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COMO ESCREVER JUNTAS?

Aline Daka1
Eduarda Ritzel2
Stephanny Lotus3

RESUMO

Atravessadas por problemáticas barthesianas no livro como viver junto4, três


pesquisadoras mulheres pensam sobre a questão: como escrever juntas? Ao afirmar
que o Texto pode se produzir a partir do encontro de diferentes expressões
artísticas, corpos e pontos de vista, apresentam um modo de vivenciar juntas uma
escrita em Educação. A escrita de um conto; uma imagem desenhada e algumas
notas cotidianas pensam a docência. Fragmentos de Textos compõem uma prática
ao movimentar forças para uma potência poética na Educação.

Palavras Chave: Educação. Escrever juntas. Mulheres. Poética. Texto.

1 Aline da Rosa Deorristt, de nome artístico "Aline Daka", é artista visual e educadora, bacharel em

Artes Visuais e mestre em Educação pela UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
2 Eduarda Ritzel, colecionadora de monstros e de fantasmas, uma das habitantes do vilarejo
heterotópico Monstruário, questionadora das identidades fixas, apropriadora de barthesianidades e
amadora das fantasias. Licenciada em Ciências Sociais pela UFRGS - Universidade Federal do Rio
Grande do Sul.
3 Stephanny Lotus, desenha e escreve com a luz um cotidiano docente; vive em busca de

infravisualidades; gosta de fotografar os não-acontecimentos visuais; movimenta encontros


barthesianamente alegres. Licenciada em Artes Visuais e Pesquisadora no Mestrado em Filosofias da
Diferença e Educação na UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
www.fotografialotus.com
4
BARTHES. Roland. Como viver junto. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.

ALEGRAR nº22 - Ago/Dez 2018 - ISSN 1808-5148


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MONSTRO-VIANDA5

São 6:15 da manhã. O ano de 2035 está quase chegando ao fim. Um relógio
surrado e velho a desperta. É hora de ir.

Ela anda pelas ruas da pacata cidade de Madeira Rosa, 1.120 habitantes
enclausurados em um município de mais ou menos 5 quarteirões. Um cheiro de café
velho vem da única e suja padaria da cidade e impregna suas narinas. Ela é
obrigada a passar pelos mesmos lugares todos os dias. O cinza do dia faz as ruas
ficarem vazias mais uma vez. Em Madeira Rosa praticamente nunca há sol, são
raros esses momentos em que qualquer raio solar atinge a cidade.

O vento sopra durante a manhã cinzenta, seu cabelo negro esvoaçante sente
o ar gélido e pesado, que vai chegando em sua espinha. O arrepio é imediato, e a
sensação estranha. Há algo errado.

Chega atrasada para a aula, é claro, mentalmente contando os segundos


para ir embora. Senta-se na cadeira fria e torta, esperando a manhã acabar. Os
tijolos marrom-avermelhados da parede da sala de aula continuam sujos depois de
tantos anos. Os nomes rasurados nas classes enfileiradas continuam no mesmo
lugar também. Foram tantas as pessoas que passaram por essa sala e que
deixaram suas marcas cravadas na madeira, no concreto...na própria pele.

Agora a sala já não tem mais janelas. “Ordens superiores”, ela ouviu dizer.
Parece improvável, mas é real: não há ar. Não há vento. Não há vida.

Ela fecha os olhos. Abre-os novamente, mas continua nessa sala escura e tão
cheia de gente, e ao mesmo tempo, incontrolavelmente, tão vazia para ela. De
alguma forma, sabe que está condenada a permanecer nesse maldito lugar.

Fecha os olhos novamente, mas continua enxergando todas as faces de si


mesma.

Tenta gritar, desesperadamente. Falha. Tenta gritar mais uma vez – precisa
que alguém a escute, que alguém abra seus olhos novamente, que alguém a
desperte do devaneio, precisa ser agora.

Há algo se aproximando. Ela não sabe o que é, mas aproxima-se a cada


respiração, das profundezas de algum lugar...

Ele emerge.

5Conto publicado no livro: COSTA, Luciano.; MARQUES, Diego.; Aprendizagens distópicas


aplicadas à psicologia da educação. Dicionário Raciocinado das Licenciaturas. Porto Alegre:
UFRGS, 2018.

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Um monstro. Maior do que qualquer coisa que já tenha visto, que expõe sua
carne avermelhada, grossa, cheia de furos. Das cavidades deste corpo grotesco
jorra um sangue que ferve, que pulsa, vermelho-vivo, malcheiroso. É o monstro-
vianda. A cada centímetro de sua carne morta-viva há gotículas de dor, ansiedade,
tragédia, sofrimento.

Ele tenta a atacar, deixando marcas de sangue por onde passa. Ela está
desesperada, tentando encontrar uma forma de se proteger, mas cada toque desse
monstro horroroso em sua pele faz com que ela sinta angústia. Dor.

Quando olha para o fundo dos olhos deste monstro é que percebe que está
olhando para si mesma. Ela se reconhece. É o próprio monstro. Mas não entende o
que faz ali. É então que começa a se afogar, no que pensa que é e afoga-se cada
vez mais no medo do que irá se transformar. Nada com todas as forças, mas não
emerge. Não há ar. Não importa o que faça, ninguém a escuta, ninguém a salva.
Seu desespero é particular.

Sente o rosto ficar quente e o corpo adormecer. Já não sabe mais onde está.
Quer correr, mas não sabe como mover as pernas.

Algumas horas passaram. Ou será que foram apenas segundos? O tempo


não significa nada.

Sente uma pressão estranha em seu ombro e uma voz adocicada em seu
ouvido: “está na hora, todos estão indo.”

Ela desperta, assustada. Não há mais ninguém.

Todos foram, ela ficou.

Eduarda Ritzel

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Figura 1- Aline Daka, Projeto Da última inocência, grafite sobre papel, 2012

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NOTAS BREVES PARA UM CONTO NÃO ESCRITO

03:03

Acordo. A luz dormiu acesa. No meu olhar,


sombras desenham um livro em meio a uma sensação
tranquilamente monstruosa. Eu acordo, o livro dorme.

06:06

Não tenho certeza se realmente acordei antes...


Ainda estou assombrada após a leitura de um conto
escrito pela Eduarda.

09:09

Chego na sessão de acupuntura. A médica chinesa


pede para ler a minha língua, ela diz: — Você pensar
demais! Você muitos ventos internos! Você yang alto! Eu
respondo, ainda com a língua fora da boca: — Anran!
Aannnran! Aaaaannraaaaan! Com o pensamento, conto
cerca de 56 agulhas aplicadas sobre o meu corpo.

20:20

Entro na exposição O que pode um Corpo6,


paraliso, de quando em quando, diante da imensidão
terrivelmente doce da ilustração de Aline Daka7.

00:00

Entre conversas após um seminário barthesiano,


penso: a imagem cursa uma escrita pensante e o conto cria
uma imagem que pensa. Minha pequena intervenção: juntar
esses fragmentos para compor um Texto, um plural, assim,
escrever juntas! Steph Lotus

6
http://www.ccmq.com.br/site/?p=46855 – acesso em: 30/11/2018.

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uma conversa sobre um banquete onírico lisérgico com um pseudovegetariano


foucault deleuze dois cachorros e um touro

Wescley Dinali1

Resumo
O conto a seguir é uma ressonância da pesquisa de doutorado “Pesquisar em educação:
processo(s) estéticoanarcoesquizonoisepunk”. É sobre fabular, sobre alianças, amizades,
movimentos. Sobre o que escapa, escoa, foge sem cessar. Muito se diz a respeito de
enrabar, de fazer filho por trás, e porque não comer? Sem metáforas, ingerir, degustar,
mastigar, triturar com os dentes, envolver com as secreções das glândulas salivares por
um tempo e depois engolir, engolir o outro. Compor com aqueles que admiramos. É um
convite para um banquete, para experimentar com o vampirismo, com o canibalismo.

Palavras-Chave: punk, canibalismo, movimentos

Abstract

The following tale is a resonance of the PhD research “Pesquisar em educação:


processo(s)estéticoanarcoesquizonoisepunk”. It is about fables, about alliances,
friendships, movements. On what escapes, runs, runs away without ceasing. A lot is
said about getting in the way, about making a son from behind, and why not eating?
Without metaphors, ingesting, tasting, chewing, grinding with the teeth, wrapping with
the secretions of the salivary glands for a while and then swallowing, swallowing the
other. Compose with those we admire. It's an invitation to a banquet, to experiment with
vampirism, with cannibalism.

Key words: punk, cannibalism, movements

certa madrugada na cozinha da minha casa tomando café eu e o guattari falávamos


sobre sonhos e sobre sonhar e ele me disse que tinha conversa em seus sonhos e que os
sonhos para ele eram uma espécie de interlocução e eram muito importantes2 achei
genial aquilo tudo que ele disse o sonho como um interlocutor daí resolvi contar para
ele sobre um sonho frequente muito frequente que tenho e que me ocorria nos últimos

1
Doutorando em Educação pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora
(UFJF). Membro do Travessia Grupo de Pesquisa da UFJF. E-mail: wescleydinali@yahoo.com.br
2
UNO, Kuniichi. Guattari: confrontações/conversar com Kuniichi Uno e Laymert Garcia dos Santos. São
Paulo: n-1 edições, 2016.

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tempos eu estava totalmente pirado em estado catatônico sei lá de qualquer forma eu


sonhava que estava preso em um duto enorme e imundo seguia caminhando com uma
espécie de água que ficava bem acima do meu tênis era muito sujo e apertado o caminho
diferentemente para meus três amigos que me seguiam um touro bem robusto todo
zebrado e cabeçudo e dois cachorros um pastor alemão todo preto com pintas brancas e
um mestiço de vira-lata e pitbull frequentemente eu olhava para trás para meus três
amigos e era estranho pois o caminho para eles era bem extenso folgado e dilatado era
uma espécie de cone o cheiro era tão insuportável que meu estômago dava voltas e
minhas tripas se contraiam e formavam uma espécie de nó a ânsia de vômito era algo
extremamente desagradável tentava voltar porém o duto se fechava em um espaço curto
depois dos meus três amigos que se posicionavam um ao lado do outro o touro tinha um
chifre quebrado e dele saia uma espécie de fumaça azul escarlate que me deixava mais
pirado mais alucinado era uma típica viagem lisérgica acho só sei que ia seguindo o
duto infecto por horas e horas sem saber onde daria juntamente com meus guardiões e
amigos fieis em tempos o touro fungava e depois soltava um vapor ardido que fazia
minha garganta amargar e meu nariz arder fortemente eu odiava aquilo porém ele não
parava não parava nunca era questão de segundos e ele novamente fungava e depois
soltava pensava que ia desmaiar no entanto continuava de pé sem saber ao certo para
onde eu iria o cheiro a cada passo piorava era um cheiro ocre podre decomposto o que
me dava uma fome canina e meu amigo cachorro soltava uma baba verde pela boca
constantemente o que ia inundando ainda mais e mais o duto fétido os passos iam
ficando cada vez mais curtos e se tornavam a cada segundo mais pesados e lentos o
líquido nos meu pés ia ficando gelatinoso com cores frias diferenciadas durante uma
passagem tive que atravessar um plástico imundo com uma aspecto de ferrugem meu
corpo passou de uma dimensão para outra e ficou todo coberto por uma espécie de baba
canina esverdeada com um gosto amargo o que aumentava ainda mais minha fome meu
amigo touro havia perdido uma das pernas mas continuava caminhando com uma
desenvoltura elegante e invejável o vira-lata me entregou um copo plástico preto com
uma espécie de leite seboso e gorduroso eu tomei sem pensar pois a minha sede era tão
grande que superou o aspecto nojento daquele líquido meus olhos começaram a
tremeluzir e emitir um ruído de portas abrindo e fechando a fome aumentava e ficava
insuportável meu estomago começou a gritar com uma voz gutural e minhas entranhas
ameaçavam atravessar minha carne nessa altura eu sofria de hiponatremia o touro falou
comigo como se fosse minha analista com a voz da minha analista pedia-me para que eu

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respirasse constantemente eu estava sufocado tonto desesperado meu cérebro


aumentava e diminuía a cada passada meu corpo ardia em chamas era febril meu estado
erupções saiam da minha pele constantemente também da minha boca e dos meu olhos
senti uma tontura e desabei no chão acordei com o pastor alemão beijando minha boca
bem sexualmente o que me deu forças para levantar e continuar minha viagem pelo
subterrâneo havia contraído escarlatina possivelmente do cachorro minha língua agora
tinha um aspecto de lixa e queimava fortemente por isso tinha que mantê-la para fora da
minha boca não sentia ou não tinha mais partes corporais não tinha ou não sentia meus
órgãos era extraordinário de alguma forma essa sensação de dor olhava para trás e meus
amigos fiéis estavam sempre em posições de sentinelas um do lado do outro eles
aumentavam e ficavam mais e mais fortes ao longo do duto o touro começou a rir sem
parar risadas com aquele ar de escárnio comecei a sentir raiva o medo havia passado um
dos cachorros começou a correr em volta daquilo que poderia ser meu corpo ainda
fiquei meio atônito o touro latiu e voltei a caminhar sem sentido para qualquer lugar que
poderia me livrar daquele aspecto do duto comecei a chorar sem parar e agora todos os
meus amigos começaram a rir eu sentia que minha cabeça ia explodir a qualquer
momento e nos tirar daquele lugar não aguentava mais pedi a meus amigos que me
ajudassem por favor pois não tinha mais forças para aguentar aquela situação me sentia
muito cansado continuei caminhando pelo duto e notei uma saída ou entrada na lateral
do duto olhei para meus amigos porém eles não estavam mais atrás de mim o duto
começou a se fechar e ligeiramente pulei para essa abertura e me encontrei em uma
espécie de matadouro um matadouro sujo e cruel havia correntes por todos os lados e
várias ferramentas que eram usadas para abate tinha muita carne pendurada no teto era
muito frio e escuro meus três amigos estavam todos de avental de couro preparando um
banquete no centro tinha uma mesa enorme de madeira com várias marcas das facas e
machados usados para o abate fiquei apavorado e ao mesmo tempo com muita fome
toda aquela carne pendurada causava-me náuseas implorei por um copo de água porém
só me deram sangue para beber tomado pela sede desagradável engoli todo o sangue em
uma golada apenas antes que começasse a coagular ele tinha um gosto maravilhoso
nunca pensei que sangue era tão bom eu era um vampiro agora meus amigos me
chamaram para me sentar na mesa o banquete era enorme o cheiro era maravilhoso
encheram uma taça enorme de sangue tomei com ferocidade e pedi mais um pouco
fiquei extremamente embriagado sentia-me maravilhosamente bem apesar das dores
surreais comecei a comer sem censurar-me pois era carne humana que estava na mesa

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era muito saborosa o paladar as peculiaridades das coxas e das nádegas eram as
melhores tudo havia sido preparado com muito carinho e cuidado o tempero era
excelente o cheiro era maravilhoso a carne combinada com o sangue dava um charme
ao banquete comi até não aguentar mais o touro peidava e arrotava muito eu sentia seu
bafo quente na minha cara os dois cachorros eram mais elegantes pincipalmente o vira-
lata que carregava um ar de nobreza o touro ria comia peidava arrotava e bebia ao
mesmo tempo era repulsivo porém divertido quando terminei minha refeição olhei para
uma pequena mesa que estava ao lado de um enorme fogão sujo de gordura e sangue
quando observei mais atentamente havia duas cabeças na mesa uma era a de foucault e a
outra era a de deleuze eu havia me tornado naquele deleite antropófago uma espécie de
vampiro canibal algo assim fiquei apavorado atormentando alucinado olhava para meus
amigos e eles riam com hilaridade todos sentados em suas cadeiras continuando a comer
e beber

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1. Da produção do normal à explosão do outro1

Adriana Maimone Aguillar2

Michel Foucault em História da Sexualidade 1, 2 e 3, em O nascimento da Clínica, em


História da Loucura e em Vigiar e Punir evidencia diversos conhecimentos produzidos
acerca de práticas as quais acabam fazendo com que possamos perceber os vários
sujeitos produzidos no decorrer dos tempos e dos espaços específicos. Foucault
descreve discursos produzidos em cada época, desde a Grécia antiga, passando pelo
Império Romano, pela Era Cristã, Renascimento, Iluminismo e século XX. No entanto,
sua escrita não é linear mas genealógica. Ele vai contando e mostrando falas e práticas
de cada tempo, fala de um tempo e depois de outro, relaciona um local com outro, uma
prática com outra, compara discursos e práticas. Em seus escritos podemos viver um
pouco, experimentar os efeitos dos discursos dominantes em cada época e visualizar os
modos de existência em cada espaço e tempo da história da humanidade.

Ao falar da experiência da loucura deixa escapar as formas de se conceber o sujeito da


razão. Ao falar das diversas formas de se vivenciar a relação com os prazeres, deixa
transparecer o cidadão moral, a racionalidade, a ética e a estética. Ao falar dos doentes,
nos mostra o sujeito saudável, higienizado. Ao falar das prisões nos evidencia sobre a
produção dos corpos dóceis.

Em todos os trabalhos há a oposição entre a doença e a saúde, a loucura e a razão, o


criminoso e o obediente, o devasso e o moral. Esta lógica binária produz os diferentes
tipos de sujeitos, e ela é produzida pelos dispositivos de poder e de sexualidade.

Os discursos de saber de cada época e afetos a cada campo de conhecimento; o jurídico,


o médico, o filosófico, o psiquiátrico, produzem sujeitos, os quais são divididos,
classificados e ordenados em categorias distintas e opostas. O bem e o mal, o desejável
e o abominável, o preso e o livre, o virtuoso e o imoral. Cada categoria remete a um tipo
de sujeito, o qual é efeito de práticas e discursos.

Os discursos são construídos sobre práticas vivenciadas entre os sujeitos e, na


modernidade, especialmente, no interior das instituições tais como prisões, hospitais,
clínicas, colégios. Dentro destes espaços são exercidas forças e constituídos dispositivos
sobre os indivíduos, estratégias, tecnologias para ordená-los, para distribuí-los, para
cuidar de suas doenças, para ensiná-los modos de viver, para educá-los.

Desde a Grécia Antiga os discursos da verdade vão sendo elaborados ao modo binário e
atingem um modo específico na modernidade.


1
Trabalho apresentado na 11ª Conferência Internacional Deleuze e Guattari: Microrevoluções e políticas
e desejo: máquinas de guerra contra os fascismos – 2018 - Unicamp / Campinas.
2
Professora Adjunta do Departamento de Educação do Instituto de Educação, Letras, Artes, Ciências
Humanas e Sociais da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.


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Separações, exclusões e distanciamentos

Há uma pedagogia em todos os casos, a pedagogia perpassa todas as relações sociais.


Até entre o marido e a esposa na Grécia Antiga, o primeiro deveria ensinar a mulher a
cuidar e a gerir a casa. Em cada caso, os indivíduos devem aprender formas específicas
de se comportar dentro dos espaços fechados, no caso da modernidade.

Em épocas remotas já se separavam os diferentes, por exemplo quando Foucault (2000)


nos fala da Nau dos Loucos. A ideia de separação, exclusão, distanciamento,
silenciamento, já se encontra presente. O desatino, a devassidão, as monstruosidades,
tudo o que fosse diferente, assustador, não assimilável, o outro estranho, era colocado
em embarcações e levado ao mar, para longe, para longe do olhar, onde isto tudo
deixaria de existir, se tornaria inexistente.

As próprias crianças, simplesmente por serem crianças, devem ser internadas em


espaços fechados, as escolas, para aprender a viver, a conviver, a se tornarem adultos
obedientes.

A sociedade, a partir do século XVIII é toda esquadrinhada em tipos de sujeitos, de


acordo com idade, gênero, modos de existência e é chamada por Foucault de sociedade
disciplinar. Na Nau dos Loucos, todas as diferenças estavam aglomeradas, mas na
modernidade elas são diferenciadas entre si.

Para Skliar (2003) a própria existência é passagem, assim como a Nau dos Loucos é
passagem, é deriva, é incerta, a condição humana é plural, dispersa, confusa, exilada em
si mesma. Há um exílio interior, desarraigamento, marginalidade, distâncias. O autor
fala do estrangeiro como aquele que irrompe para destruir a ordem, é o desconhecido.

O outro diferente e a fábrica de mesmidades

O outro diferente vive um tempo diferente, ocupa os espaços de maneira diferente, não
obedece a ordem, não se submete a cronologia do tempo. O próprio presente é a
irrupção de um outro que não pode ser ordenado e a tentativa de planejá-lo, de prevê-lo,
capturá-lo faz com que apareça o que Skliar (2003) chama de mesmidades, ou seja,
insistência do mesmo, reprodução do outro como o mesmo. As diversas formas de
representação são maneiras de repetição do mesmo, são formas de poder e imposições
de sujeitos determinados.

Mas, de toda forma, somos sempre infinitos e inomináveis nós e outros. Seria o que
Deleuze e Guattari em Mil Platôs chamam de linhas de fuga, ou o deserto povoado.

Deste modo, para Carlos Skliar, assim como para Michel Foucaul e Gilles Deleuze , a
lógica binária das oposições que exclui um termo e inclui outro, produz a normalidade
para mascarar o outro.


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Para Skliar (2003) a educação é uma fábrica de mesmidades, não se cansa de produzir e
reproduzir o mesmo, o igual, e reforçá-lo como modelo a ser copiado infinitamente.
Skliar (2003) se questiona como olhar o olhar sobre nós e sobre os outros? Regulação
do olhar, gozamos a ilusão de nossa aparente inclusão. Entretanto, deveríamos aceitar o
outro na sua diferença. Skliar (2003) traz o termo outrem utilizado por Deleuze em
Diferença e Repetição o qual pode ser traduzido por: eu para você no seu, você para
mim no meu. É um modo de olhar para o outro na sua outridade.

A Pedagogia do Acontecimento, que não existe e pode ser que nunca exista, para Skliar
(2003) é a pedagogia do outro, que volta e reverbera, se abre ao porvir e pensa que não
está mal ser o que se é, ou além, ou estar sendo.

Produção de Subjetividade e educação

Para Deleuze (1992) os processos de subjetivação são as maneiras pelas quais os


indivíduos ou coletividades se constituem como sujeitos, mas tais processos só
deveriam valer na medida em que, quando acontecessem, escapassem tanto aos saberes
como aos poderes dominantes. Deleuze (1992) prefere falar em subjetivação ao invés de
falar de sujeitos. A produção de subjetivação é a invenção de novas possibilidades de
vida, novos estilos. Ao falar sobre a obra de Michel Foucault, vai dizer que a
subjetividade é a terceira dimensão, depois dos saberes e dos poderes. É o que escapa ao
poder e ao saber. Não deveríamos dizer o que somos, mas o que estamos em vias de nos
diferir.

Portanto, podemos nos questionar, de que maneira as práticas educativas se articulam


com as ideias de produção de sujeitos, de subjetividades, de diferenças e de
normalidades?

Larrosa (1994) discorre sobre o modo como a pessoa humana se fabrica no aparato
pedagógico de subjetivação, por meio da análise das práticas pedagógicas que
constroem e fazem a mediação da relação do sujeito consigo mesmo. Assim, traz os
estudos foucaultianos acerca das experiências de si, as quais se definem como auto-
confiança, auto-governo, auto-regulação, auto-conhecimento, auto-estima. Estas são
qualidades que se desenvolvem por meio de ações como conhecer-se, estimar-se,
controlar-se. São, portanto, características normativas do sujeito formado ou maduro,
saudável, equilibrado.

Define-se, portanto, no aparato pedagógico, sujeito, como um ordenamento de


comportamentos cotidianos em relação com o outro. Em Michel Foucault encontramos
experiências de si e para este autor, o que seria a experiência senão a correlação, numa
cultura, entre campos de saber, tipos de normatividade e formas de subjetividade.
(Larrosa, 1994).


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A experiência de si se constitui em um complexo processo histórico de fabricação, onde


atravessam discursos, que definem verdades, sobre os sujeitos, sobre práticas que
regulam comportamentos e sobre as formas de subjetividade, nas quais se constitui sua
interioridade (Larrosa, 1994)

Desta forma, as posições discursivas constroem sujeitos. Na escola, as práticas e os


discursos ali presentes determinam tipos específicos de sujeitos; o professor, o aluno, o
diretor, a coordenadora etc. São todos e cada um sujeitos de enunciação. A narrativa pré
existe ao eu, não existe um sujeito anterior ao discurso, mas um discurso anterior ao
sujeito, e o sujeito se constitui ao dizer. (Larrosa, 1994)

A produção do normal por meio da educação da modernidade

Percebe-se, na modernidade, a mudança de uma concepção negativa do juízo: permitido


e proibido, para uma concepção positiva do juízo: com base na norma, de acordo com o
modelo da regulação e da inclusão, ou seja, como se deve agir para ser considerado
normal. Desta forma a disciplinarização dos corpos age em prol da normalização. A
produção dos corpos dóceis nas instituições pedagógicas cria o sujeito aprendiz,
obediente, o aluno exemplar, mas também o aluno desobediente.

O julgamento faz parte das relações presentes na experiência de si, onde cada um se
julga para melhorar sua conduta e também está presente nas práticas pedagógicas, por
exemplo, por meio do exame o professor julga o aluno para classificá-lo, para excluí-lo
ou para normalizá-lo. Julga-se para transformar e dominar.

As estratégias de poder são forças que se combinam e agem por contenção ou por
impulsão. As forças e suas formas fabricam indivíduos. Por meio da educação se
aprende a olhar, a julgar, a conhecer, a dominar, classificar, excluir, dividir, ordenar,
fazer falar, fazer silenciar, fazer se movimentar, fazer parar, fazer olhar. É um poder
detalhado agindo sobre o corpo e tornando-o normal, útil, produtivo, na escola e na
fábrica.

Esta forma de agir sobre os corpos diminui a possibilidade de indeterminação dos


acontecimentos, dá um sentido, captura, produz um sujeito normal, limpo, correto,
moral, obediente, de acordo, linear, racional.

Silva (2005) realiza análise problematizada dos currículos escolares como uma prática
discursiva que exclui certos saberes e valoriza outros, produzindo tipos específicos de
sujeitos e identidades sociais.

Em Abramowicz e Silvério (2005) encontramos vários textos os quais, cada um a seu


modo reflete e problematiza a educação como prática excludente de algumas culturas na
sociedade e chamam a atenção para que, nas práticas pedagógicas e nas práticas
discursivas em educação sejam incluídas as diferentes culturas, tais como gays, lésbicas,
grupos étnico-raciais, grupos de diferentes faixas etárias etc.


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Para Louro (2003) existem sujeitos tradicionalmente silenciados, especialmente na


educação escolar, mas em toda a sociedade, de modo que o modelo de normal continua
sendo o homem, branco, classe média, heterossexual, ocidental.

Nesta forma de compreender o normal, os movimentos negros, feministas, minorias


sexuais, denunciam a ausência de suas histórias nos currículos e são vistos como
excêntricos, permanecendo às margens da sociedade, do currículo, das práticas
educativas, do livro didático, da mídia etc. A verdade é local, plural, particular,
transitória e deve ser incluída nos currículos escolares.

O outro em nós – diferencidades

Téllez (2001) traz para a discussão o pensamento da diferença no qual está em pauta a
singularidade do acontecimento, irredutível ao previsível. O outro é a irrupção do igual.
A autora faz uma análise interessante ao falar do outro que há em mim, o outro e aquele
outro que habita em mim. A partir da compreensão de que o outro está em mim, de que
somos muitos outros, deve-se agir na tentativa de se suspender as certezas e nos
pensarmos e experimentarmos como sujeitos alterados.

A autora faz uma análise da ideia de comunidade e da pretensão de consenso e diálogo.


Para ela, não há como haver consenso, não deve-se buscar o consenso, as comunidades
são compostas por diferentes, portanto, poderia se chamar, no meu ponto de vista,
diferencidade e não comunidade.

Para Duschatzky e Skliar (2001) a modernidade, atuando por regulação e controle de


alteridades, efetua a demonização do outro, de modo que a diversidade vira folclore e
vira exótico. Tal pressuposto, com base na ideia de tolerância e do discurso
multiculturalista fixa identidades. Estas ideias devem ser desconstruídas. Para Jorge
Larrosa a educação deve dar a palavra, deixar falar, operar por acontecimentos que
escapem, que não possam ser identificados nem compreendidos, mas devem agir como
surpresa, por irrupção.

Com base nos autores estudados percebemos que o que se compreende como normal e
anormal são construções sociais. Que a produção do sujeito é uma construção social
baseada em discursos de verdade e em práticas de poder exercidas sobre os corpos,
indivíduos e coletividades. As práticas educativas, os currículos e os discursos em
educação tomam como base e como modelo hegemônico a normalidade e atuam na
fabricação do sujeito normal, excluindo tudo o que for diferente.

Deste modo, para que as identidades ditas normais sejam desconstruídas, opera-se por
linhas de fuga, escapes e resistências. Os movimentos sociais de diferentes grupos
étnico-sociais, os movimentos de feministas entre outros são exemplos de lutas nas
sociedades e no campo educacional, os quais abrem possibilidades para outras histórias.


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Ao mesmo tempo, estudos sobre a cultura da infância e dos jovens atrelados aos estudos
baseados na diferença fazem um esforço no sentido de abrir possibilidades para
eclodirem histórias contadas em nome próprio. Que as práticas educativas, os
indivíduos e a sociedade, de maneira geral possam olhar para o outro que existe em si
mesma, que outras subjetividades possam ser produzidas, menos racionais e mais
sensíveis, provocando aberturas para vir à tona os vários outros que existem em nós.

Referências Bibliográficas:

ABRAMOWIVZ, A; SILVÉRIO,V.R. (Orgs.).Afirmando diferenças: montando o


quebra cabeça da diversidade na escola. Campinas: Papirus, 2005

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DUSCHATSKY; SKLIAR (2001) In: LARROSA, J; SKLIAR, C. Habitantes de Babel:


políticas e poéticas da diferença. Autêntica: BH, 2001.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 2007.

. História da loucura na idade clássica. Perspectiva: São Paulo, 2000.

. História da Sexualidade I. RJ: Graal, 1999

. História da Sexualidade II. RJ: Graal, 1998

. História da Sexualidade III. RJ: Graal, 2005

. Nascimento da Clínica. RJ: Forense Universitária:, 1997

LARROSA (1994) In: SILVA, T.T. (Org.). O sujeito da educação: estudos


foucaultianos. Petrópolis Vozes:, 1994.

LOURO, G. et. AL (Org.). Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na


educação. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.

SKLIAR, C. Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? RJ:


DP&A Editora, 2003.

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em educação. Petrópolis: Vozes, 2005.

TÉLLEZ (2001) In: LAROSSA, J. SKLIAR, C. Habitantes de Babel: políticas e


poéticas da diferença. BH: Autêntica, 2001.


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From the production of normal to the explosion of the other1


Adriana Maimone Aguillar2


Michel Foucault in History of Sexuality 1, 2 and 3, in The Birth of the Clinic, in History of
Madness and in Watch and punish, shows significant knowledge produced about
practices that end up causing us to perceive the various subjects produced in the
course of time and specific spaces. Foucault describes discourses produced in each
time, from ancient Greece through the Roman Empire, the Christian Era, the
Renaissance, the Enlightenment, and the twentieth century. However, his writing is
not linear but genealogical. He tells and shows speeches and practices of each time,
talks about one time and then another, relates one place to another, practices one
with another, compares speeches and practices. In his writings we can live a little,
experience the effects of the dominant discourses in each age, and visualize the modes
of existence in every space and time in the history of mankind.
When speaking of the experience of madness, he reveals the ways of conceiving the
subject of reason. When speaking of the different ways of experiencing the
relationship with pleasures, he shows the moral citizen, rationality, ethics and
aesthetics. When speaking of the sick, he shows us the healthy, sanitized subject.
When speaking of the prisons, he shows us the production of docile bodies.
In all works there is the opposition between sickness and health, madness and reason,
the criminal and the obedient, the rogue and the moral. This binary logic produces the
different types of subjects, and it is produced by the devices of power and sexuality.
The discourses of knowledge of each time and affection of each field of knowledge; the
juridical, the medical, the philosophical, the psychiatric produce subjects, which are
divided, classified and ordered into distinct and opposing categories. Good and evil,
the desirable and the abominable, the prisoner and the free, the virtuous and the
immoral. Each category refers to a type of subject, which is the effect of practices and
discourses.
The discourses are built on practices experienced among the subjects and, in modern
days, especially, inside institutions such as prisons, hospitals, clinics, colleges. Within
these spaces forces are exercised and devices are constituted devices on the
individuals, strategies, technologies to order them, to distribute them, to take care of
their diseases, to teach them ways of living, to educate them.
Since ancient Greece the discourses of truth are being elaborated in the binary way
and and reach a specific mode in modern days.


1
Paper presented at the 11th Internacional Deleuze and Guattari Conference Microrevolutions and
politics and desire: war machines against fascisms- 2018 - Unicamp / Campinas/Brazil.
2
Teacher at Education Department of the University of Mineiro Triangulo – Uberaba- Minas Gerais-
Brazil.

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Separations, exclusions and distancing


There is a pedagogy in all cases, pedagogy pervades all social relations. Even between
husband and wife in Ancient Greece, the former should teach the woman to care for
and manage the house. In each case, individuals must learn specific ways of behaving
within enclosed spaces, in the case of modernity.
In remote times, the different ones were already separated, for example when
Foucault (2000) tells us about The Ship of fools. The idea of separation, exclusion,
detachment, silencing, is already present. Foolishness, debauchery, monstrosities,
everything that was different, frightening, unaccountable, the strange other, was put
in boats and taken to the sea, away, away from the gaze, where all this would cease to
exist, would become nonexistent.
Children themselves, simply because they are children, must be interned in enclosed
spaces, schools, to learn to live, to live together, to become obedient adults.
Society, from the eighteenth century on, is scrutinized in types of subjects, according
to age, gender, modes of existence and is called by Foucault disciplinary society. In
Ship of fools, all differences were crowded together, but in modernity they were set
apart from each other.
For Skliar (2003), existence itself is a passage, just as the Ship of Fools is passage, it is
drift, it is uncertain, the human condition is plural, dispersed, confused, exiled in itself.
There is an inner exile, uprooting, marginality, distances. The author speaks of the
foreigner as the one who breaks out to destroy order, it is the unknown.

The different other and the factory of the same


The different one lives a different time, occupies spaces differently, does not obey
order, does not submit to chronology of time. The present itself is the irruption of
another that can not be ordered and the attempt to plan it, to foresee it, to capture it
gives rise to what Skliar (2003) calls same, that is, the insistence , reproduction of the
other as the same. The various forms of representation are ways of repeating it, they
are forms of power and impositions of determined subjects.
But in every way we are always infinite and nameless ourselves and others. It would be
what Deleuze and Guattari in A Thousand Plateaus call escape lines, or the populated
desert.
Thus, for Carlos Skliar, as for Michel Foucault and Gilles Deleuze, the binary logic of
oppositions that excludes a term and includes another produces normality to mask the
other.
For Skliar (2003) education is a factory of the same, never tired of producing and
reproducing the same, the equal, and reinforcing it as a model to be infinitely copied.

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Skliar (2003) asks how to look at ourselves and others? Regulation of the look, we
enjoy the illusion of our apparent inclusion. However, we should accept the other in
their difference. Skliar (2003) brings the term other used by Deleuze in Difference and
Repetition which can be translated by: me for you in yours, you for me in mine. It is a
way of looking at the other in your otherness.
The Pedagogy of the Event, which does not exist and may never exist, for Skliar (2003)
is the pedagogy of the other, which reverts and reverberates, opens itself to the future
and thinks that it is not wrong to be what one is or, or is being.

Subjectivity production and education
For Deleuze (1992) the processes of subjectivation are the ways in which individuals or
collectivities are constituted as subjects, but such processes should only be valid to the
extent that, when they happened, they escaped both the knowledge and the dominant
powers. Deleuze (1992) prefers to talk about subjectivation rather than about subjects.
The production of subjectivation is the invention of new possibilities of life, new styles.
When speaking about the work of Michel Foucault, it will say that subjectivity is the
third dimension, after knowledge and the powers. It is what escapes power and
knowledge. We should not say what we are, but what we are about to differ.
Therefore, we can ask ourselves, in what way do the educational practices articulate
with the ideas of the production of subjects, of subjectivities, of differences and of
normalities?
Larrosa (1994) discusses how the human person is manufactured in the pedagogical
apparatus of subjectivation, by analyzing the pedagogical practices that construct and
mediate the subject's relationship with himself. Thus, it brings the Foucaultian studies
about self-experiences, which are defined as self-confidence, self-government, self-
regulation, self-knowledge, self-esteem. These are qualities that develop through
actions such as knowing oneself, esteeming oneself, controlling oneself. They are,
therefore, normative characteristics of the formed or mature subject, healthy,
balanced.
It is defined, therefore, in the pedagogical apparatus, the subject, as an ordering of
daily behaviors in relation to the other. In Michel Foucault we find experiences of self
and for this author, what would experience be, but the correlation, in a culture,
between fields of knowledge, types of normativity and forms of subjectivity. (Larrosa,
1994).
The experience of self constitutes a complex historical process of manufacturing,
where it crosses discourses that define truths, about subjects, about practices that
Regulate behaviors and about forms of subjectivity in which its interiority is
constituted. (Larrosa, 1994).

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This way, the discursive positions construct subjects. At school, the practices and
discourses determine specific types of subjects; the teacher, the student, the director,
the coordinator, etc. They are each and every subject of enunciation. The pre-narrative
exists to the self, there is no pre-discourse subject, but a discourse prior to the subject,
and the subject is constituted by saying. (Larrosa, 1994)

The production of the normal through the education of modernity
It is perceived in modernity, the change from a negative conception of the judgment:
allowed and forbidden, to a positive conception of judgment: based on the norm,
according to the model of regulation and inclusion, that is, how to act to be considered
normal. In this way the disciplinarization of bodies acts in favor of normalization. The
production of docile bodies in pedagogical institutions creates the subject apprentice,
obedient, the exemplary student, but also the disobedient student.
Judgment is part of the relationships present in the experience of self, where each one
judges to improve his conduct and is also present in pedagogical practices, for
example, through the examination the teacher judges the student to classify him, to
exclude him or to normalize him. Judgment to transform and dominate.
Power strategies are forces that combine and act by restraint or impulse. Forces and
their forms make individuals. Through education one learns to look, to judge, to know,
to dominate, to classify, to exclude, to divide, to order, to make speak, to make quiet,
to make move, to make stop, to make look. It is a detailed power acting on the body
and making it normal, useful, productive, in school and in the factory.
This way of acting on bodies reduces the possibility of indeterminacy of events, gives a
sense, captures, produces a normal, clean, correct, moral, obedient, agreeable, linear,
rational subject.
Silva (2005) performs problematized analysis of school curricula as a discursive practice
that excludes certain knowledge and values others, producing specific types of subjects
and social identities.
In Abramowicz and Silvério (2005) we find several texts which, in their own way,
reflect and problematize education as an exclusionary practice of some cultures in
society and draw attention to the fact that, in pedagogical practices and discursive
practices in education, different cultures, such as gays, lesbians, ethnic-racial groups,
groups of different age groups, etc., are included.
For Louro (2003) there are subjects traditionally silenced, especially in school
education, but also in the whole society, so that the model of normal remains the
white, middle class, heterosexual, western man.
In this way of understanding the normal, african american ,feminist, sexual minorities
movements, reveal the absence of their stories in the curricula and are seen as
eccentrics, remaining on the margins of society, of the curriculum, the educational

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practices, textbook, media, etc. . Truth is local, plural, particular, transitory and should
be included in school curricula.

The other in us - differences
Téllez (2001) brings to the discussion the thought of the difference which focuses the
singularity of the event, irreducible to the predictable. The other is the irruption of
equal. The author makes an interesting analysis when speaking of the other in me, the
other and that other that dwells in me. From the understanding that the other is in
me, that we are many others, we must act in the attempt to suspend certainties and to
think and experience as altered subjects.
The author analyzes the idea of community and the pretension of consensus and
dialogue. For her, there is no way to reach a consensus, one should not seek
consensus, the communities are composed of different, therefore, it could be called, in
my point of view, difference (differencity) and not community.
For Duschatzky and Skliar (2001) modernity, acting by regulation and control of
otherness, performs the demonization of the other, so that diversity becomes folklore
and becomes exotic. This assumption, based on the idea of tolerance and
multiculturalist discourse, establishes identities. These ideas must be deconstructed.
For Jorge Larrosa, education must give the word, let speak, operate through escaping
events that can not be identified or understood, but must act as a surprise, by
irruption.
Based on the authors studied we perceive that what is understood as normal and
abnormal are social constructs. That the production of the subject is a social
construction based on discourses of truth and practices of power exerted on the
bodies, individuals and collectivities. Educational practices, curricula and discourses in
education take normality as their basis and as hegemonic model and act in the
fabrication of the normal subject, excluding everything that is different.
Thus, for the so-called normal identities to be deconstructed, the operation is through
leakage lines, escapes and resistances. The social movements of different ethnic-social
groups
feminist movements among others are examples of struggles in societies and in the
educational field, which open up possibilities for other histories.
At the same time, studies on the culture of childhood and young people linked to
difference-based studies make an effort to open up possibilities for hatching stories
told in their own name. May educational practices, individuals and society in general
look at the other that exists in itself; may other subjectivities be produced, less rational
and more sensitive, opening up to the emergence of the various others that exist in us.

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Bibliographical References:

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. História da Sexualidade I. RJ: Graal, 1999
. História da Sexualidade II. RJ: Graal, 1998
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foucaultianos. Petrópolis: Vozes, 1994.
LOURO, G. et. al. (Org.). Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na
educação. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.
SKLIAR, C. Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? RJ:
DP&A Editora, 2003.
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em educação. Petrópolis: Vozes, 2005.
TÉLLEZ (2001). In: LAROSSA, J. SKLIAR, C. Habitantes de Babel: políticas e
poéticas da diferença. BH: Autêntica, 2001.

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Variações telúricas sobre a filosofia de Deleuze e Guattari

Alisson Ramos de Souza1

Resumo: Este artigo pretende apresentar três variações sobre a geofilosofia de Gilles Deleuze
e Félix Guattari, tomando a terra como fio condutor. A primeira variação consiste em mostrar
a ligação entre um fenômeno geológico, a saber, o vulcão e o conceito de acontecimento,
enquanto irrupção do novo; a segunda variação apresenta o caráter sublime do vulcão a fim de
apresentar o desregramento das faculdades e a abertura ao impensado do pensamento. Por
fim, a terceira variação tenta elaborar uma crítica do recurso ao fundamento, a partir da crítica
da verticalização da terra pelo Estado, sugerindo o anarquismo nômade como uma maneira de
recusar o pensamento sedentário.

Palavras-chave: Deleuze; Guattari; vulcão; sublime; nomadismo.

Abstract: This paper intends to present three variations on the geophilosophy of Gilles
Deleuze and Félix Guattari, taking the earth as it’s guiding thread. The first variation consists
in showing the link between a geological phenomenon, namely, the volcano and the concept
of event, as the eruption of novelty; the second variation presents the sublime character of the
volcano in order to demonstrate the dissolution of the faculties and the openness to the
unthought in thought. Finally, the third variation attempts to elaborate a critique of the
recourse to the foundation, from on the critique of State verticalization of the earth,
suggesting the nomad anarchism as a way of refusing the sedentary thought.

Key-words: Deleuze; Guattari; volcano; sublime; nomadism.

Primeira Variação: Eppur si Muove

Inúmeras vezes já foi invocada a relação da filosofia com a terra, uma relação, ao
mesmo tempo, contingente e necessária. Diz-se que a filosofia tem uma terra natal: a Grécia;
que está assentada sobre um solo: a Verdade ou a Razão; finalmente, que ela – a filosofia –,
hoje, divide-se em duas: analítica e continental. A metáfora geográfica não é de modo algum
gratuita; aliás, deveríamos pensar a filosofia não apenas a partir de uma história, mas também
de uma geografia, porquanto “[a] história nos ensina que os bons caminhos não têm fundação,
e a geografia, que a terra só é fértil sob uma tênue camada” (DELEUZE, 1998, p. 11). Embora
o motivo da terra esteja, à primeira vista, muito mais próximo de Heidegger do que Deleuze,
ninguém levou tão longe a relação entre a terra e a filosofia como Gilles Deleuze, talvez

1
E-mail: alissonramosdesouza@gmail.com. Graduado em Música pela Universidade Estadual de Londrina -
UEL (2012). Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (2016). É autor do livro “Deleuze e o
corpo: por uma crítica da consciência” (2017), pela Editora Fi.

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apenas Nietzsche, o inventor da geofilosofia. Os conceitos “telúricos” germinam e atravessam


seu pensamento, sobretudo, em seus livros escritos juntamente a Félix Guattari: os nômades e
os sedentários, o espaço liso e o estriado, o fenômeno da territorialização e
desterritorialização, o ritornelo como agenciamento territorial etc. O convite imperativo
nietzschiano: “Permanecei fiéis à terra” (NIETZSCHE, 2010, p. 103), assume, em Deleuze, o
tom de um manifesto da imanência.
Não se trata pura e simplesmente uma inversão materialista – Marx virando Hegel de
cabeça para baixo –, mas algo mais radical. Essa radicalidade também não é um retorno a algo
mais fundamental, ou seja, uma retomada das coisas pela raiz, e menos ainda o retorno a algo
que presumidamente foi encoberto, desviado ou esquecido, como pretendia Heidegger: o que
subjaz as raízes é a própria terra. A terra deixa então de ser o sinônimo de um fundamento
(grund) absoluto, encontrando-se doravante desalojada. Paradoxalmente, a terra é a negação
de todo fundamento. Pois um fundamento solicita um grau zero para começar, mas a terra não
tem começo nem fim, salvo nas escatologias religiosas ou científicas. Ela é a impossibilidade
de um começo (arché) e de um fim (éschaton). Não possui um centro, um oriente ou ocidente.
A América, dizem-nos Deleuze e Guattari (2011, p. 40), “inverteu as direções”, colocou seu
oriente no oeste, como se a terra tivesse se arredondado na América. É Husserl quem diz que
a terra não se move, porém, a terra só é imóvel sob a condição de estar reduzida e de se referir
a uma consciência intencional, ou ainda, a um campo transcendental governado pela forma
egológica de uma consciência transcendental. A filosofia movediça de Deleuze,
contrariamente, é resistência a todas as formas estratificadas e sedentárias, isto é, trata-se de
uma filosofia anárquica que instaura uma nova topologia e uma nova terra. Nem fundacionista
nem antifundacionista, mas entre as duas ordens: filosofia nômade.
Deleuze e Guattari (1992, p. 134) nos advertem, “pode ser que nada mude ou pareça
mudar na história, mas tudo muda no acontecimento, e nós mudamos no acontecimento”.
Uma filosofia do acontecimento estaria mais próxima da geografia, ou ainda, da geologia do
que da história. Correntemente, acredita-se que um acontecimento é da ordem da história, que
se pode fazer uma história dos acontecimentos, encadeando-os segundo um regime de
causalidade qualquer. Contudo, um acontecimento não é nem histórico nem anistórico, nem
eterno nem secular, mas intempestivo. Um acontecimento não se inscreve numa causalidade
dada, pelo menos não na de uma física aristotélica ou newtoniana, talvez, numa causalidade
estoica ou spinozista. Dever-se-ia perguntar: por que uma geologia e não uma história? Ora, a
história sempre pressupõe um sujeito ou sujeitos históricos, heróis, classes, narrativas mais ou
menos lineares, enfim, toda uma sorte de personalismos. A geologia, por outro lado, é

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impessoal, assubjetiva, anônima, à maneira do campo transcendental. Não existe um sujeito


ou responsável por um terremoto, mesmo que Voltaire tenha amaldiçoado Deus pelo grande
sismo de Lisboa de 1755. Um vulcão também não pode ser personalizado, embora a mitologia
havaiana atribua a Pele às suas erupções, entoando-a cânticos. O acontecimento, devido ao
seu caráter difuso, singular e rarefeito, nunca é totalmente apreensível, ele resiste à apreensão
e à compreensão total. Irreprodutível, inexplicável, imprevisto, tal é a feitura de um
acontecimento. Não se trata de coisas, palavras ou nomes, mas de forças, forças da natureza.
Uma força irresistível e poderosa, mas, antes de tudo, uma força impessoal.
Como toda disciplina, a geologia se divide em várias ramificações: paleontologia,
hidrogeologia, petrologia, sismologia, vulcanologia etc., com relativa autonomia e
interdependência. Com efeito, poder-se-ia perguntar: o que é um vulcão? Antes de tudo, é um
agenciamento territorial. Ele comporta uma zona interior, uma zona exterior e uma zona
intermediária. Ora, magma caótico; ora, estabilidade vulcânica; ora, lava, erupção e irrupção
do novo. À guisa de exemplo, o Vesúvio não é nada além de uma formação montanhosa, uma
excrescência em formato cônico – à maneira da memória bergsoniana –, um efeito superficial
da dinâmica interior da terra. Inscrito no registro sismográfico, com sua atividade calculada,
pode-se realizar previsões mais ou menos precisas, conter danos, oferecer medidas
preventivas etc. Porém, quando algo emerge na superfície, nada mais pode segurá-lo, todo
cálculo torna-se inútil; a própria operação do cálculo deve mudar. A sismografia nada mais é
do que o índice de uma terra movente.
Antes da erupção, dizem os geólogos, a lava recebe outro nome, qual seja, magma.
Não são dois nomes distintos para designar a mesma coisa, o magma possui uma diferença de
natureza mais do que de grau em relação à lava, porquanto se trata de um outro tipo de
relação. Antes da erupção, isto é, antes de se diferenciar, o magma não possui uma forma, ele
é apenas força, quer dizer, uma quantidade de força ou um grau de potência. É apenas quando
sobe à superfície, deixando a câmara magmática através de um conduto, que o magma deixa
de ser magma e se torna lava. A câmara magmática, localizada na maioria das vezes no manto
superior, estabelece uma relação quase direta com o núcleo, e, devido às suas ramificações
diversas, uma única câmara pode abastecer mais um de vulcão. Quando pressionada pelas
rochas encaixantes, a câmara impulsiona o magma para fora, repelindo-o. O núcleo, por sua
vez, não é um espaço centrípeto que guarda e represa o magma (um estoque prévio de
possíveis), pelo contrário, é ele mesmo que o produz. Não se trata então de um espaço
concêntrico, mas, centrífugo. Quando na superfície, a lava flui de diferentes maneiras,
movendo-se vagarosamente, porém, numa velocidade absoluta. Seu movimento é

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omnidirecional e rizomático. Esfriando, o magma assume uma forma sólida e estável. Em


seguida, o fluxo lávico é cortado pelo fenômeno da crostificação, mas apenas sob a condição
de ceder e dar lugar a um novo fluxo, sucessivamente. Todavia, seria apressado estabelecer
esquema evolutivo: magma-lava-rocha ígnea. A rocha é tão somente um estrato, um
sedimento – objeto de estudo da litologia, e não da vulcanologia. As ilhas vulcânicas, que são
engendradas pela atividade submarina dos vulcões, não são o subproduto de uma causalidade
ou evolução, elas são uma involução criadora, resultado de um processo de diferenciação.
Aquilo que surge, trazendo ao ar livre um movimento vindo de baixo, é a novidade. Um
vulcão é, portanto, a condição de possibilidade para o advento do novo, de uma imprevisível e
a-terrorizante novidade que altera o estado das coisas. Destruição do antigo, mas também a
construção do novo: uma verdadeira crítica da terra. Mais do que um fenômeno da natureza, o
vulcão é um plano de consistência, isto é, ele o crivo que recorta e dá forma ao caos
magmático.
Se se diz que o magma possui alguma semelhança com a lava, é pelo mesmo motivo
que se diz que a diferença é a oposição, contradição, diversidade e negação. O magma não é
propriamente o outro da lava, sua negação determinada ou indeterminada. A lava é o magma
diferido, ou melhor, diferenciado. E o magma se diferencia de várias maneiras, manifestando-
se em todas as escalas, “desde os cristais de plagiocásio milimétricos em uma lava andesítica,
[...] até os batólitos graníticos” (GILL, 2014, p. 65). A lava repete o magma, mas repete sua
diferença. Não há, portanto, um regime de causalidade – magma infraestrutural e lava
superestrutural. Nesse sentido, Castoriadis já atentava que a “lógica dos magmas” era
irredutível à lógica conjuntista-identitária, sendo impossível uma reconstituição das partes
num todo. Tudo aquilo que pode ser efetivamente dado é segundo o modo de ser do magma,
mas não é dado de uma vez por todas, pois o magma é uma espécie de massa produtora de
formas organizáveis, porém ele mesmo não é redutível a essas formas, sinalizando para um
mundo sempre aberto e por vir. Ele “representa” a indeterminação que instaura a
determinação, sem contudo se reduzir a ela.
O magma só se efetua, ou melhor, só adquire sentido na lava, ou melhor, é uma
intensidade que adquire extensão na lava. Em outras palavras, é um virtual que se atualiza
num plano de imanência. Assim, o magma não é propriamente sensível, mas a própria
condição da sensibilidade. É uma intensidade insensível, porém, é aquilo que só pode ser
sentido. Como a diferença, o magma “se anula na medida em que é posto fora de si, no
extenso e na qualidade que preenche esse extenso” (DELEUZE, 1988, p. 364), sendo que, em
última análise, é ele que cria tanto essa qualidade quanto esse extenso. O movimento de devir

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e aquilo que devém são, no fundo, a mesma coisa – um pouco como o recalque e o retorno do
recalcado são o mesmo. A erupção ou diferenciação, o que dá no mesmo, é apenas a
manifestação superficial de algo que ocorre na terra. O magma desterritorializa-se e
reterritorializa-se na lava, isto é, na terra. Afinal, todo agenciamento comporta um coeficiente
de desterritorialização. A lava é, pois, uma linha de fuga. Com efeito, um vulcão, sem
qualquer metáfora, sinaliza para um empirismo superior que caminha em direção a um campo
transcendental impessoal. O vulcão, o magma, a lava não são metáforas ou figuras do plano
de imanência, do virtual e do atual, eles são dramatizações conceituais, quer dizer,
encarnações do virtual.
Entretanto, seria impreciso tomar o vulcão como um elogio das profundezas da terra.
Parafraseando Valéry, Deleuze diz que o mais profundo é a pele. É uma denúncia da
mistificação da falsa profundidade. “O filósofo não é mais o ser das cavernas, nem a alma ou
o pássaro de Platão, mas o animal chato das superfícies, o carrapato, o piolho” (DELEUZE,
1998, p. 136). Tudo se passa na superfície, ou melhor, tudo o que acontece acontece na
superfície. Uma vez mais, os acontecimentos incorporais pertencem à superfície; é margeando
a superfície que passamos dos corpos aos incorporais (DELEUZE, 1998, p. 11). Uma nova
lógica se instaura, a saber, uma lógica do sentido e dos efeitos incorporais. Essa lógica
responde ou se dirige a problemas, nesse sentido, uma erupção é a colocação de um problema,
qual seja, o do funcionamento de uma válvula de escape que indica a pressão e o calor
exercidos no interior da terra, acarretando a “expulsão” do magma sob a forma de lava. Mas o
problema não se encerra em sua solução eruptiva, ele engendra novas maneiras de
problematizar. O movimento das placas tectônicas também é efeito dessa dinâmica interna do
núcleo, sendo responsável pelos terremotos e maremotos, criando grandes fissuras e
cordilheiras. Não diremos, pois, que cada problema tem a solução que merece, mas que um
problema não é senão a gênese do novo, gênese do pensamento no próprio pensamento.
Fitzgerald já dizia que a vida era também um processo de ruptura, uma ruptura vulcânica:

Há uma outra espécie de golpe que vem de dentro, que não sentimos até ser
tarde demais para fazer qualquer coisa, até percebermos de forma decisiva
que em alguns aspectos nunca mais seremos os mesmos. A primeira espécie
de ruptura parece acontecer rapidamente; a segunda acontece quase sem
notarmos, mas é com certeza percebida de súbito (FITZGERALD, 2007, p.
72).

Um vulcão, entretanto, nem sempre possui uma estrutura cônica, existem também as
fendas vulcânicas. Uma fenda nada mais é do que uma bifurcação, uma rachadura, ou ainda,

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uma fissura que não possui “nem interior nem exterior, ela se acha na fronteira, insensível,
incorporal, ideal” (DELEUZE, 1998, p. 158). A fissura é também o signo de uma linha
desejante, por exemplo, a fissura etílica do Cônsul inglês de À sombra do vulcão, de Malcolm
Lowry. A fissura não se reduz à falta do álcool, da droga, do jogo etc., ela é produção e
agenciamento de novas relações. É um desejo irresistível de desterritorializar-se, de devir
outro. A fissura é precisamente aquilo que faz com que algo de novo se passe. Situando-se
entre dois, nem aqui nem ali, nem à esquerda nem à direita, ela nos mostra a fragilidade de
todas as coordenadas topológicas, mais do que isso, a fragilidade de todo fundamento. É na
fenda que o virtual se diferencia, é na fenda que novidade se passa e se produz. Deleuze
também reclama a rachadura do cogito kantiano como condição do pensamento. A introdução
da forma vazia do tempo na filosofia transcendental – em que a intuição deixa de se referir à
sensibilidade –acarreta a morte de Deus e a fissura no cogito. O pensamento recebe assim um
novo fôlego, perde a transcendência, mas isso não se faz de maneira pacífica, o pensamento
torna-se agressão. É quando o magma se desterritorializa, que uma nova forma ganha vida,
que uma nova terra se anuncia.

Segunda Variação: A Erupção do Pensamento

Uma erupção vulcânica não é apenas uma desarmonia da natureza, ela implica também
uma desarmonia, desacordo ou desarranjo das faculdades, em que o entendimento já não
entende, a imaginação já não imagina, a intuição já não intui. Numa palavra, uma erupção é
da ordem do sublime. Lyotard lembra, a fortiori, que, diferentemente do belo que provoca um
prazer por meio de uma harmonia livre e desinteressada entre a função das imagens e dos
conceitos, o sublime é aquilo que só pode ser pensado, embora fuja do domínio da
representação empírica. Nesse sentido, ele diz que:

Diante de um grande objeto, o deserto, uma montanha, uma pirâmide, ou um


objeto muito poderoso, uma tempestade no oceano, uma erupção vulcânica,
aparece a ideia de um absoluto que só pode ser pensada e deve permanecer
sem intuição sensível, como uma ideia da razão. A faculdade de
apresentação, a imaginação, falha em fornecer uma representação adequada
desta ideia. Este insucesso na expressão suscita uma tristeza, um gênero de
fosso sentido pelo sujeito, entre o que ele pode conceber e o que pode
imaginar. Mas, esta tristeza, por sua vez, dá origem a um prazer: a
impotência da imaginação atesta a contrario que tenta fazer ver o que não
pode ser mostrado, e que, deste modo, tem por objetivo harmonizar o seu
objeto com o da razão; e por outro lado, a insuficiência das imagens é um
sinal negativo da imensidão do poder das ideias. Este desregramento das
faculdades entre elas dá origem à extrema tensão (a agitação, diz Kant) que

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caracteriza o pathos do sublime, sendo diferente do sentimento calmo do


belo (LYOTARD, 1990, p. 103, grifo nosso).

A sensação suscitada pelo sublime é de que algo ocorrerá, ou melhor, de que “o que o
Ocorrerá não ocorra, cesse de ocorrer (LYOTARD, 1990, p. 104). O sublime instaura o clima
de tensão e a sensação de algo que vai ocorrer, como uma dissonância com sua resolução
sempre adiada. O sublime evoca, então, um acontecimento porvir, mas um acontecimento
grande demais para que se possa conceber. Kant assim define a noção de sublime:
“denominamos sublime o que é absolutamente grande” (KANT, 1995, p. 93). Se o belo
relaciona-se a uma qualidade (não do objeto, mas do juízo), o sublime, por seu turno,
relaciona-se a uma quantidade. Ou seja, o sublime é numeral. No entanto, essa quantidade ou
grandeza de que fala Kant não tem termos comparativos, pois, “dizer simplesmente que algo é
grande é totalmente diverso de dizer que ele seja absolutamente grande. O último é o que é
grande acima de toda comparação” (KANT, 1995, p. 93). Analogamente ao belo, o sublime
também é uma complacência sem conformidade, isto é, sem interesse, mas se o belo era
aquilo que aprazia mediante os sentidos, o sublime apraz suprassensivelmente, visto que não é
sensível, mas além dos sentidos, ou ainda e de certo modo, insensível; não podendo ser
intuído ou conhecido, o sublime só pode ser pensado. Se o belo não possuía, em última
instância, determinação lógica, o sublime não possui qualquer determinação empírica, uma
vez que o absolutamente grande é inabarcável pelos sentidos. Sua grandeza é infinita; ele é a
desmesura. O sublime, como absolutamente grande, suspende o sujeito do espaço e do tempo,
colocando-o em uma situação de terror e de desamparo. Kant afirma que essa
descomplacência do sublime deriva de uma “inadequação da faculdade da imaginação, na
avaliação estética da grandeza” (KANT, 1995, p. 104). Se Platão lançava as condições para a
subversão do platonismo, Kant também o faz, à sua revelia, para a subversão e perversão de
sua crítica. É a analítica do sublime que põe por terra a ideia de um sujeito a priori do
conhecimento.
O sublime, embora seja impensável ou impensado, é aquilo que só pode ser pensado,
que nos força a pensar. Pensar não é mais o livre exercício de um sujeito, tampouco, depende
de uma decisão prévia e de um método. O pensamento torna-se uma agressão, uma violência,
uma coerção. Pois ninguém pensa de bom grado, por meio de um ato voluntário, só pensamos
quando coagidos. Ninguém pensa de acordo com o senso comum, mas por meio de um senso
de urgência, de uma necessidade suscitada por uma crise ou catástrofe. Afinal, “a lógica de
um pensamento é o conjunto das crises que ele atravessa, assemelha-se mais a uma cadeia

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vulcânica do que a um sistema tranquilo e próximo do equilíbrio” (DELEUZE, 2013, p. 110,


grifo nosso). É numa situação crítica ou limite que nos engajamos no próprio pensamento. Ou
melhor, é no limite, numa região fronteiriça entre o pensado e o impensado que nos
colocamos a pensar. Para ficar em alguns poucos exemplos, embora eles abundem:
Schoenberg inventa uma nova modalidade para ordenar o “discurso musical” – o
dodecafonismo – em meio a uma crise do tonalismo; Sheherazade, a narradora d’As mil e uma
noites, só inventa histórias, cada vez mais fantásticas, porque respondia a uma necessidade,
sua própria vida, e assim por diante.
Mas o que é que nos força a pensar? Diz Deleuze (1988, p. 231): “Há no mundo
alguma coisa que força a pensar. Este algo é o objeto de um encontro fundamental e não de
uma recognição”. Ao objeto desse encontro Deleuze chama de signo2. Um signo é uma marca
deixada pelo encontro de dois corpos, é uma cicatriz ou ferida. Trata-se então de um
incorporal que se encarna nos corpos. Não se deve, no entanto, confundir o estatuto dos
incorporais com um suposto inatismo, pois, é a imagem dogmática que coloca o pensamento
como uma questão de recognição, seja a reminiscência platônica, o inatismo cartesiano ou o a
priori kantiano. Não pensamos o signo, mas a partir dele. Um signo é aquilo que põe o
pensamento em movimento e age nele. Para Deleuze (1976, p. 89), “é preciso que uma
violência se exerça sobre ele enquanto pensamento, é preciso que um poder force-o a pensar,
lance-o num devir-ativo”. Trata-se de algo que vem de fora, isto é, de forças exteriores que
devem se apoderar do pensamento. O pensamento deixa de ser o domínio de um eu
transcendental, tornando-se impessoal e assubjetivo. Pensar já não se faz na relação do sujeito
com o objeto, mas “se faz antes na relação entre o território e a terra” (DELEUZE;
GUATTARI, 1992, p. 103). Pensamento e vida então se imbricam.

Terceira Variação: A Anarquia do Fundamento

Mais do que Hegel, Kant é o pensador par excellence do Estado. Ao estabelecer os


limites quid juris das faculdades: entendimento, sensibilidade, imaginação, delimitando até
onde o conhecimento poderia ir com segurança, o filósofo de Könnigsberg inaugura uma nova
terra: a filosofia transcendental ou crítica. Ao mesmo tempo, a crítica também funda um poder
judiciário: o tribunal da razão. As formas a priori precedem de direito as representações
empíricas, elas são o código penal da razão. E aquilo que não se conforma ao entendimento

2
“Pois é precisamente o signo que é objeto de um encontro e é ele que exerce sobre nós a violência. O acaso do
encontro é que garante a necessidade daquilo que é pensado” (DELEUZE, 2006, p.15).

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sofre sanções e é tido como ilusão. O contrato das faculdades é o lance de prestigitador que
garante a resolução dos litígios, promovendo a concordância entre os conceitos e os dados
sensíveis. A esse propósito, Deleuze (1988, p. 228) lembra que “há de tudo na Crítica, um
tribunal de juiz de paz, um cartório de registros, um cadastro”. A ser assim, o sujeito
transcendental kantiano não é outra coisa senão um sujeito jurídico.
O problema do fundamento preocupa a filosofia e o Estado. Quando advém o Estado?
Como se dá a passagem do Estado de natureza para o Estado civil? O que seria fundar senão
determinar o que o pensamento pode ou não fazer de direito, isto é, uma espécie de jurisdição
do pensamento? Um fundamento estabelece um território teórico, distribuindo e delimitando
os elementos que o preenchem. Mas a filosofia, quando se inclina a pensar o fundamento, não
cessa de bendizer os poderes estabelecidos3. Deleuze e Guattari observam que a imagem
dogmática do pensamento faz apelo ao Estado, e vice-versa. Não à toa, o filósofo tornou-se
professor público, o funcionário do Estado. Tanto o pensamento quanto a forma-Estado
inventam um consenso espúrio, um endossando o outro, autenticando-se e dando-se fé. Em
última instância, a imagem dogmática do pensamento seria apenas a forma-Estado
desenvolvida no pensamento4. À título de ilustração:

É uma curiosa troca que se produz entre o Estado e a razão, mas essa troca é
igualmente uma proposição analítica, visto que a razão realizada se confunde
com o Estado de direito, assim como o Estado de fato é o devir da razão. Na
filosofia dita moderna e no Estado dito moderno ou racional, tudo gira em
torno do legislador e do sujeito. É preciso que o Estado realize a distinção
entre o legislador e o sujeito em condições formais tais que o pensamento, de
seu lado, possa pensar sua identidade (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p.
47).

O aparelho de estado institui “um imperium do pensar-verdadeiro, operando por


captura mágica, apreensão ou liame, constituindo a eficácia de uma fundação (muthos)
(DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 45)”. O que o Estado e a imagem dogmática têm em
comum é a hegemonia da identidade e o exorcismo da diferença. A filosofia da representação
e a forma-Estado necessitam conjurar a diferença, só a aceitam sob a condição de submetê-la
ao primado da identidade, que faz com que ela se diga apenas secundariamente. A diferença

3
“Desde que a filosofia se atribuiu ao papel de fundamento, não parou de bendizer os poderes estabelecidos, e
decalcar sua doutrina das faculdades dos órgãos de poder do Estado. O senso comum, a unidade de todas as
faculdades como centro do Cogito, é o consenso de Estado levado ao absoluto” (DELEUZE; GUATTARI, 2012,
p. 47).
4
“O pensamento já seria por si mesmo conforme a um modelo emprestado do aparelho de Estado, e que lhe
fixaria objetivos e caminhos, condutos, canais, órgãos, todo um organon. Haveria portanto uma imagem do
pensamento que recobriria todo o pensamento, que constituiria o objeto especial de uma ‘noologia’, e que seria
como a forma-Estado desenvolvida no pensamento” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 45).

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anárquica do espaço liso deve se aburguesar, tornar-se uma funcionária bem comportada do
Estado, isto é, do espaço estriado. Assim, o Estado opera pela apreensão e captura das
singularidades nômades, pela delimitação e fixação do espaço liso, nesse sentido:

Uma das tarefas fundamentais do Estado é estriar o espaço sobre o qual


reina, ou utilizar os espaços lisos como um meio de comunicação a serviço
de um espaço estriado. Para qualquer Estado, não só é vital vencer o
nomadismo, mas controlar as migrações e, mais geralmente, fazer valer uma
zona de direitos sobre todo um “exterior”, sobre o conjunto dos fluxos que
atravessam o ecúmeno. Com efeito, sempre que possível o Estado
empreende um processo de captura sobre fluxos de toda sorte, de
populações, de mercadorias ou de comércio, de dinheiro ou de capitais, etc.
Mas são necessários trajetos fixos, com direções bem determinadas, que
limitem a velocidade, que regulem as circulações, que relativizem o
movimento, que mensurem nos seus detalhes os movimentos relativos dos
sujeitos e dos objetos (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 63).

A definição clássica do Estado o descreve como aquele organismo que monopoliza


com êxito o uso da força em determinado território (WEBER, 2013, p. 56). Eis sua injunção:
“Nesse território, só eu posso arrecadar os tributos, só eu posso emitir moeda, só eu posso te
proteger.” Com efeito, o Estado apresenta-se como proprietário de um território que
corresponde a uma extensão de terra e uma distribuição sedentária, dispondo elementos
díspares e divergentes segundo uma ordenação determinada. Os elementos dispostos não
preexistem à sua distribuição – pelo menos não de direito, visto que ele mede a fim de ocupar
–, antes, é essa territorialização que instaura, ou melhor, inscreve esses elementos num regime
de inteligibilidade jurídico-territorial. Além de determinar e ordenar esses elementos, o Estado
também estabelece quais movimentos são válidos em seu interior, ou seja, o que é permitido e
vedado fazer dentro de seu território em observância à lei, fazendo circular códigos (penais e
civis) e palavras de ordem – donde sua dimensão performativa.
Com o Estado, a terra deixa de ser imanente e torna-se transcendente, vertical,
hierárquica. No entanto, seria insuficiente definir um Estado apenas com relação ao seu
interior, pois a relação com o fora é de igual importância; daí a necessidade dos tratados
internacionais. O Estado estabelece, demarca, delimita o que lhe pertence quid juris, ou seja,
ele define aquilo que lhe pertence de direito e aquilo que não lhe pertence. Tudo se passa
como se todos os cidadãos fossem portadores quid juris de direitos, embora não o sejam quid
facti, porquanto resta sempre um espaço não recoberto, não esquadrinhado, fora de sua
jurisdição: a khôra platônica (espaço não-topológico), isto é, o fora da polis. É o espaço das
minorias, dos não assistidos, dos clandestinos, dos sem direitos. Paradoxalmente, é a margem,
o limite ou fronteira que define o centro, a constante, o padrão.

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Trata-se, então, de um mecanismo de inclusão e exclusão, de pertença e não pertença.


Ou se é cidadão ou estrangeiro, sans papiers, apátrida etc. Uma lógica totalitária do terceiro
excluído. Entretanto, nem todo território é estatal; aliás, o Estado procede mais por
codificação e sobrecodificação do que por territorialização e desterritorialização. De todo
modo, a nossa hipótese é de que o Estado é, antes de tudo, o Estado de direito (État de droit,
Rechsstaat), ainda que ele viole os direitos. Derrida (2007) afirma acertadamente que o
Estado reivindica menos o direito ao uso da força do que o direito ao direito. Na medida em
que reivindicar o direito é, antes de tudo, reivindicar o direito à terra. Carl Schmitt (1979, p.
21) recorda que “a terra é denominada mãe do direito”, uma vez que “[o] contém em si
mesma como recompensa do trabalho; o revela em si mesma como limite firme; e o leva
sobre si mesma como sinal público da ordem” (SCHMITT, 1979, p. 21-22). Por essa razão, a
despeito das sociedades primitivas, como Clastres (2013) as descreveu, serem desprovidas de
Estado, elas não são necessariamente sociedades sem direitos.
Todavia, o pensamento não se reduz ao Estado, assim como a diferença não se reduz
às figuras da identidade. O pensamento, como foi dito antes, não é o resultado de um gesto
voluntário; ao contrário, ele exige uma coerção, não de direito, mas de fato. Essa coerção
advém do elemento estrangeiro na forma da exterioridade do pensamento. Se o Estado, como
pretendem Deleuze e Guattari, define-se pelas relações interiores,5 aquilo que o ameaça só
pode vir de fora, a pura exterioridade, a saber, a máquina de guerra nômade. Entretanto, seria
incorreto dizer que existem duas imagens do pensamento: uma dogmática do Estado e outra
nômade contrária ao Estado. Deleuze nos ensina que os nômades têm uma relação especial
com a terra, que eles são povos sem Estado, mais ainda, que sua máquina de guerra é contra o
Estado. Essa exterioridade “situa o pensamento num espaço liso que ele deve ocupar sem
poder medi-lo, e para o qual não há método possível, reprodução concebível, mas somente
revezamentos, intermezzi, relances” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 49). O Estado é um
organismo, e a terra, um CsO – a desterritorializada. O nômade não para de desfazer o
organismo para poder criar o corpo sem órgãos. Desse modo, a máquina de guerra não é a
antítese do aparelho de estado, mas, antes, “é a força que destrói a imagem e suas cópias, o
modelo e suas reproduções, toda possibilidade de subordinar o pensamento a um modelo do
Verdadeiro, do Justo ou do Direito (o verdadeiro cartesiano, o justo kantiano, o direito


5
“É que a exterioridade da máquina de guerra em relação ao aparelho de Estado revela-se por toda parte, mas
continua sendo difícil de pensar. Não basta afirmar que a máquina é exterior ao aparelho, é preciso chegar a
pensar a máquina de guerra como sendo ela mesma uma pura forma de exterioridade, ao passo que o aparelho de
Estado constitui a forma de interioridade que tomamos habitualmente por modelo, ou segundo a qual temos o
hábito de pensar” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 15-16).

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hegeliano, etc.)” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 49). Nesse sentido, a máquina de guerra
é uma potência do simulacro, desfazendo o fundamento da imagem dogmática do pensamento
e da forma-Estado. Se o fundamento é originário, os nômades são povos anárquicos, ou
melhor, contra a arché: povo sem origem, sem história e sem Estado. Os nômades não
recorrem a um sujeito universal do conhecimento para pensar, ao contrário, eles invocam uma
raça singular, afinal, “todo pensamento é já uma tribo, o contrário de um Estado. E uma tal
forma de exterioridade para o pensamento não é em absoluto simétrica à forma de
interioridade” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 49). Nietzsche (2010, p. 75) já afirmava
que “onde ainda existe povo, este não compreende o Estado”. O pensamento deixa de ser um
exercício de introspecção e se torna, por assim dizer, uma extrospecção. Não se revela numa
meditação ou em mediações, mas no imediato. Conjugar o pensamento com as forças
exteriores, forças do fora, não é outra coisa senão fazer do pensamento uma máquina de
guerra. Para Deleuze e Guattari, o pensamento nômade é:

Um pensamento às voltas com forças exteriores em vez de ser recolhido


numa forma interior, operando por revezamento em vez de formar uma
imagem, um pensamento-acontecimento, hecceidade, em vez de um
pensamento-sujeito, um pensamento-problema no lugar de um pensamento-
essência ou teorema, um pensamento que faz apelo a um povo em vez de se
tomar por um ministério (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 51).

O nômade, lembra-nos Deleuze e Guattari, é o desterritorializado por excelência. É na


desterritorialização que ele constitui sua relação com a terra, reterritorializando-se na própria
desterritorialização. Se o Estado tem como corolário um espaço estriado, o nômade vale-se de
um espaço liso. Espaço que, tal como a música de Boulez, ocupa sem medir. Espaço
heterogêneo, vulcânico, rizomático. Antimodelo ambulante contra o modelo estáti(sti)co. Os
nômades são, enfim, aqueles que não se movem. Estranho enunciado que Deleuze e Guattari
emprestam de Toynbee. Isso se dá porque o trajeto nômade é um sempre estar a caminho, sem
qualquer finalidade. Entretanto, o povo nômade é um povo veloz. É preciso distinguir o
movimento relativo, que vai de um ponto ao outro, do movimento absoluto nomádico. O
movimento pode ser rápido, mas não será necessariamente veloz, enquanto que a velocidade
pode ser lenta, ou inerte, mas ainda assim será velocidade. Isso porque “o movimento é
extensivo, a velocidade, intensiva” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 55). O pensamento
geofilosófico alia a velocidade nômade às erupções vulcânicas. Quando a filosofia deixa de
ser um exercício de contemplação dos céus, ela faz mais do que olhar para a terra, ela passa a
inventar, criar e atualizar potências do caos. E o filósofo passa então a brincar com a terra,

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tornando-a leve, como a criança de Zaratustra. Torna-se, então, um profeta da imanência, que
vaticina uma nova terra. Todavia, ele não fala aos homens, mas ao Além do homem, aquele
que Nietzsche disse ser o sentido da terra. À filosofia do Estado, opõe-se a filosofia nômade,
vulcânica, telúrica.

Referências

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Tradução de Guy


Reynaud. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Tradução de Théo Santiago. São Paulo:
Cosac Naify, 2013.

DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 2013.
______. Diferença e repetição. Tradução de Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro:
Graal, 1988.
______. Lógica do sentido. Tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva,
1998.
______. Nietzsche e a filosofia. Tradução de Ruth Joffily Dias e Edmundo Fernandes Dias. R
Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.
______. Proust e os signos. Tradução de Antonio Carlos Piquet e Roberto Machado. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2006.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, v. 1.
Tradução de Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Ed. 34, 2011.
______. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, v. 5. Tradução de Peter Pál Perlbart e Janice
Caiafa. São Paulo: Ed. 34, 2012.
______. O que é a filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de
Janeiro: Ed. 34, 1992.
DERRIDA, Jacques. Força de lei: o fundamento místico da autoridade. Tradução de Leyla
Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
FITZGERALD, F. S. Crack-up. Tradução de Rosaura Eichenberg. Porto Alegre: LP&M,
2007.
GILL, R. Rochas e processos ígneos. Tradução de Félix Nonnenmacher. José Porto Alegre:
Bookman, 2014.
HUSSERL, Edmund. La tierra no se mueve. Tradução de Agustín Serrano de Haro. Madrid:
Complutense, 1995.
KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valerio Rohden e António
Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

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LYOTARD, Jean-François. O Inumano. Tradução de Ana Cristina Seabra e Elisabete


Alexandre. Lisboa: Estampa, 1990.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2010.
SCHMITT, Carl. El nomos de la tierra: En el derecho de Gentes del “Jus Publicum
eurapeaum”. Traducido por Dora Schilling Thon. Buenos Aires : Editorial Struhart & Cía,
1979.
WEBER, Max. “A política como vocação”. In: Ciência e Política: duas vocações. Tradução
de Leônidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota São Paulo: Editora Cultrix, 2013.

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PEQUENA COLEÇÃO DE POEMAS FILOSÓFICOS
1
Leo Mascarenhas

Resumo

De uns tempos pra cá, resolvi investigar melhor como é que se


consegue articular filosofia, escrita e alegria. Isso acabou dando numa
festa: a filosofia se tornou prática, e a prática, filosófica. Tempos não
sucessivos, no entanto, entrecortados por paixões tristes, vindas em
golfadas de tenebrosos acontecimentos históricos. Mas o corpo
resiste, insiste, e encontra seus caminhos: que mais nos pode
interessar fazer além de seguir lutando e estetizando a vida,
endurecendo sem perder a ternura? As palavras que seguem são isso:
uma declaração de amor à vida, uma aposta nos devires
revolucionários, uma dança que não termina, uma fogueira que não se
apaga.

Palavras chave: poesia brasileira; filosofias da diferença; devires


revolucionários

1
Leonardo Balbino Mascarenhas. É belorizontino, arte educador e poeta
marginal. Tem experiência em arte e educação, gestão de projetos culturais e
sociais, e em processos grupais e metodologias para o trabalho coletivo.
Atualmente faz graduação em teatro na UFMG. Publicou Arcaico (poesias
mequetrefes) em 2014, de forma independente.
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SMALL COLLECTION OF PHILOSOPHICAL POEMS

Abstract

Some time ago, I decided to better investigate how one can articulate
philosophy, writing and joy. This ended up giving into a party:
philosophy became practical, and the practice, philosophical. Non-
successive times, however, crossed by sad passions, coming in gaps
of dark historical events. But the body resists, insists, and finds its
ways: what else can interest us to do besides continuing to fight and
esthetize life, hardening without losing tenderness? The words that
follow are this: a declaration of love for life, a bet on revolutionary
becomings, a dance that does not end, a fire that does not go out.

Keywords: brazilian poetry; philosophies of difference; revolutionary


becomings

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0. Prólogo

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instruções para escrever um poema uma tese uma carta de amor


uma mensagem de celular um recado para pendurar na geladeira

Produzir palavras desejantes – e combater as palavras paranoicas

Palavras entupidas de multiplicidades. Sem culpas. Alegres.


Generosas. Sem egoísmos, ressentimentos & vaidades. Nunca
definitivas.

Palavras transitórias. Escorregadias. Palavras sem pretensão de


verdade. Palavras menores. Palavras vadias, cheias de tesão, que têm
e dão água na boca. Entre-trans-inter-linguagens.

Palavras sem território. Sem credenciais. Sem expectativas. Sem


passagens de volta, sem trincos na porta, sem seguro de vida. Palavras
sem muletas, sem referências nem utilidades.

Palavras sem cobranças. Sem pontualidades. Sem guardanapos.

Palavras sem faltas.

Escrever algo que nos coloque diante dos incontáveis, improváveis,


intermináveis, inesperados, indiscretos, infalíveis, imponderáveis,
impassíveis, impensáveis, insistentes acasos.

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ando numas
de estar em outras

abandonando muletas
pensando sem plumas
e abraçando os contras

o programa agora é
gozar sem culpas
amar o instante
e evoé!

mudar o que vier pela frente


mas sem alimentar esperança
medo culpa nostalgia
e sem perder a alegria

tem dias que dá certo


quando não, recomeço
aceito recapitular
e vou lá perdoar o mundo
por não estar no lugar

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1. Diagnósticos

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Vazamento de fluidos

A vida escorrendo como se jamais transbordasse


a madrugada não começasse
nas redes sociais fizesse sentido
a comida não esfriasse
açúcar não matasse
pouco importasse
a serra do curral não desabasse
com os tucanos não piorasse
o corpo não reclamasse
o consumo bastasse
o jornal informasse
não existisse nenhum impasse
fosse um protesto
fosse um pretexto
fosse um poema ou
nunca terminasse

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lembrete

se o mundo segue dominado pelos que têm ódio e não sabem gozar
se ainda perdemos muitas batalhas – aqui e acolá

se em algum momento nos pegarmos tristes desanimados


parados comprometidos com o nada
nos sentindo acuados perdidos entorpecidos
suavemente nos entregando
bocejando

se nos pegarmos sem saber o que fazer


se vacilarmos e voltarmos a acreditar que algum ideal
alguma pequena masturbação – física e mental
alguma droga de injeção diária vai nos salvar

lembremo-nos:
cuidado pra não flertarmos com as máquinas erradas
os escapes são cada vez menores
e é sempre tempo
de se alegrar.
as saídas estão sempre em movimento
assim como nós devemos sempre estar

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sejamos a favor de

qualquer coisa que nos tire dessa nauseabunda normalidade

pode ser um poema

uma loucura

uma experiência de quase morte

um amor

um protesto

uma brincadeira

uma música

um pau de borracha enfiado no sovaco até que ele goze

uma forma qualquer de arte

outra forma qualquer

qualquer coisa

que nos tire dessa náusea

bunda normalidade

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― Você já tentou aquelas técnicas de ressuscitação? Podem ajudar.

― Tipo...

― Tipo aquelas filosofias que pregam que a gente se preocupa


demais com o que nem aconteceu, e talvez nem irá, tipo a vida após a
morte, as férias na praia no próximo janeiro, ser feliz... E que dizem
pra gente se preocupar mais com o agora, e sem grandes pretensões
de acertar ou dar conta ou ser perfeito, apenas manter o esforço de
mudar o que for necessário, mas sem deixar de se divertir e de
celebrar a existência?

― Não... Acredito demais

na ciência
que somos predestinados
naquele livro que comprei no aeroporto
no pastor da minha igreja
no meu umbigo
na revolução
no novo pacote econômico que o governo anunciou
na minha rotina trabalho-shopping-trabalho

_________________________

_________________________

_________________________

pra isso.

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2. Para acabar com o


julgamento do divã

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I. Escrita psicanalítica

A escrita me escapa e me cultiva. Tensiona em mim os poros. Me


joga pra todos os lados, ingovernável. É um ato imponderável. O
texto ganha vida de formas diferentes daquela que você pretendia. O
texto lhe interroga: o que você pensava que tinha a dizer mesmo?

Escrever é domar um animal selvagem.

II. Escrita esquizoanalítica

A escrita me escapa e me cultiva. Abre em mim os poros. Me


atravessa por todos os lados, inesgotável. É um ato imponderável. O
texto lhe convida pra dançar, e ensina que não existem formas nem
planejamentos, nem trocas, só movimento. O texto lhe interroga: o
que você pode dizer agora mesmo?

Escrever é liberar um animal selvagem.

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Aviso ao psicanalista
(ou: contanto que haja movimento)

última vez que lhe peço


quando for entrar favor não usar essa porta
que você forjou

use cada vez uma diferente


tem-se muitas outras saídas
entradas e reentrâncias
todas abertas
(e outras novas por inventar)

portanto não insista nesta ideia


de um só modo
e por favor, deixe papai e mamãe fora disso
(afinal, tamos fartos de tanto drama burguês
e eu nunca mexi com os teus)

e nem me importo
se do carro levarem o volante
contanto restarem os pneus.

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52

toda vez que eu chego em casa a barata transgênero da vizinha tá de


calcinha de vó bege furada batom vermelho e cinta-liga preta sentada
na sala ansiosa entediada mexendo no celular.

diz aí ô id que cê vai fazer?

diz aí ô superego que cê vai fazer?

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resistência & resiliência

não conheço quem seja resiliente


e que não tenha tino pros negócios

ou que não seja


bomba-relógio

não conheço quem seja resistente


e que não goste de sexo no banho

ou que não tenha passado alguma vez


pelo materialismo dialético

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3. Novos territórios

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uma potência do texto:

deixar do lado de fora toda velocidade ansiosa do mundo.

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faça o que eu escrevo

não escreva o que eu digo

esqueça o que eu faço

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2
poesia esquizopata

em modo analítico a palavra


interpreta insiste insinua perturba revela
ressalta entrega convoca
entra em modo paranoico
intimida ressente fixa na falta
e goza duma só maneira

mas se metemos-lhe um corpo


um delírio uma dança um afeto
uma faca logo acima do umbigo
rasgamos-lhe o teto
daí a palavra desliza
ressintoniza transforma
e entra em modo esquizo:
desfia
continua
redobra e desdobra
multiplica
ri
pinta & borda

2
Publicado originalmente na Revista Aspas Duplas, n. 3, junho de 2018.
Disponível em: <http://revistaaspasduplas.com.br/>.
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sincretismos

gostava de manter aberta


todas as possibilidades
da política, por exemplo
se protegia usando de tudo
amuleto da sorte
dieta vegetariana
sexo ruim
sexo bom
respiração tibetana
poesia
oração pra ogum
cachaçadas & palhaçadas
tanta coisa
que quase dava pra se embrulhar por completo

só não sabia
que quanto mais se protegia
mais política fazia.

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revoluções moleculares

quando penso nas revoluções moleculares

não deixo de imaginar pequenas moléculas

conspirando contra as cadeias de carbono

(e outras cadeias)

quando penso nos molares

não deixo de imaginar meus dentes conspirando

e me lembro daquela vez

que consegui uma folga do trabalho por conta duma cárie.

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todo nobre trabalho

de mudar o mundo

ganha ainda mais sentido

quando se tem o pau duro

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IV a.C

Alguém deveria ter enchido o Sócrates de cosquinhas

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expressões de ti mauro
(para Tio Mauro, in memoriam)

Ti Mauro gostava de descompensar as expressões. Um pouco como o


Manoel de Barros, só que com a barriga maior.

Ti Mauro trocava a roupa das palavras. Desequilibrava as expressões


com um empurrão e as fazia dançar e gargalhar. Todo mundo
relaxava então.

Ti Mauro embriagava as palavras.

Se alguém dizia:
O seguro morreu de velho.
Todo mundo é contraditório alguma vez na vida.

Aí Ti Mauro:
O seguro morreu contraditório.
Todo velho é mundo alguma vez na vida.

Ti Mauro gostava mesmo de descompensar as expressões.

Uma vez fez de expressões ex-pressões.

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“o samba é pai do prazer, o samba é filho da dor”:

― fiquei pensando em como uma boa trepada pode subverter os


poderes instituídos

afora duas e meia certezas:

que o samba nunca fez psicanálise;

e foi a maior transvaloração de valores de que se teve notícias

(até a emergência do funk carioca, pelo menos)

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encontros interessantes

uma dona de casa classe média alta cuja filha acabou de abortar numa
clínica clandestina com um político conservador em época de
campanha

uma bexiga cheia por conta duma infecção urinária com um ex-
funcionário da Fiat que acabou de ser demitido porque o governo
aumentou a alíquota de IPI e isso derrubou as vendas

uma medida provisória com uma sessão de exorcismo da igreja


evangélica pentecostal

um edital da Lei de Incentivo à Cultura faltando a página dois com o


aplicativo tinder

uma medida provisória que acabou de apanhar de um skinhead com


uma manada de búfalos gripados

uma manifestação contra o presidente estadunidense com um drone


norteamericano que foi hackeado por um israelense de quinze anos
filho de mãe palestina que ouve miley cyrus e que acabou de ler
assim falou zaratustra (a mãe, não o filho);
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uma cenoura transgênica picada em cubinhos com o paul b. preciado

o carnaval de salvador com o riobaldo

você de hoje com você de treze anos depois

o presidente da câmara dos deputados com um cabide amarelo


maníaco depressivo que estuda auditoria fiscal e é viciado em coca-
cola

uma estudante de quinze anos de classe média alta que só anda de


carro particular, não sai do celular e não joga lixo na rua com um
sobrevivente de chernobyl intolerante com os imigrantes sírios

qualquer outra combinação entre esses mesmos encontrantes

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alguma coisa está fora da ordem

alguma coisa acontece no meu coração


quando atravessa e não olha pra trás
não valem dramáticos efeitos
onde queres o sim e o não, talvez

o meu coração tão só


mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das
tecnologias
não tá entendendo quase nada do que eu digo
pois eu estou vestido com as roupas
da fundação casa de Jorge Amado

inscrevo assim minhas palavras


sem lenço nem documento
juntando o antes, o agora e o depois
em folha, em graça, em vida, em força, em luz...

destruidor, de brilho intenso, monumental


cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é
a água passa e a areia fica no lugar
porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar

― me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa


gozar...

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aforismos e quases
(para Lucas Cunha)

1. aforismos são bonitinhos mas ordinários.

2. quero ver as formas jurídicas pegarem alguém no seu devir vaca


louca.

3. um aforismo só ganha existência material dentro de um intervalo


de três a dezessete latas de cerveja. em qualquer outra situação, ele é
transcendência.

4. tem umas outras dimensões e múltiplos eus me aguardando depois


do jantar (pode ser usado à dois, e assim sucessivamente).

5. a internet, por algum momento, desterritorializou todo mundo. mas


aí veio o combate à pirataria, o pau de selfie e os financiamentos
coletivos e reterritorializaram tudo...

6. o melhor aforismo é aquele que não existe.

7. tamos todos, na melhor das hipóteses, ainda nos acostumando a


essa ideia de só atravess---ar, tentando não nos preocupar com onde
cheg

8. a autoridade é a forma mais desesperada de forjar um sentido pra


vida. É uma espécie de niilismo praticado no presente.

9. o que um psicanalista morre de desejo de ouvir: “Que você faz da


vida?” ― “Eu faço sintoma”.

10. está cientificamente comprovado que ligar o fodas de três a cinco


vezes por semana pra algum assunto que lhe pese é o melhor remédio
pra manter a saúde mental. Menos e mais que isso prejudica o sistema
– embora de formas e com consequências inteiramente diferentes.

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11. penso no efêmero da vida, no chê guevara, na depilação de


sobrancelhas, na arte contemporânea, no imposto de renda e nas
minhas dores nas costas e fico imaginando como antigamente deveria
ser bem mais fácil esse troço de vir-a-ser-você-mesmo-uma-máquina-
de-guerra...

12. tudo aquilo que dá preguiça de desenvolver num raciocínio mais


complexo pode ser transformado em aforismo. O que é um alívio pra
quem escreve e pra quem lê.

13. A felicidade é um agente penitenciário cochilando na guarita,

14. O bisturi e as capas de revista ainda são incapazes de assimilar os


aleijados e a obesidade. O que escancara de todas as formas o caráter
repressivo da ciência.

15. o pior aforismo é sempre o último.

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3
poema-terrorista

o poema entrou no cartório


sem ninguém desconfiar
esperou juntar tudo de mais solene e notório
carimbos contratos declarações a assinar
sacou a rima e mandou tudo pelo ar!

voou pedaço de letra e palavra


pra tudo quanto é lado

algumas testemunhas deram certeza


que todas as palavras e letras vitimadas
ao verem tamanha beleza
morreram felizes:
todas encantadas

3
Originalmente publicado na Antologia 33o. Festival Poético de Cornélio
Procópio. SESC/PR, 2017.
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sessão relax

poeminha novinho
21 versinhos
em forma
durinho gostosinho
libera e faz de tudo
se quiser até chama de meu amor
ou dá tapa na cara
venha curtir bons momentos ao meu lado
a qualquer hora
em qualquer local

(não a policiais, médicos, advogados, padres e psicanalistas)

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espero a vida chegar no ponto

enquanto ela não chega

vou curtindo cada encontro

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tanta coisa que eu queria dizer

mas não dei conta

tanta coisa que eu achava que precisava dizer

quando disse foi só bobagem

agora cansei de dizer

de procurar a verdade

e não fico remoendo lembrança

nem sentindo culpa remorso tristeza esperança:

a vida agora dança

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sem esperança

juizo final, suicídio

aquecimento global, a palavra de deus

ovulação e menstruação

agamben zizek arnaldo jabor

floresta amazônica

tipos de anestesia: peridural e raquidiana

eletricidade

o rombo da previdência, deus ex-machina

a transição do berço para a cama

a reencarnação

a ansiosa novidade diária

― e se riscarmos o fim do mapa?

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a propósito do autor

ai, esses tempos conturbados...


(mas quando é que foram calmos?)

ser contemporâneo é algo raro, já diria o chorão do agamben. de


minha parte, eu até queria vivisseccionar o mundo, mas não consigo.
por isso escrevo tentando dar polimentos à experiência.

Raoul Vaneignem: sucumbimos à sedução das atitudes emprestadas.


Eu poderia fazer um ready-made disto.

as avenidas que levam pra serra do curral me atravessam a lombar, os


tímpanos e o porta-documentos.

não pretendo figurar em nenhuma lista. também não rezo nenhuma


cartilha. por isso já me acusaram de liberal, conformado, sem
ambição, alienado, medíocre, fracassado.

abraço todas as críticas. dou uma lambida molhada e vagarosa em


cada uma. faço delas meu travesseiro e minha latrina.

meu plano B é fugir do mundo. se bem que estão cobrando caro pra
se viver fora dele, o que eu faço?

penso em pedir ajuda pros ativistas.

pondero: os ativistas são uns chatos, às vezes

penso em pedir ajuda pros psicanalistas

pondero: os psicanalistas são uns chatos, sempre

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ai, esses tempos conturbados...


(mas quando é que foram calmos?)

ser desapegado é algo raro, já diria o esquisito do wilhelm reich. de


minha parte, eu até queria vivisseccionar o meu pau, mas não
consigo. por isso escrevo tentando masturbar a experiência.

Itamar Assumpção: carrega o peso da dor como se portasse medalhas.


Eu poderia fazer um ready-made disto.

a cidade continua aí, a nos engolir e vomitar a cada festival e palco


improvisado.

só os bons encontros me relaxam.

não pretendo figurar em nenhuma lista. também não rezo nenhuma


cartilha. mas nem por isso me acusam de alguma coisa, basta a gente
deixar o ego de lado e aprender a ser ninguém.

já não mantenho planos de fugir do mundo. eu sei que é difícil não


sair dele nem por um pouquinho, ir passear nas nostalgias e culpas do
passado, ou nos medos e esperanças do futuro.

mas troquei o seguro por uma cerveja e um tira-gosto no bar da


esquina e me dei bem!

agora é só seguir trabalhando e jogar fora minhas medalhas.

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SMALL COLLECTION OF PHILOSOPHICAL POEMS


1
Leo Mascarenhas

Abstract

Some time ago, I decided to better investigate how one can


articulate philosophy, writing and joy. This ended up giving
into a party: philosophy became practical, and the practice,
philosophical. Non-successive times, however, crossed by sad
passions, coming in gaps of dark historical events. But the
body resists, insists, and finds its ways: what else can interest
us to do besides continuing to fight and esthetize life,
hardening without losing tenderness? The words that follow are
this: a declaration of love for life, a bet on revolutionary
becomings, a dance that does not end, a fire that does not go
out.

Keywords: brazilian poetry; philosophies of difference;


revolutionary becomings

1 Leonardo Balbino Mascarenhas is a brazilian educator and


independent writer. Has experience in art education, social and cultural
projects, group processes and methodologies to collective work.
Nowadays studies theater at Minas Gerais Federal University, Brazil.
Published Arcaico (poetry) in 2014, independently.
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Author's note

This is a translated piece of the original work, written in


portuguese. The translation was made by the author himself.
One of the works, a collage poem, lost its entire rhymes,
rhythms, sounds results and cultural nuances, and therefore was
killed in favour to preserve the ridiculousness levels intended
to this work piece. The other ones were still considered
somehow useful, and were kept here.

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0. Prologue

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Instructions to write a poem a thesis a love letter a sms text


message a sticky note to hang on the refrigerator

Produce desiring words – and fight paranoid words

Words clogged with multiplicities. With no blame. Cheerful.


Generous. Without selfishness, resentments & vanities. Never
final.

Transitive words. Slippery. Words without pretension of truth.


Smaller words. Loitering words, full of horny, that have and
give appetite. Between-trans-inter-languages.

Words with no territory. No credentials. Without expectations.


With no round-trip tickets, no door locks, no life insurance.
Words without crutches, without references or utilities.

Words without charges. With no punctualities. Without


napkins.

Words with no faults.

Write something that puts us before countless, improbable,


endless, unexpected, indiscreet, foolproof, imponderable,
impassive, unthinkable, insistent randomness.

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in a mood
for becomings

abandoning crutches
thinking with no feathers
and hugging the opposites

now the program is


to enjoy with no guilt
to love the instant
and evoeh!

change whatever comes on the way


but without feeding any hope
fear guilt nostalgia
and without losing joyness

somedays it works
when it doesn't, I restart
I accept to recap
and hurry to forgive the world
for being out of place

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1. Diagnostics

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Leakage of fluids

Life pouring as if would never oveflow


dawn didn't started
in the social media it made sense
the food didn't get cold
sugar didn't kill
it almost didn't matter
the Curral Mountain2 wasn't going to fall
didn't get worse with right-wing
the body did not complain
consumption was enough
the newspaper informed
there were no impasse
it was a protest
it was a pretext
it was a poem or
it would never end

2 The Curral Mountain is located in the edge of Belo Horizonte city,


Brazil.
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reminder

if the world is still dominated by those who hate and don't know
how to enjoy
if we still lose many battles – here and there

if at some point we find ourselves sadly discouraged


stagnated committed to nothingness
feeling trapped lost numb
gently giving up
yawning

if we catch ourselves without knowing what to do


if we weaken and start to believe again in some ideal
that some small masturbation – physical and mental
some daily injection drug will save us

let us remember:
careful not to flirt with the wrong machines
the leaks are getting smaller and smaller
and it's always time
to rejoice.
the outputs are always moving
just as we should always be

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Let's be in favor of

anything that gets us out of this nauseating normality


it can be a poem
a madness
a near-death experience
a love
a protest
a play
a song
a dildo stuck in the armpit until it cums
any form of art
any other form
anything
that get us out of this nauseous
butt normality

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92

― Have you tried those resuscitation techniques? They might


help.

― Such as...

― Such as those philosophies that preach we worry too much about


what hasn't happened, and maybe not even will, like life after death,
the next vacation on the beach, be happy... And they tell us to focus
more with the present moment, without keeping big pretensions to
success or doing it all or be perfect, just keep the effort of changing
what's necessary and at the same time have fun and celebrate
existence?

― No ... I believe too much

in science
that we are predestined
in that book I bought at the airport
in the father of my church
in myself
in the revolution
in the new economic package the
government has announced
in my work-mall-work routine

_________________________

_________________________

_________________________

for this.

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93

2. To end divan's judgement

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94

I. Psychoanalytic writing

Writing escapes me and cultivates me. It stress my pores. It


throws me everywhere, ungovernable. It is an imponderable
act. The text comes alive in different ways of what you
intended. The text asks you: what did you think you had to
say?

To write is to tame a wild animal.

II. Schizo writing

Writing escapes me and cultivates me. It opens the pores in me.


It crosses me through every side, inexhaustible. It is an
imponderable act. The text dances in front of you, and teaches
that there are no fixed forms or plans, nor relations of the
inner-outer type, only movement. The text asks you: what can
you say right now?

To write is to release a wild animal.

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95

Warning to the psychoanalyst


(or: as long as there is movement)

last time I ask you


when you enter please don't use this door
that you forged

use a different one each time


there are many other exits
entrances and reentrances
all open
(and new ones yet to invent)

so do not insist on this idea


of one way
and please, leave dad and mom out of it
(after all, we had enough of bourgeois drama
and I never messed with yours)

and I don't even care


if they take away the car's steering wheel
as long as the tires remains.

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96

every time I get home the neighbor's transgender cockroach is


in a beige grandma panties and red lipstick and black garter
belt seated in the room feeling anxious bored with a vibrator
stucked in the ass hole and looking at facebook through the cell
phone.

tell me id what are you going to do?

tell me super-ego what are you going to do?

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97

Resistance & resilience

I don't know who's resilient


and has no business skills

or isn't
a time bomb

I don't know who's resistent


and don't like sex in the shower

or hasn't passed at least once


by dialectical materialism

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98

3. New territories

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99

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100

a power of the text:

to leave outside all the world's anxious speed

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do what I write

don't write what I say

forget what I do

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Schizopath's poem3

in analytical mode the word


interpretates insists insinuates disturbs reveals
emphasizes delivers calls
goes into paranoid mode
intimidates resents fixes in the absence
and cums only one way

but if we put on it a body


a delirium a dance an affection
a knife just above the belly button
we rip its ceiling
hence the word slips
resyntonizes transform
and goes into schizo mode:
shreds
continues
redoubles and unfolds
multiplies
laughs
paints & knits

3 Originally published at Aspas Duplas Magazine, # 3, june 2018.


Available at: <http://revistaaspasduplas.com.br/>.
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103

Syncretisms

liked to keep it open


to all possibilities
in politics, for instance
protected herself by using everything
lucky charm
vegetarian diet
bad sex
good sex
tibetan breathing
poetry
prayer to Ogum
alcohol & clownery
so many things
that could almost completely wrap herself

just didn't know


that the more she protected herself
more politics was doing

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molecular revolutions

when I think about molecular revolutions

I can't stop imagining small molecules

conspiring against carbon chains

(and other chains)

when I think of molars

I can't stop imagining my teeth conspiring

and I remember that time

that I got a day off from work because of a caries.

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all the noble work

of changing the world

makes even more sense

when you have a hard cock

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107

450 B.C.

Someone should have filled Socrates with tickles

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Uncle Mauro's expressions

Uncle Mauro liked to decompress the expressions. A bit like


Manoel de Barros4, but with a bigger belly.

Uncle Mauro use to change the word's clothes. He often


unbalanced the expressions by pushing it and made it dance
and laugh. Everyone relaxed then.

Uncle Mauro used to take out the word's weight

If someone said:
The insurance died of old age.
Everyone is contradictory sometime in life.

Then uncle Mauro:


The insurance died contradictorily.
Every old man is a world sometime in life.

Uncle Mauro really liked to decompress the expressions.

He once made of expressions ex-pressures.

4 Manoel de Barros (1916-2014) was one of the greatest brazilian poets


of all times.
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"Samba is the father of pleasure, Samba is the son of pain":

― I was thinking of how a good fuck can subvert the instituted


powers

apart from that also two and a half certainties:

that Samba has never seen a psychoanalysis;

it was the largest transvaluation of values ever reported

(until the emergence of Rio's funk music, at least)

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Interesting meetings

a upper-middle-class housewife whose daughter has just


aborted at a clandestine clinic, with a right-wing politician
while in campaign

a bladder filled with a urinary tract infection with a former Fiat


employee who's just got fired because the government raised
the taxes and that slashed sales

a law project with an exorcism session in an Pentecostal church

an art projects call for application guidelines missing page two


with the tinder app

a law project who's just been beaten up by a skinhead with a


herd of buffaloes with the flu

a protest against the US president with a drone that has been


hacked by a fifteen-year-old Israeli son of a Palestinian mother
who listens to beyoncé and who has just read thus spoke
zaratustra (the mother, not the son)

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a transgenic carrot chopped into cubes with Paul B. Preciado

the carnival in Salvador city with riobaldo5

now a days you with thirteen years later you

the deputies chamber president with a yellow manic depressive


hanger who studies fiscal audit and is addicted to coca cola

a nineteen-year-old upper-middle-class student who only goes around


using a private car, doesn't leave her cell phone and doesn't throw
garbage on the street with a chernobyl survivor who is intolerant to
Syrian immigrants

any other combination between these same characters

5 Riobaldo is a character of a famous brazilian novel by João


Guimarães Rosa, called Grande Sertão: Veredas.
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aphorisms and nearlies


(to Lucas Cunha)

1. aphorisms are cute but despicable.

2. I want to see the legal practices get someone when they're


becoming crazy cow.

3. an aphorism only gains material existence within a range of


three to seventeen cans of beer. In any other situation, it is
transcendence.

4. there are some other dimensions and multiple selves waiting


for me after dinner (can be used for two, and so on).

5. the Internet, for some time, deterritorialized everyone. but


then came the fight against piracy, the stick of selfie and the
crowdfundings and all went reterritorialized...

6. the best aphorism is that one which doesn't exist.

7. we're all, at best, still getting used to this idea of just cros----
---sing, trying not to worry about where to arriv

8. authority is the most desperate way of forging a meaning for


life. it's a kind of nihilism that is practiced in the present.

9. what does a psychoanalyst loves to hear: "What do you do


for living?" – "I make symptoms."

10. It's scientifically proven that don't give a shit three to five
times a week for some matter that weighs on you is the best way
to maintaining mental health. Less and more than that harms the
system – although not in the same ways and with completely
different consequences.
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11. I think about how ephemeral life is, about chê guevara,
eyebrows waxing, contemporary art, income taxes and about
my back pains and I wonder how much easier this thing of
'becoming-yourself-a-war machine' should be in the past.

12. everything that gives laziness to develop in a more complex


argument can be turned into an aphorism. and that's a relief for
those who write and who reads.

13. happiness is a penitentiary agent napping at the watchtower.

14. the scalpel and the magazine covers haven't yet been able to
assimilate the cripples and the obesity. which in every way
shows the repressive character of science.

15. the worst aphorism is always the last one.

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terrorist poem6

the poem entered the notary's office


without anyone suspecting
waited to joint all of the most solemn and oficial
stamps contracts declarations to sign
took out the rhyme and sent it all through the air!

flew piece of letter and word


everywhere

some witnesses gave certainty


that the words and letters victimized
on seeing such beauty
died all happy:
completely enchanted

6 Originally published at 33th Poetic Festival Anthology of Cornélio


Procópio city, promoted by SESC/PR, Brazil, in 2017.
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classifieds

young poem
21 little verses
in shape
hard and hot
give it all and does everything
if you want even call you my love
or hit you in the face
come join some good moments by my side
anytime
any place

(no to cops, doctors, lawyers, priests and psychoanalysts)

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I wait life to reach the point

while it doesn't get there

I keep enjoying every encounter

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so much I wanted to say

but I didn't know how

so much that I thought I had to say

when I did, it was all just silly

now I'm tired of saying

of looking for the truth

and don't keep reminding

nor feeling guilty regret sadness hope:

now life dances

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hopeless

final judgment, suicide

global warming, god's word

ovulation and menstrual cycles

agamben zizek arnaldo jabor7

amazon rainforest

types of anesthesia: epidural and spinal

electricity

the hole in the social welfare system, deus ex machina

the transition from crib to bed

reincarnation

the anxious daily news

― what if we delete the end of the map?

7 Arnaldo Jabour (1940- ) is a brazilian filmmaker, writer, playwright,


journalist and critic, known for his controversial opinions and for
having throughout his career engaged in a conservative and right-wing
position.
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About the author

Oh, these troubled times...


(but when were they quiet?)

being contemporary is something rare, said once that whining agamben.


from my part, I even wanted to vivisect the world, but I can't. that's why
I write trying to polish the experience.

Raoul Vaneigem: we succumb to the temptation of borrowed attitudes.


I could make a ready-made out of this.

the avenues that lead to the Curral Mountain cross my lumbar,


tympanums and the documents

I don't want to be on any list. I also don't pray any booklet. For that I've
been accused of being liberal, resigned, having no ambition, alienated,
mediocre, loser.

I embrace all the criticisms. I give a wet, slow lick on each one. I make
of them my pillow and my toylet.

my plan B is to run away of the world. although they are charging high
to live outside of it, what do I do?

I think about asking activists for help.

I think twice: the activists are boring, most of the time

I think abut asking psychoanalysts for help.

I think twice: the psychoanalysts are boring, every time.

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Oh, these troubled times...


(but when were they quiet?)

being detached is a rare occurrence, said once that weird wilhelm


reich. from my part, I even wanted to vivisect my cock, but I can't.
that's why I write trying to masturbate the experience.

Itamar Assumpção8: carry the weight of pain as if it were medals. I


could make a ready-made out of this.

the city is still there, swallowing us and vomiting every time a


festival or a improvised stage happens.

just the good encounters relaxes me

I don't want to be on any list. I also do not pray any booklet. still,
nobody is accusing me of anything, just need to put aside this
narcissism and learn to be nobody.

don't have plans of running away of the world anymore. I know it's
hard not to feel tempted once in a while, wanting a promenade at the
avenues of nostalgia, guilt, fears and hopes,

but I exchanged the life insurance for a beer and some snacks at the
bar in the corner and made my day!

now is just keep working and throw out my medals.

8 Itamar Assumpção (1949-2003) was a brazilian composer and


singer.
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Quando as reminiscências falam por nós: memorial para doutoramento

Lidnei Ventura1

Resumo
O presente trabalho trata-se de um memorial submetido à banca de processo seletivo
para admissão no curso de doutorado, no Programa de Pós-Graduação em Educação
do Centro de Ciências da Educação, da Universidade Federal de Santa Catarina, na
linha de Pesquisa Educação e Comunicação. Nele, são relembradas memórias de
infância e de formação pessoal e profissional, guiadas pelos poemas de Bertold Brecht.

Palavras-chave: Memorial de vida e formação; Memórias; Doutorado; Brecht

When the reminiscences speak for us: a memorial for a doctorate



Abstract

The present work is a memorial submitted to the selection process bank for admission
to the doctoral program, in the Post-Graduation Program in Education of the Center of
Educational Sciences, of the Federal University of Santa Catarina, in the Education and
Communication Research line. In it, memories of childhood and of personal and
professional formation are remembered, guided by the poems of Bertold Brecht.

Key-Words: Life and formation memorial; Memoirs; Doctorate degree; Brecht


Para a memória, nunca há introdução quando se fala de si mesmo

... não aceites o que é de hábito


como coisa natural...
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar

Brecht

Brecht é de fato meu poeta favorito. Não somente pela vida intensa que viveu
ou pela obra magnífica que produziu, mas acho que principalmente por não ter se
calado ou se resignado em tempos de barbárie e de desprezo pela vida humana. Vejo
em Brecht um avassalador da hipocrisia e crítico da tirania, mas no fundo, como eu, é
mais um romântico Dom Quixote fazendo toda luta parecer vencível e possível, tal qual
o inesquecível Paulo Freire (1970) com a sua pedagogia “dos” oprimidos e não “para”
os oprimidos.
Por mais que nos tentem impor o contrário, nada deve parecer natural ou
impossível de mudar, pois se assim fosse não estaríamos aqui escrevendo um

1
Professor da Universidade do Estado de Santa Catarina/Centro de Educação a Distância –
Departamento de Pedagogia a Distância. Doutor em Educação (UFSC).

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memorial para seleção de um processo de doutorado. Doutorado? Filho de pescador e


praça da polícia e de uma dona de casa rendeira de um bairro de periferia da velha
Desterro? Isso não é natural... isso é impossível de mudar. Mas estou aqui, não é?
Contrariando todas as estatísticas, pois das cerca de 30 crianças que iniciaram a
primeira série em março de 1974, nenhuma delas soube o que significa um doutorado,
a maioria delas não soube sequer o que é um curso superior, assim como quase todos
os seus irmãos, irmãs, vizinhos e todas as gerações que os precederam. Talvez isso
justifique a naturalidade da exclusão.
Quando olho para trás, me dá um misto de orgulho e tristeza por estar
escrevendo este memorial e me separando de vez do leito natural da exclusão a que
meus amigos de infância, que, em boa parte, me fizeram o que eu sou, foram
condenados. Relembrando bem, a maior parte dos que encontrei no caminho do curso
ginasial e mesmo do ensino secundário, também não puderam adentrar à universidade
pública, que pagaram e pagam até hoje os seus custos a peso dos impostos do Sr.
Leviatã, mas que nela não podem entrar, como no anúncio trágico da música de Zé
Geraldo, “Cidadão”. Sem dúvida, isso dá um desacalantado desânimo. Mas eis que
vem novamente o Brecht me acossar:

Levanta-te, camponês!
Prossegue no teu caminho.
Não te deixe confundir.
Algum dia hás de morrer.
Ninguém te pode ajudar.
Terás que te erguer sozinho.
Prossegue no teu caminho.
Levanta-te camponês!

Ergo-me sim, não a pedido do poeta, mas a pedido de toda uma geração que
não conheceu nem a escolaridade formal, muito menos o doutorado, façanha de uma
meia dúzia de brasileiros e digo: isso não é natural. Aliás, nada deve parecer natural,
mas sim criações de homens e mulheres sob o relho do seu tempo, que me lembra
agora o poeta latino Terêncio, com o seu Homo sum: humani nihil a me alienum puto
(“Sou homem: nada do que é humano me é estranho”).
Talvez seja hora de dizer aqui como se quebrou esse círculo vicioso e explicar
como o camponês pleiteia agora o doutoramento, não sem muito trabalho, pesca e
rendas de bilros.

Vivendo em casas abertas...


As casas da periferia de Florianópolis pelos anos 70, eram abertas; digo aberta
às pessoas, todos entravam e saíam e não sei se a casa era uma extensão da rua ou

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vice-versa. Somente essa condição já era formadora de caráter e princípios, já que


despertava uma indelével fé na humanidade. A casa dos meus pais era assim, “cheia
de gente” para conversar, brincar, rezar... enfim, de gente para tudo, o que desperta
uma inevitável nostalgia. Mas além de gente, por incrível que pareça, tinha duas
enciclopédias (uma verdadeira ostentação nas casas da época) e muitos almanaques
Sadol, o que me despertou a curiosidade para a leitura e busca de informações sobre
as coisas mais inusitadas. As ilustrações das duas enciclopédias ainda me invadem a
memória, sobretudo as dos “Doze trabalhos de Hércules”, verbete que realmente me
cativou e viciou nas leituras, o que facilitou e com certeza abriu os caminhos nos
estudos posteriores. Ainda bem que a televisão apareceu em casa somente no final da
década de 1970, pois eu já estava fadado à compulsividade literária. O que favorecia
também essa vida criativa era a baixa circulação monetária e de produtos “just in
time”; enfim, vivia-se uma quase antinomia à vida descartável contemporânea
(HARVEY, 1992). Tinha-se que inventar e reutilizar quase tudo: roupas, brinquedos e
brincadeiras, materiais escolares etc. E isso também forjava o caráter, muitas décadas
antes de se falar em reduzir, reciclagem e reutilização, que as gerações atuais encaram
como a “descoberta do século”. Mas é claro que tudo foi financiado, ou como dizia
Marx, a produção da vida deveu-se a muitas pescarias e rendas de bilros do casal
Ventura, de nobreza incomparável e dedicação ímpar aos rebentos, a todos os seis.
Ter sido o último, o caçula, teve lá suas vantagens, principalmente o legado da
herança dos mais velhos: roupas, calçados, revistas, livros, materiais escolares e, é
claro, um chamego especial da Luiza, que afagava enquanto fazia renda. Uma
chinelada pedagógica ou outra também forjou o caráter em meio a admiração e
espanto de como aquela mulher de 1,5m poderia se tornar uma madona gigante.
Todos os quatro filhos homens foram para Escola Técnica Federal de Santa
Catarina - ETEFESC, pois a ordem social impunha que os filhos dos trabalhadores
fossem cedo para o mercado de trabalho, medida ignóbil e lascívia da Lei 5.692/71,
que a inteligenzzia da ditadura inventou, como disse o Chico, inventou de inventar
toda escuridão. Apesar de você, havia a ETEFESC que nos acolheu, periféricos e sem
base de conteúdos, para nos mandar ao mercado de trabalho. Tempos de
aprendizagem e de conhecer o Centro da cidade, de cabular aula e ir ao cinema Coral
ou ao Cecomtur ou ver o que estava acontecendo na esquina do Ponto Chic, no

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calçadão. Em 1982, mesmo três anos depois, só se falava da Novembrada e nós do


Centro Acadêmico da ETEFESC ficávamos ali “pescando ideias”. Veio daí a minha
virada à esquerda... Então, conheci Brecht dizendo:

Pela esquerda, companheiro!


Pela esquerda, companheiro!
Aí tens o teu lugar.

Parecia tudo tão claro, quem eram os vilões e os mocinhos, os dominadores e


dominados, os exploradores e os explorados... mas a vida se mostrou muito mais
complexa e as verdades foram sendo relativizadas pela historia real. Meu caro Brecht,
continuo pela esquerda, mas agora de forma conceitual e refletida, mas sempre que os
tiranos de plantão se voltam à esquerda eu vou para a direita e, não sendo
conservador, me reservo o direito da dúvida lembrando de você: “Desconfiai do mais
trivial, na aparência do singelo”. É o que faço hoje, pois muitos de meus heróis
morreram de overdose de cinismo e ambição, tragados pelo turbilhão da megalomania
ou simplesmente seduzidos pelo vil metal. O mais importante é conceber e praticar a
educação como prática da liberdade para todos os homens, mulheres e crianças que
vivem subjugados, como bem ensinou o mestre Paulo Freire (1983).

Quebrando um círculo vicioso...

Muito tardiamente, depois dos 20 anos, novamente na contramão do percurso


de vida dos periféricos de Florianópolis, entrei para a Universidade, curso de
Pedagogia, em 1990. Tive meu apogeu de militância acadêmica, colocando Brecht em
todos os trabalhos e panfletos, lutando por qualquer causa que considerasse justa.
Entrei na guerrilha do “Fórum em Defesa da Escola Pública”, em 1994, em meio às
discussões prévias da nova LDB, que ia e voltava no Congresso e mobilizava
educadores do Brasil inteiro. Não lia mais o almanaque Sadol, agora era Gramisci,
Althusser, Saviani, Libâneo, Selma Garrido Pimenta, Snyders, Adorno, Horkheimer e
Erich From; enfim, toda sorte de caminho “pela esquerda” que alimentava a utopia de
mudar o mundo. Isso também forja o caráter, e muito. Até hoje essas são minhas
leituras preferidas, daí meu incômodo com a dilatação exagerada dos pós-ismos de
todo tipo. Ah, confesso que não consigo entender tamanho desencantamento com as
teorias revolucionárias e consequente resignação e niilismo que afeta a inteligenzzia

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contemporânea. Se estamos neste mundo é para poder transformá-lo de alguma


forma, se for só para contemplá-lo resignado, não vejo a mínima razão de ser e me
recuso a essa postura e apatheia estóica. Talvez, se não fosse démodé, Brecht teria
lhes ajudado com outra visão do mundo:

Louvada seja a dúvida! Aconselho-vos que saudeis


serenamente e com respeito
àquele que pesa vossa palavra como uma moeda falsa.
quisera que fostes avisados e não e não destes
vossa palavra com demasiada confiança.
Ledes a história. Vedes
exércitos invencíveis em fuga enlouquecida.
Por todas as partes
desmoronam-se fortalezas indestrutíveis...

Acredito que não podemos abdicar do mundo a se fazer, pois abdicar do devir
do mundo é abdicar da vida, e isso é o que temos de mais caro na nossa existência.
Ainda há muito que fazer; existem muitos alijados da educação neste país imenso e na
periferia da velha Desterro, na Costeira, no Ribeirão da Ilha, na Cachoeira do Bom
Jesus... sonhando, apenas sonhando com o ensino superior. Então, pleitear o
doutorado neste momento é continuar procurando o devir em meio às contradições
dialeticamente postas nas relações de exclusão entre a universidade e o povo
brasileiro.
Depois de atuar por mais de 15 anos no serviço de Orientação Educacional da
Rede Municipal de Ensino de Florianópolis, incentivando crianças e jovens a seguir
uma carreira estudantil que os levasse à Universidade e a uma vida melhor, a partir de
diversos projetos institucionais, em turno e contraturno, também trabalhei com
Educação a Distância desde o ano de 2000. Essa modalidade de ensino está inserida no
contexto de um campo educacional complexo, futurista, mas também estigmatizado e
ad eternum contestado, principalmente por aqueles que se veem ameaçados pelas
possibilidades democratizantes da multiplicação da oferta de vaga no ensino superior
e interiorização da universidade pública brasileira e catarinense. Neste caso, consigo
entender os conservadores, os arraigados ao poder, movidos pelo desejo
esquizofrênico de que falavam Deleuze e Guattarri; em contrapartida, não aceito e
nem quero aceitar os “esquerdistas alucinados” nem os “progressistas de plantão” que
criticam a EaD e emperram seu desenvolvimento histórico, servindo-se de práticas

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reacionárias e discursos retóricos de falta de qualidade e pseudocientificidade. Penso


que no fundo, essas são máscaras que ocultam os verdadeiros motivos de ferocidade
das críticas, que são os incômodos de que a EaD causa no feudalismo acadêmico, tais
como a multiplicidade, democratização, oferta de milhares de vagas e descentralização
de poder de centros e cursos monocromáticos e isolados, que são feudos e lócus de
pesquisas narcísicas. Quem trabalha sério com EaD sabe que qualidade é palavra
chave, cabalística, que deve nos guiar todos os dias. Neste sentido, fazer a crítica
reflexiva e produtiva é uma obrigação, assim como cortar na carne quando se fizer
necessário. Permitindo-me agora uma revanche, como dizia Raul, “Mas agora eu
também resolvi dar uma queixadinha. Porque eu sou um rapaz latino-americano que
também sabe se lamentar”, devo dizer que o caos da educação brasileira vem de
décadas e até de séculos, portanto a EaD, de forma sistemática em ensino superior,
que tem pouco mais de 10 anos, não teve tempo ainda para ser responsabilizada por
essa condição; talvez, ao contrário, possa trabalhar pela sua superação: nossa meta e
utopia. Mas isso é revanchismo, passemos a outro ponto.
Esse atualmente é meu campo de ação na Universidade do Estado de Santa
Catarina, enquanto professor efetivo, outra raridade histórica, lugar social que nos
coloca de frente com a problemática nada simples de universalizar o ensino superior.
Nesta luta, a Educação a Distância surge como espada afiada à multiplicação de vagas,
deselitizando a oferta e permitindo que os trabalhadores tenham acesso à ponta da
produção científica e que possam, de alguma forma, construir um modelo social mais
igualitário e menos excludente.
Esse engajamento não é meramente ideológico ou saudosismo brechtniano,
ainda que admita a vinculação, mas advém da constatação empírica de que os cursos
em educação a distância, alicerçados em ambiente virtuais de aprendizagem bem
arquitetados, influenciam de tal modo a (re)construção das identidades pessoais e
profissionais dos acadêmicos a ponto de lhes transformar a visão e a atuação neste
mundo. Não posso esquecer de uma das alunas que iniciou o curso de Pedagogia a
Distância em 2010 e teve seu login de acesso ao AVA jogado fora pelo marido que a
queria manter “na escuridão”; pude acompanhar sua virada à esquerda e se livrar a
um só tempo da escuridão e do marido despótico e permanecer no curso e com status
de formanda em 2013. Falando nisso, lembro-me também das tantas mulheres deste

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curso, que sequer sabiam navegar na internet ou responder e-mails, terceirizadas aos
maridos e aos filhos, anulando-se como protagonistas de sua própria vida, mas que
retomaram as rédeas do seu destino para se tornarem pedagogas, e levar essa rica
experiência para suas salas de aulas ou de gestão escolar.

Sem poder concluir...


Despeço-me deste memorial dizendo que esse percurso, ainda com muita
estrada pela frente teve uma aliada fundamental, companheira de vida e de batalhas,
“enfrentando um leão por dia” pela existência, a Florzinha, minha mulher de fibra, com
história de vida semelhante, também periférica da Desterro que superou os limites
impostos pelas desigualdades sociais, ganhando a vida, como disse Horácio, no carpe
diem. A bem da “verdade”, esse memorial, além de contar parte da história de uma
vida, saudosista por inteiro, também se apresenta como um testemunho de que tudo
pode ser mudado, que temos que botar a roda para girar, pois como dizia Raul
“destino quem faz é a gente, na mente de quem for capaz”.
Não poderia concluir o texto sem o poeta que me guiou até aqui. Com vocês,
Bertold Brecht:
Nunca se deixe convencer
De que esta vida vale pouco
Bebam a vida em grandes goles
Então verão que ainda foi pouco
Quando tiverem de a deixar.

Referências

BRECHT, B. Antologia poética. Rio de Janeiro: Elo, 1983.


CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Apesar de você. Rio de Janeiro. Cara Nova Editora
Musical, 1970.
DELEUZE, G.; GUATTARRI, F. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Lisboa: Assírio &
Alvim, 1972.
FREIRE, P. Educação como prática de liberdade. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1983.
______. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

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HARVEY, D. Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992.


RAUL SEIXAS. Eu também vou reclamar. Rio de Janeiro. Gravadora Universal, 2005.
______. Um messias indeciso. As melhores do maluco beleza. Rio de Janeiro.
Gravadora Warner, 2003.
ZÉ GERALDO. Cidadão. Terceiro Mundo. Rio de Janeiro. Gravadora CBS, 1979.

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A relação dos gêneros do conhecimento com os afetos e sua consequência para a


liberdade humana em Espinosa

Maxmillan de Souza Sales1


Tiê Felix Oliveira Barros2

RESUMO
Objetiva-se analisar a relação entre os gêneros do conhecimento e os afetos a fim de ver qual
é a consequência apresentada para a liberdade humana na Ética de Espinosa. Levando em
consideração que a passagem da servidão para a liberdade está diretamente relacionada à
diminuição do uso da imaginação e o controle proporcionado pela razão e a ciência intuitiva
ao comportamento humano. Para tanto, seguiremos a ordem do método geométrico utilizado
por Espinosa para expor os principais conceitos e definições que dão embasamento para
alcançarmos, no final do texto, nossa intenção. Contudo, não aprofundamos e esgotamos
todos os argumentos, visto que não é nossa intenção. Assim, iniciamos nosso texto a partir da
definição de Substância, abordando os principais conceitos da ontologia apresentada por
Espinosa. Em seguida, trabalhamos a questão da relação entre corpo e mente para podermos
adentrar na questão dos gêneros do conhecimento e, enfim, ver qual a relação entre os gêneros
e os afetos e sua consequência para a liberdade humana.

PALAVRAS-CHAVE: Afeto, Conhecimento, Liberdade

The relation of the genres of knowledge with the affections and their consequence to the
human freedom in Espinosa

ABSTRACT
This text aims to analyze the relation between the genres of knowledge and the affections in
order to see which is the consequence presented to the human liberty in the Ethic of Espinosa.
Taking in consideration that the passage of servitude to freedom is directly related the
decrease usage of the imagination and the control provided through the reason and intuitive
science to human knowledge. Therefore, we'll follow the order of geometric method used by
Espinosa to expose the main concepts and definitions that give theoretical basis to reach, in
the end of the text, our intention. However, we don’t deepen and exhaust all the arguments,
since, isn’t our intention. Thus, we started our text from the definition of Substance,
approaching the main concepts of ontology presented for Espinosa. Then, we work the
question of relation between body and mind to penetrate the question of genres of knowledge
and, finally, see which is the relation between the genres and affections and their
consequences to a human liberty.

KEYWORDS: Affections, Knowledge, Freedom

1 Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco, UFPE. Mestrando em Filosofia na linha
de Ética e Política no programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco,
UFPE. E-mail: maxmillansouza@gmail.com
2 Graduado em História pela Faculdade de Filosofia de Caruaru, FAFICA. Mestrando em Filosofia na linha de
Ética e Política no programa de Pós-Graduação em Filosofia na Universidade Federal de Pernambuco,
UFPE. E-mail: tiefelix7@gmail.com

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SUBSTÂNCIA

As partes da Ética dependem uma das outras para dar sentido e fundamentação à
argumentação geral de Espinosa em direção à beatitude, ou seja, liberdade humana. Assim,
tanto os gêneros do conhecimento quanto os afetos dependem de uma base ontológica para
alcançar o objetivo final da obra, qual seja, a máxima perfeição humana que diz respeito à
liberdade atingida através da ciência intuitiva.
Como não é nosso objetivo direto abordar a ontologia espinosana, nos cabe
informar algumas das principais definições que orientam toda a primeira parte e o restante da
Ética, visto que os afetos e o conhecimento humano dependem, necessariamente, da
compreensão geral do que Espinosa entende por natureza ou Deus, de seus infinitos atributos,
seus modos, ou seja, do fundamento de toda a realidade.
Na terceira definição da primeira parte da Ética afirma-se: “por substância
compreendo aquilo que existe em si mesmo e que por si mesmo é concebido, isto é, aquilo
cujo conceito não exige o conceito de outra coisa do qual deva ser formado”3. Portanto, a
substância é causa de si mesma e ao causar-se gera a essência e, consequentemente, a
existência de toda a realidade. Portanto, Deus existe necessariamente porque sua essência
corresponde a sua existência. Nessa direção, há apenas uma única substância absoluta que é
causa eficiente imanente de todos os efeitos singulares, quer dizer, as coisas particulares
fazem parte da substância única, Deus.
A essência da Substância é composta de infinitos atributos, por sua vez, infinitos,
em outras palavras, não há nada em seu gênero que possa lhe limitar, por exemplo: um corpo
não pode limitar um pensamento nem um pensamento limitar o corpo. Tais atributos são
percebidos na substância através do intelecto, por isso, possuem essências eternas e existem
necessariamente (EIP19).
Nesse sentido, Espinosa identifica duas maneiras distintas de existir, isto é, aquilo
que existe por si mesmo, Substância e seus atributos, e aquilo que depende ontologicamente
de outra coisa para existir, os modos, que, são efeitos necessários causados pelos atributos de
Deus.
Tendo em vista esses três conceitos brevemente apresentados, Espinosa os separa
entre natureza naturante e natureza naturada. Em outras palavras, a substância e seus atributos
é a causa eficiente da totalidade do real enquanto os modos finitos da substância são gerados e

3 SPINOZA, Benedictus de. Ética. Trad. de Tomaz Tadeu. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

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possuem uma dependência ontológica em relação à Substância única. Para Espinosa, Deus é
uma causa eficiente imanente da totalidade, assim, compõe uma unidade infinita entre a
natureza naturante e a natureza naturada, esta, por sua vez, expressa, singularmente nos
modos a própria substância.
O pensamento e a extensão são atributos da substância, esses dois atributos
causam modos infinitos imediatos, ou seja, o modo infinito imediato do pensamento é o
intelecto divino enquanto o da extensão é o universo físico. Esses, por sua vez, são causa dos
modos finitos, respectivamente, mente e corpo. A mente pode ser definida como o
encadeamento e a ligação entre ideias, enquanto o corpo é definido como indivíduos
constituídos por relações de movimento e repouso.
Sendo assim, pode-se concluir que como o pensamento é um atributo de Deus
toda a unidade da realidade é inteligível, quer dizer, tanto a natureza naturante quanto a
natureza naturada podem ser conhecidas. Também, todos os corpos e proporções de
movimento e repouso fazem parte de Deus4.
Nessa perspectiva, toda a existência é determinada em sua essência, modos finitos
são determinados através da ação dos atributos da Substância, assim, tudo o que existe, existe
necessariamente segundo a ordem e conexão das causas da substância única. Por fim, a
liberdade identifica-se com a necessidade, posto que, consiste na expressão necessária da
força interna da potência do modo finito, do homem, por exemplo, na identificação do seu
modo de ser, existir e agir.
Isto é, a realidade como a conhecemos é a expressão da própria Substância única
que a determina. Assim, os gêneros do conhecimento e a teoria dos afetos de Espinosa devem
ser compreendidos dentro da ordem da natureza. É nessa direção que iremos explorá-los, visto
que não é possível considerar que o conhecimento tenha acesso à outra ordem que não seja a
da natureza, porque não há nada fora da ordem natural. O mesmo pode-se afirmar dos afetos
que também fazem parte da ordem natural (EIIIpref).
Nesse sentido, o homem, que é uma unidade psicofísica, ao entrar em contato com
os objetos externos pode conhecê-los tanto através do corpo quanto da mente,
simultaneamente. A teoria do conhecimento de Espinosa, que será logo em seguida abordada,
guarda sua relação com a teoria dos afetos porque estes são consequências daqueles, ou seja,
não podem existir sem que haja anteriormente uma ideia do objeto externo.
Segundo Chauí,

4 CHAUÍ, Marilena de Souza. Espinosa: uma filosofia da liberdade. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

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Na medida em que a Substância é a unidade imanente e ativa de seus


infinitos atributos infinitos, isto é, de uma complexidade causal ou
produtora, sua ação se realiza diferenciadamente, cada uma de suas
qualidades produzindo efeitos próprios ou exprimindo de maneira própria a
ação comum do todo, pois os atributos são potências infinitas de produção
do real5.

Portanto, a ação dos respectivos atributos, extensão e pensamento, dá origem aos


corpos e mentes que são, por assim dizer, perspectivas diferentes da realidade que exprimem a
mesma unidade. Então, o que é captado por um atributo é, simultaneamente, captado por
outro atributo.

MENTE E CORPO

O homem que é o sujeito do conhecimento é um modo finito resultante da ação da


Substância única que pode ser considerado ao mesmo tempo sobre os dois atributos
supracitados. Em outras palavras, o homem é uma mente e um corpo, como afirma Espinosa
(EIIP10col), “(…) a essência do homem é constituída por modificações definidas dos
atributos de Deus”. Assim, pode-se afirmar que não há relação causal entre a mente o corpo
porque estes são apenas expressões de uma mesma Substância única.
Segundo EIIP13 o corpo humano é formado por várias partes, corpúsculos duros e
moles, fluídos, que interagem harmonicamente entre si através de suas respectivas proporções
de movimento e repouso. Consequentemente, o corpo é uma unidade dessas partes que
trabalham relacionadas gerando um indivíduo. Esse corpo possui a propriedade de afetar e ser
afetado por outros corpos externos através das afecções que faz, logo, a relação entre os
corpos está garantida por sua própria estrutura, assim, pode sofrer mudanças e continuar
preservando as impressões geradas pelos objetos externos (EIIIpost2).
Portanto, o corpo humano não é uma substância que se relaciona com outra, a
mente. É um indivíduo que possui uma dinâmica determinada pelos encontros que faz durante
sua duração na existência. Desta maneira, a união entre corpo e mente se caracteriza como
uma dupla expressão da Substância absoluta.
Ainda na EIIP13 Espinosa afirma que a mente humana é uma ideia do corpo, quer
dizer, o corpo é o objeto da ideia que constitui a mente humana. A mente humana se difere dos
outros modos do atributo pensamento que existem na realidade por meio da sua

5 Ibid., p, 54.

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complexidade. A complexidade da mente acontece ao passo que o corpo do qual é ideia é


capaz de agir ou padecer simultaneamente de um número maior de coisas.
A medida que o corpo faz afecções dos objetos externos a mente tem ideias dessas
afecções. Segundo Chauí, “É da natureza da alma estar internamente ligada a seu objeto
porque ela não é senão atividade de pensá-lo, potência para abrir-se ao objeto e para acolhê-
lo”6.
Na EIIP7 é dito que a ordem e a conexão das ideias é a mesma que a ordem e a
conexão das coisas. Isso acontece porque ambos os modos são expressões da mesma
Substância. Assim, as ideias da mente e as afecções do corpo se dispõem da mesma maneira,
expressando o mesmo encadeamento e submissão às leis da Substância, contudo, se
manifestando de maneiras diferentes. Assim, sempre existirá uma identidade ontológica entre
os corpos da realidade e suas respectivas ideias.
Cabe deixar claro que não são os modos de atributos diferentes que estão em
conexão entre si, mas que tanto os modos do atributo extensão quanto os modos do atributo
pensamento possuem a mesma ordem e conexão. No quinto axioma da primeira parte da Ética
Espinosa afirma que, “não se pode compreender, uma por meio da outra, coisas que nada têm
de comum entre si; ou seja, o conceito de uma não envolve o conceito da outra”. Assim, fica
claro que não há causalidade entre os atributos, a mente não causa o corpo e nem o corpo
causa a mente, ambos são instantes de uma mesma Substância única e eterna.
Nessa perspectiva, no que se refere à unidade psicofísica que é o homem, a mente
só conhece o próprio corpo por meio das ideias das afecções pelo qual o corpo é afetado e só
conhece a si mesma por meio da ideia da ideia do corpo, consciência de si (EIIP19-23). Quer
dizer, quando a mente toma consciência de si, ela toma consciência de seu corpo. Portanto, a
mente é consciência de todas as ações do seu corpo, quer dizer, de seus movimentos, das
mudanças sofridas, e das relações com os objetos externos, formando uma união direta e
imediata.

GÊNEROS DO CONHECIMENTO

Na EIAx4 Espinosa diz, “o conhecimento do efeito depende do conhecimento da


causa e enquanto envolve este último”. Por meio desse axioma fica evidente que o

6 Ibid., p, 59.

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conhecimento é adquirido através da identificação das causas. É nessa direção que os gêneros
do conhecimento se desenvolvem, quer dizer, o ato de conhecer acontece através dos próprios
gêneros.
Na EIIdef3 Espinosa define, “por ideia compreendo um conceito da mente, que a
mente forma porque é uma coisa pensante”. E ainda explica que ao utilizar a palavra
‘conceito’ se refere a uma ação da mente, isto é, a mente não é passiva em relação ao objeto, o
que a palavra percepção indicaria.
Adicionalmente, na EIIdef4 Espinosa define, “Por ideia adequada compreendo
uma ideia que, enquanto considerada em si mesma, sem relação com o objeto, tem todas as
propriedades ou denominações intrínsecas de uma ideia verdadeira”. Logo, tais ideias são
ações da mente que dependem de si mesmas para alcançar as causas e seus respectivos
efeitos, gerar um ordenamento interno, uma concatenação dessas ordenações para, enfim,
conhecer adequadamente. Nessa direção, afirma Chauí,

Nas ideias adequadas ou intelectuais, somos plenamente ativos: nosso


intelecto, por uma força que lhe é própria, conhece por si mesmo as causas e
efeitos das ideias, a gênese necessária delas, os nexos que formam com
outras em conexões e ordens internas e necessárias7.

Portanto, pode-se afirmar que o ato de conhecer para Espinosa resume-se na


produção de ideias. Nessa perspectiva, Deleuze afirma que “O conhecimento é a auto-
afirmação da ideia, ‘explicação’ ou desenvolvimento da ideia, à maneira de uma essência que
se explica em suas propriedades ou de uma causa que se explica nos seus efeitos8”.
Contudo, o homem não produz apenas ideias adequadas, várias vezes, como
mostra a experiência, não alcançamos as causas das afecções e ideias que, respectivamente, o
corpo e a mente sofrem, como está exposto na EIIP29col,

(…) sempre que a mente humana percebe as coisas segundo a ordem comum
da natureza, ela não tem, de si própria, nem de seu corpo, nem dos corpos
exteriores, um conhecimento adequado, mas apenas um conhecimento
confuso e mutilado.

Assim, Espinosa fala em ideias inadequadas, quer dizer, quando há um


encadeamento que obedece a ordem dos encontros fortuitos da natureza, sempre que está
exteriormente determinada, em relação aos objetos externos, obrigando a mente a preencher
as lacunas criadas por tais encontros. Na EIIP35 Espinosa afirma que as ideias inadequadas
constituem a falsidade, chamando-as de ideias mutiladas e confusas.

7 Ibid., p. 39.
8 DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002.

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A falsidade é, pois, a privação de conhecimento. O que não significa ausência de


conhecimento, porque apesar de afirmar que a mente se engana não se pode dizer o mesmo
em relação ao corpo. Assim, a falsidade possui apenas um sentido negativo, visto que, as
ideias inadequadas que a compõe representam verdadeiramente apenas as afecções e
modificações do próprio corpo, lhe escapando a essência dos objetos externos, portanto, é
essa falta que lhe define.
Como foi dito no início deste texto, para compreender alguma parte da Ética é
necessário seguir o método geométrico utilizado por Espinosa. Desta forma, apesar de não
aprofundarmos, mostramos algumas das principais definições da ontologia, da união entre
mente e corpo, do que é ideia e falsidade. Por isso, acreditamos que após tais pressupostos
fica criada uma base para o melhor entendimento da teoria do conhecimento e sua respectiva
relação com os afetos na Ética. Nessa direção, segundo Gleizer, “toda a vida afetiva e ética do
homem depende da natureza do seu conhecimento”9.
Na EIIP40esc2 Espinosa define três gêneros do conhecimento. Nesse segundo
escólio Espinosa começa a separação entre os gêneros através da distinção das maneiras que
se utiliza para perceber as coisas e formar as noções universais. Assim, os gêneros do
conhecimento são divididos em: imaginação ou opinião, razão, ciência intuitiva.
Espinosa define a imaginação na EIIP17esc como a consideração da mente sobre
as imagens geradas pelo corpo através das afecções dos objetos externos. Desta forma, as
imagens dependem tanto da natureza de tais corpos externos quanto da situação do corpo que
é afetado. Contudo, a imaginação não é capaz de conhecer verdadeiramente a essência dos
objetos externos, dado que, consegue perceber apenas a maneira como o corpo foi afetado.
Consequentemente, a imaginação indica mais o estado atual do corpo que imagina do que a
natureza dos corpos exteriores. Logo, segundo Gleizer a imaginação se configura pelo
conhecimento dos efeitos e a ignorância das causas10. Nessa direção, vimos que Espinosa
chama de ideia inadequada aquela que é mutilada e confusa porque apresenta uma privação de
conhecimento, quer dizer, quando a ideia é determinada pelos objetos externos, efeitos, e não
alcança as causas de sua configuração. Por isso, a imaginação está fundada sobre as ideias
inadequadas, assim, esse conhecimento leva à falsidade (EIIP41).
Nessa direção, Espinosa deixa claro que enquanto as imaginações são
consideradas em si mesmas não contêm nenhum erro, a mente não erra ao imaginar. Erra

9 GLEIZER, Marcos André. Espinosa e a afetividade humana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
10 Ibid., p. 25.

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quando “é considerada como privada da ideia que exclui a existência das coisas que ela
imagina como lhe estando presentes” (EIIP17esc).
Nessa perspectiva, quando alguém ao imaginar ignora sua própria ignorância das
causas, e, consequentemente, de sua parcialidade, a imaginação torna-se um testemunho da
realidade baseado nos encontros que essa pessoa faz ao viver. Assim, segundo Gleizer, a
imaginação produz uma inversão cognitiva na ordem da natureza resultando na inversão entre
efeito e causa, parte e todo. Também, na projeção de estados subjetivos como propriedade
objetiva das coisas externas11.
O processo de conhecimento imaginário é constituído de dois momentos segundo
Espinosa. Primeiro, “a partir de coisas singulares, que os sentidos representam mutilada,
confusamente, e sem a ordem própria do intelecto”, segundo, “a partir de signos, por exemplo,
por ter ouvido ou lido certas palavras, nós nos recordamos das coisas e delas formamos ideias
semelhantes àquelas por meio das quais imaginamos as coisas” (EIIP40 esc2).
Deste modo, a imaginação é uma experiência errática, depende exclusivamente
dos encontros que um indivíduo faz. Portanto, é momentânea, fugaz, gerando diversos
fragmentos durante a existência desse mesmo indivíduo. Como a imaginação é um
conhecimento que não alcança a causa dos objetos externos que afetam o corpo, a mente
tende a criar causas imaginárias para justificar as determinações externas em seu corpo. Logo,
tendendo a criar uma rede de explicação falsa para toda a realidade. Na medida em que o
indivíduo explica a si mesmo, corpo e mente, todo o mundo externo, através de ideias
inadequadas enquanto não surgir uma ideia que exclua as coisas que ele imagina.
Espinosa chama o segundo gênero do conhecimento de razão. Esta, por sua vez, é
caracterizada pelas noções comuns e ideias adequadas sobre as propriedades dos objetos. As
ideias adequadas constituem um conhecimento certo porque agem sobre as propriedades
comuns dos objetos singulares, parte, e a totalidade na qual estão inseridos.
No intervalo de proposições EIIP37-40 Espinosa expõe as causas das noções
comuns, portanto, vamos expor cada uma delas para evidenciar a relação das ideias adequadas
com as noções comuns.
Na P37 afirma o seguinte, “O que é comum a todas as coisas, e que existe
igualmente na parte e no todo, não constitui a essência de nenhuma coisa singular”. Na P38
diz, “aqueles elementos que são comuns a todas as coisas, e que existe igualmente na parte e
no todo, não podem ser concebidos se não adequadamente”. Na P39 declara que, “será

11 Ibid., p. 25.

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adequada na mente, além disso, a ideia daquilo que o corpo humano e certos corpos exteriores
pelos quais o corpo humano é afetado têm de comum e próprio, e que existe em cada parte
assim como no todo de cada um desses corpos exteriores”. E, finalmente, na P40, “todas as
ideias que, na mente, se seguem de ideias que nela são adequadas, são igualmente
adequadas”.
Assim, a partir do conjunto dessas proposições fica claro que as noções comuns
são uma série de relações entre as partes com o todo, das partes entre si e do todo com as
partes. Contudo, não alcançam a essência de cada objeto singular. Consequentemente, as
noções comuns são ideias adequadas sobre as propriedades relacionais das partes com o todo.
Nessa direção, Chauí afirma que,

Há, pois, dois tipos de ideias adequadas: a das propriedades comuns às


partes de um todo e que existem igualmente nele – trata-se do conhecimento
racional das leis naturais, das relações de concordância ou conveniência
entre as partes da Natureza; e da essência de uma coisa singular, cuja causa
ou gênese necessária é conhecida12.

Isto posto, o primeiro tipo de ideia adequada pode acessar as propriedades comuns
dos modos infinitos, quer dizer, das leis que fundamentam tanto os corpos quanto as mentes
singulares, entretanto, não atinge a essência dos objetos singulares, mas suas diversas
relações, entre si e com o todo13. Por isto, a razão consegue atingir um conhecimento
necessário (EIIP44).
As ideias adequadas do terceiro gênero do conhecimento, a ciência intuitiva, são
aquelas que alcançam a essência dos objetos singulares através da apreensão da existência
singular como pertencendo a estrutura do todo, da Substância. Segundo Espinosa, “este
gênero do conhecimento parte da ideia adequada da essência formal de certos atributos de
Deus para chegar ao conhecimento adequado da essência das coisas”. Nessa mesma
proposição Espinosa afirma que o conhecimento gerado por este gênero é imediato através do
exemplo da proporção numérica de Euclides.
Esse gênero do conhecimento conhece os objetos como atuais, quer dizer, como
efeitos que resultam da necessidade da Substância. Segue, também, a ordem do intelecto, na
qual a mente percebe as causas primeiras das coisas na totalidade da realidade. Segundo Silva,

Esse conhecimento conduz ao cume da perfeição humana. Origina o amor


intelectual para com Deus, que em si mesmo é um amor eterno e que ocupa a

12 CHAUÍ, Marilena. Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
13 Acreditamos que as leis da mecânica de Newton são um bom exemplo ‘prático’ para evidenciar como é
possível entender os movimentos dos corpos singulares.

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mente acima de tudo, dando-lhe a maior satisfação possível, a satisfação do


homem consigo mesmo, própria ao sábio e impossível ao ignorante14.

Sendo assim, a mente é capaz de produzir um conhecimento adequado da


Substância, visto que, quanto mais se entende a singularidade dos objetos mais se compreende
a própria Substância. Logo, isto é possível porque ao se conhecer os objetos singulares se
conhece, simultaneamente, a Substância, que, em última instância, são expressões da mesma.
Considerando os três gêneros do conhecimento, este último é que pode atingir um
conhecimento perfeito, posto que, é o único que atinge a compreensão das causas primeiras.
Como para Espinosa conhecer significa apreender as causas, então, mesmo a razão é
compreendida na Ética como um modo de passagem para a maneira mais adequada de
conceber a totalidade da realidade, que é a ciência intuitiva.

AFETOS

Depois de expor, brevemente, a teoria do conhecimento de Espinosa, agora


podemos adentrar na relação com os afetos humanos e sua respectiva consequência para a
liberdade humana.
O conceito que fundamenta toda a terceira parte da Ética, na qual Espinosa
desenvolve sua teoria dos afetos é o de Conatus (EIIIP4-7). O termo latino “conatus” significa
esforço. Nessa direção, Espinosa afirma que conatus é o esforço dos indivíduos para
permanecer existindo. A humanidade possui a característica de ter consciência de seu conatus,
portanto, tanto o corpo quanto a mente possuem o conatus como sua essência atual.
O conatus é uma força interna ao indivíduo que o faz se conservar na existência,
se caracterizando como uma força positiva que, considerada em si mesma, é indestrutível,
visto que, nenhum ser busca a autodestruição15. Assim, o conatus tende à eternidade até o
momento que causas exteriores mais potentes o destruam.
Portanto, a morte não faz parte do conceito de homem quando ele é considerado
através do conatus, quer dizer, ao afirmar que o corpo e a mente se esforçam para perseverar
na existência, Espinosa leva a entender que tanto o corpo quanto a mente são, essencialmente,
vida.

14 SILVA, Adriano Pereira da. Conhecimento e afetividade em Espinosa: da reforma da inteligência à potência
do conhecimento como afeto. 2012. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Universidade Estadual Paulista,
Faculdade de Filosofia e Ciências.
15 CHAUÍ, Marilena de Souza. Espinosa: uma filosofia da liberdade. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

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Na EIIIP9 Espinosa afirma que a mente está consciente de seu esforço por
perseverar na existência através das afecções de seu corpo. Dessa forma, quando esse esforço,
conatus, está referido à mente é nomeado vontade, quando está referido, simultaneamente, à
mente e ao corpo, chama-se apetite. A partir disso afirma Espinosa, “(…) nada mais é do que
a própria essência do homem, de cuja natureza necessariamente se seguem aquelas coisas que
servem para sua conservação, e as quais o homem está, assim, determinado a realizar”. Entre
o conceito de apetite e desejo não há diferença, este último se configura como a consciência
do apetite. Portanto, a essência do homem é o desejo.
De acordo com Gleizer o desejo é caracterizado como um impulso primário que
antecipa ontologicamente as suas respectivas manifestações particulares, isto é, o desejo se
apresenta em cada indivíduo que faz suas afecções singularmente de maneiras variadas16.
O conatus humano não define exclusivamente a conservação na existência como
perseverança em um estado único, diferente dos outros seres da Natureza. Contudo, a define
como perseverança no ser, por isso, pode ocorrer variação da intensidade do conatus humano.
Nessa perspectiva, o ser humano pode ser definido como uma variação na força de
existir. Ao consideramos essa variação do ponto de vista do corpo, o que varia é a força para
afetar e ser afetado por outros corpos. Em relação à mente, o que varia é força de pensar,
sempre maior ou menor.
A causa dessa variação da força de existir no ser humano é o que Espinosa define
como afeto (EIIIdef3), “por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência
de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias
dessas afecções”. A partir disso, o afeto é considerado uma ação quando o indivíduo é causa
adequada da afecção, na direção oposta, quando é causa inadequada ou parcial, o afeto é
chamado de paixão.
Para compreender melhor a diferença entre um afeto ação e um afeto paixão é
preciso saber a diferença entre causa adequada e causa inadequada. Desta forma, na EIIIdef1
Espinosa afirma, “chamo de causa adequada aquela cujo efeito pode ser percebido clara e
distintamente por ela mesma. Chamo de causa inadequada ou parcial, por outro lado, aquela
cujo efeito não pode ser compreendido por ela só”. Logo, uma pessoa é ativa quando é a única
responsável pelos efeitos que acontecem em si ou em objetos externos, e passiva quando o
efeito que encontra em si ou na natureza não é originado nele ou apenas nele. Da mesma
forma, quando esses efeitos são afetos pode-se chamá-los de ação quando são compreendidos

16 GLEIZER, Marcos André. Espinosa e a afetividade humana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 32-33.

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exclusivamente pela natureza de quem age, e, paixão, quando dependem da natureza de


causas exteriores.
Consequentemente, a relação que o homem tem com a Natureza é afetiva, isto é,
tanto as afecções corporais quanto as ideias dessas afecções são afetos, tendo em vista que
essa relação sempre acontece simultaneamente, como já explicado. Porém, nem toda afecção
é um afeto, quer dizer, podem acontecer algumas afecções que não fazem variar a potência de
agir e pensar de um indivíduo.
Quando a potência de agir varia positivamente, ou seja, a passagem para uma
força de existir maior, é gerada a alegria. Quando a variação acontece negativamente, uma
força de existir menor, é gerada a tristeza. Deste modo, Espinosa define os três afetos
primários, quais sejam: desejo, alegria e tristeza.
Assim, a vida afetiva humana se configura como a vivência da passagem, uma
variação de ânimo, uma transição, sempre do aumento ou diminuição da vitalidade, conatus.

RELAÇÃO ENTRE GÊNEROS DO CONHECIMENTO E AFETOS

A relação entre os gêneros do conhecimento e os afetos começa, agora, a clarear-


se, porque existe uma relação direta entre os conceitos de ideia e causa, adequada e
inadequada, respectivamente. As ideias adequadas constituem as causas adequadas, quer
dizer, ao conhecer adequadamente se é causa adequada e, portanto, se está agindo
positivamente. O mesmo se diz, inversamente, das causas inadequadas, padecemos, somos
afetados de paixão ao imaginar, ter ideias inadequadas. Espinosa deixa isso evidente na
EIIIP1, “A nossa mente, algumas vezes, age; outras, na verdade, padece. Mais
especificamente, à medida que tem ideias adequadas, ela necessariamente age; à medida que
tem ideias inadequadas, ela necessariamente padece”. Por isso, pode-se dizer que a
passividade humana está diretamente ligada à imaginação enquanto a ação está ligada
primeiro à razão e depois à ciência intuitiva. Sendo o terceiro gênero do conhecimento o
responsável por fazer o homem atingir o grau mais elevado de ação, consequentemente, de
liberdade. Portanto, existem desejos passionais e desejos racionais.
Segundo Gleizer existe uma diferença ética fundamental entre os afetos ativos e
passivos, até mesmo quando os passivos se configuram como alegres. Assim, as paixões que
resultam do encontro fortuito com causas exteriores se caracterizam como variáveis, instáveis,
evidenciando a dependência do indivíduo em relação ao outro. Desta forma, o conatus

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humano passa a ser orientado pela exterioridade através das afecções, portanto, as paixões são
eventos que escapam ao domínio do homem, lhes situando à mercê da fortuna. Do lado
oposto, os afetos ação que dependem unicamente da natureza do indivíduo se configuram pela
constância, evidenciando a autonomia e a atividade plena do conatus. Logo, esses afetos são
os responsáveis por fazer os homens alcançarem a beatitude, a liberdade máxima17.
Nessa direção, pode-se falar da consequência para a liberdade humana
fundamentada sobre a relação dos gêneros do conhecimento e os afetos. Porque, em última
instância, os afetos paixão e os afetos ação dependem de um núcleo cognitivo, quer dizer,
estão vinculados, cada um, a uma ideia que tornará seu vínculo com o mundo passivo ou
ativo, fará o homem padecer e agir.
Não é porque o homem encontra a liberdade através da razão e ciência intuitiva
que pode-se afirmar que ele para de imaginar e não mais padece. Na verdade, segundo
Espinosa (EIVP2), “padecemos à medida que somos uma parte da natureza, parte que não
pode ser concebida por si mesma, sem as demais”. Portanto, o homem em nenhum momento
sai da natureza, não há nada de sobrenatural, desse modo, é sempre forçado a imaginar e,
consequentemente, padecer. Espinosa ainda afirma que o conatus do homem é superado
infinitamente pelas causas exteriores (EIVP3), “a força pela qual o homem persevera no
existir é limitada e é superada, infinitamente, pela potência das causas exteriores”. Logo,
apesar de o homem possuir a capacidade cognitiva de raciocínio acaba padecendo
necessariamente. Nessa direção se configura a servidão humana, ou seja, o homem padece
necessariamente e caso não consiga refrear ou regular os afetos acabará servo das causas
exteriores. Entretanto, o homem não é apenas passivo, visto que também produz ideias
adequadas e, por isso, é causa adequada de efeitos que acontecem em si e nos objetos
externos. Por conseguinte, o homem viverá nessa variação constante até conseguir atingir um
equilíbrio através de um controle progressivo de suas paixões.
Se o homem padece significa que o conatus pode ser concebido inadequadamente.
O homem agiria contrariamente a sua própria essência, ou seja, esta é outra maneira de
afirmar a servidão humana. Para Espinosa a liberdade humana não depende do livre arbítrio
da vontade, mas de sua adequação à sua própria essência, quer dizer, a liberdade humana
consiste em agir adequadamente com seu conatus, segundo Chauí, “(…) ação que segue

17 Ibid., p. 39.

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necessariamente da natureza do agente que age como causa eficiente adequada de suas
ações18”.
À vista disso, a liberdade consiste na reforma do intelecto a fim de que aconteça
um conhecimento adequado das causas externas, tornando o homem consciente da força das
paixões sobre si para que possa controlá-las. O terceiro gênero do conhecimento é mais
adequado para essa função porque é o único que atinge a essência dos objetos externos. Faz o
homem se compreender como expressão da Substância única, tornando-o causa eficiente
imanente de suas ações e alcançar a compreensão da necessidade de seu pensamento e dos
acontecimentos que viveu.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Torna-se evidente a limitação do texto apresentado em relação à imensidade


interpretativa da obra espinosana. Nessa direção, nos restringimos a abordar um aspecto da
Ética que diz respeito à relação direta do conhecimento com os afetos humanos e a
consequência para a liberdade. Portanto, iniciamos este texto com uma pequena demonstração
da base ontológica espinosana para o objetivo proposto. Assim, um dos principais, se não o
principal, conceito de Espinosa, a Substância, é o que estrutura e, portanto, direciona os
demais temas tratados pelo filósofo. Assim sendo, o conhecimento e afetos humanos estão
voltados para a finalidade de fazer o homem se compreender como uma parte da própria
natureza. Quer dizer, a vida humana pode ser entendida como um processo cognitivo afetivo
que busca a compreensão de sua inserção na totalidade. Como ficou explícito no texto o afeto
é constituído por um núcleo cognitivo, isto é, não é possível acontecer um afeto sem que haja
uma ideia adequada ou inadequada, sem imaginação ou razão, respectivamente. Logo, a
relação que é explicitamente direta torna-se mais clara ao evidenciarmos que a liberdade
humana é alcançada através do controle da imaginação e da passagem para a ciência intuitiva,
ou seja, a compreensão da participação individual no emaranhado de relações necessárias da
realidade. A liberdade é uma ação que acontece de acordo com a natureza do agente, isto
posto, não há espaço para o contingente, há somente uma dissonância, ou melhor, uma
servidão afeto cognitiva aos encontros fortuitos da natureza. O homem, uma unidade
psicofísica, é tanto mais livre quanto mais consegue controlar suas paixões, quando é causa

18 CHAUÍ, Marilena. Servidão e Liberdade In: Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa. São Paulo:
Companhia das Letras, 2011. s/p.

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adequada de suas próprias ideias. Ao perceber os limites cognitivos de sua imaginação, assim,
gerando ideias mais fortes que o façam quebrar as imagens que possui sobre seu mundo. Caso
não faça isso, o homem reagirá ao mundo através apenas de paixões, lidará apenas com os
efeitos que o mundo leva até ele, ficará preso e dependente de causas externas, entrará em
uma completa dissonância consigo mesmo, suas ações serão apenas reflexos externos. Deste
modo, os gêneros do conhecimento em Espinosa se mostram como uma via exclusiva para o
controle dos afetos paixão e acesso à beatitude, a liberdade máxima, que é alcançada através
do esforço produzido em uma vida inteira.

REFERÊNCIAS
CHAUÍ, Marilena de Souza. Espinosa: uma filosofia da liberdade. 2. ed. São Paulo: Moderna,
2006.

______________. Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa. São Paulo: Companhia das
Letras, 2011.

DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002.

GLEIZER, Marcos André. Espinosa e a afetividade humana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2005.

SPINOZA, Benedictus de. Ética. Trad. de Tomaz Tadeu. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica
Editora, 2017.

SILVA, Adriano Pereira da. Conhecimento e afetividade em Espinosa: da reforma da


inteligência à potência do conhecimento como afeto. 2012. Dissertação (Mestrado em
Filosofia) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Filosofia e Ciências.

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GOLPES

Aline Daka1

RESUMO

O ensaio propõe um breve exercício de pensamento que oferece visibilidade aos golpes de
subjetivação que nos constituem em enfrentamento com as produções poéticas. Com a poeta Sylvia
Plath e a artista visual Shirin Neshat lançam-se experiências e acontecimentos que atravessam esse
conflito. Pensadores como Gilles Deleuze e Jacques Derrida aparecem para alinhavar
conceitualmente as tramas textuais que são produzidas.

Palavras-chave: Educação em arte. Poéticas de resistência. Golpes.

GOLPES

Palavras secas, sem destino,


Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.
Sylvia PLATH, Palavras

Golpes são tremendos, pois causam assombro. Eles abalam estruturas construídas, torcem
os movimentos, marcam as carnes, rasgam os tecidos corporais e sociais, delimitam ou rompem
fronteiras, dobram ou assujeitam as pessoas ao impacto de forças inesperadas. Golpes afrontam o
movimento de nossas vontades e nos fazem constatar a existência e o contraste de diferentes modos
de existir, expressar e fazer. Nesse contexto é que se dão as relações de poder, de transgressões e de
castigos, em uma multiplicidade de formas, tais como as que são desenhadas nas páginas abaixo, a
serem correspondentes à escola, lugar a que somos destinados e depois avaliados por nossos modos
de ser, de poder e de saber.

1
Aline Daka é o nome artístico de Aline da Rosa Deorristt. Artista visual e educadora, bacharel em Artes Visuais e
mestre em Educação pela UFRGS. Em 2018 defendeu sua dissertação de mestrado no formato de uma história em
quadrinhos, o trabalho "Mulheres Caídas: cacografias na educação" estará disponível no site da biblioteca da UFRGS a
partir de janeiro de 2019. E-mail: dakhadessin@gmail.com.

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Figura 1: Aline Daka, imagem retirada da dissertação de mestrado em quadrinhos MULHERES CAÍDAS:
cacografias na educação. Nanquim sobre papel, 2018

Mesmo não sabendo direito como responder a isso ou explicar, na escola penso que nos
damos conta do quanto estamos governados pelo que nos foi herdado, do quanto devemos aos
deuses e do que temos que assumir enquanto representações dogmáticas e autoritárias de nós
mesmos, nos apontando um dedo num ato de "você é". O filósofo Gilles Deleuze escreveu em Para
dar um fim ao juízo que "o juízo de conhecimento... implica uma forma moral e teológica primeira,
segundo a qual a existência estava relacionada com o infinito conforme uma ordem do tempo: o
existente como tendo uma dívida para com Deus" (DELEUZE, 1997, pág. 163). E a manutenção
dessa dívida é infinita, pois impossível de ser saldada; ela corresponde a uma doutrina que já está
dada antes mesmo que a percebamos. Essa doutrina "só é suave na aparência, pois nos condena a
uma escravidão sem fim e anula qualquer processo liberatório" (DELEUZE, 1997, pág. 164).

Aliás, durante toda a vida, nos espaços coletivos institucionais de convivência aprendemos
uma série de regras e determinações nas quais devemos nos curvar se quisermos ser considerados
como existentes, ou se quisermos ser vistos e ouvidos, assim como, se quisermos nos movimentar e
nos colocar resistentes em alguma diferença, provocando mudanças em nossos modos de viver. Por
outro lado, em vias opressoras, quando consumidos os seus valores, que é quando fazemos o seu
jogo como sujeitos passivos, as impossibilidades aparecem sob outros aspectos, como quando as
pessoas são tomadas por sentimentos reativos, como, por exemplo, o medo de perder, o de não ser o
suficiente perante a tal modelo, o de carregar a culpa por todos os erros ou de não alcançar aquilo

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que se almejava após tantos esforços de consentimento2. À força de golpes de subjetivação, esses
modos de viver tendem para as linhas de morte e de (auto) destruição, pois nos esvaziam as
vontades, estancando o fluxo dos desejos, nos paralisando. As meritocracias, as leis sob punições ou
quaisquer exigências de submissões (linguísticas, territoriais, imagéticas...) não raro extremadas,
tendem a produzir as misérias do corpo, que também é inteligência e pode padecer à força de
violências... o que traz a necessidade da movimentação de forças de desvio e resistência mais
poderosas e articuladoras, inaugurando um combate.

A partir desses pensamentos, caberiam aqui muitos relatos de experiências compartilhadas


em narrativas que traduziriam situações violentas como essas em nossos cotidianos, mas que, de
certa maneira, estarão ligadas ao que destaco a seguir na fala da artista iraniana Shirin Neshat, para
pensarmos em como estamos submetidos às relações de força que nos golpeiam de encontro à vida.
E assim, focando também, em questões circunscritas nas subjetivações da mulher. A artista, que
vive no exílio desde os anos 70, submetida também às subjetivações ocidentais que marginalizam e
estereotipam as mulheres (determinando também as orientais), mesmo enquanto produtoras de arte
e de conhecimento, tal como na ilustração abaixo, que compõe com sua episteme.

Figura 2: Aline Daka, imagem retirada da dissertação de mestrado em quadrinhos MULHERES CAÍDAS:
cacografias na educação. Nanquim sobre papel, 2018

2
Aqui não posso deixar de fazer menção à situação atual do Brasil, que passa por uma transição política (e econômica e
cultural...) à golpes violentos, impulsionados por ideais totalitários. Enquanto escrevo este texto pessoas passam pelas
ruas gritando palavras de ordem e de desordem, verbalizando a vida em conflito que nos absorve em turbilhão.

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Em entrevista concedida para a televisão3 sobre seu filme A última palavra (2003), a artista
faz referência a uma experiência de interrogatório alfandegário vivida por ela no Iran, país natal no
qual desde a Revolução Islâmica de 1979 adquiriu uma política extremista, para comentar sobre a
produção de uma cena. Considerando as relações subjetivas de limite e choque entre os valores e os
modos de vida que vivenciamos pensando os golpes, torna-se importante dar visibilidade ao que se
segue. Neshat ressalta o valor (a violência) de um juízo moral direcionado a ela como mulher e
artista, que na sociedade iraniana (não estamos muito longe disso) vem com a força de um golpe de
imagens:

Se um artista, se um criador, tivesse que enfrentar finalmente a seu interrogador


(...) para mim esse homem não era simplesmente um interrogador da República
Islâmica do Iran, senão que era quase como Deus (...) se realmente tivesse que ir e
enfrentar a pessoa que te aterroriza, como eu, que sempre estarei aterrorizada com
o homem que me interrogou, o que poderia sair de seus lábios e o que poderia sair
dos teus? Como se compara esse mundo de criatividade e de imaginação com a
realidade que te rodeia de palavrórios e slogans vazios? (NESHAT, 2005).

Figura 3: Shirin Neshat, capa monografia que documenta a produção do filme The last word (2005).
Fonte:https://www.ursusbooks.com/pages/books/118691/octavio-zaya-leon-musac-hamid-dabashi/shirin-
neshat-la-ultima-palabra-the-last-word.

Pela fala de Neshat podemos visualizar em que estamos agora envolvidos, ela constrói uma
cena no filme inspirada em sua própria experiência, em que um militar iraniano ostensivamente

3
Na ocasião do 25 aniversário de Metropolis (16/11/2005), traduzida por mim do espanhol. link:
https://www.youtube.com/watch?v=URoe2OUQvY4. Também podemos ter contato com o pensamento da artista a
partir de sua visão sobre seu exílio e a arte no vídeo: https://www.ted.com/talks/shirin_neshat_art_in_exile. Acesso em
01/10/2018.

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interroga uma escritora, e diz:

Mulher! Tens cruzado a linha. Tens escrito palavras subversivas. Mulher! És


culpada de corromper a mente das pessoas. De envenenar a alma das pessoas. Tua
imaginação é obscura. A obscuridade é onde mora o diabo. E tu, com tuas
palavras, cheias de pecado, cheias de obscuridade, de horror, de luxúria, de ira.

A escritora responde aos prantos, que compreendemos como parte de uma situação como
essa, mas em afirmação poética, o que consterna a figura autoritária:

Eu venho da terra das bonecas. Das sombras das árvores de papel. Do jardim de
um livro de fotografia. Da secura dos juízos estéreis, de amizade e de amor. Das
poeirentas ruas da inocência. Dos anos em que as pálidas letras do alfabeto
nasceram. Provenho das raízes das plantas comedoras de carne, com o som do
terror das mariposas quando as crucificam em um livro com uma agulha.

Essa disjunção, essa desconexão, esse contraste, esse enfrentamento da personagem frente
ao juízo do poder de um Estado totalitário, que para ela é Deus, marca um golpe de vida que ela
devolve à sua violência e assinala uma capacidade de recuperação do corpo sob qualquer
circunstância. A cena desse filme golpeia tão fortemente, que penso que a comunicação entre eles, o
entendimento do militar, por exemplo, é o que menos importa. Aparentemente temos a figura
dogmática desse homem que é Deus, entrevistando uma mulher artista, tal como ele mesmo a define
em sua fala, entretanto, ela já não corresponde mais a uma mulher, porque em sua poesia ela escapa,
não se conserva numa forma que se aprisione. Nada do que ele fará poderá fazê-la retornar de suas
experiências, de sua própria fala, e menos ainda, de convencê-la a ser uma mulher.

Nas palavras de Jacques Derrida, que pensa a mulher em Friedrich Nietzsche (2013),
encontro algumas imagens para as sensações que essa experiência produz, onde "não há uma
essência da mulher porque a mulher afasta e se afasta dela mesma" e que talvez, faça dela uma
"não-identidade, não-figura, simulacro, abismo, o corte do espaçamento, a distância mesma, se
ainda se pudesse dizer, o que é impossível, a distância mesma" (DERRIDA, 2013, pág. 32). É a
partir do autor que pergunto, que tipo de "acordo" poderia contornar essa distância?

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Figura 4: Aline Daka, imagem retirada da dissertação de mestrado em quadrinhos MULHERES CAÍDAS:
cacografias na educação. Nanquim sobre papel, 2018

Num depoimento em seu caderno de notas Cambridge Notes (1956), a poeta Sylvia Plath
escreve algo que pode se encaixar num modo de observarmos essas duas maneiras de pensar e sentir
o mundo, já que as constatamos agora nas duas figuras extremas do militar e da escritora no filme
de Neshat. Plath expõe para si mesma:

O que mais me apavora, penso, é a morte da imaginação. Quando o céu lá fora é só


cor-de-rosa e os telhados, negros: aquela mente fotográfica que paradoxalmente
nos revela a verdade, mas a verdade do mundo, que nada vale. O que eu desejo é
aquele espírito sintetizador, aquela força "que dá forma" e que faz rebrotar
prolificamente criando suas próprias palavras com mais inventividade do que Deus.
Se eu me sento aqui e não faço nada, o mundo prossegue batendo como um tambor
flácido, sem significado (PLATH, 2005, pág. 136).

Plath nesse fragmento de uma anotação para si mesma, expressa a necessidade de uma
força a ser projetada em sua escritura como recriação do mundo e de si. O que produz um novo
olhar que dá forma para uma realidade poética não conformada, de encontro com as imagens que a
autora denomina como "fotográfica", para expressar o seu contexto como algo dado, fixado e não
contingente. É ao trabalho de um texto que ela se refere, e do que poderíamos chamar de um
exercício poético de resistência que a salva numa nova perspectiva de vida. Devolvendo à vida o

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seu inconstante movimento, ela se torna matéria para criação de poemas, que de retorno, à força de
um golpe, a recria, tal como nos versos do poema Palavras, citado na epígrafe do texto: "Machados
/ Que batem e retinem na madeira, / E os ecos! / Ecos escapam / Do centro como cavalos. / A seiva /
Mina em lágrimas, como a / Água tentando / Repor seu espelho / Sobre a rocha / Que cai e racha, /
Crânio branco, / Comido por ervas daninhas. (...)" (PLATH, 2005, pág. 89).

Transitar em diferentes perspectivas nos permite renová-las, procurando lidar com elas do
modo como nos exigem, mas às vezes esse trânsito exige uma mudança que pede o dispositivo de
um golpe. Penso que nos fragmentamos nas oscilações entre os choques e os fluxos, entre as
euforias e as tranquilidades, as ações e as impossibilidades. É aceitando a vida em suas limitações
que aprendemos uma posição que é intolerada pelas forças brutas que podem nos fazer frear.

REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997.


DERRIDA, Jacques. Esporas: os estilos de Nietzsche. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2013.
NESHAT, Shirim. Shirim Neshat: 25 aniversário de Metropolis. Metropolis, 2005. Disponível em:
< https://www.youtube.com/watch?v=URoe2OUQvY4>. Acesso em 01/10/2018.
PLATH, Sylvia. Poemas. São Paulo: Iluminuras, 2005.

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Escola Manicômio x Escola Libertadora: Um micro ensaio sobre educação

Guilherme Lino Fernandes1


RESUMO:
Este ensaio trata da diferença de dois tipos de escola como instituição, tecendo críticas
sobre métodos tradicionais de ensino e tentando evocar o pensamento libertador e
libertário de novas práticas educacionais. Baseando-se em Deleuze e Guattari e no
ideário de Paulo Freire este tem como objetivo despertar novos modos de pensar a
escola, seja através da esquizoanálise ou também através de uma pedagogia da
libertação, uma pedagogia da suavidade ou talvez, uma pedagogia da ternura, na qual
nos fundamentamos em Paulo Freire.
Palavras chave: Pedagogia da libertação, educação, esquizoanálise.


Escuela de Colegio x Escuela Libertadora: Un micro ensayo sobre educación

RESUMEN:
Este ensayo trata de la diferencia de dos tipos de escuela como institución, creando
críticas sobre métodos tradicionales de enseñanza e intentando evocar el pensamiento
liberador y libertario de nuevas prácticas educativas. En base a Deleuze y Guattari y en
el ideario de Paulo Freire este tiene como objetivo despertar nuevos modos de pensar la
escuela, sea a través de la esquizoanalisis o también a través de una pedagogía de la
liberación, una pedagogía de la suavidad o tal vez una pedagogía de la ternura, que nos
basamos en Paulo Freire.
Palabras clave: Pedagogía de la liberación, educación, esquizoanálisis.


1
Graduado em História pela Universidade de Uberaba em 8 de dezembro 2008, graduado em psicologia
pela Universidade de Uberaba em 22 de junho de 2016. Psicólogo clínico atuante na abordagem
esquizoanalítica, esquizodrama e análise institucional.

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A educação, o ensino, o ensinar, o aprender para a grande maioria dos teóricos


esquizoanalistas, freireanos e outras vertentes libertárias serve como um meio, um
dispositivo de libertação e transformação dos indivíduos.
Mas todos esses escritores da esquizoanálise, da pedagogia da libertação, outras
linhas teóricas e pensadores constatam grandes problemas na educação brasileira, que
impedem os professores e alunos de atingirem os pólos produtivos postulados por
Deleuze e Guattari, através de um regime vertical de comunicação que permeia os
traços de uma cultura manicomial citada por autores da saúde mental e da luta anti-
manicomial (Franco Basaglia, Paulo Amarante e outros mais).
Na realidade a escola funciona como uma espécie de equipamento de controle
usado pelas diretrizes da cultura manicomial que permeia nossa sociedade. A escola
opera como um aparelho de normatização, correção, vigilância e punição, um
equipamento disciplinar para uma educação que obedece às lógicas do capital.
A educação que Paulo Freire chamava de educação bancária é acima de tudo
uma educação interessada em assuntos restritos ao estado, corporações, empreiteiras e
não na formação de autonomia, do pensamento crítico e das multiplicidades que uma
educação libertadora pode proporcionar.
De acordo com a perspectiva esquizoanalista Deleuzoguattariana e o pensar
Freireano da pedagogia da libertação, o manicômio está em quase todos os setores da
vida cotidiana, não somente como forma de violência institucional, mas como através
de atitudes que permeiam atos de preconceito, segregação racial, homofobia e todas as
formas de violação dos direitos e da condição humana. No qual ultrapassa o fato de um
sistema educacional que enfia goela abaixo um conhecimento pronto para o aluno
deixando de lado de que o mesmo desenvolva a capacidade crítica de produzir
novidade, suavidade e novos modos de se ocupar no mundo.
A escola manicômio é o lar da repetição do ser, uma linha de produção de
sujeitos formatados e militarizados. Nestas instituições, não encontramos planos de
consistência (polos produtivos citados por Deleuze e Guattari em vários capítulos de
“Os Mil Platôs” e algumas páginas iniciais de “O Anti-Édipo”) mas, sim planos de
reprodução e anti produção, diferente de uma escola sonhada por Freire e muitos outros
que sonham e sonhavam. Um dispositivo no qual as linhas de força sempre
sobrecodificam os modos de produção de subjetividade.
A escola como manicômio aqui colocada, promove um tipo de comunicação
vertical que chega a calar o aluno em sua totalidade, com o controle do conteúdo escolar

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de aprendizado curricular e até o regimento imposto por cada instituição escolar perante
seus estudantes.
Deleuze e Guattari em Mil Platôs, pontuam que a linguagem não é um marcador
sintático mas sim um marcador de poder. Então como pode haver libertação e práticas
revolucionárias em um ambiente de produção de medo por meio do poder e exercício da
comunicação vertical?
A escola libertadora é a escola da ousadia e prudência postulada por Gregório
Baremblitt aonde o saber deve promover a produção de fluxos criativos que são
emitidos e até mesmo disparados pela máquina de guerra de Deleuze e Guattari. Neste
tipo de instituição práxis revolucionárias se fazem necessárias para a autonomia de uma
educação pensada por Paulo Freire.
Educar é libertar, libertando-se, partindo da premissa Pichoniana dos grupos
operativos de Pichón - Riviere, aonde se diz “transformar, transformando-se”. Pode
parecer utópico, mas a escola libertadora ainda é possível, mesmo com um Estado
opressor. Em qualquer lugar uma sala de aula pode surgir, mesmo em um prédio e até
debaixo de um viaduto.
Escola libertadora é a escola da guerrilha, na qual combatemos todas as formas
de manifestações manicomiais presentes na educação e na nossa cultura em geral. A
educação é um dos instrumentos mais potentes na guerrilha, uma educação não alienada
e consistente, formando cidadãos críticos, criativos e maquínicos, são homens e
mulheres ativos que socialmente, intelectualmente e de diversas formas, vivem lutando,
militando e trabalhando para transformar o ambiente ao seu redor.
Podemos dizer que segundo Gregório Estebán Kázi2 educar é consistir
amorosamente para nossos alunos e também para nossos profissionais educadores, dar
os espaços para as revoluções moleculares e as máquinas de guerra. Educar é de fato
guerrilhar. Em uma sociedade na qual o novo é combatido e as ideias implantadas
através de axiomas capitalistas (verdades universais que impões paradigmas imutáveis),
instituições totais e também estatais que mantém órgão de vigilância que fazem uso de


2
Professor da Universidade de Uberaba, natural da Argentina de descendência húngara. Passou por
importantes períodos históricos da luta antimanicomial e com seus trabalhos em saúde mental aonde
possui uma menção de honra ao mérito na Rússia pelos seus serviços se saúde prestados ao país. Hoje
Gregório além de ministrar aulas como professor tem trabalhos de supervisão clínica, esquizodramas e
atende pela abordagem esquizoanalítica e fortes influências de autores como Baoleo, Pavlovsky, Pichón-
Riviére, Deleuze e Guattari dentre outros.

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um poder expressado por meio de uma violência legalizada gerando meios de


impedirem os movimentos sociais e marginais de produzirem linhas de fuga.
A escola libertadora ensina e experimenta o conhecimento, professores e alunos
ensinam e aprendem juntos, criam uma ética da amizade e espaço de produções
amorosas do conhecimento e da vida.
Pensar a escola libertadora atualmente é pensar a partir de uma nova ecologia
que pode emergir de práticas e tecnologias educativas que possibilitam a criação de
dispositivos e linhas de fuga para uma nova educação. Uma nova forma de enxergar e
praticar a educação como um espaço de práticas políticas, sociais, culturais e coletivas.
Como em The Wall, a escola manicômio é um muro nas estradas das potências
construtoras de vida, apenas mais um tijolinho no muro, que estamos vendo hoje em
dia, jovens padronizados a uma só forma de vida.
A escola manicomial ainda persiste com normas, regras, valores e éticas que
violam e controlam os corpos, para formar indivíduos do trabalho mecânico e alienado,
sustentando as máquinas capitalistas que regem o que Paulo Freire chama de educação
financeira. Que apenas produz números e aumenta o tamanho do lucro dos empresários
educativos que educam apenas pelo interesse, com conteúdos prontos sem produzir
criticidade e indivíduos que possam contribuir com a sociedade através de ações
concretas em suas cidades, bairros e comunidades em seu território geográfico.
E essas duas formas de existência de uma instituição escola vivem em combate
nos ensaios publicados até o presente momento sobre educação. Por isso é preciso ter o
hábito de produzir novas formas de se ocupar da educação, novas formas de pensar uma
educação na qual o conhecimento seja libertador e transformador para que uma nova
ecologia e um novo povo possam nascer.
Eduquemos para uma nova época, para transformar e amar. Lutemos pela
educação da produção que conspira pela vida, combatendo sempre todas as formas de
pensar a escola de forma opressora, como autoridade, pois, devemos pensar a escola
como ambiente de mutação de uma sociedade libertadora e porque não libertária.
(palavras do autor deste ensaio).

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