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1.

Sapateiros Politizados *
En1 co-autoria com 10an W. Scott

Ele se ap rofundara no Arminianismo e na política mais do que qualquer um


de seus colegas. O Methodist Magazine e o Weekly Dispatch lhe eram sema­
nalme n te envia dos por seu irmão. Sempre teve muito serviço de s8pateiro., e
era m ai~ independente do que os lavradores ou camponeses. Costumava fazer
observações irreverentes sobre os proprie tários de terras e sobre a Câmar:l
dos Lordes, a Câmara dos Comuns, a nova lei dos pobres, bispos, párocos,
leis do cereal , a igreja e a legislação d e cJasse.l

t muito curioso que para cada tipo de ofício surja, nos artífices que o r:;..:.:r­
cem, um caráter específico, um temperamento especial. O açougu eiro geral­
mente é sério e cônscio de sua própria importância, o pintor de paredes é
descu id ad o e devasso, o alfaiate é sensual. o quitandeiro , curto de inteligên­
cia, o porteiro , curioso e tagarela, o sapatei ro e o remendão, finalmente , são
alegres, por vezes até mesmo animados, sempre com uma canção nos lá­
bios ( ... ). Apesar da simplicidade de suas preferências, os que fazem ou
Conserta m sapatos novos e velhos sempre se distinguem pelo espírito irreq uie­
to, por veze s agressi vo, e por uma enorme tendência à loquacidade. Ocorre
Ulua revolt a? Surge da multidão um orador? :t: sem dúv id a um s3pateiro
que veio proferir um discurso ao povo. 2

o radicalismo polít ico dos sapateiros do sécu lo XIX é conhe­


cido. Historiadores do trabalho de con vicções ideológicas diver­
Sas descreveram o fe nômeno e assumiram que ele não precisava
de explicação. Um historiador da revolução alemã de 1848, por
exelll plo . concluiu que não foi " por acaso " que os sapatei ros "de­
~~ Pt!~haram um papel p redominante nas atividades do povo" .
lstonadores das revoltas Swing na Inglaterra fizeram referênc ia
80 "notório radicalismo" dos sapateiros. e Jacq ues Ro ugerie expli­

y GOStaríamos de agradecer a W illiam Sewell Tr., E. P. Thompson e Alfred


Oung pOr seus come ntários valiosos.

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cava o destaque dos sapateiros na Comuna de Paris referindo-se a bem cedo tanto na França quanto na Suíça. para não mencionar
sua "tradicional militância". Mesmo um escritor tão heterodoxo a Inglaterra, onde o sindicato lond rino, fundado em 1792, já teria
quanto Theodore Zeldin aceita a opinião geral sobre este ponto.3 pOrte nacional em 1804. Os sapateiros e os carpinteiros foram os
O presente ensaio tenta explicar a notável reputação dos sapateiros primeiros integrantes da Federação de Trab alhadores da Região
como radicais políticos. Argentina (1890), que constituiu a primeira tentativa de formação
Afirmar que os sapateiros ou os integrantes de qualquer outro de um sindicato nacional naquele pa ís_ E les ocasi onalmente entra­
ofício têm uma reputação ligada ao radicalismo pode, naturalmente vam em greve em grande escal a e estavam entre os ofícios mais
ter um ou mai s de um dentre três significados: uma reputaçã~ propensos à greve na França du rante a Monarquia de Julho. Tam­
ligada à ação militante em movimentos de protesto social, confinada bém sobressaíam nas multidões revolucionárias. Seu papel como
ou não ao ofício pertinente ; uma reputação ligada aos movimentos ativistas políticos pod e ser amplamente documentado. Dos inte­
políticos de esquerda, seja por simpatia, associação ou participação gran tes ativos do movimento cartista cujas ocupações são conhe­
ativa neles; e uma reputação como o que se poderia chamar de cidas, os sapateiros formam o maior grupo singul ar após os tece­
ideólogos do povo. Embora estes significados possam facilmente lões e os " trabalhadores" de ocupação não-especializada: mais do
ser associados , eles não são iguais. Os aprendizes e os artífices dobro do número de trabalhadores na construção civil e mais de
remunerados solteiros nos ofícios tradicionais organizados podiam 10 por cento de todos os militantes de ocupação con hecida. Na
ser mobilizados com facilidade, sem qualquer ligação necessária Tomada da Bastilha, ou pelo menos em meio aos detidos por esta
com o que na época fosse considerado radicalismo político. Os razão, a representação dos sapateiros , em número de 28 , somente
professores universitários franceses, pelo menos desde o período de foi superada pelos marceneiros e serralheiros - e nas revoltas do
Dreyfus, tiveram uma reputação de posicionamento mais à esquerda Campo de Marte e em agosto de 1792 sua representação não foi
do que a de seus alunos. Isto não implicou necessariamente, embo­ superada pela de nenhum outro ofício.4 Entre os detidos em Paris
ra também não excluísse, uma ação coletiva militante. Os tosquia­ por se oporem ao coup d 'état de 185 1, os sapateiros eram o con­
dores de carneiros da Austrália, apesar de com freqüência serem tingen te mais numeroso .5 Os trabalhadores que se envolveram na
militantes e associados à esquerda, não são ger8lTl:'.ente conside­ Comun a de Pari s de 1871 que foram atingidos com a maior porcen­
rados como grandes interessados em ideologia, '; enqu anto os pro­ tagem de deportações após a derrota foram, como Jacques Rougerie
fessores de aldeia geralmente o são. observa , " naturalmente, como sempre, os sapateiros".6 Quando
Os sapateiros, como ofício, tinham, no século XIX , uma repu­ ec.Jodiu a rebelião na cidade alemã de Constança em abril de 1848,
tação de radicalismo em todos os três sentidos. Eles eram militan­ os sapa teiros constituíam de longe o maior grupo homogêneo de
tes tanto nos assuntos que diziam respeito a seu ofício quanto em rebel des, quase equivalendo ao totai da soma dos alfaiates e mar­
movimentos mais amplos de protesto social . Embora os sindicatoS ceneiros, os dois ofícios mais rebeldes que se seguiam.; Do outro
de sapateiros se limitassem a determinadas seções e localidades den­ lado do mundo , o pri meiro anarq uista jamais registrado numa cida­
tro de um universo muito extenso, e embora fossem eficazes somen­ de provi nciana no Estado do Rio G rande do Sul , no Brasil. foi um
te de forma intermitente , já se organizavam em escala nacional sapateiro italiano , em t89 7, enquanto o único sindicato que se têm
notícias de ter participado do p rimeiro Congresso dos T rabalhadores
de Curitiba (Brasil), de inspiração anarquista, foi a Associação dos
• O fal ecido [an Turner d a Australian National Uni ve rsity, Camberr .
a Sa pateiros .~
citou o caso de um grande número destes homens, detidos após a RevoluçãO Unicamente a militância e o ativismo de esquerda, entretanto,
de Outubro por re aliza re m uma assembléia em apoio à insurreição e aOS não distinguem os sapateiros como grupo de alguns out ros artífices,
n1
sovietes. Uma cuidadosa busca de literatura subversi va não descobriu nenhu
tipo de material imp resso, exceto um folheto que alguns levavam em seus qUe foram em determinadas épocas pelo menos igualmente desta­
bolsos. Dizia : "Se a água estraga suas botas. o qu e não fará com s.:1I Cados sob este aspecto. Entre as vítimas da revolução de março de
estômago?" 1848 em Berlim, os marceneiros representavam o dobro do número

150 151

(1 maior grupo - três - numa amostragem de dezenove "poetas­


de sapateiros. e os alfaiates eram nitidamente mais numerosos d
trabolhadores" franceses do período anterior a 1850, todos de opi­
que estes. embora os ofícios fossem comparáveis em tamanho:'
niãO radical: 11I Sylvain Lapointe de Yonne, que se candi datou à
Durante a Monarquia de Julho . os carpinteiros c os alraiaLes fora m
e\t:ição de 1848; Hippolyte Tampueci, editor do Le Grapilleur; e
tão "propensos à greve" quanto os sapateiro5 . As multidões re vQ..
Gom:alle de Rheims. editor do Le Rép/lblicain .l i Seria fácil alongar
lucionárias francesas tinham proporcionalmente mais gráficos, mar.
a lista - ocorre-nos o nome de Faustin Bonncfoi. editor do jornal
ceneiros, serralheiros e operários de construção civil do que havi a
fourierista na Marselha do período de Lu ís Felipe,lS de " Efrahem" .
na população parisiense. Se o maior grupo dentre os 43 anarquistas
o JUtodidata que escrevia panfletos promovendo " uma associação
presos em Lyon em 1892 era constituído de onze sapateiros, o grup
de operários da construção civil não ficava muito atrás. JO Os de trabalhadores de todos os corps d'éta t".lfI e do cidadão V iIly,
alIaiates são associados aos sapateiros como ativistas típicos na um fabricante de botas que discu rsou no p ri meiro Banquete Comu­
revolução de 1848 na Alemanha. e mesmo que os dois se sobressaís· nista em 1840 e que havia publicado um panfleto sobre a abolição
sem entre os artífices ambulantes alemães, que fonnavam o maior da pobreza 20

grupo dentro da Liga Comunista ("0 clube dos trabalhadores é Naturalmente. ninguém iria alegar que todos , ou mesmo a

pequeno e consiste apenas em sapateiros e alfaiates". escrevia Wey­ maioria, entre os sapateiros ativistas fosse m artesãos intelectuais .

demeyer para Marx em 1850) .1I parece claro que os alfaiates eram Na realidade, temos exemplos de sapateiros militantes que nitida­

mais importantes. Na verdade. o número aparentemente grande de mente não eram grandes leitores, pelo menos em seu tem po de
ativistas sapateiros pode por vezes apenas refletir o tamanho de seu ativistas. como George Hewes, o último sobrevivente do Boston
offcio que. na Alemanha e na Grã-Bretanha. consistia no maior Tea Party:~1 Embora. como um todo, os sapateiros pareçam ter sido
grupo ocupacional de artffices.l~ As ações coletivas do grupo, mais alfabetizados do que a média. lima percentagem razoável de
portanto, não explicam a reputação radical dos sapateiros. maus leitores não seria de estranha r num ofício tão numeroso e
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Não existe muita dúvida , entretanto, de que. enquanto intelec­ contendo tantos homens notoriamente pobres. O sapateiro menos
tuais-operários e ide610gos, os sapateiros eram excepcionais. Mais letrado pode até se ter tornado mais comum à medida que o ofício
uma vez, obviamente não eram únicos. embora. como veremos. se expandiu e se diluiu durante o século XIX . E, no entanto, a
nas aldeias rurais e nas pequenas cidades mercantis eles sofressem existellcia extraordinária, talvez Í1nica. de um grande número de
menor concorrência de outros artifices estabelecidos. Naturalmente , imeleclua is sapateiros não pode ser negada, mesmo se pudermos
seu papel como porta-vozes e organizadores do povo do campo na Supor que estas pessoas atrairiam atenção especial para si mesmas
Inglaterra do século XIX fica aparente a partir de qualquer estud em uma sociedade cuja maioria não era letrad a. Quando a ideologi a
das revoltas Swing de 1830, ou do radicalismo político rural. Hobs­ assumiu uma forma basicamente religiosa, eles examinaram as
bawm e Rudé relatam que em 1830 o distrito rebeldt.- médio possuía Escrituras, chegando por vezes a conclusões não-ortodoxas : foram
sapateiros em número de duas a quatro vezes superior ao do di5­ eles que trouxeram o calvinismo para a região de Cévennes,:!3 que
trito tranqüilo médio. l !! O sapateiro local, citando Cobbett - loh,l profetizaram. pregaram (e escreveram) o messianismo, o misticismo
Adams em Kent. William Winkworth em Hampshire - , é um3 e n heresia.1 • No perfodo secular. a maioria dos conspiradores de
Calll Streel (em gramle parte comunistas seguidores de Spence) era
figura familiar. 14 Era notório o caráter "político explosivo" dt?!is
ofício. No centro sapateiro de Northampton, os dias de ele jqãO de sapateiros , e era famosa sua atração pe lo anarquismo . O Le Pere
eram festejados como" feriados tradicionais", da mesma forma que ~eíllard, dI.! t.mile pouget, trazia simbolicamente em sua capa a
as corridas de cavalos da primavera e do outonoY' Conludo .. é Ill1agem de um sapatei ro em sua oficina.~o Tanto quanto temos
extraordinária a conexão entre a política e a eloquência. Quem dI Conhecimen to , existe. de maneira mais geral, pelo menos em in glês,­
sapateiro. com freqüência surpreendente está dizendo jornalista e Um volume substancial de literatura sobre a biografia coletiva do
versejador, pregador e conferencista. escritor e editor. Esta imprc~­ sapateu'o. nO século XIX. tal como nenhum outro ofício apresen­
c ll1 ta ~q >\ grande maioria dos homens que inspiraram estas biografias
são não é fácil de ser quantificada. embOta os sapateiros forr11
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é elogiada por suas realizações no plano intel ectual. Seu sucesso ;111P ressionou mais de um obser vador , e não pôde ser imediatamen­
nes te campo pode explicar o surgime nto destes compêndios na er te explicado. Tanto W. E. W inks q uanto as Crispin Anecdotes
- .
da au to-rea liz.a çao a adm itiam sua perplexidade fre nte a este fato, embo ra concordas­
~ possível até mesmo argumentar que provérbios, tais como se!11 "que maior número de homens de pensamen to pudesse ser
Shoemaker st ick to your last (Sapateiro, não se meta onde não for encontrado entre os sapateiros, como corporação , do que na maio­
chamado), encontrados em muitos países desde a Antigüidade até a ri a das outras profissões " .33 Em sua autobi ografia, o sapateiro
Revolução I ndus trial, indiquem exatamente esta tendência dos sapa­ radlcal lohn Brown comen tou que: "As pessoas que gozam das
tei ros a expressar opiniões sobre assu ntos que deveriam ser dis­ vantagens de uma educação intelectual m ais refinada dificilmente
cutidos pelos reconhecidamente eruditos - " Q ue o sapateiro cuide ima gi na riam o volume de conhecimento e de cultura livresca que
do seu ofíci o e que os eruditos escrevam os livros"; "Sapateiros que pode ser encontrado entre os membros de meu venerável oficio " .34
pregam sermões fazem maus sapatos", e assim por diante. Sem Na F rança, dizia-se que os sapateiros eram "pensadores ( ... ) (eles)
d úvida provérbios semelhantes são decidida mente menos freqüen­ pensam sobre o que viram ou ouviram ( . . . ) eles se aprofundam
tes com relação a outros ofícios .27 mais do que a maioria nos assuntos que dizem respeito aos traba­
Mesmo se ignorarmos estas provas ' indiretas, o número de lhadores" .3" Na Inglaterra, uma trova do século XVI [I registra­
sapa teiros intelectuais é impressionante. Eles não eram necessaria­ va que:
mente radicais, embora seus panegiristas dos séculos XVIII e XIX
preferissem acentuar suas realizações nos campos que impressionas­ A cobbler once ia days of yore

sem os leitores de nível social superior - , a instrução, a literatura Sat musing at his cottage doar.

e a religião - , mas sem omitir sua reputação como políticos po­ He liked to read old books, he said,

pulares . Contudo, os historiadores não deixarão de observar que a And then to ponder, what he'd read. 3 6'.<

'-
reli gião na qual os sa pateiros sobressaíam " quando não associados
ao anticlericalis mo e ao ateísmo,28 era com ~n~qüência heterodoxa e Na Rússia, um personagem de uma obra de Máximo Gorki é
radical para os critérios da época . Lembramo-nos de J akob Boehme. descrito como "parecido a tantos outros sapateiros, fac il mente fas­
o místico , perseguido peja igrej a luterana . de sua cidade, e de cinado por um livro" .37
G eorge Fo x, o quacre. Pode também ser observ ada a combinação A reputação do sapateiro como filósofo e político popular é
de radicalismo com ativid ades li te rárias, como no caso de Thomas anterior à época do capitalismo industrial e se estende bastante
H olcroft, o dramatu rgo e jacobino inglês que havi a sido sapateiro, além dos países típicos da economia capitalista. N a verdade tem-se
ou de Friedrich San de r , o fu ndador do Sind icato dos Trabalhadores a impressão de que os sapateiros radica is do século X IX estavam
de Viena em 1848, q ue também escrevia poemas,29 e do anarquista Cumprindo um papel de há muito associado aos memb ros de seu
Jean Grave, sapateiro que tornou-se gráfico e editor de revistas ofíc io. Os santos padroeiros do ofício, Crispim e Crispi niano, foram
com tendência nitidamen te artís tico-! i terá ria. 3il martirizados porque pregavam a hete rodoxia a seus fre gueses na
Não podemos o bviamente a tTi buir aos sapa teiros um monopó­ oficina em Soissons - trata-se do cristianismo no te mpo do impe­
lio das ativid ades intelectuais plebéia s. Samuel SmiLes, o eterno I'ador pagão D iocleciano .3s No A to I de Julius Caesar, de Sh akes­
apóstolo do espírito de iniciativa , n um ensaio so bre " Astrônomos pea te, um sapateiro li dera um grupo que protesta pelas r uas. E m
e Estudantes n a Vida Humilde: Um Novo Capítulo na ' Busca do Shoemaker's Holiday, de Dekker, um exercício elisabetano de re la­
Conhecimento sob Condições Difíceis ' ", ta mbém relaciona exeOl' ÇÕes públícas em nome do " nobre ofício " , de Londres , os artifices
pios de outros ofícios >l! Entretan to , o fato de q ue, "no interi o.r ,
é muito cor riquei ro que a função de auxiliar ad ministrativO se!,~
• Um rem endão nos dias de outrora I sentado pensando à porta de sua
exercida por um sapateiro" sugere um grau incomum de preparo."­ cabana I dizia qu e gostava de ler livros antigos I e então meditar sob re o
De qualquer modo , o intelectualismo dos sapateiros comO gruPO qUe havia lido .

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e~ ígências de sua associação pré-sindical: " Como pode ser ...
demonstram-se caracteristicamente milita ntes : ameaçam abandonar que vocês sejam os prime iros em todos os movimentos ? . . . Sempre
seu patrão se este não der emprego a um artífice itinerante. Quase que há uma conspiração ou movimento político;- eu sempre encontro
contemporânea a estas alusões dramáticas, encontramos a seguinte um de vocês envolvido".42 E. P. T hompson cita a descrição de um
referência ao sapateiro Robert Hyde e a uma certa seção de Shel"_ "Pol ítico de Aldeia", feita em 1849 por um satirista de Yorkshire:
borne:
Ele é, em geral, um sapateiro, um velho e o sábio de sua
aldeia industrial: "Ele tem uma biblioteca da qu al se orgulha
E ele acrescenta que pouco antes do Natal um cel'lo
bastante. f: uma coleção estranha . . , Possui Pearl of Great
Robert Hyde, sa pateiro de Sherborne. ao ver este depoente
price e Cobbett's Twopenn y Trash .. . The W rongs of Labour
passar por sua casa. chamou-o e pediu para ter uma conve" sa
e The Rights of Man, The History of the French Revolution e
com ele e, após algumas pala vras , iniciou um discurso. SI'.
Roly War, de Bunyan ... Seu velho coração se aquece, como
Scarlet, O senhor pregou pa ra nós que exi ste um deus, um
um litro de cerveja quente, quando ele ouve falar de uma
céu, um inferno e uma ressurrei ção após esta vida, e que
revolução bem-sucedida - um trono derrubado, reis pelos
nós teremos de prestar contas de nossas obras, e que a alma
ares, e príncipes espalhados aos sete ventos ... " 43.
é imortal; mas agora há um grupo de pessoas nesta cidade e
eles dizem que o inferno não é scnão a pobreza e a penúria
E mais , os ingleses acreditavam que os sapateiros franceses
neste mundo; e que o paraíso não é senão ser rico, e gozar os
apresentavam os mesmos traços. Mais de um relato da Revolução
prazeres; e que nós morremos como animais, e que depois
Francesa descreveu "sapateiros ( . . .) perorando sob as cúpulas
que nos formos não há mais lembrança de nós , etc ., e assim
por diante. Mas este inquiridor nem perguntou quem eles esplêndidas dos Capetos e dos Valo is" e depois encabeçando as
eram; nem deu quaisquer informações sobre si mesmo. E ele multidões para torturar e assassinar o rei. 44 Na França como na
acrescentou que é de conhecimento geral de quase todos em Inglaterra, o sapateiro era conhecido por seu amor à liberdade e
Sherborne que o mencionado Allen e seu empregado jtí. citu. seu papel como político de aldeia. Os sapateiros eram admirados
do são ateus. E ele também diz que há seção de sapateiros pela " i.ndependência de suas opiniões". "A liberdade do povo", dis'"
em Sherborne considerada ateísta.3 9 se um escritor, "é expressa através de suas at itudes ".4~ A revolta
dos Maillotins , em 1380, teria sido detonada por um sapateiro, cujo
discurso apaixonado inflamou a multidão .4 fl E a queda de Con­
o sapateiro, sob a forma do que o poeta Gray chamou de cini, o estadista italiano , em 1617 , teria sido assegurada por um
"Hampden de aldeia", é celebrado numa gravura de Timothy Ben­
certo Pícard, sapateiro e orador popular, que insultou o almirante
nett (falecido em 1756) de Hampton -Wíck, Middlesex. Ele desa­
em vida e o profanou após a morte, ao assar e comer seu coração. 47
fiou a decisão real de fechamen to de um a passagem pública através
A an tropofagia não é uma característica normalmente associada aos
de Bushy Park. ameaçando instau rar um processo - e teve sucesso.
sapateiros, em oposição à preferência por bebidas fortes, mas a
A grav ura o represen ta com " aspecto fi rme e complacente, sentado,
reputação de radicalismo dos sapateiros foi merecida, e não limi­
em posição de conversa com (. . .) (Lord Halifax) " (o encarre­
tada à França.
gado do parque real), simbolizan do um a confrontação democráti­
ca com o privilégio, e a vi tória sob re ele.4f1 Uma outra fonte des­
creve o sapateiro caminha ndo "de uma aldeia pa ra outra com suas II
ferramentas na cesta às costas. Ao consegui r um serviço, ele se
instalaria no degrau da porta. e duran te o trabal ho ele e se u fre­ Até que ponto o sapateiro era, enquanto filósofo e político,
guês entoariam uma canção, ou fal ariam de política" .41 A noto­ Utn produ to de seu ofício? Parece haver dois aspectos nesta per­
riedade dos sapa teiros como líderes levou sir Robert Peel a pergun­ gunta, um ligado à instr ução, o outro ligado à independência.
tar fi al guns sapateiros que a ele tinham recorrido para reforçar as
lj7
156
1:: difícil explicar a questão da instrução e da notória prefe_ Ces. contudo, viria a ampliar os hori zontes tanto dos mestres qua nto
rência dos sapatei ros por li vros e pela leitura, visto que não há dos aprendizes , e os artífi ces assalariados faziam viagen s famosas
nada na natureza do ofício que possa sugerir qualquer ligação e prolongadas. Um sapateiro ru ral da Suábia desc reve a impressão
ocupacional com a palavra impressa - como entre os tipógrafos qu e os artífices assalariados lhe ca usaram quando a prend iz: " Entre
As suposições ex tremas de que sua habilidade com o Couro o~ oS artífices assalariados havia muitos inteligentes e bem-viajados. E
levasse a ser chamados para encadernar ou conservar livros, e de assim eu ouvi e aprendi muito" . E ele. por sua vez , trab alhou em
que ocasion almente suas bancas fossem adjacentes às dos vende_ dezessete estabelecimentos em qu inze locais diferen tes d urante o
dores de livros, parecem não ter base em nenhuma comprovação período entre o final de sua aprendizagem e seu estabelecimento
real.4.8 E mais , pelo que pudemos observar, não existe nada nos como pequeno mestre e ativista social-democrata. 6 2 Se, como era o
costumes e tradições dos artífices do ofício que acentue ou mesmo casO em Iena, os artífices permanecessem somente seis meses em
que implique um interesse especial pela leitura; e embora Hans média numa oficina, o aprendiz típico, no decorrer de três anos ,
Sachs, de Nuremberg, fosse o mais famoso dos Meistersinger, COmo teria contato próximo com tal vez quinze homens viajados, e o artí­
sabem todos os amantes da ópera, não há nenhuma evidência de fi ce itinerante típico com muitos mais.
que os sapateiros estivessem desproporcionalmente representados Os artífices se encontrariam não só nas oficinas, mas na
entre estes artiiices poéticos. O laço entre os sapateiros e os livros estrada e nas estalagens que funcionavam como houses 01 call, "
não podia ter sido estabelecido antes da invenção e da populari­ onde empregos e assistência, solicitados e recebidos de forma alta­
zação da imprensa, visto que até então os pobres praticamente não mente ritualizada,53 podiam ser encontrados . Não faltava ocasião
tinham acesso direto à palavra escrita. O caráter geral dos costu­ para discutir os problemas do ofício, as notícias do dia, e para a
mes dos artífices sapateiros sugere que estes costumes já se encon­ difusão de informação em geral. Em cidades maiores, os sapateiros ,
trava m formados nesta época .40 Naturalmente, pode argumentar-se como a maioria dos outros homens de ofício, podiam viver e traba­
que, com a disponibilidade de livros, estes obviamente viriam a lhar em ruas ou carreiras de casas exclusivamente de sapateiros.
atrair uma pro fissão cujos membros se inclinavam à especulação Nos centros de sapataria para os mercados, urbanos ou rurais , não
e à discus são. Contudo, a questão permanece em aberto. havia falta de companheiros de ofício . Como o serviço ocupava
Pode ser que a divisão de trabalho rel ativamente primitiva na pouco espaço, muitos dos que execu tavam serviços para terceiros
confecção de calçados tenha perm iti do ou impelido grandes con­ e os mestres autônomos podiam dividir uma oficina entre si .
tingentes de sapatei ros a trabalhar em completo isolamento. May­ Mesmo o sapateiro mais isolado teria provavelmente sido sociali­
hew sem dúvida conjecturou que era "o isolamento de seu traba­ zado na cultura do "nobre ofício " em alguma época de sua vida.
l ho, desenvolvendo seus recursos interiores" , que explicava o fato
Aquela "cultura de sapa tei ro ", que Pe ter Burke recentemen te
de eles constituírem " uma raça austera , int ransigente e pondera­
descreveu como mais for te do que a cultura de qualquer outro
da" .i'i (/ Os sapateiros itinera ntes eram, obviamen te, trabalhadores
ofício com exceção dos tecelões,IH era extraordinariamen te acentua­
isolados. Mas, mesmo em sua ofic ina , era típico o sapateiro solitá­
da e persistente . Na Escócia , por exem plo, seu santo padroeiro so­
rio. N a Alemanha, em 1882, dois terços deles não empregavam
breviveu à reforma calvinis ta sob a forma de King Críspin, e na
nenhum tipo de aux.ili ar.
Inglaterra o Dia de São Crispim era celeb rado como um feri ado
Entretanto, mesmo o sapateiro só não estava isolado cultural­ dos sapateiros, freq üen temente com procissões dos membros do
men te. Ele podia ser treinado em um pequeno estabelecimento. O oficio , até bem tarde no século XIX, ou foi revitalizada pelos artí­
mestre, uns poucos artífices assalariados. e um ou dois aprendize:, fices com objetivos polflicos, como em Norwich em 1813. i~o final
bem como a esposa do mest re, parecem ter constituído o estabeleCI­
men to típico ideal do ofício. Nas regiões mais tradicionais d~
Alem anha do século XIX hav ia em média somente 2 ,4 ou 2,6 artl­ • Lo~ ais onde trabalhadores fazem ponto e podem obter notíci as de seus
fices assalari ados por aprendiz .5 1 A rápida rotatividade dos artífi- COmpanheiros. (N. das T.)

158 159
do séc ulo ainda era uma tradição viva e lembrada em áreas esttil ' ap6 s um aci dente que o mutilou e O excluiu de seu ofício origina l
, • 60
mente rurais . O declíni o prematuro das guildas e corporações Org éI­ corno mestre de estaleiro; de John Lobb , fun dador de uma fi rma
nizadas na Inglaterra torna ma is impressionante esta permanêflCla .~~ farnosa em St. James 's que aind a existe. oi e qüase co m certeza de
Contudo, nada nas tradições formais ou informais do oríci um grande número de outros. Em Loitz, na Pomerân ia , " quase as
parece ligar os sapateiros especificamente ao intelectualismo o o únicas pessoas que se dedicam a este ofício são aleijadas, ou inade­
mesmo ao radica lismo . Essas tradições enfaLizavam o orgulho 'Pel~ quadas ao trabalho agrícola ou indu strial" . D aí a tendência dos
o fíc io, em grande parte baseado em sua indispensabilidadt! para Os sapaleiros de aldeia, impossibilitados de manter-se com os ganhos
ricos e pobres, jovens e velhos. Este é O tema mais com um das de se u ofício, a assumÍl' (como na cidade de Heide, Schlesw ig)
canções dos sapateiros-artífices. r;,; Elas acentuavam a independên_ empregos secundários como vigias-noturnos, zeladores de escolas,
cia, especialmente a independência do artífice assa lariado, confor_ mensagei ros, garçons, arautos da cidade, assisten tes do pastor, ou
me pode ser comprovado pelo con trole por parte do sapa teiro sobre auxili ares de carteiro e varredores de rua. 62 A regulamentação para
seu tempo de trab alho e de lazer - sua possibilidade de desfrutar o recrutamento naval norte-americano em 181 3 insistia no recru­
o Saint Monday* e outros feriados como lhe aprouvesse!i7 Como o tamento " somente de homens fortes, saudáveis e capazes. Os ho­
lazer social e a beb ida eram inseparáveis , as canções também res­ mens de terra podem ser inscritos como marujos comuns (... ) mas
saltavam a bebida, uma atividade pela qual os sapateiros se cele­ sob nenhum pretexto podem ser aceitos alfaiates, sapateiros ou
brizaram, e aquele outro subproduto da cultura de bar: resolver as negros (sie), pois estes, devido a suas ocupações costumeiras , rara­
disputas na briga. "Procure a melhor cerveja onde bebam os car­ mente possuem força física" .68
roceiros e os sapateiros " , diz um provérbio polonês. A fa rsa de A quantidade de sapateiros e alfaiates deformados (" recurva­
Johann Nestroy, L umpazivagabundus (1836), que acompan ha as dos . corcundas, mancos") nos cortejos profissionais destes ofícios
peripécias de três artífices típicos ideais, apresenta seu sapateiro na Itá lia foi observada por Ramazzini. 64 Ao contrário dos alfaiates,
tanto como astrônomo a mador (cujo interesse por cometas pode ler entret an to, os sapateiros não eram notoriamente associados à fragi­
sido inspirado pela leit ura de almanaques), quanto como um bêbado lidade física, uma observação que pode ser corroborada pelas esta­
escanda loso e brigão. Mas cstas associações não têm caráter parli­ tísticas do século XIX sobre a mortalidade britânica segundo a
cularmente intelectual . ocu pação. 65 Por outro lado , o sapateiro manco aparece registrado
Talvez a explicação mais plausível do intelectualismo do ofício já pelo dramaturgo latino Plauto. Talvez fosse pertinente a este
derive do fato de o serviço de sa pateiro ser sedentário e pouco tema a ' freqüência de ocorrência de sapateiros rurais que combina­
xigente do ponto de vista físico. Talvez fosse o trabalho masculino vam seu ofício com atividades agrícolas. No wtanto, o ofício era,
que, no campo, menos sob recarregasse fisicamente . Conseqüente­ pelo menos até certo ponto , escolhido por rapazes incapazes de
mente, ra pazes pequenos, fracos ou com alguma deficiência fís k a competir com outros trabalhado res agrícolas de sua idade nas ativi­
eram habitualmen te destinados a este ofício, Foi este o caso de dades fís icas con vencionalmente valorizadas . Este fato pode ter
Jakob Boehme, o mís tico; õB de Robert Bloomfield, autor de The fo rnecido um incentivo para a aquisição de outros tipos de prestí­
Parmer's Boy;69 de W illíam GifIord, mais tarde editor do Quarferly gio . E neste ponto a natu reza semi-rotineira de gra nde parte de seu
Review , que foi " posto a trabalhar com o arado" , mas "logo desco­ trabalho , que podia facilmente· ser associada ao pensamento, à
briu-se que era fraco demais para trabalho tão pesado"; de Toh n Observação e à conversa, pode ter sugerido alternativas intelectuais .
Pounds, pioneiro d as Ragged Sehools, *'" que se tomou sapateiro Os sapateiros, ao tra balharem em conjunto em oficinas maiores,
estavam entre os ofícios (os alfa iates e os charute iros são outros
exemp los ) que desenvolveram a instituição do "leitor" - um deles,
em rod ízio, li a jornais ou livros em voz alta, ou um velho sold ado
• O costume de não trabalhar nas segundas·feiras. (N. da R.)
.. instituições para instrução, abrigo f.' auxílio aos pobres e aos 6rl'íio~ alr"' eta co ntratado para ler, ou o garoto mais jovem, que tinha a obri­
vés da caridade pública . (N. das T.) gação de ir buscar o jornal, o lia (G eorge Bloomfield, um sapateiro

160 16 1
e poeta menor, sugeriu , não sem razão, que este era o ponto no sapateiros, elas seriam aceitas ~om maior facilidade como uma ver­
qual "aqueles que dizem que 'Os sapateiros são político~' poderiam são de comp ortamento compattvel com as normas do grupo.
encontrar a solução para seu espanto".)66 Nas cidades existiam A independência do sapateiro estava nitidamente ligada às
outras ocupações tranqüilas e pouco exigentes, mas /l as aldeias é condições materiais de seu ofício , e dela originou-se sua capacidade
difícil pensar em ou tras - sem dúvi da nem os ferreiros nem Os de LOmar-se um político de aldeia. Além disso, a condição social
rabricantes de rodas. 67
hu milde do ofício e a pobreza relativa de seus in tegrantes , pelo
O trabalho d o sapateiro, porta nto, perm itia o pensamento e a menoS no século X IX , ajudam a explicar seu radicalismo .
discussão durante sua execução; seu freqüente isolamento durante As duas características est ão entrelaçadas . O ofício baseava-se
as horas de trabalho faziam-no recorrer a seus próprios recursos essencia lmente no couro , cuja preparação (esfolar , limpar, curtir ,
in telectuais; ele era recrutado seletivamente dentre rapazes como etc.) é barulhenta e suja , e portanto com freqüência restrito a pes­
um incentivo provável a compensar suas deficiências físicas; o trei­ soas de bai xa condição social ou a párias (como na {ndia e no
namento de aprendizes e os artífices itinerantes o expunham à cultu­ Japão). Em suas origens , os sapateiros e os curtidores estavam
ra do ofíci o e à cultura e à política de um universo mais amplo. int imamente ligados, pois o~ sapateiros com freqüência curtiam seu
Podemos talvez acrescentar que a leveza de sua caixa de ferra­ próprio couro , como ainda o faziam até meados do século XIX na
mentas na verdade tornava mais fácil que ele carregasse livros comunidade sapateira de Loitz, na Pomerânia. 68 Em Leipzig, os
consigo do que no caso de outros ofícios - um fato para o qual cu rtidores e os sapateiros originalmente formaram a mesma guilda .69
também existe alguma comprovação. Se tudo isto chega a fornecer O baixo status dos sapateiros e o desprezo a eles dirigido na
uma explicação adequada , ou ao menos uma explicação verificável, Antigü idade - ao men os pelos escritores 70 - pode ser parcial­
não podemos ter certeza. Entretanto, três fatos estão claros. mente devido à associação com " sujeira" ou com a lembrança
Primeiro, os sapateiros de ofício mais letrados, como examina­ dela. Por outro lado , não é absurdo supor que o ofício (que enfatiza
remos em breve, se distinguiam pelo fato de se distribuírem por sua indispensabilidade e sua nobreza) se inclinasse ao radicalismo
am bien tes predominantemente incultos em áreas rurais e em peque­ por ressentimento. Sem dúvida um elemento de status baixo parece
nas cidades, onde eles podiam tornar-se auxiliares administrativos ter pers istido, possivelmente também influenciado pela reputação
não-oficiais, ou intelectuais dos trabalhadores . Eles sofriam pouca de desleixo fís ico do sapateiro , possivelmente como razão para
esta reputação. Mesmo no final do século XIX, um autor pôde
concorrência. Em segundo lugar, uma vez que a imagem popular do
escrever sobre o ofício em sua forma tradicional (anterior à fá­
sapateiro como intelectual e radical existia (como era inegável), ela
brica): " Como classe . .. os sapateiros comuns não eram nem
deve ter afetado a realidade de diversas formas. Cada vez que um
limpos nem arrumados quanto a suas pessoas e seus hábitos, e esta
sapateiro se ajustasse ao papel, ele confirmava a expectativa po­
vocação era desprezada como sendo de um bai xo nível social; um
pular. Conseqüentemente , o comportamento dos sap ateiros neste
emprego adequado para colocar como aprendizes os jovens internos
papel era provavelmente observado, registrado e comentado com
de casas de trabalho" .7 1
maior freqüência. A imagem popul ar pode ter atraído jovens com
Além do mais, como os custos de aprendizado eram mínimos ,
preferências li terárias ou filo sóficas e interesses políticos; ou inver­
as famíl ias que não podiam sustentar o aprendizado de seus filhos
samen te, os rapazes, tendo entrado em conta to com sapateiros filó­
em ofício mais próspero e mais exclusivo (e mais caro) podiam dar
sofos e radicais, podiam adquirir um certo in teresse por estes
Um jeito de arrumar a quantia neces sária para que ele aprendesse
assuntos. Finalmen te, a cultu ra do ofício podia desenvolver alguns
o ofíci o de sapateiro . De fato , a associação do ofício com a pobreza
destes traços en tre os profissionais que o exerciam não só porque
t~mbém era proverbial. 72 "Todos os sapateiros andam descalços" ,
as condições materiais os propiciassem , mas porque os costumes ~o
dIz um provérbio iídiche. " O sapateiro sempre usa sapatos estra­
oficio não os impediam . Em muitas ocupações um "l eitor" acabaria
âados ." Uma mi stura de sobras de comida era conhecida, na região
perdendo esta preferência devido a chacotas ou a crític as . Entrt! o~
e Ham burgo, como "torta c:; sapateiro".73

162 163
:\ coexistênc ia de independência e pob reza no o fício é pa rcial­
cios espec ial izados isol8dos, que se encontra com tanta f reqüência
mente devida a sua específica onipresença. Ele se organizou ba~­
na economia medieval de guildas. Generaliz ando , as sim que o ofício
tante cedo tanto na cidade quanto no campo, pelo menos nas zonas
~e sepa rou dos cu rtidores, vendedores de couro e outros produtores
temperadas, onde vi nha de longa data o reconhecimento de que
e fo rnecedores de ma téria-prima, suas principais fissuras in ternas
"não há nada como o couro" para calçados resistentes pa ra traba_
passaram a ser come rci ais - entre sapateiros e vendedores de sapa­
lho ao ar li vre . Os sap ateiros, eles p róprios fre qüen temente de
tOS (estes pode ndo ou não tamb ém fabricar sapatos). Havia também
origem humilde, serviam a uma cli en te la que incluía grande quanti­
u ma di vis ão entre os que faziam e os que simplesmente conserta­
dade de pessoas humildes. A fabricação e o con serto de calça dos de
vam sapatos, divisão definida de diversas formas - em inglês,
couro exige especialistas de algu ma espécie. ao con trário de um
cordwainers (sapateiro que fabrica sapatos) e cobblers (sapateiro
bom número d e outras atividades de fabricação e conserto. No final
remendão) (savatiers , Flickschuster, ciabattino), embora deva ser
do século XIX ainda havia sapateiros que se especia lizavam em
observado que os comerciantes se desenvolveram essencialmente a
percorrer as fazendas nos Alpes austríacos (Storschu ster) para fazer
partir dos fabricantes_ A separação entre os fabricantes e os remen­
e consertar os calçados do ano inteiro usando as peles e couros
dões foi por vezes institucionalizada em guildas separadas, embora
fornecidos pelos fazendeiros H Os sapateiros que faziam sapatos
as guildas dos remendões tivessem dificuldades para se emancipar
bem como os remendões eram, portanto, não somente UliTl ofício
comple tamente do controle dos fabricantes, ou mesmo para per­
organizado já em data extraordinariamente remota (eles estão entre
manecer viáveis por si.
as primeiras guildas de ofício documentadas tanto na Inglaterra
O conserto era nitidamente o ramo inferior do ofício, e o
quanto na Alemanha) ,7" mas também um dos ofícios mais numero­
te rm o cobbling (em inglês) é usado para designar qualquer serviço
sos e mais amplamente dist ri buídos no campo e na cidade. Na
de baixa qualidade . Entretanto, a linha divisória entre os dois
Sevilha do século XV III , como na Valparaíso do século XIX, eles
ramos era imprecisa, e tinha de ser, especialmente em épocas ou
excediam em número a todos os outros ofícios 7 G Isto também
regiões (como na Alemanha no século XVIII) em que a procura
ocorria na Prússia em 1800 (seguidos pelos alfaiates e ferreiros).
razoavelmente estática defrontou-se com a oferta crescente nas cida­
Na Baviera, em 1771, eles eram somente ultrapassados em quanti.
des .7 0 V iver somente de fazer calçados era praticamente impossível
dade pelos tecelões, mas nas aldeias mercantis eles eram os primei­
para mais do que uns poucos. Na verdade, subentendia-se que os
ros, seguidos dos cervejeiros e dos tecelões. 77 Na Frísia rural, em
fa bri cantes consertassem. Desta forma, para atingir uma renda
1749, havia 5,79 sapateiros por mil habitantes, em comp8ração com
.1 dece nte " (9 1 fl orins por ano) , alegava-se, sem dúvida retorica­
4,53 tecelões, 4,48 carpinteiros, 3 ,70 padeiro s, 2,08 ferreiros, 1,76
men te , q ue um mestre " teria de produzir um par de sapatos novos
religiosos, 1,51 estalajadeiros e 1,45 alfaia tes ; dentre todos os po­
ou três pares de solas ou consertos por dia, e além disso confiar
voados, encontravam-se sapa tei ros em 54 por cento , ca rpinteiros
em q ue os fregueses pagassem" . Não é , portan to, surpreendente
em 52 por cento, ferreiros em 40 por cento e est81ajad eiros em 32
que nos séculos XVfn e XIX os termos pareçam ter-se tornado
por cento .7 1> Parece claro que as pessoas encontra va m maior difi­
intercamb iáveis em inglês,SO enqua nto em f.rancês a palavra cor­
culdade em se arranj8r sem sapa tei ros especiali zados a distância
dOl1nier veio a significa r tanto o fabricante quanto o remendão,
conveniente do q ue sem outros tipos de artífices ou serviços espe­
CO m o o fez a p alavra Schuster em alemão popular, apesar da ten­
cia lizados.
dência do te rm o m ais elitista Schuhmacher ganha r terreno às custas
O ofício do sapateiro, embora se aplicasse a um a la rga exten­
do termo mais popul a r. ~ l E, na verd ade , fora das cidades firme­
são de habilidade técni ca e especia lização . ma nteve-se suficiente­
mente controladas por guildas. q ue esta vam se tornando mais
m ente p rimitivo quanto à tecnologia c à di vi são do tr abalho. e com
rracas, como era possível m an ter a fab ricação e o conserto estri­
um produto suficien teme n te ho mogêneo, pa ra con t inua r em essên­
tamente separados?
cia como um ofício único _ Não é possível traçar nen hum paralelo
A procura muito d ifundid a por sapateiros especializados (fa­
entre ele e a fragmentação crescent e do se tor metalúrgico em ofí­
hrican tes e remendões) im poss ibiUto ll o mo nopólio do ofício nas

164 165
cidades organizadas . O conserto de sapatos na aldeia dificilmente
poderia ser proibido, e embora este tipo de conserto rural fosse os sapateiros raramente podiam fazer o mesmo.· Como conse­
(sem dúvida inevitavelmente) isento dos controles e qualificações qüência, os sapateiros não controlavam nem o acesso nem o n úmero
das guildas, quase sempre tinha de ser aprendido de algum tipo de de integrantes de seu ofício , daí sua superlotação .
sapateiro . Não havia maneira de eVÍtar que () remendão do lugarejo O ofício era, portanto, muito pouco homogêneo. Contu do, na
também suprisse a procura localizada de sanatos , especialmente Os medida em que permanecesse um ofício artesanal de caráter essen­
do tipo grosseiro para o trabalho, até a ascensão da produção e ci almente manual- e até a década de 1850 nem mesmo a máquina
distribuição em grande escala. Assim, artífices com poucas chan­ de costurar doméstica havia sido admitida a ele - , suas djvisões
ces de se tornarem mestres no ofício controlado da cidade podiam internas eram vagas e instáveis . Por esta razão, embora existissem
escolher instalar-se independentemente em alguma aldeia ou cida­ " aristocratas" ou setores favorecidos entre os sapateiros , como ha­
dezinha no campo. Na realidade, foi observada uma tendência cres­ via entre os alfaiates (por exemplo, na elite das encomendas sob
cente por esta opção na Alemanha ainda no século XIX. Quando, medida das cidades), nenhum dos dois ofícios como um todo tinha
em 1840, foi finalmente extinta a proibição a sapateiros rurais (em posição alta na hierarquia social, como observou o artesão comu­
oposição aos remendões) no interior da Saxônia, sendo permitido nista Wilhelm Weitling. 84 Pois ambos, e especi almente os sapatei­
daí em diante um único mestre por aldeia (sem aprendizes), um ros, eram extraordinariamente numerosos, e portantC' continham
número considerável de sapateiros rurais imediatamente surgiu. s2 uma proporção extraordinariamente alta de elementos mrnos favo­
É bastante razoável imaginar que muitos deles simplesmente muda­ recidos e marginalizados. Dentre as centenas de artffke ~ assalaria­
ram seu título oficial. dos que se dirigi ram em bloco para Wiener N eustadl (Viena), em
processo de industrialização na década de 1840, e solicitaram
Por outro lado, se não havia nenhuma linha nítida distinguin­
permissão para ali permanecer, nada menos que 14,7 por cento (17
do o sapateiro melhor e mais especializado do remendão mais mo­
por cento dentre os provenientes da Boêmia) eram sapateiros, segui­
desto, as enormes dimensões do oficio sugerem que geralmente ele
dos a alguma distância pelos 10 por cento (14 ,6 por cento entre os
deve ter incluído uma seção extraordinariamente grande de figuras
boêmios) de alfaiates e 8,3 por cento de marceneiros (9 ,1 por cento
marginais, que não podiam viver somente de seu ofício, especial­ entre os boêmios) .85
mente porque o conserto de sapatos - atividade da qual os remen­
O sapateiro de aldeia era autônomo. Sua atividade exigia pou­
dões de aldeia na Alemanha podiam talvez obter metade de sua
co capital. O equipamento era barato, leve e portátil, e ele somente
renda - era notoriamente mal pago. É difícil encontrar dados
necessitava de um telhado sobre a cabeça para trabalhar e viver,
anteriores à era industrial, mas um cálculo de uma aldeia na Suábia
no pior dos casos no mesmo cômodo. Embora este fato lhe propor­
no século XIX sugere que, devido à procura insuficiente, um sapa­
cionasse mobilidade incomum , ele não o distinguia de uma série de
teiro ali, em média , não poderia ter feito mais do que sete pares
outros ofícios . O que realmente o distinguia era seu contato com
de calçados em um ano,83 de forma que para a maior parte deles
grandes quantidades de pessoas humildes e sua independência com
o ofício não passava de uma fonte de ganhos suplementares, possi­ relação a seus protetores, clientes abastados e empregadores. Os
velmente já adotado por esta razão. A reputação de pobreza do lavradores dependiam dos senhores de terra; os fa bricantes de
ofício tinha, portanto, uma base sólida, embora as razões para sua rodas e os construtores contavam com encomendas dos lavradores
superlotação não estejam totalmente claras. Talvez isto se deva par­ e de pessoas de boa situação; os alfaiates servi am aos ricos, pois
cialmente ao baixo custo do equipamento básico e à possibilidade os pobres faziam sua própria roupa. O sapateiro também servia
de exercer a atividade em casa; talvez também à possibilidade de aos ricos, porque eles precisavam del e, mas sua freguesia principal.
recrutamento externo, fora das fileiras de artífices profissionais e
de suas famílias. Os tipógrafos e os vidraceiros restringiam o acessO
ao ofício a seus filhos, parentes e uns poucos privilegiados de fora: • Estamos informados , no enta nto , de que a continuidade hereditária ent re
Os sapateiros londrinos era extraordinariamente alta.
166
167
na maioria dos casos, devia estar entre os pobres, pois estes dade com a vida dos pobres, c não com a dos ricos cpoderosos.
também não podiam passar sem ele. Este fato é inegável, mesmo Eie via pouca utilidade na hierarquia e na organização formal. O
que saibamos menos do que poderíamos a respeito do verdadeiro pouco que havia em seu ofício já era suficiente, e em muitos casos
uso de calçados de COuro entre os pobres, que naturalmente devia ele encontrava serviços fora dos regulamentos da guilda ou do
ser mais restrito do que em nossa época mais próspera.'~ Na reali_ ofício, e apesar deles. Conhecia o valor da independência e tinha
dade, existe evidência de que, à medida que os aldeões mais ricos
ampla oportunidade de comparar sua relativa autonomia com a de
ao final do século XIX passaram a comprar sapatos fabricados em seus clientes. Por ser difícil ou impossível compilar urna amostra­
outro lugar, vendidos em lojas , quando não passavam a comprar
gem representativa dos radicais no ofício, não se pode determinar
sapatos sob medida de primeira qualidade, o sapateiro da aldeia
até que ponto esta capacidade de expressar pontos de vista inde­
ficou cada vez mais dependente das compras dos que precisavam pendentes estava confinada à minoria de artífices relativamente
de calçados fortes para o trabalho ao ar livre.
bem-sucedidos, e não disseminada entre a maioria (presumível) de
Ele podia, portanto, expressar suas opiniões sem correr o risco sapateiros remendões marginais , de trabalho avulso. A pergunta
de perder seu emprego ou seus fregueses - se fosse realmente bom, permanece sem resposta. Entretanto, no contexto específico do final
nem mesmo seus clientes respeitáveis .RI; E mais , ele estava intima­ do século XVIII e início do século XIX é natural encontrar sapa­
mente ligado a seus clientes por laços de confiança. Em parte por­ teiros radicais lendo Cobbett , que clamava contra a eliminação de
que provavelmente tinham algum débito pendente com ele, pois os todos os pequenos artífices e que denunciava um sistema que subs­
empregados rurais, e talvez os camponeses, apenas podiam quitar tituía "senhores e homens (...) cada um em seu lugar e todos
seus débitos após longos intervalos , quando recebessem quantias livres" por "senhores e escravos".88 Nem é surpreendente encontrá­
brutas, por exemplo, após a colheita (o dia de pagamento na los nas fileiras dos sans-culottes e mais tarde nas dos anarquistas.
Pomerânia era o dia de São Crispim, 25 de olltubro)** Oll entre a Em todas as circunstâncias, a insistência sobre meios modestos,
Páscoa e Pentecostes, quando eram renovados os contratos de tra­ trabalho duro e independência como soluções para os problemas
balho anuais. Ele tinha de confiar em seus clientes, Tl1as eles nâo da injustiça e da pobreza estava dentro da experiência dos sapa­
tinham razão para desconfiar dele . Ao contrário de tantos outros teiros de aldeia.
que tinham contato COm os pobres - o moleiro. o padeiro, mesmo
Grande parte desta argumentação poderia também aplicar-se a
o taberneira, que podiam roubar no peso ou na medida _. o sapa­
outros artífices de aldeia. Mas enquanto, por exemplo , a oficina do
teiro produzia sapatos nO'iOS ou consertados que podiam ser facil­
ferreiro era barulhenta e seu trabalho dificultava a possibilidade de
mente julgados no ato da entrega. e as variações na qualidade pro­
conversa, o sapateiro estava estrategicamente bem instalado para
vavelmente refletiam não o desejo de enganar, e sim variações na
87 fazer passar as idéias da cidade e para mobilizar a ação. Sua ofi­
habilidade técnica. O sapateiro tinha. por conseguinte. liberdade
cina de aldeia fornecia um cenário ideal para esta finalidade, e
de exprimir Suas opinjões, das quais não havia razão para des­
confiar. homens eloqüentes que trabalhavam só a maior parte do tempo,
quando tinham com quem conversar, podiam se tornar extrema­
Não deveria causar surpresa o fato destas opiniões serem hete­
mente falantes, mesmo durante o trabalho. O sapateiro rural estava
rodoxas e democráticas . A vida do ~ Ipateiro da aldeia tinha afini­
sempre presente, de olhos na rua, e ele sabia o que estava aconte­
cendo na comunidade, mesmo quando não acontecia de também
• ~
necessário maior pesquisa especialmente sobre a difusão da prática de

ter a função de auxiliar administrativo da paróquia ou alguma


Outra posição municipal ou comunitária. Além disso , suas tranqüi­
an dar descalço (muito comum entre mulh eres e crianças) c sobre o LISO de

calçados alternativos - tamancos, botas e sapatos de feltro Oll fibra vegetal


las oficinas nas aldeias e nas pequenas cidades eram centros sociais,
e similares.
perdendo apenas para a taberna , mas abertos e preparados para
.... Existiria uma conexão entre este ritmo agrícola c o dia de São Crispim. o convívio durante todo o dia. Não surpreende que no interior da
25 de outubro.
França em t 793-1794, os sapateiros, juntamente com os taberneiros,
168
169
"pareçam ter tido uma verdadeira vocação para a revolução". TIl
Rich ard Cobb ressalta que ;

Entre os historiadores sociais, a reputação dos sapateiros como


o papel dos sapateiros. aqueles revolucionários de aldeia. que radicais é associada principalmente ao final do século XV III e
se instalaram como prefeitos após o surto revolucionário do início do século XIX , o período de transição para o industri alismo .
verão de 1793, ou que presidiam os comitês de vigilância, Não nos é possível medir se houve ou não um aumento no número
encabeçaram as minorias de sans-culottes contra les gros (. ..). de sapateiros militantes , mas parece-nos provável qUE' dois desdo­
Nas listas de "terroristas a serem desarmados" que foram bramentos estimularam a intensificação do radicaljsmo. O primeiro
elaboradas no ano III no campo, eles formavam a maioria. originou-se do lento declínio do ofício de sapateiro como ocupação
Apresenta-se aí um inegável fenômeno socia1. 89 essencialmente artesanal e de um conseqüente período de tensão
exacerbada interna à profissão. Os problemas específicos variavam
Naturalmente a oficina do sapateiro e a taberna, enquanto de um local para outro (as relações entre mestres e artífices assala­
locais de reunião, diferiam em um aspecto importante. Para beber, riados eram diferentes em Northampton e em Londres) , mas é
os homens se reuniam em grupos, mas nas oficinas de sapateiros inegável que o ofício como um todo era politizado. Assim, um
chegavam individualmente ou aos pares. As tabernas erllm domí­ jovem artífice tinha experiências de greves e participava em dis­
nio exclusivo dos homens adultos, mas com o intelectual da aldeia cussões sobre sistemas econômicos e poJ.íticos alternativos , à medida
tinh3m contato as mulheres, ou, mais provavelmente, as crianças. que adquiria conhecimento técnico. Aqueles que acabavam se insta­
Em que quantidade de aldeias e pequenas cidades o sapateiro não lando em oficinas em aldeias pequenas sabiam o que era jacobi­
exerceu o papel de educador! Assim, o Every-Day Book de Hone
nismo e veiculavam as idéias radicais das grandes cidades para as
relembra, "um velho honesto que remendava meus sapatos e minha pequenas. O segundo desdobramento ligava-se ao descontentamento
mente, quando eu era menino (. ..) meu amigo o sapateiro, que. crescente das populações aldeãs à medida que enfrentavam as con­
embora não fosse nenhum metafísico , inclinava-se a ruminar sobre seqüências do crescimento do capitalismo agrícola. Os aldeões tor­
a 'causação' " . Ele emprestava ao menino livros "que guardava na navam-se cada vez mais receptivos a formulações ideológicas para
gaveta de seu banco, junto (... ) aos instrumentos de seu 'Nobre suas queixas, o que os sapateiros estavam em condições de fornecer .
Ofício' ".no E ainda na década de 40 um futuro ilustre historiador A combinação das circunstâncias da aldeia com as do ofício facil­
do movimento operário de formação marxista foi apresentado à mente transformou o filósofo da aldeia em seu político . como sem
política em suas conversas de menino numa oficina de sapateiro de a menor dúvida ocorreu durante as revoltas Swing.
uma pequena cidade em sua Romênia natal. 0 1
Que mudanças afetaram o ofício do sapateiro durante o perío­
O sapateiro era, portanto, uma figura-chave na vida rural inte­ do que se estendeu aproximadamente de 1770 a 18807
lectual e política: instruído, eloqüente, relativamente bem-informa­
O ptimeim ponto a lembrar é simplesmente a quantidade de
do, independente do ponto de vista intelectual e, por vezes , do
integrantes do ofício que , até que a mecanização e a produção fabril
econômico, pelo menos dentro de Sua comunidade aldeã. Ele estava
o transformassem, crescia acompanhando a urbanização e a popu­
constantemente presente nos locais em que era de se esperar que
lação . O número de trabalhadores no ofício de sapateiro em Viena
ocorresse mobilização popular: nas ruas das aldeias. nos mercados,
(onde o número de fábricas era mínimo) mais do que triplicou
feiras e festividades. Não está esclarecido se esta é uma explicação
entre 1855 e 1890, sendo que a maior parte deste incremento
suficiente para seu papel freqüentemente reconhecido como líder
Ocorreu antes dos primeiros anos da década de 1870.n ~ Na Grã­
de massas. Sob tais condições, entretanto, mal ficamos surpresos
Bretanha, o número de homens adultos no ofício aumentou de 133
em · ocasionalmente encontrá-lo cumprindo este papel.
mil para 243 mil entre 1841 e 1851 . q uando havia mais sapateiros
no país do que mineiros.o:! Entre 18 35 e 1850 uma média anual de
en lre 250 e 400 sapateiros entrou em Le ipzig e, como a cidade
170
17 1
disse minou en tre meados da décad a de 1850 e in íci o da década
estava em crescimento, uma quantidade pouco menor saiu a cada o9
de 1870). ocorreu até o final do século XIX.
ano. Durante este período de q uin ze anos. hou ve no minimo 3.750 O terceiro ponto é que a pressão dos números e a proliferação
chegadas e 3 mil parti das .9 ~ da manufatura subcontratada (à qu al os artífices respe itáveis se
O segundo ponto a observar é a di5sc Illinação da fabricação refer iam como trab al ho "vil" ou " de lixo ") solapavam a inde­
para o mercado em oposição à fa bricação para clientes individuais pendéncia do ofício e também rebaixav am os preços. Uma inves­
e o onipresente serviço de conserto. O " sapateiro do mercado". tigação sobre o emprego em Marselha na década de 1840 revelou
produzindo cal çados grosseiros para venda nos mercados locais e que os sapateiros eram não s6 o maior grupo ocupacional mas
regionais , podia e m muitos lugares ainda manter uma relação tão também notoriamente mal pago. Eles ganhavam por dia uma mé­
próxima a seus clientes quanto a do sapateiro que trabalhava com dia de apenas três francos, e uma média anual de seiscentos francos,
encomendas sob med ida, pois ele podia ser regularmente encontrado o que os situava em posição inferior quanto a salários em relação a
em sua banca nos dias de feira por homens e mulheres que ele muitos trabalhadores não-qualificados. O trabalhador-poeta Charles
conhecia bem e que o conheciam. Sua relação com os clientes era Poncy protestou em 1850 a São Crispim:
provavelmente mais próxima do que a do seu rival cada vez mais
ameaçador, o sapateiro-ambulante. quc ia de casa em casa .lI :; No A fome nos atrela a sua negra carroça: nossos ganhos são
entanto, estas duas formas de organização se prestavam a diversas tão reduzidos . Trabalhamos até altas horas da noite por pão
espécies de sistemas de subcontrato - daí o desenvo lvimento de e farrapos.
comunidades de sapateiros tanto rurais quanto urbanas , que podiam Meus filhos, amontoados a esmo em lençóis velhíssimos,
abranger desde aglomerações de oficinas tradicionais com mínima exaurixam o seio esquelético da mãe . Comemos a semente do
divisão do trabalho dentro da oficina . até centros maiores que eram cereal que deveria vir a produzir o alimento para os mais
na realidade fábricas não-mecanizadas funcionando com operários novos .100
confinados a processos especiais complementados por trabalhadores
externos urbanos ou de aldeia , com sua própria subdivisão do O sapateiro inglês John Brant atribuía sua participação na
trabalho.!!G Aqui podia ser contratada produção em larga escala para conspiração do Cato Street a baixos salários e à conseqüente perda
o exército e a marinha ou para exportação. :t possível que muitos de independência. Sua declaração sugere que ele tentou atingir de
desses trabalhadores manuais semi-especializados chegassem ao ofí­ volta os que estavam no poder , afirmando sua capacidade de
cio sem o treinamento e sem a socialização típicos, especialmente pensar e agir com independên ci a:
quando provenieotes da agricultura .07 Pode também ter ocorrido
Por seu esforço , ele tinha sido capaz de ganhar por volta
neste período o recrutamento de aprendizes especialmente entre os
de 5:.3 ou f4 por semana, e, e nquanto esses ganhos foram pos­
pobres do me.io rural. Na Europa , entretanto, o nücleo de sapateiros
síveis , ele nunca se envolveu com a política; mas quando per­
form ados por aprendizado. em torno do qual esta força de trabalho
cebeu s ua renda mensal rrduzi da a lOs . começou a olhar a sua
s.:!mi-especializada se desenvolveu, era signii'icativo. O mesmo é
volta ( . . . ). E o que ele viu ? Ora, homens no poder. que se
sugerido até para operários fabris . n o manual de fab ricação de
reuniam pa ra delibera r como poderi am esfa imar e saquear o
calçados de J. B. Leno (um rad ical) . E , na verdade, em Erfurt. um
país ( .. . l. Ele se uniu à conspiração pelo bem público.1"1
dos principais centros alemães de produção fabril mecaniz ada, um
terço de uma amostr agem de 193 trabaUladores tinha aprendido o
A di ssem inação da ma nuf at ura para um mercado remoto em
ofício, e a metade deles consi stia em filho s de sapateiros.n~ Isto
lugar de para cli entes conhecidos afetou o ofício de formas dife­
não é surpreendente , uma vez qu e. fora dos Estados Unidos e. ten tes. Nu m extremo, ela poderia, pelo menos temporariamente.
pouco mai s tarde, da G rã-Breta nh a . nenhuma inovação técnica sig­ (;on du zir a um a reafi rm ação do s valores e reivindi cações do ofício
nificativa. Co m exceção da peque na máquina de costu ra (que ~c
17 3
J72
COmo tal. compartilhados por mes tres e artífices assalariados. Con­ um grande cortejo - o Rei Crispim mon tado a cavalo em
tra o trabalho desleixado ou "vil " a nível local ou em centros paramentos reais ( .. . ) acompanhado de pajens que segura­
manufatureiros em grande escala, como Northampton. No outro vam a borda de seu man to. trajados caracteristicamente. Os
extremo, os artüices remunerados ou os pequenos mestres prole­ oficiais portavam vestimentas adequadas a seu n ível. e carre­
tarizados , que perceberam que tinham se transformado em assala­ gavam a Licença, a Bíblia, um grande par de globos, e tam­
riados permanentes, poderiam procurar o caminho da sindicalização bém belos exemplares de sapatos e botas de luxo ( . .. ). Apro­
e o confli to Com os empregadores, o que afiava o gume do radica­ ximadamente quinhentos seguiam a procissão, cada um usan­
lismo dos sapateiros. Desta forma , o sapateiro parisiense "Efrahem" do um avental branco caprichosamente decorado. O cortejo
falou do dia em que "tendo sido dado o sinal , todos os trabalha­ era encerrado por um companheiro de oficina vestido à ma­
dores abandonarão simultaneamente suas oficina~ e deixarão o tra­ neira do artífice itinerante , com seu estojo de ferramentas às
balho com o propósito de ob ter um aumento na lista de preços costas e cajado na mão.ln~
que exigiram de seus patrões".102 Como observado anteriormente.
os sapateiros rapidamente aderiram à formação de sindicatos mili­ O estandarte do sindicato, "emblema de nosso ofício, com o
tantes. Pelo menos na Grã-Bretanha, as raízes do movimento sindi­ lema 'Que os produtos dos filhos de Crispim sejam pisados por
cal eram profundas. James Hawker, que ocupa um modesto lugar todo o mundo' ( ... )" foi muito admÍJ-ado.lO~ Um cortejo de guilda
na história como aldeão radical e ladrão de caça, brilhante e cons­ não teria sido muÜo diferente.
ciente do ponto de vista político, no Leicestershire, era filho de Entretanto, os caminhos que levaram a nossos radicais de al­
um alfaiate pobre, que fez o aprendizado no ofício de sapateiro em deia no f.inal do século XVIII e no início do século XIX têm sua
Northampton. Fora do período em que se alistou e depois desertou origem mais freqüente a partir de contextos como Londres, onde
do exército, circulou por todos os empregos que podia na região mestres e artífices remunerados compartilhavam posições jacobinas
leste dos condados centrais. No entanto, ele se afiliava a um sin­ como aquelas organizadas pela London Corresponding Sociei)' e
dicato, sempre que existisse um: "Eu corria para casa o mais rápi­ pelos membros da conspiração de Cato Street, ou de Paris, onde
do que podia e buscava meu Cartão de Viajante. Pois nesta época os sapateiros estavam entre os seguidores mais numerosos de Btien­
eu era sindicalizado - quase antes de saber o que isto signifi­ ne Cabet. O sapateiro de aldeia participava , em conjunto com os
cava ( ... ). Não fosse eu sindicalizado , poderia ter sido forçado a respeitáveis sapateiros urbanos, da causa do pequeno artífke inde­
mendigar ou a roubar".103
pendente . Na defesa desta causa eles proferiam uma crítica da eco­
A linha divisória entre o trabalho como ofício e o trabalho nomia e do governo que podia realçar os problemas de outros tra­
assalariado, entre a militância econômica e a política , era até então balhadores e impeli-los à ação . O apelo à ação baseava-se na hipó­
suficientemente vaga para desencorajar um excesso de classificação. tese de que homens como eles mesmos eram capazes de agir; na
Somente após 1874 os sapateiros tradicionais e os operários fabris verdade este apelo supunha que pequenos grupos de "cidadãos"
divergiram o bastante para que os últimos formassem uma dis~idên­ inteligentes podiam agir no sentido de corrigir a injustiça de forma
cia que se separou da Associação Unida dos Mestres-Sapateiros, independente - sem a liderança de homens mais instruídos ou
dando origem ao Sindicato Nacional dos Montadores e Arremata­ sem o apoio de organizações formais centralizadas.
dores de Botas e Sapatos - o futuro Sindicato Nacional dos Artí­ Não obstante. se mudanças no próprio ofício intensificavam a
fices de Botas e Sapatos. O sindica'to de 1820 contribuiu para a conscientização de seus membros quanto às injustiças da socie­
causa dos réus na conspiração de Cato Street. E os sindicatos nos dade, nã.o podemos simplesmente afirmar que o radicalismo dos
centros manufatu reiros e nos de subcontratação valiam-se da velha sapateiros surgiu no final do século XVIIl como resposta ao início
tradição do ofício em seus protestos. Em Nantwich, Cheshire, por do capitalismo industrial. Como tentamos demonstrar, o sapateiro
exemplo, um forte sindicato deste tipo celebrou o Dia de São enquanto filósofo heterodoxo e intelectual do homem trabalhador,
Crispim em 1833 com: enquanto porta-v.oz do povo) enquanto militante em seu ofício. é

174 l 75
muito anterior à Revolução Industrial - pelo menos se a argu­ e anterior à ascensão dos movimentos modernos da cl asse trabalha­
mentação deste ensaio for aceita . O que os primeiros estágios dé! dora de tendência sociaUsta e comunista . Durante este exlensope­
industrialização ou da pré-industrialização fizeram foi ampliar a dodo, os sapateiros estiveram associados a pratic'dmente todo e
base do radicalismo dos sapateiros através do aumento da quanti­ qualquer movimento de protesto soci al. Podemos encontrá-los em
dade de sapateiros e remendões e através da criação de um grande si tuação destacada entre os pregadores e os sectários religiosos, nos
grupo de trabalhadores subcontratados semiproletários e, pelo me­ movim entos republicano, radical. jacobino e sans-culottes, nos gru­
nos intermitentemente. pauperizados. Muitos artífices remunerados pOs cooperativistas de artífices , nos socialistas e nos comunistas,
foram forçados a deixar a tradicional estrutura de atividades e entre o s anticlericais ateus , e , não menos, entre os anarquistas . Na
expectativas da corporação do ofício passando para uma militância nOva era, será que eles tiveram importância semelhante entre os
sindical de trabalhadores especializados.
movimentos socialistas?
Mas, principalmente, o que este período propiciou foi uma A resposta é não. Na AJ emanna , eles estavam sem dúvida en­
enorme expansão das ferramentas do radicalism o político e de seu tre os seis grupos de trabalhadores qualificados que forneceram no
repertório de idéias, reivindicações e programas. Ideologias de crí­ mínimo dois terços dos candidatos trabalhadores social-democratas
tica social e política democrático-seculares , jacobinas , republicanas. para as eleições para o Reichstag até 1914: juntamente com os tra­
anti clericais, cooperativistas. socialistas, comunistas e anarquistas, balhadores da madeira , os metalúrgicos, os gráficos, os charuteiros,
além de proliferarem , complementaram ou substituíram as ideolo­ e. mais tarde, os trabalhadores da construção civil. Entretanto, já
gias da religião heterodoxa que anteriormente tinham sido o prin­ em 1912 eles se situavam em posição bastante inferior a todos eles
cipal vocabulário do pensamento popular. Al gumas eram mais (com exceção dos da construção civil) quanto ao número de candi­
atraentes do que outras, mas certos aspectos de todas elas diziam datOS eleitos. Quanto à apresentação de candidatos, estavam muito
respeito às experiências dos sapateiros , novos ou velhos. Os meios atrás dos metalúrgicos , dos trabalhadores da construção civil e da
para a agitação popular e o debate também se multiplicaram: jor­ madeira , embora nivelados com os gráfioos , cujos números eram
nais e panfletos que ofereciam maior campo para a produção es­ muito menores, e à frente dos fabricantes de charutos, que tam­
crita de trabalhadore s inteh::ctuais podiam ser lidos e discutidos na bém apresentavam menor quantidade de membros. (Veja o Qua­
oficina do sapateiro. E à medida que o sapateiro filósofo ou heré­ dro.) O sindicato dos sapateiros, apesar de como sempre ter inicia­
tico se transformava num sapateiro politicamente radical , a emer­ do sua organização muito cedo, foi declinando na classificação se­
gência de movimentos de protesto e de liberação social, ele um gundo o tamanho, de oitavo em 1892, para nono em 1899 e déci­
mundo virado pelo avesso por grandes revoluções tentadas. realiza­ mo-segundo no período de 1905-1912. No Partido Comunista ale­
das c antecipadas, tudo isso lhe trazia um público extremamente mão , após 19 18 sua representação era desprezível, pois , dentre 504
maior disposto a ouvi -lo, e talvez a segui-lo, na cidade e na aldeia.
dirigentes, somente sete eram sapateiros formados por aprendizado.
Não é de surpreender que o século que se iniciou com a revolução
Entre os 10 7 ofícios especializados (com a omissão dos ofícios me­
norte-americana tenha sido a idade de ouro do radicali smo dos
talúrgicos. extremamente predominantes) , eles estavam muito atrás
sapateiros.
dos gráficos (17) e dos trabal hadores da madeira (29) , embora no
mesmo níve l que os alfaiates (7), que os pedreiros (7), e que os
I!nca nadores (8). Com exceção de Willi Münzenberg, o grande pro­
IV pagandista, trabalhador sem aprendizado e não-qualificado numa
fábr ica de sapatos, o Partido Comunista alemão não tinha nenhum
Há uma última pergunta a s~r examinada. Afinal, o que acon­ sa pateiro eminente. 10 !;
teceu com o radicalismo do nobre oficio? Temos nos preocupado Na França os sapateiros eram nitidamente super-representados
predominantemente COm o período anterior à transformação da
no Part!do Operário Francês na década de 1890, em comparação
fabrica ção de calçados numa indú stria fabril totalmente mec<lni zad:1.
com sua participação na popu lação a ti va (3,6 por cen to), com 5,3
76
177
Eleiçao de 1912 para o Reichstag: grupos profissionais com por­
centagem de candidatos e de deputados " do (caracteristicamente) seu historiador, a ocupação que nitida­
mente dominava aquele grupo de trabalhadores era o ofício gráfico.
Grupo Profissional
Candidatos
podemos sem dúvida descobrir uns poucos sapateiros proeminentes
Deputados
em partidos socialistas menos importantes, como no húngaro, onde
Metalúrgicos
15,6 15,5 dois deles, como era de se esperar, tornaram-se editores de seu
Trabalhadores da madeira
14,8 10,9 jornal , e na Social-Democracia (marxista) do Reino da Polônia e da
Trabalhadores de construção
12,8
Gráficos 3,6 Lituânia, onde os sapateiros "mantiveram-se, por toda Sua história,
6,6 7,3
Sapateiros
6,6
como o principal baluarte" de sua sustentação. 11 0 Mas as únicas
Fumageiro 4,5
3,8 variedades de comunismo e socialismo modernos nas quais o sapa­
Alfaiates 6,4
2,7 4,5 teiro radical pareceu ter tido importância genuína são aquelas que
Trabalhadores têxteis
0,8 2,7 falharam visivelmente em se tornar partidos de massa, ou mesmo
partidos típicos da classe operária industrial. O secretário-geral do
por cento dos membros do partido e 7,7 por cento dos candidatos diminuto Partido Comunista austríaco e seu candidato presidencial
(de 1894 a 1897). mas dados locais não demonstraram que eles (simbólico) foram ambos ex-artífices sapateiros das províncias de
tivessem107predomínio desmedido a não ser em algumas poucas loca­
Caríntia e Boêmia, respectivamente. E o mais eminente sapateiro
lidades. Ninguém os teria escolhido, como pareceu razoável aos radical do século XX é sem dúvida o presidente Ceausescu da Ro­
anarquistas, para simbolizar a militância do movimento socialista.
mênia, cujo partido, na época em que se afiliou a ele, provavel­
De fato, os sapateiros de esquerda mais importantes foram natural­
mente continha somente um punhado de elementos etnicamente
mente Jean Grave, o anarquista, e Victor Gríffuelhes, o sindicalista
romenos.
revolucionário, ambos oom a inclinação de seu ofício para escrever
Na Grã-Bretanha industrializada, os sapateiros, tão destacados
sobre política. Não existe muita dúvida sobre o fato de que o
durante o período entre o tempo da Sociedade Londrina de Corres­
papel desempenhado pelo sapateiro foi reduzido à medida que o
pondência e a eleição do radical ateu Charles Bradlaugh pelo distrito
centro de gravidade do movimento transferiu-se para as indústrias
eleitoral de Northampton em 1880, não desempenharam nenhum pa­
de grande escala e o emprego no setor públioo. Embora dentre os
pel marcante na era do Partido Trabalhista, a não ser em seu próprio
comunistas mais importantes em 1945 incluíssem dois antigos mar­
sindicato. Eles quase não tiveram representação entre os parlamenta­
ceneiros e um antigo pasteleiro, os sapateiros estavam ausentes da
res do Partido Trabalhista , nem foram, por outras formas, especial­
lista, cujo centro de gravidade se encontrava agora na indústria
mente visíveis. O único homem com alguma experiência do ofício
metalúrgica e nas ferrovias. Dentre os 5 I ex-artífices eleitos para a
de sapateiro (não-especializado) no início de sua carreira de altos
câmara francesa em 1951 , havia somente um s<lpateiro (socia­
lista) .108 e baixos, que destacou-se de alguma forma , é o líder dos trabalha­
dores do transporte Ben TiIlett. 11l
Se houve alguma Ocupação típica dos ativistas do Partido So­
Não parece haver quase nenhuma dúvida de que, no todo, o
cialista
1on
austríaco, ela foi a dos serralheiros/ mecânicos e a dos grá­
papel do sapateiro radical não era mais tão importante na época
fícos. f: difícil encontrar sapateiros de importância neste Partido.
dos movimentos operários de massa, de tendência socialista, do que
E, embora o Partido Socialista espanhol tivesse um sapateiro, Fran­
havia sido antes deles. Com certeza, isto se deve parcialmente à
cisco Mora, que foi seu secretário por um período e que acabou sen­
transformação da fabricação de calçados de um ofício artesanal ou
semi-artesanal, numericamente grande, numa indústria numerica­
• Nota c fonte : W . H. Schriidcr, "Die Sozialstruktur der sozialdemo kratis. mente muito menor, distribuindo seus produtos através de lojas.
chen Reichstagskandidaten , 1898-191 2 ", in Herkunfl und M andaI: 8eilrage Não mais havia aquela quantidade de membros do mais caracte­
zur Führun/ts,nroblemalik in der Arbeilerbewegung (Frankfurt c Colônia. rístico "daqueles ofícios sedentários que permitem que a pessoa 'fi­
(976). pp. 72-96. Todos os valores são percentuais.
losofe' enquanto executa tarefas familiares", entre os quais os anar­
178
179
quistas encontraram tantos de seus partidários.11 2 A malOW! dos
nidade) em lugar da Gesellschaft (sociedade). Ele pertence histori­
homens e mu lheres que produzem calçados cada vez mais se trans­ camente à era da oficina. da pequena cidade • .da vizinhança. e so­
rormou numa subespécie do operari ado fabril , ou num subcontra­
bretudo da aldeia, em lugar da fáb rica e da metrópole.
tado do ind ustrialismo desenvolvi do; a maioria dos que vendem
Ele não desapareceu por completo . Um dos autores deste en­
sapatos não tem nenhum a ligação com sua produção. O sapateiro
saio ainda recorda que, quando es tudante, assistiu a aulas sobre o
radical como um tipo pertence a uma era anterior.
marxismo dadas por um membro desta espécie, um admirável esco­
Seu período ue glória situa-se entre a revolução norte-ameri­ cês, e que sua atenção foi atraída para o prC'lhlema do radicalismo
cana e a ascensão dos partidos socialistas de massa da classe traba­
do sapateiro em primeiro lugar numa oficina (Ir um remendão cala­
lhadora, sempre que esta ascensão ocorresse em qualquer país espe­
brês na década de 50 . Existem , sem dúvida , 1"Fares onde ele sobre­
cífico (caso ocorresse). Duran te este período, sua inclinação para o
vive, inspirando ainda os jovens a seguir os ideais da liberdade,
pensanlenío. fi discussão e a pregação democrática e autoconfiantc.
igualdade e fraternidade , como o sapatei ro. tio de Lloyd George,
até en tão expressa principalmente através do radicalismo e da hete­
que ensinou a seu sobrinho os elementos da política radical numa
rodoxia rel/giosa, encontrou formulações teóricas em ideologias re­
aldeia galesa na década de 1880. Mesmo que ele não seja mai5 um '
vol ucionárias seculares e igualitárias, e sua militância prática nos
fenômeno significativo na política do povo, ele o serviu bem . E, do
movimentos de massa de protesto social e esperança. A associação
ponto de vista coletivo e através de uma quantidade surpreendente
com tais ideologias especificamente políticas do radicalismo trans­
de indivíduos, deixou sua marca na história.
formou o tradicional "sapateiro-filósofo" no "sapateiro radical" _
o pobre in telec tual de aldeia no sans-culotte, republicano ou anar­ (1980
quista de aldeia.
A combinação da onipresença com grandes concentrações oca­
sionais de artífices semiproletarizados pennitiu ao sapateiro seu N OTAS
papel universal e marcante como advogado , porta-voz e lider do
I. A Ví/lage politician: Th e Life-Story of John Buckley, J. C. Buckmasler
pobre. Ele era raramen te visto na li nha de frente de movimentos
lOrg.). Londres , 1897, p . 4\.
nacionais como indi víduo. Ivlesmo entre os trabalhadores manuais 2. M. Sensfelder, Histoire de la Cordonnerie. P<l ris, 1856, oilado em Joseph
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ou Mora ou Griffuelhes, houve centenas de outros, que '11Csmo o 1982; Jacques Rougerie, "Composirion d'une Populali on Insurgée: l'Ex,em­
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Thornas Dunni ng, cuja determinação e engenho salvaram os sapa­ London" (Universidade de Londres . tese de dou torado. 1919), p r · 37-,9,
demonstra que a pal'ticipa~ão proporcional dos sapateiros m> cartismo lon­
teiros de Nantwich do q ue bem poderia ter sido o destino dos tra­ dri no foi maior do qu e a de qua lquer outra o\:u pação de por te (com m Ais
balhadores de Dorchester; o solitário sapateiro anarquista italiano de: 3 mil membros) , com exceção dos pedreiros; George Rudé. TI/e nOhld
que trouxe suas idéias para uma cidadezinha de interior no Brasil. in lhe French Rel'olu tio/1. Ox ford. 1959, Apênd ice 4.
Seu. meio era o da política de cara a cara. da Gemeinschaft (comu­ 5. Georges Duveau , La Vie O/JlIri~re efl Frallce sous le Sei:ofTd Emplr...
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1952, vol. 2, p. 43. . cols. 398-399. A injustiça de tais provérbios indignou a tal ponto os compi­
13. Hobsbawm e Rudé, Captain Swing, pp . 181-2. ladores desta enciclopédia do século XIX que eles acrescentaram uma nota
14. Ibid., pp. 218, 246. de pé de página citando dois sapateiros altamente intelectuais que também
15. Keith Brooker, "The Northampton Shoemakers' Reaction to Industrial­ fabricavam sapatos excelentes (co!. 399).
isation: Some Thoughts ", Northamptvnshire Past and Present, vol. 6, 1980. 28. Charles Bradlaugh, o pioneiro do ateísmo , foi eleito para o Parlamento
p. 155. britânico por Northampton , um eleitorado de sapateiros. Para o "Schuster­
16. Amostragem realizada na Librairie A. Faure, 15 rue du VaI du Grace, komplott" dos sapateiros de Viena acusados de a teísmo em 1794, veja E.
catálogo 5, livros antigos e modernos, itens 262-324 ; verificada com Jean Wangermann , .. losephinismus und katholischer Glaube ", in E. Kovacs (Org.).
Maitron (Org.), Dictionaire Biographique du Mouvement Ouvrier Français, Katholische Aufkldrung und Josephinismus. Viena, 1979, pp. 339-40. Um
Pt . I, 1789-1864, 3 vols. Paris, 1964-1966. dos acusados, inspirado pelos sermões de um pregador pela reforma católica,
17. David M. Gordon, "Merchants and Capitalism: Industrialization and numa típica atitude de sapateiro, "comprou uma Bíblia velha, fez com
Provincial Politics at Reims and SI. Etienne ul1der the Second Republic and que eu a ouvisse ser lida, comparou as ( ... ) passagens citadas nos sermões
Second Empire" (Universidade de Brown, tese de doutorado , 1978), p. 67. de Wiser ( . . . ) com o próprio texto da Bíblia , e por este método eu comecei
18 . WiJliam Sewell Jr. , "The Structure of the Working Class of Marseille a duvidar de minha religião.
in the Middle of the Nineteenth Century" (Universidade da Califórnia, 29. Karl Flanner. Die Revolution von 1848 in Wiener Neustadt . Viena,
Berkeley, tese de doutorado, 1971), p, 299 .
1978, p . 181.
19. "De l'Associa tion des Ouvriers de Tous les Corps d'~tat", reimpresso 30. Eugenia W. Herbert, The Artist and Social Reform : France and Belgium,
em AIain Faure e Jacques Ranciére (Orgs.), La Parole Ouvriere, 1830.1851. 1885-1898. New Haven, Conn. , 1961, pp. 14 e ss.; para a vingança do
Paris , 1976, pp. 159-68.
sapateiro contra Apelles, que foi o primei ro a sugerir que o sapateiro se
20. Gian Maria Bravo, Les Socialistes avant Marx, 2 vols . Paris, 1970. limitasse a seu ofício e que se abstivesse de fazer crítica de arte, cf. a enorme
vol. 2, p. 221.
influência (através de Grave) do anarquismo nos pintores pós-impressio­
21. Alfred F. Young, "George Robert TweIves Hewes, 1742-1840: A Boston nis tas, veja-se ibid., pp. 184 e ss.
Shoemaker and the Memory of the American Revolution· (a ser publicado
31. Sa muel Smiles, Men of Invention and Industry . Lond res, 1884, Capo XII .
em William and Mary Quart).

32. Veja-se Crispin Anecdotes, p. 144; cf. também Hobsbawm e Rudé,


22. Maurice Garden, Lyon et les Lyonnais au XVIII" Siecle. Paris, 1970. Captain $wing, pp. 63-70.
pp. 244 e ss . Um índice de alfabetização acima da média é observado entre 33. Crispin Anecdotes, p . 45 ; Winks, Lives of IIlustratious Shoemakers,
os sapateiros rurais em David Cressy, Literacy and the Social Order: Reading
p. 232.
and Writing in Tudor and Stuart England. Cambridge, 1981, pp. 130-6. 34. John Brown, Sixt y Years' Cleal1ings fyom Life's Harvest: A Gemline
porém índices médios ou abaixo da média, para a classificação de "sapa­ Autobiograph y. Cambridge, 1858, p. 239. citado em Nicholas Mansfield .
teiros inferiores" tanto em Londres quanto no campo. Por várias rl!~ões, " Iohn Brow n : A Shoemaker's Place in London" , History Workshop, vol. 8,
os indicadores londrinos de Cressy são mais problemáticos do que os rurais. 1979, p. 135.
182 183

~-------------- ____~__a
___
35. Barberet, Le Tra vail en France, vol. 5 , pp. 62.3 .
36. Wright, Romance 01 lhe Shoe, p. 2 18. 111Sd o rcs rel igiosos. políticos mel ancólicos, ' poe tas, sofista s, estadistas' e outras
37. Ibid ., p. 307 . 'figuras irrequie tas' , incluin do um se m-nu me ro de hi pocondríacos. O aspecto
38. Paul Lacroix, Alphonse Duchcsne c fer di nãn d Se ré, l-J;stoire des COr. sombrio e pe nsat ivo dos sapa teiros é em geral de fá cil observação. E. nã o
~ mais do qu e fazer-lhes justiça, no c nJtm to, afm rra r que sua aquisiçãO de
donniers el des Arlisans donl la Prolession se RaJlaclte ii la Cordollrteru'.
Paris, 1852, pp. 1/6.7 . çon heci me nto c seus há bitos d e ref lexão chegam com freqüência li um ponto
39. Shakespearc, lulius Caesar, J, i: Dek ke r, The ,hoemaker's Holiaay, de desperta r admir ação".
voI. 4, 48-76. A citação pertence ao Cerne Abbas Inquiry de /594 (BrI[. 51 R ic hard Wattcroth, "Die Erfurter Schuharbeitersch aft" , in Auslcse lm d
Lib .. Harleian MS. 6849, fos . 183-190), em (Org. ), Willob ie H is A "' Isa. A"pasSU.'1 g der A/'beiterschalt i/ I der Schuhidustrie und einem obsersclrlei­
G. B. Harrison. Londres, 1926, Apêndice III, p. 264. SOI1l0~ gratos a Michac l sischell W alzwerke (Schrifte n des Verei ns für Soz ialpoli tik , n.. 153, Muni­
Hunter por este e xemplo antigo de sapateiros radicais ingleses. que c Leipzig, 191 5), p. 6.
40. Crispin Aneccloles, p. 150. 52. Calculado a partir de Joseph Belli , Die Rote Feld post IIlllerm Sozial­
41. Wright, Romance 01 lhe Shoe, p. 109. iSlengesetz. Bonn , 1978, pp. 54-94 . Agradecemos a R ain er Wirtz por esta
42 . Ibid., p. 4. referencia. Julius Piers(orLf. "Drei Jenacr Handwe rkc ", in Ull tersuchungen
43. E. P. Thompson, The Making of lhe English Working Class. Londres, aber die Lage des Handwerks in Delltschland, voi. 9 (Schriften des Ve rcins
1963, pp. 183-4. Em português, A lormação da classe operária inglesa, Rio fü r Sozialpolitik , n.o 52, Leipzig, 1897), p. 36, observa que os artífices iti­
de Janeiro, Paz e Terra, 1987. nerantes permaneciam na mesma oficina no máximo seis meses.
44. Crispin Anecdotes, p. 126. 53. Griessinger, Das symbolis ehe Kapital der Ehre, pp . 102-7 . descreve com
45. Lacroix, Duchesne e Seré. Histoire des Cordonniers, pp. 206-7 . perfeição estes rituais na Alemanha do século XVIII.
46 . Ibid., p. 188. 54. Burke, Popular Culture in Early Modem Europe, pp . 38·9.
47. Barberet, Le Travail en France, vol. 5, pp. 64-5. 55. Robert Chambers . The Book 01 Days, 2 vols. Londres e Ed inburgh,
48. Wright, Romance 01 lhe Shoe, p. 46: Hall, Book 01 lhe Feet, pp. 196-7. 1862-1864, vol. 2, p. 492; A. R. Wright, British Calendar CustOlt/s: En­
Apesar da sugestão destes autores, não ficou estabelecida nenhuma associa­ gland, in T . E. Lones (Org.) 3 vols. (Folk-Lore Soe., xcvii, cii, cvi. Lon­
ção entrc o ofício do sapateiro e o do encadernador. Em Londrcs. filhos de dres c Glasgow, 1936-1940), vol. 3, pp . 102·104. Na Inglater ra (porém, não
sapatciros podem estar sub-representados no ofício no pcríodo entre 1600 na Escócia) a sobrevivência do costume pode ter sido auxili ada pela asso­
e 1815. Embora a encademação fosse não raramente combiJ1ada com alguma ciação do Dia de São Crispim wm o nacionalismo, pois esta era a data da
outra ocupação corno a do alfaiate-comerciante, do comerciante de tecidos. batalha de Agincourt contra os franceses , como os leitores do Henry V de
do barbeiro, do pedreiro, do vidraceiro, do tecelão, do tintureiro, do agulhe­ Shakespeare recordarão.
tciro e do fabricante de rodas, em nenhum caso ela apareceu combinada 56. Como examinado em Griess inger, Das symbolische Kapital der Ehre,
com o ofício do sapateiro. Calculada co m base em Ellic Howe. A Lisl 01 pp. 130-3.
London Bookbinders, 1648-1815. Londres, 1950. 57 . Brooker , "The Northampton Shoemakers' Reaction to Jndustrialization" ,
passim , sobre conmtos surgidos desta r eação duran n: a ind ustrial ização.
49. Cf. o pape! desempenhado por um certo Hans von Sagan nas tradições
dos sapateiros alçmães. Ele conquistou a boa vontadc do imperador. e Veja-se também M ansGeld, "lohn Brown: A Shoemaker's Pince in Londoll",
para scu ofício o direito a incluir a águia imperial em seu brasão, através passim.
de Sua intervenção numa batalha do sl!culo · X IV. A relativa escassez de 58. A llgemeille Deutsche Biograp fLie, vol. 3, ve rbet e de Jakob llohme ,
costumes formalizados neste ofício foi observada em RudolJ Wissel , D es allen 59. Dictionary of N ational Biography, vol. 5.
Handwerks Recht und G ewolrnheil, organizado por Konrad Habm, 2 vols. 60 Wi nks , Lives 01 JIlustrioll s Shoemakers, p p . 81 , 180.
Berlim , 1929, vol. 2. p . 9]'; Andreas Gressing er. Das symbolische Kapilal
61. Brian Dobbs, The Last Sh al1 8e First: T he Colo urflll S/ory oI loh n
der Ehre: Slreikebewegungen und kollektives deutscher Ha/ldwerksgesell
Lobb . lhe St. Jame's lJoolmaker. Londres. 1972 , p p. 27-8.
en 62. B. Ae bert, • Dic Schuh mac herci in Loltz·, iH Unlersuch Wlger über Jie
i/11 18. fahrhundert. Frankfurt, Berlim e Viena, 1981. Agradecemos profun.
damente a Andreas Griessinger, da Universidade de Konstan z, por tcr colo­ ge eles Ha ndwerk s in Delllsch/aNd , vo l. I (Schriftcn des Verci ns für So­
cado seu manuscrito a nossa disposição antes de sua publicação. l iaJpoli tik. n." 62, Leipzig. 1895\ , pp . 39. 49: Sicgfried Heckschcr. ·O ber
di e Lage des Sch uhmach ergewerbe s in A ltona . E lm shorn , H eld e, Pr\!ctz und
50. Eileen Yeo e E. P. Thompson, (Orgs.) The Unknown Mayhew. Lo ndres,

197 J, p. 279. Veja-se também "Mental Charactcr of thc Cobblcrs ", citado em
Barmste dt ", em ibid.• p . 2.
The Man. n." 9, abril de 1834, Nova York, p. 168; "Todo o dia sentado num
63 . US Nation al Archives RG 2 I 7. Fourth Auditor A Ccollhts, N umerical
banco ba ixo . pressionando a fôrma ou o couro renitentes ( . .. ) ou ma rtclsn­ Series, 114 1. Dcwmos es ta rererênc ia a Chris top her McKec.
64. Bernard ino Ramazz ini, Flcallh Preserved, in T lVo Treatises. 2.' ed. Lon­
do saltos e biqucir<lS com muita monotonia _ a mente do sapateiro, inJepcn­
dcntemente do provérbio, I'agucia por regiões me tafísicas. políticas e Icológi. dres , 1750 . p. 215 .
65. Joh n Thomas ArJidge, Th e Hygielll!, DisC/lses and Mort aUty 01 Occu pa­
cas; e dos homens deste ofício brotaram muitos fundadores de seitas , refor.
líons. Londres. 1892, p. 2 I 6. ci ta ndo dados de W illiaro Parr de 1875 ­
184
185
mortalidade abaixo da média cm todas as faixas etárias exceto entre os 20 75. George Unwin, The Gilds and Companies 01 London, Londres, 1908,
e 25. em comparação com o índice de mortalidad e muito mais a.1to entre p. 82; Geissenberger, "Die Schuhmacherei in Leipzig und Umgegend ", p.
os a lfaiates - e Ratcliffe. analista da mortalidade dos m embros das asso­ 169; Watteroth , "Die Erfurter Schuharbeiterschaft" , p, 15.
ciações de solidariedade cuja • vitalidade" ele considerava inferior somente 76. Nas provincias de Santiago c de Valparaíso, em 1854 , havia 5.865 deles.
à dos lavradores e carpinLeir os. ~ m comparação com 3.720 carplnteiros, 1 nl'i alfaiates, 1.287 pedreiros e
66. Crispin A.necdotes, p. 126. assentadores de tijolos e 1.088 ferreiros e ferradores: L. A. Romero , La
67 ... Foi freqücntemente observada a ocorrência comum do desenvolvimen­ sociedad de la 19ualdad: los artesanos de Santiago de Chile y sus primeras
to do talento literário entre o~ sapa tei ros _ Sua ocupação. por ser sedentária ex periencias potiticas, 1820-1851. Buenos Aires, 1978 , p, 14. Veja também
A. Bernal. A. Collantes de Teran e A. Garcia-Baquero . .. Sevi\1a: de los
c comparativamente silenciosa, pode se r considerada como mais favorável H
Gremios a la Industrialización" , Estudios de Historia Social, Madrid n.O
à meditação do que outras ; mas talvez sua capacidade de produção literária
tenha surgido da circunstância de se r um ofício de trabalho leve, e , poro, 5-6, 1978 , pp. 7-310, esp. Quadro 8.
tanto , procurado com preferência sobre a maioria dos outros ofícios por 77. Gries singer, Das symbolische Kapital der Ehre, pp. 87-90.
aquclas pessoas de vida humilde, que têm consciência de seu maior talento 78. J. A. Faber, Drie Eeuwen Friesland, 2 cols, (A . A , G, Bijdragen, xvii ,
mental do que de sua força física ": H al!, Book 01 the Feet, p . 4 . Apesar do Wageningen, 1972) , ii, tabelas 111.8, 111.9, pp . 444-5 e 446-7.
fato de que o uso do martelo por vezes excluísse o ofício do sapateiro de 79. Griessinger, Das symbolische Kapital der Ehre, pp, 90-5.
certos locais por serem um "ofício ruidoso" (liirmendes Handwerk) - cf. 80. Assim, Winks discute o problema da distinção intelectual dos sapateiros

W. J. Schroder, Arbeitergeschichte und Arbeiterbawegung: lndustriearbeit sob o título .. Uma Constelação de Sapateiros Célebres": Winks , Lil'es 01

und Organisatio/1sverhalten in 19. Llnd 20. Jahrhundert. Frankfurt-Nova York, Jl/ustrious Shoemakers, pp. 229 e ss. Quanto à permutabilidade, veja tam­

1978 , p. 91 - o ruído é raramente mencionado na literatura sobre os bém Scottish National Dictionary , sob souter.

in teleciuais sapateiros. 8!. CNRS , Trésor de la Langue Française. Paris, 1978, sob cordonnier;

68 . Aebert , "Die Schumacherei in Loitz", p , 38. Grimms Worterbuch, sob Schuster,


82. Geissenberger, "Die Schuhmacherei in Leipzig und Umgegend", p. 175.
69. Nicolaus Geissenberger, "Die Schuhmacherei in Leipzig und Umgegend",
Na Alemanha de 1882, 46 ,S por cento de todos os sapateiros independentes
in Untersuchungen iiber die Lage des Handwerks in Deutschland, ii (Schrif­
viv iam em aldeias de menos de 2 mil habitantes (dois terços dos quais pos­
tendcs Vereins für Socialpolitik, n. 63. Leipzig, 1895), p. 169.
O

suíam alguma outra ocupação paralela). Dois terços de todos os sapateiros


70. Pauly-Wissowa, Real-encyclopii.die der classischen Alterhumswissens·
ir.dependentes encontravam-se em centros com menos de 5 mil habitantes
chalt, 2.' ser" iv(1), cols. 989-994, sop "sutor". O baixo status de ofício (Statistik des Deutschen Reiches NF Bd4, 1-2. p. l.IQ4 e NF Bd 111, p.
fica também demonstrado do ponto de vista lingüístico . Na França savetier
104 e ss.).
era um termo de escárnio; na Inglaterra, a palavra cobbler (sapateiro) tam­ 83 . Utz Jaeggle, Kiebingen: Eine Heimatgeschichte. Tübingen , 1977, p, 249.
bém significava botcher (remendão) ou indicava um trabalhador não-espe­ Praticamente nenhum dos sapateiros locais pertencia à camada social supe­
cializado . Veja-se Lacroix . Duchesne e Seré, Histoire des Cordonniers, p. 179. rior da aldeia, e a maioria nem mesmo à camada média. "Mesmo hoje os
71. Arlidge , Hygiene, Diseases and Mortality 01 Occupations, p. 216. sapateiros são o mesmo que nada na aldeia": ibid, Agradecemos a Rainer
72. W , H. Schroder, A.rbeitergeschichte, p. 93. Witz por esta referência .
73 . Quanto a estas referências a sapateiros, veja Crispin Anecdotes, p. 102; 84. Wilhelm Weitling. Garantien der Harmonie und Freiheit . Berlim, 1955,
Deutsches Sprichworter-Lexikon, vo1. 4 , cols. 398-401; English Dialect Dic­ p. 289 .
tionary , vo1. 1, sob o verbete cobbler, .. Cobbler's dinnerbread and bread to 85. Flanner, Die Revalutian van .1848 in Wiener Neustadt, pp, 26-7. Como
it" (jantar de sapateiro: pão c mais pão) . A impressão popular desde a a cidade especializou-se nas indústrias meta.lúrgicas bem como nas têxteis,
América colonial até a Europa era de que, o que quer que ele fosse. o os metalúrgicos (embora menos numerosos do que os sapateiros) estão omi­
sapateiro raramente era prósp ero . A pobreza e a inclinação a filosofar não tidos possivelmente por terem tido um excesso de representação.
eram nem um pouco contraditórias; na verdade, elas podem ajudar a expli­ 86. Cf. o sapateiro calabrês citado em E. J. Hobsbawm, Rebeldes Primitivos,
car a duradoura reputação dos sapateiros como radicai s. Seres pensantes Zahar, Rio de Janeiro, 1978. Apêndice IX, que se orgulhava de trabalhar
entre os pobres tinham grande probabilidade de se tornarem radicais polí­ até mesmo para os carabinieri.
ticos ou ideológicos. A record aç ão de John Brown dos" grandes oradores do 87. Devemos esta observação ao dr. Miku.l áus Teich, que cita um provérbio
ofício" descrevia " homens em roupas esfarrapadas e de aparência esquáli­ de seu país . a Checoslováquia: "Onde houver o que cortar, o que pesar e
da" que .. derramam seus apelos em linguagem tocante c eloqüente": ManS­ o que servir, haverá dinheiro a ser ganho".
field, "John Brown: A Shoemaker's Place in London" , p . 131. 88. Raymond Williams, Culture and Saciet)'. Nova York , 1960, p. 16 , citando
74, Max von Tayenthal, "Die Schuhwarenindustrie Osterreichs ·, Sociale o Political Register, 14-4-1821.
Rundschau (Arbeitsstatistischcs Amt im K .u.K. Handelmisteriuml. vol. 2. 89. Richard Cobb, Les Armés Révolutionnaires, 2 vols. Paris e The Hague ,
pl. 1 (1901) , p . 764 . 1961-1963, vo\. 2, pp. 486-7 ,

186 187
104. "The Remi ni scences or T homas D unning (1 813- 1894) and lhe Nantwich
90. Crispln A necdotes, pp . 154-5.
Shoc makcr's Case of 1834·, ill W. H . Chalon en (Org.), T raI/S. Lan,·s. and
9 \. Dale T omich e Anso n G. Rab in bach. " Georges Haup t. 1928·1978",
Cheshire Antiq . Soe .. n.· 59, 1947, p. 98.
Garman Cril ique. n.· 14, 1978, p. 3.
105. Ibid .
92. Richa rd Schill ler, • Die Sc huhm acherei in W ien ' , in Untersuchungen
106. Com base nos dados biográficos em Herman n Weber, Dil! Walldlutlf!,
iiber die !AgI! des Hatrd werks jll 6 sterreich tScbriftcu des Vereins für So­ des deCllschen Koml!1unism us, 2 vols. Frankfurt, 1969. voJ, 2.
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9J. f. H. Cla pham, Ec:onomic His/ory of Modem Britain , 2." lOd ., Cam­ uesdisles. ParIs , 1965. esp. pp. 335-7 . Veja também T ony Judt, Socia/ism
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94. Ge issenberger. "Die Scb uh macherei in Le ipzig und Umgegend", p . 190. 108. Part i Communis te Fra nçais, Des FrclIIçais en qui la Prartte Peut A lloir
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and Shoemakil/g.. . IVilh a Description 01 th e Most Approved Machinery

Em ployed. Londres. 1885. Leno. em bora fos se gráfico por ofício e mau

poeta/declamador como passatempo. por mui to tempo esteve associado ao

ofício por se r proprietário e editor do periód ico SI . Crispil1 ; vei a seu The

Alterma/h : With Autobiography 01 lhe A ulhor. Lo ndres , 1892. Para um

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103. Garth Ch rist iall (O rg.). l ames Hawker's Toumal~ A Victorial1 Poaeher.
Oxrord . 1978. pp . 15. 16. Veja tam bém Ma nsfi eld. "Tohn Brown : A Shoema·
ke r's P Ince in Lando n · . pp . 130-1 , que cita as palavras de Tohn Brown em
1811 : • Assim que me estabeleci num local regular de trab alho. tornou-se
necessário que eu me associasse ao sindicaro Olt à ass embléia de oficina.
q ue é um acordo pa ra a manu tenção de preços'.
189
188

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