Вы находитесь на странице: 1из 2

Júlia Azzi

Pontos fundamentais sobre a memória

1) As visões que temos do passado são construções, pois a recordação é uma força que
renova. Seu caráter é de reconstrução, por isso o rememorar carrega sempre uma dimensão
criadora. Sempre vai haver um elemento da ordem do imaginário em tudo aquilo que
recordamos, pois vamos criando novas interpretações, dando maior ou menor peso para
determinadas lembranças, no exercício de recriar a noção de quem somos.

2) A memória precisa ser narrativa, ou seja, sem o relato, mesmo que em fluxo de
pensamento, não há como ela se manifestar plenamente. Só temos memória a partir do
primeiro momento em que temos linguagem, o que se relaciona com as ideias de
Benveniste nas quais o “eu” se constrói pela linguagem. Só a partir da narrativa de quem
somos podemos propriamente recordar.

3) A recordação envolve o elemento da subjetividade, pois a memória é trazida à tona em


associação a experiências pessoais. Isto é, a recordação existe enquanto potência, podendo
ser acionada, bem como esquecida, seguindo o rumo subjetivo daquele que recorda. Não
se trata da ideia de um reservatório, mas de uma energia que flui ao longo da experiência.

4) Se pensamos a memória enquanto armazenamento, o tempo não é um elemento


estruturador do processo, tendo em vista que se trata de uma luta contra o tempo, o qual
traz o esquecimento. Ao armazenar algo, isso deveria ser recuperado com exatidão,
mesmo que um grande período tivesse se passado. Já ao pensar a memória enquanto
recordação, a dimensão do tempo importa, visto que o tempo muda o modo como se
recorda determinado acontecimento, além de que esse tipo de memória está ligada
intimamente ao tempo de vida do indivíduo.

5) A fama é uma forma de memória baseada na glória. Ela é coletiva e em certo sentido mais
profana que outras formas de preservação do passado, como o culto aos mortos. Para que
haja a fama é preciso de três elementos: grandes feitos, documentação e rememoração.
Todos esses aspectos privilegiaram o masculino como detentor da fama ao longo da
história. A memória que persiste em uma sociedade é aquela que se baseia no que a
sociedade preza, em seus valores; a fama na maioria das vezes será de quem se relacionar
com esses valores.

6) Nós nos definimos a partir daquilo que lembramos e esquecemos. Reordenamos


continuamente a nossa identidade a partir de nossas lembranças, pois nós a construímos na
medida em que nos relatamos. Isso acontece porque nossas recordações são pouco
confiáveis e o esquecimento muitas vezes nos protege. Selecionamos algumas lembranças
na busca por certa coerência biográfica.
7) Essa noção também é importante para pensar a consciência coletiva de um povo, pois
aquilo que recordamos e aquilo que esquecemos juntos é o que cria essa consciência. A
identidade de uma nação depende da narrativa que vai se construindo coletivamente, a
qual valoriza uns acontecimentos e ignora outros.

8) Podemos pensar a narração como a superação de um conflito. Mesmo que esse conflito
deixe marcas que nunca se curem, só é possível narrar após estar em condições
razoavelmente seguras para isso. Só narra aquele que sobreviveu e que está em condições
para tanto. A voz das vítimas não é ouvida, apenas retomada pela voz do sobrevivente.

9) Existe a recordação instantânea, que pressupõe uma evocação imediata, involuntária. E há


a recordação laboriosa. Esta é constituída pelo processo de anamnese, que é uma ação, a
busca ativa por uma memória, um esforço de rememoração. Pressupõe uma movimentação
do sujeito e é um processo ativo. Na psicologia, é a partir da anamnese que se entra no
processo de cura.

10) A memória é singular, mas as lembranças são plurais. O acontecimento é um só, mas após
acontecer, não temos mais um acesso direto a ele. O acesso é dado a partir de nossas
lembranças e elas são múltiplas, diferenciam-se em detalhes a cada vez que se revê
determinado fato. Nunca se recorda o mesmo fato duas vezes.