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© 2018 by Fernanda Young


© desta edição 2018, Casa da Palavra/LeYa



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É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora e da autora.
Editoras responsáveis
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Gerente editorial
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Produção editorial
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Revisão
Maria Clara Antonio Jeronimo

Capa e projeto gráfico


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Diagramação
Anderson Junqueira

Tratamento de imagens
Anderson Junqueira
Trio Studio

Tratamento das imagens de capa


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Editora Casa da Palavra
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20030-070 – Rio de Janeiro – RJ
www.leya.com.br



DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Young, Fernanda
Pós-F. : para além do masculino e do feminino / Fernanda Young. – Rio de Janeiro : LeYa, 2018.
ISBN: 978-85-441-0716-4

1. Feminismo - Ensaios I. Título

CDD 305.42
18-0426

Índices para catálogo sistemático:


1. Feminismo - Ensaios
“De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os
obstáculos para uma mulher e não para um homem? Por dentro, penso eu, a
questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos
preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até
que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem um fantasma que
precise matar, sem uma rocha que precise enfrentar.”

— Virginia Woolf
Prefácio

CAPÍTULO 1
Até que ponto podemos ser livres?

CAPÍTULO 2
Eu não admitia o feminino
CAPÍTULO 3
Por que você não experimenta seu corpo antes?

CAPÍTULO 4
A sexualidade da mulher é linda

CAPÍTULO 5
Tudo agora é assédio

CAPÍTULO 6
Uma mulher, para ser boa mãe, precisa proteger o seu indivíduo

CAPÍTULO 7
Acho que me mato a ter que ser dona de casa

CAPÍTULO 8
Desejos para um mundo Pós-F.
PREFÁCIO
Não sou especialista em nada. Melhor, não sou especialista de coisa pronta.
Procuro me aprimorar em mim, entendendo sobre mim – usando, é claro, tudo
que observo nos outros.

ão sou especialista em nada. Melhor, não sou especialista de coisa pronta.


Procuro me aprimorar em mim, entendendo sobre mim – usando, é claro,
N tudo que observo nos outros. E, com um otimismo ainda juvenil, tento
fazer algo novo. Mesmo que reconheça nisso uma certa ingenuidade. E creio que
ser ingênuo, depois de uma certa idade, cai mal. No entanto, esse é um impulso
inevitável; se desisto dele, eu me tornaria enfadonha para mim mesma.
Nunca quis ser uma “entendedora” desse ou outro autor, filósofo, artista. Eu
os usufruo, todos, com liberdade. Convivo como uma igual e não como
discípula. Tenho sido bastante obstinada em compreender a mim mesma e o
mundo em que habito. Não me importam os que insistem em me acusar de
egocêntrica. Na verdade, até me divirto, visto que é uma observação tão óbvia e,
nem só por isso, de uma burrice infinita. Há anos venho dizendo que a burrice é
uma deficiência de caráter. A ignorância, sua irmã univitelina, é ainda mais
sonsa, já que ignorar é uma espécie de egoísmo que justifica a brutalidade do
ato. “Eu não sabia, então não fiz nada.”
O que tenho tentado fazer é vasculhar internamente meus ânimos; encarar,
com medo mas obstinadamente, os corredores mais escuros da minha alma,
criando um diagrama, sempre inexato e anárquico, de todos os acontecimentos
que vivi, para oferecer essas experiências e conclusões em forma de arte. Se
consigo realizar ou não a minha intenção? Não. Depois de tantos anos insistindo,
de maneira quase maníaca, em defender não a minha opinião, mas o meu direito
de tê-la – e tendo me utilizado de tantas estruturas para compartilhá-la –, ainda
me impressiona ter de me explicar. Pior, constrange-me isso ainda ser necessário.
Em minha arte, parece que devo anexar uma bula, uma espécie de pedido de
desculpas, somente pela coragem de ser essa que faz o que quer, da maneira que
quer, e paga um preço altíssimo por não se dobrar. Mesmo que inúmeras vezes
eu mude de ideia, porque, é lógico, estou aprendendo e desaprendendo, como
todos.
Em momento nenhum achei estar absolutamente certa. Mas, quando estou
criando, sou possuída por uma enorme segurança, visto que, se não fosse assim,
eu nada teria feito. Lembro que, quando deixei o programa Saia Justa, fiz a
minha despedida com um discurso de formatura. Formei-me em “digo e
desdigo”. Naquela época, fui muito agredida porque nunca estive nem um pouco
interessada em parecer interessante, citando autores e máximas coletivas.
Achava que deveria partilhar a minha liberdade, inclusive a de falar merda –
coisa para a qual tenho uma técnica, e afeto. Eu sou livre! Não tenho rótulos, não
tenho dono, não tenho patrão, não tenho nada que me impeça de mandar todo
mundo se foder, caso eu queira. E às vezes acontece, porque devo me proteger.
Mulheres como eu incomodam muito. Não pela beleza, inteligência, posses,
amores, mas porque não devem nada a ninguém. Por isso falo e faço o que
quiser. Saiba, você, que agora está lendo este prefácio, que preferia não ter de
escrevê-lo, pois ele acaba me levando para esse lugar, em que devo, mais uma
vez, me explicar. Mas saiba também, querido(a) leitor(a), que ser livre é algo
bastante trabalhoso. Não raro noto o ódio, a inveja, o nojo que causo, porque
estou pouco me lixando para o que os outros pensam sobre mim – se estou
agradando ou não, se tenho bons modos ou não, se pareço culta ou não, esperta
ou não, engraçada ou não. Eu apenas decidi, ainda bem cedo, que, já que eu era
estranha, geniosa e nada adorável, deveria ser assim. Tinha medo, sim. Medo por
ser “diferente”; mas essa diferença não foi sequer uma escolha, nem algo que eu
deva defender.
Então, fui ficando arredia, defensiva e atenta, mas iria ser o que eu quisesse.
E ainda criança detectei o que queria mais do que tudo: ser livre. Livre da
opinião dos outros, do que a sociedade iria pensar, do que um marido iria exigir,
da opressão de ter que fingir amar a vida doméstica – odeio –, de ter que ir a
reunião de pais, de condomínio, de ser obrigada a votar, de não poder xingar,
trepar, errar, beber. Livre de qualquer coisa que me tirasse de mim. E esse sonho
se realizou. Pode ter certeza que, de onde eu vim, ser livre era tão improvável
quanto ser astronauta da Nasa.
Quando fui convidada pela Editora LeYa para escrever sobre o feminismo,
primeiramente seria para a coleção “Politicamente Incorreto”. Logo notei que
esse selo seria inapropriado, porque também quero estar livre desse
“diagnóstico”. Não gosto de rótulos, apesar de reconhecer que a minha liberdade
inspira, e não gosto de imaginar que seja somente às mulheres. Durante muito
tempo evitei o termo feminista e, caia para trás, se o assumo agora é com um
certo constrangimento. Porque me parece ser o “ismo” da moda. E acho muito
sério o assunto, para depois o deixarmos cair no esquecimento, quando o
empoderamento deixar de ser a palavra da vez. Palavra, essa, com que implico,
porque a acho cafona e reduzida. Aceitei o convite da LeYa, entenda, porque foi
me dada total liberdade. Tanto que o título Pós-F. contém uma ironia; poderia
ser também “Pós-FY”. Afinal, falo como entendo ser uma mulher, no mundo
atual, vivendo como uma, que não faz parte de nenhuma maioria, mas que vai
com integridade e vigor nesse caminho contrário ao da fogueira. Sinto o cheiro
do fogo, já estive perto dele muitas vezes, somente por ter sonhado e insistido. E,
pasme, ter dado certo.
Há, nesta obra, inúmeras conversas que tive com Eugênia Vieira, minha
editora pela quarta vez seguida. Fragmentos de entrevistas, roteiros, crônicas. A
opção por essa estrutura se deu justamente para fugir ao tom acadêmico,
recheado de legítimas citações de pensadoras feministas. Com respeito e
gratidão, poderia enumerar uma lista enorme dessas pensadoras que me trouxe
até aqui. Mas como comecei este prefácio, termino: não me interessa ser
especialista no que já foi feito. Acho que todos devemos ler essas libertárias e
concluir sobre o feminismo; não cabe a mim uma análise sobre essa ou outra
autora. Mesmo porque o feminismo não foi feito somente por escritoras,
intelectuais. Ele tem sido recriado por todas que, nos seus ofícios, se negaram a
se especializar em agradar.
Por fim, ofereço este livro à minha filha Cecília Madonna. Não por algum
motivo especial, mas porque ela pediu. Agradeço também a minha outra filha,
Estela May, que, certa feita, disse que eu deveria, sim, me assumir feminista,
mesmo entendendo que poder não ser nada me deixa mais livre. No entanto, sei
que é importante estar atenta e forte, porque muitas mulheres ainda necessitam
de ajuda. E eu o farei, da forma que quero, posso e sei.
No meu braço esquerdo tenho tatuado o verso de Madonna: “Do you know
what it feels like in this world for a girl?” (Você sabe como se sente uma garota
neste mundo?) Essa é a pergunta que ecoa desde que a tatuei, há muitos anos. Eu
sei como me sinto. E, aqui, conto um pouco.

n ão vou aguentar.
Não, não vou aguentar
mais. Essa vontade de despir-me inteira
e mostrar aquilo que fará de mim apedrejável.
Então vou. Vou. Terei de aguentar.
Sofrer quietinha. Sofrer quietinha.
Deixar para lá essa ideia
de que o amor é o meu ofício.
De que o meu verso é imprescindível
e de que somente os homens podem amar assim,
tantas vezes e sem pudores.
Sim. Isso. Somente os homens são poetas.
Livres. Metafísicos. Sem compromissos.
Eu sou mulher. Punida sempre. Vagabunda.
Indecente.
Vou. Vou aguentar. Pois o que pulsa é
a língua portuguesa. Não a carne vermelha
– também língua – que guardo entre as pernas.
Nem essa, mais molhada, dentro da boca.
Não. A maldição veio com os grandes
navegadores: carrapatos, impetigos,
escorbutos e piolhos. Saudades. Paixão.
Saliva. Poesia.
A culpa não é sua, nem minha.
Mas serei eu a que irá arder nas chamas,
porque bruxos não existem.
O que há no mundo das paixões e erros
são putas. Putas. Putas. Putas. Sou uma puta.

Serei eu quem morrerá primeiro.


ATÉ QUE PONTO PODEMOS SER
LIVRES?
É inevitável que eu esteja mais atenta ao sexo feminino, por ser mulher, por ser
mãe de três mulheres e por entender que sim, que a mulher pode ser machucada.
Acredito que, por ser mais bonita e mais tátil, ela pode ser manipulada de
maneira indigesta com mais facilidade. Mas, sem sombra de dúvidas, há um
desconforto quando você exclui o homem desses riscos, só porque ele é homem.

enho, ultimamente, duvidado do discurso feminista. Quem nunca foi


sexista? Uma mulher rejeitando o gênero masculino, assim como somos
T (ou fomos) rejeitadas? Nós mulheres somos muito mais inteligentes e
sabemos usar muito bem as nossas fragilidades quando elas nos interessam.
Pessoalmente, não me sinto nem um pouco desrespeitada, não nos meus
relacionamentos com homens. Mas devo deixar claro que nem sempre foi assim.
Já fui muito machucada. De tal forma que me sinto, ainda hoje, constrangida em
contar. Já sofri grosserias efetivas, que causaram grandes estragos na minha vida.
Algumas são grosserias assexuadas: ser vilmente traída, covardemente deixada
etc. Creio que são condições sine qua non no aprendizado amoroso, passar por
experiências adversas do ideal romântico, aquele em que nos apaixonamos pela
pessoa certa, não vivemos nenhuma frustração e somos felizes para sempre.
Cometi algumas violências no jogo amoroso: disse baixarias, humilhei, fui
tóxica e, por que não reconhecer, até abusiva. O amor é mesmo uma trilha
minada. Nele sobressaem qualidades e defeitos dos que ousam pisar seu
território. Mas esses lapsos de bom senso, estética e elegância não perfazem um
monstro. E, infelizmente, por imaturidade, fui exposta a monstruosidades.
Até o instante em que compreendi que ser respeitada era algo inegociável.
Sofri dores que não acredito serem necessárias. Pelo contrário, devem ser
combatidas. Não tive acesso a uma formação saudável do meu eu sexual, uma
vez que esse assunto foi descartado da planilha educacional de minha família, ou
tratado como um tabu cheio de pecados e proibições. Quando tive o meu
primeiro namorado, por exemplo, fui cuidadosamente alertada pela minha avó
que eu deveria deixá-lo “à vontade para sair”, uma vez que os homens tinham
necessidades que eu não poderia suprir. Ou seja, ele podia ter casos, já que a
minha condição era de não poder trepar. A culpa foi tão grande, que, somente um
ano depois de iniciar esse relacionamento, comecei a minha vida sexual. De
forma errada, sem apoio, sentindo-me culpada, imoral e totalmente
desinformada. Obviamente fui bastante traída. O pacote traição já veio acoplado
à minha condição feminina. Assim foi para minha avó, para minha mãe – que
não se resignou a ele e se separou quando descobriu que meu pai tinha uma
amante há anos. Mas que, mesmo assim, e de maneira paradoxal, agiu como se
isso não tivesse que ser questionado – deveria ser igual para mim. Mas a traição
não é um bem exclusivo dos homens, graças a Deus. E esse foi o menor
problema nos relacionamentos que tive, apesar da constância desse “pré-
requisito” masculino. Apanhei muito em dois longos relacionamentos que tive,
ambos doentios. Não sabia que essa violência era inaceitável. Não assisti a
nenhuma mulher da minha família passando por tal situação, não fui criada num
ambiente violento, mas a ausência de autoestima devido à culpa inserida na
minha sexualidade me deixou numa posição de “merecimento”. Não tive acesso
a uma figura masculina constante, assisti a traições consecutivas em minha casa,
não era virgem, nem prendada, nem mesmo “apresentável” para a sociedade, por
conta de minha aparência andrógina, então habitei numa camada de existência
meio sem sentido útil. Talvez fosse mesmo alguém que merecesse apanhar, era o
que talvez eu achasse.
Essa adolescente que fui, e por alguns anos também a adulta, no início,
permitiu brutalidades. Repare no termo permitiu. Ele é usado por uma mulher
livre, que hoje tem 47 anos e é escritora. Eu deveria cortar essa palavra dessa
narrativa, mas a manterei como sinal de alerta. Porque uma menina não deve ser
acusada de permissiva porque foi agredida e violentada. Uma mulher não deve
ser acusada de ter permitido qualquer agressão. Não permiti as brutalidades que
sofri. Apenas, durante alguns anos, não sabia que elas eram indesculpáveis.
Uma vez que acessei os limites, bastante claros, e através do amor, do que
nunca mais me “permitiria” sofrer, noto que as minhas relações com os homens,
fossem eles amigos, namorados, amantes, chefes, tornaram-se muito saudáveis e
amigáveis. Eu não me “permiti” ser machucada, mas me mantive num padrão
doentio de relacionamento, que, mesmo brevemente, me deixou “acostumada” e
normalizou aquilo que é, como já disse, inaceitável.
Por outro lado, sei que também já sofri grosserias efetivas por parte de
mulheres, e que causaram grandes estragos na minha vida profissional, porque
estava lidando com mulheres que, pelo visto, não estavam satisfeitas com a
minha liberdade e com a minha felicidade como mulher. Eis a questão: até que
ponto, para uma outra mulher, mais do que para um outro homem, podemos ser
livres? Vislumbro aqui o momento em que isso tudo se desfaz, quando não há
mais necessidade de nenhum dos discursos. O feminismo alimenta o machismo e
vice-versa. E, digo: só vai existir a necessidade de um feminismo radical
enquanto alimentarmos a existência do machismo. Então acredito que a questão
maior que deveria estar sendo discutida, que é o outro, o respeito ao outro, seja
de que sexo for, continua sendo desmerecida em nome de uma bipolaridade, que
é própria da natureza humana. E isso me choca. Isso é chocante. E isso tem se
tornado histérico nos manifestos feministas atuais. É chocante. É chocante
lidarmos – ainda – com a contingência primária do ser: se é homem ou se é
mulher. E não pensarmos a partir do secundário, com a capacidade do ser de se
transformar e se transformar; e dos gêneros, de se transformarem e se
transformarem. É inevitável que eu esteja mais atenta ao sexo feminino, por ser
mulher, por ser mãe de três mulheres e por entender que sim, que a mulher pode
ser machucada. Acredito que, por ser mais bonita e mais tátil, ela pode ser
manipulada de maneira indigesta com mais facilidade. Há, contudo, um
desconforto quando você exclui o homem desses riscos, só porque ele é homem.
Como mãe também de um homem, fico muito preocupada com essa situação.
Sei que, como mulher, posso ser considerada uma minoria e usufruir disso
para fortalecer o meu discurso. Mas sejamos muito cuidadosas ao nos
assumirmos como minoria. Sempre, em qualquer discurso, é possível haver uma
minoria, e uma minoria da minoria… Em qualquer situação, real ou inventada.
Talvez seja mais confortável estar no lugar de minoria. E, sob esse ponto de
vista, o homem também pode pertencer a uma minoria. Quando, por exemplo,
ele se assusta frente a esse discurso em que todo homem se torna imediatamente
algo “ruim”, ele já está sendo colocado à margem. E torna-se pertencente a uma
minoria. Hoje percebo muito mais uma enorme cobrança no meu marido,
Alexandre Machado, como homem – eu o vejo mais frágil. Vejo que está numa
circunstância de medo, de medo no que se refere ao posicionamento dele quanto
à família (como pai e marido) e quanto ao trabalho. E chego à conclusão: ele está
mais assustado do que eu. Observo também meu filho e percebo que ele é
extremamente frágil e que ele está muito confuso dentro desse papel que a
sociedade lhe dá, sendo o menino sensível que é. Ele tem uma natureza emotiva
de chorar e de se ressentir. E eu já vejo isso como algo prejudicial, que a
sociedade não assimila. Como nós educamos esses meninos? Como podemos ser
receptivas quando percebemos também neles uma situação de inadequação?
Hoje sinto pena do homem. E, afirmo mais uma vez, só vai perseverar a
necessidade de um discurso feminista radical enquanto continuarmos
alimentando o sexismo – de qualquer maneira que o sexismo possa existir.
Vejam bem, não estou propondo diminuir as necessidades de manifestos
feministas nem a urgência de muitas causas que por eles são defendidas. Muitas
dificuldades e circunstâncias injustas da sociedade contemporânea têm um
histórico sexista e reconheço que o discurso feminista é por demais verdadeiro,
sofisticado e necessário. Mas o fato é: neste momento, ninguém está pensando
no homem. Por isso que todo o discurso pode vir a ser tenebroso, porque nele
uma bipolaridade está intrínseca quando, na verdade, somos todos
potencialidade pura – e temos total liberdade sexual. Podemos estar numa hora
de um lado e, no momento seguinte, do outro. Por isso, precisamos de um
discurso diferente, um discurso que seja sensível a essa potencialidade, e que
acolha os dois gêneros.

VANI E RUI DISCUTEM:
– VANI, ACHO QUE A GENTE DEVIA DAR UM TEMPO.
– OI?
– A GENTE. DAR UM TEMPO. ACHO MELHOR.
VANI DÁ UMA RISADINHA, COMO SE ELE TIVESSE FEITO UMA
PIADA.
– TÔ FALANDO SÉRIO.
– RUI, HOMEM NÃO PEDE PRA DAR UM TEMPO. QUEM PEDE PRA
DAR UM TEMPO É MULHER.
– QUEM DISSE?
– TODO MUNDO SABE.
– ISSO É CONTRA A CONSTITUIÇÃO, SABIA?
– VOCÊ JÁ VIU ALGUMA MULHER FALAR “OLHA, TE ADORO, MAS
AINDA NÃO TÔ PRONTA PRA ASSUMIR UM COMPROMISSO”?
– NÃO.
– PORQUE É COISA DE HOMEM. E PEDIR PARA DAR UM TEMPO É
COISA DE MULHER.
– O SÉRGIO E A ANITA DERAM UM TEMPO E FUNCIONOU SUPER
BEM.
– VOCÊ VAI INSISTIR NESSA FRESCURA?
– NÃO É FRESCURA. TÔ COM A SENSAÇÃO QUE NÓS DOIS
PRECISAMOS FICAR UM POUCO SOZINHOS, PRA PODER AVALIAR O
QUE RESTOU DAQUILO QUE UM DIA FOI.
– É FRESCURA.
A quem não nos enxerga

Oi, estou bem aqui na sua frente, mas você insiste em não me ver. Tudo
bem, opção sua, cada um enxerga o que quer. O problema é quando você,
sem ter ideia de como sou, resolve dar a sua visão sobre mim.
Talvez você não se enxergue também, antes de mais nada – e assim me
tire por parecida com você. Errando completamente. Para começar, faço
questão de ver as pessoas ao meu redor, e isso faz toda a diferença do
mundo. Percebo que todos têm algo de especial, estando aí a graça.
Percebo belezas que não são minhas, estando aí o prazer. Percebo inclusive
você, parado bem na minha frente, desviando seu olhar para lá e para cá,
nervoso com a minha presença, estando aí o ridículo.
Veja bem, não há o que temer em mim. Não quero nada que seja seu. E
não sou nada que você também não seja, pelo menos um pouquinho.
Você não precisa gostar de mim para me enxergar, mas precisa me
enxergar para não gostar de mim. Ou gostar, e talvez seja exatamente isso
que você tema. Embora isso não faça sentido, já que a vida é bela,
justamente, quando estamos diante daquilo que gostamos, certo?
Não vou dizer que não me irrita essa sua cegueira específica com
relação a mim, pois faço de tudo para ser entendida. Por todos. Sempre me
esforço ao máximo para que isso ocorra, aliás; então a sua total
ignorância a meu respeito, após todo esse tempo, nós dois tão perto, mexe,
sim, levemente, com a minha paciência.
Se for essa a sua intenção, porém, mexer com a minha paciência, aviso
que anda perdendo sua energia em besteira, pois um mosquito zumbindo
em meu ouvido tem um efeito semelhante. E, se me dou ao trabalho de
escrever esta carta para você, é porque sei que você também não será
capaz de enxergar o que há nela.
Explicando melhor: preferiria que você me esquecesse, mas, até para
poder me esquecer, você vai ter que me enxergar. Enquanto não me olhar
de frente, ao menos uma vez, ao menos por um segundo, vai continuar
assim, para sempre, fugindo sistematicamente da minha imagem – um
escravo de mim, em fuga constante, portanto.
Pode abrir os olhos, vai ver que não sou um bicho de sete cabeças. Sou
bem diferente de você, como já disse, mas isso é ótimo. Sou melhor que
você em algumas coisas, pior que você em outras – acontece. No que eu for
pior, pode virar para outro lado; no que eu for melhor, cogite me admirar.
“Olhos nos olhos, quero ver o que você faz…” Sempre quis cantar essa
do Chico para alguém.
“Olhos nos olhos, quero ver o que você diz…”
Pronto, um sonho realizado. Já estou lucrando com a nossa relação, só
falta você. Basta ver o que eu posso lhe mostrar e enxergar o que eu posso
ser para você.

Beijos,
F.Y.
EU NÃO ADMITIA O FEMININO
Raspei a cabeça durante onze anos, por pura punição. Eu não admitia o
feminino. Não queria parecer delicada diante do mundo, porque achava que o
mundo ia me machucar.

aspei a cabeça durante onze anos, por pura punição. Eu não admitia o
feminino. Não queria parecer delicada diante do mundo, porque achava
R que o mundo ia me machucar. Hoje vejo que sou uma mulher forte e que
faço diferença na vida dos meus filhos, porque sei que são crianças que não
foram “quebradas” e que vão ser adultos muito mais fortes do que eu. E, aí, falo
para mim mesma: deu tudo certo, querida. Deu tudo certo.
De fato, analisando minha vida, desde pequena, nunca tive a consciência de
minha beleza ou de “ser bela”. Nunca fui bonita para a minha família – que é
uma família de pessoas muito bonitas. Minha mãe era muito bonita, minha avó
paterna e materna, ambas, lindas. E a minha beleza sempre esteve ao lado de um
condimento de “estranheza” que não era apreciado em minha casa. Portanto,
repito, nunca tive conhecimento da minha beleza, fato que acho até… bem
razoável…
Penso que você não se crer bonita é uma boa medida para não ficar uma
pessoa burra. E digo isso tanto para homens como para mulheres. Não adianta.
Se você se crê bonita, já se coloca numa condição muito volátil. A beleza sempre
será relativa e sempre dependerá do olhar e da aceitação do outro. E ninguém
quer depender sempre do outro que o olha. Sei, contudo, que, para sobreviver, a
beleza, para uma mulher, é uma arma – que deve ser usada. Para sobreviver, a
mulher precisa se esforçar pela própria beleza, porque vivemos em guerra, e é
guerra o tempo todo. Vivemos, na verdade, em busca desse equilíbrio: de
reforçar o belo e, ao mesmo tempo, de nos reforçar como sujeitos – como vozes
– no mundo bélico contemporâneo. Ao mesmo tempo em que precisamos ser
aceitas pela sociedade, também não queremos depender da sociedade. Queremos
ser belas, mas não queremos nos submeter ao que nos impingem que seja belo.
Então esse discurso de que a beleza não precisa estar a nosso serviço,
considero isso uma mentira. Para uma mulher sobreviver, ela precisa cuidar da
beleza, mas não apenas disso. Ela precisa, também, procurar se sustentar como
sujeito e, como qualquer indivíduo em sociedade, ter um discurso que lhe é
próprio, uma história que lhe é própria. É um equilíbrio necessário que é muito
sublime. A guerra da mulher é uma guerra que é silenciosa e que usa de artifícios
muito mais inteligentes do que a dos homens, nas guerras propriamente ditas de
nossa história. Para a mulher, a beleza é uma necessidade. E isso, para uma
mulher, significa estar a serviço da beleza? Sim. Também. Além, claro, de outras
coisas de seu interesse que venham a fortalecê-la.
Com exceção – sempre – das sonsas. Essa personagem é própria do
feminino. A sonsa é sensacional: jogadora implacável, que quase sempre ganha
todas as partidas do xadrez amoroso! Observo muito, conheço muito. As sonsas,
elas não trabalham, elas fingem que trabalham, são extremamente sagazes em
dominar qualquer conflito; elas não causam qualquer conflito. Elas jogam a
sonsice no conflito e o conflito se esvai. A sonsa viaja muito. A sonsa ganha
carro. A sonsa faz muita ginástica também (e usa muito da beleza como arma).
As sonsas são livres e não parecem ser livres, nem sequer reivindicaram isso.
Não estão nem um pouco interessadas em reivindicar nada. Eu, se me fizer de
sonsa no meu “xadrez”, estarei aniquilada. É meio a meio aqui em casa. Se eu
me fizer de sonsa e comprar uma joia para mim, quem vai pagar a joia sou eu.
Tenho um misto de sentimentos contraditórios sobre essa mulher, que vive da
profissão sonsice; ao mesmo tempo que fico encantada com a sua inteligência,
diplomacia, frieza e “boa vida”. Acabo por considerar a sonsa a mais perigosa
das espécies femininas. Eu sou a antissonsa. Enquanto me exponho em nome da
liberdade e, por isso, pago um preço altíssimo, ela se beneficia da minha luta,
enquanto assegura aos homens uma entidade de “recatada e do lar”. Eu não teria
dom para ser sonsa. É uma questão de capacidade. Não adianta. Tem coisas que
você até deseja ser, você provoca um pouco, atua um pouco, mas tem um limite
a sua atuação. Você não aguenta. É como ser puta, amante, submissa,
personagens clássicos femininos, não adianta atuar, deve-se, apenas, ser. Dá um
trabalho danado, porque a sonsa, ainda mais do que a puta e a submissa – que se
submete por masoquismo e carência –, realmente tem que estar a serviço do
outro e só do outro. E como usa a beleza como arma… Porém depende
completamente da aceitação do outro, principalmente dos homens, para viver
suas sonsices.
Bom, depois dessa explicação sobre as sonsas e de deixar claro para o(a)
leitor(a) que a valorização da beleza é uma das armas das mulheres, uma arma
muito potente, inclusive, devemos reconhecer que o ser humano precisa estar a
serviço de tudo, o tempo inteiro. Tanto a mulher como o homem. Então
pensando agora no homem: você acha que o homem vai sobreviver, num
contexto social, na sua relação com o mundo, se ele for mais bem-sucedido? A
resposta é sim, e isso lhes é uma cobrança. Eles estão a serviço disso. Assim
como a mulher está, querendo ou não, a serviço da beleza. Os homens precisam
ser bem-sucedidos? Sim. Quando me casei com Alexandre Machado, assumo
que não me casei por dinheiro, nem nunca o faria. Mas o que me atraiu na
escolha foi o fato de ele ser um profissional bem-sucedido. Nunca quis que
ninguém me sustentasse, mesmo que a princípio isso tenha acontecido. Eu estava
à procura era de alguém que somasse.
Tenho um amigo que me disse uma vez, brincando, algo que reflete bem o
cansaço imposto ao homem de ser o salvador. Esse amigo afirmou que as
mulheres escolhem um homem da seguinte forma: quando ele come menos do
que ela, ao menos nos primeiros encontros – e jamais pede sobremesa –, e
quando consegue carregá-la no colo por, no mínimo, cinco minutos. Os homens
são, portanto, doutrinados culturalmente e por condições físicas (não adianta
ficarmos fazendo uma análise antropológica) para socorrer. Socorrer o outro,
incluindo as mulheres e as crianças. Nesse sentido, acho que isso não mudou.
Nós, mulheres, continuamos desejando homens bem-sucedidos, ou aqueles que
estão a serviço de se tornarem bem-sucedidos – o mundo tem lá suas muitas
injustiças. Aqueles homens que se esforçam têm um grande mérito. Quando se
deixa de estar a serviço de algo é que é a questão. De repente, um gênero
empurra ao outro os seus erros, as suas responsabilidades, suas angústias. Seus
quereres insatisfeitos, suas culpas, suas liberdades reprimidas, liberdades que,
muitas vezes, esbarram no limite do que é o outro e no respeito ao que é do
desejo do outro. Mas, nessa guerra de conquistas de desejos e de territórios, cada
conquista é mérito de um indivíduo, e não de um gênero. Cada um sabe melhor
de suas armas para entrar na guerra, seja munir-se de beleza ou de trabalho e de
dinheiro; cada um sabe melhor de suas armas.
E, nessa continuidade infinita das obviedades, dos detalhes, das sutilezas que
regem a humanidade, a mulher continua sendo algo que a cultura e a moral
insistem em querer calar. E a parte mais perigosa dessa opressão, dessa mordaça
que há muito acompanha o eu feminino, é a participação efetiva da mulher nessa
causa. Eu diria até que, nos dias atuais, a mais perigosa adversária da mulher é a
própria mulher. Não falo das milhões que vivem em total mudez, devido a
circunstâncias sociais, religiosas, políticas etc., mas das mulheres que, por meio
de um discurso dotado de muitas palavras, conseguem, com toda uma retórica,
calar a liberdade. São as que habitam na cultura, que se dizem feministas, que
são versadas em muitas citações, mas que não aceitam um enorme e eloquente
senão na luta que defendem: o homem não é o nosso inimigo. Somos nós
mesmas.
Nesse espetáculo bufo a que estamos assistindo, a mulher se coloca,
conscientemente, como vítima, mesmo tendo condição de não ser, como aquela
que sempre esteve à mercê de um assediador, quando muitas vezes instigou o
assédio ou, melhor ainda, quando muitas vezes assediou, seduzindo aquele de
quem deseja conseguir algo. Dessas mulheres, eu diria ter medo. Porque elas
calam segredos muito mais antigos e obscuros, segredos que foram muito bem
guardados, justo para serem usados em caso de sobrevivência. Dentre eles, o
segredo de que nós seduzimos para alcançar benefícios. Nós usamos a beleza, a
sexualidade, a juventude para conseguir algo. Todas? Não sei. Sempre? Não.
Isso significa que nenhuma conquista tenha sido feita, por cada uma delas, pelo
mérito único de seu talento e capacidade? Não. Eu jamais ofereci alguma coisa
em troca de uma benesse porque não quis. E o melhor: porque ninguém nunca
me propôs. Seria pelo fato de não ser bela, sensual, atraente? Não. Foi porque eu
nunca estabeleci no jogo essas cartas. Mas é preciso deixar claro que não falo
aqui sobre ser coagida e, muito menos, estuprada. Existe uma grande diferença.
Jamais podemos aceitar, tanto as mulheres quanto os homens, nenhuma situação
que justifique o sexo não consensual, ou até qualquer sutil indicação ao velho e
sabido hábito, de que se utilizam os que têm poder, da implícita “troca de
favores”. O que estou falando é que, se dermos ao discurso de defesa esse tom
de coadjuvantes frágeis, estaremos sempre “cacarejando” feito galinhas
assustadas. Quando, sejamos honestas, mulheres que não estão em situação de
penúria social são muito bem-dotadas de sensores, vozes e recursos para se
protegerem. E não será bancando “as sonsas” que conseguirão. Há uma equação
bem clara para essas, as privilegiadas: “X+Y = XY”. E sei que falar sobre isso
poderá suscitar problemas com elas. Essa é a mordaça mais perigosa, a de não se
poder discordar.
E essa grande questão que surgiu agora, que investiga o porquê de as grandes
obras de artes serem, em sua maioria, retrato ou expressões de mulheres nuas…
É claro! Eu, como artista, não tenho dúvida. Não me interessa desenhar homens
nus. Não me atrai. É uma questão de proporções. A mulher é mais bela.
Definitivamente é a espécie humana mais interessante. Inevitavelmente. Para
qualquer artista, é inevitável. Para uma escritora, descrever uma mulher é muito
mais interessante do que descrever um homem. A mulher é mais bonita, como
tecnologia humana mesmo. E até isso se tornou uma reivindicação, um conflito,
por parte das mulheres. E nessas discussões, perdemos muita energia.
Poderíamos estar nos fortalecendo com a beleza do feminino e ganhando
territórios. Mas a beleza pode atrapalhar? Sim. Tudo pode atrapalhar. Todo e
qualquer discurso que transforma o outro em coitado é um grande disparador do
que atrapalha, um disparador do problema. Sem sombra de dúvidas, temos que
falar sobre leis Maria da Penha, sobre todo e qualquer tipo de assédio, de
brutalidade, de manipulação profissional e de desrespeito no ambiente de
trabalho, mas continuo insistindo que isso não é uma coisa unilateral. Nós nos
manifestamos tanto e, ao mesmo tempo, deixamos de olhar para o lado do outro,
que também é desrespeitado, por motivações outras. Acho que é da natureza
humana esse conflito, independente do gênero, volto a dizer.
Eis que, de súbito, nunca as mulheres reclamaram tanto. Mas acredito que
tudo isso se deve ao fato de estarmos atravessando uma época extremamente
obscura. Só não creio que seja, categoricamente, uma época contra a mulher. O
homem ainda está a serviço de, assim como a mulher está a serviço de, tanto da
beleza (homens e mulheres), como de se tornar bem-sucedido ou bem-sucedida.
Isso se faz importante aos dois, e se engana quem pensa que o homem está
contra a mulher, ou vice-versa. A grande crise começa quando se deixa de “estar
a serviço de”.

ÉPOSSÍVEL QUE ELE TENHA CRUZADO VÁRIAS VEZES COM
AQUELA QUE DEVERIA SER, OU SERÁ, O AMOR DA SUA VIDA.
TALVEZ ESTIVESSEM NO MESMO PARQUE UM DIA DESSES, NUMA
HORA POVOADA DE MENDIGOS OU VELHOS, OU GENTE CANSADA
ESPERANDO O TEMPO PASSAR. ELE ESTARIA SENTADO SOZINHO
NUM BANCO – ESPERANDO AQUELA HORA PASSAR – E ELA VIRIA
POR ALI, POSSIVELMENTE PARA CORTAR CAMINHO. SIM, A MULHER
DOS SONHOS DELE ANDARIA UM POUCO APRESSADA, MAS ATENTA
A UMA FLOR OU OUTRA. A MULHER QUE ELE TANTO AGUARDA
NUNCA IRIA CONTORNAR UMA PRAÇA. PROVAVELMENTE, ATÉ
CHOROU AO PERCEBER QUE A MAIORIA DELAS, DE UNS TEMPOS
PARA CÁ, TORNOU-SE GRADEADA. E QUE AS GRADES ATRAPALHAM
SEUS PASSOS ACELERADOS, IMPEDEM QUE ELES CORTEM
CAMINHO POR ENTRE FLORES. ESSA É A SUA MULHER TÃO
SONHADA. MAS ELE OUVIU DE ALGUÉM, EM ALGUM LUGAR, OU
NOTOU, POR EXPERIÊNCIA PRÓPRIA, QUE A MULHER SONHADA É
QUALQUER UMA QUE ESTEJA À MÃO NO MOMENTO CERTO; E
ALGUMAS SABEM SE MAQUIAR MUITO BEM.
Prezada Mulherzinha,

se existe alguém que pode falar o que vou falar para você, sou eu.
Então, por favor, tenha a humildade de admitir que sei do que estou
falando. Pois o que eu lhe direi é duro, mas poderá lhe fazer um bem
enorme.
Chega. Chega de se comportar assim. Como se estivesse lutando pelo
posto de rainha da bateria. De Miss Maravilha do Mundo. Basta de
ataques, dessa competitividade suburbana — eu sou a melhor, eu sou a
mais alta, eu sou a mais gostosa do pedaço. Ninguém está ligando a
mínima se você corre dez quilômetros ou se aplicou Botox nessa sua testa
sem expressão. Ou se você é assim porque ainda não passa de uma
menininha que quer ser mais perfeita do que a mãe, conquistar o amor do
pai e ser a primeira da classe. Esse seu afã psicopata de vencer todas as
paradas só lhe deixa ridícula. E me faz querer usar uma expressão que
odeio: coisa de mulherzinha.
Mulherzinha é que tem essa mania de estar sempre desconfiada das
amigas, porque todas teriam inveja do seu corpão e do seu cabelão estilo
falso-louro-natural-cinco-tons. Lamento informar, querida, que ninguém
sente inveja de você. Por isso, chega de dizer por aí que, para não atrair
olho grande, é bom ficar de bico fechado sobre a tal possível promoção que
você terá no trabalho. Relaxa, ninguém está a fim de ser você. Tente,
portanto, ser você com mais leveza. E lembre-se: esse negócio de dizer que
não se pode confiar em mulheres só comprova que você é uma pessoa
maliciosa. Sendo que isso está longe de ser porque você é fêmea.
Quando vejo você tagarelando sobre seus feitos sexuais, me sinto num
filme ruim com ginasianas americanas. Todas fanhas e excitadas. Chega,
tá? De azucrinar os outros com essa sua boca-genital lambuzada de gloss,
cuspindo baixos clichês, simulando uma modernidade que você não tem.
Nunca mais caia no ridículo de fazer “sexo casual” com nenhum tipo de
homem, mais velho ou mais novo, casado ou solteiro, porque todo mundo já
sabe que você finge tudo. Que goza, que não se sente fácil, que não liga
quando os caras não telefonam no dia seguinte. Seja honesta uma vez na
vida: confesse. Que você não é nada tão wild quanto se vende. Que não
sabe falar tão bem inglês assim. Que fez escova progressiva. Que tem
dermatite. E aí, enfim, você terá alguma paz, pois se reconhecerá humana,
e não a Barbie boba que procura ser. Acredite: idiotice só faz você ser
charmosa para os cafajestes. Se continuar assim, nunca vai aparecer
aquele cara bacana que você gostaria que aparecesse; para lutar por você,
até lhe conquistar, e destruir essa sua linda silhueta com uma gestação de
15 quilos.
É triste, amiga Mulherzinha, mas você terá que abrir mão da máscara
de rímel que cobre a sua verdade.

Beijos,
F.Y.
POR QUE VOCÊ NÃO
EXPERIMENTA SEU CORPO
ANTES?
Eu já fui muito masculina. Mas, quando penso nas pessoas que se operam para
mudar de sexo, acho uma precipitação. A sexualidade não precisa de nada
disso. Esse discurso de que as pessoas nascem com uma condição que não é a
delas – uns chamam de condição, outros de bênção –, enfim, acho,
definitivamente, a mudança do corpo algo muito precipitado.

omo disse aqui, eu já fui muito masculina e, por muito tempo, rejeitei o
feminino em mim. Mas, quando penso nas pessoas que operam seus
C corpos para mudar de sexo, acho uma precipitação. A sexualidade não
precisa de nada disso. Esse discurso de que as pessoas nascem com uma
condição que não é a delas – uns chamam de condição, outros de bênção –,
enfim, acho, definitivamente, a mudança do corpo algo muito precipitado. Por
que não experimentar o seu corpo antes e descobrir o seu potencial?
O que quero dizer é: seja antes – e apenas depois de ser esse corpo, mude de
opinião. Quer deixar o cabelo crescer? Pode deixar o cabelo crescer, antes de
qualquer coisa. Eu, infelizmente, acabo sempre pensando como mãe. Por mais
que tenda a condicionar, inevitavelmente, minhas filhas a algumas coisas, e meu
filho a algumas outras coisas, esse politicamente correto dos brinquedos
assexuados, das cores, pelo amor de deus, é muito louco não poder brincar de
boneca! Eu gosto da ideia de deixar eles crescerem com liberdade de escolha. Se
gosta de laço, põe laço. Se não gosta, basta tirar a porra do laço. Eu, por
exemplo, nunca fui uma criança que gostasse de brincar de carros. Mas, também,
nunca me impediram de brincar de carro. Hoje adoro carros. Não se trata de uma
condição, e, sim, de vontades.
Todo mundo sabe que eu já tive namorada. Meus filhos têm padrinhos gays,
e eu nunca tive problema nenhum com isso. Inclusive no meu livro O efeito
Urano, falo da questão dessa mulher que se apaixona por outra e que acha que
fez uma grande merda. O efeito Urano foi uma intenção minha de falar da
sexualidade das mulheres entre elas, que, na época, ainda não era discutida como
hoje em dia é. O que percebo atualmente é que as mulheres, no geral, tendem a
assumir a bissexualidade. E isso mostra que o corpo feminino é tão potente no
seu erotismo, que esse é um caminho natural. Em O efeito Urano, peguei muito
bem essa questão, acho até que fui visionária.
Não vejo, portanto, problema nenhum, nem modernidade, em se
experimentar a sexualidade. Agora, não vou ficar questionando o estilo da roupa
de meus filhos, ou o corte de cabelo, por exemplo, isso acho que é uma bobagem
muito grande. Não chega nem a ser a negação de um fato. Se uma pessoa não
quer usar um laço, não deve usar o laço – isso não quer dizer absolutamente
nada. Mas vira conflito; e pessoas morrem por causa disso. Muitas vezes, a partir
de uma pequena escolha momentânea, a pessoa deve definir se é gay ou se é
hétero. E aquele momento pode, no dia seguinte, não significar mais nada para
aquela pessoa. A vestimenta não é nada. Ou talvez, quando muito, seja um
estado transitório. Visto uma roupa sexy e talvez me sinta dessa forma naquele
momento. Posso usar uma fantasia e atuar nela.
A sexualidade de uma pessoa é tão própria, tão pessoal, mas estamos numa
sociedade em que tudo precisa ser contado – à família, às redes sociais – e, por
fim, julgado. E, incrivelmente, em pleno século XXI, homossexuais ainda são
mortos ou tiram a própria vida. Daí, voltamos ao ponto, será o feminismo a
grande discussão, ou simplesmente o outro? O respeito às escolhas do outro?
Lembrando que o outro é um ser único e a quem devemos todo o respeito.
A quantidade de meninos que são agredidos por serem gays… eu me
preocupo muitíssimo com eles. As meninas me preocupam sempre, sempre irão
me preocupar. Mas, imagina, o cara ser gay no lugar mais grosseiro, inóspito e
machista do Brasil, sem nenhum acesso à cultura. Imagina o que isso vai causar.
Está vendo a fragilidade do assunto? A discussão não pode ser mais raspar ou
não raspar debaixo do braço. Isso, por acaso, vai destituir o meu valor como
mulher e como potência, se eu decidir raspar, ou não, debaixo do braço? Tenho
uma filha que não raspa. Eu mesma passo temporadas sem raspar. E daí? Não me
diz respeito em nada. Não é algo que vou questionar se é certo ou se é errado.
Hoje em dia sabemos que é preciso pensar antes de se dizer “o” fulano,
porque ele pode ser “a” fulana. E estamos usando agora o artigo “e”. O “e” de
“fulane”. E, de repente, se tornou uma exigência que as pessoas acertem o artigo
do outro. Eu não quero ter medo de como me refiro ao outro. Sendo homem,
mulher, uma entidade híbrida, ou qualquer outra designação, que, bem sei,
jamais irei decorar. Não quero pensar precisamente sobre isso, embora entenda
que o artigo “e” compreende as potencialidades sexuais que temos em nós.
Posso ter pau. Posso não ter pau. Posso ter pau num momento específico e não
ter pau no outro. Mas todos temos cu – e considero esse um pensamento
razoável. Todos temos cu, ou seja, em algum ponto, somos todos iguais.
Sobre a minha sexualidade, eu às vezes consigo perceber que não estou
pensando como uma mulher, e acredito que esteja apenas exercitando um
pensamento puro – noto que alcanço um descolamento do meu gênero. E isso é
bom, porque é isso que me interessa. Outras vezes realmente noto que a minha
condição feminina está incluída naquele pensamento. Por motivos específicos,
com dores que são minhas, dores do meu eu feminino e que falam sim em nome
do sexo feminino. Mesmo assim, eu penso tratar disso, da condição do feminino,
sem excluir o leitor e o espectador masculino. Porque creio que todos nós temos
a potencialidade do feminino e do masculino que deve ser bem trabalhada. Esse
é o grande encontro, você ter o corpo e a alma feminina e lidar com o masculino,
Vênus com Marte. Conseguir a expressão dos dois, conseguir que homem e
mulher trabalhem juntos num único ser. Isso é muito sofisticado.
Maliciosamente, não é do interesse de ninguém que isso seja pensado. Em tudo,
a grande maldade é a ignorância. E, sem sombra de dúvidas, concretamente, a
ignorância é proposital.
Esses conflitos todos da luta dos sexos, esses conflitos da luta entre homem e
mulher, ainda sim poderiam ser evitados se tivéssemos uma consciência muito
mais sofisticada, tanto da psicanálise quanto espiritual. Não por meio do que
pregam as religiões, mas da noção de que somos de fato todos iguais. Porque
somos manifestações únicas de um jogo lindo de consciência, quer você chame
de Deus ou não. Mas isso não interessa. Não seria rentável pensar assim. E tudo
o que não interessa é o tempo inteiro descartado ou considerado balela. E os
discursos que são muito mais lucrativos e que são considerados mais
interessantes, eles surgem e sempre apresentam uma grande briga, seja entre os
sexos, ou mesmo entre religiões.
Sofisticado seria, simplesmente, experimentarmos, sem pré-requisitos.

É, FAZER SEXO COM OUTRA MULHER NÃO É NADA MAU. NADA
MAU. E É CANALHICE FICAR FALANDO SOBRE ESSAS COISAS, EU
SEI, AINDA QUE ALGUÉM TIVESSE ME PERGUNTADO, E NINGUÉM
ME PERGUNTOU. MAS EU DIGO ASSIM MESMO: NÃO É MAU. SENDO
QUASE TERRÍVEL, PARA MIM, AFIRMAR ISSO, NÃO POSSO NEGAR, É
BOM. FOI ASSIM QUE OS ACONTECIMENTOS SE CONSUMARAM.
EMBORA NÃO VENHA CONSEGUINDO IMPRIMIR O MÍNIMO GRAU DE
LÓGICA NESSA NARRATIVA, PRINCIPALMENTE NOS DETALHES
DELA, INCLUSIVE OS QUE CONSIDERO IMPORTANTES, COMO SE
ALGO FOI BOM OU FOI RUIM, POSSO CONFIRMAR: É BOM. E,
DESCULPA, EM SEXO A QUESTÃO SE RESUME CAFAJESTICAMENTE
NA RESPOSTA A UMA ÚNICA PERGUNTA: FOI BOM OU NÃO FOI?
PEÇO DESCULPAS PORQUE SEI QUE HÁ MUITOS PUDORES
INTELECTUAIS COM RELAÇÃO A CLICHÊS COMO ESSE. A ESSE, EM
ESPECIAL. EXISTE, PORÉM, COISA MAIS CLICHÊ DO QUE SEXO? NÃO
CONHEÇO. SÃO AS MESMAS CARAS, OS MESMOS RESPIROS, OS
MESMOS LUGARES, OS MESMOS EFEITOS. SEXO É A MEDIOCRIDADE
POR DEFINIÇÃO, POIS QUALQUER UM O FAZ, E IGUALZINHO, DESDE
O MAIS BRILHANTE GÊNIO AO MAIS ESTÚPIDO IGNORANTE.
SOMOS, PORTANTO, TODOS MEDÍOCRES QUANDO TREPAMOS –
NADA SERÁ FEITO QUE ALGUÉM JÁ NÃO TENHA FEITO ANTES,
NADA VAI ACONTECER QUE NÃO SE REPETIRÁ UM MILHÃO DE
VEZES. ESTAMOS, ENTÃO, PRESOS À MEDIOCRIDADE PELO RESTO
DA VIDA. A LAMENTÁVEL MEDIOCRIDADE, QUE SE APROVEITA
DESSES MOMENTOS CONSIDERADOS FUNDAMENTAIS – O ATO
SEXUAL, A CERIMÔNIA DE CASAMENTO, O NASCIMENTO DE BEBÊS,
A MORTE – PARA SE APOSSAR DE NÓS. PORQUE ESSES SÃO OS
EVENTOS MASSACRADOS PELA IDEOLOGIA DO IGUAL, DO SE
SENTIR IGUAL, DA REPETIÇÃO ANCESTRAL CHAMADA DE
TRADIÇÃO. FICA TODO MUNDO NERVOSO E FELIZ NO DIA DO
CASAMENTO, FICA TODO MUNDO OTÁRIO E FELIZ QUANDO NASCE
UM NENÊ, FICA TODO MUNDO RIDICULAMENTE IGUAL QUANDO
ESTÁ APAIXONADO – QUE É O ÚNICO MOTIVO PARA SE ENVOLVER
NUM ATO SEXUAL, A MENOS QUE VOCÊ O FAÇA POR DINHEIRO. A
PAIXÃO – CONCLUINDO – IMPREGNA-SE DO COMUM COMO UM
PAPEL JOGADO NA ÁGUA. SOU CAPAZ DE UM CHUTE: 75% DAS
PESSOAS MANDARAM UMA LETRA DE MÚSICA PARA QUEM SE
ACHAVAM APAIXONADAS. E 80% JURARAM QUE JAMAIS SENTIRAM
ALGO PARECIDO NA VIDA. E 90% AGIRAM IMPENSADAMENTE,
DEIXANDO RECADOS TOLOS EM SECRETÁRIAS ELETRÔNICAS. E
99% QUISERAM MORRER QUANDO O TELEFONE NÃO TOCOU.
SENDO ASSIM, PARA QUE PUDORES? EU DIGO CLARAMENTE: FOI
BOM PARA MIM. ALGUÉM AINDA DUVIDA? PODERÁ SER
DESIGNADO COMO BOM O QUE TEM A TEXTURA METAFÓRICA DE
UMA ESPONJA ENSEBADA? O QUE TEM O SABOR METAFÓRICO DAS
OSTRAS? O QUE TEM CABELOS PIXAINS POR TODA E QUALQUER
PARTE? O QUE NOS EXIGE TANTO DOS MÚSCULOS, DESDE O
PESCOÇO ATÉ A LÍNGUA, PARA QUE MANTENHAMOS A CADÊNCIA
CORRETA? OCASIÃO DIFÍCIL COMO ESSA, NA QUAL SE LUTA PELO
FÔLEGO E SE MERGULHA EM MUCOSAS, PODE SER AGRADÁVEL?
BOM, QUANDO VI UM PAU PELA PRIMEIRA VEZ NÃO FOI
PRECISAMENTE MARAVILHOSO. PODEREI EU, ENTRETANTO,
COMPARAR PAU, PERLA E BOCETA? POIS EU DIGO QUE OS TRÊS ME
SÃO IDÊNTICOS, QUANDO O ASSUNTO É MUDAR DE OPINIÃO. HOJE
GOSTO DE PAU E PERLA. HOJE GOSTO DE BOCETA. E QUE ME
CRUCIFIQUEM. QUE ME AMORDACEM. QUE CUSPAM EM MIM. QUE
TAQUEM OVOS PODRES EM MIM. TRANSFORMEI-ME EM GENI POR
HAVER GOSTADO. SOU, NESSE INSTANTE, UMA DEVASSA. PORQUE,
SE ME SOBRASSE ALGUMA DIGNIDADE, ALGUM ORGULHO, EU NÃO
CHUPARIA NOVAMENTE A SÓSIA DE UM MOLUSCO. O QUE RESTAVA
A MIM, PARA SER MENOS DESPREZÍVEL, MENOS NOCIVA, MENOS
NOJENTA, ERA NÃO TER GOSTADO. MAS EU ADOREI. ADOREI.
Aos vendedores de ilusão

Lamentamos informar que estamos terrivelmente decepcionadas com os


seus produtos. Primeiro, vocês nos venderam a ilusão de um Príncipe
Encantado, mas ele nunca chegou. Depois, nós compramos a ideia de um
Novo Milênio, que chegou todo estragado. Mais recentemente, fomos
levadas a acreditar que Seios Maiores nos trariam a felicidade. Porém
nada mudou.
Até quando vocês vão continuar assim, nos enganando dessa maneira?
Nossa paciência tem limite. E não foram essas as únicas ilusões que
alimentamos ao longo dos anos e deram problemas. Vejam a lista:
Orgasmo vaginal – Fomos convencidas por especialistas de que
poderíamos obter o orgasmo através da simples penetração, sem a
estimulação do clitóris. Não apenas terminamos, todas, frustradas em
nossos investimentos nesse sentido, como também tivemos de forjar falsos
resultados para os nossos parceiros no negócio, a fim de evitar maiores
danos.
Brasil, o país do futuro – Venderam-nos essa ideia por anos seguidos,
através de fartos investimentos publicitários. Pois bem, o futuro chegou e
continua a mesma porcaria. Disseram também que o grande problema do
país era a dívida externa, algo sem solução ou remédio. Agora, de repente,
essa dívida deixou de existir e ninguém toca mais no assunto.
Novidades contra celulite – Todo dia, vocês nos empurram uma nova
solução definitiva para as celulites em nosso corpo, uma mais sensacional
que a outra. Se juntassem todo o dinheiro já gasto pelas mulheres nessa
luta inglória, daria para acabar com a fome no mundo.
Homem fiel – Nesse caso, venderam-nos algo que simplesmente não
existe. Não há um só fato científico que comprove a existência de um ser
humano masculino adepto da fidelidade – ao contrário, todas as
experiências indicam que tal fenômeno é realmente impossível. Com um
agravante: não é a primeira vez que somos levadas a crer numa coisa
inexistente. Há quem compre, até hoje, as ilusões da Família Unida, do
Político Honesto e da Amizade Colorida.
Lábios carnudos e naturais – Lábios carnudos só ficam naturais nas
mulheres que nasceram com eles – as sortudas. No resto de nós, o mais
natural é quando fica parecendo picada de abelha. Resultado: milhões de
mulheres com a mesma boca equivocada. Nos dias de hoje, não
conseguimos mais diferenciar quem apanhou do marido ou quem passou no
dermatologista.
Assim sendo, como estamos dentro do prazo para reclamações, e
constatando que essa série de defeitos compromete seriamente o bom
funcionamento de nossas vidas, solicitamos imediata solução de nossos
problemas através da substituição dos referidos produtos por outros da
mesma espécie, em perfeitas condições de uso.
Ou seja: nós exigimos novas ilusões, o mais rápido possível. Senão,
seremos obrigadas a tomar uma medida extremamente desagradável:
encarar a dura realidade.

Abraços,
F.Y.
A SEXUALIDADE DA MULHER E
LINDA
A ideia de castração é uma grande mentira. Um dos livros que vale a pena toda
mulher ler é O relatório Hite, de Shere Hite. Nesse livro tem perguntas muito
específicas, que foram enviadas com uma metodologia, e foi a primeira grande
pesquisa sobre a sexualidade feminina. Nele, as mulheres reconhecem que é a
primeira vez que alguém está interessado em saber como é a sexualidade
feminina, e não sob o verniz do olhar do homem.

ideia de castração é uma grande mentira. Um dos livros que vale a pena
toda mulher ler é O relatório Hite, de Shere Hite. Nesse livro tem
A perguntas muito específicas, que foram enviadas com uma metodologia, e
foi a primeira grande pesquisa sobre a sexualidade feminina. Nele, as mulheres
reconhecem que é a primeira vez que alguém está interessado em saber como é a
sexualidade feminina, e não sob o verniz do olhar do homem. Ou seja, a
sexualidade da mulher descrita pela própria mulher e avaliada por mulheres.
Uma das perguntas é sobre o orgasmo, como é o orgasmo na penetração, na
masturbação e no clitóris. E o livro revela algo que não é comumente dito: que
não existe nenhum tipo de orgasmo que exclua o clitóris. Porque, por mais que
você não o tenha manipulado com a sua mão, ou que alguém o tenha manipulado
no ato sexual, o clitóris faz parte da vagina tanto quanto a glande, que é a parte
de maior sensibilidade do órgão sexual masculino, faz parte do pau. Então é a
mesma coisa. Não é possível excluir nem um nem outro. Outra coisa também
que ninguém fala é que a mulher também fica rija, assim como o homem. Ela
endurece, cresce, fica ereta, tanto quanto o pau do homem. Só que é interno, não
está facilmente visível. E daí podemos concluir: não somos castradas. Nós,
talvez, tenhamos sido castradas na repressão do olhar do outro, no olhar da
cultura, porque nosso órgão não é visto. Mas, na verdade, nós ficamos duras e
ejaculamos, só que em outra proporção.
Outro dia, um dia chato até, andei pensando sobre a ereção feminina.
Ninguém fala sobre isso; ninguém conta que fica superdura – quando na
verdade, a total intumescência, a nossa, pode vir a ser bem maior do que o pau
mais rijo que você já viu. Como esse dia estava realmente enfadonho, tive uma
ideia dessas que só me trazem problemas, mas que é impossível de esquecer: a
de desenhar uma buceta e fazer disso um panfleto. Acontece que a ereção do
homem ocorre para fora do corpo. E é linda, temos que reconhecer. A nossa, ela
existe, só que ocorre sob a superfície do corpo, na bainha, e também é muito
linda! Mas, nesse dia chato, como seguem os tempos atuais, não desenhei nem
fiz o panfleto que jogaria aos milhares pela janela, em plena avenida Paulista.
Nesse panfleto, eu sugeriria: “Nos ensinaram a buscar os objetos fálicos; o
masculino. Busque nas dobras o feminino!”
Sobretudo, o que mais me impressiona é que no discurso do ponto G, que a
maioria das pessoas conhece, parece que as mulheres têm um orgasmo interno
errático, como se o orgasmo clitoriano fosse uma fragilidade de alguém que não
conseguisse gozar efetivamente com a penetração. Então, nesse discurso está
intrínseco que a mulher sem um pau não goza efetivamente. O pau, claro, é um
objeto de fantasia e mentalmente funciona, mas a satisfação sexual da mulher
não necessariamente depende dele. Essa pesquisa Hite é bonita por mostrar que a
mulher não é um ser incapaz por precisar do clitóris para gozar. E ninguém fala
disso, e muitas mulheres se sentem constrangidas ao manipularem o clitóris. Mas
a sexualidade da mulher não é castrada. Ela é apenas mais misteriosa e sofreu
pela demora em ser entendida, principalmente, porque fisiologicamente é mais
interna. Quando Lacan diz que “a mulher não tem sexo”, acho que ele quer dizer
que ela é, na verdade, toda sexual. É simplesmente lindo! O que ela não tem é
gênero. A mulher é puramente erógena.

QUANDO DESCOBRIU SENTIR-SE EXCITADA COM AS CENAS DE
AMOR DOS FILMES QUE ASSISTIA NA TEVÊ, PERCEBEU QUE ERA
A MESMA SENSAÇÃO DE QUANDO SE TOCAVA NA VAGINA. NOTOU,
PELOS BEIJOS FALSOS DOS ATORES, QUE EXISTIA NO SEU CORPO
UMA EXCITAÇÃO AINDA SEM NOME. ESSA AÇÃO INGÊNUA, MAS JÁ
SEXUAL, COM O TEMPO – TALVEZ POR REPRESSÕES FAMILIARES OU
POR SUA PRÓPRIA PERSONALIDADE – PASSOU A PARECER COISA DO
MAL. NÃO SE CONTINHA EM SE TOCAR, MAS, LOGO QUE
TERMINAVA DE FAZÊ-LO, SE ARREPENDIA A PONTO DE ADOECER.
UMA NOITE, SONHOU COM O DEMÔNIO, EXATAMENTE COMO ELES
SÃO NOS FILMES DE MÁ QUALIDADE: COM CHIFRE, VESTIDOS DE
VERMELHO CETIM E COM UM TRIDENTE NA MÃO. TUDO PARECEU
MUITO CLARO E VERDADEIRO. NO SONHO, ESTAVA SENTADA NO
HALL DO PRÉDIO ONDE MORAVA, QUANDO ELE SE APROXIMAVA
LENTAMENTE E DIZIA COISAS. NÃO DE FORMA ATERRORIZANTE –
SIMPLESMENTE FALAVA COMO SE ESTIVESSE CONVERSANDO COM
ALGUÉM ÍNTIMO. ANA NÃO ESCUTAVA O QUE O DEMÔNIO LHE
DIZIA, APENAS VIA A CENA, DE FORA. QUANDO ACORDOU, ESTAVA
TRANSTORNADA, COMO FICA A MAIORIA DAS PESSOAS QUANDO
TEM PESADELOS. MAS ACABOU ESQUECENDO O OCORRIDO. ATÉ
QUE MAIS UMA VEZ SONHOU COM ELE, E TAMBÉM MAIS UMA VEZ
NÃO ESCUTOU O QUE ELE DIZIA. ASSUSTOU-SE, ACORDOU
APAVORADA. TINHA CERTEZA DE QUE AQUILO ESTAVA LIGADO À
EXCITAÇÃO QUE SENTIA QUANDO SE TOCAVA. ERA DAQUELA
FORMA QUE O EXÉRCITO ESTAVA LUTANDO PARA DESTRUÍ-LA E
CONDUZIR SEUS ATOS PARA O CAMINHO DO MAL E DA DESGRAÇA.
TUDO PARECIA MUITO CLARO PARA ANA. SÓ NÃO ENTENDIA POR
QUE LOGO O DIABO É QUE ESTAVA AVISANDO A ELA QUE O QUE
FAZIA ERA ERRADO. NÃO DEVERIA SER DEUS? OU, AO MENOS, O
SEU ANJO DA GUARDA?
Ao clitóris, querido companheiro

A distância entre nós impede que nos vejamos frente a frente, então
resolvi lhe escrever uma carta. Não tenho certeza do CEP da sua
localidade, mas espero que estas linhas cheguem até você. Primeiramente,
gostaria de lhe agradecer pelos grandes momentos que passamos juntos,
todos de tirar o fôlego. Espero poder repeti-los assim que tivermos a
oportunidade. Nós nos encontraremos lá, no nosso lugar. Eu, sempre sem
tempo; você, sempre um pouco atrasado. Gosto da nossa relação. Sem
grilos nem cobranças. Sem falsas ilusões. Respeito mútuo é o que eu diria
que temos em nosso longo convívio, e isso não é pouco.
Talvez devêssemos manter um contato maior, não sei, mas, mesmo
assim, não sinto qualquer culpa com relação a isso. Você, aliás, é o mais
calado. E não estou reclamando, ao contrário. Falo demais às vezes, e
você, nesse seu discreto silêncio, diz tudo o que eu queria dizer. Ou seja,
acho que nós temos personalidades opostas complementares, estando aí o
segredo do nosso relacionamento estável.
Talvez devêssemos, sei lá, ter viajado mais. Ou, quem sabe, ousado
mais. Cansa-me, porém, o excesso de conjecturas, sabe? Muitos “talvez…”
Tivemos bons tempos e maus bocados, mas sobrevivemos. E é isso o que
interessa. Restando-me apenas o segundo motivo desta carta, que é lhe dar
boas notícias. Nós vencemos. É, vencemos. O machismo opressor perdeu a
sua longa hegemonia sobre a sociedade. Em alguns lugares do mundo, sim,
muitas mulheres seguem em suas batalhas contra a brutalidade masculina,
mas são focos de ignorância que deverão ser apagados. O fato é que, sem
dúvida, hoje, podemos dizer que vencemos. Uma luta ancestral, cuja vitória
merece ser comemorada. Sendo essa a razão principal desta carta: dividir
com você essa conquista.
O sangue derramado não foi em vão. Desfrutamos, enfim, da liberdade
de fazermos o que quisermos. Claro, burrices é o que fazemos por vezes,
porque é o que queremos fazer; porém até a burrice é bem-vinda, já que é
mesmo a partir do erro que acertamos. Somos assim e parece que os
homens finalmente entenderam isso. Ou fingem que entenderam. Mas nós
dois, mais do que ninguém, sabemos que fingir funciona quase da mesma
forma, para efeitos práticos. Além do mais, os machos e as suas glandes
também não têm demonstrado grandes inteligências, através dos tempos,
têm?
Pois bem, é isso. Acho que temos o que comemorar. Nossa revolução foi
completada, mas novas lutas é o que não faltam. Diversas mulheres estão
se saindo bem em suas trincheiras, outras seguem vítimas de injustiças.
Estamos aqui para isso, porém, não é? Digo lutar. E, ainda movida pelo
mesmo calor revolucionário, permito-me soar repetitiva: unidos
venceremos.

Saudações,
F.Y.
TUDO AGORA E ASSEDIO
Acho que as pessoas estão pirando. Tudo agora é assédio. É uma loucura. Tem
assédio, sim, mas temos que saber discernir. Obviamente existem muitas
camadas: se alguém me agride, com termos chulos, falando de minha
sexualidade na internet, obviamente isso é sério. Mas se passo na rua, hoje em
dia bem menos, porque os homens, acho, estão mais educados e sabem que não
podem olhar para uma mulher e falar “gostosa”… Isso é assédio?

cho que as pessoas estão pirando. Tudo agora é assédio. É uma loucura.
Tem assédio, sim, mas temos que saber discernir. Obviamente existem
A muitas camadas: se alguém me agride, com termos chulos, falando de
minha sexualidade na internet, obviamente isso é sério. Mas se passo na rua,
hoje em dia bem menos, porque os homens, acho, estão mais educados e sabem
que não podem olhar para uma mulher e falar “gostosa”… Isso é assédio? Não é
assédio, é falta de educação. Acho grosseria, não gosto, não quero, e por isso
posso sempre me virar e dizer: vá para a puta que o pariu!
E isso acontece, ainda hoje, em vários lugares, e em alguns lugares mais,
porque é uma questão cultural, e a cultura é o que educa. E, por isso mesmo,
temos, por uma questão social, um desnível imenso em relação à cultura,
desnível proposital inclusive. Mas o fato é que os homens realmente têm um
histórico enorme de abuso e de assédio, e nós temos que saber distinguir. E entre
distinguir o assédio e todas as suas camadas e crer que você ser galanteada, ser
elogiada, é um desrespeito, há uma grande diferença. Porque essa proibição inibe
qualquer motivação para o outro. Acredito que teremos um mundo
extremamente complicado se continuarmos a pensar assim.
O que hoje pode ser considerado assédio era simplesmente parte do que
sempre foi um jogo erótico, entre homens e mulheres, homens e homens,
mulheres e mulheres. São tramas eróticas de sedução que, de um dia para o
outro, deixarão de existir? Que pena. Sentirei muito essa perda. Eu, por exemplo,
sou muito mais assediada por mulheres do que por homens. Mas muito mais… E
eu não as instigo, elas apenas se empoderaram de tal forma, que agem de
maneira mais descarada do que os homens. São muito mais incisivas. Muito
mais teimosas. Dependendo do comportamento, respondo igual a com os
homens e mando tomar no cu. Mas, na maioria irrestrita das vezes, considero
que sejam galanteios e não me fazem mal, mesmo eu não sendo gay.
Mas é um fato, as mulheres me assediam muito mais do que os homens. E
aí? Vamos dizer o quê? É machismo, feminismo, qual o “ismo” usamos para essa
condição? Creio que exista uma dinâmica dramatúrgica em que a sedução faz
parte. Para algumas pessoas mais, para outras, menos, mas umas suscitam mais
ideias do que outras, não importa. Agora, outra coisa completamente diferente é:
se vem um homem ou uma mulher, com quem estou trabalhando, coloca o pau
para fora, ou me oferece algo em troca de “favores”, coloca a mão em mim, faz
um comentário desrespeitoso ao meu trabalho, à minha condição física… aí é
uma outra história. Só acho importante marcar o que é uma coisa e o que é a
outra. A questão é que as pessoas estão alucinando. Alucinaram totalmente.
Eu adoro, por exemplo, o exercício da nudez no meu trabalho. A nudez é
uma comunicação humana e artística genuína, e deve ser utilizada. Ao mesmo
tempo, nunca usei roupas vulgares. Não gosto. Não suporto. Nem o meu biquíni
chega a ser vulgar… Quando vou à praia, fico por um triz de apanhar por causa
do tamanho do biquíni que estou usando. Após postar fotos com os meus
biquínis, já fui bastante sacaneada. Como se a absurda fosse eu, que não quero
pedaços ínfimos de lycra, cobrindo meus orifícios e mamilos. Esse é um grande
conflito na minha compreensão do Brasil. Sim, o Brasil, que é matéria-prima
pura para qualquer observador – melhor até para o observador externo, que nos
observa sem sofrer. Digo isso porque o brasileiro consegue ser muito evidente
nos seus erros. Somos, realmente, brilhantes no quesito erros. Ninguém erra
como a gente. Somos o país do carnaval, da bunda, do peito, e que exporta a
bunda, essa estética da bunda que sacoleja, e da qual agora o pop se utiliza. Hoje
em dia é bem claro que isso é uma coisa brasileira, nós somos os donos da
bunda. E, de repente, no país, vejo discursos alucinados só porque alguém foi
chamada de gostosa. Não que uma coisa justifique a outra; não justifica. Mas,
gente, alto lá! Não quer ser chamada de gostosa, tudo bem, não quer. A pessoa
finca um elástico na bunda e acha que aquilo é apenas uma expressão de seu
desejo de ser daquela forma. Mas será que não está querendo instigar excitação
no outro? Não existe aí o desejo de atrair por meio dessa condição? Desconfio
que sim. Pode querer não escutar “gostosa” de qualquer um. Mas uma vez que
estamos num país sem educação, onde, de uma maneira geral, se desrespeita o
outro nos mínimos detalhes, seja esse outro mulher, homem, gay, trans, velho,
criança etc., acreditar que não sofrerá alguma investida grosseira é compactuar
com a ignorância. Se a mulher está de topless em Cannes, pode ter certeza de
que não ocorrerá uma cena desagradável. Porque lá trata-se de um ato cultural.
Mas voltemos ao biquíni: acho muito mais erótico um biquíni do que a nudez. A
nudez é a nudez, está destituída de maldade. Agora se você finca, no local certo,
um elástico, acho que isso traz uma malícia de esconder algo que é muito mais
erótico. E é nessa malícia que vejo provocação. Não concordo em evitar o
biquíni. Mas, como já disse, acho que ainda estamos muito distante de uma
época e de uma sociedade em que seremos educados. Sei que falar sobre isso é
por demais sofisticado, para uma nação que foi destituída de toda e qualquer
autoestima, que assiste, há muito, à ausência de ética ser estimulada em todos os
setores da sociedade.
Neste momento, no Brasil, exige-se da conduta masculina algo que não
condiz com a formação ética nacional. O que devemos, sim, é usar o biquíni
enfiado na bunda, mesmo sabendo que podemos ser alvo de frases chulas, e
aproveitar isso para mudar a educação que é dada aos homens. Porque, sim, eles
são educados numa cultura que valoriza o “garanhão”. Caso um menino seja
mais delicado, sensível, a sociedade trata de avisá-lo de que homem deve ser
macho. Quando digo educar, quero dizer não somente dentro de casa, mas
ressignificar toda uma conduta histórica, alimentada em milênios de patriarcado.
Durante alguns anos, por exemplo, dei aula de literatura para meninas na
FEBEM, aqui em São Paulo. Depois dessa experiência, que considero tão
esclarecedora quanto a de ser mãe, noto que, quando você está exposto às mais
vis humilhações sociais como mulher, é muito difícil acessar códigos morais.
Aquelas meninas não tinham sequer a noção do que sofreram, e muito menos, de
seus direitos que as protegeriam de não sofrer. E aqueles discursos refletem o
histórico de patriarcado no Brasil, e hoje percebo como eles são esclarecedores
dos limites entre os assédios e abusos que alguém pode vir a sofrer.
VANI E AMIGA DIVIDINDO O LAVABO:
– VOCÊ VAI DAR?
– ACHO QUE VOU. E VOCÊ?
– TÔ NA MAIOR DÚVIDA.
– SE VOCÊ DER, EU DOU.
– QUERER DAR EU QUERO.
– ENTÃO DÁ, BOBA.
– VOU ACABAR DANDO.
– EU DARIA.
– MAS EU NÃO TOPO CERTAS COISAS.
– NEM EU. TEM UMAS QUE “ATÉ TALVEZ”, OUTRAS “SEM CHANCE”.
– ENGRAÇADO, EU TENHO MAIS PROBLEMAS COM AS
“ATÉ TALVEZ” QUE COM AS “SEM CHANCE”.
À bunda
Olha, dessa vez você passou das medidas. Só não boto você para fora
agora, porque é a sua cara dar escândalo.
Estou cheia de você atrás de mim o tempo todo. Fica se fazendo de fofa,
enquanto, pelas minhas costas, chama a atenção de todo mundo para meus
defeitos.
Você está redondamente enganada se pensa que eu vou me rebaixar ao
seu nível – o que vem de baixo não me atinge. Mas faço questão de
desancar essa sua pose empinada.
Você é, e sempre foi, um peso na minha existência – cada papel que me
fez passar… Diz-se sensível e profunda, mas está sempre voltada para
aquilo que já aconteceu. Tenho vergonha de apresentar você às pessoas,
sabia?
Por que você nunca encara as coisas de frente, bunda? Fica parecendo
que, no fundo, tem algo a esconder. Por acaso, faz alguma coisa que
ninguém pode saber? O que há por trás de todo esse silêncio?
Você diz que está dividida e que eu preciso ver os dois lados da questão.
Ora, seja mais firme, deixe de balançar nas suas posições.
Longe de mim querer me meter na sua vida privada, mas a impressão
que dá é que você não se enxerga. Porque está longe de ter nascido virada
para a lua e costuma se comportar como se fosse o centro das atenções.
Bunda, você mora de fundos, num lugar abafado. Nunca sai para dar
uma volta, nunca toma um sol, nunca respira um ar puro. Vive enfurnada,
sem o mínimo contato com a natureza. O máximo que se permite é aparecer
numa praia de vez em quando, toda branquela.
Não é de admirar que esteja sempre por baixo. Tentei levar você para
fazer ginástica, querendo deixar você mais para cima, mas fingiu que não
escutou. Saiba que você não é mais aquela, diria até que anda meio caída.
E vai ter que rebolar para mexer comigo de novo, da maneira que mexia.
Lembro do tempo em que eu, desbundada, sonhava em ter um
pouquinho mais de você. Agora acho que o que temos já está de bom
tamanho. E, pensando bem, é melhor pararmos por aqui antes que uma de
nós acabe machucada.
Sei que qualquer coisinha deixa você balançada, então não vou expor
suas duas faces em público. Mas fique sabendo que, se você aparecer,
constrangendo-me diante de outras pessoas, levarei seu caso ao doutor
Albuquerque.
Lamento, isso dói mais em mim do que em você, mas você merece o
chute que estou lhe dando.

Duplamente decepcionada,
F.Y.
UMA MULHER,PARA SER BOA
MAE, PRECISA PROTEGER O SEU
INDIVIDUO
Nesse mundo de hoje, o maior tabu ainda é a maternidade. Não tem assunto
mais sério, mais grave e perigoso do que a maternidade. As pessoas, elas acham
que é esse romance, essa sabedoria, essa bondade. E ter filhos é uma coisa
difícil demais. É um exercício constante e que requer, principalmente, extrema
honestidade.

esse mundo de hoje, o maior tabu ainda é a maternidade. Não tem assunto
mais sério, mais grave e perigoso do que a maternidade. As pessoas, elas
N acham que é esse romance, essa sabedoria, essa bondade. E ter filhos é
uma coisa difícil demais. É um exercício constante e que requer, principalmente,
extrema honestidade. Acho que, em geral, as pessoas não estão a fim de entrar
em contato com as suas fragilidades de maneira honesta. Elas não estão
querendo entrar em contato consigo mesmas no papel de mãe. Acho que o
discurso comum que afirma de maneira viciada: “Ah, é ótima mãe!” é
perigosíssimo. Estou o tempo inteiro questionando o meu “eu-materno”. E, para
tal, e para sobreviver ao grande perigo de me tornar uma mãe ineficiente, umas
das coisas que mais defendo é a minha felicidade. E felicidade, para alguém
como eu, que não é esfuziante ou eufórica, significa definir quem eu sou, o meu
indivíduo.
Uma mulher, para ser boa mãe, ela precisa, fortemente, proteger o seu
indivíduo. De todas, essa é a questão mais cruel. E o homem não sabe o que é
isso. É uma cicatriz que não volta. É uma felicidade que vem com uma
amputação. É a inversão da vida que vem com o tempo, ainda mais quando se
tem filha mulher. Vem o tempo, a decadência com a primavera do outro. É o
canto do cisne. É bonito, mitológico, mas pode ser doloroso. A maternidade é
um exercício constante e deve ser observado o tempo inteiro. Você pode ser uma
grande mãe de criança e uma péssima mãe durante a adolescência, por exemplo.
Por motivos vários, mas, principalmente, porque você não entrou em contato
com o disgusting, ou tudo aquilo que não foi visto, percebido, falado. A começar
com a mutilação do corpo. A gravidez é uma coisa indigesta. Mas posso afirmar
que fui uma grávida felicíssima. Vocês estão diante de uma pessoa que realmente
foi feliz grávida.
Engordei 30kg, estourei o corpo inteiro – eu que nunca tinha tido uma estria,
uma celulite. Aí, com certeza eu digo, depois de toda essa devastação, fiquei
mais bonita. Mas isso eu acredito que seja por causa da minha decisão de visitar,
dentro daquele processo, todo o meu “morrer” e o meu “renascer”, pelos quais
estava passando durante o processo de gestação. Porque, na hora que tive filho,
eu morri.
Eu já me arrependi de muitas coisas na minha vida, inclusive da
maternidade. Esse arrependimento não significa desamor. Não significa que vou
ser uma péssima mãe, que vou abandonar os meus filhos com a babá. O
arrepender-se é parte da sanidade e até mesmo do exercício amoroso. É o
momento em que você consegue elaborar que houve uma amputação. Já falei
isso para pessoas que ficaram estarrecidas: “Como assim?”, “O quê?”. Eu me
arrependi desde o primeiro momento, mas amei tão mais do que o
arrependimento que decidi continuar tendo filhos. Então o arrependimento não
se trata da exclusão da decisão. É apenas pensar assim: Bom, e se eu não tivesse
tido? Tudo que se conquista vem com uma grande dose de decepção. Você nunca
consegue nada sem frustração. Imagine filhos, que é, efetivamente, a única coisa
de que você não pode se desvencilhar?
É algo paradoxal, mas que convive em unidade. Eu posso, hoje, na hora do
almoço, não estar aguentando aquilo e pensar “puta que pariu”, e logo depois
pode vir um sorriso, uma história. Mesmo para mim, que sou uma pessoa que
tem uma existência complicada e que, individualmente, solitariamente, sou uma
pessoa que estou em conflito, boa parte da exclusão desse conflito e da
perseverança em continuar se dá porque tenho essa responsabilidade belíssima
que é fazer essas pessoas ficarem firmes, fortes e ver o processo de crescimento
delas. E isso diz respeito à minha necessidade de crescer com esse exercício e de
me fortalecer vendo essa potência que existe em mim de poder fazer algo
efetivamente por alguém e esse alguém, esses filhos, frutificar. Isso me serve,
isso está a serviço de minha necessidade. Não sou mártir. Eu preciso. Talvez eu
tenha quatro filhos para ter essa obrigação absoluta para com eles, e não me
perder nessas reflexões que só, muitas vezes, me conduzem a crer que é tudo
uma grande porcaria. Porque é. É. Lamento.
Os homens podem lidar muito melhor com o arrependimento da paternidade
do que as mulheres. Porque eles se ausentam com muito mais facilidade. Ou
estão presentes e, ao mesmo tempo, ausentes com muito mais facilidade.
Quantas e quantas famílias têm mulheres como “chefes” de família porque os
homens foram embora? Quando eu digo que a tecnologia humana é mal-
acabada, reconheço que o homem e a mulher têm ônus e bônus nas suas
condições. Basta ver o mundo e reconhecer que ele é ruim em sua totalidade. A
gente sobrevive porque tem a noção do coletivo, do familiar, do outro. Os
sentimentos, eles são educáveis. O amor é um sentimento que se educa. A
compaixão é um sentimento que se educa. Agora a natureza, na sua pulsão
bárbara, ela é simplesmente competitiva e desagradável. Então o fato é: o
homem tem, em sua natureza, uma capacidade incrível de não encarar o
problema. Nada mais indigesto para o homem do que uma mulher com
problema. Uma mulher que tem um filho doente, por exemplo, quantos são os
pais que conseguem conviver com isso? Que conseguem permanecer ao lado de
uma mulher quando uma criança adoece? Essa é a natureza da fuga masculina. A
mulher é muito mais resistente à dor. Não passei por isso porque esperei sete
anos para ter um filho do Alexandre porque o observei muito bem. Muito bem.
Essa é a questão, por exemplo, com engravidar. É um negócio que é da
responsabilidade dos dois; mas muito mais da mulher. Por outro lado também,
quando a gente quer engravidar, a gente engravida e fodam-se eles, né? O
homem não tem o menor domínio sobre isso. A não ser que use camisinha, ou
faça uma vasectomia, o homem está sob o domínio da fertilidade, está submetido
a ela. E nós sabemos usar isso muito bem. Por isso que o direito ao aborto é
fundamental: ninguém pode decidir o resultado de uma gravidez indesejada, a
não ser a própria mulher. Mas isso não a isenta da responsabilidade sobre a
gravidez e a decisão de interrompê-la.
Um homem que não programou uma gravidez tem a sua parcela de culpa, e
muitas vezes a paga tendo que se casar, o chamado “golpe de bucho”. A falta de
uma decisão pensada, debatida, de ter ou não ter um filho, é uma constante na
formação das famílias. Muitas vezes, a “gravidez acidental”, por mais que seja
disfarçada, está fadada a resultar numa trama malsucedida. Mas esse é um dos
assuntos que são sofisticados demais para um país com bases éticas decrépitas.
Controle de natalidade. Um homem no Brasil só pode recorrer à vasectomia pelo
serviço público, caso tenha mais de dois filhos e após os 30 anos. Em países
civilizados, homem e mulher podem ser esterilizados depois da maioridade,
mesmo sem filhos. Uma nação “religiosa” nem sequer faz a campanha de
prevenção da gravidez. Somos um país de crianças abandonadas, descritas, após
uma certa idade, em que já não são atraentes para a adoção, como “crianças de
ninguém”.
Quando engravidei das gêmeas, foi realmente muito confuso, porque foi uma
decisão abrupta, porque ser mãe era uma coisa que eu nunca quis, e, de repente,
eu quis. Então eu estava com uma fome muito grande de ser mãe, e foi tudo
muito rápido. Eu tive um “não” muito grande dentro de mim, a vida inteira, e, de
repente, quando elas nasceram, aquela era uma novidade tão grande para mim,
que, no surto, tentei ser igual. Foi a única vez, na minha vida, que tentei me
adequar. E foi horrível. Tentei realmente fazer tudo direitinho, não do direitinho
normal – isso eu sempre faço, sou superdisciplinada, me alimento bem, faço
exercícios, vou a médicos –, era um direitinho do medíocre absoluto. Eu achava
que tinha que ir para o parquinho e estender o paninho todos os dias. E, no fim
de semana, eu tinha que ir ao clube. E ir a todas as festinhas. Mas desde quando
o clube fez parte da minha vida? Comecei a fazer coisas estranhíssimas, que
nunca tinha feito antes, e que não são imprescindíveis para a sobrevivência da
criança. Mas eu achava que era o lindo. O lindo absoluto.
Dois anos indo ao parquinho, dois anos sem beber, sem trepar… não sei onde
eu estava com a cabeça. Talvez na mediocridade. Dizem que a mediocridade é a
atuação do ser. Não é o ser em si. É quando você se descola; é Brecht, você
atuando em cima do personagem. E cismei que era assim que deveria ser mãe.
Foi um momento em que percebi que estava, realmente, muito deprimida. Fui a
um médico na época que disse: “Você precisa trepar de qualquer maneira.” E eu
dizia: “Eu não quero.” E eu não queria. E aquilo não estava me ferindo nem
estava amargurada. Foi simplesmente a total exclusão da ideia. Engraçado é que,
nesse mesmo período, escrevi um livro extremamente erótico, O efeito Urano, e
me era de um indigesto absoluto pensar em fazer sexo. Talvez porque eu estava
me sentindo, finalmente, acompanhada, acredito. Porque ninguém nunca está
sozinho com duas gêmeas. Estava me sentindo uma rainha. Tive uma autoestima
que nunca tive. E o amor foi se dando no convívio. Ao mesmo tempo, eu já não
era mais ninguém. E daí veio a necessidade de ter mais filho, justamente para
exercitar melhor a maternidade, sem a ignorância dessa primeira experiência.
Mas, como as coisas comigo sempre são muito peculiares, não consegui
engravidar de novo. Então decidimos por uma gestação de outra ordem, que é a
adoção, que também é muito mágica e muito interessante. É uma gestação que
você não sabe quanto tempo vai durar e é uma gestação que não é mais só sua,
ela é da casa. Você não é mais detentora dessa nave-mãe.
Eu queria ter engravidado de novo, mas, infelizmente, não consegui. Queria
ter de novo essa experiência de “estar acompanhada”.

ANA SE APROXIMOU DE JAIME E BEIJOU-LHE A BOCA. NÃO HAVIA
POR QUE SE CONTROLAR, COMO TINHA FEITO ANTES. ESTAVA
TÃO EXCITADA, NÃO QUERIA OUVIR NADA, DIZER NADA, APENAS
BEIJAR E BEIJAR E BEIJAR. PODERIA FICAR UMA HORA BEIJANDO,
FEITO UMA ADOLESCENTE. QUERIA SE LEVANTAR, BEIJAR DE PÉ,
SENTIR O PÊNIS RIJO DAQUELE HOMEM. ERA COMO SE TIVESSE
QUINZE ANOS E DESSE O SEU PRIMEIRO “AMASSO”. O PÊNIS, DURO
DENTRO DA CALÇA JEANS, ERA O MESMO DE ANOS ATRÁS.
NAQUELE INSTANTE, SENTIA-SE PODEROSA. O PAU DE JAIME ERA O
PRÊMIO MERECIDO POR TER SEIOS, NÁDEGAS, VAGINA E, POR ISSO,
MENSTRUAR, USAR SUTIÃ E LUTAR CONTRA A FORÇA DA
GRAVIDADE QUE TUDO IMPULSIONA PARA BAIXO,
PRINCIPALMENTE AS BUNDAS FEMININAS. ERA O TROFÉU, POR
TODAS AS CENTENAS DE ANOS SENDO DISCRIMINADA, PELO
SALÁRIO MENOR QUE SEMPRE RECEBERIA, POR TER QUE TOMAR
PÍLULA OU TER UM SER EM TRANSFORMAÇÃO DURANTE NOVE
MESES DENTRO DA BARRIGA. ESSE PAU ERA A GRATIFICAÇÃO QUE
METERIA ENTRE AS PERNAS, COLOCARIA NA BOCA, COMANDARIA
O SEU TAMANHO.
Cara Lata de Leite,

desculpe a intimidade de escrever uma carta assim, tão sincera, mas


sinto como se fôssemos parentes. Minha mãe é Leite, e meu nome de
solteira é Fernanda Maria Leite Young. Além disso, convivo com você há
mais tempo do que com qualquer outra coisa, vendo-a todo dia, desde
pequena, sempre igual, em minha mesa de café da manhã. Ajo, portanto,
movida pelo coração. Temendo, por isso mesmo, ser mal compreendida.
O motivo desta carta é que notei, outro dia, algo diferente em você. Um
retângulo. Com um texto em que o Ministério da Saúde adverte que você
não é boa para crianças. E que as mães devem amamentar seus filhos até
os dois anos de idade, no mínimo, se possível até mais. Confesso, fiquei
confusa. Sei que você deve ter sido obrigada a concordar em colocar
aquilo ali, mas por acaso você conhece as crianças de dois anos de hoje em
dia? São bastante diferentes daquelas do nosso tempo, querida Lata. Boa
parte delas já está frequentando colégios. Algumas, com três anos, fazem
cursos de inglês, natação, balé e até computação. Claro, estou falando das
crianças de famílias da classe média urbana. Mas é para essas famílias que
vocês, latas de leite, são destinadas, correto? Então, imagine comigo: o
garotinho chega do curso de computação, joga um pouco de video game; aí
a mãe volta do trabalho e ele vai chupar os peitos dela. Ou: a garotinha
chega do balé e telefona para uma amiga marcando de ir ver um filme na
casa dela assim que acabar de mamar na mãe.
Será que isso é realmente melhor para a saúde dessas crianças? Será
que ter uma mente sã não é tão importante quanto ter um corpo são? Será
que as deficiências do leite em pó com relação ao leite materno não seriam
menos perigosas que os riscos de trauma psicológico? Não sei responder.
Mas sei que amamentei minhas filhas até os três meses e me senti um traste
quando parei. Porque todos me diziam que era melhor continuar – apesar
de eu estar exaurida, com os peitos estuporados e a mente desnorteada
pelas transformações trazidas pela maternidade. Todos, menos o meu
marido, que me apoiou na decisão, dizendo que achava muito mais
importante, para as meninas, ter uma mãe segura e feliz do que qualquer
benefício que o aleitamento pudesse trazer.
Sei que muita gente me execraria pelo conteúdo desta carta, por isso
mando-a só para você, amiga Lata, contando com a sua discrição. Tenho
certeza de que você entenderá o que estou tentando dizer. Que não estou
fazendo campanha contra o leite materno nem a favor das multinacionais.
Que estou apenas tentando propor uma nova visão sobre uma antiga
verdade. Para que outras mães não venham a sofrer com tanta culpa. E
para que outras crianças não venham a sofrer com tantas mães que, depois
de passarem 20 ou 30 anos de sua vida consumindo porcarias, são levadas
a crer que seus seios são fontes de pureza.

Com carinho,
F.Y.
ACHO QUE ME MATO A TER QUE
SER DONA DE CASA
Estou achando que agora, inclusive, tem muitas mulheres decidindo voltarem a
ser donas de casa e estou estarrecida. Esse discurso do feminismo é muito bom,
muito produtivo até que a mulher decida que não quer mais trabalhar. Quer
parar e cuidar dos filhos. A quantidade de mulheres que hoje querem viver a
maternidade em sua intensidade e que não vão negar esse princípio é também
um discurso que reconheço e que respeito. Mas eu, na minha experiência de
vida, e como mulher, acho que me mato a ter que ser dona de casa.

stou achando que agora, inclusive, tem muitas mulheres decidindo


voltarem a ser donas de casa e estou estarrecida. Esse discurso do
E feminismo é muito bom, muito produtivo até que a mulher decida que não
quer mais trabalhar. Quer parar e cuidar dos filhos. A quantidade de mulheres
que hoje querem viver a maternidade em sua intensidade e que não vão negar
esse princípio é também um discurso que reconheço e que respeito. Mas eu, na
minha experiência de vida, e como mulher, acho que me mato a ter que ser dona
de casa. Prefiro carregar saco de cimento numa obra, o dia inteiro, do que ser
dona de casa. Porque o fato concreto é: nós nunca deixamos de ser dona de casa.
Então imagine o pesadelo que é ter que ser dona de casa integralmente. Ora,
quando não estou trabalhando na rua, estou trabalhando em casa ou estou o
tempo inteiro lidando com assuntos chatos de casa. O tempo inteiro. Tenho
pavor. Tenho pavor, por exemplo, de comprar um objeto doméstico. De gastar o
dinheiro, que eu ganhei, para algo para casa. No Brasil é mesmo um horror, tudo
caríssimo e de má qualidade. Fico puta da vida.
O mais interessante de tudo é que nós não excluímos nada. A gente só
acumulou. Fico puta com esse papo de conquista de direitos. Eu estou é me
fodendo com as minhas conquistas de direitos. Conheço um monte de mulher
sonsa, que faz a dependente, mas é muito mais livre do que eu. Eu, com os meus
compromissos, estou exausta. Sou financeiramente importante na minha casa, e
estamos lidando com uma história muito específica, estamos falando de um
homem que nunca olhou para o café da manhã na mesa e falou “não tem bolo?”.
Ai dele! Se tem cream cracker, que ele abra esse cream cracker e agradeça. Eu
nunca coloquei uma mesa para ninguém na minha vida, mas sei o quanto
conquistei de funções e nunca descartei nenhuma. E não dá para descartar. Bem
fez a Yoko Ono, que decidiu, junto com o John, que ele cuidaria do filho,
enquanto ela ia trabalhar. E ele parou, se voltou para o exercício doméstico e ela,
que é uma grande empresária, fez o dinheiro deles aumentar incrivelmente. E ela
sempre foi considerada uma escrota. Mas é uma visionária.
O fato inevitável é que, na maioria dos casos em que o homem ajuda, e agora
tem todo esse discurso que o homem também tem que trocar a fralda, a grande
trabalheira e a grande exaustão, elas são femininas. E a mulher continua
trabalhando, e, se decide ter filhos, continua com afazeres que são enjoativos.
Quantas vezes o Alexandre foi ao pediatra? Essa conquista de direitos foi, na
verdade, um grande acúmulo de funções. Eu me arrependi o tempo inteiro disso
tudo. De certa forma, por não ser de uma família abastada, que não é de artistas,
e ter sonhado tão alto, fui sempre muito persistente em alcançar as minhas
metas. Eram metas improváveis. Recentemente assisti ao filme Lady Bird e
chorei copiosamente. Eu me dei conta de que fui uma adolescente muito
corajosa. Sempre penso num poema de Walt Whitman: “Ó! Como sonhei coisas
impossíveis!” Na época, eu não me dava conta de que o mais provável seria eu
não conseguir realizar nem um décimo do que sonhava. Chorei também porque
agora, aos 47 anos, vejo as minhas filhas mais velhas sonhando em realizar
tantas coisas, e mesmo que eu as incentive, existe o temor que ronda a
juventude.
Quando digo que me arrependi o tempo todo, não significa que faria tudo
diferente, mas que admito o preço das minhas decisões, e que sempre soube que
nada seria fácil, mas agia tomada pelo resoluto frescor da juventude. Logo no
início do meu adultecer, eu estava casada, morando numa cidade nova,
escrevendo o meu primeiro romance. Eu o publiquei na sequência. Fui
reconhecida e criticada. Assumi, nessa época, a minha condição depressiva e
soube lidar com o diagnóstico com maturidade, mas ainda romantizava a
questão, afinal era quase um pré-requisito para o meu status. Lancei muitos
livros em poucos anos. Tive as gêmeas aos trinta. Aconselhada por um pediatra,
tomei a decisão perigosa e burra de parar com a medicação que tomo para a
depressão. Tive uma crise nos primeiros meses do pós-parto, que culminou num
quadro grave depressivo. Eu tinha 33 anos, as pessoas me agrediam por eu falar
o que penso, fazer o que quero. E, no imaginário, essa liberdade é muito mais
afrontosa e imoral do que é. Não me justifico. De fato defendo ferozmente o
direito de fazer o que eu quiser. E se não realizo o que o outro pensa de mim, é
por puro tédio. Sou uma pessoa de hábitos prosaicos, extremamente recolhida,
que tem a idade emocional que varia dos 6 aos 17 anos. Mas, quando me
comprometo com algo, não arredo o pé da obrigação de realizar com qualidade.
Principalmente se isso diz respeito aos meus filhos, minha família e ao meu
trabalho. Ou seja, sou uma pessoa exausta. Faria tudo igual, porque tenho sido
Eu com muita honestidade, mas me arrependo de ter sonhado tão alto. Ou
melhor, talvez quisesse ser menos idealista, um pouco dissimulada, me
refestelando na condição de “mulher/minoria” que precisa ser cuidada.
À beira dos 50 anos, após ser tão criticada por ter sido uma autora jovem,
penso que o tempo não está me trazendo nenhum conforto. Aos 40 posei nua,
com o intuito de mostrar que Ele, o Tempo, não é indigesto para a mulher, como
a nossa cultura atesta. Acho-me mais bela a cada ano, sinto-me mais anárquica
também. Afinal, nem sempre tem sido fácil e se fui uma adolescente dita
rebelde, sem ter a menor infraestrutura, imagine agora. Entrei na temporada do
“fi-lo porque qui-lo”. Não tenho paciência para a maioria das relações sociais,
mas sou boa amiga e ótima profissional. Quando sou convidada – cada vez
menos, já que sou mesmo bem reclusa – para eventos, shows, festas, nem cogito
que estou perdendo oportunidades “incríveis” de me divertir, ou conhecer
pessoas. Cada dia que passa, e há muito, sei que o melhor lugar em que posso
estar é em mim. Essa é uma lição que aprendi que deixo com muito amor, neste
livro, e todas as vezes em que dou entrevistas: tenham autoestima. Espero que eu
possa inspirar meninas, mulheres, e também meninos, homens, a habitarem em
si, jamais no outro. Com o(a) outro(a) nós exercitamos inúmeros estágios do
crescimento. Aprendemos mesmo quando erramos. Mas somente você estará o
tempo inteiro aí, seja na festa, no esplendor de grandes ocasiões, nas dores,
principalmente nas dores…
Acho que devo retificar a informação de que não me arrependo de nada:
gostaria de não ter vivido algumas coisas. Talvez, talvez, eu apenas quisesse ter
feito outros caminhos, só para comprovar que não é necessária a dor para se
alcançar algo. Não suporto quando dizem que eu não seria quem sou se não
tivesse sofrido. Penso que esse discurso é grosseiro. E se me ocupo em instigar
artes das pessoas, devo defender que qualquer estereótipo para o artista é uma
burrice. Caso eu consiga ajudar uma pessoa, fazê-la crer que irá conseguir, ao
menos poderei aceitar que não foi em vão.

LEMBRA DA ALEX FORREST, A PERSONAGEM DA GLEEN CLOSE,
NAQUELE FILME ATRAÇÃO FATAL? ELA FAZ UM MONTE DE
COISAS HORRÍVEIS, PORÉM TUDO FICA EXPLICADO. TANTO QUE,
CONFESSO, VEJO E REVEJO A HISTÓRIA, E SEMPRE SINTO UMA PUTA
COMPAIXÃO POR ELA. CHEGANDO A TORCER POR ALEX, EM
DIVERSOS INSTANTES, MESMO SABENDO DE COR AQUELE FINAL.
RECONHEÇO QUE É PORQUE EU SOU MAIS SENSÍVEL QUE A
MAIORIA DAS PESSOAS, E TAMBÉM MAIS EXPERIENTE NESSE TIPO
DE ÓDIO, QUE ÀS VEZES DÁ, PODENDO FAZER UMA LEITURA MAIS
DELICADA DA PERSONALIDADE DELA. CALCADA EM
CONJECTURAS, É CLARO, POIS O FILME NÃO NOS OFERECE MUITO.
NÃO ACHO O FILME RUIM, SOMENTE UM TANTO SUPERFICIAL NO
QUE SE REFERE À APRESENTAÇÃO DA MOTIVAÇÃO DA
PERSONAGEM MALUCA. VEJA BEM: DAN, O CARINHA, FEITO
MAGISTRALMENTE PELO MICHAEL DOUGLAS, É UM CÍNICO. NÃO
POR HAVER TRAÍDO A ESPOSA COM ALEX – ISSO ELE DEVE TER
FEITO VÁRIAS VEZES ANTES, COM MUITAS OUTRAS, NA SUA
VIDINHA DE GARANHÃO BEM-CASADO. DAN É CÍNICO PORQUE É O
PERFEITO HOMEM DE HOJE, QUE EVOLUIU DO HOMEM DE
ANTIGAMENTE, PARA MANTER-SE O HOMEM DE SEMPRE. ELE É
GENTIL COM SUA MULHER, AINDA DÁ UMAS TREPADAS COM ELA,
MESMO QUE ELA NÃO NOS ACENE COM NENHUM ATRATIVO; POIS
NO FILME VIVE PARA O LAR, NO LAR, ENTREGUE AO GÊNERO
“NATURAL, MEIGA E COMPREENSIVA”. ELE SE MOSTRA GRATO POR
ELA SER ASSIM E SE DEDICAR COM AMOR ÀQUELA PARTE DA VIDA
DE UM HOMEM QUE PRECISA ESTAR ORGANIZADA, PARA QUE ELE
POSSA TRAZER MUITO DINHEIRO PARA CASA. TALVEZ ANN. VAMOS
CHAMÁ-LA DE ANN, AQUI. ENTÃO, É ANN QUEM CUIDA DAQUELES
DETALHES TODOS QUE OS HOMENS, POR MAIS LEGAIS QUE SEJAM,
NÃO GOSTAM DE CUIDAR: CRIANÇAS, COMIDAS, SUPERMERCADOS,
LOUÇAS, ROUPAS, ROUPAS DE CAMA, PANOS DE PRATO, POEIRAS,
ÁCAROS, RETROVÍRUS. ANN É DO LAR, COM MUITA SATISFAÇÃO E
EFICIÊNCIA. NAS FÉRIAS, ELA VIAJA COM O MARIDO PARA
LUGARES EXÓTICOS BACANAS, ONDE PODEM RELAXAR DO
RESTANTE DO ANO, E, NOS ANIVERSÁRIOS, ELA GANHA UMA JOIA
LINDA, COM UM TOCANTE BILHETINHO. ALGUÉM PODE
QUESTIONAR SE ANN É FELIZ? LÓGICO QUE É – QUEM NÃO SERIA
FELIZ TENDO UMA VIDA CRETINA DESSA? BONS APARELHOS
DOMÉSTICOS E BOA CONVIVÊNCIA FAMILIAR – EXISTE ALGO A
DESEJAR ALÉM DISSO? ENTÃO A ANN DO DAN É DOCE E
PARTICIPANTE, E FOI GRAÇAS À ESTABILIDADE DELA QUE O
MARIDO CONSEGUIU SE TORNAR O ADVOGADO PROMISSOR QUE É,
QUASE COM DIREITO ÀQUELA TÃO ESPERADA PROMOÇÃO, QUE O
LEVARÁ A SÓCIO-JÚNIOR DA FIRMA. AÍ APARECE ALEX. QUE FODE
LOUCAMENTE COM DAN. ELE FICA TÃO CULPADO COM AQUELA
FODELANÇA QUE DÁ SINAL VERDE PARA A ESPOSA COMPRAR A
CASA DOS SONHOS DELA, NO SUBÚRBIO. OU SEJA, FOI A ALEX QUE
PROPORCIONOU ESSE UPGRADE NA VIDA DO CASAL. SE AQUELA
VAGINA LOIRA DESCABELADA NÃO TIVESSE SE ENFIADO NA
HISTÓRIA, TALVEZ DAN NÃO TIVESSE A CORAGEM PARA ARRISCAR
UM TANTO NUMA HIPOTECA. NISSO A HISTÓRIA É BASTANTE
CLARA: O MARIDO ESTAVA RETICENTE, ATÉ A CHEGADA DA CULPA.
E VEJO QUE É ASSIM MESMO; SEI DE VÁRIOS OUTROS CASOS EM
QUE SITUAÇÃO SEMELHANTE OCORREU. O QUE NOS LEVA À NOSSA
PRIMEIRA GRANDE CONCLUSÃO: É COM A CULPA QUE SE MOVEM
OS HOMENS. HOMENS SE CASAM POR SE SENTIREM CULPADOS,
TOPAM TER FILHOS POR SE SENTIREM CULPADOS. AS ANNS,
PORTANTO, PRECISAM DAS ALEX. DANS TAMBÉM PRECISAM DAS
ALEXS, PORQUE NÃO QUEREM MAIS TRANSAR COM SUAS ESPOSAS,
MAS NECESSITAM DELAS CUIDANDO DA CASA. E O MERCADO
IMOBILIÁRIO TAMBÉM PRECISA DAS ALEXS, PARA VENDER CASAS
MELHORES – OU SIMPLESMENTE MAIORES, JÁ QUE DEVEM DAR
CADA VEZ MAIS TRABALHO DOMÉSTICO ÀS ANNS. ÓBVIO, ISSO SE
TRATA DE UM OLHAR DA MINHA PARTE; NÃO ESTOU TENTANDO
SUGERIR QUE ESSE FILME, DE VINTE ANOS ATRÁS, AINDA SEJA UM
TRATADO EXATO SOBRE O QUE ACONTECE. TODOS SABEMOS DA
EVOLUÇÃO DO PAPEL DA MULHER NA SOCIEDADE, TODOS
CONHECEMOS MUITAS MULHERES QUE VIVEM SOZINHAS E SÃO
DONAS DE SEUS NARIZES. E MULHERES QUE ATÉ SUSTENTAM OS
HOMENS, ENQUANTO ELES ARRUMAM A CASA. MAS O QUE HÁ DE
MAIS TRÁGICO NAQUELA TRAMA NÃO SE MODIFICOU. NE SE
MODIFICARÁ JAMAIS, TEMO. NÃO ESTOU FALANDO DE TRAIÇÃO,
ESTOU FALANDO DA INJUSTIÇA COM QUE É TRATADA A MULHER
QUE SURTA, QUANDO CANSA DE SER ÚTIL AOS OUTROS. SE EU
FOSSE PRESUNÇOSA, DIRIA QUE ESTAMOS DESVENDANDO, AQUI,
UM MITO. O MITO ALEX FORREST. TÃO FORTE, QUE CONSEGUE
ATRAIR SEU JÁ ARREPENDIDO AMANTE PARA UM SEGUNDO
ENCONTRO. EM QUE TREPAM COMO NUNCA: NA PIA, NO CHÃO, NAS
MESAS, PELAS PAREDES. E ELE, EXAUSTO DE TANTA TREPAÇÃO,
RESOLVE DORMIR LÁ, NA CAMA COM ELA, APROVEITANDO QUE
ANN ESTÁ FORA ATÉ SEGUNDA. SE NÃO ME ENGANO, ESTÁ
JUSTAMENTE VISITANDO A TAL CASA QUE ELA SONHA EM
COMPRAR, QUE – DETALHE – FICA VIZINHA À CASA DOS PAIS DELA.
POIS SIM, NESSA PROVIDENCIAL AUSÊNCIA DE ANN, DAN,
SENTINDO-SE CULPADO POR TRATAR ALEX MAL, RESOLVE DAR
UMA SEGUNDA TRANSADA COM ELA. DE ONDE CHEGA, DOMINGO
DE MANHÃ, CULPADÍSSIMO. E A PRIMEIRA COISA QUE ELE FAZ É
LIGAR PARA A CASA DOS PAIS DE ANN, QUERENDO FALAR COM
ELA, SOBRE ESTAR MAIS FAVORÁVEL À COMPRA DO IMÓVEL.
COMO É SÓRDIDO TUDO ISSO.
Ao pequeno sabotador interno

Venho por meio desta manifestar o meu repúdio pelo seu recente
comportamento. Você estragou tudo, mais uma vez.
Quando me aprontava para sair, disse que eu estava feia. Quando
experimentei outra roupa, insinuou que eu já não tinha idade para usar
aquilo. Quando cheguei ao meu compromisso, não me deixou falar o que
eu havia pensado. E, no fim, ainda conseguiu me fazer ser grossa,
apressando as despedidas.
Ora, quando você irá crescer? Cansei da sua irresponsabilidade.
Compreenda, de uma vez por todas, que estamos no mesmo barco. Se
afundo, você vai junto – será que essa metáfora não está óbvia o
suficiente?
Não me venha, portanto, com argumentos de homem-bomba. Se você
discorda de mim tanto assim, por que não vai embora daqui de dentro?
Abaixe esse punhal, apontado para as minhas costas, e cave com ele um
túnel de fuga se for necessário. Não podemos continuar desse jeito, nessa
burra relação autodestrutiva, em que o conteúdo fura a própria
embalagem.
Até quando você me elogia é com o intuito de me derrubar, já
percebeu? Faz com que me acredite linda e sagaz para, no instante
seguinte, rir dos meus tropeços. Dizendo “não falei?”, com aquela sua
cara de madrasta. Torpedeando minhas forças ainda durante os planos de
ataque. Minando meus passos ao pisá-los comigo.
Chega, então. Paremos com isso, antes que acabe em tragédia. Antes
que, na falta de um gesto meu, por você evitado, eu desabe em escombros.
Quero, mais do que nunca, me arrepender depois do que digo e do que
faço. Abro mão, com alegria, de todos os seus péssimos sábios conselhos. A
vida é curta demais para tamanha precaução e longa demais para se
repetir os mesmos erros.
Sim, cheguei a me divertir em sua companhia, quando ainda conseguia
ver algum charme no insucesso. Tempos passados. Hoje, luto com unhas e
dentes para que tudo dê certo. E das suas ideias, sempre cheias de lógico
pessimismo, preciso distância.
Não pretendo, porém, uma separação litigiosa, pois sei que você
conhece todos os meus pontos fracos e aguarda apenas uma boa
oportunidade para atingi-los. Com suas observações de última hora,
mortalmente precisas. Proponho, isso sim, um cessar-fogo: você deixa de
me dar conselhos e eu imediatamente deixo de segui-los. Parece-me uma
trégua justa.
Não lhe desejo mal — entendo que você fez o que tinha de fazer, muitas
vezes com a minha velada cumplicidade. Mas estou pronta a ir até o fim
nessa luta, a tirar você de mim quanto antes. Saiba que, a partir de hoje,
você está como imigrante ilegal aí dentro. E pode até conseguir fugir por
um tempo, escondendo-se em subterfúgios. Seus dias de impunidade,
entretanto, estão contados.
Se você não me atrapalhar, é claro.

Abraço,
F.Y.
DESEJOS PARA UM MUNDO POS-F.
Que não mais precisemos usar o #feminismo.

s pessoas não podem ouvir falar de morte no Ocidente. Eu, no episódio


que vivi recentemente da doença de Alexandre Machado, considero que
A morri e nasci de novo. Assim como me senti quando tive filhos. Morri e
nasci de novo. Nesse momento agora me sinto num pós-parto que, mais uma
vez, estou achando estranhíssimo. Apesar de não estar numa crise depressiva,
como antes, volto a uma mesma questão: quem é essa pessoa aqui? Aquela não
existe mais. Ao mesmo tempo, as mortes pelas quais passamos em vida, são
espetaculares.
Tem mais de um ano que essa jornada se iniciou, que entrei em contato com
essa circunstância, e hoje eu simplesmente me sinto extremamente feliz,
extremamente grata, extremamente excitada com as conquistas e, ao mesmo
tempo, extremamente cansada, às vezes muito magoada, muitas vezes me sinto
vilipendiada. Outras, me vejo alimentando uma espécie de rancor, porque me
sinto roubada. Então é um negócio que você fica em estado perplexo,
simplesmente, não existe mais aquela. E aquela estava num ponto que lutei
bastante para alcançar. Havia entrado “em velocidade de cruzeiro” a caminho da
velhice. Mas como eu não tenho medo da morte, vejo como incrível poder
renascer de novo. Com toda a certeza, me sinto melhor, me sinto mais sábia.
Mas, com certeza, a tal velocidade que iria me conduzir a um pouso sereno na
terceira idade foi arrebatada por turbulências. Talvez assim, aos trancos e
barrancos, renascendo, seja de novo, para mim, reviver o arrebatamento de
minha complicada adolescência. Só que agora, agora eu sou mesmo apaixonada
por mim, e não admito desaforo.
E, se me contradigo em alguns momentos desta jornada, não é por fraqueza,
mas porque a vida é inexata e segue me espantando. Humildemente questiono a
cada instante o instante anterior. O que não desacredito nunca é na potência do
amor, que cura, que recupera. Amar é um exercício. Aprendemos a amar, caso
estejamos atentos, mesmo nas situações mais adversas. Por isso, amamos.
Porque ninguém disse que era fácil, e não será. Hoje, por me sentir
estranhíssima, fiz uma lista de desejos para esta nova vida, para este mundo que
desejo, o Pós-F.:
- Que não mais precisemos usar #feminismo.
- Que falemos da ereção da mulher, como se fala da ereção do homem.
- Que a palavra look seja extinta do vocabulário.
- Que a cafonice também seja extinta.
- Que a ignorância, o maior problema do século XXI, também seja extinta.
- Que tenhamos a liberdade de mostrar os seios, assim como temos de
mostrar a bunda.
- Que eu seja menos irascível.
- Que eu seja menos crítica – comigo e com os outros.
- Que, num último dia nesse mundo, eu me abrace muito e me jogue muito
para o alto, porque eu consegui fazer coisas incríveis nessa vida.
- Que, numa próxima vida, eu me encontre de novo com Alexandre
Machado. Mas dessa vez, eu quero que ele seja mulher.

ACONCLUSÃO É: TODOS TÊM O MUNDO AOS SEUS PÉS. TÊM. PISA-
SE E NO QUE SE PISA, É MUNDO. POUCOS, SIM, SÃO OS QUE TÊM
ESSA NOÇÃO; OS POUCOS QUE PODERÃO SE TORNAR OS ETERNOS.
QUE VÃO DEIXAR MARCAS DAS SUAS PASSAGENS NA CALÇADA.
MAS TODOS, ATÉ OS DA MAIS BAIXA AUTOESTIMA, DORMEM O
SONHO INDIVIDUAL DO SER. SER ALGUMA COISA NO MUNDO – POR
QUE ALGUNS NÃO CONSEGUEM? NÃO, TODOS CONSEGUEM. SER É
FÁCIL. NÃO EXISTE QUEM DEIXE DE TER A SUA LINHAZINHA
TRAÇADA NO GRÁFICO DO SIMPLESMENTE EXISTIR, TORNANDO-SE
ALGUÉM, MESMO QUE SENDO NINGUÉM. E A VIDA, ORA PORRAS, É
TÃO SOMENTE ISSO, SER UMA COISA, QUALQUER COISA, UM
MERDA, UM MERDINHA. UM OTÁRIO QUALQUER QUE SE ACREDITA
SEDUTOR. QUE SE SABE UM NADA E SE DIZ BOM DE CAMA. POIS
INCLUSIVE ESSE OTÁRIO PISA NO MUNDO. A TERRA É TÃO LINDA E
TÃO AZUL E REDONDA E BRILHANTE, E ESSE CONQUISTADOR
BARATO ESFREGA AS SOLAS DOS SAPATOS EM SUA PELE. SUAVE
PELE DE CIMENTO, DE PEDRAS PORTUGUESAS, DE BARRO, DE
PICHE. NEM TODO MUNDO MERECIA TER AOS PÉS O MUNDO.
À Culpa

O que é isso, companheira? Sei que prometi mandar notícias o quanto


antes e andava cheia de remorsos por não tê-lo feito ainda, mas nada
justifica as acusações que você me faz.
Você diz que eu não me importo com você, quando todos sabem que
pagar tudo que lhe devo é uma das minhas principais preocupações.
Pergunte às minhas amigas: falo de você quase todo dia. De como sinto o
coração apertar sempre que me lembro do que você significou em minha
vida.
Curioso que, desde que nos conhecemos, você causa em mim essa
sensação de estar deixando de cumprir algum compromisso que assumi.
Acho que é a maneira como você franze as sobrancelhas quando olha para
as pessoas; parece que está constantemente querendo nos lembrar de
alguma coisa importante que esquecemos.
Desculpas, Culpa, mas fiquei magoada com sua ideia a meu respeito e
gostaria de, mais uma vez, deixar claro que não quero me eximir de você.
Mesmo que quisesse, seria impossível, psicologicamente falando. Estamos
ligadas para sempre, eu e você, por mil motivos: passamos a infância
juntas, fomos colegas no colégio católico, éramos inseparáveis na
adolescência.
Enfim, sou incapaz de esquecê-la, mesmo quando tento. Tudo me
lembra você: as frutas que não como, as ligações que não faço, o remédio
que não tomo, a saudade que não sinto.
Tem um livro, Culpa, que me recorda bastante você: O pequeno
príncipe. É lá que está escrito que nós nos tornamos responsáveis por
aquilo que cativamos. Acredite, jamais negaria a minha responsabilidade
sobre o nosso relacionamento. E fico penalizada de saber que você está
assim, tão terrivelmente decepcionada comigo. Faço o que posso, você
precisa entender.
Jurei que ia visitá-la e vou, assim que for possível. Parece mentira
esfarrapada, mas, com o passar dos anos, tenho estado com menos tempo
disponível para eventos familiares. E você, Culpa, eu já considero da
família.
Com certeza, vamos nos ver durante o Natal. Que, para mim, é quase
um sinônimo da sua chegada. Senão fica para o réveillon, quando
provavelmente nos encontraremos na hora dos fogos. No máximo, depois
do Carnaval – adoro dividir com você as besteiras que faço quando bebo, e
me fazem falta seus sábios conselhos.
Calma, não me esqueço do seu aniversário, que se aproxima – é que
não sei se poderei ir. Ausência que doerá mais em mim do que em você,
pode acreditar. Mas é que estou de dieta, e suas festas, cheias de tentações
deliciosas, engorda-me quilos.
Culpa, sei que parece que estou fugindo de você, mas se há um pecado
que não cometo é o da injustiça. Carregaria você nos ombros, se você
sobrasse para mim, somente. Mas nunca faltarão consciências, por aí, para
arcar com você, se isso for necessário.
Tivemos nosso tempo juntas, e agora os anos colocaram distância entre
nós.
Sinto você aqui comigo, entretanto, neste exato momento. Só que você
não é minha nem eu sou sua.

Melhoras,
F.Y.
CITAÇÕES DOS LIVROS DE
FERNANDA YOUNG:

– P. 27
Dores do amor romântico. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

– P. 34
Os melhores momentos de Os Normais. (Com Alexandre Machado) Rio de
Janeiro: Objetiva, 2002.

– P. 46
A sombra das vossas asas. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

– P. 56
Versículo vigésimo sexto. In: O efeito Urano. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

– P. 66
Vergonha dos pés. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

– P. 78
Os melhores momentos de Os Normais. (Com Alexandre Machado) Rio de
Janeiro: Objetiva, 2002.

– P. 89
Vergonha dos pés. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

– P. 100
Tudo o que você não soube. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

– P. 110
As pessoas dos livros. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

As cartas publicadas neste livro são de autoria de Fernanda Young e foram


originalmente publicadas na revista Cláudia, da Editora Abril.
ESTE LIVRO FOI EDITADO NO RIO DE JANEIRO NO
OUTONO DE 2018.
FORAM USADAS AS FONTES FLEISCHMAN, CRIADA EM 1730, E
CHAMPION, DE 2012.
Guia politicamente incorreto da economia
brasileira
Leandro Narloch
9788544102350
304 páginas

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Se amanhã você acordar com a estranha decisão de prejudicar os trabalhadores


brasileiros, espalhar a miséria e a corrupção e aproximar o país do Apocalipse,
saiba que assim estará lado a lado com diversas das leis e medidas econômicas
que o governo pratica todos os dias e que têm como apoiadores ativistas corretos
e políticos bem-intencionados. O bom mocinho é o maior vilão da economia
brasileira. Foi com a intenção de desmascará-lo que nasceu este livro um guia
contra as vacas sagradas do discurso econômico politicamente correto. Ao
revelar os clichês econômicos repetidos diariamente por quem se considera herói
contra a opressão, a desigualdade de renda e a insegurança da indústria nacional,
Leandro Narloch mostra que é justamente por meio desses argumentos
enganosos que perpetuamos o freio do desenvolvimento e do enriquecimento da
população. Sobre o autor Leandro Narloch foi repórter da revista Veja e editor de
Superinteressante e Aventuras na História. É autor do Guia Politicamente
Incorreto da História do Brasil e coautor do Guia Politicamente Incorreto da
América Latina.

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God of War II
Vardeman, Robert E.
9788580447699
384 páginas

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Após derrotar Ares e conseguir sua vingança, Kratos ascende ao Olimpo e torna-
se o novo Deus da Guerra. Mas seus problemas estão só começando: humilhado
e nova mente traído, o Fantasma de Esparta descobre o verdadeiro jogo dos
deuses, no qual é apenas uma peça. Agora eles devem pagar. Renascendo dos
mortos e abrindo seu caminho para fora do Hades, Kratos parte em busca do
impossível: matar Zeus, o Rei do Olimpo. Para isso, o espartano deve encontrar
as Moiras, aquelas que detêm o poder sobre o destino de todo o cosmos e que
estão acima dos próprios deuses. Em sua jornada, Kratos terá de enfrentar
criaturas de poder indizível e alguns dos maiores heróis gregos, como Teseu,
Jasão e Perseu. Mas ele não estará sozinho em sua busca: uma força antiga
ressurge, dando início a uma aliança que fará o Olimpo tremer... Pode um
simples mortal mudar seu destino? Encontre a resposta neste segundo volume da
saga de Kratos, cujo fim guarda uma surpreendente revelação.

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A menina que não sabia ler
Harding, John
9788544100202
288 páginas

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Um acidente de trem. Uma identidade trocada. Os detalhes poderão mudar o


rumo dessa história... Depois de viver presa num mundo obscuro, assustador e
sem palavras em A menina que não sabia ler, a pequena Florence viverá uma
nova e misteriosa aventura onde nada é realmente o que aparenta ser e todos
podem se tornar inimigos em potencial. Mas onde ela encontrará uma saída? Um
aliado? O misterioso médico John Shepherd busca um recomeço para sua vida
em um lugar nada promissor — uma ilha que funciona como uma clínica
psiquiátrica exclusivamente para mulheres. Nesse antro de segredos e
sofrimento, Shepherd tentará esquecer seus pecados devolvendo a humanidade
às pacientes. A primeira em quem vai experimentar sua doutrina de cuidados, o
"tratamento moral", é uma atraente jovem pálida de cabelos escuros que não se
lembra do próprio nome, fala de modo estranho e não consegue saber quando e
como chegou àquele lugar. Por que afinal ela desperta tanto a curiosidade do
médico? Entre pacientes mais inteligentes que as próprias enfermeiras
responsáveis por elas, segredos por todos os lados e figuras assombrosas (e
assombradas) percorrendo misteriosamente os corredores da clínica durante a
noite, as vidas de Florence e John Shepherd estarão mais ligadas do que
podemos imaginar... Arrisque-se e tente achar uma saída no labirinto
claustrofóbico criado em A menina que não sabia ler vol. 2.

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Psicopatas do cotidiano. Como reconhecer,
como conviver, como se proteger
Katia Mecler
9788577345717
160 páginas

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Diz o ditado que de perto ninguém é normal. E, de fato, basta parar um minuto
para observar o seu entorno e você vai identificar aquela pessoa que é instável
demais, outra que é inflexível demais, outra ainda que é teatral ou insegura ou
arrogante ou submissa... Os desvios são muitos, e estão sempre à nossa volta. Às
vezes são apenas características individuais, que não preenchem critérios para
diagnóstico psiquiátrico algum, mas outras vezes são comportamentos
repetitivos, peculiares e disfuncionais que causam danos físicos e psicológicos às
próprias pessoas ou para aquelas que estão ao seu redor. Este livro identifica
estes que são os psicopatas do cotidiano e explica em detalhes as características
que levam essas pessoas a agirem assim. Para quem tem um deles ao redor, será
uma oportunidade única de descobrir mecanismos que ajudem a manter a própria
integridade, física ou psicológica, sem abrir mão da convivência. "As pessoas
precisam, isto sim, conhecer melhor seus próprios problemas ou os transtornos
de gente do seu relacionamento. E o conhecimento é o melhor caminho para que
se possa conviver melhor." Folha de São Paulo, 02/05/2015 Sobre a autora:
Katia Mecler é psiquiatra e coordenadora do Departamento de Ética e Psiquiatria
Legal da Associação Brasileira de Psiquiatria. É professora do Programa de Pós-
graduação em Psiquiatria Forense do Instituto de Psiquiatria da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ).
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Histórias de canções - Chico Buarque
Homem, Wagner
9788562936968
418 páginas

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O livro conta as histórias por trás das canções de Chico Buarque. Responsável
pelo site do cantor e compositor, Wagner Homem se vale do vasto conhecimento
da obra de Chico para destrinchar, com minúcias, episódios relacionados a mais
de uma centena de canções do artista. Em cada abertura de capítulo, uma
apresentação da cena sociopolítica vigente na época, com exceção dos dois
últimos um deles sobre a morte de Tom Jobim, em 1994, em Nova York. O livro
é riquíssimo em personagens de todos os matizes. Está ali a nata da cultura
nacional, gente como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Gilberto Gil,
Caetano Veloso, Toquinho e Zuzu Angel. Estão também histórias deliciosas
como a da parceria de Chico e Vinicius na letra de Gente humilde, música de
Garoto. Enciumado com as parcerias de Chico e Tom Jobim (na época eram
três), Vinicius pediu que Chico desse um jeito na letra. O amigo nada achou de
errado numa letra irretocável e só acrescentou uma estrofe. Foi o suficiente para
Vinicius alardear a Tom que agora também era parceirinho de Chico.

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