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7. A Produção em Massa de
Tradições: Europa, 1870 a 1914.
ERre HOBSBAWM

1.
Uma vez cientes de como é comum o fenômeno da invenção das
tradições. descobriremos com facilidade que elas surgiram com fre­
qüência excepcional no período de 30 a 40 anos antes da I Guerra
M undial. Não se pode dizer com certeza que nesse período inventa­
ram-se tradições "com maior freqüência." do que em qualquer outro,
uma vez que não há como estabelecer comparações quantitativas rea­
listas . Entretanto, em muitos países, e por vários motivos, praticou-se
entusiasticamente a invenção de tradições, uma produção em massa
que é o assunto deste capítulo .
Foi realizada oficialmente e não-oficialmente, sendo as invenções
oficiais - que podem ser chamadas de "políticas" - surgidas acima de
tudo em estados ou movimentos sociais e políticos organizados, ou
criadas por eles; e as não-oficiais - que podem ser denominadas "so­
ciais" - principalmente geradas por grupos sociais sem organização
formal . .ou por aqueles cujos obj etivos nào eram específica ou cons­
cientemente políticos, como os clubes e grêmios, tivessem eles ou não
também funções políticas. Esta distinção é mais uma questão de con­
veniência do que de princípio. Pretende chamar a atenção para duas
formas principais da criação de tradições no século XIX, ambas refle­
xos das profundas e rápidas transformações sociais do período. Gru­
pos sociais, ambientes e contextos sociais inteiramente novos, ou ve­
lhos, mas incrivelmente transformados. exigiam novos instrumentos
q ue assegurassem ou expressassem identidade e coesão social, e que es­
tr uturassem relações sociais. Ao mesmo tempo, uma sociedade em
tra nsformação tornava as formas tradicionais de governo através de
estados e hierarquias sociai~ e políticas mais difíceis ou até impraticá­
veis. Eram necessários novos métodos de governo ou de estabeleci­
mento de alianças. De acordo com a ordem natural das coisas, a con­
seqüente invenção das tradições "políticas" foi mais consciente e deli­
berada, pois foi adotada por instituições que tinham objetivos políti- '
cos em mente. Podemos, no entanto, perceber imediatamente que a in­
venção consciente teve êxito principalmente segundo a proporção do
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su cesso alcança do pela sua transmissã o numa freqüê ncia que o públi­ lo XIX era , basica men te, uma polít ica d e dj mensões nacionais . E m su­
co pudesse sin ton izar d e imedi ato . Os novos feriad os, cerimônias, he­ ma, para fin s práticos, a sociedad e (" socieda de civil") e o Estado em
rói s c sím bolos ofi ciais pú blico s, que comand av am os exércitos cada que ela fun cion ava tornara m-se cad a vez mais inseparáveis.
vez m a iores do s empregados do es ta do e o crescen te p úb lico cativo Fo i. portanto, natural, que as classes exi stentes na sociedade, e es­
composto pel os colegiais, t alvez não m obilizassem os cidadãos vo lu n­ pecial mente a classe operári a, te ndessem a id enti fi car-se at ravés de
tá rios se não t ivessem uma genu ína reperc ussão popul a r. O I mpério mo vi mentos po lít icos ou orga nizações ("partidos" ) de âmbito nacio­
A lemão não fo i feliz ao tentar tr ansfo rmar o Imperador Guilh erme I nal ; igual mente natural, q ue estes agissem de fa cto basica mente de ntro
n um pai acei to pelo povo , fund a do r de um a Alem an ha unida , nem ao do país. ] N ão su rpreend e também q ue movim en tos q ue preten diam re­
fazer de seu a ni versá rio u m verdadei ro an iversá rio nacion al. (A liás, presentar uma sociedade inteira o u um "povo" inteiro encarassem sua
q uem é q ue se lembra de q ue tentaram chamá-lo "G uilherm e, o G ran­ ex istência fund amentalmente em termos de u m estado independente
de"'?) O apoio o fic ia l asseg urou a construção de 327 m o n umen tos a ou, pel o me nos. autônomo. Estado , nação e sociedade eram fa tores em
G uilherme a té 1902 , mas apenas um ano após a mo rte de Bismarck, convergência.
em 1898, 470 mu n icípios haviam reso lvido erigir "colunas a Bis­ Pela mesma razão, o Estado , visto de cim a , de acordo com a pers­
marck" .' Não obstan te, o Estado ligo u as invenções de tradição pect iva de seus governantes for mais ou gru pos dominan tes, deu ori­
fo rm ais e in fOímai s, o fi ciais o u nã o, políticas e sociais, pel o me nos nos gem a problemas inéditos de preservaç ão ou estabelecimento da obe­
pa lses onde ho u ve necessidade disso. Visto de baixo, o Estado definia diência, lealdade e coo peração de seus súdi tos e compo nentes, ou sua
cada vez mais um palco maior em que se representavam as ati vidades própria legitimidade aos olhos destes súditos e componentes . O pró­
fundamentais determinantes das vidas dos súditos e cidadão s. Aliás, prio fato de que suas relações d iretas e cada vez m ais int rometidas e
assim como d efinia, ta m bém registrava a existência civil deles (é/a! ci­ freqüentes com os súditos e cidadão s com o individuos (ou no m áximo
vil). Talvez não tenha sido o único p alco desta natureza, mas sua exis­ como chefes de famílias) haviam-se to rnado cada vez mais essenciais
tência , limites e in tervenções cada vez mais freqüent es e perscrutado­ a o seu funcio namento, causou um enfraquecim ento dos velhos meca­
ras na vida do cidadão foram, em última análise, decisivas. Nos países nismos a través d os quais se mantivera com êxito a subordinaçã o so­
d esenvolvidos, a "economia nacion al" , sua área definida pej o territó­ cial: co letividades ou corporações relativ amente autônomas sob o con ­
rio de estado o u de suas subdivisões, era a unidade básica do desenvol­ trole do governante, mas que contro lavam seus respectivos mem b ros,
vi mento econôm ico . Qu alquer alte raçã o nas fron teiras do estado ou pirâmides de autoridade cujos ápices lig avam-se a autoridades m ais a l­
em sua política aca rret ava consideráveis e d uradouras conseqüências tas, hierarquias sociais estrati.ficadas em que cada camada aceitava seu
materia is para o s ci d a dãos do país. A padron ização da admi nistração lugar, e dai por diante. Em todo caso, transformações sociais com o as
e d as leis nel a contid as e, especificamente, da educação oficial, trans­ que substituíram os estamentos (ran ks) por classes, desgastaram-na s.
formo u as pessoa s em cidadãos de um país determinad o: " camponeses Os problemas dos estados e dos governantes eram sem dú vida m ui to
e franceses", seg un d o o título de um livro oport u no. 2 O Estado era o mais g raves onde os súditos se haviam tornado cidadãos, ou sej a, pes­
contexto da .. ações coleti vas d os cidadãos, na medida em q ue estas fos­ soas cujas ativi dades políticas eram in sti tucionalm en te reco nhecidas
sem oficial men te reco nheci das . O prin ci pa l objetivo da política nacio­ como algo q ue devia ser considerado - mesmo que f osse apen as sob a
nal e ra , sem d úvi da , in Ouenciar ou mudar o governo do Estado ou forma de eleições. Agravaram-se ainda mais quando os movimentos
s uas diretrizes, sendo q ue o homem comum tinha cada vez mais direi­ po líticos de massas desafiaram deliberadamente a legitimidade dos sis­
tos d e participar dele. Na verdade, a política no novo sentido do sécu­ temas de governo político ou social, e/ ou ameaçaram revelar-se in­
compatíveis com a ordem do estado ao co locar as obrigações para
com a lguma outra coletividade humana - geralmente a classe, a igreja
l. G . L. M osse. "Caesarism, Circuses and M ovements", Journal of C onlempora r)' ou a nacionalidade - acima dele.
Hisl ory . vi, n. 2 (1971). pp. 167-82; G . L. Mosse. The Nalionalisalion o/lhe M asses: poli­
lical Symbolism and Mass M ovemenls in Germany /rom lhe Napoleonic Wa rs lhrough lhe
3rd Reich (N o va Iorque, 1975); T . Nipperdey , "NationaJidee und Nationaldenkmal in 3. Isto ficou definitivam ente comprovado em 19 14. pelos partidos sociali stas da Se­
De uLs,h lund im 19. J u hrhund~rl ". Hi.\'lori.<che Zc ilschrifl Uun . 1969). pp . 529-HS. prin e .
gund a lnternaci onal. que não só reivindicavam ser de alcance basicamente intern acio­
543 (noLas). 579 (no La s) .
na l. ma s de fato às vezes considerava m-se oficialmente nada ma is do que secções nacio­
2. Eugen Webcr, Peasan/s in/o Frenchmen: The Modernizalion o/ Rural Fran ce. 1870­ nais de um mov imento global. (" Séct io n Française de l'Internati onaJe Ouvriere").
1914 (S tanfo rd, 1976).
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A questão parecia ser mais controlável onde menos mudanças na ccssá rias. Tinham capitais, bandeiras, hinos nacionais; uniformes mi­
estrutura social haviam ocorrido, onde o destino dos homens parecia litares e acessórios semelhantes, baseados em grande parte no modelo
estar sujeito apenas às forças desde sempre desencadeadas sobre a hu­ dos britânicos, cujo hino nacional (que data de aprox. 1740) é, prova­
manidade por alguma divindade inescrutável, e onde as antigas formas velmente, o primeiro, e no modelo dos franceses, cuja bandeira tricolor
de superioridade hierárquica e subordinação estratificada, multiforme foi livremente imitada. Vários novos estados e regimes foram capazes
e relativamente autônoma ainda vigoravam. As únicas coisas que po­ de, como a Terceira República Francesa, recorrer ao simbolismo re­
diam mobilizar o campesinato italiano além de suas aldeias eram a publicano francês do passado, ou, como o Império alemão de Bis­
igreja e o Rei. Aliás, o tradicionalismo dos camponeses (que não deve marck, associar' elementos tirados de um Império Alemão anterior,
ser confundido com passividade, embora não tenha havido muitos ca­ aos mitos e símbolos de um nacionalismo liberal popular entre as clas­
sos em q ue eles desafiaram a própria existência dos senhores, contanto ses médias, e ao prosseguimento da dinastia da monarquia prussiana,
que estes pertencessem à mesma fé e ao mesmo povo) foi constante­ da qual na década de 1860, metade dos habitantes da Alemanha de
mente elogiado pelos conservadores do século XIX, que o considera­ Bismarck eram súditos. Dentre os estados maiores, apenas a Itália teve
vam o ideal do comportamento político dos súditos. Infelizmente, os de partir do nada para resolver o problema resumido por d'Azeglio na
Estados em que tal modelo funcionou eram, por definição, "atrasa­ seguinte frase : "Nós fizemos a Itália: agora temos de fazer os italia­
dos" e, portanto, frágeis, sendo que qualquer tentativa de "moderni­ nos." A tradição do reino de Sabóia não era uma vantagem política
zá-los" provavelmente os tornaria menos viáveis. Teoricamente, era fora da região noroeste do país, e a igreja opunha-se ao novo Estado
possível conceber uma "modernização" que mantivesse a velha orga­ italiano. Talvez não surpreenda que o novo reino da Itália, embora
nização da subordinação social (possivelmente com um pouco de in­ animado para "fazer italianos", não estava nada entusiasmado com a
venção ponderada de tradições), mas fora o Japão, é difícil encontrar idéia de fazer mais de um ou dois por cento deles eleitores, até que isto
outro exemplo de sucesso na prática. Possivelmente, tais tentativas de se tornasse completamente inevitável.
atualizar os laços sociais de uma ordem tradicional implicavam o re­ Embora o estabelecimento da legitimidade dos novos estados e
baixamento da hierarquia social, um fortalecimento das ligações dire­ regimes fosse relativamente raro, sua afirmação contra a ameaça da
tas entre o súdito e o governante central que, intencionalmente ou não, política popular não foi. Como dissemos acima, aquele desafio era
passou a representar cada vez mais um novo tipo de estado . "Deus sal­ principalmente representado, única ou conjuntamente, pela mobiliza­
ve o Rei" passou a ser (embora por vezes simbolicamente) uma exorta­ ção flolítica das massas, às vezes combinada , às vezes connitante,
ção po lítica mais eficaz do que "Deus abençoe o proprietário e seus através da religião (principalmente a católica romana), da consciência
p arentes e nos mantenha em nossas posições" . O capítulo sobre a mo­ de classe (democracia social), e do nacionalismo, ou pelo menos a xe­
narquia britâ nica esclarece este processo até certo ponto, embora fosse nofobia. Em termos políticos, tais desafios tiveram sua expressão mais
interessan te realizar-se um estudo sobre as tentativas que fizeram di­ visível no voto, e, neste período, apresentavam-se inextrincavelmente
nastias mais autenticamente legitimistas, tais corno a dos Habsburgos ligados à existência do sufrágio universal ou à luta por sua obtenção,
e d os R om anov , não só de impor obediência a seus povos como súdi­ travada contra oponentes que, principalmente agora, conformavam-se
tos , mas de angaria r-lhes a lealdade como cidadãos em potencial. Sa­ com uma ação de defesa da retaguarda. Em 1914 já havia na Austrúlia
bemos que eles term inaram não conseguindo, mas teria sido este fra­ (1901), Áustria (1907), Bélgica (1894), Dinamarca (1849), Finlândia
casso inevitável? (1905), França (1875), Alemanha (1871), Itália (1913), Noruega
Po r oulro lado, o problema era mais difícil de ser resolvido em es­ (1898), Suécia (1907), Suíça (1848-79), no Reino Unido (1867-84) e nos
tados inteiramente novos, em qu e os governantes eram incapazes de Estados Unidos, certa forma de sufrágio amplo, embora não univer­
fazer uso eficaz de laços já existentes de o bediência e lealdade política. sal, e só ocasionalmente se fizesse acompanhar da democracia política.
e em estados cuja legitimidade (ou a legitimidade da ordem social por Não obstante, mesmo onde as constituições não eram democráticas, a
eles representada) já não era mais aceita . Acontece que no período .de própria existência de um eleitorado de massas já evidenciava o proble­
1870-1914 havia excepcionalmente poucos "estados novos". A maiO­ ma de manter sua lealdade. A ascensão ininterrupta do voto social­
ria dos estados europeus, assim como das repúblicas americanas, ha­ democrata na Alemanha imperial não preocupou menos os governan­
via . àq uela altura, adqui rido as instituições, sím bolos e práticas ofi­ tes pelo fato do Reichstag ter muito pouco poder.
ciais básicas que a Mongólia, tendo declarado uma espécie de indepen­ A ampliação do progresso da democracia eleitoral e a conseqüen­
dência da China em 191 2, imediatamente considerou inovadoras e ne­ te ,aparição da política de massas, portanto, dominaram a invenção
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das tradições oficiais no período de 1870-1914. Oque tornava isso par­ intelectual da política e da sociedade foi transformado pelo reconheci­
ticularmente urgente era a predominância tanto do modelo das insti­ mento de que o que mantinha unidas as coletividades humanas não
tUições constitucionais liberais quanto da ideologia liberal. As primei­ eram os cálculos racionais de seus componentes.
ras ofereciam obstáculos não teóricos, mas no máximo empíricos à de­ Creio não ser este o momento oportuno para fazer uma análise,
mocracia eleitoral. De fato, dificilmente um liberal dispensaria a ex­ nem mesmo a mais breve possível, deste recuo intelectual do liberalis­
tensão dos direitos civis a todos os cidadãos - ou pelo menos aos de mo clássico, que apenas os economistas não acompanharam. ' Há uma
sexo masculino - mais cedo ou mais tarde . A ideologia liberal alcança­ relação óbvia entre ele e a experiência da política de massas, principal­
ra seus mais espetaculares êxitos econômicos e transformações sociais mente num país onde uma burguesia que tinha, segundo Burke,
através da opção sistemática pelo indivíduo, relegando a coletividade "rasgado violentamente... o recatado cortinado da vida, ... as agradá­
institucion alizada, pelas transações de mercado (o "vínculo financei­ veis ilusões que tornavam o poder manso e a obediência liberal"8 da
ro") ao invés de pelos laços humanos, pela hierarquia de classe ao in­ forma mais definitiva possível, agora achava-se exposta, afinal, à ne­
vés da de estamentos, pela Gesellschajt, em vez da Gemeinschaft . Dei­ cessidade permanente de governar por meio de uma democracia políti­
xou, assim, sistematicamente, de cultivar os vínculos sociais e de auto­ ca à sombra de uma revolução social (a Comuna de Paris), Natural­
ridade aceitos pejas sociedades do passado, tendo aliás pretendido e mente, não bastava lamentar o desaparecimento daqueles antigos ali­
conseguido enfraquecê-Jos . Contanto que as massas permanecessem cerces sociais, a igreja e a monarquia, como fez o Taine pós-Comuna.
alheias à política, ou fossem preparadas para apoiar a burguesia libe­ embora nào tivesse simpatia por nenhuma das duas. 9 Era a,i nda menos
rai, não haveria grandes dificuldades políticas em conseqilência disso. prático trazer de volta o rei católico, como queriam os monarquistas
Todavia, da década de 1870 em diante tornou-se cada vez mais eviden­ (eles próprios estando longe de ser os melhores exemplos de piedade e
te que as massas estavam começando a envolver-se na política, e não fé tradicional, como no caso de Maurras). Havia que construir-se uma
se poderia ter certeza de que apoiariam seus senhores. . "religião cívica" alternativa. Tal necessidade foi o núcleo da sociolo­
Após a década de 1870, portanto, quase que certamente junto gia de Durkheim, trabalho de um dedicado republicano não-socialista.
com o surgimento da política de massas, os governantes e observado­ No entanto, teve de ser instituída por pensadores menos eminentes,
res da classe média redescobriram a importância dos elementos "irra­ embora fossem políticos mais experientes.
cionais" na manutenção da estrutura e da ordem social. Conforme co­ Seria ridículo insinuar que os homens que governaram a Terceira
mentaria Graham Wallas em Human Nature in Po/itics (A Natureza República, para atingirem uma estabilidade social, fiaram-se apenas
Humana na Política) (1908): "Quem se dispuser a basear seu pensa­ na invenção de tradições novas . Eles, ao contrário, basearam-se no
mento político numa reavaliação do funcionamento da natureza hu­ fato político real de que a direita era uma minoria eleitoral permanen­
m ana, deve começar por tentar superar sua própria tendência de exa­ te, que o proletariado social revolucionário e os inflamáveis parisien­
gerar a intelectualidade do homem" .' Uma nova geração de pensado­ s'es poderiam ser permanentemente derrotados pelos votos das aldeiás
res n ão teve dificuldade em superar tal tendência. Redescobriram ele­ e pequenas cidades, com representação equivalente ou maior, e que a
mentos irracionais na psique individual (Janet, William James, genuína paixão dos eleitores republicanos rurais pela Revolução Fran­
Freud). na psicologia social (Le Bon, Tarde, Trotter), através da an­ cesa e seu ódio pelos interesses dos detentores do capital poderia geral­
tro pologia em povos primitivos cujas práticas já não pareciam preser­ mente ser aplacado por estradas apropriadamente distribuídas pelos
va r simplesmente as características da infância da humanidade moder­ distritos, pela defesa dos altos preços dos produtos agrícolas e, quase
na (Durkheim não distinguiu os elementos de toda a religião nos ritoS certamente, pela manutenção de impostos baixos. O aristocrata radi­
dos aborígines da Austrália?5), mesmo naquele perfeito bastião da ra­ caI socialista sabia o que pretendia quando redigiu seu discurso eleito­
zão humana ideal, o helenismo clássico (Frazer, Cornford).6 O estudo

7. Provavelmente porque eles foram capazes de eliminar de seu campo de visão tudo
o que nã o pudesse definir-se com o comportamento racionalmente ampliador; à custa­
4. Gr a ham Wallas, Hum all Nalure in Polilics (Lo ndres, 1908). p. 21. .
a pó s a décad a de 1870 - de um considerá vel estreitamento de seu campo de estudo.
5. [ mil<: Durk hci m . Til !' EI!'II/ I'lIlafl' F() m~,oflhe Religious Llfe( Londrcs. 1976). Pr!­
8. Edmund Burke, Refleclions on lhe Revolulion in France, ed. Everyman , p . 74.
meir " ediçihJ fran ces" e m 1912 .
9 . J. P. M ayer, Poliliral Thoughl in F,ance from lhe Revolulion 10 lhe 51h Republic
6. J. G . Fr azer, The Co/den Bough , 3. ed. (Londres, 1907-30); F. M . Cornlord, From (Londres. 1961), pp. 84-~ .
Religíofl 10 Ph i/osophy A Sludy oflhe Origins of Weslem Speculalion (Londres, 1912).
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ral, recorrendo à evocação do espírito de 1789 - não do de 1793 - e a Há provas suficientes de que a burguesia republicana moderada
um hino à República, em cujo clímax garantiu sua lealdade aos inte­ reconhecia a natureza de seu principal problema político ("falta de ini­
resses dos viticultores do seu eleitorado do Languedoc. 'o migos da esquerda") desde a década de 1860, e pôs-se a resolvê-lo logo
Entretanto, a invenção da tradição desempenhou um papel fun­ que a República firmou-se no poder. ' l Em termos da invenção da tra­
damental na manutenção da República, pelo menos salvaguardando-a dição , três nov idades principais são particularmente importantes, A
contra o socialismo e a direita. Pela anexação deliberada da tradição primeira foi o desen vo lvimento de um equi valente secular da igreja ­
revolucion ária , a Terceira · República apaziguou os social-re­ educação primária, imbuída de princípios e conteúdo revolucionário e
volucionários (como a maioria dos socialistas) ou isolou-os (como republicano , e dirigida pelo equivalente secular do clero - ou talvez,
os 'a narco-sindicalistas). Em con seqüência disso, era agora capaz de dada a sua pobreza, os frades - os instituteurs. 14 Não resta dúvida de
que esta foi uma criação deliberada do início da Terceira República e,
mobilizar até mesmo a maioria de seus adversários potenciais da es­
considerando-se a centralização proverbial do governo francês, de que
querda para defender uma república e uma revolução do passado,
o conteúdo dos manuais que iriam transformar não só camponeses em
constituindo uma frente única com as classes que reduziu a direita a
franceses, mas todos os franceses em bons repub.licanos , foi cuidado­
uma permanente minoria no país. Aliás, conforme se explica no ma­
samente el abo rado . Aliás, a "institucionalização" da própria Revolu­
nual da política da Terceira República, Clochemerle, a principal fun­
ção Francesa na , e pela, República já foi estudada com maior vagar. I I
ção da direita era ser alvo da mobilização dos bons republicanos. O
movimento operário socialista negou-se a ser cooptado pela República A segunda novidade foi a invenção das cerimônias públicas. '6 A
burguesa até certo ponto; daí a instituição da comemoração anual da mais importante delas, o Dia da Bastilha, foi criado em 1880. Reunia
Comuna de Paris no Mur des Fédérés (1880) contra a institucionaliza­ manifestações oficiais e não-oficiais e festividades populares - fogos de
ção da República; daí também a substituição da "Marselhesa" tradi­ artifício, bailes nas ruas - confirmando anualmente a condição da
cional e agora oficial, pela nova "Internationale", seu hino durante o França como nação de 1789, na qual todo homem, mulher e criança
caso Dreyfus, e principalmente durante as controvérsias sobre a parti­ franceses poderiam tomar parte. Embora deixasse espaço, para mani­
cipação socialista nos governos burgueses (Millerand)." Mais uma festações populares mais belicosas, mal podendo evitá-Ias, sua tendên­
vez, os republicanos jacobinos radicais continuaram, dentro do simbo­ cia geral era transformar a herança da Revolução numa expressão
lismo oficial, a assinalar sua separação dos republicanos moderados e conjunta de pompa e poder do estado e da satisfação dos cidadãos.
dominantes . Agulhon, que estudou a mania típica de erigir monumen­ Forma menos permanente de celebração pública eram as exposições
tos , em sua maioria da própria República, durante o período de 1875 a mundiais exporádicas que deram à República a legitimidade da pros­
1914, observa, de maneira perspicaz, que nos municípios mais radicais peridade, do progresso técnico - a Torre Eiffel- e a conquista colonial
global que procuravam enfatizar.'J.
Maria nne trazia pelo men os um dos seios nu s, enquanto nos mais mo­
derados ela estava sempre reca tadamente vestida. 'l No entanto, o mais A terceira novidade foi a produção em massa de monumentos
importante era que quem controlava todas as metáforas , o simbolis­ públicos já comentada. Pode-se observar que a Terceira República ­
mo , as tradições da Repúb lica eram os homens do centro mascarados ao contrário de outros países - não era favorá vel aos edifícios públicos
de homens da extrema esquerda: os socialistas radicais, pro verbial­
mente "iguais aos rabanetes, vermelhos por fora e brancos por dentro.
sempre 'do lado que mais lhes interessa". Assim que eles pararam de 13. Sanford H . Elwitt, Th e Making of the 3rd. Republic: C/ass and Politics in Fran ce,
1868-84 (Baton Rouge , 197 5) .
controlar as fortunas da República - desde a época da Frente Popular 14 . Georges Duveau. Les In stiluteurs (Paris, 195 7); J. Ozouf (org.) Naus les Máitres

em diante - os dias da Terceira República ficaram contados. d' f.cole: AUlObiographies d'llI.l'lilUteurs d e la Bel/e tpaque (Paris, 1967).

IS. Ali ce Gérard, La Révolutioll Fronçaise: Mythes ~t lnterpréta tions. 1189-1970 ( Paris.

1970). cap o 4.

16 . Ch a rl es Rearick . "Festivais in Modern France: The ElIper ience of the 3rd. Re­
lO . Jean To uchard. La Gou che en Fronce dt'{IUi., l'iUO ( Pari s. 1977) . [l o 50 . public" , Joumal of Contemporary Histor}'. "ii, n. 3 Uul. 1977), pp. 435 -60; Rosem onde
li. Maur ice Dommanget. Eugene POlIt'er, Membre de lo Commune et Chantre de (/n­ Sanson, Les 14 Juillet. Féte et Cu/lscience Natlonale. 1789-1975 (Paris. 1976), com biblio­
ternationale (Paris, 1971); cap o 3. grafia.
12 . M . Agulhon, "Esquise pour une Archéologie de la République; l'Allegorie Civiq~e 17 . Sobre as in tenções políticas da E"posição de 1889, cf. Debora L. Silverman, "The
Féminine". Annale.. ESC, lIxv iii (1973), pp. 5-34; M. Agulhon, Marianne au Combat: 11­1889 E"hibition : The Crisis of Bourgeois !ndividual ism" , Oppositians. A Journal for
magerie el la Symbolique R épublicaines de 1789 à 1880 (Paris, 19 79) . Ideas and Crlticism In A rchilé'cture (prim avera 1977), pp. 71-91.
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símbolos: a trico lor (democratizada e universalizada na faixa do pre­


imponentes, dos quais já havia muitos na França - embora as grandes feito, presente em todo casam ento civil ou outra cerimônia), o mono­
exposicões tenham acrescentado alguns a Paris - nem às estát uas des­ gram a da Repúbl ica (R F) e o lema (li berdade, igualdade, fraternida­
comunais. A principal característica da "estatuomania" francesa " foi de), a " Marselhesa" , e o sim bolo da República e da própria liberdade,
sua demo cracia, pren úncio da democracia dos mo num entos da guerra que parece ter tom ado ,fo rma nos últim os anos do Segund o Império,
após 1914-18 . Dois tipos de monumentos espalha ram-se pelas cidades Ma rianne. Podemos tam bém observar que a Terceira República não
e comunas rurais do país: a imagem da própria República (na pessoa tinh a qu alq uer desej o oficial pelas cerimônias especificamente inven ta­
de Marianne, agora universal mente con hecida), e as fig uras civis bar­ das, tão característico da primeira - "árvores da liberdade" , deusas da
badas daq ueles q u~ o patriotismo local escolhi a para reverenciar, fos­ razã o e fes tejos ad hoc. Não devia haver feriado nacional oficial que
sem vivos o u mo rtos . Aliás, embora a construção dos monumentos re­ não o 14 de julho , nenhu ma mobilização, procissão ou marcha formal
publicanos fosse evidentemente incenti vada, a iniciativa e o custo de por parte dos cidadãos civis (ao contrário dos regimes de massas do sé­
tais empreendimentos eram questões de âmbito local. Os empresários culo XX, e também ao contrário dos Estados Unidos), mas um a sim­
que abasteciam este mercado ofereciam escolhas adequadas aos bolsos ples "republicanização" da pompa do poder de estado aceita - unifor­
de toda comunidade republicana, dos cidadãos mais pobres até os mes, paradas, bandas, bandei ras e coisas que tais.
mais ricos, desde modestos bustos de Marianne, dos mais diversos ta­ O Segundo Império Alem ào representa um contraste in teressante,
manh os, passando po r·.estátuas de corpo inteiro de várias dimensões, principalmente porque vários dos temas gerais da tradição in ventada
até os pedestais e acessórios alegóricos ou heróicos que os cidadãos repu blicana fr ancesa podem ser identificados. Seu princi pal problema
mais am biciosos podiam colocar aos pés da figura. '9 Os opulentos con­ politico era duplo: co mo emprestar legitimidade histórica à versão bis­
jun tos da Place de la République e da Place de la Nation em Paris marckia na (Prusso-Pequeno a lemã) da unificação q ue não era reco­
constituíam a versão suprema deste tipo de estatuária. Tais monumen­ nhecida; e como lidar com aquela grande parte do eleitorado democrá­
tos reconstituem as raízes da República - especialmente seus baluartes ti co que teria preferido outra solução (gran de-al em ães, anti­
rurais - e podem ser considerados vínculos visíveis entre os eleitores e prussianos, católicos e, acim a de tudo, social-democratas). O própri o
a nação. Bismarck parece não ter-se preocupado muito com o simbolismo, a
Algumas outras características das tradições " inventadas" ofi­ não ser pela criação de uma bandeira tricota r que unia a branca e pre­
ciais da Terceira República podem ser comentadas rapidamente. Exce­ ta prussiana com a nacionalista liberal preta, vermelha e dourada, que
to sob a forma da celebração de fig uras de destaque do passado local, ele pretendi a anexa r (1 866). Nào ha via qual quer precedente histórico
ou de man ifestos po líticos locais, ela não recorreu à história . Em par­ para a ban de ira nacional imperial preta, branca e ver melb a.2n A receita
te, sem dúvida , porque a história antes de 1789 (a nào ser talvez pelos de Bism arck para a estabilidade polltica era ainda mais simples: con­
gauleses), lem brava a igreja e a monarquia, e em parte porque a histó­ quistar o apo io da burguesia (predom inantemente liber<l l), cumpri nd o
ri a a parti r de 1789 era uma força divisória, não unificadora : cada tipo 'seu prograflla até um ponto que não comprometesse a predominância
- ou gra u - de Republicanismo ti nha seus próprios heróis e vilões no
pa nteào revolucioná rio, como dem onstra a historiografia da Revolu­
ção Francesa. As diferenças partidárias eram patentes nas estátuas a
20 . Wh itney Sm ith , Flag.f rhrlJllgh tire Ages (Nova Iorque, 1975). pp. 116-18. A btmdei­
Robespierre, Mirabeau ou Danton . Ao contrário dos Estados Unidos ra nucio nalista preta . vermelha e do u rada parece ter tido origem no movimento estu­
e. dos estados latino-americanos, a República Francesa esquivou-se, dantil do periodo pós· napoleõnico, mas só foi claramente instituJda como bandeira do
portanto, do culto aos Fundadores do País. Preferia símbolos gerais, mov imento nacio nal em 1848. A resIstência à República de Weimar reduziu sua bandei­
abstendo-se até do uso de temas que se referissem ao passado nacional ra nacional u estanda rte de partido - aliás, a fo rça militar do Partido Social-Democra ta
adotou-a como nome (" Rei ch ~ bu nn<!r··) . e mbora a dire ita anti. repu bllca na estivesse
nos selos postais até bem depois de 1914, apesar de a maioria dos Esta­ divi dida en t re a ba ndei ra im perial e a ba ndeira nacion al socialista. que já nào ti nha a
dos europeus (fora a Grã-Bretanha e a Escandinávia) terem descober­ disposição tricolo r tra dIciona l. talvez devido â associação co m o libera lismo do século
to sua força de meados da década de 1890 em diante. Eram poucos os X IX , talvez po r nâo indica r com clareza um rompimento radica l co m o passado. Toda­
VÜI, ti band eira co ntinuou com O padrão de cores básico do im péno bismarckiano (ne­
gro, bra nco t vermelho ), em bora destacasse o vermel ho , até e ntão o símbolo apenas dos
18. M . AgulhoD, " La Statuomani e et I' Hi stoi re··. Erh nologie Française, n . 3-4 (1978). movimen tos soci~ li s tas e orcrári o~. A Repú bli ca Federa l e a De mocrá tica volturnm ús
pp . 3-4 . co res de 1848. a pri meira sem IIcrêsci mos. a últi ma co m um em blema adeq uad o, ada pt a­
19. Agu lh o n, " Esq ui ssc pour un e Archéo log ie" . do do modelo bás ico fo ice-e-ma rtelo comunista e soviético.
2~3
n2

bismarckianos após 1866 e, finalmente, dos pan-germânicos e anti­


da monarquia, exército e aristocracia prussiana, utilizar as divisões semitas levou a sério três monumentos cuja inspiração era basicamen­
potenciais entre os vários tipos de oposição e evitar tanto quanto te não-oficial: o monumento a Armínio, o Querusco, na Floresta Teu­
possível que a democracia política influenciasse as decisões do gover­ toburga (em grande parte construído de 1838-46, e inaugurado em
no. Grupos obviamente irreconciliáveis que não podiam ser divididos 1875); o monumento Niederwald, às margens do Reno, que comemora
- especialmente os católicos e principalmente os social-democratas a unificação da Alemanha em 1871 (1877-83); e O monumento come­
ró s- Iassallianos - causaram-lhe certo embaraço . Aliás, ele foi derrola ­ morativo do centenário da batalha de Leipzig, iniciado em 1894 por
do nos confrontos diretos com ambos . Tem-se a impressão de que este "uma Associação Patriótica Alemã pela Construção de um Monu­
racion alista conservador da velha guarda, apesar de mestre nas artes mento à Batalha dos Povos em Leipzig" , e inaugurado em 1913. Por
da manobra política, jamais conseguiu resolver a contento os proble­ outro lado, eles não parecem ter manifestado entusiasmo pela propos­
mas da democracia política, ao contrário da politica dos ilustres. ta de tran sformar o monumento a Guilherme I na montanha
A invenção das tradições do Império Alemão associa-se, portan­ Ky ffhãuser, no local onde, segundo as lendas, o Imperador Frederico
to, antes de mais nada, à era de Guilherme lI. Seus objetivos eram pri­ Barba Roxa reapareceria, num símbolo nacional (1890-6), e como não
mordial mente duplos: estabelecer a continuidade entre o Primeiro e o houve nenhuma reação especial à construção do monumento a Gui­
Segundo Im pério Alemão, ou, de mod o mais geral, estabelecer o novo lherme I e à Aleman ha na confluência do Reno com o Moselle (o
Império como realização das aspirações nacionais seculares do povo " Deutsch es Eck", ou Recant o Alemão), dirigidos contra as rei vindica­
alemã o; e enfatizar as experiências históricas específicas que ligavam a ções francesas à margem esquerda do Reno .ll
Prússia ao restante da Alemanha na construção do novo Império, em A parte tais variações, o volume de construções e estátuas ergui­
1871 . Ambas as metas, por sua vez, exigiam a convergência da história das na Alemanha neste período foi considerável, enriquecendo os ar­
prussiana e alemã, coisa a que se dedicaram por algu m tempo os histo­ quitetos e escultores adaptáveis e competentes o suficiente. 21 Entre os
ri adores im periais patriotas (especialmente Treítsche). A principal di­ que foram construídos ou planejados s6 na década de 1890, podemos
ficuldade na man eira de atingir tais objetivos era, em primeiro lugar, mencionar o novo edifício do Reichstag (1884-94), cuja fachada osten­
que a história do Santo Império Roman o da nação alemã era difícil de ta el aboradas metáforas históricas, o monumento de Kyffbãuser já ci­
ser 'adaptada a qu alquer molde na cionalista do século XIX, e, em se­ tado (1890-6), o monum ento nacio nal a Guilherme I - nitidamente
gundo, que sua história nã o afirmava q ue o desenlace de 1871 fosse considerado o pai oficial do pais (1890-7). o monumen to a Guilherme
inevitável, nem mesmo provável. Podia ser relacionada a um naciona­ I na Po rta Westfálica (1 892), o monumento a G uilher me I no Deuts­
lismo moderno apenas por meio de dois artiffcios: pelo conceito de um ches Eck (1894-7), () ex traord inário Valhalla de prí ncipes Hohen­
inimigo secular nacional co ntra o qu al o povo alemão havia definido zollern na "Avenida da Vi tória" (Siegesallee) em Berlim (1896- 1901 ),
sua identida de, lutando para ob ter a unidade como Estado; e pelo con­ uma variedade de estátuas de Guilherme I nas cidades alem ãs (Dort­
ceito de co nquista ou supremacia cultural, política e militar, pelo qual mun d 1~ 94, Wies baden 1894, Pre nzla u 1898, Ha mbu rgo 1903, Ha lle
a nação alemã, espalhada por gran des partes de outros países, princi­ 190 1) e, um pouco mais tarde, um verdadeiro dilúvio de monumentos
palmente na Europa central e oriental, podia reivindi car o direito de a Bismarck, que gozaram de apoio mais genuíno dos nacionaBstas. ll A
unir-se num Estado Maior alemão. O segundo conceito não era exata­ ina uguração de um desses monumentos constituiu a primei ra ocasião
mente salien tado pelo lmpério de Bismarck, especificamente "o Pe­
queno império" , embora a própria Prússia, como suben tendia seu no­
me, houvesse sido historicamente fo rmada em grande parte pela an~­ 2 1. Ha ns-Georg John, Po lit ik IInd TlImen. di/! delll5che Turnerschaft ais naliQnaJe 8e­
xação de regiões bálticas e eslavônicas fora dos limites do Santo I~pe­ lI'egung im dl!/lT <chen Kalserrt ich von 187/ -/914 (Ahrensberg bei Ha mbu.rg, 197 6), pp . 41
rio Rom ano. e sego
22. "O destino q uis q ue, contra sua natureza, ele se torn asse um mo nu mental esculto r,
Os edit1ci os e monumentos eram a forma mais visível de estabele­ que iri a celehr ar a idéia imperi al de G uilherme U em gigantescos monumen tos de bro n­
cer uma nova interpretação da históri a alemã, o u antes uma fusão en­ ].e e pedra, num a linguagem metafórica, com ênfase exagerada no patos." Ulric h Tltie­
tre a " tradição inventada" mais velha e romântica do nacionalismo me e Felix Becke r. A"gem~i/1es Le.úkon der bildenden Kiinstler 1'0/1 der Antike bis zur Gt!­
genl1'arr (Lei pzig, 1907-50), iii , p . 185 . Cons ulte ta mbêm as entradas gerais, sob os no­
alemão pré-1848 e o novo regi me: os símbolos mais potentes foram oS
mes Bcga~ . Schilling, Sch mit L.
que conseguiram a fusão. Assim , o movi mento de massa dos ginastas 23. John , op . ('Ít .. Ni pperdey, I·N ation alidee", pp . 577 e sego
alemães, dos liberais e dos grande-alemães até a década de 1860, dos
285
284

em q ue se utilizaram temas históricos nos selos postais do Império idé ia imperi al ( Kaiser idee) dura nte a guerra, sobre o caráter da di nas­
(1899). tia Hohenzollern, e da í por 'di ante. "
Este acúmulo de construções e estátuas traz duas implicações. A Tal vez se possa elucidar melhor o caráter de uma dessas cerim ô­
primeira refere-se à escolha de um símbolo nacion al. Havia dois dis­ nias com uma descrição mais detalhada. Observados por pais e ami­
poníveis: uma "Germania" indefinida, porém adeq uadamente militar, gos, os meninos entravam no pátio da escola, marchando e cantando
que não desempenhava grande papel na escultura, embora figurasse "Wacht em Rhein " (a " ca nção nac ional" mais diretame nte identi ficá­
freqüentemen te no s selos desde o início, uma vez que nenhuma figura vel com a hostilid ade em relação à F rança, embora, significativamen te
din ástica poderia por enquanto simbolizar a Alemanha como um to­ não fosse o hino nacio nal prussiano nem aJemão).26 Formavam de
do; e a figura do "O eutscbe Michel" , que realmente su rge num papel frente para os representantes de cada turm a, que traziam bandeiras en­
subordinado no monumento a Bismarck . Ele pertence às curiosas re­ feitadas com folhas de carvalho, compradas com dinh eiro arrecadado
presentações da nação, não como um país ou estado, mas como "o po­ em cada turma. (O carvalho tem ligações com o folclore, o nacio nalis­
vo", que passou a ani mar a demótica ling uagem política dos caricatu­ 111 0 c os valo res militares teu lo-ger mâ nicos - ainda lemb rados nas fo­
ristas do século XIX, e qu e visava (como John BulI e o Ianque de cava­ lhas de carvalho que assinalavam a mais alta classe de ornamento mil i­
nhaque - não como Maria nne, símbolo da República) expressar o ca­ tar an tes de Hitler: um equivalente alemão adequado dos lou ros lati­
ráter nacional, segundo o ponto de vista dos próprios membros da na­ nos .) O líder apresent ava as ban dei ras ao diretor que, por sua vez, diri­
ção. Suas origens e primórdios são desconhecidos, embora, como o gi a-se à assembléia e falava sobre os gloriosos dias do último impera­
hi no nacional, tenham sido quase certamente encontrados pela primei­ dor Guilher me I e pedia três fo rtes vivas pelo presente monarca e sua
ra vez na Grã-Bretanha do século XVII I. " Essencialmente, o "Deuts­ im peratriz. Depois, os meninos marchavam , segujndo as bandeiras.
che Michel" enfatizava tanto a inocênci a e a simplicidade tão pronta­ Seg uia-se ainda outro discurso do diretor, antes que fosse plantado um
mente exploradas pelos forasteiros ardilosos, quanto a força física que "carva lho im perial" (Kaisereiclre) ao som de um coral. O dia encerra­
podia utilizar para frustrar seus truques e co nquistas ma nhosas quan­ va-se com uma excursão à Grunewald. Todos estes procedim entos
do afi nal despertada . Ao que parece, "Michel" foi essencialmente um eram simplesmente preliminares à comemoração em si do Dia de Se­
sím holo antiest rangeiro . dan, dois dias depois, e aliás, a um ano letivo repleto de reuniões de ca­
A segunda implicação diz respeito à importância capital da unifi­ ráter ritu al , tanto religiosas co mo cívicas. 27 No mesmo ano, um decre­
;ação alemã por Bismarck com a línica experiência nacional histórica to imperial anu nciaria a construção do Siegesa/lee, relacionada ao vi­
que os cidadãos do novo império ti nham em com um, considerando-se gésimo quinto an iversário da guerra franco-p russiana, interpretada
que todas as co ncepções anterio res da Alema nha e da unificação ale­ como a insurreição do povo alemão "como um só povo", embora "a­
mã eram, de uma forma ou de outra, "grande-alemãs". No contexto tendendo ao chamado de seus príncipes" para "repelir a agressão es­
desta experiência, a guerra franco-aJemã era fundamental. A tradição trangei ra e alcançar a unidade da pátria e a restauração do Reich com
" nacional" (breve) que a Alema nha possula resumia-se em três nomes: vitórias glo ri osas" (o grifo é meu).?! O Siegesallee, como já se disse, re­
Bisrnarc k. Gu il herm e 1 e Seda n.
Isto exemplifica-se claram ente nos cerimoniais e ri tuai s in venta­
dos (t am bém pr incipal men te no reir.ado de G uilh erm e 11). Assim, oS 25 . I lei nl Stu llman n. Dal Prill:' lleil/ richs· Gy"IlIUSilllll !/1 SchOlleherg . J890· 1945. (it?s­
anais de um ginásio registram nada m eno~ que dez cerimônias entre ('hichte eil1t'T S , llIIle ( Berlim. \ . d ..! 196 5/l.
agos to de 1895 e março de 1i:!9 6 par;} co memorar o vigés imo quinto 26. Na ve rda de. não havi a nenhum hin o nacion al alemã o oficial. Das três ca nções
ani versá rio da !!uerra rran co-p russiana , incl uindo amplas comemora­ con co rrentes "'leil' Di r Im Siegerk ram " (co m a melodi a do hin o ing lês "Deus Salve o
Rei "), po r estar intim a me nte associad a ao imperado r p russiano , era a que in sp irava me·
ções da!> batalha ~ da gu erra, celeb rações do ani versário do imperador. nos Ce rvor nacional. "A Vigil ia do Reno" e "Deutscbla nd Ober Al1es" ficaram eq uipa·
a entrega oficiJ I do retrat o de um pd ncipe im peri al, il umi nação espe­ radas ati: 19 14, mas gradat ivame nte "DeuL~chland ". mais adeq uada a um a política im­
cia l e disc ursos so bre a guerra de 1870-1, sobre o desenvolvimento da peri'll ex pa nsionista, s uplantou a " Vig!lia", à qual se associava m a pen as idéias a nti·
francesas. Em 1890. en tre os gin astas alemães, "DeulSchland" j á se tor nara duas vezes
mai s popul ar q ue a " Vigll ia" , embo ra o movimento tivesse um carinho especi al por esta
últim a canção. que alegava ter sido úLl I pa ra a popu la rização . John , op. cir., pp . 38-9 .
24. J . Su rdo "La premiere lm age de John Buli, Bo urgeois Radica l. A ngl a is Lo yali stc 27. Sta llma nn, up. cit .• pp . J 6· 19.
u
( 1779·1 8 15)" . Mouvemenl Social. cvi (ian·mar. )979), pp. 65-84; Herbe rt M. Ather­ 28. R. E. H ardt , Dir B eine dl!r HolJ ellzollern (Berlim Orien tal. 1968).
ton o Political Prill tJ In tlle Age of H ogarth (Oxfor d. 1974), pp . 97·100.
287
2156

claro quando Bismarck abandonou sua campanha contra eles, não


presentava exclusivamente os príncipes HohenzolJern desde a época
causaram sérios problemas. No entanto, apenas os social-democratas,
dos Margraves de Brandenburgo.
que avançavam aparentemente de forma inevitável rumo ao status de
.~ interessante traçar uma comparação entre as inovações france­ maioria no Império, constituíam uma força política que, de acordo
sas e alemãs. Ambas põem ênfase nos atos de fundação do novo regi­ com o que ocorreu noutros países na época. teria levado o governo
me - a Revolução Francesa, especialmente em seu episódio menos pre­ alemão a uma atitude bem mais flexível.
ciso e mais controvertido (a tomada da Bastilha), e a guerra franco­ Mesmo assim, numa nação que para sua autodefinição dependia
prussiana . A não ser por este ponto de referência histórico, a Repúbli­ tanto de seus inimigos , externos e internos, isso não foi de todo inespe­
ca Francesa absteve-se de fazer retrospectivas históricas de forma tão rado;19 mais ainda porque, a elite mi litar, por definição anti­
notável quanto os alemães as favoreceram. Uma vez que a Revolução democrática constituía um instrumento tão poderoso para elevar a
havi a estabelecido o fato, a natureza e as fronteiras da nação francesa classe média ao Slalu.t de classe dominante. Ai nda assim, a escolha dos
e de seu patriotismo, a República poderi a limitar-se a lembrá-los a social-democratas e, menos formalmente, dos judeus como in imigos
seus ci dadãos por meio de alguns símbolos ó bvios - Marianne, a tríco­ internos tinha uma vantagem a mais, embora o nacionalismo do Impé­
lor, a "Ma rselhesa", e daí por diante - complementando-os com uma rio fosse incapaz de explorá-la a fundo. Oferecia um apelo demagógico
peque na exegese id eológica que falasse (aos cidadãos mais pobres) tan to contra o liberalismo capitalista quanto contra o socialismo pro­
so bre as va ntagens óbvias, embora às vezes teóricas, da Liberdade, letário, apelo esse capaz de mo bilizar as grandes massas da classe mé­
Igualdade e Fraternidade. Como o "povo alemão " antes de 1871 não dia baixa, artesãos e camponeses que se sentiam ameaçados por am­
tinh a definição nem unidade política, e sua relação com o novo Impé­ bos, sob a bandeira "da nação".
rio (q ue excluía grande parte do povo) era vaga, simbólica ou ideológi­ Paradoxalmente, a mais democrática e, tanto sob o aspecto terri ­
ca, a identificação teve que ser mais complexa e - com exceção do pa­ tori al quanto constitucional, uma das mais claramen te defin idas na­
pei da dinastia, exército e Estado dos Hohenzollern - menos definida. ções enfrentou um problema de identi dade nacional sob certos aspec­
Daí a variedade de referências , indo desde a mitologia e folclore (car­ tos semelhante a o da Alemanh a Im perial. O problema político básico
valh os a lemães, o Imperador Frederico Barba Roxa), passando pelos dos Estados Unidos da América, após o término da secessão, era assi­
estereótipos si mplificados das charges, até a defini ção da nação em milar uma massa heterogênea - até o fim de nosso período, um innuxo
term os de seus ini migos. Como muitos outros " povos" liberados, a q uase impraticável - de pessoas que eram a mericanas não por nasci­
"Alemanha" defi nia- se mais facilmente por aquilo a que se opunha do men to , mas po r imigraçã o. Os am ericanos tinham de ser construidos.
que de o utras for mas. As tradições inventadas dos E stados U ni dos neste período eram antes
Talvez isso exp li que a lacuna mais óbvia nas "tradições inventa­ de mais nada destinad as a atingir este o bjetivo. Por um lado, os imi­
das" do Império Alemão: não ter conseguido conciliar os social­ grantes foram incentivados a aceitar rituais que comemoravam a his­
democratas. É verdade q ue Guil herme II a princípi o gostava de apre­ tória da nação - a Revolução e seus fund adores (4 de julho) e a tradi­
sentar-se como "imperador social", rompendo nitidamente com a ção protestante anglo-saxônica (Dia de Ação de Graças) - como eles
. políti ca pessoal de Bismarck, que colocou o partido DO ostracismo. de fato aceitaram, um a vez que agora estes dias eram feriados e oca­
Ain da assim, comprovou-se que a tentação de ap resen tar o movimen­ siões de fes tejos públicos e partic ulares. l O (Em compensação, a "na­
to socia lista como anti nacional ("vaterlan dslose Gesellen" ) . era forte ção" a bso rve u os rituais coletivos dos imigr antes - Dia de São Patri­
demais para ser vencida, e os socialistas fo ram exclu ídos do serviço cio, mai s tarde D ia do Descobrimento da América - e inseriu-os no
público de modo ainda m ais sistemático (proi bidos inclusive, por uma contexto da vid a americana, principalmen te através do poderoso me­
lei especial , de oc upar cargos universitários), do que haviam sido, por
exemplo, no Império dos H absburgos. Não há dúvi da de que as duas
dores de cabeça poIlticas do Império haviam sido consideravelmente
atenua das. A glória e o poder mili tar, assim como a retórica da gran­ 19. H . - U. We hlcr. j)asdC/llsch <, Aaiserreich /<S'7 /-/9/8(Güttingcn. 1973). pp. 107- 10.
diosid ade alemã desarmaram os " grande-alem ães'" ou pa I1-a lemãe~, 30. A históri a destas festas ainda nào foi escri ta, mas parece óbvi o que elas se torna­
agora cada vez mais afastados de suas origens liberais o u até democra ram muito mais insti tuciu nalizad as nu ma escala naciona l no Último terço do século
ticas. Agora, se quisessem atingir seus objetivos, teria de ser através do XIX. Ci . W. Douglas. AI1/('ricl/I/8o(l!iso!lJal" (''-l uva Iorq ue. 1937): Eliz.abet h Ho ugh
Sc, hri st. R" d L("lI er /) 01'<: / 1 Bo,," ,,( I/o/lidar CUSIUI/1.f (Ph iladclp hia, 1940).
lmpéflo, ou en tão não poderiam fazer nada. Os católicos, como ficoU
2g8 289

ca nis mo de assimilação da política munici pal e estadual.) Por outro la­ cerimonial. Essa inovação é até comentada no New English Dictiona­
do, o si stema educacion al fo i transformado nu m aparelho de socializa­ ry.110 valor publichár,io dos aniversários é nitidamente demonstrado
ção poll tica através da veneração da bandeira americana que, da déca­ pelo fato de que eles freqüentemente ofereceram oportunidade para a
da de 1880 em di ante, tornou-se um ritual diá rio nas escolas rurais. ll O primeira emissão de estampas históricas ou semelhantes em selos pos­
conceito do americanismo como opção - a decisão de aprender inglês, tais, a forma mais universal de simbolismo público, além do dinheiro,
de can didatar-se à cidadania - e uma opção quan to a crenças, atos e como se vê no Quadro I.
modalidades de comportamento específicas trazia implícita a idéia
corres ro ndcnle de "a nti ameri ca ni smo" . Nos ra íses qu e defi niam a
nacionalidade so b o ponto de vista existencial, podia haver ingleses ou Quadro I. Primeira emissão de selos históricos antes de 1914 )'
fra nceses antiratr iólicos. mas scu status de cidadãos ingleses ou fran­
ceses não podia ser posto em dúvida, a menos que eles ta mbém pudes­
sem ser definidos como forasteiros (mereques). Nos Estados Uni dos, I)rilll ciro I' ri mei ro Jub ile u ou
r orélll , assim COIll O na Aleman ha , qu em fosse "anl iallle ricano" ou País selo
selo ocas iüo espe\:ial'
"valerlun dslose" teriu se u .1 ia/tiS ert: tivo como memoro da n,\(,:ào r osto his tóri co
em dúvida .
. C?m o se poderi a esperar, a classe operária era o conj unto maior e Alemanh,1 IX 72 IX99 Inauguração de monum ento
mais visíve l destes membros duvidosos da comu nid ade nacional; mais Áustria- Ifun gri a IX50 1909 60 anos de Francisco José
ain da porque nos Estados Unidos eles podiam realmente ser classifica­ Bélg ica IX49 1914 Guerra (C ru z Vermelha)
Bulgúri a IX79 1901 An iversário da revolta
dos de imigrantes . A esmagadora maioria dos novos im igrantes eram Esr,ln ha IX50 1905 Tricentenário de
operá rios; por outro lado, desde pelo menos a década de 1860, a D OI/ Quixote
maiori a dos trabalh adores em praticamente todas as grandes cidades Gré\:ia IH61 1896 Jogos olí mpi cos
do pais parecia ser estrangeira. Quanto ao conceito de "anti­ Itúli,1 1:-<62 1910-11 Ani versúios
american ismo", cuj as origens parecem datar pelo menos da década de Países l3 aixos IX52 1906 Tricenten ário de De
2
1870/ não parece claro se foi um a reação dos nati vos con tra os foras­ Ruy ter
teiros. ou das classes médias protestantes anglo-saxô nicas con tra os Port ug,iI IX52 1:-<94 50 0~ aniversá ri o do

trabalhadores estrangeiros. Em todo caso, ele prod uzi u um inimigo in­ Infante Dom He nriqu e
terno contra o qual os bons americanos poderiam afirmar seu ameri­ Romên ia Ili" 5 1906 40 a nos de go ve rno
Rú ss i,1 IX'iX 1905-1913 Tricentenúrio da
canismo, assi m co mo o faziam pela execução escrupulosa de todos os hen eficênci a de guerra
rituais formais e informais. a afirmação de todas as idéias convencio­ Sérvia IX66 1904 Centenário da dí nas ti ,1
nai e institucionalmente estabelecidas como características dos bons Suíça IX50 190 7
americanos.
Podemos analisar mais brevemente a invenção das tradições do
estado em outros países da época. As monarquias, por motivos ób­ É quase certo que o jubileu da Rainha Vitória, de 1887, repetido
vios, tenderam a relacioná- Ias à coroa. e durante este período inicia­ dez anos mais tarde devido a seu incrível sucesso, tenha inspirado co­
ram-se os agora conhecidos exerclcios de relações públicas centrad os
nos rituais reais ou imperiais. bastante facilitados pela feliz descober~a
- ou talvez fosse melhor dizer invenção - do jubileu ou do an ive rsári o
33 . O "j ubileu ", exceto em seu sen tid o b í bli~ o, era anto:s apen as o qüinquagés imo ani­
versário de algum evento . Nào há indíci os a nteriores ao século XIX de que os centená­
rios, um o u vários, e muito men os os an iversá ri os de menos de cinqUent a anos fossem
ocas ião de comemoração pública . O Ne", English Dic l iollo,y comenta no verbete "iu bi
3 1. R. Firth, S)'II/bols, Puhlir al/d Pril'ote ( Londres. 1973). pp. 358-9; W. E D a vies, Pa­ leu " , "especia lmen te freqüentes nas d uas últim as décadas do século XIX com referência
Irlll ll\l/I 1111 I'O/'flll 1111' S I/ li I· 1/ 1' , '(' INOII I' 1II1l1 lI<'redil or!' Orgal/iJaliol/s i ll Ali"''''''' aos dois 'jubile us' da Rai nha Vi tó ria em I g~ 7 e I R97, o jubi leu su íço do Sindicato dos
1783- / YOO (Camb ridge, Mass ., 195 5), pp. 218. 22: Do ugla..~. op. cil. , pp. 326.7. Co rre ios em 1900 e o utras co me mo rações", v, p. 6 15.
32. Agradeço ~o Pro f. H erbert Gut man po r eSla observaçã o . 34. Fon te: Slamps of lhe Wo,ld /972 : A Stanley Gibbons Catalogue (L ondres, 1972).
290 291

memorações reais ou imperiais subseqüentes .na Gr~-~reta.nha e em universal de sua raça, não constituem mera representação, mas um acon­
todos os outros países. Até as dinastias maIs tradlclonal1stas - os tecimento do maior interesse histórico. ll
Habsburgos em 1908, os Romanovs em 1913 - descobriram oSYlé.ritos
desta forma de propaganda. Era nova na medida em que se dmgla ao A glória e a grandeza, a riqueza e o poder podiam ser simbolicamente
público, ao contrário dos cerimoniais criados para sim bolizar a rela­ compartilhados com os pobres da realeza e seus rituais. Quanto maior
ção entre os monarcas e a divindade e sua posição no ápice de uma o poder, menos atraente era, pode-se imaginar, a opção burguesa pela
hierarquia de magnatas . Após a Revolução Francesa, todo monarca monarquia. Podemos lembrar que na Europa a monarquia continuou
teve, mais cedo ou mais tarde, de aprender a mudar do equivalente na­ sendo a forma universal de estado entre 1870 e 1914, exceto na França
cional de "Rei da França" para "Rei dos franceses", ou seja, a estabe­ e na Suíça.
lecer uma relação direta com a coletividade de seus súditos, por mais
humildes que fossem. Embora também estivesse presente a opção es­ 11
tilística por uma "monarquia burguesa" (estreada por Luís Filipe), ela As tradições políticas mais universais inventadas neste período
parece ter sido adotada apenas pelos reis de países'humildes, que que­ foram obra dos Estados. Todavia, o surgimento de movimentos de
riam manter uma aparência de modéstia - os Países Baixos, a Escandi­ massa que reivindicavam status independente ou até alternativo para
návia - embora até alguns dos reis por direito divino - especialmente o os Estados acarretaram progressos semelhantes. Alguns destes movi­
Imperador Francisco José - pareçam ter representado o papel de fun­ mentos, principalmente o catolicismo político e vários tipos de nacio­
cionário esforçado, que vivia num conforto espartano. nalismo, estavam profundamente conscientes da importância do ri­
Tecnicamente, não havia grande diferença entre o uso político da tual, cerimonial e mito, incluindo, via de regra, um passado mitológi­
monarquia com o objetivo de fortalecer os governantes efetivos (como co. A importância das tradições inventadas torna-se ainda mais notá­
nos impérios Habsburgo, Romanov, mas também talvez indiano), e de vel quando elas surgem entre movimentos racionalistas que eram, pelo
constituir a função simbólica das cabeças coroadas nos Estados parla­ menos, relativamente avessos a elas, e que não tinham equipamento
mentares. Ambos baseavam-se na exploração da pessoa real, com ou simbólico e ritual pré-fabricado . Portanto, a melhor maneira de estu­
sem ancestrais dinásticos, em ocasiões rituais elaboradas a que se asso­ dar seu aparecimento está num desses casos - o dos movimentos socia­
ciavam atividades de propaganda e uma ampla participação do povo, listas operários.
ta mbém através do público cativo disponível para doutrinação oficial O principal ritual internacional destes movimentos, o IQ de Maio
no sistema educacional. Ambos faziam do governante o foco da uni­ (1890) desenvolveu-se espontaneamente dentro de um período sur­
dade de seus povos ou seu povo, o representante simbólico da glória e preendentemente curto. No princípio, compunha-se de uma greve ge­
grandeza nacional , de todo o seu passado e continuidade num presente raI de um dia e uma manifestação reivindicando uma jornada de tra­
em transformação. Todavia, as inovações foram talvez mais delibera­ balho de oito horas, marcadas numa data já associ ada durante alguns
das e sistemáticas onde, como na Grã-Bretanha, a restauração do ri­ anos com es ta exigência nos Estados Unidos. A escolha desta data foi
tualismo real era considerada uma compensação necessária para os certamente bastante pragmática na Europa. Provavelmente não tinha
riscos da democracia popular. Bagehot já havia reconhecido o valor importância ritual nos Estados Unid os, onde o "Oia do Trabalho" já
da deferência política e das partes "nobres" , ao contrário das "eficien­ havia sido estabelecido no fin al do verão. Ha vi a sido proposto, com
tes", da constituição na época da Segunda Lei Reformista. O velho certa razão, que essa data coincidisse com o "Dia da Mudança ", a
Disraeli, ao co ntrário do jovem , aprendeu a ter "reverência pelo trono da ta em que tradicionalmente se encerravam os contratos de trabalho
e seu ocupante" como "um poderoso instrumento de poder e influên­ em Nova Io rq ue e Pen nsylva nia.J6 Embora este, como períodos con­
cia". Ao fim do reinado de Vitória, já se compreendia bem a natureza trat uai s semelhantes em certas partes da agricul tura tradici onal euro­
deste artifíc io. J . E. C. Bodley escreveu sobre a coroação de Eduardo péia, tivesse origin almente feito parte do ciclo anual simbolicamente
VII :

o uso de um rito antigo por um po vo apa ixo nado porém prático para as­ 35. J. E . C. Bod ley , Tire Co mnatjCln o! EdIVard VII: A Chapter of European Q/rd Impe­
sinala r as maravi lhas modernas de seu im pério. o reconhecimento de ~ma ra/ !-fiUi)')' (Londres, 19(3), pp. 153, 201.
coroa heredi tária po r uma democracia livre, como sIm bolo d o domlnlo ~ /i . Mu uricc D omm an gct. IIlstoire du Prem iu M ai (Pari" 1953), pp . 36-7 .
292 293

herdado do ano de trabalho pré-industrial, sua ligação com o proleta­ pular, ao tiroteio do 19 de Maio, em Fourmies, 1891).·' Da mesma
ria do industrial era claramente fortuita. A nova Internacional Operá­ forma, o 19 de Maio desempenhou p apel capital do dese nvolvimento
ria e Socialista não considerou qualquer forma de manifestação em da nova iconograf,ia socialista da década de 1890 em que, apesar da cs­
particular. A idéi a de uma festa dos trabalhadores não só deixou de ser rerada ênfase na luta , O toque de esperança, confiança e a ap rox ima­
mencionada na resolução original daquela corporação (1889), como ção de um futuro melhor - muitas vezes expressas pelas met áfo ra s do
também foi rejeitada por razões ideológicas, por vários mi litantes re­ crescimento das rlant as - prevaleceram ."
volucionários. Acontece que o 19 de Maio começou numa época de extraordiná­
Mesmo assim, a escolha de uma data tão carregada de simbolis­ rio crescimento e enorme expansão dos movimentos operários e socia­
mo pelas antigas tradições revelou-se importante, embora - como pen­ listas de numerosos países, e dificilmente poderia ter-se estabelecido
sa Va n Gennep - na França o anticlericalismo do movimento operário num clima político menos promissor. O antigo simbolismo da prima­
lenha oposto resistência à inclusão de práticas folclóricas tradicionais vera, a ele associado de maneira tão fortuita, foi perfeito para a oca­
em seu 1° de Maio. H Desde o início, a ocasião atraiu e absorveu ele­ sião, no início da década de 1890.
mentos simbólicos e rituais, principalmente a de celebração semi­ Assim , a data transformou-se rapidamente numa festividade e
religiosa e sobrenatural ("Maifeier"), um feriado e um dia santo. ao rito anual altamente carregado. A repetição anual foi adotada para
mesmo tempo . (Engels, após referir-se a ele como uma "manifesta­ atender à demanda das camadas. Com ela, o conteúdo político origi­
ção" usa o termo "Feier", a partir de 1893. 38 Adler reconheceu este naI do dia - a exigência de uma jornada de trabalho de oito horas - fa­
elemento na Áustria a partir de 1892, Vandervelde na Bélgica desde talmente foi posto de lado, dando lugar a qualquer tipo de slogans que
I!593 .) Andrea Costa explicou-o de forma sucinta em relação à Itália atraíssem os movimentos operários nacionais num dado ano, ou, com
(I !593): "Os católicos têm a Páscoa; de hoje em diante, os trabalhado­ mais freqüência, a um<l afirmação não específica da presença da classe
res terão sua própria Páscoa"; l9 há referências também a Whitsún, em­ operária e, em muitos países latinos, a comemoração dos "Mártires de
bora mais raras . Ainda existe um "sermão do 19 de Maio" curiosa­ Chicago". O único elemento original mantido foi o internacionalismo
mente sincrético, de Charleroi (Bélgica), 1898, encimado por duas epí­ da manifestação, de preferência simultâneo: no caso extremo da Rús­
grafes: "Proletários de todas as terras, uni-vos" e "Amai-vos uns aos sia de 1917, os revolucionários chegaram a mudar seu próprio calen­
ou t ros". '" dário, para poder comemorar o Dia do Trabalho na mesma data que O
As bandeiras vermelhas, únicos símbolos universais do movimen­ resto do mundo. E, de fato, o desfile público dos trabalhadores como
uma classe constituía o núcleo do ritual. O I Q de Maio era, conforme
to, fizeram-se presentes desde o início, assim como as flores, em vários
países: '0 cravo vermelho na Áustria, a rosa vermelha (de papel) na alguns comentaristas, o único feriado, mesmo entre os aniversários ra­
dicais e revolucionários, a associar-se apenas à classe operária; embora
Alemanha, a silva e a papoula na França, e a flor do pilriteiro, símbolo
da renovação, cada vez mais difundida e, a partir de meados da década - pelo menos na Grã-Bretanha - comunidades específicas de operários
de 1900, suostituída pelo lírio-do-v ale, sem associações políticas. Pou­ já mostrassem sinais de estarem criando apresentações coletivas gerais
co se sabe acerca des.ta linguagem das flores que, a julgar também pe­ como parte de seu movimento. (A primeira festa dos mineiros de
los poemas do 19 de Maio da literatura socialista, associava-se espon­ Ou rham foi em I!571. )'3 Como todos os cerimoniais do gênero, era, ou
taneamente à ocasião. Sem dúvida, isso acentuava a tônica do 19 de tornou-se, uma ocasião familiar basicamen te bem-humorada. As ma­
Maio, tempo de renovação, crescimento, esperança e alegria (vide a nifestações políticas dássicas não eram necessariamente assim . (Esta
menina com um ramo de pilriteiro em flor, associada, na memória po­ característica ainda pode ser observada em "tradições inventadas"

41. Maxime Lero)'. La COUlume Ouvriere (Paris, 1913), i, p. 246.


37. A . Van Gennep. M anuel de Folklo re Fran çais 1. iv. Les Céremollies Péri"diques C,·­ 42. E. J . H obsba wm, "Man and W oman in Socialist Ic onography", HislOry
cliques <'I 5aiso",áes. 2: C ycle de Mai ( Pa ri s. 1949). p. 1.719 . Workshop. vi, (outono 1978), pp. 121-38; A. Rossel, Premier Mal. Qualre- Vingl-Dix ans
38. Engels a Sorge. 17 de maio de 1893, in Briefe und Auszüge aus Briefen an F A . 50r­ de LLI/les PI1f1ulai re.< dons lI! Monde (Paris. 1977).
geu. A . (S tuttgarl, 1906), p. 397 . Veja ta mbém , Vi ctor Adler. Aujsâ/: e. Redell1 und Bri,,!e 43. Edward Welbourne , Th e Miners ' Unio/lS of Norlhumberland and Durham
(Viena. 1922). i. p. 69. (Cambridge, 1923), p. 155; John W ilson, A HiJl ory of lh e Durham Miners ' Associa/ion
39. Dommangel, op. cit.. p. 343. 1870- 1904 (Durham. 1907), pp . 31, 34, 59; W . A. M oyes. The Banner Book (Galeshead,
40. E. Va ndervelde e J . Destrée, Le 50cialisme en Belgique (Paris, 1903), pp. 41 7- 18. 1974) . Es ta s rnan if.:stações a nuais parecem ler-se originado em Yorkshire, e m 1~6 6 .
294 295

mais recentes, como as festas nacionais do jornal comunista italiano separáveis, isso não quer dizer que as duas coisas fossem idênticas en­
Unità.) Como todas elas, combinava a animação e entusiasmo público tre si. " O m ov imento" desenvolveu suas próprias tradições, comparti­
e particular com a afirmação de lealdade ao movimento, elemento bá­ lhadas por líderes e militantes, mas não necessariamente por eleitores e
sico da consciência d a classe operária: a retórica - naquela época , . a deptos, c , por outro lado, a classe poderia desenvolver "tradições in­
qu a nto mai s longo O discurso , melhor, uma vez que um bom discurso ventada s" pró prias, independentes dos movimentos orga nizados, ou
até mesmo suspeitos aos olhos dos ativistas. Vale a pena exam inar bre­
representava inspiração e divertimento - estandartes, emblemas, slo­
vemente duas dessas tradições , ambas óbvios produtos de nossa era. A
gans, e daí por diante. De forma ainda mais decisiva, afirmou a pre­
primeira é o surgimento - especialmente na Grã-Bretanha, mas talvez
sença da classe operária at ravés da mais básica manifestação do poder
também em outros países - de roupas como expressão de classe. A se­
proletário : a abstenção do traba lho . Pois, paradoxalmente, o sucesso
gunda relaciona-se aos esportes de m assa .
do 19 de M a io tendia a ser proporcional à sua distância d as a tividades
Não é por acaso que a história em quadrinhos que satiriza leve­
cotidianas concretas do movimento. Era maior onde a aspiração so­
mente a cultura operária masculina tradicional d a velha área indus­
cialista prevalecia sobre o reali smo político e a prudência sindical que,
trial da Grã-Bretanha (principalmente o Nordeste) tem como título e
como na Grã-Bretanha e Alemanha," recomendava que houvesse uma
símbolo o boné, que era praticamente o distintivo da classe proletária
manifestação, todo primeiro domingo do mês, além do dia anual de
quando não estava trabalhando: Andy Capp ("Zé do Boné"). Existia
greve em 19 de Maio . Victor Adler, percebendo a disposição dos traba­
também na França uma equivalência semelhante entre classe e boné,
lh adores austríacos , in sistira na greve, ao contrá rio dos co nselhos de
até certo ponto," assim como em algumas partes da Alemanha. Na
Kautsk y,'S e assim o 19 de Maio austríaco adquiriu uma força e uma
Grã-Bretanha , ao men o s, segundo indícios iconográficos, os proletá­
repercussã o fora do comum . Portanto, como vimos, o 19 de Maio não
rios não eram universalmente relacionados ao boné antes da década de
fo i formalmente inventado pel os líderes do movimento, mas aceito e
1890, mas no fim do período eduardino - como provam fotos de mul­
institucionalizado por eles por iniciativa de seus seguidores .
tidões saindo de jogos de futebol ou de assembléias - tal identificação
A força da nova tradição fo i nitidamente avaliad a por seus inimi­ era quase completa . A ascensão do boné proletário ainda está à espe­
gos . Hitler, com seu agudo sen so de simbolismo, houve por bem não
ra 'de um cronista. Ele ou ela, supostamente, descobrirá que sua histó­
só a dotar a cor vermelha da bandeira dos trabalhadores, mas também ri a tem relação com a do desenvolvimento dos esportes de massa, uma
o 19 de Maio, convertendo-o num "dia oficial nacional do trabalho", vez que este tipo específico de chapéu surge a princípio como acessório
em 1933 , e mais tarde a tenuando s uas relações com o proletariado .'! esportivo entre as classes alta e média. Sejam quais forem suas origens,
Pode-se acrescen tar en passant q ue a da ta era agora um feriado geral ele tornou-se obviamente característico da classe operária, não só por­
trab <J lhista na Comunidade Econômi ca E uropéia .
que membros de outras classes, ou aqueles que aspiravam a esse status,
O 19 de Maio e os rituais trabalhi stas semelh a ntes situam-se entre não qui sessem ser confundidos com operários, mas também porque os
as tra dições "políticas" e " sociais" , pertencendo ao grupo das primei­ trabalhadores braçais não estavam interessados em escolher (a não
ras a través de sua associaçã o com as organizações de ma ssa s e parti­ ser , sem dúvida , para ocasiões de gra nde formalidade) qualquer outra
dos que podi a m - e de fato vis ava m - torn a r-se reg imes e estados; e ao forma de cobrir a cabeça, dentre as muitas existentes. A manifestação
grupo d as segundas porque manifestavam de fo rma autên tica a co ns­ de Keir Hardie, que entrou no Parlamento de boné (1 892) indica que
ciência q ue os trab a lh adores ti n ha m d e serem uma classe à parte, visto era reconhecido o elemento de afirmação de classe." É razoável s upor
qu e esta consciência era insepará vel d as organizações correspo nden­ que as massas sabiam d isso . D e alguma fonn a não muito clara, os p ro­
tes. em bora em muito s casos - t<Jis com o a Social-Democraci a au stría­ letários adquiriram o há bito de usar o boné bem rápido, nas últimas
ca , o u os mineiros britânicos - a classe e a o rganiz ação torn ara m -se in­

47. " L'o uvrier même ne porte pas ici la casquette et la blo llSe" (aqu i os operá rios mes­
44. Ca rl Scho rske, Gl'rma/l Social Democracy, 1905-1 7: Th f! De velopm f!nl oflhe Greal mo não usam a blusa e o bo né) comentou desdenhoso Jlll ~ Valles em Londres , em 1872
S ch/1m (No va Io rq ue , ed. 1965), pp . 91-7. - ao contrário d os pa risienses. q ue tinham co nsciência d e classe. Pa ul Martin ez, The
45. M. Erm crs, Viclor A'dl",: Aufs lieg u. Grosse einer sozialislischen Portei (Vi ena e French Communard Re/ugl'es in Briloin, 1871 -1880 (Univ. de Susse)(, tese de doutorado,
Lei pZJg, 1932), p. 195. 198 1), p. 341.
46 . Hel mu t Ha rt wig, " Plaketten zu m I. M ai 1934-39", Aeslhelik und Ko mmunicalion , 48 . O boné tipo caçado r de veado usad o pelo pró prio Ha rdie represen ta um a tra nsição
vi i, n. 26 ( 1976), p p . 56-9 . pa ra a quel e! d o tipo "Zé do Boné", q ue afi nal se u rlÍversalizou .
296 297

décadas do século XIX e na primeira década do século XX, como par­ base comum para conversa entre praticamente qualquer par de operá­
te da síndrome característica da "cultura operária" que se delineava rios do sexo masclllino na Inglaterra ou Escócia, e alguns jogadores
então. artilheiros representavam um ponto de referência com um a todos.
A história equivalente do vestuário do proletariado em outros A natureza da cultura do futebol neste período - antes de haver
países ainda não foi escrita . Aqui podemos apenas observar que suas penetrado muito nas culturas urbanas e industriais de outros países;) ­
implicações políticas eram perfeitamente compreendidas, senão antes ainda não foi bem compreendida . Sua estrutura socioeconômica, po­
de 1914, certamente entre as guerras, conforme testemunha a seguinte rém, é mais compreensível. A princípio desenvolvido como um esporte
lembrança do primeiro desfile Nacional-Socialista (oficial) do I~ de amador e modelador do caráter pelas classes médias da escola secun­
Maio, em Berlim, 1933: dária particular, foi rapidamente (1885) proletarizado e portanto pro­
Os trabalhadores .. . vestiam ternos batidos mas limpos, e usavam aque­ fissionalizado ; o momento decisivo simbólico - reconhecido como um
les bonés de marinheiro que na época eram um sinal geral externo distin­ confronto de classes - foi a derrota dos Old Etonians pelo Bolton
tivo de sua classe . Os bonés estavam enfeitados com uma tira discreta, Olympic na final do campeonato de 1883. Com a profissionalização, a
quase sempre de verniz preto, mas freqUentemente substituída por uma maior parte das figuras filantrópicas e moralizadoras da elite nacional
tira de couro com fivelas . Os social-democratas e os comunistas usavam . afastou-se, deixando a administração dos clubes nas mãos de negocian­
este tipo de tira nos bonés, os nacional-socialistas usavam outro, dividido tes e outros dignitários locais, que sustentaram uma curiosa caricatura
no meio. Esta pequena diferença repentinamente saltou aos olhos. O sim­
das rel ações entre classes do capitalismo industrial, como empregado­
ples fato de que mais trabalhadores do que nunca usavam a tira dividida
nos bonés trazia a notícia fatal de que uma batalha estava perdida." res de uma força de trabalho predominantemente operária, atraída
para a indústria pelos altos salários, pela oportu.njdade de ganhos ex­
A associação política entre operário e boné na França entre as guerras tras antes da aposentadoria (partidas beneficentes), mas, acima de tu­
(la salopelle) também é fato comprovado , mas falta pesquisa sobre sua do, pela oportunidade de adquirir prestígio. A estrutura do profissio­
história antes de 1914. nalismo do futebol britânico era bastante diferente da do profissiona­
A adoção dos esportes, principalmente o futebol, como culto pro­ lismo nos esportes em que participavam a aristocracia e a classe média
letário de massa é igualmente confusa, porém sem dúvida igualmente (críquete) ou que estas co ntrolavam (corridas), ou da estrutura da in­
rápid a. 10 Neste caso, é mais fácil estabelecer uma cronologia. Entre dústria dos espetáculos populares, e da de outros meios pelos quais a
meados da década de 1870, no mínimo, e meados ou fins da década de classe operária fugia de sua sina, que também forneceram o modelo
I ggO, o futebol adquiriu todas as características institucionais e rituais para alguns esportes dos pobres (luta livre).;)
com as quais estamos familiarizados: o profissionalismo, a Confedera­ É altamente prová vel que os jogadores de futebol tendessem a ser
ção, a Taça, que leva anualmente em peregrinação os fiéis à capital recrutados entre os operários habilidosos ,14ao que parece ao contrário
para fazerem manifestações proletárias triunfantes, o público nos está­ do boxe, esporte que buscava seus praticantes em ambientes onde a ca­
dios todos os sábados para a partida do costume, os "torcedores" e pacidade de domin ar o próprio corpo era úti l para a sobrevivência,
sua cultura, a rivalidade ritual, normalmente entre facções de uma ci­ como nas grandes favelas urbanas, ou fazia parte de uma cultura ocu­
dade ou co nurbação industrial (Manchester City e United, Nolts pacional de masculinidade, como nas minas. Embora o caráter urbano
County e Forest, Liverpool e Everton). Além disso, ao contrârio de e proletário das multid ões a ficionadas do futebol seja patente,l; não se
outros espo rtes com bases proletárias locais ou regionais - tais como o
rugby union, no Sul de G ales ,l ' o críquete, em certas áreas do norte da
Inglaterra - o futebol funcionava numa escala local e nacional ao mes­ 52. Ele fo i muita s vezes intr od uzi d o no e,tr~n g dro por e~pa tri a do s brit tlni cos e por ti­
mo tempo, de forma que o tóp ico das partidas do dia forneceria uma mes d e fábri cas locu i ~ de (ldm ini straciío brit â nica mas. emb o ra tenh a nitid a mente sid o ,
a té ce rt o po nt o. na tur a lizad.o em 19 14 em a lg umas capit a is e distritos industriais d o con­
t inente . mal ha \'Ía Se torn ado um esp o rte de m~s sus .
53 . W . F . Mandle, "The Pro fc ssional Cricketer in England in the Nineteenth Centu­
49. Stepha n Her mlin, Abendlichl (Leipzig , 1979), p. 92. ry ", Labour Hislory (Periódi co da Sociedade A ustraliana para o Estudo da História do
50. Tony M ason, Associalion Foo lba/l and English Sociely, 1863-1915 (Br ighton , Operariado), xxiii (nov . 1972). pp . 1-1 6; Wra y Va mpley, The Turf' A Social and Econo­
1980). mie Hisrory of Horse Racin[! (Londr~s, 1976).
5 I . Cf. David B. S mith e Gareth W. Williams, Field of Praise: Official Hislory of lhe 54. M ason , op. cU .. pp . 90-3 .
j,j' e/.<h Rugby Uniol1 . /88 /-/ 98/ (Cardiff, 198 1). 55 . M ason. op . cil. , pp . 153-6 .

......

298 299

conhece exatamente sua composição precisa por idade ou origem so­ campeonatos profissionais começaram na França em 1881 , na Suíça e
cial; nem a evolução da "cultura do torcedor" e suas práticas; nem até Itália a partir de 1892 e na Bélgica a partir de 1894. Sem dúvida, o
que ponto o típico fã de futebol (ao contrário do típico adepto das cor­ forte interesse comercial dos fabricantes e outros interesses publicitá­
ridas) era ou tinha sido um jogador amador ativo. Por outro lado, rios aceleraram a popularidade desse esporte. 59
sabe-se que, embora, como indicam as últimas palavras apócrifas de
um militante operário, para muitos membros do proletariado a devo­ III
ção a Jesus Cristo, Keir H a rdie e ao Huddersjield United era indivisí­ Estabelecer a presença de classe de uma elite nacional da classe
vel , o movimento organizado mostrou uma falta geral de interesse por média e a caracterização de uma classe média muito maior era um
isso, assim como por vários outros aspectos não políticos da consciên­ problema muito mai s difícil, mas um tanto urgente numa época em
cia de classe operária. Aliás, ao contrário da social-democracia centro­ que as profissões reivindicavam status de classe médi a, ou o número
européia, o movimento operário britânico não desenvolveu suas pró­ daqueles que aspiravam a elas a umentava com relativa rapidez nos paí­
prias organizações esportivas, com a possível exceção de clubes de ci­ ses em fase de industrialização . O critério para pertencer a estas classes
clismo na década de 1890, em que eram óbvios os vínculos com o pen­ não podia ser tão simples quanto o nascimento, a propriedade, o tra­
samento progressista . \. balho braçal ou o recebimento de salários, e embora sem dúvida fosse
É muito pouco o que sabemos sobre o esporte de massas na Grã­ uma condição necessária ter um mínimo socialmente reconhecido de
Bretanha , mas sabemos ainda menos sobre o continente. Ao que pare­ bens imóveis e renda, isso ainda não era o bastante. Além do mais ,
ce, o esporte, importado da Grã-Bretanha, permaneceu monopolizado norm a lmente tal classe incluía pessoas (ou antes, famílias) com uma
pela classe média por muito mais tempo que em seu país de origem, ampla esfera de fortuna e influência, cada camada inclinada a despre­
mas sob outros aspectos a atração que o futebol exercia sobre a classe zar seus inferiores. A fluidez das fronteiras tornava difícil distinguir
operária, a substituição do futebol da classe média (amador) pelo ple­ com clareza os critérios de distinção social. Uma vez que as classes mé­
beu (profissional) e a ascensão da identificação das massas urbanas dias eram por excelên cia o lugar onde se dava a mobilidade socia l e o
com os clubes, desenvolveram -se de modos semelhantes.l ' A principal a perfeiçoamento individual , dificilmente se poderia impedir a admis­
exceção, à parte as competições mais parecidas com espetáculos teatrais são a elas. Era um problema que abrangia dois aspectos. Em primeiro
do que atividades desportivas, tais como a luta romana (supostamente lugar, como definir e separar a elite nacional autêntica de uma classe
devida ao movimento dos ginastas alemães, mas com forte adesão po­ médi a alta' (haute bourgeoisie, Grossbürgertum) , uma vez que os crité­
pular), era o ciclismo. No continente, este era, provavelmente, o único rios relativamente fixos pelos quais se podia determinar a qualidade
esporte de massas moderno - conforme atesta a construção de "veló­ subjetiva de membro da classe nas comunidades locais estáveis haviam
dromos " nas grandes cidades - quatro só em Berlim antes de 1913 - e sido desgastados, e a descendência, parentesco, os casam.entos, as redes
a instituição do Tour de France em 1903 . Tudo indica que pelo menos loc ais de negócios, a sociabilidade particular e a política já não repre­
na Alemanha os maiores ciclistas profissionais eram operários .58 Os sentavam critérios seguros. O segundo aspecto era como estabelecer
uma identidade e uma presença para a massa relativa mente ampla da­
56. Isso faz lembr ar os Clubes de Ciclismo Clarion, mas também a fundação do Clube queles que não pertenciam a esta eliie, nem às "massas" - nem mesmo
Ciclístico Oadby, por um caçador clandestino, ativista operário e membro dajunta pa­ àque la categoria nitidamente inferior da pequena burguesia das "clas­
roquial, radical e local. A natureza deste esporte - na Grã-Bretanha tipicamente pratica­ ses médias baixas", que pelo menos um observador britânico classifi­
do por amadores jovc;ns - era hastante diversa da do esporte proletári o de ma ssa. Da vid cou ao lado dos trabalhadores braçais, colocando-as no mundo "das
Prynn. "The Cl arion Cluhs. Rambling and Holiday Associations in Britain since the
1X90s" . .Intimai oi Crll1lell/fwrarr l/i.\ lorr. xi. n. 2 e 3 Uul. 1976), pp . 65-77; anÔn., "Thc
escolas primárias municipais" . 60 Poderia esta identidade ou presença
Clarion h :llowshir". Mar.\ Mell/orial Lihrary Quarler/y Bul/e/in. Ixxxvii (jan-mar 19 76). ser definid a ou definir- se de outra forma além de "consiste basicamen­
pp. 6-9: James Hawkcr. A lIierorian Poa cher, org . por G. Ch ri stian (Londn:s. 1961 ), pp. te de famílias num processo de ascensão social", como sustentava um
25-6.
observador francês do contexto britânico, ou como o que restou de­
57 . Do cluhe do Ruhr . Schal'ke 04. eram mineiros, operários ou artes:ios 35 entre 44 pois que as massas mais facilmente reconhecíveis e os "dez mais " fo­
membros identificáveis em 1904-13, 73 entre 88 no período de 1914-24, e 91 entre 122 de
1924-34. SiegJried Gcrhmann. " Fusshall in einer Industrieregion"; J . Reulecke e W. We­
ber (org.). Fall/ili". Fahril. . Fl'ierahelld (Wupperla l. 197M), pp . 377-9M . 59 . Dino Spatazza Moncad a, S/oria dei Ciclismo dai Primi Passi ad Oggi (Parma, s. d.).
58 . A n ncmarie Lange. Das Wilhelminische Berlin (Berlim Oriental, 1967), capo 13. 60. W. R. Lawson, J ohn Buli and his Schools: A Bookfor Parencs, R acepayers and Mell
princ. pp. 561-2 . of Business ( Edi mburgo e Lond res, 1908), p. 39 .

.......

300 301

ram subtraídos da população, como comentou um observador in­ exclusiva entre a classe média branca. A F. R.A. não tinha mais de
glês?61 Para complicar a questão, surgiu um terceiro problema: o apa­ 30.000 membros em 1900, principalmente nas fortalezas do dinheiro
recimento da mulher de classe média, cad a vez mais emancipada no " velho" - Connecticut, Nova Iorque, Pensi lvânia - embora também
pa lco público por direito próprio . Enquanto o número de meninos nos entre os prósperos milionários de Chicago. o l Organizações como esta
lycées fra nceses entre 1897 e 1907 aumentou apenas discretamente, o diferiam das tentativas muito mais restritas de estabelecer um grupo
número de meninas elevou-se em 170 por cento . de fam íli as como elite semi-aristocrática (através da inclusão num Re­
Para as classes médias altas ou "haute bourgeoisie", os crité rios gistro So cial, ou coisa parecida) , visto que estabeleciam ligações de
e instituições que antes ser viam para separar uma classe aristocráti­ âmbito nacional. Certamente, era mais provável que a F.R .A. , menos
ca dominante forneceram obviamente um modelo: tinham simples­ exclusiva, descobrisse membros apropriados em cidades como Omaha
mente de ser ampliados e adaptados. O ideal era uma fusão das duas do que um Registro Social muito elitista. A história da pesquisa da
classes, na qual os novos componentes se tornassem irreconhecíveis, classe média sobre sua genealogia ainda está para ser escrita, mas a
emhora isso provavelmente não fosse possí vel nem mesmo na Grã­ concentração americana sistemática nesta busca era provavelmente, '
Bretanha, onde era totalmente admissível que uma família de banquei­ nesta época, relativamente excepcional.
ros de Nou,ingham lograsse, através de várias gerações, unir-se à reale­ Muito mais importante era a educação escolar, suplementada, em
za por meio de casamentos. O que tornava possíveis as tentativas de certos aspectos, pelos esportes amadores, intimamente ligados a ela
assimilação (na medida em que fossem institucionalmente permitidas) nos países anglo-saxônicos. A escolarização fornecia não só um meio
era aquele elemento de estabilidade que, conforme um observador conveniente de comparação entre indivíduos e famílias sem relações
francês, distinguia as gerações da alta burguesia que já haviam chega­ pessoais iniciais e, numa escala nacional, uma forma de estabelecer pa­
do ao topo e Se estabelecido como alpinistas de primeira geração."~ A rá­ drões comuns de comportamento e valores, mas também um conjunto
pida aquisição de fortunas fabulos as poderia também capacitar os plu­ de redes interligadas entre os produtos de instituições comparáveis e,
tocratas de primeira geração a pagarem para entrar num contexto aris­ indiretamente, através da institucionalização do "aluno antigo". "ex­
tocrático que nos países burgueses baseava-se não só no título e na aluno:' ou "Alte Herren " . uma forte tei a de estabilidade e continuida­
descendência como também em dinheiro suficiente para lev ar-se um de entre as gerações. Além disso, permitia, dentro de certos limites, a
estilo de vida adequadamente disso luto.! ) Na Grã-Bretanha eduardi ­ possibilidade de expansão para uma elite da classe média alta, sociali­
na, os plutocratas aproveitavam avidamente essas oportunidades.64 zada de alguma maneira devidamente aceitável. Aliás, a educação no
Contu do, a assimilação individual só se aplicava a uma reduzida mi­ século XI X tornou-se o mais conveniente e universal critério para de­
nona . terminar a estratificação social, embora não se possa definir com pre­
O critério aristocrático básico de descendênci a poderia, entretan­ cisão quando isto aconteceu. A simples educação primária fatalmente
to. ser adaptado para definir uma nova e ampla el ite da alta classe mé­ class ificava uma pessoa como membro das classes inferiores. O crité­
dia . Assi m. surgiu uma verdadeira paixão pela genealogia nos Estados rio mín im o para q ue algu ém pudesse ter status de classe média reco­
Uni dos na década de 1890. Fo i an tes de mais nada um interesse femi­ nhecido era educação secu ndária a partir de. aproximadamente. 14 a
nin o: as " Fil has da Revoluçã o Americana" (1890) subsistiram e flores­ 16 an os. A educação su perior, exceto' por certas formas de instrução
ceram, enq uan to os " Fil hos da Revolução American a", organização estritamen te vocacional , era sem dúvi da um passaporte para a alta
um pouco mais antiga , extinguiu-se. Embora o objetivo manifesto fos­ classe média e outras el ites. Segue-se. a propósito , que a tradicional
se distinguir os americanos nati vos , brancos. pro testantes. da massa de práti ca b urg uesa-empresarial de in iciar os filhos no serviço da empresa
no~ps imigrantes, seu objetivo real era estabelecer um a ca mada alta em mead os da adol escência, ou de abster-se da educação universitária.
começou a perder terreno . Foi certam ente o que ocorreu na Alema­
n ha, onde, em 1867, 13 de 14 cidades industriais da Renânia recusa­
r~llll-se a contribuir para a comemoração do qüinquagésim o aniversá­
6 1. Pa ui Descam ps, L 'Educa/ion dans II!.ç { coles A I/gla/\es , Biblioteca da Ciência Socia l
(P~ris . ian 1911 l. [J . 2": L,,\ so no op. ci/ .. [J. 24 .
rio da Universidade de Bonn , alegando qué nem os industriais. nem
62 . Dcsca mps, op. cU., pp. 11, 67.
63 . Ibid.. p. 11 .
64. J amic C a mplin. Th e Rise 01 lhe PIUl ocrals: Wl!allh al/d Po wer in Ed ,• .;;rdian En­
glal/d (Londres. 1978). 6~ . Da\ies. Pa/rio/il/II 011 /'al'Ode. flP . 47 . 77 .
302 303

seus filhos a freqüentavam. 66 Lá pela década de 1890, a percentagem Áustria, França e Noruega , e passou do dobro na Bélgica e Dinamar­
de estudantes de Bonn oriundos de famílias da Besitzbürgertum tinha ca.?1I A expansão nos Estados Unidos foi ainda mais espetacular. Em
aumentado de cerca de vinte e três para pouco menos de quarenta, en­ 1913 já havia 38,6 estudantes por cada 10.000 habitan tes do país, com­
quanto aqueles oriundos da burguesia profissional tradicion a l (Bi/­ parado ao número continental normal de 9-11 ,5 (e menos de 8 na Grã­
dungsbürgertum) haviam baixado de 42 para 31 % .6? Foi provavelmente Bretanha e Itália). ?1 Era preciso definir a elite efetiva no seio do con­
o que ocorreu na Grã-Bretanha, embora observadores franceses da dé­ junto cada vez maior daqueles que possuíam o pas sa porte educacional
cada de 1890 ainda registrassem, surpresos, que os ingleses raramente exigido .
saíam da escola depois dos 16 anos. 68 Decerto, este não era mai s o caso Num sentido lato, est a elite foi agredida pela institucionalização.
da "alta classe média" , apesar de não terem sido feit as muitas pesqui­ O Public S chouls Yearb oo k, publicado a partir de 1889, estabelecia que
sas sistemáticas sobre o assunto. as escolas que faziam pa rte da chamada Conferência dos Diretores
A educação secundária fornecia um critério amplo de ingresso na constituíam uma comunidade nacional ou até internacional reconhecí­
classe média, porém amplo demais para definir ou selecionar as elites vel, senão de iguais, pelo menos de comparáveis; e a obra de Baird,
em rápida evolução, e que, embora numericamente bem pequenas, e ;!II/erican ('ollege Fralern ilies, com sete edições entre 1879 e 1914, fez o
sendo chamadas de classe dominante ou "establishment", er a m quem mesmo com os " Grêmios das Letras Gregas" , associações cujos
dirigia as questões nacionais dos países . Mesmo na Grã-Bretanha, membros constituíam a elite entre a massa de estudantes universitários
onde não existia sistema secundário nacional antes do século XX , foi americanos. Ainda assim, a tendência dos aspirantes a imitar as insti­
preci so formar uma subclasse especial de "escolas secundárias particu­ tuições dos bem-sucedidos fez com que se tornasse necessário traçar
lares" dentro da educação secundária. Foram definidas oficialmente um limite entre as "classes médias altas" autênticas, ou elites, e os
pela primeira vez na década de 1860, e cresceram tanto pel a ampliação iguais menos iguais do que o restante.72 A razão disso não era apenas o
das nove escolas então reconhecidas (de 2.741 meninos em 1860 para esnobismo . Uma elite nacional em desenvolvimento também exigia a
4.553 em 1906) e tam bém pelo acréscimo de mais escolas consideradas construção de redes de interação realmente eficazes .
de elite. Antes de 1868, no máximo duas dúzias de escolas eram sérias f: aí, pode-se dizer, que está a importância da instituição dos "a­
.candidatas a tal status, mas em 1902, de acordo com os cálculos de lunos antigos", "ex-alunos" ou "Alte-Herren", que ora evoluía, e sem
Honey, já havia uma "lista curta" mínima de até 64 escolas e uma "lis­ a qual não poderiam existir como tais as "redes de alunos antigos".
ta longa" máxima de até 104 escolas, com uma margem de aproxima­ Na Grã-Bretanha surgiram "jantares de antigos", ao que parece na
damente 60 em posição mais duvidosa. 69 As universidades expandi­ década de 1870, "associações de anti gos" apareceram mais ou menos
ram-se neste período pelo aumento de matrículas, ao invés de por no­ na mesma época - multiplicaram-se especialmente na década de 1890,
vas fundações, mas este crescimento foi expressivo o suficiente para logo seguido s da invenção de uma "gravata da ex-escola" adequada. 73
produzir sérias preocupações com a superprodução de graduados, Aliás, só no fim do século é que parece ter-se tornado comum que os
pelo menos na Alemanha . Entre meados da década de 1870 e da de pai s enviassem os filhos à sua ex-escola : apenas 5% dos alunos de Ar­
1880, o número de estudantes chegou quase a dobrar na Alemanha, nold matricularam seus filhos em Rugby.' 4 Nos Estados Unidos, a

66. Cita do in J. Hobsb a wm, The Age ofCapilal (Publ. no Br~sil com o títul o A Era do
70. J . Conra d , "Die Freq uenzve rh ã ltnisse der Universitaten der hauptsãc hl ic hsten
Capital) (Londres, 1977), p. 59; F . Z unkel, "Industriebürgertum in Westdeutsc hlan d",
Kulturlãnder a uf dcm Europãischen K o ntinent " , Jahrbüeh er f N. ()K u. StalÍJlik, 3' sé­
in H .U . Wehler (org.), J!()dern e Deulsche S ozialgeschichle (Col ônia e Berlim, 1966). p .
rie , i (1891), pp. 376-94.
323.
71. Jo seph Ben- Dav id , " Professions in the Class System of Present-Day Societies'·.
67. K . H . Jarausch, "The So cial Transformation of the University: The Case of Prus­
Currelll S ociology. xii , n. 3 (1963-4) , pp . 63-4.
sia 1865 -1915", Journal of Social Hislory, xii, n. 4 (1979 ), p. 625.
72. "Em conseqüência do esnob ismo generalizado dos ingleses, principa lmente dos
68. M ax Leclerc, L'Eduealion des Classes M oy enn es el Dirigeanles en Anglelerre (Pa­
que ascendiam na escala socia l, a educ ação das c lasses médi as tende a seguir o modelo
ris, 1894), pp . 133, 144; P. Burea u, "M on Séjour dans une Petite Ville d'Angleterre", La
da educaçào da classe média alta , embora com men or dispêndio de tem po e dinheiro. "
SeleI/ c/! S ociale (sui "anl la M élhode de F. Le Play) , 5. ano , ix (1890), p. 70. Cf. também
Desca mps , L'Educal ion da n.r le" t.e()le.l· Anglaises, p. 67. O fenômeno esta va longe de scr
Pat ri c k Joyce, Work , S ociel)' and Po/ilies: The Cullure of lhe Fa elOry in Laler Viclorian
England (Brighton, 1980), pp . 29- 34. puramente britânico .
69. J . R . de S. Honey, Tom Brown 's Un iverse: Th e Developmenl of lhe Vielorian Pub/ie
73 . "lhe Book or PlIhlic 5c17001. Old Boy" , Uni\'(!rsily. Na v)', Army , Air Force and Club
Ties, intr. por Jam es Lave r (Lond res, 1968), p. 31; veja também H o ney. op. cit.
Sehool (Londres, 1977), p. 273.
74 . H on ey, op. C/I . , p. 153 .

.-.

304
305

criação de " associações de ex-alunos" com eçou também na década de


I ~no . "formando círculos de homen s cultos que de outra maneira não
Quadro 2. Ex-A/unos da De/ta Kapa fpsi/oll ( DartmouthF'
ile conheceriam". ' e assim um pouco mais tarde. construíram-se dabo­
radas sedes de grêmios nas faculdades . financiadas pelos ex-alunos,
que dessa forma demonstravam não só sua fortuna e seus vínculos en­ Década
tre gerações, mas também - como em processos semelhantes nos 1850 1890
"Korps" est udantis da Alemanha'~ - sua influência sobre a geração
ma isjovem. Assim, o grêmio Beta Teta Pi em 1889 tinha 16 associa­
ções de ex-alunos, mas em 1913 já havia 110; apenas uma sede em 1889 Funcioncirios públicos e do j udiciário 21 21
(embora outras sedes já esti vessem em const rução), mas 47 em 1913. O Médicos 3 17
Fi Delta Teta ganhou a primeira associação de ex-alunos em 1876, Pastores 6 10
mas já em 1913 o número havia aumentado para cerca de uma cente­ Professores g 12
na. Empresários 8 27
Jornalistas e intelectuais I 10
Nos Estados Unidos e na Alemanha o papel destas redes entre ge­
Outros 3 5
rações era desempenhado conscientemente, talvez porque em ambos 50 102
Total
os pa íses ficasse muito nítida sua função primeira . de fornecer homens
para o serviço público . Os "Alte Herren" ativos nos "Kõsener
Korps", as associações de elite deste tipo na década de I 870, incluíam ta, um James N. Hill e um Weyerhaeuser. deve ter sido uma incrível
18 ministros, 1335 funcionários públicos, 648 funcionários do judiciá­ máfia dos negócios. Na Grã-Bretanha, pode-se dizer , as redes infor­
rio, 127 funcionários municipais, 130 militares, 651 médicos (10% dos mais, criadas pela escola e pela faculdade, fortalecidas pela continui­
quais militares), 435 professores secundários e universitários e 331 ad­ dade fami liar. pela sociabilidade empresarial e pelos clubes, eram mais
vogados. Estes números ultrapassavam de longe os 257 "proprietá­ eficazes que as associações fo rmais. Pode-se verificar até que ponto ia
rios", os 241 banqu ei ros, diretores de empresas e comerciantes, os 76 esta eficácia examinando-se os registros do posto de decifração de có­
profissionais técnicos e os 27 cientistas, al ém dos 37 " artistas e edito­ digos em Bletch ley e o Com a ndo de O perações. Especiais na II Guerra
res·'.l1 As primeiras agremiações universitárias norte-americanas tam­ M undial. 1 As associações formais, a menos que estivessem delibera­
'l

bém davam ênfase a es tes ex-alunos (O Beta Teta Pi, em 1889, orgu­ damente restritas a uma elite - como os " Kõsener Korps" alemães,
lhava-se de possuir nove senadores, 40 deputados, seis embaixadores e que compreendiam 8% dos estu dantes alemães em 1887,5% em 191480
50 governadores), mas, co mo se pode ver no Quadro 2, o desenvolvi­ ..: podem ter servido em larga escala para fornecer cri térios gerais de
mento econômico e político colocou-os numa posição cada vez mais "reconhecim en to" social. Pertencer a qualquer G rêmio das Letras
modesta, de forma que na década de 1900 passaram a dar maior desta­ Gregas - mesmo os profissionais, que se multiplicaram desde o fi m da
q ue a seus capital istas . A propósito, uma corporaçãó com o Delta década ·de 11390" - e poss uir qualquer gra vata com listas diagona is,
Kapa ipsilo n, que em 191 3 in cluía um Cabot Lodge e um Theodore com alguma combinação de cores, já era suficiente.
Roosevelt , assim com o 113 eminentes banqueiros nova-iorq uin os, entre
tntrdanto, o artifíc io inforrnal bási co para a estra tificaçã o de um
os quai s J. P. Morga n e um Whitney, nove poderosos empresários de
sistema teoricamente aberlo e em ex pansão era a escolha individual de
Boston, três sustent áculos da Standard Oil e. até na distante Minneso­
parcei ros socia is aceit áveis, o qu e era conseguido acima de tud o atra­

75. W. Raimond 8aird, American College Fratemities: A Descriptive Ana/ysis of the


78 . Delta Kappa t'psi/on Cata/og (1910).
S ociety System ofthe Co//eges o/ the US with a Detai/ed Account of each Fraternity, 4. ed .
(Nova Iorq ue. 1890). pp . 20-1. 79. R . Lewin, Ultra Gocs to War (Londr es, ed . 1980), pp. 55-6.
80. Grieswelle , op. cit.. pp . 349-53 .
76. 8ernard Oudin , Les COiporations Allemandes d'Étudiants (Paris, (962), p. 19; De­
81. 8 aird faz um a relação de 41 grêmios em 1914 que não tinham sido mencionados
tler G ri cS\\clk. "Oie S u?i ol ugie;: der Kiisener Korps 1870-1914". in St udent und Hoch.l­
chu/e im 1'1 j"h,hlil1{/ert: Studi('// und Mat erialies (Gõttingen , 1975 . em I ~90 . Vinte c oito deles surgi ram após 1900. dez foram fundados antes de 1890, dos
77. Grieswelle. op. cit .. p. 357. quais 28 eram rcrmados ex d usi ':amen te por advogados, médicos. engenheiros. dentistas
e outr as especializações profis'iiunais.
307
306

vês da velha adesão aristocrática ao esporte, transformado num siste­ Quadro 3. Torneios regulares entre Oxford e Cambridge
ma de disputas formais contra antagonistas considerados à altura em por data de criação 85 '
termos sociais. É importante notar que o melhor critério descoberto
para a "comunidade da escola particular" é o estudo de quais escolas N° de
estavam prontas para jogarem umas contra as outras,'] e que nos Esta­ Data disputas Esporte
dos Unidos as universidades de elite (a "Ivy League") definiam-se,
pelo menos no nordeste dominante, pela seleção de faculdades que
preferiam disputar campeonatos de futebol, naquele país um esporte Antes de I g60 4 Críquete, remo, péla,
basicamente universitário quanto à origem. Nem é por acaso que os tên is
torneios esportivos formais entre Oxford e Cambridge tenham evoluí­ 1K60-70 4 Atletismo, tiro, bilhar,
corrida de obstáculos
do apenas depois de 1870, e principalmente entre 1890 e 1914 (veja 1g70-tW 4 Golfe, futebol, rugby, pólo
Q uadro 3). Na Alemanha, este critério social foi especificamente reco­ P~gO-90 2 "Cross country", tênis
nhecido: Ig90-1900 5 Luta livre, hóquei , patinação,
natação, pólo aquático
A característica típica da juventude universitária como grupo social espe­ 1900-13 g Ginástica, hóquei no gelo,

cial (Stand), que a distingue do restante da sociedade, é a idéia de "Satis­ lacrasse, corrida de motos,

faktionsfãhigkeit" (aceitabilidade como desafiante nos duelos), ou seja, a cabo-de-guerra, esgrima, corri­
reivindicação de um padrão de honra específico e socialmente definido da de automóveis, subida de morro

(Standesehre)6J em motocicleta (alguns destes

mai s tarde deix 'lralll de scr Ji.o;putadlls)

Em outros lugares, de facto, a segregação ocultava-se por trás de


um sistema nominalmente aberto.
Voltamos então a uma das novas práticas sociais mais importan­
tes do nosso tempo: o esporte. A história social dos esportes das clas­ cionalização constituiu um mecanismo de reunião de pesso<ls de status
ses altas e médias ainda está para ser escrita," mas podem-se deduzir social equivalente, embora sem vínculos orgânicos sociais ou econômi­
três coisas. Em primeiro lugar, que as últimas três décadas do século cos, e talvez, acima de tudo , de atribuição de um novo papel às mulhe­
XIX assinalam uma transformação decisiva na difusão de velhos es­ res burgueSas.
portes . na invenção de novos e na institucionalização da maioria, em O esporte que se tornaria o mais característico das classes médias
escala nacional e até internacional. Em segundo lugar, tal instituciona­ poderá exemplificar os três elementos. O tênis foi inventado na Grã­
lização constituiu uma vitrina de exposição para o esporte, que se Bretanha, em 1873, adquirindo seu clássico torneio nacional no mes­
pode comparar (sem muito rigor , naturalmente) à moda dos edifícios mo país (Wimbledon) em 1877, quatro anos antes do campeonato
públicos e estátuas na política, e também um mecanismo para ampliar americano e 14 antes do francês . Já em 1900 alcançara sua dimensão
as atividades até então confinadas à aristocracia e à burguesia endi­ organizada internacional (Taça Davis). Como o golfe, outro esporte
nheirada capaz de assimilar o estilo de vida aristocrático, de modo a que apresentaria um atrativo fora do comum para as classes médias ,
abranger uma fatia cada vez maior das "classes médias". O fato de que não se baseava no esforço de uma equipe, e seus clubes - que adminis­
ela , no continente, restringiu-se a uma elite consideravelmente reduzi­ travam às vezes propriedades imensas. com altos custos de manuten­
da antes de 1914, não nos interessa aqui. Em terceiro lugar, a institu­ ção - não se uniam em "Confederações" , funcionando como centros
sociais potenciais ou reais: no caso do golfe, princ,i palmente para os
homens (por fim, na maior parte para empresários), no caso do tênis,
para os jovens de classe média de ambos os sexos. A lém do mais, é cu­
82. H oney, op. cit, pp. 253 e seg o
rioso que as disputas entre mulheres tenham surgido logo após a cria­
X3. Glintcr Bo tzcrt. Sa:ia/a Wande/ d~rs tuden tischen Korp orationen (Münster, 1971),

p. 123.

~4. Para obter algumas Informações pertinentes, veja Carl Diem, We/tgesch h'hte des

Sf'lI rI.\ IIl/d der /eih"l'cr: i"/lllllg (Stlltlgarl. 1960): K I. C. Wildt, Daten zur Sportge.\chich­

85. Calculado a partir de Cornpanh.ia Real de Seguros, Record of Sportl', 9. ed. (191 4).
te. T eU 2. Europa von /75U bis /894 (Schorndorf bei $tuttgart, 1972).

308 309

ção dos campeonatos para homens: as simples femininas passaram a traçar linhas de classe que isolassem as massas, principalmente pela
integrar Wimbledon sete anos após a introdução das masculinas, e en­ ênfase sistemática no amadorismo como critério do esporte de classe
traram nos campeonatos americano e francês sete anos após sua insti­ média e alta (como por exemplo no tênis, no futebol da Rugby Union,
tuição. '" Quase pela primeira vez, portanto, o esporte proporcionou às ao contrário da associaçã o de futebol e da confederação de rugby, e
mulheres respeitáveis das classes altas e médias um papel público reco­ nos Jogos Olímpicos). Todavia, representava também uma tentativa
nhecido de seres humanos individuais, à parte de sua função como es­ de desenvolver ao mesmo tempo um novo e específico padrão burguês
posas, filhas, mães, companheiras ou outros apêndices dos homens de lazer e um estilo de vida - bissexual e suburbano ou ex-urbano qn - e
dentro e fora da família. O papel do esporte na análise da emancipa­ um critério nexível e ampliável de admissão num grupo.
ção das mulheres requer maior atenção do que a recebida até agora, Tanto o esporte das massas quanto o da classe média uniam a in­
assim como a relação entre ele e as viagens e feriados da classe média."' venção de tradições sociais e políticas de uma outra forma: constituin­
Quase não é preciso documentar o fato de que a institucionaliza­ do um meio de identificação nacional e comunidade artificial. Isso em
ção do esporte aconteceu nas últimas décadas do século. Mesmo na si niio era novo, pois os exercícios físicos de massa havia tempo que
Grã-Bretanha, ela praticamente só se estabeleceu na década de 1870­ er;llll associ;ldos aos ll1ovimentos nacionalista-liberais (O TLl/wr ale­
a taça da Associação de Futebol data de 1871, o campeonato de miio, o Soko/.l tcheco) ou à identificação nacional (tiro de rifle na Suí­
críq uete en tre os condados de 1873 - e daí em diante in ventaram-se di­ ça). Aliús , a resistência do movÍmento ginasta alemão, com sentido na­
\ ' \.:r~()~ novos esportes (tênis, tênis com peteca, hóquei, pólo ;lquático e cionalista em geral e antibritânico em particular, freou nitidamente a
daí por diante), ou de fato introduzidos em escala nacional (golfe), ou evolução do esporte de massa na Alemanha! 1 A ascensão do esporte
sistematizados (boxe). No restante da Europa o esporte em sua forma proporcionou no vas expressões de nacionalismo através da escolha ou
moderna era importado conscientemente, em termos de valores sociais invenção de esportes nacionalmente específicos - o rugby galês dife­
e est ilos de vida, da Grã-Bretanha, em grande parte por aqueles que rente do futebol inglês , e o futebol gaélico na Irlanda (1884), que ad­
eram innuenciados pelo sistema educacional da classe alta inglesa, tais quiriram apoio genuíno das massas aproximadamente 20 anos de­
como o Barão de Coubertin, admirador do Dr. Arnold. ~~ O importan­ pois.'" Contudo, embora o vínculo específico de exercícios físicos com
te é a ve locidade com que eram feitas estas transferências, embora a o nacionalismo como parte dos movimentos nacionalistas tenha conti­
instit ucion alização como tal lenha levado mais tempo para acontecer. nuado a ser importante - como em Bengala 9 .1 - era no momento certa­
O esporte da classe média combin ava , assim, dois elementos da mente menos importante do que dois outros fenômenos.
invençã o da tradição: o político e o social. Por um lado, representava O primei ro era a demonstração concreta dos laços que uniam to­
uma tentativa con sciente, embora nem sem pre oficial, de form ar uma dos os hahitantes do Estado nacional, independente de diferenças lo­
eli te dominante baseada no modelo britân ico que suplementasse, com­ cais e regionais, como na cultura futebolística puramente inglesa ou ,
pctiss\.: CO\1l os ll111delos continentais aristocrático-militares mais ve­ mais literalmente. em instituições desportivas como o Tour de France
lh os, ou procurasse suplantá- los, e assim . dependendo da situação, se dos ciclistas (1903), seguido do Giro d'ltalia (1909). Estes fenômenos
associasse a elementos co nse rvadores e libera is nas classes médias e al­ foram mais importantes na medida eOl que ev oluíram espontaneamen­
tas locai s.'" Po r outro, representa va uma tentativa ma is es po ntânea de te ou através de mecani smos comercia is. O segundo fenômen o consis­
tiu 110S campeonatos esportivos in ternacionais que logo complementa­
ram os naci onai s, e arca nçaram sua expressão típica quando da restau­
s e.. 1: // , '1" {C/IIe ,cri,c/ C/ f .\ f'C/rll (S . HrLlllS \\ic.:k <: ~() \ a loryu<:, ed. 1969): Lawl1 Tenni5 (tê-
Ili ~ ).
M7. Sobre um reconhecimento precoce do tênis clube como "parte da revolta dos filhos
90. Deve-se di fere nciar este dos padrões de esporte-s e passat.:mpos ao ar livre da ve lha
da cl asse méd ia" , veja T. H. S. Escotl, Social Tran.\formations ofthe Victorian Age (Lon­
ari s tocr aci~1
e cl u5se mil ita r, mes mo qUe! estas às vezes ader isse m aos novos esportes ou
dres, 1897), pp . 195-6,444. Veja tam bém R. C. K . Ensor, England /8 70-/914 (Oxford, novas forma s de esport e.
1936), pp . 165-6. 91. John , op. c lt .. pp . 10/ e ~eg .
88. Ple rra de Co ubertin, L'École en Angleterre (Paris, t888) ; Diem, op. cit., pp. U 30 e
92. W. F. Man dle, "Spo rt as Politics. Th e Gaelic Athletic Association 1884-1916", in
seg o
89. Ma reeI Spivak . " Le Dévcl oppement de I'Education Physique et du Sport Français
R. Cashm ún eM . McKernan (org.), S port in H islOry (Qu.censland U. P., Sta . Lucia.
1979).
de 1g52 à 1914 " , Revue d' H isloire M oderne el Contemporaine , xxiv (1977), pp. 28-48; D .
Lej eune, "Histoirc Soci a lc et Alpinisme en Fra nce, XIX- XX s. ", ibid., xxv (t978), pp. 93. John Rosselli, "Thc Self-Image of Effeteness: Physical Education and Nationalism
111-28. in 19th Century Bengal", ParI and Presenl, 86 (1980), pp. 121-48 .

.......

310 311

ração das Olimpíadas em 1896. Embora estejamos hoje bastante cien­ símbolos externos, entre os quais os do nacionalismo (patriotismo,
tes da escala de identificação nacional indireta que estes campeonatos imperialismo) eram talvez os mais importantes. Foi, segundo penso,
proporcionam, é importante lembrar que antes de 1914 eles mal ti­ como a classe essencialmente patriótica que a nova ou ~spirante classe
nham começado a adquirir seu caráter moderno. A princípio, os cam­ média achou mais fácil reconhecer-se coletivamente.
peonatos "internacionais" serviam para sublinhar a unidade das na­ Tudo isto é especulação. Este capítulo não nos permite ir mais
ções ou impérios da mesma forma que os campeonatos inter-regionais. longe. Por ora só nos é possível ressaltar que existem pelo menos al­
As partidas internacionais britânicas - como sempre as pioneiras ­ guns indícios prima facie em favor destas hipóteses, constatados na
lançavam os países das Ilhas Britânicas uns contra os outros (no fute­ atração exercida pelo patriotismo sobre a camada burocrática de bri­
bol : os países da G rã- Bretanha n a década de 1870, tendo a Irlanda tânicos na Guerra da África do Sul 95 e a função das organizações de
sido incluída na década de 80) , ou contra as várias partes do Império massa direitistas nacionalistas - compostas na sua esmagadora maio­
I:3ritânico(os "(esl Malchfscorneçaram em 1877). A primeira partida in· ria pela classe média, não pela elite - na Alemanha da década de 1880
ternacional de futebol fora das Ilhas foi entre a Áustria e a Hungria em diante, a atração exercida pelo nacionalismo de Sch6nerer sobre os
(1902). O esporte internacional, com poucas exceções, permaneceu do­ estudantes universitários (falantes do alemão) - uma camada de classe
minado pelo amadorismo - ou seja, pelo esporte de classe média - até média profundamente marcada pelo nacionalismo em vários países
no futebol, onde a associação internacional (FI F A) era formada por europeus.'· O nacionalismo que ganhou terreno identificava-se irresis­
países onde havia ainda pouco apoio para o jogo entre as massas em tivelmente com a direita política. Na década de 1890, os ginastas ale­
1904 (França, Bélgica, Dinamarca, Países Baixos, Espanha, Suécia, mães, antes liberal-nacionalistas., abandonaram as velhas cores nacio­
Suíça) . As olimpíadas continuaram sendo a maior arena internacional nais em conjunto para adotar a nova bandeira preta, vermelha e bran­
para este esporte. Por conseguinte, a identificação nacional através do ca : em 1898 apenas 100 dos 6.501 Turnervereine ainda conservavam a
esporte contra os estrangeiros neste período parece ter sido sobretudo velha bandeira negra, vermelha e dourada. 97
um fenômeno de classe média. Certo é que o nacionalismo tornou-se um substituto para a coe­
Talvez até isso seja importante. Conforme observamos, as classes são social através de uma igreja nacional, de uma família real ou de
médias no sentido lato consideravam a identificação grupal subjetiva outras tradições coesivas, ou auto-representações coletivas, uma nova
algo extremamente difícil, uma vez que não eram, de fato, uma mino­ religião secular, e que a classe que mais exigia tal modalidade de coe­
ria suficientemente pequena para estabelecer a espécie de associação são era a classe média em expansão, ou antes, a ampla massa interme­
prática de um clube de dimensões nacionais que reunisse, por exem­ diária que tão notavelmente carecia de outras formas de coesão. A esta
plo, a maioria daqueles que houvessem passado por Oxford e altura, novamente, a invenção de tradições políticas coincide com a de
Cambridge, não suficientemente unidos por um destino e uma solida­ socIaIs.
riedade potencial com u m, como os operários .94 As classes médias pre­
feriram tomar a atitude negativa de se segregarem de seus inferiores IV
através de mecanismos como a insistência rígida no amadorismo no
esporte, assim como através do estilo de vida e valores de "respeitabili­ Descrever o aglom erado de "tradições inventadas" nos países oci­
dade", sem contar a segregação residencial. Porém, pode-se dizer que dentais entre 1870 e 1914 é relativamente fácil. Já se deram exemplos
foi positiva a atitude de estabelecer um sentido de união através de suficientes de tais inovações neste capítulo, desde as gravatas das ex­
escolas e os jubileus reais, o Dia da Bastilha e as Filhas da Revolução

94. Seria interessante, em países cuja linguagem permita tal diferenciação , pesquisar as
mudanças no emprego social mútuo da segunda pessoa do singular, slmbolo de fraterni­ 95 . Richard Price, An Imperial War and lhe Brilish Working-Class : Working-Class AI­
dade, bem como de intimidade pessoal. Entre as classes mais altas, é conhecido o seu liludes and Reaelíons IV rh e Boer War. /899-1902 (Londres, 1972), pp . 72-3 .
uso entre colegas de escola (e, como é o caso dos politécnicos franceses , entre e)(­ 96 . D e ve-se o bse rvar que na Alemanha o Korps es tudantil de elite opunha-se ao
estudantes), oficiais e outros. Os operários, mesmo quando não se conheciam, usavam pr incípio do a nti-se miti smo . ao contrário das associações que não eram de e li te, embora
habitualmente a segunda pessoa do singular. Leo Uhen, Gruppenbewusslsein und infor­ na verdade o a plica sse (Grieswelle, op. cil. , p. 353) . Da mesma forma, o anti-semitismo
meI/e Gruppenbildung bei deUlsehen A rbeílem im Jahrhunderl der Induslríalisierung (Ber­ foí imp os to ao mo vimento ginasta alemào por pressão das bases, contra a oposição da
lim , 1964), pp . 106-7. Os mo vimentos operá rios institucionalizaram o emprego deste velha lide ra nça n acional-liberal burguesa do movimento (John , op. eir ., p . 65) .
pronome entre seus membros ("Caro Senhor e Companheiro"). 97 . John. op. Cil., p . 37 .

.........

312 313

gorias já foi menticJnada. e não há dúvida de que atingiu seu clímax


American a, o 19 de Maio, a Internacional e os Jogos Olímpicos à Final entre 1870 e 19 '14. Ainda a:i~im, esta linguagem do discurso simbólico
da Taça c o Tour de France como ritos populares, e a instituição da estava fadada ao declínio súbito entre as guerras. Essa moda extraor­
veneração à bandeira nos Estados Unidos. Os progressos políticos e as dinária provaria ser quase tão efêmera quanto o surto contemp orâneo
transformações sociais que podem ter originado este aglomerado tam­ de outro tipo de simbolismo, o "ant nouveau". Nem a adaptação ma­
bém já foram analisados, embora as últimas de forma mais breve e es­ ciça da alegoria e simbolismo tradicional com objetivos públJicos, nem
peculativa que as primeiras . Infelizmente, é mais fácil docum en tar os a improvisação de uma nova e indefinida mas de qualquer forma cur­
motivos e intenções daqueles que estão numa posição de instituir for­ vilínea linguagem da mulher e das plantas, o simbolismo, principal­
malmente tais inovações, e até suas conseqüências, do que as novas mente por razões particulares ou semiparticulares parece ter-se ade­
práticas que surgem espontaneamente das bases. Os historiadores bri­ quado mais do que temporariamente a quaisquer reivindicações so­
tânicos do futuro, ansiosos por investigar questões semelhantes em re­ ciais que o tenham ori!!in::,c:\o. Só podemos especular acerca dos moti­
laçiio ao fim do século XX, terão muito menos dificuldade em anali­ vos que levaram a ,,,;;v, mas este não é o local apropriado.
sar. por exemplo, as conseqüências cerimoniais do assassinato do Por outro lado . pode-se dizer que outra linguagem do discurso
Conde Mountbatten do que práticas novas como a aquisição (muitas simbólico público. a teatral, revelou-se mais duradoura. As cerimônias
vezes a altos preços) de placas de automóvel exclusivas. De qualljucr e desfiles públicos, bem como as reuniões de massa ritualizadas, não
forma. o objetivo deste livro é incentivar o estudo de uma matéria rela­ eram novas. Mesmo ass.im. foi notável sua utilização com objetivos
tivamente nova. e qualquer intenção de abordá-Ia de forma não expe­ oficiais e não-oficiais e seculares (manifestações de massa, partidas de
ri men tal seria total mente inadequada. futebol, e coisas do gênero). Além do mais, a estruturação de espaços
Contudo, restam três aspectos da "invenção da tradição" neste r,i tuaisformais, já conscientemente permitida pelo nacionalismo ale­
período que merecem uma breve análise, para concluir. mão, parece ter sido sistematicamente levada a efeito, mesmo nos paí­
O primeiro é a distinção entre as novas práticas do período que se ses que até então pouca atenção lhe haviam prestado - isso nos lembra
re ve laram duradouras, e aquelas que não. Fazendo-se uma retrospec­ a Londres eduardina - e não podemos deixar de examinar a invenção.
ti va. aparentemente o período que abrange a I Guerra Mundial consti­ neste período, de construções para espetáculos praticamente novas e
tui um divisor entre linguagens do discurso simbólico. Como nos uni­ rituais de massa de fato. ta is como estádios de futebol, abertos ou co­
form es mi lita res, o que poderia denominar-se modalidade lírica deu bertos. "9 O comparecime nto de membros da família real à final da
lugar Ú Illodalidade prosaica. Os uniformes inventados para os movi­ Taça de Wembley (a partir de 1914)e o uso de edifícios co mo o Sports­
Illcntos de Illassa de entreguerras. que mal podiam justificar-se como palast, em Berlim , ou o Vél odrome d' Hiver, em Paris. pelos movimen­
camutlagem operacional, abstinham-se das cores fortes, preferindo ,tos de massa de entreguer ras de seus respectivos países prenunciou o
to ns foscos. como o preto e marrom dos fascistas e nacional­ desenvolvimento de espaços formais para rituais públicos de massa (a
socialist as.''' Não resta dúvida de que ainda se inventavam fantasias Praça Vermelha, a part ir de 19 18), que seria sistematicamente fomen­
para os homens vestirem em ocasiões rituais no período de 1870-1914. tado pelos regimes fascistas. Pode-se observar en passant que de acor­
embora seja difícil encontrar exemplos - a não ser, talvez, através da do com o esvaziamento da antiga linguagem do simbolismo público,
adoção de velhos estilos por novas instituições do mesmo tempo e. os novos cenários desse ritual público deviam frisar a simplicidade e a
com sorte, mesmo status, tais como a beca e o capei o acadêmicos para mon umentalidade. ao invés da decoração alegóric8 da Ringstrasse de
novas escolas e graus. Os velhos costumes foram certamente conserva­ Vi ena ou do mon u mento a Vítor Emanu el em Roma, ambos do século
dos. Todavia . tem-se a nítida impressão de que, neste sentido, o perío­ XIX ,"" tendên ci a já prenunciada em nosso período . lO!
do vive u do capital acumul ado . Por outro lado, porém, desenvolveu-se
nessa época uma velha linguagem com entusiasmo peculiar. A mania
de erigir estátuas e ed ifícios públicos simbólicos ou decorados com ale­ 99. C f. Wasmurh 's Lexikon de, 8aukur(5t (Berlim, 1932). iv: "Stadthalle"; W. Scharau­
\Vils. G,'hiiud" UI/{/ CiI/andfür CI'II/nastik . Spie/ ufld Sporl (i:krlim , 1925); D . R . Knight.
The Exhibitiofls.· Great White City, Shepherds Bush (Londres, 1978).
100. Carl Schorske, Fin de Sii:cle Vienna: Palitics afld Cu{ture (Nova Iorque. t980),
98 . Os mais vivos uniformes desse tipo parecem ter sido as camisas azuis com gravatas cap o 2.

vermelh as dos movimentos socialistas jovens. Ja mais soube de nen h um caso de camisas 1101. Cf. Alastair Service, Edwardian Archileclure: A Handbook to Building Design in

vermelha s. co r de la ranja ou amarelas. nem de trajes cer·imoniais realmente multicolori­ 8rilain /890-/9/4 (Londres, 1977).

dos.
314 315

No palco da vida pública, a ênfase, portanto, passou do planeja­ As práticas que assim realizavam um trajeto social de cima para
mento de cenários elaborados e variados, que podiam ser "lidos" baixo - da aristocracia para a burguesia, da burguesia para o operaria­
como uma história em quadrinhos ou tapeçaria, à movimentação dos do - provavelmente predominaram neste período, não apenas no es­
próprios atores - ou, como nos desfiles militares ou reais, uma minoria porte, mas nos costumes e cultura material em geral, dada a força do
ritual representando para proveito de uma massa que assistia, ou, con­ esnobismo entre as classes médias e dos valores do aprimoramento e
forme prenunciavam os movimentos políticos de massa da época (tais progresso pessoal entre as elites da classe operária.' OJ Elas se transfor­
como as manifestações do 19 de Maio) e as grandes ocas~ões esportivas maram, mas suas origens históricas continuaram visíveis . O movimen­
de massa, uma mescla de atores e público. Estas eram as tendências to oposto não esteve ausente, mas neste período foi menos visível. As
que se destinavam a um maior desenvolvimento após 1914. Sem mais minorias (aristocratas, intelectuais, divergentes) talvez admirassem
especular sobre esta forma de ritualização pública, parece razoável re­ certas subculturas e atividades plebéias urbanas - tais como a arte do
lacioná-Ia à decadência da velha tradição e à democratização da políti­ music-hall - mas a principal assimilação de práticas culturais ocorreu
ca . entre as classes baixas, ou mais tarde, entre um público de massa. Al­
o segundo aspecto da tradição inventada neste período refere-se guns sinais dessa assimilação já eram visíveis desde 1914, transmitidos
às práticas ligadas a classes o u camadas sociais específicas, separadas principalmente pelos divertimentos e, talvez, sobretudo pela dança
dos membros de coletividades maiores interclasses; tais como os esta­ social, que pode relacionar-se à crescente emancipação da mulher: a
dos ou "nações". Embora algumas dessas práticas fossem formalmen­ moda do ragtime e do tango. Entretanto, qualquer levantamento das
te criadas para serem distintivos de consciência de classe - as práticas invenções culturais deste período não pode deixar de observar o desen­
do )9 de Maio entre os trabalhadores, a restauração ou invenção do volvimento de subculturas e práticas autóctones de classe baixa que
costume camponês "tradicional" entre os agricultores (na verdade, os nada deviam às classes altas - eram quase certamente derivadas da ur­
mais abastados) - um número muito maior de tradições não eram tão banização e da migração de massas. A cultura do tango em Buenos Ai­
identi ficadas na teoria, sendo, aliás, adaptações, especializações ou res é um exemplo.'04 É discutível até que ponto elas podem entrar
apropriações de práticas originalmente iniciadas pelas camadas sociais numa análise da invenção das tradições.
mais altas. O esporte é um exemplo óbvio. Partindo de cima, a linha de O aspecto fin al é a relação entre "invenção" e "geração espontâ­
classe foi, assim, traçada de três formas: pela manutenção do controle nea", planejamento e surgimento. É algo que sempre intriga os obser­
aristocrático ou de classe média sobre as instituições que geriam o es­ vadores das sociedades de massa modernas. As "tradições inventadas"
porte, pela exclusividade social ou, de forma mais comum, pelo alto têm funções políticas e sociais importantes, e não poderiam ter nasci­
custo ou falta do equipamento fundamental necessário (quadras de tê­ do , nem se firmado se não as pudessem adquirir. Porém, até que ponto
nis o u charnecas para a prática do tiro ao galo silvestre), mas acima de elas serão manipuláveis? É evidente a intenção de usá-las, aliás, fre­
tudo PCOla rígida separação entre o amadorismo, o critério do esporte qüentemente, de inventá-las para a manipulação; ambos os tipos de
entre as camadas superiores, e o profissionalismo, seu corolário lógico tradição inventada aparecem na política, o primeiro principalmen te
entre as classes baixas urbanas e operárias.,o2 O esporte específico de (nas sociedades capitalistas) nos negócios. Neste sentido, os teóricos
classe ent re plebeus ra ramente evoluiu conscientemente como tal. da conspiração que se opõem a essa manipulação têm a seu favor não
On de isso ocorreu , fo i ger almente pela apropriação de práticas das só a p lausibilidade quanto os indíci os. Contudo, também parece claro
classes altas, expulsão dos antigos praticantes e desenvolvimento de que os exemplos ma is bem -sucedidos de manipulação são aqueles que
um conju nto específico de procedimentos sobre uma nova base social exp loram práticas clarame nte oriundas de uma necessidade senti da ­
(a cu ltura futeb olística). ­ não necessariamente com preendid a de todo - por determinados gru­
pos. A política do nacio nali smo alem ão no Seg und o Império não pode
ser entendida apenas de ci ma para baixo. Já se disse que até certo pon­
102. O profissionalismo suben tende um ce rt o nlvel de especialização ocupacional e um
"mercado" mínimo dispon ível, se existen te entre a população rural esta belecida. Lá os
esp ort istas pror15sionais ou eram criados ou abastecedores das classes altas (jóqueis, 103 . Observou-se um a correspondência wcberiana entre Cs pllrte c rrotes ta nti sn1tl na
gu ias de alpin ismo) , o u com plementos de competições amadoras da classe alta (jogado­ Alemanh a até 1960. G. L üsc hcn, "The Interdependence oI' Sport and C ulturc" , in M.
res pro fi ssionais de crfquete). A diferença entre a caça d a classe bai u e da alta não era Hart (o rg .). S" Orl il/ lhe SIJ('iIJ('//!llIra! Pmt'<'" ( f) uhU4LJC , 1976) .
eco nôm ica, em bora algu ns caçadores clandestinos vivessem dela; era uma diferença k­ 104. Cf. /Jlas M atamoro, La C lUdad de! Tango ( Tango Hisl órico I ' So ciedad J (Bu enos
gal. Exprim ia-se a través das Leis de Caça. Aires, 1969) .

~
316

to o naci o nali smo escapo u ao controle daqueles que o consideraram


vantajoso para ser mani pulado - pelo menos n e~ ta época . lIl ' Os gostos
e as mo das, es pecialmente na área do divertimento pop ula r, podem ser
"cri ados" arenas dentro de limites basta nte estreitos; têm de ser des­
cobert os antes de <;erem explorados e model ados. Cu mp re ao hi storia­
dor desco bri-los num sentido retro spectivo - também tenta ndo en te n­
der po r qu e. em termo s de sociedades em transformaçã o dentro de si­
tuações hi stóri cas em transformação. sentiram-se tais necess idades.

105 . Geoffrey Elcy, Re-shaping lhe German Riglr l (Va le U. P., Londres e New Ha ven,
1 9~0) .

~
3 16

to o nacio nali smo escapou ao controle daqueles que o considera ram


va ntaj oso para ser manipulado - pelo men os nes ta época . lU! Os gos tos
e as modas, especialmente na área do di vertim ent o popula r, podem ser
"criados" apenas dentro de limi tes bas ta nte estreitos: tem de se r des­
cobertos antes de 'icre m ex plorados e model ados . Cu mpre ao hi storia­
do r desco bri-los num sent ido retrospecti vo - tam bém tentan do enten­
der po r q ue. em term os de sociedades em transform ação dentro de si­
tuações históricas em transformação, sentiram-se tais necessid ades.

105. Geoffrey Elcy, Rt'·shaping lhe German RighI (Ya le U.P., Londres e New Ha ve n,
InO).