a
Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Vio-
lência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera
o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei
de Execução Penal; e dá outras providências. Diário
Oficial da União, Brasília, 8 ago. 2006.
——. Presidência da República. Lei n. 11.942, de 28 de
maio de 2009. Dá nova redação aos artigos 14, 83 e
89 da Lei n. 7.210, de 11 de julho de 1984 – Lei de
Execução Penal, para assegurar às mães presas e aos
recém-nascidos condições mínimas de assistência.
Diário Oficial da União, Brasília, 29 mai. 2009.
CASTILHO, Ela Wiecko V. de. “A criminalização do trá-
fico de mulheres: proteção das mulheres ou reforço da
violência de gênero”. Cadernos Pagu, jul.-dez. 2008,
v. 31, pp. 101-23.

60

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CORRÊA, Mariza. Morte em família: representação
jurídica de papéis sociais. São Paulo: Graal, 1983.
IZUMINO, Wânia Pasinato. Justiça e violência contra
a mulher: o papel do sistema judiciário na solução
dos conflitos de gênero. 2 ed. São Paulo: Annablume;
Fapesp, 2004.
JUIZ que chamou Lei Maria da Penha de “diabólica” tenta
voltar ao cargo. Zero Hora, 7 fev. 2011. Disponível em
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp
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MAIA, Juliana Capra. “Mulheres e tribunais: estupro –
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e à justiça. Porto Alegre: Fabris, 1993.
——; SCHRITZMEYER, Ana Lúcia; e PANDJIARJIAN,
Valéria. Estupro: crime ou “cortesia”? Abordagem
sociojurídica de gênero. Porto Alegre: Fabris, 1998.
——; PANDJIARJIAN, Valéria; e BELLOQUE, Juliana.
“Legítima defesa da honra: ilegítima impunidade de
assassinos – um estudo crítico da legislação e juris-
prudência da América Latina”. In CORRÊA, Mariza
e SOUZA, Érica Renata de (orgs.). Vida em família:
uma perspectiva comparativa sobre “crimes de hon-
ra”. Campinas: Núcleo de Estudos de Gênero Pagu;
Unicamp, 2006, pp. 65-134.

61

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Direito e ciência como
instrumentos de controle
da sexualidade das
mulheres
Ana Carolina da Costa e Fonseca* 1

Ao ser indagada por Debora Diniz sobre os


propósitos do direito, Rebecca Cook reconhece que o
mesmo tem muitos. Um deles, seguindo o conceito aris-
totélico de justiça distributiva, consiste na redistribuição
de poderes e bens. Sabendo que tal redistribuição não
se dá de modo neutro, Cook analisa a utilização do
direito como instrumento de controle da sexualidade da
mulher. A linguagem científica, num segundo momento,
é tomada como elemento facilitador do exercício de tal
controle por forjar descrições da realidade que influen-
ciam e subsidiam quem está em posição de decidir a
respeito da vida alheia. Os atores dos poderes Legislativo

*
Doutora, mestra e bacharela em Filosofia, bacharela em
Ciências Jurídicas e Sociais. É professora de Filosofia na
Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de
Porto Alegre (UFCSPA) e de Filosofia do Direito na Facul-
dade de Direito da Fundação Escola Superior do Ministério
Público do Rio Grande do Sul (FMP).

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e Judiciário, respectivamente aqueles que determinam
como devemos agir e aqueles que interpretam tais de-
terminações, utilizam, igualmente, uma linguagem que
tem dupla função: descrever a realidade e permitir que
relações se desenvolvam nela. A análise de tais descri-
ções e atuações se dá pela linguagem. E o processo de
descrição e análise, por ser inevitavelmente mediado
pela linguagem, está, segundo Cook, fadado a não ser
neutro. Preso no círculo da linguagem, o debate sobre
os direitos reprodutivos não exige neutralidade, mas
clareza. Esse comentário mostra como Cook estabelece
uma sutil e profunda relação entre o direito, a linguagem
e o controle da vida sexual e reprodutiva das mulheres,
o que culmina numa detalhada análise de estereótipos.
Estereótipos são casos exemplares de como a linguagem
forja uma descrição da realidade que tem consequências
na esfera jurídica, entre outras.
Para além da avaliação usual das funções
da pena no direito penal, seja como exemplo para que
outros não pratiquem os mesmos atos descritos como
delituosos, seja como punição para aqueles que os rea-
lizam, seja ainda como modo de reeducar e ressocializar
o criminoso, Rebecca Cook entende a pena como forma
de determinar a maneira de agir das pessoas e, por isso,
como modo de estabelecer o controle social. Voltando seu
olhar, nessa entrevista, para questões fundamentalmente
femininas, Cook percebe que a lei penal pune algumas
consequências do sexo ao proibir certas decisões con-
cernentes à vida reprodutiva das mulheres.
A lei civil favorece ou desfavorece a igual-
dade de condições entre homens e mulheres no que se
refere, por exemplo, à saúde e à educação. O uso de
métodos anticoncepcionais, a determinação do momen-

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to em que pode ocorrer a anticoncepção, a forma de
acesso a tais métodos e a informações sobre a própria
sexualidade são, segundo Cook, temas parcamente dis-
cutidos e, quando discutidos, excluem as mulheres e
seus interesses do debate. No que concerne à educação,
a igualdade de acesso ao ensino deve ser garantida e o
conteúdo ensinado deve ser tal que permita a homens e
mulheres disputarem os mesmos postos de trabalho em
iguais condições. No âmbito penal, a criminalização ou
a descriminalização do aborto é um tema muito discu-
tido e superficialmente analisado pelo grande público.
Tanto no âmbito cível quanto no penal, o debate não
pode, segundo Cook, excluir as mulheres, nem deixar
de levar em consideração que homens e mulheres são
biologicamente distintos e que cabe às mulheres a tarefa
mais pesada no processo reprodutivo.
Se no âmbito moral a liberdade sexual e a
manifestação do exercício da liberdade ocuparam espaço
no debate público, no âmbito jurídico a lei penal ainda é
uma forma velada de controle da vida sexual feminina.
Há um esforço para que esse controle se exerça em
nome da proteção da vida do feto, como se não fosse
necessário proteger também a vida das mulheres. E, o
que é mais cruel, medidas que deveriam ser adotadas
para assegurar a vida de fetos desejados não são reco-
nhecidas como igualmente importantes. Ignoram-se os
direitos reprodutivos das mulheres, mesmo quando eles
protegeriam a vida do feto.
Nesse ponto, a discussão se desenvolve em
relação a dois aspectos: a) a legitimidade de se limitarem
os direitos das mulheres, quando contrários aos interes-
ses dos fetos; e b) a adoção de políticas públicas que
podem contribuir para proteger a vida de muitos fetos,

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desde que se assegurem a integridade física e a saúde
das mulheres. No primeiro caso, os interesses dos fetos
só podem ser exercidos se direitos das mulheres forem
negados. No segundo, seria necessário, por exemplo,
garantir condições mínimas de acesso à saúde e de
proteção contra a violência.
Segundo Cook, a vida do embrião e a do
feto devem ser protegidas de modo compatível com os
direitos das mulheres. A ênfase é dada não às situações
em que a proteção implica desrespeito aos direitos das
mulheres, mas às formas como as sociedades poderiam
proteger a vida pré-natal de maneira consistente com
os direitos das mulheres. As questões das mulheres
em debate estão cada vez mais abrangentes, incluindo
diversas formas de violência. Deveria ser assegurado
que os tribunais aplicassem “tais direitos, por exemplo,
para exigir que os Estados corrijam suas violações de
modo a garantir que as mulheres vivam com segurança
a gravidez e o parto”, prevenindo a violência contra
mulheres grávidas, que causa muitos abortos indese-
jados.1 Cook se pergunta por que, para muitos gover-
nos, a morte de fetos é um problema e altas taxas de
mortalidade materna não. O que motiva a parcialidade
na avaliação do que deve ser feito para salvar a vida
de fetos e de mulheres é o fato de que “as sociedades
punem as mulheres por sua sexualidade e, ao fazê-lo,
privilegiam a sexualidade dos homens”.
A fim de que o debate sobre o aborto possa
efetivamente avançar, é preciso que alguns conceitos
sejam esclarecidos. Para isso, Cook distingue os direitos
das mulheres dos interesses dos fetos. Direito, que pode

1
Todas as citações são da entrevista que ora se comenta.

66

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ser exercido em nome próprio ou de outrem, é o que
se atribui aos que nasceram com vida. E isso também
é válido no ordenamento jurídico brasileiro. Os fetos,
porque ainda não nasceram, não têm direitos. Seria pouco
plausível, contudo, dizer que não se pode reconhecer o
interesse dos fetos em viver; afinal, costuma-se presumir
que os seres vivos, dadas algumas condições mínimas,
têm interesse em viver. Sabe-se que os fetos são seres
vivos, apesar da dificuldade em determinar seu estatuto
ontológico, isto é, o tipo de ser vivo que os fetos são.
A linguagem, tradicionalmente um instrumento de con-
fusão entre conceitos, é o que Cook utiliza para trazer
luz ao debate. Atribuir direitos a mulheres e a fetos é
claramente um equívoco jurídico.
Reconhecido que fetos têm interesses, a ques-
tão seguinte se refere à abrangência do respeito a tais
interesses. Cook entende que fetos devem ser respeitados
e protegidos: “Durante muito tempo, as sociedades usa-
ram reprodução e gravidez como lugar de opressão às
mulheres. [...] A vida pré-natal é um valor social muito
importante. Ela tem que ser protegida coerentemente
com os direitos das mulheres”.
Mulheres grávidas devem ter acesso aos
cuidados pré-natais, que incluem atendimento médico
e medicamentos. Além disso, devem ser protegidas da
violência. Muitos fetos morrem ou sofrem más-formações
quando suas mães são agredidas durante a gravidez. Esse,
contudo, é um problema que parece não dizer respeito
àqueles que alegam estar preocupados em reconhecer
direitos aos fetos. Eis a hipocrisia para a qual Cook
chama nossa atenção: os fetos são instrumentos de luta
quando a vitória impõe limites aos direitos reprodutivos
das mulheres, mas a vida dos fetos não é utilizada como

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recurso argumentativo quando se trata de assegurar
direitos relacionados à saúde e à integridade física das
mulheres grávidas.
Há uma dupla perversidade no tratamento
despendido às mulheres: não lhes é garantido o direito
de decidirem se querem levar a cabo a gestação; e,
quando desejam ter o filho que esperam, a saúde e a
integridade física do feto tampouco são asseguradas.
Nos Estados Unidos, a perversidade é mais sutil: caso
desejem abortar, as mulheres necessitam ter condições
financeiras para exercerem esse direito, porque, como
bem lembra Cook, apesar de o aborto ser permitido,
os custos do aborto voluntário não são cobertos pelo
sistema público de saúde. De fato, não há pleno aces-
so ao aborto nos Estados Unidos. E não podemos ter
um direito sem a garantia de acesso a ele. Para além
de legalizar o aborto, é preciso assegurar que todas as
mulheres tenham efetivas condições de abortar, caso
desejem. Limitações econômicas acarretam outra des-
vantagem – ou talvez se deva dizer que boas condições
econômicas trazem vantagens. Como a aplicação da lei
penal se dá de forma territorial, seu uso pode significar
discriminação para os mais pobres, isto é, para aqueles
que não podem sair do país e agir conforme o estabele-
cido em outros ordenamentos jurídicos. Esse é um caso
que deixa clara a distinção entre o reconhecimento de
um direito e o estabelecimento de políticas públicas para
sua efetivação. O direito ao aborto é reconhecido, mas
não é assegurado nos Estados Unidos. Segundo Cook,
o Judiciário pode contribuir para que seja conferida
efetividade aos direitos que dela carecem.
Ainda podemos nos perguntar como, afinal,
esse processo é possível. Seguindo Cook, chamei aten-

68

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ção para o fato de a linguagem não ser neutra. Além
de carecer de neutralidade, ela é usada para a criação
de preconceitos e estereótipos.
Ao utilizar a linguagem para criar o certo
e o errado, o direito se torna uma forma de controle
social. Sabemos que não há como pretender recorrer
à neutralidade para o estabelecimento de regras, nesse
caso, jurídicas. A crença na democracia como forma
justa de organização da sociedade implica a convicção,
equivocada, de que também em relação aos direitos se
deve adotar a moral média, percebida pela opinião da
maioria como a única moral a ser protegida juridicamen-
te. Há vários equívocos nesse tipo de raciocínio. Cook
chama a atenção para a ausência de necessidade de o
direito representar apenas a posição moral da maioria.
Dada a natureza dos direitos sexuais e reprodutivos, é
fundamental que a maioria os compreenda e aja em
conformidade com eles. Contudo, percebe-se que, em
algumas democracias, a maioria vê o direito como a
afirmação de sua moralidade. Engajar a maioria é bom
para que haja diálogo, não para justificar a imposição
de um conjunto de valores morais.
Podem-se conceber sistemas jurídicos em que
valores morais incompatíveis são igualmente protegidos.
E há uma parte de nossos valores morais que deve estar
resguardada do próprio Estado. O direito deve proteger
não apenas valores morais incompatíveis entre si, como
também os seres humanos da ingerência dos poderes do
Estado sobre parte significativa de seus valores morais.
Por isso, segundo Cook, questões acerca de direitos
sexuais e reprodutivos não podem ser decididas pelo
voto da maioria. A lei penal serve para prevenir abusos
e controlar a moralidade, não para impor uma moralida-

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de a todos. Os indivíduos podem pretender impor seus
valores morais aos demais, e o Estado deve atuar de
modo a garantir a pluralidade. A dificuldade reside em
encontrar o equilíbrio entre o respeito pelo diferente e
as atitudes proativas.

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Trajetória profissional

Advogada, doutora e pós-doutora em Direito,


é professora titular em Direitos Humanos Internacionais
da Faculdade de Direito da Universidade de Toronto,
no Canadá, e codiretora do Programa Internacional de
Direitos Sexuais e Reprodutivos em Saúde (International
Programme on Reproductive and Sexual Health Law), da
mesma universidade, onde também leciona na Faculdade
de Medicina e no Centro de Bioética. Lecionou, ainda
nessa universidade, a disciplina Questões Éticas e Legais
em Cuidados em Saúde, entre 1987 e 2000.
É membro da School of Graduate Studies, em
Gestão e Avaliação em Direito e Políticas de Saúde; do
Joint Centre for Bioethics; do conselho consultivo do
Centro para Saúde Internacional (Centre for International
Health), da Faculdade de Medicina da Universidade de
Toronto; do Centro de Pesquisa em Saúde da Mulher
(Centre for Research in Women’s Health); e da Royal
Society of Canada, desde 1999.
Percorreu sua trajetória acadêmica na Barnard
College, Universidade Columbia: A.B. (Bachelor of
Arts) (1970); Tufts University, Fletcher School of Law
and Diplomacy: M.A. (Master of Arts) (1972); Harvard
University, Kennedy School of Government: M.P.A.
(Master of Public Administration) (1973); Georgetown
University Law Center: J.D. (Juris Doctor) (1982);

71

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Washington, D.C. Bar: Attorney (1983); e Columbia
University, School of Law: J.S.D. (Doctor of Juridical
Sciences) (1994) e L.M. (Master of Laws) (1998).
Foi reconhecida por sua contribuição exemplar
para a promoção da saúde da mulher com prêmio con-
cedido pela Federação Internacional de Ginecologistas
e Obstetras (International Federation of Gynecologists
and Obstetricians), do Canadá, em 1997. Recebeu ainda
o prêmio Ludwik and Estelle Memorial Human Rights,
da Universidade de Toronto, em 1998.
Foi professora-assistente de Saúde Pública
Clínica (1983-1987) na Escola de Saúde Pública, Divisão
de Saúde da Família e População, da Universidade de
Colúmbia; advogada do Development Law and Policy
Program; delegada e cofundadora do International
Women’s Rights Action Watch; e sócia do escritório
de advocacia Beveridge, Fairbanks and Diamond, em
Washington (1980).
Foi pesquisadora no Congresso Americano, em
Washington, D.C. (1978-1980), e diretora do Programa
de Direito da Federação Internacional de Planejamento
Familiar (International Planned Parenthood Federation),
em Londres, no Reino Unido (1973-1978).
Foi pesquisadora do Fundo de População das
Nações Unidas, em Nova York (1973); do Population
Council, em Nova York (1972); do Woodrow Wilson
International Centre, do Smithsonian Institute, em
Washington, D.C. (1970-1971); da Lester Pearson
Commission, do Banco Mundial, em Washington, D.C.
(1969); e do Carnegie Endowment for International
Peace, em Washington, D.C. (1966).

72

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Principais trabalhos

Livros

2010 (com S. Cusack) (org.). Gender stereotyping:


transnational legal perspectives. Filadélfia,
PA: University of Pennsylvania Press.
2007 (com C. Ngwena) (org.). Health and human
rights. Aldershot, Reino Unido: Ashgate.
(International Library of Medicine, Ethics and
Law Series.)
2006 (com L. M. Kelly). Polygyny and Canada’s
obligations under International Human Rights
Law. Ottawa: Department of Justice of Canada.
2004 (com B. M. Dickens e M. F. Fathalla). Repro-
ductive health and human rights: integrating
medicine, ethics and law. Oxford: Oxford
University Press.
2001 (com B. M. Dickens, A. Wilson e S. Scarrow).
Advancing safe motherhood through human
rights. World Health Organization.
2000 (com B. M. Dickens). Considerations for
formulating reproductive health laws: a dis-
cussion paper. 2 ed. rev. e atual. World Health
Organization.
1996 (com S. Jejeebhoy, A. Mundigo, L. Adeokun,
S. Correa e M. Danguilan). The Ford

73

Pensamento Contemporaneo 7.indd 73 25/4/2012 14:34:32


Foundation’s reproductive health and popula-
tion program: a five year review. Nova York:
Ford Foundation.
1995 The elimination of sexual apartheid: prospects
for the Fourth World Conference on Women.
Washington, D.C.: American Society of In-
ternational Law.
1994 (org.). Human rights of women: national and
international perspectives. Filadélfia, PA:
University of Pennsylvania Press.
1994 Women’s health and human rights. World
Health Organization. (Revisado e atualizado a
partir de Human rights in relation to women’s
health: promotion and protection of women’s
health through International Human Rights
Law. World Health Organization, 1993.)
1986 (com B. M. Dickens). Issues in reproductive
health law in the commonwealth. Londres:
Commonwealth Secretariat.
1983 (com B. M. Dickens). Emerging issues in
commonwealth abortion laws, 1982. Londres:
Commonwealth Secretariat.
1982 (com S. B. Schearer e J. Strand). Contracep-
tives and drug regulation: an international
perspective. Seattle: Program for the Intro-
duction and Adaptation of Contraceptive
Technology.
1979 (com P. Senanayake) (org.). The human
problem of abortion: the medical and legal
dimensions. Londres: International Planned
Parenthood Federation.
1979 (com B. M. Dickens). Abortion laws in
commonwealth countries. World Health Or-

74

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ganization. (Revisado e atualizado a partir de
“A survey of abortion laws in commonwealth
countries”. Three studies of abortion laws in
the commonwealth. Londres: Commonwealth
Secretariat, 1977.)
1974 (com E. Bergman, D. N. Carter et al.) (org.).
Population policy making in the American
states. Boston, MA: D.C. Health. (Politics
and Population Series.)

Artigos em periódicos e capítulos de livros

2010 (com B. M. Dickens e S. A. Cusack). “Une-


thical female stereotyping in reproductive
health”. International Journal of Gynecology
and Obstetrics, v. 109, pp. 255-8.
2010 (com B. M. Dickens). “Special commentary
on the issue of reinfibulation”. International
Journal of Gynecology and Obstetrics, v. 109,
pp. 97-9.
2009 (com B. M. Dickens). “Hymen reconstruction:
ethical and legal issues”. International Journal
of Gynecology and Obstetrics, v. 107, pp.
266-9.
2009 (com B. M. Dickens). “Dilemmas in intimate
partner violence”. International Journal of
Gynecology and Obstetrics, v. 106, pp. 72-5.
2009 (com B. M. Dickens). “From reproductive
choice to reproductive justice”. International
Journal of Gynecology and Obstetrics, v. 106,
pp. 249-52.
2009 (com M. Arango Olaya e B. M. Dickens).
“Healthcare responsibilities and conscientious

75

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objection”. International Journal of Gynecolo-
gy and Obstetrics, v. 104, pp. 249-52.
2009 “Transparency in the delivery of lawful abor-
tion services”. Canadian Medical Association
Journal, v. 180, n. 3, pp. 272-3.
2009 (com S. Cusack). “Combating discrimination
based on sex and gender”. In C. Krause e
M. Scheinin (orgs.). International protection
of human rights: a textbook. Turku: Institute
for Human Rights, Abo Akademi University,
pp. 206-26.
2009 (com V. Undurraga). “Constitutional incor-
poration of international and comparative
human rights law: the Colombian Constitu-
tional Court decision C-355/2006”. In S. H.
Williams (org.). Constituting equality: gender
equality and comparative constitutional law.
Cambridge: Cambridge University Press, pp.
215-47.
2008 (com B. M. Dickens). “Multiple pregnancy:
legal and ethical issues”. International Journal
of Gynecology and Obstetrics, v. 103, pp.
270-4.
2008 (com J. N. Erdman). “Sexual & reproductive
health: reproductive rights”. In H. K. Heg-
genhougen e S. Quah (orgs.). International
encyclopedia of public health. Amsterdã:
Elsevier, pp. 532-8.
2008 (com J. N. Erdman, M. Hevia e B. M. Dickens).
“Prenatal management of anencephaly”.
International Journal of Gynecology and
Obstetrics, v. 102, pp. 304-8.

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2008 (com C. G. Ngwena). “Editorial to the sym-
posium edition on HIV/Aids, pregnancy, and
reproductive autonomy”. Developing World
Bioethics, v. 8, n. 1, pp. iii-vi.
2008 “Ethical concerns in female genital cutting”.
African Journal of Reproductive Health, v.
12, n. 1, pp. 7-11.
2007 (com J. N. Erdman e B. M. Dickens). “Achieving
transparency in implementing abortion laws”.
International Journal of Gynecology and
Obstetrics, v. 99, pp. 157-61.
2007 (com B. M. Dickens). “The introduction of
reversible sterilization”. International Journal
of Gynecology and Obstetrics, v. 99, pp. 1-3.
2007 (com B. M. Dickens). “Reproductive health
and public health ethics”. International Jour-
nal of Gynecology and Obstetrics, v. 99, pp.
75-9.
2007 (com J. N. Erdman e B. M. Dickens). “Respecting
adolescents’ confidentiality and reproductive
and sexual choices”. International Journal of
Gynecology and Obstetrics, v. 98, pp. 182-7.
2007 (com B. M. Dickens). “Acquiring human
embryos for stem-cell research”. International
Journal of Gynecology and Obstetrics, v. 96,
pp. 67-71.
2007 (com S. Howard). “Accommodating women’s
differences under the women’s anti-discrimi-
nation convention”. Emory Law Journal, v.
56, pp. 1039-91.
2007 “Foreword to excerpts of the Constitutional
Court’s ruling that liberalized abortion in

77

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Colombia”. Madri: Women’s Link Worldwide,
pp. 5-11.
2006 (com J. N. Erdman). “Women’s rights to repro-
ductive and sexual health in a global context”.
Journal of Obstetricians and Gynecologists of
Canada, v. 28, n. 11, pp. 991-7.
2006 (com A. Ortega-Ortiz, S. Romans e L. E.
Ross). “Legal abortion for mental health indi-
cations”. International Journal of Gynecology
and Obstetrics, v. 95, pp. 185-90.
2006 (com C. G. Ngwena). “Women’s access to
healthcare: the legal framework”. In D. Shaw
(org.). “World report on women’s health,
women’s right to health and the millennium
development goals”. International Journal of
Gynecology and Obstetrics, v. 94, pp. 216-25.
2006 (com B. M. Dickens). “The growing abuse
of conscientious objection”. Virtual Mentor:
Ethics Journal of the American Medical
Association, v. 8, n. 5, pp. 337-40.
2006 (com B. M. Dickens). “Legal and ethical issues
in telemedicine and robotics”. International
Journal of Gynecology and Obstetrics, v. 94,
pp. 73-8.
2006 (com B. M. Dickens e J. N. Erdman). “Emer-
gency contraception, abortion and evidence-ba-
sed law”. International Journal of Gynecology
and Obstetrics, v. 93, pp. 191-7.
2006 (com B. M. Dickens). “Conflict of interest:
legal and ethical aspects”. International Jour-
nal of Gynecology and Obstetrics, v. 92, pp.
192-7.

78

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2006 “Abortion, human rights and the International
Conference on Population and Development
(ICPD)”. In I. K. Warriner e I. H. Shah (orgs.).
Preventing unsafe abortion and its consequen-
ces: priorities for research and action. Nova
York: Guttmacher Institute, pp. 15-33.
2006 (com J. N. Erdman). “Protecting fairness in
women’s health: the case of emergency contra-
ception”. In C. M. Flood (org.). Just medicare:
what’s in, what’s out, who decides. Toronto:
University of Toronto Press, pp. 137-67.
2005 (com B. M. Dickens e S. Thapa). “Caring
for victims of sexual abuse”. International
Journal of Gynecology and Obstetrics, v. 91,
pp. 194-9.
2005 (com B. M. Dickens, G. I. Serour e R. Z. Qiu).
“Sex selection: treating different cases diffe-
rently”. International Journal of Gynecology
and Obstetrics, v. 90, pp. 171-7.
2005 (com B. M. Dickens). “Adolescents and con-
sent to treatment”. International Journal of
Gynecology and Obstetrics, v. 89, pp. 179-84.
2005 (com C. Ngwena). “Rights concerning health”.
In D. Brand e C. H. Heyns (orgs.). Socio-
-economic rights in South Africa. Pretória:
Pretoria University Law Press, pp. 107-51.
2005 (com S. Cusack). “Women’s rights”. In R. K.
M. Smith e C. Van Den Anker (orgs.). The
essentials of human rights. Londres: Hodder
Arnold, pp. 366-9.
2004 “Exploring fairness in health care reform”.
Journal for Juridical Science, v. 29, n. 3, pp.
1-27.

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2004 (com B. M. Dickens e S. Syed). “Obste-
tric fistula: the challenge to human rights”.
International Journal of Gynecology and
Obstetrics, v. 87, pp. 72-7.
2004 (com B. M. Dickens). “Adolescents’
reproductive health care”. Entre Nous:
the World Health Organization/ European
Regional Magazine for Reproductive and
Sexual Health, v. 58, pp. 13-5.
2004 (com B. M. Dickens e M. Horga). “Safe
abortion: WHO technical and policy guidan-
ce”. International Journal of Gynecology and
Obstetrics, v. 86, pp. 78-84.
2004 (com B. M. Dickens). “Dimensions of
informed consent to treatment”. International
Journal of Gynecology and Obstetrics, v. 85,
pp. 309-14.
2004 (com M. B. Galli Bevilacqua). “Invoking
human rights to reduce maternal deaths”. The
Lancet, v. 363, n. 9.402, p. 73.
2003 “Celebrating Vishaka: judicial enforcement of
women’s human rights”. In S. P. Sathe e S.
Narayan (orgs.). Liberty, equality and justice:
struggles for a new social order. Lucknow,
Índia: Eastern Book Company, pp. 325-44.
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