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Julieta Jerusalinsky (2008). Angústia na pós-maternidade.

Revista da APPOA Os tempos do


sujeito. N. 35. Porto Alegre: APPOA, julho/dezembro 2008.

Angústia na pós-maternidade 1

Julieta Jerusalinsky 2

Resumo: o presente artigo, a partir de vinhetas clínicas, considera como a diversificação da


realização fálica das mulheres, longe de consolidar uma potência do matriarcado, produz um
incremento da angústia experimentada por mulheres na pós-maternidade.

Palavras-chave: angústia, maternidade, castração, relação mãe-bebê, complexo de Édipo.

Título em inglês: Post-maternity angst.

Abstract: This paper draws on clinical vignettes to cosider how the present diversity of
women´s phallic achievements, rather than consolidating a matriarchal potency, actually
causes an increase the angst experienced by post-maternity women.

Keywords: angst, maternity, castration, the Oedipus complex.

Gostaria de partilhar com vocês algumas reflexões acerca do comparecimento da


angústia na maternidade, considerando certas atualizações que a modificação do lugar social
das mulheres lhe imprime.
O ar dos tempos tem seus efeitos sobre o padecimento, na medida em que tanto o
sintoma quanto a angústia não são produções individuais ou isoladas, dizem da posição do
sujeito perante seu Outro e, portanto, também perante o viés que dele encarna o discurso
social. O que outrora poderia parecer parte inevitável dos percalços de se viver pode passar a
ser considerado uma experiência intolerável, e a ansiedade implicada nos acontecimentos da
vida pode assumir para o sujeito a dimensão de um pânico insuportável. O discurso social
modifica os nomes dados ao sofrimento e afeta a relação do sujeito com este. Assim, as
estruturas clínicas se atualizam e configuram respostas singulares do sujeito ao seu tempo.
Nesse sentido encontramos como a diversificação da realização fálica das mulheres -
outrora socialmente endereçada à realização de um bom casamento ou a ter bebês - , que
agora passam a ser autoras de trocas fálicas ao trabalhar, ganhar seu dinheiro e ter direitos de
cidadãs 3, tem efeitos no exercício da maternidade, que comparecem com uma tal insistência
na clínica que não podemos fazer a isso ouvidos moucos.
Se o que é próprio do sujeito na modernidade é a possibilidade de escolha, fundada
em um individualismo romântico que postula a liberdade de cada um, sabemos que isso
acarreta o ônus da responsabilidade por realizar escolhas das quais não se tem garantias,
1
O presente trabalho foi apresentado no Congresso da Angústia da APPOA em 2008. Integra o projeto de
doutorado em andamento pela PUC-SP, junto ao Laboratório de Psicopatologia Fundamental, sob
orientação do Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck.
2
Psicanalista, psicóloga, membro da APPOA, do Centro Lydia Coriat de Porto Alegre e da Clínica
Interdisciplinar Dr. Mauro Spinelli em São Paulo, professora de pós-graduação na COGEAE PUC-SP,
mestre e doutoranda em psicologia clínica pela PUC-SP, autora do livro: Enquanto o futuro não vem: a
psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês.
3
KEHL, Maria Rita. A mínima diferença: masculino e feminino na cultura, Rio de Janeiro, Imago, 1996.
correndo o risco de se enganar, de sair perdendo, e até mesmo de se perder ao desencontrar-
se da referência simbólica que permitiria representar o vivido.
Na clínica constatamos como a diversificação da realização fálica das mulheres, longe
de consolidar uma espécie de potência do matriarcado 4, pode vir a produzir um incremento
da angústia que emerge no exercício da maternidade.
Se Freud nos fala de uma equação simbólica pênis = falo = bebê estabelecida para a
menina após o complexo de Édipo, encontramos hoje em dia que a chegada do bebê
freqüentemente é antecedida por outras equivalências fálicas. Que a equação seja pênis = falo
= trabalho = autonomia financeira = bebê não é indiferente para os desdobramentos
subjetivos que uma mulher precisará operar para o exercício da maternidade, que, em si
mesma, passa a ficar situada não mais como uma conseqüência natural do exercício sexual,
mas como uma escolha.
Este é o caminho que propomos percorrer.
Mas, de partida é preciso deixar claro: que a angústia se apresente como um afeto
implicado na maternidade não é em si nenhuma novidade. Justamente pelo fato de que virar
mãe, ou virar mãe de um novo filho, é um advento desses que se apresentam como cruciais na
construção da subjetividade - por ser um desses momentos da vida que exigem um
reposicionamento do sujeito diante do Outro e que, portanto, pode ser acompanhado por uma
emergência da angústia. Como a própria expressão aponta, virar mãe é um ponto de virada, e,
não casualmente, como nos recorda LACAN, Jacques ([1962-1963] 2005 p. 19-20) um dos
nomes da gravidez, em espanhol, é embarazo.
Dar contorno ao corpo, inscrever as bordas erógenas nos primórdio da constituição
subjetiva do bebê, exige da mãe uma posição psíquica bastante peculiar situada por Winnicott
como preocupação materna primária (1956, p.407-411). No início da função materna
podemos encontrar uma sensibilidade exaltada, um estado de ansiedade expectante da mãe
diante das demandas urgentes que supõe com seu saber e que articula a uma leitura realizada a
partir das manifestações corporais do bebê. Esta ansiedade expectante implica uma posição
psíquica de prontidão da mãe nos primeiros tempos de exercício de sua função, fazendo com
que mãe (no sentido de quem exerce essa função) seja a mais habilitada a dar contenção ao
bebê apesar de sua própria incontinência.
Se isso não é em si angústia, no entanto, está na soleira dela, pois dar borda a um
corpo (o do bebê) exige da mãe o intenso exercício de recapitular inconscientemente, de
repuxar, a cada operação de cuidado com o bebê, as inscrições de sua própria história
libidinal, seus próprios pontos de amarra psíquica, seus próprios pontos de capiton.
Há uma interrogação que subjaz todo o exercício da maternidade nos primeiros
tempos do cuidado de um bebê: “O que queres?” Ou ainda: “O que será que queres agora?”-
dado que, em momentos distintos, a demanda assume diferentes significações e será,
portanto, mediada por diversos objetos de satisfação. E, mais ainda, na medida em que a mãe
se situa como destinatária de tais demandas supostas ao bebê, “O que será que agora queres
de mim?” 5, “Que me queres?”
Tal interrogante convoca o saber inconsciente da mãe a funcionar a todo vapor. Mas,
pela infindável demanda que um bebê faz comparecer, não raramente, em algum momento,
pode ser experimentado como uma interpelação na qual uma mulher se encontra na posição
de ter de dar conta de ser mãe sem jamais estar de antemão precavida acerca de todas as

4
Recordamos aqui como esta questão da possibilidade de que o falo passe do homem à mulher poderia
configurar um matriarcado é trazido à discussão por Jacques Lacan , O seminário, livro 4, aula de 27 de
fevereiro de 1957. Transcrição em versão eletrônica estabelecida para circulação interna pela Escuela
Freudiana de Buenos Aires.
5
LACAN, Jacques (1962-1963). O seminário, livro 10, A angústia, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005, p.
14.
vicissitudes de sê-lo para esse bebê, e, portanto, apercebendo-se de que é preciso sê-lo sem
roteiro.
“Como cuidar do bebê?” “Como retomar a vida com e após esse bebê?” São
interrogações que, em sua vastidão, revelam a angústia que freqüentemente testemunhamos
na clínica com bebês e suas mães. Revelam que, na passagem à maternidade, pode se perder
a referência que permite separar a ansiedade necessária implicada nos primórdios desse
exercício, de um afeto perturbador que invade o corpo materno diante dos cuidados com o
bebê, e que passa a ser experimentado como desamparo, estranhamento, perseguição,
sentimento de dissolução, entre tantas outras formas da angústia.
Uma paciente me procura, pois, após o nascimento do seu bebê, passou a ter, em suas
palavras, “obsessão por limpeza” e pergunta se teria TOC (transtorno obsessivo compulsivo,
sobre o qual, é, claro, já leu na internet, quase fechando seu autodiagnóstico em uma
identidade nosográfica que torna anônimo seu sofrimento. Digo quase pois está disposta a
falar e a se interrogar acerca dele). Ao se pôr a falar, localiza que a obsessão por limpeza não
foi imediata ao nascimento, mas a uma mudança de casa decorrente do novo projeto
habitacional e familiar pensado para o bebê.
Conta, sem, a princípio, dar muita importância a isso, uma cena ocorrida no dia da
mudança de casa. Diz: “A casa estava encaixotada, tudo fora do lugar e todos saíram. Fiquei
sozinha com o bebê. Ele fez cocô. Comecei a trocá-lo e, bem nessa hora, faltou luz. Me vi no
escuro, sozinha e precisando trocar o bebê sem ver. Ele chorava e eu comecei a chorar junto
com ele. Nisso chegou o meu pai e me disse que agora eu era a mãe, que tinha que dar conta.
Ao invés de me acolher, ele me deu uma paulada.” O nome do bebê é Paulo (nome fictício
mas que guarda a transliteração produzida pela paciente entre o golpe e o nome do bebê, do
qual ela se apercebe).
Após a evocação de tal cena, percebe que o que a preocupa não é qualquer sujeira,
mas justamente “procurar limpar a que não se vê”. Evoca ainda que o momento mais
perturbador é o de procurar estabelecer a separação entre um lugar extremamente
contaminado, o trabalho (trabalho este que afirma ter lhe valido o reconhecimento
preferencial do pai em relação aos outros irmãos), e o espaço dentro da casa, no qual, como
mãe, “precisa proteger o bebê”.
Conta que primeiro ficou com muita raiva do pai por sua atitude, mas que, pouco
tempo depois, este começou a “fazer e dizer coisas que pareciam de criança”, e que ela
começou a pensar se ele “não estaria ficando gagá”. “Foi outro golpe, eu não sabia o que
fazer, mas não tem mais como voltar atrás. Parece que perdi o direito de ser filha. E ser mãe é
pra sempre. Sinto um aperto no peito. Às vezes parece que vou explodir... me pergunto por
que fui colocar um filho neste mundo”- afirma.
É a partir dessa angústia experimentada como desamparo que se constitui para ela,
como sintoma, a obsessão por limpeza. Trata-se de uma mensagem desesperada endereçada a
procurar realocar uma referência, um reconhecimento na filiação, após ter ouvido palavras
que a interpelam, não só por fazê-la vacilar de seu lugar no amor paterno, mas da própria
legitimidade da palavra do pai. Sem ter desde onde sustentar-se para fazer frente à demanda
pela qual se sente interpelada, sente-se ela mesma desvalida perante o desamparo de seu
próprio bebê, “sem ter como protegê-lo apesar de todo o esforço”. É aí que o sintoma
produzido para procurar estancar a angústia, como tantas vezes acontece, faz a angústia
voltar a emergir. Por mais que lave as mãos, não consegue livrar-se de todos os pensamentos
mortíferos que a assaltam em relação ao bebê.
Apesar de vir exercendo a maternidade com bastante eficácia, como é possível
constatar pela constituição de seu bebê trazido a tratamento, recrimina-se por não conseguir
dar conta de ser uma mãe à altura de seus ideais, e, inclusive, de precisar buscar tratamento.
Compara o que considera a incapacidade de cada um de seus atos à capacidade de outras
mães, erigindo o ideal da maternidade a uma posição cruelmente persecutória.
Fala de sua mãe, da eficácia dela, sua dedicação exclusiva aos filhos, mas, ao mesmo
tempo, considera que esta “não foi uma pessoa feliz”, que, diferentemente dela, “teve um
casamento sem amor, deixando-se levar pela vida sem saber pra quê, sem pensar nas suas
escolhas”.
Uma possibilidade se abre ao situar que sua angústia, e até mesmo o tratamento,
poderiam ser um modo de ela construir singularmente sua maternidade e não mais demandar
uma psicopatologia prêt-à-porter.
Reorganizar a vida, reorganizar um sintoma, exige um considerável trabalho de
retomada da história, pela qual certas questões estruturais se reapresentam, são revisitadas e,
ao mesmo tempo, atualizadas.
Em tempos em que a duração dos laços conjugais, das configurações familiares, dos
laços profissionais e até mesmo da cidadania revelam sua instabilidade, mais a relação mãe-
filho parece ser erigida como um ideal, como um dos últimos bastiões intocados de um amor
suposto incondicional e naturalizado.
Ao mesmo tempo em que socialmente se fomentam linchamentos morais diante de
atos de abandono de bebês, mais mães chegam horrorizadas com a sua própria ambivalência
e com o fato de o amor ou saber materno não serem “automáticos" - nas palavras de uma
paciente -, e de como este amor é atravessado, nem que seja fugazmente, por um profundo
estranhamento.
Retomando um ponto específico acerca do que poderíamos chamar da angústia de
castração e inveja do pênis pós-maternidade, lembremos que Freud aponta a equação pênis
6
=falo = bebê como via preponderante de realização, do gozo fálico para mulheres. “Um dia
poderás ter um bebê” é a promessa articulada para a menina após o complexo de castração e
que lhe permitiria a entrada do complexo de Édipo.
Mas o que viria após a maternidade? O que podemos escutar hoje de mulheres em
análise após o encontro com o tão prometido e esperado falo = bebê?
O fato é que, nos últimos cem anos, houve uma diversificação na aposta de realização
fálica das mulheres. As meninas não brincam só de mamães que cuidam bebês, cozinham,
decoram a casa ou abastecem o lar. Elas brincam de trabalhar, de ser aventureiras que
ganham o mundo e de super-heroínas poderosas e destemidas – claro, ressalva seja feita, o
7
fazem sem esquecer o detalhe do penteado e a combinação do vestuário caso algum príncipe
desavisado esteja passando por ali. Isso ocorre sem que aos pais e tampouco aos psicanalistas
da atualidade tais jogos resultem demonstrações de quaisquer dificuldades na resolução de
suas equações simbólicas. Pelo contrário, afinal elas formulam respostas, por meio do
brincar, aos ideais-do-Eu próprios de seu tempo e cultura. Nada mais pertinente.
Há pouco tempo, em uma festa à fantasia de crianças, como é o usual, circulavam
meninos vestidos dos mais variados super-heróis e meninas vestidas das mais diversas
princesas. Chegou então a hora da apresentação de capoeira, e a roda foi devidamente
composta por meninos e meninas – entre os quais uma linda Rapunzel de cinco anos vestida

6 FREUD, Sigmund. (1925), pág. 223.

7 Ou seja, se lançando em um viés de realização fálica - na ordem do ter coragem, ousadia, valentia,
poderes que se recortam do corpo que se destacam falicamente dele - mas sem deixar de articular outra
dimensão do gozo que retorna sobre o próprio corpo, por meio do detalhe capaz de tornar esse corpo belo,
mascarando-o de ser o falo capaz de despertar o desejo de alguém.
de branco e cintilante cetim, com uma trança de cabelos negros que lhe chegava à altura dos
joelhos. Chamada ao jogo, arregaçou o longo vestido e pôs-se a arremessar chutes, virar
estrelinhas e plantar bananeiras, enquanto procurava esgrimir-se elegantemente de suas
longas trança e saia. Não era pequeno o esforço exigido nesse árduo desdobramento. Todos
aplaudiam regozijados: sem dúvida estávamos diante de uma verdadeira princesa de nossos
tempos! 8
Não pude deixar de me enternecer com o espetáculo, talvez de um modo menos
regozijado que a platéia, considerando não a particular posição de tal menina – da qual afinal
pouco sei -, mas a de muitas outras meninas-mulheres que escutamos na clínica e que
continuam a desdobrar-se entre diferentes gozos implicados em ser mulher, ser mãe e ser
profissional.
As pequenas princesas da atualidade assim seguem brincando. Na adolescência e
juventude fazem seus jogos amorosos -com lugar a mais ou menos exercício da feminilidade-
e suas escolhas profissionais -como uma aposta fálica, geralmente digna de ser considerada
em posição de simetria com a de qualquer outro colega ou irmão do sexo masculino. Nada
mais comum, dado que o ideal de realização profissional e sustento econômico próprio
ocupa, em grande parte das famílias da atualidade, uma posição de aparente simetria na
divida simbólica e realização de ideais, tanto para os filhos homens quanto para as filhas
mulheres.
Na análise de jovens pacientes podemos escutar o quanto, para muitas delas, ainda
que ter um bebê apareça como desejável, no entanto freqüentemente isso aparece como uma
realização lançada a um horizonte bem distante, depois de tantas outras 9. Isso não impede
que gravidezes não planejadas ocorram de modo irruptivo e que este desejo negado assuma a
significação de uma ameaça a uma série de outras realizações esperadas (tais como formação
acadêmica, independência econômica, ou inserção profissional).
Tampouco é pouco freqüente que cheguem a tratamento mulheres que, após terem
postergado durante anos o projeto de ter um bebê por priorizar à realização econômica ou
profissional, ao se encontrarem em idade limite da fertilidade, sejam invadidas pela irrupção
da angústia diante do destempo experimentando entre o que seria um tempo subjetivo
necessário para percorrer as equivalências fálicas antes de chegar ao bebê, o tempo
cronológico implicado em tais realizações e o limite temporal imposto pelo real do corpo à
fertilidade.
Após o advento da maternidade e da realização de ter um bebê podemos constatar em
diversas mulheres, muitas das quais, inclusive, que exercem de modo extremamente desejoso
e amoroso a maternidade, mais do que uma resolução da angústia de castração um novo
comparecimento da mesma; mais do que um apaziguamento da disputa fálica, seu
recrudescimento.
Nas palavras de um esposo: “Depois que ela virou mãe despertou uma agressividade
até então para mim desconhecida”. Nas palavras de uma mulher se digladiando entre o
impossível cálculo de investir de modo pleno em duas realizações fálicas ao mesmo tempo –a
maternidade e a profissão- e, comparando-se ao marido: “Quisera eu ter um pau no meio das
pernas para poder pôr o meu trabalho em primeiro lugar” – direito do qual um dia de fato
supôs ter usufruído, mas que, ao tornar-se mãe, sente que perdeu. Por outro lado revela a

9
Se, como Freud nos aponta, é longa a espera que a menina precisará fazer, após a entrada no complexo
de Édipo, até que chegue o tempo de ter um bebê, tendo que, inevitavelmente sofrer tal espera, é
interessante fazer notar que, quando é chegado o tempo em que efetivamente poderiam ter um bebê,
tantas mulheres escolham postergar tal realização a um tempo distante, que parece não implicar-se com o
modo em que efetivamente conduzem suas escolhas. Claramente, não estamos nos referindo aqui a
mulheres que escolhem legitimante não ter filhos, mas de algumas que parecem insistir em manter,
perpetuar, em uma esfera onírica tal realização (almejada e postergada).
ilusão de que, ao tê-lo (o pau no meio das pernas), poderia fazer a função fálica valer de
modo mais competente que esse homem.
Que uma mulher faça usufruto de um gozo fálico não impede que visite uma condição
feminina. Ou seja, o fim passivo (de ser amada e desejada) que se joga na posição erótica
feminina não se estende necessariamente à condição social de uma mulher, assim como seu
papel ativo na sociedade não tem por que impedir que, para além de tais realizações fálicas,
10
usufrua de um gozo feminino.
Assim, maternidade e trabalho são vividos imaginariamente como concorrentes
opostos na realização fálica, pelo qual o investimento crescente em um implicaria
necessariamente o desinvestimento proporcional do outro. É aí que a angústia de castração
vem bater novamente à porta, ou melhor, entra sem avisar.
Queixam-se as mulheres na pós-maternidade de que estão em posição assimétrica
para com os homens em relação ao trabalho. Assim, a maternidade vêm devolvê-las a um
lugar de assimetria, após um tempo em que consideraram estar em pé de igualdade –ou “taco
a taco com os homens” , nas palavras de uma paciente – no tempo, mais uma vez dado como
perdido, em que teriam tido a mesma possibilidade de realização fálica que os meninos, mas
que perderam. Reedita-se assim a angústia de castração.
Assim, a experiência da maternidade costuma produzir em uma mulher um intenso
sentimento de realização ao mesmo tempo em que a leva a um reencontro com a sua própria
condição feminina, uma vez que a cena ou a “paisagem” da castração materna é agora
revisitada não mais desde a condição de criança, mas desde um novo ponto de vista que só se
adquire ao ultrapassar a condição de filha, indo mais longe nessa viagem e após percorrer
um caminho tão longo 11: o ponto de vista do lado da mãe.
Se para as primeiras gerações de mulheres trabalhadoras a questão de que o faziam
“por gosto e escolha” as lançava a uma posição de terem de suportar a sobrecarga de seus
diferentes afazeres, as mulheres-mães-trabalhadoras da atualidade parecem muito menos
dispostas a arcar sozinhas com tal modo de organização social, convocando os homens-pais a
também se ocupar dos bebês. Surgem assim novos termos, tal como o pãe, para denominar o
pai que se ocupa também dos cuidados do bebê.
No entanto, para além das questões práticas do cotidiano, o lugar ocupado pelo bebê
na economia psíquica de alguém que está em posição feminina ou masculina não é o mesmo.
E muitas mulheres só se apercebem disso com um tremendo mal-estar na medida em que se
deflagra a diferença sexual.
O bebê, para uma mulher, ao mesmo tempo em que pode produzir uma articulação da
equação fálica (trazendo assim uma realização) também faz comparecer uma falta (a
descompleta). Diante da realização de ter um bebê surge a ameaça da perda da colocação
profissional e/ou do próprio corpo como objeto do desejo.
É fato que o cobertor fálico sempre é curto. Ao espichá-lo daqui ele descobre dali. O
que é próprio da angústia de castração é o esteio deixado pela retirada do falo que se
evanesce, pelo que aparece toda vez que o fluxo fálico recua e se mostra a areia, nos diz

10Freud mesmo nos aponta esta questão ao afirmar que “talvez seja o caso de que numa mulher, com
base na sua participação sexual, a preferência pelo comportamento passivo e por fins passivos se
estenda à sua vida (...) devemos, contudo nos acautelar nesse ponto, para não subestimar a influência
dos costumes sociais que, de forma semelhante, compelem as mulheres a uma situação passiva”Freud,
Sigmund (1933), p. 143.

11
Idem , p. 302.
Lacan. 12
Escutamos mulheres evocarem os primeiros tempos dedicados aos cuidados de um
bebê de modo extremamente ambivalente: por uma lado desfrutando do idílio do estar “fora
do mundo com esse bebê”, por outro, referindo o insuportável do estar “fora da circulação
social” do trabalho, da produção cultural, do desejo sexual. Por um lado almejando “sair para
trabalhar” e, por outro, “não conseguindo tirar o bebê da cabeça”.
Em qualquer um dos pólos a angústia comparece:
13
- Ás vezes sinto que eu desapareci - diz a mãe de um bebê, revelando a afânise que
se apresenta como um dos modos da angústia na maternidade pelo temor de apagamento do
sujeito diante de um objeto outrora tão desejado e agora supostamente presentificado.
- “Depois que nasce é muito estranho. Ter um bebê não é aquilo tudo! E a vida já
não é mais a mesma. Perdi minha liberdade, não posso mais ir e vir”- afirma outra mãe.
O sofrimento com “o fora de circulação social” costuma vir a apresentar-se sobre o
fundo de que o bebê não cumpre plenamente com a promessa fálica e, apesar de todas as
exigências produzidas pelos cuidados que a mãe precisa dirigir-lhe, ele nunca é um falo que
se mantém em potência, ele esvaece. Esta necessária desilusão com o “pequeno” confronta
sem piedade, mais uma vez, uma mulher à angústia de castração – na medida em que, mesmo
depois de “ter um bebê” ela não é detentora do falo.
Freqüentemente tal percepção conjuga-se com o temor de tampouco poder voltar a
14
reconstituir uma mascarada que lhe permitisse ser suposta no lugar de quem, mesmo não
tendo o falo, poderia sê-lo para alguém. Nesse sentido vão as insistentes queixas de “ter
perdido os atrativos físicos” ao ter virado mãe. Temos aí duas caras da angústia de castração
– a de não ter e tampouco ser o falo, no sentido de temer não poder retornar à posição de
15
encarnar o falo a partir do desejo do Outro.
Após a licença maternidade, o retorno ao trabalho e à circulação social tampouco vêm
devolver compulsoriamente aos investimentos fálicos sua estabilidade, na medida em que o
temor de expor o bebê a uma falta excessiva - que supostamente caberia a ela, enquanto mãe,
saber dosar - freqüentemente assalta angustiosamente essas mulheres-mães-trabalhadoras.
- Meu filho me virou a cara quando voltei do trabalho - afirma uma mãe que, onde
esperava encontrar o olhar desejoso de seu bebê, como num quadro de Magritte 16, se
encontra com sua nuca. A angústia de estranhamento passa, nesse momento, para o lado da
mãe.
Tal é o cálculo do gozo fálico diante da maternidade, ou perde-se o bebê, ou perde-se
o trabalho, ou perde-se o próprio corpo como fálico.
Se a oposição imaginária entre profissão e maternidade experimentada por mulheres
na atualidade não foi calculada na equação de Freud ela, mais uma vez, vem atualizar a velha
questão dos efeitos produzidos pela angústia de castração para uma mulher. Nesse sentido a
maternidade, mais do que resolvê-la, vem relançá-la, ao deslocar metonimicamente a

12
LACAN, Jacques. (1962-1963), pág. 293.
13LACAN, Jacques. (1964), pág. 226-229.

14 RIVIÉRE, Joan (1929).

15 O fato de ela se exibir e se propor como objeto do desejo identifica-a, de maneira latente e secreta,
com o falo, e situa seu ser de sujeito como falo desejado, significante do desejo do Outro. Esse ser a situa
para além do que podemos chamar de mascarada feminina, já que, afinal, tudo o que ela mostra de sua
feminilidade está ligado, precisamente, a essa identificação profunda com o significante fálico. LACAN
(1957), pág. 393.

16
MAGRITTE, René, La Reproduction Interdit (1937).
castração ao longo dos termos da equação fálica que jamais efetuam entre eles uma plena
substituição.
Escutar mulheres no puerpério e com pequenos bebês nos demonstra que a
maternidade, longe de ser uma tranqüila resolução da antiga questão que habita cada mulher
acerca de como lidar substitutivamente com o falo, relança a angústia de castração e a divisão
da mulher diante de diferentes modos de gozo –atualiza assim para ela sua condição de não-
toda no gozo fálico.
- Agora que você é mãe verá o que é nunca mais estar inteira em lugar algum - é a
frase dita por uma amiga de uma paciente e por ela evocada acerca do afeto nela despertado
após a maternidade.
E, por acaso, antes disso ela estaria inteira? Certamente não.
Em todo caso a maternidade escancara não só a angústia da castração e a
evanescência do falo, mas a divisão da condição feminina, na medida em que ser mãe não
responde o que é ser mulher e diante da qual a inveja do pênis comparece como engodo.
Muito se diz: ser mãe é padecer no paraíso. Este parece ser um modo de fazer
desembocar a maternidade em um gozo masoquista, o que é bastante usual por sinal, mas não
necessariamente intrínseco à maternidade. 17 Ali, para além de experimentar prazer na dor,
busca-se provocar a angústia do Outro 18.
Talvez isso nos indique o absurdo de procurar encerrar aquilo que diz respeito ao
bebê a uma medida da equação fálica, o que torna a questão um círculo infernal 19. Se de fato
considerarmos que a maternidade faz uma mulher revisar os caminhos possíveis perante a
castração podemos considerar que, para além da equivalência fálica, haja a possibilidade de
fazer na maternidade atos de criação, de exceção, que em lugar de buscar a
complementariedade com o bebê possibilitem inventar suplementarmente pela via de um
gozo Outro.
Por que não contemplar a possibilidade de fazer com a maternidade um pouco de
humor no inferno?
Acerca disso, evoco, para terminar, um pequeno chiste inicialmente involuntário
produzido por um casal exausto com os cuidados exigidos pelo pequeno bebê.
Resulta que, no meio da noite, um cutuca o outro para decidir qual deles vai, dessa
vez, atender o bebê. Finalmente a mãe diz ao pai:
- Vai, vai lá! E não esquece que tem que trocar o bebê.
O pai, quase em estado de sonambulismo, responde:
- Trocar? Trocar pelo quê?
Com o qual os dois caem na gargalhada.

Bibliografia:

- DEUSCH, Helen. O Masoquismo “feminino” e sua relação com a frigidez (1929), Décimo Primeiro
Congresso Internacional Psicanalítico, Oxford; traduzido in: Boletim da Associação Psicanalítica de Porto
Alegre, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p.10-13, 1990.

17
Diferentemente dos postulados de Helen Deusch (1929).
18
LACAN, Jacques. (1962-1963), pág. 195.
19
Como nos demonstram tantos casos clínicos nos quais a criança é tomada diretamente como medida fálica da
mãe. Casos em que a birra da criança, sua recusa alimentar, sua retenção de fezes se produz como uma tentativa
de estabelecer uma falta nesse curto-circuito fechado em relação à demanda da mãe, que costuma revelar-se
pela queixa materna de: "eu renunciei a tudo para me dedicar a ela e ela faz eu me sentir incompetente".
- FREUD, Sigmund. A dissolução do complexo de Édipo (1924). In: _____. Obras Completas, Rio de Janeiro,
ed. Imago, 1976, v. 19.

- ____________. Algumas conseqüências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos (1925). In: _____.
Obras Completas, Rio de Janeiro, ed. Imago, 1976, v. 19.

- ____________. Conferência XXXIII: Feminilidade (1933), In: _____. Obras Completas, Rio de Janeiro, ed.
Imago, 1976, v. 22, pág. 143.

- RIVIÉRE, Joan. La féminité em tant que mascarade (1929). In: La Psychanalyse, P.U.F., Paris, n. 7, 1964.

- KEHL, Maria Rita. A mínima diferença: masculino e feminino na cultura, Rio de Janeiro, Imago, 1996.

- LACAN, Jacques. El seminário de Jacques Lacan, aula de 27 de fevereiro de 1957. Transcrição em


versão eletrônica estabelecida para circulação interna pela Escuela Freudiana de Buenos Aires.

- ____________.O seminário, livro5, As formações do inconsciente (1957-1958), Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Ed., 1999.

- ____________. O seminário, livro 10, A angústia (1962-1963), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2005.

- ____________. El seminário, libro 11, Los cuatro conceptos fundamentales del psicoanálisis (1964), Buenos
Aires, ed. Paidós, 1987.

____________. O seminário, livro20, Mais Ainda, (1972- 1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1985.

- WINNICOTT, Donald. Preocupación maternal primaria, (1956). In: Escritos de pediatria y psicoanálisis,
Barcelona, ed. Laia, pág. 405-412.
Quando o que se antecipa é o fracasso...
Prevenção secundária e Estimulação Precoce 1
Julieta Jerusalinsky 2

Bom, vamos ver o que conseguimos fazer para tornar a apresentação deste trabalho algo
estimulante.
Não estou tomando a palavra estimulante aqui no sentido de puros estímulos sensoriais: não
estou com nenhum chapéu colorido, tampouco lhes oferecendo um espetáculo de luzes e som,
simplesmente apostando que algo da fala, da lógica na qual se organiza o que venho oferecer-lhes,
possa incitar o desejo de vocês nesta interlocução sobre a intervenção com bebês.
Temos aí um ponto de partida para uma longa discussão acerca das diferentes vertentes em que a
palavra estímulo pode ser tomada na intervenção com bebês. Já que não podemos negligenciar que, há
aproximadamente trinta anos, tal campo tem sido denominado em diferentes países como Estimulação
Precoce - ainda que, ao longo desses, também tenham surgido outros nomes como Educação Precoce
ou Intervenção Precoce. É interessante notar que, enquanto em relação ao termo Precoce (ou
Temprano em espanhol) parece existir um tácito acordo, que não dura muito quando interrogado em
seus fundamentos, a palavra Estimulação aparentemente é causa de um maior desconforto.
Ainda que a palavra estímulo possa significar um puro golpe perceptivo recebido de forma
anônima desde o meio, este não é seu único significado. No dicionário também podemos encontrar
outro que lamentavelmente costuma ser esquecido em muitas das intervenções realizadas com bebês:
estímulo pode também denotar que algo é estimulante, que incita e que desperta o desejo.
É justamente esta segunda significação que interessa na clínica da Estimulação Precoce quando
esta aponta a que o bebê possa chegar a se constituir como um sujeito que, em nome de um desejo,
utilize os diferentes esquemas psicomotores, cognitivos ou de comunicação como efetivas aquisições.
É por isso que falamos de uma clínica em Estimulação Precoce atravessada pela psicanálise, em lugar
de situar tal prática no âmbito da reeducação de diferentes funções.
Depois destas breves considerações acerca do "estímulo" na clínica, vamos passar ao ponto que
aqui nos convoca, relativo à interface que o "precoce" faz com a prevenção.
Como clínicos, cotidianamente recebemos, em instituições particulares ou em serviços
públicos, bebês com danos orgânicos estabelecidos. Mas, se já partimos de um problema orgânico
presente no bebê, em que estatuto situamos o trabalho preventivo?
Constatamos que as patologias orgânicas que acometem um bebê _sejam elas de ordem
genética, lesional ou de má-formação congênita, comparecendo sob o modo de deficiências físicas,
sensoriais ou mentais, específicas ou múltiplas_ surtem efeitos que vão além do dano orgânico que
comportam.
Diante de uma patologia orgânica no recém-nascido, rapidamente prolifera a produção de
diferentes respostas que procuram recobrir a irrupção do real que ela produz. Nem sempre se abre o
espaço necessário para que tais respostas possam ser produzidas pelos pais, já que muitas vezes elas
são prontamente interpostas por médicos ou terapeutas.

1
O presente artigo -publicado no livro Atendimento ao Bebê, org. Maria do Carmo Camarotti, ed. Casa do
Psicólogo - relaciona-se à apresentação realizada no Segundo Encontro Nacional Sobre o Bebê (Recife,
setembro de 2000). Tal apresentação teve o título “É possível prevenir ou só resta remediar?” e constitui
um capítulo da tese “A temporalidade na Clínica de Bebês”, defendida em 1999 na FEPI- Fundación
para el estudio de los problemas de la infancia- Buenos Aires, Argentina. No entanto, neste artigo,
escolhemos priorizar os aspectos de prevenção secundária o que, para aprofundar o tema, nos obriga a um
recorte da apresentação original.
2
Psicanalista; Especialista em Estimulação Precoce pela FEPI, Buenos Aires; Membro da APPOA e do
Percurso Psicanalítico de Brasília.
Se a incidência de um dano orgânico é da ordem do inexorável, do que não pode ser modificado,
por outro lado sabemos que uma mesma patologia pode assumir diferentes representações psíquicas
inconscientes que se revelarão como mais propiciadoras ou mais limitantes para o bebê em seu
desenvolvimento e constituição como sujeito.
É na medida em que diante do orgânico se tece alguma tentativa de inscrição que se produz, a
partir do mesmo, um sintoma psíquico. Ou, para dizê-lo em outras palavras: um sujeito não pode
padecer do que não tem registro. Mas, ao tratar-se de um bebê, já que ele mesmo, por sua condição de
infans, encontra-se sujeitado à tela simbólica do Outro Primordial, é do enlace com este Outro
Primordial que irá inicialmente provir a inscrição de sua patologia.
É inquestionável que um bebê com uma lesão, com uma síndrome ou uma má formação conta
com menos vias ou tropeça em mais limitações orgânicas. Mas que tais limitações adquiram ou não o
estatuto de um obstáculo no estabelecimento do laço com o Outro Primordial é um aspecto
fundamental a trabalhar no campo da prevenção secundária. Pois se o que é da ordem do problema
orgânico já está decidido, o mesmo não pode ser dito em relação à construção de seu corpo.
“O corpo é antes de mais nada um receptáculo, um lugar de inscrição, uma trama
implacavelmente destinada a imprimir-se com os cenários, as cores de outro...” 3.
Não podemos negligenciar que, diante de certas patologias, como a surdez ou deficiência
mental, que podemos tomar como exemplos entre tantas outras, o orgânico faz comparecer uma menor
permeabilidade na recepção das marcas que provêm do Outro Primordial. Mas a clínica nos mostra
que tornam-se ainda mais graves para um pequeno paciente os efeitos imaginários das patologias
quando o que dele se diz é: "falamos pouco com ele porque não ouve” ou “porque não sabemos se
consegue entender o que lhe dizemos”. Aí vemos como algo da ordem de uma limitação orgânica
passa a operar como obstáculo no estabelecimento do laço entre o bebê e o Outro Primordial.
Diante de um mesmo problema orgânico de base podem vir a se produzir diferentes sintomas.
Estes se produzem como efeito do encontro entre o que a patologia do recém-nascido comporta de real
e a sobredeterminação da estrutura simbólica que opera no estabelecimento do laço desde o qual os
pais tomam inconscientemente o bebê.
Se por um lado há uma limitação presente no organismo do recém nascido, e por outro a
sobredeterminação simbólica da estrutura parental na qual o bebê é recebido, há ainda um terceiro
aspecto a considerar: as conseqüências que os diagnósticos e intervenções podem ter num tempo tão
precoce em que o laço pais-bebê ainda está sendo estabelecido e, por isso mesmo, se caracteriza por
ser extremamente suscetível às atribuições e diferentes dizeres de médicos e clínicos.
Neste sentido, detectamos, de modo bastante recorrente, a incidência de dois mecanismos que se
interpõem no estabelecimento do laço pais-bebê:

- O mecanismo das profecias auto-realizáveis


- A antecipação de insuficiência no bebê

Ao tratar-se de bebês com problemas orgânicos de base encontramos um mecanismo que ocorre
frequentemente na economia. Na economia denominam-se profecias auto-realizáveis os efeitos
produzidos pelo rumor de que, por exemplo, um banco corre o risco de quebra financeira. A partir do
rumor, todos os correntistas subitamente retiram seus investimentos e, com isso - independentemente
de que o rumor da quebra tenha sido verdadeiro ou não-, seu efeito se realiza, e a conseqüência é a
falência bancária.
Um mecanismo homólogo opera no laço de diversos pais com seus bebês, pois as diferentes
realizações que lemos como desenvolvimento - de ordem psicomotora, de aquisição da fala, de hábitos
da vida diária ou de aprendizagem- não acontecem espontaneamente. Elas se produzem como efeito
do enlace do orgânico do recém-nascido à ordem que vigora no circuito de demanda e desejo do Outro
3
Jean Bergès (1985) Le corp et le regarde de L’Autre; Escritos da Criança, número 2, Porto Alegre,
Brasil.
Primordial -se produzem, então, como efeito de um investimento. Ocorre que a presença de uma
patologia e as fantasias inconscientes que ela engendra têm seus efeitos neste investimento.
Percebemos isto claramente a partir de dois recortes clínicos: por exemplo, no caso de um menininho,
o "mamama" que ele produzia em seu balbucio não era sancionado como "mamãe" porque os pais
tinham entendido, a partir do diagnóstico, que seu filho jamais iria falar. Ou, no caso de uma pequena
paciente de três anos, à qual não era oferecido o penico porque dela não se esperava –e, portanto, não
se demandava- o controle esfincteriano.
O que se espera, o que se imagina do futuro de uma criança, é posto em jogo em cada uma das
demandas que lhe são supostas e que lhe são dirigidas. Por isso, as mesmas podem ser silenciadas
quando se supõe que o bebê é incapaz de produzi-las ou a elas responder. E assim, tal incapacidade
pode acabar cumprindo-se no bebê –mesmo que não haja nada da patologia orgânica que assim o
determine - por efeito das expectativas engendrados desde imaginário parental.
Os comunicados de diagnósticos precoces comportam algo de inevitavelmente traumático,
porém efeitos bastante mais devastadores geralmente ocorrem quando, diante da angústia que tal
comunicado desperta, os médicos ou agentes de saúde tentam recobrir a irrupção do real provocada
pelo diagnóstico com suas próprias versões imaginárias acerca do futuro de um bebê.
Se o estabelecimento do real é um passo necessário na direção da cura, é fundamental para os
efeitos de filiação de um recém-nascido que os pais, para além das informações que precisam receber,
possam pôr em movimento as suas próprias significações e ressignificações acerca do que temem e do
que os preocupa em relação à patologia e à incidência da mesma no futuro sonhado para seu filho.
Daí a importância de que, na clínica da Estimulação Precoce, ocorra uma escuta do discurso
parental, escuta que esteja atenta e intervenha em relação aos investimentos e expectativas que
operam em relação ao bebê.
No entanto, importantes efeitos desta clínica se produzem não só pela escuta do discurso
parental, mas também pela intervenção que, em presença dos pais, se dirige ao bebê supondo-o como
capaz de certa realização. É então que, pela transferência que os pais nos endereçam, intervimos em
ato ao deslocar a posição que o bebê tem na cena. Assim operamos quando supomos o balbucio como
fala, o sorriso como endereçado a alguém entre os presentes ou quando ofertamos uma nova postura
que os pais não consideram possível, mas que, como clínicos, podemos ler desde as produções do
bebê que ele tem as condições funcionais de realiza-la 4.
Com bastante freqüência escutamos os pais dizerem diante de tais cenas: "é a primeira vez que
ele faz isso!". O que ali importa não é tanto que seja ou não de fato a primeira vez que ocorre
determinada produção. O que há de importante nesta fala é o testemunho dos pais diante da surpresa
com a realização do bebê que se oferece aos seus olhares, que faz operar neles pela “primeira vez” o
reconhecimento fálico de seu filho.
Por isso a clínica em Estimulação Precoce permanentemente nos demostra o quanto o acesso a
uma determinada produção instrumental por parte do bebê, quando esta é reconhecida desde o
discurso parental, pode ser propiciadora da instauração da suposição de um sujeito.

Outro dos mecanismos que freqüentemente se interpõe no laço pais-bebê em presença de uma
patologia orgânica de base é a de suposição de insuficiência.
Em grande parte dos casos de crianças que apresentam problemas orgânicos de base
encontramos superposto um sintoma de passivização psíquica. Pois, na medida em que um bebê é
antecipadamente suposto como incapaz, nos cuidados que lhe são dirigidos isto comparece em uma
supressão da passagem dos tempos pulsionais entre o fazer na criança (em que a criança é falada,
movida, ou seja, está tomada desde uma passividade) e o dar lugar para ela fazer (no qual se abre
lugar para sua atividade).

4
Para poder ler estas produções se tornam imprescindíveis nesta clínica conhecimentos vindos da
neurologia, psicomotricidade, lingüística, entre outros.
Diante da expectativa que recai sobre o bebê de que ele não teria condições de aceder às
diferentes aquisições, uma das respostas formuladas é a de procurar suplantar a sua suposta
insuficiência com a "estimulação a mais" que o saber técnico viria a oferecer. Diferentes intervenções
instrumentais acabam por ficar tomadas neste mecanismo sintomático que condena o bebê à
passividade, ao fazê-lo objeto da técnica que nele se aplica.
Quando as manifestações sintomáticas se fazem presentes em vários aspectos do
desenvolvimento, os bebês são levados do fisioterapeuta ao terapeuta ocupacional (T.O.), do T.O ao
fonoaudiólogo, deste ao psicólogo e assim por diante. Recolhemos os efeitos iatrogênicos da
intervenção multidisciplinar, que, ao propor intervir sobre cada um dos déficit funcionais, acaba por
lançar o bebê à fragmentação anônima das funções.
Em um tempo de intervenção tão precoce em que o pequeno paciente ainda não tem o Eu
constituído, é preciso que, desde a clínica, estejamos atentos a não interpor possíveis obstáculos no
estabelecimento de um olhar que, desde o Outro Primordial, possibilite ao bebê reconhecer-se desde
um corpo unarizado 5. Neste sentido é que se propõe a intervenção de um único terapeuta no marco da
Estimulação Precoce. No entanto, também sabemos que certos problemas que se apresentam no
desenvolvimento fazem necessários os conhecimentos de diversas disciplinas. Daí é que a intervenção
de um terapeuta único em Estimulação Precoce só possa ocorrer no marco interdisciplinar 6, desde o
qual os conhecimentos das diferentes disciplinas são convocados, mas articulados em torno de um
eixo clínico fundamental: a constituição do sujeito.

Assim sendo, consideramos que o trabalho de prevenção secundária não consiste na tentativa de
procurar suplantar antecipadamente as diversas funções que se pressupõem como fracassadas em um
bebê.
Operamos sim com os efeitos de antecipação de um sujeito, pois supor um sujeito no bebê é
condição para que ele possa advir como tal, para que possa vir a imaginariamente "ter" um corpo e
utilizar as diferentes aquisições instrumentais em nome de um desejo. É isto que irremediavelmente se
perde quando, a cada movimento clínico, o que se antecipa do bebê é um fracasso.

5
A este respeito ver: Jacques Lacan (1949) El estadio del espejo como formador de la función del Yo (Je)
tal como se nos revela en la experiencia psicoanalítica, Escritos 2, ed. Siglo Veintiuno , Argentina; e
(1953) A tópica do Imaginário, O seminário: livro um, ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro.
6
A modalidade de intervenção de um Terapeuta único em Estimulação Precoce no marco
Interdisciplinar é proposto e utilizado há mais de vinte pelas equipes do Centro Lydia Coriat de Porto
Alegre e de Buenos Aires na intervenção com bebês. A fundamentação teórica de tal dispositivo pode ser
encontrada em diferentes produções escritas publicadas por essas instituições, tais como a séries
Cuadernos del Desarrollo Infantil, Buenos Aires; Escritos da Criança, Porto Alegre; Escritos de la
Infancia, Buenos Aires; o livro de autoria de Alfredo Jerusalinsky, Psicanálise e Problemas do
Desenvolvimento Infantil ed. Artes e Ofícios; e o livro de autoria de Elsa Coriat, Psicanálise e clínica com
bebês, ed. Artes e Ofícios, entre outros.
PARA QUEM A COR VERMELHA É IMPORTANTE?
REFLEXÕES SOBRE A CLÍNICA
INTERDISCIPLINAR EM ESTIMULAÇÃO PRECOCE
(PUBLICADO EM REVISTA DA APAE “TEMAS SOBRE DESENVOLVIMENTO, V. 12,
DEZEMBRO DE 2003)
Julieta Jerusalinsky*
Zulema Garcia Yañez*

Gostaríamos de trazer duas ou três reflexões sobre a clínica interdisciplinar em estimulação


precoce e sobre aquilo que os bebês têm nos ensinado pelo fato de serem “desobedientes” à
compartimentação do conhecimento científico - uma vez que seu desenvolvimento e constituição
psíquica não correspondem ao critério de múltiplas intervenções fragmentadas área por área.
Para tanto, vamos partir de alguns conhecimentos estabelecidos para depois situarmos
algumas questões que, ainda hoje em dia, são motivo de debate acerca da intervenção com a
primeira infância.
Há mais de 30 anos vem sendo denominado como Estimulação Precoce 1 (E. P.) o campo
da clínica com bebês que apresentam problemas em seu desenvolvimento e constituição psíquica –
com ou sem patologias orgânicas de base.
Ao longo desses anos, a experiência clínica com crianças pequenas e as descobertas
científicas - entre as quais podemos situar as da neurologia, com o conceito de plasticidade
neuronal 2- foram demonstrando a importância decisiva dos primeiros anos de vida para a
constituição psíquica e as aquisições instrumentais – de linguagem, psicomotricidade e
construção do pensamento.
Portanto, apesar de as características genéticas estarem determinadas ao nascer, impondo
certos limites orgânicos – e, por isso, organicamente, não é indiferente ser ou não ser portador de
uma síndrome -, sabemos que as experiências de vida jogam um papel decisivo para o
desenvolvimento. Tais experiências podem permitir que uma criança tire o máximo proveito das
potencialidades orgânicas com que nasceu ou, pelo contrário, podem deixar marcas simbólicas
que introduzam efeitos muito mais limitantes que os impostos por uma patologia orgânica em si.
Nesse contexto, a primeira infância fica situada como uma etapa decisiva, dado que se
caracteriza pela extrema plasticidade neuronal, ou pelo que podemos chamar de permeabilidade
psíquica a marcas simbólicas.
Daí a importância da realizar uma detecção precoce de patologias, pois a idade em que
uma intervenção clínica ocorre não é indiferente para os efeitos que ela possa vir a ter na vida de
um bebê. Uma vida pobre em estímulos durante os primeiros anos de vida produz danos
psíquicos e orgânicos que dificilmente podem ser remediados com posteriores intervenções.

1
UNICEF, diversos autores (1978). Estimulación Temprana – importancia del ambiente para el desarrollo
del niño, segunda edição, Santiago de Chile.
2
Ver: Kandel, E.R., Shuartz , J.H., Jessell, T.M. (1995) Essentials of Neural Science and Behavior, Appeton
&Lange, Prentice Hall International (UK) Limited, London; Jerusalinsky, D. (1997) “Células
nerviosas, sinapsis y plasticidad”, texto publicado en “Escritos de la Infancia” Número 8, editado por
el Centro Dra. Lydia Coriat de Buenos Aires, Argentina.
Mas aí se apresenta uma primeira questão decisiva em relação à clinica da estimulação
precoce: o que entendemos por estímulo?
Ainda que a palavra estímulo possa significar um puro golpe perceptivo recebido de forma
anônima desde o meio, este não é seu único significado. No dicionário também podemos
encontrar outro que, lamentavelmente, costuma ser esquecido em muitas das intervenções
realizadas com bebês: estímulo pode também denotar que algo é estimulante, que incita e que
desperta o desejo.
É essa segunda significação interessa na clínica da Estimulação Precoce quando a
intervenção aponta a que o bebê possa chegar a se constituir como um sujeito que, em nome de
um desejo, utilize os diferentes esquemas psicomotores, cognitivos ou de comunicação como
efetivas aquisições.
Por isso, quando situamos as experiências de vida que têm efeitos constituintes para um
bebê, estamos nos referindo não só à experimentação que um bebê possa fazer com diferentes
objetos do mundo, mas fundamentalmente à relação, ao laço que o bebê estabelece com algumas
pessoas centrais para sua existência: aquelas que encarnam a função materna e paterna. É a partir
de tal laço afetivo que se estabelece um sentido simbólico para a existência do bebê. E é somente
a partir de tal laço que a exploração que o bebê possa vir a fazer dos objetos que o rodeiam
adquire qualquer significação.
Nesse sentido, é interessante recordar que a origem etimológica do termo estímulo
encontra-se ligada a estilo e a escrita. É a partir da inscrição em seu corpo dos significantes da tela
simbólica parental que se estabelece no bebê um estilo de funcionamento de suas funções.
Justamente, quando intervimos com bebês estamos intervindo no tempo das primeiras inscrições,
das primeiras marcas simbólicas que definirão se um bebê estará em posição de apropriar-se do
domínio de seu corpo e de uma exploração do seu entorno.
Este é um ponto central que a clínica nos apontou ao longo de 30 anos de atendimento a
bebês, crianças e adolescentes com problemas de desenvolvimento no Centro Lydia Coriat: a
importância de trabalhar sim com a eficácia das diferentes funções – produzindo realizações
cognitivas, psicomotoras, de linguagem, de hábitos de vida diária - mas atrelando tal eficácia
funcional à constituição do sujeito psíquico que possa vir a apropriar-se delas.
Situa-se aí uma diferença fundamental entre a clínica em estimulação precoce sustentada
em um marco interdisciplinar e a prática multidisciplinar que intervém desde uma lógica de
reabilitação fragmentada área por área, a partir da qual os bebês com problemas de
desenvolvimento são levados do fisioterapeuta ao terapeuta ocupacional (T.O.), do T.O. à fono,
da fono ao psicólogo e assim por diante, na esperança de que as diferentes disciplinas, cada uma
sanando sua parte, possam produzir um efeito de desenvolvimento. É verdade que, se nos
ativermos a olhar área por área, tais funções estimuladas até melhoram, mas o que muitas vezes
se perde nessa corrida contra as tabelas do desenvolvimento é o que o bebê quer fazer com isso.
É aí que nos deparamos com uma importante função de prevenção secundária na clínica
com bebês. Ainda que nosso trabalho não possa suprimir os inexoráveis efeitos de patologias
orgânicas de base, sim podemos intervir no sentido de minimizar as limitações que estas impõem
a um bebê:
- Em primeiro lugar, trabalhando com a representação que a patologia de uma criança
assume desde o discurso dos terapeutas, da sociedade e da família, ou seja, com as
fantasias que se estabelecem a partir da patologia, já que os mesmos podem ter
efeitos muito mais limitantes que a patologia orgânica em si.
Para tanto é preciso escutar o que os pais têm a dizer sobre seus filhos. Assim como,
mais adiante, será também preciso intervir junto aos professores dos jardins de
infância, dando suporte à inclusão escolar da pequena criança e às suas primeiras
experiências de circulação social.
- Em segundo lugar, intervindo com os bebês e pequenas crianças por meio do brincar
e das situações de vida diária. Ou seja, colocando nosso conhecimento a serviço das
situações espontâneas da vida em lugar de submeter os pais e os bebês a técnicas pré-
configuradas que não respondem aos seus valores de vida, interesses ou conflitos
cotidianos.
- Em terceiro lugar, evitando os efeitos psiquicamente desagregadores que as múltiplas
intervenções surtem para o bebê e para os pais.

Isso levanta outra importante questão, pois o saber científico da atualidade está constituído
de um modo fragmentado. Temos os especialistas de cada área.
Mas por que é o bebê quem teria que suportar tamanha fragmentação do conhecimento?
Por que fazer recair a lógica da área por área sobre o pequeno corpo do bebê?
O mais lógico é que, ao contrário, nós, que intervimos com bebês que apresentam
problemas do desenvolvimento, estejamos atentos às peculiaridades que intervir com bebês
comporta. Pois estamos intervindo em um tempo em que ainda nem sequer este pequeno
paciente tem um Eu constituído. E tal constituição pode ser posta em risco quando o que recai
sobre o bebê e sobre os pais são múltiplos olhares sobre seus esparsos déficits.
Diante de tal impasse é que foi criado o dispositivo clínico do terapeuta único em
Estimulação Precoce sustentado em uma equipe interdisciplinar, utilizado há anos no Centro
Lydia Coriat. Tal dispositivo implica que seja um o clínico a cargo da direção da cura de um
bebê. Tal clínico intervém com o bebê e seus pais e tem regulares reuniões de equipe com os
especialistas das diferentes áreas do conhecimento para discussão e acompanhamento do caso.
Ainda está aberto um espaço em que os pais podem ter entrevistas regulares com um psicanalista
para falar de questões que os angustiam ou preocupam em relação ao seu filho.
Claro, propor que seja o clínico quem dá conta da fragmentação do conhecimento em lugar
de expor ali o bebê levanta uma terceira questão: a questão da formação do clínico em E.P.. Por
isso consideramos que trabalhar com bebês requer uma formação específica que não está dada
por nossas formações de base, quer sejamos psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais,
ou fonoaudiólogos.
Consideramos que tal questão é central na clínica com bebês, dado que estamos intervindo
em um tempo em que o Eu ainda não está constituído e portanto não está constituído o sujeito
que possa vir a apropriar-se das diferentes funções de olhar, ouvir, falar, andar, etc.
Para tanto, uma operação clínica fundamental na clínica da estimulação precoce é a de
sustentação da função materna e paterna. É a partir de tais funções que se estabelece o sentido
da vida a partir do qual um bebê poderá entender de algum modo singular os estímulos que o
rodeiam. Ou, para dizê-lo de outro modo: de nada serve a eficácia de uma função se ela não está
atrelada à transmissão simbólica que situa um bebê singularmente como filho de uma família e
como membro de uma sociedade.
Podemos pensar esta questão do estímulo a partir das palavras do poeta Fernando Pessoa:

Às vezes, em dias de luz perfeita e exata


Em que as cousas tem toda a realidade que podem ter
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu beleza às cousas.

Uma flor acaso tem beleza?


Tem beleza acaso um fruto?
Não: tem cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que dou às cousas em nome do prazer que elas me dão

E, mais adiante, o poeta conclui: que difícil ser próprio e não ver senão o visível
(pág. 48 – O guardador de rebanhos, verso XXVI, 1914)

Levando mais longe a palavra do poeta poderíamos dizer que é impossível ser próprio e ver
apenas o visível, pois o que faz do homem homem é a construção de um sentido simbólico para
aquilo que vê, e é somente a partir de tal sentido simbólico que se pode estabelecer o desejo e o
prazer nas experiências da vida.
É por isso que, no trabalho com bebês e pequenas crianças, em lugar de insistir
repetitivamente que elas digam o nome das cores que vêem ou das diferentes texturas que tocam
–em lugar de centrar o trabalho de estimulação a acender ou apagar lâmpadas coloridas ou a tocar
sons com diferentes alturas-, é preciso que a intervenção clínica articule, em primeiro termo, a
referência simbólica desde a qual cada bebê poderá olhar, ler, escutar, saborear as experiências da
vida. Antes de ensinar é preciso propiciar a construção de um sujeito que deseje se apropriar e,
portanto, apreender.
A constituição do bebê como sujeito – a possibilidade de que ele venha a ter voz própria,
seja lá qual for sua limitação orgânica - não se dá pela multiplicidade de técnicas que vêm,
função por função, estabelecer aptidões. É preciso que o bebê, ele mesmo, seja olhado com
desejo para poder vir a desejar. Daí que encontremos algumas crianças com graves problemas de
constituição psíquica com as quais sempre se trabalhou área por área na reparação da função
lesada produzindo verdadeiros reféns das técnicas em relação as quais o saber dos pais e, portanto
o sentido simbólico da vida de um bebê ficaram acuados.
A este respeito, lembro do que um menino me ensinou acerca das técnicas e testes no
tempo dos estágios obrigatórios da faculdade de psicologia. Era a proposta de uma disciplina que
aplicássemos testes em algumas crianças. Coube a mim a tarefa de aplicar o teste em um menino
com problemas de aprendizagem que, devido a esse problema, já havia passado por anteriores
experiências de avaliação. Tive uma conversa inicial com o menino pela qual fiquei sabendo que
ele era torcedor do time de futebol Internacional de Porto Alegre. Depois, seguindo os
procedimentos estabelecidos, solicitei ao menino que ele desenhasse uma árvore. Uma vez
concluída a tarefa ele me entregou o desenho acompanhando-o de uma advertência –
evidentemente para defender-se do julgamento que previamente costumava cair sobre ele: o de
supô-lo como quem não sabe acerca de como as coisas são-: “eu sei que as árvores são verdes,
mas quis fazê-las vermelhas”. Foi então que arrisquei: “vermelho, como o inter” e ele, sorrindo,
com um ar satisfeito de cumplicidade e quem sabe das coisas, arrematou: “é isso mesmo” .
Demos assim início a uma divertida conversa e brincadeira com os desenhos. Evidentemente, a
essa altura, os procedimentos do teste ficaram de lado.
O que é central em nossa existência –tenhamos ou não patologias orgânicas de base,
tenhamos ou não deficiência mental- não é a simples possibilidade de enxergarmos a cor azul e
nomeá-la, mas a possibilidade de falar, evocar, lembrar, como diz a música de um poeta
brasileiro, daquele “tom de azul quase inexistente, azul que não há, azul que é pura memória de
algum lugar” 3 e que, no entanto, dá sentido a uma percepção, pois dá sentido a uma existência.
Para concluir, gostaríamos de trazer o chiste feito por um jovem atendido, desde pequeno,
no Centro Lydia Coriat de Porto Alegre. Acho que tal chiste diz bem o que é ter sua existência
atrelada a uma circulação simbólica em lugar de ficar reduzido à reparação de um décifit.
Este jovem tem, entre outras coisas, interesse nas corridas de Fórmula Um. Como ele
vinha falando com sua terapeuta sobre o fato de ter síndrome de Down –vinha elaborando esta
questão-, estava muito atento a investigar que problemas orgânicos tinham outras crianças da
clínica.
Certo dia, olhando um quadro com fotos de várias crianças da clínica, perguntou à
terapeuta:
- E essa menina, o que ela tem?
- Síndrome de Williams - disse a terapeuta.
- O quê?
- Síndrome de Williams – insistiu a terapeuta.
Então ele, rindo, deu a seguinte tirada: “E será que tem alguma da MacLaren?”
É isso.

3
Música Trem das cores de Caetano Veloso.
Bibliografia:

- Bergès, J. (1988). Função estruturante do prazer. Escritos da Criança, n.2, segunda


edição, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

- Coriat, E. (1995). Psicanálise e clínica com bebês, Porto Alegre, Artes e Ofícios.

- Coriat H.(1993). E.T. hacedores de bebés, Escritos de la Infancia, n.1, Buenos Aires, FEPI-
Centro Dra. Lydia Coriat de Buenos Aires.

- Coriat, L. e Jerusalinsky, A. (1975), Estimulación Temprana, conferência pronunciada no


terceiro congresso iberoamericano de neuropsiquiatria infantil, São Paulo. Citado em Escritos da
Criança, n.1, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, segunda edição, 1987.

- Jerusalinsky, A. (1998). Quantos terapeutas para cada criança?, Escritos da Criança, n. 5, Porto
Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

- _____, A. (1990). Multidisciplina, interdisciplina, transdisciplina, Escritos da Criança, n. 3,


Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

- Jerusalinsky, J. ((2002). Enquanto o futuro não vem –psicanálise na clínica interdisciplinar


com bebês, Salvador, Ágalma.

- Molina, S. (1998). O bebê da estimulação precoce, Escritos da Criança, n. 5, Porto Alegre,


Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

-UNICEF, diversos autores (1978). Estimulación Temprana – importancia del ambiente


para el desarrollo del niño, segunda edição, Santiago de Chile.

*Súmula curricular:

Julieta Jerusalinsky
Psicanalista, mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, especialista em estimulação
precoce pela FEPI- Buenos Aires, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA),
professora do Centro Lydia Coriat de Porto Alegre. Autora do livro Enquanto o futuro não vem –
psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês” (2002), editora Ágalma.
e-mail: julietaj@uol.com.br

Zulema Garcia Yañez


Fonoaudióloga, psicomotricista, especialista em educação psicomotora, coordenadora do
centro de estudos Paulo César D’ávila Brandão do Centro Lydia Coriat de Porto Alegre e membro
dessa equipe clínica. e-mail: lydiacoriat@lydiacoriat.com.br
Artigo publicado na revista da APC (associação psicanalítica de Curitiba) 2011, número
temático sobre autismo.

Título: JOGOS DE LITORAL NA DIREÇÃO DO TRATAMENTO DE CRIANÇAS


EM ESTADOS AUTÍSTICOS

AUTOR: Julieta Jerusalinsky

MINI-CURRÍCULO: psicanalista, especialista em clínica com bebês, mestre e doutora


em psicologia clínica pela PUC-sp, membro do Centro Lydia Coriat e da APPOA,
professora do COGEAE-PUC/SP, autora dos livros: Enquanto o futuro não vem – a
psicanálise na clínica com bebês (Ágalma, 2003, 3ª edição); A criação da criança -
brincar, gozo e fala entre a mãe e o bebê (Ágalma, 2011).

e-mail: julietajerusalinsky@gmail.com
tel: (011) 38652370

Resumo: Partindo da concepção de estrutura psíquica não decidida na infância o


trabalho considera a diferença entre ser e estar relativa aos quadros psicopatológicos da
criança e, consequentemente, de uma clínica que aposta nas operações constituintes do
sujeito. Para tanto traz o testemunho de intervenção a partir dos jogos constituintes do
sujeito na direção do tratamento de crianças com quadros de autismo. Marca
especialmente a concepção de jogos de litoral e a passagem de gozo a saber que eles
possibilitam na relação da criança com o Outro encarnado como momento decisivo na
constituição psíquica e no tratamento – questão desenvolvida na pesquisa de doutorado
"a crianção da criança: letra e gozo nos primórdios do psiquismo".

palavras-chaves: autismo, brincar, psicanálise, gozo, jogos de litoral.

Abstract: Premised on the concept of psychic structure undecided in childhood, this


dissertation explores the difference between “ser e estar” (permanent and temporal
aspects of being) as it pertains to child psychopathology. Case vignettes focused on the
games that constitute the subject in the treatment of autistic children are presented. The
concept of shoreline games is discussed, as well as the passage from jouissance to
knowledge they enable in the child’s relationship to the embodied Other as a critical
moment in psychic constitution and in treatment.

Keywords: autism, play, psychoanalysis, jouissance, shoreline games.


O tratamento de crianças com quadros de autismo relança uma questão
fundamental acerca da constituição do sujeito: o que possibilita a articulação do
padecido no real do corpo a uma ordem significante?
Se as crianças em estado autístico repetem certas estereotipias, é bem verdade
que nem sempre para todas são as mesmas. Isso deixa em relevo como alguma inscrição
ocorreu e ela é repetida. Porém, em lugar de que tal inscrição possa articular-se a uma
lógica do significante, em lugar de que possa enlaçar-se a uma série simbólica a partir
de um traço primordial, ela cai, degrada, como um fragmento em torno do qual a criança
estabelece um automatismo.
Se é no balanceio, na agitação motora ou no bater-se; no fixar o olhar sobre uma
luz, no movimento das mãos, ou no sacolejar um objeto; se é no chupar o lábio, a língua
ou morder a mão; no tapar os ouvidos ou no fazer-se sons guturais; muda ali uma zona
corporal preferencialmente implicada na manutenção desse gozo, o que, em todo caso,
aponta ao resto de uma inscrição, mas que prima pela falta de extensão pulsional,
produzindo um achatamento sobre a zona de satisfação, por uma repetição que realiza a
demanda de exclusão 1do Outro de seu circuito de satisfação.
Assim a criança em estado autístico não está em uma espécie de “estado
natural”. Se sua produção a situa não só fora da função da palavra (como na psicose),
mas também de seu campo 2, em todo caso, isso é uma resposta, é um modo de defesa,
uma economia de gozo estabelecida a partir de inscrições primordiais. Ocorre que tais
inscrições, em lugar de permitirem a passagem do gozo do corpo ao da articulação
significante, marcam a exclusão da criança desse campo.
Se a psicose implica uma forclusão do nome-do-pai, que tem como
conseqüências clínicas uma errância ou fixidez no funcionamento significante e que, à
medida em que a criança fala, coloca em questão quem é o sujeito da enunciação; o
autismo, por sua vez, coloca em cena um olhar, uma fonação, um movimento
psicomotor que implica uma demanda de exclusão do Outro, uma economia de gozo,
um circuito pulsional, exilado de uma articulação ao campo do significante.
Daí que essa clínica implique crianças com graves estereotipias que se fixam a
automatismos nos quais se recorta um fragmento perceptivo repetindo idêntica e
continuamente. Nessa auto-estimulação a criança fica lançada a uma continuidade
infinita da repetição idêntica de um fragmento do real, sem borda simbólica e sem
unidade imaginária.
Há algumas crianças que vão um pouco além: elas guiam suas ações por uma
certa regularidade lógica do real, ao, por exemplo, montarem complicados objetos
respeitando seu funcionamento mecânico, mas sem conseguirem desdobrar a mais
mínima cena de brincar simbólico com os mesmos; ou montarem quebra-cabeças de
várias peças percebendo de forma altamente eficaz as menores variações de cor e forma
das minúsculas peças que estavam em cantos opostos da mesa, encaixando-as com
rapidez, mas sendo capazes de colocar o pé no meio da testa do personagem do quebra-
cabeça se as correspondências de cor e forma forem compatíveis, em um absoluto
fracasso imaginário-figurativo; elas repetem com perfeição algumas sequências fônicas,
mas, geralmente, sem que se produza para elas a passagem da phone (emissão de um
som) à dimensão da Vox (como emissão de um som que tem o sentido de um
chamado) 3, não se articula a passagem do registro real da voz à sua articulação no
campo imaginário e simbólico como convocatória dirigida ao outro.
Se na atual psicopatologia tem se apagado o quadro de psicoses infantis e
estendido o espectro do autismo, consideramos que esta diferença clínica é fundamental
para o estabelecimento da direção da cura, isto é, para a decisão do clínico acerca das
intervenções necessárias ao tratamento: na psicose torna-se fundamental intervir sobre a
dimensão metafórica da linguagem, sobre a possibilidade de que a palavra possa operar
na lógica do significante, ou seja, ser articulada e deslocada para produzir os efeitos de
significação que permitem ao sujeito representar-se no ato de enunciação; no autismo o
ponto inicial de intervenção diz respeito à passagem da repetição estereotipada no real a
um gozo que possa atrelar-se ao campo do Outro, ao campo da linguagem, em seu
circuito de satisfação.
Enquanto diante de quadros de psicose infantil, intervimos, por meio do brincar,
fundamentalmente na articulação e deslizamento significante, se operamos no
estabelecimento de uma borda entre fantasia e realidade, no autismo os jogos de litoral
têm se revelado fundamental ferramenta clínica justamente porque eles incidem em um
momento lógico anterior: na articulação primordial entre corpo e linguagem.
Assim, na clínica com crianças intervimos clinicamente a fim de propiciar certas
operações constituintes do sujeito. Por isso, antes de avançar, cabe fazer algumas
considerações acerca do autismo e seu diagnóstico na infância.

Sobre o diagnóstico na infância: a diferença entre "ser" e "estar" autista

Se o diagnóstico tem alguma utilidade o é na medida em que oferece ferramentas


para a intervenção clínica. Isto porque, em psicanálise, as estruturas clínicas não são de
interesse como uma questão inerente ao "ser". A intervenção psicanalítica revela como
os sintomas clínicos podem ser rearranjados na medida em que há uma abertura do
aparelho psíquico que, de tempos em tempos, sofre inscrições e reinscrições, tal como
aponta Freud 4. Mesmo que o sintoma fundamental do sujeito não se modifique, mesmo
que nem sempre seja possível passar a outra coisa, a extensão que ele assume e o uso
que pode se fazer do mesmo não são questões menores ao longo de um tratamento.
Mas, quando se trata da infância, tal questão se radicaliza, pois, ainda que o
aparelho psíquico se encontre, ao longo da vida, aberto a sucessivas inscrições e
reinscrições, temos bons motivos para acreditar que não há período em que a
capacidade de receber e reproduzir impressões seja maior do que precisamente durante
os anos da infância. 5 Isto já é apontado por Freud, ao afirmar que é próprio da infância
o polimorfismo das vicissitudes pulsionais 6, ou seja, o fato de o sujeito na infância não
ter fixada a sua economia de gozo por um exercício sexuado a partir de seu fantasma
(fantasia) fundamental.
Daí que se situe a estrutura psíquica não decidida na infância 7, pois, ainda que
haja uma estrutura simbólica que anteceda e sobredetermine simbolicamente o sujeito,
isso não equivale a dizer que sua estrutura psíquica já estaria decidida, pois será preciso
uma diacronia, será preciso uma passagem de tempo, para que esta estrutura simbólica
que o antecede produza seus efeitos de inscrição e para que, a partir de tais inscrições,
ele possa começar a produzir as suas singulares respostas subjetivas.
Conceber o tempo como uma importante variável a ser considerada no que diz
respeito às inscrições psíquicas não é a mesma coisa que achatar a diferença entre adulto
e criança a uma concepção desenvolvimentista. A constituição do sujeito exige a
inscrição de diferentes momentos lógicos que não estão garantidos pela passagem do
tempo, por uma simples cronologia. No entanto, continua sendo necessária uma
diacronia para que se precipitem os efeitos de inscrição que constituirão o sujeito
psíquico. É preciso também o transcurso de um tempo para que as inscrições que nele se
precipitaram possam ser por ele postas à prova por meio de uma experiência que o
implique subjetivamente. Portanto a estrutura psíquica está sujeita não só à estrutura
simbólica que a antecede, mas também à contingência de certos acontecimentos diante
dos quais o sujeito produzirá suas singulares respostas, implicando-se subjetivamente na
produção de uma experiência.
Certamente as condições orgânicas de um bebê têm aí sua importância. O
equipamento neuroanatômico e a carga genética com que se nasce têm diferenças e a
permeabilidade a inscrições significantes nem sempre é a mesma. Ou seja, há patologias
orgânicas que fazem maior obstáculo a tais inscrições e seu funcionamento, mas
também é preciso considerar que grande parte desse funcionamento não está
previamente decidido, será estabelecido pelas experiências de vida e, portanto, se o real
orgânico pode estabelecer aí seus limites, também é preciso considerar que a sua própria
configuração depende, em parte, das inscrições que um bebê recebe a partir da relação
com o Outro. Portanto, se o real orgânico tem aí o seu peso, nem tudo está por ele
estabelecido de forma antecipada. Há uma única forma para que a criança possa vir a se
constituir como sujeito do desejo: é preciso apostar em sua constituição, caso contrário
ela fica, de partida, impedida por falta desse investimento, produzindo, então, o efeito
de uma profecia auto-realizável da patologia 8. Isto é algo que a clínica com crianças
com graves problemas orgânicos tem nos ensinado. 9
Conceber na infância uma estrutura psíquica não decidida faz com que não seja
indiferente o momento da vida em que uma intervenção clínica ocorre, na medida em
que nosso psiquismo tende a uma fixação de seu funcionamento. Daí que seja tão
importante a detecção precoce de sintomas que apontam risco na constituição psíquica
de um bebê e pequena criança, permitindo intervir quando há sofrimento em lugar de
deixar o tempo passar.
Ao falar de diagnóstico na infância vale a diferença entre SER e ESTAR que
tanto o espanhol quanto o português permitem denotar. O diagnóstico permite pôr em
movimento importantes operações na direção da cura e, justamente por isso, ao longo
do tratamento, uma criança que estava em estado autístico pode deixar de está-lo,
mudando de sintoma fundamental, ou pode, em certas ocasiões, ainda que não de modo
regular, apresentar produções de outra ordem que não a de uma demanda de exclusão do
Outro.
Daí que as categorias nosográficas sejam, em certo sentido, tão antinômicas da
infância, na medida em que intervir na infância dá lugar a uma mobilidade do sintoma
fundamental ainda não decidido. Por isso, na clínica psicanalítica, procuramos intervir
ao detectarmos que algo não vai bem na constituição da criança, ainda que o quadro
psicopatológico não esteja plenamente fechado em todos os seus traços
patognomônicos. Assim, diagnosticar serve para considerar o que é preciso operar na
intervenção clínica, possibilitando uma mobilidade do que cristaliza a criança em um
padecimento, não para enquadrar antecipadamente a criança em uma categoria
psicopatológica.

Gozo materno e transmissão da linguagem

Na clínica com crianças em estados autísticos deparamos com estereotipias que


fixam a criança à repetição de automatismos no real à revelia de uma produção de
brincar que articule esse real ao registro imaginário e ao simbólico. Crianças que
sacodem o lápis em lugar de desenhar; giram as rodas do carrinho em lugar de empurrá-
lo fazendo “brrr!”. Não só carecem da produção de cenas de faz-de-conta, nas quais
possam desdobrar no campo ficcional suas séries simbólicas produzindo suas singulares
respostas subjetivas. O obstáculo se apresenta em um ponto anterior, carecem até
mesmo da produção de pequenas cenas que, nem que seja fragmentariamente,
reproduzam acontecimentos do dia-a-dia por meio dos rituais lúdicos.
Como articular essa passagem? Como fazer para que o objeto possa ser ali uma
metáfora da relação com o Outro, para que sirva de apoio para um fantasiar? Possa ter
pelo menos alguma consistência imaginária e dar lugar a articulação de uma mínima
diferença simbólica em lugar de ser pura coisa, puro das-ding?
O fato de que uma criança não fale, que esteja em profundo mutismo, faz com que
muitas vezes os outros entrem em um estado de verborragia. Isso parece responder
muito mais à angústia que se desperta nos outros do que ao que pode operar para a
criança uma passagem ao campo e função da palavra. Nessa situação a criança costuma
ficar absolutamente indiferente diante dessa “massa sonora” que cai como puro ruído ou
precisa esquivar-se ativamente dessa “avalanche de palavras” tapando os ouvidos ou
produzindo sons superpostos a ela.
Não é porque se fale e se fale que a linguagem marca o corpo.
Como a linguagem produz efeitos constituintes?
A clínica com bebês traz aí suas contribuições a esse campo: a linguagem
interessa na medida em que ela permite representar o que afeta o real do corpo. Interessa
na medida em que permite a articular pelo significante uma descontinuidade que afeta o
gozo do corpo.
Uma vez que o bebê não tem instintivamente um saber acerca do que lhe convém,
torna-se decisivo para a constituição desse saber de que forma aquilo que ele padece em
seu corpo poderá vir a ser representado. Quem primeiramente se vê arrastado a ocupar-
se disso é quem exerce a função materna. A mãe, ao exercer sua função, realiza a
travessia, franqueia para e com o bebê, a passagem entre o gozo do vivo e a inserção na
linguagem.
É a mãe quem permite a produção de um funcionamento subjetivado diante do
que acomete o organismo do bebê. Ela se ocupa de seu funcionamento corporal, ela
acompanha seus ritmos, suas cadências, suas intensidades, atrelando sorrateiramente
estes automatismos orgânicos a um encadeamento significante, desde o qual sustenta
seus cuidados. Por isso a função materna implica realizar um fino trabalho de bordado
entre corpo e linguagem, implica instaurar sorrateiramente no bebê um gozo que, onde
se pretende autoerótico, já leva a marca do Outro, já se inscreve como Outro-erotismo 10.
Para que esta passagem ocorra é absolutamente necessário que um Outro
encarnado se veja afetado, em sua economia de gozo, pelo que afeta o corpo do bebê.
Resulta central aí que ocorra entre a mãe e o bebê uma montagem por meio da qual a
paixão sofrida por uma pessoa tenha constituído o gozo de uma outra. 11
É na medida em que a mãe se vê afetada em seu próprio corpo pelo que afeta o
corpo do bebê que ela pode oferecer-lhe a sua representação. Ele é quem padece a dor e
ela é quem diz “ai!”, ele é quem come a papinha e é ela quem diz “humm!”. Assim a
mãe, nessa identificação, “empresta” ao bebê uma representação sobre esse afeto,
possibilitando-lhe passar do gozo ao saber, do corpo à linguagem. Uma vez que o bebê
opera essa passagem ela reconhece ao bebê o saber sobre tal produção, ou seja, ela não
se apropria do corpo do bebê.
É preciso apontar que a mãe não faz isso de modo abnegado e tampouco
masoquista, ela extrai um gozo dessa operação. Ao propiciar ao seu bebê uma satisfação
na qual busca poupar-lhe o esforço, a mãe, por sua vez, se identifica ao gozo da
passividade do bebê. Assim, ela goza do gozo do seu bebê, furtivamente tem acesso aí a
um gozo Outro e, ao mesmo tempo, com isso, ela sorrateiramente franqueia para o bebê
a passagem do gozo do vivo à linguagem. 12
Isto implica considerar que é no litoral com o gozo que a linguagem interessa e
que sua transmissão não tem como operar se o que se passa no organismo do bebê não
diz respeito à economia de gozo de um Outro encarnado.
Encontramos aqui a radicalidade com que a não correspondência entre corpo e
sujeito comparece na primeira infância. É preciso que o funcionamento corporal do
bebê afete a economia de gozo do Outro encarnado para que, a partir de tal percurso
pulsional no laço com o Outro, o bebê possa ter acesso a uma representação do que o
acomete no real de seu corpo e, ao deter tal saber, possa constituir esse corpo como o
seu.

Jogos de litoral e a intervenção clínica nos primórdios do psiquismo

É por isso que, quando este funcionamento não se instaurou para a criança, o
psicanalista irá intervir sustentando estas operações constituintes do psiquismo. No
tratamento de crianças em estados autísticos, é fundamental que o clínico possa partir
desses automatismos que a criança coloca em cena, identificando-se a eles, a fim de que
ele possa passar a ser necessário à produção desse gozo. Somente a partir daí é possível
atrelar sorrateiramente essa repetição a variações rítmicas e a pequenas
descontinuidades do movimento no espaço introduzidas pelo significante que vêm fazer
escansões que incidem no real e dos quais a satisfação da criança não terá mais como
prescindir.
Lembro, nesse sentido, de um menininho de três anos e meio em estado autístico
(no qual já não está mais) que tomava minha mão como pura coisa para que eu fizesse
girar um peão. Fui acompanhando tal giro com uma cantiga 13, apressando o compasso
da mesma ou diminuindo-o de modo a que o fim da cantiga coincidisse com o fim do
movimento. Perdi a conta dessa repetição, tomada em seu continuo infinito. O fato é
que, a certa altura, ele passou a me olhar esperando que eu começasse a cantiga para
soltar o peão e iniciar seu movimento, ou a suspender o movimento do mesmo quando a
música terminava. Esses pequenos gestos colocam em cena que o traço que interessava
já não estava mais no campo da pura repetição real do movimento do objeto, mas no
campo da sustentação desse movimento na série simbólica ofertada por Outro.
Por isso, no tratamento de crianças em estados autísticos, revela-se a decisiva
importância do significante posto a operar de modo atrelado ao que afeta a economia de
gozo. Diante da surpresa, do inesperado do acontecimento, do que rompe a suposta
continuidade do real. O opa! pode tornar-se tanto mais decisivo do que a avalanche de
palavras: Opa!, Caiu... peguei!, cadê...achou, e.... já!, Epa lelê!, Oooô!, esses breves
significantes, essas articulações na fronteira da alíngua que franqueiam a passagem
entre o gozo do vivo e o gozo linguageiro, possibilitam à criança passar a sustentar-se, a
atrelar-se a uma articulação simbólica diante desses pontos em que emerge a
aleatoriedade do real.
Daí que os jogos constituintes do sujeito sejam uma fundamental ferramenta
clínica quando o que está em jogo são as primeiras operações lógicas da constituição
psíquica. A experiência clínica revela seus efeitos decisivos na direção da cura, não só
de bebês acometidos de problemas em sua constituição, mas também na de crianças em
estado autístico.
Diferentemente do brincar simbólico, por excelência uma produção da criança –
com seu início marcado no jogo do fort-da 14 e seu ápice no faz-de-conta –, os jogos
constituintes são sustentados no laço do bebê com o Outro encarnado.
No fort-da é a criança quem produz uma série presença-ausência. Ela faz
aparecer e desaparecer o carretel e, mais do que isso, ela nomeia tal jogo por uma
oposição significante entre o fort e o da. Com ele a criança arma uma passagem da
passividade à atividade na medida em que, em lugar de padecer da ausência materna,
produz esse jogo em ausência da mãe. O jogo do fort-da revela o quanto a possibilidade
de que emerja um sujeito não se dá nem pela pura continuidade, nem pela simples
descontinuidade em si, mas pela possibilidade de articular uma série presença-ausência.
Ao articular tal série a criança não fica, nem na posição de objeto deixado por outro,
nem na posição de experimentar uma queda psíquica diante da falta da mãe, mas na
posição de poder entreter-se, ou seja, de sustentar-se, como sujeito, com seu brincar,
entre os significantes (entretido na articulação entre o fort e o da).
Porém, para que este jogo possa chegar a ser produzido pela criança, será preciso
que, antes disso, haja um Outro encarnado que sustente essa série para ela. Portanto, os
jogos constituintes do sujeito são, em tempos lógicos da constituição psíquica,
precursores do fort-da.
Tais jogos, diferentemente do fort-da, se produzem no laço com o Outro
encarnado, em presença deste. É este Outro/outro que sustenta para o bebê a série
presença-ausência ao recuperar-lhe os objetos que o bebê lança e, ao dizer-lhe, diante do
paninho posto e retirado “cadê?...achou!!” tendo o cuidado de fazer coincidir sua
enunciação com a ação da criança. Estes dois jogos – o de lançar para que outro
recupere e o cadê-achou – são precursores diretos do fort-da. Antes deles podemos
encontrar uma série de outros jogos constituintes do sujeito e, nos primórdios da
constituição, os denomidandos de jogos de litoral. 15
Jogos de borda, jogos de superfície, de esburacamento, são denominações que
aparecem quando se situam os tempos correlativos aos primórdios do brincar. 16
Se tanto interessa ao bebê a superfície e o buraco é porque o que está em jogo aí,
nos primórdios da constituição do sujeito, é o traçado de uma borda, que, com tais
jogos, retoma a inscrição das zonas erógenas inscrevendo, pela letra, descontinuidade
sobre os orifícios reais do organismo, produzindo um corpo que, posteriormente, se
lança ao espaço e às suas delimitações simbólicas.
Lacan, no texto "Lituraterra", 17 coloca que é a letra, como inscrição psíquica, que
faz borda entre o gozo e o saber. Consideramos que o que está em jogo já nesses
primeiros jogos constituintes é a própria inscrição da letra, que traça o litoral entre um e
outro sem jamais esgotar sua descontinuidade. Jogar com a letra que faz litoral entre o
gozo e o saber – aí, mais do que em uma cortante linha de fronteira, se produz um ir e
vir que, tal como as ondas na areia, avançam e recuam permanentemente redesenhando,
rearticulando a relação de litoral entre duas substâncias de diferentes ordens. O que está
em jogo no brincar sustentado entre o bebê e a mãe é um intenso trabalho de construir
litoral.
Para o humano as bordas não estão dadas. Sobre as descontinuidades do real é
preciso que se inscreva uma alternância simbólica, e é sobre tais descontinuidades que
se joga eroticamente o jogo de presença e ausência sobre as bordas do corpo.
A criança, enquanto mama, puxa o cabelo da mãe, enfia os dedos na própria boca,
furunga na boca da mãe. A mãe lhe diz: Ai! Opa! Nham!!!
Nos jogos de litoral, enquanto constituintes do sujeito, encontramos justamente
essa característica – um jogo e um imenso trabalho de produzir litoral ao gozo do bebê
que é ofertado e sustentado pela mãe, mas, uma vez que o bebê nele engaja o gozo de
seu corpo, a mãe prontamente lhe atribui a autoria e o saber sobre tal jogo.
Comparece aí a articulação, a borda entre gozo e saber que vai se inscrevendo na
medida em que a mãe e o bebê, nesses jogos de litoral, circulam incessantemente pela
posição de objeto e sujeito. Ora detendo um saber, ora engajando seu corpo no gozo
propiciado pelo outro. Isto é central para a constituição e para que posteriormente possa
devir o jogo do Fort-Da. A mãe faz cócegas no bebê, ele ri, ela ri, e ele ri do riso dela,
eles se engajam gozozamente nessa produção. Quem é sujeito e quem é objeto? Há um
eclipsamento aí. A mãe se vê afetada em sua economia de gozo pelo que afeta o bebê,
ela goza do gozo dele e ele do dela. Uma vez que o bebê está engajado aí com seu gozo
a mãe passa a atribuir ao bebê o saber sobre tal produção: olha só do que você sabe
brincar! –afirma.
Então, quando esse brincar se relança, qual é traço que se repete e desde o qual se
comemora a repetição de um gozo nesse jogo de litoral?
Certa menina, já não mais no tempo de ser bebê, e sim no de, como criança,
ativamente recuperar seus significantes em uma série, convidava a mãe a brincar de
"há,há,há". Isso denota o quanto o que permite articular a satisfação pulsional nesse
jogo não se resume ao dedo que furunga entre as costelas, mas implica esse riso desde o
qual se partilha o gozo com a mãe. Aí o traço que se repete não recai no automatismo do
real. O "há,há,há" com que ela nomina esse jogo opera como letra no litoral: com uma
face que se volta ao gozo e outra que se articula no significante.
Nos jogos precursores do Fort-Da e no Fort-Da propriamente dito, em geral
coloca-se em relevo o estabelecimento de uma borda relativa à dimensão espacial (no
território do corpo, na geografia da casa). Este é um aspecto central no que diz respeito
ao estabelecimento de um litoral entre gozo e saber. No entanto, há outro aspecto no
qual este litoral também opera: a dimensão temporal.
Todo o intenso trabalho materno do bordejamento do corpo que se instaura em
relação à superfície e aos seus buracos, erotizando e delimitando espacialmente zonas
nesse corpo, também inscreve um ritmo, uma temporalidade no funcionamento
corporal. 18 Espaço e tempo, ambos estão implicados na inscrição do litoral produzido
nos jogos constituintes.
Se o Fort-Da joga com a borda entre o "aqui e o lá", em termos espaciais, o "um,
dois, três eeee.. já!" joga com a fina lâmina que separa (entre o eeee arrastado e o já) a
espera da precipitação no ato, a expectativa da realização 19. Exemplo disso é a mãe que,
movendo a mão em direção ao bebê, anuncia: olha a aranha descendo, vem chegando,
vem chegando, eeeee.... chegou! – fazendo cócegas no bebê.
Nestes jogos temporais o Outro introduz a expectativa da realização do lado da
criança como uma certeza antecipada, mas, quando a criança se engaja na realização do
ato esperado, isso toma a todos de surpresa. Ora, o que surpreenderia, sendo que é um
ato esperado? Na medida em que a criança engaja seu gozo em tal produção, o Outro
encarnado passa a atribuir à criança o saber sobre tal produção, passa, então, da posição
de ser quem sustentava uma certeza antecipada para a de surpreendido diante da
realização de um suposto sujeito ao qual atribuem a autoria do ato. 20 Opera-se aí a
inscrição e a ultrapassagem da margem em que a criança, antes implicada no gozo do
brincar, passa a ser também detentora de um saber.
Esses jogos de temporalidade intersubjetiva frequentemente primam por sua
ausência em crianças em grave padecimento psíquico. Encontramos crianças que não
antecipam o gozo que está por vir diante de alguém que sustentaria o arco da promessa
de realização. Por outro lado, frequentemente encontramos, e não por coincidência, pais
que padecem e temem por atrasos das produções do filho e clamam por sua adequação
cronológica às pautas de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que não costumam
tomar como realizações de um sujeito tais produções. Em lugar de experimentarem a
surpresa com a criança, ao atribuir-lhe autoria sobre o seu ato, permanecem no espanto
de um suposto sem-sentido. O gozo aí transborda, mas não se articula sua borda em
relação à produção de um saber.
Quando se fala de clínica com crianças, frequentemente é evocado o termo
infância, como momento da vida relativa ao infans – enquanto aquele que ainda não
fala. Que a criança não circula pela linguagem com a mesma desenvoltura de um adulto
é certo. No entanto, é na linguagem que ela já tem um lugar demarcado, a partir do qual
precisará realizar a travessia do ser falado a devir enquanto falasser.
Mas o que fazer quando essa travessia está obstaculizada? O que fazemos na
clínica com aqueles que ainda não falam? Ora, em primeiro lugar procuramos introduzir
o brincar e, em seus primórdios, os jogos de litoral. Na medida em que eles são a
primeira produção que permite atrelar o gozo do vivo à linguagem, que permitem que,
entre um significante e outro a criança não caia no puro real ou que se cole ao objeto
que cai como resto, mas que possa articular-se ali como sujeito, entreter-se no jogo,
entreter-se entre significantes, inicialmente atrelado à uma série simbólica que Outro
sustenta para ela diante do que a afeta em seu gozo.
Tal é a importância dos jogos de litoral na direção da cura de crianças em estados
autísticos.

REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS:

ASSOUN, P.L. (1983). O olhar e a voz. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

BERGÈS, J. (1988a). O corpo e o olhar do Outro. In: Escritos da criança – 2. 2. ed. Porto
Alegre: Centro Lydia Coriat, 1997. p. 51-65.

BERNARDINO, L M. F. As psicoses não decididas da infância: um estudo psicanalítico.


São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

FREUD, S. (1896a). Carta 52 a Fliess. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. 1.

______. (1905a). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:
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______. (1920). Além do princípio do prazer. In: Edição Standard Brasileira das Obras
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______. (1972-1973a). O seminário. Livro 20. Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
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PEAGUDA, S. Juegos precursores del Fort-da. In: Escritos de la infancia – 8. Buenos


Aires: FEPI – Centro Lydia Coriat, 1999. p. 35-41.

1
Tomamos aqui como referência o modo de defesa autístico, como relativo a uma quarta estrutura clínica
proposto por Alfredo Jerusalinsky no texto Autismo: la infancia de lo real, p. 128.
2
Idem.
3
Questão abordada por Assoun (1983). O olhar e a voz; Julieta Jerusalinsky (2004). Prosódia e
enunciação na clínica com bebês: quando a entoação diz mais do que se queria dizer.
4
Sigmund Freud. (1896). Carta 52 a Fliess.
5
Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a sexualidade.
6
Idem
7
Alfredo Jerusalinsky. Psicose e autismo na infância: uma questão de linguagem. In: Psicose – Revista
da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n. 9. Porto Alegre: Artes e Ofícios, novembro de 1993, p.
72; Leda Bernardino. As psicoses não decididas da infância: um estudo psicanalítico. São Paulo: Casa do
Psicólogo, 2004.
8
Julieta Jerusalinsky Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês.
9
Refiro-me aqui a tratamentos realizados no Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, dedicado à intervenção
clínica com bebês, crianças e adolescentes com problemas em sua constituição, com ou sem problemas
orgânicos de base.
10
Charles Melman (1985a). Questions de clinique psychanalytique.
11
Jacques Lacan (1972-1973). O seminário. Livro 20. Mais ainda .
12
Questão desenvolvida na tese de doutorado A criação da criança – letra e gozo nos primórdios do
psiquismo, 2009.
13
“Roda mundo, roda gigante/Roda moinho, roda pião/ O tempo rodou num instante/ Nas voltas do meu
coração” estrofe da música Roda Viva de Chico Buarque de Holanda, 1967.
14
Sigmund Freud (1920). Além do princípio do prazer.
15
Questão desenvolvida na tese de doutorado A criação da criança – letra e gozo nos primórdios do
psiquismo, 2009.
16
Alfredo Jerusalinsky. La educación es terapéutica? (Parte I), p. 11-16.
17
Jacques Lacan (1971). Lituraterra, aula 7do seminário 18.
18
Jean Bergès (1988a). O corpo e o olhar do Outro, p. 54.
19
Julieta Jerusalinsky. Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês,
p. 296.
20
Idem, p. 160-166.
ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA DA APC “A FAMILIA CONTEMPORANEA”
2014, Curitiba: associação psicanalítica de Curitiba.

Título: Pais, filhos e monitores: uma nova configuração familiar


Autor: Julieta Jerusalinsky
Psicanalista membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, da Clínica
Interdisciplinar em Problemas do Desenvolvimento Infantil Centro Lydia Coriat; mestre
e doutora em psicologia clínica PUC-SP; professora dos cursos de especialização em
Teoria Psicanalítica, Psicomotricidade, Clínica Interdisciplinar dos Problemas do
Desenvolvimento Infantil, Estimulação Precoce-Clínica interdisciplinar com bebês.

Resumo: a transmissão dos pais a filhos está perpassada por monitores virtuais que
prometem um gozo ilimitado por meio de objetos de consumo, diante dos quais pais
culposos, por não atenderem ao ideal da família tradicional, buscam restituir
narcisicamente os filhos por meio de objetos-fetiches, eximindo-se de transmitir que a
condição inerente ao desejo é a de um encontro faltoso com o objeto. Nesse circuito em
que as relações são tão descartáveis quanto os objetos, crianças comparecem como
restos do ódio de amores de outrora; pais ocupados “terceirizam” o cuidado dos filhos,
como se educar equivalesse a produzir um acúmulo de performances; pequenas crianças
são expostas, pela virtualização, à dissociação do corpo em um tempo em que ainda não
construíram um.
Palavras-chave: novas configurações parentais; psicanálise, criança, família, jogos
virtuais

Pais, filhos e monitores: uma nova configuração familiar

Julieta Jerusalinsky

Um menino de 10 anos contou-me a seguinte piada: “Caiu a internet, saí do


quarto e comi junto com um pessoal. Até conversamos um pouco. Acho que eles eram a
minha família”.
Uma família reunida em torno da mesa em um almoço de domingo, cada um
olhando para o seu monitor. Um casal tomando um café, cada um olhando para seu
monitor. Uma mãe dando de mamar a seu bebê, olhando para o seu monitor.
Essas cenas resultam bastante familiares a todos nós: pais, filhos e monitores
parece ser uma configuração familiar bastante própria da nossa época, ainda que, assim
dizê-lo, possa revelar sua face de estranhamento.
Conviver não é fácil. Negociar as vontades, estabelecer as prioridades, decidir o
lugar dos objetos domésticos suportando a ordem e desordem de cada um, argumentar,
defender e relativizar seus pontos de vista em conversas, ouvir várias vezes as mesmas
histórias e os mesmos silêncios. Estar em família dá trabalho, pois deixa em relevo os
traços de identificação no que eles comportam de reconhecimento e de estranhamento,
de possível parceria, mas também no que eles revelam acerca da profunda solidão, de
diferença irredutível, que cada um experimenta diante de seu conjunto familiar.
Qualquer dúvida, basta considerar os reencontros produzidos nas férias
familiares, que supostamente deveriam ser momentos de idílico afeto, mas que dão o
que falar para os pacientes em seu retorno à análise. Frequentemente essa é uma
experiência que coloca à prova as elaborações de cada um, momento em que,
confrontados com esta sobredeterminação simbólica tecida na configuração familiar,
cada um se vê devolvido, sem escalas, a uma viagem de encontro com seu infantil, nisso
que, sendo o mais profundo, é escancarado na superfície do convívio com aqueles que,
por se conhecer de outros tempos, estabelecem um encontro marcado em que se
convoca o sujeito a ocupar um determinado lugar nessa estrutura. As férias familiares
costumam ser uma repetição das mesmas alegrias e conflitos em uma ordem
absolutamente imprevisível – se a ordem fosse sempre a mesma, não haveria conflito,
todos iriam preparados para o protocolo. E, se não houvesse repetição, não seria
familiar, afinal.
Diante disso, sempre houve os momentos em que alguns saíram para fumar um
cigarro, dar uma caminhada, pescar ou ler um livro – atividades com as quais se ganha o
direito de ostentar um álibi para a uma breve escolha pela solidão diante do coletivo.
Que diferença haveria aí com os tablets, iphones, ipads, laptops, kindles e por aí vai?
Talvez não muita coisa, se esse for o lugar de tais objetos. No entanto, cada vez
mais têm chegado a atendimento clínico crianças para as quais a pertença a um grupo
familiar, com suas histórias, rituais, sabores, ritmos e costumes, no que estes têm de
prazer e de desprazer, não parece estar estabelecida. Crianças que tantas vezes parecem
estar mais dispersas em um anonimato do que filiadas a certos traços simbólicos desde
os quais possam lançar-se em suas escolhas de identificação, exercício da diferença e
momentos de solidão.
Nas conversas, narrativas e brincadeiras, os argumentos e seus enredos
aparecem, na atualidade, muitas vezes encurtados para as crianças. Diante da enrascada
para a qual a trama da brincadeira as carrega, parece faltar-lhes o botão de reset para
reiniciar; diante do bloco que cai e não tem o encaixe virtual perfeito surge uma
profunda irritação; o tempo vazio a partir do qual é possível dar lugar à invenção parece
causar uma ansiedade absolutamente insuportável em que clamam por uma atividade
pré-programada. A posição de espectadores parece muitas vezes predominar em relação
à do prazer laborioso de desdobrar um fazer. Em lugar do regozijo de relançar a
brincadeira no “de novo!”, a fim de poder reconhecer-se e recapitular-se entre a
novidade e a repetição, apresenta-se uma exigência de ineditismo a cada momento, em
um incessante movimento metonímico em que busca preencher a falta por meio de uma
voracidade de consumir outra e outra coisa a mais. 1 A possibilidade de estabelecer
tramas coletivas em que se negocie com os outros se vê diminuída e cada um acaba
preferindo o seu jogo virtual individual em que se é herói de seu próprio mundo sem ter
que estabelecer pela lei negociação alguma entre os narcisismos de cada um. Nesta
montagem o objeto-brinquedo não está mais na posição de servir de apoio para o
fantasiar 2 da criança, elas é que passam a ser presas de seus gadgets.
É preciso considerar que o fazer de uma criança, se bem implique uma resposta
singular, se produz em um contexto. As crianças produzem seus sintomas a partir do
material simbólico disponível pela transmissão de sua família e cultura, revelando com
seus sintomas o retorno do recalcado do ideal civilizatório da época em que vivem.
Não se trata aí de cair na simplória armadilha do saudosismo erguendo a
bandeira do tradicionalismo dos costumes e da “normalidade familiar” diante dessas
cenas que escancaram o que da família atual, longe de produzir sua “bela figura”,
mostra-se como faceta de desconfiguração.
É frequente que se diga da falta de limites das crianças e de seus excessos
narcísicos diante da frágil autoridade dos adultos e da indefinição dos papéis parentais
no exercício de seus cuidados; que se apele para a conceitualização de declínio da
função paterna em um superficialismo que pretende fazer equivaler o papel autoritário
do pai no sistema patriarcal com a suposta eficácia na transmissão da lei. 3
Sem dúvida a emancipação sexual e econômica das mulheres surte seus efeitos
nas novas configurações parentais, já não fazendo de um bom casamento ou do cuidado
dos filhos a única via possível de realização fálica para elas. 4 Ao mesmo tempo, a
liberdade de escolha junto à exigência da felicidade plena como ideais supravalorizados
na hipermodernidade, recrudesce o narcisismo de cada um, tornando menos suportável
conviver com as faltas que emergem no laço conjugal. Assim, os casais tornam-se
menos estáveis, estando os filhos que são frutos dessa relação expostos a relações
circunstanciais com “irmãos de criação”, “tios emprestados”, “madrastas e padrastos
passageiros” e outras tantas configurações que as nomenclaturas das relações de
parentesco tradicionais não chegam a recobrir quando se tenta aplicá-las às famílias
ecléticas e sui generis de nossos tempos. 5
Mas seria isso em si mesmo um problema? Pode-se responsabilizar a família e
sua estrutura tradicional em crise pelos males das crianças? Nesse terreno é preciso
avançar com precisão, pois a clínica nos mostra que o tradicionalismo familiar nunca foi
garantia alguma de saúde psíquica. Os primórdios da clínica psicanalítica trazem o
vívido testemunho de um tempo em que as crianças padeciam de graves neuroses e
inibições em uma configuração em que predominava um pai autoritário e uma mãe
supostamente submissa em seu desejo, por estar reclusa ao ambiente doméstico.
Diante das crianças de seu tempo, Freud formula a esperança de que uma
educação menos repressora pudesse dar lugar a adultos menos neuróticos. 6 Assim,
escutando as crianças do seu tempo, permite que a psicanálise possa revelar o avesso de
um discurso social sustentado em uma moral vitoriana e em uma consequente educação
que imprimia culpa diante da satisfação sexual (tornando ilegítimos os singulares modos
de gozo), que inibia as investigações infantis (podendo aniquilar o desejo de saber) e
que desconsiderava a palavra da criança como se fosse algo menor (destituindo-lhe seu
valor de verdade). 7
Estas formas de neurose dominantes no fim do século passado revelaram ser
intimamente dependentes das condições da família. 8 Por isso, no que diz respeito aos
psicanalistas, não somos daqueles que se afligem com um pretenso relaxamento do laço
familiar. Se a função paterna está sempre em declínio, dado que a pessoa do pai está
sempre em falta com o ideal, revelando sua divisão – por um lado erigida como utopia
e, por outro, revelando sua impotência –, esta função não é independente do social e
seus efeitos de concentração econômica e catástrofes políticas. 9
Por isso, cabe à psicanálise interrogar de que modo se opera a articulação do
sujeito com o sintoma social. Revelar o tecido do discurso social pelo avesso é
fundamental para que os sintomas das crianças de nosso tempo não fiquem na dimensão
de pura inadequação ou rompimento. Reconhecer que o sintoma sustenta uma verdade
que se apresenta em falso possibilita que o paciente possa produzir um saber fazer ali
com isso, articulando um saber que o implica em seu singular modo de resposta ao
contexto cultural e familiar de seu tempo.
Nesse sentido, escutar as crianças de nossos tempos implica reconhecer que o
sintoma predominante da infância e da família mudou nesses últimos 100 anos, assim
como mudou o que impera como modo de laço social, do qual a criança e a família não
são independentes.
Frequentemente recebemos no consultório famílias de uma criança só, com
adultos que se queixam de ter que ser companheiros de jogos e de ter que ser eles os
propiciadores de atividades para a criança. De fato, não se conta mais com a família
extensa em que as crianças tinham nos primos de primeiro, segundo e terceiro grau seus
parceiros para brincar, e na qual o cuidado das crianças, ainda que fosse uma
responsabilidade dos pais, era partilhado com avós, tios ou primos maiores. As crianças
estão retiradas das ruas, pois o espaço público está degradado e oferece perigos,
portanto a relação com os vizinhos raramente ainda faz parte de suas trocas sociais,
muitas vezes restringidas apenas à turma da escola. Tampouco se conta com famílias
nucleares, dado que muitas das crianças que recebemos são tantas vezes criadas por um
único adulto, que manteve uma relação circunstancial com um parceiro, fez uma
“produção independente” ou, tendo uma escolha homoerótica, optou pela adoção.
Diante de tais configurações, é bastante frequente que os pais logo se culpem
pelos sintomas da criança, supondo que os mesmos só podem ser efeito do que lhes falta
e que as crianças não sofreriam se eles pudessem dar-lhes tudo.
A mãe de uma menina que apresentou sintoma de cleptomania culpa-se pela sua
ausência por ter que trabalhar e conta, comovida, que disse à filha: “Eu trabalho para
dar as coisas que você quer, não precisa roubar. Diz o que te falta que eu te dou”. O pai
adotivo de um menino fica sem palavras diante da exigência do filho de que ele lhe dê
uma mãe, este se ressente pelo pedido que não terá como atender devido à sua escolha
homoerótica. A tia do menino, que, por sua vez, adotou uma menina, consente que este
a chame de mãe e que sua filha chame o tio de pai.
Cena curiosa a que se monta, pois, apesar de os pais exercerem seu direito à
escolha não seguindo o trilho proposto pela família tradicional, claudicam na hora de
bancar as consequências de seu desejo perante as crianças. Diante do pedido dos filhos,
atualiza-se para eles a falta com os ideais mais tradicionais (a mãe culpada porque
trabalha e não se dedica exclusivamente aos filhos; o pai que não pode dar uma mãe
para o filho devido à sua escolha homoerótica) e realizam na relação com a geração
seguinte a inversão de uma dívida: são eles os que supõem que deveriam dar aos filhos
uma satisfação plena e logo se apressam em por no lugar do que faltaria aos filhos o
nome que têm as suas próprias dívidas para com o ideal da mãe ou pai tradicional.
Pais que se sentem culpados por estar em falta com os ideais – tanto aqueles
oriundos do passado com sua família tradicional, quando os da suposta atualização
científica que versam sobre as “técnicas” do educar – sentem-se profundamente em
dívida com os filhos, estando dispostos a pagar o que for preciso para sanar a sua
própria falta narcísica.
Mas quem disse que o que falta à criança seria o que os próprios pais idealizam?
E, mais ainda, quem disse que às crianças nada deveria faltar?
O amor infantil é ilimitado, exige nada menos do que tudo, afirma Freud nos
Três Ensaios. 10 Mas isso não equivale a dizer que precisaria ser atendido. Se bem os
preceitos psicanalíticos que versam sobre a concepção de que uma educação menos
repressora na infância seria capaz de criar adultos menos neuróticos tenha se tornado
vox populi, parece ter sido esquecida a passagem do mesmo texto em que Freud afirma
que uma criança excessivamente mimada e atendida em seus anseios também está
exposta a graves sofrimentos. 11
Nesse sentido, é crescente a quantidade de pequenas crianças que chegam com o
diagnóstico psiquiátrico de transtorno desafiador opositor, pequenos diante dos quais
os pais não se autorizam ao exercício de suas funções, claudicando na tarefa educativa
que implica autorizar, mas também restringir os modos de gozo da criança. Os pais
duvidam de sua autoridade e entram em embates argumentativos de explicações
politicamente corretas, perdendo de vista que o fundamento de sua autoridade reside no
fato de eles se responsabilizarem pela criança.
Assumir a função paterna e materna não implica uma garantia de infalibilidade
ou perfeição. Todos os pais erram tentando fazer o melhor possível. Do que se trata aí é
de assumir o risco e a responsabilidade da criação considerando e acolhendo a resposta
que, diante disso, a criança produz.
A família humana não é uma decorrência natural de cuidado dos filhotes. Ela
depende de laços simbólicos regulados pelos ideais da cultura. Sua estrutura hierárquica
que situa uma assimetria entre adultos e crianças implica uma autoridade desde a qual
os adultos são responsáveis pela formação ética das crianças. A família prevalece na
primeira educação, na transmissão da língua justamente chamada materna e, por isso,
preside os processos fundamentais da constituição psíquica, organizando as emoções,
pelo qual se introduz entre as gerações uma continuidade psíquica de causalidade
mental – afirma Lacan no texto A Família. 12

Paternidade e monitores eletrônicos: a transmissão da falta, dos ideais e dos bens

Nessa montagem é preciso considerar que a família, como célula da transmissão


simbólica, não está sozinha, faz parte de um corpo social e cultural desde o qual a
transmissão de pais a filhos é cada vez mais cedo curto-circuitada por informações
provenientes dos monitores eletrônicos com suas ficções, reality shows e propagandas.
Que lugar cabe aos pais diante de tal circuito? Transmitir os ideais, transmitir a
falta ou atender à demanda de consumo de bens?
Se os pais sentem-se em falta em relação ao ideal da família tradicional, e isso
vira culpa – culpa do que não dão a seus filhos, em lugar de poder assumir perante eles
as suas escolhas guiadas pelo desejo, no que elas comportam de realização e também de
falta –, produz-se uma inversão da dívida em que buscam permanentemente restituí-los.
Encontramos aí pais que estão dispostos a consentir a todos os pedidos de seus rebentos,
que não encontram fundamentos para dizer que não, ou pedem licença para os filhos,
pedem que sejam eles que os autorizem em cada ato que faz parte cotidianamente da
criação – “podemos mesmo ir embora?”; “vamos tomar banho?”; “não quer comer nem
um pouquinho?”; “será que você não está com sono e quer ir dormir?” –, dando à
criança a ilusão de poder e lançando-as, ao mesmo tempo, à angústia de escolher diante
de atos em que precisam de parâmetros estabelecidos pelos pais.
Nesse modo de operação em que se submetem às vontades das crianças e
atendem os seus caprichos ilimitados, os pais buscam auto-restituir-se narcisicamente de
estar em falta. Nesta equação, acabam por erigir os seus filhos como mestres do gozo,
fazendo-os deslizar da posição de “sua majestade, o bebê” 13 – com o tanto de
narcisismo que é necessário que se deposite nas crianças, na medida em que a
transmissão a elas efetuada é uma aposta na imortalidade dos valores culturais e
familiares – para o de “pequeno imperador tirano”, ao qual nada deveria faltar. Em lugar
dos pais transmitirem a falta que todo desejo comporta, podendo efetuar as restrições de
gozo que fazem parte da formação de uma criança, são eles que passam à condição de
reféns, identificados ao ilimitado narcisismo infantil, restituindo seus rebentos com
objetos de consumo.
Muito se discutiu a lei da palmada 14, que vem regular os castigos físicos
infringidos a crianças, mas recém agora entra em discussão a regulamentação da
violência decorrente do fato de que pequenas crianças fiquem horas a fio em frente de
monitores de TV por meio dos quais, em longos intervalos de programas infantis,
busca-se convencê-las, por meio de propagandas, que o que falta pode ser comprado.15
É bastante frequente hoje em dia que, na fala espontânea das crianças perfeitamente
tidas dentro da normalidade, apareçam holófrases, fragmentos simbólicos monolíticos,
advindos de trechos de propagandas e que se impõem no pensamento associativo delas
diante de certos acontecimentos, palavras ou cenas cotidianas. Isso é tão ou mais
evocado que as histórias familiares. Não pode haver prova mais cabal de que a
transmissão simbólica da singularidade de cada família está atravessada por esses
sentidos massificados que as crianças também compartilham como pontos de
identificação com os amiguinhos e colegas da mesma geração, já que, cada um na
intimidade de seu lar, está plugado ao mesmo canal virtual transmitido para todos pelo
meio televisivo.
Diante da queixa de pequenas crianças quando os pais saem para trabalhar, tem
sido frequente a resposta “vou trabalhar para comprar as tuas coisas”. De fato, há uma
necessária troca do trabalho por dinheiro para a sustentação econômica da família. Mas
essa resposta endereçada à criança vem sublinhar a perda do valor simbólico do
trabalho 16 como orgulho de produzir e deter um saber capaz de transformar o mundo,
estando o mesmo apenas reduzido a um meio cujo único fim seria a troca por bens de
consumo. Nessa equação em que o saber fica do lado do objeto e não mais do sujeito,
que lugar o discurso social oferece aos pais? Certamente o saldo é o de empurrá-los
cada vez mais a um lugar desautorizado, como intermediários na aquisição de objetos de
consumo para a geração vindoura em detrimento da transmissão singular de um saber-
fazer sobre a vida.
Nesse curto-circuito dos bens, responde-se à queixa da criança com a promessa
de que “a mãe ou o pai faltam, mas apenas para que nada lhe falte”, pela qual o adulto
exime-se de fazer-se responsável por desejar a criança, mas também de desejar, para
além do lugar de mãe e de pai, outras realizações. Inflaciona-se para a criança a ilusão
de que as demandas poderiam ser todas atendidas pelas infinitas possibilidades de
consumo em lugar de se transmitir que o desejo sempre comporta um encontro faltoso
com o objeto.
Se essa montagem está presente na classe média e alta, nas classes
economicamente desfavorecidas o ideal de consumo pode permanecer como uma
montagem pela qual o adulto estaria de início desautorizado, degradado, na medida em
que não poderia prover o filho desses objetos. O lugar de provedor no familiar
permeado pelos valores de uma sociedade de consumo aparece como condição posta
acima da transmissão dos ideais simbólicos: o poder de consumo seria a verdadeira
prova de que tais ideais teriam valor, caso contrário seriam o testemunho de que os
valores em questão estariam falidos 17– nessa instrumentalização do gozo a serviço do
consumo só surgem mais e mais objetos a despertar demandas que deixam
imaginariamente o saldo cada vez mais inflacionado para estes consumidores
consumidos de que a miragem de tais objetos seria anteparo à falta.
Bastante frequente é também que, diante de certas restrições de gozo que fazem
parte da educação das crianças – como largar a chupeta, a fralda ou a mamadeira –, os
adultos negociem e façam chantagens em torno de objetos pelo qual buscam dar à
criança a ilusão de trocas em que supostamente nada se perderia, procurando
permanentemente restituir o gozo da criança em uma elisão da falta. Não demora muito
para que a criança recue diante do embuste, pois a única condição que efetivamente
sustenta a possibilidade do abandono desses objetos como satisfações reais é que deixá-
los para trás possa representar, ao mesmo tempo, uma perda real e um ganho simbólico
– este ganho simbólico é obtido pela criança na medida em que ela for habitada pelo
desejo de crescer, considerando abandonar tais objetos para poder orgulhar-se do ganho
cultural de “sentir-se grande”. 18
Se à pequena criança os adultos respondem com esse embuste, vemos como na
adolescência há um efeito bumerangue dessa transmissão: os pais passam a desconfiar
do desejo de seus filhos e da maneira pela qual eles passarão a circular socialmente. Em
lugar de poder confiar na transmissão efetuada e de que os filhos poderão fazer-se, a
partir da mesma, responsáveis pelas suas escolhas, desconfiam dela, procurando
controlá-los por meio de monitores e chips de telefone celular. O embuste dos bens faz
o seu efeito de retorno e faz com que, em lugar de fazer valer a lei simbólica (no que ela
comporta de restrições, mas também no que ela autoriza do desejo ao ter como norte
certos ideais), os pais desconfiem da possibilidade de um saber-fazer por parte dos
filhos e por isso grudem sobre eles um olhar censor e vigilante. 19
É necessário ter desejos insatisfeitos e almejar satisfações que se passa trabalho
para, em parte, realizar. É possível sim que uma mãe queira trabalhar, que um pai crie
um filho sem uma mãe, que uma mãe crie um filho em um novo casamento, ou seja lá
qual for a configuração familiar que se apresente. O que resulta central nessa
transmissão é não elidir que inevitavelmente há faltas e que estas foram introduzidas
como vicissitudes do desejo pelas quais cabe ao adulto se responsabilizar e não buscar
encobrir com embustes. Mas se a relação de pais e filhos vira presa única do narcisismo
diante do qual o que importa é reconhecer-se especularmente na suposta
complementaridade com o Outro – curto-circuitada pelos bens de consumo que
prometem uma satisfação total e imediata –, menos possibilidade haverá de fazer a falta
circular e consequentemente autorizar-se e autorizar escolhas movidas pelo desejo –
escolhas que, em sua imperfeição, incompletude e parcialidade, assim como as
configurações familiares, implicam o sujeito em questão e fazem de uma criança filha
dessa família e não de qualquer outra.
Se o adulto fica tomado pelo horror da falta que se revela no rastro deixado ao
longo de sua história pelas suas escolhas desejantes, oferecendo em seu lugar objetos de
consumo fetichizados, pode acabar por negar à criança o que há de mais fundamental na
transmissão simbólica pela operação de filiação. Afinal, a criança é filha do desejo ou
apenas um produto narcísico?

De Mary Poppins a Super Nanny – os pais e seus monitores técnicos

Se há 40 ou 50 anos contávamos com o personagem de Mary Poppins como uma


babá ficcional ideal, por ser capaz de reintroduzir na vida de crianças com uma
educação rígida o prazer e o humor non-sense no dia-a-dia, o personagem idealizado
que hoje aparece é o da “Super Nanny”, que em reality shows se intromete na
intimidade das famílias como uma disciplinadora implacável.
Os pais chegam ao consultório supondo-se destituídos de um saber que,
consideram, deveriam ter. Já consumiram vários livros do gênero de “autoajuda para
pais”, nos quais buscam instruções de como fazer dormir, como e o que dar de comer, e
assim por diante, procurando regular os cuidados mais primordiais de organização de
ritmos de funcionamento corporal da criança por meio de técnicas genéricas e
anônimas. Afirmam que com essa criança, com a qual já fizeram “de tudo”, já aplicaram
“todos os métodos”, parece que “nada funciona”.
Outras tantas vezes os pais buscam delegar a babás ou à escola infantil a
sustentação de operações decisivas da subjetivação do funcionamento do corpo e na
apropriação imaginária do mesmo, tal como o desfraldamento e controle esfincteriano
ou a introdução de comida sólida, entre outras passagens fundamentais da infância por
meio das quais se realizam as primeiras inscrições de prazer e desprazer que
funcionarão como parâmetro primordial para o resto da vida.
Buscam-nos no consultório, às vezes, também como um “monitor técnico”, com
a esperança de que lhes apresentemos o método infalível pelo qual se suspenderá a
trabalhosa repetição que é sustentar uma e outra vez o funcionamento de certas funções
que a pequena criança ainda não tem como sustentar sozinha e que eles tampouco estão
conseguindo sustentar. Esperam um método para não passar tanto trabalho.
O fato é que criança dá trabalho. Exige a presença de um outro disponível que
sustente os pequenos cuidados cotidianos (de higiene, vestimenta, alimentação, jogos)
de modo articulado com ideais simbólicos singulares e não anônimos desde os quais
esses pequenos gestos de todos os dias façam sentido, para que deles a criança queira se
apropriar por um efeito de identificação e não para que os faça por uma pura adaptação
esvaziada da significação.
Assim, os bebês e pequenas crianças têm, cada vez mais, seus cuidados
“terceirizados” enquanto seus pais “pagam pelos serviços e bens relativos à sua
formação”. Crianças que tantas vezes parecem “adaptadas” passam a produzir, de um
momento a outro, sérias birras e oposições cotidianas. Clamam ali, convocam com isso,
a implicação dos únicos adultos que podem pôr em cena um desejo não anônimo que
lhes diga respeito: os pais. Nesse sentido, as chamadas “terceirizações”, longe de
representar um terceiro na relação inicial da criança com a mãe, costumam implicar uma
delegação dos cuidados da criança que muitas vezes esgarça o seu laço primeiro com o
Outro encarnado e pode pôr em risco a sua identificação mais primordial desde a qual a
vida começa a fazer sentido.
O que aparece como “inadequação” de muitas pequenas crianças, em sua
errância pelo espaço, necessidade de rituais, apagamento subjetivo ou birras explosivas,
muitas vezes revela esta montagem. Quanto mais os pais se ausentam, mais costumam
querer se fazer presentes por meio do agrado. Menos conseguem dizer que não, na
medida em que isso implica suportar o ódio passageiro que isso desperta na criança.
Antes da tarefa de educar é preciso estruturar, estruturar um sujeito que possa
apropriar-se do seu corpo; inscrever um funcionamento das funções corporais permeado
pela lei, mas também pelo prazer no que ele faz emergir de mais autêntico e singular na
relação com os outros. Os pais se apoiam em tecnicismos, pois não se autorizam a
desdobrar um saber-fazer e sentem “horror” do que o filho lhes devolve acerca de seu
próprio sintoma.
Diante disso, proliferam especialistas com técnicas que prometem silenciar o
sintoma que emerge na criança, restituindo aos pais o gozo diante desse objeto-filho no
qual investem e que não rende os devidos juros narcísicos. As crianças estão cada vez
mais medicalizadas e tratadas de forma adaptativa. Sua educação muitas vezes se
estabelece por uma somatória de atividades que prometem melhor equipá-las para
competir no futuro, fazendo desse processo de formação um acúmulo de performances.
Nesse sentido, os monitores técnicos muitas vezes entram a serviço da resistência de
que os pais, escola, família e sociedade possam se interrogar pelo que, de fato,
transmitem e têm a transmitir à criança, retirando dos pais a implicação no ato de negar
ou conceder-lhe suas satisfações em nome de um desejo que lhes concerne.
Isso dá trabalho. Atravessar com a criança o fato de que amá-la não equivale a
satisfazê-la em tudo; que educá-la não corresponde a adaptá-la de modo passivo. A
negociação entre a lei e o desejo dá trabalho – trabalho que, uma e outra vez,
sustentamos junto às crianças e seus pais no consultório. Sublinhamos aqui esse junto,
pois não há como fazer isso por eles. Poupar-lhes esse trabalho é abandonar
simbolicamente uma criança à sua própria sorte, mantendo os pais como reféns de
técnicas anônimas que, ao deixar de convocá-los a desdobrar seu saber-fazer, fazem-nos
perder de vez o único princípio possível de sua autoridade: a responsabilidade de
assumir as consequências de seus atos e de reconhecer-se e ocupar-se dos efeitos de
retorno que isso produz do lado do filho.
-Crianças-restos do ódio: funções materna e paterna e os papéis parentais no
monitoramento jurídico

O tradicionalismo parental nunca foi garantia de saúde psíquica. Que haja um


pai não garante o exercício da função paterna e que haja uma mãe não garante o
exercício da função materna. Funções não correspondem a papéis e, por isso, as funções
podem ser exercidas por diferentes agentes. Mas uma coisa é certa: é preciso que uma
criança esteja a cargo de adultos que encarnem para ela essas funções de forma não
anônima e não delegável a outros, uma vez que foram por eles assumidas – sob o risco
de esgarçar para a criança o laço primordial que sustenta essas funções a partir do qual
poderão ir sendo progressivamente estendidas a outros agentes que passarão a ir fazendo
parte da formação da criança: na família, na escola, até chegar, de modo extenso, a seu
lugar na sociedade.
A mudança das configurações parentais têm seus efeitos no monitoramento
jurídico dos direitos de família ao ter que arbitrar sobre as novas formas em que os
cuidados das crianças vão assumindo como prática social quando confrontados a um
modelo de legislação que leva as marcas de ideais familiares de outrora.
Dado que o exercício das funções materna e paterna não está amalgamado a
papéis sociais, não há formato ideal que, a priori, possa garantir o cuidado de uma
criança. Do mesmo modo, que as funções possam ser assumidas por famílias com
diferentes configurações, está longe de implicar qualquer risco prévio para uma criança.
No entanto, o imaginário da família tradicional que paira para muitos agentes da lei
(juízes, advogados, assistentes sociais que emitem laudos) como um modelo idealizado,
muitas vezes obscurece a possibilidade de detectar se as efetivas condições simbólicas
imprescindíveis para o cuidado de uma criança estão sendo sustentadas.
A legislação fica às voltas com a questão da homoparentalidade e seu
reconhecimento enquanto família, em seus casos de adoção e de inseminação – como se
houvesse dúvida de que as funções materna e paterna pudessem ser assim assumidas.
Retornam aí preconceitos socialmente arraigados que em nada correspondem ao que se
verifica na clínica e que leva Freud, já em 1905, a afirmar que a pesquisa psicanalítica
se opõe com o máximo de decisão que se destaquem os homossexuais, colocando-os em
um grupo à parte do resto da humanidade, como possuidores de características
especiais. 20
O modo como para uma criança irá se traçar a sexuação e identificação
certamente dirá respeito a suas escolhas subjetivas e ao que elas comportam de retorno
dos traços de sua filiação – por meio da resposta que singularmente produzirá diante do
desejo inconsciente da transmissão familiar.
Que haja muitas formas diferentes de família e que todas elas possam ser
legitimadas não equivale a dizer que a família seja toda, ou seja, que tenhamos que cair
no embuste de que, nessa suposta equivalência, nada falta a ninguém na medida em que
tudo seria igualmente substituível.
Uma mãe chega preocupada porque o filho de cinco anos lhe diz que quer ser
menina quando crescer. A mãe lhe diz que pode até querer, mas que não tem como
desconsiderar que ele tem corpo de menino, ao que este lhe responde que fará as
operações necessárias para que seu corpo seja de mulher. Fica fora dessa conversa o que
ele supõe que seja ser menina ou o que simbolicamente pretende com isso – com e para
além do real de seu corpo real. Esta é uma questão que frequentemente se apresenta na
investigação sexual para as crianças da atualidade e que parece curto-circuitar o
narcisismo ilimitado das crianças (que tudo quer) com o discurso científico (que
promete ser tudo possível). Em meio a isso os pais, tantas vezes tomados em formações
reativas de seus próprios preconceitos, diante desses questionamentos infantis, desfiam
o discurso do politicamente correto elidindo do mesmo a inevitável falta com a qual os
seus filhos terão que se confrontar já que, no processo de sexuação, sempre há a
castração, sempre há algo que inevitavelmente se perde e nem tudo se transforma 21. Por
isso dá tanto trabalho arranjar um parceiro, seja lá qual for a escolha ou a identificação
sexual, pois na nossa falta nunca encaixa perfeitamente “a outra metade da laranja”,
sempre há uma falta a ser que não há como preencher (por mais próteses ou cortes que
se façam no real do corpo).
O pai de uma paciente de nove anos, recentemente separado e que, em seis
meses, apresentou a terceira namorada à filha, conta preocupado, em uma sessão, que a
menina tapou os seus olhos e o colocou frente a frente com a mãe de uma amiguinha.
Esta era uma clara oferta do que poderia ser o seu novo objeto de desejo, sobre o qual a
filha se posiciona no lugar de suposta gerenciadora. Essa cena, que considerou
constrangedora, o fez refletir sobre os efeitos que teria para a sua filha esta exposição a
relações fugazes que costumam ter o prazo de validade de uma curta paixão, sendo
descartadas assim que se adverte que a parceira não atende a todos os anseios
narcísicos. Neste ato a menina devolve ao pai a cena do “mais uma” da série
metonímica de relações pautadas na lei do mercado pela qual os parceiros são
consumidos e descartados. Em cada uma destas relações, a menina desenvolve a
mesma paixonite que o pai, idealizando reformas perfeitas da “nova casa” com projetos
mirabolantes (em que terá uma cama com escorregador ligado a um monotrilho que
circulará por todos os ambientes, por exemplo) e que logo são substituídos pela nova
casa da nova parceira, diante da qual me afirma: “Ah, não te disse? É que a fila anda”.
A questão é que não parece aí haver tempo nem lugar para elaborar a falta, o luto ou
desilusão, mas pressa em elidir metonimicamente a falta com o próximo brinquedo, o
próximo parceiro, o próximo objeto consumível. Como afirma Kehl,“A possibilidade
(real) de se tentar corrigir um sem número de vezes o próprio destino cobra seu preço
em desamparo e mal estar. O desamparo se faz sentir porque a família deixou de ser
uma sólida instituição para se transformar num agrupamento circunstancial e precário,
regido pela lei menos confiável entre os humanos: a lei dos afetos e dos impulsos
sexuais”. 22
A virada do amor narcísico pleno ao ódio absoluto costuma ser uma vicissitude
bastante frequente na montagem de casais da atualidade, já que ambos consistem em um
par de opostos movidos pela mesma chave totalizante.
Não são poucas as crianças que chegam ao consultório cercadas por um
ambiente familiar de litígio judicial, perversamente tomadas como objetos a serviço da
rivalidade conjugal. De frutos do narcisismo de outrora passaram a restos do ódio.
Casos nos quais os procedimentos litigantes vão à exaustão e parecem nunca ter fim,
pois novos e novos recursos são abertos perante um sistema judicial instrumentalizado
por advogados experientes e pais movidos pela fúria de devastação ao ex. Enquanto
isso, o universo simbólico da criança despenca, se vê desmantelado – casos em que a
criança recua de tomar a palavra, pois teme que tudo possa ser usado contra ela,
desenvolvendo relações persecutórias com os demais; casos em que a criança clama por
ser ouvida, mas que não é recebida pelo juiz, entrando em quadros de melancolia ou
fúria diante da perda de confiança em uma lei que a projeta dos excessos narcísicos dos
adultos que deveriam cuidá-la. Casos em que até mesmo o corpo da criança fica exposto
a maus-tratos extremos nas circunstâncias em que passa a ser representante do ex.
Que diferentes configurações possam ser reconhecidas como família no que elas
têm de possível não equivale a pretender expulsar qualquer falta delas. É preciso que a
estrutura guarde seus lugares vazios, pois é nas configurações que se pretendem mais
totalizantes que o sujeito fica exposto ao retorno do que há de mais violento.

- Bebês e monitores: relações virtuais e suas consequências nos primórdios da


construção do corpo

No aeroporto, uma mãe, para barrar os deslocamentos espaciais de sua bebê de


um ano, oferece-lhe uma animação virtual na tela do seu aparelho telefônico; uma
mulher chega a tratamento afirmando que não consegue se concentrar no trabalho, pois
não quer “perder nada” do que seu bebê de um ano e meio faz e, por isso, afirma,
instalou câmaras por toda a casa para “controlar” o que acontece lá nas 10 a 12 horas
em que permanece no trabalho.
Há algum tempo, um pequeno menino de dois anos entrou porta adentro de meu
consultório. Deixou a mãe para trás sem se perturbar, passou por mim de modo
impávido. Começou a abrir as gavetas do armário, jogar para fora os brinquedos do baú
e, em um movimento de varredura com a mão, rapidamente atirou para fora todos os
móveis e personagens de uma casinha. Uma vez que tudo estava misturado pelo chão
pisou por cima dos objetos de modo indiferenciado proferindo algo como “a-a-ca!!!”
que, na segunda ou terceira repetição, junto com a sua mãe, entendi como “atacar!”. De
todos os objetos que atirou houve apenas um que pegou e atirou novamente: uma
pequena televisão de brinquedo, que fazia parte da mobília da casinha. 23
Sensível à sua repetição em meio a esse mar de objetos indiferenciados, peguei a
TV e a atirei de modo que a mesma encostasse no seu corpo. Nesse momento, sua
atenção voltou-se para mim e, por um instante, me olhou, pegando a TV e atirando-a
novamente. Na sessão seguinte, após vários “a-a-ca!!!”, pegou a TV e, rindo, jogou-a na
minha direção. Após certa repetição em torno desse objeto, pegou-o, colocou-o sobre
uma mesinha e, na frente deste, acomodou uma boneca em uma cadeira – configurando
uma cena bastante diferente da produção anterior. Virei-me em direção à mãe para
compartilhar com ela a produção dessa cena. Ao fazê-lo, percebi a simetria entre
realidade e ficção: a mãe, sentada em sua poltrona estava olhando não para a cena
produzida pelo filho, mas para o seu tablet. “Olha só, mamãe, olha você aqui!”. lhe
disse.
Assim começou esse tratamento. A cena produzida pelo menino deu o que
trabalhar para seus pais em sessão. Com ele foi preciso partir do “atacar!!!” – fala que,
segundo a mãe, era recortada dos desenhos de super-heróis televisivos e suas batalhas,
que via por horas a fio – para ir podendo construir cenas nas quais estar com o outro
pudesse ganhar uma dimensão um pouco mais extensa de fala, de brincar, de narrativas.
Foi preciso trilhar um caminho com esse menino para fora do quadro de intoxicação
eletrônica, assim como com esta mãe que, tendo postergado sua realização profissional
pelos cuidados da família e filhos, ficava reclusa ao lar, mas com seu olhar voltado para
o mundo por meio de sua janela virtual. Como equacionar o que ali se apresenta? Como
possibilitar a esta mulher um exercício desejante pelo qual não fique presente em casa,
mas de modo psiquicamente ausente, exaurida pelo cuidado desse filho com o qual
“tudo é difícil”? Como possibilitar a esse menino contar com o olhar de um Outro
Primordial para compartilhar as cenas prazenteiras e contorno para o desprazer que
emerge em suas birras desbordadas? Como dar lugar a uma produção que não fique
tomada em reproduzir o espetáculo do ataque que olha nas histórias anônimas da TV e
que acaba por realizar o olhar do outro sobre si que o vigia diante de seu eminente risco
de ataque?
Não nascemos apropriados do nosso corpo. Esta é uma operação que pode se
constituir ou fracassar. Estabelecer um funcionamento corporal no qual a organização
dos ritmos – de sono-vigília, fome-saciedade, movimento-repouso, entre tantos outros
funcionamentos implicados na circulação de objetos pulsionais como olhar, voz,
respiração, fezes – diga respeito ao prazer e desprazer de um sujeito, não está garantido.
No início da vida é o agente da função materna que sustenta a instauração de um
funcionamento corporal subjetivado na medida em que interpreta, qual seria a ação
específica que pode satisfazer o bebê e tirá-lo de seu estado de desamparo 24. Para tanto
é preciso que haja um Outro primordial que se afete em sua economia de gozo pelo que
se passa com o bebê, operando com este uma identificação transitivista. É porque há
outro que diz “ai” diante do tombo do bebê e depois o consola que o bebê pode
representar simbolicamente isto que padece, apropriando-se imaginariamente do seu
corpo. É porque há outro que diz “hummm!” enquanto oferece a papinha que o bebê
pode, identificadamente, não só comer, mas partilhar de desejar a papinha de modo
identificado ao desejo do Outro.
Assim, é a partir dessas inscrições primordiais produzidas na relação com um
Outro encarnado que se passa do afeto à sua representação, do corpo à linguagem, do
gozo ao saber, produzindo entre essas instâncias de diferentes ordens uma inscrição (a
inscrição da letra como rasura inconsciente no psiquismo) que articula, que faz
dobradiça fundamental para a constituição psíquica e para a apropriação imaginária do
corpo. Isso não pode ocorrer sem a presença de um Outro encarnado que está
atravessado em sua própria economia de gozo pelo que se passa com o bebê. 25
Na atualidade não são poucas as mães que chegam ao consultório surpresas com
o profundo trabalho que dá cuidar de um bebê – com esse delicado trabalho, com o fino
“bordado” que é tecer, articular corpo e linguagem. Enquanto desde o discurso social se
sublinha a maternidade como um campo de eficácia fálica, como se com uma boa
equipe de especialistas, parafernalhas técnicas e um tanto de competência materna
pudesse dar conta do recado de criação de um bebê, a grande surpresa costuma ser
descobrir que talvez o mais difícil da maternidade não seja o “exercício de um saber
ativo”, mas a posição psíquica de disponibilidade ao bebê. 26
Mais uma vez é preciso situar que essa relação dos pais e dos bebês não ocorre
de forma isolada, mas atravessada pelos ideais sociais. Não são poucos os objetos que
circulam no mercado e que se oferecem como eficazes para os cuidados do bebê
(apetrechos para o banho, almofadas para a postura, monitores para controlar o sono,
aplicativos para os ritmos de mamada, decodificadores de choro e assim por diante).
Uma vez estabelecida a relação com o bebê, é importante que uma mãe possa ir
progressivamente oferecendo a este objetos substitutivos de satisfação que não o
retenham apenas sobre o corpo materno, objetos que passam a representar essa relação
com o Outro (paninhos, chocalhos, brinquedos dos quais depois se deriva o objeto
transicional apontado por Winnicott). 27 A questão se coloca quando a promessa
efetuada é a de que tais objetos, em lugar de funcionar progressivamente como
substitutos simbólicos que representam a relação com o outro, se interpõem em uma
suposta economia da relação, supostamente “poupando” o trabalho simbólico que
produz se relacionar, pois haveria um objeto realmente adequado. Assim temos desde
cadeirinhas vibratórias até programas televisivos para bebês que prometem acalmar a
cólica mais do que qualquer colo e aconchego ou “estimular a inteligência” mais do que
qualquer cantiga ou conversa.
Os adultos ficam fascinados com a habilidade de seus pequenos rebentos em
apertar botões – na medida em que essa foi uma aprendizagem tardia para a geração
anterior. Em seu fascínio, deixam de perceber que a complexidade simbólica de um
“on-off” ou dos ícones presentes nesses objetos fetichizados impõe bastante menos
variáveis que uma pequena brincadeira corporal com parlendas, que uma história
infantil de conto de fadas ou um brincar de faz de conta.
A captura do olhar da pequena criança na tela portátil em muitos casos costuma
funcionar como uma “chupeta eletrônica” que suspende as demandas e os
deslocamentos da criança pelo espaço e que fazem necessária a relação com um outro
que advirta a criança sobre as possibilidades e riscos presentes no mundo simbólico,
imaginário e real que os humanos habitamos.
A virtualização implica a possibilidade de dissociar-se do real do corpo, e disso
é possível fazer bons usos, mas é preciso considerar quais os riscos dessa dissociação na
primeira infância e, portanto, em um tempo em que a subjetivação e apropriação do
corpo ainda não foram realizadas.

((inserir imagem)) Grafite realizado em uma importante avenida de São Paulo.

Referências Bibliográficas:
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ROUDINESCO, E. La familia en desorden. Buenos Aires: fondo de cultura económica, 2003.
WINNICOTT, D. (1971). Realidad y juego. Barcelona: Gedisa, 1994.

1
Jerusalinsky, J. Muitas lembrancinhas fazem uma memória? Trabalho apresentado no V Congresso de
Psicopatologia Fundamental, Fortaleza, 2012, inédito.
2
Freud, S. (1908). Escritores criativos e devaneio. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. 9, p. 147-158.
3
Roudinisco, E. (2003). La familia en desorden. Buenos Aires: fondo de cultura económica, 2003.
Buenos Aires: fondo de cultura económica, 2003.
4
Questão desenvolvida em Jerusalinsky, J. (2011). Maternidade e gozo fálico in: A criação da criança –
brincar, gozo e fala entre a mãe e o bebê. Savador: Ágalma; também em: Angústia na pós-maternidade
in: da infância à adolescência: os tempos do sujeito, revista da APPOA, n.35 Porto Alegre: Associação
Psicanalítica de Porto Alegre, 2008, p.9-20.
5
Famílias Tentaculares é uma denominação possível à estrutura das famílias de nossa época proposta por
Maria Rita Kehl, acerca das quais a autora afirma: “O que é insubstituível é um olhar de adulto sobre a
criança, a um só tempo amoroso e responsável, desejante de que esta criança exista e seja feliz na medida
do possível – mas não a qualquer preço. Insubstituível é o desejo do adulto que confere um lugar a este
pequeno ser, concomitante com a responsabilidade que impõe os limites deste lugar. Isto é que é
necessário para que a família contemporânea, com todos os seus tentáculos esquisitos, possa transmitir
parâmetros éticos para as novas gerações”. Kehl, M. R. (2003). Em defesa das famílias tentaculares.
Texto disponível na internet.
6
Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. 7, p. 123-
152.
7
Jerusalinsky, J. 2012. Obra citada.
8
Lacan, J. A família. Lisboa: Assírio e Alvim, 1978, pág. 73.
9
Idem, pág. 72.
10
Freud, 1905. Obra citada.
11
Freud, 1905. Obra citada, pag.211.
1212
Lacan, J. obra citada, pág. 14 e 15.
13
Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo, In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1993.
v. 14, p. 65-98.
14
projeto de lei 7672/2010 da Presidência da República brasileira, proposta em 2003 ao Congresso
Nacional e em atual tramitação no Senado, que visa proibir o uso de castigos físicos ou tratamentos
cruéis e degradantes na educação de crianças e adolescentes.
15
Ver a este respeito o documentário: criança, a alma do negócio.
16
Jerusalinsky, A. e outros. O valor simbólico do trabalho, Porto Alegre: Associação Psicanalítica de
Porto Alegre, 2000, pag. 36.
17
Ricardo Goldemberg aponta na equação neoliberal “tem valor porque vende” mesmo que algo seja
péssimo, o cinismo que atravessa as relações guiadas acima de tudo por uma lei do mercado em que o
lucro obtido com a troca do objeto paira acima de qualquer saber-fazer implicado em produzi-lo.
Goldemberg, R. No círculo cínico. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2002, pag. 22.
18
Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. 18, p. 11-85.
Em outro texto apontamos como a expressão “ser grande” utilizada pelas crianças implica a ilusão de que
bastaria crescer para realizar os ideais do eu – em uma correspondência entre “um grande homem” e “um
homem grande”. Ver a este respeito: Jerusalinsky, J. (2002). Enquanto o futuro não vem –a psicanálise
na clínica interdisciplinar com bebês -. Salvador: Ágalma.
19
Há aproximadamente dois anos uma paciente adolescente fez parte de um protesto contra a instalação
de câmaras em sala de aula de uma escola de elite em São Paulo, sendo esta prática comum em diversas
escolas de ensino médio na atualidade.
As consequências desse dispositivo de poder já foram advertidas por Foucault em Vigiar e Punir.
20
Freud, 1905, obra citada.
21
Aí a operação de castração opõe-se radicalmente ao principio de Lavoisier.
22
Kehl, M. R., 2003, obra citada.
23
Não podemos deixar de fazer notar a situação que se nos apresenta: se o jogo do fort-da do pequeno,
Ernst, netinho de Freud, tinha como suporte material um carretel lançado e recuperado, o objeto que se
apresenta nessa clínica é uma pequena televisão de brinquedo.
24
Freud, 1905, obra citada, pag. 146.
25
Jerusalinsky, J., 2011, Obra citada.
26
Idem.
27
Winnicott (1971). Realidad y juego. Barcelona: Gedisa, 1994.
Clínica interdisciplinar com bebês

– qual a importância de considerar a especificidade desse

campo clínico?- 1

Julieta Jerusalinsky 2

Resumo:

O artigo aborda a importância clínica e epistemológica de considerar a intervenção

com bebês, comumente denominada ‘estimulação precoce’, como um campo de intervenção

específico que, em lugar de intervir de modo fragmentário com o bebê, adequando-o aos

conhecimentos isolados de cada disciplina, produz articulações interdisciplinares postas em

causa a partir da especificidade apresentada pela primeira infância.

Palavras-chave: bebê, desenvolvimento, estimulação precoce, psicanálise;

El artículo plantea la importancia clínica y epistemológica de considerar la

intervención con bebés, comunmente denominada ‘estimulación temprana’, como um campo

de intervención específico que, en lugar de intervenir de modo fragmentado con el bebé,

adecuándolo a los conocimentos aislados de cada disciplina, produce articulaciones

interdisciplinares puestas em causa a partir de la especificidad que la primera infância

presenta.

1
Artigo publicado in: Clínica com crianças: enlaces e desenlaces, org. Mira Wajntal, Casa do Psicólogo,
2008.
2 Do autor: Psicanalista, mestre e doutora em psicologia clínica (PUC-SP), especialista em estimulação precoce, professora

do Centro Lydia Coriat e da COGEAE/PUC-SP, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e da
Clínica Interdisciplinar Dr. Mauro Spinelli –SP. Autora do livro Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica
interdisciplinar com bebês (Ágalma, 2002).
bebé, desarrollo, estimulación temprana, psicoanálisis.

Há mais de 30 anos o campo da clínica com bebês que apresentam problemas em

seu desenvolvimento e constituição psíquica – com ou sem patologias orgânicas de base -

recebeu a denominação de estimulação precoce 3 (E. P.).

Ao longo desses anos, a experiência propiciada pela clínica com a primeira infância

corroborada pelas descobertas da neurociência – tal como a da plasticidade neuronal -, foi

demonstrando a importância decisiva dos primeiros anos de vida para a constituição

psíquica e para as aquisições instrumentais 4 – de linguagem, psicomotricidade e construção

do pensamento.

A partir daí, diversas disciplinas começaram a voltar os seus objetos de estudo para

a primeira infância, produzindo práticas que, se bem tomassem o bebê, permaneciam com

seus focos centrados no objeto de estudo de cada disciplina de modo dissociado. Deu-se

lugar assim a intervenções precoces em fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional,

educação, psicologia e também psicanálise – disciplinas estas que, inicialmente, não tinham

uma praxis voltada para os 0 aos 3 anos.

3UNICEF, diversos autores (1978). Estimulación Temprana – importancia del ambiente para
el desarrollo del niño, segunda edição, Santiago de Chile.
4
CORIAT, L. e JERUSALINSKY, A.(1983). Aspectos estruturais e instrumentais do desenvolvimento,
Escritos da Criança, n.4, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat.
A organização da produção do conhecimento por áreas possibilitou aprofundar o

estudo em determinados aspectos do objeto de cada disciplina, respondendo, de certo

modo, ao ideal de ciência do século XX –baseado nos princípios de ordem, separação e

redução. Tais princípios, porém, levaram a uma fragmentação do conhecimento,

produzindo sérias dificuldades quando o que está em jogo é a intervenção clínica com um

bebê. Afinal, por quantos especialistas deve passar um bebê que apresenta um problema?

Quantos tratamentos simultâneos deveriam ser empreendidos quando o que se busca é

sanar, área por área, todos os aspectos implicados no desenvolvimento e na constituição

psíquica? 5

Temos aí uma séria questão clínico-epistemológica no que tange à intervenção com

bebês. Ela coloca a necessidade de refletirmos acerca das respostas que vêm sendo

produzidas em tal campo.

Uma resposta possível consiste em submeter o bebê à fragmentação do

conhecimento de objetos específicos de cada disciplina, fazendo sucessivas intervenções

clínicas que respondam à lógica da área por área. Tem-se, deste modo, estimulação visual,

estimulação auditiva, estimulação motora, intervenção precoce em psicologia, intervenção

psicanalítica precoce, educação precoce, intervenção fisioterapêutica precoce, intervenção

fonoaudiológica precoce e assim por diante.

Outra possibilidade é a de partir, em termos epistemológicos, de uma inversão de tal

proposição, reconhecendo uma especificidade na clínica com bebês. Isto lança novas

interrogações ao conhecimento já constituído e revela as limitações das práticas standard

5 Questão amplamente abordada por diversos escritos do campo da clínica interdisciplinar com
bebês e crianças.
Ver: Coriat, E. (1995). Psicanálise e clínica com bebês, Porto Alegre, Artes e Ofícios; Jerusalinsky,
A. (1998). Quantos terapeutas para cada criança?, Escritos da Criança, n. 5, Porto Alegre, Centro
Lydia Coriat de Porto Alegre; Silvia Molina (1998). O bebê da estimulação precoce, Escritos da
Criança, n. 5, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat.
de cada disciplina quando se trata de bebês. Este é o princípio que permeia o

estabelecimento da estimulação precoce como um campo clínico específico aberto a

considerar a especificidade colocada pela primeira infância em lugar de procurar tornar

redutível o bebê ao recorte produzido nele por cada área do conhecimento.

A escolha por esse segundo caminho gera, então, um duplo movimento:

- Em primeiro lugar, a produção de uma fundamentação clínico-epistemológica

da clínica da estimulação precoce a partir da concepção que se tome como referência para o

seu exercício. Deixa-se assim de dar por suposto que esta concepção já estaria implícita

dentro do corpus teórico de cada disciplina, e passa a ser preciso elaborar conceitualmente

no que consiste bebê, precocidade, estímulo, relação mãe-bebê ao invés de tomá-los como

nomenclaturas “naturalmente” imanentes da primeira infância e de, portanto, considerar

que há um acordo geral acerca do que se quer dizer com tais termos.

- Em segundo lugar, considerar a clínica com bebês como um campo específico

que exige dos profissionais oriundos de diferentes formações que, ao intervir enquanto

clínicos em estimulação precoce, produzam uma extensão dos conhecimentos de sua

disciplina de base ao deparar com a especificidade da clínica com bebês. Reconhecer o

exógeno que tal campo clínico comporta em relação aos conhecimentos e práticas de sua

disciplina de base também coloca a necessidade de uma formação específica para intervir

com bebês que se sustente em uma permanente interlocução interdisciplinar para poder

avançar nas questões despertadas pela praxis. Dá-se lugar assim a uma especialização às

avessas, no sentido de que procura estabelecer a interlocução das diversas disciplinas,

alguma religação desses saberes 6 postos em causa a partir do bebê.

6
Morin, E. (1999). A religação dos saberes, Rio de Janeiro, Bertrand.
Fica claro aí que a clínica interdisciplinar não consiste em uma ilusão imaginária de

fechamento da totalidade somando-se área por área, tal como se vislumbra no horizonte da

multidisciplina7. Isto porque a constituição psíquica de um bebê e suas aquisições

instrumentais não se produzem como efeito da soma da eficácia parcial do funcionamento

de cada uma das funções. A clínica interdisciplinar parte de um reconhecimento dos limites

de abrangência da prática clínica de cada disciplina, sendo necessária, ao tratar de bebês, a

produção de uma clínica específica para dar conta de um campo que, se bem esteja

recortado, delimitado e estabelecido pela fronteira com diversas disciplinas, não é possível

de ser abarcado em sua complexidade por nenhuma delas de modo isolado.

Considerar que da estimulação precoce surge e estabelece seus contornos a partir das

fronteiras com diversas outras disciplinas, com as quais sustenta uma interlocução que

permanentemente situa a exterioridade em relação a esse campo ao mesmo tempo em que

redefine sua interioridade, “assim como fazem os rios e as cidades, materialmente

organizados pelos obstáculos que os encerram e os ignoram” 8, é um modo de propor a

produção de conhecimento em tal campo: modo no qual o que se toma como ponto de

partida são os problemas específicos que a clínica com bebês situou e situa e em relação aos

quais a clínica e o conhecimento só podem produzir algum avanço a partir da interlocução

de diversas disciplinas.

“Eis os desafios da complexidade e, claro, eles encontram-se por toda parte. Se quisermos um

conhecimento segmentário, encerrado em um único objeto, com a finalidade única de manipulá-lo,

podemos então eliminar a preocupação de reunir, contextualizar (...). Mas se quisermos um

7Jerusalinsky, A. (1990). Multidisciplina, interdisciplina, transdisciplina, Escritos da Criança, n. 3,


Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.
8 Milner, J.-C. (1995) A obra clara, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, pág. 9
conhecimento pertinente, precisamos reunir, contextualizar (...), buscar, portanto, um conhecimento

complexo.” 9

O termo complexus significa “o que está ligado, o que está tecido”. E é justamente

esse tecido que é preciso conceber para não fechar-se em um pensamento tautológico 10, ou

seja, vazio, no qual um bebê fica recortado por diversas áreas, cada uma delas

extremamente preocupada em que a intervenção corresponda à lógica de pensamento do

seu objeto de estudo, reduzindo a clínica ao campo de verificações segmentárias para

comprovar a eficácia da técnica aplicada.

Ao mesmo tempo, tal complexidade aponta as múltiplas interações entre

acontecimentos e conseqüências que estão em jogo na constituição psíquica e no

desenvolvimento de um bebê. Sendo impossível reduzir a intervenção em tal campo a uma

lógica bi-unívoca entre causa e efeito –conforme o princípio de causalidade linear próprio

do ideal científico baseado no método “dedutivo-indutivo-identitário” 11.

É a partir de tais problemas clínicos e proposições epistemológicas que

consideremos interessante e praticamos uma clínica interdisciplinar em estimulação

precoce a partir do corte epistemológico que a psicanálise produz nesse campo, a fim de

resgatar algumas das funções da clínica geralmente esquecidas nas práticas que se

ancoram na técnica como garantia de cientificidade; tornar o desconhecimento

9 Morin, E. (1999). A religação dos saberes, Rio de Janeiro, Bertrand , pág. 566.

10 Como aponta Morin, obra citada, pág. 564.

11 Idem, pág. 560.


formulável; criar um campo de interrogação às teorias; expor enigmas da experiência

clínica. 12

A partir de tal contexto, é possível considerar duas interrogações que permeiam o

trabalho 13:

- Que contribuições a psicanálise produz na clínica interdisciplinar com bebês?

- Que questões a clínica interdisciplinar com bebês provoca na psicanálise?

Se bem seja impossível abarcar aqui a extensão que o desdobramento destas duas

interrogações comporta, talvez já valha a pena situá-las e começar a apontar algumas das

considerações a que dão lugar.

- Algumas contribuições da psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês:

É certo que, para aqueles que provêm da psicanálise, os termos estimulação e

precocidade que originalmente denominam um campo específico da clínica com bebês, não

resultam, a princípio, muito confortáveis, dado que o primeiro tem sido fortemente

capturado por uma concepção comportamentalista, remetendo, à primeira mão, à noção de

estímulo-resposta próprio do condicionamento operante. Já o termo “precoce” pode levar a

crer que a intervenção consistiria em produzir uma espécie de ilusória “aceleração nas
14
aquisições”.

12Vorcaro, A. (1999). Crianças na psicanálise –clínica, instituição, laço social, Rio de Janeiro,
Companhia de Freud, pág. 116.

13 Se bem eles sejam aqui propostos na interlocução e interface entre estimulação precoce e
psicanálise, estas mesmas interrogações podem ser situadas em relação a diversas disciplinas,
tais como pediatria, fonoaudiologia, psicopedagogia, psicomotricidade, fisioterapia, terapia
ocupacional, etc.
14
Os conceitos de estímulo e precocidade na clínica com bebês foram abordados em escrito anteriormente
publicado.
Por sinal, nada mais de acordo com os ideais de nossa época – na qual as agendas de

pequenas crianças e até mesmo de bebês ficam lotadas de atividades que se propõem a

incrementar as potencialidades dos rebentos para torná-los, o quanto antes, mais aptos para

viver em um mundo competitivo. 15

Ocorre que o clínico é convocado a intervir diante de um mal-estar, um fracasso, no

circuito de realização do bebê e/ou dos pais diante dos ideais sociais e parentais acerca da

infância, maternidade e paternidade de nossos tempos.

Freqüentemente, diante de tal fracasso as intervenções propostas visam à adaptação

do bebê, lançando-o à posição de um objeto posto a serviço do gozo com a eficácia

materna, paterna, educacional ou terapêutica.

Nesse sentido, a clínica interdisciplinar em estimulação precoce que se produz a

partir do corte epistemológico da psicanálise 16 implica um avesso de tais práticas. Tal

intervenção aponta à apropriação dos diferentes aspectos instrumentais pelo bebê: que ele

possa apropriar-se do conhecimento e da construção do pensamento, de seu corpo em

movimento, da língua, dos hábitos de vida próprios da cultura à qual pertence, mas que

possa vir a fazê-lo tendo lugar a um funcionamento desejante que possibilite a atribuição de

uma autoria a suas produções. Por isso, tal clínica implica, na intervenção, a conjunção da

Jerusalinsky, J.(2002). Enquanto o futuro não vem –psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês,

Salvador, Ágalma.

15Jerusalinsky, J. (1997). Bebês ou pequenos executivos?, Boletim do CEPAGIA, n. 2, Brasília,


CEPAGIA.
16
Considerando aqui que certas concepções oriundas da psicanálise podem operar uma extensão a esse
campo, sem constituir uma clínica especificamente psicanalítica, mas um corte epistemológico que atravessa
a estimulação precoce por meio de eixos norteadores da prática clínica, tais como: constituição do sujeito,
direção do tratamento, brincar e transferência.
apropriação dos diversos aspectos instrumentais com a instauração de um sujeito do desejo

no bebê.

Para tanto, torna-se fundamental que a intervenção opere com a sustentação dos pais

em relação ao exercício das funções materna e paterna. Pois é somente a partir de um

desejo não anônimo 17 que um bebê poderá vir a desejar em nome próprio. Caso contrário,

corre-se o risco de que o bebê se torne um objeto da eficácia anônima da técnica.

Que os termos estimulação e precoce remetam a diferentes significações coloca a

necessidade de produzir em torno dos mesmos uma fundamentação conceitual, explicitando

qual concepção eles assumem a partir do corte epistemológico que a psicanálise produz no

campo da estimulação precoce. 18

É preciso considerar que o que põe em movimento a constituição do bebê não é o

puro estímulo externo perceptivo, mas o circuito pulsional em seu enlace ao campo do

Outro e, portanto, à ordem da linguagem. O estímulo perceptivo recebido pelo bebê, para

chegar a ter qualquer significação e inscrever-se, passa necessariamente pelo campo do

Outro, um Outro encarnado, que a partir de seu circuito de desejo e demandas situa, para o

bebê o estímulo recebido desde uma rede simbólica. Daí a diferença existente entre todos

os estímulos do meio, que chegam permanentemente até o bebê, daqueles estímulos que

efetivamente fazem marca para ele, propiciando ou fazendo obstáculo à sua constituição

psíquica e desenvolvimento.

No encontro do bebê com esta rede simbólica sustentada por um Outro encarnado e

posta em ato nos cuidados maternos vão se produzindo efetivas inscrições no corpo do

17
Lacan, J. (1969). Dos notas sobre el niño, Intervenciones y Textos 2, Buenos Aires, Manantial.
18
A seguir traremos de modo breve estas concepções. Os registros da temporalidade na clínica com bebês e o
conceito de estímulo, assim como diversas outras questões aqui apontadas acerca da especificidade desse
campo clínico são mais amplamente abordadas em: Jerusalinsky, J. (2002). Enquanto o futuro não vem –
psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês, Salvador, Ágalma.
bebê, sustentadas a partir de uma tela simbólica tecida pelo fantasma materno e parental e

pelos ideais familiares e da cultura. E, desde muito cedo, já é possível constatar o efeito de

tais marcas no estabelecimento de um estilo no funcionamento das diferentes funções do

bebê, seja em sono-vigília, fome-saciedade, atividade-repouso, tensão-relaxamento,

silêncio-vocalizações.

Nesse sentido, é interessante recordar que a origem etimológica do termo estímulo

encontra-se ligada a estilo e a escrita. 19 É a partir da inscrição em seu corpo dos

significantes da tela simbólica parental que se estabelece no bebê um estilo de

funcionamento de suas funções. 20

O termo precoce, por sua vez, vem apontar a incidência do tempo na intervenção

com a primeira infância. Pois se bem o sujeito não se constitua por uma cronologia, o

relógio está aí a nos lembrar que não é em qualquer momento da vida em que a estrutura

psíquica encontra a mesma permeabilidade às inscrições.

Isto marca a importância da interface de trabalho entre os profissionais que

normalmente acompanham a primeira infância – como o pediatra, o puericultor, o professor

da creche ou berçário – e o clínico em estimulação precoce, a fim de possibilitar a

realização de interconsultas para discussão de caso, da avaliação do bebê e, quando

necessário, de um encaminhamento a tratamento, ao se detectar que a constituição psíquica

e o desenvolvimento do bebê não estão correndo bem. Tal interface dá lugar a intervenções

que surtem efeitos constituintes para o bebê em um momento da vida em que ainda há

extrema permeabilidade às inscrições, em lugar de realizar encaminhamento a tratamento

19
Jerusalinsky, J. (2002).
20
Bergès (1988). Função estruturante do prazer, Escritos da Criança, n.3, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat.
apenas quando os quadros patológicos já aparecem configurados em todos os seus traços e,

portanto, bastante mais decididos.

A permeabilidade da estrutura psíquica deve-se ao fato de o bebê encontrar-se em

um momento da constituição em que está fortemente sujeitado ao lugar que lhe é atribuído

pelo Outro encarnado – ou seja, aqueles que exercem para o bebê as funções materna e

paterna. São os pais que sustentam para o bebê a tela simbólica desde a qual se geram as

antecipações imaginárias e estas, por sua vez, permitem que se ponham em ato as

antecipações funcionais: por exemplo, é por supor antecipadamente o bebê como todo um

menininho que poderá vir a jogar futebol que ele é convocado a chutar a bola. Ou é por

supor antecipadamente que a bebezinha é uma toda uma mulher que poderá tornar-se

bailarina que ela é convocada a dançar conforme o ritmo da música, enquanto todos

festejam a realização.

Ao se intervir em um momento da vida em que o Eu não está constituído – em que

os ideais que possibilitam uma identificação são radicalmente sustentados pelo Outro

encarnado-, tanto mais importante é que a intervenção esteja atenta à constituição psíquica

e às funções materna e paterna que dão sustentação ao bebê. Há aí uma questão fundante, a

primeira de todas –eu existo?- e (o bebê) só pode saber disto ao se constatar visto por

alguém. 21

O espelho identificatório desde o qual o bebê pode vir a reconhecer-se sofre sérias

distorções quando em lugar de ter como ponto de partida um olhar do Outro encarnado que

se dirija ao bebê supondo-o num lugar de potência, encontra-se disperso no olhar de vários

especialistas que se dirigem de modo parcial às funções corporais pondo em foco o que

21 Lichtenstein, D. (1987), O trabalho com crianças na fronteira das palavras, Escritos da Criança,

n.1, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, segunda edição, pág. 28.
delas fracassa. Tomar linearmente a função perturbada, tendendo a estimulá-la de forma

isolada, significaria dizer à criança que o que a individualiza é seu déficit: desde a

primeira idade a criança receberia constantemente mensagens apontando-lhe mais o que

não pode fazer do que o que é capaz de realizar 22. Isto, sem dúvida surte os seus efeitos

sobre a apropriação que um bebê poderá vir a fazer das funções, sobre o modo em que

poderá colocar em cena seu corpo, sua fala e sua possibilidade de articular um saber.

Daí a proposição de que seja um clínico especialista em estimulação precoce,

sustentado no marco de uma equipe interdisciplinar 23, quem esteja a cargo da direção do

tratamento com o bebê. Pois é o bebê quem é tratado - é a ele e à sustentação das funções

materna e paterna, fundamentais para sua constituição, que se dirige a intervenção, e não a

um múltiplo recorte técnico que vem focalizar de modo fragmentado os diversos fracassos

das funções.

Trata-se aí de contemplar clinicamente a especificidade de se intervir em um tempo

no qual é preciso sustentar as coordenadas para que o bebê possa constituir-se. Pois se bem

o bebê esteja presente, ele ainda não é “Um”. Ele ainda não tem um Eu, como instância

psíquica, e ainda não tem estabelecida uma imagem unificada de seu corpo. Eis a questão

que a clínica com bebês nos coloca: intervir com o sujeito quando este ainda não está

instaurado. Sustentar o marco que possibilita produções instrumentais atribuídas a um bebê

suposto como sujeito.

2) Algumas questões que a clínica com bebês coloca à psicanálise:

22Coriat, L. e Jerusalinsky, A. (1975), Estimulación Temprana, conferência pronunciada no terceiro


congresso iberoamericano de neuropsiquiatria infantil, São Paulo. Citado em Escritos da Criança,
n.1, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, segunda edição, 1987, pág. 74.

23 Acerca do dispositivo de terapeuta único em estimulação precoce ver: Coriat H.(1993). E.T.

hacedores de bebés, Escritos de la Infancia, n.1, Buenos Aires, FEPI- Centro Dra. Lydia Coriat de
Buenos Aires, pág. 50.
Há clínicas que nos colocam na soleira da psicanálise 24, mostrando-nos os limites

de sua elaboração e fazendo-nos procurar pelos princípios norteadores que nos permitem

intervir desde uma referência psicanalítica em uma clínica cuja experiência não é a

standard. 25

Nessa direção, uma das primeiras constatações clínicas é que, diante dos bebês, o

dispositivo psicanalítico da associação livre revela-se ineficaz para a intervenção.

O momento da constituição psíquica na qual um bebê se encontra, este momento tão

primordial, faz necessário o exercício de certa mestria do saber para que o sujeito possa

instaurar-se. É isso que as mães fazem com seus filhos quando as coisas andam

relativamente bem. A partir de seu saber inconsciente, a mãe supõe uma demanda no bebê

– ele tem frio, tem fome, tem sono etc. - mas também certifica-se, após realizar uma

determinada oferta, de que seja isso mesmo o que o bebê estaria a querer. Deste modo, as

mães, ao mesmo tempo que exercem um saber com o filho, supõem que este também

deteria um saber não coincidente com o dela, atribuindo-lhe portanto a condição de sujeito.

É porque a mãe exerce seu saber, mas principalmente porque sustenta nele uma

brecha na qual fica pendente do comparecimento do bebê suposto como sujeito, que as

produções do bebê – suas vocalizações, sua gestualidade, sua manifestação psicomotora

ampla, seus estados tônicos -, podem ser tomados como respostas pelas quais ele fica

24Lacan, J. (1958). De una cuestión preliminar a todo tratamiento posible de la psicosis, Escritos,
Buenos Aires, Siglo Veintiuno, pág. 518.

25 É certo que isto não é exclusivo do campo da clínica com bebês, diz respeito também a outras
clínicas, como a da psicose - diante da qual foi preciso discutir novas abordagens de intervenção à
medida em que foi possível ir fundamentando as peculiaridades assumidas no tratamento pelo
lugar do analista, da fala do paciente e, principalmente, da transferência. Ver, a este respeito,
Lacan Lacan, J. (1958). De una cuestión preliminar a todo tratamiento posible de la psicosis.
implicado num diálogo. São nestas brechas sustentadas pela mãe que a produção singular

do bebê pode advir. E o exercício desta atribuição antecipada do sujeito do desejo é

imprescindível para que o bebê possa vir a constituir-se enquanto tal.

Por isso a clínica com bebês necessariamente implica na sustentação do exercício

das funções materna e paterna. Ou seja, na possibilidade de que a mãe (como o agente que

encarna esta função) possa vir a exercer seu saber inconsciente com o filho e também

sustentar em relação a ele uma suposição de sujeito do desejo e, portanto, de alteridade 26.

Desta forma o trabalho implica, do lado do clínico, ocupar uma posição de escuta

em que se dá lugar para que a fala dos pais em relação ao filho possa ser desdobrada,

implicada, ressignificada, mas também em alguns momentos é preciso que o clínico possa

emprestar significantes para sustentar um marco constituinte para o bebê. Em diversas

situações, é crucial no tratamento que o clínico implique sua palavra em relação ao bebê:

supondo-o como sujeito, supondo-o como capaz de uma aquisição, oferecendo a cena na

qual se coloca em ato uma antecipação funcional para que uma realização do bebê possa

advir, 27 reconhecendo e nomeando a produção realizada pelo bebê festejando a mesma para

o bebê e perante o olhar dos pais, abrindo a brecha que diferencia o diagnóstico do

fechamento de um destino funesto.

Neste sentido, por momentos operamos, enquanto clínicos, “o lugar de Outro para

este bebê e, de algum modo, também produzimos marcas nele” – que logicamente não

produzem seus efeitos operam desde uma vacuidade do discurso, mas da possibilidade de

emprestar significante. É preciso, no entanto, recordar que tais marcas “seriam impossíveis

26 A sustentação da alteridade da mãe com o bebê, marca desde o início do estabelecimento


desse laço a incidência da função paterna. Tal função, além de sua encarnação em uma pessoa
determinada, implica a incidência de uma terceira instância, de uma lei que regula a relação da
mãe com o bebê.
27
Acerca da antecipação funcional ver Julieta J. (2002), obra citada.
sem a transferência dos pais em relação a nós” . 28 Trata-se, então, de um lugar que, não só

ocupamos em alguns momentos do tratamento, mas do qual, definitivamente, é preciso que

sejamos destituídos para que o tratamento cumpra seu fim.

Outra questão importante a considerar é o lugar ocupado pelo laço pais-bebê, já que

a noção de díade mãe-bebê, relação pais-bebê e até mesmo laço pais-bebê muitas vezes se

presta a uma confusão acerca de quem seria o sujeito em questão na intervenção.

Na medida em que a questão central da clínica em estimulação precoce consiste na

constituição do bebê, sua principal operação clínica reside na leitura do modo em que a tela
29
simbólica parental está a produzir inscrições nele.

Tal leitura tem como ponto de partida a produção do bebê no laço com o Outro

encarnado - o modo que ele tem de responder ao Outro com o seu corpo e de, portanto,

situar-se, por meio do olhar, da invocação e vocalização, do domínio psicomotor, da

aquisição de hábitos da cultura, diante dos pais, de estranhos ou do clínico, coloca em cena

as respostas que ele vem constituindo. Ainda será preciso no entanto considerar a partir de

que coordenadas chega a produzir tal resposta e que sentido é atribuído pelos familiares à

sua produção.

É aí que seu sintoma emerge na condição de um enigma que, se bem seja produzido

desde a sustentação simbólica parental, toma carne no bebê, estabelecendo as marcas

fundantes de sua constituição e, portanto, dizendo-lhe respeito. 30

28 Coriat, H. Artigo citado, pág. 49.


29
Julieta Jerusalinsky (2006). A leitura como operação clínica na intervenção com bebês. Trabalho
apresentado no Congresso de Psicopatologia Fundamental. Belém do Pará, inédito; Leitura de bebês (2006).
Congresso da Abebe, 2006, São Paulo, inédito.
30
Julieta Jerusalinsky (2002), pág.185-193.
A escuta dos pais é imprescindível, mas tal clínica situa a especificidade de seu

marco, para além da escuta dos pais, na leitura e intervenção com as marcas que se

precipitam organizando um estilo no funcionamento pulsional do bebê e no modo como

este vai comparecendo como sujeito.

Por isso, é preciso situar a diferença entre a estrutura psíquica de uma mulher que se

torna mãe; o lugar que o bebê ocupa na rede significante materna; o modo que a mãe tem

de colocar em ato seu discurso; e, ainda, o que dessa rede se precipita produzindo

inscrições no bebê, dando lugar a suas respostas singulares. Se bem todos estes aspectos

estejam profundamente interligados, a sua justaposição indiferenciada pode causar sérios

problemas na condução do tratamento.

Há uma profunda diferença quando um sofrimento se produz para a mãe, para o pai

ou para ambos a partir do que para eles se configura como o bebê fantasmático, ou quando

se configura um efetivo obstáculo na constituição psíquica e nas aquisições instrumentais

do bebê. Enquanto no primeiro caso a direção do tratamento implica fundamentalmente

uma escuta dos pais, no segundo caso é preciso que, para além disso, o bebê seja tomado

em tratamento, uma vez que o sofrimento, o pathos, precipitou-se em seu corpo.

A especificidade da clínica em estimulação precoce, sua leitura e intervenção se dá

no enlaçamento entre a presença do real orgânico com suas afecções, as marcas simbólicas

que tomam a carne e a instauração de uma imagem do corpo do bebê.

É neste enlaçamento que se produzem sintomas na constituição do bebê, tenha ele

ou não afecções orgânicas de base –tais como deficiências sensoriais, motoras, síndromes

genéticas, quadros lesionais, entre outras–, pois uma afecção orgânica só é fonte de

sofrimento para alguém dependendo da representação que assuma, e portanto, o sofrimento,


mesmo quando apoiado em uma lesão real, sempre depende de sua articulação aos registros

imaginário e simbólico. 31

Do mesmo modo, esta clínica nos mostra o quanto problemas funcionais e aqueles

que se apresentam no esquema corporal do bebê freqüentemente surgem como

conseqüência de dificuldades na inscrição simbólica e no estabelecimento da imagem do

corpo. Problemas funcionais - tais como refluxo, ecoprese, asma- e problemas no

estabelecimento do esquema corporal -como exploração pobre dos objetos do mundo a

partir dos esquemas visual, tátil, auditivo, oral, e no domínio postural psicomotor- estão

extremamente encadeados a dificuldades no processo de desmame, na introdução da

alimentação semi-sólida, no estabelecimento da demanda de controle esfincteriano, entre

tantas outras situações que fazem parte da ilusão de continuidade e dos cortes que precisam

ser introduzidos para o bebê pelo agente da função materna.

Para que o clínico que intervém com o bebê possa chegar a realizar esta leitura,

inclusive perceber se a exploração de esquemas realizada por um bebê é rica ou

empobrecida –denunciando na fineza de seu funcionamento corporal o padecimento de uma

situação que não pôde ser simbolizada-, é preciso o embasamento de uma clínica que

permita estabelecer a costura, alinhavar o tecido entre a rede simbólica que rodeia o bebê, a

construção da imagem corporal, o estabelecimento do esquema e o modo de funcionamento

das funções. Portanto, é preciso uma clínica da primeira infância que se ancore em uma

formação e interlocução interdisciplinar.

Por isso, resultaria um tanto insustentável propor o âmbito da clínica em

estimulação precoce apenas para bebês que apresentam diagnósticos de afecções orgânicas

31
Alfredo Jerusalinsky (1988). Psicanálise e desenvolvimento infantil, Porto Alegre, Artes e Ofícios.
de base e deixar os demais sob a incumbência exclusiva do psicanalista. Isso seria

contraditório com a própria fundamentação que a psicanálise nos oferece - ao situar o

enlaçamento entre real, simbólico e imaginário na emergência dos sintomas - e cairia em

um dualismo entre mente e corpo, bastante reducionista diante das questões colocadas pela

clínica com bebês.

Certamente quando um bebê apresenta uma patologia orgânica coloca-se a

necessidade clínica de se conhecer as limitações reais impostas pelo quadro:

- A fim de não expô-lo a uma exigência impossível e possibilitar para ele e sua

família a diferenciação entre tais impossibilidades reais e uma posição psíquica de

impotência imaginária a partir da qual podem deixar de ser articuladas em relação ao bebê

demandas fundamentais para sua constituição;

- E, também, a fim de propiciar facilitações que favoreçam as produções do bebê

por meio de ofertas posturais, fonológicas, cognitivas etc. que resultem efetivas

convocatórias e desafios para o bebê - verdadeiras antecipações imaginárias traduzidas em

ofertas de antecipações funcionais-, uma vez que tais aquisições não se produzem pela

simples eficácia simbólica do “levanta-te e anda”. 32

No entanto, esta clínica deixa evidente o quanto o real do corpo, por si só, não produz

sintoma para o sujeito, ainda que possa situar certos limites para suas aquisições –daí

que seja bastante reducionista intervir apenas com a eficácia funcional sem estar atento a

como o bebê se apropria imaginariamente de tais funções em nome de um desejo. Este ó

32Questão abordada no artigo: Jerusalinsky, J. (2000). O pé esquerdo do academicismo –sobre


bebês, psicanálise e estimulação precoce, Correio da APPOA, número temático: psicanálise:
outros lugares para uma escuta, setembro de 2000, Porto Alegre, Associação Psicanalítica de
Porto Alegre.
o problema que se apresenta quando se intervém com o bebê apenas desde os postulados

fisioterapêuticos, fonológicos ou psicopedagógicos, por exemplo.

Ao mesmo tempo, para que o bebê possa estabelecer um domínio imaginário de seu

corpo é preciso que ele possa exercer alguma eficácia no funcionamento de suas funções

– motora, cognitiva, fonológica, etc.-. Mas, ao se intervir apenas desde os postulados

psicológicos ou psicanalíticos, o clínico carece das ferramentas que permitem realizar

uma efetiva leitura acerca da eficácia do funcionamento das funções e do domínio do

esquema corporal. Assim, o problema que se apresenta é que o clínico corre o risco de

ficar cego e surdo ao padecimento que comparece no corpo do bebê, que se dá a ver, na

fineza do estabelecimento do esquema corporal.

A complexidade dessa clínica coloca a necessidade de se intervir na articulação

produzida entre a instauração do sujeito no bebê e a eficácia funcional que o bebê realiza

das diferentes aquisições instrumentais, permitindo-lhe estabelecer um domínio

imaginário de seu corpo. Ela também exije dos profissionais que provêm de diferentes

formações de base uma formação específica para intervir com bebês.

Procurar utilizar a técnica que ele (Freud) instituiu, fora da experiência à qual se

aplica, é tão estúpido como colocar, diante do remo, os bofes para fora quando o barco

ainda está na areia 33, afirma Lacan, acerca do tratamento da psicose.

Consideramos que o mesmo alerta é válido ao tratar-se da especificidade do campo

da clínica com bebês em relação às diversas disciplinas. Pois enquanto cada área do

conhecimento estiver centrando os esforços em salvaguardar suas técnicas como portos

33 Lacan, J. (1958). De una cuestión preliminar a todo tratamiento posible de la psicosis, Escritos,

Buenos Aires, Siglo Veintiuno, pág. 654.


seguros, em lugar de escutar as questões que a especificidade de tal campo clínico coloca,

morrer-se-á na praia.

A clínica interdisciplinar com bebês, nesse sentido, inscreve a necessidade de que

sejamos nós, os profissionais, quem nos coloquemos a navegar traçando as rotas que

articulam os portos de cada disciplina na especificidade que a estimulação precoce, clínica

da primeira infância, coloca. Enfim, navegar é preciso.

É neste porto que inicia nossa navegação por este escrito. Viemos, a partir da

monografia de mestrado (Psicologia Clínica – PUC, 2003), navegando pelas águas da

interdisciplinaridade, interrogando a questão da temporalidade na clínica com bebês. Nos

convoca agora o tema das inscrições constituintes do sujeito, considerando o quanto a

intervenção com bebês se aproxima, em alguns aspectos, da intervenção com crianças

quando do que para elas se trata é de poder tramitar, a partir do tratamento, ainda que em

outro tempo cronológico que não o de ser bebê –o que certamente não é indiferente-, certas

operações constituintes do sujeito.

Bibliografia:

- Bergès (1988). Função estruturante do prazer, Escritos da Criança, n.3, Porto Alegre,

Centro Lydia Coriat.

- Coriat, E. (1995). Psicanálise e clínica com bebês, Porto Alegre, Artes e Ofícios.

- Coriat H.(1993). E.T. hacedores de bebés, Escritos de la Infancia, n.1, Buenos Aires,

FEPI- Centro Dra. Lydia Coriat de Buenos Aires.

- Coriat, L. e Jerusalinsky, A. (1975), Estimulación Temprana, conferência pronunciada no

terceiro congresso iberoamericano de neuropsiquiatria infantil, São Paulo. Citado em


Escritos da Criança, n.1, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, segunda

edição, 1987.

- __________________ (1983). Aspectos estruturais e instrumentais do desenvolvimento,

Escritos da Criança, n.4, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat.

- Jerusalinsky, A. (1998). Quantos terapeutas para cada criança?, Escritos da Criança, n. 5,

Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

- _____, A. (1990). Multidisciplina, interdisciplina, transdisciplina, Escritos da Criança, n.

3, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

- Jerusalinsky, J. (1997). Bebês ou pequenos executivos?, Boletim do CEPAGIA, n. 2,

Brasília, CEPAGIA.

- _____. (2000). O pé esquerdo do academicismo –sobre bebês, psicanálise e estimulação

precoce, Correio da APPOA, número temático: psicanálise: outros lugares para uma escuta,

setembro de 2000, Porto Alegre, Associação Psicanalítica de Porto Alegre.

- _____. (2002). Enquanto o futuro não vem –psicanálise na clínica interdisciplinar com

bebês, Salvador, Ágalma.

- Lacan, J. (1958). De una cuestión preliminar a todo tratamiento posible de la psicosis,

Escritos, Buenos Aires, Siglo Veintiuno.

- _____ . (1969). Dos notas sobre el niño, Intervenciones y Textos 2, Buenos Aires, Manantial.

- Lichtenstein, D. (1987), O trabalho com crianças na fronteira das palavras, Escritos da

Criança, n.1, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

- Milner, J.-C. (1995) A obra clara, Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

- Molina, S. (1998). O bebê da estimulação precoce, Escritos da Criança, n. 5, Porto

Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

- Morin, E. (1999). A religação dos saberes, Rio de Janeiro, Bertrand.


- Vorcaro, A. (1999). Crianças na psicanálise –clínica, instituição, laço social, Rio de

Janeiro, Companhia de Freud.

-UNICEF, diversos autores (1978). Estimulación Temprana – importancia del ambiente

para el desarrollo del niño, segunda edição, Santiago de Chile.


Publicado em: O bebê e a modernidade, org. Leda Bernardino e Cláudia
Mascarenhas; São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

Crônica de um bebê com morte anunciada


- intervindo com a instauração do sujeito na iminência da morte-

Julieta Jerusalinsky 1

Gostaria de trazer três falas, três cenas recortadas que se encadeiam na intervenção
realizada com um bebê, para, a partir delas, considerar algumas questões centrais que se
apresentam na intervenção em UTI.

Cena 1: A situação é grave, é difícil considerar, há 99% de chances de que não


sobreviva – comunica a pediatra, diante da gravidade do caso de Santiago. Nesse momento,
ele tem um ano e quatro meses de idade.
Cena 2: Às vezes penso que, se tivesse sabido antes de ele nascer que iria sofrer tanto,
preferiria ter evitado este sofrimento... não o meu, mas o dele - afirma a mãe, durante a
consulta que ocorre ao pé do leito de Santiago.
Cena 3: Vocês fizeram tudo o que era possível - afirma uma conhecida da família,
enquanto consola os pais de Santiago. Eles estão na porta da sala de internação quando chego
para a consulta. Santiago está sozinho dentro da sala. E, ainda que o que é dito pareça indicar
o contrário, está vivo.

1) Pode-se articular a suposição de um sujeito no bebê diante de uma morte anunciada?

Em sala de UTI, mais de uma vez testemunhei, diante de prolongadas internações de


neonatos, as famílias convocarem um padre que vinha batizar e dar a extrema-unção a bebês
em uma mesma visita.
Assim, constatamos que o nascimento e a morte anunciada são eventos que ficam
temporalmente superpostos na vida de muitos bebês internados em UTI e de suas famílias.
Isto coloca a questão de como tal superposição temporal incide, para além dos riscos
orgânicos, no estabelecimento dos laços do bebê com o Outro 2 e seus efeitos para a
constituição psíquica e desenvolvimento.
Lacan situa o desenvolvimento como uma viagem pontuada entre o nascimento e a
3
morte.

1
Psicóloga, psicanalista; especialista em Estimulação Precoce; mestranda em psicologia clínica pela PUC-SP,
membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre.
e-mail: julietaj@uol.com.br
2
O conceito de Outro (grande Outro) é introduzido por Lacan para definir aquilo que é anterior ao sujeito e em
relação ao qual o sujeito precisará constituir-se: a ordem da linguagem.
Ainda que este conceito remeta-se, de modo amplo, à ordem da linguagem, é fundamental notar que, para um
infante, o Outro está encarnado nos agentes materno e paterno que o tomam desde um desejo não anônimo.
Ver:
Lacan, J. (1969), Dos notas sobre el niño, Intervenciones y textos 2, Buenos Aires, Manantial.
Lacan, J. (1960), Subversión del sujeto y dialéctica del deseo en el inconsciente freudiano, Escritos 2, 24
edição, Buenos Aires, Siglo Veintiuno, 1985.
3
Lacan, J., (1973/74) Os nomes do pai, Seminário XXI, aula 1, inédito.
Torna-se evidente, a partir desta afirmação, que, para que o desenvolvimento ocorra, é
preciso um certo intervalo temporal entre nascimento e morte. Tal intervalo não diz respeito
só ao tempo cronológico de vida que efetivamente passa para todos, mas também à
possibilidade de articulação de uma temporalidade lógica:
Que um bebê seja suposto como sujeito pelo Outro (ainda sem sê-lo de fato) é o que
permite que venha a sê-lo. Ser enlaçado pelo desejo do agente materno (que encarna o Outro)
a tal temporalidade é constitutivo do sujeito no bebê. O Outro antecipa o que ainda está por se
organizar desde o funcionamento das funções orgânicas do bebê e toma a produção do bebê
como um enigma a ser decifrado para, deste modo, poder responder à demanda que nele
supõe (produzindo satisfação ou introduzindo privação). Deste modo, é pelo circuito de
desejo e demanda que se produz o engajamento da pulsão do bebê ao campo do Outro, ao
funcionamento significante.
Então, quando morte e nascimento se superpõem, o risco é o de que se perda a
dimensão temporal necessária para que possa se produzir a constituição psíquica do bebê,
assim como as suas diferentes aquisições instrumentais (que après-coup poderão ser lidas
como desenvolvimento). O risco é o de que caia a ilusão antecipadora e seus efeitos
constitutivos para o bebê quando é só a morte o que se espera.
Para que apostar em que consiga fazer algo? Para que expô-lo ao esforço, se a
qualquer momento pode perder o que ganhou? – pergunta a mãe de Santiago, tomada pela
angústia que se desencadeia logo após ter experimentado o júbilo narcísico no laço com seu
bebê quando este, durante uma sessão, consegue pela primeira vez fazer balconeio –a dupla
alavanca de braços estando de bruços. Santiago olha para nós e sorri no alto de seus braços
estendidos.
Santiago chega a tratamento 4 com 8 meses e com o diagnóstico de síndrome de West.
Em uma sessão, pode chegar a ter 10 convulsões e, entre convulsão e convulsão, pode ficar
olhando fixamente para a lâmpada. De fato, apresenta um grave problema orgânico pelas
seqüelas lesionais que estas repetidas convulsões vão deixando. Mas, para além do quadro
orgânico, este olhar fixamente a lâmpada nos dá o testemunho de como tem se constituído
psiquicamente a partir das primeiras marcas simbólicas que nele se operaram e que situam a
satisfação pulsional desde uma exclusão do laço erógeno com o Outro.
Santiago convulsiona ou olha a lâmpada. Cada vez que convulsiona a mãe afirma
sobressaltada: - aí está a convulsão! Qualquer série significante, na conversa com a mãe ou na
sustentação de uma cena com Santiago, é assim interrompida.
É então que, em certa sessão, diante desta produção repetitiva e estereotipada, me
ocorre uma brincadeira: cada vez que Santiago vai entrar na convulsão, e durante a mesma,
lhe digo - Cuco! Cadê o Santiago?- E, quando sai da convulsão, o saúdo com um - aqui está!.
Tais enunciações são acompanhadas por buscar seu olhar.
A partir de tal proposta, não só Santiago passa, pouco a pouco, a buscar meu olhar
como a sair da convulsão já nessa busca. Em seus gritos, antes sem modulação emotiva,
começam a se diferenciar gorjeios prazerosos e choros de queixa.
Onde antes era o real orgânico que irrompia, passa a operar uma primeira série que
marca a alternância simbólica entre ausência e presença. Entre o “cuco” e o “aqui está”,
Santiago pode passar a se sustentar, se sujeitar ao simbólico que o Outro introduz e que
começa a fazer série para ele. Por isso seu olhar já não retorna à lâmpada, ao vazio, mas se
enlaça ao circuito de desejo e demanda que fisgou seu circuito pulsional. 5

4
O recebemos na Equipe de Estimulación Temprana do Hospital Durand. Inicialmente em consultas regulares de
tratamento no serviço de ambulatório e, depois, acompanhando a sua internação em UTI.
5
Percebe-se como, para que uma pequena criança possa chegar a fazer o jogo do fort-dá, é preciso que primeiro
o Outro tenha sustentado a alternância simbólica presença-ausência. Isto se faz evidente na brincadeira do cuco,
A mãe registra o acontecido, e mais uma vez a angústia retorna:
Às vezes prefiro deixá-lo sozinho no quarto, deitado sobre a cama com as luzes
apagadas, sem que nada o perturbe – diz a mãe, angustiada, dando testemunho do que pode
propor ao filho a partir da leitura que realiza das produções deste. Desde tal leitura, qualquer
movimento ou qualquer oferta que produza desequilíbrio arma para ela signo com a convulsão
e, por conseguinte, com a morte. A isto opõe uma situação de extrema tranqüilidade, de quase
homeostase, sem luz, sem som, sem movimento, em um mundo no qual Santiago ficaria
salvaguardado de quaisquer inscrições do Outro que viessem introduzir diferenças. Como
vemos, desde esta escolha, o mortificante também comparece.
E, ainda que a mãe perceba que esta situação por ela sancionada como de tranqüilidade
não diminui o número de convulsões, desde a leitura que arma, isto é o que pode oferecer ao
seu filho.
É então que intervenho, operando o reconhecimento desta mãe em sua tentativa de
“evitar qualquer sofrimento ao filho”, mas aponto que também é preciso reconhecer que o
pior que pode acontecer na vida de alguém é que nada lhe aconteça.
Tal intervenção, a posteriori, revela-se eficaz na quebra entre o signo
movimento=convulsão=morte que se impõe desde o discurso materno. Abre-se lugar a que
Santiago possa, mesmo diante da iminência da morte, produzir movimentos com seu corpo, e
que sua mãe possa articular os mesmos a deslizamentos significantes que tornam singulares
tais produções na vida de seu filho suposto como sujeito e suposto como alguém capaz de
realizações.
A mãe dá testemunho disso quando, em uma sessão em que brincávamos com um
elefante de borracha, objeto que passou a ser o predileto de Santiago, afirma: No dia em que
ele não precisar mais vir a tratamento, terá de levar esse elefante junto com ele. Nunca vi ele
gostar tanto de um brinquedo. Santiago passa a sorrir, a ter sustentação de tronco, começa a
fazer trípode e espera o reconhecimento dos outros diante de tais produções.

2) O trabalho com a escuta do que não pode ser dito em UTI: aquilo que o amor
comporta de mortificante.

É na tênue borda que separa a vida e a morte que médicos e enfermeiros intervêm,
procurando dar “vitalidade” e sustentar a função de órgãos que desfalecem. Mas não é só
desde o orgânico que se faz iminente um risco durante a internação.
Então, qual seria ali nossa função? Acaso a de “sustentar psiquicamente” a vida de um
bebê que se encontra na borda da morte, enquanto os médicos sustentam essa vida
“organicamente”?
O primeiro equívoco a que isto poderia conduzir é o de pensar que uns cuidam do
soma e outros da psique, cada um fazendo a sua parte, quando é justamente na leitura do
modo em que as marcas do Outro modulam o funcionamento orgânico do bebê que
intervimos. Então, de certo modo, nós também trabalhamos com a carne, com que nessa carne
se produzam marcas simbólicas que possibilitem que um bebê possa vir a inscrever-se como
sujeito do desejo e possa vir a se apropriar imaginariamente de um corpo.
Outro equívoco no qual se pode incorrer ao situar a intervenção como a “sustentação
psíquica” da vida do bebê é o de intervir desde um imperativo mais ou menos velado dirigido
aos pais de que “não devem desistir, devem amar e investir o seu filho internado”.

na qual, ainda que seja o bebê quem tape e destape o rosto, é o Outro encarnado quem primeiro enuncia, quem
primeiro sustenta a oposição significante na qual o bebê, com sua produção, vem se engajar.
Ver: Peaguda, S. (1999) Juegos precursores del Fort-dá, Escritos de la Infancia, n.8, Buenos Aires, FEPI.
Sabemos que tal modo de intervenção tem efeitos de extrema violência psíquica, pois,
mais do que abrir lugar à palavra que permita aos pais articularem simbolicamente a
existência deste recém-nascido às suas vidas, os confronta a um imperativo superegóico de
como os pais devem proceder. Ficam assim lançados a uma espécie de obrigatoriedade moral
de apostar na vida do bebê ainda nas situações mais extremas, quando tudo indica a sua morte
orgânica. Diante de tal evento, vemos então os pais se calarem e realizarem atuações que
colocam em cena os efeitos de uma situação que não pode ser representada.
Por isso, nosso trabalho implica justamente poder escutar na UTI o que permanece
recalcado diante do imperativo maior que tem guiado a ética da medicina, “o da vida a
qualquer preço”. Quando se dá lugar à palavra, acaba por emergir o que resulta insuportável e
que, ao mesmo tempo, permeia, em uma medida ou outra, todos os laços que se estabelecem:
o desejo de morte.
Por isso, a fala da mãe de Santiago -Às vezes penso que, se tivesse sabido antes de ele
nascer que iria sofrer tanto, preferiria ter evitado este sofrimento, não o meu, mas o dele-
insiste em que se possa escutar que não há como enquadrar em termos morais de bom e mau o
que estabelece o laço entre pais e filhos.
Não há como situar, em relação a estes laços, de um lado da coluna desejo, amor,
saúde e vida e do outro não-desejo, não-amor, doença e morte.
Essa fala dá o testemunho do amor que os pais podem ter por um filho e, ao mesmo
tempo, o que tal amor comporta de terrivelmente mortificante.
O mais terno e mais íntimo de nossos vínculos de amor, com exceção de pouquíssimas
situações, leva aderida uma partícula de hostilidade que pode incitar o desejo inconsciente
de morte 6 -afirma Freud.
Muitas vezes os pais dizem aos filhos, depois de eles cometerem uma terrível
traquinagem, “tenho vontade de te matar!”, ou, quando os advertem a não fazê-la, “se te
machucares eu te mato!”
Por isso, se tais falas comparecem de forma radical diante de patologias graves e de
situações extremas como as da sala de UTI, é bom recordar que elas tampouco estão fora
daquilo que permeia a psicopatologia da vida cotidiana. Claro, ocorre que tais afirmações
resultam mais insuportáveis diante de signos orgânicos que indicam que é a morte enquanto
acontecimento real que se apresenta. Tanto mais importante, então, que possamos escutá-las.

3) Com qual morte intervimos? Diferenciação entre morte biológica e segunda morte

Passei a vida me perguntando porque a minha irmã era a doente mental e eu a


saudável. Agora com a doença de Santiago parece que foi a minha vez- diz a mãe de
Santiago. Cada vez que este se agita ou realiza diversas convulsões ela afirma - Está
histérico! - situando tais convulsões como uma encarnação da doença de sua irmã.
Eu queria colocar no meu filho o nome do meu irmão... ele morreu com dois anos. No
fim achamos o nome Santiago mais bonito. (...) Quando eu olho para ele vejo o meu irmão –
fala o pai.
A clínica nos depara com diversos casos nos quais, à extrema gravidade de um quadro
orgânico, se superpõem efeitos mortificantes desde a sobredeterminação simbólica familiar.
Casos nos quais a morte do bebê é tomada inconscientemente como signo de um acerto de
contas com o destino, como a conta a ser paga com a dívida parental. Assim, o trágico destino
anunciado para o bebê –desde o diagnóstico e desde a articulação que este produz com a
história que o antecede- parece inscrever a morte anunciada como inexorável. A causa, a data
e o modo da morte aparecem como já decididas. O que se inscreve no bebê, em lugar de

6
Freud, S (1915) Nuestra actitud hacia la muerte, O.C, Vol. XIV, Buenos Aires, Amorrortu, pág. 300.
operar os efeitos constitutivos do sujeito, imprime uma e outra vez a marca mortificante de
sua destituição.
Em “Crônica de uma morte anunciada” 7, o personagem central empreende uma inútil
fuga de sua morte, bate de porta em porta, mas nenhuma se abre para recebê-lo. Ao encontrar-
se com uma mulher que repara em seu desespero e pergunta o que lhe acontece, ele responde -
É que me mataram.
Trata-se aí da segunda morte 8, dessa condição de ficar simbolicamente inscrito do lado
dos mortos, ainda que biologicamente esteja vivo.

Por outro lado, encontramos os efeitos sintomáticos produzidos quando não se abre
lugar à elaboração do luto diante da morte de um ser querido.
Neste sentido, podemos tomar uma situação ocorrida na UTI, na qual uma mãe que
havia recebido o comunicado de óbito de seu pequeno bebê chorava compusivamente
abraçada a ele, para desespero de médicos e enfermeiras, que não conseguiam pôr um fim à
cena e repetiam, a meia voz,
- mas ele já está morto e ela não o deixa.
Intervenho nesta situação conversando com a mãe, propondo-lhe que me conte sobre o
seu filho e que fale com ele. Ela me diz - De tudo ele tinha dois, dois berços, dois carrinhos,
por que foi ocorrer isso com ele? Quando pergunto o porquê do nome do filho, ela conta que
lhe deu o nome de seu irmão, que morreu quando ela estava no início da gravidez. É a partir
daí que esse “dois de tudo” adquire seu sentido, e lhe digo que ela não está chorando uma
morte, que está chorando duas. A do seu irmão, que não pôde ser chorada, e agora a do seu
filho.
A mãe pode, a partir daí, armar uma despedida. Produz-se uma mínima articulação
simbólica em torno dessa morte, permitindo o início do trabalho de luto. É na medida em que
se produz para esta mãe alguma representação do filho, recuperando-o desde uma existência
que faz marca simbólica na rede parental, que pode largar o seu corpo.

Quando escuto os pais de Santiago chorarem antecipadamente sua morte, pergunto o


que pensam de ir falar disso em presença de seu filho e com ele. Os pais aceitam a proposta.
Dirijo-me então a Santiago, contando o que os pais me contam acerca do sofrimento pelo qual
tinham passado nos últimos dias. Pouco a pouco, o pai começa a falar com ele enquanto lhe
faz cafuné.
Com Santiago, as coisas correm de modo diferente do que com o outro bebê citado:
Ao tocá-lo, ao falar com ele e dele em sua presença, constatamos que a taxa de oxigênio vai
subindo, Santiago começa a mexer os olhos fechados e a fazer pequenos movimentos com
pernas e braços. De fato, a partir desse momento, Santiago, para a surpresa de todos, começa a
se recuperar.
Pouco tempo depois, sai da internação. A mãe dele vai me procurar no serviço do
ambulatório para me dizer que quer ficar um bom tempo longe do hospital, que quer desfrutar
um pouco do seu filho em casa e que, por isso, não virá às próximas sessões. Diz também que
pensou em trazer, mas que não sabe por que, na última hora, acabou esquecendo em casa o
elefante de borracha que eu havia deixado com Santiago na sala de internação.
A mãe assim se apropria, leva consigo desse tratamento esse pequeno objeto no qual
reconheceu a possibilidade de que um desequilíbrio, de que uma oferta realizada pudesse
armar para Santiago, na diferença à homeostase, a inscrição de prazer no laço com o Outro.
Até aí acompanhamos esse Santiago.

7
Marquez, G. G. (1981), Buenos Aires, Sudamérica, 1996.
8
Lacan, J. (1959-1960), La ética del psicoanálisis, El Seminario, libro 7, Buenos Aires, Paidós.
É em relação ao risco de um sujeito ficar lançado à segunda morte que intervimos.
Intervimos no sentido de que possa se operar uma inscrição simbólica em relação a esse bebê,
tanto pela marca simbólica que ele faz no parental quanto pela marca simbólica que o
parental faz nele, organizando ou desorganizando suas funções.
Se as duas cenas têm desfechos diferentes -um bebê morre e o outro vive-, para os
efeitos de nossa intervenção é do mesmo que se trata. É essa mesma intervenção em relação à
segunda morte que está em jogo. Trata-se de tirar o bebê de uma condição de segunda morte,
ou seja, de uma morte que está para além da morte orgânica e que situa uma morte simbólica,
num apagamento do registro simbólico de sua existência, num registro em que o sujeito não
faz marca.
Se, na primeira situação, realizar marca simbólica permite dar lugar à elaboração do
luto, na segunda abre-se a possibilidade de que, para além do orgânico, a vida de um bebê
possa ser simbolicamente sustentada no circuito de desejo e demanda, supondo-o como
sujeito mesmo diante da morte que se anuncia.
Qual é o fim da história? Não sabemos, e é por não sabê-lo que talvez se abra uma
chance para que esse Santiago - diferentemente daquele do livro de Gabriel García Márquez -
possa vir a armar a sua.

Obs: na escolha deste nome fictício para relatar o caso, implico meus votos de que os
“Santiagos” possam vir a ter, mesmo diante da sobredeterminação mortificante da estrutura, a
possibilidade de subversão do desejo pela produção de uma marca singular.

Curitiba, junho de 2001.

Bibliografia:

Freud, S. (1915), Nuestra actitud hacia la muerte, O.C, Vol. XIV, Buenos Aires, Amorrortu.

____.(1920 ), Além do princípio do prazer. O.C., vol. XVIII, Rio de Janeiro, Imago.

____.(1949), El estadio del espejo como formador del yo tal como se nos revela en la
experiencia psicoanalítica. Escritos 1, Buenos Aires, Siglo Veintiuno.

Lacan, J. (1959-1960), La ética del psicoanálisis, El Seminario, libro 7, Buenos Aires, Paidós.

____.(1960), Subversión del sujeto y dialéctica del deseo en el inconsciente freudiano,


Escritos 2, 24 edição, Buenos Aires, Siglo Veintiuno, 1985.

____. (1964), Los cuatro conceptos fundamentales del psicoanális. Seminario 11, Buenos
Aires, Paidós.

____. (1969), Dos notas sobre el niño, Intervenciones y textos 2, Buenos Aires, Manantial.

____. (1973/74) Os nomes do pai, Seminário XXI, aula 1, inédito.

Marquez, G. G. (1981), Crónica de una muerte anunciada, Buenos Aires, Sudamérica, 1996.
Peaguda, S. (1999) Juegos precursores del Fort-dá, Escritos de la Infancia, n.8, Buenos Aires,
FEPI.
Artigo publicado na revista “estilos da clinica” IPUSP, n. 8, dossiê sobre clínica com bebês, 2000.

Do neonato ao bebê:
Título em Português:
A Estimulação Precoce vai à UTI neonatal

Título em inglês: From a newborn to a baby:


The Early Stimulation goes to the UCI

Autor: Julieta Jerusalinsky


Psicóloga, Psicanalista, Especialista em Estimulação Precoce pelo FEPI
–Fundación para el Estudio de los Problemas de la Infancia, Buenos
Aires, Argentina- Membro da APPOA e Percurso Psicanalítico de
Brasília.

e-mail: julietaj@uol.com.br

Resumo: Que um neonato internado em UTI se torne um bebê é uma passagem


simbólica a construir. Tal passagem é objeto de nossa intervenção em
Estimulação Precoce. O neonato internado em UTI encontra-se em uma situação
de risco, não só desde o orgânico como também em seu desenvolvimento e
constituição como sujeito. A internação tem efeitos desagregadores na inscrição
das experiências vividas pelo bebê e no discurso parental que sustenta a passagem
do bebê pela internação. Neste artigo abordamos a especificidade da intervenção
em Estimulação Precoce na UTI e suas peculiaridades em relação ao trabalho
realizado em consultórios ambulatoriais hospitalares ou de clínica particular.

Abstract: A symbolic passage is necessary to a newborn submitted to intensive


care become a baby. This passage is the object of our intervention in early
stimulation. The newborn patient in Intensive Care Unit (ICU) is in a risk
situation, not only organic risk, but also related to his development and subject
constitution. The hospitalization has desorganizing effects in the inscription of the
baby`s experiences and in the parental speech about the baby. In this article we
approach the early stimulation in ICU and its peculiarities in comparison to the
work in a doctor`s office or in an ambulatory.

Descritores: Bebês, neonatologia, estimulação precoce, intervenção precoce,


psicanálise
Keywords: Babies, neonatology, early stimulation, early intervention,
psychoanalysis
Do neonato ao bebê:
A Estimulação Precoce vai à UTI neonatal1

Julieta Jerusalinsky2

Encontramos na instituição hospitalar um âmbito privilegiado para a intervenção


com bebês pois, em nossa atual cultura, é ali que eles nascem. Em tal instituição
destacamos a importância de intervir não só desde o atendimento em consultórios
ambulatoriais de Estimulação Precoce, nos quais podemos receber aqueles bebês ou
pequenas crianças com sintomas clínicos relativamente configurados, como também em
outros serviços hospitalares dedicados à infância – como UTI (unidade de tratamento
intensivo) neonatal e pediátrica e ambulatório de pediatria-, junto aos quais é possível
realizar um trabalho preventivo por meio da Detecção e Intervenção Precoce diante de
traços que apontam riscos no desenvolvimento e constituição de um bebê como sujeito.

A intervenção em Estimulação Precoce junto a neonatos internados apresenta certas


peculiaridades que a distinguem da intervenção com bebês realizada em consultórios
(ambulatoriais hospitalares ou de clínica particular). Romper o marco usual da nossa
intervenção nos obriga a tecer novas articulações que fundamentem nossa praxis em
sala de neonatologia. Propomos trazer aqui algumas destas articulações construídas
desde a experiência compartilhada pela intervenção em UTI neonatal do Hospital
Santojanni 3.
Em primeiro lugar, na intervenção com bebês e seus pais na sala de neonatologia,
não partimos da formulação de um “pedido parental”. Diferentemente do que ocorre nos
consultórios, ninguém vem nos procurar: como clínicos em Estimulação Precoce, nós
estamos ali, integrando o corpo de profissionais encarregados de realizar o
acompanhamento do neonato e de sua família durante a internação.
Em segundo lugar, a intervenção apresenta o caráter de uma urgência: intervimos não
diante de um quadro já estabelecido, como geralmente ocorre nos consultórios, mas em
função de uma situação aguda que acomete o neonato e sua família. O nascimento
prematuro, as complicações no parto ou o diagnóstico de uma patologia no nascimento
se apresentam como um real que irrompe no tecido simbólico que até então estabelecia
as representações que permitem para uma família a sustentação simbólica da chegada de
um recém-nascido.
Uma terceira diferença a considerar é que, no marco da UTI neonatal, a intervenção
que realizamos é limitada e recortada pelo tempo da internação, não estando guiada em
seu tempo de duração - diferentemente do que ocorre no trabalho em consultórios -
unicamente pelos diferentes momentos lógicos de constituição de um bebê e da
elaboração parental, mas também pelo término do período de risco de vida do neonato.

Como intervir com uma temporalidade recortada externamente?


No contexto da UTI radicaliza-se a concepção clínica de que cada sessão é única, não
só porque de fato em alguns casos não chegue a ocorrer mais do que uma intervenção,
dada a rápida passagem pelo serviço, como também porque os neonatos internados na
UTI apresentam permanentes oscilações em seu estado clínico: em questão de poucas
horas os prognósticos e conseqüentes reações parentais podem ser absolutamente
diversos dos encontrados na última intervenção.
Nossa intervenção aponta a resgatar, dentro deste “tempo de internação”, o “tempo
subjetivo” de elaboração do pai e da mãe 4 quanto à inscrição do recém-nascido no
discurso parental, que permanentemente cai e fica silenciada em função da iminência do
risco de vida, dos diferentes procedimentos e comunicados médicos que se impõem no
marco da internação em UTI.
Lacan situa a existência de três tempos lógicos: o tempo de ver, o tempo de
compreender e o tempo de concluir. Diante da urgência encontramos uma permanência
no tempo de ver, sem que se arme a passagem lógica ao tempo de compreender . “Não
sei como isto foi ocorrer”, “não entendo o que está acontecendo”, “o médico me disse o
problema que ele tem mas não consigo entender” são falas freqüentes neste contexto. É
justamente a articular esta passagem ao que apontamos na intervenção.

Como intervir na urgência?


Na urgência neonatal, aqueles que supostamente estariam a cargo de sustentar as
funções materna e paterna de um bebê encontram-se absolutamente impossibilitados de
“associar” e “historiar” esse bebê. Em lugar do “associe livremente”, que marca as
coordenadas de uma intervenção psicanalítica, ou o “conte-me o que lhe preocupa em
seu bebê e o traz até aqui”, que marca a recepção dos pais na clínica da Estimulação
Precoce, na urgência encontramos a falta de palavra, ou falas aparentemente desconexas
que ficam entrecortadas pelo evento que toma de surpresa os pais do recém-nascido e
lhes impossibilita situar-se e situar o bebê.
Intervimos na direção de que a tela simbólica, que até então armava o casulo de
recepção do bebê e que sofre esta dilaceração, possa retomar seus nexos, para que o
evento da internação, a gravidade do quadro ou a patologia do recém-nascido, em vez
de silenciar o discurso parental, possam começar a ser bordejados simbolicamente.
Desde a clínica em Estimulação Precoce sabemos que o trabalho de
ressignificação de uma patologia ou evento traumático é permanente. Permanentemente
se tenta bordejar um real que, como aponta Lacan, não cessa de não se inscrever.
Na intervenção em sala de neonatologia visamos a realização de uma primeira
construção que permita subjetivamente aos pais uma mudança de posição ao deslocar-se
do silêncio e começar a pôr em movimento uma fala que os implica com o bebê. Isto
porque, ainda que na sala de UTI seja possível salvar organicamente a vida de um
recém-nascido, é somente desde o discurso parental que esta vida pode chegar a ter
alguma significação simbólica.

O que tomamos como ponto de partida para a intervenção?


Aqui é preciso diferenciar o “pedido de tratamento” de “uma demanda”: os pais cujo
filho está internado na UTI, pela situação mesma de urgência, encontram-se
psiquicamente impossibilitados de formular um pedido de tratamento. Eles estão em
situação de sofrimento psíquico e produzem atuações com este sofrimento, com
desmaios, ausências prolongadas na visitação ao recém-nascido, permanência constante
ao lado da incubadora em situação de ausência psíquica ou ataques ao pessoal do
serviço, entre outras manifestações.
Em nosso trabalho de intervenção em UTI neonatal escutamos essas atuações dos
pais do recém-nascido internado como uma demanda radical a partir da qual propomos
intervir. Tomamos este sofrimento psíquico que não consegue ser posto em palavras
como uma demanda e realizamos a oferta de escutá-los, dando lugar a que se construam
suas próprias articulações sobre o evento, a que formulem suas dúvidas, suas
preocupações, a que rearmem a imagem do seu bebê e possam constituir estratégias de
encontro com ele em meio aos obstáculos que se fazem presente pela internação e pelo
risco de vida do recém-nascido.
Ainda que a sala de UTI apresente um marco que impõe suas diferenças em
relação ao do trabalho realizado em consultórios, ambas intervenções apontam a uma
mesma direção: à constituição do nosso “pequeno paciente” como um sujeito do desejo
capaz de vir a se apropriar de suas aquisições instrumentais e à sustentação das funções
materna e paterna que vêm a possibilitar tal constituição. 5
Ocorre que na UTI neonatal intervimos desde um contexto no qual tanto a
suposição de um sujeito no bebê quanto a sustentação das funções materna e paterna são
permanentemente postas em xeque.
Como bem sabemos, o apoio orgânico à vida dos recém-nascidos internados em
UTI exige uma intervenção médica maciça. Tal intervenção, que é absolutamente
fundamental para a vida dos recém-nascidos ali internados, não deixa de ter certos
efeitos problemáticos que os médicos e pessoal de enfermagem procuram detectar e
minimizar.
A mãe e o pai do recém-nascido não só se vêem confrontados à situação de
urgência do parto ou internação e às fantasias que começam a configurar-se em torno
das dificuldades do bebê como também, posteriormente, em função da necessidade de
internação, ficam deslocados do exercício dos primeiros cuidados dirigidos ao neonato.
Esta situação freqüentemente causa fraturas na função materna e dificuldades na
sustentação da função paterna, que quando não são resignificadas durante o tempo da
internação podem chegar a instalar graves obstáculos na relação com o recém-nascido,
que permanecem mesmo após a alta e que vêm a incidir em sua constituição como
sujeito e desenvolvimento.
A prolongada internação e exposição a diversos procedimentos médicos também
tem efeitos diretos sobre o recém-nascido, apagando ou desfigurando certos aspectos
constitucionais que servem como base para as suas primeiras aquisições instrumentais e
como engrenagens capazes de pôr em movimento o exercício da função materna.

A sustentação da Função Materna e da Função Paterna em sala de


neonatologia

Se quando tudo corre bem a passagem de um bebê e sua mãe pelo hospital se
restringe a uns poucos dias, ao se tratar de um neonato que exige cuidados intensivos,
por um período prolongado (geralmente de uma a doze semanas), o entorno do bebê
será a UTI neonatal. Em tal circunstância, diversos profissionais estão a cargo do
recém-nascido, pois seu estado de gravidade e os frágeis momentos de estabilidade do
seu quadro orgânico exigem vários olhares atentos às suas diferentes funções vitais. Há,
deste modo, uma multiplicação das pessoas implicadas em seus cuidados - no mínimo,
médico de cabeceira, médicos de plantão, diferentes enfermeiras que se revezam nas
mudanças de turnos e profissionais que realizam intervenções específicas, como
radiografias ou manobras fisioterapêuticas.
Encontramos aqui a diferença existente entre os cuidados espontâneos que uma
mãe dedica ao seu bebê a partir de sua “preocupação materna primária” e os cuidados
relativos a um neonato em sala de UTI.
Uma mãe também está atenta às funções vitais do seu bebê, mas em seus cuidados
vai tecendo a articulação entre cada uma das manifestações espontâneas deste e a
significação simbólica que ela lhe atribui. Assim, relaciona os estados de tensão
corporal com o desprazer, o relaxamento tônico-corporal com a satisfação, e,
sobretudo, toma as manifestações do bebê como demandas a ela dirigidas. É por isso
que o mero choro reflexo do recém-nascido adquire para uma mãe situada desde sua
“preocupação materna primária” o estatuto de um chamado. Nesta leitura, que
transcende o puro cuidado do orgânico, ela põe em ato o texto simbólico que dá
significação à vida do bebê.
É a partir de tal tecido simbólico que se estabelece para o recém-nascido a
possibilidade de vir a reconhecer-se. O estabelecimento da identificação simbólica
opera como um primeiro traço –o Traço Unário- que permite a um recém-nascido poder
situar-se, assim como poder vir a situar os outros e os diversos eventos de sua vida em
uma série. Justamente a instituição hospitalar, e sobretudo as prolongadas internações
em UTI, se caracterizam pelos seus efeitos desorganizadores do Traço Unário.
Por um lado porque o neonato fica submetido à fragmentação dos cuidados
realizados por diversos profissionais e, desde as diferentes mãos que o tocam, olhos que
o olham, vozes que falam (na maioria das vezes, nem sequer dirigidas a ele), não se faz
possível que arme um ponto de referência para situar-se simbolicamente e vir a operar
seu reconhecimento.
Por outro lado, porque os próprios pais, ao procurar reconstituir as referências
quanto ao seu filho durante a internação, se encontram diante de uma verdadeira “colcha
de retalhos” de pareceres, procedimentos, altas e baixas, sofrendo eles mesmos efeitos
de desorganização quanto à série simbólica inconsciente na qual viria a se inscrever o
seu filho.
Os efeitos desorganizadores não acometem apenas a mãe, também se manifestam
na função paterna em relação aos atos de inscrição social e nomeação da criança, tais
como o comunicado do nascimento à família, ou o registro em cartório para emissão da
certidão de nascimento.
Quanto ao exercício da função materna no puerpério, Winnicott afirma:
“A mãe, que talvez esteja fisicamente esgotada, e talvez incontinente, e que
depende da atenção especializada do médico e da enfermeira em muitos e diversos
aspectos, ao mesmo tempo é a única pessoa que pode apresentar adequadamente o
mundo ao bebê de um modo que tenha sentido para este. Sabe como fazê-lo, não por tê-
lo aprendido nem por sua inteligência, mas simplesmente porque é a mãe.” 6
Ocorre que a função materna, justamente porque se exerce desde um saber
inconsciente, só pode operar sob certas condições, condições estas freqüentemente
afetadas desde a situação de internação do recém-nascido com risco de vida.
Se por um lado um neonato de risco necessita de uma série de cuidados médicos
que não podem ser efetuados pela mãe e que ela desconhece (o que por si só já pode
deslocá-la da posição de poder colocar em exercício o seu saber inconsciente em relação
ao bebê), a isto se soma o fato de que, quando se trata de um recém-nascido prematuro
ou com patologias orgânicas, a mãe se encontra com um bebê cuja produção difere da
conduta espontânea esperada em bebês sem patologia e nascidos a termo. Diante de tal
diferença de produção, é freqüente que uma mãe não consiga armar leituras em relação
ao bebê.
As duas condições citadas, geralmente superpostas na situação de internação,
causam efeitos de fratura no exercício da função materna, dado que a mãe fica
deslocada da posição de “saber fazer ali” com o seu bebê.
A intervenção que realizamos na sustentação da função materna não se restringe à
passagem do “tempo de ver” para o “tempo de compreender” que permita elaborar uma
versão parental quanto à internação do bebê, mas, acima de tudo, a que a mãe possa
começar a armar leituras quanto à produção de seu filho, colocando em ato este saber
nos cuidados dirigidos a ele.
Freqüentemente, as mães procuram dominar as informações dos aparelhos que
mantêm a vida dos seus bebês, assim como a linguagem técnica que circula em sala de
UTI. Trata-se de um esforço que ocorre na suposição de que o domínio desse “dialeto”
lhes permitirá reencontrar-se com seus bebês e recuperar o lugar de saber sobre estes,
assim como a responsabilidade por seus cuidados.
A tentativa de vir a recuperar por essa via o “lugar de mãe” do qual se sentem
deslocadas evidentemente desemboca em um fracasso, pois os termos técnicos
constituem um dialeto anônimo, igual para todos os neonatos internados, no qual se
pode falar de órgãos e funções orgânicas, mas tal dialeto não fala nada sobre o bebê
para uma mãe e nem dá à mãe as coordenadas da função materna desde as quais possa
dirigir-se ao seu bebê. Essa é uma fala que terá de ser reconstruída desde outro âmbito e
para a qual o conhecimento técnico não serve de prótese.
Quando as mães passam a sentir-se mais autorizadas, freqüentemente buscam
aproximar-se de seus filhos a partir de esquemas pensados para bebês nascidos a termo.
Ocorre que muitos desses esquemas resultam ineficazes com bebês prematuros ou
acometidos de graves patologias. Apresenta-se então um ponto bastante delicado no
armado da função materna, pois se, diante de tal dificuldade, os profissionais implicados
realizam uma intervenção excessivamente diretiva, que mais uma vez se antecipa,
dizendo à mãe como proceder, a mãe até pode interagir com seu bebê, mas continuará
deslocada do exercício de sua função.
Por isso a intervenção que realizamos desde a clínica de Estimulação Precoce
visa sustentar o armado de uma leitura da mãe quanto à produção do seu bebê que lhe
permita realizar de um modo peculiar o exercício de sua função. É somente a partir
desse exercício que ela poderá reconhecer as características que a prematuridade impõe
e oferecer, nesse contexto, situações de prazer e contenção ao seu bebê.
A especificidade de nossa intervenção com bebês não se reduz a escutar os pais e
a intervir nas representações do bebê que comparecem desde suas falas. Tampouco se
trata de realizar uma espécie de “estimulação anônima” do bebê. Trata-se de uma
intervenção na qual sustentamos em cena a realização de uma nova oferta parental
reposicionada a partir da releitura da produção do bebê, ou seja, intervimos em relação a
como este discurso se põe em ato com o bebê e lemos no bebê os efeitos disso.

Trazemos um breve recorte clínico: uma mãe se aproxima de seu bebê prematuro,
abre a incubadora e o toca de modo intermitente, com breves palmadinhas nas costas. O
bebê começa a realizar bruscas contrações e distensões musculares e a apresentar
expressão facial crispada. A partir de nossa intervenção na cena e oferta de escuta, a
mãe fala de sua leitura: “Ele não gosta que eu o toque”. Marcamos que efetivamente ele
não reagiu bem, mas que talvez do que não goste é de ser tocado desse modo, e que
poderíamos encontrar outros modos nos quais goste de ser tocado. A mãe continua a
falar que o tocou assim por temor de que um carinho de maior contato pudesse
machucar a pele frágil do bebê. A partir da intervenção, a mãe arma uma possibilidade
de sustentação do bebê com um toque constante em suas costas. Com a nova oferta, o
bebê se reorganiza e relaxa, e a mãe passa a ler sua sustentação como eficaz.
Vemos como o marco hospitalar interpõe diversas quebras e obstáculos no armado
dos circuitos pulsionais que, quando tudo corre bem, uma mãe sustenta em seu bebê.
Por exemplo, a sustentação da lactância revela-se bastante problemática no
contexto da internação de recém-nascidos em UTI: por um lado porque a produção de
leite está ligada a condições emocionais da mãe e freqüentemente se interrompe dada a
situação de angústia e ansiedade; por outro lado porque, quando um bebê está impedido
de ser amamentado por motivos médicos, geralmente o leite passa a ser extraído com
aparelhos. Esta situação fica ainda mais agravada quando as mães nem sequer podem
participar do momento em que esse leite chega ao bebê (e é ministrado por sonda). As
mães revelam sentir “dor” e “incômodo com a fria temperatura do aparelho”, algumas
passam a “ter nojo do leite” acumulado no frasco de extração, acham sua “cor estranha”,
“como se estivesse estragado”. “Cada vez que sento neste aparelho me sinto como uma
vaca leiteira”, afirma uma mãe. Tais falas denunciam os efeitos de quebra da
sustentação simbólica da circulação desse objeto (peito/leite) entre uma mãe e seu bebê,
que deixa de ser investido como objeto de dom ofertado ou negado pela mãe quando
passa a ser regulado exclusivamente pelo anonimato institucional da extração da tantos
mililitros da mãe e ministração de tantos mililitros ao neonato. Nada pode ser mais
distante da cena prazerosa da amamentação.
Ainda que, em parte, a interposição na usual relação entre um bebê e sua mãe e
seus efeitos na circulação dos circuitos pulsionais resulte inevitável no marco da UTI, as
intervenções realizadas desde o serviço hospitalar podem chegar a favorecer a
constituição de tais circuitos ou obstaculizá-los muito além do inevitável.

O recém-nascido internado em UTI e a constituição dos circuitos


pulsionais:

O neonato internado em UTI se caracteriza por estar em uma situação de risco:


- Há um risco orgânico, pois ainda que todo o desenvolvimento científico e
tecnológico tenha permitido diminuir a mortalidade de neonatos que antes eram
inviáveis, hoje em dia encontramos altos índices de morbilidade resultantes das
prolongadas internações.
Ao tratar-se de neonatos prematuros, a imaturidade na regulação da respiração
e a própria imaturidade orgânica do pulmão dificultam a respiração e as trocas gasosas,
sendo necessária a utilização de respirador e ministração de diferentes drogas. Mas,
como o metabolismo implica delicadas reações em cadeia, a partir de tais intervenções
torna-se difícil o controle da pressão arterial. A isso soma-se o risco oferecido pelos
delicados vasos de irrigação cerebral de um prematuro. Em tal contexto, a possibilidade
de ocorrência de lesões cerebrais por anóxias ou derrames é considerável.
Encontramos também problemas na regulação térmica, presença de vômito,
distensões abdominais, perda de peso, além, é claro, de problemas aos quais todos os
neonatos prematuros ou não ficam expostos na intervenção hospitalar, como infiltrações
e necroses por injeções, formação de escaras na pele ou graves problemas posturais.
Durante toda a etapa inicial de intervenção médica com um neonato de risco
procura-se chegar à estabilização do quadro clínico. Uma vez que esta é atingida, a
grande preocupação passa a ser evitar possíveis quadros infecciosos e, se os pacientes
em questão são prematuros de poucas semanas, possibilitar o “aumento da curva de
peso” ou “engorde”, que armará seu passaporte para a alta.

- Mas não é só no orgânico que se apresentam os riscos aos quais está exposto um
neonato internado em UTI: os efeitos fantasmáticos no parental e as primeiras
experiências de vida do bebê ocorridas na sala de internação também podem constituir
riscos para o seu desenvolvimento e constituição como sujeito.
Podemos encontrar em bebês próximos à alta que foram internados por
prolongados períodos o apagamento de certos aspectos constitucionais, tais como o
reflexo de sucção. Sabemos que a sucção enquanto reflexa está condenada ao
desaparecimento para todos os bebês e se permanece é porque, desde o pulsional, passa
a ser inscrita como uma fonte de prazer e, desde o cognitivo, se estabelece como uma
experiência adquirida 7. Mas se, a partir das primeiras experiências de vida, a boca não
se instaura para um bebê como um lugar privilegiado na relação com o Outro
Primordial 8, encontraremos o apagamento da sucção prazerosa, o que, mesmo após a
alta, vem instaurar dificuldades para que um bebê possa tomar as ofertas maternas
realizadas nesse sentido.
Também é freqüente após prolongados períodos de internação o estabelecimento no
bebê de um olhar vazio que não marca a preferência pelo rosto humano 9, assim como
uma acuidade auditiva pela qual se sobressalta por ruídos ambientais, mas que não reage
de modo peculiar ao escutar a voz das pessoas implicadas em seus cuidados.
Encontramos aí os primeiros traços de quadros que, se não são detidos a tempo, podem
evoluir para uma evitação ativa do olhar e depois para uma auto-estimulação (primeiro é
freqüente o chupar reiterativo da língua e somente mais tarde aparecem balanceios mais
característicos de estados autísticos). Estas primeiras manifestações já apontam a um
circuito pulsional no bebê que não articulou seu prazer ao circuito de demanda e desejo
do Outro Primordial. Ao mesmo tempo encontramos que tais manifestações tendem a
apresentar uma rápida e boa evolução a partir da intervenção específica junto ao bebê e
à sua família.

Um bebê internado em UTI neonatal está submetido a uma superestimulação


sensorial: excesso de luz, barulho ambiental acima do tolerável, constantes intervenções
intrusivas para exames e medicação.
Neste marco, uma vez mais levanta-se a interrogação pelo modo em que situamos
o estímulo na clínica da Estimulação Precoce.
Diferentes trabalhos de pesquisa relativos ao entorno dos bebês em UTI apontam
a importância de diminuir as “quantidades de estímulo”, evitando o efeito de
bombardeio sensorial e obtendo uma melhor e mais rápida evolução do bebê.
Por outro lado, trabalhos de interação mãe-bebê afirmam que “quanto mais” uma
mãe estiver próxima do bebê, permitindo que ele possa sentir seu cheiro e escutar sua
voz, melhor será sua evolução.
Ocorre que, para além do “aspecto quantitativo” do estímulo, devemos levar em
conta o “aspecto qualitativo” que não se restringe apenas a uma quantidade estabelecida
como benéfica por um signo de mais ou de menos (na ordem do “quanto mais mãe,
melhor”, ou “quanto mais estímulos sensoriais, pior”) que univocamente determinam se
é boa ou é má para o bebê a interação.
Quando situamos a importância do “aspecto qualitativo” dos estímulos no
trabalho em Estimulação Precoce com bebês internados em UTI, apontamos a
importância de intervir na constituição de ritmos, de ciclos de alternância presença-
ausência como organizadores fundamentais para a atividade e primeiras inscrições que
um bebê recebe.
O corpo de um bebê funciona como um “receptáculo temporal” às inscrições do
fantasma materno e é em função dessa captura que se organiza sua postura e seu olhar.
Assim, a organização do circuito pulsional do bebê não ocorre por massivos
bombardeios de estímulos sensoriais e tampouco pela presença permanente da mãe, mas
justamente pela alternância presença-ausência com que a mãe responde à suposta
demanda do bebê e por como passa a demandar-lhe que este tome (não de qualquer
modo) suas ofertas, inscrevendo os ritmos de seu funcionamento corporal (hora de
dormir, hora de mamar etc.). É somente a partir de ritmos de alternância situados por
Outro em uma série simbólica que o corpo do bebê se organiza pela inscrição de um
mapa erógeno peculiar de acordo com a letra do desejo materno.
“O corpo é aqui um receptáculo temporal na medida em que ao ser, em si mesmo,
o campo destes ritmos próprios, torna-se capaz de recebê-los do exterior. Somente
haverá competências na medida em que existir uma estrutura supondo a temporalidade
10
ritmada das funções e de seu funcionamento”.
Em sala de neonatologia não só há estímulos sensoriais excessivos como também,
se não se sustenta o exercício da função materna, corre-se o risco de que não haja
ninguém em posição de organizá-los em uma série, ligando-os a um circuito de desejo e
demanda. Tornam-se estímulos desagregadores do traço unário porque são anônimos,
porque não armam série erógena a partir do desejo materno.
Como podemos ver, a deserogeinização à qual os corpos dos recém-nascidos está
submetida durante a internação não diz respeito apenas ao que se faz aparente pelo
apagamento das diferenças entre um neonato e outro, pelo fato de estarem nus e ligados
a diferentes cabos que entram e saem de suas cavidades corporais, sem nenhum traço
que os diferencie. Se pouco a pouco um bebê, antes nu em sua incubadora, começa a
portar insígnias familiares (fotos, objetos, roupas coloridas) que fazem dele um bebê
único, na medida em que a família possa ir ressituando-o como filho para além dos
efeitos da internação, nossa intervenção não se restringe a operar com a ressignificação
parental em relação ao bebê. Também nos dirigimos à organização e encadeamento
(tanto quanto se faz possível no âmbito da UTI) dos estímulos que um bebê recebe, para
que os diferentes aspectos constitucionais com os quais chega ao mundo, em lugar de
ficarem absolutamente desfigurados, sirvam de base para o armado de suas primeiras
aquisições e como engrenagens capazes de movimentar o exercício da função materna.

O que fica em jogo desde a internação até a alta da UTI é a inscrição de um


neonato – desse mero “vivente”- como um bebê, com um nome que o unarize, com um
desejo que marque seu corpo e lhe outorgue suas primeiras experiências de prazer de
um modo não anônimo. Trata-se de inscrições que não dependem da “sensibilidade” do
médico, pois só desde os significantes parentais um neonato pode tornar-se o bebê de
uma família.
É por isto que intervimos na UTI:
Para que, enquanto ocorre a dura e fundamental tarefa de sustentação orgânica do
recém-nascido por parte dos médicos e enfermeiras, não descuidemos daquilo que é
capaz de dar sentido à vida desse bebê: na organização das primeiras experiências pelas
quais está sendo marcado e também na ressignificação dos efeitos desagregadores que a
situação de internação desencadeiam na rede de representações parentais que armavam
a recepção simbólica de um bebê e que estabelecem o marco para seu desenvolvimento
e constituição como sujeito.
Em lugar de simplesmente esperar a chegada desses bebês aos consultórios
ambulatoriais ou de clínica particular com possíveis sintomas já instalados em seu
desenvolvimento, como clínicos em Estimulação Precoce nos dirigimos aos serviços
junto aos quais pode ser realizada a Detecção Precoce e a Intervenção quando se
apresentam situações de risco, tais como a internação em UTI. Somente desse modo
nossa prática clínica não ficará restrita à tarefa de procurar remediar o que já se
apresenta inexoravelmente inscrito na constituição de uma criança.
Referências bibliográficas:

- Bergès, Jean (1988). O corpo e o Olhar do Outro. Escritos da Criança, número


2. Porto Alegre, RS: Centro Dra. Lydia Coriat de Porto Alegre.

- Dargassies, Saint-anne (__). Desarrollo neurológico del recién nacido de


término y prematuro: Panamericana.

- Lacan, Jacques (1945). El tiempo lógico y el aserto de certidumbre anticipada,


Escritos 1 (p.p. 187). Buenos Aires, Argentina: Siglo Veintiuno.

- Piaget, Jean (1959) El nacimiento de la inteligencia en el niño (pp.37, 38).


Madrid, Espanha: Aguilar, 1972.

- Raimbault, ____ .El psicoanálisis y las fronteras de la medicina, Buenos Aires,


Argentina: Ariel.

- Spitz, René (1965). El primer año de vida del niño, Buenos Aires, Argentina: Fondo do de
Cultura Económica.

- Winnicott, Donald. (1987) Los bebés y sus madres (pp. 106). Barcelona,
Espanha: Paidós.

- Winnicott, Donald (1931/56). Escritos de pediatría y Psicoanálisis. España:


editora Laia, distribuidora Lumen.

- Winnicott, Donald (1971). Realidad y Juego. Buenos Aires, Argentina: Gedisa.


1
Este artigo foi publicado na revista Estilos da Clínica número 8, ano 2000. Ele integra a tese de Especialização em
Estimulação Precoce: “Qué hay de temprano en la estimulación temprana: temporalidad y clínica con bebês”, defendida em
1999 na FEPI- Fundación para el estudio de los problemas de la infancia, Buenos Aires, Argentina.
2
Psicóloga, Psicanalista, Especialista em Estimulação Precoce pelo FEPI –Fundación para el Estudio de
los Problemas de la Infancia, Buenos Aires, Argentina- Membro da APPOA e Percurso Psicanalítico de
Brasília.
3
Hospital público de Buenos Aires, Argentina, no qual trabalhei na função de Clínica em Estimulação Precoce, armando
equipe com as psicólogas Maria Trindad Aranda e Mónica Pasaron.
4
Aqui “pai” e “mãe” são compreendidos como aqueles que sustentam a função paterna e a função materna em relação a um
bebê e que não correspondem necessariamente aos seus progenitores biológicos. Em diferentes casos, e bastante
freqüentemente ao se tratar de mães solteiras ou adolescentes são, por exemplo, amigos próximos, avós ou parentes que
podem vir a dar conta de tais funções.
5
Isto porque, como já deve ter ficado evidente a esta altura, na intervenção em Estimulação Precoce, além de se
fazerem necessários conhecimentos específicos (relativos à maturação neuro-psicomotora, as bases da inscrição de uma
criança na linguagem e para a sua constituição como sujeito cognocitivo), tomamos a psicanálise como a referência que
atravessa nossa prática clínica.
6
Winnicott, Donald. (1987) Los bebés y sus madres (pp. 106). Barcelona, Espanha: Paidós.
7
Conforme descreve Jean Piaget.
Piaget, Jean (1959) El nacimiento de la inteligencia en el niño (pp.37, 38). Madrid, Espanha: Aguilar, 1972
8
Define aquilo que mesmo sendo externo ao bebê ocupa um lugar central para que este venha a constituir-se como sujeito e
que para um bebê fica encarnado nos pais.
9
Como Spitz aponta que é de se esperar em lactentes com mais de um mês de vida.
Spitz, René (1965). El primer año de vida del niño. Buenos Aires, Argentina: Fondo de Cultura Económica.
10
Bergès, Jean (1988). O corpo e o Olhar do Outro. Escritos da Criança, número 2. Porto Alegre, RS: Centro Dra. Lydia
Coriat.
A clínica da Estimulação Precoce
-quando um bebê está em sofrimento-
Julieta Jerusalinsky*

Nos primeiros anos de vida ocorrem experiências fundamentais para a constituição do


sujeito psíquico para as aquisições instrumentais –de linguagem, psicomotoricidade e construção
do pensamento-, assim como para a própria formação neuroanatômica.
Isto marca a importância da detecção precoce de fatores de risco para o desenvolvimento
infantil, assim como da intervenção clínica adequada quando um bebê encontra-se em situação
de sofrimento.
Há mais de 30 anos a clínica com bebês que apresentam sintomas em sua constituição
psíquica e desenvolvimento, com ou sem problemas orgânicos de base, vem sendo denominada
como Estimulação Precoce.
Ao longo desses anos, a prática clínica tem demonstrado que, para os efeitos de uma
intervenção, em nenhum outro momento da vida tanto se pode contar com a extrema
permeabilidade às inscrições simbólicas que caracterizam o tempo de ser bebê.
As descobertas da neurologia, com o conceito de plasticidade neuronal, cada vez mais vêm
corroborando essa constatação clínica. Levando-nos a considerar que, se bem muitas
características estejam determinadas ao nascer, impondo certos limites orgânicos à constituição –
e, por isso, organicamente, não é indiferente ser ou não ser portador de uma lesão, uma
deficiência física ou uma síndrome-, as experiências de vida jogam um papel decisivo na
constituição.
As experiências de vida podem permitir que uma criança tire o máximo proveito das
potencialidades orgânicas ou, pelo contrário, podem introduzir marcas simbólicas com efeitos
muito mais limitantes que os impostos por uma patologia orgânica em si.
É nesse sentido que a clínica da estimulação precoce intervém, produzindo o que podemos
denominar como uma prevenção secundária –pois, se bem muitas vezes se intervenha com bebês
que apresentam patologias orgânicas inexoráveis, sabemos que os estímulos recebidos operam
como o “alimento funcional” decisivo para o completamento das estruturas neuroanatômicas no
processo de maturação e como inscrições decisivas para a constituição psíquica.
No entanto, é preciso considerar qual é o tipo de estímulo capaz de suscitar a constituição
em um bebê, discussão que ocupa tanto os clínicos da primeira infância quanto os pesquisadores
de neurologia.
Ainda que a palavra estímulo possa significar um puro golpe perceptivo recebido de forma
anônima desde o meio –como a percepção de uma luz, temperatura ou ruído-, este não é seu
único significado. O termo estímulo pode também denotar que algo é estimulante, que incita e
que desperta o desejo. É essa segunda significação que interessa na clínica da Estimulação
Precoce quando a intervenção aponta a que o bebê possa chegar a se constituir como um sujeito
que, em nome de um desejo, utilize os diferentes esquemas psicomotores, cognitivos ou de
comunicação como efetivas aquisições.
Por isso, quando situamos as experiências de vida que têm efeitos constituintes para um
bebê, estamos nos referindo não só à experimentação direta que um bebê possa fazer com
diferentes objetos do mundo, mas fundamentalmente à relação, ao laço que o bebê estabelece
com algumas pessoas centrais para sua existência: aquelas que encarnam a função materna e
paterna. É a partir de tal laço que se estabelece um sentido simbólico para a existência do bebê. E
é somente a partir de tal laço que a exploração que o bebê possa vir a fazer dos objetos que o
rodeiam adquire qualquer significação.
É interessante recordar que a origem etimológica do termo estímulo encontra-se ligada a
estilo e a escrita. É a partir da inscrição em seu corpo dos significantes da tela simbólica parental
que se estabelece no bebê um estilo de funcionamento de suas funções –seus ritmos de sono-
vigília, fome-saciedade, e até mesmo a inscrição do que será para ele uma percepção capaz de
suscitar prazer ou desprazer. Justamente, quando intervimos com bebês estamos intervindo no
tempo das primeiras inscrições, das primeiras marcas simbólicas que definirão se um bebê estará
em posição de apropriar-se do domínio de seu corpo e de uma exploração do seu entorno.
Este é um ponto central que a prática clínica demonstrou ao longo de 30 anos de
atendimento a bebês com problemas de desenvolvimento: a importância de trabalhar sim com a
eficácia das diferentes funções –produzindo realizações cognitivas, psicomotoras, de linguagem
e de hábitos de vida diária-, mas sujeitando tal eficácia funcional à constituição do sujeito
psíquico que possa vir a apropriar-se delas.
Inicialmente, muitas das práticas em estimulação precoce partiam de uma lógica de
reabilitação fragmentada área por área. Desse modo, os bebês com problemas de
desenvolvimento eram levados a múltiplos tratamentos na aposta de que as diferentes disciplinas,
cada uma sanando sua parte, pudessem produzir um efeito de desenvolvimento. Tais funções
estimuladas até apresentavam melhora, mas o que muitas vezes fracassava era a constituição do
sujeito que pudesse pô-las a funcionar em nome de um desejo singular.
Isto foi apontando a necessidade de produzir uma inversão epistemológica. Em lugar de
serem os bebês os que deviam ficar submetidos à fragmentação do conhecimento dividido área
por área, partiu-se do princípio de reconhecer o que há de específico na primeira infância e
colocar as diferentes disciplinas em interlocução a partir da especificidade apresentada pelo
bebê.
Isto deu lugar ao surgimento da clínica em Estimulação Precoce sustentada em um marco
interdisciplinar. O que possibilita a articulação dos diversos conhecimentos necessários para se
intervir com um bebê sem submeter os mesmos e as suas famílias aos efeitos desorganizadores
produzidos pelas múltiplas intervenções.
Tal achado clínico mais uma vez parece ser corroborado pelas descobertas da neurociência
que apontam a importância de estímulos integradores de diferentes áreas, tais como as mães
costumam oferecer espontaneamente a seus bebês (Kandel, 1997, Time).
Nesse marco, tornam-se centrais alguns critérios de intervenção:
Em primeiro lugar, o de trabalhar com a representação que a patologia de uma criança
assume desde o discurso dos terapeutas, da sociedade e da família, ou seja, com as fantasias que
se estabelecem a partir da patologia, uma vez que tais fantasias podem ter efeitos muito mais
comprometedores que o limitante orgânico em si.
Pois é preciso considerar que os cuidados cotidianos dirigidos ao bebê -e, portanto, as
antecipações funcionais, que estabelecem os desafios necessários à produção de novos
esquemas- se sustentam na representação que se tem acerca das possibilidades do bebê.
Quando não se supõe o bebê como capaz de certa aquisição, consciente e
inconscientemente, passam a ser suprimidas de sua vida as antecipações funcionais que
possibilitam pôr em cena os desafios necessários para que o bebê possa vir a produzir novos
esquemas pelos quais torna suas produções cada vez mais complexas e pelas quais comparece
enquanto sujeito capaz de uma realização.
Isso é, por exemplo, o que ocorre com um bebê do qual se supõe –pela fantasia que se
forma de sua patologia, que nem sempre corresponde à lesão real- que ele não virá a falar. Então
quando ele começa a realizar, lá pelos 8 meses, balbucios de valor lingüístico, tais como
“mamama” ou “papapa”, os pais não conseguem tomar tal produção do bebê como o início de
uma fala que os chama e os designa. Constatamos que, se não houver aí uma intervenção, ao
cabo de algum tempo, ou o bebê silencia tal produção ou ela continua a ocorrer, mas já sem uma
significação de fala dirigida a outro.
Daí a importância de escutar o que os pais têm a dizer sobre seus filhos. Assim como, mais
adiante, será também preciso intervir junto aos professores dos jardins de infância, dando suporte
à inclusão escolar da pequena criança e às suas primeiras experiências de circulação social. Pois
a relação do bebê com os outros é decisiva não só para sua constituição psíquica, mas também
para suas aquisições instrumentais.
Em segundo lugar, o de intervir com os bebês e pequenas crianças por meio das atividades
que são próprias da primeira infância: o brincar e os cuidados levados a cabo pelos pais na vida
diária. Desse modo o conhecimento do clínico é colocado a serviço das situações espontâneas da
vida em lugar de submeter os pais e os bebês a técnicas pré-configuradas que não só não
respondem aos seus valores de vida, interesses ou conflitos cotidianos, como também que
desfiguram as condições de instauração do sujeito psíquico na infância e o estabelecimento das
funções materna e materna –uma vez que os pais são deslocados pela técnica da possibilidade de
deter um saber acerca do que convém a seu filho.
Em terceiro lugar, o de evitar os efeitos psiquicamente desagregadores que as múltiplas
intervenções surtem para o bebê e para os pais, já que é preciso considerar que estamos
intervindo em um tempo em que ainda o pequeno paciente não tem um Eu constituído.
O bebê se reconhece no olhar da mãe, esse é seu primeiro espelho (Winnicott,1971, O
brincar e a realidade). Ninguém nasce com o Eu constituído. Prova disso é que, quando um bebê
começa a denominar-se, ele se chama como os outros o chamam _“o nenê”. Dito de outro modo,
é pela identificação à imagem de si que a mãe oferece ao bebê que o Eu do bebê se constitui
(Lacan, 1949, Escritos). Tal constituição pode ser posta em risco quando recaem sobre o bebê e
sobre os seus pais múltiplos olhares dirigidos a seus esparsos déficits que vêm recortar o corpo
do bebê em lugar de possibilitar-lhe uma imagem corporal unificada e potente.
Para tanto, uma operação clínica fundamental na clínica da estimulação precoce é a de dar
lugar à sustentação da função materna e paterna. É a partir de tais funções que se estabelece o
sentido da vida com base no qual um bebê poderá entender de algum modo singular os estímulos
que o rodeiam. Ou, para dizê-lo de outro modo: de nada serve a eficácia de uma função se ela
não está atrelada à transmissão simbólica que situa um bebê singularmente como filho de uma
família e como membro de uma sociedade.
Que a primeira infância se caracterize pela extrema plasticidade neuronal, em termos
orgânicos, ou do que chamamos, em termos psíquicos, de permeabilidade a inscrições
significantes, aponta a importância de intervirmos não só no sentido de uma clínica da prevenção
secundária, mas também no sentido de possibilitar a detecção precoce de sintomas clínicos da
primeira infância.
O termo precoce aponta a importância de considerarmos a incidência do tempo na
constituição, pois, para os efeitos de uma intervenção, não é indiferente a idade em que a mesma
ocorra. Sabe-se que uma vida pobre em estímulos durante os primeiros anos de vida produz
marcas psíquicas e neurológicas irreversíveis.
Coloca-se assim a necessidade de estabelecer e transmitir alguns critérios que possibilitem
detectar quando um bebê está em sofrimento.(Kupfer e Pesaro, 2003). Isto só se faz possível por
um trabalho conjunto entre os profissionais que intervêm na clínica da Estimulação Precoce e
aqueles profissionais que intervêm com a primeira infância de modo amplo -no âmbito da saúde,
pediatras e enfermeiros que fazem parte dos programas de acompanhamento do desenvolvimento
infantil; no âmbito da educação, com professores e orientadores que intervêm no ensino infantil.
Atualmente, ainda é prática comum que as crianças só sejam encaminhadas a tratamento
quando têm sintomas que se enquadram dentro de um quadro psicopatológico específico. Até que
o quadro por elas apresentados se configure como uma patologia específica costuma-se manter a
chamada conduta expectante. O problema é que este modo de proceder implica um pensamento
centrado na doença e não na saúde e leva à perda de um tempo decisivo para os efeitos de uma
intervenção ao considerar-se a permeabilidade psíquica e plasticidade neuronal próprias da
primeira infância.
É preciso ter claro que os primeiros sinais de sofrimento psíquico de um bebê não se
manifestam como signos positivos de uma patologia. O primeiro que encontramos é uma queda
de uma produção que seria de se esperar. Assim, por exemplo, antes de um bebê realizar a
evitação ativa do olhar (um grave sintoma em termos da constituição psíquica), costumamos
encontrar o não estabelecimento da preferência por olhar o rosto dos outros. Se isto acontece é
porque algo já não está indo bem com o bebê e, se bem isto ainda não corresponda a um quadro
psicopatológico específico, não há por que esperar.
A clínica com a primeira infância também nos mostra uma grande incidência de problemas
funcionais -tais como refluxo, recusa alimentar, ecoprese, asma, infecções de repetição, alergias-
e problemas no estabelecimento do esquema corporal -como exploração pobre dos objetos do
mundo a partir dos esquemas visual, tátil, auditivo, oral, e no domínio postural psicomotor. Tais
sintomas freqüentemente surgem como conseqüência de dificuldades na inscrição simbólica e no
estabelecimento da imagem do corpo. Tais sintomas costumam estar profundamente relacionados
a dificuldades nas situações que fazem parte da ilusão de continuidade e dos cortes simbólicos que
precisam ser introduzidos para o bebê pela mãe, tais como processo de desmame, introdução da
alimentação semi-sólida, estabelecimento da demanda de controle esfincteriano –entre tantas
outras situações relativas à dinâmica da presença-ausência sustentada na relação pais-bebê.
O critério de prevenção próprio deste âmbito implica a detecção precoce de sinais de
sofrimento que já estão instalados no bebê e que, ao serem detectados, possibilitam que a
intervenção ocorra antes de que o quadro patológico encontre-se plenamente configurado e
portanto bastante menos permeável aos efeitos de uma intervenção.
Se os profissionais que trabalham com a infância de modo amplo conhecem a importância
clínica de tais critérios passa a ser possível que considerem o sofrimento do bebê, dando lugar
não só a uma investigação relativa aos órgãos que sustentam as diferentes funções corporais (para
saber se os mesmos são ou não são hígidos), mas também ao modo em que tais órgãos são postos
em funcionamento a partir da constituição psíquica do bebê e do estabelecimento de sua relação
com os outros.
A interface de trabalho entre os profissionais que normalmente acompanham a primeira
infância e o clínico em Estimulação Precoce pode se dar por meio da realização de interconsultas
para discussão de caso, pela avaliação do bebê e, se necessário, pelo encaminhamento a
tratamento. Tal interface interdisciplinar dá lugar a intervenções clínicas da Estimulação Precoce
que permitem a sustentação de um marco constituinte para o bebê.

Para ler mais sobre o assunto:


- Coleção Escritos da Criança, números 1 a 6, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat.
- CORIAT, E (1997). Psicanálise e clínica com os bebês, Porto Alegre, Artes e Ofícios.
- JERUSALINSKY, J. (2002). Enquanto o futuro não vem –a psicanálise na clínica
interdisciplinar com bebês, Salvador, Ágalma, segunda edição.

Referências Bibliográficas:
- KANDEL, (1997). Fertile Minds, in: Time, n. 30, editado por Madeleine Nash, Nova York.
-KUPFER E PESARO (2003). Pesquisa multicêntrica para validação de indicadores de risco para
o desenvolvimento infantil, Revista de Psicopatologia Fundamental, ano VI, Junho de 2003, São
Paulo, Pulsional.
- LACAN, (1949). El estádio del espejo como formador de la función del Yo tal como se nos
revela en la experiencia analítica, in: Escritos 1, Buenos Aires, Siglo Veintiuno.
- WINNICOTT (1971). Realidad y Juego, Buenos Aires, Gedisa.

* Julieta Jerusalinsky é
psicanalista, especialista em Estimulação Precoce, mestre e doutoranda em Psicologia Clínica,
membro do centro Lydia Coriat e do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP,
autora do livro: Enquanto o futuro não vem –a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês,
Salvador, Ágalma, 2002.
J. Jerusalinsky e M. Berlink (2008). Leitura de Bebês. Estilos da Clínica, ano XIII, n. 24, São Paulo,
USP –IP, primeiro semestre de 2008.

Título em português: LEITURA DE BEBÊS

Autores: Julieta Jerusalinsky, Manoel Tosta Berlink

Resumo: Na clínica com a primeira infância se intervém não só por meio da escuta, mas fundamentalmente
por meio de uma leitura – leitura que opera em relação às produções do bebê e também em relação ao
modo de seus pais colocarem em ato seu discurso nos cuidados que lhe dirigem. Isto leva a considerar de
que modo o olhar do clínico se situa diante do sintoma dado a ver no corpo do bebê, diferenciando seu
lugar na observação de bebês do que ocupa em uma clínica que intervém por meio de uma leitura.
Descritores: bebês, psicanálise, letra, estimulação precoce

Título em espanhol: Lectura de bebés

Resumo em espanhol: En la clínica con bebés se interviene no solo por la escucha sino
fundamentalmente por una lectura - lectura que se opera em relación a las produciones del bebé y también
em relación al modo que sus padres colocan em acto su discurso en los cuidados que le dirijen. Esto implica
considerar como la mirada del clínico se situa frente al sintoma dado a ver en el cuerpo del bebé,
diferenciando su lugar en la observación de bebés del que ocupa en uma clínica que interviene por una
lectura.

Descritores em espanhol: bebés, psicoanálisis, letra, estimulación temprana

Título em inglês: Reading babies

Resumo em inglês: When treating a baby, a therapist must intervene not only by listening but mainly
by reading. One must read the baby's productions and also the way the parents translate their words into
actions when taking care of their infant. This brings about the need to consider the way the therapist looks to
the symptom visible in the baby's body. He must act differently when observing babies and when acting in a
clinic that intervenes by reading.

Descritores em inglês: babies, psychoanalysis, letter, early stimulation

LEITURA DE BEBÊS 1
Julieta Jerusalinsky

1
Este artigo integra o projeto de pesquisa de doutorado, em andamento, realizado junto ao Laboratório de Psicopatologia
Fundamental PUC-SP, sob orientação do Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck. Parte das questões aqui trazidas foram apresentadas
no Congresso de Psicopatologia Fundamental, Belém do Pará, 2006 e no Congresso da ABEBE, São Paulo, 2006.
Manoel Tosta Berlinck

Quando um bebê apresenta um sintoma que coloca em risco a sua constituição psíquica, o sofrimento
2
comparece em sua organização corporal e na realização de suas produções. Trata-se, portanto, de um
sintoma que é dado a ver.
3
Entendemos o dar a ver não no sentido do que se quer mostrar, mas do que comparece, do que se
manifesta do sujeito, no movimento, no tônus, em sua produção rítmica-temporal, e que, portanto, comparece
na organização das funções corporais para além de suas intenções.

Esta é uma primeira questão de central importância a levar em conta e que marca uma especificidade
da clinica com bebês: que o padecimento compareça pela via do dado a ver.

Marco isso porque, se há algo próprio no método psicanalítico, é a escuta que se produz da associação
livre do paciente, posta em causa a partir do sintoma que lhe produz sofrimento.

A inauguração da psicanálise implica justamente esta mudança de eixo de intervenção: passando da


ordem do ver, do assistir ao espetáculo das apresentações de histéricas –consagradas por Charcot- a escutar a
fala dessas pacientes, considerando que tal fala está inexoravelmente atrelada ao padecimento que as acomete
no corpo.

Freud nos mostra como, ao desdobrar por meio da fala em transferência a associação que levou à
produção do sintoma (com sua série de condensações e deslocamentos), assim como pelas intervenções do
analista, é possível produzir deslizamentos de significação que possibilitam mudanças do sujeito em relação
ao sintoma.

Sabemos, no entanto, que o modo pelo qual uma criança circula na linguagem não é o mesmo que o de
um adulto. Freud (1932) diz isso com todas as letras ao afirmar que a criança "não tolera muito bem os
métodos da associação livre".

Isto deu origem a uma série de questões acerca dos métodos na psicanálise com crianças, entre as
quais a central proposição de Melanie Klein (1926) de que o brincar está para a psicanálise de crianças como
a associação livre está para a psicanálise de adultos.

Mas quando intervimos na primeira infância tal questão apresenta-se de modo ainda mais radical:
afinal, como comparece o sujeito em um tempo em que ainda não há fala e em que ainda nem sequer há a

2 . É preciso fazer aqui um pequeno parêntese acerca do que entendemos por realização de produções, uma vez que as
contribuições da psicanálise ao campo da estimulação precoce e, portanto o exercício clínico interdisciplinar com bebês nos
mostra o quanto as produções instrumentais relativas à psicomotricidade, aquisição da língua, construção do pensamento e
hábitos de vida diária só cumprem o seu circuito de realização na medida em que consideradas, não em relação a um índice de
desenvolvimento neuro-maturacional, pura e simplesmente, mas no modo de comparecerem no laço com os outros.Nesse
sentido não dá da mesma saber pular em um pé só e fazer essa ação de modo estereotipado do que usá-la para brincar de saci-
pererê. Ou para tomar uma produção própria dos primeiros meses, não dá na mesma fazer, em torno dos 8 mesmes “ma,ma,
ma” de modo ensimesmado do que dirigir ao outro, tal vocalização como um chamado.

A este respeito ver: Jerusalinsky, Julieta (2002). Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com
bebês, Salvador, Ágalma, segunda edição.

3 Tal termo, inicialmente proposto pelo poeta Paul Eluard, contemporâneo dos pintores surrealistas, é utilizado por Lacan e
retomado por Jean Bergès ao falar dos sintomas psicomotores. Ver a este respeito: Bergès, Jean (1988). O corpo e o olhar do
Outro, in: Escritos da Criança, n.2, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat.
possibilidade de um desdobramento do brincar que arme uma extensão simbólica?

Justamente o sujeito na primeira infância comparece pela produção e organização corporal.

Mas então tratar bebês nos lançaria novamente ao campo do visto no corpo e do observável na
intervenção?

Uma breve incursão pela história da psicanálise mostra-nos o rastro produzido entre o observável e a
primeira infância. É Freud (1909) mesmo quem primeiramente solicita a alunos e amigos que lhe façam
chegar observações acerca da vida das crianças. E é assim inclusive que o pequeno Hans chega até ele.

Isto ocorre em um tempo em que a aproximação da psicanálise à infância era ainda muito mais mítica
que factual, ou seja, vinha se dando ainda muito mais pelo relato das lembranças infantis dos adultos em
análise do que pelo tratamento efetivo de crianças – assim sendo, é completamente lícita uma interrogação
que vai se produzindo no cerne da psicanálise acerca da pertinente diferenciação entre o sujeito na infância e
4
o infantil do adulto, com seus efeitos para a clínica.

É nesta direção que inicialmente é proposto o método de observação direta de bebês, que em um
primeiro momento surge não como uma intervenção clínica, mas como uma atividade integrante da formação
5
dos analistas. Segundo as palavras da própria Esther Bich (1964), com o objetivo de ajudar "a compreender
o comportamento não verbal da criança e suas brincadeiras, assim como o comportamento da criança que não
fala nem brinca".

Freud nos aponta a importância de observar a produção daqueles que ainda não falam apostando que,
por meio de tais observações, pode-se corrigir uma série de pressupostos errôneos sobre a infância, por
exemplo, o da inexistência de sexualidade nos bebês e crianças. No entanto ele se mostra bastante reticente
no sentido de considerar que a observação de crianças por si só poderia levar a algum esclarecimento. Nos
três ensaios ele afirma que "se os homens soubessem aprender com a observação direta de crianças, estes três
ensaios poderiam não ter sido escritos". E nos aponta a necessidade de conjugarmos tais observações ao
método psicanalítico.

Mas em que consistiria esta “conjugação” da observação ao método psicanalítico? Ela pode ser tomada
de diferentes modos, com conseqüências epistemológicas acerca de se situamos o que é dado a ver como
acontecimento clínico próprio dos fenômenos contemplados no campo da psicanálise ou como um fenômeno
que exigiria uma observação guiada por outros princípios e métodos.

Nesse sentido, é preciso ter em conta que tal método surge em um momento em que está em jogo
considerar a psicanálise como ciência alinhada ou não alinhada aos princípios positivistas. Diante de tal
debate, o método de observação de bebês, "ao dar ênfase à observação e à descrição cuidadosa dos
fenômenos relacionais", teria, segundo os praticantes desse método, "produzido um deslocamento da
psicanálise do lugar de ciência explicativa (de causa-efeito) ao lugar de ciência descritiva, de observação de
fenômenos que vão emergindo" (Mélega, 2001).

4 Questão mais amplamente desenvolvida em : Jerusalinsky, Julieta (2002). Obra citada.


5 Tal proposição, realizada em 1948 por Esther Bick (psicanalista discípula de Melanie Klein), inicialmente, fez parte do
curso de formação para psicoterapeutas da Clínica Tavistok e, em 1960, foi incorporada ao plano de estudos da Sociedade
Britânica de Psicanálise, assim como ao de várias outras sociedades vinculadas à IPA. Posteriormente foram surgindo aplicações
clínicas de tal método, baseadas no princípio de que o observador produza um setting favorecedor da interação mãe-bebê.
Produz-se assim uma certa aposta no sentido de estabelecer a psicanálise como uma ciência descritiva,
contrapondo-se, por um lado, a observação/descrição e, por outro, psicanálise/interpretação. Como se a
primeira possibilitasse uma abertura ao fenômeno e a segunda viesse a produzir uma espécie de fechamento
em um determinismo interpretativo da causalidade psíquica.

A questão que inevitavelmente surge é até que ponto uma observação enveredada pela via do “registro
detalhado”, como se indica, possibilitaria efetivamente uma abertura aos fenômenos ou implicaria uma
aposta na tentativa de capturar pela descrição do observável em mínimos detalhes o valor do acontecimento.

A observação poderia levar a supor que, se nas origens do sujeito encontramos o infans –aquele que
não fala-, necessariamente a pesquisa das origens implicaria um novo deslocamento: dessa vez da escuta para
o olhar, na qual a observação e, atualmente, com o avanço tecnológico, com as sucessivas revisões do
material filmado, se produziria uma psicanálise que giraria em torno de uma espécie de olhar a posteriori.

Evidentemente a questão não se reduz ao fato de que filmar seja bom ou ruim em si mesmo- pode
inclusive ser valioso em termos de estudo e de registro de evolução clínica-; o fato é que, quando se trata de
intervir com a constituição do sujeito, de produzir ali uma intervenção capaz de mudar a sua relação com o
outro e, portanto, seu sintoma, de nada nos servem pilhas de filmes se isso que é dado a ver no corpo do bebê
(e capturado na película) não é lido em rede com os significantes que sustentam a existência desse bebê e se
tal leitura não opera ali em transferência com os pais e com o bebê.

Isso aponta o quanto o método psicanalítico não corresponde nem ao princípio da lógica bi-unívoca
nem ao da lógica descritiva para apreensão de seu fenômeno. Talvez se encaixe melhor em uma concepção
da complexidade.

Esta é uma questão dura da clínica com bebês, a saber: como se tece, na operação clínica, a
significação e como se operam os deslizamentos de sentido daquilo que o bebê dá a ver em seu corpo e que
os pais dão a ver no exercício de seus cuidados.

Outra via possível para considerar qual o estatuto do dado a ver na clínica com bebês: a de que o dado
a ver, assim como o dado a ouvir, ou seja, o gesto ou a entoação da voz, são tomados na cena clínica
enquanto produções que só podem ser lidas, só cobram alguma significação possível, se consideradas na rede
de saber própria do humano, a linguagem. Mais ainda: no recorte que a língua produz ao tecer linguagem e
cultura e, mais ainda, no recorte singular produzido na língua pela transmissão parental. É desde esta rede
que se sustenta a produção do bebê e que esta adquire alguma significação possível para a mãe na medida em
que ela produz uma tradução de ação por linguagem e de linguagem por ação da produção desse bebê que
opera sob o fundo de um enigma intraduzível que diz respeito ao desejo que perpassa o laço dos pais com o
bebê.

Os bebês estão aí para recordar aos psicanalistas que a dimensão significante não se reduz apenas à
palavra falada – como certas vertentes da clínica psicanalítica parecem sublinhar, diminuindo a importância
do visto no gesto, na postura e no tônus corporal ou do ouvido na entoação, esquecendo que as mesmas são
também produções pelas quais o sujeito comparece no ato da enunciação.

É por isso que a interpretação nada opera se reduzida a jogos de palavras que em nada perpassam a
organização pulsional do paciente. A letra que se precipita no sintoma implica, em sua condição de litoral
(Lacan, 1971) por um lado o sentido a que se tem acesso pelo jogo significante e, por outro, o sem sentido do
gozo, mas é nessa borda entre gozo e saber que interessa à intervenção do clínico.

E é também por isso que o dado a ver no corpo não tem como estar em uma espécie de dimensão pré-
lingüística– afinal de onde é que os pais interpretam a produção do bebê, senão desde a rede simbólica, desde
o saber que se faz possível pela linguagem?
Indo nessa direção, talvez seja lícito considerar se, por esta dita observação, procurar-se-ia introduzir
no campo da intervenção com bebês um correlato da “atenção flutuante” própria da escuta de adultos.

Teríamos assim na clínica com bebês a importância não de uma observação no sentido fenomênico-
positivista, mas do estabelecimento de um tempo de ver diante da manifestação corporal do bebê. Ali o
clínico, de modo correlato ao da escuta analítica, produziria uma abertura em que se dá lugar ao
comparecimento do sujeito.

Sem irmos muito mais longe, nos parece que é algo desta ordem que Freud faz em relação ao menino
de um ano e meio, seu neto, que brinca com o carretel. É por tomar tal produção em rede com o discurso
parental e com o modo em que o mesmo se coloca em ato nos cuidados dirigidos ao bebê que Freud lê o jogo
do Fort-da como uma produção constituinte para esse menino e para o sujeito na infância.

Por sua vez, Winnicott (1941) fala-nos de como, por mais de vinte anos, ele observou os diferentes
modos de bebês (com 5 a 13 meses de idade) se portarem diante de uma situação por ele proposta durante a
consulta pediátrica de rotina: a de deixar à mesa uma espátula ao alcance da mão do bebê enquanto o bebê
6
permanece, junto à mesa, no colo, sobre os joelhos da mãe. Ele nos mostra como a produção dos bebês
diante de uma manobra de tal simplicidade pode propiciar (usando suas palavras) "uma série de chaves" a
respeito da situação psíquica dos mesmos, podendo também ser utilizada para produzir efeitos terapêuticos.

É fundamental esclarecer que Winnicott não se detém na manobra. Ele toma o que o bebê dá ali a ver e
o coloca a operar clinicamente em relação a uma complexa rede:

-Do lado da mãe aponta-nos a importância de considerar não só o que ela diz sobre o bebê, mas a
reação dela durante a manobra, no sentido de dar tempo e lugar à produção do bebê ou no sentido de suprimi-
la (tanto pela via do incentivo de que o bebê pegue a espátula quanto da proibição) considerando que tal
modo de proceder da mãe diante de uma situação tão recortada guarda profunda similitude com o modo de
esta proceder com o bebê em seus cuidados cotidianos.

- Do lado do bebê ele propõe um cruzamento entre o modo deste comparecer em tal cena com o modo
de ele comumente portar-se não só em relação aos objetos, mas no estabelecimento de laços com os outros –
familiares e estranhos.

- Levanta ainda a importância de considerar a produção do bebê diante de tal manobra em relação aos
sintomas por este apresentados – sintomas de comparecimento somático, tais como asma, diarréia ou
dificuldades de deglutição, vômito ou refluxo.

É interessante como, partilhando ou não da metapsicologia por ele proposta, é inegável que ele traz os
diferentes elementos implicados na operação clínica que realizamos com bebês: a saber o que consideramos
como uma operação de leitura na clínica.

Certamente o olhar e o dado a ver estão profundamente implicados na clínica com bebês. No entanto,
consideramos que a intervenção clínica, muito mais que levar-nos ao campo do registro da observação,
implica uma operação de leitura.

6 Vale destacar aqui a utilização do termo “observar” no caso do Pequeno Hans, justamente um caso de uma criança, em
comparação ao termo “escutar” utilizado nos escritos técnicos em que Freud faz referência fundamentalmente à análise de
adultos.

Winnicott, Donald (1941). La observación de niños em uma situación fija, Escritos de pediatria y psicoanálisis, Barcelona,
edictorial Laia.
Em que consiste tal operação de leitura? E de que modo o olhar do clínico fica ali implicado?

Para ler é preciso sim ver a letra, mas também é preciso deixá-la cair. Se a letra fascina, se o
espetáculo por ela apresentado captura o olhar daquele que a observa, então torna-se impossível ler.

Exemplo disso são as iluminuras utilizadas no início dos textos medievais. Elas consistem em letras
tão excessivamente ornamentadas que se tornam ilegíveis. Esse era mesmo o intuito de tais imagens, o de
capturar o olhar produzindo um silêncio no leitor antes de iniciar a leitura. A figura do bicho, da planta ou
personagem fantástico, ao imaginarizar a letra, captura o olhar e silencia o leitor. Esse é o objetivo das
iluminuras no texto medieval, o de produzir um silêncio que precede a leitura do texto. Mas também é algo
desta fascinação com a letra imaginarizada que, como aponta Bergès (1991) caracteriza a dificuldade de
leitura, pois quanto mais uma letra está do lado do imaginário, menos legível ela é.

Ora, é porque a letra cai em seu registro imaginário – é porque não contém nela mesma a imagem do
que ela significa- que ela remete a outra e assim permite que opere o enigma simbólico que dá lugar à
articulação de uma significação que não se encerra no letra por letra, mas se produz como um après-coup
decantado do deslizamento do texto em seu contexto.

De modo análogo podemos considerar que o sintoma manifesto no bebê, o dado a ver que comparece
tomando sua produção e seu corpo, pode levar não só a uma observação mas dar lugar a uma operação de
leitura na clínica. Para dar lugar a tal leitura é preciso que o manifesto seja tomado, antes de mais nada, como
um enigma.

Nesse sentido vale a pena considerar o que implica a noção de manifesto no corpo próprio da primeira
infância:

Por um lado implica que o sintoma se coloca em posição privilegiada para ser visto. Ao tomar o corpo
e a produção, o sintoma torna-se impossível de ser oculto ou dissimulado – isto é próprio do manifesto,
enquanto adjetivo.

Mas se considerarmos que manifesto, enquanto substantivo, refere-se a uma declaração escrita -
declaração, por exemplo, diplomática, dirigida de um Estado a outro- seríamos levados a considerar o quanto
o corpo do bebê, que encarna um sintoma, apresenta-se ele mesmo como uma carta, como uma declaração.

O que declara o bebê com o sintoma que se apresenta em seu corpo?

Temos aí um manifesto sim, mas declarado de modo cifrado.

O sintoma comparece sim, é dado a ver, mas de modo enigmático.

Este paciente que não fala, se não tolera bem os métodos da associação livre é porque ainda carece do
alinhavo simbólico que permite tecer o trabalho do sonho e reconstituir seu percurso no trabalho de análise,
mas certamente o sintoma que comparece em seu corpo é uma resposta que se tece em um contexto, o
contexto é aqui dado pela rede simbólica na qual está sustentado.

Assim, na clínica com bebês, torna-se central o cruzamento do dado a ver no corpo e produção do bebê
com a escuta do discurso parental e o modo como o mesmo se coloca em ato nos cuidados do bebê, dando
lugar a uma operação não só de escuta, mas de leitura na clínica.

Intervir com a primeira infância deixa evidente a não correspondência entre corpo e sujeito, dado que é
da boca de outros que teremos que escutar muitos dos significantes centrais desse sujeito; é em rede com a
sustentação de braços alheios que precisaremos ler o armado postural e tônico do bebê; é em rede com a
entoação de voz de sua mãe que precisaremos ler sua possibilidade de modulação emotiva; é em relação à
sustentação temporo-espacial feita pelo Outro encarnado do bebê (pela surpresa e antecipação diante de sua
produção por parte daqueles que o cuidam) que precisaremos ler a possibilidade do bebê de produzir ou inibir
sua ação. É do discurso posto em ato nos cuidados que lhe são dirigidos que se organizam as suas funções
corporais.

Pois afinal o bebê é estrangeiro (na medida em que causa estranhamento aos pais com seus sintomas e
produções) mas é profundamente familiar, dado que é da rede significante parental que se recortam
inconscientemente para o bebê os traços a partir dos quais o bebê estabelece sua filiação. Este recorte está
longe de ser uma questão menor e coloca a necessidade de que, ao operar tal leitura, deixemos aberta a
brecha entre o bebê fantasmático do discurso parental e o bebê que ali comparece com sua produção –sujeito
em constituição-, já que nem sempre há entre um e outro uma relação de saturação, dado que o bebê, ainda
que seja com o seu corpo, produz uma resposta na qual se engaja como sujeito, caso contrário seria uma mera
vítima passiva do desejo parental.

A operação de leitura clínica implica, nesse sentido, mais do que um fechamento de compreensão e
saber, uma possibilidade para o bebê e para seus pais de deslizarem nas significações possibilitando um saber
fazer em lugar de ficarem capturados no fascínio e estranhamento que o sintoma como espetáculo dado a ver
produz.

Referências bibliográficas:

- Bergès, Jean (1991). A instância da letra na aprendizagem. In: Boletim da APPOA, n.6, Porto Alegre,
Associação Psicanalítica de Porto Alegre.
- Bick, Esther. (1964). Notes on infant observation in spycho-analitical training, I.J.P.A., XLV; em espanhol,
Notas sobre la observación de lactantes en la enseñanza del psicoanálisis, revista psicoanálisis, n. 24 (1) ,
Buenos Aires, 1967.
- Freud, Sigmund (1909). Análise de uma fobia em um menino de cinco anos, O.C.,vol.10, Rio de Janeiro,
Imago.
- ____________ (1932). Conferência 34, Novas conferências de introdução à psicanálise, O.C. Vol. 22, Rio
de Janeiro, Imago.
- Klein, Melanie. (1926). Princípios psicológicos del análisis infantil. In: El psicoanálisis de niños, vol.2 ,
O.C., Buenos Aires, Paidós.
- Jerusalinsky, Julieta (2002). Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com
bebês, Salvador, Ágalma, segunda edição.
- Lacan, Jacques (1971). Lituraterra, aula do seminário 18, inédito.
- Mélega, M.P. (2001). A contribuição de Esther Bick à clínica psicanalítica, in: Revista Psychê, ano V, n. 7,
São Paulo, Centro de estudos e pesquisa em psicanálise da Universidade São Marcos.
- Winnicott, Donald (1941). La observación de niños em uma situación fija, Escritos de pediatria y
psicoanálisis, Barcelona, edictorial Laia.
O pé esquerdo do academicismo 1
sobre bebês, psicanálise e Estimulação Precoce

Julieta Jerusalinsky

-“O quê? O senhor submeteu criancinhas à análise? Crianças com menos de seis anos? Isso
pode ser feito? E não é muito arriscado para as crianças?” 2 – É a questão pela qual Freud se
encontra interpelado. Realizamos, a partir deste suposto diálogo, um salto no tempo:
De 1926 passamos ano 2000. Estamos,em lugar de um suposto vagão de trem, na cabine de
um avião 747. Depois de 4 horas em vôo lotado é praticamente inevitável a conversa com o
passageiro ao lado. Invariavelmente surge a pergunta pelo metier de cada um. A conversa, que se
mantém sem muito lugar a surpresas e flui por palavras como “clínica” ou “psicanálise”,
freqüentemente se detém diante da aparição do nome “Estimulação Precoce”. Em diferentes
circunstâncias, é suficiente dizer que se trata de trabalhar com bebês e pequenas crianças que
apresentam problemas quanto ao seu desenvolvimento.
No entanto, esta resposta costuma remeter o interlocutor mais interessado a outras
perguntas: “Mas os bebês... têm problemas? Quero dizer... desculpe, não me entenda mal, mas é
possível ter problemas tão cedo na vida? E afinal, há algo que um terapeuta possa fazer com um
bebê?”
Se quase 80 anos depois a interrogação situada por Freud geralmente não apresente tanta
virulência ao se tratar de crianças em idade escolar, ainda insiste quando diz respeito a bebês e
pequenas crianças. Por isso, talvez valha a pena deter-se a pensar na insistência dessas perguntas
que o leigo nos dirige.
Certamente, elas indicam que Estimulação Precoce, apesar de já contar com pelo menos 30
anos de intervenção em hospitais, clínicas, creches e berçários, ainda é uma disciplina que está
fazendo sua inscrição no Social.
Mas, para além dessa evidência, elas reproduzem na fala do leigo algumas das questões que,
mesmo quando silenciadas, estão presentes nos ambientes científicos e fazem resistência à detecção
e à intervenção precoce. Quantas vezes recebemos em tratamento crianças pequenas com sintomas
francamente instalados cuja orientação recebida pelos pais foi a de esperar para “ver se o tempo
resolvia”? Tal orientação é efeito de uma concepção na qual o desenvolvimento de uma criança é
tomado na ordem do espontâneo, sem perceber o enlace fundamental que este faz com o circuito de
demanda e desejo do Outro Primordial.
Antônio sofreu uma anoxia perinatal que os médicos avaliaram como de boa evolução. A
partir dos dois meses, a mãe começou a perceber certas condutas atípicas em seus movimentos
corporais e a temer que estivesse um pouco atrasado em relação à produção de outros bebês da
mesma idade. Comunicou sua desconfiança ao pediatra, que a qualificou como infundada, pura
“preocupação de mãe”. Com três meses e meio a preocupação da mãe é finalmente validada por
uma pediatra amiga da família que aconselha procurar um neurologista para esclarecimento
diagnóstico. Nos exames realizados (incluindo tomografia) não constam alterações que, no entanto,
são evidentes no exame clínico. A neurologista indica então tratamento fisioterapêutico.
O tratamento aparentemente estaria encaminhado. A mãe, no entanto, começa a apresentar
sintomas que apontam a uma possível depressão. Quatro meses e meio se passaram desde o parto. É
então que recebo Antônio e sua mãe
Antônio apresenta certa hipotonia de tronco e hipertonia de membros que dificultam seus
movimentos. Tem, no entanto, constituída a linha média no armado postural, dirige seus braços a
objetos de interesse, tem integração de esquemas cognitivos como olhar, pegar e chupar os objetos
que interessam, apresenta balbucio dirigido a outras pessoas e sorriso social 3. Demonstra, porém,
desgosto diante de qualquer mudança postural, como ficar de bruços.
A mãe se sente extremamente culpada pelo problema de Antônio. “Senti muita dor no
trabalho de parto, me ofereceram a anestesia (peridural) e aceitei. A dor passou mas não conseguia
mais fazer força, foi aí que o problema aconteceu (...) os exercícios indicados pela fisioterapeuta
tem que ser feitos com Antônio, mas eu não aguento... fico mal de ver ele chorando e vou logo
dando de mamar. Exercícios, natação... é muita coisa para um bebê.” Queixa-se da falta de
reconhecimento paterno em relação ao filho, situando a fala do pai -“É tanto desgosto por este
problema que não consigo desfrutar de bons momentos com Antônio”- e da conseqüente
dificuldade que encontra em sustentar “sozinha” certos aspectos que considera importantes na
educação do bebê: “Ele (o pai) me diz que eu faça como achar melhor. Eu acho que na idade dele
já seria bom que dormisse sozinho no berço, só que não consigo deixá-lo lá , fico com pena.”
Assim, o que era da ordem de um limite real no corpo (padrões tônicos alterados) se instalou
como sintoma psíquico (desprazer na mudança postural). Enquanto a mãe, ao realizar qualquer nova
oferta de sustentação postural ao seu filho o faz desde a concepção de que se trata de um
“exercício” do qual o prazer fica de fora, Antônio encarna em seu corpo tal representação materna
ao chorar diante da mudança postural.
O corpo de Antônio está num lugar de dor - a que a mãe não pôde suportar no parto e que
retorna encarnada no corpo do seu bebê. Diante disso a intervenção fisioterapêutica continua a ler o
corpo de Antônio pela via da técnica e, ainda que o fisioterapeuta em questão perceba que por
alguma “obscura razão” Antônio “não está evoluindo como seria de se esperar”, a orientação
recebida pela mãe é a de que “os exercícios devem ser repetidos diariamente e que aulas de
natação podem ajudar”. O efeito que encontramos é que o saber materno sobre o corpo do filho
fica cada vez mais acuado, ao ponto de só deixar o “dar de mamar” como possibilidade de articular
prazer.
Trata-se de um recorte clínico que lamentavelmente tem elementos que se repetem nas
histórias de diversos bebês e suas mães: em primeiro lugar, a falta de critérios claros que permitam
aos profissionais que normalmente intervém com bebês e crianças pequenas realizar detecção
precoce e, em segundo lugar, os riscos de efeitos iatrogênicos que uma intervenção precoce pode
surtir quando submete um bebê ao seu saber academicista.
Recentemente uma colega fisioterapeuta que trabalha com problemas do desenvolvimento
desde um atravessamento da psicanálise colocava em uma reunião clínica 4: “Quando conto aos
colegas de profissão como trabalho, eles me respondem: mas isto não é fisioterapia!”. O curioso é
que, ao relatar nosso trabalho com bebês e crianças pequenas na clínica dos problemas de
desenvolvimento, mais de uma vez escutamos: “mas isso não é psicanálise!”.
De fato, quando diferentes disciplinas instrumentais, ao intervirem com bebês e crianças
pequenas, restringem o foco de intervenção sobre o déficit funcional, o risco para a criança é o de
que se percam de vista as incrições simbólicas necessárias (que não podem jamais vir do anonimato
da técnica, e sim do desejo parental) para que uma função orgânica possa chegar a ser posta a
funcionar para a realização do desejo 5 (inicialmente sustentado pelo Outro primordial e, em um
segundo momento, pela pequena criança). Enquanto se repetem incessantemente num sem sentido
os movimentos reabilitadores dos diferentes membros afetados, o que se apaga da cena é a
atribuição desse corpo a um suposto sujeito (o bebê). Daí a importância de que, em lugar de
passivizar 6 o sujeito, sustentemos a sua enunciação e sua apropriação do corpo a partir do que
deseja fazer com ele, nem que apenas possa se manifestar, a princípio, desde um pé esquerdo.
Mas se esse é o risco que se apresenta ao intervir com bebês desde uma concepção puramente
instrumental/reeducativa, no que tange a intervir apenas desde a psicanálise com bebês que
apresentam problemas em seu desenvolvimento, não estamos menos pernetas. Também aí nos
vemos obrigados a um “atravessamento”. Nessa clínica não basta apostar na eficácia simbólica do
“levanta-te e anda”. Lançar mão de conhecimentos de diversas outras disciplinas que falem da
legalidade do desenvolvimento e das características de suas patologias se faz importante para que,
ao intervir, possamos armar a borda entre o alcance que uma lesão tem de orgânica e a limitação
que se impõe desde a representação psíquica em que é tomada 7.
É verdade que encontramos na historia da Estimulação Precoce a presença de diferentes cortes
epistemológicos, produzidos por mudanças nas concepções relativas à clínica –em relação à função
do terapeuta, ao modo de intervenção, à finalidade clínica, ao lugar do bebê e ao lugar dos pais no
tratamento. Muitas destas concepções existem hoje em dia sob o mesmo nome de “Estimulação
Precoce”. No entanto, se as simples questões “por que estímulo?” ou “por que precoce?” fossem
dirigidas a cada uma dessas diferentes modalidades de intervenção com bebês, suas respostas
seriam muito diversas entre si, como, de fato, o são suas intervenções clínicas. 8
Mas já que estamos no campo não só da Estimulação Precoce, mas da borda que esta faz com
a psicanálise, somos levados a nos interrogar: se não intervimos unicamente com a limitação
orgânica que uma patologia impõe, mas com a representação simbólica e apresentação imaginaria
que assume, ao trabalhar con bebês, estamos intervindo com a representação psíquica de quem?
Aí vem o ponto, esta clínica não é só uma clínica sem divã -a clínica com crianças já é, por
excelência, uma clínica sem divã-, mas, enquanto no brincar uma criança já tece ativamente suas
próprias versões das marcas que sofreu passivamente, na clínica com bebês aquele que tomamos
como paciente –o bebê– não está ainda de fato instaurado como sujeito.
Um bebê, diferentemente de uma criança, não está em posição de poder articular o futuro
anterior do brincar 9 pelo qual dá conta da desproporção em que se encontra por ser deparada
enquanto criança aos ideais parentais. Brincar é claramente um sintoma que implica a resposta de
um sujeito na infância.
Em bebês bastante pequenos (antes do estadio do espelho) encontramos que, incicialmente, o
que podemos ler em suas produções são sintomas que recaem sobre o seu corpo (no armado
psicomotor ou ritmos de sono-vigília, fome-saciedade, por exemplo) mas cuja representação se
sustenta desde o Outro Primordial, não tendo inicialmente o caráter de formações do seu próprio
aparelho psíquico. Poderíamos dizer que, quanto menor é a criança, menor é o “colchão
significante” mediador entre seu armado pulsional e o desejo parental. Poderíamos imaginar aí
como metáfora uma dobradiça: inicialmente o armado pulsional de um bebê fica radicalmente
pregado sobre a mestria do gozo materno e, à medida em que ele vai se constituindo, a dobradiça se
extende, abre suas duas folhas, ainda que permaneça em articulação. Por isso, os sintomas
apresentados por bebês se diferenciam dos das criancinhas (já um pouco maiores) cujos sintomas já
se configuram numa inversão da mensagem parental (presente em fenômenos como o negativismo,
por exemplo).
Quem escutamos então na clínica com bebês?
Muitas vezes se diz desta clínica que intervém na “relação mãe-bebê” ou na “escuta da dupla
mãe-bebê”. Ao ler isso uma e outra vez me pergunto: será que essa suposta “duplicação da escuta”
não seria uma tentativa de recobrir conceitualmente o buraco com o qual esta clínica nos depara ao
trabalhar com um sujeito que de fato ainda não está instaurado?
Porque intervimos no interstício entre o que do sujeito já está antecipado na estrutura e do que
nele ainda está se inscrevendo (podendo ser lido em suas produções) ou por se inscrever
(comparecendo na posta em ato do discurso parental com o bebê). E no tempo dessa escritura não
trabalhamos apenas com a função materna, pois, para que se constitua um sujeito, ainda que seja
preciso um tempo de alienação, também é preciso um tempo de separação. A função paterna está
extremamente implicada nesta clínica, certamente, em primeira instância, na sustentação que a lei
(como instância terceira) tem para uma mãe. Mas também a clínica nos ensina que não é indiferente
que haja um pai real que, para além das dificuldades presentes no bebê, o reconheça como digno de
portar seu nome (por isso tampouco se trata de intervir com uma dupla).
Bom, a esta altura podemos pensar que, quando um interlocutor nos interpela a respeito da
clínica em Estimulação Precoce dizendo “mas isso não é psicanálise”, não está de todo errado. É
verdade, poderíamos dizer que não é só psicanálise, mas certamente é psicanálise também, já que,
ao intervir no tempo das primeiras inscrições, apontamos a que se um bebê que ainda não é um
sujeito “de fato” possa - para advir como tal- ser inicialmente suposto como sujeito “de direito”.
Em recente visita do psicanalista Isidoro Vegh para uma discussão sobre a intervenção em ato
em psicanálise, tive a oportunidade de recordar um fragmento clínico:
Trata-se de uma menina 10 de aproximadamente três anos que vinha se constituindo na
psicose, apresentando fala e interação com os objetos extremamente empobrecidas e estereotipadas.
A mãe de Mariana, perto da data de seu nascimento, perdeu sua própria mãe e entrou em depressão.
Na saída de uma sessão, quando estamos à porta do consultório, a mãe diz à sua filha,
demandando-lhe que se despeça de mim:
-Diz tchau para ela, mãezinha! (“Mãezinha” era o apelido íntimo pelo qual essa mãe chamava
Mariana, o que evidentemente aponta que esta menina padece justamente da não elaboração do luto
materno em relação à perda de sua própria mãe).
Mariana olha para a mãe, me olha e finalmente abana para a mãe.
-Tchau para mim não, para ela! - a mãe retruca.
-Mas quem é a mãe aqui?- pontuo, tomando como ato interpretativo, e não como engano, a
resposta da menina.
Ao que a mãe se surpreende e diz: -É, sou eu.
Como vemos, não se trata de intervir nem com a pequena criança, nem com os pais, nem com
a dupla mãe-criança, nem com a tríade criança-mãe-pai. Ao que apontamos é a inscrever o sujeito
que está se constituindo em seu justo lugar.

1
O presente artigo foi também publicado no Correio da APPOA -Associação Psicanalítica de Porto Alegre-
“Psicanálise, outros lugares para uma escuta”, número 83, setembro de 2000.
2
Freud, Sigmund (1926), “A questão da análise leiga”, Obras Completas , pág. 244 , vol. XX, Edição Standard ,
Editora Imago.
3
Indicador descrito por Spitz.
4
Trata-se de uma discussão realizada em equipe interdisciplinar no CEPAGIA, Brasília.
5
Ver a este respeito Bergès, Jean (1988) “Função estruturante do prazer”, Escritos da Criança, número 2, Porto Alegre;
Clínica Interdisciplinar Dra. Lydia Coriat.
6
Opomos aqui a passividade própria da infância que logo se articula em um movimento pulsional que consiste em, por
exemplo, “fazer-se olhar”, “fazer-se escutar”, “fazer-se pegar”, para uma situação na qual é simplesmente tocado,
olhado, movido por outro que não abre a brecha para que o bebê possa devir como sujeito de desejo.
7
Ver a este respeito Bergès, Jean (1988) “Lesão real e lesão fantasmática”, Escritos da Criança, número 2, Porto
Alegre; Clínica Interdisciplinar Dra. Lydia Coriat.
8
Quando se provém da psicanálise, “estímulo” e “precoce” geralmente não resultam palavras muito confortáveis para
nomear a intervenção com bebês. Mas é justamente por não resultarem confortáveis que elas nos põe a trabalhar para
dar conta do modo em que se inscrevem em nossa clínica. Esta temática é abordada no texto A temporalidade na clínica
de bebês (1999) Tese defendida no FEPI, Buenos Aires, Argentina.
9
A este respeito, ver:
Bergés, Jean (1997). A criança e a Psicanálise, Porto Alegre; Artes Médicas.
Jerusalisnky, Alfredo (1988). Psicoanalisis en problemas del desarrollo infantil, Buenos Aires: Nueva Visión.
10
Por mim atendida junto à equipe de Estimulação Precoce do Hospital Durand de Buenos Aires, Argentina.
Quando o que se antecipa é o fracasso...
Prevenção secundária e Estimulação Precoce 1
Julieta Jerusalinsky 2

Bom vamos ver o que conseguimos fazer para quebrar o torpor que toma conta da gente depois do
almoço e procurar tornar este início da tarde algo estimulante.
Não estou tomando a palavra estimulante aqui no sentido de puros estímulos sensitivos: não estou
com nenhum chapéu colorido, tampouco lhes oferecendo nenhum espetáculo de luzes e som,
simplesmente apostando que algo da fala, da lógica na qual se organiza o que venho oferecer-lhes, possa
incitar o desejo de vocês nesta interlocução sobre a intervenção com bebês.
Temos aí um ponto de partida para uma longa discussão acerca das diferentes vertentes em que a
palavra estímulo pode ser tomada na intervenção com bebês. Já que não podemos negligenciar que, há
aproximadamente trinta anos, tal campo tem sido denominado em diferentes países como Estimulação
Precoce - ainda que ao longo desses também tenham surgido outros nomes como Educação Precoce ou
Intervenção Precoce. É interessante notar que, enquanto em relação ao termo Precoce (ou Temprano em
espanhol) pareça existir um tácito acordo, que não dura muito quando interrogado em seus fundamentos,
a palavra Estimulação aparentemente é causa de um maior desconforto.
Por isso, se bem a palavra estímulo possa significar um puro golpe perceptivo recebido de forma
anônima desde o meio, este não é seu único significado, no dicionário também podemos encontrar outro
que lamentavelmente costuma ser esquecido em muitas das intervenções realizadas com bebês: estímulo
pode também denotar que algo é estimulante, que incita e que desperta o desejo.
É justamente esta segunda significação que interessa quando a intervenção em Estimulação
Precoce aponta a que, para além de que suas diferentes funções orgânicas funcionem, o bebê possa chegar
a se constituir como um sujeito que, em nome de um desejo, utilize os diferentes esquemas psicomotores,
cognitivos, ou de comunicação como efetivas aquisições. É por isso que falamos de uma clínica em
Estimulação Precoce atravessada pela psicanálise.
Depois desta breves considerações acerca do “estímulo” na clínica, vamos passar ao ponto que
aqui nos convoca, relativo à interface que o “precoce” faz com a prevenção.
Quotidianamente recebemos como clínicos, em instituições particulares ou em serviços públicos,
bebês que chegam até nos com danos orgânicos estabelecidos.
Mas se já partimos de um problema orgânico presente no bebê, em que estatuto situamos o
trabalho preventivo?
Encontramos que as patologias orgânicas que acometem um bebê- sejam elas de ordem genética,
lesional ou de má-formação congênita, comparecendo baixo o modo de deficiências físicas, sensoriais ou
mentais, específicas ou múltiplas- surtem efeitos que vão além do dano orgânico que comportam:

1
O presente artigo relaciona-se à apresentação realizada no Segundo Encontro Nacional Sobre o Bebê (Recife, setembro de
2000). Tal apresentação teve o título “É possível prevenir ou só resta remediar?” e constitui um capítulo da tese “A
temporalidade na Clínica de Bebês”, defendida em 1999 na FEPI- Fundación para el estudio de los problemas de la infancia-
Buenos Aires, Argentina. No entanto, neste artigo, escolhemos priorizar os aspectos de prevenção secundária o que, para
aprofundar o tema, nos obriga a um recorte da apresentação original.
2
Psicanalista; Especialista em Estimulação Precoce pela FEPI, Buenos Aires; Membro da APPOA e do Percurso Psicanalítico
de Brasília.
Diante de uma patologia orgânica no recém nascido, rapidamente prolifera a produção de
diferentes respostas – nem sempre produzidas pelos pais mas, algumas vezes, prontamente interpostas por
médicos ou terapeutas - que procuram recobrir a irrupção do real que ela produz.
Se a incidência de um dano orgânico no bebê é da ordem do inexorável, do que não pode ser
modificado, por outro lado sabemos que uma mesma patologia pode assumir diferentes representações
psíquicas inconscientes que se revelarão como mais propiciadoras ou mais limitantes para o seu
desenvolvimento e constituição como sujeito.
É na medida em que diante do orgânico se tece alguma tentativa de inscrevê-lo que se produz com
o mesmo um sintoma psíquico. Ou para dizê-lo em outras palavras: um sujeito não pode padecer do que
não tem registro. Mas ao tratar-se de um bebê, já que ele mesmo por sua condição de infans encontra-se
sujeitado à tela simbólica do Outro Primordial, é do enlace com este Outro Primordial que irá
inicialmente provir a inscrição de sua patologia.
É inquestionável que um bebê com uma lesão, com uma síndrome ou uma má formação conta
com menos vias ou tropeça em mais limitações reais. Mas que tais limitações reais adquiram ou não o
estatuto de um obstáculo no estabelecimento do laço com o Outro primordial é um aspecto fundamental a
trabalhar no campo da prevenção secundária. Pois se o que é da ordem do orgânico já está decidido em
um recém nascido com um problema orgânico de base, o mesmo não pode ser dito em relação ao seu
corpo.
“o corpo é antes de mais nada um receptáculo, um lugar de inscrição, uma trama implacavelmente
destinada a imprimir-se com os cenários, as cores de outro...” 3.
Não podemos negligenciar que diante de certas patologias, como a surdez ou deficiência mental
que podemos tomar como exemplo entre tantas outras, o orgânico faz comparecer uma menor
permeabilidade na recepção das marcas que provém do Outro Primordial. Mas a clínica nos mostra que
tanto mais graves são para nossos pequenos pacientes os efeitos imaginários de uma patologia, quando o
que dele se diz é “como não sabemos se ouve - ou como não sabemos se pode entender o que dizemos-
falamos pouco com ele”. Então, é porque o que era da ordem de uma limitação orgânica passou a operar
como obstáculo no estabelecimento do laço entre o bebê e o Outro Primordial.
Diante de um mesmo problema orgânico de base podem vir a se produzir diferentes sintomas.
Estes se produzem como efeito do encontro entre o que a patologia do recém nascido comporta de real e a
sobredeterminação da estrutura simbólica que opera no estabelecimento do laço desde o qual os pais
tomam inconscientemente o bebê.
Se por um lado há uma limitação presente no organismo do recém nascido; e por outro a
sobredeterminação simbólica da estrutura parental na qual o bebê é recebido; há ainda um terceiro aspecto
a considerar quanto às conseqüências que os diagnósticos e intervenções podem ter num tempo tão
precoce em que o laço pais-bebê ainda está sendo estabelecido e, por isso mesmo, se caracteriza por ser
extremamente suscetível às atribuições e diferentes dizeres de médicos e clínicos.
Neste sentido, detectamos, de modo bastante recorrente, a incidência de dois mecanismos que se
interpõe no estabelecimento do laço-pais bebê:

- O mecanismo das profecias auto-realizáveis


- A antecipação de insuficiência no bebê

3
Jean Bergès (1985) Le corp et le regarde de L’Autre; Escritos da Criança, número 2, Porto Alegre, Brasil.
-Ao tratar-se de bebês com problemas orgânicos de base encontramos freqüentemente um
mecanismo semelhante ao ocorrido desde a economia. Desde a economia nomeia-se como profecias auto-
realizáveis os efeitos produzidos pelo rumor de que, por exemplo, um banco corre o risco de quebra
financeira. A partir do rumor, todos os correntistas subitamente retiram seus investimentos e com isso -
independentemente de que o rumor da quebra tenha sido a princípio verdadeiro ou não- seu efeito se
realiza, e a conseqüência é a falência bancaria.
Um mecanismo homólogo opera no laço de diversos pais com seus bebês: pois as diferentes
realizações que lemos como desenvolvimento - de ordem psicomotora, de aquisição da fala, de hábitos da
vida diária ou de aprendizagem- não acontecem espontaneamente. Se produzem como efeito do enlace do
do orgânico do recém nascido à ordem que vigora no circuito de demanda e desejo do Outro Primordial.
Se produzem, então, como efeito de um investimento.
Ocorre que a presença de uma patologia e as fantasias que esta engendra tem efeito na matriz
fundamental desde a qual fica estabelecido inconscientemente o investimento no qual o bebê é tomado.
Percebemos isto claramente a partir de recortes clinicos: por exemplo, no caso de um menininho, o
“mamama” que ele produzia em seu balbucio não era sancionado como “mamãe” porque os pais tinham
entendido, a partir do diagnóstico, que seu filho jamais iria falar. Ou no caso de uma pequena paciente
três anos ao qual não é oferecido o penico porque dela não se espera –e, portanto, não se demanda- o
controle esfincteriano.
O que se imaginariza do futuro, o que se espera de uma criança, é posto em jogo em cada uma das
demandas que lhe são supostas e que lhe são dirigidas. Por isso, as mesmas podem ser silenciadas quando
se supõe que o bebê é incapaz de produzi-as ou a elas responder. E assim, tal incapacidade pode acabar
cumprindo-se no bebê –mesmo que não haja nada da patologia orgânica que assim o determine - por
efeito das expectativas engendrados desde imaginário parental.
Os comunicados de diagnósticos precoces comportam algo de inevitavelmente traumático, porém
efeitos bastante mais devastadores geralmente ocorrem quando, diante da angústia que tal comunicado
desperta, os médicos ou agentes de saúde tentam recobrir a irrupção do real provocada pelo diagnóstico
com suas próprias versões imaginarias sobre o futuro de um bebê.
Se o estabelecimento do real é um passo necessário na direção da cura, é fundamental para os
efeitos de filiação de um recém nascido que os pais, para além das informações que precisam receber,
possam por em movimento as suas próprias significações e ressignificações acerca do que temem e do
que os preocupa em relação à patologia e à incidência da mesma no futuro solhado para seu filho.
Daí a importância que na clínica da Estimulação Precoce ocorra uma escuta do discurso parental,
escuta que esteja atenta e intervenha em relação aos investimentos e expectativas que operam em relação
ao bebê.
No entanto, importantes efeitos desta clínica se produzem não só pela escuta do discurso parental,
mas também pela intervenção que, em presença dos pais, se dirige ao bebê supondo-o como capaz de
certa realização. É então que, pela transferência que os pais em nós depositam, intervimos em ato ao
deslocar a posição que o bebê tem na cena. Assim operamos quando supomos o balbucio como fala, o
sorriso como endereçado a alguém entre os presentes ou quando ofertamos uma nova postura que os pais
não consideram possível ainda que, como clínicos, possamos ler desde as produções do bebê que ele tem
as condições funcionais de realiza-la 4.
Com bastante freqüência escutamos os pais dizerem diante da tais cenas “é a primeira vez que ele
faz isso!”. O que ali importa não é tanto que seja ou não de fato a primeira vez que ocorre determinada
4
Para poder ler estas produções se tornam imprescindíveis nesta clínica conhecimentos vindos da neurologia,
psicomotricidade, lingüística, entre outros.
produção. O importante é que esta fala traz o testemunho dos pais que, ao ficarem surpresos com a
realização do bebê que se oferece ao seus olhares, faz operar neles por “primeira vez” o reconhecimento
fálico de seu filho.
Por isso a clínica em Estimulação Precoce permanentemente nos demostra o quanto o acesso a uma
determinada produção instrumental por parte do bebê, quando esta é reconhecida desde o discurso
parental, pode ser propiciadora da instauração da suposição de um sujeito.

- Outro dos mecanismos que freqüentemente se interpõe no laço pais-bebê em presença de uma
patologia orgânica de base é a de suposição de insuficiência.
Em grande parte dos casos de crianças que apresentam problemas orgânicos de base encontramos
sobreagregado um sintoma de passivização psíquica. Pois na medida em que uma bebê é antecipadamente
suposto como incapaz, nos cuidados que lhe são dirigidos isto comparece em uma supressão da passagem
dos tempos pulsionais entre o fazer na criança (em que a criança é falada, movida, ou seja, está tomada
desde uma passividade) e o dar lugar para ela fazer (no qual se abre lugar para sua atividade).
Diante da expectativa que recai sobre o bebê de que ele não teria condições de aceder as diferentes
aquisições uma das respostas formuladas é a de procurar suplantar a suposta insuficiência desde a
“estimulação a mais” que o saber técnico viria oferecer. Diferentes intervenções instrumentais acabam
por ficar tomadas neste mecanismo sintomático que condena o bebê à passividade, ao fazerem-no objeto
da técnica que nele se aplica.
Quando as manifestações sintomáticas se fazem presentes em vários aspectos do desenvolvimento,
os bebês são levados do fisioterapeuta ao T.O, do T.O à fono, da Fono ao Psicólogo e assim por diante.
Recolhemos os efeitos iatrogênicos da intervenção multidisciplinar que ao propor intervir sobre cada um
dos déficit funcionais, acaba por lançar o bebê à fragmentação anônima das funções.
Em um tempo de intervenção tão precoce em que, o pequeno paciente ainda não tem o Eu
constituído é preciso que, desde a clínica, estejamos atentos a não interpor possíveis obstáculos no
estabelecimento de um olhar que, desde o Outro Primordial, possibilite ao bebê reconhecer-se desde um
corpo unarizado. Neste sentido, é que se propõe a intervenção de um único terapeuta no marco da
Estimulação Precoce. No entanto, também sabemos que certas problemas que se apresentam no
desenvolvimento fazem necessários os conhecimentos de diversas disciplinas. Daí é que a intervenção de
um terapeuta único em Estimulação Precoce só possa ocorrer no marco de uma equipe interdisciplinar,
desde o qual, os conhecimentos das diferentes disciplinas são convocados, mas articulados em torno de
um eixo clínico fundamental: a constituição do sujeito.

Assim sendo, consideramos que os efeitos de prevenção secundária no marco da Intervenção


Precoce não consistem na tentativa de procurar suplantar antecipadamente as diversas funções que se
pressupõem como fracassadas em um bebê.
Operamos sim com os efeitos de antecipação de um sujeito, pois supor um sujeito no bebê é
condição para que ele possa advir como tal, para que possa vir a imaginariamente “ter” um corpo e
utilizar as diferentes aquisições instrumentais em nome de um desejo. É isto que irremediavelmente se
perde quando, a cada movimento clínico, o que se antecipa do bebê é um fracasso.
Título: Inscrições constituintes do psiquismo no laço mãe-bebê

Title:

Resumo: o artigo aborda que a inscrição da letra, enquanto inscrição constituinte do


psiquismo, depende da economia de gozo que opera no laço mãe-bebê sendo, para tanto,
imprescindível o transitivismo. Considera que o gozo materno não se reduz nem a uma
dimensão fálica, nem a uma dimensão masoquista, mas que, por meio de um gozo Outro,
tal laço pode dar lugar, a partir da letra, a uma criação.

Abstract:

Palavras-chave: letra, gozo, mãe-bebê, psicanálise.

Keywords:

Autor: Julieta Jerusalinsky

Referências do autor: psicanalista, mestre e doutoranda em psicologia clínica pela PUC-


SP, pesquisadora vinculada ao Laboratório de Psicopatologia Fundamental; membro da
Associação Psicanalítica de Porto Alegre e do Centro Lydia Coriat; professora de pós-
graduação na COGEAE-PUC-SP.

Dados:
Endereço: Rua Caiubi 600, Perdizes, São Paulo –SP
CEP: 05010-000
Tel: 3864-0350.
Email: julietajerusalinsky@gmail.com
Inscrições constituintes do psiquismo no laço mãe-bebê 1

Julieta Jerusalinsky
Manoel Berlinck

A relação mãe-bebê não está garantida por condições naturais, depende do


estabelecimento de um laço simbólico. Como situa Freud, tal laço pode vir a se produzir
para uma mulher a partir da equação pênis-falo-bebê. 2 No entanto, no presente trabalho,
consideramos que o gozo fálico situado por tal equação está longe de esgotar o que é
relativo ao gozo presente na maternidade.
Apresentamos a tese de que a maternidade implica, além de um gozo fálico, um gozo
Outro, e que esse gozo Outro da mãe é decisivo no tempo das primeiras inscrições
constituintes do psiquismo do bebê.
Consideramos que a inscrição da letra – conceito utilizado por Jacques Lacan para
situar as inscrições psíquicas – depende da implicação materna na economia de gozo do
bebê. Sua transmissão não ocorre pela via direta de um código, mas por uma sucessão de
efeitos enigmáticos no laço com a mãe, enquanto Outro encarnado, diante dos quais o
sujeito precisará advir, no litoral entre gozo e saber, corpo e linguagem.
De partida é preciso apontar que as interrogações que deram origem a este trabalho
foram despertadas pela práxis clínica com bebês, crianças pequenas e suas mães. Também
pela clínica psicanalítica com crianças acometidas por graves patologias, que as exilam da
condição de falantes, e cuja direção da cura exige trilhar clinicamente as inscrições
constituintes do psiquismo, apesar de não serem mais bebês.
Ou seja, independentemente da idade em que ocorra uma intervenção, sempre, na
clínica, apostamos no comparecimento do sujeito do desejo. Mas não é indiferente, nos
modos de conduzir o tratamento, intervir no tempo dos primórdios da constituição
psíquica.
Freud afirma que, ao longo de toda a vida, nosso aparelho psíquico está sujeito a
inscrições e reinscrições, mas aponta bons motivos para acreditar que não há período em
que a capacidade de receber e reproduzir impressões seja maior do que precisamente
durante os anos da infância. 3 Portanto, temporalidade e inscrições psíquicas são temas
profundamente articulados quando se trata dos primórdios do psiquismo.
Na pesquisa de mestrado "A temporalidade na clínica com bebês", 4 consideramos a
relação entre temporalidade e estrutura psíquica na intervenção com a primeira infância.
Por sua vez, o presente trabalho centra-se no tema das inscrições nos primórdios do
psiquismo, e, portanto, em como a produção de tais inscrições é sustentada no laço mãe-
bebê e, quando necessário, na intervenção clínica.
Por isso, no início, esta pesquisa de doutorado se intitulava: "Da inscrição da letra à
condição de falante", interrogando justamente essa passagem das inscrições constituintes
do psiquismo à possibilidade de que, a partir de tais inscrições, possa advir um falasser. 5

1
Este artigo foi elaborado a partir de texto apresentado na defesa da tese A criação da criança – letra e gozo
nos primórdios do psiquismo, defendida em junho de 2009 na PUC-SP, junto ao Laboratório de
Psicopatologia Fundamental sob orientação do Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck
2
Sigmund Freud (1924). A dissolução do complexo de Édipo, p. 223.
3
Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a sexualidade, p. 179.
4
Defendida em 2003 na PUC-SP sob orientação do Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck.
5
Neologismo cunhado por Jacques Lacan, como certa derivação do conceito de sujeito do inconsciente, mas
que vem tirar todo e qualquer caráter de uma identidade a esse sujeito, apontando que, em definitivo, o
inconsciente, seu comparecimento, não seria nada mais do que alguém que fala. O falasser é um animal
Que isto ocorra depende inicialmente do modo em que tais inscrições são postas a
operar no laço mãe-bebê, no modo em que a mãe fala do, com e pelo bebê, e
principalmente como coloca em ato, no exercício de seus cuidados, a letra de forma
articulada a certas operações constituintes do sujeito – são elas: estabelecimento da
demanda, suposição do sujeito, alternância e alteridade. 6 Por meio dessas operações a letra
é posta a circular em uma articulação, em uma função significante.
O meio como a letra é posta em jogo, como é transmitida, no laço mãe-bebê é
decisivo para que, em um segundo momento, este bebê possa vir a tomar a palavra, possa
produzir, de modo singular, alinhavando tais inscrições com o fio do desejo, já que, como
afirma Freud, é o fio do desejo que une passado, presente e futuro. 7
Se isto foi o inicialmente proposto, ao longo da pesquisa a tese foi tomando sua
forma. Passaram a ser centrais as concepções de que:
1) A letra (enquanto inscrição psíquica) só produz seu efeito de inscrição na medida
em que diz respeito a um gozo no laço mãe-bebê.
2) A concepção de que é decisivo para o exercício da maternidade, assim como
para a constituição psíquica do bebê, que, a partir desse gozo e dessa letra, haja lugar para
uma criação no laço mãe-bebê.
Daí o título que acaba finalmente por nomear esta tese: "A criação da criança –
letra e gozo nos primórdios do psiquismo".
Tal título deixa em relevo uma dimensão equívoca: por um lado a criança seria
objeto de uma criação e, por outro, sujeito que cria. É esta mesma dimensão equívoca que
está comportada nos jogos constituintes do sujeito, jogos que são precursores do Fort-Da,
jogos que são sustentados no laço mãe-bebê e nos quais mãe e bebê permanentemente
transitam nas posições de criador e criatura.
A mãe propõe um jogo ao bebê, por exemplo, cosquinhas. Uma vez que o bebê se
oferece a esse jogo, rindo com ele, ou seja, uma vez que o bebê engajou aí o seu gozo, a
mãe passa a atribuir ao bebê o saber, a autoria sobre esse jogo. Ele é quem "quer brincar,
ele é quem sabe" afirma a mãe. Assim ela sustenta para o bebê a inscrição de um litoral
entre gozo e saber.
Propomos, então, considerar de modo mais detido a inscrição da letra e a economia
de gozo no laço mãe bebê:

Sobre a letra enquanto inscrição psíquica

É preciso deixar em relevo que o conceito de letra é trazido à psicanálise por Lacan
para situar as inscrições psíquicas e sua relação com a linguagem. Pois, se bem Freud tenha
proposto diferentes metáforas escriturais do aparelho psíquico - tais como a de sonho
enquanto rebus ou hieróglifo ou da interpretação enquanto decifração 8 -, é Lacan quem
propõe que o inconsciente é estruturado como uma linguagem.
Isto faz necessário situar com clareza o que entendemos por letra, para que não se
tenha a ideia de que o inconsciente seria uma espécie de "escritura sagrada", comportando
um sentido já decidido, que o analista, como bom-entendedor, viria desvendar. Ou a ideia
de que, a partir do laço com a mãe, já se inscreveria no bebê um código positivado - pois

habitado pelo gozo parasitário da linguagem, gozo fálico e que, desde então, se experimenta de modo
disjunto do seu corpo.
6
Julieta Jerusalinsky. Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês, p.
248-252
7
Sigmund Freud (1907/8). O escritor criativo e o devaneio, p. 153.
8
Por exemplo, em A interpretação dos sonhos.
sabemos que é preciso uma série de operações psíquicas que comportam o enigma do
desejo que institui o laço mãe bebê 9 (ou seja, uma sucessão de inscrições e rasuras) para
que a criança advenha como falante e para que possa chegar a escrever. E, portanto, a
relação entre letra enquanto inscrição psíquica e enquanto ato de produzir um escrito não é
imediata.
Ocorre que, em relação a essas inscrições, em relação à letra em instância no
inconsciente, o sujeito precisará se produzir. Para tanto não basta um sonho, um ato falho,
um sintoma, que comparece como uma letra caída da série. É preciso que o sujeito se
implique ao procurar produzir a partir dessa letra caída da série um alinhavo significante.
Temos aí o trabalho de uma análise e é por meio desse trabalho que deslizamentos de
sentido podem advir a partir do non-sense que as formações do inconsciente colocam em
cena.
Assim, em um momento inicial da pesquisa, aparecia a correlação da letra
(enquanto inscrição psíquica) com o significante, enquanto produção que testemunha o
comparecimento de um sujeito no ato da enunciação. Mas, ao longo da pesquisa, foi
ganhando peso a concepção da letra enquanto uma moeda de duas caras: uma que se volta
ao significante (à articulação simbólica) e outra que se volta ao gozo. Mais do que isso, a
concepção da letra enquanto o que inscreve o litoral entre gozo e saber; corpo e linguagem:
duas susbstâncias de diferentes ordens e que, no entanto, são indissociáveis (pensemos na
metáfora de um litoral, que, diferentemente da fronteira, não é uma linha fixa, ela
permanentemente é retraçada). 10
A concepção da letra enquanto litoral entre gozo e saber não é única nem definitiva
na obra de Lacan, mas ela permite considerar esta relação entre corpo e linguagem decisiva
para os primórdios da constituição. Ela permite formalizar o que Freud já advertira em sua
clínica: que a linguagem organiza a economia de gozo e que o gozo comparece
subvertendo a língua no ato da enunciação. Por isso, diante da doença que afetava o corpo,
Freud propôs intervir com palavras, estabelecendo nexos simbólicos entre certas inscrições
recalcadas. Ali a interpretação é uma decifração – decifração não como revelação de um
sentido oculto estabelecido, mas decifração como o que permite fazer a cifra, a letra,
operar. O trabalho de análise pode produzir uma reinscrição que, por meio de um
realinhavo significante, reorganize o gozo. Mas isso não equivale a dizer que caiba
qualquer jogo de palavras. A interpretação não consiste em uma livre errância da
significação, está em jogo a associação (livre) do paciente, ou seja, o que importa é o que
tange a sua economia de gozo. Por isso o que interessa à clínica do psicanalista é menos a
linguística do que a linguisteria. 11
Situamos a letra enquanto inscrição no inconsciente estruturado como uma
linguagem; seu comparecimento como letra caída da série nas formações do inconsciente;
e ainda o trabalho de análise como uma transliteração que opera nos diferentes registros da
letra: por um lado em sua articulação significante, e por outro na faceta de real, de gozo
que ela arrasta.
No entanto, como bem dizia Freud, o método da associação livre é insuficiente para
as crianças. A clínica nos primórdios do psiquismo faz comparecer aí suas peculiaridades,
dado que se trata de infans ou seja, daquele que (ainda) não fala.
Nessa clínica intervimos a partir do dado a ver no corpo do bebê. Diante da
insuficiência de suas inscrições, diante de sua insuficiência para circular na linguagem, é
com o seu corpo que o bebê responde ao Outro encarnado e é desde o crivo simbólico do

9
Alfredo Jerusalinsky (2008). Saber Falar.
10
Jacques Lacan (1971). Lituraterra, aula 7 do seminário 18. Che vuoi?, Porto Alegre, ano 1, n. 1, 1986, p.
17-32.
11
Jacques Lacan (1972-1973a). O seminário. Livro 20. Mais ainda, p. 25.
Outro, das séries sustentadas pela mãe e que pontuam espacial e temporalmente as funções
corporais do bebê que estas funções estabelecem um modo de funcionamento.
Encontramos aí a não correspondência entre corpo e sujeito que fica em relevo nos
primórdios da constituição psíquica. O aparelho psíquico da mãe funciona proteticamente
sustentando o funcionamento corporal do bebê – este funcionamento dá a ver o modo
como o bebê está se constituindo a partir desse laço.
Ao mesmo tempo é porque o bebê é considerado pela mãe como portador em seu
corpo de um enigma sobre o desejo materno que, o que ele dá a ver em sua produção
assume no laço com a mãe o caráter de uma formação do inconsciente.
Se diante do dado a ver no corpo do bebê irrompe permanentemente um
estranhamento ou, por outro lado, um sentido fixo, as operações constituintes do sujeito
não se produzem no exercício da função materna. Por isso o clínico intervém na
articulação entre o dado a ver no corpo e a atribuição de sujeito no bebê.
Ali o clínico opera não só pela escuta, mas por uma leitura na intervenção clínica.
O olhar do clínico é convocado diante do pathos 12 dado a ver no corpo do bebê, mas isso
não implica necessariamente recair em uma "observação de bebês". Para ler também se
usam os olhos, mas operando uma mudança de registro da letra.
Isto fica em relevo no recorte clínico em que Santiago, de menos de um ano, sofria
de convulsões de difícil controle e que eram antecedidas pelo gesto de levar a mão até o
olho, causando na mãe a afirmação: "olha ela ali!" Tratava-se de uma irrupção do real –
por um lado do real de seu quadro orgânico, da convulsão (olha ela ali!) -, por outro, de
uma repetição fantasmática, dado que essa mãe tinha uma irmã esquizofrênica (olha ela
ali!).
Na intervenção propõe-se um jogo de cadê-achou (“Cuco! Cadê Santiago?”, afirmo
quando ele realiza o gesto. “Aqui está!”, quando retorna da convulsão). Santiago engajou-
se nesse jogo e passou a voltar da convulsão procurando o olhar e, por vezes, passou
também a interromper o gesto de levar a mão ao olho, passando a sorrir diante do "aqui
está!" à sua espera.
Assim, isso que irrompia pôde ser tomado em uma série. Pôde se produzir, por
meio dessa leitura, um passagem. O levar a mão ao olho pôde também operar em outro
registro.

Sobre a inscrição da letra e a economia de gozo no laço mãe-bebê

Com bebês e com crianças que ainda não falam fica em relevo a importância, para
além do enunciado, de todos os shifters que acompanham o ato da enunciação: o olhar, o
gesto, a entoação que situam a criança como interlocutor, como destinatária e portadora de
uma mensagem enigmática. A fala do outro não conta só pela teia que atribui significações
no enunciado, mas pelo que, no ato da enunciação, convoca, inscrevendo continuidades e
descontinuidades que afetam o bebê em sua economia de gozo.
Por isso, na clínica com crianças que ainda não falam, comparece a importância do
cruzamento entre entoação e significante, ora sustentando uma série, ora marcando uma
descontinuidade: no "cadê-achou!", "aqui-lá!", "caiu-peguei", no "opa!", "opa lelê", "eta!",
"um, dois, três e já!" oferecidos à criança diante do que a afeta em seu fazer.
Quando nos perguntamos o que engancha a letra ao corpo, o que possibilita uma
passagem entre o gozo do vivo e uma estrutura linguageira, encontramos o quanto é central
que o significante do Outro encarnado se apresente fazendo corte e costura às funções

12
Manoel T. Berlinck. Psicopatologia Fundamental, p. 18-22.
corporais do bebê. Isto só é possível se o que se passa no corpo do bebê afeta a economia
de gozo da mãe. Por isso a mãe subverte a língua, produz uma alíngua,13 que torna "mais
morno o vazio das coisas" (como certa vez foi pixado na entrada de uma instituição
dedicada ao trabalho com crianças), ela faz com isso comparecer na língua um gozo que
convoca o bebê.
Para tanto é central o transitivismo, pelo qual a mãe se vê afetada pelo que afeta o
bebê, oferecendo-lhe no "ai" que ela pronuncia quando ele cai uma possibilidade de
representação do afeto pelo qual o bebê pode vir a apropriar-se dessa dor, fazendo-a sua.
Apropriando-se de seu corpo ele chora. Logo, a mãe o consola, se separa.
Consideramos que a mãe não faz isso de modo abnegado, mas porque extrai daí um
mais-de-gozar, 14 um ganho de gozo.
Diferentemente da tese proposta por Bergès e Balbo, 15 não consideramos que o
gozo do transitivismo seja essencialmente masoquista. Discordamos também das teses da
mater-dolorosa, tal como a de Helen Deutsch, 16 que calcam o gozo materno
necessariamente em um gozo masoquista.
Consideramos que o transitivismo opera por meio de uma identificação da mãe com
o gozo da passividade do bebê, por isso ela busca poupar-lhe o esforço que custa a
satisfação. Daí que a mãe cansada se detenha alguns instantes e se deleite em ver o bebê
dormindo em lugar de ir correndo para a cama devido ao seu próprio cansaço; ou que ceda
diante do pedido da criança de abocanhar seu último pedaço de sobremesa. "Desfruto duas
vezes mais ao vê-lo desfrutar disso" - esta afirmação, tão comum às mães, revela o mais-
de-gozar que obtêm por meio da identificação transitivista com o gozo da passividade do
bebê.
Assim, a implicação do gozo para a inscrição da letra nos levaram, ao longo da
pesquisa, a considerar a economia de gozo materno implicado no laço mãe-bebê.

O laço mãe-bebê precisa ser estabelecido. Tal relação mãe-bebê não está dada: ela
não é natural, não é dual e é profundamente assimétrica, já que mãe e bebê partem de
condições psíquicas extremamente diferentes no estabelecimento desse laço. Ele depende
de complexas operações psíquicas para se produzir. A maternidade não é nem da ordem do
que pode ser conhecido por erudição nem do que é sabido instintivamente, depende de um
saber-fazer ali com isso, de um saber inconsciente que é posto em exercício pela mãe nos
cuidados com o bebê.
Considerando as operações psíquicas que implicam que uma mãe acolha o recém-
nascido como bebê encontramos a equação simbólica pênis-falo-bebê situada por Freud.
Apesar de que haja uma diversificação nos modos sociais de acesso de uma mulher
ao gozo fálico, a maternidade, se bem não seja a única, pode ser uma delas. O laço mãe-
bebê é permeado por um gozo fálico, não restam dúvidas. Para confirmá-lo basta escutar
todas as oscilações entre a exaltação e a angústia diante desilusão fálica que tanto
permeiam as falas das mães nos primórdios dos cuidados de seu esperado bebê.
Mas resta interrogar se esta dimensão fálica esgota o que é relativo ao gozo que uma
mulher pode extrair da maternidade. 17 Nesta tese consideramos que não.

13
Termo forjado por Lacan nos seminários 19 e 20 para apontar a diferença em relação ao lugar que a
linguagem tem no estruturalismo e na psicanálise, sendo que ao psicanalista importa o ponto em que a língua
se encontra com o gozo.
14
Jacques Lacan (1969-1970). O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise, p. 75.
15
Como apontam Jean Bergès e Gabriel Balbo (1998). Jogos de posições da mãe e da criança.
16
Helene Deutsch (1929). O masoquismo “feminino” e sua relação com a frigidez, p. 12.
17
Jacques Lacan (1960a). Ideas directivas para un congreso sobre sexualidad femenina, p. 709.
Após Lacan tem sido corrente conceber que, diante da divisão em diferentes modos
de gozo próprios da posição feminina na sexuação, caberia à maternidade apenas o gozo
fálico, e ao exercício sexual de uma mulher com um parteneire um gozo Outro.
Nos permitimos discordar de tal concepção, pois consideramos que um gozo Outro
pode se apresentar também na maternidade e não simplesmente de modo contraposto a
esta. A identificação transitivista com o gozo da passividade do bebê permite à mãe extrair
um mais-de-gozar que não passa necessariamente pelo falicismo e que, no entanto, tem
uma dimensão estruturante para o bebê em sua constituição.
Neste percurso interrogamos a tríade passivo-feminino-masoquista em relação à
feminilidade e à maternidade, considerando que, se bem o masoquismo tantas vezes
apareça na clinica com mulheres e mães, isto seria mais um efeito do golpe da castração
que as faz insistir em uma fantasia de aviltamento do que necesariamente um ponto de
chegada de um gozo da feminilidade ou da maternidade. Se a feminilidade implica
confrontar-se com a falta radical de um significante no Outro que nomeie o que é ser
mulher, isto pode abrir lugar para uma criação.
Aí, em lugar do círculo infernal do gozo do Outro em que se busca uma
complementariedade diante da falta, abre-se lugar com um gozo Outro para criações
suplementares que, mesmo se servindo da função paterna, não se detém no complexo de
Édipo.
Isto não é sem consequências para o filho. Se a maternidade pode dar lugar a um
ato criativo para uma mulher, por sua vez, a criança tem aí uma brecha para vir a ser
criadora no brincar. Quanto menos ela estiver aprisionada nas fantasias do devorar e do ser
devorada próprias da montagem do gozo do Outro que busca uma complementaridade,
mais ela poderá ter lugar para um brincar que cria de modo suplementar.
Daí que a letra e o gozo nos primórdios do psiquismo possam dar lugar à criação da
criança.

Referências:

BERGÈS, J.; BALBO, G. (1998). Jogos de posições da mãe e da criança. Porto Alegre: CMC, 2002.
BERLINCK, M. T. Psicopatologia fundamental. 2. ed. São Paulo: Escuta, 2008.
DEUTSCH, H. (1929). O masoquismo “feminino” e sua relação com a frigidez. XI Congresso
Internacional Psicanalítico, Oxford. Boletim da APPOA, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p. 10-13, 1990.
FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos. In: Edição Standard Brasileira das Obras
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_______. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. 7, p. 123-152.
______. (1908). Escritores criativos e devaneio. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. 9, p. 147-158.
______. (1924). A dissolução do complexo de Édipo. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. 19, p. 215-224.
JERUSALINSKY, A. Saber falar. Petrópolis: Vozes, 2008.
JERUSALINSKY, J. Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com
bebês, Salvador: Ágalma, 2002a.
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1992.
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______. (1972). Seminário 19. ...Ou Pire, clase 5 “El saber del psicoanalista”, Edición electrónica
de texto establecido para circulación interna de la Escuela Freudiana de Buenos Aires.
______. (1972-1973a). O seminário. Livro 20. Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
JULIETA JERUSALINSKY (2009). A maternidade além do gozo fálico. Revista de
psicanálise Textura, Ano 8, n. 8, Publicação das Reuniões Psicanalíticas, São Paulo.

Título: A maternidade além do gozo fálico

Resumo: A relação mãe-bebê não é natural, depende do estabelecimento de um laço


simbólico e de uma economia de gozo que o permeia. Se bem nesta economia seja central
a equação simbólica pênis-falo-bebê, neste artigo consideramos que a relação mãe-bebê
não se limita necessariamente ao gozo fálico. A maternidade implica, além de um gozo
fálico, um gozo Outro, sendo que esse gozo Outro da mãe é decisivo no tempo das
primeiras inscrições constituintes do psiquismo do bebê. Situa-se a maternidade como uma
experiência que pode dar acesso a um gozo Outro, a uma criação suplementar, que, mesmo
se servindo da função paterna, não se detém no complexo de Édipo e nem em uma busca
da complementaridade.

Palavras-chave: gozo fálico, gozo Outro, maternidade, psicanálise.

Autor: Julieta Jerusalinsky

Referências do autor: psicanalista, mestre e doutora em psicologia clínica pela PUC-SP;


membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre APPOA e do Centro Lydia Coriat;
professora de pós-graduação na COGEAE-PUC-SP; autora do livro Enquanto o futuro não
vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês, Salvador, Ágalma, 2002. Email:
julietajerusalinsky@gmail.com

Endereço: Rua Caiubi 600, Perdizes, São Paulo –SP


CEP: 05010-000
Tel: 3864-0350.
A maternidade além do gozo fálico 1

Julieta Jerusalinsky∗

A relação mãe-bebê não está dada: ela não é natural, não é dual e é profundamente

assimétrica, já que mãe e bebê partem de condições psíquicas extremamente diferentes no

estabelecimento de um laço que depende de complexas operações psíquicas para se

produzir. Uma das operações psíquicas centrais para que uma mãe acolha o recém-nascido

como seu bebê é justamente a equação simbólica pênis-falo-bebê situada por Freud. 2

Cotidianamente testemunhamos na clínica desenlaces que oscilam da exaltação da

realização fálica na maternidade à angústia pela sua insuficiência. Nesta oscilação retorna a

equivalência pênis-falo-bebê. Seja pela via positiva (sim bebê fálico = sim pênis) ou

negativa (não bebê fálico = não pênis), coloca-se em cena a realização ou insuficiência do

falicismo materno. 3

Não há dúvida de que a maternidade articula um gozo fálico – pela equação pênis-

falo-bebê –, mas não compareceria nela também um gozo Outro, um gozo não-todo fálico?

Esta é a questão com a qual propomos trabalhar neste artigo. Fomos levados até ela

pelo trabalho clínico com bebês, crianças e seus pais, assim como pela escuta psicanalítica

de mulheres.

Consideramos que os cuidados maternos implicam um atrelamento ao gozo fálico da

mãe com o bebê, no entanto, não é sempre desde a medida fálica que uma mãe se refere ao

1
O presente artigo é elaborado a partir da tese de doutorado: A criação da criança – letra e gozo nos
primórdios do psiquismo, defendida na PUC-SP em junho de 2009, contando com a orientação do Prof. Dr.
Manoel Tosta Berlinck.

psicanalista, mestre e doutora em psicologia clínica pela PUC-SP; membro da Associação Psicanalítica de
Porto Alegre – APPOA - e do Centro Lydia Coriat; professora de pós-graduação na COGEAE-PUC-SP;
autora do livro Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês, Salvador,
Ágalma, 2002. e-mail: julietajerusalinsky@gmail.com
2
Sigmund Freud (1924b). A dissolução do complexo de Édipo, p. 223.
3
desdobramento em relação à maternidade elaborado a partir das proposições de Gerard Pommier (1985). A
exceção feminina, p. 21.
bebê ao dirigir-lhe seus cuidados, assim como não está sempre a demandar que o bebê lhe

dê mostras de realizações fálicas.

Indo além do cenário fálico pode ser elaborado outro caminho possível da

maternidade. Ele implica a incidência de um gozo Outro na maternidade e não só de modo

oposto ou disjunto a ela. Este caminho já não consiste mais em uma busca pela

complementaridade com o bebê, ele abre uma possibilidade de criação pela qual, diante da

falta, é possível criar de modo suplementar. Este é um desenlace possível, do lado materno,

ao situar a maternidade para além do gozo fálico. Tal é a questão que propomos percorrer.

Se o bebê que nasce é fruto real de um ato sexual, ele chega em um cenário

imaginário e em um contexto simbólico que é efeito da tramitação da sexualidade por parte

da mãe, de sua história libidinal, de sua resolução edípica. Portanto, não há

verdadeiramente agente da função materna sem referência ao nome-do-pai. Só assim o

filho é objeto de desejo e só assim, então, a mãe inscreve (escreve?) no corpo dele as

marcas do simbólico. 4

Assim, é central para a constituição do bebê a forma pela qual a resolução edípica de

uma mulher-mãe se atualiza no laço conjugal e na experiência de maternidade, colocando

em cena seu saldo subjetivo diante da função paterna. Sabemos também que está longe de

ser indiferente, para o laço mãe-bebê, o lugar ocupado pelo pai do bebê. Tem efeitos

contundentes o modo pelo qual o pai sustenta o laço com sua mulher e o restabelece a

partir do nascimento do filho, 5 assim como sua implicação direta nos cuidados dirigidos ao

bebê. Afinal, o exercício da função materna não prescinde da rede familiar e social para

dar lugar ao recém-nascido.

No entanto, a função paterna inscrita na mãe, sua fantasia inconsciente e sua resposta

sintomática diante da falta e da diferença sexual têm um papel decisivo no modo como o

4
Alfredo Jerusalinsky. Psicanálise do autismo, p. 32.
5
Por exemplo, identificando-se ao bebê ou rivalizando com este, considerando sua mulher, a partir de então,
apenas como mãe ou convocando-a novamente para o lugar de mulher.
bebê é recebido, alocado simbólica e imaginariamente. Consequentemente, o primeiro pai

que conta decisivamente na vida de um bebê é aquele inscrito, pela função paterna, na mãe.

Isto evidencia que a função paterna não se apóia em tradicionalismos sociais, operando em

uma grande diversidade de configurações familiares, na medida em que a posição

desejante da mãe já, de início, situa a relação mãe-bebê fora de uma mítica relação a dois.

Neste sentido, cabe considerar como a modificação da inserção social das mulheres

vem produzindo uma diversificação em seus modos de acesso à realização fálica, fazendo

da maternidade uma escolha possível entre tantas outras. Mas, a promessa "um dia poderás

ter um bebê" ainda comparece para a menina diante da diferença anatômica entre os sexos

e, posteriormente, pode ser retomada como um dos caminhos a percorrer – ainda que o

gozo fálico possa articular-se em relação a diferentes objetos apontados como causa do

desejo e possíveis ideais de realização.

Se em torno do bebê mantém-se a fantasia de que este venha a arrolhar a falta da

mãe, 6 de que seja resposta para uma falta, a clínica nos revela como a maternidade – ao

deslizar entre os termos da equação simbólica pênis-falo-bebê –, ainda que possa propiciar

uma articulação simbólica em torno de uma nova experiência, relança a interrogação do

que é ser uma mulher. E, sobretudo: o que é possível fazer, na maternidade, a partir da

questão incessante produzida por esse inominado?

Consideramos que maternidade e feminilidade não se situam necessariamente em

posições opostas, como se a primeira correspondesse apenas a um gozo fálico e como se

somente a segunda fosse tributária de um gozo Outro – como tantas vezes se esquematiza

de modo reducionista após o ensino de Lacan.

O gozo materno não estaria necessariamente resumido ao fálico. Movidos por esta

questão despertada pela clínica, fomos em busca de substratos teóricos que permitissem

6
Ver, a este respeito, Jacques Lacan (1972-1973a). O seminário. Livro 20. Mais ainda, p. 49.
avançar nesta proposição. Encontramos nada menos que a afirmação de Lacan de que é

preciso interrogar se a mediação fálica esgota tudo do pulsional que possa manifestar-se na

mulher e na maternidade ou se isso seria um ponto de desconhecimento e preconceito. 7

Freud situa três caminhos possíveis para uma menina diante da angústia de

castração: 8 um caminho seria o do abandono da atividade fálica, não só em sua vida

sexual, mas também em outros campos, levando a um extremo empobrecimento psíquico e

revulsão geral dos investimentos na sexualidade; o segundo seria o de aferrar-se à

masculinização como portadora do falo; o terceiro seria o da feminilidade através da

equação pênis-falo-bebê.

Se os caminhos possíveis para a menina eram três, quais serão as saídas da mãe?

Consideramos que os caminhos possíveis para uma mãe no laço com o bebê retomam os

três caminhos da menina, diante da castração, situados por Freud.

Para Freud, a maternidade implicaria uma possibilidade de realização fálica para as

mulheres e, por meio da articulação da equação pênis-falo-bebê diante da castração, uma

passagem para a condição feminina. Ele aponta a maternidade como um caminho de

resolução possível para a inveja do pênis 9 experimentada pela menina na fase fálica ao

afirmar que:

"(...) a renúncia ao pênis não é tolerada pela menina sem

alguma tentativa de compensação. Ela desliza – ao longo da linha

de uma equação simbólica, poder-se-ia dizer – do pênis para um


10
bebê".

Tal deslizamento coincidiria com uma passagem à feminilidade, na medida em que a

7
Jacques Lacan (1960a). Ideas directivas para un congreso sobre sexualidad femenina, p. 709.
8
Sigmund Freud (1931). Sexualidade feminina, p. 264.
9
Sigmund Freud (1925a). Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos, p. 313.
10
Sigmund Freud (1924b). A dissolução do complexo de Édipo, p. 223.
menina esperaria receber um bebê, enquanto falo, de um homem: o pai.

"O desejo que leva a menina a voltar-se para seu pai é, sem

dúvida, originalmente o desejo de possuir o pênis que a mãe lhe

recusou e que agora espera obter de seu pai. No entanto, a

situação feminina só se estabelece se o desejo do pênis for

substituído pelo desejo de um bebê, isto é, se um bebê assume o

lugar do pênis consoante com uma primitiva equivalência


11
simbólica."

Assim, Freud aponta que o desejo de um bebê, em lugar da inveja do pênis, abre

caminho para a feminilidade da menina. Trata-se de uma questão paradoxal, pois, ao

mesmo tempo em que "esperar um bebê de um homem detentor do falo" implicaria uma

retomada de um gozo obtido através da passividade, e, portanto, de um gozo

correlacionado à feminilidade, por outro lado, a maternidade, por meio da equação

simbólica pênis-falo-bebê, implicaria uma possível realização fálica para uma mulher.

Falamos de "uma possível realização fálica" porque o fato de que na atualidade haja

mulheres "com liberdade de amar e trabalhar retraça os caminhos da circulação fálica em


12
nossa cultura". É preciso considerar o quanto, nos últimos cem anos, tem ocorrido uma

diversificação nos modos sociais de acesso ao gozo fálico para uma mulher, sendo a

realização profissional ou independência financeira termos que não estavam na equação

freudiana e que se apresentam como equivalentes fálicos contundentes na fala de muitas

pacientes – muitas das quais, para além da realização fálica em outros âmbitos, mantém, na

vida conjugal, um erotismo no qual visitam um gozo feminino.

11
Sigmund Freud (1933). Feminilidade, conferência 33: Novas conferências introdutórias sobre psicanálise,
p. 157-158.
12
Maria Rita Kehl. A mínima diferença: masculino e feminino na cultura, p. 65.
Se bem Freud tenha advertido essa condição de divisão em diferentes modos de

gozo própria da feminilidade, - localizando como decorrentes dessa atitude dividida 13 uma

"bissexualidade" constituinte do psiquismo feminino 14, e uma necessidade de mudança de

zona erógena e de objeto de amor – é Lacan que quem apontará como, diante da castração,

uma mulher "mais se desdobra do que se unifica" 15 diante de diferentes modos de gozo.

Assim, se Freud, em seus tratamentos, mantinha certa ilusão na possibilidade de que uma

histérica se tornasse "toda mulher", Lacan, por sua vez sublinha como, para uma mulher, a

feminilidade corresponde a uma condição de não-toda 16 no gozo fálico, com visitas a um

gozo Outro.

A sexuação, como operação simbólica que inscreve a economia de gozo do lado

masculino ou feminino, se estabelece em relação a um único significante: o falo. Não há

um significante que estabeleça de modo positivado o que é ser mulher. Desse modo a

castração não faz só a menina experimentar-se frustrada pela falta do pênis, mas, acima de

tudo, privada de um significante que lhe aponte o que é ser mulher. 17

A feminilidade se coloca como exceção ao gozo fálico na medida em que circular

pelo feminino implica experimentar uma divisão perante diferentes modos de gozo: o gozo

fálico e, ainda, um gozo Outro. Desse modo, o significante fálico, mais do que um efeito

de castração, produz para uma mulher o efeito de uma divisão. Uma mulher é não-toda no

gozo fálico.

Se uma mulher está dividida perante diferentes modos de gozo, se ser mãe não

responde ao que é ser mulher, propomos também considerar que a maternidade não é só da

ordem do gozo fálico.

13
Sigmund Freud (1931). Sexualidade Feminina,p. 264.
14
Que pode ser lida, muito mais do que como uma questão orgânica, como essa divisão em diferentes modos
de gozo, tal como propõe Gerard Pommier (1985). A exceção feminina, p. 42.
15
Serge André (1986). O que quer uma mulher?, p. 222
16
Lacan (1972-1973). O seminário, livro 20, mais ainda.
17
Jacques Lacan (1969-1970). O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise, p. 146.
Esta é uma questão a considerar já que, depois de Lacan, tem sido corrente partir do

princípio de que, após a maternidade, uma mulher ficaria dividida entre um gozo fálico

atrelado à maternidade e um gozo Outro, próprio do feminino, que poderia ter lugar no

exercício sexual com um parteneire. É certo que a circulação pelo feminino implica uma

divisão de gozo; no entanto, não consideramos que a divisão psíquica entre gozo fálico e

gozo Outro corresponda, termo a termo, à divisão mãe/mulher. Situamos que a

maternidade implica, além do gozo fálico, um gozo Outro e que este gozo Outro tem

efeitos decisivos na constituição do bebê quanto à sua passagem do gozo do vivo à ordem

simbólica e, portanto, quanto à inscrição da letra, às inscrições constituintes do psiquismo.

O exercício da maternidade, pelo qual se articula o organismo vivo do bebê à ordem

simbólica, exige um artifício que opera tanto no sentido de uma mascarada quanto no de

oficiar uma arte, uma criação. Neste artifício está implicado o gozo Outro, próprio do

feminino, posto em cena na maternidade. Se cabe ao pai, enquanto função, a transmissão

do falo, a maternidade, além de uma transmissão, implica uma criação, uma transmutação,

uma invenção. Encontramos assim os efeitos constituintes para o bebê de um gozo Outro

materno.

Os cuidados maternos exigem da mãe uma identificação com o bebê. Como apontava

Winnicott, para além do falicismo, durante os primeiros tempos do cuidado do bebê, é

preciso que se estabeleça para a mãe uma situação desde a qual, em grande medida ela é o

bebê e o bebê é ela. 18

Por meio da identificação transitivista com o gozo da passividade do bebê, a mãe

extrai um mais-de-gozar que não passa necessariamente pelo falicismo e que, no entanto,

tem uma dimensão estruturante para o bebê em sua constituição. Por meio dessa

identificação transitivista com um gozo da passividade a mãe aloca o gozo do vivo do

18
Donald Winnicott (1987). Los bebés y sus madres, p. 23.
bebê, articulando-o a uma estrutura linguageira pela qual o bebê, em sua economia de

gozo, passa a não ter mais como prescindir do Outro encarnado. O organismo sofre os

efeitos de sua desnaturalização desde que a ordem simbólica implantada pela mãe passe a

regular sua economia. 19

É o bebê que experimenta uma dor e é a mãe que diz "ai", ela se vê afetada pelo que

afeta o bebê, oferecendo-lhe no "ai" que ela pronuncia quando ele cai uma possibilidade de

representação do afeto pelo qual o bebê pode vir a apropriar-se dessa dor, fazendo-a sua.

Apropriando-se de seu corpo ele chora. Logo, a mãe o consola, se separa.

Consideramos que a mãe não faz isso de modo abnegado, mas porque extrai daí um

mais-de-gozar, 20 um ganho de gozo. Portanto, diferentemente da tese proposta por Bergès

e Balbo, 21 não consideramos que o gozo do transitivismo seja essencialmente masoquista.

Discordamos também das teses da mater-dolorosa, tal como a de Helen Deutsch, 22 que

calcam o gozo materno necessariamente em um gozo masoquista.

Consideramos que o transitivismo opera por meio de uma identificação da mãe com

o gozo da passividade do bebê, por isso ela busca poupar-lhe o esforço que custa a

satisfação. Daí que a mãe cansada se detenha alguns instantes e se deleite em ver o bebê

dormindo em lugar de ir correndo para a cama devido ao seu próprio cansaço; ou que ceda

diante do pedido da criança de abocanhar seu último pedaço de sobremesa. "Desfruto duas

vezes mais ao vê-lo desfrutar disso" - esta afirmação, tão comum às mães, revela o mais-

de-gozar que obtêm por meio da identificação transitivista com o gozo da passividade do

bebê.

19
Ângela Vorcaro. Prefácio sobre o tempo, estímulo e estrutura, p. 15.
20
Jacques Lacan (1969-1970). O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise, p. 75.
21
Como apontam Jean Bergès e Gabriel Balbo (1998). Jogos de posições da mãe e da criança.
22
Helene Deutsch (1929). O masoquismo “feminino” e sua relação com a frigidez, p. 12.
"A mulher permite ao gozo ousar a máscara da repetição.
Ela aqui se apresenta como o que é, como instituição da
mascarada. Ela ensina seu pequeno a se exibir. Ela conduz ao
mais-de-gozar porque mergulha suas raízes, ela, a mulher, como a
flor, no gozo mesmo. Os meios do gozo são abertos pelo seguinte
princípio – que ele tenha renunciado ao gozo fechado e alheio, à
mãe." . 23

É preciso considerar até que ponto experimentar, na feminilidade, um gozo obtido

através de passividade não é o que lhe possibilita, enquanto mãe, agenciar o Gozo do Outro

para o bebê – e assim organizar seu Outro-erotismo – sem recair em uma posição

efetivamente perversa de apropriar-se do corpo do bebê. Em vez disso, atribui ao bebê um

gozo que ela busca preservar, evitando-lhe o esforço. Nessa atribuição, identifica-se com o

bebê em seu gozo com a passividade, ao mesmo tempo em que permite a ele gozar com a

suposta onipotência que ele produziria ao Outro (para ele encarnado pela mãe) ao se

oferecer como objeto que supostamente o completaria.

Por um lado, com tal máscara, investe falicamente o bebê – ensina-o a se exibir. Por

outro, ao ousar tal máscara (ousar vestir a máscara do Outro encarnado do bebê) ela

permite ao bebê vir a gozar de um Outro-erotismo. Ela o aliena, o refere ao Outro, o

conduz assim a um mais-de-gozar, sob a condição de que ele não fique alheio e fechado

nele mesmo como num autismo (ou seja, um autoerotismo não erótico). 24

Mas se ela o impele a entrar nesse gozo do Outro, se ela ousa fazer-se de Outro do

bebê, ela não toma o bebê rasamente como seu objeto. Ela supõe o bebê como sujeito,

atribuindo-lhe um gozo advindo da passividade que ela mesma, desde a feminilidade,

soube experimentar – mergulhando suas raízes, ela, a mulher, como a flor, no gozo

mesmo.

23
Lacan, Jacques (1969-1970). O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise, p. 73.
24
Pierre Fédida. Nome, figura e memória – a linguagem na situação psicanalítica, p. 104 e 158.
Se a mãe diz "ai" quando o bebê cai, ela também diz "humm!" quando lhe oferece a

comidinha, e ali ela não só dá o alimento, mas permite ao bebê identificar-se a um gozo

que, de masoquista, não tem nada.

Isto leva a interrogar a tríade passivo-feminino-masoquista em relação à

feminilidade e à maternidade, considerando que, se bem o masoquismo tantas vezes

apareça na clinica com mulheres e mães, isto seria mais um efeito do golpe da castração

que as faz insistir em uma fantasia de aviltamento do que necesariamente um ponto de

chegada de um gozo da feminilidade ou da maternidade. Assim, ainda que a posição

psíquica da mater-dololorosa seja tantas vezes encontrada na clínica, não necessariamente

é através do masoquismo que opera a recuperação de um gozo da mãe na relação com o

bebê.

Se a feminilidade implica confrontar-se com a falta radical de um significante no

Outro que nomeie o que é ser mulher, isto pode abrir lugar para uma criação: a criação da

criança. Tal expressão deixa em relevo uma dimensão equívoca: por um lado a criança

seria objeto de uma criação e, por outro, sujeito que cria. É esta mesma dimensão equívoca

que está comportada nos jogos constituintes do sujeito, jogos que são precursores do Fort-

Da, jogos que são sustentados no laço mãe-bebê e nos quais mãe e bebê permanentemente

transitam nas posições de criador e criatura.

A mãe propõe um jogo ao bebê e, quando ele se oferece a esse jogo, rindo com ele,

ou seja, uma vez que o bebê engajou aí o seu gozo, a mãe passa a atribuir ao bebê o saber,

a autoria sobre esse jogo. Ele é quem "quer brincar, ele é quem sabe" afirma a mãe. Assim

ela sustenta para o bebê a inscrição de um litoral entre gozo e saber, este trânsito

permanente entre criador-criatura, ativo-passivo, sujeito-objeto que se apresentam nos

jogos primordiais da mãe com o bebê.


Assim, se a feminilidade implica confrontar-se com a falta radical de um

significante no Outro que nomeie o que é ser mulher, isto pode abrir lugar para uma

criação. Aí, em lugar do círculo infernal do gozo do Outro em que se busca uma

complementariedade diante da falta, abre-se lugar com um gozo Outro 25 para criações

suplementares que, mesmo se servindo da função paterna, não se detém no complexo de

Édipo. Isto não é sem consequências para o filho. Se a maternidade pode dar lugar a um

ato criativo para uma mulher, por sua vez, a criança assim alocada na economia de gozo

materno tem aí uma brecha para vir a ser criadora no brincar. Quanto menos ela estiver

aprisionada nas fantasias do devorar e do ser devorada próprias da montagem do gozo do

Outro que busca uma complementaridade, mais ela poderá ter lugar para um brincar que

cria de modo suplementar.

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BERGÈS, Jean; BALBO, Gabriel. (1998). Jogos de posições da mãe e da criança. Porto Alegre:
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em Porto Alegre, Cooperativa Cultural Jacques Lacan, 1986-1987, inédito.

______. O fantasma masculino e o fantasma feminino. Transcrição do seminário apresentado em


Curitiba, Biblioteca Freudiana de Curitiba, 1990, inédito.

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FÉDIDA, Pierre. Nome, figura e memória – a linguagem na situação psicanalítica. São


Paulo: Escuta, 1992.

25
Alertamos aí para a diferença entre gozo do Outro em que o sujeito se faz objeto na busca de
complementar o Outro; e gozo Outro no qual, se bem se suporte a face do gozo do Outro, não se detém em tal
montagem, pois não busca uma complementaridade, pode abrir lugar a uma criação suplementar.
FREUD, Sigmund. (1924a). O problema econômico do masoquismo. In: Edição Standard
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JERUSALINSKY, Alfredo. Psicanálise do autismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.

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WINNICOTT, Donald. (1987). Los bebés y sus madres. Buenos Aires: Paidós, 1993.
Inclusão sem Laudo! Palmas para o MEC

o convidado Ricardo Lugon* e


Julieta Jerusalinsky*

No ano de 2014 o MEC fez uma nota técnica que muitos profissionais do campo
da infância e pais de crianças com problemas ainda desconhecem e que é de grande
valor para aqueles que se dedicam à inclusão de crianças na escola regular:
Trata-se da Nota Técnica 04/2014 do MEC/SECADI/DPEE que faz cair a exigência do
laudo médico para incluir uma criança com dificuldades na escola regular por
considerar corretamente que esse laudo restringe o direito universal de acesso à escola.
Isso traz uma possibilidade muito mais frutífera para a constituição da criança:
que os clínicos que tratam dela possam dialogar com os educadores a fim de considerar
estratégias que ajudem cada criança com dificuldades a estar na escola, considerando
sua sociabilização assim como adaptações curriculares necessárias a cada caso.
A grande diferença é que essa interlocução clínico-escolar pode acontecer sem
ter que partir de uma “denominação de doença” que muitas vezes tem o efeito de
discrimina a criança no próprio ato que seria para a sua inclusão! Não à toa circula na
educação o termo “criança laudada” para referir uma criança de inclusão o que revela a
contradição mesma desse mecanismo que finalmente é considerado obsoleto.
Diagnósticos fechados não se aplicam bem à infância que é por excelência um
momento de constituição que depende em grande parte da aposta dos outros que cuidam
da criança: pais, clínicos, educadores. Palmas para o MEC por colocar essa condição em
relevo!
Afinal essa não é uma discussão nova no campo da educação de crianças com
dificuldades. Recordamos a esse respeito a afirmação de Philippe Pinel, o fundador da
Psiquiatria, em 1800, sobre um adolescente que vagava como um selvagem pelos
bosques da região de Aveyron, na França conhecido como Victor:“Varios meses de
estadia [...] não deixaram perceber nenhum progresso sensível, nenhum sinal de
aperfeiçoamento e nenhum sinal que seja possível considerar presságios, nada parece
anunciar um futuro feliz”. Assim escreve Seu discípulo, Jean Marc-Gaspard Itard que
discorda do mestre e aposta que aquele jovem pode aprender.
É justamente desta atitude de discordância em torno do pessimismo de um
diagnóstico que nasce a Educação Especial. Esta história, muito bem retratada no
filme L´enfant sauvage, de François Truffaut (1970) mostra um trabalho levado a cabo
ao longo de cinco anos onde Itard constrói junto com Victor um percurso de
inventividade de métodos educativos.
O que se passa em 2016 quando se demanda que crianças e adolescentes com
deficiência portem um laudo médico com diagnóstico para que possam ser matriculadas
em uma escola regular? Precisamos aqui tecer algumas importantes considerações.
Inicialmente o conceito de deficiência sofreu transformações importantíssimas
desde a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência promulgado em 2007: não
se trata mais uma de falha no corpo, de um defeito, de uma falta ou lesão no órgão, no
tecido, na célula da pessoa. Deficiência passa a ser o resultado da interação de sujeitos
com as diversas barreiras, que absolutamente não se limitam à falta de rampas ou
elevadores. Atitudes podem se configurar como barreiras, às vezes gigantescas. A
presença ou ausência de um intérprete de Libras, por exemplo, pode definir o tamanho
da barreira que um adolescente surdo enfrentará ao ser atendido numa Unidade de
Saúde. A Convenção, e o Brasil é pleno signatário dela, também garante acesso à
escolarização em todos os níveis às pessoas com deficiência. Desta forma, e a Nota
Técnica 04/2014 do MEC/SECADI/DPEE é cristalina neste sentido, a exigência de um
laudo médico restringe o acesso a um direito universal garantido em Convenção
Internacional e portanto deve configurar-se tão somente como documento acessório.
O percurso de uma criança ou adolescente com deficiência em cada escola será
pensado a partir de um conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos
organizados institucional e continuamente, denominado Atendimento Educacional
Especializado (AEE). O seu eixo orientador é pedagógico e não clínico. Isto significa
que o marco fundante de sua construção deve ser o olhar sobre o processo singular de
aprendizagem daquela criança ou adolescente. Quaisquer saberes a priori - e os
diagnósticos nosológicos têm sido ostensivamente utilizados desta forma – sepultam
possibilidades itardianas, onde o saber-aprender produz-se nos encontros entre
ensinantes e aprendentes. Pedagógico, não clínico, porém não solitário. A mesma Nota
Técnica convoca os professores dos AEEs a articular-se com os profissionais da área da
saúde. Essa articulação deve transcender o envio de pareceres e laudos para apostar em
práticas interdisciplinares e intersetoriais que produzam redes em torno das crianças
com deficiências e seus cuidadores. Professores, psicólogos, médicos, fisioterapeutas e
todos os diferentes profissionais envolvidos no cuidado de cada criança ou adolescente
precisam dialogar e compartilhar leituras, dilemas e responsabilidades.
Os diagnósticos classificatórios, o “nome da doença”, têm lamentavelmente
ocupado um lugar absurdamente central no processo de escolarização de uma infinidade
de crianças e adolescentes. Não passam, entretanto, de meras redescrições em termos
técnicos mais ou menos rebuscados, sem qualquer valor explicativo ou preditivo sobre
como se dará a estruturação psíquica ou as possibilidades de aprendizagem de uma
criança. Quando o CID de um laudo substitui o nome de uma criança (“o meu aluno
autista”, como não raro ouvimos), corremos o grave risco de que a única forma de olhar
para ela se dê a partir de um spoiler de destinos, de premonições pinelianas desde as
quais se rouba o futuro porque, com um diagnóstico posto na condição de definir o ser
se inibe no presente da vida da criança qualquer esperança dos pais e dos professores de
aposta em sua constituição.
Precisamos investir em processos diagnósticos, narrativas abertas e em
permanente construção sobre – e com – os sujeitos aprendentes que se farão
progressivamente mais presentes nas escolas. A decisão do MEC em sua nota técnica é
mais uma passo nessa direção.

*Ricardo Lugon é
*Julieta Jerusalinsky é psicanalista, especialista em Estimulação Precoce, Mestre e
doutora em psicologia clínica
A era da palmatória química

A epidemia de diagnósticos de “transtorno de déficit de atenção e


hiperatividade” (tdah) que têm assolado a infância está atrelada a um vertiginoso
aumento da prescrição de metilfenidato – droga tarja preta - para crianças.
Segundo estudo da Anvisa (agência nacional de vigilância sanitária). O consumo
de metilfenidato (comercializado no Brasil com os nomes Ritalina e Concerta)
aumentou 75% entre crianças e adolescentes na faixa dos 6 aos 16 anos entre os anos de
2009 e 2011.
Curioso é observar que a venda dessa droga aumenta no segundo semestre
escolar e cai durante o período das férias escolares. Como aponta Eliane Brum em
artigo “O doping das crianças”, publicado na revista Época sobre estudo, “isso significa
que há uma relação direta entre a escola e o uso de uma droga tarja preta”, o que faz
essa substância ser conhecida como a “droga da obediência”.
Parece que estamos vivendo a era da palmatória química, em que a utilização de
psicofármacos para a infância em grande escala passa a ser uma prática socialmente
corrente.
Não é dos dias de hoje que a criança é ativa e inquieta, que seu corpo se agita
diante do que ainda não consegue representar pela palavra, ou que a sua curiosidade a
leva a distrair-se, derivando sua atenção em diferentes rumos.
Henry Wallon, importante neurologista e psiquiatra infantil, já apontava, no ano
de 1925, que a criança é essencialmente turbulenta. A hiperatividade está atrelada ao
seu processo de constituição e pode agravar-se quando há alguma angústia diante de
uma situação de vida à qual a criança não consegue fazer frente. Em recente trabalho de
doutorado sobre o tema, da colega Cristine Lacet, em cuja banca tive o prazer de
participar, ela nos recorda da frase desse estudioso “quem sou eu e quem eu fui para me
permitir julgar o excesso vital de uma criança? Que contas devo eu a uma sabedoria
culpada que me fez tornar adulto? Damos crédito para que a criança use e abuse de sua
vitalidade. Quem somos nós para normalizar assim nossas nostalgias infantis?”
É preciso considerar, que nem toda agitação ou desatenção é doença. como
afirmam os colegas Ilana Katz e Paulo Shiller em coluna tendências e debates da Folha
de São Paulo, em (9.7.2014).
O fato é que desde a década de 50 a utilização de psicofármacos para tratar de
doenças mentais tem sido cada vez mais frequente entre os adultos e, a partir da década
de 80, essa prática começou a estender-se para a infância. Sem dúvida há situações
extremas tais como delírios, alucinações, privação de sono, agressividade extrema, auto-
mutilações em que uma medicação torna-se necessária para criar as condições mínimas
de vida. No entanto sabe-se que a utilização de psicofármacos se não acompanhada de
tratamento tem uma eficácia mais do que questionável.
Há vinte e cinco anos atrás, quando comecei a clinicar, era praticamente
impensável que os pais solicitassem psicofármacos para os filhos. Era-lhes evidente a
necessidade de centrar o tratamento nas aquisições que a criança, em pleno processo de
formação, poderia fazer. No entanto, hoje em dia, é corrente que os pais interroguem se
“umas gotinhas ou comprimidinhos para acalmar e ajudar a concentrar não viriam
bem”.
Muitos pacientes recorrem à rede pública solicitando um psicofármaco como se,
de modo isolado, residisse nele a resolução do problema. Diante disso, psiquiatras
extremamente preocupados com a crescente demanda vêm-se na situação de esclarecer
à população sobre a complexidade dos quadros e tratamentos.
Ocorre que esses psicofármacos gozam junto à população da credibilidade de
certos procedimentos altamente comprovados – tais como utilização de vacinas ou
antibióticos capazes de eliminar ou evitar uma doença. No entanto, os mecanismos de
licenças e aprovação de psicofármacos nem sempre implicam procedimentos tão
rigorosos e criteriosos como os adotados em outros campos da medicina. Ao tratar-se de
patologias mentais é preciso considerar que as relações causa-efeito das “doenças” não
são tão lineares, pois estão atrelados a vários fatores (multifatorialidade) o que torna
complexo o seu tratamento, o seu diagnóstico e a especificidade de seus sintomas,
dificilmente “concertados” por uma única medicação.
Como afirma o psicanalista Alfredo Jerusalinsky, é impossível falar desse
assunto sem tocar a própria história das classificações psiquiátricas que “ao longo dos
últimos 30 anos têm transformado problemas em transtornos. Um problema é algo para
ser decifrado, interpretado, resolvido. Enquanto um transtorno é algo a ser eliminado,
suprimido”.
É preciso notar que, seguindo a lista de critérios a dotados para os diagnósticos
de transtornos da atualidade é praticamente impossível passar incólume por eles.
Qualquer dúvida vide a lista da Associación de CHADD mostra em sua página de
internet quais são as perguntas e indicadores mais frequentes para suspeitar desse
diagnóstico: “meu filho tem THDA? Qualquer pai pode se fazer esta pergunta. A
resposta a esta pergunta é: todas as crianças podem, eventualmente, ter uma atividade
excessiva. Sua atenção também pode, eventualmente, ser breve. No entanto, se seu filho
é mais ativo que outros de sua idade, então tem TDAH”. Este não é o único indicador
ou afirmação estarrecedora, há outros: “que a criança tenha esquecimentos frequentes,
perca seus pertences, seja desorganizado, seja inconstante em seus pensamentos, que
seu professor afirme sua dificuldade em permanecer sentado, que não consiga esperar
que suas perguntas sejam respondidas, que preste mais atenção ao redor que a si
mesmo, que manifeste agressividade, que apresente dificuldades acadêmicas na
aprendizagem da língua e da matemática”. Nessa página consta que, se a criança
apresenta estas características, seus pais estão autorizados a pensar que seu filho tem
TDAH e devem levá-lo para uma avaliação. Resta perguntar: quantas crianças saudáveis
passaria incólume por esses critérios?
Se a turbulência da criança traz problemas para os adultos que dela cuidam, se
sua atividade é hiper, excessiva, para os demais, fazer disso um transtorno, pressupondo
por trás dessa turbulência uma desordem orgânica a ser eliminada, implica outra lógica.
Os defensores do TDAH como um transtorno com entidade clínica específica e
de seu tratamento com drogas estimulantes asseguram que ele está associado a
“alterações no cérebro”. Mas tanto a Conferência de Desenvolvimento de Consenso dos
Institutos Nacionais de Saúde (NHI, EUA, 1998) quanto a Academia Americana de
Pediatria (2000) confirmam não haver bases biológicas conhecidas para o TDAH.
Se não está comprovado que algo falte ou sobre no cérebro de uma criança com
hiperatividade, o fato é que, a partir da introdução de um psicoestimulante como o
Metilfenidato, o cérebro passará a funcionar de forma diferente.
A utilização dessa droga, não é inócua, e menos ainda para uma criança em
formação. Sua longa e preocupante lista de efeitos colaterais vem despertando o alerta
dos especialistas. Sabe-se que há efeitos no apetite, efeitos cardiológicos, efeitos
relativos ao aumento de comportamentos obsessivos-compulsivos e à diminuição das
atividades de curiosidade, de exploração, de brincar e de sociabilização das crianças.
Como afirma a neurocientista Dina Alicia Jerusalinsky no artigo “Trata-se de caçar o
caçador?” publicado no Livro negro da psicopatologia contemporânea. (2011). São
Paulo. Via Lettera. A autora interroga a causalidade e tratamento dessa classificação
psicopatológica, recordando que quase sempre o tratamento começa quando se
desenvolvem conflitos com os adultos na escola ou em casa. Logo, sob efeito da
medicação, as crianças passam a sofrer de outros transtornos que até então não tinham,
passando a consumir novos psicofármacos para combater depressões, alucinações ou
desordens de bipolaridade. Diante disso a autora cita Peter Breggin (diretor do Center
for the Study of Psychiatry and Psychology – Bethesda, EUA, 2002) em sua fala diante
do Congresso dos EUA: “qualquer anormalidade cerebral nessas crianças é quase que
certamente causada por uma exposição prévia à medicação psiquiátrica” e “enquanto
obtemos um alivio transitório da culpa imaginando que a falta está no cérebro das
crianças, acabamos subestimando nossa capacidade para realizar as intervenções adultas
que realmente são requeridas”.
É nesse contexto que, a SMS-SP (Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo),
por meio da Portaria nº 986/2014, regulamentou, em 12 de junho de 2014, as condições
de prescrição e distribuição de metilfenidato na rede pública. Uma medida mais do que
acertada: um ato de responsabilidade social acerca do modo em que abordaremos, em
nossos tempos, as manifestações de saúde e de sofrimento das crianças.
Nota da ABRASME (Associação Brasileira de Saúde Mental) em apoio à
decisão da Prefeitura, afirma que, segundo recentes dados oficiais dos Estados Unidos,
aproximadamente 1/5 adolescentes no ensino médio recebeu o diagnóstico médico de
TDAH, e 11% das crianças no ensino fundamental receberam esse mesmo diagnóstico.
Dessas crianças e adolescentes diagnosticadas com TDAH, 2/3 receberam prescrições
de estimulantes como Ritalina. Esse mesmo fenômeno ocorre em diversas outras
sociedades. Na Inglaterra o número de drogas prescritas para o TDAH (metilfenidato,
incluindo a Ritalina) disparou para mais de 50% em seis anos.
O que acontece dentro das escolas que faz com que muitos professores estejam,
eles mesmos, medicalizados para tentar sustentar a difícil função de transmitir a
realização e também frustração que faz parte do processo de apreender? O que acontece
com os pais que, tomados pelo trabalho, delegam à escola certas funções estruturantes
no sentido de autorizar, mas também de cercear, o gozo das crianças? O que acontece
com uma infância confinada a casas de poucos metros quadrados e TVs de várias
polegadas, retiradas de um espaço público degradado e violento?
Se apenas médicos podem receitar medicação como a AMB (Associação Médica
Brasileira) coloca em nota de contestação à decisão da SMS da Prefeitura de SP,
publicada no Estadão, é, no entanto, central que a avaliação clínica seja feita por equipe
interdisciplinar que considere o sintoma que comparece na criança de modo não isolado,
tal como a SMS da Prefeitura de São Paulo propõe. É o mínimo que inicialmente
podemos fazer no sentido de perguntar-nos se tantos diagnósticos de hiperatividade são
de fato um problema isolado no cérebro das crianças de nossos tempos, ou se, diante da
dificuldade de educar, estamos recorrendo a uma palmatória química.
Por que as crianças fazem artes?
A necessidade de uma certa desobediência na infância

Esses dias recebi pela internet uma tirinha na qual o Calvin está absolutamente
“focado” na lição de casa, como gosta de se dizer hoje em dia. Os sucessivos convites
de seu tigre Haroldo para aprontar as maiores estripulias fantasiosas diante da
dificuldade da lição não surtem efeito. Calvin está tão concentrado em sua tarefa de casa
que chega a sair fumacinha do seu lápis, tamanha a “produtividade”(mais um valor de
nossos tempos). O último quadrinho não é mais colorido. Tudo fica cinza e o tigre
Haroldo não passa de um bichinho de pelúcia inanimado.
Ficamos invadidos de uma profunda tristeza. O que fizeram ao Calvin? Somos
logo advertidos de que essa é uma livre criação encima do personagem original não
assinada pelo autor. Mas a pergunta insiste. O que está se fazendo com a infância? Onde
estão os Calvins que outrora eram crianças consideradas vivazes e cheias de energia e
hoje em dia são tantas vezes considerados transgressores e opositores?
Se Calvin ficar assim, o que ele contará para seus filhos acerca de suas
experiências de infância: que ele fazia bem a lição? Que era o aluno e filho adequado
que todos esperavam?
Vivemos pedindo às crianças que parem quietas, que não sacolejem seus corpos
turbulentos, que ponham as coisas no lugar, que parem de fazer ruídos insistentes, de
repetir restinhos de músicas pegajosas, de parar de juntar tralhas e de deixar seus
brinquedos espalhados.
Mas que lembranças nós mesmos temos de nossas infâncias?
Etimologicamente o termo obedecere vem de ouvir, mas por mais que os pais
falem e falem parece que, por vezes, as crianças não ouvem e insistem em seus atos
fazendo ouvidos moucos às advertências.
As crianças aprontam, não são obedientes. Por mais que incomode, ao lermos
Calvin rimos, pois no fundo sabemos que uma certa desobediência é fundamental na
infância. Uma certa desobediência é até mesmo formadora de experiências que
constituem um saber, que permitem apreender com a vida e apreender a viver.
Como se apreende é uma questão amplamente discutida. Entre os autores há
aqueles que sublinhem o fato de que é por meio da experimentação que a criança chega
a formular conceitos simbólicos. Por isso não basta dizer para a criança ou fazê-la
repetir, é preciso que ela experimente para chegar a essa construção. Piaget é um autor
central dessa vertente e, por isso, as metodologias de ensino que partem de seus
princípios (tal como o construtivismo) apontam a necessidade de que a criança seja
ativa nesse processo.
Há autores que sublinham o fato de que a criança nasce em uma estrutura
simbólica já estabelecida dentro da qual é decisiva a transmissão que lhe é feita para que
chegue a produzir um saber. Para tanto é central que a criança seja considerada como
membro de uma família, de uma cultura, de uma sociedade e apostar em sua
possibilidade de compartilhar com os demais alguns dos traços fundamentais de
pertença a esses grupos. Desse modo a criança não precisa, por assim dizer, reinventar a
roda. Ela não precisa experimentar “de tudo”, pois também se apreende a representar o
real do mundo por oposição e analogia simbólicas. A psicanálise nos adverte dessa
importante questão.
Dessa interlocução interdisciplinar resulta que o saber não se produz de modo
isolado, mas na relação com os outros. Portanto para saber não basta uma simples
postura de obediência ou de autonomia, pois a criança realiza escolhas dentro do que lhe
é transmitido e diante do qual toma posição. Para tanto precisa também fazer algumas
experiências próprias que lhe permitam por à prova o alcance do que lhe é transmitido.
Ou seja, para produzir um saber é preciso que os outros falem com a criança e
apostem nela. Assim a criança passa a confiar nos outros e a contar com eles,
apreendendo com as experiências dos demais e, portanto, poupando-se de uma série de
percalços na vida. Mas também é preciso que a criança, em algum ponto, faça as suas
próprias investigações na medida em que percebe que os adultos sabem, mas que
ninguém sabe tudo.
Certa vez, quando criança, minha família alugou uma casa na praia na qual havia
um pé de pimenta dedo de moça. Meus pais chamaram a criançada no quintal e
advertiram: “Cuidado. Não lhes ocorra morder essa fruta. Ela é bonitinha, mas é tão
ardida que queima”.
Como assim algo que não é fogo queima? - Logo perguntei. A resposta foi
tautológica: arde porque queima e queima porque arde. Explicaram que assim era e
ponto. Tarde demais, eu já estava mordida pela curiosidade. Esse conceito dos adultos
para mim não fazia o menor sentido. Era preciso provar a veracidade daquele
enunciado, por à prova uma propriedade que até então era para mim intrínseca e
exclusiva do fogo.
Lá fui eu...
Não houve gelo, bochecho com água, copo de leite ou pasta de dente mentolada,
que me fizesse parar de lacrimejar, apesar das minhas insistentes tentativas, não só para
acalmar o mal-estar, mas principalmente para disfarçar a minha estripulia a fim de me
poupar de ouvir o sermão que certamente iria arder ainda mais no orgulho.
Minha mãe me perguntou se estava tudo bem: “tuuuudo”, disse eu de costas,
tentando disfarçar o gelo na boca. Ela, com um olho aberto e outro fechado para o meu
ato, teve a sabedoria de não proferir o insuportável enunciado adulto: EU TE
AVISEI!!!!
Uma certa desobediência na infância é central para por à prova o saber. Se uma
criança só apronta é porque não tem uma relação de confiança com os outros e precisa a
cada momento enfrentar o saber dos adultos para provar que eles não sabem de nada.
Isso é um problema. Mas uma criança que só obedece corre o risco de não poder ir um
palmo além do que lhe é ensinado, ficando inibida em sua inventividade. Fazer artes é
também permitir-se alguma ousadia, é ter a coragem de ir além com uma certa solidão
investigando por conta própria aquilo que não parece fazer sentido algum.
Tempo depois de receber o quadrinho do Calvin com título que alude à
medicalização da infância, recebi outra livre criação de um inconformado no qual o
tigre diz a Calvin: vamos amigo, ainda dá tempo! O quadrinho final volta a ficar
colorido. Calvin larga o lápis e ele e Haroldo se abraçam em direção ao quintal.
Depois dessa experiência posso dizer: pimenta queima e muito!!!! Mas às vezes
é preciso pecar, morder a fruta e correr o risco para tirar suas próprias conclusões.
Para onde vamos com o autismo?
Detecção versus patologização precoce

A proximidade do dia mundial de conscientização do autismo (em 2 de abril) exige


fazermos uma reflexão acerca dos caminhos que tomaremos socialmente diante de uma
epidemia diagnóstica que tem assolado a infância com números estarrecedores.
Isto porque, diante de tal epidemia, o princípio preventivo embasado na relação entre
causas únicas e soluções gerais, que tantas vezes é eficaz em problemas epidemiológicos de
saúde pública, (como a vacinação contra doenças infecto-contagiosas, ou a eliminação do
mosquito Aedes para evitar a dengue, para trazer alguns exemplos de domínio geral) torna-se
inoperante diante do autismo.
Tentar fazer o autismo encaixar em esquemas de relações unívocas causa-efeito é uma
tentação recorrente seja em organizações sociais, discursos pseudo-científicos, blogs ou mídias
– afinal a relação causa-efeito é um esquema conhecido e eficaz diante de muitas dificuldades
_ e, convenhamos, quem não gostaria de poder estabelecer soluções simples e gerais?
No entanto, procurar forjar causas únicas e soluções fáceis diante de questões
complexas como o autismo faz com que se caia em perigosos reducionismos que, seja pelo
viés organicista, seja pelo viés psicologizante, produzem consequências extremamente
danosas para as pessoas com autismos e seus familiares.
O diagnóstico do autismo e sua terapêutica exigem considerar a complexidade.
Complexo quer dizer aquilo que está tecido, que está em rede, e é na rede interdisciplinar que
é preciso tratar dessa questão, articulando os campos de saúde mental, deficiência, educação,
assistência social e judicial.
No autismo a causa não é única, mas uma combinatória de fatores; o seu quadro não
pode ser definido por um único indicador isolado, o que exige um olhar e uma escuta clínica
acurados; sua evolução pode apresentar variações muito significativas, o que torna
questionável os prognósticos; e, no que diz respeito à terapêutica, encontram-se
documentadas evoluções clínicas de grande sucesso ou de permanência em uma gravidade
nas mais diferentes abordagens.
Longa é a discussão científica sobre a etiologia (causa) do autismo. Os fatos científicos
encontrados até então apontam que, se bem no autismo possa haver fatores genéticos
implicados, a princípio, em 50% dos casos (como revela a pesquisa com metologia Big data, ou
seja, sobre o total dos nascimentos, realizada na Suécia entre 1982 e 2006 com 2.049.973, já
comentada por Marcelo Leite em coluna intitulada “a outra face do autismo). É certo que,
mesmo quando há fatores genéticos implicados, não se trata de uma patologia monocausal,
ou seja, não é causada por um único gene, depende de uma combinatória de vários deles.
No entanto, a questão é ainda mais complexa, pois se sabe também que todos
nascemos com um código genético estabelecido, porém, o modo como o mesmo irá se
manifestar depende dos chamados fatores epigenéticos, ou seja, das experiências de vida, que
incluem fatores ambientais. Estes fatores vão desde o ar que respiramos, a água que bebemos,
até um fator que em nada é desprezível para a constituição do bebê humano: a relação com os
outros.
A principal característica do ser humano é a de não nascer pronto desde o ponto de
vista orgânico. O cérebro depende de experiências para se formar e o código genético também
se manifesta em função dessas experiências.
Portanto é absolutamente ultrapassado e reducionista o conceito de que uma vez
autista, sempre autista. Diagnóstico não é destino – como tantas vezes pessoas desinformadas
acerca da complexidade da formação orgânica costumam afirmar. E por isso a intervenção
psicanalítica aposta em produzir experiências de vida constituintes e, desde a sua prática,
recolhe diversos exemplos de pequenas crianças que chegam com traços autísticos e deixam
de tê-los por efeito da intervenção.
Desde o ponto de vista psíquico tampouco nascemos estruturados e sim abertos a
inscrições. Estas inscrições dependem de certas operações constituintes do sujeito que podem
ser sustentadas com estilos de cuidados muito diferentes. Portanto também é absolutamente
reducionista e anacrônico o conceito de que o autismo seria uma resposta a uma mãe fria ou
pouco afetiva “uma mãe geladeira”- como tantas vezes pessoas desinformadas acerca da
concepção psicanalítica continuam a afirmar. A função materna pode ser exercida com estilos
muito diferentes e depende de uma rede familiar e social para poder operar. A sustentação da
função materna não ocorre de modo isolado ou individual e por isso é reducionista qualquer
visão de culpabilização da mãe. Os acontecimentos de vida, as contingências que cercam o
nascimento de uma criança tem um fator determinante no estabelecimento da relação mãe-
bebê, com o qual, o que está em jogo no estabelecimento dessa relação não pode jamais ser
avaliado como fruto restrito de uma competência inata da mãe ou do bebê.
Quanto aos números assoladores que fazem do autismo uma epidemia na atualidade
cabe interrogarmos do que ela é fruto:
Sem dúvida a mudança de critérios diagnósticos adotados atualmente pela corrente
psiquiátrica do DSM, amplamente difundida, do qual foram apagados diagnósticos diferenciais
fundamentais, tais como o de psicose infantil, tem nisso o seu papel. Esse apagamento não é
sem consequências, pois torna o autismo um rejunte de quadros clínicos muito diferentes
entre si (que vão desde quadros extremos em que a criança está exilada da condição de
falante e que exclui ativamente os outros de seus circuitos de satisfação, até situações em que
a criança é uma falante que se dirige aos demais, mas tem dificuldades no estabelecimento de
metáforas e diferenciação entre fantasia e realidade). Isso cria um obscurecimento diagnóstico
e, portanto, dos procedimentos clínicos a adotar que são muito diferentes em um e em outro
caso.
Ao mesmo tempo cabe interrogarmos o que esta epidemia diz do modo em que na
atualidade estamos sustentando coletivamente o cuidado dos bebês e das pequenas crianças e
do lugar que estamos dando socialmente ao exercício da maternidade. Não podemos eximir-
nos desse questionamento atribuindo de forma reducionista a causa do autismo a genes (a
epigenética e a plasticidade neuronal estão aí para jogar tal argumento por terra) ou à culpa
individual de mulheres quanto à sua competência para cuidar de um bebê (a intervenção
psicanalítica revela o quanto a maternidade é um exercício que não depende de uma simples
competência biologicamente herdada ou de uma intenção consciente pela qual possa se
culpabilizar alguém e, acima de tudo, que jamais a função materna pode ser sustentada de
modo isolado ou individual).
Estes são os fatores que precisamos minimamente considerar quando interrogamos de
onde vem o autismo? Eles são a base para uma pergunta ainda mais relevante: Para onde
vamos com ele. Que saídas sociais produziremos diante de tal epidemia para sustentar os
cuidados das pessoas com autismo e seus familiares?
Há quem proponha que o autismo deva ser tratado em centros específicos para esse
quadro clínico. Mas porque propor uma saída segregacionista no campo da saúde quando
justamente no campo da educação estamos caminhando com importantes avanços no sentido
da inclusão de crianças?
Qualificar a formação dos profissionais para atender autistas é fundamental. O
autismo exige mesmo cuidados especializados, porém isso não equivale a dizer segregados.
Principalmente porque estar não é ser. Uma criança não está plenamente estruturada nem
psíquica nem organicamente e, portanto, o seu diagnóstico não é fechado, não é para sempre,
pode ser um estado transitório, capaz de modificar-se com a intervenção clínica. Nesse sentido
que uma criança vá a um centro de atendimento apenas para uma patologia equivale a dizer
que esta seria para sempre a sua condição, pelo menos para garantir seu acesso ao
atendimento.
Mais grave ainda é propor que tais centros tomem apenas como referência um único
instrumento de avaliação, feito por um único profissional, e que se utilize apenas uma
metodologia – a comportamental – para o tratamento. Isso equivale a negar a complexidade
desse quadro que exige uma abordagem interdisciplinar e que mantém viva a discussão
científica acerca de diferentes correntes teóricas sem que seja possível afirmar a eficácia de
apenas uma delas.
Nesse sentido considerar o tratamento da criança dentro da rede CAPS-i, que se volta
para o atendimento de diferentes situações de sofrimento psíquico, implica respeitar a
condição de estrutura (orgânica e psíquica) não decidida que é própria da infância. Ainda é
preciso ter em conta a necessária articulação entre os CAPS-i e a área de deficiência. Isso
porque sabemos que a incidência de autismos é muito maior em crianças que apresentam
problemas orgânicos (tais como deficiências sensoriais ou motoras congênitas, quadros
lesionais ou Genéticos) e sabemos também que o fato de alguém apresentar um quadro de
autismo pode levar a incidência de certas deficiências que exijam intervenção específica dessa
área.
Do mesmo modo, no que diz respeito ao campo assistencial, é preciso levar em conta
as desabilidades que o autismo pode ocasionar, dando, à pessoa com autismo, acesso aos
recursos assistenciais necessários em função de suas desabilidades. Para isso não é preciso
reduzir o autismo ao campo de uma deficiência orgânica.
Mas certamente o ponto mais nevrálgico e preocupante da epidemia diagnóstica de
autismo é o risco de fazer com esse quadro uma patologização precoce da infância.
Que esta seja uma patologia de incidência precoce exige um cuidado redobrado
quando aos seus critérios diagnósticos. Isso porque, antes da incidência de sintomas mais
configurados desse quadro, tais como exclusão ativa do outro de seu campo de satisfação e a
incidência de estimulações sensoriais estereotipadas como modo de defesa, o primeiro que
aparece é uma queda em produções que seriam de se esperar quanto ao modo de
estabelecimento na relação do bebê com os outros.
Que um bebê não apresente certas produções que são de se esperar em diferentes
idades é motivo para despertar preocupação e levantar a necessidade de uma intervenção
precoce. Trata-se aí de uma intervenção que aposta em não perder tempo e favorecer o
quanto antes a constituição do bebê e, para tanto, não se parte de uma diagnóstico específico
ou fechado. Isso não é assim por sabermos pouco. É assim porque as categorias diagnósticas
não se aplicam bem aos primeiros tempos da constituição.
Os bebês são desobedientes às categorias nosográficas. Essa é uma característica dos
bebês que precisamos conhecer e respeitar para trata-los adequadamente. E por isso, até
mesmo a Organização Mundial da Saúde OMS afirma que os indicadores de autismo de 0 a 3
anos tem muita sensibilidade e pouca especificidade. Ou seja, um mesmo indicador pode ser
relativo a quadros clínicos muito diversos.
Portanto detectar que haja um risco para a constituição, detectar sofrimento psíquico
na primeira infância permite uma intervenção precoce. Aí o termo precoce precisa ser
discutido com precisão (não apagado, mas discutido). Trata-se de uma intervenção diante de
um sofrimento que já está ai, mas que é precoce porque intervém antes do fechamento
deesse sofrimento como uma estrutura patológica definida.
Nesse sentido os IRDI (indicadores de risco para o desenvolvimento infantil),
estabelecidos por pesquisadores brasileiros em um trabalho de quase uma década que reuniu
profissionais de diferentes lugares do país junto a pediatras da rede SUS da atenção básica, na
qual se realiza o acompanhamento de desenvolvimento de bebês, constitui um valioso
instrumento, pois detecta quando há um risco para o desenvolvimento diante do qual pode-se
dar lugar a um atendimento, sem estabelecer uma correlação fechada com patologias. Isso
implica respeitar a condição própria de ser bebê.
Por isso, cabe considerar o quanto o atendimento a bebês que apresentam sofrimento
psíquico e riscos em seu desenvolvimento, deve ocorrer primeiramente na atenção básica,
antes mesmo de qualquer encaminhamento para o CAPS-i. Isso vai no viés de possibilitar a
intervenção diante do risco, o quanto antes e sem patologização.
Estas são questões que estão na pauta do dia de decisões políticas quanto ao autismo
no mundo e no Brasil. Atualmente em nosso país há dois documentos em vigor: “linha de
cuidados para a pessoa com transtorno do espectro autista e seus familiares” e “diretrizes de
reabilitação para a pessoa com transtorno do espectro autista”. Dependendo de qual for
prioritariamente aplicado irão ser seguidos diferentes rumos sociais com o autismo.
Para onde vamos com o autismo?
A resposta de fazer do diagnóstico um destino reduzindo tal quadro a uma fatalidade
orgânica já decidida; culpabilizar as mães eximindo-nos da responsabilidade coletiva de
cuidado das crianças; propor um atendimento em centros especializados por patologia na
ilusão de que o segregacionismo equivaleria ao acesso a um tratamento qualificado; incorrer
em um reducionismo do autismo ao campo da deficiência para ter amparo assistencial diante
das desabilidades que são um fato para muitos e que podem ser devidamente avaliadas sem
tal redução; fechar diagnósticos que patologizam precocemente em lugar de possibilitar uma
aposta na constituição, intervindo o quanto antes quando há riscos para a constituição em
lugar da impostura de um falso saber que fecha o que não está fechado; são caminhos nos
quais podemos erroneamente cair diante da atual encruzilhada da epidemia diagnóstica de
autismo que assola a infância. Procurar respostas simploriamente reducionistas a questões
complexas acaba por custar muito mais caro do que, de entrada, reconhecer a complexidade
que está em jogo. Disso depende o porvir muitas crianças autistas e seus familiares.
INDICADORES DE RISCO: COMO A PSICANÁLISE PODE PROTEGER OS BEBÊS.

AUTOR: ALFREDO JERUSALINSKY

A SITUAÇÃO ATUAL NAS CIENCIAS DA INFÂNCIA

Durante os últimos 20 anos registraram-se relevantes descobertas no campo das neurociências


que permitiram verificar diversas hipóteses clínicas que fundamentaram as intervenções
diagnósticas e terapêuticas desdobradas pela psicanálise desde fins do século XIX até a
atualidade. Entre os achados que vêm ao encontro das formulações psicanalíticas se destacam:
a neuroplasticidade, a poda neuronal, os limites da memória genética dos comportamentos
adaptativos, as incidências epigenêticas sobre os processos maturativos, as relações entre as
funções psicológicas e as particularidades da neurotransmissão, a relação intrínseca entre os
processos cognitivos e os processos emocionais, as redes de circuitos cerebrais ligados as
articulações psíquicas em contraponto com as relações termo a termo entre zonas cerebrais e
funções perceptivo-sensoriais.

Além de abrir espaço científico para um intercambio transdisciplinar entre diferentes campos
do saber e tornar imprescindível a abordagem interdisciplinar na clínica dos problemas
mentais, todas essas descobertas convergem a demonstrar a importância das funções
parentais e a pertinência das intervenções precoces no campo dos transtornos do
desenvolvimento infantil.

Mas ainda é difícil estabelecer a proporção de incidência sobre a estruturação dos processos
mentais, por um lado, da herança genética e, por outro lado, da transmissão operada pelo
entorno circundante. Porém, é inegável a permeabilidade do SNC às intervenções primárias
que definem não somente o domínio da língua, mas todo o elenco de modalidades
adaptativas, sistemas de parentesco e modulação das relações afetivas e sociais imperantes
em cada cultura.

No início do século XX Sigmund Freud formulou a tese das séries complementares: O


constitucional, as experiências infantis, a situação atual. Destacou o caráter transformador e
evolutivo das experiências infantis em oposição ao caráter estático do constitucional
reservando para a situação atual a condição de cenário imprevisível. Ficava assim assinalada a
prevalência do período da infância para determinar a estruturação dos fenômenos psíquicos,
sendo, por tanto, o momento privilegiado de configuração da memória inconsciente.
Momento ao qual se retorna perante as eventuais crises da vida adolescente e adulta, e,
também, momento oportuno e ainda permeável para as intervenções terapêuticas mais
eficazes. Tal a razão pela qual a psicanálise tem prestado, durante o último século, especial
atenção a tudo aquilo que, de um modo geral, denominamos o infantil.

É assim que tem se acumulado um vasto acervo conceitual produto da clinica e a pesquisa
psicanalítica que nos permite compreender grande parte do funcionamento mental e afetivo
infantil: os organizadores precoces da relação com o semelhante (o sorriso, a negativa), o
estádio do espelho, o jogo do Fort-Da (presencia-ausência), o objeto transicional, a experiência
primária de satisfação, a angustia de estranhamento do oitavo mês, as relações primordiais de
objeto, a função paterna e a materna, as identificações precoces, a identificação primária, os
jogos de borda, o “mamanhés” (língua materna), o papel da linguagem na constituição do
sujeito, os momentos pulsionais e a sexualidade infantil, as “teorias” sexuais infantis, o brincar
mimético, o brincar das personificações, o papel do prazer no desenvolvimento infantil, a
necessária expansão do imaginário na infância, entre os conceitos mais relevantes.

Esse conjunto de conhecimentos atuais nos permite perceber que o cérebro humano está
exposto a ser moldado para funcionar numa diversidade infinita de configurações que não
estão previamente determinadas pela composição genética, embora ela imponha limites reais
de complexidade, potência e modulação para essas configurações, mas não limites imaginários
nem simbólicos. Sabermos disso nos coloca numa expectativa esperançosa acerca de quanto
uma adequada intervenção psicoterapêutica e/ou educativa podem vir a modificar a estrutura
resultante perante uma condição desvantajosa numa criança pequena, mas ao mesmo tempo
nos deixa alarmados pelas poderosas consequências de vir a se escolherem caminhos
equivocados.

A PESQUISA SOBRE INDICADORES DE RISCO (IRDIs)

Nesse cenário, um conjunto de pesquisadores em clínica psicanalítica percebeu a necessidade


de contar com um instrumento de detecção precoce do risco para o desenvolvimento infantil.

Já existindo um bom número de recursos para detectar riscos do ponto de vista neurológico,
ficou evidenciada a necessidade de contar com um protocolo que, sendo acessível ao uso por
parte dos pediatras (agentes fundamentais do controle e acompanhamento da saúde durante
a primeira infância), permitisse a detecção de risco desde o ponto de vista psíquico. Como
lógica conseqüência do foco psíquico de tal instrumento, ele, uma vez construído, viria a
detectar não somente risco para o desenvolvimento como também risco para a estruturação
do sujeito, ou seja, para o conjunto do funcionamento mental e afetivo.

Para que esse dispositivo viesse a cumprir a finalidade preventiva a que estava destinado devia
respeitar duas condições: 1) que ele detectasse risco e não que fizesse diagnóstico, 2) que ele
fosse em procura dos traços de saúde e não de doença já que se procedesse desse último
modo poderia gerar uma falsa epidemia de risco (precisamente esse é um dos grandes
problemas metodológicos das chek list de diagnostico que pontuam os comportamentos
considerados patológicos).

Munidos de todas estas considerações um grupo de pesquisadores psicanalíticos, pediatras,


psiquiatras e psicólogos começamos no ano 2000 uma pesquisa para validar um conjunto de
manifestações habituais das relações primordiais mãe-filho que a experiência clínica assinalava
como sendo hipoteticamente necessárias, e que, por tanto, na sua ausência se tornariam
indicadores de risco.

O Ministério de Saúde considerou de grande interesse para a saúde pública a construção de tal
instrumento prestando, então, seu apoio material e organizativo. O CNPQ, a FAPUSP e a USP
prestaram também sua aprovação e seu apoio. Isso permitiu reunir 250 pesquisadores a nível
nacional entre psicanalistas, pediatras, psiquiatras, psicólogos e metodólogos, que entre 2000
e 2009 desdobraram a aplicação do protocolo construído por experts especialmente
consultados e a través de experiências piloto. O caráter multicêntrico dessa pesquisa se
materializou numa amostra de 727 crianças acompanhadas inicialmente durante seus
primeiros 18 meses de vida em 11 hospitais e centros de atenção pública em 10 capitais
brasileiras, e depois testadas aos 3 anos. Essa re-testagem foi realizada sobre uma sub-
amostra de 183 crianças - destacada aleatoriamente entre as 287 crianças que apresentaram
risco (2 ou mais indicadores ausentes) na primeira avaliação - com um instrumento
especialmente construído: AP3 (Avaliação Psicanalítica para crianças de três anos), e também
com entrevista psiquiátrica (no que costuma se chamar de “validação externa”) com a
finalidade de verificar a correlação entre os casos detectados como de risco durante os
primeiros 18 meses e a continuidade ou não da condição de risco aos três anos de idade.

Os indicadores foram organizados segundo 4 princípios fundamentais para a constituição de


um sujeito que não apresente riscos no seu desenvolvimento e que habitualmente nos, os
psicanalistas, tomamos como referência para considerar a pertinência ou não de uma
intervenção. Os quatro princípios que organizam o conjunto dos indicadores de risco são: 1)
Supor um sujeito, 2) Estabelecer a demanda, 3) Alternância presença-ausência, 4) Função
paterna.

Supor um sujeito: um bebê durante seus primeiros 6 à 8 messes não tem condições de
diferenciar suas expressões gestuais para dar a entender à sua mãe qualquer coisa que
hipoteticamente quisesse comunicar. Tampouco possui percepções capazes de diferenciar o
que é interior e exterior a seu organismo ou mesmo de fragmentar o continuum do real de
modo a poder referir, objetos, sentimentos, sensações, solicitações. É necessário que alguém
(a mãe ou seu cuidador primário) lhe atribua a qualquer gesto do bebê um “querer disser”
que, se no início está suportado numa suposição da mãe, aos poucos da lugar a um diálogo
que lhe permite ao bebê se apropriar desse código de significações.

Estabelecer a demanda: Que a mãe ou o cuidador primário atribuam ao choro do bebê o


caráter de uma solicitação e que, com sutil atenção, consigam ir reconhecendo os diversos
“pedidos” que o bebê exprime nos seus gestos e, ao mesmo tempo, respondam
afirmativamente a esses apelos, dando lugar ao que em psicanálise chama-se experiência
primária de satisfação. Tal experiência encoraja o bebê a transformar seu mal estar em pedido
de auxílio e demandar o que lhe produz prazer e bem estar. Nasce então à demanda como
uma função fundamental de relação com o outro. Quando uma mamãe funciona bem nesse
campo ela formula seus enunciados como convite a que seu bebê deseje a mesma coisa que
ela deseja. É por isso que ao redor do oitavo mês, quando normalmente a demanda está
solidamente constituída, o bebê olha na mesma direção para onde o olhar da mãe se dirige. É
precisamente por essa via que a mãe tem o poder de abrir ou fechar caminho para que o pai
entre na relação.

Alternância presença-ausência: Uma mãe que não deixa espaço para que seu bebê
experimente a falta de algo não somente está criando uma dependência absoluta, mas
também o está impedindo de se separar dela para criar uma identidade própria. A
representação mental do objeto ausente e a curiosidade ficam também obstruídas já que a
presença constante e contínua da mãe que, ansiosamente, preenche antecipadamente todas
as necessidades e resolve todos os incómodos sem esperar que seu bebê solicite, torna
inexistente qualquer espaço ou tempo fora do alcance sensorial da criança. Nessas condições a
linguagem torna-se desnecessária. Por acréscimo, poupar ao bebê de que experimente o
alcance de seu grito, de sua força ou habilidade, é privá-lo de que se encoraje à tentar novos
deslocamentos, novas disposições posturais, e, por consequência, criar um esquema
inconsciente de seu próprio corpo.

Função Paterna: Oferecer à criança objetos, gestos e situações que não têm nenhuma
finalidade utilitária tal como higiênica ou alimentar, mas apenas de intercambio, divertimento,
celebração. Isso implica agregar aos objetos significações que nada tem a ver com sua
natureza. É necessário que uma mãe se apresente à seu bebê não meramente como um peito
que acalma a fome ou um procedimento que troca as fraldas, mas como um outro como
espelho de divertimento e simpatia. Isso oferece ao bebê a experiência de um ato simbólico e
não meramente um ato real. Pela sua vez, a presença dessa dimensão nas relações primordiais
permite introduzir regras, limites e disposições na medida em que a pequena criança fica mais
disposta a ceder para não perder esse plus da relação com o outro.

À partir desses princípios surgidos da experiência clínica psicanalítica identificamos uma série
de indicadores precoces de risco. Os psicanalistas costumam usar informalmente, nas
avaliações clínicas, sinais de alerta capazes de referir se a estruturação desse pequeno sujeito
está ou não marchando pelo caminho certo. Para nos orientarmos na construção do protocolo
de indicadores de risco, fizemos um relevamento empírico desses signos de alerta
habitualmente utilizados.

Podemos constatar que esses signos se ordenam em três séries de formações inconscientes
que vão constituir o que em psicanálise se chama fantasma fundamental, a saber: sexuação (a
diferenciação sexual), identificações (a seleção de traços nos quais o sujeito se reconhece),
filiação (as ordens simbólica, familiar e cultural às quais o sujeito se sente pertencente e se
obriga a respeitar). Essas séries, no seu entrelaçamento, vão constituir uma instância interior
que fica dirigida a organizar o funcionamento mental de relação dessa criança com o mundo
circundante. É quando estes processos fracassam que surgem os sintomas.

A partir desses sinais de alerta foram selecionados, como resultado das experiências piloto, 31
indicadores. Esses 31 indicadores, que são de risco somente quando estão ausentes, se
distribuem em quatro faixas etárias – de 0 à 4 messes, de 4 à 8 messes, de 8 à 12 messes, de
12 à 18 messes – em que foram avaliadas sucessivamente as crianças da amostra inicial.

Das 183 crianças sorteadas para realizarem a avaliação AP3 (sendo que 287 crianças, como
resultado da primeira avaliação, resultaram casos de risco) se apresentaram para completar o
estudo 158. Entre as 727 crianças da amostra inicial 440 apresentaram um ou nenhum
indicador ausente sendo, então, tomadas como crianças controle. Delas foram sorteadas 132
para completarem o estudo, o que aconteceu somente com 122 delas. As perdas no processo
de seguimento foram estatisticamente não significativas.
As condições epidemiológicas psicossociais das famílias das crianças inclusas nas amostras se
manifestaram indiferentes para os resultados obtidos no registro de riscos precoces. Ficou
demonstrada, então, a pertinência e a consistência da aplicação deste instrumento para uma
ampla variedade populacional.

Tabela IRDI estatisticamente validada para avaliação de risco durante os primeiros 18 messes
de vida:

Idade em meses Indicadores Eixo

1- Quando a criança chora ou grita, a


mãe sabe o que ela quer. SS/ED

2- A mãe fala com a criança num


estilo particularmente dirigido a ela SS
(mamanhês).
3- A criança reage ao mamanhês.
ED
0 a 4 incompletos
4- A mãe propõe algo à criança e
aguarda a sua reação. PA

5- Há trocas de olhares entre a


criança e a mãe. SS/PA

6- A criança começa a diferenciar o


dia da noite. ED/PA
7- A criança utiliza sinais diferentes
para expressar suas diferentes ED
necessidades.
8- A criança solicita a mãe e faz um
intervalo para aguardar sua resposta. ED/PA
9- A mãe fala com a criança
dirigindo-lhe pequenas frases. SS/PA
10- A criança reage (sorri, vocaliza)
quando a mãe ou outra pessoa está
se dirigindo a ela. ED
11- A criança procura ativamente o
olhar da mãe. ED/PA
4 a 8 incompletos 12- A mãe dá suporte às iniciativas
da criança sem poupar-lhe o esforço. SS/ED/PA
13- A criança pede a ajuda de outra
pessoa sem ficar passiva. ED/FP
Idade em meses Indicadores Eixo
14- A mãe percebe que alguns
pedidos da criança podem ser uma ED/SS
forma de chamar a sua atenção.
15- Durante os cuidados corporais, a
criança busca ativamente jogos e
brincadeiras amorosas com a mãe. ED
16- A criança demonstra gostar ou
8 a 12 incompletos não de alguma coisa. ED
17- Mãe e criança compartilham uma
linguagem particular. SS/PA
18- A criança estranha pessoas
desconhecidas para ela. FP
19 -A criança possui objetos
prediletos. ED
20- A criança faz gracinhas. ED
21- A criança busca o olhar de
aprovação do adulto. ED
22- A criança aceita alimentação
semi-sólida, sólida e variada. ED
23- A mãe alterna momentos de
dedicação à criança com outros ED/FP
interesses.
24- A criança suporta bem as breves
ausências da mãe e reage às ED/FP
ausências prolongadas.
25- A mãe oferece brinquedos como
alternativas para o interesse da ED/FP
criança pelo corpo materno.
26- A mãe já não se sente mais
obrigada a satisfazer tudo que a FP
criança pede.
27- A criança olha com curiosidade
para o que interessa à mãe. SS/FP
28- A criança gosta de brincar com
objetos usados pela mãe e pelo pai. FP
29- A mãe começa a pedir à criança
que nomeie o que deseja, não se FP
contentando apenas com gestos.
12 a 18 incompletos 30- Os pais colocam pequenas
regras de comportamento para a
criança. FP
31- A criança diferencia objetos
maternos, paternos e próprios. FP

Observacões:

1) Alguns indicadores são observáveis na consulta requerendo, as vezes, provocar


situações favorecedoras de sua manifestação. Outros, uma interrogação do
acompanhante da criança durante a consulta.

2) A coluna de Eixos assinala a qual dos 4 princípios psicanalíticos corresponde cada


indicador. O que contribui para uma análise qualitativa posterior à aplicação.

3) Os indicadores destacados em vermelho (15 ao todo) manifestaram uma alta validade


individual e especial validade no risco para a estruturação psíquica adequada além de
risco para o desenvolvimento. Levá-los em conta permite formular hipóteses sobre
graus do risco em cada criança avaliada assim como orientar seu encaminhamento
terapêutico.

4) Essa tabela pode ser transformada em grade de aplicação acrescentando uma coluna
para o registro de presença (P), ausência (A) ou não verificado (NV); outra coluna de
Observações (para anotar os modos de manifestação do indicador ausente e/ou as
dúvidas surgidas durante a aplicação e/ou critérios de avaliação qualitativa para essa
criança em particular). Também lugar de registro para sucessivas avaliações

5) É necessária uma folha de rosto para anotar identificação de criança, número de


protocolo, modo de localizá-la, resultado da avaliação (“caso”-quando apresenta
risco), seu encaminhamento e indicações para revisão. Para que seja considerado
“caso”é necessário que eu uma criança apresente ao menos dois indicadores ausentes
independentemente da faixa etária.

A continuação os indicadores do AP3 utilizados para a avaliação aos 3 anos de idade da


amostra das crianças consideradas “caso” (por terem apresentado 2 ou mais indicadores
ausentes na fase inicial). Os apresentamos distribuídos nas 5 formações psíquicas
fundamentais nessa idade. Se assinalam em vermelho e com a sigla SIRP os 14 indicadores que
chamamos de conclusivos por serem fortes sinais de alto risco para a estrutura psíquica.
Estudos complementares posteriores demonstraram que tanto os indicadores IRDI quanto os
AP3 são válidos para detectar também precocemente riscos de autismo.

Tabela 2: Sintomas Clínicos obtidos na AP3


Legenda: SIRP = Sintoma Indicador de Risco Psíquico
Eixo de avaliação Sintomas

I. O brincar e a fantasia

1. Violência no brincar
2. Ausência de enredo
3. Inibição
4. Inconstância
5. Emergência de angústia ou medo durante o brincar
6. Falta de iniciativa, passividade e falta de curiosidade
7. Manipulação mecânica dos brinquedos (SIRP)
8. Pobreza simbólica
9. Atividade ou movimentos repetitivos (SIRP)
10. Recusa no brincar
11. Ausência de faz-de-conta (SIRP)

II. O corpo e sua imagem

1. Dificuldade no controle esfincteriano


2. Agitação motora
3. Atuações agressivas
4. Ausência do reconhecimento de si como menino ou menina
5. Colagem no corpo da mãe
6. Dificuldades alimentares:
a. Alimentação seletiva
b. Recusa de alimentação sólida (SIRP)
c. Dificuldade alimentar não especificada
d. Obesidade
e. Recusa do alimento

7. Dificuldades motoras
8. Dificuldade de separação
9. Doenças de repetição (amidalite. Otite, bronquite)
10. Doenças Psicossomáticas (alergias, asma, dores inespecíficas)
11. Exposição a perigos
12. Demanda insistente do olhar do outro
13. Passividade
14. Falhas no reconhecimento de si no espelho(SIRP)
15. Impossibilidade de suportar o olhar do outro (SIRP)
16. Preocupação excessiva com a sujeira
17. Alterações do sono

18. Auto-agressão (SIRP)


19. Interrupção no crescimento
20. Inibição diante do olhar do outro

III. Manifestação diante das normas e posição frente à Lei

1. Birras prolongadas
2. Criança tem que ser castigada para obedecer
3. Confusão e angústia frente à lei
4. Desobediência desafiadora
5. Conhece os limites mas não os respeita
6. Recusa da presença do terceiro (SIRP)
7. Recusa do não (SIRP)
8. Submissão excessiva à lei (SIRP)
9. Criação de medos substitutivos da lei (SIRP)
10. Negativismo

IV. Fala e posição na Linguagem

1. Ausência de pronomes pessoais (SIRP)

2. Repetição ecolálica (SIRP)


3. Troca de letras ou sílabas na fala
4. Fala infantilizada

5. Linguagem incompreensível com tentativa de interlocução


6. Linguagem incompreensível sem busca de interlocução (SIRP)

7. Pobreza expressiva
8. Pobreza de vocabulário
9. Uso da terceira pessoa para referir-se a si mesmo (SIRP)

10. Fala traduzida pelo cuidador


11. Inibição
12. Não forma frases (pobreza simbólica) H