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Sem a tutela, uma nova moldura de nação

João Pacheco de Oliveira

Em um balanço sintético pretendo mostrar, contrariamente à crença do- minante desde o indianismo do século XIX, que os indígenas não são apenas assunto do passado, tema para apreciação estética ou puramente losófica, mas que a sua presença no Brasil contemporâneo é algo bastante ignificativo e que tem repercussões importantes para diversas políticas úblicas. Na parte inicial deste capítulo caracterizo o embate de forças no qual ocorreu a gestação do texto constitucional de 1988, acompanhan- do a seguir como tais dispositivos foram atualizados e levados à práti- a por meio de um conjunto de contextos e fatores políticos, nacionais e internacionais, que lhe agregaram sentidos peculiares e se encarregaram de atualizar algumas potencialidades dentro do campo de possibilidades instaurado pela nova Constituição. A seguir realizo uma breve análise na perspectiva da longa duração dos diferentes marcos jurídicos que visaram regulamentar a presença indígena na história do Brasil apontando, den- trO dessa série, a originalidade da nova Constituição. Por fim, dialogan- do com trabalhos recentes de interpretação do Brasil formulados por dois ientista políticos, procuro demonstrar que a questão indígena propõe ao Estado brasileiro problemas de tal monta e complexidade que as soluções aí engendradas têm consequências que ultrapassam a questão indígena,

afetando a estruturação identidade nacional.

do Estado e os processos de construção de uma

A Constituinte como arena

O tema "índios" não é de maneira alguma residual ou de pouca importân-

cia na Constituição Federal de 1988. de derivar de um debate puramen-

te humanitário e entre poucas pessoas, sem possuir maiores repercussões

práticas, em torno dele ocorreram mobilizações políticas que chamaram a

atenção da opinião pública. O tema foi também, nessa ocasião, objeto de uma acirrada disputa entre diferentes grupos de interesse.

Se recuássemos no tempo poderíamos acompanhar durante o segundo semestre de 1987 e o primeiro de 1988 um singular processo de mobiliza-

ção dos indígenas de várias regiões do País em torno da definição dos prin- cípios constitucionais! que iriam necessariamente requalificar a legislação indigenista em vigor, elaborada em 1973, durante o regime militar. A L . 6.001, chamada vulgarmente de "Estatuto do Índio", expressa claramente uma postura autoritária e centralizadora no trato das questões administra- tivas. Não por acaso aliás procedem deste mesmo ano a criação do Incra

e da Polícia Federal, órgãos que frequentemente estiveram associados à

Funai em suas ações locais. Durante o processo de elaboração da nova Carta foi bastante intensa ~ participação de indigenistas, missionários, antropólogos e advogados nâ só nas audiências públicas e subcomissões, mas também no debate rio com os parlamentares, informando e apresentando sugestões. O faz inédito e de maior repercussão na rotina parlamentar foi a presença co -- tante de uma massa de indígenas que, pintados e usando seus adornos --=' pena, percorriam os corredores do Congresso e do Senado, lotavam auditórios, entravam e saíam dos gabinetes. Não eram agressivos nem nipuladores, não eram manifestantes que protestavam nem lobistas. Era-

pessoas comuns, apenas diferentes, todos confiantes no processo par - mentar, sinceramente preocupados com a defesa de suas comunida - de seus modos de vida e valores diferenciados. Era como se o Congr ss estivesse convocado dentro de uma aldeia indígena! Uma presença colorida e vistosa tornava evidente aos constituintes e aos funcionário duas câmaras legislativas o que a sua experiência urbana havia carnunacc,

a diversidade cultural e linguística do País, a pujança e vivacidade de populações autóctones.

As discussões sobre o tema e as propostas de normatização

não

:

mitaram, é claro, apenas às entidades que se intitulavam "pró-indíge Envolveram igualmente, em outros e bem diversos contextos, a pa:

pação de representantes da agência indigenista, de assessorias das ; :- armadas, de uma articulação da região amazônica e de lobistas das neradoras. O então presidente da Funai, Romero Jucá, em manifes: - surpreendente, que parecia contraditória com o cargo que ocupava, nava o tamanho excessivo das áreas indígenas e responsabilizava o "'-

1 Alguns trabalhos

de antropólogos

e advogados se debruçam com mais profundidade

essa conjuntura. Entre eles destaco: Santos (1989); Cunha (1987); e diversos ar~,,"

coletânea A Temática Indígena na Escola (SILVA; GRUPIONI, 1995).

90

198 2 da antiga constituição pela ineficácia do órgão indigenista." Pessoas vinculadas ao Conselho de Segurança Nacional, órgão de assessoramento direto da Presidência da República e empenhado no Projeto Calha Norte, distribuíram aos constituintes um dossiê sobre os riscos que a demarcação de terras indígenas representaria para a segurança das fronteiras e o desen- volvimento da região amazônica." Na Comissão de Sistematização, presidida pelo deputado Bernardo Cabral (AM), as propostas encaminhadas pelas entidades pró-indígenas e parcialmente incorporadas pela subcomissão de "Negros, Populações In- dígenas, Pessoas Deficientes e Minorias" e, em seguida, pela Comissão da "Ordem Social", foram em grande parte abandonadas. Ao final de uma intensa negociação entre os parlamentares a temática indígena entrou na Constituição de 1988 como o Capítulo VIII ("Dos Índios") do Título VIII ("Da Ordem Social"). Ainda que conciso, com dois artigos e sete pará- grafos, continha algumas definições cruciais, além de outras menções ao assunto ao longo do texto e nas disposições transitórias. Pela primeira vez nas constituições brasileiras o relacionamento com os indígenas passou a dispor de um conjunto doutrinário relativamente articulado, do qual administradores, magistrados e legisladores deveriam erivar as suas ações e decisões. Anteriormente a política indigenista era regulada por uma lei ordinária, mas seus fundamentos dependiam de enções tópicas e fragmentárias encontradas em constituições anteriores, criando-se assim um campo extenso de inferências incertas e revogáveis e permitiram que a jurisprudência ocupasse o espaço vazio resultante da ••. ência de uma base doutrinária.

198: "Ficam declaradas a nulidade e extinção dos efeitos

- ' os de qualquer natureza que tenham por objeto o domínio, a posse ou a ocupação de

pomo visado era o §1°. do art.

-

habitadas pelos silvícolas" (Constituição

entrevista

de 24 de janeiro de 1967).

ao jornal O Estado

de S. Paulo, em 24.09.1987,

e em carta

dirigida aos

iruintes, datada do dia seguinte, o presidente da Funai afirmava que as terras indígenas cermo absolutos e relativos" apontavam para números "positivamente exagerados".

anexo eram apresentados

dois quadros comparativos

onde as terras indígenas eram

-:u:epêas com alguns pequenos países estrangeiros e com unidades da federação, pretendendo

os evidenciar os motivos de sua preocupação.

o Estudo 00 13°.SC/86, intitulado A Questão Indígena e os Riscos Izaegridade do Tem ócio _'acional, preconizava uma reformulação do in '"" ue não seria mais executado pela Funai, mas

'o estadual de rerras, pelo Gerat

o Esru-

, pelo ó

J:"eS~=

!.li=c;W~'lJ'~_;P_,L L

o

o documento

-2:

Uma base doutrinária

inovadora

Que pontos devemos caracterizar como centrais ao eixo doutrinário esta- belecido pelo acima referido Capítulo VIII da Constituição de 1988? Primeiro, o Estado não adota mais como finalidade garantir a integra- ção dos indígenas na comunidade nacional, reconhecendo-lhes explicita- mente "sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições (art. 231, caput). A nova diretriz é contrária ao estabelecido no Estatuto do Índio, de 19 de dezembro de 1973, que se inseria em uma perspectiva assimilacionista, eufemizada através do favorecimento de um "processo de

aculturação livre e espontânea" (como estipulava no art. d, da Lei 5.371, de 05 de dezembro de 1967, de criação

função dessa guinada radical, as políticas públicas e assistenciais devem

desde de então contribuir para a manutenção e fortalecimento das culturas indígenas.

Segundo, é reconhecida aos indígenas uma plena capacidade civil podendo eles associarem-se livremente de maneira a representar seus in- teresses sem a interveniência da agência indigenista. Em termos prático isso significa a extinção da tutela anteriormente exercida pela Funai, cuja regras de operação estavam já minuciosamente descritas na Lei 6.001, de 1973. Embora a Funai não seja mencionada no capítulo, é indicado que o Ministério Público Federal deve acompanhar todo o processo no intuito de certificar-se de sua correção e legitimidade." Terceiro, o Estado deve garantir aos indígenas a posse permanente e o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e lagos das terras sobre as quais exercem uma ocupação de natureza tradicional. No §1°é conceitua- do o que se entende por "terras tradicionalmente ocupadas pelos índios" que não corresponde de forma alguma a terras originárias ou imernoriais,"

mas sim àquelas "necessárias a sua reprodução seus usos, costumes e tradições" (art. 231, §1).

1°, Item I, letra

da Funai'}, Em

física e cultural, segundo

5 Para as menções à legislação vide a compilação realizado por Suess (1980); e por Guima- rães (1989).

6

Medida disposta

no artigo 232: "Os índios, suas comunidades

e organizações

são partes

legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo tério Público em todos os atos do processo".

o Minis-

7

Segundo o jurista José Afonso da Silva: "A expressão

terras tradicionalmente

ocupadas

não significa ocupação imemorial (

motas que já se perderam na memória e, assim, somente estas seriam as terras deles ( tradicionalmente refere-se não a uma circunstância temporal, mas ao modo tradicional

índios ocuparem e utilizarem as terras (

costumes e tradições" (SILVA, 1993: 45-50).

) terras que eles estariam-ocupando

desde épocas re-

) O

de os

)

Daí dizer-se que tudo se realiza segundo seus uso,

92

João Pacheco de Oliveira

É importante notar que dos sete parágrafos do artigo 231, seis falam

de recursos naturais. O §6° é uma reedição do antigo §2°

do artigo 198 da Constituição anterior, reiterando a nulidade jurídica de

quaisquer atos de domínio ou posse sobre terras indígenas, não cabendo também ação de indenização contra a União em decorrência dessa anu- lação. O §3°condiciona à previa autorização do Congresso Nacional o aproveitamento de recursos hídricos, potenciais energéticos bem como a pesquisa e lavra de minérios em terras indígenas. Mesmo com tal anuência deveriam ser ouvidas as comunidades afetadas e prevista a sua participa- ção nos lucros do empreendimento.

de terra e um

Contextos

e fatores

de aplicaçâo

As repercussões práticas na política indigenista das novas diretivas cons- titucionais foram sentidas muito lentamente. Derrotada em sua pretensão de revogação do antigo artigo 198 incorporado pela nova Constituição, a Funai (ancorada na antiga Lei 6.001), passou a ignorar o texto da Carta

Magna, gerindo os assuntos indígenas em conformidade

prias rotinas. Nas práticas cotidianas da agência indigenista o regime tute- lar continuou em vigor, como se nada de diferente houvesse acontecido. O último dirigente da Funai, no cargo entre 2003 e 2007, declarava-se ainda um defensor convicto do indigenismo rondoniano e considerava perigosas as discussões sobre <;l flexibilização da tutela. Em 1991 foram encaminhados ao Congresso Nacional três projetos de lei que visavam substituir a Lei 6.001, engendrando um novo Estatuto do Índio que não tivesse uma orientação tão colidente com a Constituição de 1988. Dois deles, encaminhados respectivamente pelo Conselho Indigenis- ta Missionário (CIMI) e por um conjunto de entidades, entre elas a Asso- ciação Brasileira de Antropologia (ABA) e o Núcleo de Direitos Indígenas (NDI),8 procuravam efetivamente estabelecer formas administrativas em

consonância com os novos princípios constitucionais. O terceiro projeto . foi enviado pela Funai e tinha teor inverso, sendo apenas uma reedição do Estatuto de 1973, com algumas modificações e acréscimos, sem alterar sua perspectiva tutelar.

com as suas pró-

Simultaneamente

alguns parlamentares

passaram a reivindicar que a

aprovação do Estatuto ocorresse com a edição de uma lei que viesse a regu- lar a pesquisa e exploração mineral em terras indígenas (§3° do art. 231). Em 1992, sentindo dificuldade para optar entre projetos tão contrastantes,

8 Posteriormente

Tutela

Instituto

Socioambiental

(ISA),

93

o deputado Luciano Pizzato (relator designado pelo Congresso) produziu

um substitutivo que incorporava parcialmente elementos dos três proje- tos de lei anteriores, acrescentando-lhe artigos normatizando a atividade mineradora. O produto final, ameaçado em sua coerência e consistência, desagradou a todas as partes. Foi acordado, como solução provisória, que os parlamentares realiza- riam audiências públicas em diferentes regiões do País, de modo a ouvir os

indígenas e os diversos organismos locais, formulando a partir daí as cor- reções julgadas necessárias. A Em vez de serem superadas, as divergências

se acentuaram. A Funai mobilizou seus funcionários indígenas e lideranças

aliadas, defendendo de modo intransigente a continuidade da tutela. Sur- presos com o dissenso, que parecia imperar também entre os indígenas, os parlamentares não deram andamento ao projeto de lei, que permanece até hoje em estudos, sem ir a plenário." As mudanças vieram por outras vias, principalmente pelas sucessivas reformas da administração pública pensadas segundo o formato de um Es- tado minimalista. Avaliada como pouco eficiente e de mentalidade autár- quica e antiquada, na década de 1990, a agência indigenista veio a sofrer com redução de pessoal e de recursos orçamentários. Em 1992 um conjun- to de decretos do então presidente, Fernando Collor de Mello, transferiu as atividades de assistência aos indígenas nas áreas de saúde, educação e programas de desenvolvimento que antes cabiam à Funai para os ministé- rios que cuidavam dos respectivos assuntos. A Funai protestou contra essas medidas, que ainda recentemente con- siderava nocivas aos interesses dos índios. No entanto, dadas as restrições financeiras e de pessoal, foi progressivamente concentrando suas ativida- des na questão fundiária, na atenção aos chamados "índios isolados", na administração de sua infraestrutura e no exercício do poder de polícia dentro das áreas indígenas. As organizações indígenas e as entidades de apoio a elas associadas estabeleceram relações de cooperação com os mi-

nistérios da Educação, Saúde e Meio Ambiente,

informações e um saber técnico e jurídico indispensável ao cumprimento de suas novas funções. As políticas assistenciais foram pautadas nos novos princípios constitucionais, nos conhecimentos setoriais específicos dessas pastas e na eventual colaboração de organismos não governamentais (in-

passando a transmitir-lhes

9 Em algumas ocasiões, durante esses 17 anos, existiram tentativas sem sucesso de colocá-Io em pauta devido sobretudo às resistências da Funai. Na última dessas ocasiões, em 2002, chegaram a acontecer debates públicos promovidos pelas organizações indígenas (como Cimi e ABA), disso resultando documentos críticos e novos subsídios.

94

João Pacheco de Oliveira

clusive das organizações

seu caráter centralizador e genérico, revelava-se de pouco valia para orien-

tar essas ações.

indígenas),

e não no Estatuto

do Índio

que, por

A estruturação progressiva dessas atividades assistenciais foi gerando

alternativas absolutamente

nal. A Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), através de uma série de

convênios com organizações indígenas, veio a atuar em grande parte das áreas indígenas do País, mobilizando um orçamento que já em 2002 era superior ao da Funai. As grandes organizações indígenas da região ama- zônica, como o Conselho Indígena de Roraima (CIR), a Federação das Or- ganizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), a Coordenação das Organi- zações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), o Conselho Geral da Tribo Ticuna (CGTT), o Conselho Indígena do Vale do Javari (CIVAJA),

a União

a

responsabilizar-se pelo atendimento de saúde aos indígenas dentro de suas respectivas áreas de atuação, mobilizando equipes médicas, estabelecendo

novas para os indígenas

no plano local e regio-

das Nações

Indígenas

(UNI)

do Acre, entre outras,

passaram

esquemas

de atendimento

e treinando

um grande

número

de monitores

indígenas.l?

o

repasse de recursos aos municípios, responsáveis diretos pela educação de base. Ainda que a Funai em alguns lugares mantivesse convênios com mu- nicípios ou com as forças armadas (principalmente nas regiões de frontei- ra), o entendimento mais comum era de que a educação indígena era uma atribuição da agência indigenista. Assim, as autoridades municipais em sua maioria ficaram surpreendidas com os aportes de recursos e com as novas responsabilidades assistenciais do MEC e, por conseguinte, das pre- feituras. O MEC organizou um conselho nacional de educação indígena de caráter normatizador e fiscalizador, bem como conselhos estaduais, alguns bastante operantes. Em todas essas instâncias as organizações de professo-

res indígenas se fizeram representar, tendo uma participação bastante ativa

No

que tange

à educação

indígena

o MEC

veio

a atuar

mediante

e

colaboradora,

fornecendo

referenciais

críticos

e propositivos

a partir

de

suas experiências culturais específicas.

 
 

Os ventos

da mudança

atingiram

a própria

Funai

no cerne

de suas

atividades, pois os custos e requisitos envolvidos na demarcação de terras

eram muito superiores ao seu orçamento e aos quadros técnicos disponí- veis. Em 1992, como reflexo da Reunião Mundial sobre Meio Ambien- te e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, foram delineadas as

10 Para uma descrição do impacto local dessas atividades e uma análise dos desafios que co-

locavam à estruturação

Tutela

das organizações

indígenas ver Pacheco de Oliveira, Iglesias (2006a).

95

bases do Programa Piloto de Proteção às Florestas Tropicais no Bras que contaria com o apoio de recursos internacionais. O protocolo de tendimento só foi assinado quatro anos mais tarde, em 1996, em gran parte devido às limitações visualizadas pelos técnicos do Banco Mundia. de outras agências de cooperação na capacidade técnica e operacional Funai. Naquela ocasião o órgão indigenista era ainda bastante refratário colaboração de antropólogos e à participação de indígenas em suas ins ~ cias de planejamento e decisão. Ao final foi criada internamente à Funai uma unidade técnica e oper cional voltada para a execução dos trabalhos de demarcação e fiscalizaçã de terras indígenas na região amazônica, o chamado Projeto de Proteçã as Populações e Terras Indígenas na Amazônia Legal (PPTAL). Baseand -se em críticas aos antigos modelos de demarcação existentes (PACHEC DE OLIVEIRA; ALMEIDA, 1998) foi gestada a proposta de uma "demar- cação participativa" que envolveria os próprios indígenas nos trabalhos teria continuidade com atividades de reaviventação de linhas e fiscalizaçã de limites (KRASBURG; GRANKOWICZ, 1999; 2002). Para o acompa- nhamento desses trabalhos a Funai assinou convênios com organizaçõ indígenas, entidades indigenistas e equipes das universidades, a consecuçã da demarcação física ficando em sua maioria à cargo de empresas privadas (mediante processos de licitação) e do Serviço Geográfico do Exército. O resultado foi a identificação, demarcação e regularização de um conjunt de terras indígenas na Amazônia que montou a cerca de 34 milhões de hectares. Combinado com um conjunto bastante heterogêneo dé unidades de conservação, essas demarcações redesenharam o mapa da Amazônia Legal," adequando-o às concepções hegemônicas quanto à busca de um "desenvolvimento sustentável". No âmbito das políticas ambientais ocorreram igualmente sensíveis mudanças. Com base em recursos fornecidos por agências oficiais de co- operação internacional da Alemanha (GTZ e KFW) e Inglaterra (DFID). além de apoios do Banco Mundial e da Comunidade Econômica Europeia, foi criada uma linha de financiamentos a projetos indígenas que compa- tibilizassem o desenvolvimento com a proteção ambiental. Eram proje- tos pilotos, de caráter demonstrativo, de porte pequeno e médio, voltado também para a região amazônica, que integraram programas geridos pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), no qual representantes indígena

11 Segundo dados de 2001, existiam 171 unidades na conservação na Amazônia Legal, to- talizando 64,5 milhões de hectares, dos quais 35,9 milhões estavam sob controle federal (RICARDO; CAPOBIANCO, 2001: 246-250).

96

João Pacheco de Oliveira

passaram a ter presença importante como membros de conselhos consul- tivos e mais tarde na condição de gerentes de programas. Tal experiência sem dúvida inspirou, já em 2005, que outros programas delineados no âmbito do próprio MMA (a chamada Carteira Indígena) e do Ministé- rio do Desenvolvimento Agrário (MDA), no caso o chamado Programa Nacional de Apoio a Agricultura Familiar (PRONAF), e não mais volta- dos unicamente para a Amazônia, viessem a ser implementados dentro da perspectiva de que organismos governamentais, operando em escala nacional, deveriam contribuir para o fortalecimento das organizações e mobilizações indígenas. É importante notar que as novas diretivas constitucionais não produzi- ram efeitos por si mesmas, mas por outros valores e interesses que norte- aram a sua aplicação e que caminhavam na contra corrente do indigenis- mo tutelar preconizado pela Funai. Todos os programas governamentais que contaram com recursos internacionais seguiram a linha de atuação delineada pela Banco Mundial através das diretrizes operacionais Orga- nização Mundial da Saúde (OMS) 2.34, de 1982, e a OD 4.20, de 1991 (PACHECO DE OLIVEIRA, 2006b: 181-199). Tais diretrizes preconizam a consulta prévia e a participação dos indígenas em diferentes etapas do planejamento e execução dessas iniciativas como essencial para o sucesso dos projetos de desenvolvimento. À diferença do multiculturalismo, que toma a preservação da diversida- de como um objetivo último, e que pode assim contribuir para um relativo engessamento das culturas e de suas morfologias sociais, a perspectiva que norteia a cooperação internacional considera a diversidade como um dado imediato que precisa ser levado em consideração, servindo-se dela como um meio para a construção do desenvolvimento que deve ser harmônico com a natureza e com o conjunto de nações. Compreender o capítulo sobre os índios e as consequências de sua implementação no Brasil contemporâ- neo como resultante de uma perspectiva informada pelo multiculturalismo seria um completo equívoco. A grande quantidade de programas voltados para a Amazônia contri- buiu inicialmente para criar um hiato entre as lutas dos indígenas desta e de outras regiões do País," de vez que essas últimas eram pouco favorecidas

12 Isso se refletiu na Primeira Conferência dos Povos Indígenas, realizada em Porto Seguro

durante as comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil. A

marcha realizada pelos indígenas foi duramente reprimida pela Polícia Militar do Estado da Bahia, mas as manifestações posteriores dos indígenas evidenciaram a duplicidade de posições. De um lado os indígenas da região amazônica e os Pataxós (BA) buscando uma ne- gociação com o governo sobre os termos de demarcações de terras e de gestão ambiental; de

(BA), em abril de 2000,

Tutela

97

no aporte de recursos. Paralelamente as demarcações participativas que ocorriam na Amazônia, os conflitos fundiários se agravavam em outras re-

giões sem que houvesse uma presença mais efetiva e eficiente por parte da Funai. No nordeste e no Mato Grosso do Sul, apesar da grande dramatici- dade e repercussão dos enfrentamentos ocorridos, a simples identificação

e delimitação de terras indígenas estava quase totalmente interrompida. No caso do nordeste o processo de identificação de terras não avançava devido a uma atitude de permanente suspeita dos setores técnicos da Fu-

nai quanto à condição de indígena das coletividades que se reivindicavam como tais. Raciocinando em termos das fases de integração dos índios

- isolados, em contato intermitente, em contato permanente e integrados

- categorias incorporadas ao Estatuto do Índio e que contemplavam basi-

camente a experiência de atração e pacificação dos índios de Mato Grosso pela Comissão Rondon, os indigenistas da Funai não conseguiam aceitar como legítimas as reivindicações identitárias dos indígenas do nordeste, que vinham de uma trajetória histórica muito distinta, passando pelos al- deamentos missionários e por uma longa convivência com populações ser- tanejas e quilornbolas.P A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre povos indígenas e tribais veio a ter grande importância no cenário brasileiro, pois permitiu esclarecer dois pontos bastante polêmicos dentro dos debates nacionais sobre os indígenas. O primeiro ponto é relativo à ca-

racterização dessas coletividades como "povos", pois sempre existiu uma

grande preocup:aç-ªo entre m.ilitares e diplomatas

de que tal termo viesse a

abrir espaço para a "balcanização" do País, com a sua fragmentação in-

terna e consequente perda da unidade nacional." O tema está plenamente respondido pelos artigos introdutórios da 169: "A utilização do termo 'po- vos' na presente Convenção não deverá ser interpretado no sentido de ter implicação alguma no que se refere aos direitos que possam ser conferidos

a esse termo no direito internacional".

outro as lideranças da região Nordeste que denunciavam

com o movimento negro e o MST (PACHECO DE OLIVEIRA,

seu abandono e atuaram articuladas

2006a).

13 Em 2001 a Funai chegou a discutir internamente

a fixação de critérios que estabelecessem

de forma clara e insofismável quais "povos indígenas emergentes do nordeste" poderiam ser atendidos em suas demandas fundiárias. Devido à intervenção do MPF e da ABA a proposta não foi adiante, mas manteve-se a atitude de desconfiança em face das reivindicações apre- sentadas pelos indígenas daquela região.

de

Informações (SNI) de que não fosse aceita como entidade legal a União das Nações Indígenas (UNI), precursora das organizações indígenas no País, sob a alegação de que seus objetivos eram incompatíveis com o Estado Nacional.

14 Nessa linha ficou famosa a postura

intransigente

do antigo chefe do Serviço Nacional

98

João Pacheco de Oliveira

o segundo

ponto

é quanto

à própria

definição

do que

é ser índio.

A

Constituição

de 1988 conceitua

o que

são terras

indígenas,

mas não traz

uma definição

de quem

é o indígena.

Para isso é preciso

apelar

para

o

Estatuto

do Índio,

que retoma

uma definição

adotada

pelo Instituto

In-

digenista Interamericano:

"Índio

ou silvícola

é todo indivíduo

de origem

e

ascendência

pré-colombiana

que se identifica

e é identificado

como per-

tencente a um grupo étnico cujas características

culturais

o distinguem

da

sociedade nacional"

tu ação tenha uma aplicação

latino-americanas,

alçada

dos tribunais,

(art. 3°, item I, Lei 6.00111973). Embora

bastante

o contexto

recente

essa concei-

geral, inclusive em muitas legislações

brasileiro,

remetendo

as questões

à

exige maior cuidado.

Em trabalho

de 1991 relativo aos laudos antropológicos

de um grupo

étnico

eu já observava não corres-

que as autoclassificações ondem às classificações

frequentemente

vigentes em populações

vizinhas ou na sociedade

nacional.

É muito comum

que em contextos

regionais

não se reconheça

a

existência

ou presença

de indígenas,

mas apenas

de "caboclos"

ou termos

semelhados,

que visariam

caracterizar

os indígenas

como

"já acultu-

rados" (e "portanto

com uma definição

clara e unívoca, assentada exclusivamente na autoclassificação: indígenas

- -o pessoas que pertencem

Por isso eu formulava, partin-

não mais indígenas").

coletiva,

o de uma definição

e recomendava

operar

a "toda

coletividade

da sociedade

que por suas categorias

nacional,

e se reivindica

- uitos de interação

se distingue

corno indígena"

(PACHECO

DE OLIVEIRA,

1994: 126). É justamente

'e

sso que faz a Convenção

169 em seu art.

2°, após dizer que

classificações

exreriores, procedentes de instâncias legais ou administrativas

não devem

-=<- onsideradas como decisivas: "a consciência de sua identidade indígena

para deterrni-

-

rribal deverá ser considerada

- os grupos _\ Convençã

a

s que se aplicam

, de 20.07.2," )2 passando

-

de 2004. /

-

se mantido

_003

atitude

como critério

as disposições

fundamental

da presente

Convenção".

Legislativo

nacional

do Nordeste

a

perí-

169, de 1989, foi homologada

a integrar-se

pelo Decreto

jurídico

ao corpo

da Funai perante

alterações,

os povos indígenas

com a exceção

S_:ll grandes

em q 'e um presidente

de um curto

da Funai assinou

uma portaria

geral de

_U.il.uI •

imento

••

re ogada por seu sucessor.

Mas tal ponto

de vista, ques-

.'?-',

L

plicitamente

pelo ~PF

e pela grande

maioria

das organizações

••:4.L.~'

a ~ro lemárica a

e o~ o _ ill_

a.Ll-q

indígena

não é adotado

por outras agências

em

in orna mais fina com o movimento as

ue amam

indí-

na área

programas assistenciais com investimentos mais pesados, como é o caso do MS/Funasa e do MEC, suas listas de comunidades beneficiárias foram elaboradas em função de demandas regionais e do próprio movimento in-

dígena, não em decorrência de informações

da Funai. Isso tem sido um ponto de grande relevância para as populações do Nordeste e de outras regiões'! que não contam com terras dernarcadas,

onde a chegada de recursos assistenciais via saúde e educação tem funcio- nado como um fator de extrema importância em suas mobilizações étnicas

ou avaliações que procederiam

e

no fortalecimento

de lideranças

e organizações

indígenas.

 

A partir

de 2006

o sistema

de atendimento

à saúde

indígena

pare

Ç-

ter entrado em uma crise, da qual não deverá sair enquanto não encontra:

modelos

novos de atuação.

Um controle

mais rígido na utilização

de recur-

sos públicos

tem apontado

limites

para pensar

as organizações

indígenas

como unidades executoras

da política

assistencial

de saúde. Ocorrem

r

-

teradas denúncias

sobre irregularidades

na aplicação

das verbas repas

-

das pela Funasa às organizações não governamentais (ONGs) que pres ~

serviços

Ia setores da administração pública que tem uma visão negativa sobre ::

atuação das ONGs e consideram que o Estado, em vez de terceirizar -- atribuições, deve criar meios próprios para a implementação de políti -

públicas. Ainda que tal direção

própria construção dos DSEIs há toda uma preocupação com a montaeezz

de conselhos representativos

decisivo na definição de metas e formas de ação. Um ponto ainda bas - sensível é a questão da incorporação da medicina nativa no atendime::

de saúde propiciado pelos DSEIs. Enquanto avança a medicalização d -- comunidades, inclusive com o treinamento de jovens indígenas, os sa nativos e seus praticantes efetivos continuam a ser um corpo estranho sistema, apesar do uso emblemático do nome "saúde indígena".

um ponto comum

a agência

ao indígena. Os dados do último censo nacional indicam que cerca tade das pessoas que se autodeclaram indígenas no Brasil residem em - urbanas. A opção atualmente adotada pelas administrações estad Funasa tem sido a de dirigir o atendimento de saúde somente as pesscas e

nos Distritos

Sanitários

Especiais Indígenas (DSEIs). Isso estima-

venha a predominar

das comunidades,

não se deve esquecer

os quais deveriam

que -

ter pa~

Nesse quadro

complexo

parece

estar surgindo

de

indigenista

e os órgãos

que tem atuado

na assistência

15 No Mato Grosso do Sul os fazendeiros cujas terras eram reivindicadas ou e posse de indígenas recorriam à Justiça e dela obtinham liminares para retirada dos li--'--~~ ou paralisação dos estudos da Funai.

100

famílias indígenas que estão estabelecidas em áreas rurais." Quanto à Fu- nai, que nunca teve como prioridade atuar junto aos índios urbanos, ado-

tou a clivagem rural/urbano como demarcadora de suas atribuições junto aos indígenas. Atualmente os seus dirigentes já não mais discutem a de- finição de critérios para estabelecimento da identidade indígena. Embora isso não tenha tido até agora repercussões diretas nas demandas fundiárias indígenas, que já se avolumam bem além da capacidade operacional da agência, tem uma consequência positiva, pois a Funai já não mais coloca entraves a que outros organismos de governo atuem favoravelmente junto

a

populações cujas terras não estão ainda identificadas ou demarcadas. É

o

que ocorre por exemplo com o atendimento de saúde (Funasa), com as

escolas indígenas do MEC, com o bolsa-família do MDS e com os pontos de cultura do Mine. Atualmente tais ações tendem a não ser apenas inicia- tivas isoladas de organismos específicos, refletindo um momento novo, no qual se vê tentativas de maior articulação entre os diferentes organismos que atuam junto às populações indígenas. Nos últimos anos há uma tendência crescente no movimento indígena de buscar uma articulação nacional. Os programas resultantes de recursos externos voltados exclusivamente para a Amazônia já não são mais tão

destacados como o foram na década passada. Por outro lado, os diversos programas assistenciais estabelecidos nos últimos anos estão em fase de consolidação, em geral envolvendo as organizações indígenas como parcei- ros destacados. Nesse quadro, a proposta de criação de um Conselho Na- cional de Política Indigenista 17 no qual figurem os principais organismos de governo que atuam junto aos indígenas e no qual os próprios indígenas tivessem uma representação forte e expressiva, parece tornar-se algo bem mais viável. Durante as comemorações do Dia do Índio, em abril de 2008,

a proposta foi afinal aprovada, mas ainda hoje aguarda implementação.

16 É um erro supor que os indígenas que residem em cidades optaram

por viver individual-

mente no meio dos brancos. Existem muitos casos de comunidades e famílias indígenas que habitam em cidades, interagindo fortemente entre si e mantendo fortes conexões com os seus parentes das áreas rurais, dando assim continuidade a formas de sociabilidade e de identifi-

cação que consideram corno próprias.

17 Tal proposta,

de 2002, antes da posse do governo Lula, foi aprimorada em reuniões promovidas pelo mo-

por diversas entidades da sociedade civil ao

Ministério

vimento indígena e pelo Cimi, e encaminhada

que resultou de um encontro

realizado

no Museu Nacional,

em dezembro

da Justiça, em janeiro de 2003.

Tutela

101

o vulto da mudança

Em que a Constituição de 1988 afetou a vida brasileira no que concerne ' populações indígenas? Até 1987 contavam-se nos dedos as organizaçõ indígenas. Em 2000, segundo levantamento realizado pelo ISA eram 18- apenas na região amazônica (ISA, 2002). Mais importante que o cres- cimento em números absolutos é observar o fortalecimento institucion dessas organizações e sua crescente articulação interétnica e inter-regio nal. As políticas assistenciais, hoje conduzidas não mais pela Funai m por um conjunto de ministérios e autarquias (Funasa/MS; diferentes pro-

gramas do MEC, MDA, MMA, Mine, MDS,

hoje um investimento de recursos muitas vezes superior, devendo també

o planejamento e execução dessas políticas vir a pautar-se pelo respeito valorização das culturas indígenas.

entre outros), representa

Uma simples comparação

entre a extensão

de terras

reconhecidas

e

contingente demográfico registrado nos censos nacionais já apontaria uma presença indígena muito mais marcante na nação brasileira do que o foi há 20 anos atrás. Em 1987 as terras indígenas eram estimadas em 74,5 milhõ - de hectares, das quais menos de 10% estavam regularizadas (PACHECO DE OLIVEIRA; RICARDO, 1987), a grande maioria aguardando demar- cação ou simples identificação. Entre 1990 e 2002 as áreas declaradas indí- genas por decretos presidenciais montaram a 66 milhões de hectares, tend sido homologados 72 milhões de hectares. A população indígena que, e 1987, era estimada em 213 mil pela equipe de pesquisa Cedi/Museu Na- cional (PACHECO DE OLIVEIRA, 1987), pelo censo do IBGÉ de 200 chegou a 734 mil pessoas, o que aponta um crescimento muitas vezes maior que a taxa de crescimento da população brasileira. É evidente que tais números não podem ser atribuídos a uma simpl mudança constitucional; devem ser explicados como decorrência de u gama muito complexa de fatores que derivam de diversas escalas e proce- dências. Entre outros, devem ser mencionados alguns fatores: a identifica- ção dos povos indígenas como mantenedores do equilíbrio ecológico d planeta; as novas diretivas internacionais quanto à administração, enfa =- zando a participação organizada dos cidadãos no planejamento e nas de- cisões relativas a políticas públicas; as convenções internacionais relativas aos direitos dos povos indígenas; a crescente valorização de identidades = patrimônios culturais tanto no âmbito de prioridades do governo brasilei- ro quanto pelas tendências atuais em um mundo globalizado. Um pressuposto a ser questionado é estarmos tratando de um aspe menor e setorizado na vida brasileira que atinge apenas 0,04% da popula-

102

ção do País. Hoje as terras indígenas representam cerca de 18% da Ama- zônia Legal e dentro de uma política ambiental desenvolvida pelo governo brasileiro com apoio de diversos organismos internacionais e multilaterais muitas são computadas como unidades de conservação. A exploração de recursos hídricos e minerais existentes nas terras indígenas e em áreas li- mítrofes é de certo um ponto crucial na definição de programas e políticas para os indígenas. A passagem de linhas de transmissão de energia, gaso- dutos, estradas de ferro e rodovias por terras indígenas é assunto dispu- tado e complexo, que envolve amplas negociações. O encaminhamento de soluções para cada uma dessas questões deve ser feito atualmente com a participação das organizações indígenas, do Ministério Público Federal, dos governos federal, estadual e municipal, dos organismos nacionais de defesa e segurança, da iniciativa privada e das organizações não gover- namentais. Igualmente não se pode transformar a questão indígena em um problema puramente amazônico, uma vez que se registram conflitos fundiários e grandes mobilizações em outras regiões do País. É o caso dos Guaranis e Terenas no Mato Grosso do Sul; dos Xucurus e Fulniôs em Pernambuco; dos Tuxás, Trukás e Tumbalalás no sertão do São Francisco; dos Pataxós e Tupinambás no sul da Bahia; e de coletividades diversas no Ceará e em Minas Gerais. Enfim, definitivamente, não é pelo indicador demográfico que pode- mos aferir a importância jurídica e social da temática indígena, mas pelos desafios que colocou e coloca aos processos de formação de Estado e à construção de uma identidade nacional. É assim que tal temática tem sido uma das mais constantes chaves para a compreensão do País e a definição de seus rumos. Para se apreender a contribuição específica dos dispositivos constitucionais relativos aos indígenas na configuração atual do país há que operar com uma história de mais longa duração, e não apenas circuns- crever-se aos 20 anos que nos separam dessa última carta.

Uma interpretação

de longa duração

fundação de uma colônia portuguesa na América Meridional não im-

plicou no extermínio da população autóctone, e sim na sua sujeição, com

a aceitação do cristianismo (representado no batismo) e a jura de obe-

diência a EI Rey. Os indígenas eram importantes enquanto súditos, mas obretudo enquanto mão de obra disponível nas aldeias missionárias para

o fortalecimento e expansão do núcleo colonial. Aqueles que insistiam na manutenção de sua autonomia política e colocavam em prática costumes ontrastantes com o catolicismo deveriam ser rigorosamente combatidos e

103

castigados, de maneira a virem a aceitar o batismo e o aldeame concorria para a reprodução das desigualdades entre portuguese e - que funcionavam na realidade como senhores e escravos. Os meios

dos e a sua justificativa remetiam a mecanismos supostamente

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uma sociedade homogênea

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dem ser comparadas às guerras do século XIX, durante o auge são colonial, pois ambas se fundamentam no argumento da Ill1SS;::.~ lizadora do europeu. Além das diferenças na tecnologia bélica e :-

consequências econômicas, há um acentuado contraste entre de ~-

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humanidade para Deus, e de outro as posturas racializantes

ficismo evolucionista, característico do século XIX. À medida nua a inspiração religiosa na conquista de povos pagãos, paralelamecre] mecanismos de superação da diferença e da desigualdade tom velozes e eficientes; e a incorporação de populações não ocid

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Sigo nessa parte os delineamentos

sugeridos em dois trabalhos

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na fundação

da Colônia:

uma

abordagem

crítica

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e a Conferência inritulada: Caramuru,

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publicado

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o em PACHECO DE OLIVEIRA,

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Como haviam feito no passado,

os missionários

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congênita.

de Satã ou como resultado

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104

castigados, de maneira a virem a aceitar o batismo e o aldeamento. Tudo concorria para a reprodução das desigualdades entre portugueses e índios, que funcionavam na realidade como senhores e escravos. Os meios utiliza- dos e a sua justificativa remetiam a mecanismos supostamente pedagógicos (a catequese, os descimentos e a guerra justa) que visavam a construção de uma sociedade homogênea e unificada em termos religiosos e políticos." As guerras de conquista para formação da colônia no século XVI po- dem ser comparadas às guerras do século XIX, durante o auge da expan- são colonial, pois ambas se fundamentam no argumento da missão civi- lizadora do europeu. Além das diferenças na tecnologia bélica e em suas consequências econômicas, há um acentuado contraste entre, de um lado,

o fundamentalismo religioso do século XVI que pretendia conquistar a

humanidade para Deus, e de outro as posturas

ficismo evolucionista, característico do século XIX. À medida que a se ate-

nua a inspiração religiosa na conquista de povos pagãos, paralelamente, os mecanismos de superação da diferença e da desigualdade tornam-se menos velozes e eficientes; e a incorporação de populações não ocidentais passa

a ser pensada em termos mais gerais de nível civilizatório, frequentemente

associado a fatores raciais. A Constituição de 1988 efetuou uma reviravolta completa quanto à tendência de buscar a integração de populações pagãs exclusivamente a partir de mecanismos de homogeneização e anulação das diferenças cul- turais. Pela primeira vez os indígenas foram reconhecidos enquanto porta- dores de culturas distintas (daquelas do ocidente, e entre si), que deveriam ser respeitadas como parte do patrimônio cultural do País. As ações que os membros dessas culturas executam movidos por suas crenças e costumes

não podem ser consideradas como desprovidas de sentido, nem estigma- tizadas enquanto símbolos de atraso. As tentativas de criminalizá-las," passaram a ser vistas como infrações legais, passíveis de enquadramento como abuso, menosprezo ou mesmo racismo. Em todos os quadros jurídicos anteriores da vida brasileira a existência da diferença cultural era vista como um obstáculo a ser removido, nun- ca tendo estado em cogitação a possibilidade de aceitá-Ia enquanto um

racializantes e de um cienti-

18 Sigo nessa parte

os delineamentos

sugeridos

em dois trabalhos

anteriores:

Os indígenas

na fundação da Colônia: uma abordagem crítica

e a Conferência intitulada:

historiográfico (posteriormente

os índios

(PACHECO

e

Brasil:

o

DE OLIVEIRA,

revisão

2009).

um

Caramuru,

publicado

de

em PACHECO

DE OLIVEIRA,

no prelo)

paradigma

19 Como haviam

feito no passado,

os missionários

consideravam

as religiões

dos indígenas

como manifestações

de Satã ou como resultado

de deformações

morais,

ou de perversidade

congênita.

João Pacheco de Oliveira

componente legítimo do ordenamento jurídico e social. A intolerância em face de outros modos de vida e a imposição da religião cristã eram instru-

mentos essenciais de organização social, sem os quais a sociedade colonial

e depois o Brasil Império não poderiam funcionar, nem alcançar o nível

desejado de integração social. Se a colônia deve incluir também a popula-

ção autóctone como uma sua parte orgânica e constitutiva, a convivência dos europeus com as culturas desses povos precisava ser algo temporário e rigorosamente regrado." A diferença só podia ser tolerada enquanto fenô- meno passageiro, processo de assimilação unilinear e unívoco, que devia

ser narrado e compreendido

Aqui tocamos no ponto central, a questão da tutela. Para que a assi- milação ocorra há necessidade de um agente que, em primeiro lugar, se

encarregue ativamente de dirigi-Ia, exercendo um controle sobre os que

estão referidos a outras crenças e costurnes

nos moldes de uma iniciação religiosa.

e

em segundo lugar que passe

a intermediar em caráter permanente as relações dos europeus com os

autóctones. Em termos de controle e mediação sobre os indígenas o Brasil irá conhecer três regimes de tutela: a tutela pelos missionários, por parti-

culares e, no período republicano pelo Estado. Se a colonização portuguesa na América foi pensada como uma obra de Deus, é possível compreender o papel privilegiado dos religiosos, muito embora a possibilidade de tutelar os indígenas fosse continuamente dis- putada pelos moradores. A proposta pombalina de libertação dos indíge- nas do controle dos missionários conduziu os autóctones a submeterem-se ao regime da administração privada e secular pelos diretores, que deles serviram-se como força de trabalho. Apesar das intenções de Pombal de engendrar um povo mestiço, o Diretório não resultou nem em crescimento econômico nem em novidades do ponto de vida administrativo (além da secularização). No século XIX, durante o período do Império, a políti- ca indigenista seguiu as linhas formuladas por José Bonifácio de Andra- de e Silva.ê! O chamado Patriarca da Independência propunha recuperar os métodos dos jesuítas, com duas importantes diferenças. Primeiro, não mais admitia a instituição das chamadas "guerras justas", insistindo nos

20 A continuidade de crenças ou costumes indígenas que manifestamente violassem os ensi-

namentos católicos era vista como rebeldia e a participação de portugueses qualificada como traição. O recurso à instituição da Inquisição no Brasil, quando seu uso já estava declinante, indicava claramente, além do antissemitismo, o desejo de impor uma relativa unidade à di-

versidade de crenças religiosas e de experiências de hibridização cultural.

21 ANDRADE

para a Civilização dos Índios Bravos

do Império do Brazil. In: Legislação (org.). São Paulo: Comissão Pró-Índio

E SILVA, José Bonifácio. Apontamentos

Indigenista

no Século XIX.

Manuela Carneiro da Cunha

de São Paulo; EDUSP, 1992. (pp. 347-360).

Tutela

105

procedimentos "brandos e suassórios". Segundo, recomendava que os mis- sionários (papel preenchido pelos capuchinhos, não mais pelos jesuítas) agissem de maneira complementar e solidária com os colonos e as autori- dades locais, sem pretender o controle exclusivo sobre os indígenas, como tinham feito no passado os jesuítas. Em sua matriz institucional o indigenismo republicano não era deri- vado das ideias do Apostolado Positivista, mas sim da linha programática do Ministério de Agricultura, Indústria e Comércio (MAIC), definida em 1906, na qual a sedentarização dos indígenas fazia parte de um conjunto de medidas tendentes a disponibilizar a presença de trabalhadores nacio- nais (e não de colonos europeus) em áreas de acesso mais remoto e de de- senvolvimento econômico ainda limitado. Foi por isso que inicialmente o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) foi chamado Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN). Aos poucos o sertanismo de Rondon foi adquirindo novos lineamentos, aproximando-se mais dos antigos métodos dos jesuítas que buscavam isolar os indígenas e estabelecer um forte controle sobre as suas atividades e seu modo de vida, sem no entanto pretender produzir sua integração econômica e cultural (o que fora a intenção das ações missionárias no século XVI, do Diretório Pomba lino e das reformas preconizadas por José Bonifácio e pelo Regula- mento das Missões de 1845). Para concluir essa breve recuperação de cinco séculos de história é ne- cessária uma formulação sintética e de intenção heurística. Para o Estado brasileiro só é possível a coexistência de culturas dentro de uma unidade social e política quando imaginada como fato passageiro e controlado, um resultado imediato da guerra de conquista ou de suas reverberações posteriores. É a localização de uma pessoa de um lado ou do outro dessa clivagem cultural que irá desde o início definir a sua condição de educador ou aprendiz, de superior ou subalterno, em suma de tutor ou tutelado. Mesmo em momentos posteriores, uma vez já superada essa diferença, que de início é exacerbada e explícita, manifestações mais sutis de crenças ou costumes heterodoxos tem sido continuamente usadas como operadores de estratificação social. Ao considerar as culturas indígenas como parte da nação brasileira a Constituição de 1988 aboliu a tutela, introduzindo algo absolutamente novo nas relações entre os indígenas e os demais cidadãos brasileiros.

106

João Pacheco de Oliveira

Mais além dos indígenas, um novo desenho de Brasil

Como conclusão convém ampliar o entendimento

até aqui restrito aos etnólogos e a um segmento da antropologia e da his-

da abolicção

da tutela

tória do indigenismo

feitas em outras

para dialogar

com algumas

disciplinas,

como a ciência política

interpretações

do Brasil

e a história.

Francisco

Weffort

em um texto de grande

acuidade

formula

que a "pe-

uliaridade

fundamental

do pensamento

luso-brasileiro"

é que

"seu tema

primordial

não vem do rompimento

de modos

antigos

de poder,

como na

Europa, mas do contato dos europeus com culturas e povos que desconhe-

iam".

Ou seja, "a indagação

a primeira

disso

sobre a humanidade

conquista-

brasileiro" (WEFFORT,

dos povos

dos constituirá

006:

raiz desse pensamento

são claramente

324). As razões

enunciadas

por Weffort.

O

moderno pensamento político surgiu na Europa do renascimento, para-

lelamente

nos fenômenos da secularização

do Estado Nacional, focalizando sua atenção

ao aparecimento

do poder,

necessários

à implantação

do

apitalismo.

Daí derivou

um saber específico,

voltado

para propor

um re-

ordenamento

jurídico

e administrativo

desses países, separando o Estado

da figura do monarca e distinguindo o político do social. Ao contrário

terá como

um traço distintivo manter uma preeminência de questões sociais, não

dissociando-se

religioso. A instauração da ordem e a reprodução das desigualdades não

resultava

bastante contradi- que esse País tivesse

que crescer sobre as misérias dos índios, dos negros, dos mestiços e ma-

nas colônias

ibéricas

no Novo

Mundo

o pensamento

político

de uma perspectiva

de 'um exercício

de consciência

e Vieira,

ética e de um profundo

calculado

embasamento

apenas

e lógico, mas estava marcada

ar grandes

conflitos

e por sentimentos

órios. "Desde

Nóbrega

sempre se lamentou

melucos que proliferavam

em todo

o território".

Em decorrência

disso

o

tema dos judeus foi dominante

na passagem

do século XV para

o XVI,

o

dos índios nos séculos

XVI a XVIII,

o dos negros

no século XIX,

o dos

obres e a questão

da desigualdade

já na primeira

metade

do século XX

'WEFFORT,

2006:

328-330).

 

Retomemos

o argumento

desenvolvido

no item anterior,

baseado

em

uma perspectiva

de longa duração.

Ao longo da história

as estruturas

po-

Iíticas delineadas

pelas elites dirigentes

do Brasil sempre

tiveram

algo em

omum - a necessidade

de lidar com grandes

diferenças

entre

ditos em termos

de costumes,

níveis tecnológicos,

características

si e seus sú- raciais e

obretudo no domínio religioso. A arte ou ciência da política não consistia

em reformar práticas e instituições

de uma sociedade

já de algum

modo

existente e precedente,

mas de produzir

a incorporação

de pessoas

e gru-

107

pos que lhe eram exteriores (como as populações autóctones e os negros escravizados trazidos da África), ou que foram pensadas enquanto tais

(como os mamelucos, mulatos, caboclos). Estava-se diante de segmentos da população que, em seu cotidiano, agiam e raciocinavam de forma con- trastante com os cânones ocidentais em geral e da Igreja em particular.

da de-

sigualdade entre diferentes segmentos da população. Tratava-se, ao contrá- rio, de engendrar uma intervenção tutelar que, através de procedimentos disciplinadores, viesse a hierarquizar e organizar as diferenças culturais

e religiosas

elites dirigentes e o povo sempre foram pensadas como o exercício de uma

missão civilizadora, pautadas ologia os que em um primeiro

fora dos

Nessa ide-

as

A construção

da ordem política

nunca correspondeu

à supressão

encontradas

no conjunto

da população.

As relações

entre

'que estavam

momento

no modelo colonial.

eram diferentes

e estavam

limites da sociedade vigente, eram incorporados pela via da desigualdade.

No horizonte havia porém um terceiro momento, virtual

o subalterno

via da homogeneização.

e ascender

e futuro,

no qual

pela

poderia

deixar

de ser diferente

socialmente

As populações

indígenas,

por sua origem autóctone e por serem antes

inteiramente ignoradas pelos europeus, foram tomadas como casos extre- mos de tais diferenças e transformadas em seus verdadeiros ícones. As di- ferenças raciais, tão destacadas no evolucionismo do século XIX, foram, ainda nos primórdios da história brasileira, reinscritas em outros moldes,

incorporando-se às diferenças culturais e religiosas registradas entre euro- peus e autóctones. O tutor, católico e civilizado, supostamente europeizado,

e o tutelado, índio, negro ou notoriamente mestiço, presumidamente primi-

tivo e selvagem, foram os componentes essenciais da sociedade brasileira.

O abandono de uma perspectiva civilizatória na Constituição de 1988

implica em que a estruturação da ordem jurídica e administrativa não pos- sa mais fazer-se baseada na absoluta supremacia das tradições ocidentais.

Isso abre um espaço importantíssimo para a valorização e fortalecimento das culturas indígenas. Mas o seu impacto não se esgota aí, estendendo-se

igualmente à multiplicidade de saberes dominados, reafirmando sua im- portância cognitiva, afetiva, estética, terapêutica, histórica e identitária. É

o sinal verde para outras práticas e ortodoxias religiosas, para uma ampla recuperação de memórias reprimidas ou esquecidas, para a valorização das culturas indígenas, afrodescendentes e regionais.

Cabe notar que a dimensão

fundiária

desempenha

um papel crucial nas

aplicações em que os procedimentos relativos à questão indígena apresen- tam importantes repercussões em outras áreas da administração. A cate-

108

João Pacheco de Oliveira

goria de "terras tradicionalmente ocupadas", definida na Constituição de 1988, não foi apenas decisiva para embasar os processos de identificação de terras indígenas. A sua aplicação ocorre também em políticas públicas relativas a outros segmentos da população brasileira, como as "comunida- des remanescentes de quilombos" (que hoje se estima em aproximadamen- te 4 mil por todo o País) e as chamada "comunidades tradicionais" (muito numerosas na região amazônica). Em um trabalho extraordinariamente sugestivo José Murilo de Carva- lho, com olhos de historiador, nos indica que ao longo do Império e duran- te toda a República Velha elites políticas e intelectuais construíram pelo menos três imagens da nação. Em cada uma delas o que Murilo de Carva- lho denomina "povo" estabelecia uma relação particular com as elites: na

primeira o povo estava ausente, na segunda o povo foi um fator negativo, na terceira foi objeto de uma estratégia paternalista (CARVALHO, 1999). Essa análise nos possibilita avançar na argumentação aqui apresenta- da. Em princípio não haveria qualquer razão que impedisse que a retórica do multiculturalismo viesse a substituir a perspectiva civilizadora, cami- nhando para um desenho no qual a diversidade ficasse engessada e se ins- talasse comodamente dentro das práticas do paternalismo. É interessante observar, no entanto, que as mudanças deflagradas não cabem de modo algum na doutrina e na retórica de multiculturalismo. Essa hipótese foi excluída pelos rumos que a aplicação das recomendações constitucionais

foi assumindo

exercem forte crítica contra a exotização de suas crenças e costumes, evi- tando que suas tradições pretéritas possam ser artificialmente congeladas, ficando impermeáveis às necessárias adaptações e mudanças. A separação entre o que deve (ou não) ser incorporado, sobre as inova- ções e recriações, não cabe mais às autoridades oficiais nem aos especia- listas (antropólogos, indigenistas, ONGs), e sim às próprias coletividades, suas lideranças e intelectuais orgânicos. Já não são aceitos critérios que venham a colocar os indígenas em condições de subordinação em face dos processos decisórios. Tudo isso aponta para formas novas de realização da cidadania, nas quais o, voltando a José Murilo de Carvalho, o paternalis- mo não tenha mais lugar. A partir da implementação da nova Constituição os confrontos decorrem da dificuldade da sociedade em despojar-se de uma tal imagem que tem atrás de si uma longa história e ainda pode, de forma anacrônica, servir a perspectivas tutelares de alguns grupos sociais.

nas últimas décadas. As lideranças e intelectuais indígenas

Tutela

109

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Tutela

111

castigados, de maneira a virem a aceitar o batismo e o aldeamento. T concorria para a reprodução das desigualdades entre portugueses e índi que funcionavam na realidade como senhores e escravos. Os meios uti .

dos e a sua justificativa remetiam a mecanismos supostamente pedagógi (a catequese, os descimentos e a guerra justa) que visavam a construção uma sociedade homogênea e unificada em termos religiosos e políticos:

As guerras de conquista para formação da colônia no século XVI dem ser comparadas às guerras do século XIX, durante o auge da expa são colonial, pois ambas se fundamentam no argumento da missão ci lizadora do europeu. Além das diferenças na tecnologia bélica e em s consequências econômicas, há um acentuado contraste entre, de um lad

o fundamentalismo religioso do século XVI que pretendia conquistar

humanidade para Deus, e de outro as posturas

ficismo evolucionista, característico do século XIX. À medida que a se a nua a inspiração religiosa na conquista de povos pagãos, paralelamente, mecanismos de superação da diferença e da desigualdade tornam-se men velozes e eficientes; e a incorporação de populações não ocidentais pas

a ser pensada em termos mais gerais de nível civilizatório, frequentemen

associado a fatores raciais. A Constituição de 1988 efetuou uma reviravolta completa quanto tendência de buscar a integração de populações pagãs exclusivamente partir de mecanismos de homogeneização e anulação das diferenças CLL- turais. Pela primeira vez os indígenas foram reconhecidos enquanto porta- dores de culturas distintas (daquelas do ocidente, e entre si), que deveria ser respeitadas como parte do patrimônio cultural do País. As ações que 0- membros dessas culturas executam movidos por suas crenças e costume

não podem ser consideradas como desprovidas de sentido, nem estigma- tizadas enquanto símbolos de atraso. As tentativas de criminalizá-las," passaram a ser vistas como infrações legais, passíveis de enquadramento como abuso, menosprezo ou mesmo racismo. Em todos os quadros jurídicos anteriores da vida brasileira a existência da diferença cultural era vista como um obstáculo a ser removido, nun- ca tendo estado em cogitação a possibilidade de aceitá-Ia enquanto um

racializantes e de um cien

18

Sigo nessa parte os delineamentos sugeridos em dois trabalhos anteriores: Os indígenas

na

fundação

da

Colônia:

uma

abordagem

crítica

(PACHECO

DE OLIVEIRA,

no prelo

e a Conferência intitulada: Caramuru, os índios

bistoriográfico

19 Como haviam feito no passado, os missionários

e o

Brasil:

revisão

de

um

paradigm

(posteriormente

publicado em PACHECO DE OLIVEIRA, 2009).

consideravam

as religiões dos indígenas

como manifestações

de Satã ou como resultado de deformações morais, ou de perversidade

congênita.

104

João Pacheco de Oliveira