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"consciência costum eira" , quando mais um a vez <1..<.

; geraçõel> buces1' ivas apre n­


dessem umas com as outras ; quando as ~a ti "fações materiai s perITl an ece s~e m cs ­
t á ve i ~ (se di stribu ídas de modo mais igualitário), e só ,l O;; satisfaç ões culturai !> ~ ~
ampliasse m; quando as expectativas atingi ssem urna ~i tu ação de eq ui líbrio per­
manente dos costu me s, Não creio que isso vá acontecer, mas tenho a e"perança
de 4ue os e ~ tu do s deste li vro poss am il umi nar o processo de fo rmaç ão dos cos­
2
tumes e a complexidade de seu funcion amenlo .
PATRÍCIOS E PLEBEUS

A s circul/stâncias miserávei,1c/Clte país estão agora de talfár­


/1/0 que, em suma, se isso continuar. os pobres rão dominar os

ricos e os servos ])(70 goremar os senhores, os Plebeij quase


assaltaram os Patricij [... ]l1uma palavra, a ordem está inver­
tida, nào há subordinaçào, e o mundo parece estar de cabeça
pambaixo.
Daniel Dej(Je, The great law of subordination considered; or
the insolence and insufferable behaviour of SERVA NTs in
England duly enquired into (1724)

A relação que desejo ex aminar neste capítulo é aquela entre "a gentry" e
" os trabalhadores pobres" . A mbos os termos são vagos, mas ternos alguma
noção sobre o que representam. Nas primeiras seis décadas do século XVIll, a
lendênci a era associar a gentry com a terra. A te o'a continuava a ser o índice de
influência, o plinto sobre o qual se erigia o poder. Se acrescentarmos ao status e
riqu eza fundi ários propriamente ditos aquela parte da indústria qu e servia dire­
tamente ao interes se agrícola (transporte, selaria, construção de carroç as etc.)
ou que process ava os produtos agrícola" (fabric ação de cerveja , cu rtume,
mOage m, a grande indústria da lã etc.) , poderemos ver para que lado pendia a
balan ça da riq ueza. De modo que, apesar do imen so crescimento de Londres e
do desenvol vimento de Liverpool. Manchesler, Bri stol , Bi rmingham, Norwich,
Leeds etc .. a Inglaterra conservava um perfil agrário até a déc ada de 1760, e
muiloS d os qu e fizeram fort una com ocupaç ões urbanas e comerc iais ain da
procuravam converler a Sua riqueza em status de gentry ao transformá-Ia em ter­

2..f. 25

ra. WilIiam Hutton, o negociante de pape l de Bi rmingham, descreve nas s uas Quando e u e algu ns col egas ap rese ntamos . há alguns anos, uma visão um
me mórias a sua primeira compra de terras ( 1766): "desde que e u tinba oito anos. tanto cética das virtudes da alta gelllry wh ig' e de <;eus defe nsore s, parte dos his­
já dem onstrava um gosto por terras [ ... Je deseja va poss uir alguma. ESse deseje w riatl ores profi ssionais ticou e ,> caudalizada." A nossa a meaç a foi repeli da . e
ardente de terra nunca me ahandonou".'
te m-se reconslituíd o uma visão da Inglaterra do século X'-' li! que , em pou cas
Tüdavia , tanto "fidalgos" como "os pobres" são "termos criados pela ge n­ palav ras, passa por cima das profundas con tradições da sociedade. Dizem-nos
rr)''' ." e ambos têm uma carga normativa que pode ser assimilada acriticamente que era uma prós pera "soc iedade de con~ umidore s" (o que quer que isso sig­
pelos historiadores. Dizem-nos (por exemplo) que "honra, di gnidade, integri­ nifique) habitad a por "um povo cortês e come rciante". ' Não nos lembra m viva­
dade , con sideração, cortesia e cavalheirismo eram virtudes essenciais ao caráter me nte que esse foi o século e m que os commoners por fim perderam a sua terra,
de um fidalgo, e lodas derivavam em parte da natureza da vida no campo". 'Isso em que se multiplicou o número de crimes punidos com a pena capital, em que
sugere uma vi são um tanto distanciada da "vida no campo", da qual -assim co­ milhares de crim i nosos fo ram degredados , e em que se perderam milhares de vi­
mo de grande parte das imagens rurai s do séc ulo XVllJ ' - os trabalhadores foram das nas guerras i mperiais. Um século que term in ou, apesar da "revolução" agrí­
subtraídos. Quanto a "os pobres", esse termo inteiramente indi scriminado con­ cola e do cresce nte rol de rendimentos, em grave pauperismo rural. Nesse meio
té m a sugestão de que o gross o da popul ação trabalhadora merec ia a condes­ tempo, oS histori adores profissionais mamê m uma vis ão brand a dos aconteci­
cendência da gentry, e talvez Sua caridade (como se fossem de alguma forma mentos : os si mpósios históricos sobre questões do século XV Jll tendem a ser um
sustentados por ela, e não exatamente o co ntrário). E o termo agrupa, numa mes­ espaço em que os brandos guiam os brandos. Tentare mos realizar uma recons­
ma categoria criada pela gentry, miseráveis, pequenos fazendeiros vigorosa­ tnlção um pouco menos tranqüilizadora.
mente independentes, pequenos camponeses, criados da faz e nda, artesãos
rurais e assim por diante.
Por mai s vagos que sejam os dois termos, este capítulo vai girar ao redor É uma queixa comum que os termos " feudal", "capitalista" ou "burguês"
desses pólos e de sua rel ação mútua . Vou passar por cima de grande parte do que sejam demasiado imprecisos para serem úteis numa análi se séria, abrangendo
existe no espaço intermediário: comércio, manufatura, o mercado de luxo de fenômenos demasiado vastos e díspares. Entreta nto, agora enco ntramo s cons­
Londres, o império do além-mar. E minhas ênfases não serão aquelas que gozam tantemen te o emprego de novos termos, como "pré-industrial" , "tradi cional" ,
de popularidade entre a maioria dos hi storiadores ofi ciais. Talvez haja uma "paternalis mo" e "modernização" , que parece m estar sujeitos praticamente às
razão para is so. Ning uém é mais suscetível aos encantos da vida da gentry do
mesmas objeções, e cuja paternid ade teóri ca é menos precisa.
que o historiador do séc ulo XV JlI. Suas fontes principais estão nos arquivos da
Talve z seja interessante observar que , enquanto o pri meiro conjunto de ter­
gen try ou da aristocracia. Talvez ele até encontre algumas de sua s fontes ainda
mos ch ama a atenção para o cont1ito ou tensão dentro do processo social, o se­
na sa la de doc umentos de uma anti ga propriedade rural. O historiador pode se
gu ndo parece cutucar-nos para que vejamos a soc iedade em termos de uma
identifi car facilmente com suas fontes: ele se vê cavalgando atrás dos cães de
o rd e m sociológica auto-reguladora . Com um cientifici srno enganador, esses
caça, comparecendo a uma sessão trimestral do tribunal, ou (se for menos am­
termos se apresentam como se não contivessem julgamentos dc valor. Também
bicioso) se imagina pelo menos sentado à mesa resmungona do pároco Wood­
po~s uem um a estranha falta de te mp oralidade. Desgoslo particularmente de
forde. Os "trabalhadore s pobres" não deixaram os seus asilos repletos de "pré -i nd ustrial", uma tenda cujas pregas espaçosas acolhem lado a lado os fa­
doc umentos para os historiadores exa minarem, nem é convidativa a identifi­ bri cantes ele roupas do Oeste da Ingl aterra, os ouri ves pe rsas, os pastores
cação com sua dura labuta. Ainda assim, para a maiori a da população, a forma guatem altecos e os bandoleiros corso~. '
fie encarar a vi da não era a da gen try . Eu poderi a dizê-lo com p alavras mais
fortes, mas devemos prestar atenção às palavras tranqüilas de M. K. Ashby: "A (1) Pa rtid o smgi do ar ,ís a Re\Ulu çào Glori o~u (1688) que obj etivava subordi nal' a Coroa ao
casa-g rande a mim parece ter g uardado as melhores coi sas para si, não Conce­ P~ r1(.[1ne nlo . O termo foi ap li cado aos membros do Country Party (w r, a s<'guir. nota na p. 37), Es­
de ndo, com raras exceções, nem dignidade nem liderança às aldeias, mas, na teve no poder até o re i 'lado de George lll . qU dfldo os l (),.i~'\ assumiram . A rós I::nO. nova mente no
govt:rno. introduziu uma legi, lacftu refor111 ista . Em meados do sécul o XlX tran sformou- se no Pi[["­
verdade, depreciando o seu val or e a su a c ultura" .j
ritl q Liberal. (N. R.)

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Entretanto. va mos deixá- los feli7.e ~ e m seu ban Ir. lroc,1I1do o:. se u" sur­ Vamol' examinar ~IS <;egui nles descri ções do fid algo proprietário de te rras
preendentes prodlltos cu ltura j ~ , e examin ar mais de pe rto o "putemnlismo". Em
do ~óc ul o XV III. A primeira:
alg un <; <l uta res. "patriarcal" e "pate rmll " aparecem como termos interc am­
bi úvc is. um cnn t\.!n do uma implicação mais severa, o outro uma impli cação um A vida de uma ,!ldei a, um vilareJO, uma paróquia. uma ci dade-mercado l' seu inte­
la ntn sum inda. Na ve rdade, os doi s podem colidi r tanto nos fat os como na teo­ rior. um condado inteiro , podia girar em torn() da casa-gra nde den lro uo seu par­
ria. Na descrição de Webcr das sociedades "tradicionais". o ! (le' I/S para a an álise 4ue. As l'ulas de recer"ã(l, jardins. c~ lábl lios e calli~ eram o centro da vida social
é situado nas relações fami liares da unidaelé trihal ou domésti ca, e dessas são ex­ local; n escritório da propriedade. o Im.: al de troca de aJTendumentos dc fazendas.
e on ( rato ~ de Ill in era"ão e conslrução, e um banco para pequena.ç poupanç,L<; e 111 ­
trapo lad'ls relações de dominação e dependên cia que vão carac terizar UlTla <;0 ­
ve~ ti mcnl(JS ; a ca.'iU da fa L<::n da, uma ex pos ição per! Ltanente U(h me Ih () re~ métodos
ciedade patriarcal como um todo - o que ele relaciona especificamente com agrícol a;, exi<;tentes [... J; a sala ela lei l.. ·1 o principal haluarte da lei e da ordem; a
fo rllla ~ antigas e feudai s da ordem social. Lasleu, que nos le mbrou tão ins is­ g a l e ri~ de rClraros. a ~ a la de mú sica e a biblioteca, o quartel -general ela cultura lo­
tentemente a imporl~nc ia social da unidade doméstica de produc,:ão no século cal; (I " da de jan tar. o ful cro da pol ítica local.
XVI I, sugere yue isso contribuiu para a reprodu ção das ati tudes e relações pater­
nali~la.~ ou patriarcais qu e permeavarn toda a sociedade - e que tal vez tenh am Eis a segu nda:
continuado a permeá-la até o momento da "ínu ustrializaçào· '." Marx, é verdade. Na larda de administrar sua propri edacle para sati ~faze r seus próprios inleresses,
inclinara-se a ver as atitudes patriarcais como própri as do sistema de guildas da ele desempenhm':l muitas das funções do Est ado. Era o jui7.: resolvia as disputas
Idade Média, quando entre seus seguidores. Era a polícia: mantinha a ordem entre um grande número de
pessuas [... 1Era a Igreja: nom eava o capelão. em gerul um parente próximo com ou
Os oficiais diari ~ta~ e os aprendi /es eram organizados em caela ofício da maneira sem treinamento religioso, para cuidar de seu povo. Era uma agência de assistên­
mais con ve nienLe aos interesses dos mesl res. A rela<;1ío filial que mantinhalll com cia social: cuidm,ldos doentes. dos idos(Js, dos órfãos. Era o Exército: em ca~o de
seus mestre5 dava aos últimos um duplo poder- por um lado, porque intluíanl so­ l ev a nl c~ l...1 arma va seus parentes e sery jdorc ~ e formava uma milícia pri vada.
bre toda a vida dos otlciui~ c, por outro lado, porque, para os que trabalhavam com ,A, Iém do mais, pelo que ,e tornou um intricado sistema de caqmentos, parentesco
() mesmo mestrc. isso rC' présentava um laço real que os mantinha unidos contra os eapadrinhamento f... ] podia pedir apoio, se necessário. a um grande número de pa­
oficiais diaristas de oUlros mestre!. e os separava de~ ses outros.
relJtes. no campo ou nas cidades. que possLLíam propriedades e poderes semelhan­
Marx afirmava que na "manufatura" essas relações fo ram substituídas pela "re­ les aOS seus.
lação monetária entre operário e capitalista"; mas essa relaçã( , "no campo e em São duas descrições aceitáveis do fidalgo propri etário de terra do século
pequ enas cidades ainda conservava um tom patriarcal". li ' É uma grande con­ XVI II.En tretanto, acontece que uma descreve a aristocracia ou a alta geWry da
ce:-;são, e'\pecialmente quando lembramos que , em qualquer períor!o antes de Inglatcna e a outra, os senhores de escravos do Brasil colonial. ll Ambas também
mais ou menos 1840, o grosso da população britânica vivia nessas condições, poderiam, e com um mínimo de revisão , descrever um patrício na campag na da
E assi m podemos substituir o "tom patriarcal" pelo termo mais fraco, "pa­ antiga Roma, um dos proprietários de terra de Almas m.orras ele Gagol, um se­
lernali !> mo". Pode parecer que esse QUQntLll/l :,ocial mágico. reabastecido todos nhor de escravos na Virgínia,l : ou os proprietários de terra de qualquer sociedade
os dias nas inúmeras fontes da pequena oficina, da unidade doméstica e da pro­ em que a autoridade econômica c .~ocial, os poderes judiciários sumários etc. es­
priedade rural, foi bastante forte para inibir (exceto aqui e ali, em episódios ta vam concentrados num único lugar.
breves ) o confronto das classes. até yue a industriali zação o trou xesse no seu Mas ainda permanecem algumas dificuldades. Se quisermos , podemos
liéljuito. An tes di sso, não havia classe trabalhadora com consciência de classe, chamar de "paternalismo" uma con centração de autoridade econômica e cll I­
ne nhum conflito de classe desse tipo, mas apenas fragmentos de protoconflito. tum\. Mas se admitimos o termo, devemos também ad mitir que é demasiado am­
Como age nte histórico, a classe trabalh adora não existia, c, sendo assim, a tare­ plo para uma análi se detalhada. O termo pouco nos diz sobre a natureza do poder
fa extremamente difícil de tentar descobrir qual era a real consciênc ia dos traba­
e do Estado, "obre as formas de posse de propriednde, sobre a ideo logia e a cul­
lh adores pobn.:s inarticulados seria tediosa e de.~necessária. Somos convidados
tura. e c: mesmo por dem ais ineficiente para distinguir e ntre modos de explo­
u pen~ar na consciência de um ofício, e não na de uma classe; nas divisões \er­ ração, entre o trabalho esc ravo e o li vre.
ticais, e não nas horll:ontais. Podemos até falar de uma sociedade de " uma só
classe". Além disso, é uma desc rição de relações sociais vistas de cima. Isso não o
invalid a, mas devemos ter consc iênc ia de que uma descrição desse tipo pode ser

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demasiado pe rs uasi va. Se no:, é a prese ntada ape nas a primeira de nO~~ as d e ~ ­ Mas isso traz outro problema. O paternal ismo como mito ou como ideolo­
crições. torna-se cx cessivamente fác il passar de ~s e q uadro para a visão de uma gi a tem quase ~.em pre uma visão retrospectiva . Na história ingle sa, apresenta-se
"soci edade de uma só classe". A casa-g rande está 110 ápice, e todas as linhas de men o s co mO realidade q ue co mo m odelo de uma era de ouro antiga, de pass ado
comunicação co nverge m para a sua sala de jantar. o escritóri o da propriedade ou recente, da q ual os modos e manei ras atu ai s são uma degeneração. Ass im lemos
os ca ni ~. Essa é. na verdade , uma imp re ssão facilmente adquirida pelo estu dio so "Co unl ry justice". de Langhorne (1774):
que lrabalha no meio dos documentos da propriedade , dos registros das sessões
Qualldo relt bom pai possuío este rasto domínio,

trimestrais dos tribunais ou da corre:-pondência do duque de Newc astle. A v() :: da rrisre::il nul1ca se Lam entav(l em vão.

M as tal vez haja outras maneiras de descrever a soc iedade além da ap re­ Aliviados por sua compaixão, nutridos por SIlO generosidade.

sentada por Ha rold Pcrkin no primeiro de nossos dois excertos. A v ida de uma Os doel1te,l' ellCOl1travam remédio e os idosos, pelo.

paróqui a podia igualmente girar em torno do mercado semanal, dos festivais e r::le /l{IO os deixava aos caidae/os da paróquia,

fei ras de verão e inverno, da festa anual llo \ i larejo, tanto quanto ao redor das O meiril1ho n(/o procurava impor seu pequeno império,

ati vi dades da casa-grande. Os hoatos sobre roubo de caça, furtos, e scândalos se­ O tirano da aLdeia não os IIlCl[{{Va de fome. nem os oprimia,

xuais e o comportamento dos inspetores dos pobre~ podiam ocupar a me nte das De rodo s ele conhecia as necessidades e as satisfazia
pessoas muito mai s do que as remotas idas e vindas no parque. A m aioria na vi­ [ ... )
la tinha poucas oportunidades de fa ze r poupança ou inve stimentos, ou de con­ Os pobres rinham sempre à mclo seus patronos naturais,
tribuir para o desenvolvimento agrícola: tal vez se incomodassem mai s com o
E os LegisLadores eram suplementos da Lei.r"
acesso à lenha, turfas e pasto nas terras comunais do que com a rotatividade das E assim por diante, até a negação de que tais relações fossem uma realida­
culturas. '1A lei poderia não se assemelhar a um " bastião" , mas a um valentão. de presen te :
Acima de tudo, podia haver uma dissociação radical - e às veze~ um antago­
[... ) O ilimitado vai vém dos tempos

nismo - entre a cultura, até mesmo a "política", dos pobres e a dos poderosos.
Levou embora o magistrado protetor.

Poucos contestariam tal coisa. Ma:., as descrições da ordem social no


Exceto nas nws de Augusta, nas praias da GáLia,

primeiro sentido. \istas de cima, são muito mais comuns do que as tentativas de lá não se vê () senhor ruraL [... ]"1

reconstruir a visão a partir de baixo. E sempre qu e se introduz a noção de " pa­


ternali smo", é o prime iro modelo que ela invoca. Além disso. o lenno não con­ M as podemos tirar nossas fontes literárias de onde desejarmos. Podemos
segue escapar de implicações normativas: sL1ge re calor humano , numa relaç ão retroceder uns sessenta ou setenta anos até Sir Roger de Coverley, um sobre­
mutuamen te consentidJ; o pai tcm consciência dos deveres c responsabilidades v ivente tardio, um homem antiquado e excêntrico, ridículo e amável por ser as­
para com o filho , o filho é suhmis:,o ou complacente na sua posição filial. Até o sim. Podemos retroceder outros cem anos até Rei Leal', ou até o "bom velho"
modelo da unidade de produção do méstica con té m (ape sar das negações) um Adão de Shakespeare. Mais uma vez, os valores paternalistas são vistos como
sentido de aconchego familiar: " hou ve tem po", escreve u Laslett certa vez , "e m " relíquias " , e stão desmoronando diante do individualismo competitivo do
que toda a vida <;e pas sava no meio da família , num círculo de rostos familiares ho mem natural do jovem capitalismo, no qual "o laço [está] rompido entre o fi­
e amados, objetos conhecidos e estimados, tudo de tamanho humano".I. Se ria lho e o pai" e os deuses defendem os patifes . Ou podemos retroceder outros cem
injusto opor essa afirmação à lembrança de q ue O morro dos ventos uiWl llle s é anos até SirThomas More. A realidade paternalista parece estar sempre recuan­
aprese ntado exatamente numa situação familiar desse tipo. LL~lc tt estava nos
lembrando um aspecto relevante das relações eco nômicas de pequen a escala. (11) Whe n thy good fath e r held this wide domain,/ Thç \uice of sorrow never mourn " d in
va.in .lSooth"d by hi s pit y, by hi s bounly fed,/Thc sick found medicine , ano lhe 3)!cd bread.!lk left
mesmo que o calor humano pudesse freqüentemen te pro\ ir tanto de uma revo l­
lh eir interest tO no parish care,! No bailiff urged hi s little e mpire there ;/ No village tyranl Sla rved
ta im potente c ontra uma de pen dência abjeta como do respeito mú tuo. Nos
lhe m, or oppress"d:l He learn"d their wants, a nd he thr.Sé 'vants redress"d [ .. ].! The poor at hand
prime iros anos da Rcvo!U(; üo Jndustrial, os trabalhadore s muitas vezes retor­ lheir natural patro ns saw,/ And lawgivers \Vere supplements o f law 1
navam aos valores patern alistas pe rd idos . C obbett e O as tler estenderam -se so­ ([11) [ ... 1Fashio n"s boundkss s\\ay/Has bome the gunrdian magistrate 8\\a ~ .! SJ\C in Au
bre o sentido de perda. e Engel s endossou a queixa. guSta"s streets, on Gallia"s sho res,/ The rural pau'on is beheld no more [ ... ].

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do a um passado cêlda VCI mai s primitivo e ideali zad\l ." E o termo nos força a e os d ireito$ de uso !:ão rei fi cados . U m pom bal no <;íti o de uma anti ga pro­
confundir atributos reai s e ideo1 6gicos. priedade no burgo pod ia ser ve ndido . e co m ele se ve ndi a o direito de votar; as
E m 'iuma, o paternali ~mo é um terrno descritivo fro uxo . Tem uma especi ­ rufnas de uma an ti ga casa com suas dcpcndênci a~ podiam ser compradas para
ficidade hist órica cons ide ravelmente menor do que termos como feudal ismo ou apoi ar uma reivind icação de direito nas terras com unais e , com isso, uma dis ­
capitaL smo. Tende a apresen tar um mode lo da orde m social , isto de cima. Te m tribuição extra dessas terras por oc a ~ i ão dos cercamen tos .
impli cações de calor humano e re lações próxima!> que subentendem noções de Se os direitos de uso, os serviços e tc. tra nsformavam-se em propriedade ~
valor. Confunde o real e o ideal. Isso não significa que o termo deva ser abando­ avali adas e m tantas libras. nem sempre. e ntreta nto, se tornavam mercadorias
nado por ser totalmente inúti I. Te m tanto ou tão pouco valor quanto Ou lros ter­ di., poníveis a qu alquer comprador no mercado livre . Na maioria das vele ~, a
mos gc neralizantes - autoritári o. democrático, igualitário - que, e m si e sem propriedade só ass umi a o seu valor de ntro de uma estru tura particu lar de poder
lv
adiçõe!; substanciais, não podem ser empregados para caracterizar um sistema políti co, infl uênc ia, interesse e dependê ncia, a qual Nnmier nos deu a cot1he­
de relações sociai s. Nenhum historiador sensato deve caracteri zar toda uma so­ ~t!r. Os cargos titulares de prestígio (co mo os guardas dos parques reai s. os
ciedade como paternalista ou patriarcal. Mas o paternalismo pode ser, como na couteiros, os policiais) e os emolume ntos que os acompan havam podiam se r
Rú ss ia c / ari sta, no Japão do período Meiji ou em certas sociedades escra­ comprados e ve ndidos. mas não podiam ser comprados ou vendidos por qual­
vocratas. um componente profundamente importante, não só da ideologia, mas quer um (durante o go\'ern o de Walpol e. os nobres tories ou jacobitas': não ti­
da rea l mediação in stitucional das relaçõe s sociais. Qu al era a situação na nha m muitas ch ances de sucess o nes se mercado ), e o detentor de um cargo
Inglaterra do século XVIII: opulento q ue incorresse no de sa grado de políticos ou da C orte p odia se ver
ameaçado de expul são por um proces so legal. lt , As promoções aos cargos mais
altos c lucrat ivos na Igreja, na J ustiça e no Exército estavam numa posição se­
Jf
mel hante. Os cargos eram distribuídos por influência política, mas, uma Vê 7
obti do" valiam normalmente para toda a vida, e o seu detentor devia extrair de­
Vamos afastar imediatamente uma linha de investigação tentadora, mas in­
les toda a renda possí vel, enquanto pudesse. A posse de sinecuras na Corte e de
teiramente inaproveitáveJ: a de tentar adivinhar a importância específica desse
nho,> cargos pol íticos era muito mais incert a, e mbora de modo algum menos lu­
fluido misterioso, o "tom patriarcal" , neste ou naquele contexto e em diferentes
crat iva: o conde de Rane lagh , o duque de Chandos , Walpole e Henry Fox es ­
momentos do século. Começamos com impressões, ornamentamos nossos pal­
pites com citações elegantes ou adequadas, final izamos com impressões. tavam entre os que flzeram fortunas quando ocuparam por um breve período o
Se, em vez disso . examinamos a expressão institucional das relações so­ cargo de pagador-geral. Por outro lado , a posse de grandes propriedades rurais.
ci ais, essa so ciedade parece apresentar poucas caracterís ticas paternali sta s como propriedade absoluta, era inteiramente segura e hereditária. Era não só o
genuínas. O que se observa em primeiro lugar é a importância do dinheiro. A tra mpolim para o poder e o cargo, como o ponto ao qual retornavam o poder e o
gentry proprietária de terra é classificada menos pelo nascimento, ou outras cargo. Os re ndimentos podiam se r aume ntados por uma administraç ão in­
marcas de status , que pelos rendimentos: elas vale tantas mil libras por ano. En­ te ligente e por desenvolvimentos agrícolas, mas não ofereciam os ganhos ines­
tre a aristocracia e a gentry ambi ciosa, os namoros são cond uzidos pelos pais e perados da sinecura, do cargo, da especulação comercial ou de um casame nto
por seu s advogados , que os orientam cuidadosamente para a sua cons umação, o vantajoso. A influência política podia contribuir mais para maximizar os lucros
arranjo de casamento bem planejado. O~ postos e os cargos podiam ser com­ do q ue a rotação de quatro culturas - por exemplo, aplainando o caminho para
prados e ve ndidos (desde que a venda não e ntrasse em sério conflito com as li ­ leis de iniciati va pri vada como no caso de cercame ntos. ou aportando uma ren­
nhas de int e res se político), assim como as in cu mbências no Exército e as da ime recida de ~i necura a propriedades rurais hipotecadas. o u facilitando o ca­
cadeiras no Parlamento. D ireitos de uso, pri vilégios, lib~rdades, serv iços - tu­
do podia se r traduzido num equivalente e m dinheiro: votos, direitos de pro­ (I V) Hi storiador in glês (1878-1960) cujas importantes obras sobre a hi stória do séc ul o XV II I
priedade no :, burgos, a im un idade dos cargos da paróquia ou do serviço das el1 fati zaram as rd açõcs pessoais da c lasse dominante. I1cga nd o a rc lc vüncia d.: 4ucstõc, pol íticas
milíci as. a li berdade do~ burgos, os portões nas terras comunais. Este é o séc ulo mais ampl~s . (~ . R. )

e m que O din hei ro "dá as cartas" , e m que as liberdad es se tornam propriedades (\ ) Seguidorc, dd al1les 11. (N. R)

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....
m i nho para um casamento de intere s:'ie, ou ganhando a CCSí' O prefe renci al a uma
dada,.; , durante aqueles anos, em oposi ç&o ús pequenas. Na época do co nde de
nova prole das famílias de estirpe.
S undcrland. essa oli garq ui a até fez uma te ntativa de se I o rnar in stitucionalmente
Foi uma fase predatória de c apil all~ mo agrário e comercia l. e o própri o Es­
e'\labelccida e perpétua. por me io ela Peerage Bi ll e do Seple n nial Act. Que as
tado es tava entre Os principais objetos Lia rapina. A vitória na alta políti.:a era
llt!fesas constit ucion a.i s contra essa oligarquia ten h,un sobrevivido a essa ~ dé­
seguid a pelos des pojos da g uerra, assim como a vitória na guena era freqü e nte­
cadas. deve-se em grande parte à res istê nci a obst inad a da gelltry rural indepen­
me nte :-;eg uida pe los despojos da pol ítica. Os hem-sucedidos comandantes das
dente. na "ua m aior parte to )"y , à!-. veles jacobita, apoiada repe tidas vezes pela
guerras de Ma rlborough não só ganharam recompe n~as públicas , como també m
nlulLidão turbulenta e voei ferantc .
e normes sorn a~ provenien te~ de subcontratos militares para o forneci me nto de
T udo isso se faZ Ia em no me do rei. Era em nome do rei que os bem-su cedi­
forragem, transporte, mater lal bélico. M ar lborough ganhou o palácio Ble­
do), minislroS podi am afastar até Çl fun cionário mais submisso do Estado que não
nheim ; Cobham e C adogan ficaram com os minipalácios de Sto\Ve e CaYer­ ~e submeti a inteiramente aos se us in te resses. " Não poupa mos es forços para des ­
sham. A suce ~são dos H ano ver trouxe um novo grupo de salteadore s cortesãos cobrir os pern iciosos, c afastamos todoí' <lqueles de q uem tínhamos a mais ínti­
ao se u séquito. M as os grandes intere sses fi nanceiros e comerciais também re­ ma prova de seu comporlamenlo presente ou passado", escreveram os trê~ ser vis
queriam acesso ao Estado , para a obtenção de concessões, privilégi os, con­ comisslÍ rios ela adu a na em D ublin para o conde de Sunderland, em agosto de
tratos, bem como para o uso da força diplomática , militare naval necess ária para 1715 . É '"nosso de ver não to lerar que algué m a nós subordi nado coma o pão de
abrir o caminho para o comércio. J; A diplomacia ganhou para a Companhia dos Sua Majc~l aJe se não demonstra ter todo o zelo c afeição imagin áve is pelo se u
M ares do S ul o assiento, isto é, a licença para traficar escravos na A mérica es­ servü.:o e governo". " M as era de in teresse capital entre os pred adores político s
panhola. E fo i com base nas expectativas de grandes lucros com ess a concessão confinar a inf1uê ncia do rei à do pril7lLlS interp redatores. Q uando George 11, ao
que se inflou a Bolha dos M ares do Sul. Mas não se pode soprar uma bolha sem ~ub i.r ao tron o, parecia p restes a afastar Walpole . descobriu- <;c que o rei podia ser
cuspir, e o cuspe nesse caso assumiu a forma de subornos, não só de ministros e com p rado como qualquer po lítico wlzig, só que a um preço mais alto:
amante', do rei, mas também (é provável) do próprio rei.
W~.dp o l e ~ abia o seu dever. t\' unca um soberano fora tratado co m mais genc,\)si­
Es tamos habituados a pensar na explora~ão como algo que ocorre em ní­
di.llJc. O rei - 800 mil libras por ano à " ista, e o excedente de todos os impostos
vel rasteiro, no estágio da produção. No início do séc ulo XVj[f, a riqueza era cria­
di.!st inados à lista civil . estimados por Hc rvcy em mai~ 100 mil libras; a rainha­
da nc o;',e nível inferior, mas logo se e levou para regiões mais altas , acumulada
100 mil libras por ano. COrreu o boato de qu e Pulten ey oferecia mais. Se fosse ver­
em grandes nacos, e os grandes lucros seriam obtidos na distribuição, monopo­ J ade, asua inabilidade pnlíticaera espa ntosa. N in g uém a não ser Walpok' poJia es­
lização e venda de mercadorias ou matérias-primas (lã, grãos, carne, açúcar, pera r con~ eg uir eS~ a s dádi \ <1s na Câm ara dos Comuns [ ... ) um ponto que o seu
tecido, chá, tabaco, escravos), na manipul ação do crédito e na capacidade de so berano não tardou em compree nder [ ... 1.
apode rar-se dos cargos do Estado. Patrícios bOl/ditti brigavam pelos despojos do '·Co nsidere . Sir Robe rt" , dis se o I'ci, c heio de gratidão enquanto seu ministro
poder, e só isso explica as grandes Somas de dinheiro que estavam dispostos a rarti ê! r ara a C âmara dos C omuns , "0 qu e mc Jeixa tranqüilo nessa q uestão vai
gastar na compra de assentos no Parla mento. Visto a partir desse aspecto, o Es­ também con tribuir para a sua tranqüi [id ade . É pela minha vida que a q ues tão devc
tado era menos um órgão efetivo de c;ualquer c lasse que um parasita da própria ser' re~olvi da, lllas tamb ém pela sua v idi.l."I·'
classe vitoriosa em 1688 (a gentry). F, na primeira metade do século, era a':~im A~s l rn . O "dever" de Walpole vem a ser o re spe ito mútuo de dois arrom badores
que o Es tado era visto, e considerado intolerá \ (.:.1. por muitos membros da pe­ ~aqllea ndo os cofres do mesmo banco. Ne ssas déc adas. ajá observada " invej a"
que na gentry ton',VI cujo imposto territorial era transferido pelos lTI(;:JS mais Il'hig da C oro a não provin ha de nenhum receio de q ue Oí' monarcas Ha no ver
pate ntes para os bolsos dos corte ,elos e dos políticos whiSc' para aquela mes­ (]e... ~e m um COUfJ d' ÉfUI e e~ m aga~se m as liberdades do~ súditos assu mindo o
ma elite ar; ::tocrática cujas grandes propriedadv·, rurais estavam sendo consoli­ p()(]cr ab <;oluto - essa retc'írica era estrita men te para a tribuna. Provinha do re­
ce io mai l'> realista de que um mo narca esc larecido encon l raS l'e meios de exaltar
(VI) Crupo político surgido [lO final do século XV II . Após a Revolução Glorios,] (168R), apóia a "i m es mo como a pe rsonificação de um poder de Estaúo " imparc ial", racion a­
os reb,~ l dc s jacob jtns, sc ndo excluído do poder ate' O reinado de George 111. Com Pitt, o jovem. al­ lizad o e burocrático. ac ima c 10ra do jogo p redatório . O apelo de um monarc a
cança I) poder e governa ini nterTuptamente entre 1783 e 1830. Na década de 1830 passa a denomi­ pat ri ota de sse tipo teria sldo imenso. não apenas e ntre as camadas mais baixas
nar-se Partido Conse rvador. (N. R.)
ua .~CJ/trv. mas ta mbém e ntre gra ndes faixas d a pop ulaça: foi exa tamente o ape­

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lo de 'illa illl age m de patriOIa in corrupto que levou ao pnderWi lJ ia m r iu. (1mais ri a ao capitalismo Ugi Úri O, me rca ntil e manu falureiro para leu\r adi ante " LIa
ve lho, numa onda dt! aclamação popular. apesar da hnsti lidade do!' p o líti c ()~ e da própria auto-rcprudu,.ão. no solo fértil que ofere ci a ao /Cl isse ::J ai re. "
Corte,CO No entanto, não parece ~er um solo rért il para o patcrn ali~mo. Nó<; nos
"0" suce~sores do," amigo" c(l1'o /i l'rs lreali 'i tas J tinham ~ e tomado derna­ i.lcn ~lU mamos a uma vi~ã o um tanto difere nte da política do sécu lo ,",V III , ilpre­
g o go~ , os sllces~ ores dos <t n\ igos m /l /1 dhe ads I puritanos I \inham se tornado
, e nlada por h i 'iro r i adorc~ que 'ie hahitu aram a ver essa época em ter tno ~ da
apologia de seu ~ principa i ~ alOre~ . -· Se a corrupção é pc rcehida. faz-se vista
cortesãos" , conforme Macau lay. E ele contin ua: " Durante m llito,~ ll nos. uma ge­
grossa COI11 a mençã0 a um precedente: se os \rh i,~_\ foram predadores, os ru ries
raç ão de \\'hig.L a quem Siclney teria lks[lrezado co mo escravos. conti nuol! a
eram igualmente predadore~ . Nad a é inu:,itado , tudo eSlá incluído no,> "padrões
travar uma guerra 111011al com uma !1eração de l or ies. a quem Jeffrey" te ri a en ­
aceitos duépoca" . Ma<; a visão altc rnati va qu e tenho aprese ntado nãu deveria ser
forcado por serem repuh licano,,"' " I
wrpresa. Afina l. é a crític o da alta polítil:a aprcsentada nas Viagens di' G lllli\'er
Essa caracterilação não \o brev ive por mui to tempo. à metade do ~éC ll lo , A c em JOliur/WfI \Vild; em parte na~ ... átiras de Pope, em palte em fI /(/ l/fJhrey Clill­
briga c nlrc os \I'Iligs e o'> fori l's for<J mui to suavilada dez ano'> antes da asce nsão ~ e": e m "Vanity ofhu flIan 'vvishes" e "LomJon" de Johnson : e em "Traveller" de
de George 111 ao poder e do suhseqüentc " ma ssacre dos inoce ntes pe lh am it a~" . Gn IJ'im itb. Aparece. C0 l11 0 teoria po líti ca. em Fa hle o{ fil e bees [I--ábula das
Os TMies ai nda existente:, entre a grande gellfn' voltaram a in gressar na comi<,­ abelha:-.] Je Mandevilk : na polêmica Ul) "Co unt ry Party",'" com um verni z Tu­
são de paz. recu peraram sua prese nça polít ica n o ~ condados, tinham esperanças rr. no pensamélllO de Bolin gbroke; e reaparece, de forma mais frag mentada, e
de algum lju inhão dos despojo), do poder. Quando a manu fatu ra "u biu na hala nça com um vern iz \\'hig , em Po/irical disquisillOl1S, de B urgh.2J Nas primeiras dé­
da ri queza c m detrimen to do co mércio e da c"peculação. certa.s fo rm a~ de privi­ cadas do 'iéculo, a comp ara~ ã o enLre a al ta pol ítica e o submundo do!' criminosos
légio e corrupção SI.: tomara m odiosas aos endinhetrado", que se acomodavam era uma fig ura satíri ca co mum:
na aren a "imparcial" racionali zada do Iivre me rcado: os grandes lucros podiam St:i que, ~c alguém qu i,er agradar os homens de alta rMi,.f\O soc ial, deve estudar
sc r obtidos ~cm nenhu ma compra política anterior no interior dos órgãos elo Es­ para i mi tá-I o~, e ~ei cle que modo eles conseguem (\ ,cu dinheiro e (l~ sc u~ cargos.
tado. A asce nsão de George II I ao lrono mudou de muita" ma neiras os lermos do l\i1o me ad \l1ira que os talentos indi spcnsúvcis a um ~ rande estadista sc:: jam tãu c~­
jogo político - a oposição sacou e lu strou sua antiga r~tó ric a libertiÍria , e para ca),Sll!' 11 0 mundo. rois I\lui to ~ daqueles que os possuem ,,:in todos 0, meses I.:limi­
al gull" (co mo na Cit y ele Lond res) ela chegou a assu mir um conteúdo real e re­ l1aJ(\ ~ na !lor dn idade no Old- Ba il ~.
\ igorado. Mas o rei infelizmente estragou luda e qualque r ten tati\'a de Sê apre­ As~i m escreveu John Gay. numa carta partic ular, em 1723.'-' O pensamento era
sentar C0 l11 0 um monarc a t'sc larecido , o áp ice imperia l para umu burocracia a semente para a Ópera dos frês vinT éns. Os histori adores tê m comumente re­
desinteressada. As fun ções parasitas do Est ado passavam por um crescente es­ jei tado essa fi gura como hipérbole . Não deve riam.
cru tín io e ataques pontuais (a re forma do impo\ to de consumo, 0 :-' at aq ues à Se m dú vid<J, há ressal vas a screm feitas. Enlre tanto , uma ressal va que neto
Co mpanhi a das í ndia ~ Orie ntai~, aos postos e si necuras.. à apropriação inclevida pode '>c r fei ta é que csse para~i t i slll o fosse controlado, ou invejosamcn te vigia­
das terras públ icas etc,) . mas , ape<;ar de (er um \!fici ~n te ser viço de receita e uma do. por um a crescente classe média coesa c decitlida, composta de profiss ionais
Ma rinha ~ um Exército e m bom estado, o pape l parasita do Estado ~ o bre vive u, c dll classe média manufatureira.;'· Certo. todos os eleme ntos dessa classe es­
"A Velha Corru pção" é um termo mais sério dé análise pol íti ca do que fre­ luvam se reuni nelo, c a pesqu isa hi stórica rece nte tem enfatizado o cresc imenlo,
qLi en te mente se supüe, pois se el eve compree nder o poder políti co d ura nt ~ a em riqueza. números e presença cultural. dos setores comercial, profissional,
maior parte do sécu lo XVIII não como um órgão direto de qualquer clas \c o u in­ ag rícola e me rcantil da ,>ociedade:- a ocasional afirmaçã o de independência na
le resse, mas como LIma formação políti ca secundária, um ponto de compra a po lítica urbana;'" o grande cresc imento de cell tros e recur~O s de lazer que ser­
partir do qual outras formas de poder econômicCl c social podiam ser obtidas ou viam principalmente às "camadas méd ias" .'" Se nas primeiras déc adas do sécu­
ampliadas. Em sua s funções primárias, e ra dispendioso, excl:'ssivame nte inet'i­ lo esses grupos podi am se r m..m ti do'i no seu lugar por med idas palpá vl!is de
cie nte, e só sobrevive u ao séc ulo porque não in ibia seriamente as ações daque ­ d ientela e depelldênc ia, \t, na metade do século já eram bast<l nte numerosoS­
les que tinham dr.: ,fácto poder econômico ou político (local). Sua maior fon te de
força se encontrava pr~cisame n tc 'la fraqu(.·ú l do próprio Estado , no desuso de (V II ) O Country P~l1·t ) ( Pa rt ido do Ca ll1p') ). e m co ntrasre co m o Comt Party (Part ido da

seus poderes paternais, burocrático:, t: proteciClnistas, na permissão que confe­ '('orte"). fa zia o posi<,':Io üs políti ca, da realeza nOti na l do sec ulo XV II e início do XVIII. ( N . R )

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cer1<1mcn te em Lon dres e também em algumas cidadel' grand e ~ - para não neubu m frei o, nenhuma res tri ção à regra parasita, a conseqüência leria sido a
sere m ma is dependentcs de uns poucos patronos, e por terem adqu irido <I inde­ an arqui a. uma fac ção explo rando se m limites a outra. Foram q uatro as princi­
pen dência do mercado m:iis anônimo. Nu m certo se ntido, a cl asse m ~di a estava pai s res triçõe s a essa regra.
cri ando Zt sua própri a obscura sociedade civi l o u esfcra pública. Primeiro, j á observamos a tradição "Country", em grande parte rOi )', da pe­
A in da as..,i m , tu do i s~ o fic ava mu ito aqué m de uma c lasse com s uas quena gel1l f"y indepe ndente . Essa tradição é a única a e mergir com grandes hon­
pró pri a ~ i nstitu içi5es e obje tivos, e com bas tan te autoconfiança para desafiar os ras da pri meira metade do século. Ela re aparece, so b um ma nto whig, com o
admini'ilradores da Vel ha Conupçãt1. E<;sa classe sÓ começo u a se descobrir (ex­ Movimento da A~~ oci ação na década de 1770. ' Em segundo lugar, temos a im­
ceto. lalve7 , e m Londres ) !las últimas décadas do ~é culo . Dura nte a maior parte prens:L ela própri a uma espéc ie de presença da classe méd ia . à frente ele outras
do ~é cu lo . o s seus pote nciai s membro ~ se con tentaram em "e submeter a uma expressões articulada s - urn a prese nça que ampliava o seu alcance, à medida
condição de dependência abjeta . Faziam pouco esfo rço (até o Mov imento da que <;e difundia a alfabeti zação e a própria impren sa aprendi a a ampliar e man­
A"sociação do fin al da década de 1770) para se li vrar das cadei as do s uborno e ter <;uas liberdades .'" E m terceiro lugar, temos "a lei", promovida durante esse
int1uência eleitorais. Co nsentiam na su a própria conupção . Depoi s ue duas dé­ século a um papel mais proeminente q ue em qu alquer outro período de nossa
cadas de ligação servil com Walpole, os Diss ide ntes receberam a "ua recom­ história, e servindo como a autoridade " imparciaL" e arbitradora no lugar de uma
pensa: qui nhentas libras por ano a sere m distribuídas às viú vas dos clérigos monarquia fraca e não esclarecida, de uma burocracia corrupta c de uma demo­
merecedores. C inqüenta anos mais ttude. ainda não li nham assegurado a revo­ cracia que oferecia às reais usurpações de poder pouco mais que ret órica a res­
gação do Test Act e do Corporation Acl. Como ecles iá::; tic os. a maioria bajulava peito dc sua ascendência. A lei civil fornecia aos interesses em disputa uma série
os poderosos para conseg uir promoções, jantava e brincava (s ua presença era de defesas para as suas propriedades, bem como aq uelas regras do jogo sem as
apenas tolerada) às JTle ~ as de seu s se nhores, e. como o vigário Woodforde, não quais tudo teria caído na anarquia. As instituições mais elevadas da lei não es­
se ofe nd ia em aceitar uma gOIjeta do fid al go num casamento Ou batizado. '1 Co­ tavam livres da int1uência e corrupção, mas eram mais livres desses males do
mo fis cais , advogados, tulOres , admi nis tradores , neg ocian t~s e tc. , eles cram que qualquer outra profis são. Para manter a sua credibilidade, os tribunais de­
con tidos de ntro dos li mites da de pe ndê ncia. S ua..s cart as defercntes, solicitand o viam às vezes julgar a favor do pequeno contra o grande , do súdito contra o rei.
cargos ou favores, estão g uardadas nas coleções de manuscri tos dos poderoso s . '~ Em termos de estilo, o desempenho era soberbo: sereno , sem a mácula da in­
(Sendo assim , as fon te:; têm o \i é~ historiográfico ue enfatizar ex ageradamen te n uência, distanciado do tu multo dos negóci os, lúcido , combinando a reverência
o elemento deferente na sociedade do século XV II I - um homem que se acha, aos precedentes de antiguidade co m uma assimilação t1exível do presente . O di­
por força. na posição de soli citar favores não revel ará o q ue realmente pensa.) nbeü'o, cl aro, podia comprar os melh ores atores, e a bols a mai s rica podia fre­
Em geral. a classe mé dia se suhmetia a uma relação de cl ien tela. Aqui e ali ho­ qüentemente esvaziar a de menos posses. Mas o dinheiro nunca podi a comprar
mens de perso nalidade forte podiam se libertar. mas até as artes continuavam abertamente um julgamento e, de ve z e m quando, era visivelmente denotado. A
mati zadas pe la dependê nci a da ge nerosidade dos mecenas. " O candidato a pro­ lei civ il forn ec ia uma estrutura justa dentro da qual os predadores podiam lutar
fi ss ional ou negoc iante proc urava remedi ar o .,eu senso de inj ustiça me nos pela por alguns tipos de despojos - dízimo'. reivindicações de t10restas e terras co­
organização ~ocial que pel a mo bilidade social (ou mobi lidade geográfica, indo munais, hera nça s e vinculação de bens de rai z - , às vezes suas vítim as de
para Be ngala ou para aq uele "Oeste" da Europa - o Novo Mu ndo) Procu ra va menos importância podiam se defender com os mesmos meios. M as o direito pe­
co mprar imunillade conLra ,1 deferência adquirindo a riq ucza q ue lhe daria " in­ lul, que se dirigia em geral às pessoas dissolutas e desordeiras, tinha um aspec­
de pe ndê ncia", ou terras e o statu s de gentl"y ." Os proCundos re ssentimento s to complet a mente difere nte. Além di sso, a lei do século XV III se interc:: sava
gerados por essa condi ção de cliente , com suas con seqüent es hu milhações e menos pelas rel ações entre as pe ssoas do que pelas relações entre as pro­
se us obstáL ulos a uma carre ira aberta a ta lentos, alimentaram grand e parte do priedades, ou reivindicações de propriedade, o que l3lackslone chamava "o di­
radi cal is mo intelectual do i nício da década de 1790. Sua:i br<lsas ainda chamus­ reito da:'. coisas" (ver a :;eguir, pp. LL2-3).
ca m O" pés até nas Lalma,> Crases racio nalis(as úa prosa de Godwin. Em quarto e último lugar, há a resi stência sempre presente da multid ão,
A'i'i im. pe lo me nus du ran te a~ prime iras sete d~ c ad as do séc ulo , nãn en­ uma multidão que às \eze s se estendia da pequena gentry e dos profiss ionais até
contramos urna da~se média profissional ou i ndu~ tri al qu e pusesse um fre io efi­ os piJore:- (e no m~io da qual os dois primeiros grupos proc uravam às vezes com­
caz às operações do pode r oligá rquico pred atóri o . Mas se não ti vesse havido binar a oposição ao sistema com o anonimato). Porém, para os poderosos , que a

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via m através da névoa verde ao redor de ~eu~ parques . parec ia comp()sta de "dis­ man ufaturado; os be ns, tnl n <;p ortad() ~ ; :1'" casas. construídas : nem os parques,
sulutos e desordeiros" . A relaç ão entre a gcnfl)' e a mul ti dão é o interesse es­ am pli ados, J'> em um a mão-de-obra d is ponível e móvel, para a qual <;eri:l in co n­
pedfico desta di'\l: ussão. venienteo u impossíve l aceitar as reciprocidade s da re lação -;enhor-servo . Os se­
nlwre' rejeitavam suas respon sabiltdades pate rnais. mas, ao lon go de muitas
décadas , não paravam de se q uei xar do rompimento da "grande lei da subordi­
/li nação". da diminui ção da de ferê ncia resul l:mte dessa recusa:
Os rro!ml/wd orel' pobres, opesa r da paga em dobro.
Nin gué m esperaria que as respo nsabilidades p,llernais ou a deferê ncia fi­ Selo (/rfe\·ido s, rebeldes e nlisercÍl ·e is . .,
li al fossem \' igorosas no regime predatório por mim ap ontado. M as é certame nte
A q ueixa mais característic a, durante a maior parte do século. e ra quanto à
possível que uma sociedade esteja rachada e barbarame nte [accionári a no topo,
j ndi~c iplina do~ trabalh adore~ , sua irregul aridade de emprego, su a falta de su­
mas conserve a su a coesão na camada inferior. As juntas milit ares se e nvol ve m
jeiç ãu econômica e su a insubordinação soc ial. Defoe, que não foi um teórico
em golpes e contragolpes, os pretende ntes ao trono trocam de lugar, QS se nhores
onvenci o nal dos "baixos salários· '. e que às vezes v ia mé rito nos salários mais
da guerra realizam marchas e contramarchas, mas na base da sociedade os cam­
al ros LJue aume ntariam o poder co ns um idor dos "manufatore s" ou do s " artí­
poneses ou os tra balhadore ~ nas plallla tiulI s permanecem pass ivo s, s ubme­
fices", apresentou toda a argumentação em seu C reuf law ofsubordil1otion con­
tendo-se às vezeí. a uma troca de senh ores. c onti d o ~ pela força das institu ições
sider ·d; 0/; the illsolence and instif.ferable behavioLlrofservallrs in England duly
pate rn ais locais, obrigados a se sujeitar pela au:-ência de hori zontes sociais al­
el/q/li,. 'fi il1to rConsiderações sobre a grande lei da subordinação; ou a devida in­
ternati vos. Q ualquer qu e tenha sido o parasiti$mo que infestasse o Estado do
vestigaç ão sobre a insolência e o comportamento inlo lerá vel dos criados na
século XVIII, a gentry, segura nos seu s condad o~. não teria lançado sobre toda a
Inglaterra 1(1 724 ). Afi rmava que pel a insubordin ação dos criados:
sociedade uma rede paternalista?
Não seria difícil encontrar exemplos de grandes propriedades rurais ou de o~ agri e ultore" s ão anui nad os: os rUl.e ndeiros, des mantelados ; os manul'atores e
aldeias senhoriais fechadas onde isso parece se confi nn ar. Retornaremos a es­ artífi ces, endividados com a conseqüente destru ição do comércio [ ... ] e ninguém
ses exemplos. Seria igualmente fácil encontrar regiões de pastagem e florestas q ue empregue um contingente de pobres no curso dos seus negócios pode depen­
com indústria doméstica em expansão on de isso é evidentemente falso. A troca der de qualquer contrato por eles ajustado, nem realizar qualquer coi sa de que se
e ncarregam , poi s não há lei , nem poder. .. que obrigue os pobres a reali zar ho nesta­
de exemplos não vai nos levar muito longe. A pergunta que devemos fa7er é a
segtJ inte: quais eram as instituições, no século XV III. que permitiam aos gover­ me nte o que sãü contratados para razer.
Sob a suspensão do r·O/ll h cio , e na falta ge ral de trabalho , são ruid osos c re­
nanres obter, direta ou indiretamente, o controle ~o bre a vida inteira do traba­
hel des, fog em das famílias, lotam as paróquias co m as mulherc:' c os filho s [ ... ) e
lhador. e m oposição à compra, seriatim, de ~ u a força de trabalho')
[ ... ) tornam -se dispostos a qualqu e r tipo de dano, seja a insurreição pública, :i c.p o
O fato mais substancial está no outro lado da pergunta. Esse é o século que
saq ue privado.
presencia a erosão das forma s scmilivres de tra balho, o declínio da modalidade N U/II a supera/JllIldüncia de comércio , tornam -se atrevidos , preguiçosos, ocio­
de morar no local de trabalho . a extinção final dos serviços prestados em paga ~\lS c Jc\'asso, l... ] só querem trabalhar doIS o u três dias na semana.
pejo arrendamen to c O ava nço do trabalho livre, móvel e assalariado . Não foi
O controk patern alista sobre a vi cia inteira do trabalhador est(l\ él de fato
lima tran sição fácil Oll rápida. Christoph er Hill nos lembrou a longa resistência
ofe recida pe lo inglês livre de nascimento à sopa do trabalho liv re assa lariado. s~ndo desfe ito. A fi xação do salário'll! caía em desuso, a mobiliJade da mão-de­
Deve-se notar igu almente a longa re s istência (jue os senhores oferec iam a algu­ ohra é mani fe-.; la, o vigor das feiras de contra.tação, .\ [({tl/tel' ou .I/utlies , procl a­
Ina o dire ito do trabalhador rural (be m como dn urbano) de reivind icar. se assim
mas de slIas conseqüências. Eles desejavam ardentemen te ficar com o me lhor
do mundo antigo e do novo, sem as de svantage ns de nenhum dos dois . Agar­ n Uése.iar, uma tJoca de patrão. " Além di sso, há evidências (na própri a rec usados
ravam -se à imagem do trabalhador como um home m I/ ão livre, um " servo" : um trabalhadmes a se submeter à disciplina de trabalho deles exigida) que at estam
servo na lavoura , na ofic ina, na casa. (Agarravam-se simultanea me nte à image m
do ho mem livre ou se m senh or como um vagabundo, a ser disciplinado , (VIII) De,de o re ino de E IILahelh I (t5 58· \(03). m sal:'rios eram ti ,aJos localrneme pe los

chicoteado e compelido a trabalh ar.) Mas a safra não podia ser colhida; o tecido , .I l1 í/~S ue pai (?-era llll cnle rnelllbros da Rell ln ) dm, ":cll\dad os. (N. T.)

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4/
o dese nvolvimen to de uma recém-adqui ri da psicologi.,,jo tra bal hador li vre. compro meti do com uma racionali/.ação econ ômica imp iedosa. Entre as
Numa da'i an edotas moral istas. de De foc, o juiz de paz c Oma o [oupeiro por ac usações que arrendatários e fun cionários su bordinados dos trib unais do bispo
causa de uma queixa de seu empregado I', que afimJ av8!!,ue o tra bal ho es tava
sendo negligenciado: apresentaram contra Heron . em 1707, constavam as seg uintes:
Ele infri nge anti gos costu m c ~ [... ] em q ue ~ ti\es pequenas e diminutas , que são de
JUIZ Entre. Edmund. falei com o ~ell se nhor.

EJ)~'il .'iD
pouco valor para Vlls<;a Exce lência [ .. 1 tem se negado a dar cinco xelins em
Não com o ITleu sel/llo/' , Vo ~s a Excelênci a"'<;pero ser o
Wa ltham pam o júri no trihull al [... 1heher ü :,aúdc de VO'\é\ Ex celência. um costume
meu próprio senhor.
11 11% que vigora de., ue tem pos irncmoriais l.. .] tem negad() ao intenden te c funcionários
Be m. com o seu empregador, I) .s r. E... , o U,rican te de
roupas. Sl: rve a palavra empregador') de Vossa Exceléncia o pequeno filVOI' de te rem os cavalos Cerrados em Walth al1l, de
ED,\ IUND
Si m, sim. Vossa Excelência. qualquer cOi l,., que não seja acordo com um antign costume que jamai s passou de seis ou sete xe lins [... ] negou
senhor. '" aos arrendatário s de Vo ~s a Excelência madeira para conserta!' várias !l0ntes e cur­
rui , nas ten'as comunais.
ls'iOé uma grande mudança no~ tennos das relações: a subordinação está se tor­
nando objeto de negociação (embora entre partes gritantemente desiguais ). A essaS ac usações, Heron respondeu um tanto irado:
O século XV lff teste munhou uma mudança qualitatiyé;, nas relações de tra­ C o nfcs~ () que gosto às vezes de interrompel" esses costumes di mi nutos, como ele
balho, mas sua nature za fica obsc urecida se a consicleramu, apenas em termos os chama, porqu e observo que os favores de \ osso predecessOI' são prcsnitos con­
de um aumento na escala e no volu me da manufatura e do comércio. Is so ocor­ tra Voss a.Excelência, ex igidos como direitos. e depois os beneficiados nem sequer
reu, sem dúvid a. Todavia, ocorreu de tal maneira que uma proporção substan­ agradecem a Vossa Excelência. Além disso, embora sejam diminutos, muitas des­
cial da força de trabalho se tornou realmente mais livre da d1~c iplina no trabalho pesas diminutas [... ] resultam em alguma soma no final.'"
diário, mai s li vre para escolher entre e mpregadores e entre o trabalho e o lazer.
Desse modo a racionalização econômica mordiscava (e há muito tempo
ficando todo o seu modo de vida menos marcado por UllJa posição de depen­
an dava mordiscando) os laços do paternalismo. A outra caracteríSlica domi nan­
dência do que tinha sido até então ou do que viria a ser nas primeiras décadas da
discipl inG da fábrica e do relógio. te des se período de transição foi a ampliação daquele ~ctor da economia que era
independente de uma relação de clientela com a gentry. A economia "depen­
Foi uma fase de transição. Uma característica imp onante foi a perda de
usos ou direitos não monetári.os, ou a sua conve rsão em pa~a rne ntos em dinhei­ de nte" continuava imensa: não eram apenas os criados diretos da casa-grande.
ro. Esses usos ainda eram eXlraordinariamente difu ndúlo\ 110 início do século as camareiras e os lacaios, os cocheiros, os cavalariços e os jardineiros, os
Xv rrr. Favoreciam () controle so cial pa te rnalista, porqu e pü reciam ao mesmo couteiros e as lavade iras, mas também os demai , drculos concêntricos da clien­
tempo relaç ões econômicas c relações s()ci ais , relaçõe s t'111re pessoas, e não le Ia econômica - o comércio eqüestre e de artigos de luxo, as costureiras, os
pagamen tos por serviços e coisas. Sem dúvida nenhuma, COmer à mesa do em­ pas teleiros e os negociantes de vinho, os construtores de carruagens, os estala­
pregador, morar no seu ce le iro ou acima de sua oficina. era 'i ubmeter-se à sua jadeiros e os moços da estrebaria.
supervisão. Na casa-grande, os criados que dependiam do~ "trocados" dos visi­ Mas o século testemunhou uma crescente área de in dependência, na qual
tantes, das roupas da senhora, das sobras clandestinas da de~pe ns a. passavam to­ os pequenos empregadores e trabalhadores sentiam muito pouco, ou absoluta­
da a vida granj eando fa vores. Até os gan ho", ex tras mu lt iform es dentro da mente não sentiam, a sua relação de clie ntela com a gentr)'. Essas eram as pes­
ind ú ~ tri a. cada ve/ mai s redefini dos como "roubo", lin ham mais probabilidade Soas a quem a gentr)' via como "ociosas e de sordeiras" , afastadas de seu controle
de ~obreviver 11 0S lu gares em que os trab alhadores os aceitu\'am como favores e \oci aI. Des), e ~ gru p0s - roupeiros, a rt~s ãos urbanos, carvoeiros, barqueiros e
se submeti am a uma dependência filial. porteiros, traba lhadores e pequen os negocian te~ no comércio de ali mentos ­
De ve7 em quando, vislu mbra-se a extinção de um emo lu me nto ou serv iço saíam provavelmente os rebeldes sociais. os participantes dos motins da fome e
Cjue deve ter indu%ido no controle paternali <'!<:i um choque des proporcional ao das barreiras de ped,ígio. Eles co nservavam muitos dos alributos comumente
gan ho ec onômico do em pregador. Assim, quando Sir Jonalhan TI'elaw ney, co­ aLr ibuíd o~ à "mão-de-obra pré-industri al" .1I Trabalhando freqüen temente !las
mo bispo de Winche~ ter, estava procurando aumentar a renda de sua sede epis­ su as próprias choupanas, possuindo ou alugando suas ferramentas , trabalhando
copaL empregou como admi nistrador um certo Heron , um homem fortemente normalmente para pequenos empregadores, trabalhando muitas vez es em horas

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irrt!g uI are~ e e m ma i~ de um emprego, linham escapado do~ controles .\ ociais da dú<;tria co m hase na m uJtip ljcaç ão dc muitas peq ue nas uni da des, com muito
alue ia ~en h oriaI e ainda não estavam ~ ujc i to s à di sciplin a do trah alho fabril. subem prego (especi a lmen te a nação) cojnç idind() co m a ma nutenção de Illu itas
Mu i ta.~ de suas tran sações econôm icas podiam <;e dar co m hornens e mu­ formu!. de peq ue na rropriedade de terra (ou de di rc iLOS das le rras comun ais) e
lhe res situados um pou co m a i~ aci ma na hi erarquia econ ô mica, Não fa ziam Çom lllu iLa~ demandas casuais de trabalho man ua l. E~ te ~ um lju auro indi scrimi­
"s uas co mpras" em em póri os, mas em lendas Je merc ado, O es tado precário das
nado. c assim foi del iberadamen te traçauo, Os historiadores econôm icos têm
estradas torn ava necess ária lim a g ran de quan tid ade de mercados locais, no s
feito muitas dife renciações cu idadosas e ntre diver<;o s g rupos de trabalhadores,
q uai'i a'> trocas de artigo~ e ntre produtores primá rios pod iam se r inu sitadame nte
Mas ela ... não são re levantes para nossa presen te inves tiga<;ão. Nem eram co mu­
dire t..!s, Na década de 1760.
men te feita~ pe l o~ cO I11 e ntadore~ da gcn l r\' , quan do cons ide rava m o problema
arvoe iros q ue trabalha va m pe ~a do, home ns e mllIhere ~ de Som crs e t ~ hire c gera l da " ins ubordinação" , Ao cOl1\ rário, pa ra além dos portôc, do parque e das
G loucestersh ire, \'iaja vam para vá ri as c id ades vizinhas com band os de cava los [ .. , J g rad e.; da ma nsão lond rina , es ses viam uma mancha de in disc iplina - os
le\ ando ca rgas de c~lrvão [, .. J Era comum ver esses ca l'voeiros carregarem ou
"vagabu 1\uo s e os desordeiros", "a turba", " 0<; pobres", o "populacho" - e de­
e ncherem um saco de carvão de dois a lquei res [72,iS litros] com pro visões l.. ,J
plorava m "as s uas chacotas pe rante toda di scipl in a. tanto reli giosa corno civil:
ca me de boi, carne de carn e iro, grandes ossos de boi meio descarnados, pães
(l seu des prezo pel a o rdem , a sua ameaça freqüe nte a qualquer justiça e a sua ex­
do rmid os e pedaços de queij o:"
trema pro ntidão a parti cipar de levantes tumultuo sos (lel os menores motivos" , I"
Es ses mercado s e, ainda mais, as feira s sazo nais não só propiciavam um nc ' o Como sem pre, é um a queixa indiscriminada contra a ge nte comum, O tra­
econô mi co, mas também um nexo cu ltural, além de um g rande ce ntro para in ­ balho li\ rc trou xera cons igo um enfraqueci me nto dos <lntigl)~ meios de dis ci­
fo rmações e troca de novidades e boatos,
pli na social. Assim, longe de uma sociedade patriarcal seg lll'<l de si. o que o
Em muitas regiões. as pessoas não tinh am sido completamente despojadas séc ulo Xv [[] prese ncia é o velho paternalismo prestes a e ntrar e m ni,c.
de alguma posse da terra, Como grande parte do crescimento indu stri al não as­
sumiu a forma de uma concentração em grandes unidades de produção, mas de
um a dispersão de pequenas unidades e subempregos (especialmente a fi ação) ,
\I
havia recursos adicionais para "in(Kpe ndênc ia" , Para muitos, c ~i sa indepe ndê n­
cia nunc a fica lia longe da mera subsistência: um a co lheita farta pod ia trazer uma
No entanto, co nsidera-se que "cri se" é um termo demas iadam ente forte, Se
riqu eza momentânea , uma longa eSlação de c hu vas podia obrigar as pessoas a
co ntinu a portodo o séc ul o a queixa de qLle os pobl'es eram indi sci plinados, cri­
recorrer à as sistência soc ial. Mas muitos conseguiam tirar essa subs istência das
terra:; com unais, dos ganhos da colheit a e de trabalhos manuais ocasio nais, de minoso", inc linados ao tumulto e ao motim. nunca se te m a impressão, antes da
sube mpregos nas chou panas, do c.> pediente de empregar as fil has, da ass istê n­ Hevol tt<; ão Frances a, de que os govern ante s da Inglaterra imaginasse m que to­
cia aos pob res o u da caridade. E. sem dúvida, alg uns dos pobres tinham a sua daa sua urdem social esti vesse e m perigo, A insubol'din ação do,; pobres era uma
próp ria economia predatória, corno "a enorme quantidade dé devas sos, i Il conveniência, não uma ameaça, Os estilos de pol ítica e de arquitetura, a retó ri­
vagabundos e desordeiros" qu e, segundo se alegava, viviam às margens de En­ ca da g entr)' e suas artes decorativas. tudo parece proc la mar a estabilidade, a au­
fie ld Chase nos tempos de George [I, e que " infestam a área. invadi lldo o terreno toco nfianç a, o hábito de contornar toda s as ameaças it sua hege monia,
nas noites escuras , co m machados , ~erras , podões, carroças e cavalos, roubando É claro, pode mos ter e xage rado a cri<'e du patern a li smo, Ao vo ltarmos nos­
nas suas ida s e vindas as ovelhas . os cordeiros e as galinh as de gen te hon esta sa menção para o parasit ismo do Estado no topo, e. embaixo, p,lra a erosao das
[,,, ]", l i Essas pessoas aparecem repetidameme nos registros crim inais, na cor­ rela~ ões trad ic ion ais pelo trabalho li vre e por uma economia mo netária, cle ixa­
resp o nd ência adm ini strativa da:; g ra ndes pro priedades. nos folhe tos e na im­ I1\OS de examinar os níve is inll:rmeulários, em qu e co ntin uavam fortes os con ­

prensa, Ainda apa recem , na década de 1790, nos levantament os agrícolas dos tro le., cconômicos domés ti cos mais an ti g () ~. e é po ss íve l qu e tenhamos
cond ado~ . Não podem ter sido in leiramente inve nção da cla s~e dominan te , subest im ado o alcance das áreas d ~ "depc nJ6nc ia" ou "c lientela" da economia ,
Assim. a inde pendê nc ia da mão-de-obra (c do peq ue no empregador) em O con trole q ue os homens de poder e di nheiro ainda exerc iam sobre toda a viua
rdação ao cl ie ntelismo foi alimentada. de um lado, pela conve rsão de "favores" c as ex pectalivas de seus inferi ores continuava e norme, e se o paternalis mo es­
l1ão mon etário ~ em paga me ntos e, de outro, pe la ampliação do comércio o da in­ lava em cri se . a Re vol ução Indus trial dev ia mostrar qu e ~uo. crise ainda devia

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Iriais, e tinham dificuldade~ em preservar mi nimamente ~uu imagem de árbitros,
p a~-; arpo rvárias elap as - até chegar a Peterlooc aos motins de Swing- antcs
medi adores ou até de prolelore<; tios pobre~ . Era comum a opinião de qu e ·'''elll­
qu e ele perdc !:>se l~) da a credibilidade
pre que um negociante \e torna juil., cria-se um tirano" .'" As leis de assi~tênci a
Ainda a'is im, a análise nos pemlite \'cr que o controle da classe dominante
aoS pobres. cas~) fossem duras, nuo eram administrauas diretame nte pel a ~elll ry:
no sécul o XV lll ~ e locali zava primordialmente num a hegemonia cultural, e só se­
nOS ca<;os em que havia culpa, as acu sações podia m voltar-:-,e contra os faLen­
cu ndariame nte nu ma expressão de poder econômico ou fís ico (militar). Di 7er
dei ro~ e os negociantes que prej ud icavam as taxas da assistência aos pobre.:;. e
que era "cul tural " não é di zer que fo sse i material , demasiado frágil para análise,
era de seu mcio que provi nham O~ i n~petores da Lei dos Pobres. Langhorne
insuhstancial. Definir o control e em lermos de hegemonia cultural não é des is­
apresenta a imagem paternalista idealizada, exortando o juiz rural a
tir das tentativas de análi se. mas se preparar para a an álise no<; pontos em que de­
veria ser feita: nas imagens de poder e autoridade, ll as mentalidades popul ares [...] inclina I' a fron te .\ cw' l·a

ua subordinação. Sohre o inspelOr crliel. ladre/o, ve lha co ,

O roupeu'o fict ício de Defoe, intimado a comparecer perante o magistrad o O fa::.endeiro cheio de ('\ asi l'us. po uco confiável,

para preslar contas de sua ~ falta s, oferece uma pista: " não o meu senhor. Vossa Ill flex ível C{}/ I/ O (/ IUclw. il/s(/ciô\'el como a (c r/a.

Q/llI ndo () pobre (,lIlI1pol1 ês . curvado com o passar dos anos.

Excc lência, espero ser o meu próprio senhur" . A deferência que rec u ~a ao seu
Apôia-se(mco 11(/ sua owrora injúTip,óvel pá,

empregador transborda na expressão calculadame nte obsequiosa "Vossa Ex­


t;sCjllecido do serviço de seus dias mais capazes,

celência". Ele quer se ver livre das humilhações imediatas e di ária s da de­ Sua lahuta lu cm{iva , e sua glória honesta,

pendência. Mas as linhas mai s ampl as J o poder. a posição social na vida e a Cste ('scravo, que punha a mesa com o seu (mhalh o!" J·
al ltoridade política parecem ser tão inevitáveis e irrcversíveis quanto o céu e a
terra. Uma hegemonia cultural desse tipo indu i' exatamente àquele estado de es ­ E, mais uma vez. podia-se manter um a imagem pelo menos espectral das res­
pírito em que as estruturas estabelecidas da autoridade e os modos de exploração ponsabi lidades paternais com mu ito pouco di spêndio de esforço . O mesmo juiz
parecem fazer parte do próprio curso da natureza. Isso não impede o ressenti­ de pá l qu~. na sua paróquia fechada, agravava os problemas de pobreza em ou­
mento , nem mesmo os atos sub-reptícios de protesto ou vingança. Impede a re­ tros lugm'es , ao recusar licença de residência e derrubar choupanas nas terras co­
belião afirmativa. munai s, podia, nas sessões trime strais, ao atender o apelo ocasional contra
A 8e nliy na Inglaterra do século XV IU exercia esse tipo de hegemonia . E a iospetorec; de outras paróquias abertas, ou ao chamar à ordem o mestre corrup­
exercia tanto mais eficazmente, porque a rel ação entre dominante e dominado to da oficina, colocar-se acima das linhas da batalha.
não era em geral face a face, mas indireta. Isso sem contar a au sência dos pro­ Temos o paradoxo de que a credibilidade dagelltry como paternalis ta pro­
prietários de terra e a mediação se mpre presente de admini stradores e inten­ vinha da alta visibilidade de certas de suas funções, bem como da baixa visibi­
de ntes. O aparecimento do sistema de três camadas - proprietário de terra , lidade de outras. U ma grande parte da apropriação do valor do trabalho dos
agricultor arrendatário e trabalhador se m terra - significava que os trabalha­ "pobres" pela gentry era mediada pelos seus arrendatários, pelo comércio ou
dores rurais , em massa, não se confrontavam com a gentry na sua qualidade de pel a tributação. Fisicamente, eles se afast avam cada ve? mais das relações face
LI face com as pessoas na aldeia e na cidade. A moda dos parques de cervos e a
empregadores, nem era agenrry vista como responsável em qualquer sentido di­
reto pelas suas condições de vida. Ter um filho ou uma filha trabalhando na casa­ ameaça dos ladrões de caça acarretavam o fim dos dircitos de pas:;agem pelos
grande não era visto como uma necessidade, mas como um favor. se us parque,,- e o cercam ento dos terrenos com altas paliçadas ou muros : o ajar­
E eles ficavam igualmen te afastados das polaridades do antagonismo so­ di namento da paisagem, com fontes ornamentais e lagos de peix.es. bichos en­
cial e econômico por ou tras maneiras. Quando o preço dos alimentos subia, a jaulados e esLátuas valio sas . acentuava a sua segregação e as defesa s de seu s
fúr ia popular não rec aía sobre os propri etários de terra, mas sobre os inter­ terrenos, onde só se podia entrar pclo~ allos portões de fe ITO forjado, vigiados a
Illediários. os açambarcadores, os moleiros. A gellfr y podia lucrar com a ve nda
da lã, mas ninguém achava que t ives ~ e uma relação exploradora direta com os ( 1\) l.. ] bend lhe brow scw.r~/ On the si)'. pilfering. cruel oversce r:1 The shufflin g fa nllCl".
rou pciros . " I'~, ithfullo no [[l1,I J RUlhk~ss as rllc b , inSalia[~.]> the du st./ Wll cn lhe poor hind. \\' ilh length 0 1'
Vem, d~cay'·d .l Lea nô fee bly on hi s unce suhduin g spade,/ Fllrgot lhe sc rvice ofh i:-. ahler day~.1 Hi s
Nas regiões industriais cm ex pansão, os fidalgos juízes de paz viviam na
pmti table loil, and honest p,'ai se .l Thi s ~;{aV<'. whose board hi s former labo urs ,p read l
su a jurisdição rural , afast ados freqüe ntemente dos principais ce ntros indus­
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partir da casa do porteiro. A alta gellfry 'ie defendia de s.:u s arrendat,ir ios por
ofe rec idos para alg uma corri da O ll e-"porte, as doações generosas para a caridade
meio dos mei rinhos. e do~ e nconl ros casuai s por meio de seus coche iros. EJe ~ se
el11 tempos de escassez, o pedido de clemê ncia, a proclamayão contra os açam­
encontravam com as camadas mais baixas da sociedade nos seu s própri os ler­
bW'çadores, É como se a i l u ~ ão do p ate rnalismo fosse de ma:,iado [rágil pa ra se
mos, e quando es ~ as dependiam de seu s favo res: nas formalidad.::; das COrles de
correr o ri scO J e Lim a exp osição mais demorada.
justiça ou em calculadas oca siões de cl ie ntelismo popular.
As ocasiões de patronagem da aristocrac ia c da genl rY certamente me re­
No entanto, ao desempenhar essas fun ções , a sua visibilidade era formidá ­
cem atenção : esse lubri fic ante social dos gestos pod ia. com bastante faCIlidade,
vel. a<;sim Como as formidá w is mansões impu nh am sua presença, afastadas da
f'l.I:er os mecanismos de pode r e exploração girarem mais su avemente. Os po­
aldeia ou da cidade. mas vigiando-as. S uas aparições em público tinham muito bre~, habi tu ados a sua posição irrevogável, eram freqüen te mente transforma­
da est udada reprcse maç ão teatral. A espada era posta de lado. exceto para li ns de dos, pela su a própria bou índole, em cúmplices de sua própria o pressão: um ano
cerimonial. Ma~ a elaboraçilo Jas perucas, as roupa~ ornamentadas e as be ngalas, de provisões esc as~ as pod ia ser compensado por uma ge nerosa doação no Na­
e até os gestos patrícios emai ados e a aITogância da postura e da expres.,ilo, tudo lal. Os governall tes tinham consciê nci a disso. U m colaborador de Londol1 Ma­
se destinava a exibir a autoridade aos plebeus e a extrair de les a deferência. E i,­ ga-:ine comentava:
50 :-;e fa zia acompanhar de certas características rituais significati vas: o ritual da
As da n\;as no gramado nas Ces tas paroquiais e em ocasiC1cs ak i! re'i não só de\ c riam
caçada, a pompa das cortes Ce todo o estilo teatral das cortes de justiça), os ban­
ser toleradas como encorajadas. E peql1 e no<; prêmius distribuídos às moças que
cos apartados na igreja Con de entravam mais tarde e de onde saíam mais cedo que
me lhor dançassem uma giga ou uma hornpipe fariam com que retorna~<.crn a seu
o resto dos mortais). E, de vez e m quando, havia a oportunidade de um cerim o­ trab alho d iário de coração leve e com uma obediência grata a seus s uperiores. "~I
nial mai s amplo, que tinha funções inteiramente paternal is tas: a ce le bração de
um casamento, uma festa de maioridade, um festival nac ional (coroaçãO ,ju bileu Mas esse s gestos eram calculados para receber uma retribuição em defe­
ou vitória naval), as esmolas aos pobres num fun eral. I' rência muito desproporcional ao esforço despendido, e certamentc não mere­
Temos aqui um estilo hegemõnico estudado e elaborado , um papel te atral ce m a des crição de " responsabilidades" , Esses grandes burgueses agrários
que os poderos os apre ndiam na infância e dese mpen havam até a morte E ~e de moI1Su'avam ter pouco senso de responsabilidade públic a ou até corporativa.
falamos desse dese mpenho como teatro, não é para diminuir sua importância. O sécul o não é famoso pe la escala de seus prédios público s, mas pela de suas
U ma grande parte da política e da lei é ,>e mpre teatro. Uma I'I~Z "e~li:Jbelecido" mansões privadas. Além disso, é conhecido tanto pela mal versação das institui­
um sistema social. e le não precisa ser endossado diariamente por ,-'\ibiçõe~ de ções de caridade de séculos anteriores como pela fundação de nova s.
poder (embora pontuações ocasionais de força sejam feitas P,JI'(l detlnir os li mi­ ma função pública que a g entry assumia inteiramente como sua era a ad­
re s de tolerância do sis te ma). O que mais importa é um continuado (\li lo teatral. minis tração da ju stiça , a manutenção da ordem pública em tempos de crif,(;.
O que se observa no século XV IrI é a elaboração desse c<;t ilo e a artificialidade Nes<;e ponto. tornava-se magi stral e porte ntosamente visível. Era sem dúvida
com que era apresentado. uma responsabilidade, embora o fos<;c, em primeiro e segundo lugares. para com
a sua própria propriedade e autoridade . Com regularidade e terríve l solenidade .
A gentr)' e (em que~tões de re lações sociais) as suas damas sabiam julgar
()~ limites de tole rância do sistema social eram ressaltados pelos dias de enforca­
com preci.são os tipos de ostentação apropriados para cada posiç:-w social: o tipo
me nto e m Londres , pelo cadáver apodrecendo no patíbulo ao lado da estrada, pe­
de carruage m, a quantidad e de lacaios, o tipo de mesa, até a re putayão adequa­
lo processional das cortes. Por mais indesejáveis q ue fossem os efeitos colaterais
da de "li beralidade" . O es pe tác ulo era tão convincente qu ~ ch ega a desorie ntar
(os ap rendiu s e os criados faltando ao trabalho, o festival de punguistas, a ac la­
historiadores. Nota- se um crescente número de refe rências às "n:sponsabilida­
mação rJ o con denado) , o ritual da execução pública era um acessório necessário
de, paternais " da aristocracia, sobre as q ua..is "repousava todo o siste ma", Ma~
~lll m si ste ma de J i sciplina socia l dependente, em grande parte, do teatro.
at é agora observamos a ntes ge~ tos e posturas que respo ns ab i li dade~ rc ai~.
Na auministração da justiça, havia igualmente gestos qu e participava m
tea Lro dos podero~os não dependia do cuidado constante c diário de~ sa s re~pon­
d t!~se es tilo pakrnalista arti I"icial. Em pé1l1icular, no exercíci o da prerrogati va da
sa hi li dades (exce to nos cargos supremos do Estado , considera va-se quase toda
clemência , a arist'ocracia e a alta gentry pod iam ev ide nc iar o seu grau de inte­
fu nção da aristocraci a no ~éc ulo XV III, e muitas da s funções da gmtrr e do ck ro
re~se . patrocinando ou recusando-se a patroci nar a inte rcess ão pelo conden ado.
mais e levados, q uase lima sinecura, cujos dt!vc res eram repas-;ados a um,ubClI­
E. como mostro u D o uglas Hay, tomar parte, ai nda que i ndiretamente, dos
dimldo), mas de inte rvenções dramáticas ocasionais: o boi :l'\ado . o., prt- Jll io,
poderes de vida e morte aumentava enorlllt: me nlé o sç u carisma hegemõnico. 511

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De vez e m quando, o exe rcíciu do poder de vida e morte podia "ef pl anej ado até
o últim o deta lhe. Em 1728. o du que de Montagu e~l'reVeu ao duq ue de Newca.,­ Se m dúvida. todas essas afi rmações poderiam sofrer restri ções. Mas opon­
tIe a respeit o de " meu ho me m Joho Pone r" , qu e fora co nd enado por rou bar to ce nu'a] para nosl'O ohj eti vo é que o domínio "mágico" da Igrej a e de se..~ ri ­
tapeçarias do duque. Mootagu de'\cjava q ue PaLler fosse condenado ao degredo tUil i" sobre a populaç a. e mbonl ainda fo sse presente. estava se tornando lllLl ito
pelJ)é tuo em vez de se r executado: "Falei co m o escri vão a respe ito, e quan do se fraco . No" séculos XVI e XV II, o puritan ismo decidira des truir os laços de idol a­
fize r amanhã o rcgi5tro do.s malfeitores cond enados no conselho, ele vai propor tria ~ supersti ção - as capelas à beira LIa estrada, as igrej a.s pomposas , os cultos
que Potler sej a inserido no mandado da1> execu ções. mas ao mes mo tempo é pos ­ mi!aI!To,sOS locais, as práticas ~urersri c i osas . () clero confess ional- que .l.' "ll1lO
sível que haja uma su ~pensão da Sua pena, só que disso ele nada deve saber até a ainda hoje se pode ver na Irlanda OLl em pan e da Europa meridi onal. são carnes
manhã da execu ção" . de inru ndir no povo um te mor reverente. A Restauração não co n ~eg uiu recupe­
Três di as mais ta rde , Montagu escrevia ansio sa mente pa ra certificar-se de raro tetido da idol atliu p api ~ ta, q ue. de qu alquer modo , nunca de spertara gr,mde
que a carta da suspe nsão da pena chegaria a tempo. pois se Newcastle a esque­ e nLU ~ ias mo na lng laterra. M a" a Restauração realmente afroux ou o ~ novos laços
ce~se, "ele será enforcado, e SI;: isso aco ntecer. é melhor qu e eu seja enforcado de discip lina que o puri tan ismo introd uLira em se u lugar. Quase não há dLvida
com ele, pois as damas da minha fam íl ia não me deixam em paz. querendo salvá­ de que o irúcio do século XV III presenciou um grand e recuo do puritanis mo. bem
lo l.. .]". O papel do rei nesse exercício da prerroga tiva ela clemência parece ter como a dim inuição do núm ero de seguid ores puritanos populares até m~ s m o
sido fi ctício." naquel és centrOs Je artesãos que tinham ali mentado as facçõe s da Guerra Civil.
De qualquer modo, não se sabe ao certo até qu e ponto é útil descrever essa Como resu ltado, os pobres tiveram acesso a alguma liberdade, ainda que dt tipo
fun ção de proteger a própria propriedade e a ordem social co mo "paternali sta". negativo - libertaram- se da di sc iplina psíquica e da supervi são moral do elero
Se m dúvida, é um a fun ção que arranca poucas mostras de lealdade filial , qu er ou dos presbíteros .
de suas vítimas, yuer das mul ti dões ao redor do, pa tíbul os . ,; O séc ulo que acres­ Em geral, o c lero que exerce suas fu nções pastorais com des velo sempre en ­
centou mais de cem novos crimes capitais aos livros da lei tinha uma visão se­ contra maneiras de coexistir com as superstições pagãs e heréticas de seu reba­
vera (ou le viana) da paternidade.
nho. Po r mai s deploráveis que essas so lu çõ es de comp ro mi sso pareçam aos
teólogos , o padre aprende q ue muitas das crenças e práticas do "folclore"' sãr ino­
v fe nsivas. Se anex adas ao calend ário religioso anu al, podem ser ass im cristia­
nizadas, serv indo para reforçar a autoridade da Igrej a. Os fOljadores dos grilhões
da Santa Igrej a, observava Brand, o pioneiro do fol clore, "tinham con s e~u id o
Se os podero sos fi cavam tão afastado s dos olh os públi cos, dentro de seus
com bastante astúcia qu e os fiéis se senti sse m à vontade trançando flores a s~u re­
parq ues e mansões, também os plebeus, em muitas de suas ali vidades, fi cavam
dor [ ...] Uma profu são de ritos, espetác ul os e ce rimôni as infantis desviJ.vu a
afastados de les . O domínio pat~rnal efetivo não só requer autoridade temporal,
atenção do povo de suas verdadeiras condiçõe~. man tendo-o s sati sfeitos [. r ."
mas também autoridade espiritual e psíquica. É nesse ponto que encontramos,

O mai s importante é que a Igreja devia, nos seus rituai s, controlar os ritos dr pas­
ao que parece, o elo mai :-. fraco do sist<! ll1a.
sagem da vid a pessoal e anexar os festivais popul ares a seu próprio calendário .
Não seria difícil desco brir, nesta ou naq uela paróquia , o cl ero do sécul o XV lrl
A Igwj a Anglicana do século XV III não era uma instituição desse tipo Não
cum prindo, Com dedicação , fun ções paternalistas. Mas sabemos muito bem que
tinha padres a seu serviço, mas pastores. Ex ceto em circun stâncias incomun s.
não eram homens típicos. O retraro do pa~tor AdalllS não é traçado para exempli ­
aba ndonara a prática da co nfiss ão. Rec rutava poucos filho s dos pobres para o
fú:ar as práticas do clero, mas para cliti cá-las . Ele pode ser visto como o Do m
~eu ck ro. Quand o tanto s clérigos servi:.:tm como magistrados temporais e oii cia­
Quixote da Igreja Angli cana do SéCU!(l XV III. A Igrej a era profundamente eras­
V:lm a mesma lei que a genfry. não podiam se apresentar c O llvi ncen le m cn !~ co­
tiana.' Se tiwsse desempenh ado um papel paternalista efeti vo, psicologicamen te
1110 agentes de uma autoridade espiritual alternati va. Qua ndo os bi spo~ era m
Convincen te, o movimento metodista não teri a sido necessário. nem possível.
fruto de nomeações políticas, e quando os parentes da gelltl )' recebiam bene fí­
cio,> eclesiásti cos no campo. on de aumentavam o " CU vic ariato e adota\.lm o
( \j Re tl- rc-\\! à doutrina de Thomar Libe r. chamario "Fms l(1 ", lII":d ico e teól ('go suíço do
c\tilo de vida da ge l7 /ry, era demasiado evi de nte de que fonte prov inha a .Iuto­
'<-'cu lo x\Ir lJu e I1 t'g (J U a autonomi a a.t.I mini strali va e di sciplinar da Igrej a perante o Estad o. (N. R.)
rid ade da Igreja .
50
5/

j
Acima de lUdo . a 19reja perdia () cont role ~o bre o "l azer" ' do, pobre . " su as Jll fun ção dac; festas. Se a fes ta não fo~se pagã. nova" fu nções secula res eram
fes tas e festivú .... e, com isso, sohre uma grande área da cul tura plehé ia. O ternlO acresce ntada.;; ao anú go ri tu al. Com <;u a~ numerosas lend as . os taverne iros, os
"lazer" . ev ide ntemente. é e m si ana crôni co. Na socied ade rural em que per; istiam vendedore~ ambulantes e os artistas estimu lavam as festa" qucll1do seus clientes
tinham nOs bolsos gan hos ex traordinário:, da colheil a. Em Wh it~untitle. a insti­
a peque na la vo ura e a eco nomia doméstica. bem com o em grandes círeas da in­
luição de caridade do vilarej o e os clubes de beneficê ncia ass umia m ao; antigas
dústri a manuratureira, a organi zação do trabalho era tão variad a e irregular que é
fe<.,ttls da cervej a na igrej a. Em Ba mpton, a fes ta do clube na ~egullda-feira de­
ilu-;ó rio traçar uma di stinção nítida entre " trabalho" e "lazer" . Por um lado, as
reuniões sociais mesclavam-se ao trabalh o - o mercado, a tosa das ove lhas e a
poi~ do domin go de Pen tecoste ... incluía uma proc issão com tambores c fla utis­
taS (o u rabequ ista~). dan çarinos l11orri l. x1 um palh aço com uma be xiga
colhe ita . o ato de bu scar e carregar os materiais de trabalho, e assim por di ante,
carregando o ··tc:-.ouro" (a cai xa de dinheiro para as contribuições), um portador
durallte () ano todo. Por outro lado. investia- se um enorlJ1e capital emocional. não
de espada com um bolo. É claro, não havia crucifi xo, nem padres. ne m freiras,
ao~ poucos num a seqüência de noit es de scíbado e manhãs de o;egunda-feira, mas
ne m imagens da Virgem ou dos santos: a sua ausência talvez seja pouco notada.
e tn ocasiões festivas e nos dias de festivai s especiais. M uita" semanas de traba­
Ne nhuma das dezes<;ete canções ou melodias rcgi~ tradas tinha a menor associa­
lho pesado e dieta escassa eram compensadas peJa ex pectati va (ou lembrança)
dessas ocasiões. quando a comida e a bebida eram abundante s. floresciam os ção religiosa:
namoros e todo tipo de relação soc ial e esquecia-se a dureza da vid o. Para os Oh m eu Bil/y, meufiel Bill)',
joven", o ciclo sexual do ano girava em tomo desses fes tivais. Significativamente, Quando vou \'e r (J meu Bil/y de novo?
Qlwndo os ppixps voarem sobre a mO/ltanha .
era para essas ocas iões que os homens e as mulheres vivi am. E se a Igreja tinha
Entüo você vai ver o seu Ril/y de novo. XII 5(.
um a participação pouco significativa na organ ização dess as festas, é porque
dei xara bastante de se envolver co m o calendário emocional dos pobres. Bam pton, esse museu vi vo do folclore, não era uma aldeia rural isolada ,
Pode-se ver tudo is so num sentido literal. Embora os antigos dias dos san­ ma~ um vigoroso centro da indú stria do co uro, a·,',. im como a ~,1iddleton e aAsh­
tos se espalhasse m abundantemente pe la folhinha, o calendário ritual da Igreja lon da infância de Bamford eram centros da indústria doméstica. O que se evi­
concentrava os eve ntos nos meses de trabalho mais ! r~ \'C, do inverno até a pri­ dencia, em muitos desses di stritos e em muitas regiões rurais também no séc ulo
mave ra, do Natal até a Páscoa. Embora as pessoas ainda prestassem tributo a es­ XV III. é que nem por um momento se poderia defender a opinião que (por ex~m­
sas du as últimas datas, que continuavam a ser os dias de máxima comunhão, o pio) Paul Bois é capaz de declarar sobre o camponês francês do Oeste no sécu­
ca lend círio das festividades popularc-; do século XV III coincide apro xi mada­ lo XVIII. segun do a q ual "c' était I' égli se , à I' ombre de laq uelle se nouaient toutes
mente com o calendário agrário . As festas das alde ias e cidades para a sagração lcs re lations" Iera a igrej a, à so mbra ela qual se e ntrelaçavam todas as relaçõe!' 1·'
das igrejas - as wake.\ - não só tinham passado dos dias dus santos para o C laro , o religioso e o secular tinham coexistido com dificuldade ou em meio a
domingo mais próximo, co mo. na maioria dos casos, também haviam sido re­ conl1itos durante séculos. Os puritanos se preocupavam em manter os dançari­
movidas (quando necessário) do solstício de inve rno para o de verão . Por volta nos m orri.l· fora da igreja e as tendas dos vendedores fora de seu pcítio. Recla­
de 1730, o antiquário Thomas Hearne anotou o dia de fes ta de 132 ald e i a ~ ou ma\ am que as festas da cerveja na igrej a e ram maculadas pelo açulame nlo de
cidades em Ox fordshire c arredores. Todas ocorriam entre maio e dCí'embro; 84 ani mais, danças e toda sorte de " indecência". Mas . num certo sentido, a Igreja
(ou mai s yue três quintos) caíam em agosto e se tembro; nada menos que 43 (ou continu ava a c;er o ei xo em torno do qual giravam os raios da roda de<;sa tradi ção
quase um terço) caíam na última semana de agosto e na primeira se mana de popular, e o Sruart hook of'sports [Li vro Stu art da recre ação] procurou confir­
setembro (cale ndário antigo). Fora um grupo "ignificalÍvo de umas vinte. que mar es~a relação contra o ataque puritano. No sécu lo XVIII, o calendário sazo nal
caíam entre o fim de junhoeofim dejulho, e que num ano normal provavelmente agrário cra o ei '(0 , e a Igrej a não fornecia força propulsora al guma. T rata- se:: de
cairia m entre o término da colheita do feno e o começo da colheita cios ce rca is. Uma mudança difícil de definir, mas que foi . sem dúvida , bem grande .
a mai o r parte do cal e ndári o fest ivo emocional situava-se na!" se manas logo de­
pois do fi m da colheita.'" ( XI I lJança ing lt!,a medieval em qu e o, figurantes , eonl fitas e ~i no" reprcscnt:\\"um rer~()­
O dr. M a\colmson rec on ~ trui u o cal en dário das fe stas de Northampton­ nat!l!m: lencla rios. ('-l. T.l
(\ ll j Oh . my l3i " : . my con., lanl Bill )''! When shalll s.:e lTly Bil! ) agui ll')! When lhe ti ,hl:' t1y
shire ma i~ para o fin al do st!c ulo X\ 111, que mOstra quase a mesma incidên ci a. "
A "c{: ulari zação do ca lend ário é acompanhada de um a seculalüação do estil o e !l\crth..: lIlounl ai n.lThen you"ll ,.:c your Bil!y a);ain .

53
52

.."
A experi ência dupla da R ~ form a e do declín io da pre~e n<,:a puritana deixou nesse distrito durante pelo menos outros 150 anos . Mas. C0010 na maioria dos di s­
u rna ex traordinária di s~ oc i a ç ão entre a cultura de e li te e a culturu plebéi a na rrilos, perdera todo signi ri cado sacro . Os símbolos nas carroçw- ricamente deco­
Ing latclTU p ó~ -Resta uraç ão . Tampouco devemos subes tim ar o processo criativo radas se tornavam sinos e potes pin tados. As vestimentas pitorescas dos homens.
de formação de cultura a parti r de baixo. Não só os elementos mai s óbvios - as o' vestidos brancos e as grinald as das mulheres pareciam cada vez mai s pagãos.
canções folclóricas. os clubes dos ofícios e as bon ecas de sabugo - eram ali Os carros alegóricos faziam uma homenagem apenas passageira ao simbolismo
criados, mas também interpretações da vida, satisfações e rituai s. ,\ seu modo cristão: Adão e Eva. :-;ão Jorge e o Dragão, as virtudes. os vícios. Robin Hood e a
rude e tal vez exótico, a venda da esposa desempenhm'a a função de um divórcio donzela Mari an. cavalinhos de pau, con'idasem porcos.dançari nos morris. As fe ~­
ritual mais acessível e mais civilizado que qualquer alternati va que a cultura de tividadei> terminavam com açulamento de animais, lutas , danças e bebidas. e às
elite pudesse oferecer. Os rituais da rough musico por mais cruéis que às vezes vezes com uma vis ita às casas da genfrY e das famílias ricas à procura de bebidas.'
fo sse m, não eram mai s vingativos ne m mais exó ti cos que os rituai s de uma çomi da e din heiro. "Não consegui acabar com essas bacana.is", escreve u o re­
comi ssão especia l de julgamento. verendo l ohn William de La Fiechere sobre as vigílias festivas de Shropshire: "o
A lenda do renascimento da "alegre Inglaterra" depoi s da Restauração é um dique impotente que levantei contra elas só fez a torrente crescer e espumar, sem
dado que os histori adores talvez não tenham tido bastante paciência para exa­ interromper o fluxo" . Além di sso, o povo encontrara defensores fora da Igreja: se
minar. Mesmo se descon tarmos algumas das afirmações mai s sensacionais (co­ La Flechere pregava contra a bebedeira, os espetáculos e o açulamento de touros ,
mo bom contador, Defoe nos asseg ura que 6325 mas tros de maio X111foram "os tavemeiros e os cervejeiros não vão me perdoar. Acham que pregar contra a
levantados durante os cinco anos depois da Restauração),'" não há dúvida de que bebedeira e roubar a sua bolsa é a mesma coisa"."1
OCOITeu um renascimento geral e às vezes exuberante das diversões popul ares, Mas o ressurgimento dessa cultura não pode ser atribuído apenas à comerciali­
festas de sagração das igrejas, festivais em que se cobria o chão da igreja comjun­ zação promovida pelos tavemeiros. Se desejasse, a gentry tinha meios, nas sessões
cos e outros rituai s. "Socorro, Senhor!", exclamou o reverendo Oliver Heywood, trimestrai s dos tribunais , de reprimir a desordem do povo. Essa florescência de fes­
o pas tor expul so, ao rel atar as brigas de galo , as corridas de cavalo e as partidas tividades dificilmente teria ocorrido sem uma atitude permissiva da parte de muitos
de stool-hall [jogo inglês antigo semelhante ao críquete] endêmi cas no di strito de membros da gen try. Num certo sentido, isso não era mais do que a lógica dos tem­
Halifax na década de 1680: "Oh, quantas pragas proferidas I Qu antas maldades pos. O materialismo do século XVlll e o erastianismo de sua Igreja se uniam ao ma­
co metidas !". E ao rel atar as celebrações do May Day de 1680, ele lamentara: teriali smo dos pobres. Os espetáculos de corridas dos ricos se tomavam os feriados
"Nunca hou ve nada igual em Halifax nos últimos cinqüenta anos. É o caos " . '~ populares dos pobres . A tolerância permi ssiva da gentry era solici tada pelas muitas
Estamos mais acostumados a analisar a época em termos de sua história inte­ tavernas que - como as tabuletas das estalagens ainda proclamam - procuravam.
lectual e a pensar no declínio do caos. Mas esse caos da cultura plebéia, bem além se colocar sob a proteção dos poderosos. A gentry não podia fazer campanhas nlÍs­
do seu controle, era o pesadelo dos puritanos remanescentes como Heywood e sionárias convincentes para reformar os costumes e a moral dos pobres se não esta­
Bax ter. Os festivai s pagãos que a Igreja tinha incluído em seu calendário na Idade va di sposta a reformar seus vícios agradáveis e pomposos.
Médi a (embora sem total sucesso) revcrteram a festividades puramente secul ares Como explic ação, isso está. contudo, longe de ser a palavra finaL Somente
no século XV lIl. As noites de vigília acabaram, mas as festas do di a ou da semana uma classe dominante que se sente ameaçada teme ostentar um padrão duplo .
seguintes se tomavam mais robu stas a cada década. A cerimônia de espalhar jun­ M andeville é apenas singular ao levar ao ponto de sátira o argumento de que os
cos nas igrejas ainda continuava aq ui e ali , mas as festividades que acompanhavam vícios privados eram benefícios públicos. De forma mai s suav izada, o mesmo
essa cerimônia ganhavam cada vez mais força. Novamente peno de Halifax, o argumento - a função valiosa do luxo era oferecer emprego e espetáculo aos
benetic iado (um celto reverendo Wittcr) tentou impedir essas festas em 1682. poi s pobres _ fazi a parte do repertório econômico convencional da época. Henry
nes<;es festivais (quei xava-se Heywood) as pessoas se m unem de uma grande F ielding podia dizêr O mesmo sem intenção satírica: " Nascer para nenhum ou­
quantidade de carne e cervej a, vêm de todas as partes e "come m. bebem e berram tro fim se não o de consumir os frutos da terra é privilégio [...] de bem poucos. A
de um modo bárbaro e pagão" . O povo arrombou as portas do sr. Witter, e ele foi m aior parte da humanidade deve suar para produzi- los, de outra forma a so­
xingado de "remendão·'.'" A cetimônia dos juncos espalhados na igreja continuou ciedade dei xará de cumprir os fins para os quais foi instituída" .'"
Na verdade, vimos que a ostentação do luxo e da " generosidade" fazia parte
(X IIJ) Mastros decorado s com flo res e filas para as danças do May Day. (N. R.l
do teatro dos poderosos. Em algumas áreas Ca teori a dos salários, as leis de as­

54 55
<;is tência aos pobre!>, o códi go pen a l) , o materiali smo do, ri cos se casava se m di­ b. clareza de objetivos , à eSLrulurução da organi t ação de clas se. Mas a prese nça
ficul dade com um controle disciplinar dos pobres . Ma, e 111 o utra.s áreas - a ati­ políti ca da plebe . "turba' · Oll " m ultid ão· ' é manife"la. Ela colidiu eom aatta po líti­
tude pennis:.iva para com a robusta cul tura popular não cristã. lima certa cautela ca e m vá rias ocasi ões críticas - os tumultos de Sacheve rcll, a agitação do im­
é até delicadeza no trato dos distúrbios popul ares, uma certa adula<,:âo dos pobres
pOSlO de con<;umo, o imfJos to da c idra , as e bu li ções patrióti cas e chau vin istas que
no q ue se refer ia às su as liberdades e direitos - defrontamo-nos com um pro ­ apoi aram a carreira do P itt mai s velho, mai~ tarde W ilkes e os moti ns de G ordon,
blema que exige análi se mai ~ s util. S ugere-se a lguma reciprocidade na~ relações
e ainda mais alé m. Mesmo quando a besta parecia estar adormecida, as ~ensibi­
e ntre os ricos e os pobres ; uma inibição do uso da força contra a indisc iplin a e os
IidaJe'i irTiLáveis de uma multi dão libertária de fi ni am, no mai s a mplo sentido, os
disl úrbios; uma cautela (da parte dos ricos) em tomar medidas q ue indi sporiam
limites do q ue e ra politicamente possível. N um certo sentido. os govern ante s e a
J em ais os pobres. e (da parte daquele grupo de pobres que de tempos em lem pos
Illu llidão precisavam um do outro, vig iava m -se m utua mente, representavam o
formav;} file iras atrás do grito de ·'Igrej a e Rei" ) '1\ uma consc iência de que havia
lC<l tm c o contrateatro um no auditório do outro, moderavam o comportamento
vantagens palpáveis em sol icitar o auxílio dos ricos .
po líti co m útuo . É uma relação mais ativa e recíproca do que a normalmente lem­
C laro, ningué m no século XV III teria pe nsado e m descrever a sua sociedade
brada sob a rórmula " paternalismo e deferência".
como um a " sociedade de uma só classe" . Havia os governante s e os governado~ ,
É igualmente neces sário ir além da visão de que os trabalhadores , nessa
os tle alta e os de baixa posição ~ocial, pessoas ricas com be ns inde pende ntes e
época, es tavam co nfinados às lealdades fraternais e~; consciência " vertical" dos
o g ru po dos desagregado s e desordeiros. No meio, no lu gar qu e seria das classes
ofícios específi cos, de que isso inibia solidariedades mais amplas e a consciên­
médias. dos profi ssio nais e dos pequenos propr ietários abastados . as relações de
cia de c1a.ssc ·'hor ii'ontal " . Há um pouco de verdade nisso. certamente. O artcs50
cliente la e dependência eram tão forte s que. pelo menos até a década de 1760,
urba no conservava algo do modo de ver da guilda. Cada ofício tinha as suas
esses grupos parecem o fe recer pouco desvio das polaridades essenciais. Apenas
cançõe s (com os instr umentos do ofício minuciosamente descritos) , seu s liv ri­
<;e poderia atribuir uma ide ntidade política plena a alguém que fosse "indepen­
Tlh()~ de baladas e lendas . Assim, o aprendiz de sapateiro podia receber de se u
dente" da necess idade de se submeter a benfeitores: tudo isso é um ponto a fa­
mestre The delightfúl, princely and entertaining history of the gentle-craft [A
vor da visão da soc iedade de "uma só classe" . Mas a classe não se define apenas
pe la identidade po lítica. Para Fielding, a e vide nte di visão entre os de alta e os de de liciosa, mag nífica e divertida hi stória do nobre ofício] e ali ler:
baixa posição social , os bem-nascidos e os sem berço, este ndia-se como uma tis­ .. ·I/ll/l1m ninguém ainda viu
sura cultural por todo o p aís: Um sapateiro Iilelldig({l~

Sd() bOl1dosos uns com os OLtfros.

enquanto os bem-nascidos se apodera vam de vários lugares para seu próprio uso,
Tratando o estranho como irmü(}. \\

como tribun ais , assembléias , óperas, bailes elC., os sem berço, além de um lugar ré­
g io chamado o hrdim dos Ursos de Sua MUJestade, sem pre foram os donos úc to­ E le lia es ses versos em 1725 , mas teria lido quase a me sma coisa no tem po
das as danças, feirJs _ folias etc. r... 1!\ssiln, Illnge de se co nsiderar irmãos na de Dekker. Às vezes as diferenças dos ofícios eram levadas p ara os festivais e a
li nguagem crisl1í, e les mal parecem se considerar membros da mesma es pécie ."' \ ida social. Bri stol, no início do séc ulo XV III, presenciava na quarta-feira de cin­
Esse é um mundo de patrícios e de plebeu s. N ão é por acaso qu e os gove rnantes 'Las uma luta de boxe allual entre os ferreiros e os tanoeiros, carpinteiros c ma ri­
proc uraram na a ntig a Roma o modelo de su a própria orde m sociológica. Mas e s­ nhe iros, os tecelões e ngajando-se às vezes ao lado dos ferreiros. E de modo mai s
sa polariz aç ão das relações de cJa,,>se não priva os ple beus de toda exi stência su bstancial, ao definir seus interes ses econômicos como produtores, arte sãos e
p o lítica. Eles es tão n um dos lad os da eq uação nece ~sárí a da respllhlica . lJ·ubalhado res - os carregadores de carvão à beira do Tâmisa, os porteiros de
A plebe não é. tal vCL, uma classe trabalhadora. O" pl e beu~ talve? nâo te­ Londres, os tecel ões dt! seda de Sp italfield ~; . os roupeiro~ do Oeste da inglater­
nh um um a definição consistente de si mesmos no q ue di1 respe ito à consciência, ra, os tecelões de algodão de Lancas hire, os barqueiros de Newcastle - organi­
za va m-se compacta men te e m ~ eus o fícios e solicitavam ao Estado ou às
( .\ IV) \1<Hins populares predominantemente urbanos de apoio ü causa r~,d. Em geral eram
autoridaucs corporativas seus já enfraquecidos favores patern alis tas.
in su t1ados pelos ,elOres cunservadores e mem bros dil Igreja Anglicana. Fo ram espcci ;il mcnte in­
tens,)s n<l decada de 1790, quando fizerClIll ac irrada opos i~<1o aos grupos in,<,pirad ns nos ideai s ria (xv) [..,] never yet did any kn owl A Shooemukcr li Beggi ng go.! Kind they are Olle ro ano­
Rcv uluç,lo Fra ncesa. (N. R.)
ther.! Usin g eac h Srran ge r as his Brother.

56 57
Na verdade, há evidê ncias substanciais a es<;e respeito. E o grau da contri­ lecimen tos. o se lo comum usado até então fora substi tuído po r um cartão o u
bu ição que a vi:,ão de guilda ou "ofíci o" e mesmo vestígios de uma continuidade "h il hetc" . q ue dava ao memb ro o di reito " a ser e mpregado e a receber henefíci o~
e Jn todas as cidades têx te i~ em q ue os cardadore s tivesse m se organiL.ado e m
organ izativa de u para os pri mc iro.:; sindicatos fo i subesti mado pe lo ~ We bb. Em
1870. Bre ntaDOtinha ex pl orado a poss ibi li daJe da continuid ade de organi zação c1uhes' ·. O pagame nto ou be nefício de gre ve por aba ndonar o e mpregador que
e de tradi ções entre as guilda'i. as co mpanhias e os primeiros s in djc ato:, ..... M as estivesse pagando abaixo do preço (ab ai xo dos " Regulamento s e O rde ns" do
os Webb, no <;eu im portante History of tl'Ode union isln (1894), posicionaram-se duhe ) era de cinco xe lins, com os quais o me mbro dev ia se tran:,!e ri r para o utra
dec isivame nte contra Bre ntano. Toma ram es::;a posição em parte ao insistir no d dade . Um cardador fura-greve . truli do de Wokingham (Berh) pe los Palmer,
caráter nitid ame nte nOvo do sindicali s mo (em co n ~eq ü ê ncia de uma divisão depôs que foi "freq üente mente insu ltado c maltratado" n as ruas de AltOll, até
ljUc por fim deix ou o c lll pr~go Jos Palmer. O ito dos cardad ores fora m de vida­
cl ara entre o:, inte re s se ~ dos mestre:, e os dos oficiais diaristas) , e em parte ao im­
por detlnições qu e tornaram grande parte dos dados do século suspeitos ou ir­ mente condenados, e o caso alca nçou uma peque na notoriedade nac iona!.""
relevantes - por exemplo . a exigência de que a orga nização deva ser contínu a
bso parece fazer a data do sindicaJ isl110 rec uar pelo menos até 1700, e to­
e ter dimen sões nacion ai s . "~ Essas defi nições desencorajaram por muito te mpo da ~ a:-. -.:araclerísticas reco nhecidas da soc ied ade dos ofícios já ali se e ncolltr am
_ a te ntativa de manter um c/osal shop, o controle do aprend iL.udo, o fund o de
outras investigações sistemáticas, q uer so bre a negociação coletiva por meio da
ação direta,"" qu e r sobre a organi zaç ão local e region al, como a dos barqueiros greve. o sistema de ci rc ular pel as cidades . Afi nal. as elaboradas procissões de
de Newcastle o u a dos roupeiros do Oeste da In glaterra . carJador~s. 'ia pateiros , chapeleiros, tecelõc:, etc . nas grandes oc as iões cívicas
(como a coroa<,;ão de George 111 ) não surgiram do nada. Esta e ra a orde m da pro­
Esses estud os tê m se multipli cado nos últimos anos, e ago ra j á está claro
que - se não há registro de organização contínu a de sindi ca tos nac io nais ­ ci"'ião em M ancheste r:
houve certamente um a tradição contínu a de ativid ade sindical durante todo o A PROC ISSÃ O DOS CA R.DADOR ES

séc ulo, e muito provavelme nte (nos di stritos têxtei s) um a organi zação loc al con­ Dois intende ntes com bastões brancos. - Um homem de branco a cavalo, com uma
tínu a e uma lid erança reconhecid a para ações que ora se disfarçavam de rough peruca de lã e Caixa, batendo dLlas chalciraso - Uma banda de música. - A~ armas
musics,'" ora ass umi am as máscaras protetoras das soc iedades de socorro mú­ do bispo Bl aize exibi das numa bandeira. - O tesoureiro e secretári o. - Um paj em
tu o . Essas tradições sind icali stas re monta m ao séc ulo x VII , e la me nto q ue vári os real. com um bastão branco.- O bispo Bl aiLe sobre um cavalo, assistido por deI pa­
jens a pé. - Os membros , do is a dois, com perucas de lã. faixa,,, c rosetas no chapéu
estud os recentes muito pro\\::itosos dêem uma impressão co ntrári a." Há algun s
i)!lI almente de lã. - Do is jovens intendentes cada um com um bastão hranco.
anos, enco ntrei no Public Record Office o que talvez sej a um dos mais antigos
cartões de fili ação numa assoc iação de trabalh adores j á desco be rtos (até agora): Supunha-se que o bispo Blaize , o santo pad roeiro dos cardadores, telia inventado
trata-se do cartão de um ramo de oficiais cardadores na peque na cidade de AI­ o proces'>o de cardar a lã. e que fo ra des ped açado pelas "cardas" de dentes afiados .
ton (Hants) em 1725 , embora te nha s ido im presso em Londres e a da ta da for­ Naquela ocasião, a sociedade dos cardadores recitou os seguintes ver"os:
mação do clube ou "Fund o de Caridade" sej a dada como 1700 (ver tlu stração
Oh, e.lp eclado res que para nós dirig is vosso 01/7(11;

n" I ). O s card adores es tavam se nd o processados (no Tribun al Superi or de CO/ll ernp lai mais li ma \'ez osfil/lO.I' do bispo Blaize,

Ju stiça) e m conseqü ê ncia de uma longa disputa que se estendi a por vári os anos. Que aqu i se reun iram I'/.I:' SICI aS.l'ocia~'ei()

Edward e Ri chard Palmer, fa bri cantes de ro upas, e m;-Jn.:gava m ISO trabalh ado­ Pura celebra r a co m(/~'ao do rei e da rail/ h(/...

res na manu fa tura da lã. Se us card adores tinham fo rmado um Clube dos C ar­ Que ofeliz. G rei -Bretall ha logo c/elji'Ule o jJaz,

dadores, e qu inze ou vinte dele s se re uni am numa tavern a, a Fi ve Ke lls. Fo ra Que (/ aleg ria, a!o rll1m e I/O B'O ofí..,·o prolpnPII I.

declarada um a g reve (de sete card ado rcs) p ara impor a regul a me nt ação do 0 1.' 1/,1 sol\'(' () rei George !lll Que (/ I'ir/llde brilhe

aprendizado e (també m, na realid ade) para impor um closed shop.·" I (Jutros car­ At/'{/ \'és de todo,\' os ramos de 1'lI(! linlwgelll reo/. "'"TIl

dadores foram trazidos para f urar a greve, mas a ofic in a foi arrombada du as
ve zes , l~ndo sido queimados as card a'> c os materiai s. Po uco antes desses acon­ I :x VIII Spec wlo r, a lllh at o n u, no'" úo ga/c.lReho ld o nce mo re lh e ,O ll ~ oI' Bis ho p I.l lllill!.1
Who her..: are me t in lhi s assoc ia ti o n.l To c~k brale lhe King and Qucco"s C" rOllulio n l·.. ]1 f\ 1"y
h;IPPY krit;j in son n e nj ny a peacc:! \1 a)' jo)' a nd plenty a nel o ur trad c inc re[U;e;! God SU\'c King
(XVI) Forma pe la qua l u ma assoc iaçãu de tra balhadores cOlll rola a contrata(;ão de mão-de­
o bra, impondo, no loca l de traba lho , a ti li ação de todos. (N . R)
(1\:~ill').! C the Th ird ; le I virlllC shincl Th ro llg h a li the bra nc hes of hi, Royalli ne.

58 59
e . 10':; precedentes ~no Estatuto do~ Artífices) pode ser encont rad o em a l g u n~ vt'r­
A procis:;; i:io do bispo Blai ze il inda era celebrada \:o m vigo r em Bradford
(York...hire) em 1825 . O b i ~po Blai Le ainda se enco ntra no centro do c,lrlfio dos sO" de Esscx el o ii nul elo sé\:u lo XV II :
cardadores de Kiddernlinster de 1838 (ve r il ustração n'! 3). DI/i/ uelel q ll e 411('/"(' 111 infi·ÍlI ~i rl/(} ~.Ws di rf!i ros .

Essa ico nografia enfati za o apd o ~\ tradição por parte do", pri meiros sindi­ 0 11 illt m lll(!l er -Se PII I I/IHSO oficio.
Ou vi(J lfl r li lei I (.>i /(l /l ('/o raillh a Reflr,
c a l i ~fa ~ , bem co mo a tentél li \ :.t do cluhe ou :.ts,ocia<; ão dos ofic iais de tomar da
Lil)(')"a /I (} I' D O"' ''l e. '·'
gui Ida Oll companhia dos ll1 e~ tres a represen tação dos interesse.:; do '·ofíc io" . De
vel em quando, os oficiais diarista s realmente se '\eparava m da compan hia dos Turn pl1de ser e ncontrado numa "Od\?, à memória da rainha Ehzabeth", CJue
hé m
mestres, como fi zeram os fabri can te ~ de martelo" de Glasgm\ em 1748, que for­ serve de prcf;Jei~} ao relato do julgamento, em 181 1. de lima ca us a de ap ren­
maram a sua pró pria sociedade. arrecadavam contribui ções e elegiam um de­ dizado rdati"tl <10 :-' ~ek i ro:, de Lo ndres:
cano e mestres. conforme o padrão da Companhi a d o~ Mesl res . Há também ,\ ~lIrl I/l ell/lÍ ria ainda é cara vos ofic iais d /O r i sras .

v(trios caso:, in tcre s:-.a nt cs de organiluções de trabalhadores que surgiram de Pois 1){(!I r.'.~i"!I \· pela S ilO lei. ele~ ogom res i ste/ll

umél relação bem próxima - ainda que él nt agon i~ t a - com out ré.l!'> compa nhia~ A~ i ll./i 'lI\ ·i;e.I , qUi' do cont rá r io p t?l's i.\t i r iam:

ma is ant igas. O grupo talvei mais coere ntemente militante de trabalhadt)res do !'vfn lrp.\ lirúnic() l . t%s ino vadores
séc ulo XV l fI - OS barq ueiros de Ne \Vca ~lle - co nhecia ~e m dú\,ida mu ito bem Süo jisco!i::.ados e limitados pelas Sfl!/S gloriosos regms.
as prát icas da Companhia dos Estalaj adeiro.;;, contra os qu a i ~ na realidade lu­
J)().\ d ireitos rim tra balhado res ela a in du é ul11a g arant i0 r, -1
tavam para co nseguir o controle de ,>uas próprias inslit uiçõe" de caridade. O~
c os .tirei/os c/os oficio i.\", e/a d eJi!ff d e e prol eli e,

L l/ qflUl/to Il!JS, pob re,\ lI1iseráveis indefeso s, flllÚIIIS I'ezes

barquei ros combinava m duas características que em geral nào andam ju nt a~: de Te ll/ II. de d l/c/u rd e umlad" pam o (mtm de.\[1./ naç!7o li/leral. ,'. -.

I
um lado. era m numerosos. sujeito s a um \'Íncul o anual , e esta vam em boa
posÍI, ão para empregar a~ tát icas d~\ ação de mas.:;a. da greve c da int imidação. Na verdade. é po~sível que ')e tenha um regisu'o do momento real da transição de
Porou tro lado, co mo um a proporção elevada de se u.:; membros era de escoce' cs . gu il da para ... indicato no diário de um tecelão de CoggeshalL que contém as re­
gras da Companhi a do s Roupeiros, Pisoei ro~, f abri cantes dú Baetas ~ Novos
e Cl) mO o \'ínc ul o não lhes clava direito à residência em Newcastle . era do ~e u in­
fUJlque iros de Coggeshall ( 16:'\9'1_1698). seguidas por aquelas trans mitidas
tereSi>C tomar providê ncias sistemáti cas em I-elação a doenças, danos pessoais e
pela companhia a um certo '-Combers ' Purse", eviden te men te um club(; local de
ve lhi ce."
cu rta duração, fnrmado "para que possamos demonstrar o amor que tem os pelo
Os Webb tal vez ti vessem ra zão, qua ndo demoliram al gun s dos mitos
no<;<;o ofício c o amor que sent imos uns pe los outros por causa UO ofício '· .. J
rom ft nti cos difundido,. nas décad a., de 1880 e 1890 - milos que foram ali men­
O ~en t i mento de solidariedade de ofício pod ia ~er forte. Mas a supo,ição
[ a Jo ~ por algu ns dos próprios sindicalistas - osob re os si nd icatos terem se ori gi­
de que essa fraterni dade de ofício necessariamente entrasse etn co nflito com ob­
Ilado da ., guildas . Mas o que eles su bestimaram foi a noção do "ofício" . e jetivos e '\olidariedadcs m,ü" amplos é totalmente falsa. A co nsciência de ofício
também o mouo do cumpri mento às cláusul as do aprenuii' udo do Estatuto dos do~ al1esão,; de Londres na d~cacla de 1640 não inibiu o apoio a John Li lburnc.
Artífices se torno u, desde o final do séc ul o XV II, uma exigê ncia da qual os oti­ O que a consciência de ofício pode inibir são as solidariedades econômi cas en­
ciais procuravam tirar cada vez mais prove ito, representando por i-:so uma ponte Ire diferentes grupos de produtores cClnlra seus empregadores. Mas se pusermo~
entre as for1llas antigas e as no v a~. Brentano tal ve/ livesse razão quando decla­ de Imi0 eS!'>é pos tu lado anacrônico, enco ntraremos entre os trubal h:.tdores e l1'a­
rou "os sindi catos se originaram do não-cu mprimellto de 5 Elil.. C. -1-" \ \11' Do
~é cu l o x\'[ ao início do séc ulo Xt X, há ev idências da co ntinuidade d c s~a s ( '1>"1 Frnlll such ó.1' IVou ld our righls in \ ó.!ck .l Or IVould intrlldc in!\) our trade,! Or break lhe
tradições das artes e oHcios na cerâ mica, nas insígnias das ~oci e daJe" de socor­ 1,1'" Ql1t'~11 B~ tt ) madé .l Lihl: l'a nos Domin e.
ros mútuos, nos emblemas e divisas dos primeiros sindicatos. bem como nos (:..x l He r memor) sti11 is dcar to jourtle) men.l For sht: l1c('d 11) her laws. now lhe) n:, j, l/ ln-
li vrinhos de baladas e ve rsos destinados a cada ofício. Esse apelo à legitimidade Irin )!Cll lc ntS. whi ch wo uld ebc persi,t:/ Tyrannic masters. inno vil tin g fools l Are chcck"d. and
hOl1 nded Iw ht: r glorious ruIe s! Of \\'orklll~ n"s li gh ls .,he"~ slill a ~l1arantcc [.. .]/ And 1"1gim of ar­
li lalb . In fencc <lnd guard J While we. puor helpl ess wrc{ches. Ofllll llSt gol Anel range lhi , liberal
\ \\' 11 1) Item do Cód igo Elisabewno. o qua l e ra geralmente in vocadu pela plebe para defe lJ ­
der direitos e costuntt:S co nside rad os tradicionais. ( N. R. ) l1.tti,' n L,) anJ fro.

61
60
Lidão . indo da pa ss ividade à revolta e à obediência covarde. É o que vemos na
balhad()ra ~ do século XV III muitas evidências de solidariedade e co nsciên cia
hori 7onlais. Nas muitas listas de ocu p a ~ ões que ex aminei a respeito d o ~ r artici­ balada satírica dos "Bravos rapazes de D udlcy" ':
pantó do~ mo tins da fo me. dos motillii nas barreira .;; de pedágio e ~ obre ques tões MW ÔIWIIOS de I /III/udo pura outro
li be rtárias ou cercamentos na ~ terras comunais urb anas , fica cl aro quc as soli­ Ho, rupa;c:.I'. //0
dariedade.;; não eram scg regada~ pelos ofícios . Numa reg ião em que predomi­ Para pôr abaixo todas as casas
na m os roupeiros, mineradores de estanho ou carvão, há uma predominância E 'Ílo os /)r(/\'OS rapa:('~ de Dl/d/ey
óbvia de<,~ as ocupa ~õ e s na lista dos infratores, mas <;em chegar ao ponto de ex ­ J-lo. rapazes. ho
Oh ~âo os bravos rLlpa::.e,ç de Dud/e)'. hO,1
cluir as outra.'; profis<;õcs. Espero ter demonstrado. em outro lugar. que durante
Algulls têm vara.\', outros têrll haslões
os motins da fome todos esses grupos partilhavam uma consciência comum­
Ho. rapazes, 170
id eologia e objeti vos - como pequenos consumidores dos gê ne ro~ de primeira
Po ra haler el1l rudos os potifeS e velhacos [ .. f "
necessidade . Mas essas pessoas també m consumiam valores culturais , a retóri­
ca lihertária, o preconceito patriótico ou xenófobo, e cm re lação a essas questões Ma:. o tumulto atinge seu limite prescrito , e ...
podiam igualmente de monstrar solidariedade. Q uando, na tranqüil a década de [...1e el!lüo chegaram os dragões ,
1750, a prince sa Amelia tentou fechar o acesso ao Ric hmond New Park, en­ E o diabo pegou CjuemficoLl para trás.
frentou a oposi ção de uma vigorosa consciência horiz.on tal qu e se estendia de Todos co rrel/1 os para I/OSSOS abrigos
Joh n Lewis. rico cervej eiro local, aos folhelj~tas de G rub Street, abarcando to­ Ho rapaz,!" ,. 110
do o "populacho" local (pp. 96-8). Q uando, e m 1799. os mag i~t rados tentaram Todos corremos para nossoS abrigos
re primir o futebol na~ ruas de Ki ngslOn na terça-feira de Carnav al, foi o " popu­ QIt{/se perdemos os sentidos de tanto lI1edo
lacho" e a " turba" que 'Ie reuniu e triunfanteme nte desafiou suas orde ns. ' A tur­ E oh. são os bravos rapazes de DI/d/ey [... ] " "
ba pode não ser famosa por po ssuir uma impecável consciê ncia de classe, mas E desse ponto descamba para uma reafirmação da deferência:
os governantes da Inglaterra não tinham nen huma dúvida ck que era uma espé ­
cie de besta horizontal. nel/,I a/Jençoe a guarda de Lord Ditdley
Ho rapa z<'s, 110
El e sabe como os rempos silo difíceis
VI Cham ou de volta os milita res
Ai dos rapo:es. ai
Vamos ex aminar a argumentação até aqui. Sugeriu-se que . na prática, o pa­ E I1UIlCa mais vamos 110.1' amotinar [... ] ' \1 11 ' ·
ternalismo era não só responsabilidade efetiva como teatro e gestos. e que, longe É fácil caracterizar esse comportamento como infantil. Sem dúvida, se in ­
de um a relação calorosa , familiar, face a face, podemos ohse rvar uma e nsaiada si sti rmos em ol har para o sécu lo XVIll apenas pela lente do movimento operário
técnica de domínio. Embora não hou vesse nenh uma no vidade na exi ~ tência de do ~écLtlo XIX, só veremos o imaturo, o pré-político, a infância da classe. E, sob
uma cultu ra pleh0ia d i~tinta , com se us próprio ~ rit uais . festi vais e superstições . um a..' pecto , isso não é uma inverdade: vemos repetidamente prefigurações das
su ge rimos que no século XV II I essa cu ltura era extraord inari ame nte ro bu sta,
muito distanciada da cultura de e lite , e já não reco nhecia. exceto de modo su­
(:" ;<1) We bin marchin" up anti deown/Wo boy:;, wol Fur to pullrhe Housen deownl And its O
perfi c ial, a hege rno nia da Igreja, À mediua qu e dial eto e norma culta se afas­
the br:\\'c Doodley boys/ Wo DO )' S, WolIt bin O the bra\ '-' Doodley boys, Woll Some gotten sticks,
tavam, a distânc ia aumenta va. some gollen sleul' sl Wo boy." wol Fm 10 beat ali rogues and kne-a\ '; [... 1
A cult ura ple héia não era certame nte revolucioná ria, nem st:quer um a c ul­ 1;o. XII) l ... ] lhe Dra-gunes lhe)' did come.! And IIV us dcl'il lake lhe hoindmosl wum .lWe ali ran
lura pro lo-revolucionária (no sentido ue fomentar objeti vo:, ulte riores que q ues­ d{ JWTl (lu r pitsl Wo boys. wol We ali ran down our pilSI Frielened a" lTlost out of our WilSI And its O
li(1 n as~em a orde m soc ia l) . Cont udo, tampo uco .~e deve uescrevê-la como 11 1l1<t lh ~ hrave Doodley boys I..,]
( XXII I) God Bless Lord Dudley Ward! Wo boys. wol He know"d as tllT1es been hardl He called
cu ltu ra deferentc. F()mentavu mO li ns, mas não rebe liões ; ações di retas, mas nã(l
b<Jd. lhe sojermen/ Wo boys , "'01 And w,,"1I nel'er rio! again [... ]
organi l.uções de mocráti cas . Nota-Se a rapidel. das mudam;as de uni mo da lllul­

63
'12
tantC de Henley-on-Th al11es , qu e vira t)s vo !unl{lrio<; e m ação contra a mu ltidão,
atitudes c organi zação de cl asse do século XIX. expressões passage iras dI.! soli­
Jirig iu -SI! a "vós. cavalhei ros. como gosta i., de vos chamar L.. ·l e mbora sej a esse
dariedade em moLins , greve:'. - até mesmo diante do patíbulo. [~te n lad o r ve r os
li ' 'osso erro I ...] pois soi~ um hando de patifes, dos mais abom iná vei s que já
trabalhadores do século XV III como uma clas5e trabal hadora imanente, que tem
existiram" . (Um aulor de Odiha m. e~crevcnuo sohre um tema semelhante em
su a evolu ção retardada pelo ~en~o da futilid ade de transcender a sua situação.
l80U. ohservava: "e<;ta mo,- no!' Iixando para e:-ses sujeitos q ue chamam a si me~­
Mas o "movimento pendular de s uh~ e r v iência" da própria multidão tem uma
rnO de so ldados fidalgos. pois na Il~).;;.;;a opinião mais pare cem macacos Illonta­
his tória muito antiga: os " rebeldes primitivo.;;" de uma época podem ser
O(lS em ursos".) Às veze:- a falta da ap ro priada Jel'e rênc ia transparece apen a~
S
con <; iderados, pela perspectiva de uma época anterior, os herdeiros decadentes
num vivo aparte: "Lord Buckingham" , comentava um e ~critor de pa nfleto em
de a nte pass ado s ai nda mais primiti vos U ma dose exagerada de percepção
Norwich e m 1793. "q uc morreu out ro dia , ganh iwa 30 mi l Iibras por ano só para
histórica tardia nos impede de ver a multi dão como realmente e ra, sui generis ,
5elltar II bunda na Câmara dos Lordes e não t'al,er absolutame nte nada" .
co m se us próp rios obje ti vos, operando de ntro da complex a e deli cada polari­
Essas cartas mostram - e elas estão di spen.as na maioria das regiões da

dade de forças de seu próprio contexto .


Inglaterra. bem como em partes do País ele Gales - que a deferência podia ser

No capítulo 4, tentei reconstruir esses objeti vos da multidão, bem como a


bastante frág il, composta de uma parcela de interesse próprio, LIma de di ssimu­

lógica do seu comportamento, num caso particular - o motim da fo me. Acre­


laçãO c apenas uma de te mor res peitoso pela autoridade. A'S cartas faziam parte

dito que todos os outros principais ti pos de ação da multidão vão revelar, depois
do contrateatro dos pobres . Ti nham a inte nção de gelar a espinha da gentry , dos

magistrados e prefe itos, lembrar-lhes ~eus deveres , forçá-los a praticar a cari­


de uma análi se pac iente, uma lógica semelhante. Apenas o historiador míope
con sidera "cegas" as explosões da multidão. Quero agora discutir <; ucintamen te
três características da ação popular, e depois voltar mais uma vez para o contex­ dade em tempos de escassez.
Isso no", leva a uma segu nda característica da ação popLll ar, que descrev i
to das relações gentry-multidão em que tudo ocorreu.
como co ntrateatro. Assim como os gove rnantes afirmavam a sua hegemon ia por
A primeira é a tradição anônima. Numa sociedade de total dependência e
um estudado esti lo teatral, os plebeus afirmavam a sua prese nça por um teatro
clientelismo, encontra-se freqüentemente a ameaça anônima, ou até o ato ter­
de ameaça e sedição. Da época de W ilkcs em diante, a linguagem do simbolis­
rorista individual , no outro lado da moeda da deferência simulada. É exatamen­
mo da mul tidão é relati\ amen te "modern a" e de fácil leitura: a queima de efí­
te numa sociedade rural, em que toda resistência aberta e identificada ao poder
gies , o enforcamento de uma bota num patíbulo, a iluminação das jancl a~ (ou a
vigente pode resultar em retaliação imediata - perda da casa, emprego, arren­
quebra daq uelas sem iluminação), o destelhamento de uma casa, que, como ob­
damento. se não vitimação pela lei - que tendemos a encontrar os atos obs­
serva RuM, tinha um <;ignificado quase ritualístico. Em Lo ndres, o mirlÍstro im­
curos: a carta anônima, o incêndio criminoso da lenha ou da casinha, o gado
popular ou o político popular não precisavam de pesquisas de opinião para saber
jarretado, o tiro ou tijolo pela janela, o portão fora dos gonzos, as árvores do po­
do seu grau de popul aridade com a multidão. p odiam ser insultados com obs­
mar derrubadas , as comportas do lago dos peixes abertas à noite. O mesmo
cenidades ou carregados em triunfo pelas ruas. Q uando o condenado pisava o
homem que fa 7 uma reverência ao fidalgo de dia - e que entra na história como
palco de 1'yburn, o público vociferava a sua aprovação ou o se u desagrado .
exe mplo de deferência - pode à noite matar as suas ovelhas, roubar os seus
Mas se rec uamos para antes de l 760, entramos nu m mundo de simbolismo
faisões ou envenenar os seus cães.
teatral q ue é muito mais difícil de interpretar: as simpatias políticas populares
Não apresento a Inglaterra do século XVIII como um teatro de terror coti­
são expressas num código muito difere nte daqu ele vigente na década de 1640
diano. Mas os historiadores mal começaram a avaliar o volume de violê ncia
ou na década de 1790 . É uma linguagem de fitas, fogueiras, juramentos e rec usa
anônima , normalmen te acompanhada de cartas anônimas ameaçadoras .
ele j urament()~. brindes , charadas sediciosas e antigas profec ias, folhas de car­
O que essas cartas mostram é que os trabalhadores do século XVIII, na segu­
val ho e mastros de rnai o , baladas com double- l'ntendre político, aLé melodias as­
",obiacla" nas ruas:f' Ain da não sabe mos o ba~tante sobre o jacobiti smo popular
rança do anonimato, eram hem capaLes de acabar com qualquer ilusão de defe­
rê ncia e de considerar seus go vernantes de um modo be m pouco se ntime ntal ou
para avaliar O quanto e ra sentimentalismo, O quanto era substânc ia. mas pode­
filial. Um escritor de Witney, em 1767, exortava o leitor: "nrlo dei xe q ue esses
mo~ dizer com segurança que os plebeus em muitas ocasi ões empregavam com
malditos patifes ofegantes e pançudos matem de fome os pobre~ por meios in­
'illce<;so o simbolismo jacobita como teatro, sabendo muito bem que era o ro te iro
fe rnai s, só para que possam continuar com sua caça e Suas corridas de cavalo, e
mai" i ndicado para en furecer e alarmar seus go vernantes hanoveríano s . ' J Na dé­
para q ue possam manter suas famílias no orgulho e na extravagância". Um habi­
65
64

cada de 1720, qua ndo u ma imprensa inti mid ada antes encobre qu e ilumina a
Quinta-fei ra à noite 1. ... 1 ullla grande turba de quase mi l pessoas das c l a ~scs mai s
opinião pública, detectam-se ânimo.~ sorrat e iro!'. no vigo r co m que: <;e cele­
bahas [... 1 rCLl ni ll- ~c ao som de pífanos c tambores por causa da redução do paga­
bravam os aniver<;ários dos rivais I Ianover e Sru art. Em maio de 1723, a NO! wich mento. é o que di zia m. dctermin ada por [... ]U Ill dos principais rab ricanl e~ de Jilas
Ga::.erre noticiava que a últi ma quinta-fe ira. ani ve rsário do rei George. foi feste ­ [...1T l)(j ' h dec laravam a illlcnçiln de derrubar a sua ca~ a c acabar L-nm ele ~ e -:on­
j ada na cidade "com todas as habituais demonstrações de alegria e lealdade": ,<!~u i ,sell1 encontrlÍ-lo [... J ElllprL'gilram -se lodos os ml:ios pacíficos [.. .) para

E como quarta -feira era o aniVl'rsário da FcJi l Re\la uração do rei Charles 11 . e tam­ dl:pcr<,{J -Ios, mas ,e m sucesso. e atirando pedras e quebrando as Janelas , eles
bém da família real , depois de uma Lls urpa~ão demasi ado longa e bem-sucedida de l'\l lTleç ~rul1l a executar (1 scu inte nto.

tirania santificada, a data foi ce lebr,lua ne<;lQ cidade de forma extraordinária. P(li~. Em Ncwc<l'itle- upon-Tyne em 17<-l0, durall te a rase triunfal de um moti m da
além de toque de sinos. tiros de canhão e fogueira~. as ruas se cobriram de animais,
fom\!:
colocaram-se ramos de carvalho junto às portas. quadros foram pe ndurados no la­
do de fora. e hOll'.,~ uma variedade de danças antigas e cô mi cas [... ] [co m] brindes MaiS ou Inenos às du a, da madrugada de quinta-feira, um .'!I"ande número de C<ll" ­
à memória gloriosa de Cllarles 11 . voeiro~. ca rru cc ir()~, ferreiro, e oulros trabalhadores comUll~ ra resta 110 ri . ~ontal
mais urna ve/ I veill pela pOnle. libenou os prisioneiros e pross,-g'liu ': mgl'ande or­
Por mais abertamente desleais que fo ssem essas manifestações. não só ao rei, dem re la cidade tocando gaita de foles, batendo tambores, com roup,ls ~ujas amar­
mas também ao Grande Homem em se u próprio condado, elas não davam pre­ radas em varas ü guisa de bandeiras tremulantes. O nÚI11 -:rn cnt,io aumentou para
texto à ação dos magi strados da Coroa. LlI1 :- mil, e d e~ tomara m conta das prin cipais rUlI s da cidade. Os magistrados :, c r-:u­

Era uma guerra de nervos, ora satírica, ora ameaçadora. As flechas às vezes niram na Prefe itura c não sabiam o que fazer.
atingiam o alvo. Em 1724, os ministros do rei examinavam depoimentos de Har­ O res ultado fo i que e ntraram em pânico na luta corpo a corpo com os manI­
wich, onde os líderes hanoverianos leais tinham sido insultados por uma rough festanleS né1 escada da Prefeitura, e dis pararam contra a multidão matando mais
music muito ofensiva:
de um. Em retali ação:
enquanto o prefeito e ou tros membros da muni cipa lid ade es tavam reunidos na Voa ranl entre nós pedras [.. .1que entravam pelas janelas como tiros de canhão l· .J
Prefeitura para celebrar a dito <;a ascensão ao trono de Sua Majestade, bebendo à pnr fim , iJ tu rba arrombou as portas e avançou sobre nós co m uma viol ência terrí­
saúde de Sua Majestade e de outros sú ditos leais. ele, este depoente. [".] viu por uma vel. Po uparam nossas vidas se m dú vida. mas nos obri garam a sai r do lugar, depoi s
janela [... ] uma pessoa ornada COm chifres na cabeça, acompanhada por uma turba. ~' ()rn eç a ralll a saquear e destruir tudo ao redor. O., vári os hancos dos juízes foram

Essa "dita pessoa infame", John Hart, um pescador, estava sendo carregado pela log(' tOlalme nte destruídos. o escritório do c~c riv ão da cidade foi an'ombado, c to­
do s os li vros, documentos e regis tros da cidade e de suas COrles dejustü;a foram ati­
cidade por cem ou duzentos outros de igual infâmia. Estavam "batucando uma
rad(h flela janela."
ridícula melodia de cornudos puritanos, e [Hart] foi até a porta do prefeito e deste
Am' mbaram o cofre e tiraram mil e quinhentas libras [... ] quebrar,lm todos os
depoente, quando fez sinais com as mãos intimando-nos a beijar sua bunda""" orname ntos. doi s bel os retratos do rei Charles 1/ c de James 11 [ ... J dilaceraram tu­
Se algumas das ações da multidão podem ser vistas como contrateatro, não
d{l, exceto os rostos [... J e mais tarck le\'ara m os magistrados até as suas casas nu­
se pode dizer o mesmo de todas. Pois uma terceira característica da ação popu­
m;; espéc ie dc marcha triu nfal de lombad a. '
lar era Sua capacidade de ação direta rápida. Juntar-se a um a multidão ou a uma

Mai<; li 111 a W/_, nota-se a teatra Jidade até no auge da fúria , a destruiçãt' simbó li­
turba era outra maneira de ser anônimo, enquanto participar de uma organiza­

ca do!\ bancos dos juí7e... dos linos do escrivão , dos retratos Stu art das autori­
ção continuada era estar fadado a se (;Á por, podendo se r detectado e vitimado. A

dade.;; munici pais rorie\ , a marcha triun fal de tomhar ia até as c asu~ dos
multidão do século XVIIt compreendia muito bem a sua capacidade de ação e a

magi,t radCl$. Entretanto, com tudo isso, não se potle deixar de notar a ordem de
sua própria arte do possível. Seus êxitos deviam se r imediatos, se não a ação re­
Sua, p roc is ~õe s c a moderação qu e os imped iu (mesmo depois de terem sitlo
dundava em fracasso. De' iam destruir v-:tas máquinas, intimidar estes empre­
alvejado.; ) de matar Os ad ver<;á ri o~.
gadores ou negociantes, danificar aquele moinho, arrancar de seus mestres um
C laro, a multidão perdia a cabeça com tanta freqü ência quanto os magis­
subsídio do pão, destelhar aquela casa, tudo isso antes que as tropas chegassem
Irados. Mas o po nto interessan te é que ne nhum dos lad o~ pe rdia a cabeça co m
à cena. O procedimento é tão familiar que basta lembrá-lo com Lima ou duas
citações de documentos estatais. Em Coventry, 1772: lreqiiência. Assim. longe de se r '·cega". a multidão cra em geral discipli nada, ti ­
nha nbjetivos claros , sabia negociar com as autoridades e. acima de tudo, em­

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pregava SU<l força Com rapidez.. As a lltori dade~ sentiam-se muitas vezes COIl­
'n lndauas (~o b a ameaça de Illotin,,) por parte da mu lti dão . O que é ( VISto de
frontaLius, literaJmente, com uma multidão anônim a. "Es tes homens são todos
rnineradore~ de e<,ranh (l", escreve u um func;íonário ela alfândega de St. AUlitell ~ , 1a,) um " aLO c/e <.Ioação" é (a partir de baixo) um "ato de conqui"ta". Uma catc­
el n . .
'c t ;;(l .,i l11ple' eomo o " roubo" podt: evidenc iar, e m certas clrcullstúnclu>.,
em 1766. a rt'1\ pei to das ganguc<; de contrubandi'itus loca i", "silo raramente vi.'i­ tllll1 ··1 .. .
to" e m cima tio solo duran te O dia, e não recei<lm ser reconhec idos por nó~ ."" ~enlaliva... pro lon gada~ de dd ender 'lIltigos uso<; de direito comum. por parte dos
Qua ndo se de tectavam o.; "cabeç'a~ Jo motim", era freql.it' l1tenu;:n(~ impossíve l ~s· · ou deuerc ndl!r e moJuml'n lOf. sanclI lnados pelo costu me, r or parte dos tra­
"' IdC(,,,,
:u
l"on segu ir depoi mell tos juramentado.;;, M~~ a so lidariedade raramente ia <llénl bálhac.ltlre ~ . E ~eglli nuo c:lda uma dessa:> pi~t~l~ até o pomo em que be cruzam, tor­
di :-.w . Se presos, os líde res da mldtit.lão podia m ter esperanças Je Um re:.gate nll-"c possÍ\el reconstruir uma cu ltura popu lar costumeira, alime ntada por
imediato em 24ltoras. Passado es~e prazo, sua expectati va era Je abandono . experi ênc ia.; bem di"lintas daque las da cultura de elite. tran~miti Ja por tradições
É possívd mc nc ionar outra :o. caracterís tic as. mas e"sa~ três _ a trad ição orais. f\!pfOdu/itla pc lo exemplo (tulvel. com o transcolTCr do século, cada vez mais
anôni ma, o contratcatro c a ação direla ráp ida e fugiu - parecem ter importância. ror meios letrados). cxpn.'ss,l pelo :;imbolismo e pe jos ritclais. e .,ituadn a uma dis­
Todas dirigem a atençiio para o cont ex to unit<ü'io da relação de classe. N Ulll celto lâl1l:ia muito grande da cu ILura dos governan tes da 1ng latena.
sentido. os gove rnante~ e a multidão precisavam uns dos outros, vigiav<'U11-se mu ­ Eu he~it ari a antes d~ descrever essa cultura COIDO uma cultura de classe. no
luamente, representavam o teatro e o COJ1U'ateatro um no auditóri o do outro. mode­ ~enLÍdo e m 4ue:-.t! podt! fal ar de uma culrura da classe lrabalhadora no s~cu l o XIX.
raVam o compol1amento pol ítico uns dos outru:-.. Intolerantt!s Com a insuborJinação na qua l a~ criança..; eram social izadas nu m -;istema de valores com notações de
do trabalho li vre. ainda a~si m os governante., da lngJaterra Jemonstravrun. n:1 práti­ classe distinlas. Mas não se pode com pree nder essa cultura . nos ter mos tia ex ­
ca, um grau su rpree ndente de tolerância com H turbulência da mu ltidão. Há aqui al­ peri~nc: i 3, na sua res i ~tênci a à homi lia religio:.a, na S U~l zombaria picaresca da~
guma reciprocidade "eslrutural" profunuamente arraigada') prudenles virluJe .. burgu esa~, no seu pronto rec urso à desordem e nas sua" ali ­
Considero e~sa noção de reciprociJade gt'IIIIT-m ultidão, de "equilíbrio r ­ rudes irô nicas para com <l lei , a menos qUe se emp regue () conce ito d () ~ an.tago­
a
tcrnali 'llTIlHleferên cia·'. em que os dois lados da e(juação eram, em certa medi­ ni~mos, ajustes c (às vez-es) reconci liações di aléticas de classe.
da. prisioneiro~ um do out ro , mais prOl ei tos<l do que as noções de ''sociedade de Ao analisar as rel açôes gen/ n'-plebe us, descobre-'ie menos uma batalha
Uma "ó cJ a ~se". de consenso ou de um a pluralidade de classes e intcres~es. O que ellearnil; ada e infl exíve l entre antago nistas sociais irreconc iliúveis que um
no~ de ve interessa r é <I polari zação de intercs.'ies antagônicos e a Jialética cor­ "campo de força" socictal. Tenho e m mente um experi mento escolar (que. ~em
resp()n dente da culWra. Hü uma resiqên cia muito articulada às idt!i as e in stitui­ dúvida, tiz errado ) em que uma corre nte el~tr i c a magneti zava uma placa cober­
ções dom inantes da sociedade nos séc ulos .'<V JI e XI X - assim os hi stori ado res ta de l imalha~ de ferro. N; li malhas. queeram uniformemellte distr ibuídas . agru­
c~peram poder anali sm e~sas socicdade~ segun do alguns aspec tos do conflito pavam-~c nUIlI ou noutro pólo, enquanto no mei o aquelas limalhas que ti nham
soci<ll. No século XV II!. a resistência é menos articulada, embora freqüenwmen te perma.nec ido no ~e LlILl gar alinhavam- se vagamente , como se dirigidas a pólos
muito específica, di reta e turbulenta. Portanto, deve-se .) uprir a arti culação em ulrrlti vos opo<:tos. É lima image m muito pró\ ima de como vejo a soc iedade do
parte decodificando as evidênc ias do comportal1lento, em parte vi rand o de -;éculo.\ VIII , na (jllaL para mUÍtos obj etivos. a multidão se <:lgloOl erava num pó­
cabeça para baixo os conceito~ brandos das autoridades dominantes para exami­ °
lo. a aristocraci a e a genlry no outro. c até fi nal do século os grupos profissio­
nar o que contêm no fundo. Sem isso, corremos o risco de nos tornar prisioneiros na i:-. t: cOlnt:rciais e::.tava rn ligados por linhas de depe ndêllcia magnét ica aos
dos press upostos e da <luto-imagem dos gOvernan tes: os tr<lbalh adores li vres ~ão governant e~ ou, de vez em quando, esco ndiam a face na ação com um junto à
vi stos como os "dissoluto" e desordeiros", o motim é vis to como espontâneo e multi dão . E s~a metáfora não só permite compreender a ~ ituação mu ito fre­
"cego", e tipos importantes de pro tes to soc ia l ficam perdidos na catego ri a do qüe nte de motim (c. o modo como se lidava com esse), ma~ també m grande parte
"crime". Mas são poucos os fenôm enos soc iais que não revelam um novo sig­
dn ~Iue era possíve l, e igualmente os limi ie~ do poss ível que () poder não ~e aWIl­
nificado qU<lndo expo<; tos LI esse exame dialético. O aparato pomposo, as peru ­
tUl'm a a ultrapass ar.
cas c mpoadas e o ves tuário dos poderosos também dewlll.'>er vi stos _ C0l110 era
Portanto. estou empregando a terminologia do conflito de classe, embora
sua inte nção - a partir de baixo. no <luditório do teatro d<l hegemonia e do COI1­
re.., i:, ta a atribuir identidade a limo classe. Parece-me que a metáfora de um cam­
trole de classe. Até a '"generosidade" e a "c<lridade" podem se r vi stas como atos
calcu h dos de apaz.iguamento de e la~se em rempos de escasse7 e com o extorsões
pu de forç a pode coex istir proveitosamen te com o comentário ele Marx nos
Grlllldrisse:
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ÀS vezes (1 protesto plebeu não tinha outro ob jetivo ~et:ão o ~e tk.safi,~ra scgu­
Em toda'> éL' for lll.IS da soc iedade. ull1 a deleflll in<J c!a prod llçfjo e S Ll (l~ rclil.;õe" é q ue
. n 'U hel!emônica da gentr)'. reu rar poder de suas 1111Sl1 fica<.;oes slll1bolt cas. ou
atribuem a qualquer outra rroclu~ã () e s u a~ rel<1 ções a ~ ua p os í ~'ào hi cr:í ry ui ca e in­
fluênc ia. f uma i lurni naçã() gera l cm qU I' I:s tão i m e rs a ~ tod'ls a~ OLilras core,; , uma
r.l.'si111ple.,m
Ir - blu<.; t'el1lar. E' ra uma b n.ga pe t"
a aparê
nC'I::! ~ o resuItado
" , porem
~~ bri ga podilll er cOIl...eqi.i.ências materi ais - no m?do c01110 era admi ni strada
cn1ê
il uminação que mod ifica <; U<l~ lo nalidade~ es pccí ticas. É ullla aLlllosfera espec ia l
(Jlle defi ne a g ravi tbelc especíti ca de tudo qu e nc l<l ,e e nc o lltra.· . Lei do... pobres, nas medIdas co nSIderadas necessan as pela gellt ry e m tempos

No final, essa cultura plebéia es tá apri sionada no ~ parâmetros da hegemo­


~~e preço'> elevados. no fato J e Wi\ ke:- ... er aprisionado ou libertado.
DevemOS vo ltar a examinar o sécul o X\ lIl , prestando pdo menos tant a

alenção Ül> brigas si mhóli cas nas ruas como ao~ votos na Câmara do~ ç omun s.

nia da genrr\': Os plebe us nunca deixam de estar cie ntes clesse apr is i o n am~n to,
consciente,> da reciproc idatle das re lações gentry-mu Ilidão, al ertas aos pontos Essu~ briga ... apareLem em todo tipo de lu gares e maneiras estranhos. As veZ~S

em que podem exercer pressão em proveito próprio. Igualmente sc apoderam de era o I!mprego jocosO do simbo li smo jacobita ou anti -hano\eriano, um modo de

pane úa retórica da ft,enrry para ,>cu próprio uso. Pois, não custa repetir, esse é o
torcer o rabo ua gel/tn' . O dr. St.ratford escreve u de Berkshire em 171 8:

século do avanço do tra hal ho "li vre". E a ca r:lc terí., tica distint iva tlo sistema
man ufatureiro cra a de que , em ll1uit()s tipos de trabalho, os trabalhadores (aí in­ Ni\~SOS ca m pôni os neste país estãO mu ito gai atos e m uito in solentes. Algun~ juí/ es
ho nestoS se re uniram pa ra celebrar o dia da coroação e m Wattleto n, e à tard inha,
clu ído'! pequenos mestres, ofi ciai" di aristas e suas fam ílias) ainda conl rolavam
quando já es tava m meio alegres, Suas I :·.. celências q uiseram ter um a fog ueira. Ao
em ce rta medida as ';lIas re lações e modos de trabalho imedi atos, embora
saber di sso, al g un s ca m pônios peg aram um n<lbo im e nso e en fia ram três velas bem
tivcssem muito pouco controle ,>obre o mercado para se us produtos ou sobre os em cim a ela casa de C hetwy ncl [.. .] Depois fo ra m dize r a Suas Excelê nc ias que, em
preços da~ matérias-primas ou dos al imentos. Isso expli ca em pal1e a estrutura honra da co roação do rei George, uma es tre la brilh ante aparece ra acim a da casa do
das relações industri ai s e de protes to, bem como um pouco dos artefatos da cul­ sr Chc tw y nd . Suas Excel ê ncias ti veram o bom sensO de [legar os seus cal atos e ir
tura, seu caráter coeso e i nuepcndência de qualquer co ntrok. ''' Também explica ver esSC prodígio, m as descobriram , para se u gra nde dcs,lpo nt amento, q ue aes tre la
grand e parte da consci ência do "inglês li vre ue nasciment o", qu e se apropria va não passa va de um nabo.
de parte da retóric a con stitucionali sta de '>eus govcrnantes e defendia obsti ­
O nabo era, claro, o emblema particular de George I escolhido pela mult i­
nadamente se us di reitos perante a lei e o direito a ter pão branco e cerveja b,lfa­
dão jacobita quand o estava de bom humor. Se mal-humorada, ele se torn ava o
la. Os plebeus tinh am consciência de que lima classe do min ante qUI! baseava sua
rei carnudo, e os chifres faziam as \ e 7,CS do nabo. Contudo, outros co nfrontos
pre t cn ~ ão à leg itimidade na prescrição e na lei ti nh a pouca aut oridade para
simbóli cos naqueles anoS podi am se torn ar bem sérios . Numa vila de Somerset
revogar se us COStUll1CSc direitos.
em 1724. ocorreu um co nfronto obscuro (um entre vári os desses casos) a res­
A reciproc id ade dessas rel ações sublinha a importância da..<; expressões
peito de um mas tro de maio. Um pro prietário de terr as da regi ão (W illi am
sim bólicas de hegemoni a e protesto no sécul o XVI II. É por i<;<;0 que tenho cham a­
Churchey ) parece ter mandado derfLIbar "o Antigo Mastro dê Maio", recente­
do tanto a atent,:ão para a noção de teatro. Claro, toda sociedade tem se u próprio
mente ornamentado com fl ores e grinaldas , e depois teria posto dois homens na
tipo de teatro . Grande parte da vida política das soc iedades conte mj"Jorâneas só
cadeia por cortarem um olmo para fabricar outro mastro. Em resposta, o seu po­
pode ,c r compree nuida co mo uma lu ta pela autoridade !'imhólica. Mas estou in­
mm' de macieiras e cerejeiras foi destruído, um boi foi morto e os cac horros, en­
do além da afirmação de que as Ju tas simbó licas do sécul o \ V III eram peculi arc<;
venenados. Quando os pri sioneiros foram li bertado s, reergueu- se o mas tro e
à época e exigem mais estudo. Acho que o simb oli <;lTlo nesse século ti nha uma
celebrou-se o " May Day" com baladas "sediciosas" e libelos derri sórios co ntra
importância peculiar devido à fraque /.a de outros órgiios de co ntrole: a autori ­
o magistrado. Entre os qu e ornamentaram o mas trv estavam dois trabalh adores
dade da 19reja es lava mOlTendo, e a autoridade das e\colas e d o ~ meios de co­
manuais, um preparador de malte, um carpinteiro, um ferrei ro, um tecelão de
municação de massa ainda não surgira. A g en ln' tinha qu atro meios principais
li nho , um aço ugu ei ro, um moleiro, um estalajadeiro, um pajem e dois cava­
de co nt ro le - um sistema de intluência e promot,:ão que mal co mportava o" po­
bres rej~jtados , a majes taúe e o t~rro r da lei. o exercício local de favores e cari­ lheiros,'"
Quando passa mos da metade do séc ul o, o simbolismo jacobita se en­
dades, e o ~i m bo li "mo de ~lIa hege monia. Isso repre~e nta va , às veze\ , um lú quece é o infrator ari stocrático ocasional (que proc ur ava talvez sati~fazer
eq uilíhri o social delic;jdo, em que os gove rll<:Hlles eram forçados a fale r <.:on­
seu.!> próprios interesses sob a cobertura da multidão) desaparece com ele." De­
cessõe ~ . Por i<,so, a briga pela autoridade :-i mbóli ca pode ser vis ta , n{io co mo um
po is dé 1760, o simbolismo do protesto popular às veles desafia a autoridade de
modo de represe nt ar bri gas "rea i ~" inconfcssas, mas como uma briga real em si .
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for ma muito direta . Ne m e ra o si m bolismo empregado se m c á lc u lo ou pre m e­
salários foram Illui to redu zi do s, e os al i m e nt o~ são tão ca ros que
d ita~:.'io cuidadosa. N a grande g reve dos n1arin h e iros no Tâmis a em I 76S. quan­
não tem os mai ~ con di ções de a, sCl! urar o sustent0 [Jari. nó s e
do alguns milhares ma rchara m a{~ o Pêlrl amenlo, um docu me nto que feli zmente
nossas família s. E para ser franc o cum você. se nossas q ueixas
sohreviveu permi te que vejamos o dese nrolar da ação. '" No auge da greve (7 de
não forem rapldam e lllc al e n d id ~l s , há nav ios c g randes ca nhõc:,
maio de (768), qu ando os marinheiros não estavam tendo ... uas rei vindicações de ~ obra em Deptford e Woo lwich . e armare mos uma co nfu são
ate ndi da.~, alguns de seus líderes entraram num bar perto das docas c pediram tã o grande sohre o rio corn o os londrinos jamais viram, pois as­
que o taverne iro escrevesse, com boa letra e de fOlma adeq uada, uma procla­ si III que a.ccrrarm( ,s as conlas com e sses mercadores, vamos par­
mação que preten diam afi xar em todas as doc as e escadas do rio. O lavern eiro Lir para a lra nça onde ternos certL:I.U de qu e se re mos u<:oJhidos
le u o papel e encontrou " muitas expressões de rebeli ão e lrai\( ão", e no final de bra<,~ os aberto s.
"Abai xo W... , abaixoo R . ." (istoé, "A baixo Wil kes, abaixoo ReI"). O taverneiro
(segun do seu relato) di scutiu com eles : Mais uma vez os marinheiros ti veram a expectati va frus trada. Saíram da
c<?na Cllll l a frase : "Acha que um grupo de marinheiros britânicos vai receber or­
Tf\\iEK1\E IRO
Cavalheiros. peço que não falem de coa" ,lo, nem sejam cul pados dens de um velho mestre-escola antiquado')". Em algum lugar acabar am en­
de nenhuma irTegularidade.
M "'~ I "'H I: rRos conlrando um escriba, ma s até esse escriba se recusou a completar toda a
O que quer di ze r, senhor'J Se não formos rapida me nte de­
incum hr ncia. Nu manhã -;egu inte, a proclamação apareceu devida mente nas es­
sagravados, ternos nav ios e g ra ndes canhões , que usaremos
tadas para o rio, assinada embaixo à direita "Marinheiros" , e apresen tando à es­
quando necessário. para que nossa.~ re ivindicações sejam aten­
didas. Além do mais, estamos decididos a desarvorar todos os querda ... "Liberdade & Wi lkcs para sempre I".
navios sobre o ri o, c depois dar adeus a vocês c à Velha JI1,L' later­ O bentido des sa anedota é que, mes mo no auge da greve dos marinheiros, os
('a e panir para algum Outro país [ ... ]. líderes do mov imento passaram "árias l10ras indo de taverneiro a me stre -e.scola,
em b\lsca ue um e<;criba que pusesse no papel a maior afronta à autoridade que
Nesse relato, os marinheiros estão apenas fazendo o mesmo jogo da legis­
latura com suas repetidas representações de delito~ capitais e excesso de mortes podiam imaginar: ''Abaixo o Rei". Os marinheiro s tal vez não fossem republi­
legislativas. A tendênci a de ambos os lados da relação era ameaçar mais do que canos em nenhu m "entido refletido, mas esse era o maior "canhão" simbólico 4ue
executar. Desapontados pelo taverneiro, os marinheiros levar8m seu papel a um podiam carregar, c se disparado com o aparente apoio de alguns milhares de
mestre-escola que realizava essa tarefa de e ~criba . Mais uma vez, o ponto pro­ marujos britânicos, teria sido realmente uma grande carga de canhão.'"
blemático foi a conclusão da proclamação - no lado direito "M arinheiros", no
lado esquerdo "Aba ixo W.. ., abaixo o R. ..". O mestre-escola tinha muito amor
pelo seu pescoço para querer ser o autor de um documento desse teor. De u-se en­ Ao contrário de lendas acalentadas, a Ingla te rra nunca ficou sem um
tão o seg uinte diálogo, conforme seu próprio relato, embora seja uma conversa Exér~it o permanente no século XV IIL 9, A manutenção desse exército, nos anos
bastante improv<Ível nas escadas de Shad well: de Walpole. era uma caU S<l particular dos Hhigs hanoverianos. Mas, para flOs de
('onl role inte rno . era freq üentemente uma força pequ ena e emergencial. Era, por
MARIN HEIROS Você não é amigo dos marinheiros.
exemplo. mu ito exagerado e inadequ ado para as necessidades circunst anciais
M ESTR E-ESCOLA Cavalhe iros , sou tão seu amigo que de modo algum quero lhes
do ano de moti ns úe 1766 . O aquartelamento permanente de tropas em di stritos
causar um g rande dano, proclamando sua traição a nosso Vcnc­
nível Sobe rano e Senhor. o Rei, e sua ação de rebeli ão e sedição pt'pulosos era <;empre imprude nte . Sempre havia demora, e freqü ente me nte
entre os colegas, pois é este o co nte údo de ,eUdocum ento na mi­ demora ue vúrios dias, entre o início da a2:itar,;ão e a l:hc2:ada do s mi litares. A!>
~ . ~

nha humilde opinião [... ] ' ropu~ , e ig ual me nte o!'> se us oficiais (cujo poder de manobra con tra o~ c i \' i~ po­
~1;\RI\iHEIROS A maioria de nós tem ,lrri sL'ado a vida em dc fc.' a da vida, coroa di a --c r qu e"tionado nos tribunais). ach avam a tare fa ·'odi osa".''' A invej a da
e dignidade de .s ua M aj es tade, em defesa da nossa terr:J natal, e Corou, ),é~undada pda avareza da aristocracia, acabara causando li fraqu eza úe
em todas as ocasi õe, te mos atacado o ini migo com L'o rag e m e lodos 0:-. órgãos efeti vo..; para a impo .~i ç ão da ordem . A fraqueza do E"lado fica­
determinação. e temos saído vitoriosos. Mas desue a conC'lusJo
V,t 1ll,ln ifestH numa incapat:idade de usar a força com rapidel, numa bran dura
da g ue lTa , nós marinheiros tcmo~ ~ ido rne nos preLad os, no", os
idl.'ll lóg ic{l pa ra com as li berdades dos súdi tos , e numa vaga bu rocrac ia, tão
72
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North Shields em 1792: ··Prime iro, falando aos marinheiros como UTll magistra­
enredada em sinecuras, parasitis mo c clie ntela que mal oferecia uma prt? c,e nça do deve falar nessa~ ocasi0e" c, depois. represe ntando o homem de sentimentos
hlHI !1ldade. e prometendo levar toda:; :Js sua:; que lxa<; ao Parlamento r.. ·r· .'~
independente.'"
A:-s im, O prl!ço que a aristoc racia e a r: el1lry pagavam por uma monarqui a ~ Es<;a Ht
atitude provi nha ~IS vCi'~S de um elemento de si mpatià ativa pela multi­
dão, cspecialmcnt<.:- quando a Qentry ~e sentiu injustiçada com o lucro que os in­
limitada e um Estado fraco era, forç osamente, a licenciosidade da mul tidão.
Esse é o contexlo e .~ trutural cent ral da reciprocidade de relações entre domi­
lennt!d iários estavam ob ten do com os cereais de sua propriedade e de seus
nantes e dominado s. Os dominante'>. claro. rcluta\am em pagar esse preço . Mas t1rrenJatt'írio~. Um motim em Taunton em 1753 (NewcastJe fo i informado) tinha
só seria possível discip linar a multid ão se houvesse uma c la<;se dominante unifi­
... i\h1 provocado por "um certo Burcher que po<;sui os moinho~ da cidade e que. em
cada e coesa, satisfei ta em di \'i dir os despojos do poder amiga\ elmente Cnlre si ve/. de ccrcai~, mói os pobres. Em suma, todos acham que ele merece ser punido,
e t'tll governar com b a~e no ~e u imenso dom ínio sobre os meios de subsistência. de f01111<1 legal. por maus procedimentos de~sa ordem l.. ·]" :" O conde Poulett, go­
;s<;u cOllsisténcia não existiu em nenhum momento ante'i d,c 1790, co mo \'á ri as vemad\lr do conrutdo de Sornerset. achava claramente que homens como Burcher
gerações de estudiosos ilu stres de história têm se dado ao trabalho de mostrar. eraJll um maldito incômodo. Criavam trabalho para ele c para ajustiça, e, claro, a
As tensões - entre a Corte e O campo, o dinheiro e a terra, ét:. fac çõc' e as ordem tinha de ser mantida. Um "levante" geral ou um estado de amotinação tra­
fa míl ia <; - penetravam fundo . Até 1750 ou 1760, o termo "gentry" é pouco di s­ imn oulras más conseqüências na sua esteira - a multidão se tomava grosseira,
criminador para os objetivos de nossa aná li se. Há uma acentuada Jivergência o locos Plu'a di scursos desleais e pensamentos sediciosos, "pois, depois de rebel a­
entre as tradições whig e tory de relações com a multidão. Naquel<J 'i décadas, os dos.LOdos vão antes ,,~guir uns aos outrOS que escutar os cavalb,ú ros". Na verdade.
whigs nunca foram paternalistas convincentes." Mas. nas mesmas décadas, de­ nessa ocasião "alguns por fim chegaram aempregar uma linguagem de igualdade,
senvo lveu -s~ entre os toriej e a multidão uma aliança mais ativa e de consenso . istoé, não compreendi am por que alguns devem ser ricos e outros pobres·'. (Havia
Muitos membros da baixa gel/t ry, as vítimas do imposto sobre a terra e os perde­ até rumores obscu ros sobre uma ajuda da França.)

dores na consolida<;ão das grandes propriedades rurai s em opo~ição às peque­ Mas a manutenção da ordem não era uma questão simples:

nas, odiavam os cortesãos e o intere s'~'; financeiro tão ardentemente qu anto os


A i mpll nidade desses amotinados en co rajava ... outros motins. Os cavalheiros na
plebeus. E, a partir disso, Ve mos a consolidação das tradições específicas do pa­
c0 miss1io têm medo de agir, nem é prudente que o façam , pois não há tropas em
ternalismo tor)' - pois, mesmo no séc ulo X IX, quando fl '2 nsamos em paternali s­ Taunton , llmin ster etc., apen as urn a guarda temporária f. ... J ern Cre\l'kcrn c <em ne­
mo, não é com a tradição whig, mas co m a tor)', que tendemos a relacioná-lo. No nhum oficial. Mas parece que, em geral , a disposição dç~sas cidades e desses ca­
seu l~ nite , durante os reinos dos dois primeiros George, essa alianç a alcançou va lheil'O 'i é dei xar que os ânimos se acalmem. e niio pro\'ocá-I os por medo das
uma exprc<;:,ào ideológica nos efeitos teatrais do jacobitismo popular.
conseqüências.
Por volta da década de 1750, esse momento já es tá passando, e com a as­
A<; conseqüências temidas eram imediatas: mais danos à propriedade, mai s de­
censão de George 111 ao trono entramos num clima diferente. Certos tipos de con­
son1enl.lalvez ameaças físic as aos magistrados. C· conde poulett estava dividido
flito entre a Corl\.: c o campo tinham se suavi7.ado a tal ponto que já é possíve l fa lar
sobre a questão. Se assim aconselh ado por Sua Alteza, ele "faria com que alguns
do calculado estil o paternalista da gentl )' como um todo. Em tempos de di stúr­
dos principais líderes fossem condenados", mas "a di sposição da cidade e ctos
bios, nas formas de controlar a multid ão , pode-se agora esquecer a di stinção en­
caval hei ros vizinhos (era) contra essa atitude" . De qualquer modo , não há 1I C<-:<'C
tre 'vvhig e tor)' - pelo menos, no níve l do jui z de pa7. em exercício - - c pode-se
ca,o, nem em centenas de outros semelhantes em 1740, 1F, _\ 1756, na década
ver a mag istratura em geral agindo conforme uma tradição estabelecida. Para
de 1760 e mais tarde, nen huma indicação de que a ordem social estava em peri­
manter o controle sobre os pobres, eles deviam mostrar que não eram papistas
go: o que ~ra temido era a ·'anarquia" local, a perda de prestígio e hegemonia na
nem puritanos. Devial1l se aprese ntar, pelo menos em gestos, como mediadores .
locali dade, o relaxamento da disciplina social. Supunha-~e normalmente que o
Du rante episódios de motins, a maioria dos juízes de paz. de qualquer reli giiio,
con flito ia acabar se esvaziando , e o grau de seve ridade a ser demonstrado - se
procurava ev itar o confronto, preferindo intervir por meio da persua ~ ão moral
um uou duas vítimas deviam ou não balançar no patíbul o - era um a questão de
antes de apelar para a forç a. Na verdade. o papl.!! do juiz de paI em tem pos de
exem plo l! efe ito calculado. Estamos outra vez de volta ao teatro. Poulett se
motins podia ser qu ase rcdu Li do a lima fórmula: "Te nho certeza de que III1l único d\!SCld pava com Newcastlc por incomodá-lo com esses "pequeno~ di stúrbios".
magistrado fi rme poderia ter acabado com o motim a qualquer momento" . es­
O gC 'LO jacobitaobsceno t.le um pescador de Harwich preocupava mais os mini s­
crevc u um merc ador quacre a um amigo sobre o tumulto dos marinheiros em

' -, I
75
i ~,'.
. ~ lílrlliWa-,e muito mais prováve l que o teatrO pleno e tcnível da lei aprc ­
tros do rei do que mui tas ce ntena,; de homens t> mulheres marcha ndo pe lo cam ­
po ll; nla anos mais tarde, de moli ndo moi nhos e apoderanuo-<;e do ~ grãos.
·" . l' IL~e ma i~ tarde as o; uas medonh as matinês no di strito amoll llado. Era pre­
, •l ,lh•
.' ~()
n durexemp lo~ pUOI I IVOS. para r~$tabelecer a ( redl bll luade da ordem . DepOIS.
.,t: , ,,. . . . .' .
Nes:-.as ~ itu aç õ es . havia uma téc ni ca prática de 'lpazig uamento da mu lti­
dão . A tu rha , escreveu Poulett, LI 'I ~ lm1l1 veL.. a hegcrnoni<:l cultural d af;eHl l' \" vol tari a a fu ncÚ' nar.
nW ' .
acallll<lv:J-se [.. . 1quando o ~ cal'alheiro ~ saíam à rua, desej ando saber o que que r'iam
e o que prt;lendiam con seg uir, alertando -os ,obre as con seqüências, rrom ctendn­
lhes que os moleiros c os padeiro s ~e riam prucessados. qu e eles própri os CO I11­ VII
pnu'iam os cercais e os levariam ao mercado, e que os ve nderiam ern pequ enas E~se C(l!1llitll simbÓli co só adq uire seu significado no âmbito de um ueter­
quantidades co mo ele..; desejUvam.'''
1l1inudo equi líbrio de relações -;oc iais. A cultllfa plebéi a não pode ser analü.ada

Mas quando a multidão oferecia uma ameaça mais direta à geu rl)', então a reaç ão inJepc ndentcmente de<;se equilíbrio. Suas defi ni çõe<; são. em alguma medida,

era mais firm e. No mesmo ano, 1753 , o West Yorksh irec nfrentou motins nas bar­ an títese!'> das defi nições da cultura de elite. O que tcnho tentado mostmr, tal vez

reiras úe pedágio. Henry Pelh ,Ull escreveu ao irmão que o sr. Lascelles e Sua rep\!ti livamente, é que cada elemento dessa sociedade, consi d~ rado em separa­

barreira tinham sido diretamente atacados: "t ~n do ao seu lado apenas s~ u s ar­ du. pode ter precedentes e suce<.sores. mas que, con:;;idcrados em conjunto, for­

rendatários e segu idores" , LascelJ es tinh a enfrentado os am otinados e "ga­ Illl1l uma soma que é maior do que a so ma de suas partes : é um conjunto

11
lhardamen te os ve nceu e fez dez prisioneiros", Hou ve ameaç as ao escrivão de estru tu rado de relações, em que o Estado, a lei, a ideologia libertária, as ebu­

Leeds "e a todo o grupo ativo dos magistrados, diziam que iriam demolir as suas ltçoc:, e as ações d ircl,L~ da multidão, todos dese mpenh am papéis intrínsecos a

casas e até matá-los". Contra essa atitude, só uma demonstração máxim a de so­ css sistema, c dentro de limites designados por esse sistema , que são, ao mes­

e
lidariedade dü clél'.,c dominante scria suficiente: mO tempo. os li mites do que é politicamente " possível" e, num grau extraor­
dinário. os li mites do que é também intelectual e culturalmente "possível" . A
Procurei persuadir os poucos ca;-alheiros qu e percebi serem mais ativos [. ,.] Esse mult idao , na sua forma mais avançada, raramente transcende a retóri ca li­
caso me parece de tão grande importância que e~ tou co nve ncido de que só poderá
bertiuia da trad ição whig radical , e os poetas não tral1sce ndem a sensibilidade do
"c; r rcsol vido se a, pessoas de maior prestígio na região participare m da defesa das
paternalista hu manitário e generoso."·' As cartas anônima, furiosas que saltam
leis. Po is se o po ,'o só for subjugado pelas tropas, e nào se conve nce r Je que se u
co mp onamento é repugnante ao bO!1l hcnso das pes soas de ma ior pl\~ s tígi o na das profundezas mais baixas da soc iedade blasfema m contra a hegemonia da
região, quando as tropas rorem embora, as hos tilidades recomeçarão. gen/ry. mas não apresentam nenhuma estratégia para substituí-la.
Num ~e ntido , essa é uma conclusão um tanto conservadora, pois estou en­
É um tex to que vale a pena examinar. Em primeiro lugar, é di fícil lembrar dossando a auto -image m retórica da sociedade do sécu lo XV lll - a ele que o ser­
que o autor é o primeiro-ministro da Ingl aterra, escrevendo ao " m in istro do In­ r/ellt efll de 168Rx\r\ definiu a sua forma e suas relações características. Dado que
teri or". O pon lo em di scussão parece ser o estilo requ erido dos hOlll en~ privados esse ,\ ell lemc nl estabeleceu a forma de governo para uma burguesia agrária,""
de gra ndes posses na hora de lidar com infraçõe!'> à sua ordem: o primeiro-mi­ tanto essa tom1a de poder do Estado como e ~se modo de produção e relações
nistro está procurando persuadir "os poucos cavalheiros que vi" a serem mais protl uti va~ é que parecem ter determinado as ex pressões políticas e culturais dos
"ativos", Em segundo lug ~tr. o incidente ilustra magnifi call1e llte a" upr~macia da cem (\no:; ~~gll illles . Na verdade, esse Estado. por mais fraco que fosse em algu­
hegemon ia cultural sobre a física. As tropas proporcionam menos scgur,lllça uo mas tle suas fun~õeg burocráticas e rac ional izadora~ , era por ~ i mesmo i me nSél­
ljue a rea firrnação da autoridade pa tern a li~ta . Acima de tu do. a crc-<.Ii bilillatle da mente J,lrle c d ic al como instrumento auxil iar de prod ução, abri ndo 0-'
gen rry c dos magistrados de\i a ser mantida. Numa primeira fase um; distúrbios. cami nho:. para o imperiali:.mo comercial. impo ndo o~ cercamenlOs no campo e
os pl~be us deviam ),er pehuadidos sobrcrudo a abandonar uma postura in , u­ C;\cil ilando a acumul ação e o movime nto J o capitu l, tunto por meio de suas
bord i nada , a ~ n un cülr suas rei vi nd i caçõ e~ em termo!) legítil l10s c uefcR'llles: de­ runçõe~ de tribUlação , opera~ões bancári a~ c financiame nto. como. de forma
viam apremler que provaVé lme nte ob leri am mel ho res re ~u l tddú~ com uma Ill ' Li ... rude, pelo que arrancava paras it icamente de ~cu:" próprios funci on ários.
pClição leal do que com um moti m, Mas se a-. autoridade, não conseguiam per­
~ u adi r a mu ltidão a depor Os seus porretes e a e.. perar a n:paração. eJlI:\o mos ­
(\ \,IV I G ilralltia ,le 'lI C~"rl(l llJnoveriall :1 aO trono. (N. R.'
lravarn - ~c à~ ve7es dispostas a negocÍ<lf l'om a multidão sob coação_ M3~ . nesses


Foi essa combin ação específica de fraq ueza e fO[ça. q ue criou a " j'um ina~ ão ge­
Por fim, um a cultura plebéi a indcpe nde nte ass im tão robusta poderia ter
ra' " em q ue toda s as co res desse século estão ime rsas, que atribuiu aos j uízes e
nutridl) alé expectativas al tcrnativw; . de:-ali ando essa hegemo nia. Mas essa nüo
aos magistrados o seu papel, que tornou necessário o teatro da hege monia cul­
é .1 minha leitu ra do qu e ocorre u. pois q uando acontece u a rup tu ra ideológica
tUlal e escreve u () 'ie u ro teiro patern alista e libertário , q ue proporcionou à m ul­
(;O lll () paLe ITl<11ismo, na dIScada de 1790, e la ~ urg ill menm da c ult ura ple béia que
tidão o sua oportunidade de pro te,tar e exe rcer press,10. '-jue formu lou o~ ter mos Ja cu Itura i nlelec tual da classe méd ia di ~" i(kn te , e a par Lir dai foi levad a :lOS arte­
de negociação e ntre a autoridade e os plebeus , e q ue es tabeleceu os lim ites qu e sãll:- urbanos, M as as idéias dos se~uidore s de Pai ne, lev adas por esses artes ãos
a negociação não podi a ultrapw;sar.
a uma cul tura plebéi a ai mla mais am pl a, ali lo go se arraigaram . E tal vcL o abri­
Por fim, até que ponto e em que sentido e mprego o conceito de " hegemo­ ,~o fornecido por essa cu lt ura ro hu ~ l a c inde pe ndente permitiu que elas fl o­
e
nia cultu ra]" ? Essa perg unta pode ' Cf respond id a num níve l prático ou num ní­ resce ss cm e se propagasse m, até dare m ori ge m ús gralldes e pou co deferentes
vel teórico. No nível prático, é evide nte qu e o hegemonia da gen tl]' so bre a vida a gitações popul ares no fina l das G uerras Napoleônicas.
política do nação foi efic az mente imposta oté o década de 1790. Nem as blas­ ~ Es to u l'alu nd o teoricamente . O conceito de hege monia é muito valioso, e
fêmias, nem os episódios esporádicos de incêndios criminosos a ques tionam, ~e l1l ele não saberíamo,- compreender corno as relações eram estruturadas. Mas
pois não pre tendem suplantar o domínio da gentr)', mas apenas puni-la. Os li­ embora essa hegemonia c ultural possa defi nir os limites do que é possível, e ini­
mi tes do qu e era politicomente possível (até a Revolução Franceso) fica vam ex­ bir n t:re scimento de horizontes e expectativas alternativos, não há nada deter­
pre ssos cx tcmomente em formas constitucionois c, internamente, de ntro das minado Ü Ll automático nesse processo. Essa hegemonia só pode ser sustentada
mentes humanos, eram tobus, expect3ti as limitodas e uma disposição a odotar pel o~ governantes pelo exercício con stante da habilidade, do teatro e da con­
formas tradicionais de protesto que em gerol tinhom a intenção de lemhrar à gen­ cessão. Em segundo lugar, essa hegemonia, até quando imposta com suc e~so ,
try seus de veres paternalistos. nüo impõe uma visão abrangente da vida. Ao contrário, ela im põe antolhos que
M as é tam bém necessário dizer o que (::;:.21 hegemonia nelo acarreta. Ela não impedem a vi" ão em certas direções, embora a dei xem livre em outras. Pode co­
acarreta que os pobres aceitem o paternalismo da gentr)' nos próprios termos da e,x.isli r (como aconteceu na Inglaterra do século XVlIl) com uma cultura muito
genlry ou segundo sua auto-imagem consagrada. Os pobres podiam se dispor a vigorosa e autô noma do povo, derivada de sua própria experiência e recursos.
conceder sua deferência à gentry, ma s apenas por um pre ço, que era substancial. Essa c ultu ra , que em muitos pontos pode ser resi stente a toda forma de domi­
E a deferência era freqüentemente desprovida de qualquer ilusão: a partir de nação ex te rna, constitui uma ameaça sempre presente às descriç ões o fi ciais da
baixo, podia ser vista em parte Corno autop reservaç ão necessária, em parte co­ realidade . Com o so lavanco brusco da expe riê ncia, a intrusão de propagandistas
mo ex tração calculada do que podia ser conseguido. Visto dessa maneira, os po­ "scdic j ü~os", a m ultidão da "Igrej a e Re i" pode se tornar jacobina ou ludclita, a

bres impunham aos ricos alguns dos de\cres e funções do paternalismo, assim
Marinll:l czarista leal pode se tornar lima frota bolchevi q ue insurreci onaI.
co mo a deferência lhes era por sua veL imposta. Ambos os lados da questão es­
Por isso, não posso aceitar a visão , popular em algu ns círculos estruturalis­
tavam aprisionados num campo de força comum.
t,t'> e nl<lrxi,;ras na Europa O cidental, de que a hege monia impõe uma dominação

E m segundo lugar, deve mos lembrar mais uma vez a imensa distância en­
abrJngcllte aos governados - ou a todos que não são intelectuais - chegaIldo
tre as culturas de elite e plebéia, e o vigor da autêntica autonomia dessa última. até n próp rio limiar de su a experiênci a, e implantando em suas mentes, no mo­
mento tio nascimento, catcgorias de subordinação, das q uais eles são incapazes
O que quer que tenha sido essa hegemonia, ela não el1'ulvia a vida dos pobres,
nem os impedia de deCe nder seus próprios modos Ué: lrabalho e lazer. de formar
ue se linar e que sua ex periência não é capa? de corrigir. ]<; ,0 pode tc r aconteci­
do <lql1 i c ali , ma s não na Inglaterra, não no século XVlIL
seus próprios rituais, sLlas prlÍprias satisfaçcc:, e visão de mundo. Is so nos aler­
ta contra Je\'ar ;] noção de hegemonia longe de mais e a áreas í nadeq uadas. '''~ Es­
sa hegemonia pode ter defi nido os limites exte riores do que era política e
Vl!/
socialmente praticáveL tendo por iss o intluenciado as form as do que era prati­
cado: fornecia a arquitetura nua de u m~J es trutura de relações de domillal; ão e
Agora tal vCl seja Lltil reafirmar, be m como precisar, algumas partes dessa
subordillação, m as dentro desse traçado arquitetônico era possível criar muitas
ce nas e repres~n tar dife re ntes dram as. discu<;são. Q uando a propus pela pri meira ve z, nos anos 1970, alguns considera­
ram que eu teria eSlabelecido uma dicotomia mais absoluta entre pa tríci os e ple­

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controlar o governo, m aS po rque só desallúral11 a dom in açao lu-i ':!ocráti ca peno do
beus - se m fo rças intermed iári as de qualquer innuên cia mai s séria - do que
era minha intenção . E a crítica tem se voltado para a ausê ncia, na minh a análise, fi nal do st:culo.lo.,
de um pape l para a clas~é média. Nessa leitura. o surgimento de uma cl usse mé­ As que<;tõe<., não me parecem estar situadas t.:m nenhuma variedade de hi sto­
dia na década de 1790 e a radical ização de uma grande parte da infclligentsia riog.ralia, mas nos rcgi :, t ro~ históricos reai s. E continlJam a de<;concertar histOlia­
apaJecem C0 l\10 algo inex plicável. um deus ex l/1achina-"" F os críticos têm ~e Jores de muitas convicl.;ões. Hav ia certamente mui tas prefigura<rõc~ do "surgi­
quei xado do "dualismo" e da triste polarii'ução resu ltante, de eu não admitir as mento" de uma classe média na po lítica urbana. Mas, como argument a John
camadas mé di a ~ co mo ato res hi stóri cos e " negligen ciar o papel da cultura ur­ Bre . a independência da clusse média era con~tantemente restrin gida e recon­
wcr
bam e da di ~s idê nc ia bu rg uesa"."iJ duúda a()~ canais da dependência pelos controles poderosos do cli entelismo:
Posso concordar qu e meu modelo bipolarizado te nha mais importJncia
Os proJ uLO res de bens de luxo- mobília. carruagens e roupas - , varejistas de to­
para os distritos rurai s, de pequenas cidades e, especialmente, manufatureiros
dll lipo. aqlJeles. desde prostitut.as a professores de dança, que exec utavam serviços
q ue <;e expande m fora dos controles corporati vos (o loeus da "proto-indu striali­ pllra OS ricos. todlLs essas pessoas (e elas clJl1'i liluíam uma pon,ão bastante grande
zação") do que para as grandes cid ades e, se m dúvida algum a. do que para Lon­ J a lün,;a de trabalh o metropolitana I dependiam para seu suslento de uma cullllra
dres. Eu não tinha a intenção de diminuir o significado do crescimento durante l
o

\:t!nlrada na COrle . no Parl amento e n3 temporada 10ndl·ina. / ,

todo o séc ulo, em números, riqueza e presença cultural, das camadas médias que
vi eram a criar e ocupar uma "esfera pública" (nos termos de Jürge n Haber­ A siwuçào não induz necessari amente a deferência: podia ge rar ressentimento

mas) "" Incluem os grupos desc ritos por John Brewer: e host-ilidade. O que não podia fazer, enquanto a arena do mercado não se tor­
nasse m,ús anônima. era gerar independên cia.
[.. .] advogado s, corretores de terras, boticários e médicos; interm ediári os no
Se com idcramos os controles sempre pre sentes do cli ente lismo, da pa­
co mércio do carvão. l<.:cidos e grãos; carrocei ros, tran sportadores c esta laJadei !'Os;
li vreiros, impressores. mestres-escolas, arti stas de casas de diversão e escrivães: lIonugem c do "interesse", so mos levados de volta ao modelo de um campo de
fanqueiros, mercee iro" farmacê uti cos, dO[loSde papelaria. ferragi stas, loji slas de força bipolariJado, a"s im como esse vocabulário bipolarizado estava sempre na
todo tipo; os D'_~ qLl en os m e~ lres na cUlelaria c fabricação de brinquedos ou de todos boca uos próprios atores históricos. Na verdade. esse modelo da ordem pol ítica
os variados anigos de luxo da metrópole. ''', e socia l era por si mesmo uma forç a ideológica. Uma das maneiras pelas quais
A li sta podia ser ampliada, e deveria certamente incluir os detentores de proprie­
O~ patrícios repeliam a admi ssão da classe médi a a qualq uer participação real no
poder era recusar a sua admissão ao vocabulário do di scurso político. A cultura
dade plena. que levavam uma \'ida co nfortável, e os ricos faLe ndeiros arre ndatá­
rios. É a partir desse,> grupos médios que Eley vê " 0 surgi mento e co nso lidação patrícia resistiu obstinadamente a conceder qualquer grau de vi talidade à noção
de um no vo público burguês consciente de si mesmo": de "classe méd ia" até o final do século. " Além di sso, é um erro supor que O
U

cresc ime nto e m número s e riqueza das "camadas médias" neces sariamente
Relaci onado em última iln<Ílisc co m os processos do desenvol vimento capitalisLa e modifiuls,>e e suavizasse a pol arização de classe na sociedade como um todo .
da u·ansfo rmação soc iall... J com os processos da formar,:ão cultural urbana que len­
Em algumas ci rcun stâncias, desvi ava as hostili dade". Como vimos (pp. 46-8) ,
diam a su:-,tentar um a identidade política t" rnergcrllc é e'aavall1 por vezes li gados a
os grupos médio:, podiam ~ervir para encobrir o propri etário de terra ou () grande
redes políticas regionais; com ulIla n<w<\ infra-cstrutura das comuniear,:ões , incluin­
do a imprensa e outras form .ls de produção lileníria I. .J e com um nov(l uni verso de fabricante de ro upas . Mas. enquanto tantos aces sos para os cargos, as pro­
associa(,'all voluntári a. E finalmente com um p,trlamell larisl1l o regene rado [...J. '" tl1 l1cõ~:-; c os contratos continu avam se ndo co nt rolados pelos meios antigos e
corruptos da patronagel11. ü cresci men to nos números dos grupos méd ios só po­
Pus~o concordar com tudo isso. Ma:, esse surgimento e consolidação foi
lliu intensifIcar a competiçãO entre ele ~ .11I
um pro ces~ o complexo e muito lemo. que se reali7.llu dlJ ranle cem ano ~ ou mais.
P0l1 anto. mi nha disc ussão não te m sido sobre números, riq uela oU <il~
Como opservoLl o p ro[e~~or Cann on :
Il1C~ mll li presença cu ltural da cla ~se média, mas sobre sua identidade como um
Embora haj a ll1u i ta~ ev idênc ias de que Illc: rc:adores c ti lI anc iqa" pw fe ~, ores e jur­ Lll~)r púlítico autônomo e com moú\'açüo própria. sua intl uê ncia e k tiva s\)IJre ()
nalistas ad vogado" e arqliiteto,. , IlljisLas e industriali st as tenh am prosperado na pouer, sua modi fi cac,:üo do equi líbrio patrícios-plebeus de qualquer fonll ll mais
Ing laterra han u\'c ri üna, as queslões a . ;ercl11 c xp li c ad a~ lII e p,lrccelll éj ua,e () opns­ \ér in N50 quero recu ar das prop os ições neste capítul o. embora saúde a im­
to da hisLO riograli a Illan ista - nJ() illten::ssa sabn co mo é que eles chega ram a
81
80
portância da pesquisa atual sobre as instituições da classe média e sobre a vida
política urbana. ..agradf.1da In glme rra repri mir e, se poss íve l, ex te rminar eS~ <I nação desati nada de
A discu ssao é, em parte. , ohre o poder e, em parte, ~obre a alienação cul­ úwali tá ri os . blasfcm auorC5 e reg ic idas ! E cs:-.c cra o sl' nLimento de nove décimos
tural (p. 17) . Alguns críticos sugeri ram que eu e outros da geração mais ve lha J~' po vo da Inglatcrra Iem] 179-+. '"
dos "historiadores da multidão", por nos voltarmos prin cipalmente para os tu­ DHvenport tornar-se-i a um desta(,;rrdo spenciano. repu blica no e cart ista.
multo,> e os protestos , excluímo~ da "i.,ão muitas outras manifes tações popu­ multidão do ~é c Lllo XV III era multiforme: ora empregava o simbolismo
lares, inclusi ve o entusias mo patriótico e legalista, o partidarismo ele itoral , e jac(lhiw, ora en d o s ~ ava Wi lkes J plenos pul~n õe,s, ora atacaVa pontos de re união
evidênc ias mais sombrias de xenofobia ou fanatismo religioso. 11' Esto u dispos­ Jo~ di s, idel1 tes . or;'1 fI xa va o preç o do pao. E verdade que certos te mas se
to a admitir que essas que~tões não me preocupam. e estou feli /. por ve r 4 es­ repelem: a xellofohia (especial men te o anti galicanismo), bem como um gosto
uc
sas lac unas es tão sendo supridas por outros. ll' Sem dúvida, uma vi são ma is pela retórica antipapisla e libertári a ("o inglês livre de nascimento"). Mas as
abrangente da multidão es tá se tornando realidade. Ma s espera-se que a visão (leneralizações fôce is deve m parar aqui. Talvez em reação à exag.erada simpatia
/;;>
não se torne demasiado abrangente. São poucas as ge neraJ iz ações a respei to das e dd~s a de mon stradas pelo,> hi storiadores da multidão da minha geração, al­
atitudes políticas dominantes dos "plebeus" no século X V[If que têm probahili­ !Zuns historiadores mais jovens estão dispostos a nos dizer aquilo em LJue a mul­
dades de permanecer. exceto que a multidão ,e ra altamente volátil. As multidões ~i dãO acredit ava, e (ao que parece) a multidão tinha sempre uma tendência
do século XV J[f são muito variadas, têm todos os formato s e tamanhos. Nos nuci 0nalista e, em geral, legalista e imperialista. Mas nem todos os historiadores
primeiros ano s do século, havia as gangues das cervejarias que os políticos passaram muito tempo pesquisando os arquivos em que se encontrarão as evi­
so ltavam contra seus oponentes. "Adoro uma turba ", disse o duque de Ne\vcas­ dências enigmáticas e ambivalentes, e aqueles entre nós que jveram essa t:x pe­
tle no final de sua vida: "Eu mesmo liderei uma turba certa vez. Devemos a riência são mais cautelosos. Ne m se pode deduzir a "opinião pública" diretamente
sucessão hano\'eriana a uma turba".ll' Em nenhulll momento essa volatilidade é da im prensa , pois essa era escrita pelas e para as camadas médias. O entusiasmo
mais manifesta do que no fim do séc ulo. As generali zações qu an to à dis posição pela expansão come rcial entre esses leitores não era necessariamente parti lha­
política da multidão nos dirão uma coisa na época dos motins Pri estl ey (1791) e do por aq ueles qu e serviam em terra ou no mar nas gu erras que promoviam es­
Outra muito diferente no '1uge da popularidade de Tom Paine e da Reforma dois sa ex pansão. Em oposição ao tom populista da década de ' 960, hoje em dia é
ou três anos mais tarde. É possível encontrar sen timentos revolucionários em mod a entre os i ntelectuais descobrir que os trabalhadores eram (e são) intole­
retórica de cervejaria e em cartas anônimas ameaçadoras entre 1797 e 180 I r ante)" racistas , sexistas . mas/e , no fundo, profundamente conservadores e leais
(anos dos motins navais, da insurreição irlandesa, anos de res istência à tribu­ à Igrej a e ao rei. Mas uma co nsciência tradicional dos cos tumes ("conservado­
tação e de ferozes motins do pão), bem como legalismo e antigalicanismo po­ ra") pode em certas conjunturas parecer rebelde. Pode ter a sua própria lógic? c
pulares ardentes entre 1803 e J805 (anos de ameaça de imasão, de raiva contra suas pró prias solidariedades que não é possível tipificar de modo simplista. r;
a expansão imperial de Napoleão, que despertava a hostilidade até de antigos próp rio " patrioti smo" pode ser um estratagema retórico que a multidão empre­
"jacobinos" ingleses, anos de alistamento em mass a nos Voluntários e da vitória ga para éLrrnar um ataque à corrupção dos govc 'nantcs hanoverianos, ass im co­
agridoce de Nclson em Trafalgar). mo no :-.éc ulo seguinte os tumultos da rainha Caroline foram um estratagema
Essas transições rápidas ocorriam, é claro, tan to nos indivíduos Como no para atacar o rei George IV e sua Corte. Quando a multidão aclamava almirantes
ânimo das multidões. Allen Davenport, que pro vi nha de uma fa mília de traba­ popu la re~ , podi a ~e r uma maneira de atacar Walpole ou Pi tl.' "·
lhadores na fronteira de Gloucestershire_ Wiltshire, descreve u como ch egou a Não podemos nem mesmo dizer até que ponto idéias republican a~ explíci­
Bristol em 1794, com dezenove anos: tas e:, tavu m e m circulação, especialmente durante a turbul enta década de 1760.
É urna questão mais frequentemente afastada com lima negativa do que inves ti­
Eu era bastante patri ota c pensava, naqueles tt: mpos, quc tudo o que a Inglaterru
gada . Mas temos o cavear de Si r John Plumb: "Os his toriadores, penso, nunca
reaJiJ'a\a era correto,ju sto e apropriado; e que qualquer Ou tra n~h;ão que lhe fo, se
dão bas t~lI1te ênfase à predo minância do amargo sentimento antimonárquico e
co ntrária esta\a errada e merec ia ca stigo. E que a França que acahara de malar o
seu rei, exiJar' o" seus nobres, insultar e profanar' a religião cristã er,[ realmente
pró -rep ub licano das décadas de 1760 e 1770".'1 Um pen.sa mento se melhante
muito má; e eu gritava "Igreja e Rei" tão alto e por tanto tell1po quanto ljualquer passo u pda men te de um his toriador mais exc itável, o sr. 1. C. D. C lark. que ci­
padre ou senho r no reino. E acreditava que nelO , 6 ~e justiticava, corno era c!c\'cr ta Lrechos da carta de John Wesley para o conde de Dartmouth em 1775, sobre o
I.:'> tadn "pe rigosamente insatisfeito" da s pessoas "de toda a nação em toda
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cid aue grande e pt:q ue na, em todo o vil arejo po r onde andei". As rcs~()as "a ta­
cam" o próprio re i: "Cal o rosamen te despre/ a lll S ua Maj e stade e o ode iam com wçõe~ na~ man ufaturas, nas açõe~, na, barreira~ ou por causa dos al i mento s nas
um ódio to tal. Q uerem ma llchar as m ãos com o sangue de le . E~tão impregnadas província!» - e la reco loc a as açocs da m ulu dao urbana de ntro de um contexto
com o e-;pírito do 'I.s sa:-,sinato c da re be lião [ ... )" . 1 ' S uspe ita -se de que há perío­ ullU ral e po lítico ma i), co mplexo. Mas por me lO de toda ... e"sas compl eX idade s
dos, durante as décadas de J 760 e J 770, em q ue parte do povo inglê" es tava mai ~ aloJa devo press upor H polaridade ~ ubj at:e n te do poder - ,'1& forças que rre~ ­
di sposta a se se parar da C oroa do que os colo nos americanos , só que tinham a "itma vafl1 r ara invadi r c oc upar qu alqu er espaço q lle se abn ~!> e q ua ndo os gru­
in fe licidade de não contar com a protc~ão do ocean o Atlânti co. ro~ domi nante .; entravam e m con fl ito. Mes mo quando as multi d ões eram
Portanto, continuo fiel ao modelo patrícios-rlehcus e à metáfora do cam­ clarame nte malll pu l a da~ e subalte rnas , os governan te;; nu nca as e ncaravam sem
po de força , tanto para a e~truturação do poder como para o cabo-de-gu erra dia­ ansiedade . Semp re poderiam ultrapassar oS se u'> limites, e a multidão desorde­
lélico da ideologia. Entretanto, não se deve SUpor qu e e~sas fórmulas forn eçam nada voltaria n cai r na pol arid ade "essen ciali sta", "transformando o cale ndário
um rec urso analítico instantâneo para extrair o significado de cada ação da mul­ otici.t1 num camaval de , ed ição e mo tim" . 1'1 Su bjacente a todas as ações da mul­
tidão. Toda ação da multidão ocorria nu m contexto e specífico . era int1uenciada tidão. pode-se ~e ntir a fo rm aç ão do que foi meu objeto de análise, o equi líbrio
pelo equilíbrio local d as for ças, c freqüentemente e ncontrava a s ua Oportu­ patrícios/plebeus.
nidade e o seu roteiro nas divisõe~ faccionárias no interior dos grupos domi­ Um compo nente desse equilíbrio, as antigas farsa~ de pate rn a lismo e de­
n ante ~ ou em qu es tões lançadas no di sc urso político nacional. E m Whigs and ferência, c~lava perde ndo força me smo an tes da Revo lução F ra ncesa , embora
c/fies, N icholas Rogers discute convincentemente essa questão . Ele suspeita e"rerimcntas~e um renasc imento temporário nas turbas da "Igreja e Rei" dos
pri meiJO~ an o~ da década de 1790, no apar ato militar e no a nligalicanismo das
(talveL injustamente) que eu empregue procedime ntos analíti cos "essencialis­
tus· '. Se for assim . Rogers es tá ce rto e eu errado, pois Ij CU domínio do material é guerras. O,~ m otin s G ordon tinham testemunhado o clímax e também a apoteose
magnífico e suas descobertas são fun dam e ntadas por anos de pesquis a e análise da desorde m plebé ia , além de terem intligido aos governantes um trau ma que
da m ultidão urbana . 11" Na perspectiva de Rogers, deve-se ver a maioria da~ ações foi regi~ t rad o num tom cada vcz mais disciplinar na década de 1780. M as a es­
~ a altur'l a relaç ão recíproca e ntre a genfry e os plebeus , inclinando- se ora para
da multidão urbana ocorrendo num "terreno emque se cruzam a ideologia , a cul­
tura e o pode r" . N o início do século XV!II , os próprios govern ante s, por razões um lado. ora para o outro, tinha durado um séc ulo. Por mais gritantemente de­
que lhes di ziam respeito, abriram e sse espaço para a multidão, dando-lhe um pa­ l'igual que fo",s e essa relação, ainda assim a l:]cntry precisava de algum apoio dos
pe I dependente e subalterno. O cl ero da Igrej a Superior A ngli ca na e os par­ '·pobres". e os pohres sentiam que eram neces sários. D urante cem anos, eles não
tid ari sta!'> cívicos a mpliaram es se espaço. O calendário de an ive rsários e foram tolalme nte os perdedores . Conserv aram a s ua cultura tradi c ional, con­
celebrações políticas - procissões, iluminações, ele içôes, queima de efígies, seguira m uma su spe nsão parcia l da d isciplina de trabalho do indu striali smo in ­
efe rvescê ncia carnavalesca - , tudo conferia papéis à multidão e recrutava s ua cipiente. alargaram talvez o alcance das leis de assistência aos pobres, impu seram
participação. Dessa forma, nas quatro décadas depois de 1680, "amplas seções caridades que pode m ter impedido que anos de escassez chegasse m a crises de
da popul aça trabalhadora " eram at raíd a s par a o discurso políti co nacion a l: sll b s i ~tê ncia . e desfrutavam a liberdade de ava nçarem pelas ruas atrope lando os
outro~, abri ndo a boca e dando vivas, demolindo as casas de padeiros ou di ssi­
''Ano ,> de aguda luta partidári a, num Contex to social que con cedia maior espaço
c ultural ao povo comum, tinham criad o uma cultura política con t.;' nciosa e dentes odiosos, al ém de mani fe starem uma di ~-p osiçã o sed icio sa e des­
dinâmica, centrada e m tomo dos ani ve rsários reai s e nac ionai s , no s qu ai.~ a con trol ada, que espantava os visitantes estra ngeiros e que quase os levou a
própria populaça partic ipava vigorosame n te". Foi ape nas so b essa tute la que a acredil;u', erro neamente, que eram " livres" . A década de 1790 acabou com essa
multidão apre nde u a afi rmar a Sua autonom ia e, de vez e tn qu ando. a o;e lecionar ilusiin. e na cstc i ra das experiênci a~ daqueles ano ~ a re lação de reciprocidade :-e
seus objetivos . A mul ti dào pas sou e ntão a ser um fe llôme no q ue " tinh a de ser rompeu No me), mo mome nto c m que se ro m peu, a g elltJ~\, perde u sua hege mo­
c ul ti vado. nutriJ o e co ntido", para que não saísse de seu papel s uba lterno."" nia t.:u ltural aul0confi ante . De repente, o mundo já não parec ia a tinai lim it ado
A ceito e aplaudo a abo rdagem do pro fessor Rogers e o modu COll!o e le a elllltldos os ponlos pe las s uas regras , nem vigiado pe lo "e u poder. Um homem
emprega nos , e u, e~t u dos urba nos. É prefe rível à simpl c~ red ução a um a poli.lri­ era um ho mem . " apesar de tudo" . Saímos do campo de força do século XVIII, c
e lll r'lln\)~ num períod o e m que há uma reordenação es trutural das relações de
tlatk patríc ios-pl ebe u." e - e m bora conceda à multidão l11t!nos auto no mia do
qUI: desc ubro (porexe rn plo, nas ações contra m ilícias e destacamen to s. nas agi­
ela~),e e da ideo logia. Pe la prime iru VI!Z , é pos sível analisa r o processo hi stórico
elllll'rm os das notações de c1 assc do século XIX.
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