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relação ao nacionalismo - dentro do estabelecido e longe, histórica XI

e politicamente, do irrealista -, suas avaliações podem ser discutidas,


embora alguns de nós possamos considerá-las erradas. Na medida em
que ele tenta mudar os termos desse debate, a principal direção de seus o TRABALHISMO NAS GRANDES CIDADES (1987)
argumentos parece não ser, como ele insiste, transformar o marxismo,
"pela primeira vez, numa teoria mundial autêntica" ou "separar o per­
manente - o 'científico' ... da ideologia da nossa Weltanschauung",
mas mudar a ideologia e solapar a "ciência".
Tal situação coloca o marxismo à mercê do nacionalismo. Aqui,
infelizmente, Nairn não está sozinho atualmente, em especial no que
diz respeito a países nos quais as questões nacionais dominam o deba­
te político. Como Maxime Rodinson colocou, ao escrever sobre o mun­
do árabe do Oriente Médio:

De um lado, o nacionalismo puro empregou justificativas do tipo As cidades gigantescas foram um fenômeno novo dentro do capi­
marxista e recrutou defensores formados no marxismo .. . De outro, a es­ talismo ocidental e um tipo de assentamento humano sem precedentes
querda internacional .. . denunciou violentamente os regimes nacionalis­
tas puros ... Mas não conferiu menor prioridade à luta nacional. O dis­
no m undo não-oriental, antes do século XVIII, ou seja , ci d ade~ cuja
positivo sofista para justificar isso consistia na tese de que "as massas " população seria medida em m uitos mil hares e, logo, em milh ões de ha­
é que demonstravam lealdade sem qualificação à causa nacionalista em bitantes. Até o século XIX, as cidades com mais de cem mil pessoas,
sua forma mais extremista ... Portanto, a revolução social foi vista, em na Euro pa, eram consideradas extremamente grandes; e, com exceção
última análise, sob uma perspectiva nacionalista. Por isso corre o risco de alguns portos internacionais, nenhuma cidade teria mais de quinhen­
de subordinar-se ao nacionalismo. 28 tos a seiscentos mil, pois a região que lhe fornecia suprimentos não
leria tal capacid ade de abastecimento. Sabe-se de fato q ue no Ociden­
Não é necessário ser luxemburguista para perceber o perigo de um c não existiu nenhuma cidade co m um mil hão de pessoas desde o final
marxismo que se perde no nacionalismo. Lenin não se referia aos fla­ do Império R omano até o século XVII , quando Londres alcançou esse
mengos ou aos bretões, mas ao que ele via como o caso mais claro de numero, e pro vavelmente nenhuma cidade mesmo com a metade dessa
nacionalismo antiimperialista "progressista" e "revolucionário", quan­ população , excet o P aris e N ápoles . Contudo , ao esto urar a Primeira
do preveniu Zinoviev e seus companheiros que queriam pregar a "guerra Guerra M undial, a Europa contava com sele cidades cujas populações
santa" no Congresso de Baku, em 1920, dizendo: "Não pintem o na­ iam de um a oito miLhões de habitantes, e outras vinte e duas que va­
cionalismo de vermelho" .29 Tal recomendação ainda é válida. riavam de meio a um milhão de pessoas. Além disso , esperava-se que
tais cidades crescessem e se ex pandissem sem limites previsíveis, fato
que também era novidade. Este artigo trata dos problemas dos movi­
men tos trabalhistas nessas gigantescas áreas urban as. Quando os his­
toriadores sociais do trabalhismo estudaram localid ades específicas,
fixaram-se naturalmente so bre os assentamentos característicos das clas­
ses trabalhadoras industriais , os centros de indústrias, de f(lrjas, de usi­
nas e de minas. No entanto, essas local idades, no século XIX, era m
muito pequenas pel os padrões atuais, embora, é daro, crescessem com
bastante rapidez. Em 1849, o si ndicato dos Operative SLonemas ons re­
conhecia a penas qua tro cidades na Grã-Bretanha onde se permiti a que
os trabalhadores por jornada passassem mais de um d ia para procurar
emprego: Londres, Birmi ngham , Liverpool e M anchester. E m 1887 já
existiam 48 dessas ci dades. Mesmo assim, o assentamento médio da
classe trabalhadora não era grande . Em 1870, P aterson e Nova Jersey

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tinham 33 mil habit an te~, n uma época em que os maiores Cotonifíc' rnoÚVOs apontados pelo adm irável Herbcr t GUlma n , his toriador
da Grã-Bret anha~ a oficina do mundo n~ auge de sua glória, empre~~~ d~\rabalhlsmo. nor1e-?mericano, j á ~a~ecido . .Ele escreveu: "O tama­
vam de 30 a 80 ~l1l trab~lhadores. ~oto n ame nte , os ~ssentamentos mi­ nho da cidad~ mdu~trl~1 e a c~~posl~ao p~rt~cular de su a população
neiros eram maIS parecIdos com vdas do que com cIdades. Mesmo o tornaram as rnovaçoe~ rndu~tnals maJ~ V1SIVClS, : sua força mais vul· ~
centros de indústrias pesadas não eram enormes. A cidade de ClYde~
bank, que abrigava os maiores estal eiros, indústrias q uimicas, destila_
rias e a fáb rica da indústri a de máq uinas de costura Singer, contava
nerável ali do que em metropo les maIOres e mais complexas".
E
.::s
Q.
com 22 mil habita ntes , em 190 1; Barrow-in-Furness , uma cidade espe­ A organização do trabalhismo ~
c ia lmente constr uída para a fabricação de motores e navios, tinha 58
mil. E nfim , esta mos fal a ndo de comunidades ao pé da letra: de Ge­ Mas qual era a situação do trabalhismo nas gra ndes metrópo l:s? Jl
meinschaft mais do que Gesellschaft; de lugares onde as pessoas po­ Pois. como se ~abe, justamen..te nelas est ava~ ausentes as con dIço~s ~
o
d iam ir a pé para o trabalho e às vezes até se alimentar em casa; de favoreciam sua orgamzaçao . As populaçoes eram grandes dem aIS
lugares onde estavam profu ndamente mesclad os o trabalho, o lar, o q~lca tomar virtualmente inevitável (para citar Gutman, de novo) aquele
lazer, as relações indus triais, o governo local e a consciência de ci­ ~~ntalo estreito ~om a grande fáb rica, a em presa e os trab alhad ores
dade natal. que não tinham propri~~ades ~, eram ?ss~lariados ~~r tarefas: ', o qu.e
Foi exatamente nesse tipo de lo calidade que os movimentos tra­ ditícultava ou i-mpOSSlblll ta va a avalJaçao da mobilIdade SOCial na CI­
balhistas implantaram suas cidadelas. Em 1906, ano em que houve o dade industrial a part ir da experiência pessoal ". Mais q ue isso, chega­
pri meiro grande rompimento das barreiras parlamentares, quando, dos va a cUficultar a tarefa básica de organizar e mo bilizar a classe traba­
trinta membros eleitos pelo Comitê de Representação do Trabalhismo fhadora. Pois a cidade gigan tesca apresentava d imensões físicas enor­
Britânico, cinco provinham de cidades com mais de meio milhão de mes e sem precedentes, e continu ava a se expandir. Na década de 1860,
habitantes , quatro eram de cidades com duzentos a quinhentos mil, Paris incorporou um cinturão suburbano, o mesmo acontecendo com
e o restante, de localidades menores, inclusive distritos cujas princi­ Berlim . Em 1892, Viena tin ha triplicado sua área e, em 1902, já sofre­
pais comunidades tinham entre vinte e vinte e cinco mil ou mesmo de ra um aumento de mais 20070. Nova York triplicara-se na década de
dez a quinze mil pess oas. Ou, para tomar outro índice da consciência 1890. Não se pode exagerar muit o na leitura desses números que se tra­
proletária, localidades cujos times de futebol figuravam na primeira d uzíam em centenas de qu ilômetros quadrados, pois tal área poderia
divisão da Liga Britânica, no início da década de 1890 - época em conter muito terreno vazio, embora para todas as cidades do século
que as finais de campeonatos já eram assistidas por 65 mil espectado­ XIX admita -se que houvesse, muito mais do que antes, espaços não
res (Manchester, 1893). Do total de dezesseis times da Inglaterra, onze ocupados com a construção de casas : para ruas e praças mais largas,
eram de cidades que tinham de sessent a a duzentos mil habitantes, ou­ amplos cinturões para tra nsporte, espaços abertos , parques assim co ­
tros dois vinham de cidades com duze ntos a trezentos mil (Notting­ rno para edifícios pú blicos e construções co merciais e industriais . A
ham e Sheffield), e a penas três advinham de grandes cidades (Man­ Pari!> de Haussmann abrigava trezentos habitantes por hect are, com­
hester , Liverpool e Birmi ngham) . Revelando bem o caráter da época, parados aos quinhe ntos a setecen tos no século XVIl l . e aos novecen­
esses três tim es receberam não o no me da cidade de onde eram, mas t~s da Gênova pré-industrial. As cidades de Nova York e Londres do
de bairros ou burgos dentro dela (Aston , Everton e Newton Heath) . !'eculo XX eram até maLS esparsa mente espal hadas (com exceção de
Nesse tempo , Londres a inda não ti nha grandes times de futebol. manchas isoladas). Portanto à med ida que o sécul o avançava a área
d 'd ' ,
Esse fenômeno não era apenas britânico. As primeiras municipa­ da CI ade leria aumentado de qu alquer maneira, para um determ ina -
lid ades conquist adas pelo P artido Tra balhista na França , nas décadas o volume popu lacional. .
de 1880 e 1890, não tinham grandes dimensões, seja pelos padrões eu­ _Contudo, mesmo que não se tome a área oficial das cidades como
ropeus, sej a pelos fran ceses. Eram localidades como Commentry, Mont­ ~amelro, a verdadeira área ocupada de Londres no iníci o do séçulo
luçon , Roann e , Roubaix, Ca lajs e Narbonne. As primeiras cidadelas alcançava quase ~5 km de leste a oeste, e a mesma Jistâ ncia de
do SPD alemão, na década de 1870, instalaram-se em zonas rurais in­ ~orte. a sul. Chicago se alongava por cerca de 42 km à beira do lago.
dustri alizadas do cen1ro da Alema nha , onde nunca apareceu mais de e~a~e a construção dos sistemas de transport es urbanos rápidos (que
Uma cidade que hoje se pudesse cons idera r de tamanho médio (Chem­ ma ondres c Nova Yor k começou no terceiro quartel do séc ul o XIX.
nitz, hoj e Karl Marx Stadt). P ode-se supor qu e tal si tuação devia-se s em Outros locais, so mente no fi nal do século, como , por exemplo,

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o melro de ParIs. de 1898). as pessoas tinham que caminhar para tra­ Ás vezes, esses compo nentes mantiveram um a existência instituc ion al
balhar. De acordo co m os registros de s indicatos de tra bal hadores, separada, cada vez mais irreal, ao passo que risicamente formavam uma
esperava-se que eles call1inhassem a uma velocidade de 5 km po r hora. única cidade: Hamburgo e Altona , Manchester e Salfo rd, Berlim c di­
Mas, se os operários tra balhassem a uma distância maior que 6,5 km versos de seus componentes comportaram-se desse modo . Foi mais co­
a partir de suas casas, q ueriam receber uma aj uda de custo, a fim de mum a grande ci dade abso rve r seus sub úr bios e imediações à medida
pagarem alojamento para o pernoite. De fato , 6,5 km parece ler sid o que ~e expandia, com o N ova Yor k a bso rveu o Broo klyn . Porém tais
o limite do q ue poderia ser chamado de "coesão urbana espontânea" . fu sões não constituiram desenvolvimentos espom àneos e automáticos,
Em 1834, os a lfaiates londrinos definiram seu "Distrito de Londres" mas atos políticos. Elas determin ara m se os protestos sociais numa de­
utilizando um raio de 6, 5 km, a par tir de C haring Cross; e, em 1893, rerminada área ocupad a seTiam vistos co mo movimentos dentro de uma
os pedrei ros de Newcastlc e Gateshead fizera m o mesmo , com um raio cidade ou não. Os mov imentos trabalhistas nas megalópoles eram (e
de 7.5 km , a pa rtir da Cent ra l Statio n. são) funções não apenas da geogra fia e de desenvolvi mentos econô mi­
Por certo, essa área era muito grande pa ra visitas nos ba irros ­ cos, mas de politica. Assim, em 1860, Paris deteve sua expansão admi­
em 1860. uma Associação de Am igos de Lon dres considero u que o li­ nistrativa de tal forma que ainda permanece confinad a aos vin te ar­
mite para isso seria de 5 km. Mas não seria gran de demais para gra n­ rondissemen ts estabelecid os nessa época. O cham ado "cinturão ver­
des mobili n ções se a cidade fosse bastante com pacta, embora mes mo melho" que circunda a cidade nunca fez parte dela , mas permaneceu
na Londres da década de 1840 - uma Londres carti sta e rad ical ­ como uma coleção de municipalidades separa das - lvry , Aubcrvilliers,
deva ter sido am pliada, como fo i, dentro dos próprios limi tes da loco­ Villejuif, Saint-Denis e o restante. Por outro lado , Viena a bsorveu, entre
moção a pé, para cerca d e 11 km de leste a oeste e 7,5 km de norte 1892 e 1905, os subú rbios que a circundavam. P or isso foi possível a
a sul , além do que, os principais locais para as concent rações de massa "Vie na vermelha", ao passo que a " Paris vermelha" mostro u-se im­
endiam a ser as orlas da ci dade, onde se podia m encontrar amplos es­ possível, pelo menos no período dos movimentos socialistas e comu­
paços abert os (Spa F ields, Stepney Green, Kennington Common) . T al nistas. As fronteiras administrativas nas cidades, assim com o o s li mi·
distância não seria gran de dem ais pa ra uma fácil mobilização na era tes nacionais nos Es tados, determi nam os alvos da mobilização
do lrânsit0 de massa; no entanto, naquela época, a área u rbana já ha­ tra balhista .
vi a crescido enormemente. Em geral, a maioria das cidades gigant escas cresceu à volta de nú­
Por mais im portantes que sejam , meros números e áreas não são cleos ur banos relativamente antigos, embora mais de um terço das maio­
os únicos fatores a a feta r os destin os do t ra balhismo numa cid ade gi­ res ci dades do mundo, que em 1910 tinham mais de cem mil habitan­
gantesca. Só seri am os (micos se pudéssemos encarar as megaló poles tes. não existi ssem (nem mesmo como vilas) em meados do sécul o
simplesmente como um a " conurbação", um a zon a de ocupação con­ XVIII . F ora m quase sempre assent amentos com instituições e tradi­
tínua, de grande tama nho e muito populosa, estruturada de out ro mo­ ções urba nas estabelecidas e, às vezes (enquanto capitais), co m insti­
do. No entanto, tal con urbação , que surgiriria da agregação gradual tuições nacionais, o que facilit ava a mobilização polít ica de seus ha bi­
e fusão fin al de com unidades, cid ades e s ubúrbios que se expandiam, tames. Com algumas exceções (a exemplo de Berlim e São Pelersbur­
pode ser um mero mosaico de á rea~ urbanas, sem nenhu ma das carac­ go), foram centros administrativos, políticos e de atividades comerciais
terísticas institucionais e políticas das cidades. Uma conurbação assim e de t ransportes, mais do que de indústrias . Entretanto, a tendência
deu-se no Sudeste do Lancashire e no T yneside, em bora am bos pos­ geral da urbanização do sécu lo xrx aumento u a proporção de ativida­
suíssem cidades centrais c dominantes. Mas nenhum dos dois pode ser des sec undárias dentro delas, em relação à') atividades terciárias ou de
visto simplesmente como uma expansão de Manchester ou de New serviços, de forma que, mesmo sem uma es pecifica pro pensão para a
ca~lIe . Nesse sentido, hoj e, o triân gul o de trés Estados, com Nova York indústria, no início do século XX , tais cidades a brigavam cerca de 50
no ápice, não é visto por seus habitantes como um todo. Ninguém pensa a 601170 de operários - p ro vavel mente uma proporção nu nca lão alta,
em Newa rk (Nova Jersey) como pane de Nova York, embora ali este­ nem a ntes nem de pois. A cidade gigantesca foi, cntre outras coisas,
ja ~i tu ado um dos aeroportos da metrópole. uma gigantesca concen tração de operári os.
Tais zonas precisam ser diferenciadas das verdadeiras cidades gi­
gantescas. Estas envolveram a fusão de cidades vizinhas ou de ci dades ~l T udo isso fornece u aos movi mentos tra balhistas wn certo poten­
cial de coesão . Mes mo den tro de Lo ndres , que não possuía nenhuma
em expansão com aq ueles "subúrbios " , que, desde o sécu lo XVln, idemidade instirucionaJ a té 1888, à pa rte de sua "milha quadrada" me­
começaram a ser vistos fonn ando um todo urbano com suas cidades. dieval , as pessoas conseguiam se enxergar como londrinos ou cockneys,
I~
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e era m vistas co mo tais, porque a cidad e gigantesca dos sécul os XVn J dianos devem ter achado tal afirmação bem plausível. A final de con­
e XIX constjwía a extensão linear da cidade med iev al, e porque ela tas, os cidadãos das megaJópoles não passavam a maior parte do tem­
era a capital do reino e do império. Os sindicatos trabalhistas concebe­ po na cidade como um todo, mas em algum a par te dela - on de pode­
ram Lond res inteira como um único distrito , mas não fi zeram o mes­ ria haver uma verdadeira comunidade. Mesmo em 1960, algumas á reas
mo, digamos, co m o Tyneside, que não era maior do que a metrópole de Lo ndres não ofereciam trabalho para cerca de 500/0 da popu lação
e ti nha uma eco nomia muito mais homogênea. que morava dentro de seus lim ites, e a maioria abrigava por vol ta de
Não quero insistir no fato de que algumas cidades gigantescas tam­ 20 a 30% de uma população que estava lá durante a noite , e que de
bém eram capitais , o que tornou os governos um pouco mais sensíveis dia, se deslocava para outra área, a fim de trabalhar.
às demonstrações trabalhistas, feitas debaixo de seus narizes , do que Aq ui, podemos falar de dois exemplos londrinos do potencial co­
seriam se a situação fos se o utra. No entanto, saber se isso fortal eceu mun itário de tais cidades-internas. O primeiro refere-se aos teatros, ou
o u en fraqueceu tais movimentos metropolitanos a inda é uma questão melhor, aos vaudevilles e aos musie halts. Embora tenha havido um
aberta. É claro q ue, em casos extremos, o protesto social na capital inquestio nável desenvolvimento de uma área de sho w business no West
poderia provocar revoluções, e o protesto social que não conscguisse End e em Holborn que, em 1900, contavam com onze teatros, cuja ca­
atingi-la não provocaria. Mas o problema dos movimentos trabalhis­ pacidade total era de 15 mil assentos, pode-se constatar que o entrete­
tas nas cidades gigantescas não pode ser confinado - na melhor das nim ento mais regular encontrava-se nos 33 teatros de bairro, com ca­
hipóteses - a suas raras oportunidades de insurreição bem-sucedida. pacidade total de 37 mil assentos. Estes teatros distribuíam-se por 24
De qualquer modo, nas nações mais desenvolvidas, o papel das capi­ clistritros, oito ao sul do Tâmisa, seis a no roeste e oito no leste. É ób­
tais na política nacional, com insurreição ou paz, tendeu a diminuir vio q ue, enquanto os habitantes de Hackney podiam pensar ocasional­
bem substancialmente desde a clássica era da revolução européia oci­ mente em ir ao Hipódromo ou ao Alham bra, no West End , não da­
dental (i.e., 1789-1848) . ri am preferência ao Duchess, em Balham, ou ao Shepherd' s Bush Em­
pire, em vez de ir a uma apresentação em Middlesbrough . O segundo
exemplo, como já ficou sugerido antes, refere-se ao futebol. Não exis­
Um alDbiente inóspito te e nunca existiu, acho, um time de futebol com o nome de Londres .
Todos os famosos times da capital levam o nome de bairros , com ex­
Ass im, enquanto o trabalhismo obtinha algumas vantagens poten­ ceção do Arsenal, que era um time de fábrica em Woolwich e mudou
ciais na megalópole, a cidade gigantesca era tão vasta e desarticulada para o norte de Londres, saindo de seu local de origem. Pertenciam
q ue, de resto, deve ter sido um ambient e inóspito para os movimentos ao Queens Park, às colinas ao redor do Crystal P alace, a Charlton,
trabalhistas. Exceto nas cidades portuárias (que tenderam a alcançar Leyton e Tottenham, ou a West Ham - outro time que começou co­
grandes proporções no século XIX), as gigantescas eram industrialmente mo agremiação fabril.
muito heterogêneas para ter uma unidade baseada no trabalho , como Essa maneira de definir comunidades é bastante relevante para os
as vilas mineiras e as ci dades-estaleiros ou usineiras o tinham. Mesmo movimentos trabalhistas. Na década de 1870, das 23 ramificações me­
as indústrias isoladas, dentro dela, muitas vezes eram desintegradas de­ tropolitanas do Amalgamated Carpenters and Joiners, dezoito tinham
mais: os lados sul e no rte do porto de Lo ndres tinham sindicatos dife­ o mesmo nome de sua localidade, da mesma forma que cada musie
rentes, enq uanto o terminal meridional das docas de Liverpoo l estava 17all ou time de futebol (ou ambos). E, se tomamos uma área como
organizado, numa época em que o restante do porto estava sem si ndi­ Woolwich, vemos que era, por consenso, uma cidade dentro de outra,
catos. Quase todos em "Londres de Kentish" - a área sudeste da me­ uma com unidade de finida, cuja classe trabalhadora estava instalada
trópole - trabalhavam sistematicamente em horários diferentes e re­ no grande Arsenal, gerando o clube de futebol e a Royal Arsenal Co­
cebiam menos, nos pagamentos por tarefas, do que as pessoas que es­ opera tive Society, a qual acabou colonizando outras partes de Lo n­
tavam em locais próximos. Exemplos como esses poderiam continuar dres. (Outra importante sociedade cooperativa metropol itana , a Lon­
in definidamente . don , originalmente instalou-se nas oficinas da estrada de ferro de Strat­
A cidade grande era ampla demais para formar uma verdadeira ford.) E se tomamos West Ham, cujo T hames lronworks gerou o fa­
comunidade. No Pigmalião de Shaw, o professor Higgins afirmava que moso tim e H ammers, vemos que seu caráter de comunidade proletária
pOdia dizer de q ue parte de Lo ndres era uma pessoa , só por sua manei­ separada era tão marcante que foi o primeiro distrito da Grande Lon­
ra de falar, e mesmo que isso não fosse verdade, os londrin os eduar­ dres a eleger uma maioria trabalhista para seu Conselho e, em 1892,

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j á li nha eleito o socialista Keir Har dic para o Pa rlamento, por meio lhistas, ou du as vezes se u percentual na popul ação britânica. Além d o
de uma coalizão de irlan deses com a esq uerda loca l. mais, tais cidades conseguiam resistir de maneira notável a suas vizi­
Po r isso, seria tentador argumenta r que a verdadeira força do tra­ nha n ç~ políticas em f unção de sua própria singularid ade: a exemplo
balhismo nas megaló po!es repo usava inteiram ente naquelas vi las ur­ do que a Viena vermelha fez em rel ação à Á ust ria ru ral , do q ue a N o­
banas que, de fato, co nstituíram muitas das cidades gigantescas , e em va York d emocrata fez em relação ao ESl ado de Nova York há m uito
torn o das qua is Abercrom bie tento u estruturar seu plano de desenvol­ tempo rep ubli ca no, do q ue Berlim fez em relação aos am plos espaços
vi ment o lond rino, de 1944: localidades como Poplar o u Cler kenwel l. abertos do Nordeste da A leman ha e do q ue Lon d res fez em relaçã o
Por certo o famoso "cinturão vermelho" de P aris era inteiramente com­ à rnglate rra meridional. Na med ida em que o trabalhismo e a esquerd a
posto de tais comunida des, que poderiam ter um ta manho bem mo­ adquiriram hegemonia em tais gigantes solitários, pode-se a té argumen­
desto . Em 19 12, Bobigny tornou-se uma cidadela comu IÚsta, época em tar que, neles , se tornaram mais fund amentados e que atraíram apoio
q ue seus habitantes não passa vam de quatro mil, e tinha menos de vin­ político m uito maior do q ue conseguiram de outro modo , tornando -se
te mil durante o período em que se to rno u e permaneceu uma legendá­ uma espécie de símbolo da identidade metropolitana . Isso pode ter con­
r ia cidadela do P art ido Co munista . Qualquer historiador dos movimen­ tribuído para o fracass o dos conservadores britânicos, desde a década
tos traba lhistas das grandes cidades cruza com essas comunidades dentro de J 890 até a década de 1980, ao romperem a dominação politica da
das cidades: Floridsdorf em Viena , Sans em Barcelona, Weddi ng em esquerda dentro de Londres, pela criação de autoridades met ropolita­
Berlim , Sesto San Gio vanni em Milão, etc. - por vezes, mas não sem­ nas rivais o u pela construção e posterior destruição da Grande Lon­
pre, incrustadas à volta de algum grande complexo industrial pu fáb ri­ drc&. Também pode explicar, mesmo nas áreas milionárias de Manhat­
ca. E, por motivos óbvios, as grandes instalações tendiam a atrair e tan, por q ue em 1984 e 1986 os republicanos não conseg uiram uma real
a gerar uma força de tra balho, em sua maior parte , local. Por isso, maioria dos votos. Entretanto, ainda são necessárias mais pesquis as
logo após a Segunda Guerra Mundi al, uma grande fábrica (co m mais quanto a essas hipóteses especulativas.
de cinco mil trabalhadores), situada nos limites meridionais de P aris,
atraiu 50 070 de sua f orça de trabalho dos arrondissements e comunas
que ficavam em suas imediações (o 14 ? arrondissement, Malakoff e Transp ortes e habitação
M o nlrouge), apenas 7 a 8 % de seus t rabalhadores braçais e de escritó­
rio do norte do Sena, e praticamente nenhum trabalhador dos subúr­ U ma segunda questão a ser observada diz respeito ao fato de que
bi os setentrionais de Paris. Apesar da força de tais círculos de comuni­ as m~g alópoles desenvolveram certos tipos de problemas que, se não
dades proletárias, como o "cinturão vermelho", não devemos esque­ lhes forem absolutamente específicos, revelaram-se muito mais explo­
cer suas fraquezas. Embora tivessem garantido, durante gerações, a s ivos ali. O p rimeiro e mais óbvio foi (e ainda é) o transporte . As cida­
eleição de parlamentares comunistas e admiráveis municipalidades des gigantescas dependem do trân sito de massa. Talvez o j eito mais
" progressistas" que, ocasionalmente, fundaram teatros municipais nos seguro de provocar um problema político em tais cidades tenha sido
quais repousa a reputação do teatro p a risiense atual, seu significado (e seja) tripudiar co m ônibus, bo nde, metrô ou trens de subúrbio, a
poütico foi pequeno. exemp lo do que o Bras il revela a intervalos regulares. De fato, nesse
C ontudo, seria um erro pensar que as cid a des gigantescas consti­ país, o trânsito de massa foi um dos po ucos problemas capazes de in­
tuíam-se, no seu todo, de um agregado de vilas urbanas. Para algumas cita r tum ultos e revoltas urbanas, mesmo durante o regi me militar e
coisas, tais cida des tenctiam a ser desp ropo rcio nalmente proletárias , e, que, de tempos em tempos, produziu tumultos e greves gerais em cida ­
para outras , despro porcion almente vermelhas. No período pré- 19l 4 , des tão díspares qu anto Barcelona e Calcutá; auxiliado pelo auspicio­
as cidades alemãs com m a is de cem mil ha bitantes eram 60 % proletá­ so fato de q ue é muito mai s d ifícil des locar um bonde incendiado do
rias, comparadas a uma médi a urban a naci onal de 41 0/0 , e a sit uação que ve ículos automotores. Não foi por acaso q ue, na década de 80 ,
de Estocolmo , na Su écia, mostra va-se semelh a m e . As grandes cidades os serviços e as ta rifas dos transpo rtes urbanos fo ram aproveitados pelos
alemãs a b riga vam 18 % de t od os os eleito res e apenas 450/0 d os mem­ lideres de esquerda do Conselho da Gran de Londres como questões
bros dos sindica tos livres (socialistas). Berlim e Ham burgo , co m cerca importantes, utilizadas para en frentar o governo conservador. Por Outro
de 60% ca da, tinham o maior número de votos do país para o SPD . lado, o tra ns porte urbano tend e a ser uma cid adela do sindicalismo
Até Londres tornou-se e m anteve-se uma cid adela trabalhista, depois florque é predo minantemente controlado, administrado pelas autori­
de 1923 , quando elegeu 20% do total nacional de parlamenta res tra ba­ dades públ icas, o u mes mo pertence a elas, e p orque a sens ibilidade pú­

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blica em relação às interrupções funciona como uma alavanca consi­ cidades gigantescas, os verdadeiros movimentos sociais, de modo parti­
derável para os sindicatos . A RATP (o transporte municipal de Paris) cular I tendiam a pegar fogo nas cidades dentro das cidades, onde o salá­
constitui uma das cidadelas da CGT entre os manufatureiros daquela rio por tarefas, o aluguel, o sentimento comunitá rio e a organização de
cidade , enquanto os motoristas de ônibus de Londres, entre as guer­ classe equip aravam-se. Go van, um a área de construção naval anexada
ras, fo rmaram na capital um dos dois pilares da força e da militância a G lasgo w em 1912, era o centro do movimento de greve-por-locação
do Transport and General Wor kers U nion , que se tornou o maior sin­ de Glasgo w, como Wool wich o foi do movimento londrino. Ambas ti­
d icato d o país. nham tradições locais de política e cooperação trabalhista independente.
O segundo problema refere-se à locação de habitações, que é poli­ Os movimentos dos inquilinos osci lavam muito . Mas o aspecto da
ticamente radical em dois sentidos: porque o controle dos acordos de habitação na cidade grande, que provou ser permanentemente relevan­
locação e do inq uilinato constitui uma flagrante intervenção no li vre te para o trabalhismo , constituiu o potencial, para as construções da
mercado, e porque implica o desenvolvimento das construções de ca­ comuni dade, dos grandes projetos habitacionais, públicos ou privados .
sas pelo poder público numa escala substancial. A cidade gigantesca lSl>o aconteceu em virtude não apenas de seu tamanh o, mas também
destacou-se nesses dois sentidos . Durante a Primeira Guerra Mundial, (no caso da construção de casas pelo poder público) do invest imento
os movimentos dos inquilinos, que, por meio de greves, levaram à le­ político que representavam. De fato, qualquer complexo vasto poderia
gislação de controle da locação, desenvolveram-se na segunda cidade fo rnecer excelentes oportunidades para se organizarem movimentos tra­
da Grã-Bretanha : Glasgow. As outras agitações mais importantes na­ balhistas. Assim, em 1912-13, um distrito de Berlim, Neukbll n, tinha
quela época, quanto à locação, deram-se, com uma exceção, também uma população de cerca de 250 mil, um eleitorado composto por volta
em cidades de tamanho maior: Londres, Birmingham, Merseysidc, Bel­ de 65 mil homens adultos, dos quais 83070 votavam no SPD q ue, por
fast. Nova York, conclui-se, foi a única cidade norte-americana na q ual sua vez, era dirigido por quase mil funcionários, cada um responsável
os inquilinos conseguiram assumir o controle, em 1920. Quanto às ha­ por cerca de quatro blocos de apartamentos. Vê-se claramente que, sem
bitações públicas e municipais, talvez baste dizer que , das relativamente a existência de concentrações residenciais específicas de classe, tais triun­
poucas unidades construídas pelas municipalidades na Grã-Bretanha, fos de organização teriam sido mais difíceis, senão impossíveis.
antes de 1914, metade estava nas duas cidades gigantescas de Londres Ao mesmo tempo, projetos habitacionais especiais destinados a
e Glasgow, e que, quando as construções municipais tornaram-se ma­ trabalha dores - na prática, principalmente o tipo de trabalhador re­
ciças (1,3 milhão de unidades entre 1920 e 1940), as administrações das gula r, confiável no pagamento do aluguel- geraram automaticamen­
grandes cidades faziam o gerenciamento, e Londres as liderava. te as concentrações de ativistas. Charles Booth observa que a vila
Os motivos dessa situação não são muito complicados. Até que Shaftesbury, em Battersea (Londres), era o centro da atividade socia­
a municipalidade assumisse, na cidade gigante não existia - ao con­ lista naquele burgo operário, que foi o primeiro a eleger um parlamen­
trário dos assentamentos menores - nenhuma alternativa real quanto tar rrabalhista (John Burns) no Condado de Londres. Entre as guer­
às habitações para pessoas de baixa renda , dentro do mercado privado ras, uma ala ga rantida para o trabalhismo, no bairro de Paddington,
de locação. No século XIX, o mercado de locações funcionava bastan­ situava-se na vila Queens Park, construída em 1875 -8 1, pela Artisans
te bem em prédios de apartamentos, mas fornecia acomodações muito and Gen era l Dwellings Company para artesãos respeitá veis. (O tio do
ruins para os pobres, o que gerava constantes atritos e ten sões entre autor, que se tornaria o primeiro prefeito trabalhista de seu burgo, foi
proprietários e inquilinos. Para os trabalhadores das cidades gigantes­ seu conselheiro por vários anos .) Q uando, por fim, as municipalida­
cas, possuir uma casa não era uma opção realista, e, por outro lado, des trabalhistas ou de alguma outra forma progressistas construíram
habitações comunitárias ou quase-comunitárias, comuns em centros in­ seus próprios complexos de vilas ali aparta mentos , estes se tornaram ,
dustriais que se desenvolveram a partir de localidades rurais, não fo­ deliberadamente ou não, cid adelas trabalhi stas . A Viena vermelha é
ram - e não tinham que ser - significativas . O aluguel c o salário Um caso típico . A força do partido, inclusive sua força armada , re­
por tarefa constituíam, portanto, os dois parâmetros básicos na vida pousava na rede de grandes projetos pú blicos para habitações que ele
dos trabalhadores das cidades grandes . Quando eu era menino, meu Co nstruiu na década de 20, batizados em homenagem a Marx e Goe­
pri meiro contato com a consciência política da Viena vermelha foi ter lhe, Jaures e Washjngton. E , finalmente , as habi tações construídas pelo
aprendido com meus colegas de escola que os proprietários apoiavam poder p úblico tendiam a unificar a política da municipalidade, que a
o P artido Social Cristão e os inquilinos eram socialdemocratas . É cla­ organizava pela criação de um bloco de eleito res cuj as escolh âs eram,
ro que, enq uanto isso constituía uma experiência genérica em todas as em grande par te, determinadas por seu status de inq uil ino do poder

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público. Isso . mais os empregos municipais em geral se transtonna­
riam no maior cabedal de clientelismo das má quinas políticas traba­ 110 Reino Un ido , os governos reaciOnários) travavam batalhas contra
lhistas das cidades . a dominação política, por part e dos pobres, da região central da cidade
En tretanto , neste ponto é preciso observar um a grande mudança e contra os impostos locais mais altos. Quarto , pa rece que a região cen­
na natureza dos ocupantes das habitações construídas pelo po der pú­ tral vem sendo , de forma crescente, dornjnada por uma pop ulação es­
blico. Com a suburbanização, o êxo do da indú stria e dos trabalhado­ pecífica que hoje associamos a ela: uma miscel ânea de pobres, os sem­
res e a crise da região central das cidades, os projetos de construções especiaJização, os socialmen te marginais e pro blemáticos, as minorias
públicas em tais áreas seriam transformados, passando de assentamen­ étnicas e o ut ras de qualquer tipo . Isso não acontece porque todos os
tos onde viviam os trabal hadores habilitados e com emprego regular, anLigos tipos de trabalhadores desapareceram, mas porq ue agora os ou­
para locais onde moravam as pessoas econom icamente ca ren tes. E , co­ I" ITOS dominam a imagem que tem os da região central das cidades. Tais
mo conseqüênci a, modificaram-se os caracteres social e político de tais populações novas, típicas das zonas centrais, não são apenas aquelas
construções e assentamentos. deixadas para trás, mas às vezes cons istem naquelas atraidas para a ci­
dade gjgantesca justamente porque ela Contém e sempre conteve, como
I1I foi revelado SOciologicamente, espaços a bertos destinados aos social­
A mudança na aparência da megalópole mente indeterminados. Sempre foram , por excelência, locais de indivi­
duos em trânsito, visitan tes , t uristas e residentes temporários e, de cer­
Essa situação nos leva às transformações fundamentais que afeta­ ta for ma , foram deSignadas corno terra-de-ninguém, ou melhor, como
ram a cid ade gigantesca nas últimas duas ou três gerações, em especial terra-de-qualquer_um. Sua "anomia " e seu a nonimato não são mitos.
no Oc idente. P rimeiro, ela foi sendo descentralizada pela migração, Fi nalmente, enq uanto su a estru tura e população estavam mudan­
rumando para os subúrbios e comunidades-satélites. Segundo, foi sen­ do dessa forma , o desenvolvimento ur bano , púbLico e privado, estava
do desindustrializada, não apenas pelo declínio geral das ocupações se­ destruindo as próprias bases que haviam permitido a formação das " vi­
cundárias, mas pela emigração específica de classe da antiga indústria las urbanas ", sobre as quais repousara boa parte da força do traba­
manufatureira situada na cidade e da força de trabalho mais especiali­ lhism o . Essa situação era notável na década de 60, a déca da mais de­
zada. M uitas vezes tal fato resultou da política da cid ade progressista, sastrosa na longa e ilUstre história da vida urbana neste globo. A cena
a exemplo de quando o Conselho do Condado de Londres , entre as :1 urbana , naq uelas que cost um avam ser as áreas da classe trabalhadora,
guerras, transferiu cem mil trabalh adores para uma nova vila semi-rural hoje muitas vezes most ra um dos arranha-céus descaracterizados cir­
em Becontree, onde eles se tornaram a força do trabalho para as fábri­ cundado por espaços vazios, e as estruturas de rultigos armazéns e fá­

cas da Ford Motor Company, que se estabeleceram em Dagenham por bricas estão esperando para serem transformadas em complexos de la­
esse moti vo. er ou superapartam entos de luxo . A simples desmoralização de gente

P odem-se apontar mais dois subprodutos desse movimento. P ara pobre, nesses desertos cheios de cicatrizes e de pichações, não é um

um crescent e número de trabalhadores ele rom peu os laços entre dia fato r para se negligenciar. Em oposição a isso ex iste o " enobrecimen­

e noite, o u entre os locais onde as pessoas moram e aqueles onde tra­ to", " em geral um fenô meno minoritário, exceto em Paris, onde a ci­

balham , com efeitos substanciais so bre o potencial da organização tra­ dade foi mantida na área que poss uía em 1860. O "eno brecim ento",

balhista, que sempre é mais fort e ond e a moradia e o local de t rabalho I de fato, transforma os trabalhadores numa população diurna, que se

ficam próximos. Tam bém pode acontecer de a mudança na economia I retira para seus recautos fora da cidade, como em Paris, onde os bis­
urbana da classe trabalhadora conduzir aqueles mercados trabalhistas trôs da esquina fecham de pois do expediente. É claro que pode haver
altamente segmentados a um col apso, sendo que , de modo paradoxal, '\ certa construção com unitária eutTe novas etnias emigrantes , mas pro­
vavelmente nâo será na a ntiga proporção. E pode haver populações
tal colapso torna mais fácil conquistar a solidariedade trabalhista . Desde
que diferentes grupos c estratos do trabalh ismo, especialmen te grupos I novas e potencialment.e radicais nas regiões centrais das cidades, a exem ­
étn icos, n a prática muit as vezes não competiam pelos mesmos empre­ plo de estudantes, mas não serão do tipo da amiga classe trabalbadora.
gos , mas preenchiam seus próprios nichos ou nicho, os ciú mes e rivali­ O efeito de tudo isso nos movimentos trabalhist as na cidade gran­
dades intrap roletários poderiam ser mais facilmente controlad os . de tem sido privá· los de sua antiga coesão - exceto para o que conti­
Terceiro, em geral a expan são administrati va da cidade gigantes­
C'd cessou ou tem sido barrada, enquanto ~ ubúrb ios p róspe ro~ (ou, como • No orig.inal. gentrifica/ion. processo pejo qua l as regiões centrais da cidade ~ão refor­
madas e vaJoril.adas, com a exp ulsão do,s moradores mais po bres .

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nua a ser prov ido pelo foco, pela estrutura c pelo c1icn telismo da polí­
"traba lh adores po bres", sig ni ficam qu e suas ações são d irigidas mui­
tica urbana . Se a cidade, em si, é extinta em termos de política ou não
ro mais pa ra dentro e para os lad os, d o q ue para cima. Os tumultos
existe (como em Londres) , nada resta exceto a argamassa da política
e explosões típicos de hoje não são po líticos em q ualquer sentido rea­
nacional, desde q ue a área urbana retenha su ficiente coesão social. Em
lista, nem tão desfoca lizados - muitas vezes são apenas d irigidos de
suma, os mo vimentos trabalhistas na cidade grande estão vivendo do
modo cla ro co ntra algum outro contingente racial , territorial o u de es­
ca pital acumu lado no passado . Eles sã o trabalhistas, so cialistas, co­
tilo - co mo se lhes fa ltass e objetivo e propósito. Não têm rei vindica­
munistas o u até (como nos Estados U nidos) democrata s, porque essa
ções q ue possam ser satisfe itas. E não têm organização estrutu rad a o u,
era a base da mobilização dos homens pobres no passad o, e os parti­
de fal O, fund amentad a no sentido dos antigos mov imentos trabalhis­
dos em questão ainda são identi ficados pelos pobres como "os parti­
las. A po lítica de gueto não é política da classe trabalhadora.
dos para nós" . Porém , se essas cidades cresceram tendo por base po­
Tudo isso constitui uma séria desvantagem para os moviment os
pu lações novas - tal vez como em M iami ou Los A ngeles - esses mo­
tra ba lhistas . Pois, na cidade grande, o "tra balhismo" nunca foi tão
vimentos necessariamente não teri a m afini dade pelos partidos que, an­
coeso, nos bons tempos, quanto nas comunidades industriais meno­
tes, eram automaticamente identi fi cados com a mobilização política
res, mes mo quando estas não passavam de assentamentos à volta de
em tais ambientes.
uma ind ústria isolada . Tratava-se sempre de um estrato variado e he­
O que os movimentos trabalhistas estão perdendo , ou já perde­
terogên eo, que se mantinha unido por um estilo comum de vida de tra­
ram, é muito daquela identificação de classe do povo trabalhador, que
balho - a vida do trabalho manual - e por uma consciência de classe
costumava lhes dar fo rça e um sentido de poder coletivo. Se a conur­
comu m, de relativa pobreza e baixo status. Foi isso que permitiu que
bação total formasse a unidade da política urbana, os trabalhadores
os part idos trabalhistas se tornassem o receptáculo simultâneo de inte­
ou os pobres não poderiam mais nem mesmo ter o sentido de serem,
resses de classe e de outras minorias. Tais partidos, como o Partido
de alguma fonna, a norma ou a maioria dos habitantes da cidade. En­
Dem ocrata nos Estados Unidos, foram alianças de interesses minori­
tretanto, dentro da na zo na central da cidade muitas vezes ainda têm .
tários, mas não eram apenas essas alianças, uma vez que o conceito
P o is, paradoxal mente, a desintegração da megalópole tendeu a deixar
de " cl asse trabalhadora" fornecia um denominador comum para gru­
a zona central como um centro natural de descontentes concentrados .
pos de alguma maneira diferentes ou mesmo divergentes. Isso aconte­
Mas quais descontentes? De que tipo? Num certo sentid o, a popula­
cia dessa forma mesmo quando os movimentos trabalhistas não salien­
ção trabalhadora da cidade grande está retornando do status e da cons­
lavam seu apelo especial a minorias tais como, digamos, os irlandeses
ciência de um " proletariado" para aquela miscelânea dos "trabalha­
ou j udeus. Em Glasgow, os protestantes e católicos, cujas rivalidades
do res pob res " pré-industri ais, o u apenas " pobres"; ou, o que é pior,
se ev idencia m nos campos de futebol, conseguiam unir-se num campo
dos tr abalhadores ou "gente comum " para "su bclasse" . E na ma,ioria único para fi nali dades ligadas à po lítica urbana.
das cidades gigantescas da Europa esses "trabalhadores pobres" es­
tão, pelo men os em termos étnicos , muito mais desunidos e fragmen­
tados illternamente do que antes, sem terem conseguido, com o nos Es­ Divisões dentro da cidade grande
tados Uni dos, cidades para se adaptarem àquel e mosaico nacional , li n­
güístico c raci al q ue agora é comum em qua lq uer lugar.
Contudo, hoje, os pobres tra balhadores o u não-traba lhado res da
O tipo de ação caract erístico desses novos "po bres" o u "traba­
cidade grande estão divididos: etnicamente, pelo SlalUS soci oeconômi­
lh adores pobres " não é mais a greve, a demonstração gigantesca ou
co, entre aqu eles que tra balham e aq ueles que vivem de apo nsentado­
as co ncentrações, porém, mais uma vez, como no p assado, a violên­
ria, ent re os residentes e os que precisam se deslocar muito para traba­
cia. De novo, a cidade grande to rnou -se tumultuada, para não di l er
lhar, I:ntre proletários e lumpens ou marginais e, não menos, entre gru­
perigosa , de uma maneira que já não er a mais, desde meados do sécu­
pos etários que não se co m preendem e se hostilizam. Os idosos a fastam­
lo Xl X. Contu do , em o utro sentido , não valem mais as suposições po­
se dos j ovens, aos q uais temem. Um a pop ulação assim é (ou pode pa­
líticas que emprestaram reali dade à " eco nomia mo rar ' de E dwa rd
recer) ápenas um conjunto de minorias ou um agregado de pessoas sem
T ho mpson e efi cácia pOl rtica à " mu ltidão " de Geor e Rudé. E tam­
qualq uer denom inado r comum político efetivo. O risco dessa situação
bem nao va em mais as antigas estr uturas SOCiaiS emana as do povo
é a política tra balhista na grande cidade adap ta r-s e pa ra funciona r so­
para mobili zar essa gente. As divisões dentro de uma popul ação hete­
mente Como LI ma coalizão de minorias o u grupoS estranhos . Isto é bem
rogênea c muitas veZes socialmente desorganizada , composta por n0VOS visível na Lond res da década de 80.

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Existem dois problemas qua nto a essa estrategia . O prim eiro é que. Obviamente tal estratégia é possível. Na verd ad e. é essencial que
somando apenas mi norias, especialmenlc de grupos estra nh os (rebati­ O ~ l1lov im e nt o ~ trabalhista s a adotem , se quiserem escapar do erro
fa­
zados, para pro pósitos p ublicitá rios, de "novos movimentos sociais"), (;1 1 Je ~c tran sformarem em grupos de pressão setorial em ddesa de
não se produzem mai oria s. em temlOS políticos . Mesm o o P artido Li­ in leresses especiais que não coincida m - c mu it as vezes se defronte m
berai brità ni co na décad a de 1890. quando venceu justamente por mo­ _ co m os interesses do restante dos cidadãos , incl usive do restante da
bilizar as nacio nalidades menores e as minorias religioso-ideo lógicas, d asse trabal hadora urbana. Além disso. nas circunstâ ncias atuais . pe­
não esperaria vo ltar aos t riun fos de 1906 se não tivesse se a poiado n u­ In menos na G rã-Bretanha, a defesa dos interesses e da a ut onomia da
ma am pla base, como um "partido do povo" aceito pela maioria . AJém cidade contra um governo que procura destruí-los se adapta ate mes­
d i.sso , a estratégia das minorias tende m uito mai.s a alienar do que mo ­ rno aos interesses de curto prazo da esq uerda . Apenas uma coisa está
bilizar , Suas vit órias p odem ser ilu sórias . Na m aioria das cid ades gran­ errada com tal perspectiva de " política popular urbana " . Ela pode ser
des norte-americanas, hoje os negros elegem prefeitos, mas conseguem aplicada pelos movimentos tra balhistas, mas não é específica pa ra eles,
OUI ros conseg uem praticá-la com a mesma eficiência e para propósi­
isso porque seus votos estão concent rados nessas localidades, e não por­
q ue eles tenham deixado de ser uma mi noria em termos nacionais ou tos menos desejáveis. Não precisamos procurar muito longe para achar
mesmo denLro das cidades gra ndes. E mais: apelar para uma m inoria exemp los de políticos , com bases urbanas, munidos de um agudo sen­
ou mesmo para uma " coalizão m ultico lo rida " de minorias leva ao ris­ so de realidade política e financeira, mas sem nenhuma preocupação
co de deixar o res LanLe suscetível aos apelos da cli reita dem agógica , que l'om j ustiça social.
se utiliza da antiga linguagem de comu nidade c moralidade, a base do
apelo trabalhista, porém com um vocabulário racista e policialesco , A fi­
nal ele contas. isso é qu e est á destruind o os antigos cinturões verme­
lho s das cida des gra ndes na França, e a maioria de nós sabe (embora
só alguns consigam ad mi tir) que as pr incipais perdas tra balhist as entre
os trab alh adores não se devera m ao apelo thatcherista para o egoísmo
próspero, mas a o apelo t hatcherista à família, "à lei e à ordem".
Parece claro que o velho a pelo de cl asse, q ue representava a fo rça
do tra balh ismo , nã o funciona m ais em cidades grandes profundamen ­
te divididas . Agora que de certa forma estam os reLrocedendo para uma
versão ela po lítica de "m ultidão urbana " , dos tempos pré-indust riais
das "leis o rd inárias " e do " trabalhador po bre" , não seria lógico re­
trOceder também à política populista daquela época? Ainda existe cam­
po para uma ideologia e um princípio m obilizador , baseados naquil o
q ue todo s os habit antes de uma cidade têm em comum : pelo menos
o orgul ho em relação à cidade e em relação a sua superioridade - que
pode ser um sentimer to muito forte nas grandes cidad es - e à preoc u­
pação com seus problemas sem dúvida com um a especial ponta de in­
teresse por seus po bres e explorados? Isso está completa mente dentro
da série de movimentos trabalhistas fortes e apropriada mente embasa­
dos , Na década de 70 , po r exemplo , ta is im pl a usíveis centros de cons­
ciência e o rga nização proletários, como Roma c Nápoles, viram-se ad­
ministrados por prefeitos comunistas, Pela pri meira vez, na G rã­
Bretanha , o orgulho londrino constitui u um forte elemento na política
trabalhista metrop olitana , durante os anos de luta con tra a dissolução
do Conselho da G ra nde Lo ndres . Considerando-se a fo rça potencial
do tra balhism o no que resta das megaló poles ocidentais. e dada a tra­
dição de lidera nça m un icipal, por parte dos partidos de esq uerda em
tais cidéldc~, por qu e não?
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