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Escola, a luta de classes recuperada6

Christian Baudelot
Roger Establet

Antes da publicação de Os Herdeiros, em sindicatos reclamavam por melhores condi-


1964, a educação e suas questões não cons- ções materiais (“papéis, borrachas, lápis...”)
tituíam, na França, nem um problema so- e bolsas para que a escola assegurasse ple-
cial, nem um objeto científico. A fundação namente sua missão republicana.
e o estabelecimento da escola laica, gratuita Do lado científico, a educação e a escola
e obrigatória havia desempenhado um pa- eram, no início dos anos 1960, objetos so-
pel tão decisivo na fundação da República, ciologicamente pouco legítimos. À exceção
no final do século XIX e início do XX, que dos trabalhos pioneiros de Viviane Isam-
todos acreditavam que a distância entre os bert-Jamati, que questionavam a escola a
valores de progresso inscritos no âmbito de partir de uma problemática durkheimiana
cada estabelecimento escolar e a realidade dos saberes e conteúdos, a escola permane-
era tênue. A escola era, em si, portadora da cia um assunto de pedagogos e psicólogos.
liberdade, igualdade e fraternidade. Liber- A sociologia, à época, interessava-se por
tadora, ela contribuía para a emancipação objetos mais “nobres”: o trabalho (Georges
moral e intelectual dos indivíduos e para a Friedman, Pierre Naville, Alain Touraine), a
promoção social dos estudantes mais dedi- burocracia e as organizações (Michel Cro-
cados, independentemente da sua origem. O zier), a religião (Gabriel Lebras, François
imaginário republicano fervilhava de exem- Isambert), a cidade (Henri Lefebvre), os la-
plos de mobilidade social em três gerações: zeres (Joffre Dumazedier) e os camponeses
avós camponeses, pais professores de vi- (Henri Mendras). Este grau zero na escala
larejos e filho grande intelectual (escritor de valores se desdobrava numa grande mi-
sobretudo), executivo ou até mesmo presi- séria empírica.
dente da República. Foi o caso de Georges Desde o fim do século XIX não existia
Pompidou, educado numa pequena cidade nenhuma grande pesquisa que permitisse
da região do Cantal pelos pais, professores, ter uma ideia do estado e do grau de demo-
e pelos avós, camponeses. Se a mobilida- cratização do sistema escolar de nosso país.
de não era perfeita, era por falta de meios Somente a partir de 1962 foi realizada, pelo
quantitativos: as organizações políticas e INED,7 uma pesquisa longitudinal, conduzi-

6. BAUDELOT, C.; ESTABLET, R. École, la lutte de classe retrouvée. In: PINTO, L.; SAPIRO, G.; CHAMPAG-
NE, P. (Dir.). Pierre Bourdieu: sociologue. Paris: Fayard, 2004. p. 187 - 209. Tradução de Mariana Barreto.
7. Institut National d’Études Démographiques. (N. da T.)

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da por Alain Girard e Roger Bastide, levando Desigualdades escolares,
em conta os percursos escolares de uma vas- desigualdades sociais
ta amostra de alunos que haviam entrado na
sexta série naquele ano. Esta enquete teve o A partir das estatísticas do INED, criou-
grande mérito de abrir uma nova era para a se condições para outra descoberta consi-
análise sociológica da realidade escolar e das derável referente a esta primeira etapa das
reais funções sociais que ela exercia em nosso desigualdades sociais diante da escola, da
país. Ela fornecia, primeiramente, a todos que qual Bourdieu e Passeron tiraram imedia-
queriam estudar o papel da escola na socie- tamente algumas lições. Contrariamente
dade, um banco de dados nacionais de alta àquilo que se acreditava na época, estas
qualidade. Um mesmo grupo de alunos era desigualdades sociais, diante da escola,
seguido a cada ano, ao longo de seu percur- não se explicam pelas diferenças de renda
so escolar, em seus sucessos e fracassos. Os entre as famílias, mas por diferenças nos
processos de orientação e relegação, as eta- níveis de instrução. A teoria da autonomia
pas decisivas, eram identificados. Graças às do capital cultural foi, em grande parte,
tabelas de escolaridade cruzando sistematica- sugerida a Bourdieu e Passeron por dois
mente variáveis de base (idade, sexo, profis- pequenos quadros estatísticos, elaborados
são dos pais, renda...) com comportamentos por Clerc,8 cruzando, no primeiro, o acom-
escolares como a reprovação, a recuperação panhamento familiar das tarefas escolares
dos estudos, o sucesso escolar e os mecanis- da criança em casa, seu sucesso escolar e
mos de orientação; uma das funções da esco- o diploma dos pais e, no segundo, o suces-
la aparecia claramente. A trajetória escolar de so escolar, a renda mensal dos pais e seus
um grupo representativo de alunos asseme- níveis de instrução. As conclusões são, nos
lhava-se a um processo de seleção e elimi- dois casos, sem qualquer ambiguidade:
nação sociais. Minoritário no início, o peso não existe vínculo entre a frequência de
relativo das crianças de classes sociais mais intervenção dos pais e o nível de sucesso.
favorecidas não cessava de crescer, ao longo Não é o fato de intervir na vida escolar
do tempo, em detrimento daquele dos filhos da criança que causa seu bom desempenho
das classes populares: operários, assalariados escolar, mas antes a maneira e a qualidade
ou camponeses. Tratava-se de um fenômeno da intervenção, que pode ir de um sim-
de grande amplitude, visto que, a partir do ples controle disciplinar a um verdadei-
sexto ano - primeiro ano do ciclo secundário ro precetorado. Por outro lado, diplomas
-, 76% dos filhos de executivos estavam na iguais, ou a renda, não exercem nenhu-
série correta ou adiantados, enquanto 64% ma influência sobre o sucesso escolar da
dos filhos de operários já acusavam um re- criança. O que leva Clerc a formular, pela
tardo. Este processo massivo de eliminação primeira vez, em 1964, antes de Bourdieu
contínua das crianças oriundas das classes e Passeron, um dos princípios da teoria da
populares acomodava-se mal a uma ideolo- autonomia do capital cultural: “A ação do
gia do dom ou do simples mérito, explicação meio familiar sobre o sucesso escolar pa-
dominante na época. rece quase exclusivamente cultural.”

8. CLERC, P. La famille et l’orientation scolaire au niveau de la sixième: pesquisa de junho de 1963 na


região parisiense. Population, 1964.

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A criação conceitual de Bourdieu e Pas- muito justo - cultural -, para precisar a ação
seron é, portanto, bem real. A descrição por do diploma.
Descartes do reflexo da pálpebra não foi Entretanto, o conceito de “capital cul-
feita pelo inventor do conceito de reflexo. tural” vai bem além: ele não designa uma
Embora os méritos do INED e de Clerc se- relação, mas um conjunto de relações que
jam, neste caso, bem maiores que aqueles podemos descrever sobre a base de traba-
de Descartes quanto ao reflexo; não há a lhos precisos: a sociologia escolar dos anos
simples descrição de um fenômeno, mas a 1960 mostrou sobre quais bases desiguais
construção racional de uma fenomenolo- e hereditárias se constituíam essas formas
gia estatística essencial (amostras nacionais tão diferentes de socialização. Podemos re-
bem construídas, estudos longitudinais), a cuperar, por meio de um esquema, as gran-
atualização de uma relação pertinente entre des pesquisas que descreveram o ciclo de
duas variáveis e a proposição de um termo transmissão do patrimônio cultural.

Nível de instrução O Amor à Arte, 1966 Acesso às obras culturais

Os Herdeiros, 1964, Le Choix du Conjoint, 1964


Amostras da Pesquisa INED 1962

Capital cultural familiar Le Partage des Bénéfices, 1966 Formação de casais

A sociologia da escola se situa como os alunos mais favorecidos. Mas trata-se


um momento no círculo da reprodução. Ela de um capital cultural, distinto do capital
não pode mais aparecer como um ponto material. Os trabalhos de sociologia da cul-
de partida de todos os universos culturais tura mostram a eficácia preponderante e,
em expansão; ela se situa, ao contrário, no por vezes, exclusiva da instrução adquirida
centro de um processo, onde os pontos de pelo acesso às obras de arte e, mais geral-
partida e de chegada coincidem. Tal pai, mente, sobre os consumos culturais. Assim,
tal filho. O círculo infernal aqui desenhado o círculo da reprodução fica bem fechado.
assemelha-se ao círculo de acumulação do Além disso, a sociologia da educação
capital material, que conduz sempre ao seu sugere que existem similitudes fortes no
início, sem se reduzir a ele, portanto. conteúdo das relações que conduzem da
Estamos na presença de um patrimônio, escola à cultura, da cultura à formação de
visto que a escola consagra e transmite he- casais, e do capital cultural familiar ao su-
rança familiar, e de um capital, visto que cesso escolar. As coisas acontecem aqui de
constatamos, de uma geração à outra, uma forma implícita: não perguntamos sobre di-
acumulação de desigualdades, a escola di- plomas às futuras esposas, não pedimos aos
rigindo seus investimentos mais fortes para visitantes de museus seus títulos escolares,

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os professores dirigem-se, em princípio, a futuro da fecundidade diferencial das mu-
todas as crianças numa mesma linguagem. lheres, de acordo com a categoria social.
Tudo é codificado, desigualmente transmi- Este modo de cálculo (a taxa de acesso)
tido, mas universalmente exigido para asse- que se impõem hoje como um “dado na-
gurar a legitimidade de seu comportamen- tural”, relativamente fácil de obter, graças
to enquanto aluno, de conhecedor de arte, aos dados do recenseamento, que permitem
ou de cônjuge em potencial. Os sociólogos conhecer o número exato de crianças em
franceses retomaram, de Basil Bernstein, o idade de ascender à universidade, por ca-
fecundo conceito de “pedagogia invisível”9, tegoria social, era uma novidade radical e
e revelaram os traços do arbitrário cultural, produto de um comportamento intelectual
em todos os níveis do aparelho escolar, e audacioso. Os resultados são espetacula-
nas exigências escolares, aparentemente as res. As chances de entrada na universidade
mais ingênuas. para uma criança cujos pais são executi-
vos ou profissionais liberais eram respec-
Os Herdeiros tivamente 80 e 40 vezes mais altas do que
aquelas de uma criança filha de assalariado
A publicação de Os Herdeiros caiu como agrícola e operário. Longe de ser inocente,
um raio em um céu sereno. De repente, a a escola contribuía ativamente para produ-
paisagem foi transformada. As desigualda- zir e reproduzir essa realidade em sua ação
des sociais diante da escola foram “desven- rotineira. Os “responsáveis” não estavam
dadas” e ninguém havia suspeitado de sua somente no Ministério ou no Governo, es-
amplitude. Por alguma razão vinculada à tavam nas práticas pedagógicas cotidia-
natureza dos dados disponíveis, a medida nas dos professores de todos os níveis, nos
das desigualdades sociais se restringia, na comportamentos familiares inconscientes
época, a comparar as proporções das crian- que penalizavam os menos favorecidos, em
ças originárias das diferentes categorias so- razão do abismo existente entre a cultura
ciais que tinham atingido um dado patamar escolar e a cultura familiar, e impulsiona-
do currículo escolar. Esta forma de cálculo vam os outros pela transmissão osmótica
subestimava, gravemente, sua dimensão. dos códigos e posturas morais, culturais
Bourdieu e Passeron invertem a perspecti- escolarmente rentáveis. Cada um se encon-
va: com a ajuda de Alain Darbel, adminis- trava assim implicado por suas descober-
trador do INSEE,10 eles calculam a proba- tas. Percebeu-se, então, que a escola, ins-
bilidade objetiva vinculada a uma criança, tituição, até então banal e negligenciada,
no dia de seu nascimento, de ter acesso ao desempenhava um papel decisivo e central
ensino superior, conhecendo a profissão de nos modos de reprodução social.
seu pai. Os dados do Bureau Universitaire Um novo objeto científico era criado,
de Statistique continham muitas lacunas; uma nova maneira de estudar o sistema es-
Darbel construiu modelos complexos en- colar inaugurada, um novo campo de lutas
volvendo, em particular, hipóteses sobre o sociais aberto, e de cujas implicações polí-

9. BERNSTEIN, B. Langage et classes sociales, codes socio-linguistiques et contrôle social. Paris: Minuit,
1975. (Coll. “Le Sens Commun”).
10. Institut National de la Statistique et des Études Économiques. (N. da T.)

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ticas não escapam ninguém. Cada um po- enquanto tal. Bourdieu o inclui num qua-
dia se apossar desta nova sociologia da alo- dro mais geral de uma sociologia da cultura
cação e manipulação dos bens simbólicos e e da dominação cultural; Beaud e Pialoux
culturais. Os sociólogos, claro, mas também o fazem em uma análise da condição ope-
os atores sociais. Bourdieu e Passeron, vo- rária em todos os aspectos: trabalho, mora-
lentes, nolentes, fizeram desta nova socio- dia, imigração e modos de vida;11 Baudelot
logia da educação uma arma política, que e Establet vinculam o mesmo à questão do
foi imediatamente apropriada pelos mili- trabalho, do emprego e dos conflitos de clas-
tantes do movimento de Maio de 68, e por ses.12 É este ponto de vista do conjunto que
muitos outros depois deles. faz a diferença entre aquele das chamadas
O golpe de Bourdieu e Passeron - e ou- “ciências da educação”, que, contrariamente
tros que produziram, no mesmo período, ao que a grafia sugere, fecha-se deliberada-
análises do mesmo tipo - foi transformar mente sobre o sistema escolar, distanciando-
completamente a visão que se tinha da es- se das próprias demandas da instituição.
cola e do sistema escolar. Antes e depois de Antes de Bourdieu, a concepção de clas-
Os Herdeiros, o olhar mudou, não somente ses sociais, e relações de classe, identifica-
o dos sociólogos, mas também o das “mas- das à sociologia, era fortemente marcada
sas”: professores, pais e associação de pais por um marxismo sumário. Ela atribuía
de alunos. pouca importância aos indivíduos. Tudo se
passava fora deles. O essencial se resumia
Capital Cultural e relações de classes ao enfrentamento secular entre duas clas-
ses: a burguesia, carregando todos os vícios
No entanto, a escola ou a educação ja- e pecados e o proletariado, portador de um
mais constituíram, para Bourdieu e Pas- futuro radiante para a humanidade, desde
seron, objetos científicos autônomos. O que liberto de suas correntes.
propósito deles era muito mais amplo. Tra- Entre estes dois pólos, nada além de
tava-se de fundar uma teoria da relação so- fragmentos dos indivíduos e um certo nú-
cial sobre os bens culturais, suas transmis- mero de grupos sociais, a priori suspeitos,
são, manipulação e apropriação por certos resíduos de modos de produção anteriores
grupos sociais. O subtítulo de Os Herdeiros e condenados a desaparecer rapidamente:
é, não esqueçamos, “os estudantes e a cul- pequenos camponeses, artesãos, comer-
tura.” A questão da escola é somente um ciantes ou o magma das “camadas médias
caso particular: a desigualdade diante da assalariadas”, condenados pelo seu desen-
escola, sendo o princípio da desigualdade volvimento quantitativo a uma invejável
diante da cultura. proletarização. O lugar onde se manifesta-
Este ponto de vista “exterior” sobre a vam as relações de classe, sob a forma de
escola é decisivo. Ele assegura uma análi- uma luta permanente, estava geografica-
se social do conjunto, que não autonomiza, mente circunscrito: a fábrica e suas adja-
nem hipostasia jamais a instituição escolar cências e, por vezes, seus desdobramentos

11. BEAUD, S.; PIALOUX, M. Retour sur la condition ouvrière. Paris: Fayard, 1999.
12. BAUDELOT, C.; ESTABLET, R. La petite bourgeoisie en France. Paris: Maspero, 1974. In: ______;
______. Avoir trente ans en 1968 et 1998. Paris: Seuil, 2000. (Coll. “l’Épreuve des faits”).

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na rua. O conceito-chave que permitia pen- sala de aula, nas lojas, nos restaurantes,
sar as relações de classe era o da explora- nos bailes e boates, nas partidas de tênis
ção. Os jogos essenciais eram de natureza ou nos campos de futebol. Ela se situava
econômica: salários, tempos de trabalho e até mesmo no seio da célula familiar. Cada
condições de trabalho. As dimensões sub- um, cada uma se encontra implicado(a),
jetivas estavam ausentes, o único conceito quer queira ou não. O gosto mais inocente
disponível para pensá-las era, na época, a não é apenas consequência indireta de uma
noção muito global de consciência de clas- posição de classe, ele exprime também um
se, conceito encarregado sozinho de esta- posicionamento que defende um grupo so-
belecer um elo entre a instância objetiva do cial em oposição a outros. O leitor é, então,
econômico e a etapa subjetiva do psicológi- convidado a contemplar o panorama das
co. A meio caminho entre o individual e o práticas culturais e, sobretudo, ao fazê-lo,
coletivo, a consciência de classe era, aliás, a posicionar-se, ele mesmo, em face de um
tomada como inata aos trabalhadores, en- tipo de autoanálise crítica.
tendida como força que lhes permitia, em Neste sentido, a sociologia, em seu tra-
certos momentos, erguer-se, todos juntos, balho de investigação quantitativa, encon-
“como um único homem”. Motor da histó- tra o campo aberto, na literatura, por Mar-
ria com um grande H, a luta de classes se cel Proust, muito sensível na análise das
colocava entre os grandes blocos históricos, relações entre as pessoas, naquilo que elas
onde os indivíduos se encontravam separa- devem a suas heranças sociais, incluindo-
dos de sua vida cotidiana. Sobretudo até os se aí, suas atitudes físicas.
anos de 1960, as questões das relações de Se o príncipe de Borodino não queria uma
classe não possibilitavam, à sociologia, a aproximação com Saint-Loup nem com
realização de pesquisas mais concretas; as os outros membros da sociedade do fau-
únicas existentes se desenvolviam no âm- bourg Saint-Germain que havia no regimen-
bito das grandes empresas, da indústria. to (quando convidava com frequência a dois
A partir dos anos de 1960, Bourdieu im- tenentes plebeus que eram homens agradá-
pôs uma concepção muito mais complexa veis) era porque, considerando todos eles do
das relações de classe. Enriquecendo-a de alto da sua grandeza imperial, estabelecia
suas dimensões culturais e simbólicas, mo- entre aqueles inferiores uma distinção - al-
rais, psicológicas e corporais, Bourdieu in- guns eram inferiores que sabiam sê-lo e com
troduziu, tanto os indivíduos quanto a vida quem se sentia encantado ao frequentá-los,
cotidiana nas análises de classe. Daí o ca- pois era homem de humor simples e jovial
ráter pessoal envolvendo a maioria de seus debaixo das suas aparências de majestade -
textos. Enquanto o espetáculo de enfrenta- e os outros, inferiores que se julgavam supe-
mento secular, entre burguesia e proleta- riores, coisa que ele não admitia. Assim, ao
riado, podia ser contemplado à distância, passo que todos os oficiais do regimento fa-
sem implicações particulares; a irrupção ziam festas a Saint-Loup, o príncipe de Bo-
do cultural e do simbólico, nas relações de rodino, a quem aquele fora recomendado pe-
classes, não deixa ninguém de lado. A luta lo marechal de X..., limitou-se a mostrar-se
de classes tornava-se, assim, cotidiana e se atencioso com ele durante o serviço, no qual
situava nas situações mais triviais da vida Saint-Loup era, aliás, exemplar, mas jamais
rotineira, púbicas ou privadas: à mesa, na o recebeu em casa, exceto em uma circuns-

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tância particular em que se viu, de certo mo- Saint-Loup teria dado uma palmadinha no
do, obrigado a convidá-lo... e, como foi du- ombro e tomado pelo braço, o príncipe se di-
rante minha estada em Doncières, pediu-lhe rigia com majestosa afabilidade, em que uma
que me levasse consigo. Aquela noite, vendo reserva cheia de grandeza temperava a bono-
Saint-Loup sentado à mesa do capitão, pude mia sorridente, sincera e de uma altivez des-
discernir, facilmente, até nas maneiras e ele- propositada. Isso provinha sem dúvida de que
gância de cada um, a diferença existente en- ele estava menos afastado das grandes em-
tre ambas as aristocracias: a antiga nobreza baixadas e da corte, onde seu pai tivera os
e a do Império. Oriundo de umas casta cujos mais altos cargos e onde as maneiras de Saint
defeitos, ainda que os repudiasse com toda a -Loup, cotovelo na mesa e pé na mão, seriam
sua inteligência, lhe haviam passado para o mal recebidas; mas provinha principalmente
sangue, e que, por ter deixado de exercer uma de que desprezava menos a burguesia, porque
autoridade real há um século pelo menos, já ela era o grande reservatório de onde o pri-
não vê na protetora amabilidade, que faz par- meiro imperador havia tirado os seus mare-
te da educação recebida, outra coisa mais que chais, os seus nobres, e onde o segundo havia
um exercício, como a equitação ou a esgri- encontrado um Fould, um Rouher13.
ma, cultivado sem propósito sério, por mera
diversão, perante os burgueses a quem essa A exatidão das descrições das atitudes
nobreza despreza, suficientemente, para crer corporais, a exploração de seus significa-
que sua familiaridade os desvanece e que sua dos subjacentes, fazem deste trabalho um
impolidez os honraria, Saint-Loup estreitava equivalente literário dos grandes quadros
amistosamente a mão de qualquer burguês estatísticos de A Distinção. Primeiro, e an-
que lhe apresentavam e cujo nome talvez não tes de tudo, estatístico, como lembra em A
tivesse ouvido, e, ao falar com ele (sem cessar Sociologia como um Esporte de Combate,
de cruzar e descruzar as pernas, numa atitu- Bourdieu não se contenta com um quadro
de displicente, com o pé na mão), chamava- mais ou menos exaustivo das classes so-
lhe “meu caro”. Por outro lado, como proce- ciais, mas se esforça para nele inserir as
dente de uma nobreza cujos títulos conserva- manifestações mais concretas das intera-
vam ainda sua significação, providos, como ções sociais cotidianas.14
continuavam, de ricos morgadios que recom- Esta proximidade entre Proust e Bour-
pensavam gloriosos serviços e refrescavam a dieu pode ser invocada em um texto que
recordação de altas funções em que se exer- eles seguramente teriam gostado.
ce mando sobre muitos homens e em que é Os geômetras que são apenas geômetras têm
preciso conhecer aos homens, o príncipe de o espírito probo, mas desde que expliquem
Borodino - se não distintamente e em sua bem todas as coisas, por definição e por prin-
consciência pessoal e clara, pelo menos em cípios; de outra forma, eles são falsos e in-
seu corpo, que o revelava em suas atitudes e suportáveis; pois, estão certos apenas quanto
maneiras - considerava seu título uma prer- aos princípios bem claros e os fins, que para
rogativa efetiva, aos mesmos plebeus a quem eles são apenas fins, não têm paciência pa-

13. PROUST, M. Du côté de guermantes. Paris: Garnier-Flammarion, 1987. p. 204-206.


14. Pouco sociólogos exerceram uma influência tão fecunda sobre os estatísticos franceses, em particular
aqueles do INSEE.

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ra examinar o primeiro princípio das coisas recentes, os mais precisos, tais como os tra-
especulativas e da imaginação, não as exa- balhos de Vallet e Caille sobre as amostras
minam nas suas existências no mundo e em da pesquisa 8916 confirmam o diagnóstico
seus usos15. do peso do capital cultural sobre o suces-
so escolar, já que o diploma e, sobretudo,
A sociologia, em sua exigência de geo- o diploma da mãe, considerando-se outros
metria e de fineza, não esgotará jamais seu componentes da categoria social, mostram-
objeto e nunca retrocederá. Tal como o nar- se como fortes argumentos explicativos do
rador, ela descobre sucessivamente os lados acesso ao liceu em melhores condições. O
reais e contraditórios das pessoas, e mesmo primeiro modelo de Goux e Maurin17 tam-
das paisagens que encontra. bém valida o resultado fundamental produ-
É inútil enumerar as contradições da zido no final dos anos de 1960 por Bourdieu
obra de Bourdieu, dividi-la entre a pre- e Passeron. Todas as medidas confirmam a
cisão e as interpretações especulativas, a lentidão com a qual se transforma o regime
objetivação estatística e a autoanálise, ou específico das desigualdades escolares atra-
denunciar uma metodologia que proíbe pe- vés do tempo e do espaço.
remptoriamente os procedimentos mesmos Não se trata de reduzir a sociologia ao es-
que ela se autoriza. É a realidade social, ela tudo das estatísticas sociais. Bourdieu, desde
mesma, heterogênea e contraditória - ho- Le Partage des benéfices, toma por objeto as
mens, objetos, territórios - que força estas transformações na sociedade francesa após a
reviravoltas desconcertantes e produz estas guerra, notadamente os efeitos do desenvolvi-
insatisfações fecundas. mento da instrução sobre a riqueza nacional.
O trabalho de Bourdieu renova em pro- Isto identifica com precisão os efeitos do de-
fundidade o estudo das classes sociais; po- senvolvimento do capital cultural sobre o con-
rém, é necessário considerá-lo como um junto da vida social em domínios inesperados:
“canteiro de obras”, inacabado, em cons- em pleno baby-boom. Ele escreve com Darbel
trução, se ousamos dizer, porque foi abor- um dos mais belos diagnósticos e prognósticos
dado de maneira pascaliana, sob todos os de evolução demográfica.18 Vista mais de per-
ângulos de ataques autorizados por nossa to, classe social por classe social, o aumento
disciplina. A Reprodução, em sua lógica da natalidade se mostra um fenômeno menos
implacável, é um estudo de “estatística so- massivo que em sua resultante global. O gru-
cial”: um estudo sobre o peso dos diferentes po dos empregados é particularmente revela-
capitais sobre a recondução das desigual- dor da relação entre a educação e uma classe
dades em um momento decisivo. Os estudos social atenta às novas chances de educação,

15. PASCAL, B. Pensées. In: PASCAL, B. OEuvres complètes II. Paris: Gallimard, 2000. p. 1093. (Coll.
“Bibliothèque de la Pléiade”).
16. VALLET, LA.; CAILLE, JP. Niveau en français et en mathématiques des élèves étrangers ou issus de
l’immigration. Économie et Statistique, INSEE, v. 293, p. 137-153, 1996.
17. GOUX, D.; MAURIN, É. Destinées sociales: le rôle de l’école et du milieu d’origine. Économie et Statis-
tique, INSEE, v. 306, p. 13-26, 1997.
18. BOURDIEU, P.; DARBEL, A. La fin d’un malthusianisme. In: DARRAS et al. Le partage des bénéfices.
Paris: Minuit, 1966. p. 135-154. (Coll. “Le Sens Commun”).

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mas detentora de um capital cultural muito Mas e Hoje?
fraco para agarrá-las, sem consagrar toda sua
energia a um pequeno número de herdeiros. Este conjunto teórico foi elaborado nos
Construído a partir de dados estatísticos rigo- anos 1960. Ele sobreviveu às transforma-
rosos, o modelo nos faz encontrar o agente e ções profundas que aconteceram há qua-
a causalidade do provável. O lado Durkheim renta anos no sistema escolar francês?
encontra o lado Proust. Podemos facilmente, Há mais ou menos dez anos, os profes-
se quisermos, polemizar contra Bourdieu - ou sores exprimem de um modo mais e mais
quem sabe? ocupar seu lugar -, opor os textos coletivo e determinado um conjunto de in-
um a um. É mais prudente acentuar que se tra- satisfações, que a imprensa denomina pu-
tam de exigências contraditórias da pesquisa dicamente de “mal-estar docente”, e que os
em Ciências Sociais. implicados experimentam mais radicalmen-
O conceito de capital cultural combi- te como um “desgaste emocional”. Além
na-se com dois outros que se articulam das reivindicações, frequente e estritamente
estreitamente com ele: arbitrário cultural quantitativas, eles reclamam sempre mais
e violência simbólica. O primeiro permite recursos (créditos, vagas suplementares...);
inscrever a noção de capital cultural em trata-se de um sofrimento social, no sentido
uma perspectiva histórica e relativizar seus pleno do termo. As razões para esta infe-
efeitos. Ele convida a introduzir relativida- licidade dos professores remetem às trans-
de nos conteúdos da cultura e do ensino formações recentes no sistema escolar, que
que a escola coloca como dados universais têm, em parte, transformado o exercício de
e intangíveis compreendido nas ciências. suas profissões. O foco principal do descon-
O grau de certeza na afirmação do cará- tentamento situa-se hoje no ensino secun-
ter universal de um conteúdo de ensino dário. É nos colégios e Liceus que o mal-es-
depende, frequentemente, do número de tar docente é mais intenso, os professores
professores agregados presentes numa ins- das escolas primárias e do ensino superior se
tituição. Este conceito convida o sociólogo encontram em grande parte poupados. Este
a olhar muito de perto os saberes e as mo- sofrimento social provém de um descompas-
dalidades de sua transmissão selecionados so - que toma, frequentemente, a amplitude
pela escola. O conceito de violência simbó- de um abismo - entre as expectativas pro-
lica é mais conhecido. fissionais e sociais de jovens docentes, que
Este jogo dos três conceitos conduz a idealizavam sua profissão de professor, e a
análises inteiramente novas da escola. Eles realidade que eles descobriam em campo.
constituem as verdadeiras forças que per- Esta situação se exacerba quando se trata
mitem romper com as representações es- de professores saídos dos meios sociais fa-
pontâneas e ideológicas do sistema escolar, vorecidos, que escolheram estudos literários
conduzindo a detalhadas investigações do (letras, línguas, história e filosofia), quando
interior desta “caixa preta”. Este jogo dos se encontram enviados ao front, em colégios
três conceitos é, particularmente, muito ou liceus da periferia. O relato de Mara Go-
mais fecundo que o uso exclusivo do con- yet exprime bem esta desilusão proveniente
ceito de reprodução, onde as tonalidades da defasagem entre a ambição primeira (“eu
mecanicistas e funcionalistas já foram, por disse a mim mesma que tornar-me professo-
mais de uma vez, denunciadas. ra poderia constituir para mim, um meio de

206 R. Pós Ci. Soc. v.11, n.22, jul/dez. 2014


tornar-me, a custos reduzidos, uma intelec- segregações espaciais que explodem publi-
tual”) e o trabalho do dia-a-dia de profes- camente. Novos abismos foram acentuados
sor, frequentemente ingrato, às vezes apai- entre os estabelecimentos centrais - relativa-
xonante. Isto resulta num sofrimento social mente preservados das perturbações sociais
que não pode ser subestimado.19 e frequentados principalmente por alunos
Na verdade, ao longo dos últimos vin- saídos de meios intelectuais favorecidos -
te anos, um certo número de objetivos so- e os colégios ou liceus de periferia que se
ciais atribuídos à escola por seus fundadores tornaram, alguns, verdadeiros guetos, aco-
parecem mais e mais difíceis de atingir. A lhendo apenas crianças filhas de imigran-
educação elementar de base? As sucessivas tes. Estes estabelecimentos da periferia são
avaliações manifestam que, depois da esco- também aqueles em que jovens professores,
la elementar, uma proporção substancial de desprovidos de experiência profissional, são
estudantes não domina corretamente as téc- autoritariamente afetados. Esta segregação
nicas de leitura. Alguns têm mesmo muita espacial da instituição escolar, radicalmen-
dificuldade em interpretar. Os ministros são te nova na França, realizou-se progressi-
coagidos à implantação de grandes planos vamente pela concentração das crianças
contra o anafalbetismo. A coesão social pela provenientes de meios mais favorecidas nos
integração intelectual e moral? Numerosos, estabelecimentos centrais e por sua retirada
e cada vez mais midiatizados, são os casos daqueles meios situados nas “zonas sensí-
de violência na escola, que prejudicam a veis”. Ela se encontra hoje consagrada e le-
autoridade da educação e, sobretudo, o cará- gitimada por todo um conjunto de medidas
ter universal da cultura escolar. Em conflito legislativas que tendem a assinalar a morte
total com os valores e comportamentos das do Colégio único, instituído em 1975 pelo
novas gerações de jovens da periferia, es- ministro René Haby durante os sete anos
tudantes das cidades atingidas pelo desem- do governo de Valéry Giscard d’Estaing. As
prego ou subemprego, a cultura escolar tra- dificuldades encontradas, hoje, pela escola
dicional é rejeitada em bloco. A integração pública asseguram um belo futuro à escola
pela aplicação a todos, de uma regra comum privada, que serve frequentemente de “este-
de laicidade, forçando as diferenças vincu- pe”. Quase um, em cada três alunos, passam,
ladas à cultura de origem e à religião a se pelo menos, um ano de sua vida escolar em
manifestarem apenas na esfera privada, fora uma escola privada.
do santuário escolar? A agitação midiática Além disso, o regime anterior, dos níveis
e política organizada em torno da questão de aspiração ensejados, foi profundamente
relacionada ao “véu islâmico” mostra que a transformado. Bourdieu e Passeron haviam
luta pela laicidade está longe de ser ganha. mostrado que, nos anos de 1960, as famí-
Uma escola única, a mesma para todos, in- lias populares participavam em parte de sua
dependente das origens sociais? A escola re- autoeliminação do sistema escolar. “O Li-
publicana que sonhava Jules Ferry tornou-se ceu não é para nós”, diziam elas. E Bourdieu
um lugar de novas segregações. As desigual- descrevia esta atitude de resignação - forma
dades tradicionais e, frequentemente invisí- suprema de interiorização da limitação so-
veis entre as classes sociais, duplicaram as cial - sublinhando que, longe de tomar seus

19. GOYET, M. Collèges de France. Paris: Fayard, 2003.

Escola, a luta de classes recuperada 207


desejos pela realidade, eles raciocinam em mercado de trabalho. Um número significa-
sentido contrário e “tomam a realidade por tivo dos filhos de operários tornava-se, por
seus desejos.”20 É bastante diferente hoje. sua vez, operário. Não é necessariamente o
Nos últimos trinta anos, as aspirações es- melhor futuro que os pais poderiam desejar
colares das famílias, sobretudo das famílias para seus filhos, mas resignavam-se, bem
populares, são não somente elevadas, mas ou mal, a esta situação que não apresen-
também profundamente transformadas. A tava desvantagens. Permanecíamos numa
crise do emprego teve um forte efeito sobre região conhecida. Os pais eram capazes de
o modelo operário de passagem para a idade controlar a formação dispensada aos filhos.
adulta, a partir do qual importava, primeiro O pai e os filhos evoluíam no interior do
que, o mais cedo possível o jovem tivesse mesmo universo, e o primeiro podia discre-
um boa profissão, pudesse ganhar sua vida e tamente lembrar sua autoridade ao segun-
criar sua própria família. do por meio de conselhos, ajudas pessoais
No antigo regime, a instituição escolar ou recomendações aos colegas ou aos pa-
era estranha ao universo familiar e profissio- trões. Existia, por outro lado, um relativo
nal dos operários. Apenas uma minoria das ajustamento entre as aspirações escolares e
crianças filhas de operários ascendia ao ci- profissionais dos pais para seus filhos, e a
clo longo dos liceus. Verdadeiros “milagres” oferta de trabalho em âmbito local.
escolares eram obtidos, quando conseguiam Esta transmissão do status entre as ge-
diplomas - raros, de cursos de maior prestí- rações, sob a forma de reprodução, é hoje,
gio - que consagravam seu direito de ingres- em parte, interrompida pelo crescimento
sar em profissões relevantes para as esferas do desemprego; mas, sobretudo, ela é obje-
das classes médias ou superiores. Tratava-se, to de uma recusa determinada tanto pelos
para eles e para seus pais, de uma promoção pais como pelos filhos. A desvalorização
social objetiva. Quaisquer que sejam os de- da condição operária, a intensificação das
senraizamentos e as rupturas suportados no condições de trabalho, a precarização dos
curso desta metamorfose, por vezes vivida status e o aumento do desemprego, fazem
como uma traição, o resultado estava aí: o da fábrica um pólo repulsivo, para os pais
investimento escolar havia correspondido que lá trabalham e para seus filhos que tudo
àquilo que se esperava em termos de van- farão para lá não trabalharem. A recusa à
tagens econômicas e sociais; ainda que se fábrica não é nova. Os pais operários sem-
tratasse apenas de uma ínfima minoria de pre desejaram que seus filhos fossem mais
crianças oriundas das classes populares.21 bem sucedidos que eles. Porém, esta recusa
Para uma imensa maioria, uma via jamais conheceu a amplitude e a dramatici-
tradicional era traçada: um ensino profis- dade que a caracterizam hoje.
sional curto e uma colocação precoce no

20. BOURDIEU, P. La transmission de l’héritage culturel. In: DARRAS et al. Le partage des bénéfices. Pa-
ris: Minuit, 1966. p. 383-420.
21. Ver os trechos de Annie Ernaux (Les Armoires Vides. Paris: Gallimard, 1974. Reeditado pela Coleção
“Folio”, em 1995) e da mesma autora La Honte (Paris: Gallimard, 1997) e o estudo de Stéphane Beaud e
Michel Pialoux (Retour sur la Condition Ouvrière, op. cit. e, sobretudo, BEAUD, Stéphane. 80% au Bac et
Après? Paris: La Découverte, 2002).

208 R. Pós Ci. Soc. v.11, n.22, jul/dez. 2014


Continuar... prol da conquista de um salário melhor.
“Continuar...”, o infinitivo é um imperati-
O ingresso de crianças nos trilhos do vo: é necessário continuar.
ciclo longo repousa sob um sentimento Essas transformações maiores parecem
profundo de desvalorização e desmoraliza- questionar seriamente os méritos daquilo
ção coletiva do grupo operário. A primei- que seus inimigos nomearam de “as so-
ra virtude atribuída à escola é de ordem ciologias da reprodução”. Elas não seriam
negativa: trata-se de uma escapatória, o mais compatíveis com a realidade da escola
único meio de evitar, para seus filhos, o contemporânea.
destino de operário de fábrica. As vias tra- É certo que, por razões históricas, um
dicionais do ensino profissional, que po- certo número de traços associados aos her-
deriam colocá-los lá, são também recusa- deiros de ontem envelheceram um pouco.
das. “Esta não é a solução final!”. O Liceu O tipo ideal do herdeiro descrito em 1964,
profissional e os diplomas associados são normalista de filosofia, originário dos bair-
objetos de uma forte rejeição, inclusive ros da elite parisiense, que tinha seu pres-
para aqueles que deles não puderam esca- tígio baseado na exibição de seu capital
par. A elevação geral do nível contribuiu cultural, a partir de seus conhecimentos em
para enfraquecer o ensino profissional. literatura, arte e filosofia, viu seu brilhan-
O modelo de estudante do liceu geral é tismo findar, não que ele tenha desapareci-
onipresente e serve de referência para os do; mas seu valor, no mercado de bens sim-
estudantes dos liceus profissionais, para bólicos, sofreu uma grande defasagem em
mensurar melhor o grau de sua relegação proveito de outros representantes escolares
e de seu encerramento numa condição que de excelência social. O cursor é fortemente
eles recusam. Tanto quanto inacessível ou movido das humanidades para as ciências.
distante, há ainda dez anos, este modelo Acontece que as desigualdades sociais no
de estudante do liceu geral torna-se, hoje, acesso ao ensino superior se modificaram
muito concreto: em uma mesma família, muito pouco desde os anos 1960; algumas,
as escolaridades das crianças estão longe até mesmo, aumentaram. A verdade é que
de ser homogêneas, e o estudante relegado a concepção geral construída por Bourdieu,
a um liceu profissional (LP) tem hoje um desde 1960, as relações entre a escola e a
irmão, uma irmã, um parente que segue sociedade, assim como as expectativas das
uma escolaridade longa. Daí essa distância diferentes classes sociais, constitui, ainda
ostensiva marcada por sinais associados hoje, uma fonte explicativa fundamental. A
ao estatuto de operário: vergonha de ves- melhor prova desta fecundidade heurística é
tir o uniforme azul, desalinhado, de modo trazida por Bourdieu mesmo, em um texto
a deixar ver a roupa civil, desvalorização escrito em colaboração com Patrick Cham-
verbal dos diplomas profissionalizantes. É pagne e publicado em A Miséria do Mundo:
preciso “continuar”; ir o mais longe pos- “Os excluídos do interior.”22
sível e apegar-se, custe o que custar, ao Bourdieu e Champagne, ao encararem
liceu, a fim de evitar o desemprego e, em as profundas transformações operadas no

22. BOURDIEU, P.; CHAMPAGNE, P. Les exclus de l’intérieur. In: BOURDIEU, P. (Dir.). La misére du mon-
de. Paris: Seuil, 1993. Reeditado na Coll. “Points”, 1998. p. 913-923.

Escola, a luta de classes recuperada 209


sistema escolar francês, há trinta anos, çamos para mensurar a parte da mais-valia
mostram como o sistema de ensino “per- associada à detenção de um capital cultural
manece aberto para todos e reservado a dado: os anos consagrados à instrução evi-
alguns.” Os princípios de seleção e elimi- denciam mais em termos salariais do que
nação mudaram. A liberalização aparente aquilo que eles custaram.
do acesso ao sistema escolar tornou tais Por trás da fachada única do “salário”
princípios mais e mais invisíveis, embora revelam-se privilégios palpáveis associados
eles ainda persistam. Os “novos alunos dos à aquisição de um capital cultural dado.
liceus” de origem popular, e frequentemen- Essa medida marxista nos aproxima do
te estrangeiros, não são tolos. Eles percebe- sentido da teoria do capital humano, que
ram muito rápido que não é suficiente che- vê a instrução como uma poupança e as
gar ao secundário para ser bem sucedido diferenças de remunerações como retorno
e, sobretudo, que não é suficiente ser bem desses investimentos. Contudo, ela nos leva
sucedido, aí, para ascender às posições so- também a examinar, em termos de posi-
ciais, às quais os mesmos títulos escolares cionamento social, no sentido que nos fala
dão acesso. O baccalauréat em particular. A Bourdieu em A Distinção, as atitudes polí-
situação hoje é nova, na medida em que ela ticas, características das diferentes frações
consegue, a um só tempo, reunir as aparên- da pequena burguesia. Mais uma vez as re-
cias de democratização e a realidade da re- gras de conversão de um capital em outro,
produção que se realiza num nível superior tal como definimos no momento decisivo,
de dissimulação por meio de uma efetiva são submetidas às flutuações da história. A
legitimação social. Por isso, dizer que a ins- conjunção de uma prolongação dos estudos
tituição escolar se encontra, doravante, ha- e a persistência de um desemprego em mas-
bitada, em seu interior, por “excluídos em sa não asseguram mais, pelo menos a todos
potencial”. Estes excluídos em seu interior os diplomados, os retornos dos investimen-
constituem uma nova figura de uma insti- tos realizados que a diplomação assegurava
tuição escolar que permanece apropriada, antes das crises do petróleo.23
ainda hoje, por uma minoria de herdeiros. O estudo das regras de conversão, entre
Neste vasto campo aberto por Bourdieu as diferentes espécies de capitais, é uma ne-
e Passeron, dirigimos, da nossa parte, nossa cessidade, se não se quiser utilizar o termo
atenção à “bolsa de trocas” entre diferen- “capital” em um sentido banalmente me-
tes capitais. Para compreender as classes tafórico, quando nos afastamos do capital
sociais e suas relações, não podemos nos econômico. Jean-Michel Faure e Charles
limitar ao capital econômico. Porém, se Suaud, estudando a evolução do esporte
a instrução constitui um capital - “capi- profissional moderno, especialmente o caso
tal cultural” - , isto significa que ela pode do futebol, mostram, corretamente, que
conduzir a divisão dos benefícios materiais, cada atleta detém, sob forma de aptidões,
sob a forma de posições sociais adquiridas um capital incorporado, que foi formado,
e mantidas pela instrução. Nós nos esfor- mantido num campo específico, cuidadoso

23. BEAUD, S. 80% au bac et après?. In: BAUDELOT, C.; ESTABLET, R. Avoir trente ans en 1968 et en
1998. Paris: Seuil, 2000. . (Coll. “l’Épreuve des faits”).

210 R. Pós Ci. Soc. v.11, n.22, jul/dez. 2014


com suas fronteiras. Eles falam de “capital parte, constituído de disposições, posturas
esportivo.”24 A questão que se coloca ime- e, mais geralmente, de habitus, entendido
diatamente a eles é a de saber quantos atle- como gramáticas generativas susceptíveis
tas ascendem, pela detenção deste capital de engendrar condutas adaptadas a novos
esportivo específico, às remunerações que contextos. Segunda diferença fundamental,
lhes permitem deter posições invejáveis na o capital humano é, para Becker, uma rea-
sociedade como um todo. Pois se há “capi- lidade, por vezes, individual e coletiva. Ele
tal esportivo”, trata-se de uma fonte rara caracteriza o valor de um indivíduo sobre
que permite a quem o possui se definir em o mercado de trabalho, mas ele pode, tam-
face dos outros. bém, sob uma forma agregada, ser consi-
A relação entre capital cultural e po- derado como um estoque produtivo; visto
sição social lança luz sobre o processo de como um fator global de produção na es-
escolarização em si, mostrando que não se cala da sociedade inteira, do mesmo modo
pode estudá-lo circunscrito às quatro pare- que o capital físico. O mesmo não vale para
des dos estabelecimentos escolares, ou das o capital cultural, que é encarado por Bour-
salas de aula. dieu em suas dimensões individuais: um
capital cultural é um atributo distintivo de
Capital cultural e capital humano um indivíduo.
Nos dois casos, igualmente, o capital
Um progresso conceitual de grande am- produzido pela educação desdobra-se logi-
plitude foi operado desde os anos de 1960, camente para as outras espécies de capital.
para pensar a complexidade dos efeitos Quer seja “humano” ou “cultural”, ele se
da educação. Aconteceu simultaneamente, adquire, se acumula, se reduz, se transmi-
mas de modo independente, na sociologia te, frutifica ou se deprecia. Trata-se de um
e na economia. Os principais promotores grande móvel submetido à flutuações, que
eram irmão-rivais, Bourdieu e Becker. Am- não é jamais adquirido e transmitido como
bos recorreram à metáfora econômica do tal, de uma só vez. Ele pode ser adquirido
“capital” para designar os efeitos produzi- de diferentes modos: pelo trabalho - escolar
dos, sobre o indivíduo, pelo processo edu- ou profissional - , herança ou investimen-
cacional. Os conceitos de “capital humano” to. Pode ser transmitido no seio familiar,
(Becker25) e de “capital cultural” (Bourdieu) na escola ou na empresa. Sobretudo após o
não se confundem, nem se superpõem. Eles período de formação, ele pode ser reduzido,
diferem, em primeiro lugar, pelos seus con- explorado, rentabilizando, conferindo a seu
teúdos: a dimensão educativa do “capital detentor rendimentos materiais e simbóli-
humano” - que inclui, igualmente, a saú- cos, garantindo também ao empregador um
de do indivíduo em questão - limita-se às valor a mais. Ele pode frutificar, mas pode
competências profissionais e aos saberes também se depreciar.
cognitivos relativamente objetiváveis, en- Esta concepção da educação, como um
quanto o “capital cultural” é, em grande capital, permite colocar, sobre bases mais

24. FAURE, JM.; SUAUD, C. Le football professionnel à la Française. Paris: PUF, 1999.
25. BECKER, G. Human capital: a theoretical and empirical analysis, with special reference to education.
New York: Columbia University Press, 1964.

Escola, a luta de classes recuperada 211


seguras, a questão dos efeitos da educa- descrever as formas de articulação e dosa-
ção. Cultural ou humano, esta nova espécie gem dessas grandes funções, incluindo-nas
de capital exige esforços para adquiri-lo e na aprendizagem dos saberes aparentemen-
mantê-lo. O indivíduo deve fazer sua par- te mais universais, como a matemática. As
te, evidentemente, mas os contextos de apostas são altas porque, inscrevendo-se na
sua valorização exercem também grandes linha desta pedagogia racional, como Bour-
efeitos sobre seu crescimento ou deprecia- dieu e Passeron definiram no final de Os
ção. Existem profissões que, pela natureza Herdeiros, a elucidação destes pontos, ain-
do trabalho e das responsabilidades que da amplamente obscuros, permite lançar as
supõem, permitem manter e aumentar o bases de uma transformação democrática
capital inicial, e outras que, ao contrário, da transmissão dos saberes.
deixam-no de lado, contribuindo para a
sua destruição. Nesta perspectiva, as prá-
ticas culturais, que crescem à medida que REFERÊNCIAS
se eleva o nível do diploma, podem ser
consideradas não só como puros consumos BAUDELOT, C.; ESTABLET, R. École, la lutte
mas também como consumos produtivos, de classe retrouvée. In: PINTO, L.; SAPIRO, G.;
contribuindo com a eficácia em manter e CHAMPAGNE, P. (Dir.). Pierre Bourdieu: sociolo-
fazer frutificar o capital inicial. Importan- gue. Paris: Fayard, 2004. p. 187 - 209. Tradução
tes desigualdades se observam, então, nos de Mariana Barreto.
contextos profissionais de valorização ou
______; ______. La petite bourgeoisie en France.
depreciação deste capital. Paris: Maspero, 1974. In: ______; ______. Avoir
De todos os grandes campos abertos trente ans en 1968 et 1998. Paris: Seuil, 2000.
por Bourdieu no âmbito da educação, há (Coll. “l’Épreuve des faits”).
um que se destaca, dentre os outros, e que
BEAUD, S. 80% au bac et après?. In: BAUDELOT,
deve ser continuado. Aquele dos sentidos
C.; ESTABLET, R. Avoir trente ans en 1968 et en
dos conteúdos e da formação das qualifica- 1998. Paris: Seuil, 2000. . (Coll. “l’Épreuve des
ções. O que os alunos aprendem na escola? faits”).
Qual a natureza exata dos saberes, saber-
______; PIALOUX, M. Retour sur la condition
fazer, saber-ser, transmitidos aos diferentes
ouvrière. Paris: Fayard, 1999.
indivíduos pela educação escolar? Saberes
objetivos e universais do tipo “cognitive BECKER, G. Human capital: a theoretical and
skills” que revelassem qualificações descri- empirical analysis, with special reference to edu-
tas pela teoria do capital humano? Os mo- cation. New York: Columbia University Press,
1964.
dos distintos de acumular e de consumir o
patrimônio cultural? Uma adesão social às BERNSTEIN, B. Langage et classes sociales, codes
formas do arbitrário cultural? Fora de ques- socio-linguistiques et contrôle social. Paris: Mi-
tão escolher entre estes diversos aspectos nuit, 1975. (Coll. “Le Sens Commun”).
dos saberes que coexistem e coabitam em BOURDIEU, P. La transmission de l’héritage cultu-
qualquer elemento de conhecimento trans- rel. In: DARRAS et al. Le partage des bénéfices.
mitido. Fora de questão provar os erros de Paris: Minuit, 1966. p. 383-420.
Gary Becker ou de Pierre Bourdieu: os dois
______; CHAMPAGNE, P. Les exclus de l’inté-
têm razão. Trata-se, antes, de analisar e rieur. In: BOURDIEU, P. (Dir.). La misére du mon-

212 R. Pós Ci. Soc. v.11, n.22, jul/dez. 2014


de. Paris: Seuil, 1993. Reeditado na Coll. “Points”, NOTA SOBRE OS AUTORES
1998. p. 913-923.

______; DARBEL, A. La fin d’un malthusianis- Christian Baudelot é professor de Sociologia


me. In: DARRAS et al. Le partage des bénéfices. na École Normale Supérieur (Paris). Publicou
Paris: Minuit, 1966. p. 135-154. (Coll. “Le Sens com Roger Establet várias obras sobre as rela-
Commun”). ções entre escola, classes sociais e mercado de
______; PASSERON, J. C. Os herdeiros: os estu- trabalho, especialmente: L’École capitaliste en
dantes e a cultura. Florianópolis: Editora UFSC, France (MASPÉRO, 1971), Le Niveau Monte
2013. (SEUIL, 1989, Reeditado em “Essais”, 1990),
Allez les filles! (SEUIL, 1992, Reeditado em
______; ______. A reprodução: elementos para
“Essais”, 1998) e Avoir trente ans en 1968 et
uma teoria do sistema de ensino. 3. ed. Petrópolis:
1998 (SEUIL, 2000). É igualmente autor de Tra-
Vozes, 2008. Tradução de Reynaldo Bairão.
vailler pour être heureux, com Michel Gollac
______. ______. Les héritieres: les étudiants et la (FAYARD, 2003).
culture. Paris: Éditions de Minuit, 1964.

CLERC, P. La famille et l’orientation scolaire au


Roger Establet é sociólogo, professor emérito
niveau de la sixième: pesquisa de junho de 1963
na Université de Provence. Publicou com
na região parisiense. Population, 1964.
Christian Baudelot várias obras sobre as rela-
FAURE, JM.; SUAUD, C. Le football profession- ções entre escola, classes sociais e mercado de
nel à la Française. Paris: PUF, 1999. trabalho, especialmente: L’École capitaliste en
France (MASPÉRO, 1971), Le Niveau Monte
GOUX, D.; MAURIN, É. Destinées sociales: le rôle
(SEUIL, 1989, Reeditado em “Essais”, 1990),
de l’école et du milieu d’origine. Économie et
Allez les filles! (SEUIL, 1992, Reeditado em
Statistique, INSEE, v. 306, p. 13-26, 1997.
“Essais”, 1998) e Avoir trente ans en 1968 et
GOYET, M. Collèges de France. Paris: Fayard, 1998 (SEUIL, 2000). É ainda autor de Comment
2003. peut-on être français? (FAYARD, 1997).
PASCAL, B. Pensées. In: PASCAL, B. OEuvres
complètes II. Paris: Gallimard, 2000. p. 1093.
(Coll. “Bibliothèque de la Pléiade”).

PINTO, L.; SAPIRO, G.; CHAMPAGNE, P. (Dir.).


Pierre Bourdieu: sociologue. Paris: Fayard, 2004.

PROUST, M. Du côté de guermantes. Paris: Gar-


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VALLET, LA.; CAILLE, JP. Niveau en français et


en mathématiques des élèves étrangers ou issus
de l’immigration. Économie et Statistique, INSEE,
v. 293, p. 137-153, 1996.

Recebido em: 13.05.2014


Aprovado em: 09.06.2014

Escola, a luta de classes recuperada 213


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