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/li/ I em grande escala de um regime marxista revolucio nário contra

Introdução
o utro,' a inves tida da China no Vietnã, em fe vereiro, logo confi r­
mo u o precedente. Apenns alguém muito créd ulo se at reve ria a
.lpostar que, nesses últimos anos do século xx, algu ma eclosão sig­
nific ativa de hostilidade en tre Estados haverá de encontrar a Unj ão
Soviética e a Re públi ca Popular da China - sem falar dos estados
soc ialistas m enores - se apoiando o u luta ndo do m esmo lado.
Quem pode ter cer teza de que a Iugoslávia e a Albânia não irão se
digladi ar algum dia? Esses gru pos heterogêneos que ped em a reti­
radd dos acampam entos do Exército Vermelho da Europa O rien­
tai deveriam lembrar o quanto a presença esmagadora dessas forças
vem, desde 1945, impedindo o conflito armado entre os regimes
marxistas da região.
Essas observa ções serVC'D para ressaltar o fato de que, de:;de
Talvez, sem ClUe tenha sido muito notada, esteja ocorrendo uma ,ISegunda Guerra Mundial, todas as revoluções vitoriosas se defi­
tr31~ sformação fundamental na história dO .narxismo e dos movi­ nira m em termos nacionais - a República Popular da China, a
mentos marxistas. Os sinais m ais visíveis são as guerra s recentes Rep ública Socialista do Vietnã e assim por diante - e, com isso,
entre o Vietnã, o Camboja e a China. ';-:,sas guerras são de impor­ se firmaram solidamente num espaço territorial e social herdado
tância histórica mundial por serem as primeiras a acontecer entre
regimes com indep endência e credenciais revolucionárias inques­ 1. Escolhi essa formul a(,-ào apenas para ressaltar a escala e o es til o do combate, e
11 ,10para atribuir culpas . Para evitar possíveis mal-entendidos, cumpre dizer que
tio náve is, e também porque nenhum dos beligeran tes fez q ual quer
a in vasão de dé'l.embro de 1978 res ultou de confrontos armados entre partidários
tentativa que nã o fosse extremamente su perficial pa ra justificar a dos do is movimentos revolucionários, possivelmente (ksde 1971. Depois de abril
carnificina nos termos de uma perspectiva teó rica que se pu desse de 19 77, os ataques nas fro nteiras, iniciados pelos cambojan os, mas rapidamen ­
reco n hecer como marxista . Se a in da era possível interpretar os k ad otados pelos vi etnamit as, aumentaram em tamanh o e objc'ti vo,culminando
n.1 grande incursào do Viet nã em dezembro de 1977. IVlas nenhum desses at aqu es
co nfl ito!> de front eira sino- soviéticos d e 196 9 e as in ter venções
rrt'k'n dia de rr ub ar regim es inim igos ou ocupar grandes territó ri os, <' o número
m ili ta res soviéticas na Alemanha (195 3), Hu ngria (19 56 ), Ch e­ de soldados envolvidos tam pouco se comparava à quantid ade de tro pas utiliza ­
coslováqu ia (19 68) e Afeganistão (1 ~8 0) com o - dep end endo das em deze mbro de 19 7R. A contrové rsi a so bre as causas da guerra t' apresenta­
do gosto - " imperialis mo sociausta", "defesa do socialismo" etc , da de forma muito ponderada em: Stephcn P. Heder, "Th c kampu chca n- vic lna­
mese co nflicl", in David. W. P. Elliott (org.), The thi rd lndo chil lll cullflirt, pp. 21-67 ;
ni nguém, im agino eu, acredita seriamen te que esses ter mos pos­
i\nllwn )' Barnett, "lnter- co m m u nist conf1icts and VieLnam", Ru/letin ofco17cerned
:;am ler mui to cab imento di ante do q ue oco rreu na Indochina. Se ;";clIIsch ol"rs, 11:4 (outub ro -dC"1.cmb ro 19 79) , pp. 29; e Laura Summ crs, "In mat ­
a invasão e a ocupação vietnamita do Camboja, em deze m bro de ln s of \var anJsocialism Anth on)' Barnett wo uld sha mt: and hono ur Kampuchea
1978 e j an~iro d e 1979, rep resentaram a primeira guerra convencio­ ton m uc h", ibid., pp. 10-8.

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Jo pas'ia d o pre - revo lu cioná rio. Inversa mente, se a Un ião So­ .lbrange n te texto em língua in glesa sobre nacion alism o, e herdeiro
\ i éli~(1 d ivide co m o Reino Unido da Grã -Bretanha e Irl a nda do de urn a vasta tradição liberal d e his toriognlfia e ciência s sociais ,
Norte a rara d istin ção de nã o m enci o nar nacion a l i d ade ~ em se u ob~(' r v a com pe.sa r: "Assim eu sou levado a co ncl uir que não é pos­
nn m e, isso sugere q ue el a é não s6 a he rde ira d os estad os dinásti­ slvcl elabora r nenhuma 'defi nição ci en tífi ca' de n ação ; m as ü fenô­
cos p ré- n acionai s, m as ta mb ém a prec u rso ra de uma o rde m m eno exis tiu e con tinua a exi stir ". ~ To m Nairn , autor do in ovador
internac io nal ista no spculo XX I. ­ ri/(! Break-up ofHritain, c herd eiro de uma tradição q uase tão vasta
-r ic Hobs baw m tem plena ra zão ao afirmar q ue "os m ov i­ de his to riogra fia e ciências so ciais m arx istas, d ecla ra com a ma ior
m entos e estados m arxistas têm mostrado a tendência de se to rna­ sinceridade: "A teoria do nacionalis mo representa a grande falha
re m nacionais não só na fo rma, m as também no conteúdo, ou seja, histó rica do m arxism o".' Mas m esmo esse reconhecimen to é um
nacio nalistas. Nada ~ u gere que essa corrente não haverá d e conti­ tan to enganador, pois pode-se e ntendê-lo como se estivesse refe­
nUM".' E essa tend ência não se restringe ao mundo socialista. As rindo -se ao deplorável resultado de uma lo nga e deliberada busca
Naçõ es Un idas admitem no vOs m em b ros praticamente to dos os de clMeza teú rica. Seria m ais correto di zer que o nacionalismo
anos . E muitas "nações antigas", tid as co mo plen am ente co nso li ­ del11o nstrou ser uma ano malia incôm o da para a teu ria marxista e,
d ad as, vêe m-se desafiadas po r "sub"-naci o nal ismos em seu p ró ­ justa mente por isso, pre fe riu -se evitá -lo, em vez de en frentá -lo. De
pr io territó rio - nacionalismo s estes, cla ro, que son ham com que ou tra ma ne ira se ex plicaria por qu e Marx não escl areceu o

algum futuro fel iz, livres dessa co ndi ção de "sub". A realid ad e é prono m e possessivo cruc ial na sua memorá vel formulação de

muito simples: não se enxerga, nem remotamente, o "fi m d a era do lMS: "O proletariado de cad a país d~ve , natural mente, ajustar
contas antes de mais nada com a sua própria burguesi a? ": De que
naci o nalismo", que po r tanto tempo fo i profetizado. Na verd ade, a
outra ma neira, tam bém, se explicaria por q ue o co ncei to de "bur­
co ndi ção nac io nal [n at ion -ness] é o va lor de m aior legit imidad e
gues ia naci o nal" foi uti lizado por mais de um século se m nenhu ma
un iversa l na vid a política dos nossos tem pos.
tentat iva séria d e justifi car teoricam ente a pertinência do adjeti vo?
Mas, ~e 0 5 fatos são cla ros, a expl icação deles contlnu a sendo
Por q ue essa segmen tação da burguesia - LU11a classe m u ndIal, na
objeto d e LI m a longa d iscussão. Nação, nacionali da de, nac ion alis­
med ida em q ue é d efi nida pelas relaçõ es de p ro du ção - tem
mo- todos pro va ram ser de di fi cíli ma definição, que di ní d e aná­
imrnrtância teórica?
I ise. Em contraste com a eno rme in fl uên cia do n acio n al i~ mo sobre
Este livro pretende o terecer, a título d e ensaio, algum as id éias
o mundo moderno, é no t.ível a escassez de teorias plau síveil> sobre
ele. Hugh ~cto n - Watwn , au tor do que ~ lon ge o m elh o r c o m ais
·1, V.'r () li vro NU l iom aI/ri srll l f; , p. 5. Grifo meu .

s· Vc r q art igo ·' lhe motlnn )anus", NI'I\' lefi rCI ·;cw. YI ( nll\'cm b ro -Jczcm hro

l. Q uem tiver alguma dúvid,l so bre as prcte n,<1c;, do Re ino Un ido quanto a es'a 1'1 75) , 1'. -> . Este rmJ i" fui in cluído ~e m all Naç{)cs no li vr<) lh e' hl"l'ilk - /Ip of
p.triJclclc com a Uniü o Soviélica que se peq, Ul1 l": : q ual a rlac io ll :1licl;Joe d c..~ i g n ad a /1rt(ll ill,COIllO capítul o l) lp p. 329 ó3j.

pelo Sl! 1l110mcl' Grã- Bri lo- lrI.\l\ocSa' (', ~M I ;o"tar, c l ried rich Engels. n /c C<111// 1//l/I i; t 1llCI ll ifó t o , in <;dedfrl \V(Ir!.~. I , p.

3· !'r ic Ilolh bJwm , ·'''ome rdl ec ti ' \l1s on ' 1' h(' brea k-up of BritJi n' ". Nt·w Lert -l:;. Crif" me u. I.m l( u:lltluer exegese teó rica, a palav ra " nal ural men le" d evc ri a

UC\ ·i!·w. l uS (,>delllb ro -outub ro 1977 ). p. 1J . ,K('ndcr UIll..! luzinha ve rmelha OC~L1 c rr a pa ra o !rito r elll us i", m,ldn.

2íl 29
para uma interpretação mais satisfa tó ria da "anomalia" do nacio­ CONC E ITOS E DE H NIÇÕE S

nalismo. A miJlha impressão é que tanto a teoria marxista qu anto


a liberal se es tiolaram num derrade iro esforço ptolemaico de "sal­ Antes de encaminhar as questões levantadas anteriormente,
var os fenômenos". Creio haver u ma necessida de urgente de se reo­ seria aconselhável avaliar rapidamente o conceito de "nação" e ofere­
r ientar a perspectiva dentro de um espírito, por assim d izer, coper­ cer uma definição operacional. É freqüente a perplexjdade, para não
nic an o. O meu pon to de part ida é q ue tan to a na cio nalidade - ou, dizer irritação, dos teóricos do nacionalismo diante destes três para­
co mo talvez se prefira dizer, dev ido ao s m últi p los significados doxos: ( 1) A modernidade ohjetiva das nações aos olhos do historia­
desse termo, a cond ição nacional [nation-ness]-qua nto o nacio­ dor versus sua antigüidade subjetiva aos olhos dos nacionalistas. (2) A
nalismo são produ tos culturais específicos. Para bem ente ndê-los, universalidade formal da nacionalidade como conceito sociocultural
- no mundo moderno, todos podem, devem e hão de "ter" uma
temos de considerar, com cuidado, suas origens históricas, de q ue
maneiras seus significados se tran sformaram ao longo do tempo,
nacionalidade, assim como "têm" este ou aquele sexo - versus a par­
ticularidade irremediável das suas manifestações concretas, de modo
e por que dispõem, nos dias de hoje, de u m a legitimidade emocio­
que a nacionalidade "grega" é, por definição, sui generis. (3) O poder
nal tão profunda. Tentar ei mostrar que a criação desses produtos,
"político" dos nacionalismos versus a sua pobreza e até sua incoerên­
no final do século xVIII/ foi uma destilação espon tânea do "cruza­
cia filosófica. Em outras palavras, O nacionalismo, ao contrário da
mento" complexo de d iferentes forças históricas. No entanto,
maioria dos outros "ismos", nunca gerou grandes pensadores pró­
depois de criados, esses produtos se tornaram "modulares", capa­
prios: nenhum Hobbes, Tocqueville, Ma rx ou "Veber. Esse "vazio" cria
zes de serem transplantados com diversos graus de autoconsciên­
certa con descendência entre os intelectuais cosmopolitas e poliglotas.
cia para uma grande variedade de terre nos sociais, para se incor­
Alguém pode logo concluir, como Gertrude Stein diante de Oakland,
porarem e serem incorporados a uma va riedade igualmente
que não há "nenhum ali ali" [no there there]. É exemplar que até um
grande de constelações políticas e ideológicas. Tentarei mostrar
estudioso tão simpático ao nacionalismo quanto Tom Nairn possa,
tamhém por que esses produtos culturais específicos despertaram
mesmo assim, escrever que: "O 'nacionalismo' é a patologia da histó­
apegc:. tão profundo.
ria do descnvolvimen to modern 0 , tão i nevitávcl quanto a 'neu rose' no
indivíduo, e q ue guarda muito da mesm a ambigüidade de essência, da
tendência interna de cair na loucura, enraizada nos dilemas do
7· Co mo nota Aira Kemilainc n, os d ois"pais fundadores" dos estudos acadê micos desampa ro imposto à ma ior parte do mundo (o equivalente do infan­
so bre o nacionalismo, Ha ns Kohn e Carleton Haycs, defenderam ess~ 0JtJÇÚO de
tilismo para as sociedades), sendo em larga med ida incurável': 8
maneira muito convinccDte. A m eu ver, suas co nclusões não chega ram a ser obje­
to d e sér ios debates, a n ão Ser p or ideól ogos nacionalistas em determ inados paí­ A dificuldade, em parte, consiste na tendência inconsciente
se.,. Kem il j int' n tJm bém observa qLle o uso do termo "nacionalismo" gt:nerali­ que as pessoas têm de hipostasia r a existência do nacionalismo­
(olI-se no fi na l do século XI X. N,lo aparecia , por exemplo. em muitos dicionários com -N -maiúsculo (como se alguém pudesse ter umn Idade-com­
oitoccn ti st ClS correntes. Se Adam Sm ith invocou a riqueza das " na ções'; foi par a se
refe ri r apen as a "socied;!des" o u "estados". Aira Kel11ilain en, Natiollulism , pp. lO,
33 e .18- 9. 8. TlII: Im:llk-up ofBrit aill, p. 359.

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I -nu i (Iscul o) e, en tã o , de classifi cá- "1 0" como uma ideo logia. form ulação c que Gellnc r está tão afli to para m ostrar que O ndCJ(· ­
(NOla-~c ~lu e se tod os têm u ma cer ta id ade, a ldade é a penas uma nal ismu se mascara sob fa I sa~ aparên cias,que ele identifi ca " inve n ­
expressão a na lÍlica .) Penso que valeria a pena tratar ta l co nceito çào" com "contrafação" e " fa lsi d ade", e não co m " imagina\:ão" e
do mesm o modo que se trata o "paren tesco" e a " religião", em vez "criação': Ass im , ele sugere, im plic italllcntc, qu e existem cOl11 uni­
d e colocá- lo ao lado do "liberalismo" o u do "fascism o". dades"verdauc iras" que, nu m cotejo com as nclçõcs,se mostrar iam
Assim, dentro de u m esp írito antropológico, p ropo J1h o a se­ melhores. Na verdade, q ualquer com unidade ma io r que a aldeia
guinte definição d e nação: uma co munidade polí t ica im aginada ­
pr imord ial do conta to Cace a face (e talvez mesmo ela ) é imagi na­
e imaginada como sendo intr insecamente limita.da e, ao mesmo
da. As comunidades se disti nguem não por sua falsiJ adda u tent i­
tempo, soberan a.
cidade, mas pel o estilo em que são imaginad<ls. Os aldeães javane­
Ela é imaginada po rq ue mesmo os me mb ros da mais minús­
sessemp re so ubera m que estão ligados a pessoas que n unca viram ,
cula das nações jamais conhecerão, enco ntrarão, ou sequ er ouvi ­
mas esses la-;os eram, () nl igame nte, imagi nados d e maneira parl i­
rão falar da majo ria de seus co m panheiros, embora tod os tenham
(ularista - como redes de pa.rentesco c cl ientela COI11 pass íveis de
em mente a imagem viva da comun hão entre el es.~ Era a essa ima­
t:xtensão in dckrminada. Até tcmpos bem recentes, o idi oma java­
gem q ue Rena n se referia quando escreveu, com seu jeito levemen­
nés n ão tin h a n enh uma palavra q ue designasse a abstração "socie­
te irônico: "Or l' essence d'une nation est que tous les ind ividus
dade". H oje em dia, podemo s pensa r na aristocrac ia fran cesa do
aient bea ucoup de choses en comm un, et aussi que tous aient
iJIl CiCIl rég i /ll c CO 1110 uma cl asse, m as ccrtamen te ela só fo i imagi­
oublié bien des choses » l Ora, a cssência de uma nação cons iste em
nada desta m aneira em ~ po ca bas lan te adia ntada. ' Diante da per­
qu e todos os ind ivíd uos tenham m uitas co isas em comum, e tam­
bém que todos tenham esquecido muitas coisas] .'" Gellner diza lgo gunta: "Quem é o cond e de X?", a resposta norm al não ser ia " u m

parecido quando d ecreta, com certa feroc ida de, que "O naciona­ ml'mbro da a ristocracia", c sim "o sen hor de X", "o tio da baronesa
lismo não é O despertar das nações pa ra a autoconsciência: ele de Y" ou "u m cliente do duque de Z".
inventa nações onde elas não existem".I Mas o inconveniente dessa Imagina -se a nação limitada po rq ue mesmo a m aior delas,
que agreg ue, digamos, um bilh ão de habita ntes, poss ui frontciras
y. C f. 5eton- Watso n , Ntll ions {/nd states, p. 5; "A única coisa que posso di ze r é que lin ít as, a in d a que elást icas, p a ra além das quais existem o u tras
u ma n açã o ex is te quando pe~soas em núm ero sign ifi ca tivo de uma comunidade llaçÔt:s. Nenh um a delas im agina ter a mesma exten são da hu mani­
~ e consideram fo rmando uma naçã o, o u se comportam como se formassem
uma". Podemos traduzir "sc co nsideram" por "se imaginam ".
1.1de. Ne m os n aci onal i ~ta s ma is m ess iân icos sonham co m o d ia
10. Ernest Renan, "Q u'cst-ce qu' une nalion?", in Oel/ )'res f Oll/pletes, 1, p. 892. E ' 111 que to dos os m em h ros da es pécie huma na se un irão a su a
acrescenla ;"to ut ci to ye n françai s doit avo ir o u blié la Saint -13a rthélemy, les mas­
sacres du M iJi a l1 Xlll e sii:cle. Il n'y a pas e n Francc dix fam illes qui pui sscnt four­ 12.ll "hsbawfll , por exe mp lo , " lI xJ " n ;ll"i,toc r.lci3 com o cla s ~l" ao diz..: r qU t·, em
ni r la preuve d' une o rigine fran q ue ..." [todo cidadão francês deve ter esquecid o a IiiN • .: Ia .:o n sisti a em \.I:n.a d~ <100 mil P<=SS(ht, num a po p ul ,lçüo de 23 milhuo .
ll(l ile d e Sã o Ba rloln llleu, os massa cr l~ S do Sul no sendo XIII. Não ex is tem na (Vcr \) ~e u li\ [(J Th e A.~c o! Rrro/l/tieJ//, p. 7R . [i\ rra das revohlçó.:S, EI/rol'l/ /789
Fr'If1<;,\ dez fam ílias que possam oferecer prova s de uma o rigem franca ... ]. /.~·IR, 1'.11 <: Te rra, 19771.) Ma~ l·~se quadro est;lt lSlico da nob reza seria im agin áve l
l. rn esl Cd lnt'r, rlio uglll {/rtdchallge, p. 169 . Grifo meu.
11 . \oh o <lr/f/ ,' 1I rég/l/l e?

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nação, como por eXe mplo na época cm q ue os cri.; taos pod iam
sonhar co m um planeta total mente cristã v •
1. Raízes culturais
Imagina -se a naçã o soberalltl porquc o con ceito nasce u na
época em que o Iluminismo c a Rc:vo luçào estavam destru indo a
Icgiümidade do reino diná st ico hierá rqu ico d e ordem d ivin a.
Amad urecendo nllm a fase da história hum ana em que m esmo os
adeptos m ais fervorosos de qualquer religião universal se defron­
tavam inevitavel men te COI11 o pl1lralismo vivo dessas rel igiões e
com o alomorfism o entre a~ pretensões ontológicas e a extensão
terri to rial d e cada credo, as nações son h am em ser livres - e,
q uando sob dominação divina, então d iretamente so b Sua égide.
A ga_ra ntia e o emblema dessa li berdade é o Estado Soberano.
F, por último, ela é imagin ad a como urna comw lidade por­
q ue, independentemente da desigual dade e da exploração efetivas
q ue possam existir dentro dela, a nação sem pre é co ncebida corno Não existêITI sí mbolos m ais impressionantes da cultura mo ­
u ma profun da camaradagem horizo ntal. No fu ndo, foi essa frater­ dern a do nacionalismo do q ue os ceno táfios e túmulos dos solda­
nid ade que torn o u p ossível, nestes dois últi m os séculos, tantos dos desconhecidos. O respeito a cerimônias públ icas em que se reve­
m ilhões de pessoas tenham- se não tanto a matar, mas sohretudo a r~n ci am esses monumentos, justam ente porque estão vazios o u
mor rer por essas criações imagin árias lim itadas. po rque ning uém sabe q uem jaz dentro deles, não en con tra
Essas m ortes nos colocam bruscamen te diante do problema ne nh um paralelo verdadeiro no passado. ' Pa ra sentir a força dessa
central posto pelo nacionalism o: o que faz co m que as parcas criações mo d ern idade, basta im aginar a reação geral di an te do suj ei to
imaginativas da histór ia recente (pouco mais de dois séculos) gerem in trometido que "descobre " o nom e d o soldado descon hecido ou
sacrifícios tão de:-com unais? Creio que enco ntraremos os primeiros que ins iste em colocar algu ns o~sos de verdade den tro do cenot" ­
co ntornos de u ma resposta nas raízes culturais do nacionalismo. fio. Es tranho sac rilé gio co n temporâneo! f , n o entanto , esses
tú mul os sem almas imortais nem restos mortais identificáve is
den tro dcles estão carregados de image ns naciol/ais espectrais.- (É

1. (h gre ~os ant igus tinham ce no l3Ji()s, mas pa r'l indiv íd uos específicos, d e id en­

I idade co nhec ida, e cu jos cor pos, p or uma razão ou o ut ra. 11 :10 puderam receher

Ll m~ nt e rro no rmal. JJevoes ta informaç50 à minha colega Judith Herri n, es tudio ­

sa de lIil.à n,·io.

~. C:"n~ idçrç m - se , po r f" xc mplo, essas ll otiÍvc is expressões: a. "Os irlll ãos de a rmas

I!UnL .I no, fa lt al-am _Se o fi l essem, um milhã o de es pect ros em verd e-o iiva panio,

34 35
por iSSl) que tantas nações d ifcren tes têm esses túm ul os sem senti r tC llhlS\:spt.:cífi cos de domi nação e exploração ) é a SU<l preocupação
ne nhum,t necessidade de c:-.pccific<lr a nacio nalidade de seus ocu­ co m () ho mem- no-universo, o homem enquanto espécie e cont in­
pantes auscntes. O que mais potleriam ser, 5(/ 1\'0 ak mdes, ameri ca­ gl' ncia da vi da. A ext rao rd iná ria so brevivência do bud ismo, do
nos. argen ti nos etc. ?) (ri~ti<lI1 is l1l o ou do islamismo ao longo de mi lênios, e em dezenas
O sign ificado cul tural desses monumen tos Ii caní ainda mais de for mações sociais d ireren tes, comprova li ma capacidade de res­
c1él ro se te ntarmos imagi nar, por exem plo, um lúmulo do "ma rx is­ posta imaginativa ao tremendo peso do sofrimento hum ano - a
ta desconhecido" ou um ccnoláfi o para os "liberais tombados em doença, a mutilação, a dor, a velhice, a mo rte. Por que nasci cego?
co mbate". Não seri a um abs urdo? O m ~lrx ism o e o li beralismo não Por que o me u mel hor amigo fi cou para lí tico? Por q ue a mi nha
se importam mu ito com a Inorte e a imo rtalidad •.'. Se o imagmário irm.' é retardada? As religiões ten tam expl icar. O grande pon to
nacionalista se importa tanto com elas, isso sugere sua grande ~fi­ fl"<h.:O de todos os estil os de pensam ento evolucionários/progressi
nidade com os imaginários religiosos. Co mo essa afinidade nada vos, in cluindo o marxismo, é que eles respo nde m a essas pergun­
tem de fortu ito, talvez val ha a pe na inicia r uma ava liação das ra í­ tas COI11 um silêncio impaciente:' Ao mesmo tel11po, e de diversas
zes cullurais do nac io nalismo pela mo rte, o último elemento ele maneiras, o pensam en to religioso ta m b~m dá respostas sobre as
Ul11 cJ sé rie de fatalidades. ohsclI ras insin uações de imo rtal idade, ge ral mente tran sfo rma ndo
A maneira de um homem morrer geralmente parece arbit rá­ H fatali dade em con tin uidade (kamUl , pecado originnletc. ).Assim,

ri el , mas sua mo rtal idade é ine\ itável. As vidas hu manas estão a re ligião se interessa pelos vínc ulos entre os mo rtos e os ainda
-he ias dessas co mbi nações entre acaso e necessidade. Todos sabe­ não-nascidos, pelo mistério da rc-generação. Quem vive a co nccp­
mos qu e nossa herança genética pessoal, nosso sexo, a época em 'tão l' () nascime nto do se /l pró pr io filho se m apreen d er difll sa ­
que vivemos, nossas capacidades físicas, lí ngua materna, e a&!>im mente lima mescla de ligação, acaso e necess iddde em lingua gem
por diante, são fato res co nlingentes e inelutáveis. O gra nde mér i­ de "continuidade"? (Aqui, de novo, a desvantagem do pensamen­
lO das concerçõe~ religiosas tradi ciona is (o tlu al , nalural me nte,
não deve ser confu ndid o co m o papel delas na legitimação de sis ­ .1. Cf. Rl;gi~ lk bray, "l\ h rx i~m <l nd I h ~ national q uestion", Nell· l.err NCl'lt'IV, J 05
°
(sc kmhrll-o utubro 1977), p. 29. I )lIfantc I11 ~ U trabal ho de campo na Indonésia,
d ql\i . ma rrom , .llU l e cinja. sr levan tariam d ~ s uas láp ides h r,l ll CdS trovejando l1il dé<.Hl a d.: óO, fique i chocado (0111 a tranqü ila llcgJ ti l'<1 de muitos llluçulmJnu,
c"a, p,ll.lvra s 11\.ígi":dS: De w I", honra , p,ít rb "; b. " O mel! Ju íw lsnhre o ,(l Idado ~11' ,ll~'il <1 r ,IS
idéias de Darwin. Nu co meço, interpretei essa negaIi\'J C(l mo obs..: u
r.lIlt l~ll1n .Depois vi que cra lima h:nlativ;l lo uvável de l1lJnlcr a ()crl'll cia: a dou­
:\nlcric,lno I ,e (armou 1111 .:a 111 po dt" bat,úha há Ill u itus e lll 11itllS allOS, e llUIlCi1 se
[1 lIhli fi.;o li . Lu li 1' 1,1 cnt Jo, com() o vei o ago ra, como ullla das ligu rJS mais nobres
trina d,) evoluçao era ~ im p l .:s me n lc i n \.~l m pa livd com os L:ns inalllf ll li\S do islã. O
.I., lll U ndo; 11 <10 ~O como uma das pl'l'so nal idades nl i li t J re~ ma i, sele tas,l11 il' ta m­ ' tuc IMer ':')1l1 UI I1 ll1 a l criali ~m o cicnlílic,\ que aCl' ita formalmente .15 des(obn tas
hc' m como um.l da, Il1 d is imaculad.t>; I~ ic I... ri r f'ertc ncc:l h l~t('r ia I'(l [ dar 11 rn dus d,1iísil.'1 ,()h r~· . 1 mak ria, rna~ que se <'mpcnha lão puu(O (:111 vincular lai, dcscohcr
m,l iofCS eXl'mp lo, tI<: pat ri(lti 'll1o vitll ri ()5P I~ i ,- ) . Ek pc r lt' ll ( l".\ p(\~ t cr i d..lde \ a~ li lU1 1d..." I""CS •.I rc\·ol uçà(l. ou ao q ue lor? ~cr:i q ue o ahismo enlre os pró tons
como il1'otr uto r de gc! raçüc\ futur a.. nm, prind pio, da li bl' rd:lde l" indl'[lc: nJé n(ia. r. o I'tol\·lnri.1ÚC) 11.10 oc ult:1 ul11 a cksconhecidu CO I1CCpç;\O metafísica do hOl1l ell1'
Lle p~ rt cn~e .10 l' rl'~e nlL, d nós, l1(lr ~lHh v i rtllde~ t' rcali /.,l.,:ik s." Uouglas t\IJ\ \l·j.lIn-st." os II1tcrCSSJll ll'S textos Je ScbnSliolll\l1l m pan aru, O '/II/(/tcritl !iSJIl l'
II,luto\ rlh ur," Outy. I IOIl'lLlr ('ollnt ry': di,(u f'o\) p cl ri! a }\c.ldc m iJ ;\ IililJ r t\ meri­ TIt.· flL'lld/(/1I ~/lp, c a rcs po~tJ pondL:rad<l de Raymond Wi lli.um :1 eles, em "Timl'a
~anol. \ \ ,"1 [>"1111 . I :!. dc: maio ,Ir 196 2. L:11l sclt ",\ so ltli er spc.lks'; pp. JS'I c 357. 11.\1"0\ 111,lkri.llist dlllJ Icng.:".•'I;CII' l.cft Ikl'J. ·W, 109 (I11Ji('-junl1o 19 78), pp. _~ - 1 7 .

36 37
to cvoluciomírio/ p ro gressivo é s ua aversão quase heraclitialla a ,1 indd m a is im porta nte, ~cguem rumo a um fut uro il im itad o. 1:. a
qualquer idé ia d e co ntin uidade.) nl<lgia do nac io nalismo qu e converte o acaso em d esti no. Po d em os
Faço essas o bserva ções talvez simplórias principalmente por ­ di/c/" com Debray: "Si m . é pu ro acaso qu e cu ten ha n ascido fran cês;
que () século XV II I, na Eu ro pa Ocidcn la l, m arca ll ão.,ó o amanhecer mJS, a ti nai, a h ança é eterna".
Ja era 00 nac ionalismo , m as ta mbém o anoi tecer dos mo dos de É claro qu e n ão estou afirmand o q ue o su rgimen to do nacio­
pe nsam entos religiosos. () sécuJo do Il um ini smo, do secul arismo nali!>l11o no fina l d o sécu lo X\l ur foi "produzido" pelo d csgaste das
racio nal ista , trou xe co nsigo suas próprias trevas m o d ernas . A fé convicçõe:, reli giosas , nem que ~sse próprio desgas te não requer
religi osa decl inou, mas o sofrimento que ela ajud ava a apazigu ar unhl explicação complexa. També m não estou sugeri n do que o
não desapareceu. A desintegração do para íso: nada to rna a fatalid a­ l1aciol1a Iismo tenba , de aJgu ma fo rm a , "su bsti tu ído" histo rica ­
d e mais arbitrária. O absurdo da salvação: nada torna m a is neces­ mente a religião. O q uc es tou p/"o pon do é o entendimen to d o
sário um outro estilo de co nt inuidad e. Então foi preciso q ue hou­ nac ionalism o alinhando-o não a ideologia:- políticas conscien te­
vesse uma transfo rmação secular da fa talid ad e em co n tinuidade, mente ado tadas , m as aos grandes sistem as cu ltu rais qu e o prece­
da contingência em signi fica do . Como verem os, poucas coisas se deram. e a partir d os quais ele surgiu, incl usive para combatê-l os.
mostraram (se m ostram) m ai s adequad as a essa fi nalidade do que Para nossas fi nal id ades, os do is sistemas cul turais p er! i nel1 te~
a idéia de nação. Adm ite-se nor m almente q ue os estados nacionais sào a cOl/l/lI zidade religiosa e o reino dinástico. Po is am bos, no seu
são " novos" e "históricos", ao passo q ue as nações a q ue eles dão apogeu, fo ram est ruturas de referênc ia incontestes, co mo o co rre
expressão política sempre assomam de um p assad o imemorial,' e, atualmente com a nac io nalidade. Portanlo, é fundame ntal anali­
sar o qu e cunfer iu uma plausibiJid ade auto -ev idente a esses siste­
4. O falecido pre., idcnte Suk,lrno sempre falou com toda a sil1cnidade sobre os mdS cul! urais. e a o mes mo tempo d estacar a lguns eJc m cn tos ­
3.,0 anos de coJonialismo a que a sua " Indonésia" fo ra subm etida, embora o pró­
cbaw na decomposiçã o deles.
prio co nceito de "Indonésia" seja uma invenção do séc ulo ;.,X, e a maior parte do
que hoje é o país ten ha sido conquistada pelos holandeses apenas entre 1850 e
1910. O principal herói nacional da Indon ésia con tempo rânea é o príncipe java­
nl'-s Dip<lnegoro, do começo do século xlx,e mbo[U as memórias do príncipe mos· 1\ C O .\IIUNIDADE RELI G IOS A
trt'Jn que ele pretendia "co nqui ~t Jr Inão libertar!J 1(/1'a'; t: não expulsar "os hola n­
d (~~l'~". "1.1 verdade, é evidentt: que t:k não concebia "os hol<\l1dc,cs" como uma
(lllct i\'id,lde. Ver Harr y ). Uenc.la t' John A. l arki n (o rg'. ), 1'17<, 1Vorld ofSoll l/u·ast
I: Xlstem po ucas coisas m a is im p ressionanles do que a vasta
A51tl, p. 158; c Ann Ku mar, "Diponcgoro ( I 771)~- 1 855) ", l l/ dollt'sia, 13 (abril de extensão ter r ito r ial d o Ummah i ~là mi c{) d esde o Marrocos ao
I Yí2) , p. 103. C,riro meu. Analogamente, Kc mal Atatürk deu ;l OS s<:: us bancos esta arquipd ago Sulu, d a cri slandade Jesd e o Paraguai ao Ja pão, e do
ta is os nomcs Ba nco Hitita I Ui Banka ) c Ban co Sumério. (Sc t(l n Wats on, Narivlls
nlundo bu d ista desde o ':>r i La nka à pen íns ula co reana , As grand es
mui Sílllcs, p. 259. ) E SSéS bancos são prósperos, e não há raz,i o para du vidar que
mu itos tl IlCOS, e provavelmente o pró prio Kcmal, acred itasst: m sl'r iamcnte , e
1..111turas .,acras (e, para nossos o bjetivos, pode-se incl uir também
Jintla acreditem, qu e 0' hit itds e os sumérios são seus antepassados tu rcos. An tes o "confucionism o" ) in corp orava m a idéia de imensas comunida­
de dar muitas risa Jas, se ria me lhor lembrarmos de Artm c Boad i~ea, e refletir des. ~las a cristandadc, o Um ma h is lilmico e mesm o o Império do
so bre o sucesso comercial das mi tog rafias de ro lkien.
Ccnl ro - q ue hoje é considerado chinês, mas antes imagin ava-se

38 39

....

como cenLr,d - eram im aginados pri ncipalmente pelo uso de "polí tica para os bi.Í rbaros", for mulJua p elo libe ral co lomhi an o
um a língua e uma escrita sagradas. Tomemos o exem plo do islã: se Ped ro rerm ín de Vargas, do começo do séCll lo XIX:
ul11 ll1aguindanaucnse enco ntrasse um bt'rbere em Meca, um des­
con hecendo o idioma do out ro, incapazes de se comunica r oral­ Pa ra am pliar a !ll)S,S a agricu ltura, seri a preciso hi spaniza r 0S nossos
mente, mesmo assi m entenderia m os se us caracteres, p(H"que 0<; índios. A preguiça, a fa lta de in ldigênci,\ e a in dif~' rç nça dd es aos
textos sacros adotados por ambos exist iam apenas em árabe clás­ t rabalhos normais levam a pensa r que d cs deriva m de u m a raça
sico. Nesse sentido, o árabe escrito fu ncionava como os ideogra­ degenerada. que se ueteriora conforme ~e afasta da , ua origem [ ... J
mas ch ineses, criando wna co munidade a partir dos signos, c não seria mu ito dese iável que os índios se extingu issem através d,\ mis­
dos so ns. (Assi m, hoje em dia a linguagem matemática dá prosse­ cigen ação co m os brancos , isenta n do-os de im p ost os e ou tros
gu imento a uma velha trad ição. Os romenos não fazem idéia de encargos c concedendo-lhes a pro pr iedade privaoa da ter ra.'
co mo se di z "+" em tai lan dês, e vice-versa, mas am bos comp reen­
dem o símbolo.) Todas as grandes comunidades clássicas se cOl1Si­ I~,notável que esse liberal ain da propo nha "ex tinguir" seus índios
deravam cosmicamente centrais, at ravés de uma língua sagrad a el1l parte "isentando-os de im postos" e "concede ndo-lhes a pro­
ligada a uma ordem ~ up ra t e rre n a de poder. Assi m , o alcance do priedade privada da terra", em vez de exterminá-los com armas de
lal im , do pá li, do árabe ou do chinês escritos era, teoricamente, ili­ fogo e micróbios, como logo depois começaram a fazer seus herdei­
mitado. (Na ve rd ade, quanto mais morta é a lí ngua escrita ­ ros no Brasil, Argenti na e Estados Unjdos. Nota-se também, ao lado
qua nto ma is di.-;ta ntc da fala - , melh or: em princípio, todos têm desta crueldade com ares condescendentes, o otimismo cósmico:
acesso a um mundo puro de signos. ) Jtl fim e ao cabo, o índio pode :-.er redimido - pela impregnação do
Mas essas com Llnidade~ cláss icas ligadas r or J inguas sagradas st'me n bran co "civilizado" e pelo acesso à propri edade privad a,
tinham um caráter di fe re nte das comun idades imagi nadas das ~'OI/lO todos os outros. (Como é d iferente a atitu de de Fermín em
nações mode rn as. Uma di ferença fund amental era a confiança das comparação ao imperialista europeu posterior, com a sua preferên­
comunidades maIs an ti gas no sacrarnenLalislllo l1nico de suas lín ­ lia pelos malaios, gurcas e haússas "autê nticos", em vez de "mesti­
guas, e daí deri va m as iclcias que ti nllam so bre a adm issão de novos Ç()~': "nativos semi- analfabetos", " wúgs"" e assim po r diante!
membros. O" mandarins chine<;cs viam com bo ns olhos os bárba­ Mas, se o meio de se imag inar as grandes com unidades gl.. ­
ros que aprendiam 3 duras penas a pin tar os ideogramas do
h<t is do passado eram as línguas mudas sagradas, essas aparições
Império do Cen tro. Esses hárharm já estavam <l meio caminho da
.IJq lliriam realidade a pa rtir de uma idéia b::tsta nte es tranha à
plena aceitação.' Meio-civilizado era muilíssimo melhor do que
rn~nta l id a de ocidental contemporànea: a não-arb itrariedade do
bárba ro. Essa atit ude certame nte não foi excl usiva dos chi neses,
signo. Os ideogramas do ch i nê~ , do latim ou do árab e erJm ema­
nem se restringiu à Antigüidade. Veja, por exe mplo , a seg uinte
6. )" hll LYl1L h, T" cSpi1/1ish-AI/1criCIII/ r"I"O //llioIl5, 1808-211, p. 260. Grifo meu.
5· tr:lIlqLiil ilüde com que os mOIl !(ois c ma nchu s ~ il1 iz adu s for am aceitos
O ,l i ,1 \\"g: krmo dep reciat ivo '-I li e, na epoca do imperial ismo britimíco, designava o
m rTIo 1-tIIrO$'/o ( '1' 1/. o.u ivo cl J ín Jla, da Africa do Norte e do O ri ente Médio.

40 41

-..::
nações da real ida d e, e não re p resen tações inventadas ao acaso. arenas pelo texto sagrado: os seus leitores, afi nal, não passavam de
Co nhecemos a lo nga discussão sob re a lí ngua (l ati m ou vernácu­ min ú sculo s recife:, let rad os em vastos oceano ~ iletrados.· Para
lo) ma is adequad a para a mis sa. Na tradi ção islâmi ca, até bem urna expl icação m ais completa, temos de exami mlr a relação entre
pouco tempo, () Corão era lite ralmente in trac\uzÍvel (e, po rtanto, o~ letrad os e suas socied ades . Seria equ ivocado co nsiderá-los u ma
in lrad uzido) po rq ue o único <I cesso à verdade de Alá era por meio es pécie d e tecn o cracia teológica. As lín guas a que eles d avam
dos signos verdadeiros e ills u bstitu íveis d o árabe escr ito. Aqui não suporte, por mais abst rusas qu e fo ssem , n ão possuíam o caráter
existe a idéia de um mundo tão des\ incuhd0 d a língua qu e todas abstruso auloconstruído d o jargão dos advogados ou dos econo­
as línguas vêm a ser signos eqüid istanles (e, porta nto, in tercambiá­ mistas, à margem da idé ia de realidade alimentada pela soc iedade .
vei s) d ele. Com efeito, a realidade o ntológica sópo de se r apreendi ­ Pelo contrá rio, os letrados eram gra ndes inic iados, cam adas estra­
da por meio d e um ú nico sistema pr ivilegiado de re-presentação: tégiLa s de u ma hierarq uia cosmol ógica cujo ápice era divino. 10 As
a língua -ve rdade do latim eclesiástico, do árabe co râ n ico ou do concepções fundamentais so b re os "grup o s sociais" eram mais
chinês do sistema de exames.' E, como línguas-verdade, estavam centrípetas e hierárquica s do qu e h orizo ntais e fron tei riça s. O
imbuídas de um im pulso largamente estranho ao nacionalism o, a poder asso mbroso do pap ad o, no seu auge, só po de ser entt!nd ido
saber, o impulso à co nversão. Po r co nversão, q uero dizer não tanto em termos de um clero transeuropeu co m conhecimento do latim
a aceitação de dctermi n<ldos p r in cípios religiosos , e sim uma esaito, e também de uma concepção de m und o partilhada p rati­
absorção alqu ím ica. O bárbaro se torna "Impé rio d o Centro", o ca m ente po r todos, e segundo a q ual a cam ada intelectual bilíngüe,
montanh ês d o Rif, muçulmano, e o ilongo, cristão. Toda a nature­ ao media r o vernáculo e o latim, tam bém faz ia a mediação en t re a
za ontológica d o homem é mal eávcl ao sagrad o. (Co mpare o pres­ terra e o céu. (O pavor da excomunhão reflete essa cosmo logia.)
tígio dessas antigas línguas mundia is, colocadas acima de todos os Apesar de toda a m agnitude e poderio das grandes com uni­
vernác ulos, com o esperanto ou o volapuk, que jazem ignorados dades imagi nadas rel igiosamente,sua coesão inCONsciente fo i di m i­
entre essas duas esferas.) Foi, afinal, essa possibilida d e de conver­ nui11lio n u m rit mo co ns tante apó s o fi nal da Idade M édia. Entre as

são através da língua sagrad a que permitiu q ue um "inglês" se tor­ razões desse declínio, d estaco apenas as d uas relacio nadas direta­

nasse papas e u m "m anchú rio" se to rnasse Filho do Céu. mente à sac ralização ú nica dessas comunidades.

M as , se as líng uas sagradas permitiam que se imaginassem Em pri me iro lugar, o declíni o res ultou d as explo rações do

co m u nida des tais como a cristandade , nüo é poss ível explica r o


9· l\IJn.. Hloc h nos lem h ra qu e "a m aio ria d os se nh o res e mui tos g ra nd t'!> barões
verd adeiro alcance c a efetiva plausibil idade dessas co munidades
111.t "'pneu medi eval I e ra In admini strado res incapazê!> dt' examinar prssoalrnen­
li! Um n: iJ tório ou uma prestaçu o de contas", Feudn l SOciel)" r, p. 81.
7. Atl que pa rect', () grego cc lc, iásti co não atingiu o estatuto d e uma lín gua -verda ­ 111 . Is~() na o sig n ifica qu e os il e t r~d os não lessem. Mas o que e les liam nao eram
de . Sao viÍr ias as razões desse " frac asso", mas com ce rteza um fator' fundamental r<lI,lvra~,c , im (\ mundo visÍ\;cl. '·Aos olhos d e todos os que eram capazes de refk '­
fo i que o grego co ntinuou a ser uma língua demótica \'i l',j (ao con trá rio do latim) x,lo, o mlllldo mate r ial era po uco ma is do que u ma es pécie de máscara, po r tnís d a
cm grande parte do Im pério do O rien te. Devo essa sug<!s tàu a fudith Herrin. qUJI <lerl! r iam todas as coisas realmell te importa nl<.:5; era co m o se fosse t.unbém
8. Nicholas Brakcs pear ocupou o pontificado de 11 5·1-59 com o num e de Adrian o 1\ . lima lín gua quc('xpressasse por sina is uma rea lidade mais profunda", ibid., p. 83.

42 43
m u ndn n ão- eu ro peu, as quais "ampliaram violentam cn te o hori­ cJ II". I\las, pela ma neira co m que sua majestade agi u em relação a

,w ntc cu lt ural- geográfico e, simultanea men te, os co ncei tos acer­ cle.'i , é ev idente que ele consid erava a fé do~ crisl à o ~ a mai s ve rda­
C .l das poss íveis formas de vida huma na",11o q ue ocorrcu sobret-u­ (leira e a mel hor. ..
Jo, mas nã o excl u~ i va m cn te , na Euro pa, Esse process o jó fica claro
no ma io r liv ro de viage m europeu. Veja a sur p resa co m que o bo m o gue essa p assage m te m de notável não é tanto o tranq ü ilo
cristão venez ia no M arco Pó lo desc reve Cubla i Cã , no final d o relat ivismo reli gioso do grande d inas ta mongol (afi nal, ainda é um
sécu lo \:1 11 : 1 relativismo religioso), e sim a a LÍlude e a lin guagem d e Marco Pólo.
Jamais lh e ocorre tratar C ublai com o hipó crita ou idólatra, apesar
o grã- cã, tendo obtido essa ex traordinária vitória, retornou com de es tar escrevendo para cristãos europeus como ele. (Em par te,
grande pompa e triunfo para a ca pi ta l, a cid.lde de Ka nbalu. Isso sem dúvid a po rqu e "quan to ao número de súd itos, e:--lensão d o
aconteceu no mês de no vembro, e ele continuou a morar lád uran­ tt:rritó rio c quantidade d e riq uezas, ele ul trapassa qualquer so be­
te os mes es de revc reiro e març o, Inês este de Ilossa fe ~ la de Páscoa. rano q ue exist iu até hoje no mundo".)" E no uso in co nsciente do
Sabendo que esta era uma das 110ss!Jsprincipais solenidad es, ele "nossa" (que se torna "deles"), e na q ualifi cação da fé cristã cO mo
mandou q lIe tod os os cristãos fos se m até ele e le vasse m o Livro "a ma is verdad eira': em vez de "a verdadeira", podemos detectar o s
deles, que contém os quatro Eva ngelh os. Depois de fa7cr co m que pr imó rdios de uma territo ria li zação dos cred os, um prCl1 ún cio d a
o incensasse m várias veze s, co m toda a ce rimônia, ele o beijou linguagem de muitos nacion alistas (a "nossa" nação é "a melh or"
de votamente e ordenou qu e todos os se us noh res ali prese ntes - num campo compamtillo e com petitivo).
fizess em o mesmo. Este era o seu co stu me em toda s as principais Q ue di feren ça revel ad ora temos no início d a carta do viajan­
festividades cr istãs, como a Páscoa e o Na tal ; e ele observava o te persa "Rica", em Par is, pa ra o seu ami go "Ibben", em "17 12"! "
mesmo nas fes tas dos sarracenos, dos judeus e dos idólatras. Inda­
gado sobre o motivo dess:l conduta , ele diss e: "Existem qua tro o papa é o ch efe dos cristãos. E um \'elho ídolo que se incensa por
grandes proCetas que são n:ve renc iado s l' adorados pelas difcn.:n­ hábi lo. Antigamente ele era temível aos próprios príncipes: pois de
le s cla~s es da h uman idade. Os cristãos co nsi deram Jes us Cristo () 'i depu nha com a mesma fa cilidade com que os nossos magníficos
como a di\' in dade deles; us S d rr aCt:no~, Maomé; os judeus, Mo isés; ~u ll ões depôem os reis de [rncrclia e da Geórg ia. Mas não o te mem

e os idól at ras , Sogomombar-kan, o ídolo mais im po rtante deles. ma i ~ .l:l e ~e d iz SUl l'SSOr de um dos pri meiros cristãos, que ~e clldma

Eu devo honrar c most rar respeito por todos os quatro, e im'ocar 5(/0 Pedro, e cert am ente é uma rica sucessã o: pois ele tem teso uros
em meu au xílio aquele que, del/ /re eles, é na pcrr/ade supremo no illlen so ~ e um grande território sob o seu dom ínio.

11. Eric h Au crbadl , MirllfS is, p. 2/C ITrad. ( it. Mi"' ê,is, São Paulo, Perspect iva, 5'.

eJ., 200·1. p. ~H 6 ]. 1.1 . n,r 1fllI'ds o(Mnn;o }Jv !o, p. 1 5 ~ I ls viagcIl5 de' Marco l'Ô!o, Brasilicnsc, 19541 .
12. t.. "'rco Pnl.1. , ls 1 · ja~C/!5 de li Ja1'(() 1'álo 1 BrJsiliense, 1954 J, pp. 158-9. Gril"o meu. 1.1. Il enri t.lt.: )\ lontesquicu , Per';rln Lt-lIrrs, p. 81. As L,' fl rcs perswlt's foram pubti­
NO [.l - ;<:, pore m, qu e beijam , lll ~S não lêe m LI Fvangelho. L,lei.!, pela pri1\1t.:ira \'t.:! em [72 \.

44 45
As invenções deliberadas c sofisticadas do católico setecentis ­ men te esto ntea nte, o la ti m deixo u de se r a li ng ua da al ta intelectua­
ta espt'l h am o realismo ingê nuo do seu p redecessor do século ).1 11 , lidade p an- européia.No sécul o XV II , Ho bbes 0588- 1678) era uma
tnJS agora a "rel a tivização" e a "territorialização" sao profu nJ cI­ figur a de re nome co ntin enta l po r ter escrito na líng ua- ve rdade.
lTlcn te conscien tes, e com i nte nções p olíticas. Será d escabi do Shakespcare ( 1564-1 6 16 ), por o u tro lado, escreve ndo em vernácu­
enxergar um desdobrame nto paradoxal dessa tradição din âmica lo, era prat icamen te desconhecid o do outro lado do Canal. '" E se o
na identi ficação feita pe!() ai atolá Ruholla h Kh ome ini do Grande inglês não ti vesse se tornado, du zentos anos depois, a p rincipa llín­
Satã, não com uma heres ia, ta mpouco com um p ersonagem g U3 do im peria lis m o mundi al, será que ele nã o teria ma ntid o em
d emo n íaco (o ap agado Car ter dific ilme n te se encaixaria nes se larga medida sua o bscu rid ade ins ula r o ri ginal? En trem en tes, no
parei), e sim com uma nação? con tinenle, e quase con temporanea men te a eles, Descartes ( 1596­
Em seg un do luga r, ho uve um rebaixamento grad ual da pró ­ 16S0) e Pascal ( 1623-62) redigia m a rnaior parte da sua correspon­
pria lí ngua sagrada . Es crevendo sob re a Euro pa O cidental medie­ dênc ia em lat im, ao passo que p raticamente toda a o bra de Vo lta ire
val, Blo ch o bservou que "o lat im era não só a Ungua em que se ensi ­ ( [694 -1778) foi escrita em vernáculo. ,o"Depois ele 1640, co m a
n ava, como também a única líl/gua ensinada"." (A palavra " única" qua ntidad e cada vez menor de ed ições em latim , e cada vez major
mostr a mu ito clara mente o caráter sac ro d o latim - n e n huma nas língu as vernácu las, a ativid ade editorial esta va deixando de se
outra lí ngua era considerada digna de ser ensinada .) M as, no sécu­ um emp reendimento internacional [sic]."20 Em suma, O declínio
lo XV[, tudo isso estava mudando rap ida m ente. N ão precisamos do la tim il ustrava um processo mais amplo, em que as comunida­
nos deter aqui nas raz()es dessa m udança: a imp ortância funda­ des sa gradas amalgamadas por a ntigas línguas sacras vinham gra ­
m ental do capitalism o tipográfico r print-capitctlism 1 será tratada dualmente se fragm entand o, pluraliza ndo e territor ializan do.
mais ad iante. Basta lembrarmos a escala e a velocidade em qu e ele
se d esenvo lveu . Febvre e Ma rtin calcu la m q ue 77% d os livros
imp ressos antes de 1500 ain d a eram em lat im (o que significa, o R r l NO DI N ÁS T I C O

porém, que 23% deles já eram em vernáculo ).'" Se, entre as 88 edi­
ções impressas em Paris cm 1501 , apenas oito não eram em latim, I loje em dia , talvez seja difícil sentirmos empatia co m um
após 1575, a ma iori a era sempre e m fra n cês.' Apesar de uma reto ­ mundo o nde o rein o dinástico aparecia com o o único sistema "polí­
ma da tempo rá ria du ran te a Con t ra -Refo r ma , a hege m onia do
lati m estava conde na da . E não e stam o~ falando a pen as n u m a 11\. Ibit/., p. 330.
19. 1h i.J. , p p. 33 1-2.
po pul aridade ge ral. Um po uco mais tarde , e numa rap idez igual­
20 . !/Jirl., pp. 232 -3 . O o rigin a l fran c':s é mJ is m od e sto e hi stor ica mente mai s
l"X ilttl: "Tandis qu e 1'011 '-'d ite de l1\o in s en moin.s o'ollvrages rl1 latin oc l une pro ­
'5· Bloch, Fi'IIdl1 l sociel)', I, p. 77. Cr ifo meo . port io ll tO lljo urs plus grande de textes t· n lan gue nat-ionale, le commcrce du livro::
16. Lucien Febv rc c I Icnri- Jea n ~c mor..:c1 1.: e n Eu rope" I !:nq ua nto editam -se cad a vez mo::nos obras em lat im, e
i\ 1arti n , The CO/lling oflhe Rook, pp. 248-9 ' () lIpa­

recilncllto do livro, Unesp - I lu ci tec, 1992).


Ul1l<ll' r<lpo rçao se mpre ma ior de tex tos em língua n aciona l, o comercio do livro
17.1bi"., p. 32 1.
M~ t1iv id c na Eu ro pa I. L'/Ippnri lioll du Livre, p. 356.

46 47
tico" imaginávd para <1 m.l iori.l das pessoas. Pois, sob alguns aspet;­ tico'\ reuniam populações diferen tl:s sob novos vé rt iccs. Sob este
lOS fundamentais, J monarq uia "sér ia" co ntrari a todas as co ncep­ .l~!'t'c to, é paradigmá tica a Casa dos Hab~b ll rgo. Como dizia o
çiks mmlcrnas da vida política. Á realeza organiza ludoe l11 lorno de I<.'('r,io, Bel/a gerc11/t o/ii, t il felix AI/s /ria l1 ube! Eis a tilul ação, um
um ccntro elevado. Sua legitim idade deriva da divin dade. c não da ta 1110 resumida, dos últ im os d inostas. -'
ptJpulaçaü, q ue, afinal, é com po~ ta de súd itos, não ue cidadâos. Na
com:epçao moderna, a soberan ia do Estado npera de for ma integra!, Tmperado r d a !\w,l ri a; rei da Hun gri<l, d.) Bo\:mi.l, da Dalmá c ia ,
terminante c homogê nea sobre cad a cenLim ctro qu adrado de um Croác ia, E~ l ovêniu, Galícia, Lodomeria e flí ria; rei de Je rus.M m etc.;
território legalme nte demarcado. Mas, no im aginári o m ais antigo, arq\lid uque da Austr ia [sicJ; g rão- duque da Toscana t: Cracó via;
onde os Estados era m defi n idos por centros, as fro nteiras era m duqul: de L(llaringia, Salzburgo, I:.stíria, c..aríntia, Carn iola e Bucov­
porosas e indisti n las, e as <;oberan ias se esvaeciam imperceptivel ­ illa; grão-d uq ue da lransilv.lnia, marqués da Morávia; duque da Alta
m en te uma dentro da out ra. I Daí, em certo par<l doxo, a fa cilidade e Ba iXiI Si lésia, de Moden a, Pann a, Piaccnza c Guastella, de Auschwitz
com q ue os reinos e impér ios pré -m odernos conseguira m m a nter e Sato r, de Tcsch en, FriuJi, Ragusa e Za ra; conde príncipe de Ha bs­
seu domínio sobre populações imen samente heterogêneas, e muitas b urgo e Tirol, de Kyimrg, Gbrzc Gradisca; d uque de Trento e Brizen;
vei'es nem vizin has, po r lo ngos períodos de tem po. -­
marquês da Alta e Ba ixa Lausitz e ístria; conde de I lo henembs, Feld­
Cabe também lembrar que esses an t igo~ E st ad o ~ m o ná rq ui­
ki n:h, Breg1.:11Z,SOnnenbergctc. ; senhor de Tricste, Cattaro e ac ima da
cos se expa ndiam não só pela guerra , m as também por uma polí ­
marca \Vindisch; grão Yoivoda da Voivodina, Sérvi a etc.
tica sex ual - m uito diferen te da p ra ticada n o~ nossos di as.
Seguindo o princípio geral da verticalidade, os casa mentos d inás­
Tal era , com o be m o bserva Jászi, "não sem u m certo as pecto
comico !... ] a enumeração d as inco ntáveis nú pci as, barganhas e
2 1. Vc,i J-se o deslocamento no nom c do s gO Yl' rnantes, em correspondência com
essa I r,m sfo rm açJo. As crian ças em idade escolar lemhram os lll onar..:as pelo pri­ capturas dos Ha bsb urgo".
meiro n o m ~ (q ual era mes mo o sobreno me d~ Cuil hermc. o C:o nquistado r l ) , os Em re inos o n de a po liginia tinha sanção relig iosa, era esse n­
p r t:~ i d m les pelo sobreno mc (q ual era mesm o o no me de batis m o de EbC rl? I. cial para a sua integração que existissem si stemas compl exos de
i'.ulll m und o de cidadã os, lodos teoricamenl e el egíve is para o cargo dc presiden ·
concuh ina tos so brep os to~. Co m efeito, era freq üente que as linha­
te, os nomes "de batis mo': por sercml inIlt ado" nã0 são adequa dos co mo dcsig­
na\'âo es pccíficd . Mas nas I11 <.Jfl u ql1ias, o nd e u gove rn o estcí nas mâos de um úni co gens rea i.. procu r assem ga nh ar prestígio, pa ra além de q ualqu er
, ohrenome, são obrigatorid mc nte os nomes "dc ba ti smo", com llll meros Oll alc u­ aUra dc d ivind ade <l partir da, diga m os, m iscigc nação.:i Pois essas
nhas. que Comecc m as d istinções neccs, ürias.
111 iSluras e ram símbolos dI.: uma posiçãO de ordem superio r. f, típi ­
2~ . t\'tllC-se ,Ic p<l ss a f!,~ t1I que Na irn ce rt amc nte 1.(' /11 r az,lo ao cl assificar a [,'i da
t 'IÚ;/O entre Inglatcrra c: r. scócia , de 1707, como LIma " barganh,l patrí cia", no seno
tido de qu e tJ ~ '1 [ljuitdn, da uniã o eram políticos a rist oc ratas. ( Ver sua brilhante 2.1. ()~,ar ):is/ i. Tire· dis., o/l/ riÚ I7 oj' lhe l1ohslJ/l rg mOllO rch)'. p. 3-1.
discu",w em Tlte Rmlk-lIp 4 Hlir,lill, p. 136 S~ .) . l\ ks lllo a~si fll. é difícil i ma~inar l'll\ [ai, L"~peci ficJ m e ll l t: na Asia pré- moder na, embora o mes mo princí pio le nha
({l 1l10 as M;slocr.lCias de duas rq Jllb licas ch ega ram a um acordo nessa barganha . atll.1Jo t.lIl1hém nJ Furopa cr ista monog.:lmi ca. E1I1 1910, um (crto Otto I' o rst
O c1C ll1c nto med iador crucial qu<, pn" ibilitoLl o acordo foi, ,cguramm te. o co n­ 1. 11l""'u (l ' cu Ah llc"t<l/d Se iner K"iSt' rlie" ell IlII d Kiini~ lich e ll Hoheit ,Ie, d",ch­
ceito clt' um Re illo Unido. 1111I.-1II,g;,m }{em Fr;;i,cr;;o!iS Frc/I1 Z Fl'rdil/ r/ l7 d, arrola n~lo 2.047 antepass,lclos do

4!\ 4
co q ue nã o lenha existido nen huma di nastia "inglesa" domin ando nll>nnrq tÚas 'civiliza das' da Europa':-7O novo sistema, em 1910, con­
Lo ndresJesdeo sécul o XI (se tanto) - e qu e "nacionalid ade" havc ­ duzi u ao tr0n o um homossexual excêntrico que cer tamenle te ria
mo~ d e a tribuir aos Bo urbo n?' ~id() preterido n uma época anterior. No entanto, a aprovação inter­
Mas, d u ran te o século XVII - por ra7Õ~S qu e não nos deterão monárq ui ca de sua entronização como Rama , 'I foi selada pelo com­
por ora - , a kgi tim idade auto mática da mo narquia sagrada come­ pare cime n to à sua ce rim ô nia de ' Mo ação d os princip ezinhos da
çou a dl'clina r len ta mente na Euro pa Ocide nt"' l. Em 1649, Ca d os Stu­ Grà-Bretanha, Rússia, Grécia, Suécia, Dinamarca - e Japão F'
art fo i decapitado na prim eira revolução do m undo moderno, e nos Em 191 4, os Estados dinást icos ai nda eram m aioria no sistema
anos 1650 um dos mais importantes Estados europeus fo i governa­ político mundial, m as, como verem os detalhadamente mais adia n­
d o po r um protetor plebeu, em lugar de um rei. Todavia , m esmo na te. m u itas d inastias vinham se esfo rçan do para conseguir uma
épo ca de Pope e de Addison , An ne Stua rt ainda curava os d oentes ~ha ncel a "nacional", enquanto o velho princípio d a legitimidade
pelo toque das m ãos, taumaturgia que ta mbém era reali7ada pelos m inguava silenciosa men te. Se os exércitos de [ rederico, o Grande
Bo urbon, Lu ís xv e XVI, na Fra nça iluminista , até o final d o ancien
(r. 1740-86), era m maciçamente com pos tos por "estrangeiros", os
régime. " Mas, após 1789, foi preciso defendero princípio dalegi timi­
JI;; seu so b r inho-neto Frederico G uilherme 1lI ( r. 1797 -1840) já
dade de modo consciente e vigoroso, e, com isso, a "mon arquia" aca­
eram , em vir tude das reformas espetaculares de Scharnhorst,
bou se to rnando um modelo semipadronizado. Tennô e filho do céu
t;neisenau e Clausewitz, exclusivamente "nacional-prussian os".1')
se torn aram "imperadores". No longínquo Sião, Ra mn \ (C hula­
longkorn) m andava seus filhos e sobrinhos para as cortes de São
Petersb urgo, Londres e Berli m, a fim de aprender as complexidades
PI.:RCE P ÇÕE S T EM I>OR AL S
do m od elu mund ial. Em 1887, ele instituiu o princípio o brigatório
da s ucessão pela p rimogenitura legal, alinhando assim o Sião "às
Mas seria estreiteza pens ar q ue as comu nidades imaginadas
lbs nações teriam simplesmente su rgid o a parti r d as com unidades
arquiduque, assassinad o pouco tempo d ep ois. Eram, de ambos os sexos, 1.486
alemães, 124 franceses, 196 italianos, 89 es panhóis, 52 poloneses, 47 dinamarque­
ses, 20 in gleses, além de qu atro o utra s nacionalidades. Esse "curioso documento" ~7. No el A. Battye, "Th e milit ar)', govcrn m ent i1 nd society in Sia11l , 1868·) 910'~

h!'I.' d, d o utorad o , Uni ve rsidade de Cornell, 197 1, p. 270 .

é citado in ibid., p. 136, n" I. Aqlli n ãu resisto a cita r a admirável reação d e Fran·
lX. '>h:p h cn ( ,ree ne, "Thai govc rnmc nt and <ldministration in th e Rcign oI' Ra ma

cisco José à notícia do assassinato do seu excêntrico herdeiro legitimÚl"io: " ])<'5 la
\ I ( \ 9 10 - 2~) ", le, e de douI Llr<ido, U niversidade de Lo ndres, I 971, p. 92.

man eira, um poder sup e ri o r restaurou a ordem que eu, infeli zm e nl e, Ilãu fui
~\l . Em 1801i, na lista de oficiais d o Exé rci to prussial10, J e u m lOl al de 7 a tl mil

capaz d e m anter" ( ibid., p. 125 ),


hOnl CIl' , m.li s d e mil eram estrange iro s. "Os prussianos de classe m édi.l era m

25 . Ci dlner de.'taca o caráter fS lra ngeiro típico das dinast ias, m a s int er preta o
fen ômeno de maneira muito estre ita: os aristocratas locais prefe rem um monar­ sUl'croldos pelo número de estrangeiros no seu pró prio ex~ rcito; is",' deu cor ao

pn.vél bi o de que a Prússia nao era um país qu e tinha um exército, <: ll im um cx.:r,

ca l:s trange if\> porque es te não tomaria partido nas rivalidades inlCl"I lJS. Thuught
llIul cllt1ligr, p. 136.
dto 4u~ linha um país': Em 1798, os reformadores prussianos haviam reiv indi ca­

26. 'vI are Bloch, [ (') Rois Tlw ulllaturgt's, pp. 390 e 398-9 [ O; reis tau/IIatll rgos: v CClrlÍ ·
do urna " red uçã o pela metade do número de es trangeiros, que a inda somava m

l l' l"<.:a de :;00" dos soldados rasos .. .",Alfred \"agts, A his/or)' o{lIlilitaris/Il, pp. 64 c 85 .

ter wlircllíltura l do votler rq;io, França (' Inglarerra, Companhia das Letras, 2005 l.

50 51
religiosas e dos reinos din,ls tico s, substit u indo-as. Por sob o decl í­ \.. \11110 ré p licas d elas mes mas. Sai a inco ncebível re present ar a
nio das com un id ades, lí nguas c lin hage ns sagradas estava oco rren ­ VI rgem Maria com lraços "semít icos" ou rou pas "do sécul o I" d en ­
do um a transformaçao fun dame ntal nos modos de apreend er o I ro do espí r ito de restaura ção da m u seologia m od e rna, pois a
m u n do, a qual, m a is do que qual q u er outra coi sa, p ossi bil i tou mentalidad e crist ã m ed ie va l não conceb ia a histór ia como uma
u. )) . ­
pC Il :>ar a naçao. cad\!i,l inte rm i nável de (a usas e efeitos, nem imagi nava separações
Para termos uma idéia dessa muda nça, seria útil reco rrermos I adiútis entre passado e presente. 'iI Co mo observa Bloch, as pes­
às representações visuais das com unidades sagra d as, co mo relevos SO,l~ pensavam q ue o final dos temp os es lava p róx im o e que a
c vitrais de ig rejas m edie vais, o u pinturas dos prim eiros m est res segunda vin d a de Cr isto poderia o correr a qual q uer momen to: são
ital ia nos e fl amen gos. Um traço caracte ríst ico dessas re p rese n ta­ p,wl0 hav ia di to q ue "o dia do Senh o r vem co mo um ladrão na
ções é al go enganosamente parecido co m uma " ro upagem moder­ noite". /\ssi m, para o bispo O ltO de h eising, o grand e cro n ista do
na". O~ pa s tores q ue segui ra m a estrela até a ma njedou ra on de ~t'Cll lo XII , era nat ural referir-se constantemen te a "nós qu e fomos
Cristo nasceu apresentam os traços dos camponeses da I3urgún­ co locados no fim do s tem po s". Bloch con clui qu e, qu ando os
di a. AVirgcm ~ lar i a é pin tada como a filh ,! d e u ll1l11 ercado r tosca­ homens medievais "se entregava m à medi tação, nada estava mais
no. Em muitos quadros , o patron o co mitente, em traje completo l\lI1ge de seus p ensamen tos d o C] ue a pe rspectiva de um lo ngo futu ­
de nobre Cl U de b urguês, está ali ajoel hado, em adoração,junto com ro pa ra u m a h u manidade jove m c vigo rosa". "
os pastores. O que hoje pdrece incongruen te certa mente pa reci a Aucrbach ap resen ta um d esenho inesq uecível dessa fo r ma de
muito natural aos olh os dos d evotos m edievais. Estamos d iante de con~ciência:
um mun d o o nde a rep resen tação da reali d ade im aginada era
mac içamente visua l e audi t iva. A crista ndade ass umia a sua form a ()wUl do, por exemplo, um acontecimento como o do sacrifício de
universal m ed iante u m a mi ríade de especific idades e particulari­ Isaac é interpretado como uma prefiguração do sacrifício de Cristo,
dades: este rel evo, aquele vitral, est e sermão, aq uela parábola, esta de maneira que no primeiro, por assim dizer, anuncia-se e promete­
peça de moral, aquel a relíq u ia. Se o cl ero transeuropeu letr,l do e m se o segundo, e o segundo "cumpre" o primeiro [... 1cria-se uma rela­
lati m era um clem ento essencial na est ru tu ração do im aginário ,:;'\0 entre dois aco ntecimentos que não estão unidos nem temporal,
cristão, igualmen te vita l era a transmissão dessas co ncepções para nem causalmente - uma relação impossível de ser estabelec ida de
as massas iletra das, por meio de criaçõ es vis uais e aud iti vas , se m ­ forma r<ldonalc n uma di me nsão horizolltal[ .. . 1Só é possível estabc­
pre pessoais e particu lares. O humilde pároco local, cujos an te~·lds­
saJ os e cujas fraquezas eram d o conhecim en to de todos o ~ q ue ,lO. "JI;! 11 ';' , a id éid d t: "roupage m m oclco1a", m elá Co ra para eS IJbeIeLL'[ uma
assis tiam à m issa, era apesa r de t udo o intermed iário d ireto en tre l'ljlli\ .Ilt: n.. ia ('nt rl"' passado e presente, (, um recollhe .. ít11e n to in dir~lll el a induI 'I·
os paro q uia nos e o d ivino. Essa justaposi ção do cósm ico - univer­ vd 'ep.Haçjo <: 11 ll-c eles.
31. Bluclt, l-c'lIda l ' Ocii !I )', 1, pp. 84 -6.

sal e n111ndano - r articul ar significava que, por ma ior que fo sse a


3~\u(' r oach . M i111 nis, p. 64 lciLcel. bras., p. 63 J. G rifo meu. Compare a desc ri .,:âo

cristand ade ((' ,lssim era cons iderad a ), cla se manifestava defor/llils ~l go ~ l i n i JnJ do 1\ 11 ti);\o Testamen to como "a som bra do fU l Uro Iis to c,q uede pro ·

~ '{/rílld(/s para as com u nidad es suáb ias ou andalu zas especí llc as, 1':1•• pa r,1 tr,b I': C it ill Bloch, Feudal Soc"icly, I, p. 90.

52 53
l ~ca c~t a relação quando se unem os dois acontecimentos, ve rtical­ 'n ten dcremos mel hor por q ue essa transformação foi tã o
men te, co m a providencia di vina, que é a única que pode planejar a importan te para a gênese da comunidade im aginada da nação se
história desta m aneira, e a única q ue pode fornecer a chave pa ra a slla w nside rarmos a estru tu ra básica de d uas fo r mas de criação ima­
co mpreensão. 1... 1o aqui c agora não é mais elo de uma corrente ter­ gi nár ia que fl oresceram pela prim eira vez n a Europa durante o
rena, mas (', simultanea mente, algo que sempre fo i c algo que se con­ 'iéculo XV [\[: o romance e o jornal. ·'· Po is essas formas proporcio na­
sumará no futuro. E, a belll di /.er, aos olhos de Deus é algo eterno, de am meios técnicos para «re-presen ta r" o tipo de co mun id ade ima­
todos os tempos,já consumado 110 rragmenüri o acontecer terreno. ginada co rrespondente à nação.
Considerem os em primeiro lugar a estrutura do ro m ance ao
El e frisa com razão que tal idéia d e simultaneidade é totalmen­ velh o estilo, tÍplCa não só das obras-primas de BaJzac, mas também
te alhciaa nós. Ela concebe o tempo co mo algo próx im o ao que Ben­ de qualq uer li teratu ra barata da época. É claramente um mecanis­
jamin denomina "tempo messiànico", uma sim ultaneidade de pas­ mo para apresentar a si multan eidade em um "tempo vazio e
sado e futuro, em um p resente ins tan tâneo. " Nessa visão das coisas, ho mogêneo", ou uma dissertação com plexa sobre a palavra «entre­
a palavra "entrementes" não pode ter nenhum significado real. mentes". Tomemos, para fins ilus trativos, u m trecho de um en redo
A nossa con cepção de simultaneidade levou m uito te mpo si mp les,em que um hom em (A) tem um a esposa (B) e uma aman­
para ser preparada, e não há dúv ida de q ue o seu surgimento está te (C), que por sua vez tem um amante (D ). Pode mos imagi nar
ligado, de maneiras que ainda p recisam ser estud ad as mais a ullla espécie de esquema temporal para esse trecho, da seguinte
fund o, ao desenvolvimento das ciê nci as seculares . Mas é uma
manetra:
co ncepção de im portância tão funda mental que, se n ão for leva­
d a na devida conta, teremos dificuldad e em investigar a obscura
Tempo: 11 III
gênese do n acionalismo. O que ocupou o luga r da co n ce pção
med ieval da simultaneidade-ao- Jo n go-do-tem po é, reco rre ndo
4ccJl1tecimentos: A discute co m B A telefona para C O se embebeda
novamente él Benjamin, uma id éia de "tem po vazio e hom ogê­
num bar
neo", em qu e a simultaneidade é, por assim di 7t:,r, transversal, cru­
r c I) faze m amo r B "ai às compras A j:tnta em
zan do o tempo, marcada n ão peJ a prefiguração e pela real ização,
casa com B
mas sim pela coincidência te mporal, e medida pelo relógio e pelo
o joga bilhar \. tem um
calendá r io.H
pcsaddo

.n. Wa lter Benia min, IlIU /1/ irullivns, p. 265 ITrad. da epígrafe extraída da ediçáo
bra ,i1cir.:t , Afagi" e técnica, arre e poliJica . trad. ~érg io Paulo Rouanet, 7" . ed., São
l'.Iulo. !3r.ls ili':ILSC , 1994, p. 2.25] . \~ , l: mhora a Princessc de Clc\ 'es seja de 1678, a época de Richardsoll , Dl' foe e
.\-1. IlJid.. p. 2{) .~ . Essa nU VJ id':ia <!st.í tão pro fundamente arraigada que podería­ Fiddingc o início do sécu lo X\' 1l1. As origens do jornal modern o estão nas gazetas
nlOS Jiz.:r que tud~ s J S principais concepções mode rnas se baseiam numa noção hlJ landcsas do final do século X\'II, mas o jornal só Se torn ou Lima (atego ri a geral
de "('n I rCl11cn tes'~ n\,' matéria impressa após 1700. r cbvrc c Martin, Thc C:Olllillgoft/w Book, p. 197.

54 55
l'\ote que A e D n unca S~ e nco n tram dura nte essa seqüência, Jc (nll1 r atriotas. Fie n ào tem id éia do q ue ôtão fazen d o a cada
e na verdade podem até ignorar aexisLénci<1 LI 111 Jo outro se C tiver J11Pt11t'nln. Ivlas tem plcncl co nfi ança na alividade constante, allô­
feito O seu jogo dire ito. 't. Então, o qu e realmen te I j~éI A <l D ~ D uas 11 i 111.1 e simultâ n ea dd~s.
(onú'pções comp lcmentélres: em pr im eiro lugar, pertence m a r·.s~a perspectiva lulve/. fique menos abstrala:.c consu ltar m os
""l)(ieddde~ " ( Wessex, Lübeck, Los Angelcs). Essas socicuadcs sao rapidamente quatro obra., de:: fi cção de d iversas épocas e cultu ras,
entidades soc io lógicas (k u ma real idade tão sóli d a e estável qu e é I r(:~ delas ind issociavcImen te I igadas a movi mcntos nacinna I islas.
possível dlé descrever o~ seus membros (A e D) se cruzan do na r ua Llll 1887, Jos~ Rizal, o "pai do nacional ismo filI pino", escreveu o
sem n unca se conhecerem, e melt m o assim manten do ligações romance Noli /I1e lul/gere, h oje considerado a maior obra d.l litcra­
('l1tre si." Em segu ndo lu ga r, A c D estão p rese ntes no espírito d os tur"l filip ina mndernd. Foi lclm bém p raticamente o primeiro
le itores o niscien tes. Apen as eles, à m,ll1cira de Deus, vêem A ugan­ romance escrito por u 111 " índio". In Eis como de começa, de manei­
ra maravilhosa: 11
do para C, B Cazf'n d o compras e D jogan d o hi lhar, todos ao //l esma
tel7lpo.1oda~ essas ações são exec utadas ao mesmo te m po no reló ­
Por vol ta do fina l úe olltuhro, Don Sa nllago de In:; Sa ntos, popu lar­
gio e no calendá l-io, m as por agentes q u e n ão p recisam se conhe ­
mente co nhecido como capitão Tiago, estava dando umil resta de
cer, e esta é a no vidade desse mund o im aginado que o auto r invo­
j.wtar. Embora, ao cont rário do se u coslume normal, ele só a lives­
ca no espírito de seu s leitores. '"
Se anundado naq uela tarde, ela já era o assu nto de todas as convcr­
A idéia de u m orga nism o sociológico atravessa ndo cro no lo ­
~as em Binonúo, elll ou tro~ bairros da cidade c até em IntraJ11 uros
gica mente um tem p o vazio e ho mogên eo é uma analo gia exata da
la I..icladl' in ta na m urad,l]. Ndq UCJcS d ias , capitã o l iagn ti ll ha a
idéia de n ação, que la mbém é concebid a como lima comun idade
1,lIna de ser um anfitrião g,eneroso. Sabi a-se lJue a ~ua laS,\, como o
só lid a pe rco rren d o constan teme n te a história, seja em se ntid o
.'>I.'U pab, não fecha"l.l.'> po rtas d n,ld" , exceto ao comér-:i(ll..' a qual­
ascen d ente o u descende nte. ' Um amer ica no nu nca va i conhecer,
ljlll..'l' idéi a !10V,1ou uusad,l.
e n em seq ller s~l b er o no me , da imensa maior ia de seu s 240 milh ões
Assim, a l10v id aJe perCt.lrreu Cumo um choque elét ri co t\ COI11U­

nid.ldc de para ~il as, al'roveitadort's e peneI rils qu I..' Deus, l' 1ll sua
36. Na verdade, a fo rça do enredo pode depellder de que A , 13, L c D, no s tempos I,

li c 111, nao sai bam o qu e os outros eSlão f.l zcn do.

37· I ~ ~j polifo ni a ,epa r.) decidiJ,lIl1 mlC o rOm; ll1~e moderno aI': Illl's mo de Ulll
~11 . Ri/.ll e'c..n:vCLl l'sSC rúmanc c l1a lín gua wllln i;t1 (l>'P,IIlIIOII. 4 Ul! era ,ll ínglià
pn:LIlrSO r tão brilhantl' co mo o Sat'v,'icol/ d,' Petrônio . Sua narrati . . a scgul! nUlll<1
rI .111,;1 d.ls c:I itcs('( nicnmc:nlL' difercntes. e llrll~i ,itiL,\, l' l1; ltiV,I\. ,\ Ohh.lO do rO ll1a n­
linha única. Se Encólp io lamen ta ~ infidclid~ dt: do Se u jo\'c m ~ mante , C ito nao
':l' 'LH~iutJmhé !ll pd.l l' rim ci r3 vez uma im prensa " naci ona lis ta", I1 <lO só t'm

a P ,\[(~ll' na (ama «\ 111 As.: ilto alO mC~ lIlo le l11 po.
.:'p,Hlhol. 111.1, e ll1 lí ngua, "ét nicas" 1,;01110 <l tag;rll' g e ',' ilo,;\I1 \1. Ver Lco po lJ Y.
5B. Nesse co r1ll'XIO, é dc grand e proveito com parar q lla lq uer roma nce his tórico
\,Ihe~, "The..' 111011 <' r 11 1it t'r.lttJre oi" lhe I'hiliT'pinc~n, 1'1'. :::8 7-301 , in Pierrc- l3e rnard
com donl men to:, o u Il<lrr.\t ivas do período abonh do.
/..1 fOllte.. J)cllr~ 1,(1 mbn rd (orgs.), I.i rt é((/fII rc, W'Ht'II/[loraincs de 1'/15;" c/li 511d [,1.

39· l\:a da mos tra melho r a imcrsao do rom,lI1 ce no tempo va/io c homog,': nco do
11 . lo,,, Ri,." ,\o/í 111(' (1I1I~crC, ~ 1.1 11 ila, InstItu to Nacio nal de Historia. 197:-\, p. I.
<l UC a ausê ncia daq ud as gc nea logia.> no CO I1l C\lJ do livrn, ljue mu itdSvezes rcmo n­
Ira,hl.,Jo ITlmha Ipa ra o i ngk~l. Nà época da pri mei ra ediçJl) de c.:ulI"lIl irlCld"s
tam à o rigem do hOln t't11 , e que são tão ca racterísticas das anti gas 1t' l1das e cró ni­
1/l/{'.~ill,I<I/I), clIll ão JOlllin ,11'1l o l'span hol, (' rui involllnt ....i<1menl.: k vaJo <l ( 011­
C;I S c dos 1i v rm sagrados.
Ii.la 11.11 IJduç,lo, il1stru tiv.li11cn te ddurpaU,j, de: Lco ll i\ilar ia Gu.:rr.:ru.

56 57
infinitil bomladc, criou e CClm t3 nta ternura multiplica em Ma nila. Je irô ni ca, com o se suas relações recíprocas não fossem mini ma ­
n~ foram procurar g raxa para as botas, outros foram atds de mente pro blem áticas."
bot ões de colarinho e gravatas. Mas todos cs t<1 va m oc upados no Nada o ferece uma noçã o mais foucaultiana de bruscas des ­
problema de como cumprime nta r o an fit rião com a fam iliaridade ('on tinu idd des da co nsciência do q ue tI comparação entre Nuli e a
necessária para dar a imp ressão de u ma lon ga amiLadc, ou, se neces­ IllJ is celeb rada obra li terár icl an ter iOr de um "índio", a saber, Pinag­
sário, se descu lpar por não terem c.hegado mais cedo. d(/a l1I.l/1g Bulza)' /li Flora 11 te at ni Lal/ra sa Cll hariangAZbania [A his­
O jantar e::.tava se ndo ofe recid o nu ma casa na rU i) An loague. tória d e Fl orante e Laura no Re in o da Albân ia ], de Francisco Ba­
Como não lembramos o número dcla, va mos desc revê-la de uma lagtas (naltazar), cuja primeira ed ição data d e 1861, embo ra possa
manei r,l que ainda possa ser recon hecida - isto é, se os terremotos ler sid o escr it a em 1838." Balagtas ainda vivia quand o Ri za l n as ­
ainda não a deslruÍram . Não cremos que o seu proprietário tenha C~'u , ma~ o mundo da sua o bra-p r ima, em tou os o!> aspectos fun d a­
mand <1<.Io derr ub,í - Ia, visto qm: t al obr a geralmente é deixa da a men tais, é estranho ao el e No Zi. Passa-se num lugar - uma Albânia
Deus ou à Naturezil , que, aliás, ma n tém muitos contratos com o medieval fabulosa -rem otamen te distante n o te mpo e no esp aço
nosso Go ve rno. ua nin an do dos a nos 1880. Os heró is - Floran te, um n o bre aLba­
!lês cr istão e seu gra nde am igo Aladin, um aristocrata pe rsa
Certamente não precisam os fazer lo ngos comentá r ios. Bas ta muçulma no ("mouro") - só fazem lembrar as Fil ipin as deviuo ao
nota r que , desd e () co meço, a imagem (total mente no va na lite ra­ vínculo cristão-mouro. En q uanto Rizal espa lha deliberadamente
tura fili pina ) de u m banquete discuti do por centenas de pessoas algumas palavras em tagalog na su a prosa em espan hol para obter
anôn imas, que não <;e conhecem en tre si, nos mai s var iados luga­ UIll efei to " rea lis ta'~ satírico ou nacionalista, Balagtas mistura in­
res de Ma nila, n u m d eterminado mês d e urn a d etermi nada déca ­ co nsc ientemente algumas ex pressões em espan h ol nas suas g ua ­
da , eVO ca imed ia ta mente a com un idade im agin ad a. E na exp res­ oras e m tagalog, apenas para acen tuar a grandi osidade e a son o r i­
são "nu m a casa n a rua Anlo ague", q ue "va mos d e~crevê - Ia de uma dade da el ocução. Noli era para ser lida, Florante at Laura era para
ma neira que a inda possa ser reconh ecida", quem irá reconh ecê-la St'r declamada. O mais imp r\?ssio oante de tudo é o t ratamento q ue
so m os nós-leitores-fil ip inos. A in sensível passagem dessa casa do Ba lagtas deu ao tem po. Como o bserva Lu m bera, "o desenvolvi­
tem po "j n k rno" do roman ce par a o tempo "extern o" da vida cot i­ mento do enredo não segue uma orde m cro nológica . A história
dia nJ do leitor [Ma nila] forn ece uma con fi rmação hipn ótica da
sn lj d ez de uma ú n ica CCl l11un idade , a bra ngend o person agens, ·n. () r.:vn so da obscuridade anônima dos leitores <é[ a/~ a celebridade in stun tú­
a uto r c leito res, e avançando no tem po d o calendári o. 'l No ta-se 11.:.) d q ~u tur. Como ve remos. \Õs sa oLsc uridadelce.k bridadt: tem tud o a ve r co 111 a

di I'L I~,\(l do capi tali smo editorial. Já t: 111 J 59.3, dlf'. LlIlS dom inicanos cheios ti l' ini­

também o to m. Em bo ra Rizal n ão faça a m enor idéia da ident id a­


t i,Ui"" tinham publicado a Doctrina Chl'isliallfle m l\fa nila. Mas o prelo fi co u sob

de indivi d ual de seus leitores , ele lhes escreve com uma intim ida­ n~id(l CO llt role eclesiás tico dur.lIlte os séculos segu intes. A liberali zação só comc­

\Illl nos anos I R60. Ver BiC: ll vcnido L. Lum bera, 7àgu l(lg {l0 el 'r I. 570-1 1)98. 'I mdi­

por cl<cmplo , a pJ ssagcm su til de Riza l, na mesma fra~.:, do passado


•j2.. N\ll C, 11011 til/ti illtll/ c?llces il l ir;; devclopmel1l, pp. 35 , 93 .

"cTioL\" (CTiiiJ pa ra o presente reJati vo-a-todos-nós "multiplica" (11 I11ltipliC<l) . +-1 I/lid., p. 1 15.

58 59
começa ill !nedin res, de modo que a tra ma completa nos surge por Fern an dez de Lizardi cscrevc u um roma nce cham ado 1:1 Periquillo
meio de li ma ~ér i e de ralas que servem de fla sh backs".'· Q uase a Sa rnic/lto 10 Periquito Sa rn entoj, qu e fo i evidentemente a pri­
metade das 399 quauras éded icada à infân cia,aos anos deestudan­ meira ob ra btin o -a m ~r i ca na IJO gênero. Nas palav ras de um críti­
lt: em Atenas e às proezas militares de Florante, que o heró i relata ( O, esse texto é "urna condenação feroz do governo espan hol no
em suas co nversas com AlaJ in. lI ' O " flasllback fa lado" era a ún ica México: a ignorância, a su perstição e a corru pção são tidas como
alternativa de Balagtas à narra tiva lmear. ~e ficamos sabendo dos suas características mab m a rcantes"." Esse resumo do con teúdo
passados"simultáneos" de Ho ra ntee de Alaom , é porque eles estão mostra a fo rma esse ncial desse rom ance "naciona lista": ")
I igados pela conversa quccsla bclccem, e não pela estrutura da epo­
péia. Como essa t éc nica está d istante da do roma nce! "Naquela Desde o começo, [o herói, ó Periquito Sarnen to] é exposto a más
mesma primavera, enquanto Florante ainda est uuava em Atenas, in fluê nci as -cria das igno rante s incu lcam su pe rstições, a m5e
Aladi n Foi expulso da corte do seu soberano ..." Com efeito, Bal ag­ aceit .t os seus caprichos, os professores não têm vocaçào ou capaci­
tas nunca tenta "situ ar" se us protagonistas numa "sociedauc" ou dade p.ll'il di sciplin á-l o. Em bora o pu i seja um hom em int eligen te

di sc uti-los co m o seu pú bl ico. E, afo ra a flu ência melíl1 ua dos que quer q ue o filho ilprenda uma profissão út il, em vez de engros­
sar as fil eiras dos advogados ~ pnrélsitas, é a mãe extremosa de Peri­
polissílabos tagalogs, ne m há muito de "filipino" em seu texto. "
quito qu e preva1cce , manda o fil ho para a uJ1i versidade e ass im
Em 18J 6, setenta anos antes da criação de No /i, Jos~ Joaq uín
gilra nte que ele irá apenas apren der absurdos supers ticiosos ...

45. lbid., p. 120.


Periqui to con tinua incorrigivelmente igno rante, apesa r d~ encon ­
46. A t':cn ica é semelhan te il ,k Il ometo, tão bem discutida por Auc rbac h, J'vfIllIC­ trar muita gent e bo a e sensala. Ele não quer trabalh ar nem leva r
sis, ca poI ("A cicar"" de Odissc u"). nada a sér io, e se torna sucessivamente padre, jogad or, ladrão,
nprendiz de boticário, méd ico, esc ri tu rário numa cicladeLi nha do
~;-. Pll tl " llII 1\ //ltlllil ll/8 flll1llll',II/IIJ)',lI/lIl1
IIg (I'>rl llld, t. /I//,i/ , úIIlIgi.' ca/illl!U1II.
interior... Esses episódIOS pcmútern no aulor descrever liospirnis, pri­
,' CO/lg tl lllgl/ /rll/ lI/O, I. Cl/SII II/tlllg pil/ll ldy sões, IlIgarejos dis lantes, mosteiros. en quanto insiste em um único
." 'IJ'II, i. 11/1. /tll[ui fllIg plll/ghih illrlJ'rllIg. ponto pri nci pa l - qu e () governo e o sistema educacional espa­
nhóis c:-.t irnl1 Iam () paraSi lb l1l o e a prcguiça ... J\s avc ntllra~ de Pcri ­
I \deus, Alb,l nia, re ino Jgo ra
Do mal, dd éruclu,ldc, da bru tali dad e c da fraLlue l quil() o levam várial> vezes a estar en tre tnd ios e negros 1... 1
l. u, teu udc nsnr, llue ,Igor,! mar,IS,

M~'fl H' ,h ~ i ll1 bm Clll lJ () d e ~! i no lj Ut' rcrai u >oh r~' Li. 1


Aqui vemos Je novo a "imagi nação nacional " atua nd o no
movi mento de UI11 he rói solitári o, percorrendo uma paisag~m
I l,í que m in kr prek t!s ta fam osa (' ~ lrol'e ~(1 I1 I( ' u.n a d ~, I ;lr,lç,j(, w lau,. do pJlr io­
Ib mo IlIi pino, m.ls Lum bcra mos tra d a rame nte ljue tal in terprcra"ão seria an J­ s()ciolól!ica de lima fi xidez que amalgamé:l o mundo i.l1terno do
'I"IJI1Íl,l. Il/g<lI(1.~ HU?fr)', p. 125 . i\ traduçâo I para o Il1glésl é dr Lu mbcra. Alterci
l,;wnlct1\ C() SCll l CxlO taga log, ~l'gUilldo lI fl'la ctllcyao do poema de 197J , ba,~àua ·IX . Je;m r r,lnw, Ali itllroduClioll/(J Sflll/li, h :lI7ICfi((/ n /itcrf/l/lr.-, p. H.
l1il ed ição de 186 1.
4<) . lllirl., pp. ;lS -n. (jriti, meu.

Ól ,
61
romance ao mund o externo. Esse fOllr d'horison picaresco - hos ­ na r ua . Como a forte chu varada do dia todo tinha deixado as ruas

pi l,lis, prisões, lugarejos distantes, mostei ros , ín dios, negros - não l1lo 1ha Jas e muito escorregad ias, todos havia m fi cado em casa.

t, po rém, um tour du mOllde. O hori zon te é cl aram ente delim itado: P,\ ra os que trabalhavam n as lojas e esc ri tó rios , a m anhã el o sába­

o Méx ico colonia l. O que m ais nos garante essa so lidez soci o lógica do \'ra um período de ex pectativa - ex pectativa dt) lazer e da ale­

é a sucessão de plurais. Pois eles invocam um espaço social cheio de gr i<l Je passea r pe la cidade ~ no ite, mas nesta no ite fi cariam desa­

prisões parecidas, nenhu ma del as d e importcinc ia única e exclusi va, ponta dos - gra ças à le targia p rovoca da pelo ma u tempo e pelas

m as todas represen tatIvas (na sua exisLência separada e simul tânea ruas pcgajosJs nos kamp u ngs. As r uas principais, geralmente api­

do caráter op ressivo desta col ô nia em particu ld r. ~ I (Co mparem-se nh.l das de t ránsito de toJo s os tipos, as calçadas, gera lmen te fervi­

as prisões na Bíblia. N unca são imaginadas ( orn o típicas desta ou lhando de gente, estava m todas vaziJs. De vez e m quando ou via-se
o e~tJ l o do chicote de um cocheiro ap ressando um cavalo - ou o
d aqu ela sociedade. Cada uma, como a em que Sa lo mé se se ntiu
cli p -c1l1p dos cascos dos cavalos pu xa ndo os coches.
enfeitiçada por João Bat ista, é magicamente única.)
')em ara ng l'slava desert a. A lU/'. das fi las de Iam piôes a gás caía
E por fim, para afastar a possibilidade de q ue estejamos est u ­
diretamente so bn: O asfalto brilhante d a rua. Vez por out ra, a luz
dando estruturas de a lgum a forma "européias", vi sto que tanto
d.l ra dos lampiões \'sma ecia com o sopro do ven to vindo do leste ...
Rizal q uanto Li za rdi escrevera m em espanhol, aqu i está o co meço
Um rapaz eslava sentado numa longa espreguiçadeira de rotim,
de Serl/arangHita m [Semarang Negro], uma novela de M as Marco
Il'ndo LI m jorm.l. Ele estaV<l completamen te <lbso rto. Sua ra iva aIter­
Kartodikromo, jo vem indonésio comunista-nacionalista de triste
n.lV.l-se co m alguns sorrisos, dand o most ras claras til' seu profu ndü
destino:' publicada em fascícul o s em 1924: "
in teresse n<l h istória. 'E:. le virava as páginas do jornal, pensando que
ta l\'Cz pudesse encontrar al go que o fi zesse parar de se sen tir tão
Fram 7 horas, noite de sábado; os jo vens em Se m arang nunca fica­
inlCliz. De repente, se deparou com um artigo intitul ado :
vam em casa nos sábados à noite. Mas, nesta noite, ninguém estJva

PROSPI~ RlLlAj)E
50. hs<.' m ovime nto de um heró i so litárÍ<l pe rco rr<.' ndo um a l'a isag-: m soc ial dur a
L'm a ndarilho mendigo passou mal
e inl]cxÍ\'e! é típ ico d e lll ui tos dos pri m e iros romances (anti lco lo ni ais.
51. Após uma curta e meteórica carreira como jorna lista radica l, Milrco fo i e nvia ­ e mor reu abandonado no acos tam ento da rua.
do pelas autoridades co lo ni ais holan dl'sas ao Boven D i!(u l, um dos p ri m e iros
campos de concentr<lça o do ITIulldo,e nt errad o nos pà ntanos do in terior da Nova n 1.1J1<11 ficou comovid o com essa notícia cu rta. Pod ia imaginar o
G uiné ocide ntal. Lá l'/(' morreu e m 1932, de pois de ,c i, ,1OOS de con fin u/llCl110.
'I)fl ime nto da po bre alma e nq uant o morria no acostame n to ...
llc nri Cha rnhcrg -Loir," M as l\1arco Kartod ik ro m o (c. 1890- 1932) ,o u l ' I':duc<]
li on Politiqu l''', p. 208, in Litrrirtllllres COl/ l empOl'(lÚ1f$ de I'Asie du SlId-Eif. Encon· Nltlll 1l1ol11Cnto, ele sen tiu subir uma ra iva explosiva dentro de si.
tr a mas u ma l'Xpu, ição completa e bril ha nt e' da trajettí ri a de MJ rco 110 rece nte ' Il't ,lllt ro m oml' nt<), sentiu pena. Ma~ , em out ro, SUl! raiva diri gi u­
li \TO de Takash i Sh ira ishi , An (/,~C 1/1 l7I otion: popular radicalism in/m.'{/ , J 912-26 ,
'1l' (ontra () sis te ma social que gerava t,\ manha pob rezJ , enqu an to
capitulas 25 c 1).
('n ri lluec i<l um pequeno grupo de pessoas.
52. fraduçã o de Paul Tickcll e m seu Thrcc ('arl)' illdo llCSitll1 short storit's by Mas
Afa rco KUr/utliJ..ro mo (r. J 890- 19.' 2 I, p. 7 . Grifo meu.

62 63
\qui. como em f I Periqllillo Sllnticrllo, estamos num mundo d(lll1e nJigo morto: ele pensa no corpo represen tativo, não na vida
de pl urais: lojas, escri tó rios, carruagens, ka mpu ngs e lompiõcs a pe..soa l.
gás. Como em No/i, nós- leito res- indonésios somos imediata men­ L vem muito a calhar qll~ <I ra re\'a um jornal na obra de ficção
te mcrgulhados n o tem po do calendário e numa paisagem fami­ SCll/(lIWlg HilOfll, pois se ,tgora obs~rv<lrm()s o .i ortl.ll como produto

liar; é bem possível que algun~ de nós tcn ha m percorrido essas ruas dllt ural, fiLaremos imprôsion<IJos com /:te u caráter profundamente
"pegajosas" de ~emarong.Aq ui, tJmbém, um herót solitário é colo­ licClOI1,tl. Qual é a principa l col1vençãu literária do jornal? Se olhar­
cado em uma sócio -paisagem desc rita em cuidad osos detalhes mos uma primeira página qUJ lq uerdo Ncw )'íJrk Times, porexemplu.
gcrnis. Masha também lima novidade: um herói cujo llom~ nunca tercmos matérias ~obre dissidentes sov iéti(os, a fome em l\Iali, um
é men cionado, mas é frequenteme nte citado como "o 1I05S0 rapaz". .lssassinato medonho, um golpe no rraque, a descoberta de um [óssil
Ei ustamente a ingen uidade literá rt a e o ca ráter canhestro cio texlo raro no Zimbábue e um discurso de Mí tterrand. Por que esses f(\tos
confi rmam a "si nceridade" inco nscien te desse pronome possessi­ eslão justapostos dessa maneira? O que' liga uns aos out ros~ Não um
vo. Nem Marco ne m se us leit ores têm dúvidJ alguma o respeito da mero lapricho. Mas é óbvio q ue a maioria dde,) ocor re' de modo
referênc io. Se na fi cção sofist icadamen te jocosa da Euro pa dos inJependenk, se m que os ag;enles se conheçam o u saibam o que os
séculos XV III e :\IX a figura "o nosso herói" apenas ressalta l1 ma brin­ outros est,lo fazendo. A arhitra r iedade na incl usão e ju s tap ()siçã~)
cade'ira do a uto r co m um leitor (qualq uer ), o "oosso rapal." Je Jek~ (lima edição posterior iní substituir Mitterrand por uma vitó­
Marco, indusive peja sua novidade, significa um rapaz q ue per ten ­ ria nu beise'hol) mostra que o vínc ulo entre eles é imaginado.
ce <1 0 coletivo de leitores de i/l clol/ésio, e assim, implicit amen te, uma [~se\'ínculo imaginár io provém de cluas fontes indirel<ltnen­

'\:on1uni dade imaginada" indo nésía em embrião. Note-se que le relacionadas. A primeira é a 5i mples coi ncidência cronológic<l. A
Marco 11<10 sente llen h uma necessidaue ul' especifica r essa comu ni­ dala no ,t lto do jo rna l, II :,eu emble ma nHll!> importante, fornece a
dade pelo nome: ela já está ali. (Mesmo que os ~e n so res co lo ni Jis princip.ll..:nnexão -o (l\'anço constan te do tem po va7il) e homo­
hobn desl.'s mu ltilíng ües pudc:ssem faz~ r pMte Jl) público leitor, gênco.' I Den tr<> desse tempo. "o 111 U lido" caminh a inexoravelmen ­
cks estão excluídos desse "nosso", como vemos pelo fato de q ue a te em frcllte. O sinal disso: se, depois de dois dias de reportagem
raiva do rapaz se dirige co ntra "o': e não "o n o~so" sbtema social. ) sobre a rome. Mali desaparece das páginas do New York Times por
Fina lmen te, a co muni uade im aginada é «)l1fi rrnad a pela I11r\es il fio, os leitores não \ ão i maginar nem po r um momen to
du plaleilura: nós lemos que o ra pa7 e.-, t,í lendo. N,t verdade de não que l\1.t1i lel1h,1 su mido ou que a fome tenha liqui dado to d o~ os
encontra o cadáver do mendigo no .tdhtamento de urna rua pega­
josa de Semarang - ele o imagina a partir de uma notícia !lO jor­
MMlIIl .· n.i\! ll'1ll idl'ia do se ntido da pal,lVr3 's0cial isl1lo': me,mo as~i rn , de se ntl'
nal.- F tam pouco ele se import,\ m i n ima m en t~ co m " ident id,lde LJllll'r"fllIld" m .ll-cs l,lrdia I Jl~ d ~1 o rg<1 lli zaçáo soei.ll que o ccrCJ. c sentca Il l.'ccss ida­
t.I~JI: ,lml'li.l ru, st'li , hnr i1-<111 lcs alrJ,,0, dedoi s métodos: l' ill ;ar t' ler ': ("Mas Marco".
).1. Em 1924, ulTIg"mde dmigo c ali.ldo polf t i "o d~' ". Iar-:o p uh lico u um rom ,m C~(h ,l­ 1'.2011. \ ,rilu l1Je u.) (l l'er iquito 'iarn C: lltl' se mudou p~ ra la,," e para o século xx.
fll.ldll 1~t1sll Mml,~ tI I'>enttndO-sl' Llvrl!/ O Scn ti m"nto J,. Liberdade]. () heró i do <;.,. I,,·r um iorna l (: {o rno kr um rom a nce cujo aut o r tc nh ,j desi,tido de qu alq uer
rom aIl Ce', seglln J o Ch ~mberl I.oir (quc, ali ás. dtrI bui erron eamente: a obra a 1lth:nçau de ("lo reve r um t'm't' do coeren te.

64 65
-;cus habitantes. O form ato ro m a nesco d o jornal lhes garante que , C~~,lS me rcado rias sà o m edidas em qu a ntid ad es m atemá t icas
l'J11 algum lugar lá fo ra, o " perso nagem" l\/laJ i co n tin u <l a existir em (Pc'ç.ts. cargas ou Ub ras ). Um a lib ra de aç úcar é apenas u ma quan ­
silênc io, esperan do pela r rúxima ,Ipãriç"io no enredo. tÍLLldc, u m volume p rá ti co, não um objeto em si, J;í o livro - e aqui
A segunda fon te d o vincu lo imag inário consiste na relação de f,refi gura os bens J uráveis de nossa ép oca - é um objeto dis­
en tre o jornal, CO tno uma form<I d e li vro. e o m ercado. Calcula-se
tinto, contid o e m si mes mo. rep rod uzido fi el mente clll larga esca ­
q ue, n os q uarenta e po ucos anos entre ,I publicação da Bíbliô d e
la . . Uma li bro d e açúcar escorre e se junta à libra seguinte; caJ a
u tenberge o fin al do sécul o \V, te nh am sid o impressos 11a Eu ro pa
livro te m a sua au to - su fi c i~n c ia de anaco re ta. (Não é de se admi rar
mais Je 20 mil hões d e volumes,'· Entre 1500 e 1600, a quantidade
que as bib liotecas, coleções pessoais d e merca d o rias prvd ulÍdas
impressa a ti ngiu a lgo enlre 150 e 200 milhôes d e exe m p la res. '"
em série. já fossem um fe nóm c no corrente 110 século XV I, em cen­
"Desde o co m eço 1•.. 1as gráficas se p areciam mais co m o ficinas
tros urbanos com o Paris.}" "
mode rn as d o q u e co m as salas d e t raba lho mo nástiG1S d a Id ade
Desse ponto de vista, o jorna l é apenas uma "forma extrema"
M éd ia. Em 1455, Fust e Scb oe ffer já tocavam um a fir m a voltada
do livro, um livro vendido em escal a colo ssal, mas de po pul a rida­
para a p rodu ção padron izada, e vin te a nos de po is havia gra ndes
deerêmcra. Será que podem os d ií'er: best-sellerspor um <.l ia? 01 Mas
gráfi cas fu ncio nando por todas as partes em toda [sic 1 a Eu ro pa."' :
N um sentido bem es pecí fic o, o liv ro foi a prime ira mercadoria a obsolescência do jornal n o dia seguin te à sua edi ção - é curioso
industri al co m produção em série ao estil o mode rn o. ;~ Esse senti­ que Ullla das pr ime iras mercadorias de produção em série já pre­
do ficará m ais claro se compararmos o livro com o utros pro du to s nunciasse a obsolescência intrínseca dos bens duráveis mod ern os
industria is daqueles tem pos, como tec idos , tijolos o u açúcar. Po is -cri a, e justamente por essa mesma razão, u ma extraordinária
cerimônia de massa: o cons umo (a "criação de imagens") quase
55. ~c b\T" c .\ Ia rt in , lh e COII/ing !lftllt' B(lok, p. 186. Isso co rrespu ndia a nada

menos qllC.\5 mil c d i ~()e , r LI Ulicad as e m nada menos qu e 236 cidad .::s. já em
5\). Aqui, o princípio é mais importante do que a escala. I\té o século XIX, as edi­
1480, as li ~ og rafias se espa lha vam por mais de 110 LidaJ es, ,endo cinqlienta na
~oe~ ai nda eram relati\'a mente pequenas. Mesmo a Bíblia de Lutero, best- seller
at ua l Itália, trinta lla Alema nha, nove na França, oito na Holanda e na bpJ nha.,
extraordin ú io, kve uma edição inicial de ape nas 4 mil exem plares. A primeira
cinco n<l Hélgi( a c n,1S ui~' a, ([u.llro na In gla terra, JU.lS na Boem ia e uma na Polô­
ediç5 u da firlcyclopédiede Oiderot, que foi excepci onal para os padrões da ':poca,
ni;!. "A part ir dc.sSil J at J. podL'-sc di/.cr, t[ lIi\llto à Europu , qu e o It Vnl im presso se
nãu ultrJpasso u 4.250 rxe mplarcs. J\ tirag<,m media no século XVIII era inferior a
lo rn uu de li SO uni VL'r~a I" (p. 182) .
.2 rni lcxcnlp lares. Febv ree Mart in , TheComil1g o(Ihe 13ook, pp. 218 -20.Ao mesmo
56. lbicl., p. 262. Os il ulun:, COlllentam que, no s6.:ul o XVI, os li vros estavam à J is·
l~mpo,o li vro sem pre se dis tingui u dos outros bem de conSlllllO du r<l vc is pelo seu
posiç:1O imediata de qu,dq uer um que ,oubt><ost· le r.
Illt'l"li1Jn int rinsecamente limitado. Qualquer ressoa com dinheiro poJe co m­
~;-. ,\ gró.l nde ed itora de I'lant in . na Antuér pi a, no começo du s('cuh, X\"I . CI..\ntr ola ­
pr;\r carros tcheco s, mas apenas quem lê tchc(u comprará livros escritos nes te
va 2,J g d ti ~ ils (O rn mJis d . . ( cm trahaUl.ldorescada urn a.!úid., p. 125 .
id ipl11J. Vere mos m ai~ adiante a importância dessa dist inção.
~ x. ESk é um ron to ,,,li J ;t01cnte defendido po r tvl arsh.tll tvk LlIh all , no meio de
1\0. t\lélll d i ~,I), já no final do sécu lo X\, o editor " .·nc.üano Aldus foi pioneiro na
S llil~ divilb.l.,Ól'S em Dll tC:/I/lcr:s g(/ /a.\ )' (p. 1 2 ~ ) . PodemO) olCrl'SCcllt ar que, se o
"edi çiio d, holso" portátil.
mercado t:d itori.\1 acabou diminui ndo com a pr<'ssJo de' mercados deo lltros uens
ti l . Como mostra o caso de Semamllg rfitlllll , os dois tipos de be, f-sdlersestavam
~1 l' L o nsumo, mesmo assim seu papd .:s trat ~gi co na d isstmi n.u,:ão ele i dé i a~ garan ­
ma is pnhimos do que hoje. Oickens lambelll publicou capít ulos de se us roma n­
tiu su a importància tllndamelltal no desenvolv imento da Europa moderna.
\. I:S plll' ul;,res em JornaL S populares.

66 67
lo ta lmc nte sim ul túneo do jornal -co m o- fi cção. Sabemos q ue as Ir;) C,l nt ín ua e silenciosa na rea lidade , cr iando aquela ad mirável
ediçocs matutina::. e vespert in as vão ~er m aciçamente co nsum iu as cO llfi,Hlça da co m u n idade no anon im ato que co n stitu i a marca
entlT esta e aqu ela hora, apenas neste, e não naquele di a. (Com ­ regislrad a das naçües mo dernas.
pare-se com o açúcar, q ue é usado n u m Iluxo con tí nu o e se m con ­
trole de horá rio; ele pode em ped rar. mas não perde a validade.) O Antes de discu tir as origens específicas do nac ional ismo, tal­
sig nifi cado dessa cerimbni" de m assa - Hegel observou que os v\'/ seja bo m recapitula r as princ ipai s proposi çôes expos tas até
jo rnais são, para o homem moderno, um mb ~tituto das orações .\gnra. Basicam ente, sustentei q ue a própria possibil id ade de ima­
matinais - é paradoxal. Ela é realizada no silê nc io da pri vacidade, ~ in"r a nação só surgi u historicamenlc quando. e onde. três con ­

nos escminhos do cérebro. r" E no entanto cada partici p ante dessa cepções culturais fund amentais. todas muito antiga.s , perderam ü

cerimô nia tem clara consciênci.t de que ela est,í send o repeti d a do mínio axiomático sobre a mentalidade dos homens. A prime ira
dcla~ é a idéia de q ue um<l dcterminadalínguJ escrita ofereôa um
si multaneamente po r milhares (ou mi lh ões ) de pessoas cuja exis­
tência lhe é indubitável, n1<ls cuja identidade lh e é totalmente des­ .lCC:>\1l privilegiado à verdade onto lógica, justamen te por ser uma
paltt: indissoci<ivcl dessa verdade. Foi essa idéia que g~rou os gran­
conhecida. Al ém disso, essa cer imônia é incessan tem ente repet ida
de:. irmandades transwn tinentais da crist and<1d~, do Ummah islâ­
a in te rval os diár ios, ou duas vezes p o r dia, ao longo d e to do o
111 ico c de outros. A segunda é a crença de que a ~o..:i('dade se orga­
ca lenda rio. Podemos -.:onceber uma figura mais cl a ra da comuni­
niz.l\.l na turalmente em torno e abaixo dt' centros ele\'ados ­
dade im aginada secular, histo r icamente regul,lda pelo relógio?"
!11onarcas à parle dos outros seres humanos, que governavam por
Ao mesmo tem po,o leitor do jornal,ao ver répl icas idênLicassen do
llmJ csprcie de graça cosmológ ica (di \ ina). Os deveres de lealda ­
cons um idas no m ctrô, no barbeiro ou !lO bairro e m q ue mora,
de ,-'ram n ecessar iamente hierárquico!' e centrípelos po rqu e o
reassegura-se con tinualllen te das raízes visíveis do mun do i magi­
governa nte , tal como a escrita sagrada, constituía um el o de acesso
nado na vida cotidia na. Como em Nali li/C In ngere, <1 ficção se infil­
;lO sere era in tr ínseco a ele. A te rceir'l é uma concepção da tempo­

ralidade em que a cosmo lo~ ia e a história se confundem, c as ori­


62. '\ )s matcriuis imp ressos incentivavam um a ,1 (!e';\(1 silt-nciosa a <a usas CtlJo s
le(c nsmes nJO ~c encontravam cm nell hu l1lloC<11 drtcTm inado, ,'Y Ut ~<' di rigiJ m
g,ens do mundo e dus IWl1lens são essencialmente as mesmas. Jun­
à di sl J ll cia a u m púhlico invisível." Elizabet h L. Eisctlstein . "<;,l m(' co nj .:~ l u rt" ta<;, c~sas idéias enraizavam p rofundamente a vida h uma na na
"bo ut lhe irn p.lc.:t (Jr p ri nlillg p n \\Ics t..: rn ,ocit' t YJml th ought", f0/1/'/10 I n/M'ldcrII I'r()pria na tu reza d.1S co isa::., conferinuo um certo sentido às fata li­
1I;51,)/')'.'1O: 1 (mal'<,:(' 196Rl. p. ·12.
dades diária:. da ex.istência (sobretudo a morte, a perda e a se rvi­
6) rscrc\(:ndn ~nbrc a relaç;jo .:nt rc a an a rqu ia lO llc rcl<.l dJ socit'd.ldc de cl<lssl'
média e u m.l ordem pnlllica ,/(1e,I.ldo .I bsl mIa. N.lirn oh,c! \.I<IHe " (I mecan ismo
dão) (' o fcrecendo a redenção de maneiras variadas.
l'epre'Clllntivo converte u a desigualdade n:!<11 dtO das;<:s no iguillil.tl' ismo ,lb~ t ratt O declín io lenlo e ir regu lar dessas convicções m utuamenle
dt1\ .ill"dãm. O~ q;t)íSn lth in dividua is nllm.] vo nlade \.(I It:liv<I nn pc,sn31 dq li ilLl clIlrelaçada:" prime iro n a Europa Ocidental c de pois em outros
<[U I' dI: , "lIt to muJo ~ e r i ;J um CiillS nu 111;.\ I1lWJ legi timidade do Es tado': rhdm'nk­
lug'lI'C\, ~ob o impacto da transformação econôm ica, da:, "desco­
11[' 4 firit";I/. p. 24. SC;' 1I1 d ÚviJa. M,I' n mCGl n i,mo represen tati vo (.15 elc lçt'ies?) li
hCll..l'" (~OC i ,l i s e cicntílicas) e do de!.envolv im enlo de meios uc
(<lmo \lm fniado ' ,In to. A nleu wr,.1 gl'stJ~~() da vu nt<lde illl pl'~soal se dá na~
r"!:;ul.lrid,,Jc:s di ;ir i a~ da \ id.1 .T ia nJIl image n,; Wll1Llnlcação cada vez m ais VdO/~~, levou â LIma brusca cli vagem

6R 6'}
ent re cosmolu gi a e histór ia. D ess(! modo, não adm ira qu e :-.e ini­
2. As origens da consciência nacional

ciasse a busca , po r ass im d izer, d e uma nova m an eira de un ir signi­


fi cil tivament e a fratern idad e, o po der e o tempo. O d em ento que
tal ve7 mais ca taliso u e fez fru tific ar essa b usca fo i o capita J i ~lTIo
edi to rial, que p ermi tiu que as pessoas, em núme ros sempre mJio­
res, viess em a p ensar so bre si m esmas e a se rela ci o na r co m as
dem ais de manei ras radicalme nte novas.

5e o d esenvo lvimen to da imp re nsa com o mercad or ia é a


ch:wc pa ra a cri ação de idéi as inteira m en te nova s sobre a simul ta­
neida d e, ainda estamos simplesmen te no po nto em que se to rnam
pnssíwis as com u nidades de tipo "horizontal-secular, transte m­
p<>rai~". Por q ue a nação se torn o u tão popular den tro d esse 1ipo de
comun idade? Eviden te lll e nte, o s falo rec; são múltip los c com pl e­
xo~> lTI,1'> pod em os susten tar co m fu ndada s razões que o prin ci pal
deles Co i o capitalis lTlv.
Como ro i n otado , em 1500 já hav iam sido im p ressos pel
menos 20 m ilh õ es de liv ros,' assi n aland o o cu m eço d a "e ra da
rt'prod u ção m ecân ica" d e Benj a min . Se o con hec imenlo pelos
manlls(r itos era u m saber restrito c arcan o, o co n hec im enlo pela
letra impressa vivia da reprodu tib ilid ade e da d issem inação.- )c,
COllln crêem f ebne e MJrtin, em 1600 já ha via m sido cd itados

I. .\ popu l.\C;ão das jlarll:~ J.\ Europa onde iá havia illlprensn gil.IVa ( 111 torn o de
i O/) nlillli,><" de p t'~so"s. Fe bvre eM "nin. f ite Comillg of lhe 1300k • pp. 2-18-9.
1. 1 Xt'111pl.lr é o Ú1SO elas \ ' j<lgell.' de Marw Pólo que crnm quase dCSCO ll hccid.1S
<ll e a I'ril11ci r~ l:d i.;ào. em i 559. Pui o, 7i"rwel5. p. x.iii.

70 71

t.
cerca de duzen lo't milhü~s d e vu lumes, não ad m ira que fr ancis l11u ito provavelmente igual à pro po rção no m u n d o d e hoje e ­
Bacon julgasse q ue a imrre ns'l It\llls fo rm ara "o aspecto e a condi­ .Ipesa r Jo internacion"lismo pro letaria - dos séc ulos vindou ­
ção do 111U ndo". \ r·m,. O grosso d a hu m a nidad e , seia an tes o u agor a, é monoglo ta.
"c ndo lima 1.1.\5 pri meir<1:> t()rm as de empreenJ imento capi­ Assim, a lógica do ca pitalismo dizia qu e, sat urado o m ercad o em
ta lista, () setor eJ i torid l l~'vc de prúcederà busca incansável de mer­ 1.1 t iIII pa ra a elite, ser ia a vez d os mercados poten cialmen te e no r­
cado, co mo é próp rio ao 'ilri talisfl1o. Os pri meiros eJ itores esLa­ nlt.'S d.1S massas mo n oglotas . É ve rda d e q ue a Co nt ra -Reforma

bdece ram ra m ifi cações por toda a tltropJ: ''.lss irn se criou uma propiciou uma retomada temporária das edições em la tim , mas
verdadeira 'i n ternar;on.ll' oeedilora'i,que ignora\ a m as fron teiras em meados d o sécu lo XV II esse mov ime n to começou a Jecai r, e as
naciona is [si c]':' E, como os anos 1500- 50 foram um período de hibliotecas fervorosa m ente católicas es la' a m re pletas. Nesse
excepc ional p rosperid ade europê'id, o setor editorial par t ic ipo u ínterim, uma esca:,sez gera l de d in heiro na Euro pa levo u os eeli­
desse IlOom geral. " Mais do q ue em qualquer mitra époc a': o selo r toresa pensar ca d a "ez m a is na ve nd a a m bulante de ed ições ba ra ­
era " uma g ran d e inJüstr ia .;ob o co ntrole de ca p italis las ricos",' ta!) em vernácu lo.
Nat uralme n te, "os livreiros esLavam in te ressados basi camente em O revol ucioná rio i mp u lso vernacu liza nte do ca pit ali s m o
ter luc ro e ven d er produtos, e portanto pro,uravam , acima de ganhou im peto ainda mai or graças a três fatores ex ternos, d ois d os
tu d o, obras qu e [o:,sem do interesse do ma io r número plls:,ível de quais(ont rib uíram direta me nte p a ra o su rg imento d a consciê ncia
scu s con tem porâneos". " nJLjonal. O primei ro, e 11 0 fu ndo o m enos impo rt ante, foi u m a

mercado in icial era a Eu ropa lelrJ d a, um a camada ampla, muc.Lll1ça no ca rá Ler do p rópr io latim . Em virtude do trabal ho d o s
hum ,m ist as, q ue ressuscitaram a vasta literatura da An tigüid ade
mas delgada , de leit o res d o latim . A sa tu ra ção desse me rca do
pre-cr istJ. e divulga ra m -n a através do m ercad o ed itoria l, a intelec­
levo u cerca d e 150 a nos. O fato dete rminante no la tim - afora a
tual idade t ra n seuropéia p ~ISSOU a nutrir um n ovo ap reço p elas
su a sacralid ade - e ra q u e co nsist ia nu m a língua de b ilín gües.
sofisticadas real izações est ilísticas d os antigos. O latim que agor a
Rela tiva m ente, p oucos chcgavam a falar latim , e - im agina- se
des queriam escrever era cada vez m ais cicero niano, e, além disso,
- menos a in da sonhavam cm latim . No :sécu lo X\ l , a proporção
cad.l vel mais <1fa~ tad o d a vid a ecles iást ica e co tid iana. Assim , ele
d e bil íngü es na pop u la ção total da Eu ropa er a bem red uLida ,
adquiriu uma qu al idad e eso t érica muito di fcre n k d a do la tim
eclcsiá"ti~() dos te m pos m edkva is. Po i/> o latim an ter ior era arcano
3. Cit. illl.i~L Il', l ci n, " Some ( \JI1;('((U rcs '~ p. 56.
4. r dw n: l' I\hlll ill , Tile Cnlllil/g O/ Ih,' Hook, p. 1~.:! . lMas no texto ori gina l consta não por C.lllsa d o assunto ou do estilo, m as p ura c sim ples m en te
,\pé n,IS " p.lr-dcssu .. le, frolllii: rcs" !panl J lé m d .l~ fronl~ ir a, I, /. '. \pp'Jrilit!ll,!-l. l84.) porq u~' era esc rito, ou sej a, g raças àsua cond ição d e texto. Ago ra ele
5. Jlrid., p. 187. O tc',to m iginal d iz "pl/;.'SIIIII," (puéit' ro) o,I , e Ila o "ri CIlS", l. Ap­ se tor nava arcemo po r co nt a do que es tava escr ito , po r con ta d<1 lín ­
fl/ri/lnll , p. 281. gl1n-elll - ~i,
6. " I'n r isso, a in trod u,a,) (iJ 'lll prc'Ibd fo i, ~(j b <!s tC' aspecto, um,! d.\pa J o pc r~lI rso
ali· ,: nossa .\tua l sociedade deconslI mo de 1ll.1ssas Cdc pa dro n iz.u; ,io ': i/rid.. pp. 259
() segundo foi o impacto J a Refo rma, ;1 qual, aliás, ve io a dewr
60. (O lc'X IO u rigi n,d d iz " une ci \!i lis.l tio n de Ill asse el l.k stundJrdi ~a lio ll ': 'l U': 'l'ri a
mclh"nrad U/.ir por'\::i\'ilila.,:ao ele' 111,I'S.\ p<lclronizadJ': C/lppnritio rr, p. 39 1.) ~. lI rd., 11. 195.
'

72 73
grande par te do sucesso ao capitn li!' mo ed itor ial. Antes da épo ca leve nenhuma con trap artida pro testan te - , catálogo inédito que
do p relo, Ro ma vencia fac il mente todas as guerras contra a heresia. ~e lá necessário devido à enor me q uantidade ue m aterial subver­
na Europa O ci den tal po rq ue se mp re d ispôs de linhns d e com uni­ sivo Impressu. Não há exem plo m elho r dessa m entalid ade d e cerco
caç'ào in ternet melhores d o que as d o!> 'ldve rsários. Mas, quando Jll que a ki de J 535 d e Francisco I. proibi ndo, por pâ nico, a p ubli ­
Ma rtinho Lutero afixo u suas teses na po rta da igrejn em \Vitten­ caç,I\) de todo e quo/q uer livro no rei no - so b pena de morte na
berg, em 151 7, elas fom lTI tradu/idas e impressas em al emão, e "em fon.J! A razão d a pro ibição, m as també m d a sua inap lica bi lid ade,
q ui nze dias Ijá t inham sido 1 vistas em tod as as par tes d o paí s '~ " era que, naq ud a época, as fronteiras orientais do rein o estavam
Entre 1520 c J 540, publicou -se na Alema nha o tr iplo do que havia cercadas de cidades e estados protes tantes, produzindo uma quan­
sido ed itado en tre 1500 e 1520, t rans[omlaçào as som b rosa em que tiJ adc maciça de materi al impresso que pod ia ser co ntraban d ea­
Lutero d esem pe n h ou um papel ab so lutam ente cen t raL Nad a do, Para cita r somente a Ge neb ra de Calvino: ent re 1533 -40,foram
m enosdo que 1/3 de todoso s livros em alemão vend ido s entre 1518 publicadas apenas 42 ed ições, mas os núm eros salta ram para 527
e 1525 era ob ra sua. Ent re 1522 e 1546, foram lançadas 430 ed ições entre 1550-64, sendo que nesll' últi mo ano havia nada menos q ue
(integrais ou parc iais ) d as suas t raduções da Bíb lia. "Temos aq ui quarent a gní fi cas diferen tes trabalhand o em regime de h ura
pela pr imeira vez u m p úblico lei to r real mente de m assa e u m a lite­ extra. I
rat ura popular ao alcance de todos."') Com efe ito, Lutero se to rnou A ali ança entre o protestanti smo e o ca pitalismo ed ito rial,
o primeiro autor d e best-sellers con hecido (am o tal. Ou, em o utras explorJndo ed ições popula res baratas , logo criou novos e vastos
palav[Js, o prim eiro au tor capaz d e "vender" os seus novos li vros púhlicC)~ le ito res - entre eles , de im port fmc ia nada pequena,

pela fama do p ró prio nome. IO comerciante:, e m ulh eres, que geralm ente sabiam po uco ou nada
Lutero abriu o cam in ho, e logo out ros se segui ram , inaugu­ de lallm - , ao mesm o tempo que os m obilizava para fin alidad es
rando a gigantesca guerra de p ro paganda religiosa que se alastro u político- religiosas. Inevitavel m cn te, não foi apenas a Igreja que se
pela Europa no -;éculo ~ eg u jnte . Nessa titânica "batalha pelo espí­ viu abalad a no seu p róprio cern e. O m esmo terremolo gerou os
rito d os hom ens", o p rotest antis mo semp re m anteve a ofens iva, primeiros estados não-d inásticos europeus , q ue não eram cida ­
justa mente po rque sab ia como ut ili7,a r O mercado editor ial ve rná­ ues-cstado, n.1 rep úbl ica holandesa e no Commomvealth dos p uri­
culo , q ue esta va sendo cr iado e expandid o pelo cap it alis m o, tanos. (O pânico de h anc isco I, além de rel igioso, era po lít ico.)
en q uanto n Contra-Reforma defen d ia a cidad ela do lat im . Ern ble­ O tercei ro fo i a d ifusão lenta, geograficam en te irregular, de
mático é o Jnaex Librorum Prohibitorlll/l do Va tica no - qu e não determ ina dos ve rnácu los co mo instrumen tos d e cen tralinção
admin i ~Lra tiva, po r o bra d e ce rtos m onarcas bem pos icio nad os,
8. J/Jid. , pp. 289-90.
com prdcllsões absolu tistas. Aq ui cabe le mb rar que a unive rsali ­
9· I bid., p p. 29 1· 5.
d.l ue do [.Ilim na Eu ropa Ocide ntal m edieval nu nca co rrespomk u
l O. Daq ui , to i JJl clla~ um p dSS O a té a s i tu aç~o da F r an ~' i1 s.: isu: n tis ta, e m q u e

a Um sistema político un ive rsaL A esse respeito, é instrutiva sua


Co rn eil k., Mo li i: re e La ['o nta in r po di am "c' nd er as s ua s t rag(' d ias c coméd ias

m anu sc ritas ;IO S cdilPrc's, qu e a~ adqui riam co m o ('xcc!t- nt ('s investimen tos,devi­

do il fam a dos a u tore, no lllc rca do . l bid., p. 16 1.


II . /hi"., pp. 3 10. 5.

74 75
diferença com a Ch in a Im perial, on de hav ia ullla grande co inci­ IllC?J io- ingl ês." Foi so m ente depo is de cerca de cem anos de entro ­
di'ncia entre a burocracia do mandarinato e o dom ínio da caligrafia niz,lÇ{io polít ica do m éd io-in glês que o pod er de Londres fo i varri­
de id eograma s. Co m efeito, a fra gme nttlção política da Europa O ci­ do d<l "Fran ça".
dental a pós a q ueda do Im périu do O ciden te significava q ue 'Jo Sen a, oco rre u um m ov im en to semelhante, embora em
nenhum soberan o poderia monopoli7.ar o latim e convertê-lo em ritmo ma is lento. Co mo irclllíza Bloch, "o francês, quer d i7e r, u ma
sua-e-exd usiva men te -sua língua o ficial , e por isso a auto ridade l ín~lla que era vista como m era co rruptela do latim, levo u m uitos
religiosa do la tim nunca teve um verdadeiro cqu ivalen te polí tico. sécu los para se alçar até a dit;nidade literá ria': 11 só se tornou a lín­
O surgime n to dos ve rnáculo s ad ministrat ivos é anterior gua ofiLia l dos tribunais em 1539, quando Francisco I lanço u o
tanto ao prelo quanto à revolta reLigi osa do século XVI, e por isso FdilO de Villers- Cotterêts.'" Em o utros reinos diná sticos, O lat im
d eve ser abordado (pelo me nos de início ) como um fator indepen­ sobreviveu po r mu ito mai:. Lempo - sob os Habsburgo, até anos
dente no desgas te da comun idade imagi nada sagrad a. Ao mesmo bem ava nçados do séc ulo XIX . Em o utros ainda, os vernác ulos
tem po, nada su gere que existi sse qualq uer profundo im pulso "cstrangeiros" acabaram prevalecendo: no sécul o XV jH, as línguas
ideológico, e menos ain da proto nacion al, po r trás dessa vernacu­ da corte Romano\' eram o fra ncês e o alemão. '"
liza ção, on de ela veio a ocor re r. O caso da "In glaterra" - na peri­ Em todo caso, a "escolha" da língua aparece como fruto de um
feri a n0roes te da Europ a la tina - é espec ia lm ente elucidativo.
dcsenvolvimento gradu al, inconsciente, pra gmático, para não di ­
Antes da con qu ista normand a, a língua da corte, literária e adm i­
zer aleatório. Enquanto ta l, ela se diferen cia p rofundame nte das
nistrativa, era o anglo -saxão. Nos 150 anos seguintes, praticamen ­
pa iítica:. Imgüísticas a utoconscientes dos dinastas o ito centistas ,
te todos os do cu m entos régios fo ra m re dig idos em latim . En tre
diante do crescim ento de nac ionalismos lingüísticos pop ulares de
1200 e 1350, esse latim oficial fo i substit uído pelo franco- norm an ­
oposição. (Ver adiante, cap ít ulo 5. ) Um sinal claro dessa diferença
do. Entremen tes, uma lenta fusão entre e::;sa lí ngua , de uma classe
c: quc as antigas lí nguas admin istrativas eram C1 penas isso: lín guas
d irige nte es tran geira , e o a nglo-saxão , da po pu laçã o de súditos,
lI s<l das pelo e para o funcionali smo, e para a sua p rópria conve­
gero u o m édio -ingl ês [early english l. Essa fu são per mitiu q ue a
niência intern a. Não havia a idéia de imp or sistematicamente a lín ­
nova lin gua se tornasse, após 1362, a língua das cortes - e da ses­
gua às várias po p ul açõ es sob o do m ínio din ást ico. I. Co ntudo, a
sào ina ugural do Parla men to. Segue-se em 1382 a Btbl ia manuscri­
ta de Wycl iffe , em v<.' rn~cu l o.' - f. essencial ter em m ente q ue esta é
1.\. :-.Jao dt'n:mos su por que a unificdção vern acu la r 3dmi n is l rali va tenha se rea

uma seqüê nci a d e língu as "ofici a is", nâo "na cio na is"; e que o
Ii /,Ido d e im ,·uJ .ItO o u de íorma in teg ral. ( improv.i vcl q ue a C ui<lna gove rnada a

Estado co rresponden le abrangia, vari ando no tem po, n ão só a partir Jt' 1.011 d 1C ~ (üs>c admin is trad a primariamente c ll1l1lt:di o -ing lês .

at udl Inglaterra e Ga les, mas t amb ém partes da Irlan dtl, Escócia e 11· 1\I\ ll h. E'wllll soóct) ·, I. p. 9R.

1<; . ~l'l(ln - Wa hon , Nf.ltions and s", res, p. <I R.

Fra llça. Evjde n temen te, uma imensa parcela d os súdilos não
16. Ihirl. p. ~3 .

co nhec ia nada o u qu ase na da de latim, fran co -n o rm an do ou 17- '1I: f!ll /,\' Ullla C<l n tir maçao interessa n te desse po nto co m Fran cisco I, que, co rn o

l' il110"'P nlil1 iu a illl prc,Silo de todo e qualquer li vro e m 1535, e ad o tou o fra ncês

l.~. Seton -\\',ll so n, /Vtl lirlm and ~t" l t·S. pp. 2R-9; Blo(h . F<!lIdal S<lciclr, I, p . 7 ~ . ('1)11111 a ling Uil da t o rte q uatro a n os de pois'

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a1>(cllsâo d esses vernáculos à co nu ição d e lín guas oficia is, onde Emhora seja fun dam ental ter em men te a id éia de fa talidade,
t'''IS, C111 certo sent ido, conco rriam com o latim (o fran cês em Pa ris, tll) ~\.·nti do de li l11a cond ição gl'm l de d iversidade lin güística irre m e­
o médi o-inglê!> em Lü ndres ), co ntrib ui u punI o declí n io da COtnU ­ di.lvel, seria um erro iden liCicar cs:.a idéia co m aq ue le elem en to
uid,l de im aginada d a cr istandade. ã... ideo logias n aci onal istas que insiste D a fatcl lida de prirnor­
((J1l111 t11
No fun do, é p rovável que , nesse contex to, a t!soterização do d i<.d das lí nguas f articlllnl'es e em sua ligação co m unid aJes terri to ­
lati m, a Reformd e o d esenvolvimento ah..a tór io d e ve rnácu los ri.1j~ t,tmbé m partiCl/lllres. O e~<;encic:l l é d inlen l(ilo entre fata lidade,
ad min istrat ivo!> te n ham um significado bas icame n te negati vo ­ teo1(llngi,1 e cap ita l i~mo. Na Eu ropa anterior à im pre nsa c, claro, em
a ~ abe r, a su a co nt r ibuição pa ra destrona r o la tim. É plena m t: n tc IOdo o resto do mu ndo, a d ivc rsid ~de d as línguas fa ladas, aqudas
p ossível conceber o surgimento das novas com uni d ades naci onais que rorneci a m J trama e a urdid ura d a vida de seus usuários, e ra
im agin adas sem li m desses fa tores, ou m esm o sem n en hu m deles. imensa; tão imensa, de fa to , que seo capitalism o editorial t ivesse ten­
O q ue to rn o u p ossível im aginar as n \..w as com unidad es, num sen ­ lado ex plora r cada mercad o vcrn.acul ar em potencial, teria ad q u i ri­
tido positivo , foi um a inte ração m ais o u me n os cas ual, porém dD dimensões m inúsc ul as . Mas esses idioletos va riado s podia m ser
explosi\'a, e nt re um m odo d e prod ução e de relações de p rod ução montados , de n tro de cer tos lim ites, com o lín g u as im p ress as d e
(o cap ita lismo ), u ma tecnologia de co mu ni cação (a im p re nsa ) e a número mui to mais redu zido. A própria ar bitrariedade de qu a lq uer
fatal id ade da d iversidade lingüística hu m ana." sistema de signos para os sons facili tava o processo de mon tagem. ~"
O elemen to d a fatalid ad e é esse n cial. Po is , por mais Cj u e o (Ao mesmo te m p o, qua nto m ais ideográfico s os signos, m aio r a
capitalismo fosse capa; de p roezas extraordi ná r ias, ele enfre n tava pnten(ial zona de mo ntagem . Aq ui podemos enxerga r u ma espécie
d o is ad ve rsários fer re nhos na morte e ilas lí ngLlas. ' ~ As lí ngu as par­ de hierarqui a decrescente, d esd e a álgebra, p assa nd o p elo ch inês e
ticulares po d em m o rrer o u ser n.'ter m inadas , ma s n ão havia e não pelll ingJés, até os silabários regulJres d o francês o u do indonésio. )
há nen huma po ssibil idade de uma unificnção lingü ística geral da Nada ~t'rv i u melhor pa ra " montar" vernáculos aparentados do que
humanidade . No e ntanto, histo r ica mente, essa mútua inco m un i­ o cap ital ismo, o q ual, dentro dos lim ites impostos pela gramática e
ca b ilid ade n ão fo i de grande importância até o momento em que pela sintaxe, criava línguas impressas, re p rod uzidas mecanicamen­
o capitalismo e a imprensa cr iara m públicos leitores d e massa e te, capal.es de se d isseminar a tra\és do mercado. I

l11o noglotas. bsa<; lí ng uas impressas la n çaram as bases pa ra a consciência


nacional uc três man eiras diferen les oF m primeiro lugar, e aci ma Jc
18. N,w ro i u primeiro "acaso" d l'S$~ tipo. l-e bvr<:' (' MJ rtin observa m que, embora

j,í ro~s e visível:] existência <1<.: urn,l burguesia na Europa no tin al do séc ulo XIII , o
20 · 1'.\1',1 u n !.1 !l o: \ Jiscu;;sâo sob re e~t e PQ llto, ve r S. 11. Steinberg, ri l'e IlIIltdrcri
l iSO generali7;ldo do papc'l só oco rreu no fi nal do século XI\·. Apenas a superflck
ycm, ofl'rilll i,,:<, capo5.0 fat o de o s i~ no ol.lgh ler di fere ntes pronún ci,ls nas pala ­
plJIlJ c lisa do pap el poss ibilitaria ,I rcproduçAo em série d e textos c fi guras-e
Vra, tlllhlltl~h, bDlIglt, lougli, rOl/giz, nlllgh c hic((/IIgh, most ra t.lIlto a v,Hieda de
isso só se ver ificou nCl S7 '; a nos seguintes. ~ [ as o pJp el l1J0 foi uma in"" nção euro­
Iclill!"I,11 de 0 nde surgiu a pronLlIl cia padro nizada do in glês, qu anto a ljualiJade
péia. l:.1t.: ve i0 de uma ou tra históri a - da China - , passando pelo mundo íshi ­
IJcugr.lflca d() produto fin al.
mico. ,[,he w millg ofllIe book, pp. 12, 30 ~ -15.
li . fol l digo " nada ,;crviu melhor r .. ] do que li cap italis mo" deli beradamente. Ta nto
19· l\ indJ não tem os nen huma lTIultinacional gigal1te no mundo editorial.
~k'il1!l\'r""q lJ.l nto E"' lSenstelll qu ase teornor filzarn a ".lm p ren;;a" em SI. como o gel1lo
. .

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79
I udu, das criaram ca mpos lInific a do~ de intcrdmbio c comunica ­ impressas vêm ga nhand o um vern iz rcs istente; temos um a~es~o
ção abaixo do latim e ac ima dos vernácu los falJdos. Os falantes da mais direLo às palavra s dos nossos anlcpassad05 do século \V II do
enorme diversidode de variantes francesas, ing le!:>as e espanholas, que Vil lo n em rclação aos se us antepassados do século XII.
que acharia m difíciJ ou mesmo im possível se entende r o ralmente, Fm lerceiro Iugar, o capilalismo tipográfico cri o u lt nguas 01'1­
puderam sc en tender através do pa pel e da \clra imp ressa. CO lil isso, Clnis d irerentes dos vernáculos a dm i ni ~tra ti l'()s anteriores. Tnev i­
fo ram tomando co nsciência gradual das centenas de mi lh ares, e até t'l\·~· ll1l cnte. algu ns d ialet os estava m "m ai:. próx imos" da lí ngua

mi lhões, de pessoas dentro daquele campo lingüístico pa rt icu lar, e impressa c acabaram dom inando suas f()fm as finais. Os primos
ao meS1110 tempo percebe ndo q ue npcllns CSll1SCentcnas de milha­ Iwbrt:s, q ue aind a podiam se r a<;simi lados na Imgua impressa em
res, ou milh ões, perte nciam a tal campo. Essescompan hci ro!:>dc lei­ fórm 'llrão, aca baram perde ndo posição, pr incipalmente porq ue
tura, aos quais estavam ligados através da le tra impressa, con~t ituí­ não conseguiram (o u consegui.ram apenas em parte) ter asua pró­

ram, na sua invisibilidade visível, secular e particular, o emb rião da pri'l form a im press a. O "ale mão do noroeste" torn o u-se o P[all
com unid ade nacionalmente imaginada. DL'IIrsch, um alemão m uilo fal ado, e port anto um subpa drão de
.111 segundo lugar, o capitalismo tipográfico conferili uma no­
hngua, porque pôde ser ass im ilado no id io ma im presso de uma
va fi xidez à lí ngua, o que, a longo prazo, aju dou a construir aquela
forma que não foi possível para () tcheco fal ado da Boêmia. O al to­
alemão, () inglês do rei e, mais tarele, o tailandês central fo ra m alça ­
imagem de antigüidade tão essencial à idéia subjetiva de nação.
dos a 1l ll\<lS alturas político-culturai s. (IJaí as lutas na Europa de
Co mo lemb ra m Febv re e Martin, o livro impresso guardava uma
algUI11'l<; "sub"-naciona lidades, no fin al do séc ulo xx, para mudar
for ma consta nte, capaz de reprodução praticamente infinita no
sua L'ond ição subordinada entrando com forç a na imprensa - c
tem po e no espaço. Ele não estava mais sujeito aos háb itos indivi­
no rádio.
duali zantes e "inconsc ien tem entc Illoderni zantes " dos monges
Restd apenas enfatizar qu e a fi xação e a obtençào de um esta­
copistas. Assim, se o fr an cês usa do por Villo n no século xv era
tuto difere nciado das línguas im pressas fora m , em suas ori gens,
mui to diferente do francês do séc ulo Xli, no século XVI o ritmo da
pro ce sso~ inconscientes que resu ltara m da in te raçào explosi va
mudança havia d imin uído de forma marca nte. "No século X\If, as
entre o capital ismo, a tecnol ogia e a dive rsidade li ngüística huma­
línguas na Europa hav iam assumido, de modo geral, suas formas
na ~las , co mo tanfas o utras coisas na história do naciol1.1 lismo,
modern as." li Em o utros termo'>, faz t rê~ séculos que essas lí nguas
lima Vez e~ tand o "b", elas pude ram se co nverter em modelos for­
mai, <I !:>t:rcm imitados e, q uando fos!:>e o caso, co nsc ientemente
da hi stóri ,( moderna. Fcb\ fI: c Martin nunca esquecem qu e, por trás da impren­
sa, cxi"lc l1l gráfi êas c cJitor.ls. Nl'~ le conl(:xtn, v~l k lem brar que a im pt"ensa foi
exp lorados num espírito maquiavc!J ico. Hoje, o govern o tailandês
ill n: ntad'.1 J princípi o na Chi na, tal vez 'l uinh cnlos <1 nos ;lutes de dparecer na desenloraja vivamen te as le n t,lti vas dos missionários eslrungeiro!>
Lurol'J, ma, não teve nenhum irnpacto sign ificativo, e mu ito lIlenos revolu cio ­ de r\lrn~cc r !> i ste m a~ de tran scr ição lingüística para d~ min ori as
nário - Jus lamente d<'Vido à in L'xislencia do capital islllO. lribai~ d,h mo ntanhas e desenvolver pu blicações nas suas línguas
22 . lhe crmin.l!o(th l' book, p. 319. Cf. ü lppnritirl1, p.477: "Ali XI Ile siecle, les lan­

g U(:$ nationales ap paraissent un pcu parlout cristalli, é~s" INo seculo "VII , as lí n­
naLlvas. mas o me!:> mo gove rno é ind iferen te ao que essas minorias
guas nac ionais aparecem crisla lizadas um pouco por toda partel . .fá/, I111. O destino dos povo~ de fal a turC<l nas zonas incorporadas a

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"1.llnília anglo-saxô nica" sã o exe m plos cb ros do pr imeiro caso ;
urquia, Irã, Iraq ue e Uniào Sov iética é espec ialmente ilust rativo.
J11uito s r.stado~ ex-colo niais, pri ncipalmente na Africa, são exe m­
ma fa mília de língu as faladas, que podiam ser m o ntadas numa
pl(l~ tlll ~egun do . Em out ras pa lav ras, a formaçii o concreta dos
orto grafia a rábica, tornan do -se assim co mp ree n síve is ent re si,
Est.~J()S naci o nais con temp orâneos não gua rda ne nhuma rel<ição
pe rde u essa unidade devido a m an ipu la çües del iberad as. Para
i~1I111órfica com o ca mpo d e ab rangênc ia das lín g lla~ impressas
en altecer a c o n~ciênci a nac ional d a Turq u ia t ürqu ica, em detri­
l'''I'edlic3s. Pa ra l:xplicar a d escon tin u idad e c a inter- rcla~ã o entre
mento de qualquer identificaçào islâmica m ais profund a, Atatú rk
.h 1!nguas impressas, a consc iência nacional e os Est<1d ns nacionais,
impôs uma roma nização o b r igatór ia .l.l As auto r idades soviéticas
cumpre observar o grand e conjunto de novas entid ad es políticas
seguiram a m esma tril ha, primeiro co m uma romanização com­
que surgiram no hem isfé r io ocide ntal entre 1776 c 1R38, lodas
pulsó ria antiü,lâ mica e antipe rsa e d epo is, nos an os 30, com Stálin
dcfinindo-<;e de modo autoconscien te com o nações e, co m a inte­
e su a cir il ização russifican te obrigatória. N
rcs~ontt: exceção do Brasil, como repú bl k as (n ão- d inásticas). Pois
ni.io ~Ó (o ra m historica m ent e os p rimeiros Estad os nacio nais a sur­
Podemos resu mi r as conclusõ es dos argu m en tos a presenta­
gir no cenár io mundial, portanto passando a fornecer inevitavel­
dos até ago ra d izendo que a convergên cia do capitalismo e da tec­
l11enk os primeiros m odelos reais do que deve riam "parecer" tais
no logia d e imprensa sobre a fatal d iversidad e da I inguagem huma ­
btados, como também a qu antidade c a época de seu surgimen to
na criou a poss ibili da de de uma no va forma de co munidade
simultâne(l oferecem um terreno fecllndo para a pesquisa compa­
imag in ada, a qual, em sua morfo logia básica, m o nto u o cenário
rada.
para a nação mo derna. A extensão potencial dessas comunidades
era intrinsecamente limi tada, e, ao mesmo tempo, não ma nti nha
senão a ma is fortuita relação co m as fro nteiras políticas ex istentes
(que, no geral, correspo ndiam ao p o nto culminante dos ex pansio­
nism os J inásticos).
Mas é evi d ente que , embora quase todas as nações - e tam­
bém es tados naci o nais - modernas, que se co ncebem como ta is,
atu alm ente tenham " línguas impressas n acion ais", mu itas d elas
compartilham u ma m esm a língua, e, em ou tros casos, apenas uma
fração m in úscula da população "usa" a língua n ac ional na fala ou
na esc rita. Os Est:1d üs na c ionais da Amé rica espanhola ou da

2.1. Il an~ Kohn , ] l/e Ilgeo(llntio IlO li5l1l, p. 108. Ede se ac rescel1l Jr q ue Ke m J I. dL'ssa

lllaneirJ , tam bé m esperava alinhar o na cionalismo turco à civ ilização rom,lniza­

da m odern a da Europa Ocidental.

24- :'cto n -Wabon . N nt;vI's alld states, p. 317.

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