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FORJANDO A DEMOCRACIA

a-dia pessoal e a Iransfonnação social em larga escala e ~obre a dialética de ulopia e


fracasso . Em bora essas conversas tenham começado nos anos 1920 e segu ido muitos
c aminho~. seu verdadeiro destino era J968 , e toda a parte fin al do livro presume esta
influênc ia. Ela abala a complacência pol ítica e o dec;íl nimo melhor que qualquer o ul.ra
pessoa que eu conheça. Bob Moeller fo i o mais desinteressado e tranqüil izador dos INTRODUÇÃO
crftico" intelectuais. S ua própria obra sobre a década de 1950 ajudou enormemente a
minha compreensão. mas ele também providenciou uma leitura completa e aguda do Ademocra cia
primeiro manuscrito. suficientemente longo pro'a testar a paciência da amizade ma.is na Europa
confiável. As versões subseqüentes se aprimoraram reco nhecidamente com sua crítica
detalhada .
Todos esses amigos contribu íram inesti mavelmente para todos O f; pontos fortes
que meu li vro possa ter. E les me o fe receram suporte do melh or otimismo num mundo
em que sua oferta vem declinando incessantemente . O melhor apoio de todos foi-me
oferecido por Gina Morantz-Sam:hez. Ela entrou na minha vida quando o li vro se apro­
ximava de seu último e mais difícil estágio. Desafi ou-me a completá-lo. Livrou meu
A DHMOCRACIA NA EUROPA É UM ACONTECIMENTO relati vamente recente, frág il, con­
texto ue excessos e orientou-me para a cl areza. Leu cada palavra, e havia m uitas. De
testado e inacabado. Data da crise revolucionária que se seguiu à Primeira Guerra
seu grande conhecimento da história dos Estados Un idos. da história do feminismo e
M undial e fo i transi tória antes de seT brutalmente varrida. Só depois de 1945. como
da história das mulheres, ela trouxe valiosas perspectivas comparativas . Tomou daras
sultado da vitória sobre () fascis mo, os direitos democráticos foram realmente alcan­
as grandes idéias do li vro e compeliu-me a reforçá-Ias. A versão f ID al respira a sua
çados. Mesmo então. na Europa Oriental socialista sobreveio imediatamente uma COD­
presença. É claro que o acabamento de um livro exige mu itos outros tipos de ajuda, e é
trJ.-revolução l.talinista. enquanto na periferia meridional de Espanha., Portugal e Grécia
impossível expressar adequadamente minha gratidão por todas as formas em que ela
ditaduras de direita conti nuavam a dominar. Quando finalmente se criaram políticas
me manteve no caminho certo, com prej uízo inevitável da~ outras partes da vida. De
democráticas também neSsas regiões. a democracia se tornou uma realidade européia.
bom senso infalível, el a ajudou a guiar este livro ao seu término.
Ma,> o q ue significa "democracia"? No rei no do direito, ela exige no núnimo o
seguinte: sufrágio li vre. uni versal. secreto. adul to e igual; as liberdades civis clássica~
de expressão. consciência, reuniãO, associação e imprensa; e li berdade com relação a
prisões sem julgamento. Por este padrão. a democracia não fo i implan tada em lugar
~gum no mundo d urante o século XIX e s6 chegou a q uatro países antes de 19 14: Nova
Zelândia (1893). Austrália (1903) 1. Finlãndia (1 906) e Noruega (1 9 13). Se atenuarmos
a delinição. desconsiderando o sufrágio femi nino. poderemos também acrescentar as
democrncias masculinas da França e da Suíça. Embora 19 18 tenha ensejado ci rcuns­
tâncias revol ucionárias que expandiram as liberdades j urídicas. estas ainda assim fo­
ram efêmeras ~ s6 se instalaram duradouramente depois de 1945. Ao que parece. so­
mente as mobllizaçõcs sociocconômicas em larga escala da guerra mundial criaram o
Contexto ~ocia\ para o progresso da pol.ítica dem ocrática. Dai a ressonância especial de
1918 e 1945 2•
As de[miçôes jurídicas descrevem a democratização. mas não são capazes de ex ­
plicar como ela se reali zou. Para tanto é necessário ir mais fundo, examinando a dinâ­
U1tca da emergência real da democracia. de perfodo a penodo e de país a pafs. As óbvias
arenas de luta politicu nas instituições parlamentures e em tomo dos direitos de ciciada­

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2.2
I"UKJ ANOO A O&VtOCRACIA
A DEMOCRACIA NA EUROPA

nia são especialmente ~ignificativas, mas a evolução das relações sociais e da cultura é
anos) 9 I 4-23 produziram outra redefinição generalizada do desenho do mapa,
igualmente importante. Em conseqüência da ascensão do Estado de bem-estar, pacotes (113. I)~
ecendo o cenário para a política polarizada entre revolução e contra-revolução
ambiciosos de direi tos sociais expandiram as defi nições dos direitos democráticos. Es­ estll bel
tes seriam conquistados por várias formas de mobilização social e auto-afirmação cul­ uC gerOU o fasc ismo. . . .. . . .
q Durante a década de 1860. o constl tuclOnahsmo liberal registrou um IInpresslO­
tura.l, que gradualmente transformaram as defi nições do público e do privado e se vale­
ram de uma esfera pública crescentemente sujeita à mediação da massa. nante crescimento intern acional por meio da reorganização de Estados e do reconheci­
mento de l1ireitos populares, principalmente em relação ao direito de voto, mas in­
Nenhuma dessas mudanças pode ser entendjda convincentemente Sem a compreen­
cluindo também a legalização limitada dos sindicatos em escala local e nacional, da
são de suas dimensões de gênero, o que significa avali ar tanto o grau de inclusão da
Espanha até o Império Habsburgo e da G rã-Bretanha à Grécia. Ademais, eSsas estrutu­
mu lher como o impac to desses ganhos nas relações de gênero estabelecidas. O exame
ras constitucio nai s criadas na década de 1860 mostraram-se notavelmente resilientes.
do acesso democrático para avaliar a quem exatamente se deu voz transforma o fator
.4. estabilidade teve por vezes de ser assegurada durante crises nacionais com grandes
gênero da cidadania em um aspecto vital da história da democracia. A crítica feminista
atos de concessão em resposta à pressão popular, com um aumento das dificuldades na
j á enfatizou como o entendimento político pós-iluminismo se apoiou pesadamen te nas
t!écada que precedeu a Pti meira G uerra Mundial. Mas, em cada um dos casos, decisi­
distinções binárias entre homens e mulheres incorporadas nas no vas noções de cidada­
vamente, as mudanças ocorreram por meios constitucionais. Ainda que extraparlamen­
nia . pes soa lidade e individualidade. Mostrou como essas premissas limitaram
tores na forma. as pressões populares foram aplicadas principalmente no interior das
crucialmente o "acesso da mulher ao saber, às qualificações e à subjetividade política
csttururas constitucionais liberais existentes, e não contra elas.
independente", especialmente quando imersas nas linguagens de identidade coletiva,
Embora os ganhos mais espetaculares da democracia tenham sempre ocorrido em
de classe e nacionalidade a religião e raça 3 . Por exemplo, a própria categoria básica de
escala transnacional, Estados nacionais organizados em tomo de governos representa­
sociedade civil presumia a exclusão da mulher. As novas distinções entre público e
tivos também eram um requisito indispensável e vital. A Revolução Francesa havia
privado classificavam as mulheres primariamente como mães e administradoras do lar,
apresentado aos europeus a idéia de que os governos poderiam ser "para o povo",
por oposição a líderes sociais e atorc~ políticos. Já no século xx, a demanda pela inclu­
sacudindo a estabilidade das estruturas de autoridade do início do século XIX e inspi­
são d as mulheres iria exigir que conceitos como política do corpo e cidadania social
fossem radicalmente redefinidos . rando vários mov imentos revolucionários. Mas somente quando um sistema de Esta­
dos-nação liberalizados se solidificou durante a década de 1860 os movimentos para
Embora as distinções de gênero tenham permanecido como fonte persistente e
organizar as esperanças populares conseguiram emergir. Isto foi mais evidente na Itália
difusa de conflitos na busca da democracia, a luta contra a desigualdade de poderes
e na Aleman ha, onde a unificação criou pela primeira vez Estados territoriais. As re­
estava no seu cerne. Que fique bem claro: a democracia não é uma "dádiva", nem é
cém-estabelecidas máq uinas constitucionais da política nacional italiana e alemã, liga­
"assegurada" . Ela exige conflito, a saber, o desafio corajoso da autoridade, a assunção
das a preceitos liberais de autogoverno e responsabilidade cívica, criaram as primeiras
de riscos e atos de coragem temerária, o testemunho ético. confrontações violentas e
bases viá vei~ para movimentos democráticos populares organizados. O fortalecimento
crises gerais em que se rompe a ordem político-social dada. Na Europa, a democracia
do constitucionalismo liberal nos Estados telTÍtoriais mais antigos da Europa teve o
não foi resultado da evolução natural ou da prosperidade econômica. Certamente não
mes mo efeito. Insurreições populares dramáticas ocorreram periodicamente antes do
emergiu como subproduto inevitável do individualismo ou do mercado. Ela se desen­

turbilhão da década de 1860 - em 1830-34, novamente em 1848-51, e em muitos ou­


volveu porq ue uma grande quantidade de pessoas se organizaram coletivamente para

reivindicá-Ia.
fro~ casos isolados por lodo o continente -, mantendo às vezes uma presença mais
longa no cenário nacional, como no caso dos cartistas da Grã-Bretanha entre 1837 e
A di fusão da democracia te ve uma dimensão transnacional vi tal. Foi formada em
IR48 . Mas somente na década de 1860 foram criadas as condições legais e constituci­
grande parte além das fronteiras nacionais p or LI ma série de conjunturas pan-européias
onais para partidos populares democráticos.
ampl iadoras de hori.lOntes entre o <;éculo XVlII e o presente. Hou ve cinco desses mo­
Entre as décadas de 1870 e 1890, em um país após o outro, por todo o mapa da
mentos constit ui ntes transnacionais na história moderna da Europa, que definin un li­
Europa, formaram -se partidos socialistas para dar forma política coerente, centraliza­
mites c possibilidades para as décadas que se segu iram: 1776-1 8 15, 1859-71, 1914-23,
da e duradoura ao governo do povo. Até o advento da Primeira Guerra Mundial, e em
1943-49 c 1989-92. Para os fins deste li vro, a década de 1860 forma a linha de base,
grande parte desde enl11o. esses partidos suportaram a maior parte do peso da reivindi­
que est abe leceu uma estrutu ra duradoura da política popu lar até que uma nova sélie de
cação de democracia na Europa. D e fato, durante a maior parte do penodo coberto por
conflitos radicaJi7.ados começasse a di ssolvê-Ia no intervalo 1905-14. Da mesma for-
este livro, a bandeira da democracia foi ergu ida de forma mais consistente pela tradi­
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"U I'U"'I" l'U A D hMOCRACIA
A DEMOCRACIA NA EUROPA

ção soci alista. Nas décadas de 1860 e J870. foram os parlamentares sociali stas que
.. lu em fuce dos programas de austeridade c do desemprego crescenle; faltava aos
marcarulll um espaço clammeme democrático nus polfLica~ li beral-consti tucionais criadas ..e esva , . . . " .
. li ' tas no governo na AustrHJ e nos Pafses BaiXOS qualquer polluca disUn tl va; e os
pelo levante pan-europeu da época. À medida que então ~e estabeleciam os mo vimen­ 'iOCln!> . .
. 1' <l"S escand inavos, haVIa mullo tempo no pode r, perd eram tamo a s ua
tos trabalhi stas nacionais, essa defesa da democrac ia se reforçou. até que, e m 1914, os snCla .10 .. •. _
,nnça como O controle do governo. O contexto dessa cn se fOi a recessao eco­
partidos socialdemocratas tinham se tomado parte integran te de seus sil:itemas políticos auHlCO ofi>=,
6mica iniciada em 1973, que interrompeu abruptamenle o padrão de expansão con­
- principaJmell le no "n úcleo" centro-norte da E uroP14 onde entre 25% e 40 % dos elei­
torados nacionais votavam nos socialistas. ~nlUl do pós-guerra em que se baseava a confiança da socialdemocracia. Durante a
longa prosperidade do pós-guerra - uma "era de ouro" da estabilidade capitalista. com
oSOCIALISMOEA ESQUERDA cC\!scenle padrão de vida e ampk) consensO social - as metas socialdemocratas de ple­
IlO emprego. saJário~ rea is crescentes e wn gcneroso Estado dc bem-estar foram asse­
guradas sem comprometer a acumulação capitali sta. Mas, nesse novo período, desmQ­
Este livro foi concebido inicial mente no início dos anos 1980, quando já $e tornava
rúnumffi os pilares da situação anterior - econorrua keynesiana, Estado inclusivo de
evidente uma profw1da cri se nas fom as estabelecidas da política da esquerda. Duran te
bem-estar e setores públicos em expansão, corporativismo e sindical ismo forte.
a maior parte do século, a esquerda foi defi nida por partidos socialis tas e comu nistas
Em outras palavras, a força da socialdemocracia derivava de um sistema maior de
que. apesar de antipatias m útuas. também reconheciam uma tradição comum que re­
Ifrica do pós-guerra que estava. ele próp rio. ruindo. A chave desse sistema havia sido
cuava até o final do sécu lo XIX. Mesmo as pequenas dissidências trotskistas e maoístas,
o consenso popular antifascista pau-europeu de 1943 -49. ele próprio forjado no cadinho
que desprezavam igualmente comunis tas e soc ialdemocraLas. fi liavam-se à mesma tra­
d.1 derrota do nazismo. Em contraste com as frag ilidades do acordo anterior de 1918.
dição mais longa . Ademais, ao longo do sécu lo XX, outros movi mentos progressistas
e:iS<! conSenso , oeial mostrou-se extremamente robusto, gozando de legitimidade no
també m se organizaram em tomo da dominância desses dois partidos principais, des­
nível do Estado e abrangência na cu ltura popular. Valendo-se dos patriotismos demo­
cobri ndo ser virtualmente im poss ível na prática evitar o seu abraço. Vez por outra,
cráticos gerados pejas soHdrui edades do período de guerra c fundi ndo as esperaJlças de
causas progressistas eram persegu idas separadamente _ em certos mo vimen tos
um novo começo com as exigências de reconsoução econômica, as coalizões reformis­
anticoJoniais dos anos 1950 e 1960. na maior parte dos feminismos. na d issidênci a
iaS que assumiram o poder em 1945 cOllSeguiram basear seus programas no ti po de
sex.ual. e m várias campanhas específicas, e mesmo freqüentemente em um novo parti­
ncordo social duradour o q ue, em 1918. faltara aos seus predecessores . A força institu­
do, como o P artido da Co munidade, na Grã-Bre tanha, durante a Segunda Guerra Mun­
cional de wna esfera pú blica liberalizada, com todas as proteções legais necessárias e
dial . Mas. para ter e ficácia pública e sucesso legislativo, as causas da esquerda não
lUDn abertura razoável paJ'a o pluralismo e a di ssensão, foi um aspecto vital desse gran­
prescindiam do apoio dos comunistas e social istas. Eram eles os fornecedores do oxi ­
de ganho democ rático. Acima de tudo, as mobilizaçõ~ popu) arCl; em grande escala
gênio político e, neSse sentido, eles hegemonizaram a esquerda.
necessárias para vencer a guerra liberaram a energia para um contrato social generosa­
Entre o final da década de 1960 e a década de 1990, isso deixou de ser verdade.

mente concebido para vigora r na paL. Essas forças reformistas tornaram possível um
Depois da repressão aos movi men tos de refoma na Tchecoslováq uia e na Polônia (em

grau notável de identificação populru' com o Estado após 1945. dando-lhe reservas
1968 e 198 I) , oS comunismos go vernantes esgotaram fi nalmente toda a credI bilidade

duradouras de capi tal moral e político.


como agentes de progresso, em bora ironicamente a invasão russa da Tchecoslováq uia

Assim, ~I força do consenso do p6s-gueml na Europa Ocidental exigiu mais que a


tivesse fi nalmente levado os comunistas da EUTopa Ocidental li desenvolver um curso

polúico independente, declaradamente crítico do modelo soviético. Mal>, já no início

°
prosperidade do grande boóm ou cimento negativo da Guerra Fria; ela pressupôs

dii década de 1980, tornou-se claro que essa direção '~eurocomunjsta" também linha

também que a imagem da boa sociedade, tão profundamente sonhada pelo antifascismo
de 1945, viIia fi nal mente a se tornar realid3de. As formas de coesão n uma soc iedade­
perdido o fôlego . O desempenho eleitoral dos comunistas começou a cair na Itália e

e áS condições que tomam possível a sua renovação - dependem crucia1mente dru;


entrou em lotai colapso na França e na Espanha. Eurocomurústas convictos tiraram

identificações fOIjada~ na memória popular com as instituições políticas daquela so­


suas conclusões e começaram a a bandonar comp letamente sua identidade comu rústa.

ciedade, e aqui diz muil o fi comparação e ntre as duas grandes conjunturas de formula­
Simultaneamente. os p,lrtidos socialdemocratas mergulharam em cOllfusão. O Par­
ção constitucional do século xx. 19 14-23 e 1943-49. Nos dois casos, a escala de mobi­
Lido Trabalhista BritânICO c o Partido Socialdemocrata A lemão entrara m num deserto
liL.ação sociaJ, o radicalismo das mudanças institucionais e a turbulência das e!'peran­
parlamentar por. respectivamente. 18 e 16 anos de oposição, em 1979 e 1982; a eufori a
ças populare~ estilhaçaram a estabilidade das lealdades existentes e rasgara m suaciell­
inicial dáS vitórias eleitoraissociaJ isla.~
na França, na Grécia e na Espanha em 198 1-82
temente o tecido da conformidade social para permiúr a irrupção das grandes mudan­
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J-\. lJL:. . ,,~~-- .............. , _.

FORJAN DO A DEMOCRACIA

Squerd ; e a esquerda sempre foi maior que o socialismo. Os socialistas nunca defen­

ças democráticas. Mas. em 19 18. a construção de identificações populares suticiente­ a

deram sozinhos suas metas. Sempre precisaram de aliados - na luta eleitoral , na fonna­
mente fortes com os novos Estados democráticos pennancceu fo rtemente contestada, -ãO de gOVCITlOS, na organiza~:ão de greves. na construção do apoio comunitário , na
como tragicamente revelaram a polarização polHica do intervalo entre a<; guerras e a ~onôuçiiO da agitaÇãO, no trabalho nas instituições ou na afinnação de suas idéias na
ascensão do fascismo. Depois de 1945, pelo contrário. o consenso na Europa Ociden­
esfera pública. Como os socialistas, apÓs a década de 1960, perderam a hegemonia
tal se mostrou m ai~ profundo e mais amplo, produzindo uma lealdade popular notavel­ !,Obre a esquerda e outros radicalismos ingressaram no espaço político da esquerda, os
mente resiLiente à ordem democrática do pós-guena. termOS dessas negociações foram se tom ando cada vez mais complexos. Os socialistas
Esse consenso do pós-guerra durou duas décadas . Mas, a partir dos anos 1960, vi.raJ1l-!;C formando novOS tipos de coalizão ou rev isando seus programas e apelos para

poderosos fatores novos colocaram em ri sco a sua continuação . A recessão que se acomodar os noVOS eleitorados. Mas mesmo nos peóodos anteriores, como este livro

seguiu a 1973, a reestruturação capitalista da transição pós-fordista e uma re[orm ulação aJ1rtn<l repetidamente , os socialistas ou ampliaram seus apelos de formas equivalentes

drástica da estrutura de classes surgiram como os principais acontecimentos. Foram oU preferiram defende r O terreno da "política de classe", ex.cluinuo efetivamente popu­

acompanhados pelas explosões políticas de 1968, pela ascensão de um novo fe minis­ lações significativas do rebanho socialista. A restrição da política socialista em tomo

mo e de um fermento proliferador de novos movimentos sociais, pelo ativismo basea­ dós ideais de masculinidade das classes operárias, fortemente marcados pela discrimi­

do na identidade e por cenas políticas alternativas. Em conseqü ência, os partidos so­ naçãO de gênero, gerando em conseqüência a discriminação e a exclusão das mulheres,

cialistas e comunistas de cunho tradicional perderam sua predominância sobre a es­


foi o mais importante desses efeitos.
querda. Durante os cem anos anteriores a 1960, esses partidos havi am desempenhado
o importante trabalho de advogar a democracia na Europa, construindo apoios por
PARAONDE VAI AESQUERDA AGORA?
meio de eleições e enraizando sua influência na organização popular finamente desen­
volvida. Funcionaram primariamente como movimentos populares baseados nas co­ Entre os últimos anos da década de 1960 e a queda do comunismo em 1989-91, a
munidades, atraindo seus eleitorados por meio de elaboradas solidariedades subculturais. tradição soci allsta entrou numa longa crise, da qual ainda não se recobrou. Para os
Entravam agora num declínio sem fim. Eleitoralmente, viram-se flanqueados por parti­ comunistas, isso estava certamente ligado à perda de legitimidade da União Soviética
dos verdes, socialistas de esquerda e uma grande variedade de iniciativas democráticas e ao seu colapso final. mas a social democracia sofreu uma perda de rumo igualmente
radicais. Ademais, grande parte da energia popular das campanhas de esquerda fugia debilitante com oS problemas do keynesianismo nas décadas de 1970 e 1980. Nos dois
em escala crescente das arenas parlamentares, preferidas pelo socialismo, buscando casoS, o socialismo deixou de funcionar como alternativa convincente ao capitalismo.
um novo ambiente extraparlamentar localizado, fragmentado e amorficamente mutante. Nas percepçõe~ populares, certamente na voz corrente no debate público, as idéias
Este livro pretende rastrear as implicações dessa vital transição contemporânea, socialistas perderam totalmente a ressonância. Como programa aceitável de substituição
em parte historiando a ascensão e a queda da tradição socialista clássica entre as déca­ do capitalismo _ para reorganizar a economia na base de um setor estatal centralmente
das de 1860 e 1980 e em parte analisando o realinhamento pós- 1968. Se as transforma­ planejado e burocraticamente coordenado - . o socialismo desmoronou. Como projeto
ções contemporâneas expuseram as fraqu ezas do socialismo no presente, especialmen­
previsível. ele desapareceu da visão prática.
te as conseqüências excludentes de concentrar a estratégia democrática na ação pro­ Assim, já na década de 1990, a defesa socialista de tipo tradicional foi quase com­
gressista da classe operária, então essas idéias têm muito a nos ensinar sobre as limita­ pletamente silenciada. A retórica triunfalista do "fim do comuni~mo" deu uma força
ções do socialismo também em épocas anteriores. Se a centralidade da classe operária incontrolável à dominância dos programas de mercado na Europa Oriental, ao passo
foi desconsuuída nas análises sociais e econômicas contemporâneas, o que acontecerá que os dogmas neoliberais do Ociuente permeavam a compreensão política do que
se "destro narmos" a classe operária de sua plimazia pri vilegiada na política socialista s
seria um governo viável. Os partidos socialdemocratas repetiram os revisionismo dos
em vários períodos do passado'? A!. críticas feministas de uma "política centrada na anos 1950, dessa vez abandonando quase completamente a pele soci alista, abraçando
classe". a partir da década de 1970, foram especialmente esclarecedoras neste caso, e l)S novos esquemas neoliberais por meio da linguagem da "modernização". Com pou­
as limitações uo viés de gênero dominante na históri a da esquerda :::erão um tema re­ cas exceções , os pari idos comunistaS lambém se dissolveram ou se refizeram,
corren te deste relato. realin hando a identidade da estJ uerda com uma ampla política de coalizações democrá­
A complexa relação entre socialismo e democracia - ou entre "socialismo" e "es­ ticas, em prejuízo do social ismo em si. De todas essa~ fo rmas , independentemente do
querda" - é um tema vital deste li vro . Sob este aspecto. durante cem ano~, a partir de 'iucesso deitoral dos prut idos que ainda se denominavam "socialistas", o socialismo
1860, valeram. dois princípios complementares: o socialismo foi sempre o núcleo da
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r-ORJANl~O A DEMOCRACIA

ô um munuo real do capitalismo transformado . Desafios igualment~ fundamen­


como programa de "política de classe" de Lransformação o u su b ~t i luição do capitalis­ rad~
. b c .a de foro das estruturas coo IleCI'd as da po ti uca
' de c 1asse d o SOCla
. I'Ismo -
mo pareceu ter chegado ao ti m. LaIS clteno da teoria, em áreas amda não estudadas da práuca SOCIal e nO~ contex.tos
eg' vam . . .
Essa crise política também teve uma lú sLÓria social subjacente. Os movimentos nt~. 11fopolfÚr . • O maior
da vida dlána. . d o fierrum
. d es'al-'lO veJO . ' smo. M as outros v\eram
.
tra balhistas socialistas se desen volveram numa era particular entre as décadas de 1880 mieidilm COSem seguida: campanhas antll1UC . 1cares. atiVismo
. . b' al .
um lent' . mOVimentos
e 1930, com fortes continuidades q ue pennaneceram até os anos 1960. Foram form a­ mp'iliStaS, entemovimentos de gay<; e lésbicas e a política mais abrangente da sexualidade,
dos pela inrra-estru tura peculiar de economias urbanas, governo municipal e com uni­ ~acoHtica local comunüária, squotring' e a criação de "cenas alternativas" , movimento;
dades residenciais operárias produzida pela industrialização, que criou as bases para o n~ionaliSLUS e regionalistas de esquerda, c fi nalmente, mas não menos importante, o
sucesso político socialista durante o século xx 4 . Mas essa pai~agem social da indústri a anÚ. rucismO, tanto em resposta a movimentos antii.rnigrantes e outraS agitações da ex­
também começo u á desaparecer depois dos anos 1960. Nos cem anos anteriores, ela tn.'fl direita como cli ando espaÇO onde as próprias minorias raciais começaram a se
havia sido o ambiente básico em q ue os movimentos operários socialistas defenderam 1a
organizar. Esses noVOS movimentos pemüüram o surgimento da política de identidade
de forma convincente a causa da democracia. Não apenas por isso. o crédito por enor­
cClotCmporãn ea
mes conq uistas democráticas deve ser atri buído a esses movimeOlos. Se o velho .paradigma centrado na classe dos socialismos nacionalmente organiz.a­
Essa esquerda histólica se mostrou mais que simplt!smente "boa o ba~tanle· '. Obs­ dos perdeu o domínio sobre as definições da esquerda - a lição maL'> importante dos
tinada e corajosamente, ela construiu os alicerces da democracia na Europa. Ampli ou uuo 1990 _, então esses noVOS mov imentos formaram os pontos de partida de uma
consistentemente os lim ites da cídadania, exigindo direitos democráticos onde os Gnciens s
política capaz de tomar o seu lugar. A transformação da tradição socialista em principal
régillles os negavam, defendendo o~ ganho!> democráticos contra os ataques su b~e­ àg~nle para o progresso da democracia fo i produto de lima era particular, o período
qüentes e lutando em favo r de uma inclusão crescente . O~ partidos soci alistas e comu­ entre 1860-1960, que já se e ncerrou. Mas, se a importância do social ismo para a es­
nista~ - partidos de esq uerda - às vezes con seguiam vence r eleições e formar governos, q uerda pode ser situada nesse período em particular, numa poderosa associação de
mas, acima de tudo. organizaram a sociedade ci vil como a base de (mde se poderia histórias sociai~e formas políticas cujas condições possíveis se dissolveram, a próxi­
defender os di reitos democráticos existe ntes e a partir da qual o utros se desenvolve­ lJlll pergunta ,>urge imediatamente: como se pode situar a democracia no presente?
riam . Magnetizaram outras causas progressistas e interesses em re fonnas. Sem eles, a Quais foram as coordenadas da esquerda na nova era aberta pelos anos 1960? Como se
demOCrdCla não teria deslanchado. Entre as décadas de 1860 e 1960, eles formaram o pode compor uma nOva ba!'e sociopolítica para a democracia? Como podem se dar
centro ativo de todo avanço de mocrático mais amplo. Esta é a história do socialis mo
novas ampliações da democracia?
que precisa ser rec uperada e reco nhecida. Assim comO as mudanças capitalistas contemporâneas estavam recompondo a d ac;se
Se, ao longo de dois séculos de his tória. a esquerda defendeu o constitucionalismo trabalhadora em vez de aboli-la, também as formas reconliguradas da política socialis­
democrático, expandi ndo a cidadania, o igualitarismo, o respeito pelas di ferenças e a ta continuariam a moldar a esquerda. Se o socialismo já não o ferece lima alternativa
inclusão social, a centralização dessa política cm tomo de valores socialistas também Slstemática ao tipo de economia baseada no mercado. as críticas socialistas ao capita­
resultou ~m algumas limi tações lamentáveis. Exatamente porque os socialistas advo­ lismo não perderam a força. Os socialistas sempre cobraram dos liberais que eles hon­
garam de forma tão eficiente a democracia, certas questões ficaram na penumbra. Por rassem suas profissões de fé no pluralismo. na tolerância e no respeito pela diversida­
conseguinte, ao mesmo tempo q ue afinna a dívida da democracia para com a esquer­ de, fundamentando, ademais. se uS argumentos em favor da liberdade na própria filoso­
da, este li vro também analisa as in.nificiências da... bandeiras socialistas - todas as fia vigowsamente iguali tária dos liberais . Concepções fo rtes e elaboradas de justiça
formas pelas quais o domínio socialista da esquerda marginalizou q uestões não faci l­ social e de bem coletivo também rnantiveram sua importância em oposição aos slogans
er
mente aSl>imilávcis aos preceitos da política de classe tão fu ndament a i ~ na visão socia­ individualistas da onda neoliberal. De todas essas formas. a tradição socialista pres ­
lista . A .. que"tões de gênero foram o caso mais óbvio, mas também ocorreram outras V(.lU recursos vitais para a reconstru'jão da esquerda, até mesmo porque partidos
reslriçõe~: questões de controle local e organização cooperativa excluídas pela lógica ulIIodenomtnados socialis tas continuaram a l>er oS repositórios mais populares e
socialista de centralização no ESLado; sexualidades. fo nnas de fanlüia e vida pessoal ~
confiáveis dos valores democráticos.
problemas agrários; questões do coloniali:-;mo, do nacionalismo e \l contínuo proble­ MuI' os movimentos pós-1 968 também expandiram radicalmente os horizontes
ma du " raça". soçiulista~. mapeando noVOS territórios de prática democrática, q uisessem ou não os
Foram e .\·S{)S as I.juestõcs que invadiram a imaginação da esquerda depoi.!; de 1968 . socialistas viajar por ele~. As fronte iras da polític a - a categoria do político em si ­
Pois 11 crise do socialismo não resultou ap~nas de sua colisão com a" felllidades inespe­
31

30
A U hl\llU\....L'\.J-\.'-.,.. ........ l .. .. lI. ...... ' J ..... __ •
• _

FO RJANDO A DEMOCRACiA

cidadania e () Estado de bem-estar. A democrac.:Ía sempre foi uma fronteira em movi­


haviam si do ampliadas por feministas, militantes da li beração gay, ambientalistas,
rn . cuja~ projeções ideaJistas porém irrealizadas foram tão importantes quanto os
autonomista" e outros. Os significados possíveis da democracia haviam mudado. Com erllo efetivos. Portan to. à medida que nos movermos pela pai sagem desconhecida
ganhOS
poucas exceções , essas inovações avançaram para muito além da percepção dos velhos
do século XXI, estaremos diante de um fu tu!'o do quaJ precisaremos nos lembrar. E , ao
partidos de esquerda. Adernais, os novos partidos - verdes, sociali stas de esquerda e
conslru iT1nos nosSOs mapas, vamoS precisar do conhecimento contido no rico passado
utros radicalismos emeigentes - eram pequenos e mal chegaram a absorver grande
parte dessa energia. A verdade é que um realinhamento político de longo alcance esta­ da e~querda.
va refazendo o espaço político nacional - não apenas pela refonna das relações entre
os partidos socialistas e seus usuais seguidores, mas também em novos processos de
aglutinação, que deram um lugar aos verdes e a outros radlcais antes marginalizados.
Ainda mais: durante os cem anos após a década de 1860, com as importantes exceções
19 17-23 e 1943-47, a politica parlamentar dominou, de modo esmagador, a ação polí­
tica democrática, mas isso deixou de ser verdade depois dos anos 1960. A relação entre
uma esfera extraparlamentar diversificada de política de "movimento" locali zado e
geralmente particularístico e as arenas parlamentares ainda existentes tomou-se a prin­
cipal frente de renovação democrática.
Escrever este livro en volveu uma questão ética complicada. A história da esquerda
contém muita violência, muitas decisões errôneas, muitas casos de falta de princípio e
coragem, muitos excessos apavorantes. O stalinismo, em particular, se espalha como
uma nódoa indelével e venenosa por grande parte dessa história. Da mesma forma, DO
campo dos extremismos criado pelos fascistas e revolucionários, e novamente por co­
munistas e anticomunistas, a socialdemocracia em muitos casos preferiu ser cúmplice
na restrição e no prejuízo à democracia. As histórias convencionais da esquerda tam­
bém são geralmente periodizadas em tomo de uma série de jracus.\OS revolucionários
- 1848, 1871, 1917-23, 1936, 1956, 1968 e outros. Tentei não racionalizar os fracassos
e omissões nem deixar de ver os crimes. Tentei não romantizar as oportunidades perdi­
das. Mas, ainda que reconheça as derrotas e limitações da esquerda , este livro tem uma
perspecti va diferente. E le conta a história da trajetória européia da democracia, cujo
sucesso desigual foi assegurado pela esquerda, às vezes com paixão, às vezes doloro­
samente, mas sempre sendo seu suporte necessário e mais confiável.
Somos todos beneficiários dessa conquista. Se considenumos os grandes e dramá­
ticos momentos constituintes da Europa, que fi zeram avançar a fronteira da democra­
cia dos anos 1860 a 1989, veremos a ação democrática radical da esquerda sempre
presente. O., valores políticos pelos quais a esquerda lutou nesses momentos e nos
longos e árduos intervalos entre eles tomaram-se os valores que todos aceitamos. A
degeneração da revol ução bolchevique sob Stalin e a slUlinização da Europa OJiental
depois da Segunda Guerra Mundial comprometeram inevitavelmente o lugar do socia­
lismo neste relato. No resto da Europa , porém, os socialistas foram fundamentalmente
responsáveis por tudo o lJ,ue nos é caro na democracia, desde a busca das garantias
democráticas, da~ liberdades ci vis. e a aprovação das primeiras constituições democrá­
ticas até os ideais mais conJ1iti vos de justiça social, a ampliação das definições de
33
32
APREPARAÇÃO

DO FUTURO

EM OUTIJBRO DE 1895, EDlTH LANCHESTER, de 24 anos, anunciou à fanulia sua inten­


'ião de ir viver com James Sullivan numa união de "amor li vre" : estavam apaixonados
c se opunham por princípio ao casamento como instituição social, porque ele destruía
a imlependência das mulheres. Os doi s eram membros do núcleo de Battersea da Fede­
ração Socialdemocrata (SDF), o pequeno mas vigoroso partido socialista britânico flm­
dado em 1884. Ele, um operário autodidata de origem irlandesa ; ela, a fil ha com edu­
cação universi tári a de uma próspera fanulia londrina de classe média. Edith era ativista
da SDF desde 1892, tendo concorrido sem sucesso ao Conselho Escolar de Londres, em
1894, e pasl'ado a compor a Executiva do partido em 1895 I .
No dia anterior ao inic io da união livre, o pai de Edith e três irmãos vieram aos
seus aposentos acompanhados pelo doutor George Fie1ding Blandford. um conhecido
especialista em doenças mentais. Depois de uma c urta reun ião, durante a qual BI.andford
dibCuti u com Ed ith a questão do casamento, invocando as prováveis conseqüências do
nascimento de filhos e os peri gos de. ser abandonada, ela reafinnoll calmamente sua
decisão BJandford se retirou e assinou um atestado de insanidade em favor da família,
Com o que os irmãos arra:\taram Edilh para fora da casa, jogaram-na numa carruagem,
amarrarum seus pLl l so~ e a deixaram numa insti tuição privada do sul de Londres . Ape­
sar de seus protc~tos, o médico responsável a internou. O objetivo era salvá-Ia do
"suiCfdi\1 <;ocíal" e da "completa ruína", corno explicou Blandford. porque "seu cére­
hro fora prejudicado pe las re uniões e lpelos] tcxtos socialistas"2 .
A SDF e (l público mais radical colocaram-se im ediatamente em ação . Su ll ivilll
requereu um habeas CO/ p llS e alertou a imprensa; organizaram-se reuniõe~ públicas em
faVor de Lanchesler dirigidas pe los líderes do movimento; e alguns militantes da SDF
passaram a noite diante do hospital . Em resposta ao req uerimento, dois especialistas
em luucura declararam que Edilh tinha a mente sã, ainda que desorientada. e ordena­

37
ORJANDO A DEMOCRACiA A PREPARAÇÃO DO FI.JTllRO

ram q ue ela tlvesse alta, o que s6 aconteceu depois de algu ma demora. Joh n Bums, um lo sufrágio feminino. Um oraelor proeminente nos comícios em defesa de Lanchester
uos fu mladores da SDf, ma~ na ocasião deputado pelo Partido Liberal de Battcrsea, re, o futuro deputado trabalhista c dirigente partidáril) George Ll.lnsbury, da mesma
fOI
. a que Marv Grav. (\ue a hospedou em sua casa. D e famíl· ·ta de c Iasse me' do
la b <l1x.a,
.
escreveu ao secretário do Interior e ao comissário dI! polícia, pedilldo que fosse apres­
10rl11
Gray trabalhou como empregada domé~~~aA e s: c~so~ em I R76 co:n ':i lhe Gray, pe­
< - •
sada a alta de Lancheste r, e acompanhou -a, junto com Su llivan , até sua casn no dia 29
de outubro. Depoil> desc;es quatro dias de provação, Lanchester rompeu defi nitIvamen­ dreiro, freqUente mente pumdo por sua mlhtancta smdlcaJ. Ela se filiO U a SDF em 1887,
te com a famnia. q ue continuo u convencida do accrt o de sua ação. Ela contin uou como tornOU-se uma oradora ativa e serviu na sua Executiva entre 1896 e 1903. Criou a
membro ativo da SDE', comparecendo ao Congresc;o da Segunda Internacional, realiza­ rimeira Escola Dominical Socialista em 1892. e em 1895 foi eleita pela SDF para o
do em Londres em J 896, e discursanuo amiúde em reuniões do partido em Lodo o pais. ~onsdho de Curadores de Batlersea. Foi militante ativa do mov imento pelo voto femi­
b
Esse "caso Lanchester" detonou lima am pla discussão pública. A própria SDf de­ nino. traba.lhando nO Círculo da M ulher Socialista de Battersea •
fende u os direitos de L an che ~ter, mas, apesar ele condenar seu seqüestro e o abuso da Em comparação com o resto da Europa, a Grã- Bretanha demorou para tcr um
lei e de concordar com sua crítica do casamento, defendeu a observância pragmática partido socialista forte. e mesmo assim de fonna um tanto ambígua, já que o Comitê de
do "mundo como ele é" e criticou a "ação anarquista" individual ou a " revolta pes­ RepresenwçãO Trab.tLhism de 1900 só lentamente se solidificou como um Partido Tra­
soa)"'. O partido estava mais preocupado em se dissociar das doutrinas do "amor allüSLa separado do Partido Liberal. Contudo, a abrangência e a vitalidade do meio
livre": elas alienavam possíveis novos membros , inOamavam o público em geral e, ocialista emergente nas décadas de 1880 e 1890 já reproduziam as culturas socialistas
impropriamente. introduziam q uestões pessoais na política. Ac usar os socialistas de de outros lugare<;, atrai ndo secularistas e livres-pensadores, femin istas e sufragistas,
propor uma "comunidade de mulheres" não passava de calúnia. mas a defesa da liber­ espiritualistas e socialistas cristãos. educadores e aprendizes , e todos os tipos de pro­
dade sexual dava aos in imigos do socialismo uma arma preciosa. O rival Partido Tra­ gressistas. além do núcleo de socialistas e sindicaJi sta~. A partir da virada do século, os
balhista Independente (ILP) concordava em termos gerais. Seu líder, Keir Hardie, es­ partidos socialistas europeu s fl oresceram numa popularidade de massa com incl inação
tava preocupado com o mau nome do socialismo : "Os inimigos do socialismo sabem utópica. declarando ser a confrontação com o capitalismo "a última grande batalha do
que fu gas como a pensada pela senhora Lanchester tendem a desacreditá-lo em todas mundo", que anunciava um "paraíso de pureza, de concórdia . de amor". O socialismo
as classes·'·I. significava "a morte da escuridão e o nascimento da lu i' , tomando poss ível um "mun­
Houve opiniões contrárias. Alguns militantes da sDFaplaudi ram o "exemplo nobre do regenerado"g .
e altruísta" de Lanchester como um golpe contra "esta era de hipocrisia e ignorância" . O imperativo utópico do ~ociali sm o era crucial para garantir o apoio de sua
O ~emanário socialista independente C la r;OIL. de Robert Blatchford, concordou: "Os militância. Nos níveis vitais retórico e motivacionaJ , noS mais variados contextos
socialistas acreditam que a mulher lem o direito absoluto de fazer o q ue quiser com o micropülílicos da vida diária, a idéia de um fu tu ro melhor e viável era o que permitia a
próplio corpo [ ...] desafiando padres. leis, costumes e os bem -pensanles"5 . Atrás da incontáveis militantes dos partidos socialistas oferecerem apoio constante. Como reve­
liderança imediat.a da SDF havi a de fato um meio radical mui to mais variado, em que se lou o caso Lanchester, a política ~()ci ali sta ctiou estruturas em que se ergueram muüas
incentivava a dissidência cultural. Apesar de o julgamento e a demoniLação de Oscar outras causas progressistas. Embora aquelas causas ainda tivessem o caráter de oposi­
Wildc, um pouco antes. em 1895, lerem colocado em posição delicada os radicais ção e () sistema existente mobili z.asse grandes recursos para isolá-Ias, elas já estavam
sex uais. (I caso Lanchester deu a eles a chance de responder à altura6• Herbert Burrows , I'edeünindo os te rm()~ do debate. Conquistando impressionante sucesso nas eleições e
um dos fundadores da SDF que se pronu nc iou ativamente nos comícios em defesa de organizando uma presença imponente na sociedade , j á em 191 4 os partidos sociali stas
Lanchester, personificava essa posi"ão secu larisla e divergente: '''novidadeiro' típico europeus representavam um desafio democrático cada vez mais relevante.
[...1ele era abstêmio, antitabagistu, vegetari ano e teoso lista, bem como advogado dos
dil'eito~ da mulher" . Em 1888, ajudou a organizar a tamosa greve das operárias da
indlí<;tria de fÓsforos e se tornou tesoureiro de seu sindi cnto, fuendo campanhas pelos
direitos da m ulber no trabalho através da Liga Si ndical da M ulher e do Conselho In­
dustrial da M ul her. Foi um dos pioneiros na defesa do sufrágio feminino 7.
DepOIS de 1900, esse meio radica! se desenvolveu com o crescimento eleitoral do
Panido Trabalhista. a ampli ação do debate intelectual, o crescimento da militância
~indical. a semeadura de sociali smos locais e o cresci mento espetacular do movimento

38 39
Capítulo 1

DEFINiÇÃO DE
ESQUERDA:
Socialismo,
democracia epovo

Os VOCÁBULOS -'ESQL'.ERDA" E "DI REITA" vêm do ambiente radical democrático da


Revolução Francesa l . Quando, entre 1789 e 1791, a Assembléia Constiluinte da Fran­
ça se dividiu l:om re lação à questão do veto real e dos poderes reservados ao rei, os
radicais colocantm-se fisicamente à esquerda da câmara, q uando vistos a partir da ca­
deira do presidente, enfrentando os conservadores, qUe se colocaram à direita. Como
esse alinhamento dei x.ava claro, a "esquerda" passou a ser identificada com uma atitu­
de fortemente democ rátIca, que defendia a abolição do velo real , um Legislativo em
câmara única. um Judiciário eleilo, e não nomeado. supremacia do Legis lativo, em vez
dn independência dos poderes e um Executivo fone, e acima de tudo o direi to demo­
crátiCQ de um voto para cada homem. Durante a radi calização progressiva da ctitadura
jacobina, ~ntr{; 1793 e 1794, acrescentaram-se outros itens , entre os quais uma milícia
popular, em lugar do exército profissional, anticlericaJismo e um sistema progressivo
de impostos. Assi m C0 l110 esse pacote sobrevive u à Revolução francesa e dominou
grande parte da cena política do séc ulo XI X, do mesmo modo prevaleceu a ctispo~ içã
dos assentos. General izou-se na Europa o uso dos lennos "esquerda" e "direita" .
A grande trindade retórica da Revolução Francesa - " li berdade , ig ualdade ,
fratemid.\de" - [em as mesmas origens. À parte as conotações de gênero, "[ratemidade"
implicava um ideal de sol idaIiedade social vital à maioria dos mov imentos de esquer­
Ju. enquanto "igualdade" residia nu núcleo fil osófico da esquerda. Ademais. ao exigir
o governo do povo, a esquerd,1 procu rou derrubar O poder de outra coi sa. um ancien
r(;gime. Uma c1ui:i:e socioeconômica domi nante ou simplesmente uma estru tura corrup­
ta de gm emo. Acreditava-se que a soberania do povo era n egada não ape nas por siste­
ma~ políticos restri tivos e repressI vos. mas também pOI' estruturas sociais desiguais.
Na tradição da esquerda. alguma fo rma de justiça social era praticamente inseparável
da busca da democracia .

41
DEFIN1ÇÃO DE ESQUERDA
FORJANDO A D EMOCRAClA

DEMOCRAC IA E SOCIEDADE VISÕES DE UM MUNDO JUSTO Ainda assim, no momento meSmt1 em que essa democracia radical atingia seu clí­
max. em 184R, suas bases estavam se ndo minadas . O mesmo capitalismo que penetra­
o clamor pela democracia durante a erd da Revolução Francesa este ve ligado a visões Vii II fiundl1 do pequeno proprietário estava l<lmbém fo rj ando um ambiente industrial

mais elaboradas de uma socil!dade Justa, organizada em tomo de um ideal de pequenas muilQ diferente - de fábricas e usinas. capitalistas e assalariados, e novas popuJações
propriedades independentes e de <llltogo verno local. Nas tradições da democracia popular, urbanas. É certamente possfvel que se exagere o ritmo desses acontecimentos . Na Grã­
essa ligação recuava alé a Revol ução Inglesa. no século XVII . e os ideais dos lel'ellers; no Bretanha, a pioneira da indus trialização da economia, a produção capitalista continuo u
(I depender pesadamente tanlO das habil idades manuais como da peque na escrua da
século XVIll, ela ressurgiu no raclicalis mo plebeu da Revolução Am ericana e de movi men­
tos correlato,> no~ Países Baixos e na Grã-Bretanha, D urante a década de 1790, esse organizaçã\' e, em muitas lIldú.slri a:., essa circunstância red uzia a ameaça à condição do
movimento~ recebenun o nome geral de jacobinismo, A busca da democracia local foi em :ute . Os artesãos con Li nuaram a se clistingui r orgulhosamente das massas de traba­
sãO
grande pal1e inspirada pelo levante dos comerciantes, lojistas e profi ssionais pobres de lhadores pobres e sem qualificaçãO. defende ndo suas q ualidades de competência, res­
Paris. atingindo o apogeu na militância dos sans-culottes no período 1792-94 2 . peitabilidade e inde pendência, armados com a soberania da oficina, E nLre o fmal dos
A democ racia raclical dos peq uenos proprietários dominou as insurreições popula­ ;,mos 1830 e o início dos anOS 1850. na Grã-Bretanha. o cartismo tornou-se o primeiro
res que estouraram por toda a Europa diversas vezes durante a década de I R20, em movimento políLico de massa da classe Leabal hadora indllstrial. lmllscendendo em aHo
1830-31 e nos lumultos de 1848. Desenvolveu-se melhor entre grandes concentrações grau as di \ isões entre trabalhadores "artesanais" e "pro letários" . Ma.s eram as atitudes
de artesãos, profissões qualificadas que se viam canto estimuladas pelo crescimento urf/!.fOlUlis quc proviam a força definidora, quer como abordagem distintiva da econo­

comercial como ameaçadas por lima nova incerteza 110S negócios, ou ainda degradadas mia e da sociedade, q uer na maior tradição de pensamento sobre o Estado britânico.
pela industJi aLização em sistemas de trabalho externo e de "prolo-indústria'·. Al imen­ No resto da Em'opa, onde a industrialização demorou a chegar, atitudes semelhan tes
to u-se do ambiente fervilhanle das capitais européias. que re uniu artesãos e caix.eiros, também tiveram vida longa.
pequenos comerciantes. advogados e outros profi ssionais, li vrejIO~, jornalistas e inte­ As condições variavrun de indústlia para ind ústria. Algumas divisões entre traba­
l ec tu a i ~ mediocres pal'a compor a conhecida coalizão jacobina. Os m ovimentos demo­ lho e tecnologias de produção não eram tão prejudiciais ao artesão qu anto outras. Os
cráticos podiam se estender para ci ma. na direção dos eleme ntos da nação política artesãos desapareceram rapidam ente Ilas indústrias obviamente mais mode rnas. como
reconhecida, ou para baixo. na direção do campesinalo. Por volta de 1848. receberam a de feno ç aço do u nal do século XIX, e nos no VOS setores altame nte mecanizados da
a adesão de estudantes e trabalhadores proletarizados . Esse padrão registro u-se pri­ química e da engenharia elétrica a partir do início do século xx, segu idos pelo surgi­
meiro no últi mo quartel do século XVIII - nas colônias aJTIericanas; em Londres, Norwich mento da,> indústrias de produção em massa de automóveis, av iões. eletrodomésticos e
O\ltras formas de mon tage m nO intervalo entre a~ guerras. N os ramos menoS inte nsivos
e em outros ce ntros do j acobinismo inglês; e m Belfast e na~ terras baixas da Escócia;
em Varsóvia ; nos Paises Bai xos, na Suíça, no norte da Itália e em outras áreas de radi­ em capital. como o têxtil e grandes áreas de manufatura leve, os artesãos viviam muito
cal ismo nati vo equi valente ao francês ; e, e videntemente. em Paris} . melhor, pois esses ramos combinavam tr abalho e xlerno e tmbalbo "precarizado", sem
Tratava-se de sociedades que experime ntavam as prim eiras u'ansições para o capi­ qualificação. com produção artesanal dependente de tt;Cnologia~ man uais de oficina.
lalism o, em q ue as forças do mercado já transform avam as relações de prod ução exis­ OUlra~ ind ústrias _ como as de construção , carpintaria, gráfLca. COUI O. vidro, conslrU­
tentes. mas e m q ue permaneciam ideologias populares mais antigas de uma ~ociedade ção naval, metalurg ia e, de uma forma diferente, a de mineração - continuaram a e xigir
justa Ampliavam-se as desigualdades entre come rc iantes, mestres e aprendizes. e gran­ trabalhadores artesãos de tipo bem traclicional.
des parcela..~ dos camponeses se proletari zaram através da expansão da indústria ciL.,ei­ Ainda asSIm , se nos concentramos nas categ()ria<; recém-criadas de mão-de-obra
ra. Mas esse mundo em transição ainda apoi ava projeçõe!:> políticas idealizadas do industrial nu nas formas reconstituídas de antigas qualificações, a reorganização capi­
trabalhador rural q ue protestava, do di arbla deslocado e do mes tre artesão respeitável, la,1isul da economia por me io da industriali zação m udou, necessariamente , o lugar do
com Sua t:rença nu ma ecollomia moral e na comunidade de todos os produtores. Ainda operálio na sociedade. Os artesãos perderam grad ualmente o controle de seu tra balh o
era possível proteger e reSUlurar fonllas tradicionais de produção e m pequena escala, para <Ui forças impessoais do mercado capi lalisUl. Abriram mão da autonomia da ofi ci­
;;e não por um govem o paternalis ta, e ntão por visões radi cai s de troca e cooperação na em favor de formas práticas de dependência da organização do comércio em larga
l"ederJda entre unidades autogovernada<; de prod utores independe ntes. A permanência, escala. antes de finalmente se inlegrarem diretamente às grandes estruturas capitalistas
a direção futura e a in'eversibilidade da industrialização capiLaJ ista ainda não eram de produção, emprego e controLe, Q uando isso por flm se de u, os ideais sociais da
claramente perct:bidas. organizaçã() em peq uena escala, da comunidade local e da independê ncia pessoal tor­

43
42
DEFINIÇÃO DEE.SQ UERDA
FORJANDO A DEMOCRACrA

naram- se m ui to mui:; difíceis clt! mante r. Ou seja. sob as cond ições da ind ustrialização ADEMOCRACIA SE TORNA SOC IAL
capital i ~ la,as conseqüênc ias da exjgência de ~oberania pc)puJar foram profundamen te
lransfolmadas . Se ti imlustrialilação C3pitali ~til transformou as condições sob as q uais os ideais demo­

De modo grad ual e desigual . u dc mocnlcia passou a se ligar a d uas no va~ exigên­ 'rático~ liveram de ser persegLl idn~. os sign itícados sociais desses ideais também mu­
cias: uma análise econômica do capitalism o e um programa polílico de rcorganização ~Ilrd.m. À medida que o temo "socia lismo" pà!>S0 U a ler uso geral. depois de J850, essa
geral da <,ociedade. As novus idéias não resultnra m inevita\ielmente da m udança socio­ foi a tnll1~ição que ele identificava. " Social" pa<;sou a Signifi car algo mais que o siste­
eCl1nômú:u. De modo ge ral, porém, as mudanças da idéia democrática tiveram cJma­ rna ()n1um de institUIções e relações e m que vivirun as pessoas e começou u indicar um
c
mentc essa origem material . Resullarum do~ :-;ér io~ esforços dos pen5a d ll[e~ po líticos e contraSte desej.lve l com a forma emergente de sociedade capitalista. Passou a signjfi­
de inco ntávei$ mulheres e homens comuns para e ntende r as lransformações do mundo cJ.f ' 'uma idéia de sociedll.l.lc como cooperação mú tua" . por o posição a outra basenda
que l'onheciam. Foi nesse momento dc tr a nsfom1ação que as pessoas começaram a flU "competição individuar' . De fato, a "forma individualista de sociedade" . associ ada
exp lorar a~ po!'sibilidades da propriedade coletiva e da prod ução coopermiva. E Ilcs<;a com o novo sistema de trahaUlO assalariado e de propriedade privada, pasSOU, nesse
cOl1junrura de mud!mça sodoeconô mica e nova reílexão política nasceram as idéias do scnOdo. a ~er rejeitada como "a ini miga das fom1as verdadeirame nte sociais". Assim,
soci alismo . "a liberdade rc.tl nfío poderia ser con quistada, não se liquidari am as desigualdades
A'isim. a democracia esteve sempre inserida na história social. Tunto a democracia l'nísicas, nem ~e e.stabele.ceri a a j us tiça social a menos que uma sociedade baseada na
ntdical q uI:.' resultou da Revolução Francesa como o socialismo inicial que surgiu na propriedade privada fosse substituída por outra basead a na propriedade e no conlrole
década de 1830 geraram pacotes de rei vindicações ~ocj occonômjca s práticas. Essas soâais··6 .
reivi ndicações foram consideradas um acomp:mharnento esse ncia l da genuína demo­ Dessa fOillla, os defensores da de mocraci a p as~aram gradual men te a enfrentar as
cracia, que passou a ~ er medida não pela centralidade da independência da peque na eonseqüênci.as dQ progresso . Em 1848. "dem ocracia social" ainda significava apenas a
propriedade, mas pelo advento de um novo coleti vism o. Ademais. as idéias soci alistas extrema esquerda das c{)alizões radicais 7 . Mas , à medida que as relações capitalistas
tinham força e ressonância pró pli as. Tomaram-sc difusas . in se riram-se nas insütu ições penetravam em reioriões cada vez mais amplas da vida socioeconômica, tom ou-se cada
e fi xaram -se nas relações sociais; penetraram na consciência e no comporta mento das vel mais djffci l generalizar a<; condições imediatas dos pequenos prod utores indepen­
pessoas. trans fo nnando-sc, por força própria. e m poderosas moti vações. A substituição dentes em programas de organi zação do conj unto da economia. Isso abriu o espaço em
de um tipo de democrac ia por o utro provoco u mais q ue um a simples adaptação a urna que I) pensanlcnw social ista põde e mergir co mo uma opçã o nova e plausível.
socit!úude em transformação graças à qual a consciência popular acabou por absorver Esse espaço se expandiu as.~im que o liberalismo ~e cristali.zou numa ideologia que
as novas condições . Foi também urna dis-puta de idéias, com resulLados !on!!l)s c incer­ celebrava um lipo inteirame nte individualista dc sociedade . À medida que as idéiru,
los4 . li berais invadiam a política pública em meados do século XIX. o soc ialismo se preparo u
Os últimos anos do século XIX tomaram-se o cenário de muita confusão, à medida ada vez mui" para analisar seus efeitos danosos. Ficou mais fácil defi nir as ligações
que soc i ed ad e~ , regiões e estruturas econômicas se ajus tavam de fom las dife rentes e causais entre propriedade privada, fll l)so fias individualistas e um siste ma de domi na­
com velocidades diferentes, e à medida que um ideal socialista distinto de democrac ia ção de classe de base econômica. Por outro lado, cssa sociedade cada vel. mais conce­
- "a democ racia social ". como a ch amavam os pioneiros - lutava para gan har fo rma. dio algumas igualdades fom ais entre cidadãos sob a lei, inclusive, após a década de
As primeiras idéias de mocrálicas mostraram uma notável lenacidade nos movimentos 1860. fomla~ li mitadas de dire ito de voto. Por o utro lado. desigual dades materiais
socialistas ~LJbseglientes . Sej<l como for, dada a d iversidade da Europa, aquele "perío­ extremas ainda eram de fendidas por liherais como prccondições esse nciais do sistema .
di> inicial" significou não só a crZl entre o fi na l do séc ulo XV IU e I R48. mas se estendeu A economia da democracia lomou -se a preoc upação insiste nte da e!'qucrda na se­
até meados da década de 1860 na Alemanha, na Itá li a e na Europa Central , e até ainda gllmla me tade do séc ulo XIX . Para os democratas radicais de um período ante rior.
mai!'. larúe nas periferias do S ul e do Lc:>te. A herança radical mais an liga <;ó fo i enflll1 proprietlatle privada, contida dent.ro de certos limi tes. e ra um ideal , ocia] a ser defendi­
abandonada depois de 19 17-1 8. mediante proces",os dramátjws de defin Ição que vi­ dCl ':ontra a rapacidade de parasitas e especuladores . Mas, para os soc ialisLas. a pro­

nllUl11 já de~de a década de 1890. A história da tradição sociali sta ante rio r a 19 14 foi priedade privwa em si era a ori gem de todos os males sociais . Enquan to os li berai s
ainda. em muitos casos, uma elahoração de Iegad()<; ma.is antigos. à medida q ue políti­ lrabalbavam conscientemente pe la separação e ntre as esferas econôm ica e política, os
cos <;oci aLista..<; tentava m decidir o q ue deviam à ~ tradições democráticas anteriores e o Socialistas p.assaram a ver ex-<ltamente nessa sepru'ação um a discrepância debiLitan le.
que essas tradições já não podiam ofe recer 5. Ou, cnmo afinnou Jean J aure~, líder socialista francês anterior a 1914: "Assim como

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Dl!.I'l NIc:,;AU UI:. e;)\,l U i:l"'--'''

FORJANOO A DEMOCRA.CIA

NoS movimentoS trabalhistas, a cidadania de segunda cl asse das mulheres estava


lodos os cidadãos exercem () poder polflico de uma forma democrática, em comurn, ."acta ao pcn~amento claramente discriminatório que lhes reservava a famOia, a admi­
eles também devem exercer em comu m o poder econômico" K. Assim, democracia so­ b", "economlCOS
. 'traçãO do lar e papels " auxl'1'lares. remunerad os ou nao.
- N as SOCle
. d ad es
cial passou a significar não só a fonna mais radical úe governo parl amen(ar. ma~ tam­ nl!; f ' . d . d "
grárias e pré-inJu!>triais, essas ormas patnaTCms e econOllllil omestlca eram garan-
bém o desejo de amp liar os preceitos de mocráticos pela sociedade em geml. incl usive a,daS pOr si<;tem..1.S de pmpried.'l.de e herança. Enlre os artesãos, o correspondente urba­
na organização da economia. Tomar social a democracia - e.,sa fo i a divergência 110 dessas fOJ111as era o si stema de aprendizagem, regulamentação legal e exclusividade
crucial pós- J848. ~n.s guildas. que definiam a especialização e a prática de uma profissão ComO uma
Jó no último terço do século XIX, os socialistas desafiavam as definições políticas fllrm de propriedade exclusiva Jos homens. A industrialização acrescento u cntão suas
de democracia com uma nova ques tão: como se pode conquistar a genuína democracia tl
rópri imagens. agressivamente marcadas pelo gênero , da economia famJliar imagi­
us
numa socieclaJc eSlrulurada fun damenlalmente por desigualda.des de c1a~~e. prop[je­ ~l1dn. na qual os salários dos operáli os homens qualificados sustentariam lares ordeiros
Jade. distribuição e controle? Sobre essa base. as principab características da política c respeitáveis em que as mulheres não precisavam de emprego. Na verdade, poucos
econômica soc i al i ~ta passaram a ser ardentemente debatidas - cooperação, proprieda­ laeee;. operários se aj ustavam a esse ideal . Esposas de operários exerciam uma criati vi­
de pública e socialização da produção. democracia ind ustrial e co mando planejado da dade sem limites para garantir a sobre vivência econômica, suplementando os salários
econom ia. Mas é claro que , como descobli ram todos os governos socia.listas, toda do marido por meio do cultivo de hortas, da prestação de pequenos serviços. tais como
tentaúva de de mocratização da economia em nome dessas polílic a~ enfrenta todo tipo lavar e passar roupa e cuidar de crianças, de um pequeno comércio. do preparo de
de interesses no acesso privilegiado ao poder políti co. burocrático e ideológico. Na produtoS caseiros e do trabalho doméstico, além de por muitos ti pos de trabalho a.,sa­
prática. os obj eLi vos democráticos só podem ser persegu idos em oposi ção à resistência lnriado. Contudo, por meio das normas do ho mem "provedor" e do "salário famili ar".
dos grupos sociais dominantes . eSse ideal exercia um efeito poderoso . Independentemente de seu comportamento ec()­
A questão política e filosófica decisiva passa então a ser: até onde os ataques à nômico real, ideologicamente as esposas da classe trabalhadora eram mantidas dentro
legitimidade dos interesses privados permanecem compat.íveis com Q princípio demo­
do Inr c fora da economia. assalari ada.
crático, sem ex igir o uso da força e o prejuízo dos direitos básicos, e nq uanto o novo Desse modo, o apoio sociallita oficial aos direitos das mulheres geralmente ocul­
si~te ma co letivista estiver sendo instalado? Ao longo dos anos, essa pergunta impôs tava uma indiferença prática co m relação à prioridade des.ses direitos no trabalho do
muitas dificuldades à esq uerda, como pretendo mostrar. O modo co mo ela tendeu a ser movimento. Onde nem operários nem operárias tinham voto , os movimentos de es­
resolvida tom ou-se uma das grandes linh~ di visórias entre os movimentos reformista querda se recusavam a apoiar o sufrágio femini no enquanto não se garantisse O direito
e revolucionário. do homem. ToJavia, o nde o sufrági o masculino já existia , os direitos fe min inos fica­
vam subordinados à!' ques tões econômicas. De uma forma ou de outra, esperava-se
oGÊNERO NO HORIZONTE DA DEMOCRACIA 4 ue as mulheres fossem pacientes. Neste caso. o entendimenLo socialista do contexto
social da democraci a trabal hava especificamente em prejuízo das mulheres, pois ()
A crença socialista na:, restrições e determ inantes sociais da. democ racia - a importância primado da econom ia red uzia tudo mais a preocupação secundária. Pode-se afinnar
do ~ocial na democracia social - foi uma ampliação fun damental da idéia democrática. que, quanlo mais consistente o sociali smo, tanto mais facilme nte se adiavam as de­
Contudo. sob certo~ aspecto:" Cl>ta última contin uou fortem ente reduzida . Na maior parte mandas femininas para um f uturo :'tocíali sta, po is um ponto de vista estritamente m ate­
dos movime ntos democráticos illic iai~, com exceção dos soc ialistas utópico:, do início do riaUsta lnsisLia em que nen hu ma dessas questões podia ser enfrentada com a pe rma­
sécu lo XIX, a soberania popular pem1aneceu uma prerrogativa masculina . O carti smo. na
nência do capitalismo.
GrJ-Bretanha . o mais notável desses pli meiros movimentos, deixou isso especialmente Essa atitude impediu lima abordagem m ais radical do "proble m a feminino", como
claro, pois seus famosos Seii' Pontos para a democrati zação da Constituição, elaborados passou a ser conhecido. Mas isso não foi simplesmente uma falha de percepção polflÍ­
em 1837-38. excl uíam expre~sarnente o voto fem inin()~ , É certo que, no final do século Cá ou uma conseqüência da teoria mais materialista da tr adição socialista. Foi também
XIX, Os partIdos sociali..~ta., eu/"()pe u ~ já defe ndiam os direitos pol íticos femininos, mas , o resultado de estruturas ideológica" mais profundas. derivadas de sistemas an tigos de
alOda assim. a questão dos direitos da mulher não tinha feito praticamente nenh um pro­ superioridaJe masculina. Tais estruturas encontravam -~e em parte na farm1ia, em parte
gre~so até 1914. A.~ mulheres podiam votar apenas em algumas partes do Oeste dos na força do!) v.a lores dominantes da soc i.e dade e e m parte nas divisões do trabalho na
Estado:, Unidos e em quat.r(l dos Estado~ parlamentares do mundo: Nova Zelândia. em eCOnomia em função do gênero . Mas exatamente pelo fato de estarem tão profu nda­
UN3. Auc;tní.1ia. em 1903, Finlân dia. em 1906, e NOnlcga, em 1913 10
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FORJANDO A D El\1OCRACtA DEFIN IÇÃO DE ES QUERDA

mente enraizados nas condições de vida da classe trabalh ado ra é que esses padrões se o PARTIDO E OPOVO
mostraram incri velmente resistentes a tudo , menos às criticas pol íticas mais diretas . E
isto a tradição socialista não estava nem um pouco dispo5ta a oferecer. Por trás do nodel1l0 partido de massas, que se tomou o modelo dominante de mobi li7.ação polfti ­
desprezo do movimento operário pelas questões femininas estavam os padrões h.istori­ ~ Tem gerdl. entre w; décadas de 1890 e 1960, foi inventado pelos socialistas no terço fi nal
camente transm itidos J.a cultura de gênero. que os políticos de esque rda sempre evita­ :: século XlX. Já na nossa época. ele tinha caído em desgraça e era cada vex mais descrito
ram dcsi.lfi ar e invariavelmente endossaram. comO inimigo da democracia, c não como sua fortaleza. Os democrala:> radjcais do tlnal
Essa foi uma das mais notáveil' limitações da democracia. Apesar de ter levaLlo a do séculu XX condemuam o centralismo burocrático c () segredo na tomada de decisões
uma codificação mais abrangente das dem amlas fem ini na!:> nos programas dos pru1idos comO di!,torçõcs do processo democrático, fo!:>se Iluma roupagem comunista ou socialJc­
soctalistas. a industrialização não subverteu ta nto os velhos padrões de subordinação moaata . Os ra.rtid()~ não eram mais vistos C0l110 vetores da vontade do povo, mas como
femini na, mas. antes, \1$ reproduziu de nOVas fOffi1as. Assim como a :, políticas dcmo­ insr.n.unenlmi de manipulação, máquinas anô nimas afastadas da militância, pmtegiúa.s
cníli ~ as pioneiras deixaram para os partido!> socialistas legados duradouros, que só cQntra a prestação de contas ao povo. À luz dessas desilusões, portan to, é importante
I oram conscientemente assimilaJos nas décadas vi/ iuhas da Primeira Guerra Mundial, Crltencler os objetivos uemocráticos a que () modelo socialista de partido deveria original­
também as premissas anleliores a respeito do lugar ela.'.> mu l h ere~ restringiram a capaci­ mente servir. e isso é mais bem consumado pelo exame das formas organizacionais pio­
dade da e squerela ele imaginar uma política de gênero realmente igualitária. Enquanto neiras que precederam a adoção do parlamentarismo socialista depois do anos 1860.
não se alacasse m, de modo consciente, <L~ ques tões de interesse específico das mulhe­ Uma delns foi a associação loca l de trabal hadores. Desde o in ício. entre as décadas
res - enquanto o sociaJismo não se tom asse também fem inista -, a busca da democ ra­ de 1840 e 1860.0:- clubes operários [oram se adaptando à base celular do novO movi­
cia ri'rmaneCel1a seriamente incompleta. mento nacional operário. q uer na form a de diretório local do part.ido socialista, na
O descaso socialista pelas questões femininas foi a.inda mais grave em razão da Europa central e setentri onal , quer na fo rma da "câmara operária" sindical no Sul.
proeminência. anles de 1914, das notáveis mobilizações de mul heres - nos v(uios mo­ Durante a primeira metade do sécul o XlX , contudo , a esquerda também se identificou
\ imen tos nac ionai s pelo voto, na política educacional e na reforma social, com relação com o espetàcu lo da revolução - com a imagem das barricadas . dos levantes popu lares
ao 1mbalho da mu Ihcr na indústria e nos mo vimentos geralmente intelectuais ou boê­ c da derrubaLla das monarquia!'; . Portanto, an tes que se pudesse estabe lecer a imponân­
mjos em favor da liberação sexu al. Foi prec i ~amente em muitas dessas área!:> que se da do part.ido para o soci al ismo, foi necessário abandonar um modelo anterior de trans­
quest ionou dire tam ente o privilégio masculino . Idéias fones relativas aos direitos formação política. a saber, a u'adição conspü'atória maIs associada com o revoluciona­
reprouutivol> e à liberação tia sexualidade da mulher j á emergiam, atingindo expressão rismo infatigável de Augustc Blanqui 11.
mais compJeta na década de 1920. Como esses movimentos deixaram claro, as defi­ Inspirado pelo drama da fase mais radical da Revolução Francesa, em 1792-93, o
ciê nci us do peru;run ento da esquerda nas q ueMõcs de gênero só poderiam ser remedia­ bumquismo concebeu a revol uçãO como ato exemplar que desencadearia um levante
(hls caso se IrouXesse ti política diretamente para a esfera pessoal. geral do povo, dirigtdo por uma irmandade revoluc i()nária secreta cuja ditadura deve­
Mas a exposição completa dessas que:-;tões só se iniciou realmente nos anos 1960 ri a assegurar os resultados, Essa idéia teve origem em Graco Babeuf c seu quixotesco
com ti emergência do fem ini;,mo atual, que de"aüou a esquerda m ais antiga numa am­ lema "Con~piração de iguais", que em 1796 tentou salvar o imp Lllsu radical da Revolu­
pla frente de questões anteriormen te desprezadas. A t.nlllsição do final do sécu lo XIX da ção Francesa. O legado de Babcuf foi entüo transmitido ao longo da carrei ra de ::;eu
de mocracia radical para a socialista e~tabeleceu um padrão q ue permaneceu pe los cem Companhcir() ~l)brev i vente , Filipo Buonarroti, e deste para B la nq uil ~ . A "arte da insur­
unos segu intes, a saber: apoio por pri ncípio aos dIrei tos da muLher com base em um rei'rão" floresceu dura nte a fase mais violenta da Restamação pó~ - 1815 no. Europa,
programa social ampliado, mas embUlido num cco!1('m ici<;mo que, na práli ca, desvalo­ cujo cli ma de tensura e repressão forçou os democratas a adotar métodos conspiralórios.
rizava (J prioridade da lUla femin ina. O femjn i~mo pós- 1968 foi vital na introdução Personifkando numa única dLmensão um ideal de heroísmo revol ucionário étltruísla e
dessas q uestões na agenda da esquerda. Ta nto pelo carMer da esquerda contemporânea apaixonado igua litarismo, Blanqui era também um otimista ascético e cgocêntnco, que
no último terço do século XX como pelo reexame do ~ períodos anteriore:;, a!:> críticas trata va aI) maS~a1> como se esti vt:ssem ~empíe prontas pura a revolllção. se fosse possí­
feministas recen tes se fizera m indispensáveis. De fato, ao levar suas demandas até o vel apruve itar () momento exaro. Essa e"perança pareceu ser demonstrada pelas explo­
centro do dehate público, alravés de conllilos dolorosos que certamente não eram com­ )õ<:s revolucionárias de I R3 0 e 1848, que prescindiram de preparação organizada. Mas
pletos, o fem inismo contemporâneo impôs uma no va re l1exão acerca dos termos viá­ o ti<l.~eo do levante de Blanqui em Pru1s em 18 39 foi um veredid o muito mais adequa­
ve is do projeto .;oc iali ~ t a e , nesse processo, redefi niu profundame nte a esquerda. do ao seu I'uea I conSplratono.
. , .

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Oht'INI\".I\U v", ""''< V ~' _' •
FORJANDO A DEMOCRAClA

o problema do blanquismo era o seu caráter profundamente alllidemncrálico O 1870 e início da década de 1880, e novamenle nO início dos anoS 1900: c na Espanha.
ideaJ conspiratólio postulava uma elite pequena e sec reta que agi ria em nome de uma na Frunça e na llá.lia., durante a década de 1 8901~ . ue
massa popular. cuj o consentimento deveJia ser organizado retroativamente pela reedu­ O mais problemático desses primein.Js legados foi o I'Q/lguardismo - a idéia de 4
cação sistemática, mas que nesse meio-tempo não merecia confiança. Por uma questão minorias revoluc ionárias disciplinadas, equipadas com teorias sofisticadas e virtude
de lógic,l, os blanquistas se opunham ao sufrágio universaJ mesmo depois da revolu­ uperio , poderiam antecipar a direçãO das esperanças popu lares e agir decisivamente
ção. Viam como entedjante (lU mesmo repulsiva a polItica democrática popular que se em seu rnome. e nesse processo radjcalizar as ma~sas. Dadas as imperfeições da demo­
de~envo l via enlfe as décadas de 1830 e 1870, quando lenta e parcial mente se aJi viou a
cracia e as complexas reciprocidades entre líderes e liderados, isso passou a ser um
repressão que originalmente justificou os métodos conspiratórios. Karl Marx. e a tradi­ problema recon'enle d.l organização política em geral. porque mesmo na mai.., perfeita
ção socialdemocrata inaugurada na década de 1860. pelo contrário, repudiaram decidi­ dUS democracias processuais a liderança contava com uma certa liberd ade discricioná­
damente as vanguardas conspiratórias e suas fantasias de iosUlTeição. Deixou-se em ria. além do all,;ance prático do povo soberano. Entretanto, de modo geral, exceto quan­
aberto a possível necessidade de defesa armada da revoluçào diante da violência Con­ do obrigadOS a agir na clandesti nidade. os partidos socialistas e comunistas do século
XX organizar1lln a maioria Je seUS militantes em sistemas de democracia processual,
tra-revoluci onária da classe dominante. Mas, entre J 87 1 e 19 17. o modelo dominante
competiram em eleições, lrabalharam em parlamentos e nos governos locais. e partici­
de política revolucion ária para os partidos soci alistas se baseava na promessa demo­
crática de uma maioria parlamentar irresistivel. A Comun a de Paris de 1871, que de­ param da es fera pública.
Nesse ~ntído vital. o constitucionalismo soci alista baseou-se nas ruínas do enten­
monstrou tanto o heroísmo como as trágicas Jinutações da tradição insurrec ional ante­
dimento blanquista anterior de como se faziam revoluções, O modelo socialista do
rior. foi o grande divisor de águas. Sua derrota mostrou a necessidade de métodos
partido de massas. que trabalhava publicamente pelo apoio popular e pela representa­
democr.1ticos além do horizonte conspiratório.
ção parlamentar em escala nacional e organizava suas próprias atividades por meio de
A partir de então, o modelo puramente in surrecion al passou a ser propriedade
urna democracia in tcm a de congressos, resoluções, acordos e comitês eleitos, foi um
dos anarqu istas, para q uem, sob esse as pecto, Mikhail 8akunin torn ou-se a voz do­
desvio \'iwl, u ruptura democrática crucial das quatro úlúmas décadas do sécuJo XIX.
m inante 13 Após os debates decisivos da Pri meira InLernacional, em 1868-72, que
assegurou a vitória das perspectivas parlamentaristas na esquerda, o blanquismo per­
deu a coerência. Métodos conspiratórios careciam de sentido numa época de sufrá­ SOCIALISMO: UTÓPICO EDEMOCRÁTICO
gio popu lar, ele ições e debates parla mentares. O in surrecionismo sobrevive u entre
Os QulfOS grandes precursores dos movimentos operários que se estabeleceram depois
os anarq uistas espanhó is, com uma ressurreição mais ampla na Europa depois de
da década de 1860 foram os soc ialistas utópicos. tradicionaJ mente tratados com con­
1900. durante a tentativa sindicalista de uma greve geral revoluc ionária. Contudo,
descendência e despre70 pela tradição posterior, dos parlamentaristaS moderados e
para os anarco s si n d icajjs t a ~ , a fa ntasia insuuec ional se di vorciou dos preceitos
sindicalistas aos socialdemocratas e comunistas. Os marxistas em particular, inspira­
conspi ratórios anteri ores . Nesse sentido. um autêntico levante popular não carecia
dos pelo tratado de F1i edtich E ngels Do socialismo L116pico ao socialismo científico,
de liderança direta. "Homens fortes não precisam de líderes", gost<lvam de dizer os
repetidamente traduzido e publicado depois do lançamento em 1878-80. viam esses
anarquis tas espanhóis.
primeiros expoentes do socialismo como fi lósofos ingênuos que capturavan1 erronea­
De tempos em tempos ressurgiam Og métodos conspiratórios. O anarquismo espa­
mente a lógica ~ociaJ da nOva era capitalista. recolhendo, quando multo. retalhos 5e
nhol continuo u como fonte principal. A federação anarcossindicalista libertária, fo rma­
pedaços do "social ismo científico" desenvolvido após a década de 1840 por Karl Marx I •
da em 19 19, a Confedcración Nacional dei Trabajo (CNT), era o oposto de uma buro­
Sem as amarra.., de uma preseoç~ "madura" da classe trabalhadora na sociedade, era o
cracia sindical o u de uma máq uina partidária cenlfalmente administrada. Mas era com­
que se afimluva. pensadores como Claude Henri de Sal nt-Simon. François-Charles
pensaLla pela clandestina Federación Anarq uista Tbérica (vAI), formada em 1927, a quin­
Fourier e Robert Owen só poderiam mesmo ler proLluzido imagens visionárias de uma
tessência do revolucionarismo eJj tista e conspiratório. A contradição ent re a altiva retó­
sociedade ideal, 4 ue se riam fatalmente superadas pelu." rcalidadcs da luta de classes e
nca Iibcrt:íria, que inspiíava seguidores comunc; a atos de militância com risco da pró­
pria vida, e o autoritarismo da~ conspiraçõe~ subtelTâneas que os enviava para a morte úa ação coletiva dos futuros movimentos operários.
foi o principal legado de Mikhail Bakunin . Esse lipo de atividade caía geralmente no
Slla~ ()bras _ Lelte rs From 1lI1 lll.habita/lt oi Gelle va l Cartas de um habitan te de
Genebra\, de Sainl-Simon (1 802), Tlleo r)' of Four Movement,\ ITeo ria dos quatro mO­
terrorismo. A tentação aumentava em períodos de repressão ou derrota., quando as
vimentos I. de Fouri er (1808), New Viel1' ofSociel)' [Nova visão da sociedade], de Owe n
chances de agitação pública eram mais reduzid as: na Rússia czarista, no fim dos anos
51
50
FORJANDO A DEMOCRACI A DEFlNICÃO DE ESQUERDA

( 18 12- J 6) -- ofen:ceram amplo e~paço para esse veredicto. Em contraposição delibera_ t de União Nacion al] , q ue brilhou inten..a mas breveme nte na ag itada cena
elll a
OWlíticn
da ao cri»tianismo organizado. e las concentraram na fu1t ureza humaml uma nova "ciên­ inglesa em IlO-l, é um exe.mp Io especl<l
. I mente notave
' I . 1)e Ia d·I I'usao
- do mov I­.
cia do nnmem" , pr0['o ndo a cooperação socia l contra o egoísmo. o individualismo e a 1'0 " icariano", de É tie nne Cabet. nos anOs J 840, assim cham ado por causa de seu
mentll . ' . .
competição então reinantes. NiJ no va sociedade, Sai nt-Simon atribuiu cen Lralidadc ra­ ro ::l11 utÓpiCO VoyW(C af IctJr~,s .lVlUgem de 1caroJ ( I S3~). essa c ultura de socmlis­
m ee
clOnaJ t: progres»ista a lodos aqueles que descmpenha vlUn funções produtivas. de in­ oU "comul1 i ~mo". como pretenam ~eus segUidores. haVia se d Ifundido amplamen­
uu\tTluis a c ien tistas c engen he iros. profis~ ionai<. e operúrios. Na ausência de aristocra_
mO. . - f' -
. lhém na Frnnça. em particular e ntre os artesao~ na,> pro lssoes q ue se
. d
In
. I·
u..tna 1­
le [,In _. . . .
tas . re i., c ~acerdoles, esses "industriais" iriam substituir pri vilégio. competição e pre­ . vaJ1l peln USO de mão-de-obra barata e nao tremad a. trus como a de a lfaJatan a e
gu iça J10r hierarquia funcional. mutualí'imo e pro<.lulivitlade. Baseando-se numa psico­ bl . tan' a: 1 P\lr meio 00 fermento clue ligo u ti agitação re fo nn ist<1 inglesa de 1829-32
~,lr).l , .

logia mil i" e laborada e caprichosa, bem como numa cosmologia am 1úde bi7arra, Fourier com () carti:-.mo, e do~ l evante~ de IR3 I e J834 dos canuls (tecelões de seda) de Lyons

projelou com unidades auto-s uficientes delaJ hadamen te espeCificadas. cuj a!> complica­ com a Revolução ele 1848. a linguagem "<;oc ialislu" passou a de fi nir um interesse espe­
da~ complementarid ades de tare fas e funções se riam a garant ia de felic idade· para to­ l1
c(fico da classe lrJ.balhadora .
dos . Owen projetou sua usi na de beneficiamento de algodão e m Ncw Lanark para Em contraste quer com ti democracia rad ica l. quer com a futura tradição ~oci alde-
mostrar as origens da cooperação e m arranj os ')tx: i ai~ saudáveis, q ue incl uíam genero­ 111ocraw, n sociali smo utópico implicou a recLl~a da idéi a de uma democracia orientad a
sa1i contliçõe~ de horá rio de trahalho, seguro ~ocial. o ferta de edu cação, recreação ra­ para o Estado. Ainda a::;sim. na década de 1830. os seguidores de Owen já eram essen­
cional e bons moradias 1n • cifú~ às ag ilações radicais ing lesas. assim como os de Sa illt-Simon . tais como Phili ppe
Os meios preferi d os pelo~ utópicos, a,> comun idades pequen as e ex perimentais. os Buchez (' Pierre Leroux na França. Ade mais. depois de sua dívida inicial para com
"falanstérios" de Fourie r e as "a ldeias de cooperativis mo" de Owen. não ti nham liga­ Babeuf Cabet aprendeu muito sobre o sind icalismo de Owen d urante o exílio na G rã­
ção alguma com os movimentos operários. porq ue suas idéia s havi am sido concebida~ Bretanha. entre 1834 e 1839. e, depois de voltar a Paris, se u j ornaL. Le PopuLa ire .
muito ~mtes de se dese nvolver a atividade política da classe op erária. antes mes mo que ajudou a ampliar o republicanismo fran cês numa direção socialista. Cabet e P íerre­
o próprio termo "soc iali "mo" fosse cunhado no fin al da década de I820 e início da de Joseph Pro udho n infl uenciaram as pri me iras mani festações do social ismo francês mui­
1830. O ~ociali smo utópico não continha c rítica!> à economia capita lista. preferin do se to mais do que o admitem os hi storiadores. enu nc iando demandas para ação govern a­
concentrar nas questõcs re li giosas e filosóficas - "igua ldade rer.ws hierarq uia, unifor­ mental e organil..ação política nacional que negavam o utopismo ingênuo q ue ami úde
midade humana v el'l'lI S difere nciação de tipos hu manos, a velocidade da trans formação lhes é atrib uído. Em vez de abraçar o ideal comunitário da secessão c ompleta da socie­
socíaJ, o interesse próprio o u 'devoção' (altruís m o) como a mola-mestra do prog re sso dade competiti va e egoisticamente indi vi dualis ta da época, os políticos da classe trab a­
humano c social ista. a relação entre socialismo c re ligião" 17. Priorizava a educação lhadora ti nham para com Ow..:n. Fourier e S aint-S imon uma dívida muito m ui;; am pla:
popular. bu~cando revela.r"o mIstério da harmonia soci a l e da felicidade h umana" pela Ideais de "assoc iação", " m utualismo" e "cooperação"; a crítica racionalis ta e humanista
organização social ideal de ~;uas com unidades. A religiosidade e ra "inere nte à estrutura da sociedade burguesa: c a convicção prática de que as q uestões humanas poderiam ser
dllS primeirw, pensame ntos soci alistas" . Seu principal inimigo era menos o Estado ordenadas de fo rma diferente ~ melhor:!J
nnlidemocrálico ou a estru tu ra da economi a capitalista q ue a autoridade moral do cris­ Para () exercício mai;; longo da democracia, os socüilistas utópicos de ixaram um
tianismo eSLabelecido. "Seu padrão de ju lgamento era o seu con hecimento da verda­ legado contrad itório . De um lado. e les claramente se isolaram em fOlmas apolíticas e
tleira natu reZ<l do homem . que cxc luía o pecado orig ina l, a~ le is e a coerção nele basea­
geralmente absurdas de c onstrução de comun idade ~ c.ll perimcntais , que deixaram po u­
das"l x.

Cacxpt:riêIll:ia útil para os mov imentos operários q ue tentavam se organizar em escala


Como não conseguiu que a~ elites governantes ~e interessassem por suas teoria~ de naciona l Essa ruga da política, a bem d iLer da própria sociedade, e m bus ca de peque­
apelfeiçoamcnto huma no. Owcn passo u n~ anos enlfe 1824 e 1828 nos Estados Uni­ no\ enc!aves cum uni tários. sim bo lizada pela viagem transatlântica para o Novo Mun­
tlo~. onde patnx:inoll a comun idade-modelo de Nova llannonia, e m Ind ia na. em meio do , deixou sem respos ta a q ue~ tão de como se far ia, pol iticamente, a transição para o
il Uma febre de ex periências cl)m u nitárias norte-americanas 19. Na esteira dc~~as expe­ novo ti po de sociedade~~ Os social i st~lS utópicos eram també m ind iferen tes à ecuno­
riência.\ de Owen, e de ou tra~ fe itas por seguidores de Fourie r e Sain t-Si mon . ih idéias mia política e às origen:; estruturai ~ da desigualdade de classes. O s sociaJdemocratas
utópica<; tivera m ampla circulação. formando um reservató rio vital pa ra os mo vime n­ Pó\-década de 1860 repudi aram explicitamen te esses doi s as pectos do legado ante rior.
tos operários que j á s urgia m na Europa O cidental no in ício dos anos I 830 21i • A históri a Por outro lado. o compromisso criati vo cum fonn as de cooperação b aseaJa~ e m
explosiva do Owen ite Grand NaLional Consolidatcd Trade Union [Grande S indicato m111 unidadc de peq uena escala. q ue se estendiam ambiguamente para uma dClllocra­

52 53
DBFlNICAO 'DE ESQUERDA
'ORJANoO 11 DEMOCRACIA

1'._1.05 d:l," mulheres no momento". como se expressou a socialdemocrata alemã e la­


da partic ipativa, deixou um legado bem mais positivo, Na política de Louis Blanc e qU 11"
rU Zelkin) foi destruída na luta de classes . Ou, comO exortava Elcanor Marx. em 1892:
outros <;ocia1islas radicais durante a Revol ução de J 848. os ideais de "as!iociação"
" não vamos noS organiz.ar como 'mulheres', mas como proletárias [...] para nós nada
apoiavam demandas concretas de cQoperati vas de prod utores e "oficinas soci,ais" a
"er I1nanciadas pelo Estado francês. ao pas:;o que , para os operários da Europa Cen­ eJOste além do movimento da classe trabalhadora"'o.
O socialismo utÓpiCO provOu ser assim um momento de excepcional radicalismo
tral e Orienlal, duranle os anos 1860. os ideais cooperativos de auto-ajuda coleti va
00 questão do gênero, que só foi rec uperada no final do século xx . Assim como a
representaram a fomla mais comum do pri meiro encontro co m o socialismol). As
importância dada por Owen e Fourier à reforma moral foi faci lmente desconsiderada
idéias de "emanci pação do trabalho" referiam-se a desejos simples, porém apaixona­
pelos socialish'lS que os seguiram no século XIX, ao lado do desin teresse por uma polí­
dos, ue um mundo mais justo, geralmente emoldurado pelas mitologias de uma idade
tica da luta de classes nacional.mente organizada, tam bém suas críticas à faml1ia e à
de o uro perdida, que num a crise como a de 1848 consegui am suslentar a crença numa
;;ubordinação das mulheres foranl presa fáól da mesm a desconsideração. A partir de
transfonn ação revolucionári a. Da mesma fonna, o impulso pelo autogovemo, locali­
então. as questões de sexualidade. casamento, criação de filhos e vida pessoal fo ram
zado anteriormente nos espaços fisic os de Nova Harmonia e de OUlro:; estabelecimen­
geralmente confiadas à esfera privada. distante do território ce ntral da política. Deixa­
tos utópicos, ressurgi u na Comuna de Paris de 1871 como um a exigência revolucioná­
ram de ser que~tões primárias da estratégia soci alista.
ria mais programática.
O mais in.teres~ ante é que os socialistas ut6picos praticavam urna política de gêne­
ro extremamente radical. Fourier. por exemplo, defendi a a lotaI igualdade entre ho­
RUMO À DÉCADA DE 1860
mens e mulheres, liberdades sexuais e a ex tinção do casamento, ao passo que os segui­
Durante o século XIX, a esquerda forjou sua independência principalmente por meio de
dores de Owen atribuíam a degradação moral do capitali <;mo ("'o contágio do egoísmo
seus conllito<; com o liberali smo, Os liberais resistiram duramente à cidadania demo­
e o am or à dominação") à "injustiça unifonne [ ...] praticada pelo homem sobre a mu­
cnítica Na teoria liberal. o acesso a di reitos políticos exigi a a posse de propriedade,
lher" na farrul ia, que, desse modo, funcionava como " Wl1 centro de dominação absolu­
I!uucação e a qualidade meio indefiníve l da estatura moral - o que William Ewart
ta"26. De fato, para os owenitas, o "sistema competitivo" não era gerado apenas pelos
Gladstone chamava "alltocomando , autocontrole , respeito pela ordem, paciência sob
valores inculcados nas fábricas, igrej as e escolas, mas também pela organização fami­
sofrimeoto, confiança na lei e consideração pelos superiores" 31. De EdmWld B urke e
liar da vida pessoal: "O /t omo r:economicllS. () indivíduo atomizudo e competitivo no
Alexis de Tocquevi lle aos ídeólogos e praticantes do liberalismo, durante sua ascen­
centro da cultura burguesa, era o produto de um sistema patriarcal de relações
dência nas décadas de l R60 e 1870, os liberais. inclusive os mais generosos dos radi­
psicossexuais' ·:7. Q ualquer fonna nova de vida exigiria, portanto, que se repensassem
cais, como Jolm Stuart Mil!. depreciaram consistentemente a capacidade cfvica das
completamente as relações íntimas, para q ue a família privalizada e su as opressivas
massas, chegando a um medo crescente durante as revoluções de 1848 e ao primeiro
le is do casamento pudessem ser substituídas por disposições comunitárias e verdadeira
surto pan-europeu de emancipação popular em 1867-71 . No discurso liberal, "demo­
igualdade. Caso se estabelecesse a mutualidade tanto comunitária como entre os sexos,
cracia" era sinôni mo de governo da turba.
argumenta va um feminisla owenita, "então a mulher seria col ocada numa posição em
Conseqüentemente, variando confonne o país, os movimentos operários passaram
que não venderia s uas liberdades nem seus melhores sentimentos"2M.
a se separar doi' liberais em meados da terça parte do século XIX . Assim como os
Esse feminismo pioneiro foi enunciado numa época de resistência generalizada à
socialistas deram as costas à utopia cooperati va localmente organizada, eles também
indú::.tria capitalista, qua ndo os socialistas podiam sonhar com a salvação da soc iedade
subStituú'atll o indivíduo livre e soberano pela soberania popular. A partir lIos anos
pela reforma !lo caráter humano num molde de cooperação. Contudo, se ainda era
1860 tomou fonn a um constitucionalismo sucialista que pouco tinha em comum com
possível nos anos 1830 proj etar um espaço de refonn a afi m da estrutura capitalista. na
os projetos locais de auto-ad rni tustração comunitária que origulalmente haviam inspi­
segunda metade do século XIX, como nos di z Barbara Taylor, "havia muito menos
rado o pensal11enLo soc iali sta no início do século. Os soci alista~ haviam antes funciona­
'espaço' para onde fu gir'", e as organizações operátias já aceitavam a suposta base da
do COlTIll elementos mais jo vens em ampl as coai izões libenlis. ganhando às vezes maior
relaçào assaJariada 29 , Nesse meio-tempo perdeu -se o compromisso com a igualdade de
proeminência com a<; oportunidades de radicalização de uma ctise revolucionária como
gênero. Visões de liberdade sexual e alternati vas à famfl ia patri arcal foram deixadas
a de 1848-49. Haviam lambém trabalhado em prol de fom1as inte rmediárias J.e coope­
ração entre prod utore~ apoiadas por um governo reformista, incl usi ve oficinas nacio­
para os extremos dissidentes dos movimentos operários. As mulheres não eram mais
consideradas numa platafonna femin..ista independente, sendo tratadas como mães ou
nais ou um banco de crédi to popular, que se aproxi mavam dos esquemas mais am bicio­
trabalhadoras em potencial. A crença anterior na igual!lade sex ual ("os interesses mes-
55
54
FORJAN DO A DEMOCRACIA

sos de Pro udhon. Cabet e outros sllcialistas utópicos . E , por fi m, pe nnímeceu também Capítulo 2
a tcnu.u,: ão da conspiração revolucionária blanqLLista.
Sob todos os aspectos , os anos 1860 provara m ser um divisor decisivo . Posterior­
me nte. em quase toda a E uropa os so('íab tà~ deposit,u'anl s uas esperanças nu m partido
de democracià parl amenwf, centralmente di rigido, co mbinado com um movimento sin­
di cal naci o nalmente organi.zado. A prop0Sta de ~se tipo de movimento fo i bem defe ndi­
oMARXISMO EA
da numa séri e de amargos debates que dominaram a esquerda euro péia a partir do ESQUERDA:
in ício da década de 1860 até meados da de 1870, cujo principal fórum fo i a Associação
Internacional de Trabal hadores, o u Primei r.\ Inte rnacional, um novo coqJO coo rdena­ Olançamento
dor Cliado em 1864 e extinto e m 1876 32 Ademais. a ascensão do modelo socialdem o­ dos alicerces
crata foi decisivamen te promovida pela crescente prevalência na Europa das constitui­
yões parlamentaristas associadas ao princípio do Estado nacio nal, que recebe u um im­
pulso espetacular das un ificações ale mã e itali ana nos ano!> 1860 e dos movi mentos
ma is amplos de formulação co nstitucional daquela década. AI; oportun idades abe11as
pel() con!,liLUcionali smo li beral resultan te afe taram crucialmente o progresso do mode­
QUANDO K.ARl- MARX MORREl ! EM 1883, a organização socialista ainda era pratica­
lo socialdemocrata.
A política centralizada do cons ti tucion alismo ~ociali s ta aderi u então, durante um mente inexistente na Europa - um Partido dos Trabalhadores Socialistas na Alemanha,
período de 50 an os, à estru tu ra de partidos que começou a ser fundada, de país a país, associações de soc ialdemocratas na Holanda e na Dinamarca, partidos em fonnação
na década de 1870. Mas as culturas locais de socialismo e dem ocracia demandaram
nUS partes tchecas e hú ngaras do I mpério Habsburgo, uma Federação Socialista Fran­
cesa, tênues redes em Portugal e na Espanha . Mesmo esses eram grupos fracos, sujei­
muita remodelagem antes que a social democracia pudesse predominar absolutamente.
tos a persegu ições . No entanto , uma década depois, já havia partidos socialistas em
Nas bases, o interesse pelo soci alismo mante ve uma ênfase muito mais forte na sobera­
todos os recan tos, com exceção das regiões mais remotas do Leste. Em 1895, quando
nia local da ação democrática popular, indicando um a herança radical anterior que a
da morte de F riedrich Engels, colaborador de M arx durante toda a sua vida, todas as
socialdemocracia só conseguiu expres~ ar em pmte. Os movimentos populares de mea­
pri ncipais regiões da Europa - a Europa Central gennanófona, os Países Baixos, a
dos do século XiX havi am registrado níveis excepcionalme nte altos de politização, le­
vando o im pulso da esquerda até bem al ém das fronteiras usuais. Nas aldeias e peque­
~scandinávia. o Sul católico , a Polônia czarista e a Croácia Habsburgo, e até os novOS
Estados dos Bálcãs _ já haviam adquirido, país por país, uma presença socialista orga­
nas cidades. bem como nOs aglo merados urbanos maiores. militantes lutava m contra as
nizada. As demais regiões não tardaram a acompanhá-las - todos os povos eslavos do
autoridades por questões como educação, recreação, religião e o uu'os aspectos da vida
Império Habsburgo; judeus, ucranianos, fin landeses e letões sob o czarismo; e final­
diá ri a local . O cartismo bri tânico foi o mais impressionante desses movi mentos, segui­
mente um Partido Sociaidemocrata dos Trabalhadores na própria Rússia. Já no início
do de perto pelos radicali smos popu lares de 1848-5 I na Fra.nça, quando clubes políti­
da décatla de 1900, o mapa da E uropa estava totalmente tomado por partidos socialis­
cos e cürporações operária:. atingiram allo~ n ívei~ de ativismo e m Paris e outras <:ida­
tas que representavam a principal voz da democracia, ancorados em lealdades popula­
des e os democrata-socialistas (democ-:ioCS) impregnaram as altlei as. Outros exemplos
mais localizados também podiam ser enco ntrados em muitos o utros paí-;es entre as res e apuiados po r crescente força eleitoral.
A sensação de progresso era muito diferente do isolamento da década de 1850,
décadas de 1840 e 186033 .
q uando Marx começo u a sua crítica do capitalismo. Depois de três anOS de conspira­
Até q ue ponto essas energias poderiam ser captadas e remodeladas para os fins de
ção, burricadas. jornalismo feroz e incansável excitação revolucionária no período 1848­
fortalecimen to da democracia nas no vas sociedades capitali.slas da Ellropa, quer como
50, Marx se viu isolado na decididamente anti-revolucionária Londres. cercado pelo
lembran ças de luta popular, quer co mo forças ativas para um futuro ai nda a ser imagi­
tlesânimo do ex ílio c da derrota, com uma vida de penúria, saúde fra ca e perdas na
nado, era o desafio a ~er enfrentado pelos movi mentos social istas e mergentes do últi­
ramília. Ligado às antigas esperanças de uma revoluçãO ge ral européia, principalmente
mo quarte l do século XIX.
pelas divagações e fantasias de refugiados, Marx depositou então suas energias nos
livros, trabalhando no Museu Bri tânico, pensando e escrevendo intensamente, pondo

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56
V l""~ ' '\J't..Jo"l'''''IIo.I _ .. .. -......- "",­ -
FORJANDO A DEMOCRAC IA

, l'ng
rfl O a história francófona recen te da Renâni a dirigiu Marx para a heran-
sua fé nas atividades subterrâneas da história, na qu al a " velha toupeira" ua revoluÇão 1esa
. Iltu"f-
uillgressista do •Iluminismo e da Rev01ução Francesa. A5 d uas comparações davam
certamente continuava a "cavar seu caminho" '. Era uma década em q ue a POlítica po­
pul ar ainda não voltara a mostrar movimentos perceptíveis. Some nte na década de
.-u.r ro,, _ er,/)'hl alemã uma sensação de urgente inferioridade durante o Vormar::. ou
:l'Pré-rnarço"• , nOS anoS que precederam as revoluçõe.'> de 184 8. Be m imtes que esses
C 1fI/i! /.':
I R60 seria rompida a aparen temente sólida estabil idade da reação pó!\-1 849.
. eeimenlOS varressem a Europa, Marx e Engels tiveram muitas oportunidades de
Cobri r essa enonne lacuna - en tre as derrotas revol ucionárias de 1848-49 e a as­ ,tCOnl -o Marx ao rcLOmar. em J'uJ ho de 184 1, ao prOgreSS .ista extremo OCl°d en tal da
censão permanente dos partidos '>ocinlistas já na década de 1890 - é a tarefa deste e dos
, In ~nlla onde aprofundou sua crítica ftlosófica do Estado prussiano; Engeb, e m u m

I cxa - ,
capftulos seguintes. A democracia na Europa explodiu violentamente por todo o COnti­
,tám....·
o'Ue
io de •

dois anoS em Manchester, observando em primeira mão os efeitOs sociais Ja


~nt.ll~..tria\iI.açãO. Ao se encontrarem em Bruxelas em agosto de
nente nos anos 1790, brilhando intensamente desde sua origem revolucionária fran cesa
1844, deram inicio a
até sua cx Li nçãO pelas restaurações de 181 5. Fulgurou outr a vez em 1848, ames que a
ordem fosse inexoravelmente restaurada . É ciaro que a.~ narrati vas e uropéias do avan­ um ll estreita colaboração .
Enquanto escrevi am em conju nto, os dois trabalhavam politica mente entre os

ço democrático mencionavam muitas realizações locai s entre as décadas de 1800 e


artesãos alemãeS migrantes em Bruxelas, Paris e Londres , j untando-se à Revolução

IR60, com exceções dramáticas na história principal de estabilidade nas crises transna­
Alemã em 1848-49. Depois do tri un fo da contra-revolução européoia, em L849, Marx

cionais como a de 1830-3 1 ou nos movime nlOS nacionais como o cartismo e seus
se retirou para Londres, onde passou o resto da vida, enquanto Enge ls dirigia o negócio

an tecessore~ na Grã-Bretanha nas décadas de 1830 e 1840. O ressurgimento da política


da fam(lia em ManchestcT. Os ano~ 1850 foram terríveis para Marx, cheios de dificul­

democrática nos anos 1860 também pressupôs acúmulos mais longos e menos visíveis
daJes financeiras, tragédias familiares e pouca coisa de seu trabal ho para mostrar. T udo

J e experiências locais, pacieIllemen te construídas por pioneiros desconhecidos e inva­


isso mudou em 1857, quando a primeira cr ise pan-européia sacudiu O boom capitalista

riavelmente gestadas pela ação de base na pequena comunidade 2 •


de então e incen ti vou Marx a retomar sua "economia", em q ue trabalhou febrilmente

Mas foi somente com as novas cons tituições pan-européias na década de 1860
até ,) tinal dos anos 1860. Retomou também a atividade política, ligando-se aos nas­
que se criaram estruturas legais e políticas duráveis - Estados nacion ais com ins titui­
centes movimentos operários na Alemanha e e m outros lugares, especialmente por
ções parlamentares sob o império da lei - através das quais as aspirações de mocráti­
meio da Primeira Internacional. que ele aj udou a fundar em 1864. O clímax dessa
cas poderiam assumir uma form a contínua e organi zada. Q uando surgi ram nos anos
década veio em 1867-7 I, com a publicação do primeiro volume de O Capital, a obra
1870, os partidos democráti cos eram geralmente sociali stas . E a m ais importante
da vida de Marx, e com o breve SllceSSO da Comuna de Paris, a revol ução dos operários
fonte de ori e n ta~' ã o de suas perspecti vas políticas foi o pensame nto e o legado de
em ação. Contudo, a derrota da Comuna e as maquinações de Mikhail Bakunin destruí­
Karl Marx.
ram a Prim eira Internacio nal. Apesar de ter ampliado sua esfera internacional nos seus
ulllmos anos, Marx publicou pouco e raramenle participava de eventos, em razão do
QUEM FORAM MARX EENGELS Qlto preço cobrado pel a sua saúde fr ágil. Em 1870, E ngels mudou-<;e para Londres e
as<;umiu um papel mais presente na relação.
Karl Marx (1 818-83) e seu col aborador Friedric h E ngeLs ~ 18 20-9 5) fo ram rebentos da
Qual a influência de Marx e Engeb em sua própria época? Responder a essa ques­
própria classe que pretend iam destruir: a burg uesia próspera e autocontiante cujos por­
tão exige que se suspenda m todos os debates sobre o marxismo . Isso significa esquecer
ta-vozes coom eçavam a surgir na.'> províncias ocidentais da Prússia anunciando a crença
19 17, a Revolução Russa e tudo o que sabemos sobre o comunismo . Sign ifica esquecer
no seu papel progressista na hi stória. Marx p arecia disposto a repetir a carreira do pai
Ol> escritos filosúlicos de Marx dos auos 1840, que po uca relevância ti veram para os da
como ad vogado bem-sucedido em Trier, quando se matriculou nas uni ver!\idades de
década de 1860 e eram completamente desconhecidos de seus contemporâneos. Saber
Bonn e Berlim: Engels foi admitido como aprendi, na empresa B arme n, de Ermc n e
Cl que Marx " queria realmente dizer" - por exemplo, .,e os pri meiros argumentos fil o­
Engel s, e m 1836, no escritório central e m Breme n. O início de suas vidas revelava
sóficos "obre "alienação" ainda inspiravam ou não sua teona da economia em O Capi­
nitidamente o eixo principal da ordem social e m desenvolvimento - Bildlll1g cmd 8esitz, ~
lul-éev'l
. ucntemente
o" Im po rtante para outros fi.rnS. M as seguranlcnte nao
- t em 'lmportan-
educação e propriedade. os dois pjJare~ da respeitabili dade burguesa ,llcrnã 3 .
ela aqui. Devemos. pelo contrário, nos pergunlar: quais os objetivos políticos que Marx
A~ d ll a~ vida.~ foram arrancadas de seu curso pelo radicalismo intelec tual. Marx
e Engels defenderam entre 1860 e 1880 e q ue també m foram assumidos como seus
entrou, em 1837. para o círcu lo berline nse dos Jovens Hegelianos e Engels, para O pela primeira geração de político" socialdem ocratas? Como foi entendida a sua tcoria
movi mento Alemanha Jove m, em 184 1. Contudo, enq uanto a indústria têxtil e a tradi­
gera] da !iOciedade?
ção comerc ial de Bre men e ncalTlÍllhavam o jovem Engels para o d inamis mo da indus-
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U i'V.I.f\J'<'.,h I ,,)l'-'JV J':" r \ Loo.. J "c ...' ·~ · ~~ "

FORJANDO A DEMOCRJ\C IA

. I. '''''0 owcnila do in.ício do~ anos J tl30 e nO comunismo utópico dos icari anos de
o Marx L{ue conhecemos não foi o M arx de se us contemp orâneos. Nossas imagens IS,H
fo ram for madas não só pelo desenvolvimento posleli or da tradição marxis ta, mas tarn_
~oC l a na década de J 840 . ldel" us de coope raçao ­ entre produtores també m esta vam
cabet "'s
. como a Iguma a bert ura para a msurrelçao.
nO cartismo, :lSSlIn . . - Se BlanqUl. e
hém pelai- obras de Marx que não estavam disponíveis antes de sua morte. A poster ida_ ~~n-. . . ,.
dt! - c () ~ trabal hos de icleólogos simpáticos e hostis - colocou Marx e Engelíi fora da
r \
_conspiradores u nham um pTograllla SOCial, ele se baseava nas Idel:ls de Proudhon
..eUS co .
história, bloqueando nosso acesso a sua condição contemporânea. Para entender eSsa dos sociali ~tas utópicos.
influência, temos de nos concentrar nas percepções de políticos socialistas e uúvistas
e A ó(!cada de 1840 viu uma transição fu ndamental: a do m odelo blanqui~ta mais
ura de tição revolucionária para uma agi tação popular dt! base muito mai s wnpla.
da classe trabalhadora no terço final do século XlX. O que distinguia as iúéias de Marx
no fin al de sua vida? C omo e las foram usadas na política?
~pesar de romper meticulosamente com os ~ábit~s conspiratórios dos grupo~ re volu­
. 1h"'OS ex:istente~, Marx contllluou preso a lógica prática do bl anqUl srno durante a

Foi apenas com os acontecimentos dos anos 1860 q ue surgiu a inlluênci a política
-:'própria
01 ... ·
Revolução de 1848: :;empre à frenle da consciência popul~, ~I~ ainda tentava

de Marx . Poucos de seus escritos encontravam-se disponíveis duran te a sua vida. En­
' iri Rir as massas paru o enfrentamento msurrecJ(mal. Contudo, ele illSl stlU em demons­
tre e les. alg uns dos primeiros tratados fi lOsóficos; os comentários j ornalísticos sobre
tr:lr~os limites "demoerático-burgue~es" da Revolução de 1848; opôs-se a confronta­
li
as revoluções européias (1847-53) e o Manifesto do Partido Com wústa (1 847-48);
ções prematuras; C, na erise tinaJ da revolução. instou com os trabalhadores J.c C olônia
duas obras de teoria econômica (de 1857 ao final da década de 1860); e te xtos políti­
panl que evitassem um levante fi nal. Acima de tudu, Marx sempre se comprometeu
cos da Primeira lntemacional (1864-72), que apareceram em várias línguas (alemão,
com a ag:itação pública e a voz democrática das massas , e não com a fantasia blanquista
francês e inglês) e logo se esgotaram. A repu tação teórica de Marx se baseou nos
úe UIDU elite revolucionária secreta que exercesse a ditadura em nome de um povo que
grandes te xtos econômicos - a Crítica da economia política (1 859) e o primeiro volu­
ainda não estava su ficientemente maduro para governar a si próprio .
me de O Capital (1 867). Politicamente, ele era vagamente conhecido por seus utos em
Ainda assim, a conjuntura prática de 1848 - em que uma intelligentsia revolucio­
1848: teve algwna notoriedade como um dirigente da Primeira Intemacional que apoiou
nária altamente auloconsciente CO IlV(l CaVa um proletariado industrial ainda não forma­
a Comuna de Paris; e teve. uma repu tação crescente como teórico da economia e his­
do numa Europa cujo desenvo lvime nto era extremame nte desigual - tomava difícil
toriador. Contudo, na maior parte da Euro pa, o conhecimento de suas idéias ficou
evitar o vanguardismo. Marx e se us companheiros afirmavam conhecer O futuro por
restrito às pequenas redes de socialistas ingleses e alemães que ad otaram sua autori­
entenderem o progresso inexorável da hist6ria. Isso os colocava numa relação de supe­
dade intelectual 4 5
rioridade com as massas , adivinhando a verdadeira di reçãO de seus intercsses . Dessa
O primeiro encontro de Marx com os trabalhadores foi nas reuniões educacionais
forma, os revolucionários democratas de 1848 estavam à frente dos movime ntos so­
de artesãos emigrantes alemães em Paris, no início de 1844. Já no início de 1846, ele
ciais que deveriam realizar seus programas . Esse~ movimentos só poderiam ser viLO­
havia fundado o Comitê de Correspondência Comunista com compan heiros revolucio­
rlosos. segundo Marx. se primeiro ocorresse a ind ustriali zação capitalista.
nários em Bruxelas . procurando ligações com trabalhadores através da semiclandestina
Marx errou com pletamente a lei tura dos sinais de 1848. Como reconheceu Engels.
L iga dos Justos, baseada em Londres. As sociedades rev oluc io ll ári a~ da época geral­
o que ele e Marx viram como os estertores do capitalismo e ram na verdade as dores do
mente combinavam um núcleo secreto in terno com uma fachada pública de ação cul tu­
seu parlo. El>!'ic eno levou Marx de volta à mesa de traba1bo. Ele já via a economia da
ral . nc,>le caso a União E ducacional dos Trabalhadores Alemães . Quando os comunis­
exploração como o motor da mudança, em que o proletariado opli m ido forneceria o
tas de BruxeLas se fund inun com os londrinos na Li ga Comunista. no verão de 1847.
[ lTl l1 et O revolucionário : não seriam mais os pequenos grupos de conspiradores revolu­
eles também formaram uma Associação de Tral)alhadores Alemães. em Bruxelas . Com
cionários que Jirigiriam a ação, mas as cl<l.s~es <;ociai<; definidas pelas condições da
essa estratégi a. os radicais democráticos proc uravam ampliar sua ba-;e de apoio opeTá­
vida econ6micu. No entanto. (.h;pois de 184 8, ele voltou u se dedicar à pesquisa leórica
n a. tentando avanç'u· numa direção s()c i a l i~ta .
básica que viria a produzir O CapiTal. Rompeu po\iüca1nCnle com a Liga Comuru:,ta,
Es~a l10mla organizacional da associação operária local e ra com um aos modelos
que na úen·otu cede u i\ velha tentação blanquista. Como ele a.fi rmou no principal con­
ex istentes de radica li s mo popular na década de r 840: a tradição co n ~p i ra ló r ia e
gresso de seu Comitê Central. a S revol uçõe~ não eran1 meras proezas da vontade, mas
imurrecional de Babeur. Buonanw i e Blanqui; o cartismo na Grã-Bretanh a; e o socia­
ú resultado de cond ições que amadureciam gradualmente . Os Qpermos estavam djante
lismo das profissões práticas associado a Proudhon e ao~ e~quemas apolíticos dos so­
de Ullla política de luta duradoura: "Se qu iserem mudar as condiçôel> e se tomarem
cial j s ta~ llt6picl)S . Nãt) eram tradições inteiramente separadas. Os experimentos comu­
Célpazes de governar, os senhores lerão de suportar 15.20 ou 50 ano1' de guerra civil" .
ni tários d\ls soó a1i ~tas utóp icos misturavam-se aos ideais cooperati vos preferidos pe­
E!;~e eJ<1 lambém um pri ncípio geral:
los tra bal hadores politicamente mais ati vos. uma convergência que era ma is forte no
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o MARX ISMO E A ESQ UERDA
FORJAND<) A DEMOCRACIA

"Enquanto durar esta prosperidade geral, que pcrnu[c às rorça.~ prodUlivus da ~ociedMe
. través de uma onda de greves em 1868-74. dramatizada pelo grande aconteci­
burguesa desenvolver-se comp letamente no interior do ~ i s lemn burguês. ser,! impossívc]

E.uropa a. Comuna de Paris em ) 871 . O que incitava Murx não era apenas a volta do
o da
urna \crdatieim revol ução. Tal revolução só será p os~r\eJ qU.Jndo dois falores entrarem em
~e.n~ilO de c\u<,ses. mas suas ligações com a polftica. que geraram o ímpeto da P ri meira
contlito: os forças produtivas modernas e as formas burguesas de produçilo··.
l.On donal em 1864. Ademais. tão vital quanto o renascimento do trahalhi<;mo foi a
ItllCfll
.1
aça . .
no contexto consutuclonal em que ele se deu. Para Marx e Engels, os novos
~~ . . .
E: "Uma no va revo lução só será poss ível se resultar de uma nova crise; mas ela há : nUos-nação na AlemanhJ e na Itália foram um grande avanço progressIsta. q ue pro­
de vir. tão certo como a própria crise"6 ~l u Ocapitalismo nessas duas soc iedades e criou circun ~tâncias Favoráveis ao av an­
[l](lve
O ano de 1850 foi o divisor de águas na carreira de Marx. Somente uma única vez . do::. lrahalhadores. Completado por outras ocorrências: a Lei da Segunda RefOlm a
mais ele sentiu a excitação do otimismo revol uc ionário. durante a primeira grande ~: Gru-Brel anha ( 1867). a troca do Segundo Império pela Terceira Repúbl ica na Fran­
crise cícl ica da economia capitalista européia em 1857, quando definiu a estrutura ti ( 18 1), o compromisso constitucional entre a Áus tria e a Hu ngria no Império
7
básica de sua teoria econô mica nos sete cadernos de notas da famosa Grlllulrisse, que ~lub!iburgo ( 1867). a revoluçãO liberal na Espanha (1 868-69). as refo rmas cC>nstitucio­
conti nuou inédita por mais cem anos. Isso produz iu uma ênfase muito forte sobre as nais na Grécia (1864) e na Sérvia ( t 869). e até mesmo as reformas na Rússia ( 186 1­
forças sociais e as e~tru tu ra~ objetivas que. apesar de restri ngir a capacidade do povo 64) Tralava-se de um noVO e fundamental traçado do mapa político. Na década de
de mudar seu anlbiente . eram. e m última análi se, o que (Ornava possível essa mudança. 1860. (l constitucionalismo liberal ganhou ascendência na Europa, dando aos movi­
A panir dessa idéia central, ~urg iram e11lão as perspectivas polfticas que separam de mentoS operáIios a primeira oportunidade de atividade legal em escala nacional.
forma tão dara Marx e Engels das tradições rivais da esquerda no século XIX . l!1So inspirou um novO tipo de política da classe trabalhadora, o partido operário de
massa!! independente: independente, porque se organ izou separadamente das coalizões
o LEGADO DE MARX EENGELS liberais: de massas, porque demandava uma agitação pública de ba'ie ampla: operário,
porque enfatizava a necessidade de uma organização baseada em classe; e partido, por
Para Marx e Engels, a economia era fu ndamental. Isso começou como um axioma propor uma atividade permanente, centralmente organizada, programati camente coor­
geral do entendimento: "O modo de produção da vida material condiciona o processo denada e nacionalmen te dirigida. Marx. defendeu, de modo consistente. esse modelo,
geral da vida social , política e mental. Não é a consciência das pessoas que determina para cuja promoção foi criada a Primeira rnternacjonal . Os trabalhadores precisavam
o seu ser, mas. pelo contrário. é ~e u ser social que detennina a sua consciência". Ou: de um nwvime1llO político de classe que valorizasse o sindical ismo e outras reformas ,
"De acordo com a concepção materialista da história, o elemento determinante da his­ mas que lanlbém os ligasse ao objeti vo fi nal do poder de Estado, extraindo vantagem
tória é basicamente a produção e reprodução da vida real"? Esse materialismo ftlosó­ máxima das novas estruturas parlmnentares e legais. Marx não esperava que isso vie.sse
fi co nasceu nos anos 1840. E stá transfOlmado agora nWl10 teoria econômica geral- do a ocorrer da noite para o di a. e durante a Primeira Internacional houve apenas UITI caso
modo capitalista de prod ução e suas "leis gerais do mov imento" - que seria completa­ de pan ido socialista nacionalmente organ i~ado, o Partido Sllcialdemocrata Alemão
mente explicada em O Capital. Ligada explicitamente a um proj eto político, que colo­ (SI'D) e seus antecessores.
cou 1848-49 em per~pe c tiva e ex.plicou as circunstâncias de um futuro colapso capita­ A propoc;ta de organizações si ndicais e partidárias nacionais "como centro s
lista. essa teoria geral foi o mais importante legado de Marx para a tradição socialde­ organizadores da classe trabaLhadora no interesse abrangente de sua completa emanci­
mocrata anterior a 19 14. Tornou-se o que os contemporâneos busicamente entendiam pação" só seria vencedora pela derrota das tradições mais antiga,> da esquerdaS. A opo­
por "marxismo" - o papel do "fator econômico" na história, o:, efeitos determinantes siÇão a Marx. na Primeira lnternacional tinha várias fontes: as tendê ncias li beraI-refor­
das forças materiais sobre 31> realizações humanas e a ligação entre as oportunidades mista), de muitos lídere~ sindicais, em especial os ingleses: os proudhonjanos france­
políticas e Os movimentos da economia. Em resumo : a política revolucionária ti nha de Sés. hostis tanto ao rnn vimenlo sindical como à ação política conduzida pelo Estado; o

esperar pelas forças soc i ai ~ e crises econôm icas necessáJias para lhe dar s ustentação. revolucionarismo anti político de Bakunin e dos anarquistas. que se opunhanl à estrutu­
Os anos 1860 galvanizaran1 tais esperançU$. Num novo dmma constitucional . a ra centralista da Internacional e à sua êllfase na organização partidária: e o que ainda
Itália e n Alemanha se unificaram. E, depois do longo intervalo da década de 1850, 0$ rt!stava <.lo blunqulsmo.
movi mentos operários ressurgiram, incl usive os sindicatos de artesãos do Congresso O ~uce~so de Marx aO tratar com esses inimigos não foi completo. Fracassou com
dos Sindicatos da Grã-Bretanha e associações de trabalhadores em vári os ESlados da os sindicato~ ingleses. Cl~jO envolvimento na Internac ional passava pelas corporações
Alemanha . A organÍ7ação da clas:'é trabalhadora se espal hou geograficamente pela baseada~ em Londres: o objetivo modesto de romper com o Partido Liberal teve pou­

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O MARXISMO E A ES QUERDA
fORJANDO A DEMOCRACIA

tiria (1S muros do profiss ionalis mo e da burocracia que separavam o povo do


cos resu ltados e. de-pois de 1872, a seção ing l e~ a da Internac ional desaparece u. COITI Os
IIlI':
., demo d s categorias especlals" .1
uOS po l'ItlCOS
. e f unCIOn
· . ános
' . 'fi!Cavam o
que m lstl
seguidores de Proudhon e BaklJ ui n. ele foi inegavelmente v itorioso: os pri meiro, fo­ \em ou a.
ntrn de rrol ado ~ nas políticas de propriedade pú bJjca ado tada~ em 1866-68, e os segun_
g~l o . ll\vam do contr()le pel o povo. Marx nunca lhe deu uma definição sistemá­
dCl'eo lSO ... ' ­
fi" . viu na Comuna de Paris um exemplo de democracIa partlclpatIVa em açao .
d('ls no Congr esso de Haia em 1872, q ua ndo Man derru bou o desafi o de Bakunin ao l1Cll. mas d . J d' .,,-'
transferir o Conselho Geral de Londres para Nova York. Embora isso significasse na , de olução de todos os cargos ( Ol'ça~ arma as. serv iço pu ICO, u ICI .... 'O)
f ' bl'
pccllU a v . _ . - . . .
'dad'ios por meio de elelçao dIreta . A separaçao entre os poderes Leglslau vo,
prática fechar a Internacional e abandonar pru1es da Europa ao controle de Bakunin,
. , CI
pllrH. os '
' e Executivo .
seria abolIda; '
deixarIa. de eXlstIr
. ' uma " c Iasse poI"Jtlca" ; e as
princ ipalmente a Itália. a Suíça e a Es panha , esse passo deu aos aliados de Marx o JuUICIUfIO . . - '
con trole d,) legado si mbólico da Internacional. A partir daí, o anarqujsmo passou a ser ... õt5 de liderança" seriam dl[undldas tao amplamente quanto fosse posslvel. Essa
uJlç a. "visão de democraClá . sem pro fi" " . I
lSSIOnalS ,mUIto Istwta o cga o SOCI.aJd e-

d" d d
um credo político permanentemente marginalizado, com impacto regional na franja cru um ~llterl'or a 19 14 que via o governo democratlco ' . pnnClpa
. . I
mente em termos

meridional da Europa , sem nunca mais ameaçar a predormnância generalizada do so­ moera11I u
'

10

cialismo pol1Lico nos mov imentos operários do continente. pllrlament:arCs . .., .


Fina lmente, para vol tar ao maten alI smo baslco de Marx e Engels: se um de seus
A maior vitóri a de Marx foi so bre os blanquistas. Fora da Grã-Bretanha, o
blanquismo era a principal tradição revolucionária anterior a 1848. Até a Comuna de laous era cauteloso - evitar aventuras revolucionárias prematuras antes que as forças
sociais e as contradições econôrmcas est ivessem amadurecidas, com a necessidade de
Paris, seu imaginário de barricadas, insurreição popular, liderança conspiratória disci­
umll constrUção poUtica paciente -, o outro era mms otimista. Se um lado era o poder
plinada, sacrifício heróico e a imprescindível ditadura ainda definia o que deveria ser
d QS processos objeti vos sobre n ação política humana e "a subordinação da política ao
uma revolução. Marx e Engels repudiaram a política u;nspiratória nos anos 1840 e, em
desenvolvimento histórico", o outro era a inevitabilidade última da vitória do socialis­
1848. confinnaram essa hostilidade ao vanguardismo. Em seu lugar, etes propunham a
mo. Marx acredi tava na necessidade histórica da emancipação dos trabalhadores, por­
mais abrangente democracia popular, tanto na agitação pública como na organização
que os próprios processos capitalistas de acumulação criavam "uma classe sempre
interna. Associada à idéia da classe trabalhadora como agente do progresso, cuja gran­
crescente em número, treinada, unida e organizada pelo próprio mecanismo do proces­
de maioria resultava do desenvolvimento do capitalismo, essa proposta transfomlou a
so capitallsta de produção" ll . As políticas que desprezassem esses processos subjacentes
imagem da revolução. A partir de então, revolução passou a significar não um levante
não poderiam ter esperança de sucesso; as políticas construídas sobre eles teriam a
voluntarista gerado por uma conspiração autonomeada, mas a tomada do poder por
certeza de vitória . Essa poderosa combinação de otirmsmo e certeza - na vitória inevi­
uma classe, a vasta maioria da sociedade, cujo potencial revolucionário era organizado
tá vel dos batalbões de massas da história - foi decisÍ ' a para a socialdemocracia ante­
aberta e democraticamente pelo partido socialista para a expropriação de um círculo
cada vez mais estreito de interesses exploradores capitalistas. Sob esse aspecto, a vitó­ rior a 19 14.
Havia lac unas no pensamento de Marx. Ele nunca tratou sistematicamente do pro­
ria da perspectiva de Marx foi completa.
blema 1.10 Estado, nem da transição para o socialismo e do caráter da sociedade pós­
Na visão de M arx, todos esses fatores - a importância prática de sua teoria social;
re volucionária. Eu mesmo também não tratei aqui de todos os aspectos de seu pensa­
a década de 1860 e as novas oportunidades de política legal; a luta contra os adversá­
mento, principalmente o internacional ismo. M.a.s sobre isso Marx e Engels tinham pou­
rios; e a necessidade de campanhas de massa conduzidas publicamente - apontavam
co a di<;er que fosse original . A solidariedade internacional precedeu a Primeira lnter­
para a mesma conclusão: a emancipação da classe trabalhadora era uma questão polí­
nacitmal e era menos importante q ue a idéia de uma orgaru zação partidária nacional,
tica. Isso era verdadeiro em três sentidos: ela tinha de ser organizada politicamente,
u~n anovidade então. A crença de Marx c Engels na guena revoluci onária veio da tradi­
coordenada por um p artido sociali sta baseado em classe; o partido tinha de concentrar
ç~o Jacobina. E sobre () naciOnalis mo eles geralmente repetiam os preconceitos da
as forças coletivas dos trabalhadores num movi mento centralmente d irigido capaz de
época
t F In ai meme, alg uns aspectos do pensamento de Marx , como sua aparente aber­
desafiar a autoridade política da classe dominante; e. já que o Estado existente era uma
\l_W na década de 1870 a e s tratég i a~ pop ulistas baseadas no campesinato na Rússia,
expressão de domínio de classe, ele não poderia ser apenas tomado, mas teria de ser 11UI) eram . conhecidos naquele tempol2.
mUIto
destru ído . [sso exigiria uma autoridade estatal tran sitória, a saber, a "ditadura do prole­
As idéia" de Marx e Engels de vem ser julgadas por sua súmificância contemporâ­
ta.riado'·9. lIea.~e nãopelos slgmllcados
. .- ~ A aLi vidade de Marx
ab,u-atos que viriam a ter no futuro.
No pensamento de Marx, o "Estado proletário transitório" era inequivocamente na. n nneira lnlernaclonal
' sempre fOi. vIsta
. .
como um movunento .
paralelo ou uma dls­
democrático . Por democracia. ele entendia algo diferente das instituições parlamenta­ lt~ção para - . .
nao termmar O Capital. Na verdade, ela definiu as perspectivas políticas
res liberais. Para Marx , tratava-se de um ~istema participativo de tomada de decisão
65
64
FORJANDO A DEMOCRACIA MARXISMO E A ESOUERDA

viutis para os parti do~ sociali stas que estavam para se r fu n<.lado~, particularmente q uando
J880 e transformou o marxism(l no credo oficial do mov ime nto socialdemocrata.
comparadus com os antigo~ radkalismos das décadas de l830 e 1840. Em lermos de
ilno~efculo foi ol1lensário teórico Neue Zeit , que ele fundou em 1883 . Garantiu pam si
organização, a Primeira Internacional teve i mpacto limitado. Em 1869-70. ela estava
SeU _. ão de herdeiro teórico aCl publicar. em 18R7 , As doulril/Qs eCOflôrlllcas de Karl
'1 pnsiç. . _ . I~
violentamente dividida por conflitos e e m J 872 já era letra morta. Contudo. certas
, . que logo ~e tornou a mtroduçao cláSSica .
\f(1/1. . .

políticas fo ram declaradas publicamente - por exemplo, o programa prático de legIsla_


, Se Enach . :;- foi ('I último árbitro da autondade de Marx, Kautsky fOl seu fid pornt­

ção trabalh ista e re forma sindical nas "'nstruçõe,," de Marx para os delegados ao Con­
JrwUOXlU d~ Kautsk) apagou <;i!'temaLicamenle 0<; traços não-marxistas . O utros
\ '0/ . A ( . . . .
gres~o de Genebra em l R66; ou a resolução sohre a pfCIpriedade pública no Congresso
. orw.ntt!s pen~aJores da pn melra geraçâo - Eduard Bernsle1l1, VicIar Adler, Georgy
nnt"l . I " d -. .
de Bruxelas em 1868; o u a resolução sobre u "Ação po!itica da d asse trabalhadom" ,
r'le"hano v. Antonio Labno a - ,oram menos ogmatJ cos. mas mantiveram O mesmo
que propunha a "constituição da classe trabalhadora em um partido político", adotada
lÍsso. Dese,'avam "sistematizar o materialismo histórico como teoria abran­
1.:1111lpron • .
pclo Congresso de Londres em 187 1. Elas pas~aram a seT referenciais fixos para os
gl.'nLe do homem e da natureza. capaz de ~ubsti lu ir as disciplinas burgue~as ri vais e de
futuros partidos socialistas. Noutra." palavras, por meio de sua infl uência na Pri meira
~ rerecer ao movimento operário uma visão ampla e coerente de mundo que poderia ser
Internacional. Marx e Engel1> ofereceram as perspectivas orientadoras da primei ra ge­
fnci lmente entendida por seus militantes" . Isso signil1cou validar o mru·xis mo como
ração de políticos soci aldernocratas e dos movimentos que eles tentaram criar.
filosofia da histólia e lidar com temas que não tin ham sido abordados por Marx e
Engels, tais como Literatura e arte, ou religião e c rislianismo '9 .
A DIFUSÃO DO MARXI SMO Essa ohra tinha urgência prática. D uas décadas depois da fu ndação do SPD, em 1875,
touO país europeu já tinha um movimento alinhado com as idéia, de Marx. Novas gera­
o período entre a puhlicação de O GlIli-Diihring de Enge ls. em 1877-78, e s ua morte, ~ ões de militantes careeianl de u'einamento nos pri ncípios básicos do mov imento, não só
em 1895. viu a "transição. por assi m dizer. de Marx para O marx ismo" 'l, orq uestrada como quadros dt! jornalistas. conferencistas e políticos socialistas, mas também para
pelo próprio Engels. Co rno executor do testa mento literário, junto com Eleanor M arx. espalhar a consciência sociali sta entre a militância e grande massa de não-convertidos.
ele fez da popularização do pensamento de M arx u missão de seus últimos anos. E ditou Começava a f-e organizar a cu ltura dos movimentos operários europeus.
os volumes inéditos de O Capital, publicando () segundo vol ume em l 885 e o terceiro Podemos acompanhar es:,a organização pel a d isponibi lidade na Europa dos escri ­
em J 894, transformando o q uarto volume nos três volu mes das Teorias sobre a mais­ tos do próprio Marx . A edição alemã origi nal de O Capital foi p ublicada em 1867. a
valia (1905-10), editados por Karl Kautskyl 4. Engels recu perou obras an tigas. publi­ trJ.dução france~a. em J 875, e a russa, em l 87:2. O Manifesto do Partido Comul/ista
cou nova:, e codificou o peruamento de Marx nu ma visão abrangente do mun do ' 5 . renasceu em nove edições em seis línguas entre 187 J e 1873, quando também ~e torna­
Engel s também reuniu uma extraordinári a rede de contatos socialistas internacio­ ram amplamente conhec idos os prol1lU1ciamentos de Marx sobre a Comuna úe Paris. A
nailo., que se expan(ii u rapidamente com os novos partidos soc iali stas e a fundação da di fusão européia continuou no mesmo passo, com ediçõcs de O Capital em italiano,
Segunda Internacional e m 1889. Foi conselheiro desses movi me ntos nacionais, espe­ inglês e polonês, além de resumos em espanho l, dina.marquês e holandês . Em 19 17 j á
cialmente do alemão , do francês. do austríaco, do itali ano e do russo, e ajudou a lançar havia I.r'dduções em búlgaro, estoniano. tcheco, fin l andê~ e iíúiche. E m 191 8. () Mani ­
a nova Internacional. Representou Marx não só pela palavra impressa. mas Das cons­ fesro já fora pubJicaú() e m 30 IínglU1S, ,lté mesmo em j aponês c chinês. Sem contar
tanlec; com unicações e visitas pesc;oais, com illcontáveis intervenções práticas. Tutelou -\Iemanha, Áustria, [tália e França, o in tere:.se maior se concentrava na Europa centr(l­
a primeira geração de intelecLU ais marxistas do conti nente . Sua in fl uência "proporcio­ oriental c no império czariJita. com 1I edições do MUI/ifesto em polonê~. 9 em hú ngaro,
nou () momento formador de todos os pri ncipai~ intérpretes da Seg u nd~l Internacional" 8 em tcheco, 7 em iídiche e búlgaro, 6 em fi nlandês. 5 em ucraniano. 4 em georgíano.
e também de grande pane dos da Terceira l6 . 2 em amlênio. e incríveis 70 edições em russo. Os países onde a difu:,ão foi mais fraca
Essa p roteção do legado de Marx foi respo n ~áve l pelo estabelecirnento de uma °
foram os da pen ínsu la Ibérica, onde predominava anarquismo, os dos Bálcà<; e partes
tradiçâo politica '·marxista". Velhos veteranos viram nesse rótulo uma " marca sectá­ da Europa Oriental. onde não exis tia movimento operário e l)S índicel> de alfabet ização
ria", aversão partilhada por Marx e Engels, que preferiam "o socialismo materialista eram baixos211.
críueo" ou "cienúfico" em oposição ao ""ociaLismo utópiCO·'I7. Kaut ~ky, entretanto, A maIor parte dos dado:> existentes - memórias, impresso~ de ti tulos específicos.
não teVe esses c uidados . Usando sua lig ação com os líderes do SPD. Aug ust Bebel e catálogos e registros de emp rést imos de bibliotecas <;oci aljstas c sindicais, questionári­
Wilhelm Liebknecht. e com o princ ipal protegido de Marx e Engel<; na década de 1880. os sobre lJ); hábitos de leitura dos tra bal hadores - moslrn que Marx. foi lido principal­
Eduard Bemstein, ele mano brou com habilidade durante os debates do partido noS tnente por intelectuais do movimento . Mesmo que Clmpliemos a defi nição deMes. ín­

66 67
rORJANDO A l)F-MOC RACLA o MARXTSMO E A BSQUERDA

cluindo não ape nas os reconhec idos teórico~ , j orna1 j s ta.~ c parlamentares. m a~ tam bém Ainda não e~ lá bem claro (1 quanto essa cultura diária do movimento sociali sw em
o:> ativistas que adm i.nistravam as bibliotecas orerári a~ , ensi navam no:-. cursos do par­ ,'Ientemcntc marxista, Em alglrmus inte::rp rc tações. o m~míÍ<; rno ofic iai do SPO era
~~ . . . .
tido, organizavam círculos de disc ussão e d iscursavam t:m congressos públicos. ainda .ITado de ~ua \ ida prática, fosse nos smdlc::ltos, na pro paganda diária. nos clubes
JeS IIto· , . . _ 'J . . . ,
estumos falando de m inorias. Além disso, o SPD, por exemplo , englobava vários pontos reativos e cu lmr<us. fosse na conSCiênCIa geral de seus membro:s- . Mas ISSO tal ve7
de viSla . Mesmo a Escola lIo Partido, fun dada em 1906 sob controle m~x is la, oferecia ~á c.zagerad(l. Em qua lquer temp:l,. a mai:lri.a dus pessoas não tem uma filo:ofia ex~
um qu adro mi ~ to. Dep oi~ de con seguir im p(lf um c urríc ulo ortodoxo, com um rígido Ifcita. muito meno), bases doutnmmas solrstIcndas para suas crença~. T~so nao exclUI
treinamento teórico e seleçflo de alunos, os insu-utores l1l~xistas se sentiam ofend id()~ ~alorc~ políticos profu ndamente sentidos, que nos p rimórdios dos movimentos operá­
pelas idéias re"isioni sta<; de muitos alu no:>. AlÍl!n1rlis. os 240 alunos formados pela rio!> ~ignilicavam idéias de justiça social, separaçã() da cultura dominante, uma ética
Escola do Punido entre 1906 e 1914 eram mais q ue compensados pelos 1.287 que comunilária e de so lidariedade coleti va da classe trabalhadora, uma ra.iva comhativa
passaram pela Escola Sindical. que tinh a um currículo emi nentemente p rático. A difu­ contra os poderosos etc . O maTXismo não era o único credo que apuiava essas ati tudes .
são real do marxismo entre os quadros era limitada, e à medida que nos apro xi mamos Mas SLL.'l contribuição era clara, especialmen te nos valores derivados e no discurso
das opiniões dos membros menos escolariz ados isso se torna plenamente evidente. popular. Também se criou um quadro de militantes mais conscientemente marxistas
Não mais que 4,3% dos empréstimos nas bibliotecas operárias se relacionavam às ci­ antes de 1914 e, durante as agitações populares mais extensas, esse quadro assumiu o
ências sociais, e outros 4,4% estavam relacionados com filosofia, religião, direito e lugar que lhe cabia.
ass untos diversos, A maior parte, 63,1 %, era da área de ficção, enquanto outros 9,8% Os valores do movimento operário anterior a 1914 eram, de um modo geral,
eram de livros infantis e 5%. de antologias 21, As obras de M arx e E ngels Ce mesmo as congruentes com o legado político de Marx e Engels. Is so era válido para a visão
de Kau tsky) não faziam parte da leitura preferenciaL materialista básica; as novas oportunidades políticas nacionais criadas pe l a~ refolTIlas
Não se de ve entender mal essa pouca difusão. Mesmo que fosse difícil o acesso às constitucionais da década de 1860. a antipati a pelo anarquismo; o senso da necessi­
obras de M arx , havia muitos comentadores - cerca de 300 títulos somente na Itália dade de si ndicatos e organização partidária fo rtes para arrancar benefícios do governo
entre 1885 e 1895, ou mais de dois livros por mês sobre marxi smo e socialismo durante e dos empregadores; e a convicção geral de que a história encaminhava a classe traba­
uma décadan Não surpreende que os primeiros intelectuais socialistas ti vessem ver­ lhadora para a sua herança legítima na sociedade. Essa congruência era especialm ente
sões distorcidas de Marx . Eles só conheciam algumas idéias básicas: a primazia da fone na Alemanha, onde o SPD não tinha adversários no movimento operário, ao passo
eco nomia na história; as leis naturais do desenvolvimento social; a base científica do que, na Itál ia e na F rança. os soci alistas competiam com sindicalistas na cultura geral
sociali smo; a luta de classes como motor da mudança; o proletariado como agente de do movimento, Havia algumas discordâncias . O SPD não tinha uma crença clara na
progresso; a organização política independente da classe trabalhadora; a emancipação confronül\ão revolucionária definitiva que Marx considerava inevitável. As crescentes
do trabalho como emancipação da sociedade. Nesse sentido, a popularização de Kautsky lutas parlamentares dos partidos sociali stas também impunham dilemas de revolução
fo i um sucesso: o conhecimento do "marxismo" precedeu o conhecimento do próprio verm,~ rd'o nna. Marx foi poupado. Mas os partidos da Segunda Internacional aceita­
Marx e ofereceu os rudimentos da consciência popular socialista, mm, em termos gerais, a política que Marx tão consistentemente propôs ao longo das
A imprensa socialista foi fundame ntal. N a Alemanha, a imprensa diária e periódica duas úlLimas décadas de sua vida. Se o m arxismo é definido desse modo, e não pelo
do SPD era a leitura mai~ popular da cl asse trabalhadora, E m 1913 já havia 94 jornais c(mhecimento detalhado de O Cap ital, a consciência popular socialista surge sob uma
partidários, todos, com exceção de quatro, aparecendo seis vezes por semana, com luz muito mai s marx ista.
um a circulação somada de 1,5 milhão de exemplares, ou um crescimento de seis vezes Sob dois aspectos esse legado foi alterado na passagem de Marx para o marxis­
sobre a de 1890. Essa imprensa atingia uma cobertura completa dos membros do par­ lUo . O prime iro foi a bifurcação dos movimen tos operários nos ramos político e in­
tido. Em Berli m, em 1906, menos de 3% dos 48.352 membros do SPD não eram leitores dUSlrial. Como cada um passou a perseguir seus próprios fins reformistas, a luta
uo Vo rwtirts (o Jiário do partid o) nem de outro jornal partidário, e por tod a pru1c havia uniticada pela emancipação dos tra balhadores concebida por M arx <;e des integrou.
l11ai~ assintinre~ que militantes pa11idários. AJcmais, os jornais de partido eram consU­ OlJtro~ ..;o mpromissos de Marx com fo rmas panicipati vas de democracia direta tam­
midos coletivamente, passados de mão em mão e oferecidos em cafés, clubes e bru·es. hél11 se perderam , tornando quase completamen te parlamentares na forma as princi­
Mais decisivo era o ritmo da comunicação diária nas comunidades operárias . Partici­ pai~ vcr<;ões de democrac ia. E m segundo lugar, as interpretaçõe~ de E ngels e Kautsky
par da \' ida do mo vimento, com sua sociabilidade politizuda, suas oportunidades cultu­ do pensamento de M arx trou xeram o evolucioni smo e o naturali smo para o materia­
rais e a interação face 11 face, transfolTIlava pessoas em socialdemocratas!-'. !t:.mo histórico. Engels já havia dado o tom no di scurso que fez à beira do túmulo de

68 69
o MARXISMO E 1\ ESQUERDA
FORJANDO A DEMOCRACli\

Marx, em que Lraçou paralelos com Clmrles Darwin: "Ass im corno Darwin descobriu um partido socialista grande e centralmente organ ii'..ado. como o SPD. fortalecia os
a lei do desenvolvimento da natureza orgânica. Marx descobriu a lei do desenvolvi_ eCun;os disponíveis para o trabalhador 4ue qui~esse aprender. Contudo. isso acuntecia
mento da histólia huma n a· ':'.-~ . Engels e laborou essa afirmação em suas obras da dé­ r I""'. entl! nos níve is inferiores da Ideologia do partido oficia l. quer e le fosse
gera '"
Jeclaradam
cada de 1880. que Kaut$ky enlàl) compl etou em seus traba lhos posteriores de cllte marxista. comI) na Alemanha. que r fosse defensor de U111 socialismo
populnri7ação . tico obstinadamente não-marxista. como o Partido Trabalhj~ta Inglês depoi$ de 1900.
Na maior parte dos relato$ da Segunda InLemaó(mal ~obre o marxismo. essa lin­ Nu ba.~e do movimento havia um lipo eclético e uutodidata de !>ocialismo npeTálio, em
guagem "cientíCícu" aparece como sua marca mais característica. Uma visão natural_ ue o marxismo era apena~ a mais poderosa de uma ampla "constelação de ideologias
científica formada pela leilura de Darwin e dos livros de Ludwig Büchner c Erost ~()Ciahstas" J I. Um conjunto especial de circunstância::; tomou possíve l esse ecleúsmo ­
Haeckel já permeava o pensamento pré-marx b ta de Kautsky. Esse encontro com a d~pois de surgirem oportunidades uc alfabelização popular. mas lliltes que esses esfor­
evolução mostrou -se inte lectualmente libertador para a geração sociali sta de KaUlsky. ços individuais aulodidut.a:- fossem suh~titu ídos por si<õtemas estalais mais abrangentes
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No Neue leit. a dupla filiação a Marx e Darwi n era a grande bandeira. A luta de classes de ensino e abordagens mais dnuU'inárias do trabalho educacional do partido .
- "a lUla do homem como animal social na comunidade <õocial" - espelhava a luta Ademais. os esforços organil.ados dos movi mentos <:ocialista.... eram apoiados pe­
biológica pela exislênc ia. O que valia para Kautsky també m valia para o SPD. Bebel las importanlcs mudanças sociais produzidas pela induslrialização capitalista, que re u­
declarou confiantemente : "O soci alismo é ciênci'l, aplicada com plena compreensão a nia grandes concentrações de m\balhadores nos novos amhientes urbanos. A ação cole­
lodos os campos da atividade hUlmm a". E m seguida ao livro Mulheres e socialismo. do liva LOmou-se essencial para as esperanças e O bem-estar material dessas novas popu­
próprio Bebe!, as popularizações de Oarwin e da leoria da evolução eram as leituras lações, e foi nessa direção que decisi vamente convergiu a relevância das idéias marxi s­
preferidas nas bi bliotecas operárias:!6 O mesmo se aplicava ao socialismo italiano. em tas. Portanto. antes de cOllsiu.erar em mais detalhe os partidos social istas que enul0
que Ernico FeITi . importante membro do partido e por muito tem po edilor do AVGnti!, surgiam, precisamos exam inar a indus[rialização e a formação da classe Lrabalhadora.
o jornal do partido, foi o arquiteto de um marx.ismo darwiniano extremamente yul­
gar7 , Quando começou a edilar um jornal partidário em Forl i e m 1910, o jovem agita­
dor social ista Beni to Mussolini apresentou Marx e Oarwin como os dois maiores pen­
sadores do século X IX2~ .
Contudo, a principal característica da consciência socialis ta popular era o robusto
ecletismo, Na formação da tradição política socialista, certos princípios gerais - os
valores básicos do mov imento operário - importavam mais que ü entendimento exclu­
sivo e esotéri co de uma teori a qualquer. Influ ências não-marxis tas. tais como o
lassuJlismo na Alemanha, o mazzinismo na Itál ia, o prou dhon i~mo na França. a combi­
nação sem nome de Carlyle e Ruskin, o secularismo e o livre-pensamento. e um cartismo
residual na Grã-Bretanha, marcaram a Lradição socialisla. Por volta de 1900, muitas
ouu'US surgiram em vários pOntos do continente - as teorias de Hem)' George, o
ensinamento ético de Leon Tolstoi . a ficção soc ialista de Edward Bell amy, diversas
utopias futuris tas t; Oconju nto "darwinista" de leorias evolucionistas . Os propagandis­
las socia li :-.ta~ também usavam as linguagens da religião popul ar. e "apresemavam \l
sociaJismo como ciência e fé. au mesmo lempo como religião ou fé na bondade humn­
DLI e herdeiro dH condição humanit6ria·· 19 . Em autobiografias. trabalhadores descre­
viam como haviam chegado ao marxismo uilhando esses caminhos ecléticos e tortuo­
sos. com uma ilnsia ue unific ar e abranger as tilosolias do mundo. Engels e os marxis­
tas que o segui ram talvez execrassem esses popularizadores de coração mole, mas
obras como O 11l11i·Diillri/lg serviram tanto para fortalecer como para negar o impacto
desses relalos símplificj]do~ do materialismo 1\1.

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