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a UMA REVOLUGAO BURGUESA? Christopher Hill (The Open University, Londres) “Deus néo dirige este tipo de governo (da Igreja) de acordo com a sabedoria e pensamentos de sew préprio povo, mas totalmente de acordo com sua propria vontade e os pensamentos de seu proprio coragéo, fazen- do coisas que eles nao podem saber por enquanio, mas tém que saber depois. Sim, tais coisas no presente parecem absurdas e absolutamente destrutivas.” William Dell, The Way of True Peace and Unity in the True ‘Church of Christ (1651), in Several Sermons and Discourses (1709), p. 225 “Os fins das agdes sao intencionais, mas os resultados que delas de- correm, de fato, ndo 0 sao... “O resultado final sempre decorre dos conjltos entre varias vontades individuais, das quais cada uma torna-se 0 que é devido a um grande nimero de condigdes particulares de vida. Assim, hd forcas inumerdveis interagindo e dando emergéncia a um resultado: 0 fato histérico.” F.. Engels, Ludwig Feuerbach, in Karl Marx, Selected Works (Moscou, 1935), 1, 437; Selected Correspondence of Marx and Engels (ed. Dona Torr, 1934), p. 476. “As conseqiiéncias culturais da Reforma foram, em grande medida. .. resultados nao previstos e até nao desejados das lides dos Reformadores. Sou profundamente grato a Eric Hobsbawm e Edward Thompson por ferem Tido um rascunho deste artigo © terem feito crits e comentérios proveltowos. les io S30 tesponsaveis pelo que resultou dele. Nas notas seguintes, caso nfo esteje indicado diferentemente, © local de publicagio 6 Londres. Revista Brasileira de Historia € Estavam, freqitentemente, muito ajastadas ou em contradigao com tudo Brualo que cles proprios pensaram em atingr.” Max Weber, The Protestant fanic and the Spirit of Capitalism (London, 1930), p. 90. 1 impossivel discutit este assunto sem primeiro nos livrarmos de alguns esteedtios. Muitos no marxistas, ou mesmo estudiosos ndo-marss- tae atribuem aos marxistas posicdes fixas do tipo daquela “todos os cre- tenses sf0 mentirosos”, que, por principio, nfo podem ser postas em di~ vida, Aprendi, através de longa e dolorosa experincia, que se me pergun- Jarem “Voce € marxista?”, devo responder (por mais que isto v4 contra fas minhas inclinagdes) “Isto depende do que voc entende por marxista”, pois se respondo “Sim”, mesmo com muitas qualifeagbes académicas, préxima pergunta fatalmente serd “O que voc faz quando se depara com tim fato que ndo se enquadra em seus pressupostos?” Seré tarde demais, fentéo, para alegar que néo tenho nem mais nem menos pressupostos do Gque qualquer outro historiador, ou que, como eles, mudo constantemente thinhas idéias com informagées novas. Meu interlocutor sabe tanto que 0s imarxistas tém pressupostos dogméticos como também que todos os creten- tes sio mentirosos. Nada que eu diga ird abalé-lo. Ele apenas se tornaré mais e mais convencido de minha desonestidade & medida em que eu tentar negar o que ele sabe ser verdadeiro. Para se discutir, portanto, se a Revolugio Inglesa foi ow nfo uma revolugdo burguesa, devemos comecar detinindo us termes. Como afirmel mais demoradamente em outra ocasido, a expresso, no sew uso marxista, nio significa uma revolucio feita ou conscientemente desejada pela bur- guesia, (2) Ainda assim, quando argumentei nesse sentido, até mesmo um Eritico relativamente amével supés que eu estava reconhecendo “uma diff culdade... na concepeo marxista de uma revoluglo burguesa”” e que eu sperava “resolvé-la adotando uma interpretagio desses termos que Isaac Deutscher jé havia colocado antes... contrdria a visao tradicional de que fa burguesia... teve nela 0 papel principal”. (3) Apenas nfo marxistas thal informades podem tomar esta como a “viséo tradicional” sustentada por marxistas. Citei Deutscher como um marxista respeitado ¢ represen- Bhtive e nao como um inovador. Lénin, a quem talvez, possa ser atribuido lgum conhesimento a respeito do sssunto, argumentou, em certo period, D. Veja o meu Change and Continuity in Seventeenth Century England (1974), pp. 27882, 3. Revisio por R. H, Nidditch em Isis, 68 (1977), 15556. 8 Revista Brasileira de Historla a favor de provocer-se uma revolugo burguesa contra 0s dese goesia russ. (4) ee nse ‘A Revolugio Inglesa, como todas as revolugses, foi causada pela fui a olbm-socaaoe w/aso pelos Gif dt unpack do Longo Parlamento. Seu resultado, no entanto, foi o estabelecimento de condigdes muito mais favoréveis ao desenvolvimento do capitalismo do que ‘bem como a prépria revolucao tenham se tornado possiveis porque jé tinha havido um desenvolvimento considerdvel das relagdes capi terra, Foram as estruturas, as fraturas © as pressdes da sociedade e no os desejos dos lideres, que ocasionaram a eclosdo da revolugio moldando o Estado que dela emergiu, Em nossa sociedade, homens de negécio e pole tieos fo desejam tuma recess embora quando ela ocorra possamos con. ciuir que seus esforgos para evité-la tenham ajudado a provocé-la, Na dé- cada de 1640, eamponeses se revoltaram contra 0s cereamentos,tecelbes contra misériaresultante da depressio ¢ os crentes contra 0 Anti-Cristo a fim de iostalar o reino de Cristo na terra, Como resumia um parti re engajel para afastar maus conselheios do Rei; ... outro disse que me engajei para estabelecer a pregagdo; ... um terceiro disse ainda que lute contra o Rei, coneebendo-o mais como agente avo que como agente passivo subordinado « qualquer mau conselheio; outro teria utado contra 4 opressio em geral Gerrard Winstanley pensou que todos, isto 6, gentry, clero e comuns, Iutaram por terra (5). Na verdade, poucos das fileiras do Novo Modelo de Exo Inaram para er um mundo seguro pa fazendeiros capitalistas e comerciantes lucrarem. Protestaram, aids, vigo- rosamente, quando 0 General do Servigo de Intendéncia, Treton, levantow tal possibilidade. A medida que a revolugdo se desenvolveu, homens com idéias do que seria desejével politicamente tentaram controlé-la, mas ne- num dees obteve sucesso, 0 reado da Revol no fo algo dese- ind por qussqer dos pripntes. Una vr rompis a velas amare, forma que a nova ordem assumiv foi, a longo prazo, determinada pelas 7. Pas ce ponoa do vt do nin vejeae snc ramos jose V. 1 Leni, Selected Works (934 3. "George Down sg Gzfae Downing io ohn Winton" de marse de 14748, in Collections Of the asarety Hiral Sxs Vi el OH Stine The Works 0} Gor than, N.Y, Toi), S34 etd. 1% Re, The Plamen Diary of Thomas Burton (1828), III, 145, 186-88. : eee a Revista Brasileira de Histor Brasileira de Histéria 9 necessidades de uma sociedade na qual um grande mimero de homens, sem ideologia, cuidava apenas de scus proprios interesses, (6) ; Na Inglaterra, por volta de 1640, a monarquia dos Stuart era incapaz de continuar governando de maneira tradicional, Sua politica externa era deploravelmente fraca, em parte pela falta de dinheiro; as medidas econd- micas, as quais foi obrigada a recorrer, alienaram tanto seus aliados poten- ciais como seus inimigos. Afirmar que esta situaedo fot conseqiiéncia, em ltima instancia, das pressdes e tensdes produzidas pelo modo de producto capitalistas nfo’ é 0 mesmo que dizer que 0 governo de Carlos I foi der- rubado por um bando de capitalistas pois nfo o foi. Também nao € 0 ‘mesmo que afirmar que uma politica mais adequada nao teria prolongado sua duragao pois esta, de fato, teria. Por volta de 1640, porém, as forcas sociais que acompanharam o capitalismo ou foram liberadas pela sua ascensio, especialmente na agricultura, nfo podiam mais ser contidas no velho quadro politico a nao ser por meio de repressio violenta, de que 0 governo de Carlos I se mostrou incapaz. Entre “as forcas sociais que acom- panharam a ascensio do capitalismo” devemos incluir no apenas 0 indi- vvidualismo daqueles que queriam obter dinheiro, fazendo o que podiam com seus meios, como também 0 individualismo dos que quiseram seguir suas ‘proprias conscincias adorando a Deus, 0 que os levou a desafiar as insti tuigdes de uma sociedade hierarquicamente estratificada. Presses e tenses similares produziram conflitos anilogos em outros paises europeus (7), estavam ligadas, sem diivida, tanto ao crescimento da populacdo quanto ascensio do capitalismo. O resultado na Inglaterra foi diferente, todavia, do de todos os demais paises da Europa, com excecao dos Paises Baixos. Na Espanha, Franca ¢ outros lugares, a monarquia absoluta sobreviveu & crise dos meados do século. Na Inglaterra, esta crise pds fim as aspiragSes da monarquia de edificar um absolutismo baseado num exército regular e ‘numa burocracia, Como Marx frisou, uma das diferencas essenciais entre a Revolucio Tnglesa ¢ a Revolugdo Francesa de 1789 foi a “continua alianca que (na 6. © Ieitor interessado no que Marx ¢ Engels realmente disseram sobre estas questées deve procurar Marx, Selected Warks (Moscou, 1933), 1, 210-1, 241, 456.58, 11, 115, 315, 54445; Marx, Selected Essays (N. York, 1926)" pp. 68:70, 201-206; Marx-Engels, Gesamfausgabe (Moscou, 1927), Abt. I, VII, 495; Engels, Socialism, Utopian and Scientific (1936), pp. xix-xxis_Ant-Duhring (1954), pp. 22623; Selected Correspondence of Marx and Engels, pp. 310-11, 475-77, 517-18. © que se pode en- contrar aqui, pode surpreender os que sustentam “a visio tradicional”. 7._R. B. Merriman, Six Contemporaneous Revolutions (Oxford. 1958), passim: Eric J. Hobshawm, “The Crisis of the Seventeenth Century”, Past and Present, 5 © 6 (1954); H. R. TrevorRoper, “The General Crisis of the Seventeenth Century”, Past ‘ind Present, 16 (1950), ¢ uma discussdo no n° 18 (1960). = Revista Brasileira de Historia Inglaterra) uniu a classe média, com a maior parte dos grandes propriets- rios de terra”, Ele associou esta alianga com a criagio de camneiros, da- tando-a a partir do século XVI (8) A natureza rural do capitalismo na Inglaterra o diferencia do da maioria dos paises continentais e cria dif culdades para os puristas que tomam “‘burguesia rural” como termos con- tradit6rios. Pondo de lado discussdes lingiisticas, € dificil negar que um segmento da geniry e da yeomanry inglesas, especialmente no Sul e no Leste, tomou parte da produgio para 0 mercado, a partir do século XVI, notavelmente através da industria extrativa e lanifera, sendo esta a prins cipal diferenga entre a Inglaterra e aqueles pafses continentais onde a mo- narquia absoluta sobreviveu. (9) Na Inglaterra do século XVI, a classe dominante de proprietérios de terras era restrita e estava segura apenas enquanto estivesse unida. Nas das geragoes anteriores a 1640, esta jé nao estava mais unida pelo medo, seja da Espanha, de uma guerra civil dinéstica ou de uma revolta campones estava dividida por questOes econémicas, principalmente pelos monop6lios, € por questdes religiosas. A. partir de 1618 dividiu-se em relacio a politica externa, to intimamente ligada a religido. A depressio do setor téxtil na década de 1620 e a batalha pelas florestas isolaram 0 povo e um setor da gentry da Coroa e dos grandes aristocratas que estavam cereando flo- restas e terras comunais. (10) Desde os anos apés 1620, pelo menos, conflitos nos burgos revelaram uma ruptura entre as tendéncias oligirquicas da Coroa ¢ de alguns da gentry além da disposigio de senhores, menos intimamente associados & Corte, de apoiar um sufrégio amplo nos bur 208. (11) A gentry desprovida de cargos e aqueles que controlavam, hi ‘muito tempo, 0 poder local se ressentiram da tentativa de se estabelecer luma burocracia © um poder central mais fortes. A politica de Laud na Tereja isolou tradicionalistas moderados, quase tanto quanto enfureceu puri- tanos; também causou desastre na Eseécia. © sucesso de Strafford, na Ir- landa, foi tio desastroso quanto a derrota escocesa de Laud, pois a TIrlanda yo By Mars Selected Essays, pp. 20465 Marx, Capital 1 (ed. Dona Torr, 430, TIE (ed. F. Engels, Chicago, 1909), 928-46. « Torso tg 9. Sobre a “dependéncia mitua” do Estado absolusta e a “propriedade cam Bonesa forte", na Franca, vela R. Brenner, “Agrarian Clase Siucture ed Beene Development ‘in preTndstial Esrope", Past und Present, 70 (ISTO, pos 685 10, Brian. Maning, The Enelish People and the English. Revolution (1976) caps, 1 1. Para ar Torts, vela n= 18 btno 11. Derek Hirst, The Representative of the People? (Cambridge, 1975) especial: mente caps, 3, 46° 10;.P. Clarke P. Stock, English Towne in Teanfon (Oxford, 1976), pp 13440. Revisia Brasileira de Histéria 4

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