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Educação Unisinos

10(2):139-147,maio/agosto 2006
10
© 2006 by Unisinos

Saberes da experiência no trabalho


associado - Associação dos Recicladores
de Dois Irmãos
Knowledge from experience in associative work -
The Association of Recyclers of
Dois Irmãos, RS, Brasil

Telmo Adams
smada@cpovo.net
Roque Spies
roque.spies@terra.com.br
Maria Odete Faustino Spies
roque.spies@terra.com.br
Jair José Gromoski
recicladoresdi@yahoo.com.br

Resumo: O artigo situa-se no bojo da compreensão de trabalho associado como uma das
formas de reação ativa dentro do atual contexto de reestruturação do capitalismo. A
experiência do trabalho associado oportuniza dinâmicas educativas construtoras de novos
saberes que se mesclam com os saberes herdados, anteriores ao ingresso dos trabalhadores
e trabalhadoras na Associação dos Recicladores de Dois Irmãos. Após trazer uma breve
trajetória e caracterização do empreendimento, a equipe de elaboração se propôs a dar um
passo para além da sistematização da experiência, buscando abrir leques para um
aprofundamento teórico. O foco é saberes relacionados com o processo de autogestão,
com o trabalho associado e com a questão ambiental. Os diversos autores e autoras de
referência possibilitam um caminho aberto, valorizando algumas categorias que se enraízam
na materialidade da vida, na relação dialética com a subjetividade humana.

Palavras-chave: autogestão, trabalho associado, saberes da experiência.

Abstract: The article discusses the understanding of associative work as one of the forms
of active reaction in the present context of the restructuring of capitalism. The experience
of associative work enables the emergence of educational dynamics that construct new
forms of knowledge, which are mixed with the inherited knowledge that the workers had
before they joined the Association of Recyclers of Dois Irmãos. After briefly describing the
history and the characteristics of the undertaking, the authors try to go beyond the
systematization of experience through a theoretical elaboration. They focus on knowledge
related to the process of self-management, associative work and the environment. The
authors of reference make it possible to value some categories that are rooted in the
material dimension of life, in a dialectical relation with human subjectivity.

Key words: self-management, associative work, knowledge from experience.

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Telmo Adams, Roque Spies, Maria Odete Faustino Spies, Jair José Gromoski

Introdução dos dessa reestruturação produtiva e A cidade de Dois Irmãos, situada


modelo de acumulação do capital, os a 60 km de Porto Alegre, conta hoje
O presente texto é resultado de uma trabalhadores e trabalhadores apro- com 29 mil habitantes e gera em tor-
elaboração coletiva após a apresenta- veitam a “crise estrutural do empre- no de 14 mil quilos de lixo por dia,
ção da experiência da Associação dos go” para gerar iniciativas autogestio- cerca de meio quilo por pessoa. Em
Recicladores na I Jornada de Estudos nárias, em vista de uma nova cultura torno de 70% dos habitantes sepa-
sobre Produção e Legitimação de Sa- do trabalho, para uma outra econo- ram seu lixo na cidade, após um tra-
beres no/do Trabalho, realizado na mia. Quais são, nessa perspectiva, os balho de mais de 11 anos, quando
Universidade do Vale do Rio dos Si- principais sentidos do trabalho na As- foi instituída a coleta seletiva na ci-
nos – UNISINOS, São Leopoldo, nos sociação de Recicladores? dade.
dias 27 a 29 de março de 2006. A construção do texto, nessa segun- Em novembro de 1994, surgiu o
Para abordar o tema proposto, tra- da parte, dá-se através de três passos trabalho associado de reciclagem na
zemos a reflexão sobre o trabalho como didáticos que, na prática, são insepa- Usina de Dois Irmãos, com um grupo
experiência individual e coletiva na ráveis. Inicialmente traremos o aspec- de cinco pessoas, sob a liderança de
Associação dos Recicladores de Dois to dos saberes relacionados à dimen- Roque e Odete Spies.1 Atualmente, o
Irmãos. Em primeiro lugar, após situar são organizacional. Em segundo lugar, grupo está constituído por cinco mu-
os leitores e leitoras sobre esse em- trataremos dos saberes mobilizados no lheres e 15 homens, que continuam
preendimento solidário, buscamos processo de produção associada. E, por se organizando de forma autogestio-
abordar as características do grupo. último, desenvolveremos a reflexão em nária. Entendemos por autogestão a
Esse aspecto é fundamental na medi- torno da construção de saberes em re- participação igualitária na gestão do
da em que as trajetórias de vida que lação à questão ambiental. empreendimento e nos resultados do
cada reciclador e recicladora trouxe Algumas relações com autores do trabalho. A propriedade pertence à
para dentro da Associação apresen- campo da economia solidária, traba- municipalidade, a não ser algumas
tam uma relação direta com os resulta- lho e educação, da filosofia, sociolo- máquinas e equipamentos que a As-
dos desses 11 anos de trabalho asso- gia e educação popular pretendem in- sociação foi adquirindo.
ciado, seja nos avanços ou nos limi- serir nosso texto com a pesquisa e dis- Para mediar o contrato legal com o
tes vividos no processo. cussão teórica mais ampla. Nosso poder público municipal, a organiza-
Em segundo lugar, como decorrên- objetivo é clarear alguns caminhos ção do processo de trabalho foi pre-
cia da caracterização anterior, a pro- para compreender melhor a dinâmica cedida pela criação de uma microem-
dução de novos saberes se dá sobre dos saberes mobilizados no trabalho presa. Contudo, tal estrutura não im-
as bases de saberes anteriores. Pre- associado para potencializá-lo como pediu a prática dos princípios auto-
tendemos trazer nossa reflexão sobre princípio educativo. Perguntamos em gestionários do cooperativismo como
como esses novos saberes foram se que medida se estabelece uma relação a gestão democrática, a participação
mesclando a partir de disposições aprendente que repercute na vida so- econômica igualitária segundo o tem-
constitutivas de um ethos cultural, o cial, política e cultural no município e po de trabalho, a autonomia da orga-
habitus interiorizado pelas condições região. E, por outro lado, como essa nização, o cultivo da formação hu-
sociais e culturais anteriores. Quere- participação em outros espaços retor- mana e educação cooperativa, a arti-
mos, igualmente, mostrar que os dife- na e enriquece a experiência do traba- culação com redes de empreendimen-
rentes saberes mobilizados no traba- lho na Associação. tos e Economia Popular Solidária e a
lho associado não eliminam os confli- relação ativa e educativa com a co-
tos e contradições. Ou seja, os empre- Situando a Associação munidade local (cf. Adams, 2005). Em
endimentos solidários e, da mesma dos Recicladores de vez da heterogestão, prática típica
forma, o movimento de economia soli- Dois Irmãos das empresas capitalistas, a autoges-
dária, não se colocam fora da tensão tão torna empresas solidárias efici-
entre um cunho emancipador e, ao entes não somente no aspecto pro-
O trabalho associado na reciclagem
mesmo tempo, de dependência da ló- tornou-se uma porta para o mundo dutivo. Torna-as, também, “centros
gica do capital. Em outras palavras, maior da ecologia e um meio concreto de integração democráticos, igualitá-
apesar de as organizações de traba- de luta por uma sociedade solidária e rios, que é o que os seus associados
lho associado serem também resulta- sustentável. precisam” (Singer, 2002).
140
1
Os detalhes da história dos primeiros 10 anos estão registrados no livro Vivendo e reciclando (Adams, 2005), cuja elaboração se deu dentro de um
processo de educação/pesquisa, com a participação ativa dos sujeitos.

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Saberes da experiência no trabalho associado - Associação dos Recicladores de Dois Irmãos

A partir de 1999, o referido empre- soas cultivam o hábito regular de leitu- tece no modo de produção capitalis-
endimento conta com uma estrutura ra e escrita, mas, em geral, restringem- ta. Neste último, o elemento constitu-
legal de Associação e, para dar supor- se ao acompanhamento do jornal da tivo é a contratação de trabalhadores
te legal na relação com o mercado, cidade, algum programa de televisão e empregados, a serviço dos donos do
conta com uma empresa social na qual rádio. Uma pessoa está estudando à capital. Já a prática do trabalho asso-
todos e todas são sócios/as. noite (na EJA) para concluir o 2° grau. ciado exigiu uma forma organizacio-
Quanto à origem, o grupo foi cons- Motivadas por diversos fatores, entre nal diferente a partir de uma nova con-
tituído, num primeiro momento, por eles o da necessidade, 17 dos 20 asso- cepção de trabalho que, por sua vez,
desempregados/as, subempregados/ ciados/as estão fazendo um curso bá- levou a novos modos de pensar, co-
as e empregados/as em outras empre- sico de informática. nhecer e sentir. A mudança da estru-
sas. Do grupo atual, mais da metade tura de produção capitalista para um
oriundos dos municípios de Campina modo de produzir associado e nova
das Missões e Cândido Godói,2 16 re- Saberes mobilizados no concepção de trabalho são dois fato-
cicladores e recicladoras trazem con- trabalho associado res que andam juntos, numa relação
sigo a experiência de trabalho da agri- dialética (cf. Kuenzer, 1995, p. 15 e 54).
cultura, sendo que quatro deles vie- Saberes da organização Como a Associação dos Recicla-
ram diretamente da roça para a recicla- autogestionária dores chegou ao estágio de uma ges-
gem; duas pessoas foram empregadas tão democrática, participativa en-
por 30 dias e 8 meses, respectivamen- Os saberes que têm a ver com a quanto empreendimento econômico
te. Mas a maioria passou pela experi- construção de um projeto de produ- solidário? Refletindo sobre a cami-
ência do trabalho como empregados ção econômica solidária estão direta- nhada, percebemos que os saberes
na indústria. Nenhum dos reciclado- mente vinculados com os desafios de relacionados com a proposta de au-
res ou recicladoras foi catador/a de togestão dos trabalhadores e traba-
vivenciar relações horizontais, demo-
rua, o que diferencia a tipologia desse cráticas e participativas em toda dinâ- lhadoras foram aportados por seus
grupo em relação a outras cooperati- mica complexa que envolve a vida da pioneiros, que trouxeram consigo ex-
vas ou associações na área da recicla- Associação. Saberes de experiências periências decisivas. Tais saberes
gem. Igualmente não trazem experiên- anteriores – práticas sociais de tipo surgiram dentro do processo de ex-
cia de trabalho associado anterior. comunitário, de movimentos sociais e periência humana que inclui a dimen-
Contudo, algumas pessoas atuavam empreendimentos econômicos solidá- são reflexiva de sujeitos que experi-
em práticas sociais comunitárias, pas- rios – embasaram a opção por uma mentam situações históricas, rela-
torais da Igreja Católica, movimentos organização autogestionária de traba- ções de interação e conflito, necessi-
sindicais e ambientais. O casal funda- lhadores e trabalhadoras associados/ dades, interesses e esperanças. Con-
dor do empreendimento acumulou ex- as. A consciência de uma lógica ex- forme Célia R. Vendramini (2004), ba-
periências de engajamento social, pas- ploradora injusta gerada pela ideolo- seada em Edward Thompson, a expe-
toral e político, com destaque à parti- gia capitalista possibilitou a gênese riência se caracteriza pela íntima rela-
cipação ativa na organização de coo- do trabalho associado na Usina de ção entre realidade e pensamento.
perativas populares em Novo Ham- Reciclagem de Dois Irmãos. Em que Esta compreensão se diferencia do
burgo.3 medida essa trajetória sinaliza a pos- marxismo estruturalista – no estilo de
Predomina a descendência euro- sibilidade de relações solidárias de Althusser e seguidores –, que, redu-
péia,4 com presença de costumes da produção como experiência de uma zindo sua compreensão à “reprodu-
vida simples, dos hábitos do interior. cultura do trabalho, diferente da cul- ção e produção no sentido restrito e
Dezesseis membros já vivem há mais tura capitalista? exclusivo às ‘práticas econômicas de
de seis anos na cidade de Dois Irmãos. A viabilização de tal projeto surgiu produção’, ocasionou uma disjunção
Em relação à escolaridade, a grande a partir de uma outra concepção de entre o materialismo histórico e dia-
maioria (12) não concluiu o primeiro trabalho, diferente da divisão e oposi- lético [...] entre a esfera econômica e
grau. Constatamos que algumas pes- ção entre trabalho e capital que acon- a subjetividade humana” (p. 26).

2
Naturalidade: Campina das Missões (6), Cândido Godói (5), Humaitá (2), Rolante (1), Riozinho (1), Criciumal (1), Santa Catarina (2) e Paraná (1).
3
Roque e Odete atuaram alguns anos como agentes de pastoral da Igreja Católica num trabalho de base pela Cáritas Diocesana de Novo
Hamburgo. No período foram pioneiros na constituição da Cooperativa Fraternidade Popular de Produtores e Consumidores (COOFRATER), que 141
atuava na produção e consumo de gêneros alimentícios e hoje está extinta, e da Cooperativa Habitacional Santo Afonso (COOBASA) da área da
habitação e consumo.
4
Treze pessoas são descendentes de alemães, uma de poloneses; e seis mestiços.

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Telmo Adams, Roque Spies, Maria Odete Faustino Spies, Jair José Gromoski

No caso da Associação, a prática lações que envolveram as redes de ceu de forma linear ou com ausência
protagonista se deu com o envolvi- empreendimentos na área da recicla- de tensões e contradições.
mento, motivado por um espírito utó- gem e o diversificado campo da eco- Em síntese, a organização da As-
pico de busca, numa permanente ten- nomia solidária. sociação se sustentou em quatro pi-
são dialética entre a experiência indi- Os membros que ingressaram no lares, conforme afirmação no livro Vi-
vidual e coletiva associando a vivên- andar do processo, por sua vez, já vendo e reciclando (Adams, 2005, p.
cia cotidiana e a realidade mais ampla. encontraram uma experiência grupal 56-57):
Ou seja, a intencionalidade sempre na qual se inseriram e que passaram a) O projeto ambiental – “Não vi-
presente foi a de articular a perspecti- a assumir. Nesse processo de traba- samos somente separar materiais para
va econômica com a busca de senti- lho associado um dos desafios foi o vender e faturar um dinheirinho no fim
dos para suas vidas, sem fechar-se de valorizar os diferentes saberes da do mês.” Trata-se da opção para am-
num “casulo” de um empreendimen- experiência. O fato é que a organiza- pliar uma consciência ambiental no
to bem-sucedido. ção participativa contou sempre, mais ambiente do trabalho e na relação com
Em decorrência, os saberes da ex- ou menos, com as singularidades da a cidade. É um compromisso que visa
periência levaram os associados e as- subjetividade de cada reciclador e re- ajudar na mudança dos hábitos da
sociadas a assumir o desafio de uma cicladora, com vistas a alcançar o me- população, com atuação direta na co-
postura e vivência solidárias em to- lhor resultado econômico juntamen- munidade através de atividades edu-
dos os espaços da vida. Essa atitude te com a geração de sentidos realiza- cativas junto a escolas e outros espa-
de abertura esteve presente desde o dores nas relações do trabalho as- ços. Propõe o gerenciamento integra-
início. Os pioneiros, que estavam “em sociado. do dos resíduos, onde a Associação
movimento”, ao constituir a organi- Como tais sentidos aparecem na assume um protagonismo destacado
zação de recicladores/as continuaram prática da organização e gestão? Após em diálogo constante, por vezes ten-
em movimento até hoje. A “teia repro- 11 anos de existência, o grupo desta- so, com os gestores do município.
dutora” (Fischer, 2004, p. 149) opor- cou os seguintes aspectos na sua b) A construção de um projeto de
tunizada pela “inserção em uma série missão: “exercer um bom trabalho para economia solidária – “Optamos pela
de mecanismos instituídos” como en- a humanidade, dando um destino cor- vivência dos valores do associativis-
quadramentos estruturais não retira- reto ao lixo, reciclando, preservando mo e do cooperativismo como alter-
ram das lideranças da Associação a e defendendo o meio ambiente, unin- nativa de trabalho e renda [...].” “Atra-
dimensão protagonista. A opção não do a geração de trabalho e renda para vés desse trabalho podemos melho-
era simplesmente gerar qualquer tra- uma vida digna, de forma associada, rar o mundo e nos tornar melhores
balho e renda como mera adaptação com qualidade ambiental, contribuin- como seres humanos.” Com a partici-
às condições colocadas. A proposta do na construção de um mundo me- pação nos Fóruns de Economia Po-
foi, e continua sendo, a inserção ati- lhor”.5 A consciência dessa “missão”, pular Solidária, os horizontes foram
va como sujeitos que também fazem gradativamente incorporada, ao mes- se alargando. A relação com outros
história (Freire, 1996, p. 54), numa mo tempo em que expressa o atual grupos abriu a perspectiva da articu-
constante autocrítica mediada por momento da identidade grupal, con- lação em redes que possibilitaram as-
tensões e aprendizados. tribui para potencializar o sentido co- sumir lutas e projetos comuns. Os
O lastro inicial desenvolveu-se letivo do trabalho, com a maior ou aprendizados no Fórum Regional,
cheio de contradições, sobretudo menor co-responsabilidade de cada Estadual e Nacional de Economia So-
com os saberes de outras tantas ex- reciclador e recicladora. Estimula o lidária contribuíram para o fortaleci-
periências individuais trazidas pelos sentimento de pertença à organização, mento da organização, nesses anos
novos associados e associadas que consolidando ainda mais uma identi- de existência. Sobretudo o Fórum das
ingressaram no decorrer desses dade coletiva. E, para além de uma iden- Associações e Cooperativas de Re-
anos. Mas o processo foi igualmen- tidade profissional, a dinâmica de in- ciclagem do Vale dos Sinos tem se
te condicionado por fatores externos, teração externa que a Associação destacado como espaço de luta por
enquanto condições objetivas: a) as mantém com espaços e organizações políticas públicas nos municípios.
relações com os gestores públicos locais e regionais tem levado um gru- c) O desenvolvimento da capacida-
locais e com o mercado, neste último po crescente a se assumir como agente de técnica e organizativa – “Busca-
caso, especificamente os comprado- de educação ambiental. Evidentemen- mos sempre maior conhecimento so-
142 res de materiais reciclados; b) as re- te, todo esse processo não aconte- bre materiais, técnicas de produção,

5
As idéias centrais da missão assim elaboradas surgiram do trabalho coletivo do grupo no Encontro de Formação do dia 8 de janeiro de 2006.

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Saberes da experiência no trabalho associado - Associação dos Recicladores de Dois Irmãos

controles contábeis e processos de Associação foi conquistando reco- talista espalhou-se em todos os es-
reciclagem nas indústrias.” O estudo nhecimento, respeitabilidade, enfim, paços, inclusive no meio rural.
das cadeias produtivas do papel, do poder político. Queremos trazer alguns Em segundo lugar, queremos des-
vidro, do ferro, dos plásticos e outros elementos dessa trajetória. tacar que, apesar das fragilidades, a
materiais, tem sido fundamental para Em primeiro lugar, consideramos coordenação da Associação buscou
melhorar a qualidade dos produtos, o que a grande marca do grupo é a cul- sempre contar com a melhor contri-
que resultou em boa colocação e me- tura do trabalho. Em geral, os associ- buição possível de cada membro.
lhores preços na comercialização. ados e associadas foram introduzidos/ Cada qual era desafiado a se engajar
d) Boa relação com os outros ato- as desde crianças nessa experiência no processo de produção solidária,
res ou parceiros, a começar pelos de trabalho e visão de mundo, contri- colocando em comum os saberes
gestores e servidores/as relacionados buindo para o sustento da família na aprendidos em outros espaços da
da Prefeitura de Dois Irmãos; com- agricultora. Essa experiência incorpo- vida. Na expressão de um associado
pradores e empresas do ramo; orga- rada marca profundamente os mem- aparece o sentimento de pertença
nização de recicladores; universida- bros da Associação. É o que o soció- coletiva: “Aqui temos um ajuntamen-
des, escolas, organizações não-gover- logo Pierre Bourdieu (Miceli, 1992, p. to de conhecimentos onde cada um
namentais. Os diversos fóruns e con- XL) chamou de habitus, “um sistema sabe alguma coisa!” E, na medida do
selhos municipais, especialmente o do de disposições duráveis e transferí- possível, houve a valorização e res-
meio ambiente (CMMA), o da saúde veis que, integrando todas as experi- peito pelos saberes ou qualidades in-
(CMS) e o da educação (CME), têm ências passadas funciona a cada mo- dividuais na distribuição dos diferen-
sido espaços políticos importantes mento como uma matriz de percep- tes trabalhos. O grupo concluiu que,
para o fortalecimento / legitimação da ções, apreciações e ações [...].” Tra- se a pessoa se sente bem em determi-
Associação. ta-se de um saber, um comportamen- nada tarefa, ela tem possibilidade de
Nessas bases, fica clara uma con- to social que estabelece o equilíbrio produzir melhor, com maior destreza.
cepção integrada da organização que entre continuidade e mudança. A par- Isso favorece o aumento da co-res-
não separa a dimensão econômica das tir dessa visão é possível compreen- ponsabilidade, o espírito de autono-
outras. Pelo contrário, se trata de uma der a ambigüidade presente na cultu- mia e iniciativa. Assim se valorizava
outra noção de economia voltada para ra do trabalho dos recicladores e reci- cada qual no que tinha de melhor para
as relações sociais de convivência, cladoras. Essa ambigüidade se ex- dar ao coletivo, respeitando, por ou-
de satisfação das necessidades ma- pressa pelas posturas ou atitudes de tro lado, os limites físicos de cada
teriais e espirituais (cf. Tiriba, 2004 e garra e gosto pelo trabalho: “topar membro. E todos/as se beneficiavam
2006). É possível concluir com Lia Ti- qualquer parada”, “não escolher ser- desse resultado.
riba que, além da geração de renda, a viço”; “não ficar na moita”; “não pre- Nessa dinâmica foram muitos os
Associação optou por uma organiza- cisar ser mandado”; “ter iniciativa e saberes construídos na atividade do
ção que favorecesse o processo de co-responsabilidade”; “o capricho de próprio trabalho associado. Depoi-
formação humana enquanto sociali- fazer bem feito”. Mas, de outro lado, mentos como “o ambiente de traba-
zação do saber, da cultura, enfim, da há também a presença de situações lho tem sido uma escola para nós”
convivência solidária e comprometi- contraditórias de pessoas dependen- confirmam isso. E, nessa linha, vale
da social e politicamente. tes, com pouca iniciativa e criativida- destacar que, além dos saberes rela-
de, que ainda não se libertaram da cionados à organização e gestão par-
Saberes do trabalho e “cultura do patrão”, de “fazer só o ticipativa, evidenciam-se os saberes
relação com os aspectos que e quando é mandado”. Por esta- técnicos da produção, administração,
políticos e sociais rem num empreendimento de econo- comercialização e jurídico-legais. Tais
mia solidária, não é automático que saberes instrumentais foram sendo
Alguns saberes que mencionamos os trabalhadores e trabalhadoras su- desenvolvidos na relação com a di-
acima, além de terem contribuído para perem as concepções capitalistas in- mensão do sentido ético e espiritual
o fortalecimento da organização, tam- culcadas no senso comum. Mesmo que o trabalho adquire nesse espaço.
bém foram fundamentais na qualifica- que diversos associados não tives- Paulo Freire (1996, p. 56) afirma que
ção da produção nos seus aspectos sem longa experiência de trabalho as- “a capacitação de mulheres e homens
profissionais e técnicos. Juntamente salariado, em maior ou menor grau, em torno de saberes instrumentais ja-
com isso, graças aos saberes da ex- houve a incorporação da cultura das mais pode prescindir de sua forma- 143
periência do trabalho e da participa- relações “chefe x empregado”. E a pre- ção ética”. É a preocupação sempre
ção em outros espaços externos, a sença hegemônica da ideologia capi- presente na gestão participativa e

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democrática da Associação: a tentati- Embora um processo lento e cheio Ligado ao processo de produção
va de avançar, com todo o grupo, no de contradições, com recuos e avan- levantamos ainda um quarto aspecto:
sentido de aproximar a concepção e a ços, a Associação dos Recicladores a questão técnica. Mais uma vez a
execução do trabalho, o planejamen- apostou, e continua apostando, nes- experiência anterior foi importante
to e o seu desenvolvimento, a ativi- se caminho participativo. E um dos desde o início do empreendimento.
dade de reciclagem e a administração estímulos fortes tem sido a forma de Roque Spies, pela sua história anteri-
– controles contábeis.6 distribuição dos resultados. A remu- or (cf. Adams, 2005, p. 13), teve uma
Daí segue o terceiro aspecto do neração do trabalho é feita de igual participação decisiva na estrutura in-
aprendizado. A experiência do traba- valor por hora para todos e todas. A terna da usina de reciclagem, em vista
lho de cooperação no espaço da pro- reciclagem exige do grupo muito tra- da praticidade funcional do fluxo de
dução está gerando novos saberes balho. Há muitas tarefas que exigem materiais. Gradativamente, foi envol-
para o próprio espaço do trabalho, grande esforço físico, causando gran- vendo os demais associados/as na
mas também para a vida familiar / co- de desgaste e seqüelas para a saúde. busca de alternativas de equipamen-
munitária e vida social / pública (es- Todos e todas assumem com serieda- tos adequados. Contribuíam para isso
paço da reprodução). Aqui está uma de o horário de trabalho. Assumem o visitas a outras experiências de usi-
questão-chave no processo de con- mutirão-empreitada enquanto simbi- nas ou mesmo contatos com indús-
solidação de empreendimentos eco- ose entre esses dois sentidos da ex- trias da área. A perspectiva sempre
nômicos solidários: “o entrelaça- periência da cultura popular. Mutirão foi a de facilitar os serviços mais pe-
mento entre o mundo da produção refere-se à reciprocidade, doação, co- sados e insalubres para agilizar o tra-
e o mundo da reprodução” (Fischer mensalidade e espírito de comunida- balho, qualificar os materiais, agregar
e Ziebell, 2004, p. 71). A consciência de. A empreitada tem o sentido de ta- valor, diminuir o tempo de trabalho,
do trabalho solidário pode se repro- refa assumida onde há um compro- aumentar a produção e, assim, gerar
duzir na vida pessoal, nas relações misso mútuo (um contrato formal ou mais resultados em benefício de to-
com os vizinhos, no trânsito, esco-
informal), dentro do espírito de racio- dos e todas. Como já mencionamos,
la, etc. E vice-versa, os saberes
nalidade produtiva. o resultado da maior produtividade
aprendidos e vividos em outras ins-
A partir dessa compreensão, de- sempre foi destinado para o conjun-
tâncias da vida podem se mesclar
finem conjuntamente estender o to. Diferentemente do modelo capita-
em novos saberes no espaço da
tempo de trabalho, quando neces- lista de produção – que expropria o
produção. Por isso a prática da au-
sário, para dar conta do volume de conhecimento dos trabalhadores e
togestão através do exercício de uma
materiais acumulados. O mutirão- trabalhadoras em vista da maior pro-
gestão participativa e democrática e
empreitada designa o “casamento” dutividade e cujo resultado fica para
as relações solidárias de trabalho têm
se constituído em grande instrumento entre o trabalho conjunto onde cada o proprietário da empresa (cf. Kuen-
pedagógico com vistas a uma cultu- um dá o melhor de si para uma cau- zer, 1995, p. 47) – na produção associ-
ra do trabalho. De novo podemos sa comum, com o assumir co-res- ada, os saberes são postos a serviço
sintonizar com Paulo Freire (1976, p. ponsável de cada um e cada uma, do resultado coletivo.
92 e 93): para coletivamente dar conta da ta- Como o processo de separação de
refa assumida; no caso, o serviço materiais recicláveis até a fase de be-
Se há saber que só se incorpora ao
de reciclagem contratado com a Pre- neficiamento da nova matéria-prima
homem experimentalmente, existen- feitura Municipal. não exige maquinaria sofisticada, a
cialmente, este é o saber democráti- Essa relação entre participação de Associação tem conseguido avançar
co. [...] Não há nada que mais contra- todos e todas nos benefícios e res- no processo de agregação de valor
diga e comprometa a emersão popu- ponsabilidades tem contribuído para através de máquinas que alguns de
lar do que uma educação que não jo- ampliar o senso de pertencimento ou seus membros ajudaram a projetar. A
gue o educando às experiências do a identidade coletiva, de sentir-se par- lavagem e secagem do plástico e, com
debate e da análise dos problemas e
te e co-responsável, resultando evi- parte do material, o processo de gra-
que não lhe propicie condições de
verdadeira participação. dentemente na geração de novos sa- nulação possibilitaram a venda direta
beres. às indústrias, eliminando os atraves-

144 6
Até o momento, não há nenhum/a associado/a que atue exclusivamente com processos administrativos, comercialização e controles. Há uma pessoa
referencial, mas gradativamente mais membros, especialmente da coordenação (seis pessoas), procuram ir assumindo compromissos relacionados a
essa questão sem se afastar do processo de produção. Falamos aqui da pesagem de caminhões, anotações das quantidades comercializadas, os
encaminhamentos necessários no decorrer do trabalho, sobretudo a partir de imprevistos, etc. A contabilidade oficial é feita por uma empresa do ramo
contratada pela Associação.

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Saberes da experiência no trabalho associado - Associação dos Recicladores de Dois Irmãos

sadores. Além disso, a boa qualidade indivíduo. Embora todos e todas gos- partir da qual poderíamos associar
conquistada na separação de materi- tem do verde, da água fresca e pura, esses valores e práticas a um “ethos
ais, diminuindo ao máximo as mistu- da terra fértil, da paisagem bela, etc., a do cuidado”. Trata-se de um “conjun-
ras, tem facilitado a comercialização partir da época da “revolução verde” to de valores, princípios e inspirações
junto ao instável e dependente mer- a visão depredadora e exploradora, que conformarão o habitat comum e
cado dos recicláveis.7 Esses e outros estimulada pela política governamen- a nova sociedade nascente”. Junto
fatores contribuíram para uma remu- tal, tomou conta dos rincões e das com a produção associada, o ethos
neração relativamente estável, resul- consciências; inclusive na pequena do cuidado expressa o projeto políti-
tando em menor rotatividade do gru- produção rural. A “revolução verde” co e cultural (ecológico) em torno do
po, o que, por sua vez, proporcionou caracteriza-se pelo período do produ- qual caminha o processo educativo
um desempenho técnico progressivo. tivismo agrícola para a exportação da mediado pela experiência do trabalho
soja, especialmente a partir dos anos conjunto no atual momento da Asso-
Saberes ambientais: em 1970, cujo resultado foi a devastação ciação de Recicladores. O ethos do
busca de um outro das matas, a forte mecanização para a cuidado se mescla com os objetivos
desenvolvimento monocultura da soja. Tal política go- da organização autogestionária onde
vernamental modificou completamen- os saberes estimulam e realizam práti-
Aqui estamos nos referindo aos te a forma de utilização do solo e a cas de relações econômicas de (com)
saberes ligados às questões ambien- relação com a natureza. A visão ex- partilha, comensalidade, de reciproci-
tal, educativa, comunicativa, bem como ploradora e de “progresso” econômi- dade, de doação, de cooperação e de
os mobilizados no processo de partici- co subjacente a esta concepção faz mutirão. Mesmo que estejamos imer-
pação política em instituições munici- parte das heranças culturais do gru- sos em relações determinadas pelas
pais e espaços mais amplos da socie- po de recicladores e se constitui num regras da lógica do ciclo de produção
dade que tem íntima relação com um desafio para avançar para uma outra capitalista, não acreditamos que nos-
desenvolvimento local e regional sus- concepção de convivência, de cuida- sa passagem pelo mundo seja prede-
tentável. Entendem as lideranças da do com a natureza. terminada, preestabelecida (Freire,
Associação que o atual padrão de pro- A avaliação grupal e a reflexão so- 1996, p. 53).
dução e consumo promovido pela ló- bre tensões, em reuniões regulares ou Essas práticas acontecem em ní-
gica capitalista se mostra radicalmente encontros de formação, fizeram parte vel local e buscam se fortalecer atra-
insustentável. Por isso, o seu projeto do processo educativo em busca de vés de redes e inclusive pela efetiva-
é lutar, enquanto for tempo, por um uma cultura do trabalho associado ção de políticas públicas em alguns
modelo de vida individual e social com que difere da cultura do trabalho as- municípios, estados e mesmo em ní-
respeito, cuidado e relação solidária salariado (ou cultura do capital). Com vel de governo federal. A reciclagem
com todos os seres existentes. o lema “ajudando a proteger a natu- tornou-se uma porta para o mundo
Como os membros da Associação reza”, a partir do estímulo da experi- maior da ecologia, um meio de luta
se colocam frente a esses saberes e ência coletiva, as pessoas estão mu- por uma sociedade solidária e sus-
desafios decorrentes? Na compreen- dando seus conceitos, valores e prá- tentável.
são da questão ambiental, por exem- ticas. Estão mesclando saberes con- Após alguns anos de saberes
plo, o habitus dos associados e as- traditórios herdados com o “filtro” de aprendidos na participação crítica e
sociadas aparece com elementos da novos critérios que busca enxertar propositiva que a Associação sem-
contradição entre o espírito de “ex- novas concepções e práticas sobre pre procurou ter em espaços exter-
ploração da natureza” e da “convi- essa “matriz” de origem. Contribuíram nos, ampliou-se o número de associ-
vência ou sintonia com o meio ambi- aqui também elementos simbólicos e ados que se tornaram efetivos educa-
ente”. O espírito explorador se mani- de sonhos ou esperanças (talvez ob- dores e educadoras, como já referi-
festa pela idéia de que os bens da jetivos) de um paradigma do cuidado, mos acima. Isso se verifica na prática
natureza – a terra, a água, as árvores, coerente com uma cultura do traba- cotidiana ao evitar a poluição do ar,
os animais... – são coisas que se pode lho associado. da água, as queimadas, derrubadas
usar, tirar o que serve, eliminar o que Recorremos, neste ponto, à refle- de árvores, o cuidado com os recipi-
“estorva”, segundo critério de cada xão de Leonardo Boff (1999, p. 39) a entes de veneno e outros objetos al-

7
No II Encontro de Recicladores com Gestores Públicos do Vale do Sinos, o representante da Cooperativa de Recicladores COLABORE de Campo
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Bom, Paulo Bohn, expôs a conjuntura do atual mercado dos recicláveis, que se encontra em crise porque, em função da cotação do dólar (em torno de
R$ 2,10), forçou a baixa dos preços dos compradores e indústrias de reciclados. Nesse momento, eles estariam conseguindo matéria-prima “virgem”
a menor custo do que os reciclados.

volume 10, número 2, maio • agosto 2006

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tamente poluentes enviados pelo os cofres públicos. Em conseqüên- – especialmente dos associados e
“lixo”. Outra confirmação do assumir cia, facilmente uma organização que, associadas que se encontram em um
gradativo da cultura ambiental dá-se na prática, é muito mais do que uma nível mais baixo – poderá ser um fator
no diálogo com os grupos de visitan- empresa contratada para realizar de- dinâmico em vista de uma formação
tes que vêm conhecer o trabalho. Fo- terminado serviço público pode ser integral, para além dos saberes ne-
ram centenas de grupos, alunos, es- descartada. Consideramos que a As- cessários na rotina cotidiana do tra-
colas, pessoas de outras organizações sociação se constitui num dos reais e balho de reciclagem.
e grupos comunitários que acorreram potenciais instrumentos para tornar
e certamente saíram da Usina diferen- Dois Irmãos uma cidade educadora, Conclusão
tes do que entraram ao ver o trabalho cujo objetivo é contribuir na forma-
e dialogar com os recicladores e reci- ção dos cidadãos em torno dos direi- O trabalho com materiais reciclá-
cladoras. tos e obrigações com respeito à soci- veis na experiência da Associação dos
Assim também a participação de edade, em vista de uma ação partici- Recicladores apresenta-se como por-
representantes da Associação nos pativa e transformadora desta (Cabe- ta de entrada e saída. Para os recicla-
Conselhos do Meio Ambiente e da zudo, 2004, p. 13). E, no fim de cada dores e recicladoras, o trabalho signi-
Saúde do Município, a animação do contrato, frente a uma nova licitação ficou uma imersão na problemática do
Fórum Lixo e Cidadania da Cidade, a ronda o risco da descontinuidade de meio ambiente e uma inserção no vas-
presença dinamizadora nos Fóruns de um projeto de reciclagem e educação to campo da educação ambiental e da
Economia Solidária e articulação das ambiental que se tornou referência no economia solidária. Através de uma
Associações e Cooperativas de reci- Estado do Rio Grande do Sul. organização alternativa, construiu,
clagem do Vale dos Sinos etc. têm sido Com relação aos desafios, desta- sobretudo, um espaço solidário de tra-
espaços fundamentais na caminhada. camos a proposta do grupo de ampli- balho associado que oportuniza a vi-
Mas, sobretudo, a presença educati- ar gradativamente o processo de be- vência de saberes emancipadores que
va nos diversos espaços da cidade neficiamento dos materiais reciclados extrapolam o ambiente da Associação
foi um compromisso assumido com para chegar ao produto final. A meta é e do município. A participação em es-
um espírito de gratuidade decorrente chegar à industrialização e produção paços externos trouxe mudanças para
da opção pela causa ambiental. De de bens acabados para oferecer ao o grupo, ao mesmo tempo em que a
outro lado, reconhecem que se tratou mercado. Mas para isso é preciso en- Usina de Reciclagem tornou-se um
de um investimento que retornou po- frentar a questão técnica: com quem espaço aprendente sobre a questão
sitivamente, por exemplo, na qualida- contar para obter máquinas e proces- ambiental. O trabalho favoreceu a
de da separação dos materiais, no sos adaptados às necessidades? Jun- muitos aprendizados para os recicla-
apoio que a Associação tem recebido to com isso vem a conquista de crédi- dores e recicladoras. Mesmo num
pelo trabalho da reciclagem e educa- to para subsidiar investimentos de contexto desfavorável, no que tange
ção ambiental. Além de divulgar a or- maior envergadura. Tais perspectivas à luta pela sobrevivência do empre-
ganização e o trabalho da Associa- desafiam a criatividade e a participa- endimento dentro das regras exclu-
ção, tal intervenção ampliou sua legi- ção de todos e todas. dentes do mercado capitalista, a As-
timidade, reconhecimento e, em últi- Frente a essas e outras questões, sociação firmou-se no trabalho asso-
ma análise, garantiu a sua sustentabi- considerando a baixa escolaridade do ciado, com as pessoas se realizando,
lidade. grupo, surge a necessidade de elevar gostando da atividade que fazem. E,
Finalizando esta sistematização o seu nível. Entendem as lideranças nesse processo, elas se tornaram
reflexiva sobre a experiência da Asso- que isso pode contribuir para criar multiplicadoras individuais e coleti-
ciação dos Recicladores de Dois Ir- condições de ampliar a competência vas em múltiplas iniciativas que abrem
mãos, levantamos alguns desafios, e autonomia dos sujeitos trabalhado- a possibilidade de Dois Irmãos tor-
algumas preocupações ou contradi- res, enquanto capacidade de um fazer nar-se uma cidade educadora.
ções na atual fase da caminhada. pensado, consciente. No trabalho da O presente texto possibilitou a
Na questão política, um dos aspec- Associação os saberes necessários sistematização e a reflexão sobre a
tos mais preocupantes na relação com são os da compreensão do fluxo e prática. Entendemos que a amplia-
o poder público municipal tem a ver destino correto dos materiais, bem ção dessa capacidade de reflexão
com a lei das licitações. Esta se orien- como do conjunto de relações inter- será fundamental para concretizar a
146 ta por critérios quantitativos. A esco- nas e externas à associação. E nesse possibilidade de trilhar por caminhos
lha do prestador de serviço é feita a sentido, somado ao processo de for- emancipadores. Em vista disso, o
partir da oferta do menor custo para mação interno, a maior escolarização grupo dos trabalhadores e trabalha-

Educação Unisinos

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Saberes da experiência no trabalho associado - Associação dos Recicladores de Dois Irmãos

doras precisa ampliar a compreensão In: M. GADOTTI; P.R. PADILHA e educação do trabalhador. 4ª ed., São
do projeto político da Associação. A. CABEZUDO (orgs.), Cidade Edu- Paulo, Cortez, 195 p.
cadora: princípios e experiências. São MICELI, S. 1992. Introdução: A força do
Constatamos que há pessoas ainda
Paulo, Cortez, p. 11-14. sentido. In: P. BOURDIEU, Economia
limitadas nessa compreensão, que
FISCHER, M.C.B. 2004. Notas sobre sa- das trocas simbólicas. São Paulo, Pers-
não têm clareza. Por isso, ainda não beres da experiência e a constituição pectiva, p. VII-LXI.
assumem seu protagonismo. Ficam de empreendimentos econômicos soli- RAZETO, L. 1999. Economia de solidarie-
dependentes. Daí a importância da dários. Ciências Sociais Unisinos, dade e organização popular. In: M.
contribuição efetiva dos membros 40(164):139-151. GADOTI e F. GUTIÉRREZ (orgs.), Edu-
que já tiveram uma maior oportuni- FISCHER, M.C.B. e ZIEBELL, C.R. 2004. cação comunitária e economia popu-
Saberes da experiência e o protagonismo lar. 2ª ed., São Paulo, Cortez, p. 34-58.
dade de compreender e incorporar o
das mulheres: construindo e desconstru- SINGER, P. 2002. Introdução à econo-
projeto da Associação. Esses têm indo relações entre esferas da produção mia solidária. São Paulo, Fundação
sido e poderão continuar sendo edu- e da reprodução. In: I. PICANÇO e L. Perseu Abramo, 128 p.
cadores e educadoras junto a seus/ TIRIBA (orgs.), Trabalho e educação: TIRIBA, L. 2004. Ciência econômica e
suas colegas, através de uma prática arquitetos, abelhas e outros tecelões da saber popular: reivindicar o “popular”
de envolvimento, participação e for- economia popular solidária. Aparecida, na economia e na educação. In: I.
Idéias & Letras, p. 55-74. PICANÇO e L. TIRIBA (orgs.), Tra-
mação democrática.
FREIRE, P. 1976. Educação como práti- balho e educação: arquitetos, abelhas
ca da liberdade. 6ª ed., Rio de Janeiro, e outros tecelões da economia popu-
Referências Paz e Terra, 150 p. lar solidária. Aparecida, Idéias & Le-
FREIRE, P. 1996. Pedagogia da autonomia: tras, p. 75-101.
ADAMS, T. 2005. Vivendo e reciclando: saberes necessários à prática educativa. TIRIBA, L. 2006. Entrevista. IHU On-
Associação dos Recicladores de Dois 29ª ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 148 p. line, 5(173):65-67.
Irmãos ajudando a preservar a natu- GUTIÉRREZ, F. 1999. Alcances educativos VENDRAMINI, C.R. 2004. Experiência
reza. São Leopoldo, Oikos, 88 p. do “fator C”. In: M. GADOTI e F. humana e coletividade em Thompson.
BOFF, L. 1999. Saber cuidar: ética do GUTIÉRREZ (orgs.), Educação comu- Esboços, 12:25-36.
humano – compaixão pela terra. 4ª nitária e economia popular. 2ª ed., São
ed., Petrópolis, Vozes, 200 p. Paulo, Cortez, p. 98-116.
CABEZUDO, A. 2004. Cidade Educadora: KUENZER, A.Z. 1995. Pedagogia da fá- Submetido em: 02/08/2006
uma proposta para os governos locais. brica: as relações de produção e a Aceito em: 11/08/2006

Telmo Adams
Unisinos, RS, Brasil
Roque Spies
Associação dos Recicladores de Dois
Irmãos, RS, Brasil
Maria Odete Faustino Spies
Associação dos Recicladores de Dois
Irmãos, RS, Brasil
Jair José Gromoski 147
Associação dos Recicladores de Dois
Irmãos, RS, Brasil

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