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Em A era das revoluções, Hobs-

bawm analisou o surgimento do na-


cionalismo, em suas vertentes bur-
guesa e popular, ambas filhas da "du-
pla revolução": a francesa e a indus-
trial. Já em A era do capital, Hobs-
bawm demonstrava como a revolução
de 1848 colocou o nacionalismo co-
mo protagonista central do panot'ama
político dali para a frente, junto com
a classe média, o liberalismo, a demo-
cracia política e as classes trabalhado-
ras. As grandes transformações ope-
radas na história entre 1875 e 1914,
demonstradas em A era dos impé-
rios, fizeram com que o declínio das
comunidades primárias das pessoas
- a aldeia, a família, a paróquia, o
bairro, a confraria - apelasse para a
"nação", como comunidade imaginá-
ria, a fim de preencher o vácuo.

-. I,,
Nações e nacionalismo desde
1780 representa a sistematização des-
?
se esforço por parte de Hobsbawm, a ,

partir de conferências realizadas em


Bdfast, que desemboca num balanço
do nacionalismo no final do século
xx. Hobsbawm destaca como, desde
a Segunda Guerra Mundial e especial-
mente desde os anos 60, as eCono-
mias nacionais têm sido questionadas
por uma nova divisão internacional
do trabalho, que inclui organizações
supranacionais acima do controle dos
governos. O desenvolvimento tecno-
lógico, a extensão do comércio inter-
nacional e a intensificação das mi-
grações internacionais aceleraram
essa tendência, que encontrou no fi-
nal da bipolarização mundial entre as
duas grandes superpotências sua
consolidação.
No entanto, quando tudo parecia
lndlnlc um debilitamento dos Esta·
do.'i-n;u;::10 c, com eles, da nação e do
nacionalismo, os conflitos do fim do
século apontam para um renascimen·
to dos proble m as nacionais , como se
e les não e ncontrassem mais as con·
tenções (b bipolarização internacio·
nal .
A seg uir 3ssim, a humanidade en·
trará no século XX I com a herança
dos pro blemas nacionais, cuja com·
preensão e ncontra nes ta obra de
Hobsbawm o seu melhor instrumen-
to, justamente para tentar evitar que
o enigma fique delegado a seres inter·
galácticos, já que a prática costuma
ser impied osa com os erros teóricos
dos h omens. E o que está em jogo não
é apenas a sobrevivência da nossa ca·
pacidade teódca, mas nossa própria
sobrevivência como humanidade.
Emir Sader

Nascido em Alexandria em 1917, E. J. Hobs·


bawm foi educado em Viena, Berlim, Lon-
drese Cambridge. Lecionou , na maiO( pane
de sua carreira , no 8 irbeck College. da Uni ·
\"CISidade de LondrC!..
o
o
o
D
E
o © E. j. Hohsbawm, 1990
o Traduzido do original em inglês Natians and NalWnalism
.lince 1780 - Programl1U!, ",ylh, "f'Ilality
""',
Pinky Walner
Capyde.sk
Mário Rogério Q. Moraes
Reui.sãQ
,
Marcelo N, Morales lndice
Carmen T. S. Costa
Ilv.slrof<iQ da capa.
Paul Klee
!tf=nklin Vi/lagB (Autumnal), 1934 (detalhe)
Oleo si madeira compensada, 70,4 x 54 em
Galeria Rosengart, Luceme

Dados de Catalogação na Publicação Internacional (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Hobsbawm, Eric l, 1917-
NaÇÕeS e nacionalismo desde 1780 : programa, mito e
realidade / EJ. Hobsbawrn : [tradução Maria Celia Paoli, Prefácio 9
Anna Maria Quirino). - Rio de Janeiro: paz e Terra, 1990. IntrodUfão 11
1. Movimentos de liberação nacional 2. Nacionalismo
3. Nações I. Título.
I. A nação como novidade:
CUU _"':/0.54
r -321.05 da revoluçào ao liberalismo 27
90-2060 L. -m.09 11. O pro to nacionalismo popular 63
índices para catálogo sistemático: 111. A perspectiva governamental 101
1. Liberação nacional: Movimentos: Ciência política ~21.09 IV. As transformações do nacionalismo: 1870-1918 125
2, Movimentos de liberação nacional: Ciência política ~21.09
~. Nadonalismo : Ciênda política :120.54 V. O apogeu do nacionalismo: 1918-1950 159
4. Nações! Ciênçia política 321.05
-\ VI. O nacionalismo no final do século XX 195
. ("-,;,-"
\ 'i \~ .~ '.- Direitos adquiridos pela
-" ,~~ EDITORA PAZ E TERRA Índice remissivo 219
Rua do Triunfo, 177
01212 - São Paulo/SP
Tel. (011) 225-6522
Rua São José, 90 - 11" andar
20010 - Rio de Janeiro/RJ
TeJ. (021) 221-4066
que se reserva a propriedade desta traduçào
\ ~ CoruelJw Editorial
y Antonio Candido
Fernando Gasparian
Fernando Henrique Cardoso

1991
Impresso no 13rasil/ Printed in Brazil
Prefácio

Este livro está baseado nas Conferências de WHes que tive a


honra de proferir na Universidade de Queen, em Belfast, em
maio de 1985, O lugar sugeriu o terna. O conteúdo um tanto
concentrado das quatro conferências previstas para o Professor
Visitante foi aqui desdobrado, por razões práticas. São agora cin-
co capíLulus de tamanho desigual, uma introdução e algumas re-
flexões conclusivas. O manuscrito foi também revisto, em parte
para dar conta do material que surgiu posteriormente c, sobre-
tudo, à luz das discussões com o grupo de especialistas convida-
dos, que é uma das maiores atrações das Conferências de Wiles
para aqueles afortunados o bastante em proferi-las. Sou grato a
todos os que organizaram as conferências e que tomaram parte
nas discussões, em particular a Perry Anderson, John Breuil1y,
Judith Brown, Ronan Fanning, Miroslav Hroch, Victor Kiernan,
Joe Lee, Shula Marks, Terence Ranger e Gõran Therborn, pelas
críticas e estímulos e, especialmente, por me levarem a pensar
sobre o nacionalismo não europeu. No entanto, concentrei·me
principalmerite no século XIX e no começo do século XX,
quando o assunto é bastante eurocêntrico ou, em qualquer caso,
centrado nas regiões "desenvolvidas~. Como faz algum tempo que
venho falando e interrogando sobre nações e nacionalismo, há
I muitas outras pessoas que me deram idéias, informações e refe-
I' rências de livros que, de outro modo, continuariam para mim
desconhecidas. Sob o risco de injustiça, destaco aqui KumariJaya·
I
9
wardene e outros estudiosos sul*asiáticos do World Institute for
Development Economics Research, de Helsinque, e meus colegas
e estudantes da New &hool for Social Research, de Nova York,
que ouviram e discutirmn parte deste material. Grande parte da
pesquisa feita para este livro foi possível graças a uma bolsa para
profess~res eméritos da Leverhulme, e gostaria de expressar meus
agradeCimentos ao Leverhuhne Trust pelo auxilio generoso assim Introdução
concedido.
~A questão nacional" é, notoriamente, um tema controverso.
Não procurei fazê-lo menos controverso. Espero, contudo, que
estas conferências, em sua forma impressa, possam fazer avançar
o estudo dos fenômenos históricos de que elas tentam dar conta.

Londres, 1989
Suponha-se que um dia., após uma guerra nuclear, um histo-
riador intergaláctico pouse em um planeta então morto para in-
quirir sobre as causas da pequena e remota catástrofe registrada
pelos sensores de sua galáxia. Ele, ou ela - poupo-me de especu*
lar sobre o problema da reprodução fisiológica extraterreslre - ,
consulta as bibliotecas e arquivos que foram preservados porque a
tecnologia desenvolvida do armamento nuclear foi dirigida mais
para destruir pessoas do que a propriedade. Após alguns estudos,
nosso observador conclui que os últimos dois séculos da história
humana do planeta Terra são incompreensíveis sem o entendi-
mento do tenno "nação" e do vocabulário que dele deriva. O
termo parece expressar algo importante nos assuntos humanos.
Mas o que, exatamente? Aqui está o mistério. Ele terá que ler
Walter Bagehot, que apresentou a história do século XIX como a
da "construção de nações", embora também tenha observado,
com seu habitual senso comum, que "sabemos o que é quando
não somos perguntados, mas não podemos rapidamente defini-Ia
ou explicá*la".l Isso pode ser verdade para Bagehot e para nós,
mas não para historiadores extragalácticos sem a experiência hu-
mana que parece fazer da idéia de "nação" algo tão convincente.
Graças i literatunl dus últimos quinze ou vinte anos, penso
que hoje seria possível dotar tal historiador com uma pequena
lista de leituras para ajudá*lo, ou ajudá-la, na busca de sua análise,
e também completar as referências contidas até aquela data em

11
"Nacionalismo: Um Relatório das Tendências e Bibliografia", de de leitura original. A principal razão para a obsolescénda de
A. D. Smith.z Não que se deseje recomendar muita coisa do que grande parte desse material é que a principal inovação do perío-
foi escrito nos periodos anteriores. Nossa lista de leituras incluiria do, a qual, aliás, foi antecipada pelos marxistas, tornou-se um
muito pouco do que foi escrito no periodo clássico do liberalismo lugar-comum _ exceto entre os nacionalistas. N nações, sabemus
do século XIX, por razões que devem ficar claras posteriormente, agora _ e não menos através dos esforços da era Hayes-Kohn -
mas também porque muito pouco foi escrito além da retórica não são "tão antigas quanto a história", como pensava Bagehot.8
racista e nacionalista. E o melhor material produzido na época foi Q sentido moderno da palavra não é mais velho que o século
pequeno, como as passagens pelo assunto feitas por ]ohn Stuart XVIII considerando-se ou não o variável período que o precedeu.
Mill em suas Considerações so/m o Guverno Representatioo e a famosa A litetatura a •..adêmica sobre o nacionalismo se multiplicou, em-
preleção de Emest Renan "O que é uma nação?".3 bora não tenha avançado muito nas décadas seguintes. Alguns
Nossa lista de leituras conteria alguns textos, tanto opcionais considerariam o trabalho de Karl Deutsch como uma das maiores
como historicamente necessários, provenientes do primeiro contribuições por sua ênfase no papel da comunicação na for-
grande esforço em conceber uma análise desinteressada do as- mação das nações, mas eu não reputaria esse autor como indis-
sunto: os importantes e subestimados debates dos marxistas da pensável. g
Segunda Internacional sobre o que chamavam de "a questão na- Também não é claro por que a literatura sobre nações e
cional". Veremos depois por que as melhores cabeças do movi- nacionalismo registrou uma fase tão frutifera vinte anos atrás, e
mento socialista internacional - e este continha intelectos ex- de fato a questão surge apenas para aqueles que acreditam que
tremamente poderosos - dedicaram-se a esse problema: para ci- assim foi. Este não é ainda um ponto de vista universalmente
tar alguns, Kautsky e Luxemburgo, Qtto Bauer e Lenin. 4 Prova- f'~tabelecido. Q problema será considerado no capítulo final,
velmente, nossa lista conteria alguma coisa de Kautsky, certa- embora sem grandes detalhes. Em qualquer caso, na opinião
mente Die Nationalitiilmfrage, de Otto Bauer, mas precisaria in- deste autor, o número de trabalhos que genuinamente iluminam
cluir Marxism and IM NatiDnal and Colonial Question, de Stalin, não a questão a respeito do que são nações e movimentos nacionalis-
tanto pelos seus méritos intelectuais, medíocres mas não despre- tas e qual seu papel no desenvolvimento histórico é maior no
zíveis - ainda que não sejam originais - , mas pela sua posterior período 1968-1988 do que em qualquer período anterior com o
influência política.5 dobro dessa duração. Q texto que se segue deve deixar claro quais
Em minha opinião, a lista não deveria conter muito do que desses trabalhos considero particularmente interessantes, mas
foi escrito na época daqueles que foram chamados de "os pais pode ser conveniente mencionar alguns títulos importantes entre
fundadores gêmeos" do estudo acadêmico do nacionalismo, após os quais o autor evita incluir - à exceção de um - seus próprios
a Primeira Guerra Mundial: Carleton B. Hayes e Hans Kohn. 8 trabalhos sobre o assunto. IO A seguinte lista concisa pode servir
Nada mais natural do que a atração exercida pelo assunto em como introdução ao tema. Está em ordem alfabética por autor,
uma época na qual o mapa da Europa estava sendo pela primeira exceto para o trabalho de Hroch, o qual abriu uma nova era para
- e única - vez redesenhado de acordo com o princípio da a análise da composição dos movimentos de libertação nacionais.
nacionalidade e quando o vocabulário do nacionalismo europeu Hroch, Miroslav, Social fucondiJiom of NalWnal &vival in Europe
veio a ser adotado pelos novos movimentos de liberação colonial (Cambridge, 1985). Este livro combina as descobertas de dois
ou afirmação tcrceiro-mundista, aos quau I Ians Kohn, ao menos, trabalhos publicados pelo autor em Praga, em 196A e 1971.
prestou considerável atenção. 7 Também não há dúvida de que os Anderson, Benedict, lmagimd Communitits (Londres, 198$).
escritos do período contêm uma massa de material tirada da lite- Armsrrong,].. Natil.ms befrm Nationalism (Chapel Hill, 1982).
ratura anterior, o que pode poupar aos estudiosos uma boa parte Breuilly,]., NatiDnalism and the Stau (Manchester, 1982).

12 13
f existên,~d_e n_açionalidade, o:t.t...t:k..~~pli<;.a_r--p-ºr _qll~ _ceI:tos grli-_
Cole,]ohn W. e Wolf, Eric R., 1M Hidden Frontier: Ecolog'j and Elh-
nicity in an Alpiru Valley (Nova York e Londres, 1974).
Fishman,]. (org.), lAngu~ Problems of Develaping Cauntria (Nova
York,1968).
I ~ se_ torn3I"am "~ªçª-es" ~ 0ll.tros --ºâo~~ntem..e.nteJ~raro ,
f~~se em critérios,simples como a ILng.ua_Q!1 ~ e~~~u.
f'.IIL..!J~Jom_hinasão __ d_e._ critf.riQ~_CO[D.O a Jíngua,_ o terrltOrtO
CDIIlM!!l. a histRria .c.0.!!l!!lQ, ,2s g~ÇQ!,.çultu~iJ, c.omuD.Le ou~os
Gellner, Ernest, Nations and Nationalism (Oxford, 198.3). ID<uSr-A definição de Stalin é provavelmente a mais conheCida
Hobsbawm, Ed. ]. e Ranger, Terence (orgs.), 1M Invenuon of entre essas tentativas, embora de modo nenhum seja a única.ll
TTaditWn (Cambridge, 1983) (trad. bras., A Invenção das TTadições, Todas as definições obieti~.ralharam pela óbvia razão de que,
paz e Terra, 1984). dado que ~as----alguns membros da ampla categoria de enti-
Smith, A. D., Themüs of Nationalism (2 1 ed., Londres, 1983). dades que se ajustam a tais definições podem, em qualqu~r
Szucs,]enõ, Nation UM G!schichu: Sludien (Budapeste, 1981). tempo, ser descritos como "nações", sempre é possí~e_1 des::ob~Ir
Tilly, C. (arg.), Tk Fonnation of National S/ates in WesLem EUTofM exceções. Ou os casos que correspondem à defimçao nao s~o
(Princenton, 1975). (ou não são ainda) "nações" nem possuem aspirações nacionaiS,
A estes não posso deixar de acrescentar um brilhante ensaio ou sem dúvida as "nações" não correspondem aos critérios ou à
escrito com a identificação subjetiva com uma unaçâo", mas com sua combinação. Na verdade, como poderia ser diferente, já que
um raro senso de sua maleabilidade e contexto histórico: Gwyn A. estamos tentando ajustar entidades historicamente novas, emer-
i
Williams, "When was Wales?", no livro desse autor The Welsh in gentes, mutáveis e, ainda hoje, longe de ~re~ univ?rsais ~m \lO;
theiT History (Londres e Camberra, 1982). quadro de referência dotado de permanencla e umversahdade.
A maior parte dessa literatura centrou-se na questão: o que é Além disso, como veremos, os critérios usados para esse ob-
uma (ou a) nação? Pois a principal característica desse modo de jetivo _ língua, emicidade ou qualquer outro - são em si mes-
classificar grupos de seres humanos é que - apesar da alegação, mos ambíguos, mutáveis, opacos e tão inúteis para os fins de
daqueles que pertencem a uma nação, de que ela é, em alguns orientação do viajante quanto o são as formas das nuvens se
sentidos, fundamental e básica para a existência social de seus comparadas com a sinalização de terra. É claro que isso os tornou
membros e mesmo para a sua identificação individual- nenhum excepcionalmente convenientes para propósitos propagandísticos
critério satisfatório pode ser achado para decidir quais das muitas e programáticos e não para fIOS descritivOs. Um exemplo d?_ ~so
coletividades humanas deveriam ser rotuladas desse modo. Isto nacionalista de tal defmição "objetiva" na política recente astat.lca
não é surpreendente em si mesmo, pois, se olharmos "a nação" pode deixar clara essa afirmação:
como um fenómeno muito recente na história da humanidade e
produto de conjunturas históricas particulares necessariamente Os povos que falam tamil, no Ceilão, constituem uma nação ~stin­
regionais ou localizadas, era de se esperar que ele ocorresse, ta da dos cingaleses pelos testes mais fundamentais da existênCIa.de
como inicialmente o foi, mais em umas poucas colônias de povoa- nações; em primeiro lugar. aquele de um pas:;ado histórico dIfe-
mento do que em uma população genericamente distribuída s0- renciado, na ilha, pelo menos tão antigo e glorio.so quanto o dos
bre o território mundial. O problema, no entanto, é que não há cingaleses (sic) e em segundo lugar pelo f.l.to de constituírem uma
entidade lingüística inteiramente distinta da dos cingaleses, com
meio de informar o observador como distinguir a prWri uma na-
uma insuperável herança clássica e um desenvolvimento moderno
ção de outras entidades, da mesma maneira como podemos infor-
da língua, que faz o tâmil ser uma língua inteiramen~ adequad~
má-Ia como reconhecer um pássaro ou distinguir um rato de um para as presentes necessidades e, finalmente, pela razao de habI-
lagarto. A observação de nações seria mais simples se pudesse ser tarem ãreas territorialmente definidas. 11
semelhante à obsenração de passarinhos. O objetivo dessa passagem é claro: demandar autonomia ou
Aª tentativ~c!.~ se~s~J!ele~er~11uriJtri9S_Q.bj~.tivO_U9bre ~
15
14
independência para uma área descrita como "'um terço da ilha" Ambas são tentativas evidentes de se escapar da compulsão do
de 8ri Lanka, sobre as bases do nacionalismo tâmil. Ela obscurece objetivismo a prWri, adaptando, de forma diferente em ambos os
o fato de que a habitação territorial consiste de duas áreas, geo- casos, a defrnição de "nação" a territórios nos quais pessoas com
graficamente separadas, habitadas por pessoas de diferentes ori- diferentes línguas ou outros critérios "objetivos" coexistem, como
gens que falam tâmil (a população nativa e a recente imigração na França e no Império Habsburgo. Ambas as definições são su-
de trabalhadores indianos, respectivamente); que a área de jeitas à objeção de que defrnir uma nação peJa consciência que
povoamento tâmil contínua é também, em certas zonas, habitada têm seus membros de a ela pertencer é tautológica e fornece
por algo equivalente a um terço dos cingaleses e a aproximada- apenas um guia a posteri.ori sobre o que é uma nação. Além disso,
mente 41 % de pessoas que falam tâmil mas que se recusam a se pode levar os incautos a extremos do voluntarismo para o qual
identificar como tâmeis, preferindo a identidade de muçulmanos tudo o que é necessário para criar ou recriar uma nação é a
(os "mouros"). De fato, mesmo deixando de lado a região central vontade de sé-la: se um número suficiente de habitantes da ilha
dos imigrantes, não é nada claro que o território de maior povoa- de Wight quiser ser uma nação wightiana, lá haverá uma nação.
mento contínuo tâmil (que vai de 71 % a 95% - Batticaloa, Embora essa atitude tenha levado a algumas tentativas de
Mullaitivu, Jaffna) e as áreas em que tâmeis auto-identificados construir nações através de processos de conscientização, especi-
constituem 20% ou 33% da população (Amparai, Trincomalee) almente desde os anos 60, observadores sofISticados como Otto
possam ser descritas como um único espaço, exceto em termos Bauer e Renan sabiam muito bem que as nações possuíam tam-
puramente cartográficos. De fato, nas negociações que levaram ao bém elementos objetivos comuns. No entanto, insistir na cansei-
fim da guerra civil de 8ri Lanka em 1987, a decisão de assim . ência ou na escolha como o critério da existência de nações é
proceder foi uma concessão política direta para os nacionalistas subordinar sem discernimento os muitos modos pelos quais os
Limeis. Como vimos anteriormente, a "entidade lingüística" es- seres humanos se definem e se rede6nem como membros de
conde o fato inquestionável de que tâmeis indígenas, indianos, grupos a uma opção única: a escolha de pertencer a uma "na-
imigrantes e mouros são - até agora - uma população homogê- ção" ou a uma "nacionalidade". Política ou administrativamente,
nea apenas no sentido filológico, e provavelmente, como vetemos essa escolha deve hoje ser feita pela condição de se viver em
ainda, nem sequer neste sentido. Quanto ao "passado histórico Estados que fornecem passaportes ou inquirem sobre línguas
distinto", a frente é quase certamente anacrônica, problemática e em censos. Mesmo hoje, entretanto, é perfeitamente possível
tão vaga que chega a ser sem sentido. S:eguramente, pode-se ol>. para uma pessoa que vive em 810ugh pensar em si mesma, de-.
jetar que manifestos abertamente propagandísticos não deveriam pendendo das circunstâncias, como - digamos - um cidadão
ser inquiridos como se fossem contribuições às ciências sociais, britânico, ou (diante de outro cidadão de cor diferente) como
mas o fato é que quase toda classificação de alguma comunidade um indiano, ou (diante de outros indianos) como um gujarati,
como "nação", com base em tais critérios significativamente ob- ou (diante de indianos ou muçulmanos) como um jain, ou
jetivos, seria suscetível de objeções semelhantes, a menos que o como membro de uma casta particular ou de uma rede de pa-
fato de ser uma "nação" pudesse ser estabelecido em outras bases. rentesco, ou como alguém que em casa fala hindi e não gujarati,
Todavia, quais outras bases? A alternativa para uma defini- ou ainda de muitos outros modos. Na verdade, também não é
ção objetiva de nação é uma definição subjetiva, seja ela coletiva possível reduzir nem mesmo a "nacionalidade" a uma dimensão
(seguindo a frase de Renan: "uma qação é um plebiscito diário"), única, seja política, cultural ou qualquer outra (a menos, é certo,
seja individual, à moda austro-marxista de se considerar a "nacio- que se seja obrigado a isso pela fura majeure dos Estados). Há
nalidade" como passível de aderir às pessoas, onde elas vivessem pessoas que podem identificar-se como judeus mesmo que não
ou com quem vivessem, sobretudo se estas decidissem exigHa. H partilhem da religião, língua, cultura, tradição, herança histórica.

16 17

padrões grupais de parentesco ou de uma atitude em· relação ao


Estado judeu. Do mesmo modo, isso não implica uma defmição qualquer tipo. Esta implicação distingue o nacionalismo moderno
puramente subjetiva da "nação". de outras formas. menos exigentes, de identificação grupal ou
Assim, nem a definição subjetiva nem a objetiva são satisfató- nacional, as quais também discutiremos;
rias, e ambas são enganosas. Em qualquer caso, o agnosticismo é a 2. como a maioria dos estudiosos rigorosos, não considero a
mellior postura inicial de um estudioso nesse campo, e portanto "nacão" como uma entidade social originária ou imutável. A "na-
este livro não possui uma definição a priori do que constitui uma ção" pertence exclusivamente a um período particular e histori-
nação. Como hipótese inicial de trabalho, trataremos como nação camente recente. Ela é uma entidade social apenas quando relaci-
qualquer corpo de pessoas suficientemente grande cujos mem- onada a uma certa forma de Estado territorial moderno, o "Esta-
bros consideram-se como membros de uma "nação". No entanto, do-nação"; e não faz sentido discutir nação e nacionalidade fora
não se pode estabelecer se esse corpo de pessoas considera-se ou desta relação. Além disso, com Gellner, eu enfatizaria o elemento
não dessa maneira simplesmente consultando escritores ou porta- do artefato, da invenção e da engenharia social que entra na
vozes políticos de organizações que demandam o statUj de "na- formação das nações. "As nações postas como modos naturais ou
ção" para aquele corpo. O aparecimento de um grupo de porta- divinos de classificar os homens, como destino político ... ine-
vozes de alguma "idéia nacional Hnão é insignificante, mas a pa- rente, são um mito; o nacionalisl!!Q, que às vezes toma culturas
lavra "nação" é atualmente usada de forma tão ampla e imprecisa preexistentes e as transforma em nações, algumas vezes as inventa
que o uso do vocabulário do nacionalismo pode significar, hoje, e frequentemente oblitera as culturas preexistentes: isto é uma
muito pouco. realidade. "111 Em uma palavra, para os propósitos da análise, o
Todavia, ao abordar a "questão nacional", "é mais profícuo nacionalismo vem antes das nações ..~SQ~~_ não JOrrI).~_ºs_
começar com o conceito de 'nação' (isto é, com 'nacionalismo') Estados_e os nacionalismos, mas sim o oposto;
do que com a realidade 'que ele representa". Pois "a 'nação', tal 3. a "questão nadonal", como os velhos marxistas a chama-
como concebida pelo nacionalismo, pode ser reconhecida proSo vam, está situada na intersecção da polítiça, da tecnologia e da
pectivamentei mas a 'nação' real pode ser reconhecida apenas a transformação social. As nações existem não apenas como funções
posteriori".14 É essa a abordagem deste livro. Uma abordagem que de um tipo particular de Estado territorial ou da aspiração em
concede atenção particular às mudanças e às transformações do assim se estabelecer - amplamente fulando, o Estado-cidadão da
conceito, especialmente em relação ao fim do século XIX. ÇQn: Revolução Francesa - , como também no contexto de um estágio
ceitos. certamente, não são parte de discursos fIlosóficos flutuan- particular de desenvolvimento econômico e tecnológico. A maioria
tes, mas são histórica, social e localmente enraizados e, portanto, dos estudiosos, hoje, concordaria que línguas padronizadas nacio-
devem ser explicados em termos destas realidades. nais, faladas ou escritas, não podem emergir nessa fonna antes da
De resto, a posição do autor pode ser sumarizada no se- imprensa e da alfabetização em massa e, portanto, da escolarização
guinte: em massa. Já foi, inclusive, mostrado que a capacidade de o italiano
1. uso o termo "nacionalismo" no sentido definido por Gell- popular falado ser um idioma capaz de expressar toda a extensão
das necessidades de uma língua do século Xx, fora da esfera de
ner, ou seja, significando "fundamentalmente um princípio que
sustenta que a unidade política e nacional deve ser congruenteH.l~ , çomunicação doméstica e pessoal, está sendo construída hoje ape-
Agregaria a esse princípio a implicação de que o dever político nas como uma função das necessidades de programação da televi-
dos ruritânios à organização política que abrange e representa a são nacional. 1 ? As nações e seus fenômenos associados devem,
nação ruritânia supera todas as outras obrigações públicas e, em portanto, ser analisados em termos das condições econômicas, ad-
casos extremos (como guerras), todas as outras obrigações de ministrativas, técnicas, políticas e outras exigéncias;
4. por essa razão as nações são, do meu ponto de vista,
18
19
fenômenos duais, Ç!!nstruídos e~~~ial~ente_ P~Jº__~Jo, mas q~ não mencionar o nacionalismo irlandês. Por outro lado, houve
ruu~~~nto. Qão po:dem ser compreeQdid~ sem ser analisa(l~ _de, nos anos recentes um grande desenvolvimento no estudo de m.,
baixo, ou seja. em tennos das suposições, esperanças, necessida- vimentos nacionais que aspiram a ser Estados, seguindo princi-
d~s. -aspirações e interesses das pesso~!=.9_I!l~rl_Sl as quais não são palmente os inovadores estudos comparativos de Hroch sobre os
necessariamente nacionais e menos ainda nacionalistas. Se eu te- pequenos movimentos nacionais europeus. Incorporo dois pontos
nho uma critica séria ao trabalho de Gellner é sobre sua prefe.- da análise desse excelente escritor. O primeiro é que a "f.Q!!!Q-
rência pela perspectiva da modernização pelo alto, o que toma ência naci~nal" se desenvolve d«!>igualmt;n!e ~entre os grupos e
dificil uma atenção adequada à visão dos de baixo. regiões_socia~~_~~I!l~~~ essa diversidade regional e suas razões
Essa visão ~e_ baixo, isto é, a nação vista não por governos, foram notavelmente esquecidas no passado. A propósito, a mai.,
porta.-vozes ou ativistas de movimentos nacionalis~s (ou ~ão na- ria dos estudiosos concordaria que, qualquer que seja a natureza
çionalistas), mas sim pelas ptl!!:º~_l:omº---n! qUE! ~o º- objeto de dos primeiros grupos sociais capturados pela "consciência naci.,
sua açãº_!;._p-rQ~~daJ é _exJrerIE~~e_rtte _difíc~tde ~r de$coberta, nal~, as massas populares - trabalhadores, empregados, camp"
Felizmente, os !'tis!9nado.r~s_~Q~iª-i~ aprenderam como investigar a neses - são as últimas a serem por ela afetadas. Segundo, e em
história das idéias, das opiniões e dos sentimentos {lO plano suQ:- conseqüência, sigo a útil divisão de Hroch da llistória qQ)! moyj-
lj~..9.. de modo que hoje estamos mais seguros de não co~­ ~n!9~-ª-c~onlli!!. em três fases. A fase A. que se desenvolveu na
fundir _ como os historiadores habitualmente faziam - os edI- Europa do século XIX, foi puramente cultural, literária e folcló-
toriais de jornais escolhidos com a opinião pública. Com certeza, rica, sem implicações políticas particulares e mesmo nacionais,
ainda não sabemos muito. Todavia, três coisas estão claras. tanto quanto as pesquisas (feitas por nã.,romenos) da Gypsy Lore
Primeiro, as ideologias oficiais de Estados e movimentos ?ão Society para os sujeitos pesquisados. Na fase B, encontramos um
são orientações para aquilo que está nas mentes de seus segUld~ conjunto de pioneiros e militantes da "idéia nacional" e o começo
res e cidadãos, mesmo dos mais leais entre eles. Segundo, e maIS das campanhas políticas em prol dessa idéia. O principal corpo
especificamente, não podemos presumir que, ~ara a maior~ ~ do trabalho de Hroch se refere a essa fase e à análise das origens,
pessoas, a ~(ica~ ~acio!!at - quando eXlste - exclUl ou e composição e distribuição dessa mirwriti agissante. Minha preocu-
sempre superior ao restante do conjun~o de, iden~ficaç~s qu: pação no presente livro é mais com a fase C, quando os progra-
constituem o ser social. Na verdade, a Identificaçao naCional e mas nacionalistas adquirem sustentação de massa - e não antes
sempre combinada com identificações de outro tipo, mesmo - ou, ao menos, alguma das sustentações de massa que os naci.,
quando possa ser sentida como superior às ~utras. T~rce~o, a nalistas sempre dizem representar. A transição da fase B para a
ideptificaçãct gaçio_!lal, e tudo o que se acredita nela unphca~o fase C é, evidentemente, um momento crucial na cronologia dos
pode mudar e deslocar-se no tempo, mesmo em períodos mUlto movimentos nacionais. Algumas vezes, como na Irlanda, ocorre
curtos. Em meu julgamento, esta é hoje uma área dos estudos antes da criação de um Estado nacional; mas, provavelmente,
nacionais na qual se" precisa urgentemente de reflexão e pesquisa; ocorre com muito mais freqüência depois, como uma conseqüên-
5. o desenvolvimento d~ nacõell e dO.Jla1=lOnalislllo em_Et: cia dessa criação. Outras vezes, como no assim chamado Terceiro
lados longamente estabelecidl:» J;omo a Grã-Bretanha e a França Mundo, a transição não ocorre nem mesmo então.
18
não foi estudado intensivamente, embora hoje chame a atenção. Finalmenu, não posso deixar de acrescentar que nenhum
Constata-5e essa ausência pelo desprezo, na Grã-Bretanha, por historiador sério das nações e dos nacionalismos pode ser um
quaisquer problemas relacionados ao nacionali~mo in~lês - um nacionalista político comprometido, a não ser no mesmo sentido
termo que, em si mesmo, soa estranho para mUitos OUVidos - , se em que os crentes na verdade literal das Escrituras, os quais, mes-
comparado com a atenção que se dá aos escoceses e galeses, para mo incapazes de contribuir para a teoria evolucionista, não estão

20 21
excluídos de fazer contribuições à arqueologia e à filologia semí-
tica. O nacionalismo requer muita crença naquilo que, obviamen-
te, não é assim. Como disse Renan, "o erro histórico é parte da
fonnação de uma nação".19 Historiadores estão profissionalmente
obrigados a não compreender a história de modo errado, ou ao
NOTAS
menos fazer um esforço. Ser irlandês e orgulhosamente ligado à
Irlanda _ ser mesmo orgulhosamente católico irlandês ou pr~
testante-d~Ulster irlandês - não é, em si mesmo, incompatível
com o estudo rigoroso da história da Irlanda. Já ser um feniano·
1. Walter Bagehot, Physics and Politics (Londres, 1887), pp. 20-21.
ou um OTangeman, ** em minha opinião, não é assim tão compatí- A. D. Smith, "Nacionalism, A Trend Report and Bibliography·, in
2.
vel, ou tanto quanto um sionista é compatível com a escrita de Current SociokJgy, XXI/3, Haia e Paris, 1973. Ver também as biblio-
uma história genuinamente séria dos judeus; a menos que o his- grafms do mesmo autor in Theorie5 01 Nalioruzlism (Londres, 2' ed.,
toriador abandone suas convicções quando entra em uma bibli~ 1983) e TheElhnic Origins olNalions (Oxford, 1986). Atualmente o
teca ou quando faz sua pesquisa. Alguns historiadores nacionalis- professor Anthony Smith é o principal guia nesse campo, para lei-
tas foram incapazes de fazê-lo. Felizmente, ao começar a escrever tores de língua inglesa.
este livro, não precisei deixar minhas convicções não históricas de ,. Ernest Renan, Q}I,'est-ctf que "e5t une Nation? (Conferência feita na
lado. Sorbonne em 11.~.lB82) (Paris, 1882); lohn Stuart Mill,
Consideration5 on Repre5tnUltivt Gavemment (Londres, 1861), capo XVI.
4. Para uma introdução conveniente, incluindo uma seleção de escritos
dos principais autores marxistas da época, George Haupt, Michel
Lowy e Claudie Weill, Le5 Marxistes t la Question Nationak 1848-1914
(Paris, 1974). Otto Bauer, Die Nationalitãttnfragt und die
Sozialdcmokmtit (Viena, 1907; a 2~ ed., de 1924, contém uma nova
introdução importante), inexplicavelmente parece que não foi tra-
duzido para o inglês. Para um apanhado recente, Horace B. Davis,
T01J!(lrd a Theury olNalionalism (Nova York, 1978).
5. O texto de 1913 foi publicado junto com outros escritos posteriores
inJosef Stalin, Marxism and the Natioruzl and Coúmial Queslion (Lon-
dres, 1936), em um volume que teve considerável influência inter-
nacional, especialmente no mundo colonizado.
6. Carleton B. Hayes, The llistorical Evolution 01 Modem Natioruzusm
~Nova. ~ork, 1931), e Hans Kohn, TM ldea oINaliona!ism. A Study in
ds Origtn5 and Background (Nova York, 1944), contêm material hilr
tórico valioso. A expressão "pais fundadores· vem de um estudo
fundamental de história filológica e conceitual de A. Kemilãinem,
... Feniano: membro de uma irmandade secreta revolucionária Irlandesa Nalwnalism. Problzms Concerning lhe World, lhe Conupt and ClasS1.'fication
estabelecida em Nova York em 1858, com o objetivo de libertar a Irlanda do jugo Uyvãskylã, 1964).
inglês. (N.T.) 7. Ver HisWry 01 Natwruzlism in East (Londres, 1929); Nationalism and
.... ~ membro de uma :lÜciedade secreta instituída no Norte da Irlanda
em 1795 para sustentar a ascendência e a religião prote$lante. O nome vem de lmpmalism in IM Hiller East (Nova York, 1932).
Guilherme 111 da Inglaterra, príncipe de Orange. (N.T.)

23
22
8. Bagehot, Physics and Politics, p. 83. 18. ~ara a li.nha desse tra~alho, v~~ Raphael Samuel (org.), Patriotism,
9. Karl W. Deutsch, Nalionalism and Social Communicalion. An Enquiry 'lu Mahlng and Unmaklng of BrillSh Nationalldmtit'j (3 vols Londr
into theFoundaliom ofNatwnali/'j (Cambridge,:MA, 1953). 19~9). Penso que o trabalho de Linda Colley seja parti~~lannene~
10. São estes, em acréscimo aos capítulos em questão, in TM Agt of estImulante,
. .a exemplo
. de ~Whose nation? CI'" _ ~'nd natIona
' I
Revolutwn 1789-1848 (1962), The Age of Capiea11848-1875 (1975) e conSClOuness In Bntains 1750-1830 ft (Past & Pri!Senl II 3 1986)
TM Age of Empire 1875-1914 (1987) [trad. bras. A Era das &voluçje.s, 96-117. ' , , pp.
1789-1848, A Era M Capila~ 1848-1875 e A Era dos Impmos, 1875- Qu'tst ~ ást une Nation'., pp.7-8'
19. Emest
ê Renan,
' . "L'oubl'leJe , d'rral,
1914, paz e Terra, respectivamente 1971, 1977 e 1989): "T'he attitude :. me I ez:reur historique, sont um facteur essentiel de la fonnation
of popular classes towards national movements for independence", une natJon el c'est ainsi que le progrés des études historiques est
in Commission Intemationale d'Histoire des Mouvements Sociaux et souvent pour la nationalité un danger".
Structures Sociales, Mouvfflltnts Nationaux d'Indipendenu et Classes
Populaires aux XI~ el XX' Si~cUs en Occident ti en Qrim!, 2 vols. (Paris,
1971), vol. I, pp. 34-44, ''Some reflections on nationalism", in T. J.
Nossiter, A. H. Hanson, Stein Rokkan (orgs.), Imagina/ion and
Precision in lhe Social Sciences: Essa'jS in Memory of Peter Nettl (Londres,
1972, pp. 385406); "Reflections on 'The Break-Up ofBritains'~ (New
Left Review, 105, 1977); "What is the worker's counuy?" (cap. 4 do
meu Worlds of Labour, Londres, 1984); "Working-class
intemationalism", in F. van Holthoon e Marcel van der Linden
(orgs.), Internationalism in IM LalxYur Movement (Leiden-Nova York-
Copenhague-<:::olônia, 1988, pp. 2-16).
11. "Uma Nação é uma comunidade desenvolvida e estável, com lin-
guagem, território, vida econômica e caracterização psicológica ma-
nifestos em uma comunidade cultural." Josef Stalin, Man:ism and lhe
National and Colonial Qtusti07l, p. 8. O original foi escrito em 1912.
12. Ilankai Tamil Arasu Kadchi, 'The case for a federal constitution for
Ceylon", Colombo, 1951, ciL in RobertN. Keamey, "Ethnic conflict
and the Tamil separatist movement in Sri Lanka" (Asian Suruey, 25,
9.9.1985, p. 904).
13. Karl Renner comparou especificamente a associação nacional do
indivíduo com sua associação a uma fé religiosa, isto é, um stalus,
"por direito, escolhido livremente pelo indivíduo que atingira a
maioridade ou, no caso do interesse dos menores, por seus represen-
tantes legais". Sumário, S/aal undNation (Viena, 1899), pp. 7 e segs.
14. E.J. Hobsbawm, ~Some reflections on nationalism", p. :ss7.
15. Emest Gellner, Nalwm and Nationalism, p. 1. Essa. definição basica-
mente política também é aceita por alguns outrOS autores, a exem-
plo de John Breuil1y, Nalionalism and tM State, p. 3.
16. Gellner, Naliom and Nationalism, pp. 4849.
17. Antonio Sorella, "La televisione e la Iingua italianaft (Trimesln',
Pniodico di Cultura, 14, 2-3-4 (1982), pp. 291-~0.

24 25
I

A nação como novidade:


da revolução ao liberalismo

A característica básica da nação moderna e de tudo o que a


ela está ligado é sua modernidade. Isso, agora, é bem compreen-
dido, embora a suposição oposta - a de que a identificação
nacional seja tão natural, fundamental e permanente a ponto de
preceder a história - ainda seja tão amplamente aceita que talvez
seja útil esclarecer a modernidade do vocabulário a respeito do
assunto. O Dicionário da Real Academia Espanhola, cujas várias
edições foram pesquisadas com esse objetivo,' não usa a termin~
logia de Estado, nação e língua no sentido moderno antes de sua
edição de 1884. Aí, pela primeira vez, aprendemos que a lengua
nacional é "a língua oficial e literária de um país e, à diferença de
dialetos e línguas de outras nações, é a língua geralmente falada",
A mesma relação é estabelecida no verbete "dialeto" entre este e a
língua nacional. Antes de 1884, a palavra nación significava sim~
plesmente "o agregado de habitantes de uma província, de um
país ou de um reino" e também "um estrangeiro". Mas agora era
dada como "um Estado ou corpo político que reconhece um cen~
tro supremo de governo comum" e também "o território constituí.
do por esse Estado e seus habitantes, considerados como um
todo" - e, portanto, o elemento de 11m Estado comum e supre-
mo é central a tais definições, pelo menos no mundo ibérico. A
nación é o "co!1iunto de los habitantes de um país regido por 11n
mismo gobierno" (grifos meus).~ Na recente Enciclapédia Brasileira

27
Mérito, ~ a nação é "a comunidade de cidadãos de um Estado, vi- atribuir o rótulo de "Estado-nação". De qualquer maneira, pode-
vendo sob o mesmo regime ou governo e tendo uma comunhão se duvidar de que a Grã-Bretanha ou a França do século XVIII
de interesses; a coletividade de habitantes de um território com fossem "Estados-nações~ em sentido muito diferente. Portanto, o
tradições, aspirações e interesses comuns, subordinados a um poder desenvolvimento de seu vocabulário específico pode ter interesse
central que se encarrega de manü:r a unidade dn grupo (grifos meus); o geral.
povo de um Estado, excluindo o poder governamental~. Além Nas línguas românicas, a palavra "nação" é vernácula. Em
disso, no Dicionário da Academia Espanhola, a versão final de outras línguas, quando é usada, é um empréstimo estrangeiro.
"nação~ não é encontrada até 1925, quando é descrita como "a Isso nos permite traçar as distinções no seu uso de modo mais
coletividade de pessoas que têm a mesma origem étnica e, em claro. Assim, no alemão culto e no vulgar, a palavra Voik {povo)
geral, falam a mesma língua e possuem uma tradição comum~. tem hoje claramente as mesmas associações que as palavras deriva-
Gomemo, o governo, não foi, portanto, ligado ao conceito de das de "natw", ~.interação é complexª_. No alemão vulgar
nación até 1884. Na verdade, como a filologia poderia sugerir, o medieval, o termo (natu), quando usado - e pode-se pressupor,
primeiro significado da palavra "nação" indica origem e descen- a partir de sua origem latina, que ele era dificilmente usado a não
dência: "naissance, extraction, rang' para citar um dicionário fran- ser entre os literatos e pessoas de extração real, nobre ou senhori-
cês antigo que cita a frase de Froissart, "je Cus retourné au pays de al - , não tem ainda a conotação de Valh, que foi adquirida ape-
ma nation en la conté de Haynnau" (Eu retornei à terra de meu nas no século XVI. Como no francês medieval, significa nascimen-
nasciment%rigem, no condado de Hainault).4 E, na medida em to ou grupo de descendência (Gesch1echf).5
que a origem ou descendência estão ligadas a um corpo de ho- Como em outros lugares, a palavra desenvolveu-se para des-
mens, este dificilmente poderia ser aquele que formou um Estado crever grandes grupos fechados, como guildas e outras corpora-
(menos no caso dos dirigentes e seu clã). Na medida em que ções, que necessitavam ser diferenciados de outros com os quais
ligado a um território, esse corpo de homens apenas fortuitamen- coexistiam: daí as "nações" aparecerem como sinônimo de estran-
te seria uma unidade política, e nunca muito grande. Para o dicio- geiro, como no espanhol, as "naç?es" de mercadores estrangeiros
nário espanhol de 1726 (primeira edição), a palavra pátria ou, no ("comunidades estrangeiras, especialmente de comerciantes, vi-
uso mais popular, tierra, "a pátria", significava apenas "o lugar, o vendo em uma cidade e nela gozando de privilégios");6 as famili-
município ou a terra onde se nascia", ou "qualquer região, pro- ares "nações" de estudantes nas antigas universidades. Daí tam-
víncia ou distrito de qualquer domínio senhorial ou Estado", Este bém o menos familiar "regimento para a nação de Luxemburgo".7
sentido estreito de pátria, que foi diferenciado do sentido lato do Contudo, parece claro que a evolução da palavra tenderia a des-
termo no espanhol moderno como palria chica, "a pequena pá- tacar o lugar ou o território de origem - o pays nalal de uma
tria" é bastante universal antes do século XIX, exceto entre as antiga definição francesa que rapidamente se tornou, ao menos
pess~ cultas com conhecimento da Roma antiga. Até 1884, a na cabeça dos últimos lexicógrafos, o equivalente a "província",B
tinTa não era vinculada a um Estado; e até 1925 não ouvimos a enquanto outros enfatizam o grupo de descendência comum,
nota emocional do patriotismo moderno, que define pátria como movendo-se portanto na direção da etn-icidade, como na insis-
"nossa própria nação, com a soma total de coisas materiais e ima- tência holandesa a respeito do significado fundamental de natú
teriais passadas, presentes e futuras, que gozam da amável leal- como "a totalidade de homens que se supõe pertencer ao mesmo
dade dos patriotas". Certamente, a Espanha do século XIX não stam".
estava exatamente na vanguarda do progresso ideológico, embora De qualquer modo, continua intrigante o problema da rela-
Castela _ e nós estamos falando da língua castelhana - fosse um ção dessa "nação" vernácula, mesmo tão alargada, com o Estado,
dos primeiros reinos europeus ao qual não é totalmente inexato pois parece evidente que, em termos étnicos, lingüísticos e outros,

28
na maioria, os Estados, qualquer que fosse seu tamanho, não
eram homogêneos e portanto não poderiam ser simplesmente l!ict~onnary, já sublinhava isso ao indicar, em 1908, que .0 velhQ
equalizados com as nações. O dicionário holandês especifica- sl~llficado da palavrlLSontemp:lava princi~mente ~----.!!..l!.i~ade ét-
mente destaca, como um,a peculiaridade do francês e do inglês, o n~ca,.~.~~_s~_!:..ecente indicasse Qlais.:~~ão de_in~
fato de estes usarem a palavra "nação~ para designar pessoas quI'; ~n.!=~.~~ uni<!ade política", 11
pertencem a um Estado, mesmo que não falem a mesma língua. 9 Dada a .!lID'idad~ hisróric~ do._ conceito moderno de "na-
Uma discussão muito instrutiva a respeito desse enigma vem da ção", sugiro que o melhor modo de entender sua ~atur;~~ é
Alemanha do século XVIIL'° Em 1740, para o enciclopedista Jo- seguir aqueles que, sistematicamente, começaram a operar Com
hann Heinrich Zedler, i! nacão, em gu sentido realmente..Qrigi-" esse conceito em seu discurso político e social durante a Era das
~i1i_c!!Yª, um !!.ú.m~rº-.!!njº9....!k B...ürger. (na Alemanha da' Revoluções, especialmente a partir de 1830, com o nome de
metade do século XVIII, é melhor deixar esta palavra com sua "~rincípio da nacionalidade". Esta digressão na Begriffsgeschichle
notória ambigüidade), ~is.._lm~ti!h!lYruP-_.Ym_J;;m:po. de c.os.tu- nao é fácil de ser feita, parte porque, como veremos, os contem-
rne5......yalores e leis. Disto~se se~--sue a palavra não EQd,t t<;X porâneos se davam pouca conta do uso de tais palavras, e parte
,§~ficado ter_r:i-J:~~_Q.s_[ll~!llbros__~_. dife!:~!!te~_ I1a- porque a mesma palavra podia significar simultaneamente coisas
>.;ões (divididos por "diferenças nos modos de vida - Lebensarten muito diferentes.
- e costumes~) ~vivexj!!.'!tos em uma mesmª---p-royínc~, O significado fundamental de "nação", e também o mais
por-p-e..!l-u~na_qu_e es~los~ Se as nações tivessem uma conexão freqüentemente ventilado na literatura, era político. Equalizava
intrínseca com o território, os wends* da Alemanha teriam que ~o povo" e o Estado à maneira das revoluções francesa e america-
ser chamados de alemães, o que eles patentemente não são. O na, urna equalização que soa familiar em expressões como "Esta-
exemplo vem naturalmente à mente de um estudioso saxão, fami- do-n~ção", "Nações Unidas" ou a retórica dos últimos presidentes,
liar com a última - e ainda sobrevivente - população eslava da do seculo XX, Nos EUA, o discurso anterior preferia falar em
Alemanha lingüística, à qual ainda não lhe ocorreu rotular com o "povo", "união", "confederação", "nossa terra comum", "público",
problemático termo "minoria nacional". Para Zerller, a palavra "bem-estar público" ou "comunidade", com o fim de evitar as
que descreve a totalidade das pessoas de todas as "nações~, viven- implicações unitárias e centralizantes do termo "nação" em rela-
do em urna mesma província ou Estado, é Volck. Todavia - e ção aos direitos dos estados federados. a Na era das revoluções
tanto pior para a precisão terminológica - na prática o termo fazia parte ou cedo se tomaria parte do conceito de nação qu~
"nação" é freqüentemente usado no mesmo sentido que "Volch~; esta deveria ser "una e indivisa", como na frase francesa. l ' Assim
às vezes como sinônimo de "estamento" da sociedade (Stand, urdo) considerada, a "nação" era o corpo de cidadãos cuja soberania
e outras vezes para qualquer associação ou sociedade (Gesellschaft, coletiva os constituía como um Estado concebido como sua ex-
soci€tas) , pressão política, Pois, fosse o que fosse uma nação, ela sempre
~~~_.9__s_~gnifica.9-o "Jl[§prio e or!gi_n~r (ou incluiria o elemento da cidadania e da escolha ou participação de
qualquer outro) ciº_t~ro!9_ "~~~,-~a é ...5:!~!amel!.te dife- massa. John Stuart Mil! não definiu uma nação apenas pela posse
r~e de seu ~ignifi.cado !llodernQ" Podemos, portànto, sem ir do sentimento nacional. Também acrescentou que os membros
mais além no assunto, aceitar que, em seu sentido moderno e de. uma nacion~idade "desejam que seja um governo deles pr~
basicamente político, 9J~QPcri!Q~º-e _l1acão é historicam~te mu-it~ prIOS, ou exclUSivamente de uma porção deles",14 Observamos
r5ente, De fato, outro monumento lingüístico, o New English sem surpresa que Mill não discute a idéia de nacionalidade em si
mesma, em uma publicação separada, mas caracteristicamente_
• Um dos povos e~lavos da Alemanha do Leste. (N.T.) e brevemente - no contexto de seu pequeno tratado sobre o
governo representativo, ou democracia,
30
31
A equação nação =: Estado = povo e, especiahnente, povo g~p~S eram .tão secundárias quanto iriam ser mais tarde para os
soberano, vinculou indubitavelmente a nação ao território, pois a sOCIalIstas" EVIdentemente, o que distinguia os colonos america-
estrulllra e"él definição dos Estados eram agora essenciahnente nos. do rei Jor<:te ~~ 'd ores nao
e seus ""-gUl - era a lmguagem
"
, '0 ou a
territoriais. Implicava também uma multiplicidade de Estados-na- etIlICldade e, do mesmo modo, a República francesa não viu difi-
ções assim constituídos, e de fato isso era uma conseqüência da culdade alguma em eleger o anglo-americano Thomas Paine para
autodeterminação popular. A Declaração francesa dos Direitos a sua Assembléia Nacional
em 1795 assim propôs: ~ão podemos, portanto, ler na nação revolucionária nada
pareCido com o ~r?Srama posterior de estabelecer Estados-nações
"Cada povo é independente e soberano, qualquer que seja o núme- para corpos (S~IaJ.S) defmidos em termos dos !:;fitérios)ão inten-
ro de indivíduos que o compõem e a extensão do território que samen~ debaudos pelos teóricos do século XIX, tais como li.tDi.ci.:.
ocupa. Esta aoberania é ina1ienável~,1õ di.Mki hngua co~M.m.. religião, território e lembranças históricas
com.uns_ (para citar de novo John Stuart Mill),lS Como vimos e _
Contudo, pouco é dito a respeito do que constitui "um ceto para um território de extensão indefinida (e talvez para ~ c:r
povo". Particularmente, não há conexão lógica entre o corpo de da, pele) nenhum ~esses critérios uniu a nova nação americana,
cidadãos de um Estado territorial, por uma parte, e a identifica- Alem dls~o',na medIda em que durante as guerras revolucionárias
ção de uma "nação" em bases lingüísticas, étnicas ou em outras e na~leoll1cas a. "grande nation" francesa alargou suas fronteiras
com características que pennitam o reconhecimento coletivo do ~ara ~reas que nao eram francesas sem possuir nenhum dos crité-
pertencimento de grupo. De fato, por causa disso já foi mostrado nos Citados de vínculo nacional, torna_se claro que nenhum deles
que- a Revolução Francesa "foi completamente estranha ao princí- era a base de sua constituição,
pio e ao sentimento de nacionalidade; era inclusive hostil a e1e",lti No entanto, estavam Com certeza presentes os vários ele_
Como notou perspicazmente o lexicógrafo holandês, a língua não me~tos 'p0steri~rmente usados para descobrir definições da
tem nada a ver, em princípio, com o ser inglês ou francês e, de fato, na~lOn~I.ldade, nao estatal, sejam os associados com a nação revo-
como veremos, os especialistas franceses lu taram tenazmente con- lu~~onafJa, sejam ,os que c~a~~ problemas para ela; e quanto
tra as tentativas de fàzer da língua falada um critério de naciona- ~als esta .se quena una e mdIVIsa mais a sua heterogeneidade
lidade, pois este, segundo eles, era detenninado puramente pela mte~a c~Iava problemas, Não há dúvida de que, para a maioria
cidadania francesa, A língua que os alsacianos e gascões falavam dos Jacobm,o~, um fr~nc~s que não falasse francês era suspeito e
continuou pouco importante para seu status como membros do que, na pratica, o cntérlo etnolingüístico de nacionalidade era
povo francês. freq~e~temente aceito, Como colocou Barere em seu relatório ao
De fato, se do ponto de vista revolucionário "a nação" tem Comlte de Segurança Pública:
algo em comum, não era, em qualquer sentido, a etnicidade, a
língua ou o mais, mesmo que estas também pudessem ser indica- Quem, nos Departamentos do ~to Reno!! do Baixo Reno, juntou-
ção de vínculo coletivo. Como mostrou Pierre Vilar,11 ~.ca­ se a?s ~dores. c~amando a Prússia e a Ausnia em nossas frontei-
º
~~ j!QY..Q'n~~o, _TIstQ _çl~J~!I.ixo;- eI~j2IC!i~p1~nte 9 Jato_ ras tnva~ldas? FOI o habitante do campo (alsaciano), que fala a
mesma língua d . , ,
de_ode representar o interesse CO~UID con_t!.!.º_s in~re~_~ticq- _ . ~ n~ mmugos e que conseqüentemente consi-
~5 e....o ~m Ç!l~ ':.ontra ~_ pri'lil~i.o, como na verdade é de~-se matlI seu 1ftnao e seu cidadão.companheiro do que campa-
sugerido pelo termo que os americanos usaram antes de 1800 nhelfOo<idadão
, e irmão d08 ftancese.......
Q que •• d"tngemaeeem
" I
outra lmgua e têm outros COStumes,lg
para indicar a existência de nações, embora evitassem a própria
paJawa. Do ponto de vista revolucionário, as diferenças étnicas

33
A insistência francesa na uniformidade linguística, desde a
Revolução, foi realmente marcante e, para a época, era bastante . ~o~!'Í.JJco e o na~o_nalista. A equação Estado = nação", povo ajus-
excepcional. Retomaremos a isso posteriormente. Mas o que deve tava-se a ambos, mas para os naci(;malis~ a sua inclusão na criação
ser notado é que, na teoria, nã~~@...9.Jl@.natiy9 ~l~ua francesa de en~dades ~l~ticas derivava da existência anterior de algumas
que fazia d~u.E!~ssoa um francês .- e como pcxleria ,sê-lo se a c~~umdade~ dls_u~tas de outras, esuangeiras. enquanto que para a
própria Revolução gastou tanto ternF provando q.ue po~cas ~s­ VlsaO revoIUCIOl1.ano-d~fJl.OC.rática. o conceito central era o de sobe-
soas na França realmente dela se utilizavam?ZO - e SllD a dlsposlçao rania do povo-cidadão = Estado, a qual constituía uma "nação" em
de ~ língE-a. ~nct;§j~.n~m..9J,l1r<tS_coiS<!s c0!!lQ.as liber- relação ao restante da raça humana. 21 Nem podemos esquecer que
dades as leis·e as característi.cas~çomu~ do_ EQV:QJhrre. da França. os Estados, qualquer que fosse sua constituição, teriam doravante
Er;;~to sentido, adotar o francês era uma das condições da plena que dar-se conta de seus sujeitos, pois, na Era das Revoluções, tor~
cidadania francesa (~rjant~ dA.~iona.lk!iu.k)., da mesma for- nara~se mais dificil governá-los. Como expre&Sou o libertador grego
ma que adotar o inglês se tornou condição da cidadania americana. ~olokotrones, não era mais verdade que "o povo pensa que os reis
Para ilustrar a diferença entre uma deftniçâo basicamente linguísti- sao deuses sobre a terra e que sua obrigação é dizer qUe o que reis
ca de nacionalidade e a dos franceses, mesmo em sua forma extre- fazem está bem-feito".22 A divindade não mais os cercava. Quando
ma, lembremo-nos do filólogo alemão que vamos encontrar adian- em 1825 Carlos X da França reviveu a antiga cerimônia de coroa-
te. tentando convencer o Congresso Estatístico Intemadon.al da ção em Reims e também (relutantemente) a cerimônia da cura
necessidade de inserir a questão da língua nos censos estatais (cf. mágica, apenas 120 pessoas ficaram curadas de escrófula pelo ta-
adiante, pp. 98-9). Richard Bõckh. cujas influentes publicações na que, real.. Na última c~roação antes da dele, em 1774, 2 400 pessoas
década de 1860 argumentavam que ~~ era. o. ~~ça!1o,r haViam Sido curadas. Como veremos, depois de 1870 a democrati-
.~q~Q<!.go d<! Ea~ionalidade. um argumento ajustado ao nadon,ali:: zação tornaria urgente e agudo o problema de legitimidade e o da
mo alemão desde que os germânicos estavam amplamente dIstrI- ~obilização de c~dadãos .. Para os governos,. 2.j~<:.~--.f.entra1 nl! e_qua-
buídos na Europa central e oriental, foi obrigado a classifICar os çl!º----E.stado..::: naç a9.'" p9V9 _era, -Rkn~l!l~meJ o Estado.
judeus asMentnim como alemães, na medida em que o ídiche e~a, . Todavia, qual era o lncus da nação - ou, para o que aqui
sem dúvida, um dialeto germânico derivado da Alemanha medie- Importa, da equação Estado = nação = povo, qualquer que seja a
val. Essa conclusão não podia ser partilhada pelos alemães anti- ?rde~ .dos termos - no discurso teórico daqueles que, afinal,
semitas, como Bõckh sabia. Por seu lado, os frdIlceses revolucioná- Impnmtram mais ftrmemente sua marca na Europa do século
rios não precisavam nem entendiam esse argumento, dado que XIX, especialmente no período entre 1830 e 1880, quando o
lutavam pela integração dos judeus na nação francesa. De ~u "~nçfu!Q--º.l!:.!!aci-ºnatir!~4~" mudou o mapa da Europa do modo
ponto de vista. os judeus sefardim. que falavam o espanhol medl~ mais dramático: as burguesias liberais e seus intelectuais? Mesmo
vaI e os judeus ash/umazim, que falavam ídiche - e a França conU- que eles quise~sem, não poderiam ter evitado refletir sobre o pro-
nha ambos - eram igualmente franceses desde que aceitassem as blema na medida em que, nestes cinqüenta anos, o equilíbrio de
condições da cidadania francesa. o que naturalmente incluía falar poder foi transformado pela emergência de dois grandes poderes
francês. Correlatamente. o argumento de que Dreyfus não podia ba~ados no princí~io nacional (Alemanha e Itáli~), na partilha
ser ~realmente" francês porque descendia de judeus foi correta- efetiva de um terceiro poder nas mesmas bases (Austria e Hun-
mente entendido como um desafio à própria nature7.a da Revolu- gria, depois do Compromisso de 1867), para não mencionar o
ção Francesa e à sua definição de nação francesa. reconhecimento de um número de entidades políticas meno-
É, contudo, na altura do r~latório Barere que se encontram res como Estados independentes, que demandavam um novo
.-----
dois conce.itos muito --
-. ---- --- _.
dife(~tes
-- . - de naªm.-.P_.!.~ário-de-
.. _._- status como povos nacionalmente fundados, do Oeste da Bélgica
aos Estados que sucederam aos otomanos no Sudeste europeu

35
(Grécia, Sérvia, Romênia, Bulgária), além de duas revoltas nacio- A m~lho~ ~aneira ?arece ser a de começar com a noção
nais dos poloneses exigindo sua reconstituição como Estado-na~ menos satlsfat~na de ,naçao, ou seja, a do sentido dado à palavra
ção do modo como o imaginavam. Na verdade, a burguesia e seus por Adam Snuth no titulo da sua grande obra. Pois, no COntexto
intelectuais não desejavam evitar essa reflexão. Pois o que Walter nação significa simplesmente um Estado territorial ou, nas pala:
Bagehot havia chamado de "formação de nação~ constituía o con- vras de John Rae - uma afIada cabeça escocesa que na América
teúdo essencial da evolução do século XIX. 2 ' do Norte, no começo do século XIX. criticava Smith _ ~cada
No entanto, desde que o número de Estados-nações era pe- comunidade, sociedade, nação, Estado ou povo separado (tennos
queno no início do século XIX, a questão óbvia para as mentes que, no que conceme ao nosso assunto, podem ser considerados
inquiridoras era quais das numerosas populações européias classi- sinônimos) ".26 No entanto, o pensamento dos grandes economis-
ficáveis como uma ~nacionalidade~, com alguma base, poderiam tas ~olític:os liberais certamente deve ser relevante para pensado-
tornar-se um Estado (ou alguma forma menor com reconheci- res hberals de classe média que consideraram a "nação" de outro
mento administrativo e político distinto) e quais dos numerosos ponto d~ vista, mesmo que não fossem economistas, como John
Estados existentes estariam imbuídos do caráter de "nação~. A Stuart MIlI, ou, como Walter Bagehot, editores do TM Economist.
construção de listas com critérios de existência de nação poten- Teria sido um acaso histórico o fato de a era clássica do liberalis-
ciais ou reais servia a esse objetivo. Parecia óbvio que nem todos mo do Iivre-comércio ter coincidido com a "fonnação de nações"
os Estados coincidiam com nações e vice-versa. Por um lado, a que Bagehot considerava tão central em seu século? Em outras
famosa questão de Renan - "por que a Holanda é uma nação, palavr:.as: o Estado-nação, como tal, desempenhou uma função
enquanto Hanover ou o Grão-ducado de Parma não o são?»j>~ - especlfica no processo de desenvolvimento capitalista? Ou ainda:
levantava um conjunto de questões analíticas. Por outro lado, a como a análise liberal contemporânea viu essa função?
observação de John Stuart Mill de que o estabelecimento de um .Pois é evidente ao historiador que o papel das economias
Estado nacional tinha que ser viável e desejável pela própria na- defimdas por fronteiras estatais era grande. A economia do mun-
cionalidade levantava outro conjunto de questões. Mesmo para os do novecentista era mais internacitmal do que cosmopolita. Teóri-
nacionalistas da metade da era vitoriana, os quais não tinham cc:s do sistema mundial tentaram mostrar que o capitalismo foi
dúvida quanto à resposta a ambos os tipos de questão, isso era cnado como um sistema global em um continente, e não em
assim desde que seu interesse era com sua própria nacionalidade ~utro lugar, precisamente por causa do pluralismo político da
com o Estado em que viviam. Mesmo eles encontravam-se frente ~uropa, a .qual não constituía nem fazia parte de um único "impé-
às demandas de outras nacionalidades e Estados com aUtos frios. no mundlal". O desenvolvimento econômico nos séculos XVI a
Todavia, além desse ponto, encontramos no discurso liberal XVIII foi feito com base em Estados territoriais cada um dos
do século XIX um surpreendente grau de vaguidade. Isto se deve qu:u s tendia a perseguir políticas mercantilistas ~omo um todo
não tanto à falência em pensar até o fim o problema da nação, mas ~mficado. De modo mais óbvio ainda, quando falamos de capita-
sim ao pressuposto de que a nação não devia ser explicada, pois já hs~o mundial no século XIX e começo do Xx, falamos das suas
era óbvia. Daí o fato de boa parte da teoria liberal das nações umdades nacionais componentes no mundo desenvolvido _ da
emergir apenas à margem do discurso de escritores liberais. Além in~ús~ia britânica, da economia americana, do capitalismo ale-
disso, como veremos, uma área central do discurso liberal teórico mao diferente do capitalismo francês e assim por diante. Durante
impedia considerar a "nação" intelectualmente. Nossa tarefa no ~ longo período que vai do século XVIII aos anos que se seguiram
restante deste capítulo é a de reconstruir uma teoria liberal coeren- a Segun~ Guerra Mundial, parece não haver espaço e lugar na
te da "nação", muito ao modo como os arqueólogos reconstroem cc~n?nua global para aquelas unidades genuinamente extraterri-
rotas comerciais a partir de depósitos de moedas. tonaIS, transnadonais ou intersticiais que desempenharam um

36
papel tão grande na gênese da economia capitalista mundial e co~ércio entre Estad,os. O economista liberal alemão Schõnberg
que são, hoje, novamente tão proeminentes: por exemplo, mini- dUVidava q~e,? conceIto de "renda nacional" tivesse algum signifi-
Estados independentes cuja significância econômica está fora de cado, Essa ldela pode ter tentado aqueles que não se contentavam
proporção ao seu tamanho e recursos - Lúbeck e Gand no sécu- com idéias superficiais, mas os economistas liberais estavam indo
lo XIV, Cingapura e Hong-Kong novamente hoje. De fato, consi- longe demais mesmo que as estimativas da "riqueza nacional" em
derando o desenvolvimento da economia mundial moderna, ten- termo~ mo,?e"tários, estivess~m erradas,:«I Edwin Cannan 29 pen'sava
demos a ver a fase na qUal o desenvolvimento econômico foi ~u~.~ naça~ de f..9ª!!l.s!llltb .!:=o!l.si~~~pe!1~ de º-~-ª-S!>J~ã.o .d_e
integralmente vinculado às "economias nacionais" de um número !n.d!:y!duos Vlven_do e~_~r.ritfuio gp Es~ºº, ~..Ç.onsi_derava q.u~,_
de Estados territoriais desenvolvidos como situada entre duas eras _2;-fª-!Q. d~ em~~~ .:.,ª---~~s tgºa ~ta--Ke~_~~.!' Il!org.. t.0rp.ava _impo~
essencialmente transnacionais. slvel falar-.da _oaç-ª..<L co!llQ.J!rna e~!idade continuamente existen-
A dificuldade dos economistas liberais do século XIX ou dos k:.. Em tennos d: uma política econô~i~;, i~o sig~ifi~~~~e
liberais que, como esperado, aceitavam os argumentos da econo- somente a alocaçao de recursos através do mercado era mais favo-
mia política clássica era a de poderem reconhecer o significado rável, e que através de suas operações os ganhos dos indivíduos
econômico das nações apenas na prática, mas não na teoria. A automaticamente produziriam os interesses do todo _ na medida
economia política clássica, e especialmente a de Adam Smith, foi em que havia lugar, na teoria, para conceitos tais como ganhos de
fonnulada como uma crítica do "sistema mercantil", ou seja, pre- toda a comunidade, Correlatamente, John Ray escreveu seu livro
cisamente o sistema no qual os governos trataram as economi- de 1834, es~~cific,amente para demonstrar, contra Smith, que os
as nacionais como conjuntos a serem desenvolvidos pelos esforços ga~h~s,mdiVldual,s e nacionais não eram idênticos, isto é, que os
e políticas estatais. O livre-comércio e o livre-mercado se dirigiram ~nnclplOS qu~ g~lavam a busca individual de ganhos não necessa-
precisamente contra es~ conceito de desenvolvimento econômi- namente maxImlZavam a riqueza da nação,~o Como veremos não
co nacional, que Smith acreditava ter demonstrado ser contrapro- se pode negligenciar aqueles que se recusaram a aceitar inc~ndi­
dutivo. A teoria econômica foi então elaborada unicamente na cional~ente Smith, mas suas teorias econômicas não podiam
base de unidades individuais de empresa - fumas ou pessoas - compettr com a escola clássica_ O termo "economia nacional"
racionalmente maximizando seus ganhos e minimizando suas per- apare~eu no Diction~~ry of Political EcQ71.omy de Palgrave apenas em
das em um mercado que não tinha extensão espacial específica. conexao com a teOrIa econômica alemã, O termo "nação" desapa-
No limite, esse era o mercado mundial, e não poderia deixar de receu dos trabalhos franceses equivalentes em 1890,~1
sê-lo. Embora Smith estivesse longe (tão longe quanto a teoria E, no entanto, mesmo o mais puro dos economistas clássicos
geral do crescimento econômico) de se opor a certas funções do era obrigado a operar com o conceito de economia nacional.
governo que eram relevantes para a economia. não havia lugar Como o saint-simoniano Michel Chevalier apologética e afetada-
para a nação ou qualquer coletividade maior do que uma empresa, mente anunciou em sua aula inaugural como professor de econo-
a qual, a propósito, ele não se importou em investigar muito. mia política no College de France:
Assim, J. E. Cairnes, no auge da era liberal, chegou a gastar
seriamente dez páginas considerando a proposição de que uma So~ chamados a nos preocupar com os interesses gerais das
teoria do comércio internacional não era necessária se fosse dis- SOCl~dades huma,nas, mas não nos é proibido considerar a situação
tinta de qualquer comércio entre indivíduos. t7 Concluiu que, parucular da SOCIedade na qual vivemos,-
embora as transações internacionais estivessem indubitavelmente
se tornando cada vez mais constantes, havia ainda muitas fricções Ou então, como Lord Rohbins afirmou uma vez mais em
que justificavam considerações à parte a respeito do problema do relação aos economistas políticos clássicos: "Há pouca evidência

'8 39
Nos países que perseguiam o desenvolvimento econômico
de que eles ultrapassaram com alguma r:eqüênc~ ~ teste da nacional contra a superioridade econômica da Inglaterra, no en-
vantagem nacional como critério de polítIca economlca, e me- tanto, o Iivre-comérdo smithiano era bem menos atrativo. Ali não
nos ainda de que estavam preparados para aceitar a dissolução faltavam homens ansiosos para falar sobre a economia nacional
dos liames nacionais".~' Em resumo, eles não podiam nem que- como um todo. O esquecido escocês-canadense Rae já foi mencio-
riam escapar da "nação", cujo progresso Porter in.~uiri~ com nado. Ele propôs teorias que parecem antecipar as doutrinas da
satisfação a partir de 1835, pois pensava que er~ deseJavel deter- substituição de importações e da importação tecnológica da Co-
minar os meios pelos quais qualquer comumdade consegue a missão Econômica das Nações Unidas para a América Latina nos
superioridade entre as nações". Nem é ~ec~ssári~ acrlesc~ntar anos 50. Mais claramente ainda, aparece o grande federalista
que por "qualquer comunidade" ele quena dizer a propna co- americano Alexander Hamilton, que vinculava a nação, o Estado
munidade".~ ~ • e a economia, usando esse vínculo para justificar contra políticos
Na verdade, como poderiam ser negada:' as funç.oe~ e:ono- menos centralizadores sua opção por governos nacionais fortes. A
micas e mesmo os beneficios do F.stado-naçao? A eXlstencla de lista das "grandes medidas nacionais" feita pelo autor do verbete
Estados com monopólio da moeda, com finanças públicas e: ~r. ~nação" em uma obra posterior de referência americana é exdu·
tanto, com atividades e políticas fiscais era ~m fato. Eram atIvtda- sivamente econômica: a fundação de um banco nacional, a res-
des econômicas que não poderiam ser aboltdas mesmo por aque- ponsabilidade nacional para débitos estatais, a criação de um dé-
les que quisessem eliminar suas intervenções danosas na econo- bito nacional, a proteção de manufaturas nacionais através de
mia. Além disso, mesmo extremados libertários podiam aceitar, altas tarifas e taxações compulsórias.'8 Pode ser que, como sugere
com Molinari, "que a divisão da huma~idade em ~ações au~ôn~ esse admirável autor, todas estas medidas "intencionavam desen-
mas é essencialmente econômica".~5 POIS, na era pos-revoluclona- volver o genne da nacionalidade"; ou pode ser que, no caso de
ria do Estado-nação, o Estado garantia, afmal de contas, a segu- outros federalistas que pouco falavam em nação e muito mais de
rança da propriedade e dos contratos - e como disse J. B. ~y, economia, ele sentisse que a nação tomaria conta de si se o gover-
notoriamente um inimigo da empresa pública, "nenhuma naçao no federal tomasse conta do desenvolvimento econômico: mas,
conseguiu um nível de riqueza sem es~ sob u~ go~erno regu- em qualquer caso, a nação implicava uma economia nacional e
lar",5H As funções do governo podiam ate ser raCionalizadas pelos sua sistemática promoção pelo Estado, o que, no século XIX,
economistas liberais como livreo.eompetição, Assim, Molinari argu- significava protecionismo.
mentava que "a fragmentação da humanidade em nações é útil na Os economistas americanos do século XIX eram, em geral,
medida em que desenvolve um princípio extremamente poderos? medíocres o bastante para não desenvolverem o argumento teórj·
de competitividade econômica".37 Mencionava a Grande. Ex~)()Sl­ co do hamiltonianismo, embora o pobre Carey e outros tivessem
ção de 1851 para basear ~ idéia. Mas mesmo sem essa~J~stifica~ tentado.'9 Todavia esse argumento foi afirmado, lúcida e eloqüen-
ções, a função do governo no desenvolvimento economlCO ~Ol temente, pelos economistas alemães chefiados por Friedrich List,
assumida. J. B. Say, que não' via muita diferença entre uma naçao o qual, francamente inspirado por Hamilton, havia adquirido suas
e seus vizinhos e duas províncias vizinhas, acusava no entanto a idéias durante sua estada nos Estados Unidos na década de 1820,
França _ isto é, o Estado e governo francês - de descui~ do , quando tomou parte nos debates sobre a economia nacional do
desenvolvimento dos recursos domésticos do país, prefenndo a período.t<I Para List, a tarefa da economia - que os alemães de&-
conquista estrangeira. Em resumo, nenhum e~onomi.sta -:- mes- de então tenderam preferencialmente a chamar de "economia
mo da mais extrema convicção liberal - podia negligenctar ou nacional" (Nationaloelwnomie) ou de "economia do povo" (Vo-
não levar em conta a economia nacional. Apenas eles não gosta- lkswirthrschaft) à "economia política" - era a de "realizar o desen-
vam de referir-se a ela, ou não sabiam como fazê-lo.
41
40
I

volvimento econômico da nação e preparar sua entrada na socie- dos pela história da Grã-Bretanha e da França. Eram benefícios
dade universal do futuro".41 É desnecessário acrescentar que esse menores, sem dúvida, do que aqueles provindos de uma única
desenvolvimento tomaria a fonoa de uma industrialização capita- economia global, mas infelizmente a unidade mundial ainda não
lista levada adiante por uma burguesia vigorosa. era alcançável, Enquanto isso, "tudo a que a humanidade aspira
Contudo, o que é realmente interessante aqui a respeito de para toda a raça humana .., até agora já foi (zuna:chst einmal) al-
List e da posterior "escola histórica" dos economistas alemães que cançado por uma significativa fração da humanidade, isto é 30 a
o tomaram como inspiração - como também economistas nacio- 6.0,~ilhões de pessoas". E assim "segue--se que o futuro do m~ndo
nalistas de outros países como Arthur Griff1m, da Irlanda42 - é ClV1lIzado, por um longo tempo ainda, tomará a forma de grandes
que ele claramente fonuulou uma característica do conceito "libe-- Estados (OrossstaatenUldung) ",47 A propósito, notamos o pres-
ral" de nação até então comumente considerada como garantida. suposto c~nstante de ~ "naÇ,§es:" ser"'IE_a segund~,~~o.!:'QPçã.Q.
A nação teria que ser de tamanho suficiente para formar uma para a--.!:l~~",._~di~, ponto que retomaremos adiante.
unidade viável de desenvolvimento. Se caísse abaixo desse pata- . Duas conseqü~ncias decorrem dessa tese, as quais eram quase
mar não teria justificativa histórica, Isso parecia muito óbvio para unIVersalmente aceitas por pensadores sêrios do assunto mesmo
requerer argumentação, e era raramente discutido. O Dictionnmre quando não as formulavam tão explicitamente como o fI~eram os
PoliJique de Garnier-Pages de 1843 pensava ser "ridículo" que a alemães: os ,quais tinham algumas razões históricas para fazê--lo,
Bélgica ou Portugal quisessem ser nações independentes, dado Pr1me~r~, segue~se que o "princípio da nacionalidade", apli-
seu visível pequeno tamanho.4' John Stuart Mill justifICava o ine- cado na pranca, sefVIa apenas para nacionalidades de um certo
gável nacionalismo dos irlandeses na base de que eles eram, afinal ta~anho. Daí o fato, de outra forma surpreendente, de Mazzini, o
de contas, após todas as considerações, "suficientemente numero- apostolo desse princípio, não visualizar a independência da Irlan-
sos para serem capazes de constituir uma nacionalidade respeitá- da. Quanto às demandas das nacionalidades menores ainda ou
vel".44 Outros discordavam, entre os quais Mazzini e Cavour, em- das ,nacionalidades potenciais - sicilianos, bretões, galeses
bora fossem apóstolos do princípio da nacionalidade. De fato, o pO~Jam ser. lev~das menos a sério ainda. De fato, a palavra
próprio New Englüh Dictionnary definia a palavra "nação" não ape- Kleinstaaterei (o SIstema de mini-Estados) era deliberadamente de-
nas da fonua usual familiarizada por]. S. Mil! na Grã-Bretanha, pr~ciativa, Representava aquilo contra o que os nacionalistas ale--
mas também como "um agregado amPlo de pessoas" com caracte- rnaes lutavam. A palavra "balcanização", derivada da divisão do
rísticas adequadas (grifas meus) .4~ lerritóri~ antes formado pelo império turco em vários pequenos
List claramente afirmou que: Estados mdependentes, ainda retém sua conotação negativa. Am-
bos os termos pertenciam ao vocabulário dos insultos políticos.
um território extenso e uma grande população, dotados de múlti- Esse "princípio do ponto crítico" é excelentemente ilustrado pelo
plos recursos nacionais, são exigências essenciais da nacionalidade I~a.pa da futura Europa das nações desenhado pelo próprio Maz-
normal ... Uma nação restrita em população ou território, especial- ':llll em.1857, que compreendia uma dúzia precisa de Estados e
mente se poosuir uma língua distinta, pode apenas poosuir uma k~der<,ç~es, d?s quais apenas um (desnecessário dizer, a Itália)
literatura estropiada, e instituições estropiadas para promover sua Ilao sc:-'Ia obVIamente classificado como multinacional por crité-
arte e ciência. Um Estado pequeno não pode, em seu território, ri.os p~~teriores.4S O "princípio da nacionalidade" na fonnulação
promover à perfeição os vários ramos de produção,tII
wIlsomana, que dominou os tratados de paz após a Primeira Guer-
ra Mundial" produziu a Europa de 26 Estados _ 27 se agreganuos
Os benefícios econômicos de Estados de larga escala o Estado L,lvre Irlandês que seria logo estabelecido. Eu apenas
(Grossstaatnl), pensava o professor Gustav Cohn, eram demonstra· acrescentana que um estudo recente dos movimentos regionalis-

42 43
tas somente da Europa oriental registrou 42 deles,49 demonstran- Se nossa doutrina fosse sumarizada na fonna de uma proposição,
do portanto o que acontece quando o "princípio do ponto críti- poderíamos talvez dizer que, genericamente, o princípio das nacio-
co" é abandonado. nalidades é legítimo quando tende a unir, em um lOdo Compacto,
O importante a notar, no entanto, é que no período clássico grupos dispersos da população; e ilegítimo quando tende a dividir
do nacionalismo liberal ninguém sonharia em abandoná-lo. A um Estado. 5Il
autodeterminação das nações ajustava-se apenas para as nações
consideradas viáveis: ou seja, viáveis culturalmente e, é lógico, Na prática, isso significava qUe se esperava que ps movim~
economicamente (qualquer que fosse o significado exato de viabi- tO_!.JJ~ÇiQI}ai~Lfos~~JQ.mºviJllen~~s pela_expansã2._ou unific..ação !la-
lidade). Nessa medida, a idéia de Mazzini e de Mill a respeito da cio_oai, Assim, todos os alemães e italianos esperavam juntar-se em
autodeterminação nacional era fundamentalmente diferente da um Estado nadonal, tal como os gregos. Os sérvios iriam fundir-se
do presidente Wilson. Consideraremos adiante as razões da mu- com os croatas em uma única Iugoslávia (até então sem nenhum
dança de uma a outra. Todavia, vale a pena notar en passant que o precedente histórico) e, para além disso, o sonho de uma federa-
~princípio do ponto crítico" não foi inteiramente abandonado ção balcânica assombrava aqueles que procuravam uma unidade
mesmo na era wilsoniana. Entre as guerras, a existência de Lu- ainda maior. Tornou-se um compromisso dos movimentos comu-
xemburgo e Liechtenstein restou como um leve embaraço, mes- nistas até depois da Segunda Guerra Mundial. Os tchecos fundir-
mo que estas estruturas políticas fossem muito bem-vindas pelos se-iam com os eslovacos, os poloneses iriam se combinar com
filatelistas. Ninguém sentia-se feliz pela existência da cidade li- lituanos e nitenos - e, de fato, eles já formavam um único gran-
vre de Danzig, nem mesmo nos dois Estados vizinhos que a de Estado na Polônia pré-partilha - , os romenos da Moldávia
queriam dentro de seu próprio território; menos ainda aqueles iriam se unir com aqueles da Valáquia e da Transilvánia e assim
que sentiam que nenhuma cidade-Estado seria viável no século por diante. Tudo isso era ~i.d..!n~!!lentejJ]compatível ç<?m defi-
XX como tinha sido nos dias hanseáticos. Os habitantes da nk~º~~Qes basea.!ias n~...i'!_~ic~ªº~ lí!1~a_ou.histó.Da_~o-.
periférica Áustria quase unanimemente desejavam a sua inte- 1.!~U.!11; mas, com<? vi!ll.9s. ~stes.Dão eral!l .f.rjtérios__ decis!yo~ ºª-
gração na Alemanha, porque simplesmente não podiam acre- fQnnaçi!.o liberal de nilç.õ~s: Em qualquer caso, ninguém chegou a
ditar que um Estado tão pequeno quanto o deles fosse viável negar, nunca, a real .multiD.MiQo.uidade ou /TIlI.1tiliogualidade ou
como uma economia independente (lebensfiihig). Foi apenas a multietnicidad.e. dos mais antigos e inquestionáveis Estados-na-
partir de 1945 e, mais ainda, depois da descolonização, que se ções, ou seja, Grã-Bretanha, França ou Espanha.
abriu caminho na entidade de nações para entidades como Que os "Estados-nações" seriam nacionalmente heterogê-
Dominica ou ilhas Maldivas ou Andorra. neos nessa forma foi algo prontamente aceito, pois havia muitas
A segunda conseqüência é que a construção de nações foi partes da Europa e do resto do mundo onde as nacionalidades
inevitavelmente vista como um processo de expansão. Esta era estavam tão obviamente misturadas no mesmo território que de-
outra razão para a anomalia do caso irlandês ou para qualquer senredá~las em bases puramente espaciais parecia ser bastante Ír-
outro nacionalismo puramente separatista. Como vimos, era acei- realista. Essa seria a base das interpretações de nacionalidade
to na teoria que a evolução social expandiria a escala de unidades como as dos austro-marxistas, que a .yinculaV3; nã9_ ao_ terriJôrip,
sociais humanas, da família e da tribo para o condado e o cantão, 'n.~s_às_pessQas, Também não era um acaso que a iniciativa nesse
do local para o regional, para o nacional e ocasionalmente para o assunto, dentro do partido social democrata austríaco, tenha vin-
global. Assim sendo, as nações estavam afinadas com a evolução do em grande parte dos eslovenos, que viviam em uma área de
histórica na medida em que elas ampliassem a escala da sociedade assentamentos eslovenos e germânicos, freqüentemente existindo
humana, permanecendo iguais as outras condições. como endaves dentro de endaves ou zonas de fronteiras com

44 45
identiflcação incerta e mutável, particulat:mente difíceis de serem
desenredados. SI Contudo, a heterogeneidade nacional dos Esta- vas das leis do progresso (como então certamente seriam chama-
dos-nações foi aceita sobretudo porque parecia daro que as na-- das). Pelo contrário, onde a supremacia da nacionalidade estatal
cionalidades pequenas, e especialmente as pequenas e atrasadas, e da língua estatal não estava em questão, a nação maior poderia
só tinham a ganhar fundindo-se em nações maiores e fazendo, acolher e patrocinar os dialetos e línguas menores e as tradições
através destas, sua contribuição para a humanidade. "A experiên- históricas e folclóricas das comunidades menores que continha,
cia", disi>e Mill articulando o consenso de observadores sensíveis, ao menos para provar o espectro de cores de sua palheta macro-.
"prova que é possível para uma nacionalidade fundir-se e ser ab- uacional. Além disso, as nacionalidades pequenas ou mesmo Esta-
sorvida por outra". Para os inferiores e atrasados, isso seria um dos-naçôes que aceitaram, como algo de positivo, sua integração
ganho enorme: na nação maior - ou, se se preferir, aceitaram as leis do progres-
so - também não reconheciam diferenças irreconciliáveis entre a
Ninguém pode supor que não seja mais benéfico para um bretão, microcultura e a macrocultura, chegando mesmo a se reconciliar
ou para um basco ou um navarro francês ser. um membro da com a perda daquilo que não poderia ser adaptado à Idade Mo-
nacionalidade francesa, admitido em termos iguais aos privilégios
derna. Foram os escoceses, e não os ingleses, que inventaram o
da cidadania francesa ' .. do que azedar, em suas rochas, o arcaísmo
semi-selvagem dos tempos passados remoendo-o em sua pequena conceito de "britânicos do Norte" depois da União de 1707.54
órbita mental, sem participação ou interesse no movimento geral Foram os porta-vozes e líderes galeses no País de Gales do século
do mundo. A mesma observação se. aplica aos galeses e escoceses XIX que duvidaram que sua própria língua, tão poderosa como
das terras altas, como membros da nação britânica.l~ meio para a religião e a poesia, poderia servir como língua útil
para a cultura no mundo do século XIX - isto é, assumiram a
Uma vez aceito que uma nação independente ou "real" teria necessidade e as vantagens do bilingiiismo.5s Sem dúvida eles es-
também que ser viável pelos critérios então definidos, seguia-se tavam conscientes das possibilidades de carreiras britânicas aber-
que algumas das menores nacionalidades e línguas estavam fada- tas para os galeses que falavam inglês, mas isto não diminui seu
das a desaparecer como tal. Friedrich Engels tem sido fortemente vínculo emocional com a antiga tradição. Isso é evidente até
atacado como chauvinista alemão por ter predito o desapareci- mesmo entre aqueles que aceitavam o eventual desaparecimento
mento dos tchecos como povo e de ter feito comentários pouco do idioma, como o reverendo Griffiths, do Dissenting College, de
elogiosos sobre o futuro de alguns outros povos.ss Na verdade, Brecknock, que demandava apenas que a evolução natural fosse
Engels era orgulhosamente alemão, inclinado a comparar favora- deixada a seu curso:
velmente seu povo com outros, exceto a respeito de sua tradição
revolucionária. Sem a menor dúvida, estava também totalmente Deixe-a (a língua galesa) morrer acreditada, condignamente e em
equivocado a respeito dos tchecos e outros povos. Contudo, é um paz. Ligados a ela como somos, poucos desejariam adiar sua euta.
puro anacronismo criticá-lo por sua postura essencial, a qual era násia. Mas nenhum sacrifício seria julgado grande demais para pre-
venir seu assassinato. 56 .
partilhada por qualquer observador imparcial de meados do sécu-
lo XIX. Algumas pequenas nacionalidades e línguas não tinham
Quarenta anos depois, outro membro de uma nacionalida-
futuro independente. Muitas eram gerahnente aceitas, mesmo de pequena, o teórico socialista Karl Kautsky _ por origem, um
por pessoas que estavam longe de ser hostis, em princípio ou na tcheco - , falava eni tennos semelhantes, resignado mas não desa-
prática, à libertação nacional. paixonado:
Não havia nada de chauvinista nessa atitude genérica. Não
implicava hostilidade ;b; línguas e às culturas de tais vítimas coleti- & línguas nacionais serão crescentemente confinadas ao uso do-
méstico e, mesmo lá, serão lratadas como uma velha peça herdada
46
47
da mobília familiar, algo que tratamos com veneração mesmo que outros Estados-nações da mesma modesta magnitude, como os
não tenha uso prático: 7 Paíse$ Baixos ou a Suíça. Como veremos, !,.eme!Kência de..mQ!i~
men~s nacionais de massa, pedindo ate_!l~o!..~l!!Plicaria ~_es
Todavia, esses eram problemas de naciona1ida~es meno~es substanciaiL!l~..jul~~!l_~; mas na era clássica do liberalismo
cujo futuro independente parecia problemá~co. Os mgleses dlfl-- poucos deles, com exceção do imPério otomano, realmente pa-
cilmente se sensibilizavam com as preocupaçoes dos escoceses ou reciam pedir reconhecimento como Estados soberanos indepen~
dos galeses, da mesma forma .como s~ .va~gloriavam dos crescen- dentes, algo distinto da demanda de autonomia em Várias formas.
tes exotismos domésticos das Ilhas bntamcas. De fato,. como log? Como sempre, o caso irlandês era anômalo tambêm a esse res-
descobriram 05 estereotipados irlandeses, as nacionahdades mal-- peito - ou pelo menos assim ficou com o aparecimento dos
ores acolhiam as menores, desde que não as desafiassem: quanto fenianos, reivindicando uma República Irlandesa que só poderia
menos eles se comportassem como ingleses, mais podiam cultivar ser independente da Grã-Bretanha.
sua maneira de ser irlandesa ou escocesa. Do mesmo modo, ?s Na práti~avia_ apen~_~s ~_q~~permitiam a um
nacionalistas pan-germânicos na verdade encorajaram a produç~o poYO_~t:...firmeme-ºte_ ~~s~ficado.50~_~. n..!lç~~. _sempr.e que fos.se_
da literatura em baixo-alemão ou frisão,* desde que esta nao suli~t~m.~nte ~de p~,!~~ da e~~~ O primeiro destes
competisse com o alto-alem~o e f?sse ~ed~zida, de modo seguro, critérios era sua .associação hl&tl)J:i~1t com um Estado existente ou
a um apêndice deste; e nacIOnahstas Italianos orgulhavam-se de com um Estado de passado recente e razoavehnente durável. Ha-
Belli, Goldoni e canções napolitanas. Por este lado, os belgas via pouca controvérsia sobre a existência de um povo-nação inglês
francófonos não fizeram objeção aos belgas que falavam flamen- ou francês ou de um povo russo ou polonês, e também pouca
go. Foram os J....
n"mimrants
"l!>
que resistiram ao francês. Houve real-

controvérsia fora da Espanha sobre a existência de uma nação
mente casos em que a nação líder ou o Staatvolk ~ntou, .atlva- espanhola com características nacionais bem compreendidas.58
mente, suprimir as línguas e culturas menores, mas ISSO rOl raro Pois uma vez dada a i.den~cão da naª-.o__Cj)DJ. o Estado, era
fora da França no século XIX. . natural que estrangeiros pressupusessem que o único povo em
Assim, alguns povos ou nacionalidades foram des~ados a um país fosse aquele pertencente ao povo-Estado, um hábito que
nunca se tornarem nações integrais. Outros consegul:am, o~ ainda irrita os escoceses.
conseguiriam, a sua total existência como nações. TodaVIa, quaIs O segundo critério era dado pela existência de uma slite
deles tinham um futuro e quais não tinham? Os deba~es sobre 0Iltur~ Jºg8ªm,,-n~ ~~.tabe!ecid--ª,- que possUÍsse um vernáculo ad-
aquilo que constituía as características da n~dona~ld~de_ -:- mini5trativo e literário escrito. Isso era a base da exigência italiana e
território, língua, etnia, etc. - não ajudavam mUl~o. ~ ~nnclplO alemã para a existência de nações, embora os seus respectivos -p0-
do ponto crítica." era naturalmente mais útil, pOl~ ehmmava ~m vos" não tivessem um Estado único com o qual pudessem se iden-
número de pequenos povos, mas, como vi~os,_ n~o era tambem tHicar. Em ambos os casos, a identificação nacional era, em canse-
decisivo, visto que ~stiam "nações" in9uestlon~~s mª~Ld~ ta~· qíiência, fortemente lingiiistica, mesmo que (em nenhum dos dois
nho bastànte m~~sto, para não mencionar mOVlmen.tos ~~Cl~ casos) a língua nacional fosse falada diariamente por mais do que
'~s como o irlandês, cuja capacidade em formar naçoes Vlav~ls uma pequena minoria - na Itália foi estimado que esta era 2,5%
era objeto de opiniões diversas. O interesse imediato da questao da população no momento da uniftcaçãd' - e que o resto falasse
de Renan sobre o Hanover e o Grão-ducado de Parma era, afinal vários idiomas, com freqüência incompreensíveis mutuamente. CIO
de contas, não o de contrastá-los com qualquer nação, 1Ual! com O terceiro critério, que infelizmente precisa ser dito, era
• Frisão: Ifngua germinica dos fri5Ões, ainda hoje faJada no Nordeste' da Holanda
dado por uma provada 9l~ª-ª-C,?IHl_l!ista. Não há nada
("orno um povo imperial para tomar uma popu1ação consciente
(N.T.)

48 49
Assim, na perspectiva da ideologia liberal, a nação (isto é, a
de sua existência coletiva como povo, como bem sabia Friedrich grande nação viável) representava o estágio de evolução alcança-
List. Além disso, no século XIX, a conquista .d~va a ,p,rova do na metade do século XIX. Como vimos, a outra face da moeda
darwiniana do sucesso evolucionista enquanto especles sociais" ~nação como progresso" foi portanto, e logicamente, a assimila-
Outros candidatos.A existirem cQ1lliLl!!ç.ãQ..não estavam snn- ção de comunidades e povos menores aos maiores. Isso não impli·
plesmente excluídos a priori. mas tamb~m não ,havia nenhuma cou necessariamente abandono de antigas lealdades e sentimen-
probabilidade a privri a seu favor. ~am!DhQJ:na_lS segu.rqJJ:~[a.-se los, embora isso pudesse acontecer. As populações geográfica e
~uir a nacionalidade era provavelmente o de p~rten~er a socialmente móveis, que não tinham nada de Illuito valioso a bus-
alguma entidade política a qual, pelos padroes do hb~ra~l~mo
N

car em seu passado, poderiam estar prontas a fazê-lo. Este era,


século XIX, fosse anômala, obsoleta e conden~d~ p~la ~lSt.ona e notadamente, o caso de muitos judeus de classe média nos países
pelo progresso. O império otomano era o malS ObVlO ~o~sll ,evo- que ofereciam igualdade total através da assimilação - Paris valia
lucionário dessa espécie, mas também, com crescente eVldencla, o uma missa para além do rei Henrique IV - até que eles descobri-
império Hahsburgo. _ - ram, do final do século em diante, que uma prontidão ilimitada
Essas eram, então, as concepções de naçao e Estad?"naçao para assimilar não era suficiente se a nação que os recebia não se
dos ideólogos da era do triunfante liberalismo burguês: ?lg~mos, predispusesse a aceitar plenamente os assimilados. Por outro
de 1830 a 1880. Essas concepções faziam parte da ideologia !Iberal lado, não deve ser esquecido que os Estados Unidos eram o único
de dois modos. Primeiro, porque o desenvolvimento das naç~es era Estado que oferecia abertamente associação em uma ~nação" para
inquestionavelmente uma fase do progresso ou da ~ol~ça.o hu: quem quisesse, e as "nações" se abriam mais rapidamente à entra·
mana que ia do pequeno ao grande grupo, da famOla. a tnbo, a da livre do que as classes. As gerações de antes de 1914 estão
região, à nação e, em última instância, ao mund~ ~mficado do (:heias de chauvinistas patrióticos cujos pais, para não falar das
futuro no qual, para citar o superficial e portanto tiplCO ~. Low~s mães, não falavam a língua do povo escolhido pelos seus filhos e
Dickinson "as barreiras da nacionalidade que pertencem a mfãnCla eujos nomes, eslavos ou alemães magiares, testemunhavam sua
, d ., . da te~ 61
da raça irão dissolver-se e fundir-se no brilho. a ~~er:-cla e ar . escolha. Os prêmios da assimilação podiam ser substanciais.
Esse mundo seria unificado mesmo lmgulsucamente. U~a Mas também em outro sentido a nação moderna era parte
única língua mundial, sem dúvida coexi~tindo com lí~guas naCiO- da ideologia liberal. Estava ligada ao que sobrou dos grandes s1o-
nais reduzidas ao papel doméstico e sentlmental dos dialetos, esta- 1fllTi.S liberais a respeito da associação durável, mais do que a res-
va nos planos tanto do presidente Ulysses S. Gr_ant quanto ?e ~rl peito de sua necessidade lógica: assim como a liberdade e a igual-
Kautsky.62 Essas predições, como sabemos, n~o ~stavam mte~r:-­ dade estão para a fraternidade. Em outras palavras, na medida em
mente fora dos limites. As tentativas de constrUir, h?gua~ mundl~ls que a própria nação era historicamente nova, opunha-se aos con-
artificiais, feitas a partir de 1880, seguindo os codlgos mternaclo- servadores e tradicionalistas e, portanto, atraía seus oponentes. A
nais de sinalização e os telegráfiCOS da década de 1870, for~, na associação entre essas duas linhas de pensamento pode ser ilus-
verdade, fracassadas, mesmo que uma delas, o esperanto, am~a Irada pelo exemplo de um típico pan-germânico da Áustria, nas-
sobreviva entre grupos pequenos de entusiastas e sob a .p~oteçao ('ido em uma área de conflito nacional agudo, a Morávia. Arnold
de alguns regimes derivados do intemacionalismo SOCialista d? l'ichler/" que setviu à política de Viena com uma devoção in-
período. Por outro lado, o ceticismo sensível de Ka~tsky a respe.l- quebrantável até mesmo pelas transfonnações políticas de 1901 a
to desses esforços e sua predição de que uma das hnguas estatais 1938, permaneceu durante toda a sua vida um apaixonado nacio-
maiores seria transfonnada na língua mundial, mostrou-se de fato nalista alemão, antitcheco e anti-semita - embora tenha ultrapas-
correta. O inglês se tornou a língua global, m~sm~ que ela su- ~itdo o limite quando colocou todos os judeus em campos de
plemente, mais do que substitua, as línguas naClonalS.
51
50
concentração, como sugeriram seus companheiros anti-semitas,M d,a - .para além dos sentimentos subjetivos dos membros da na-
Ao mesmo tempo, ele era acerbamente anticlerical e mesmo clOn~hd~de envolvida ou das simpatias pessoais do observador. fie A

um liberal em política; de qualquer maneira, ele contribuía no admlraçao burguesa universal pelos escoceses das terras altas não
mais liberal dos jornais diários da Viena da primeira república, ~evou, ao <I.,ue eu saiba, algum escritor a demandar a sua existência
Em seus escritos, o nacionalismo e o raciocínio eugênico vão juntos orno naçao para eles - nem mesmo os sentimentalistas que
com um entusiasmo pela revolução industrial e, mais surpreenden- lame~tavam .o fraca~o da restauração Stuart sob Bonnie Prince

te ainda, pela criação de um corpo de "'cidadãos do mundo' (Wel- Charhe, apotados prmcipalmente pelos clãs das terras altas.
Portan~o, se o único nacionalismo historicamente justificável
tbürger) .. , que .. , longe dos provincialismos de cidades pequenas e
e~ aquel~ aJ.ustado ao progresso - isto é, aquele que alargava, e
de horizontes ligados pela torre da igreja", abrisse o planeta para
na~ restrmgla, a escala de operação humana na economia, na
aqueles até então prisioneiros de seus cantos regionais,t15
Tal era, portanto, o conceito de "nação" e "nacionalismo" SOCiedade e ~a cultura - , qual podia ser a defesa dos povos pc-
qu~n~s, das línguas ffi:nores e das tradições menores, na grande
visto pelos pensadores liberais no apogeu do liberalismo burguês,
malona dos casos, a nao ser uma expressão da resistência conser-
a era em que o "princípio da nacionalidade" tornou-se, pela pri-
vadora ao avanço inevitável da história? Os pequenos povos lín-
meira vez, um tema maior na política internacional. Como vere-
guas e culturas ajustavam-se ao progresso apenas no caso de 'acei-
mos, este diferia em um aspecto fundamental do princípio wilso-
tar~m um status subordinado a alguma unidade maior ou caso se
Diana da autodeterminação nacional, que é também, na teoria, o
retIrassem da ~talha para se tomar um repositório de nostalgia e
princípio leninista e que dominou o debate sobre esses assuntos
de outros s~numento~ - em uma palavra, se aceitassem o status
do final do século XIX em diante, e ainda predomina hoje, O
d: ser.a anuga m~bnla da família que Kautsky atribuiu a eles, O
"princípio da nacionalidade" não era incondicional. A esse respei- q al, e daro, mUitas das pequenas comunidades e culturas do
to, diferia também da visão radical-democrática tal como colocada
mund~ parece~ ~er aceitado, Como o observador liberal culto
na Declaração de Direitos da Revolução Francesa citada anterior- po~~na ter racIOcmado, por que deveriam as pessoas de língua
mente, a qual especificamente rejeitava o "princípio do ponto gaehca comportar-se di~erentemente dos que falam o dialeto de
crítico", No entanto, na prática, os minipovos que tinham seus
INorthumberland?
d' Nada
. os impedia de serem bilíngu" es. O s esco- "
direitos de soberania e autodeterminação assim garantidos não ores
• em laJetos mgleses não escolhe~ •..m seu 1"d"lama contra a
podiam exercê-los, impedidos pelos seus grandes e rapaces vizi- I~ngua nacional padrão, mas com a consciência de que amb
nhos, e a maioria deles não contava com muitos simpatizantes dos unham seu valor e seu lugar. E, se no curso do tempo o idioU:
princípiosde 1795. Pensa-se nos cantões livres das montanhas da local retrocedesse diante do idioma nacional, ou mes~o desapa-
Suíça, que dificilmente estariam longe das mentes dos leitores de recesse,
_ . como aconteceu com algumas língu""'" cel"" "" (o
....." marginais
Rousseau que escreveram na época a Declaração dos Direitos do cor~lCo e o manx ~eixaram de ser falados já no século XVIII)
Homem. Os dias de movimentos autonomistas ou independentes, {"~ntao, ce~tamente, ISSO era inevitável, embora lamentável. Es~
em tais comunidades, ainda não haviam chegado. Imguas nao morreriam sem lamentos, pois uma geração ue in-
Do ponto de vista do liberalismo - e, como o exemplo de v~ntou o conceito e o termo "folclore" poderia contar ~bre a
Marx e Engels o demonstra, não apenas do liberalismo - ~~­ Ihferença entre o presente vivo e'''' __ so b rev:IvenClaS
"" " d o passado.
~jlçã~" ~estava__ Do_fato de e~~ re_w:.~sentar_ UIl!.~stágio _nQ d~ Par~ compreender a "nação" da era liberal clássica é portan-
~volv_ime:nto histórico _da _sQCi~a-º-e humal!~ e a questão do to esse~cial ter e~ ~e~tc: que a "construção de nações", por mais
estabelecime~to de um Estado-nação ~specífico dependia de este 'Iue seja cen~al a hlStorIa do século XIX, aplicava-se somente a
mostrar-se adequado ao progresso ou ã evolução histórica avança- algumas naçoes. E, de fato, a demanda pelo "princípio de nado-

52 53

'b
nata\·d de" também não era universal. Como problema "d'
internado-- ções ainda se beneficiavam da ausência da democracia eleitoral,
nal e como problema político doméstico, o ~prinClplo. ~ a nacIOna- que minaria a prática e a teoria liberal da nação tal como minaria
lidade" atingia um limitado número de povos o~ re~?es, mesmo tanta coisa mais do liberalismo do século XIX.
em Estados multilíngües e multiétnicos como o lmpeno.Habsbu~­ Talvez seja essa a razão pela qual a literatura teórica conse-
go onde já dominava daramente a política. Não sena dem~lS quente sobre o nacionalismo na era liberal seja pouca e tenha de
di;er que, depois de 1871, e com exceção da lenta desagregaçao alguma forma um ar casual Observadores como Mill e Renan
do império otomano, poucos povos esperavam alguma su~se­ ~entiam-se despreocupados o suficiente sobre os elementos que
qôente mudança substanci~l no mapa da E?fOpa e reconheciam construíam o "sentimento nacional" - a etnicidade (a despeito
poucos problemas nacionaiS aptos a envolve-los, exceto a perene da apaixonada preocupação vitoriana com a "raça"), a língua, a
questão polonesa. De fato, ~ora dos ~álcã,s,. a única, ~udança n~ religião, o território, a história, a cultura e o restante - porque,
mapa da Europa eo tre a cnação do Impeno gerrnamco e a. P,n politicamente, ainda não importava muito qual dentre eles era o
meira Guerra Mundial foi a separação da Norueg: da S~eCl~. mais importante. Mas de 1880 em diante o debate sobre "a ques-
Além disso, depois dos sinais de alarme e as excurs,?e.s nacIOn:us tão nacional" tornou-se sério e intensivo, especialmente entre os
dos anos 184&-1867, não se supunha sequer que os ammos ~a~iO· socialistas, porque o apelo político dos slogans nacionais para as ma.s-
nais iriam esfriar na Áustria-Hungria. De qualquer modo, e ISto sas de votantes potenciais e teals, ou para os que apoiavam mo-
que os funcionários do império Habsbu,?o esperavam qu~ndo, vimentos políticos de massa, era agora objeto de uma preocupa-
de modo muito relutante, decidiram aceItar uma resoluçao do ção prática real. E o debate sobre questões tais como os critérios
Congresso Estatístico Internacional de São Petersburgo em 187:3, teóricos da nacionalidade tornaram-se apaixonados porque se
a de incluir uma questão sobre língua nos futuros censo.s,. embora acreditava que qualquer resposta particular implicava uma forma
propusessem adiar sua aplicação até 1880 para perml.ur que a (~spednca de estratégia, luta e programa político. Era um assunto
opinião se acalmasse com o tempo.67 Eles n~o . podenam estar de importância não apenas para governos confrontados com vá-
mais espetaculannente errados em seus prognostlcos. . . rios tipos de agitação ou reivindicação nacional, mas também
Segue-se que, de qualquer forma, as nações ~ ~s nacIO~ahs­ para os partidos políticos que procuravam eleitorados na base de
mos não eram, nesse período, problemas domestlcOs ma.t~,res chamados nacionais, não-nacionais ou alternativos à nação. Para
para as entidades políticas que tinham alcançado o stat~s de Es- os socialistas da Europa centr~ e oriental, fazia uma grande dife-
tados-nações", apesar de serem nacionalmente hete.rogeneos pe- rença qual a ~º--r:iça sobre a qual a nação fosse definida.
los padrões modernos, ,e~bor~ naç~es ~ nacio~allSlnos foss~~ Marx e Engels, como MiII e Renan, consideraram tais questões
problemáticos para impenos nao-naClonalS que nao eram classifl marginais. Na Segunda Internacional os debates foram centrais, e
cáveis (anacronicamente) como "multinaciona~s". Nenhu~ E~ta­ uma constelação de figuras eminentes, ou figuras que seriam emi-
do europeu a leste do Reno havia enfrentado amda comphcaço.es Il('nles - como Kautsky, Luxemburgo, Bauer, Lenin e Stalin-
desse tipo, exceto a Grã-Bretanha com ~~a per~anente anomalIa, nJIltribuíram para eles com importantes escritos. Se tais questões
os irlandeses. Isso não significa que pobtlcos nao se apercebessem preocupavam os teóricos marxistas, também era de uma impor-
dos catalães e bascos, dos bretões e flamengos, dos esco~eses e l;inda prática aguda para, digamos, os croatas e os sérvios, os
galeses mas sim que estes eram olhados do ponto de VIS~ de macedônios e os búlgaros saber se a nacionalidade dos eslavos do
algum~ força política estatal como adicionando ou subtral~do Sul era defmida de um modo ou de outro.1iti
forças. Os escoceses e galeses funcionavam como reforços d.o .hbe- O "princípio da nacionalidade~", que os diplomatas debate-
lismo os bretões e flamengos como reforços ao catohclsmo Iam e que mudou o mapa da Europa entre 1830 e 1878, era
:adici;nalista. É claro que os sistemas políticos dos Estados-na- p' >rtanto diferente do fenômeno político do nacion~lism(). que se

54 55
tornou crescentemente central na era da política de massas e da
democratização européia. Nos dias de Mazzini, pouco importava
para a maioria dos italianos se o l&argimenio tinha elÔstido, de
modo que, como Massimo d' Azeglio admitiu em sua famosa frase,
"Nós fizemos a Itália, agora temos que fazer italianos".5\! Não im·
portava nem mesmo para aqueles que, preocupados com '"a ques-
tão polonesa", sabiam que provavelmente a maioria dos campone- NOTAS
ses polacos (para não mencionar o terÇo da população do antigo
Rzecspopolita pré-1722 que falava outros idiomas) não se sentiam
ainda como poloneses nacionalistas; como reconh:eceu o liberta-
dor da Polônia, coronel Pilsudski, em sua frase, "E o Estado que I. Uuis Garcia ~ Sevilha, "Uengua, Nadá i Estat ai Diccionario de la
2. Rea~ Acad.errua .Espanyola (L'Avenç, 16.5.1979, pp. 5()..55).
n
faz a nação e não a nação que faz o Estado".1OContudo, depois de
1880, importaria crescentemente de fato como homens e mulhe- EnacWpedla Umversal Ilustrada Europeo-Ammcarw (Barcelona, 1907-
res comuns sentiam-se a respeito da nacionalidade. É então im· 34), vaI. 37, pp. 854-867: "naci6n".
:1. (São Paulo-Rio-porto Alegre, 1958-1964), vol. 13, p. 581.
portante considerar os sentimentos e atitudes desse tipo dos pc--
1. L. Cume de Sainte Pelaye mctionnair-t Hislori d 1:4 . In
vos pré-industriais, sobre os quais o novo apelo do nacionalismo François (Niort, s.d.), 8 vol~.: "nation". tpU t nam ngagt
político poderia ser construído. O próximo capítulo tratará disso.
!í. Dr. E. Verwijs e Dr.]. Verdam, Midddmderlandsch Woordenbotk, 1 4
(Haia, 1899), col. 2078. vo.
6. WOOT~.enboelt der NtderlandscJu Taa~ vol. 9 (Haia, 1913). cols. 1586-90.
7. ~elWlJS e Ve~a~, M,irldtlmderlandsch Woordenfutk, voI. 4.
1-1. Huguet, Düúonrwlrt' de la L.angut Françaist du 1& Siklt vol. 5 (P .
.'
ns 1961), p. 400. ' a
9. Woordenboelt (1913), col. 1588.
10. John
Wi' Heinrich Zedler,GroSSts
.... VOO'_·"nd,·~,
. . 0- U' 'T.·
nlversa"L<!:xuon alltr
ISStnSChajttn und Künsu... , vol. 23 (Leipzig-Haia, 1740 repmd ·d
por Graz, 1961), cals. 901.3. ,UZl o

:~: OxfordEng/ühDictionary, vol. VII (Oxford, 1933), p. 30.


JOhn]. Lalor (org.), Oydnpcdia of Poliliwl Scitnu (Nova York, 1889)
vol. II, p. 932: "nation~. As notas relevantes são reimpress~. ou '
d ·d ..." mes-
~o tra uz.1 as, grandemente de antigos trabalhos franceses.
1:i. toder..se-la concluir dessa definição que a Nação estA destinada a
~r apenas um Estado e que este constitui um todo indivisível."
~'bidtm, p. 923). ~ definição que advém desse "poder-se-ia concluir"
e que u~a Naçao constituiu "}.Im agregado de homens falando ;L
~esma__~~IKU~, tendo os .mesmos costumes~ ~tilhando certas gua-
Igtades m0t!!~,...!l!!-e -ºs disUmrllem de outros ~ .-I~ ~~.
. '1 "Esse' - ~ __ ~~ureza
s~ ~r. . e um dos nu~er~ exercícios na arte de questiona~'
pela qual o argumento naclOnahsta muitas vezes foi nocauteado
11. J S. Mill, Ub.·litarW.m'sm, Liberiy and &pnstntan've Q.,vmlment (ed.·
pular, Londres, 1910), pp. 359-366. po-

56
57
15. Pode-se observar que na Declaração dos Direitos de 1789 ou de 1793 ~O. Rae, The Sociological Theory oi CapitaL
não há referências ao direito dós povos à soberania e à independên- :'11. Nouveau [)jctionnairt d'Ecrmomie P. liti
cia. Ver Lucien ]aume, Le Dürours Jacobi1l eI la Dmwcratie (Paris, (orgs.), (Paris, 1892). Q que, Léon Say e ]oseph ChaiUey
1989), Apêndices 1.3, pp. 407414. Contudo, para a mesma visão em :S2. Michel Chevalier, Cours d'Économit Politi . ,
1793, ver o. Dann e J. Dinwiddy (orgs.), Nationa.lism i1l tM Agt of tM vol. I (Paris, 1855), p. 43. A au1 ~. d dqw !a~t au ColUgt tk Franu,
French Rrvoluti(Jf'l (Londres, 1988), p. M.
~3. L. Robbins, The Theory oi Ec a. o~; a .ongm~lmente em 1841.
1n
16. Maurice Blok, «Nationalities, principIe of", in J. Laior (org.), EcO'fWTny (2" ed. Londres 1977)" "9-)9 Enghsh Classical Politieal
~' , , pp. 0. Entretanto pod f
Oyclopedia of Political Scimce, vol. 11, p. 939. uma exceçao para o bentham. . ,e-se azer
M. Geor"<Te Ri h d lSmo genuinamente global.
17. P. Vilar, "Sobre tos fundamentos de las estrUcturas nacionales~ -o- c ar son Porter, The Prognss of lhe M· ..
(Hisuma, 16jExtra V (Madri, abro 1978), p. lI. Social and Economic Re/ations frmn tJu . . abon, In ds Various
Ctntury /o tM Pres T"' &g1nmng of IM NiTllteenffl
18. J. S. Mill, UJilitarianism, Liberty ami Representativt Govemmmt. pp, 359-
~5. Molinari ,'o Di"'~ I~'d~fartes (Londres, 1836), Prefácio.
366.
19. Cil in M. de çerteau, D. Julia, e J. Revel, UTll Polilique tk la Langue.
economy~.
,
Lalor, Oycl~iaorpoli"
~I'- ~ lCa 'O"
onflm" ,,-wnomie Poli!" lU (Pari
",-.mee' vo 1 II li
. ,.p 957'"N' ,
. auons m political
.
S, 1854) reed. In
La RitJ.olution FTançaise tt /J:s Patois: L'Enquite de l'Abbi Grégoire (Paris,
1975), p. 293. Para o problema geral da Revolução Francesa e a ~6. Ibidem, pp. 958-959.
língua nacional, ver também Renée Balibar e Dominique Laporte, Lt ~7. Ibidem., p. 957.
Fra1lflli5 NationaL Politique el Pratique de la Langue. Natiorw/e sous la :'18. Ibidem., p. 933.
Rivolv.lion (Paris, 1974). Para o problema específico da Alsácia, ver E. :S9. 515-516. n·
Cf. J. Schumpeter ,lStcry ,( E
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1975), e P. Lévy, HistoiTe Linguistique d'A/sace et de Lom:Iine (2 vols., 10, Ele escreveu
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. _ Oj,f A ·
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Poüllcal
EstraSburgo, 1929). que anteCipa sua vlSao po te· P , ,
20. De Certeau, ]uHa e Revel, UTll Politique de la Langue.
21. ':fun..re§:ção ~ ~.~taºO, os c@ad<ios _consth.\l~m _º- f!í!-lJl!.i em. relação ~
i~~o;~. ?~~~;'Che ~;~ ;2~~~rika~~ ~~~~~;I~C~~!~~;~
America" (Aro .' E' , 25, pp. 154-182, e ''Frederick llit in
r~umana_d~s constituem..a..Naçãa.",j. Hélie, "Nation, definition
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22. DestaCado in E. J. Hobsbawm, The Age of Revolution 1789--1848 (Lon-
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24. Walter Bagehol, Phisics and Poli/ics (Londres, 1887), caps. m, Nem
dução de Gamier-pag~~;~:;;, ~;::;n1lalre POlilique," c~m ~ma intro-
«Nation-making~. coisa de de .. . ), pp. 62~25. Nao ha qualquer
25. Emest Renan, ''What is a nation?~, in Alfred Zimmem (org.) , Modem . . rnsono em chamar a Bélgica de Nação?~
Politi,alDodrines (Oxford, 1939), p. 192. 14. Con.ndn-atwns 011 &presentative Goo .. .
15. Ox0rd E"",u<h Di . emment, In Uttlitarianistn, p 365
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TF....
ao Congresso,vaI. 11, p. 941.
de Brunn , que

58 59
elaborou seu programa nacional, ver Georges Haupt, Michel Lowy e
Claudie WeilL lA Marxislts d /Q QJustion Nationalt 1848.-1914 (Paris, como
• a sociedade os trata hoje. Se estivéssemos no poder , nOs t6 m~
L"-

1937), pp. 204-207. tenamos que negociar com o banditismo dessa gente, o qual faz
52. Mill, Utilitarianism, Libmy and &prtsmialive G:nMmmml, pp. 363-364. parte de sua herança. ~
53. Cf. Roman Rosdiolskj'. "Friedrich Engels und das Problem der 61. Em~ ~ri~, Die. Umgangsfmuhrn in AMsterreich l.wiscMn Agit6tion und
'geschichtslosen Võlker'" (Archiv for Suz.ia~chichte, 4/1964, pp. 87- As.mnzlaZUm. Die SprachmstatistiJe in den :t.iesleithanischen Volh.sWhlungm
282). 1880-1910 (Viena-Colônia-Gral, 1982).
68. Cf. Ivo ~anac, The National Question in Yugoslallia: Origins, History,
54. Ver Unda Colley, "Whose Nation? Class and national consciousness
in Britain 1750-1830" (Past & Presmt, 113, 1983), pp. 96-1l7. Politics (ltaca e Londres, 1984), pp. 76-86.
55. leuan Gwynedd jones, "Language and Community in Nineteenth- 69. Dito na primeira reunião do parlamento do recém·unido reino ita-
Century Wales", in David Smith (org.), A Peoplt and a ProlttariaL' liano (E. Latham, FamotlS Sayings and TMir Au/hars. Detroit, 1970).
Essays in lhe History olWalts 1780-1980 (Londres, 1980), pp. 59-63. 70. H. Roas, A History ai Modem Poland (Londres, 1966), p. 48.
56. Enquite sobre educação no Pais de Gales, Parliamentary Paper, 1847,
XXVII, parte 11 (Relatório dos condados de Brecknock, Cardigan e
Radnor), p. 67.
57. Haupt, Lowy e Weill, Les Marxistes, p. 122.
58. Dentro da Espanha eram evidentes as diferenças culturais, lingüísti-
cas e institucionais entre as pesooas dos reinos de Aragão e de
Castela. No império espanhol, do qual Aragão foi excluído, eram
mais ainda.
59. Tu1lio de Mauro, Sturia Linguistica deU'ltalia Unita (Bari, 1963), p. 41.
60. "Obwohl sie alle in einem Reich 'DeuLSCher Nation' nebeneinander
lebten, darf nichts daTÜber hinwegtiiuschen, dasz ihnen sogar die
'gemeinsame Umgangssprache fehlte." Hans-Ulrlch Wehler, Deutsche
GeseUschaltsgtlSchichte, vol. I (Munique, 1987), p. 50.
61 B. Porter, Cn·tics oi EmfA're. British Radical Attitudes to Colonialism in
Africa, 1895-1914 (Londres, 1968), p. 331, citando G. Lowes
Dick.inson na obra A Modem Symposium (1908).
62, Para uma citação importante do discurso inaugural do presidente
Grant, ver E. J. Hobsbawm, The Agt 01 Capital 1848·187'5 (Londres,
1975), epígrafes do capo III.
63. Franz Pichler, PoliuiJwfral P. Ein treuer Diener seienes ungtlretlm Slaate.s.
Wirner- Po/iuidimst 1901-1938 (Viena, 1984). Agradeço a Clemens
Heller por esta referência.
64. Ibidem. p. 19.
65. Ibidem, p. 30.
66. Cf. carta de Friedrich Engels a Bemstein en 22/25.2.1882 (WerlIt,
voi. 35, pp. 2'78 e segs.) , sobre os eslavos dos Bálcãs: ~E mesmo que
esses rapazes fossem tão admiráveis quanto os escoceses das Terras
Altas, consagrados por Walter Scott - outro bando de ladrões de
gado terríveis -, o máximo que podemos fazer é condenar os rrwdos

60
61
II

o protonacionalismo popular

Como e por que pode o conceito de "patriotismo nacional",


tão distante da experiência real da maioria dos seres humanos,
tomar-se tão rápido uma força política poderosa? Evidentemente,
não basta lembrar a experiência universal dos seres humanos que,
pertencendo a grupos, reconhecem-se mutuanlente como mem-
bros de coletividades e comunidades e portanto reconhecem 05
outros como estrangeiros. O problema diante de nós deriva do fato
d(~ que a nação moderna, seja um Estado ou um corpo de pessoas
que aspiram formar um Estado, diferem em tamanho, escala e
natureza das reais comunidades com as quais os seres humanos se
identificaram através da história, e colocam demandas muito dife-
rentes para estes. A nação moderna, é uma "comunidade imagina-
da~, na útil frase de Benedict Anderson, e não há dúvida de que
pode preencher o vazio emocional causado pelo declínio ou desin-
1q~ração, ou a inexistência de redes de relações ou comunidades
humanas nwis; mas o problema pennanece na questão de por que
:18 pessoas, tendo perdido suas comunidades reais, desejam imagi-
nar esse tipo particular de substituição. Uma das razões pode ser a
d(' que, em muitas partes do mundo, os Estados e os movimentos
nacionais podem mobilizar certas variantes do sentimento de víncu-
li, coletivo já existente e podem operar potencialmente, dessa for-
ma, na escala maaopolítica que se ajustaria às nações e aos Estados
modernos. Chamo tais laços de "protonacionais",

63
Eles são de dois tipos. Primeiro, há as formas supralocais de deixaram de se identiücar a si mesmos, onde estivessem, como
identificação popular que vão além daquelas que circunscrevem membros de um povo especial e distinto dos vários ramos de não-
os espaços reais onde as pessoas passaram a maior parte de suas crentes entre os quais viviam, em momento nenhum, ao menos
vidas: como a Virgem Maria, que liga os fiéis de Nápoles a um desde o retorno do cativeiro babilônico, isto implicou uma aspira-
mundo maior, mesmo que seja mais diretamente para o povo de ção séria por um Estado político judeu - para não falar de um
Nápoles que o sangue de SãoJanuário deva se liquefazer todo ano Estado territorial- até que um nacionalismº.i!!.q~u.foi inventado
(e de fato isso deve acontecer, por um milagre garantido eterna- no final do século XIX por analogia com o recém-formado llilCi!l-
mente) para a doença não cair sobre a cidade. Em segundo l~gar, nalismo ocidental. É inteiramente ilegítimo identiücar os liames
há os laços e vocabulários políticos de grupos seletos mais dIreta- que têm os judeus com a terra ancestral de Israel, mérito que
mente ligados a Estados e instituições, capazes de uma eventual deriva das peregrinações ali feitas ou a esperança de retorno
generalização, extensão e popularização. Este tipo tem um pouco quando viesse o Messias -" além do que, do ponto de vista dos
mais em comum com a "nação~ moderna. No entanto, nenhum judeus, obviamente Ele não veio - com as aspirações de juntar
dos dois tipos pode ser legitimamente identificado com o !lªci~ "todos os judeus em um Estado territorial moderno situado na
palismo ffi.Qdemo, como se fosse sua extensão linear, porque eles antiga Terra Santa. Poder-se-ia bem argumentar que bons muçul-
pão têm ou não tiveram nenhuma relação necessária com a uni- manos, cuja ambição maior é peregrinar a Meca, ao fazê-lo pre-
dade da organização política territorial que é o critéri9.. crucial tendam realmente declarar-se cidadãos do que se tornou agora a
p,aqu)lo que hoje entende_mos por "nªção----". Arábia Saudita.
Peguemos dois óbvios exemplos. Até 1945, onde há vestígi- O que precisamente constituía o protonacionalismo popu-
os, os que falavam dialetos germânicos, e cujas elites usavam a lar? A questão é muito difícil, pois implica a descoberta dos senti-
língua da cultura alemã, padronizada e escrita, estavam estabeleci- mentos das pessoas não alfabetizadas que formavam a maioria
dos não apenas em suas regiões principais da Europa central mas absoluta da população mundial antes do século XX. As idéias
também como classes dirigentes e como citadinos nos trechos de deste capítulo estão baseadas nos literatos que liam e escreviam-
áreas camponesas por toda a Europa do Leste e do Sudeste, para ou pelo menos em alguns deles - , mas é claramente ilegítimo
não mencionar as pequenas colônias que formavam uma diáspora ('xtrapolar das elites para as massas e dos alfabetizados para os
geralmente religiosa, nas Américas. Eles foram dispersados por analfabetos, mesmo que os dois mundos não sejam inteiramente
uma série de ondas de conquistas, migrações e colonização até o ~('paráveis e a palavra escrita tenha influenciado as idéias daqueles
extremo leste, como o baixo Volga, entre o século XI e o século {pIe apenas falavam. l O que Herder pensava a respeito do VolA:
XVIII. (Omitimos o fenômeno muito diferente da migração do Ilào pode ser utilizado como evidência do que pensava o campesi-
século XIX.) Todos eles, certamente, viam-se a si mesmos como lIalO da Westfália. Um exemplo pode ilustrar a extensão dessa
"alemães~, em algum sentido, distintos de outros grupos entre os dist.ância entre alfabetizados e não-alfabetizados. Os alemães que
quais viviam. Embora houvesse fricções constantes entre os ale- lúrmavam a classe dos senhores feudais, bem como os citadinos
mães locais e outros grupos étnicos - especialmente onde os da região báltica, sentiam naturalmente que "a vingança nacional
alemães monopolizavam certas funções cruciais, como por exem- ("ontinuava a ameaçar como uma espada de Dâmocles sobre suas
plo a classe dominante proprietária da terra no Báltico - , nã? (abcças", pois, como Christian Kelch mostrou em sua história da
conheço, antes do século XIX, nenhum caso em que tenha surgI- l-ivônia de 1695, os camponeses estonianos e os letões odiavam-
do um problema político pelo fato de os alemães encontrarem-se !lOS com toda razão ("Selbige zu hassen wohl Ursache gehabt").
vivendo sob governantes não-alemães. Da mesma forma, enquan- N.) entanto, não há evidência de que os camponeses estonianos
to os judeus, espalhados pelo mundo por alguns milênios. nunca I",nsavam em termos nacionais. Em primeiro lugar, eles não pare-

64 65
SETORIAL DE Emlt ,ACAO ]

cem ter visto a si mesmos como um grupo etnolingiiístico. A pala- mesmo que isso não tivesse acontecido, eles jamais poderiam ter
vra ~estoniano" foi usada apenas na década de 1860. Antes disso, contribuído para o uso da palavra, visto que nem a burocracia, a
os camponeses chamavam-se a si mesmos de maaTahvas, isto é, Igreja ou os ideólogos do poder moscovita jamais parecem tê-la
"povo do campo~. Em segundo lugar, a palavra sa/ts (saxão) tinha usado antes ou depois dos tempos problemáticos. 4 Em uma pala-
o significado dominante de "senhor~ ou "mestre", e apenas secun- vra, a sagrada Rússia era um termo popular que expressava presu-
fl
dariamente o sentido de "alemão Já foi argumentado plausivel-
• mivelmente idéias populares. Seu uso é exemplificado na épica
mente (por um eminente historiador estoniano) que onde litera- dos cossacos do Don da metade do século XVII, tal como a "histó-
tos (alemães) leram referências ao "alemão~ nos documentos, os ria poética do assalto de Azov" (pelos turcos). Aqui os sitiados
camponeses tinham provavelmente querido dizer, s~mplesmente, cossacos cantam:
"senhor" ou "mestre":
Nunca mais estaremos na Sagrada Rússia novamente. Nossa morte
Do final do século XVIII em diante, os clérigos e ministros locais pecaminosa vem no deserto. Morremos pelos seus ícones milagro-
puderam ler os trabalhos dos iluministaS sobre a conquista da sos, pela fé cristã, em nome do Czar e por todo o Estado moscovi·
Estônia (os camponeses não tinham acesso a tais livros) e tenderam <a'
a interpretar as palavras dos camponeses de um modo que se ajus-
tava à sua própria maneira de pensar. 2 A sagrada terra russa é portanto definida pelos ícones sagra-
dos, a fé, o czar, o Estado. E uma combinação poderosa, e não
Vamos então começar com uma das poucas tentativas de apenas porque os ícones, isto é, símbolos visíveis como o são as
estabelecer o pensamento daqueles que raramente formulavam bandeiras, estão entre os métodos mais amplamente usados de se
seus pensamentos sobre assuntos públicos de modo sistemático, e ver o que não pode ser visto. E a Santa Rússia é uma força inques-
nunca os escreviam: o livro do falecido Michael Cherniavsky, O tionavelmente popular e informal, e não uma força criada de
CzaT e o p(J'/)o.' Nesse livro, Cherniavsky discute, entre outras coisas, cima. Considere-se, como o fez Chemiavsky, a perceptividade e
o conceito de "sagrada Rússia" ou "a sagrada terra russa", um delicadeza com a qual ele aprendeu de seu professor Ernest Ran-
termo para o qual não enconlrOU muitos paralelos, sendo o mais torowicz 6 a palavra "Rússia". O império dos Cl.ares, a unidade po-
próximo a "sagrada Irlanda". Ele poderia, talvez, ter acrescentado lítica, era lwssiya, um neologismo dos séculos XVI-XVII que se
o "das heil'ge Land Tirol" (a sagrada terra do Tirol) para obter tornou oficial a partir de Pedro, o Grande. A terra sagrada da·
um interessante contraste e comparação. Rússia foi sempre a antiga Rus. Ser um russo é, até h~je, ser russky.
Segundo Cherniavsky, uma terra só poderia ser "sagrada" se Nenhuma palavra derivada do Rossiya oficial - e muitas foram
pudesse reivindicar uma única atribuição na economia global da !eotadas no século XVIII - conseguiu ser aceita como descrição
salvação, ou seja, ser a única fonte de salvação da humanidade: no da nação e do povo russos ou entâo de seus membros. Ser um
caso da Rússia de até a metade do século XV, as tentativas de TUSSky, como nos lembra Cherniavsky, era equivalente a ser um
reunir as Igrejas e a queda de Constantinopla, que acabou com o membro do curioso par intercambiável krl!stianin-christianin
Império romano, fizeram desse país a única terra ortodoxa do (camponés-cristâo) e ser também um "fiel verdadeiro" ou ortodo-
mundo e de Moscou a terceira Roma. Pelo menos, essa era a visão xo. Este sentido essencialmente popular e populista da sagrada
do czar. Tais reflf'xões, no entanto, não são inteiramente perti- russidade pode ou não corresponder à nação moderna. Na Rús-
nentes, na medida em que a expressão não chegou a ter um .~ia, sua identificação com o simultâneo chefe da Igreja e do Esta-
amplo uso até os problemáticos tempos do começo do século do obviamente facilita tal identificação. Na sagrada terra do Tlrol
XVII, quando o czar e o Estado virtualmente desapareceram. Mas isso não aconteceu, porque a combinação pós-tridentina da terra-

66 67
ícones-fé-imperador-Estado favoreceu a Igreja Católica Romanà e
o KaiserHabsburgo (como tal ou como conde do Tirol) contra o mente nos precaver contra confundir os debates dos alfabetiza_
moderno conceito de uma nação alemã, austríaca ou qualquer dos, que São quase as únicas fontes, com aqueles dos não-alfabeti-
outra. Deve ser lembrado que os camponeses tiroleses levantaram- zados, e ta~bém de não ler anacronicamente, no passado, o seu
se, em 1809, mais contra seus vizinhos bávaros e não tanto contra uso pelo seculo XX.
os franceses. Todavia, por mais que o upovo da terra sagrada" ,As 1ínguas ~em<k.uÊl.$:,não cultas são sempre um complexo
possa ser identificado com a nação posterior, o conceito clara- de ~aletos e vanantes locaiS que, com vários graus de facilidade
mente veio antes. ou dificuldade, intercomunicam_se dependendo da sua acessibili-
Contudo, nos critérios da sagrada Rússia, sagrado Tirol e dade a.u ~echamento geográfico. Algumas podem ser tão incom-
talvez sagrada Irlanda, observamos a omissão de dpjs elementos preenslvels como se pertencessem a uma familia lingüística dife-
que hoje aSS~IJl9~_erto, ~~!1ão ~rucialmente, com ªs deftni- rente, ? que acontece em áreas montanhosas que facilitam a se-
~cknaç~s..l!ªgem e ~a~~~ gregaçao. Nos seus países, há anedotas sobre as dificuldades de
O que dizer da !iI)1~uagem? Não será a verdadeira essência galeses do Norte entenderem o gaélico do sul do País de G I
d lha a es,
daquilo que distingue um povo de outro, ~nós" de ueles", seres ou os a neses gheg em entender o dialeto toslr.. Para os filólo-
humanos reais dos bárbaros que não podem falar uma língua gos, o fato de o ca~ão ser mais próximo do francês do que do
genuína mas apenas proferem ruídos incompreensíveis? Cada lei- basco pode ser crUCIal, mas para um marinheiro normando que
tor da Bíblia não aprendeu, no episódio da Torre de Babel, como ~e e?co~tr~ em Bayonne ou POTt Bou a língua local pode parecer,
o inimigo foi tomado como amigo pela correta pronúncia da a pn~erra,1ll1pressão, igualmente opaca. Até hoje, indivíduos cul-
palavra shibboleth? Não se defmiram assim os gregos, como prato- tos c~Ja pr,lmeira língua é o alemão e que são de Kiev podem ter
nacionalistas, contra o· restante da humanidade, os "bárbaros"? A a mator dificuldade e~ entende~ alemães-suíços instruídos que
mais óbvia barreira para a comunicação não será a ignorância da ~~ comumente o dialeto alemao como meio de comunicação
língua de outro grupo, e portanto aquilo que mais claramente dIafla.
defme as linhas que separam os grupos? Assim, a criação ou a fala , . A~im, n~ época anterior à generalização da educação pri-
de uma gíria especial não serve ainda para marcar as pessoas mana nao :rnVla, nem poderia haver, nenhuma língua unacional"
como membros de uma subcultura que deseja separar-se de ou- falada, e nao ser certos idiomas literários ou administrativos do
tras subcuIturas ou de toda a comunidade? modo como eram escritos, dirigidos ou adaptados ao uso oral
Não se pode negar que pessoas que falam línguas mutua- seja c~mo uma língua franca na qual os que falavam dialeto~
mente incompreensíveis e que vivem lado a lado irão identificar a ~odenam se ~omunica~" s~ja como - mais perto de nossa ques-
si mesmos como de sua língua e aos membros de outras comuni- ~o , - um m~lo para dlOgrr-se a audiências populares através dos
dades como de outras línguas, ou pelo menos como não de sua lumtes dos dialetos, por exemplo a língua usada por pregadores
própria língua (como barbaroi, ou como nemci na terminologia ou declamadores de canções e poemas comuns a uma área cultu-
dos eslavos). No entanto, não é isso que importa. A questão é a de ral mais ampla,' O tamanho dessa área de comunicabilidade c-o-
saber se essas barreiras linguísticas podem separar en tidades que mum potencial podia va~ar con~ideravelmente, Seria quase certa-
poderiam ser nações ou potenciais nacionalidades, e não mera- mente ampla para as ehtes, cUJos horizontes e campo de ação
mente grupos que têm problemas em compreender as palavras de ;ra~ ~enos localizados do que, por exemplo, o dos camponeses.
outros grupos. Essa questão nos leva ao terreno das pesquisas E difícil conceber uma "língua nacional genuinamente falada
M

sobre a natureza das línguas vernáculas e seu uso como critério de que en~?lva uma base puramente oral e que não seja híbrida nem
vínculo ao grupo. Ao investigar ambas as questões, devemos nova- ~ma gUia, ~que c~rtamente pode se tornar eventualmente uma
hngua pratlca) eXistente em uma região de qualquer tamanho
68
69

-
geográfico substancial. Em outras palavras, a "língua materna", q~e sejam - as bases fundamentais da cultura nacional e as ma-
real ou literal, isto é, o idioma aprendido pelos filhos de mães trJze~ ~a mentalidade nacional. Freqüentemente, essas línguas são
analfabetas e falado para o uso cotidiano, não era, em qualquer tentatIvas de construir um idioma padronizado alra ' d
b' - d . .. ves a recom-
sentido, uma "língua nacional". m~ça~ e u~ multIph~ldade de idiomas realmente falados, os
Como já sugeri, isso não exclui uma certa identificação po- quais sao, ass~, ,rebaixados a dialetos - e o único problema
pular cultural com a língua ou com um complexo de dialeto~ nessa cC?nstruçao e a escolha do dialeto que será a base da língua
abertamente relacionados, que são próprios a um corpo de comu- homog~neizada e padronizada. Os problemas subseqüentes de
nidades e as distingue de seus vizinhos. como no caso dos que padromzar e homogeneizar a ortografia e a gramática nacionais
falam magiar. E na medida em que isso acontece, o nacionalismo bem co~o o de aCrescentar novos elementos ao vocabulário sã~
do período posterior pode ter raízes lingüísticas protonacionais se,:un~a~lOs.ll As histórias de praticamente todas as línguas ~uro­
genuinamente populares. Esse hem pode ser o caso dos albaneses ~~las mSI~tem nesta base regional: o búlgaro erudito é baseado no
que vivem sob influências culturais rivais desde a antiguidade clás-- Idioma bulgaro do Leste, o ucraniano erudito em seus dialetos do
sica e esrão divididos entre três ou quatro religiões rivais (se in- S~deste, o húngaro erudito emerge no século XVI pela comb' ,
cluirmos o culto islâmico do Bektashi localmente centrado): islâ- d"d'l
ça~ e vano~ la etos, o lerão culto é baseado na média de três
ma
mica, católica ortodoxa e católica romana. Era natural para os vanante~ o htuan~ de duas, e _assim por diante. Onde os nomes
pioneiros do nacionalismo albanês procurar na linguagem uma dos arqUitetos da ~mguagem sao conhecidos, como é freqüente-
identidade cultuI'al albanesa, pois a religião, como de resto tudo o ~ente o caso de hnguas que adquiriram status literário entre os
mais na Albânia, parecia dividir, mais do que unificar. a No en- ~ec~los XVIII, XIX e XX, essa escolha pode ser arbitrária (embora
tanto, mesmo em um caso tão aparentemente claro, devemos nos .lu~tIficada por argumentação).
precaver em confiar excessivamente na literatura. De fato, não é , . Alg~m~s vezes essa escolha é política ou tem implicações
daro em que sentido e até onde os albaneses comuns do final do pO~lnc~ obvVlas. ~sim, os croatas falam três dialetos (cakavian,
século XIX e começo do século XX viram-se como tal, ou reco- It~J~1JI.an e stohavtan) um dos quais é também o maior dialeto dos
nheceram uma afinidade mútua. O guia de Edith Durham, uma servlos. Duas ~e.~s ~esenvo~eram versões cultas. O grande após--
jovem montanhesa do Norte para quem foi dito que o~ albaneses tolo croata
'.
do ilmamsmo, LJudevit Cai;I (1809-1872) , e m bora fa 1as-
do Sul tinham igrejas ortodoxas, diz: "Eles não são cristãos, mas se ,on?,nalm~nte e escrevesse em croata Itajhavian, mudou seus
tosh.s - o que nâo sugere um forte sentido de identidade coletiva p~opnos escntos para o stohavian em 18~8, com o objetivo de su-
- , além de dizer "não é possível saber o número preciso de blinhar a unidade básica dos eslavos do Sul, para que: l. o servo-
albaneses que foram aos Est.ados Unidos porque os primeiros imi- (Toata se desenvolvesse mais, ou menos, como uma língua erudita
grantes nem sempre identificavam-se como albaneses".9 Além djs-- (embora fosse escrita ~m. caracteres romanos pelos católicos
so, mesmo os pioneiros da existência da nação naquela terra de (roatas e em c~ract~res clrfllcos pelos sérvios ortodoxos); 2. empo-
dãs feudais e senhores lançaram mão de argumentos mais convin- brecesse o naCIOnalismo croata da justificação lingüística adequa-
centes em prol da solidariedade antes de apelarem para a língua. da; ~. provesse tanto os sérvios como os croatas com o pretext
Como Naim Frasheri (1846-1900) disse, "todos nós somos uma para o expansionismo. 12 Por outro lado, às vezes eles apostava:
única tribo, uma única família; som.os um só sangue e uma só ~·rrado ..Bernolák escolheu um dialeto como a base para o que
língua".IO A língua, quando não ausente, vinha por último. pretendia
~ . fOsse o eslovaco erudito por volta de 1790,oque
que
As línguas nacionais são sempre, portanto, construtos semi- 11;10 conseguIU; poucas décadas depois, Ludovit Stur escolheu ou-
artificiais e, às vezes, virtualmente inventados, como o moderno tra que provou ser mais viável. Na Noruega, o nacionalista
hebreu. São o oposto do que a mitologia nacionalista pretende Werge1and (1808-1845) pedia um norueguês mais puramente no-

70 71
. To~a-se e~tão cJa~o ~ue, exceto para os dominantes e para
rueguês, diferente da língua escrita excessivamente dinamarq~e­ os .m~tr~ldos, a língua ~iflcllmente poderia ser um critério para a
sa, e tal língua foi prontamente constr~ída (0nd$md~ conhecIda e.xlstenna de uma naçao, e que mesmo para aqueles foi necessá-
hoje como nynor.slt). A despeito do apOlo oficlal que recebeu. de- no e~colher um vernáculo nacional (em uma fonua literária pa-
pois que a Noruega se tornoU independente, essa língua so se drOnizada) de preferência a línguas mais prestigiosas, sagradas ou
estabeleceu como língua de minoria do país, o qual, desde 1947, clássicas q~~ eram, para as elites minoritárias, um meio perfeita-
é de fato bilíngüe em sua escrita, sendo o nynorslt confmado a mente prabco de comunicação administrativa e intelectual, de
20% dos noruegueses, especialmente os que vivem na Norue,ga debate público e mesmo de composição literária - pensa-se no
central e ocidental." É claro que em muitos outroS casos de lín- pe~sa clássico do império mughal ou no chinês clássico do Japão
guas literárias antigas a história escolheu adequadamente, como Helan. Essa escolha foi de fato feita mais cedo ou mais tarde,
com os dialetos associados à administração real que se tornaram exceto talvez na China, onde a língua híbrida dos instruídos clas-
as bases do idioma instruído da França e da Inglaterra, ou quando sicamente se tornou o meio de comunicação entre dialetos que
a combinação do uso marítimo e comercial, o prestígio cultura~ e, de outra forma seriam mutuamente incompreensíveis nesse vasto
o apoio macedônio ajudaram o ático a se tornar a base do kQme império, e está em processo de se tornar algo como uma língua
helênico ou o idioma grego comum. falada.
podemos deixar de lado, por um momento, o problema Na verdade, por que a língua deveria ser um critério de
menor embora também urgente - de como modernizar até mes- vínculo a gntpo, com exceção talvez do caso em que a diferencia-
mo esses antigos idiomas cultos ~nacionais" para adap~-los para ção de línguas coincida com alguma outra razão para marcar a
uma vida contemporânea não considerada pela Academla France- pessoa como externa, pertencente a outra comunidade? Como
sa ou pelo dr.]ohnson. O problema é universal, embora se com- uma instituição, o próprio casamento não pressupõe a comunida-
plique, em muitos casos _ especialmente entre os holandeses, de da língua, caso contrário não haveria exogamia institucionali-
alemães tchecos islandeses e muitos outros - , por algo que se z~~a. Não se ~ê razão para discordar do culto historiador de opi-
pode chamar de' nacionalismo fllológico, ou seja, ~ insistên~ia ~a moes a respeIto da multiplicidade de línguas e povos e que sus-
pureza lingüística do vocabulário nacional, que obng~u os ~len~s­ tentou que "apenas as generalizações posteriores estabeleceram
tas alemães a traduzirem ~oxigênio" por Sauerstoff e aInda msplfa os seres humanos com a mesma língua como amigos, e como
uma ação desesperada da retaguarda francesa contra os estragos inimigos os de língua estrangeira ~ .l5 Onde não existem outras
do franglais. Todavia, o problema ê mais agudo nas lí~guas que línguas no mesmo espaço, o idioma próprio de cada um não é
não foram grandes suportes da cultura, mas que gostanam de ser tanto ~m c~tério de grupo como algo que todas as pessoas pos-
veículos adequados para, digamos, a comunicação moderna teC- suem, 19ual as pernas. Onde muitas línguas coexistem, o multilin-
no-econômica ou a educação superior. Daí demandas como a güismo pode ser tão normal que constitui, de modo bastante ar-
galesa. que, possivelmente com alguma justificação, pensa ser a bitrário, uma identificação exclusiva com qualquer idioma. (Isso
mais antiga língua erudita viva, pois data aproximadamente do faz com que os censos requeiram uma escolha exclusiva diante de
século VI. No entanto, em 1847 foi observado que: fontes nâo confiáveis de informação lingüística.)lO Em algumas
áreaS, as estatísticas lingüísticas oscilam desordenadamente de um
( ... ) seria impossível expressar em gaéllco m:uitas das proposiç~s censo para outro desde que a identificação corri um idioma de-
comuns em política e ciência de modo a deiXar claro seu senu?o penda não do conhecimento, mas de algum outro fator mutável,
mesmo para um leitor galês inteligente que não conhecesse o tn-
como em algumas áreas da Eslovênia e da Morávia sob os Habs-
glês. l i burgo; ou então as pessoas podem tanto falar sua própria língua

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como uma língua híbrida não reconhecida oficialmente, como em ton, um dominicano inglês, ao especular sobre isso na metade do
algumas partes da ÍstriaP Além disso, essas línguas não são inter- século XIII, distinguia os homens por grupos de línguas (de acor-
cambiáveis. Ali pessoas em Mauricio não escolhem arbitrariamente do com o idioma falado), por generationn (de acordo com a ori-
entre falar mole ou sua própria língua doméstica, porque usam gem), por habitarem Um território particular e por diferenças
cada uma com diferentes objetivos, tal como os suíços-alemães, que entre costumes e conversas, as gentes. Estas classificações não ne-
escrevem o alemão erudito e falam schwyzerdütsch; ou como o pai cessariamente são coincidentes e não devem ser confundidas com
esloveno da novela de Josef Roth, Radetzkymarsch, que se dirige a um populus ou povo, que era definido pela vontade de obedecer a
seu filho, um oficial promovido, "no duro alemão comum do uma lei comum e, portanto, eram mais uma comunidade históri-
exército eslavo" em respeito ao status de um oficial Habsburgo,16 e co-política do que uma comunidade "natural".~o Nessa análise,
não em sua língua original, como o jovem esperava. De fato, a William de Alton demonstrou uma perspicácia e um realismo ad-
identificação mística de uma nacionalidade com uma espécie de miráveis mas não incomuns até o final do século XIX.
idéia platónica da língua, existindo alrás e acima de todas suas Pois a língua era apenas um modo de distinguir entre comu-
variantes e versões imperfeilas, é muito mais uma criação ideológi- nidades culturais, e não necessariamente o fundamental. Heródo-
ca de intelectuais nacionalistas, dos quais Herder é o profeta, do to sustentava que os gregos formavam um povo, apesar de sua
que uma característica dos reais praticantes comuns do idioma. É fragmentação geográfica e política, porque tinham uma descen.
um conceito erutido e não vivido. dência comum, uma língua comum, deuses e lugares sagrados
Isso não significa negar que as línguas, ou mesmo famílias comuns, costumes e festas de sacrifício e hábitos e modos de vida
lingüísticas, não sejam parte da realidade popular. Para a maioria comuns. 21 Certamente a língua era de importância crucial para
dos povos de línguas germânicas, a maior parte dos estrangeiros a eruditos como Heródoto. Seria um critério igualmente importan-
leste e ao sul - principalmente os de línguas românicas, mas te de identidade grega a um beócio ou tessaliano médio? Não
também celtas - é galesa, enquanto que a maior parte das pessoas sabemos. O que sabemos é que lutas nacionalistas foram agrava-
de língua fmlandesa ou, depois, eslava, a leste e a sudeste, é wend; das algumas vezes, nos tempos modernos, pela. recusa de frações
e, do mesmo modo, para a maioria dos eslavos, os de língua de grupos lingüísticos em aceitar a unidade política com outros
alemã são nemci. Contudo, sempre foi evidente para todo mundo que falam a mesma língua. Esses casos (os chamados WasSii7fmla-
que a língua e o povo (qualquer que seja o modo como foram cken na Silésia durante o período gennânico e os chamados Win-
definidos) não coincidem. No Sudão, os fur estabelecidos vivem dische na zona fronteiriça daquilo que se tomaria a Áustria e a
em simbiose com os nômades baggara, mas um acampamento parte eslovena da Iugoslávia) levaram à amarga acusação dos po-
vizinho de nômades fur que falam fur é tratado como se fosse loneses e eslovenos de que tais categorias tinham sido inventadas
baggara, pois a distinção crucial entre os dois povos não é a lín- por chauvinistas da Grande Alemanha para justificar seu expan-
gua, mas a função. Que esses nômades falem fur "apenas permite sionismo territorial, e não há dúvida de que tais acusações tinham
que as transações comuns, como comprar leite, alocar terrenos no um fundo de verdade. No entanto, não pode ser negada a existên-
acampamento ou obter adubo, que se teria com outros baggara, cia de grupos lingüísticos de poloneses e eslovenos que, por qual-
fluam de maneira mais suaVe".19 quer razão, preferiam considerar-se politicamente alemães ou
Em tennos mais "teóricos~, as famosas 72 línguas nas quais a austríacos.
raça humana foi dividida depois da torre de Babel (pelo menos A língua, no sentido herderiano de ser falada pelo Volh, sem
segundo comentadores medievais do Livro do Gênesis) cobriam, dúvida não era diretamente um elemento central na formação do
cada uma, muitas natUmes ou tribos, de acordo com Anselmo de protonacionalismo, embora não lhe fosse necessariamente sem
Leon, pupilo do grande Anselmo de Canterbury. Wtlliam de AI- relevância. Contudo, indiretamente tornou-se central à df'fmição

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moderna de nacionalidade, e portanto também à sua percepção embora tenha sido calculado que, quando da unificação (1860),
popular. Pois onde existe uma língua de elite, admi.istrativa ou apenas 2,5% da população usavam a língua para fins cotidianos.~~
culta, por menor que seja o número daqueles_que a usa~, ela Pois esse minúsculo grupo era, em sentido real. um e portanto o
pode tornar-se um elemento importante da coesao protonaclOnal, povo italiano. Ninguém mais era. Do mesmo modo, a Alemanha
por três razões que foram enume:adas por B. ~derson. 22 • do século XVIII era um conceito puramente cultural; no entanto,
A primeira é o fato de ela cnar uma comu~ldad~ d:s~ elite porque era o único conceito no qual a Alemanha tinha uma exis-
intercomunicante a qual, se coincide ou pode Vlt a cotncldu ,com tência - distinta da multiplicidade de principados e Estados, pe-
uma área estatal territorial particular e com uma zona vemacula quenos e grandes, administrados e divididos por horizontes
própria, pode ser uma espécie de mod~lo o~ projeto pU.oto para a religiosos e políticos -, podia administrá-los por meio da língua
ainda não existente comunidade matar, mtercomuntcante, da alemã. No melhor dos casos, esta Alemanha consistia de 300 a 500
"nação". Nessa medida, os idiomas falados não são irrelevantes milleitores!5 de obras na língua culta vernácula, e do certamente
para a futura nacionalidade. Línguas "clássicas" ou rituru.s, por bem menor número daqueles que realmente falavam Hochsprach.e
mais que stjam prestigiadas, não serv~n:'" para se tor:nar hnguas ou a língua cultural de uso diárioP especialmente os atores que
nacionais, como foi descoberto na Grecla, onde .havIa uma real interpretavam as (novas) obras que seriam os clássicos vernáculos.
continuidade lingüística entre o grego falado anugo e moderno. Na ausência de um padrão estatal defmidor do que era correto
Vuk Karadzié (1787-1864), o grande reformador e de fato o fun- Co inglês do rei"), na Alemanha esse padrão foi estabelecido nos
dador virtual do moderno servocroata erudito, estava sem dúvida teatros.
certo quando resistiu às primeiras tentativas de criar essa língu~ A segunda razão é que uma língua comum, exatamente por
erudita fora da 19r~a eslavônia - por parte daqueles q~e antecI- não ser naturalmente gerada mas sim construída - especialmen-
param a criação posterioi' do hebraico mo~erno a parb.r ~e um te quando é impressa -, adquire uma nova fixidez que a faz
antigo hebraico adaptado - e de construI-la sobre os. d~et:,s parecer mais permanente e portanto (por uma ilusão de ótica)
falados pelos povos sémos. 2~ Tanto o ~pu.lso qu~ l~ou a crlaçao mais "eterna" do que realmente é. Daí a importância não apenas
do hebraico moderno falado quanto as clrcunstanClas que leva- da invenção da imprensa - especialmente quando uma versão
ram ao seu bem-sucedido estabelecimento são raras demais para vernácula de um livro sagrado provê a fundação da língua erudi-
servir de exemplo geral ta, como freqüentemente foi o caso -, mas também dos grandes
Todavia, dado que o dialeto que fonna a base da linguagem padronizadores e depuradores que apal'ecem na história culta de
nacional é realmente falado, não importa que aqueles que o fa- toda língua cultural, depois do surgimento do livro impresso. Ba-
lem sejam uma minoria, desde que sejam .um~ minori~ de sufici- sicamente essa época ocorreu entre o fmal do século XVIII e o
ente peso político. Neste sentido, o frances fOi essencial do coNn- começo do século XX para todas as línguas, exceto para um pe-
ceito de França, mesmo que, em 1789, 50% dos franceses nao queno grupo de línguas européias.
falassem nada de francês; apenas 12 a 1:5% falavam-no "corretaN Em terceiro lugar, a língua cultural oficial dos dominantes e
mente" e, fora da região central, não era habitualmente falado da elite frequentemente transformou-se na língua real dos Esta-
mesmo na área da langue d'oul, com exceção das cidades e mesmo dos modernos via educação pública e outros mecanismos adminis-
assim nem sempre nos subúrbios. No Norte e no Sul da França trativos.
virtualmente ninguém falava francês.U. Mas, se o francês ao menos Contudo, esses são desenvolvimentos posteriores. Dificil-
tinha um Estado de modo a poder ser a sua "linguagem nado- mente afetam a língua das pessoas comuns na era pré-nacionalista
nal~, a única b~ para a unificação italiana er~ a língua i~liana, e, certamente, na era pré-literária. Não há dúvida de que o man-
que unia a elite instruída da península, como leitores e escritores, darim ligou um vasto império chinês cujos povos integrantes não

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podiam entender reciprocamente as suas línguas, mas não o fez vantagem em ligar membros de um grupo e excluir estranhos, e
diretamente através da língua e sim através da administração de portanto são centrais ao nacionalismo étnico. "A Cultura (Kul-
um império centralizado que operava por meio de tlm conjunto lUr)M, disse Hans Hanak, "não pode ser adquirida pela educação.
comum de ideogramas e como instrumento da comunicação en- ~ cultura está no sangue. A melhor prova disso, hoje, é dada pelos
tre elites. Para a maioria dos chineses não teria tido importância Judeus, que podem apropriar-se de nossa civilização (Zivilisatwn)
se os mandarins tivessem se comunicado em latim, como não teve mas nunca de nossa cultura". Hanak - ironicamente, seu nome
importância para a maioria dos habitantes da Índia que a Compa- denuncia a origem eslava - era o KreisleUer nacional-socialista de
nhia das Índias Orientais tivesse, em 18:30, substituído a língua Innsbruck em 1938, e essas palavras se dirigiram para congratular
persa _ que havia sido o idioma administrativo do império mu- as mulheres nazistas de Innsbruck diante da tentativa judaica de
ghal- pelo inglês. Ambas eram igualmente estranhas para eles e, destruir seu ~elevado e respeitado status" ao pregar a igualdade de
já que não escreviam nem liam, eram línguas irrelevantes. Para homens e mulheres, a qual teve um momentâneo sucesso. 31 No
tristeza dos historiadores nacionalistas posteriores, os habitantes entanto, a abordagem genética de etnicidade é abertamente sem
flamengos daquilo que seria mais tarde a Bélgica não se mobiliza- importância, já que a base cnlcial de um grupo étnico, como
ram contra os franceses por uma brutal galicização da vida públi- [onna de organização social, é cultural e não biológica.'2
ca e oficial nos anos revolucionários e napoleônicos, nem Water- Além disso, as populações dos grandes E.stados-nações terri-
loo levou a qualquer "movimento sério em Flandres a favor de toriais são quase invariavelmente muito heterogêneas para reivin-
uma língua flamenga ou uma cultura flamenga~.28 Por que o se- dicar uma etnicidade comum, mesmo se não contarmos com a
ria? Para aqueles que não podiam entender francês, as concessões imigração moderna, e em qualquer caso a história demográfica
administrativas práticas tinham que ser feitas por um regime de de grande parte da Europa foi tal que sabemos o quão multiforme
fanáticos lingüistas. É bem menos surpreendente que o fluxo de pode ser a origem de grupos étnicos, especialmente em áreas
estrangeiros que falavam francês, nas comunas rurais de Flandres, onde populações foram deslocadas e estabelecidas no curso do
tenha sido sentido mais por sua recusa em assistir à missa aos tempo, como em vastas áreas da Europa central, da Europa do
domingos do que em bases lingüísticas. 29 Em resumo, deixando. Leste e do Sudeste, ou mesmo em partes da França." A mistura
de lado casos especiais, não há razão para supor que a língua que constitui a especificidade étnica de qualquer povo da Europa
tenha sido apenas mais do que um entre os muitos critérios pelos do Sudeste - ilírios pré-romanos, gregos, imigrantes eslavos de
quais as pessoas pertenciam simbolicamente a uma coletividade vários tipos e várias ondas de invasores da Ásia central, dos avaros
humana. E ê absolutamente certo que a língua não tinha ainda aos turcos otomanos - constitui assunto de um eterno debate
um potencial político. Como um comentador francês da torre de (especialmente na Romênia). Assim, os montenegrinos, original-
Babel observava em 1536: mente considerados sérvios mas sendo agora uma "nacionalida-
de" e tendo uma república federada própria, parecem ser urna
Existem agora mais do que LXXII línguas, porque existem agora combinação de camponeses sérvios, de relíquias do antigo reino
mais nações diferentes na terra do que havia naqueles dias."" séIVio e das hordas valáguias que ocuparam as áreas despovoadas
pela conquista turca.~ E claro que não se pode negar que, por
As línguas multiplicaram com os Estados, e não o contrário. exemplo, os magiares do século XIII poderiam se considerar
O que dizer sobre a etnicidade? No uso comum, é sempre como uma comunidade étnica, pois descendiam (ou poderiam
ligada, de modo inespecífico, à origem e descendência comuns, alegar a descendência) das ondas de invasores nômades da Ásia
das quais se alega derivarem as características comuns dos mem- central, falavam variantes de uma üngua completamente desseme-
bros do grupo étnico. "Parentesco" e "sangue" têm uma óbvia lhante da dos seus vizinhos, ocupavam amplamente um meio

78 79
r... •

ambiente específico em seu reino e sem dúvida partilhavam de múltiplas. Muitos deles eram ucranianos, tártaros, poloneses,
práticas ancestrais. Mas tais casos não são comuns. lituanos e russos. O que os unia não era o sangue, mas a crença.
No entanto, a etnicidade no sentido de Heródolo era, é e Será a etnicidade ou a ~raça", portanto, irrelevante para o
ainda pode ser algo que - ligando as populações que vivem em moderno nacionalismo? De fato esse não é o caso, pois diferenças
amplos territórios, ou mesmo em dispersão, e que não contam visíveis na psique são óbvias demais para serem desprezadas e têm
com uma estrutura política - pode ser chamado de protonação. sido muito freqüentemente usadas para marcar, ou reforçar, as
É o caso provável dos curdos, dos somalis, dos judeus e dos bas- distinções entre "nós~ e ~eles~, incluindo as distinções nacionais.
cos, entre outros. No entanto, essa etnicidade não tem relação Três coisas, no entanto, precisam ser ditas sobre tais distinções. A
histórica com aquilo que é crucial nas nações modernas, ou seja, primeira é que elas funcionaram tanto horizontal quanto vertical-
a formação do Estado·nação ou, para o que importa aqui, qual- mente e, antes da era do nacionalismo moderno, provavelmente
quer Estado, como demonstra o caso dos grego~ antigos. ~oder-~ serviram mais comumente para separar estratos sociais do que
ia argumentar até mesmo que os povos que tem o senudo maIS comunidades inteiras. O uso mais comum da discriminação pela
agudo e poderoso do que pode ser chamado de etni.cidade "tri_ cor aparece na história, infelizmente, como aquele que atribui
bal" resistiram não apenas à imposição do Estado moderno, na- posição soci,aI mais elevada dentro da mesma sociedade (por
cional ou não, como também a qualq'lUff Estado: os que falam exemplo, a India), quanto mais clara for a cor da pele, embora
pushtu no Afeganistão e em suas cercanias, os escoceses das terras tanto a imigração em massa como a mobilidade social viessem a
altas antes de 1745, os berberes do monte Atlas e outroS que vêm complicar o padrão ou mesmo revertê~lo, de modo que o tipo
rapidamente à lembrança. ~certo~ de classificação racial vai a par com o tipo ~certo~ de
Do mesmo modo, na medida em que "o povo" foi identifICa- posição sodal, independente da aparência física _ como nos paí-
do com uma estrutura política particular, esta atravessa as mais ses andinos, onde indígenas que se agregam às baixas classes
claras divisões étnicas e lingüísticas, mesmo se visto de baixo. Os médias são automaticamente reclassincados como ~mestiços~ ou
homens da sagrada terra do Tirol que se levantaram contra os cholos, independente da aparência.'6
franceses em 1809, sob a liderança de Andreas Hofer, incluíam Em segundo lugar, a etnicidade "visível" tende a ser negativa
tanto alemães quanto italianos e também, sem dúvida, os que na medida em que é muito mais usada para definir "o outro" do
falavam ladino.'~ O nacionalismo suíço é, como sabemos, pluriét- qu~ .0 ~rópri~ !?TUpO. Daí o ~apel proverbial dos estereótipos
nico. Da mesma forma, se supusermos que os montanheses gre- metais ( o nanzJudeu"), a relauva cegueira dos colonizadOres em
gos que se levantaram contra os turcos nos dias de Byron er~ relação às diferentes cores presentes naqueles considerados glo-
nacionalistas, o que é claramente improvável, não podemos dei- balmente como "negros" e a expressão "todos eles se parecem" ao
xar de notar que alguns dos seus mais aguerridos participantes se referir a olhos puxados e pele amarela, o que é provavelmente
não eram helenos, mas albaneses (os suliotes). Além disso, muito baseado em uma visão social seletiva daquilo que se acredita ser
poucos movimentos nacionalistas modernos são realmente basea- comum ao "outro". A homogeneidade étnico-racial da própria
dos em consciência étnica, embora, assim que se formam, costu- nacionalidade é dada como garantida, uma vez afinnada _ o que
mam inventar uma, na forma de racismo. Em resumo, não preá- nem sempre acontece - , mesmo que a inspeção mais superficial
sarnos portanto ficar surpresos com o fato de os cossacos do Don possa dela duvidar. Pois para "nós" parece óbvio que os membros
terem abandonado a etnicidade ou os ancestrais comuns na sua de nossa "nacionalidade~ tenham um amplo espectro de tama~
definição do que os tornava filhos da sagrada terra russa.. Na ver- nhos, formas e aparências, mesmo quando todos partilhem de
dade, foram sagazes ao assim fazê·lo, pois - como tantos corpos certas car~terísticll5 fisicas comuns, como um certo tipo de cabe-
de combativos camponeses livres - suas origens eram bastante lo preto. E apenas para "eles" que todos somos parecidos.

80 81

E
-
Em terceiro lugar, a etnicidade negativa é sempre ir:trinseca- Irlanda. De fato, a relação parece se estreitar mais ainda onde o
mente pouco importante ao protonacionalismo, a menos que te- nacionalismo se torna uma força de massa, à diferença de sua fase
nha sido fundida com algo parecido a uma tradição estatal, corno como movimento de uma minoria ideológica e ativista. Os mili-
na China, na Coréia e no Japão, onde estão os exemplos mais tantes do movimento sionista dos dias heróicos do vishuv palesti-
extremos e raros de Estados históricos compostos por uma popu- no provavelmente comeriam mais sanduíches de presunto, de-
lação quase ou inteiramente homogênea etnicamente.57 Em tais monstrativamente, do que usariam chapéus rituais, como o fazem
casos, é bem possível que a etnicidade e a lealdade política este- hoje os fanáticos israelenses. O nacionalismo dos países árabes é
jam ligadas. Estou informado de que o papel especial da dinastia hoje tão identificado com o islamismo que amigos e inimigos
Ming nas rebeliões chinesas que se sucederam à sua queda, em acham difícil ajustar-se nas várias minorias cristãs árabes, captas,
1644 - sua restauração estava, e provavelmente ainda está, no maronitas e de católicos gregos, que foram seus pioneiros no
programa de importantes sociedades secretas - , era ligado ao Egito e na Síria turca.41.1 De fato, essa crescente identificação do
fato de que, à diferença de seus predecessores mongóis e de seus nacionalismo com a religião é também característica do movimen-
sucessores manchus, a dinastia Ming era puramente chinesa ou to irlandês. Nem isso é surpreendente. A religi.ão é um antigo e
han. Por essa razão, as diferenças étnicas mais óbvias tiveram um experimentado método de estabelecer uma comunhão, através de
papel muito pequeno na gênese do moderno nacionalismo. Os uma prática comum e de uma irmandade, entre pessoas que de
índios da América Latina sempre tiveram um profundo senso de outro modo não teriam nada em comum. U Algumas de suas ver--
sua diferença étnica em relação aos brancos e mestiços, desde a sões, como o judaísmo, são especificamente indicadas como uma
conquista espanhola, e isto foi reforçado e institucionalizado pelo marca distintiva de vinculação a comunidades humanas particula-
sistema colonial espanhol de dividir a população em castas ra- res.
ciais.'8 Entretanto, não conheço nenhum caso em que esse fato No entanto, a religião é um cimento paradoxal para o prato-
tivesse levado a movimentos nacionalistas. Raramente chegou a nacionalismo, e de fato também para o nacionalismo moderno,
inspirar até mesmo sentimentos pan-indígenas entre os índios, à que, comumente, a considerou com muita reserva (pelo menos
diferença dos intelectuais indigenistas.39 Do mesmo modo, o que nas suas fases mais militantes) como uma força que poderia desa-
os habitantes da África subsaariana têm em comum contra seus fiar o proclamado monopólio da "nação" diante da lealdade de
conquistadores de pele branca é uma cor relativamente escura. A seus membros. Em qualqer caso, as religiões genuinamente tribais
negritude é um sentimento que realmente existe, não apenas entre normalmente operam em uma escala muito pequena para as
elites e intelectuais negros, mas sempre que um grupo de pessoas modernas nacionalidades e resistem a abrir-se muito. Por outro
de pele mais escura se confronta com pessoas de pele mais clara. lado, as religiões mundiais que foram inventadas entre o século VI
Pode ser um fato político, mas a mera consciência da cor nunca a.C. e o século VII d.C. são universais por defmição, e portanto
produziu nenhum Estado africano, nem mesmo Gana e Senegal, pensadas para escamotear as diferenças étnicas, lingüísticas, polí-
cujos fundadores foram inspirados pelas idéias pan-africanas. Nem ticas e outras. Os índios e os espanhóis no império e os para-
resistiu à influência dos Estados africanos reais que foram formados guaios, brasileiros e argentinos desde a independência foram t0-
a partir das antigas colônias européias, cuja única coesão interna dos, igualmente, fiéis filhos de Roma, e não podiam distinguir-se
vinha de algumas décadas de administração colonial. como comunidades por sua religião. Felizmente, as verdades uni-
Sobra portanto o critério dos antigos cossacos do século versais estão freqüentemente em competição, e as pessoas que
XVII em relação à sagrada Rússia: a religião e o reino ou império. estão na fronteira de algumas dessas verdades podem, às vezes,
Os liames entre a consciência nacional e a religião podem escolher outras como um distintivo étnico, como o fazem russos,
ser estreitos, como o demonstram os exemplos da Polônia e da ucranianos e poloneses para se diferenciarem entre si como cató-

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licos romanos, ortodoxos e uniates* (a cristandade provou ser a Por outro lado, é igualmente claro que a conversão a diferentes
mais conveniente procriadora de verdades universais rivais). Tal- religiões pode ajudar a criar duas diferentes nacionalidades. pois
vez seja parte do mesmo fenômeno o fato de o grande império foi certamente o catolicismo romano (e seu subproduto, a escrita
chinês confucionista ser cercado de pequenos povos leais a outras latina) e o ortodoxo (com seu subproduto, a escrita cirílica) que
religiôes (principalmente o budismo e também o islamismo). No', mais obviamente dividiram os Croatas dos sérvios, até então parti-
entanto, vale a pena notar que a prevalência de religiões transna- lhando uma única üngua de cultura. Todavia, e novamente, há
cionais impôs limites a identificaçôes étnico-religiosas, pelo me- povos que claramente possuíam alguma consciência protonacio-
nos nas regiões do mundo onde se desenvolveu o moderno nacio- nal, como os albaneses, embora estivessem divididos por um
nalismo. Essas identificações estão longe de ser universais, e mes- maior número de diferenças religiosas do que comumente se en-
mo quando existem não costumam distinguir os povos em ques- contra em um território do tamanho do País de Gales (várias
tão de todos os seus vizinhos, mas apenas de alguns, como, por fonuas de islamismo, religião ortodoxa, catolicismo romano). Fi-
exemplo, os lituanos, que estão separados dos alemães luteranos e nalmente, ainda não está claro se identidades religiosas separadas,
dos letos, e também dos russos ortodoxos c bielo-russos pelo ca- mesmo se poderosas, são em si mesmas semelhantes ao naciona-
tolicismo romano, mas não dos poloneses, que são, igualmente, lismo. A tendência moderna é a de assimilar ambos, visto que não
católicos fervorosos. Na Europa, apenas os irlandeses - que não conhecemos mais de perto o modelo do Estado multicorporativo,
têm outros vizinhos a não ser os protestantes - são exclusiva- no qual várias comunidades religiosas coexistem como entidades
mente definidos por sua religião.~t de algum modo autônomas e auto-administradas, sob uma autori-
Mas o que significa exatamente uma identificação étnico- dade suprema, como foi o império otomano. 43 Não é nada evi-
religiosa e onde ela ocorre? Em alguns casos, parece claro em dente que o Paquistão tenha sido o produto de um moVimento
primeiro lugar que uma religião étnica é escolhida porque um nacional entre os muçulmanos do então império indiano, embora
povo sente-se diferente de outros povos e Estados vizinhos. Ao ele possa ser considerado como uma reação contra um movimen-
que tudo indica, o Irã seguiu seu próprio caminho divino tanto to nacional indiano abrangente que não deu reconhecimento
como um país zoroástrico como quanto um país xiita, desde a sua adequado aos sentimentos e necessidades especiais dos muçulma-
conversão ao islamismo ou, pelo menos, desde os safavidas. Os nos; e embora a partilha territorial pareça ser a única fórmula
irlandeses vieram a se identificar com o catolicismo apenas quan- disponível na era do Estado-nação moderno, não é evidente que
do não conseguiram - ou talvez quando se recusaram a - seguir um Estado territorial separado fosse o que a Liga Muçulmana
os ingleses na Reforma, e a colonização maciça de parte de seu tinha em mente - a não ser muito mais tarde - ou algo em que
país pelos protestantes, que ficaram com as suas melhores terras, ela tivesse insistido apenas pela intransigência de Jinnah (que era
não favorecia sua conversão. 4 ! As Igrejas da Inglaterra e da Escó- realmente algo como um nacionalista muçulmano, mas não um
cia são politicamente definidas, mesmo que a última represente o fiel religioso). E é certamente provável que a maioria dos muçul-
calvinismo ortodoxo. Talvez o povo do País de Gales, até então manos comuns pensavam em termos comunais e não nacionais, e
não muito dado a seguir caminhos religiosos separados, tenha se não teriam entendido o conceito de autodetenninação nacional
convertido em massa à dissidência protestante, na primeira meta- como algo aplicável à crença de Alá e de seu profeta.
de do século XIX, como parte da aquisição de uma consciência Não há dúvida de que os paquistaneses consideram-se hoje
nacional que foi, recentemente, objeto de pesquisas sensÍveis. 44 membros de uma nação (islâmica) separada, tal como os bangla-
deshis, tendo vivido sob Estados separados durante vários perío-
• Aponuguesamento do russo u""ya!: membros das Ign,jas cristãs do Oriente que
reconhecem o primado do papa lJlalI conservam os ritos e a Iirurgla próprios. dos de tempo. Não há dúvida de que os bósnios e os muçulmanos
(N.T.) chineses irão considerar-se oportunamente como membros de

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uma nacionalidade, já que seus governos os tratam assim. Contu· ainda palavras rituais como o AUah Akbar dos muçulmanos e o
do, como tantos fenômenos nacionais, isso será, como já o foi, um Shema Yisroel dos judeus. Podem ser imagens nomeadas, identifi~
desdobramento ex post facto. De fato, poderosa como é a identifi· c:adas com territórios grandes o suficiente para constituírem na·
cação religiosa dos muçulmanos com o Islão, há muito poucos ções, como a Virgem de Guadalupe no México ou a Virgem de
movimentos protonacionais ou nacionais, se é que há algum, ~a· Montserrat na Catalunha. Podem ser festivais ou competições pe-
racterizados pelo distintivo islâmico (com exceção do Irã) na va~ riódicas como as Olimpíadas gregas e, mais recentemente, as in·
ta área onde o islamismo faz fronteira com outras religiões. E venções nacionalistas que têm o mesmo sentido, tais como os
outro assunto o fato de eles poderem estar se desenvolvendo, Jogos Florais Catalães, o Eisteddfodau galês e outros. O significado
hoje, contra Israel ou nas repúblicas soviéticas na Ásia central. Em dos ícones sagrados é demonstrado pelo uso universal de simples
resumo, as relaçôes entre religião e identificação protonacional pedaços de panos coloridos - as bandeiras - como o símbolo
ou nacional continuam complexas e extremamente opacas. Certa· das nações modernas, e sua associação com ocasiões rituais alta-
mente resistem a generalizaçôes simples. mente direcionadas e atos de veneração.
No entanto, como foi apontado por Gellner;fo6 a junção de No entanto, os "ícones sagrados" podem ser muito vastos ou
um povo a culturas maiores, especialmente culturas instruídas, a muito estreitos para servirem de símbolos de uma protonação,
qual é freqüentemente mediada por uma conversão a variantes de qualquer que seja sua forma ou natureza. É difícil confinar so-
religiões universais, permite aos grupos étnicos adquirir ativos lite- mente a Virgem Maria a algum setor limitado do mundo católico,
rários e religiosos que, mais tarde, podem ajudá·los a se tornarem e para cada Virgem localizada que se torna um símbolo protona-
nações e a se estruturarem como tal. Gellner argumentou que os cional existem centenas registradas como padroeiras de comuni-
grupos africanos assim ligados estão em melhor posição que ou- dades restritas, ou então são pouco importantes para nossos obje-
tros para desenvolver seu nacionalismo - como no extremo da tivos. Os ícones mais adequados do ponto de vista protonacional
África, onde tanto os cristãos amhara quanto os muçulmanos 50- são obviamente aqueles associados especificamente com um Esta~
malis descobriram ser mais fácil tomarem-se "povos estatais" por- do, isto é, em sua fase pré-nacional, com um rei ou imperador
que eram "povos do li~o", embora, na versão de Gellner, por divino ou imbuído de divindade cujo âmbito de ação coincide
edições diferentes e rivais. Isso é bastante plausível, embora fosse com a futura nação. Os 'dominantes que são, ex--officio, chefes de
bom conhecer quantas conversões dirigidas a variantes do cristia- suas Igrejas (como na Rússia) naturalmente prestam-se a tal asso-
nismo ocorreram no outro fenômeno político subsaariano que se ciação, mas o domínio mágico dos reis da Inglaterra e da França
assemelhou ao nacionalismo moderno de massa, ou seja, a guerra demonstram seu potencial mesmo quando a Igreja e o Estado
civil de Biafra de 1967 e o Congresso Nacional Sul-Africano. estão dissociadosY Visto que existem, comparativamente, muito
Se a religião não é uma marca necessária do protonaciona- poucas teocracias com possibilidades de se fazerem nações, é di-
lismo (embora tenha chegado a sê-Io para os russos do século ficiljulgar o quanto basta a autoridade divina. A questão deve ser
XVII, pressionados tanto pelos católicos poloneses como pelos deixada para os especialistas da história dos mongóis e tibetanos
turcos e tártaros muçulmanos), os ícones sagrados, por outro ou, mais perto do Ocidente, dos armênios medievais. A autorida-
lado, são seus componentes cruciais e também do nacionalismo de divina não era suficiente na Europa do século XIX, como
moderno. Eles representam os símbolos e rituais ou as práticas descobriram os neoguelfos da Itália quando tentaram construir
coletivas comuns que, sozinhos, conferem uma realidade palpável um nacionalismo italiano em torno do papado. Eles falharam,
àquilo que de outro modo seria uma comunidade imaginária. mesmo que o papado fosse, de fato, uma instituição italiana e na
Podem ser imagens partilhadas (como eram os ícones) ou práti- verdade, antes de 1860, a única instituição própria e inteiramente
cas partilhadas como os cinco dias de prece dos muçulmanos, ou italiana. No entanto, a Santa Igreja dificilmente poderia transfor-

86 87
[SETORiAL DE EDi_kAÇAO
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J
mar-se em uma instituição nacional, para não falar nacionalista, habitantes de suas terras sob a coroa de Santo Estêvão ou da
menos ainda sob Pio IX. O que teria sido uma Itália unificada sob comunidade polonesa não fosse nem magiar nem polonesa, por
a bandeira papal, no século XIX, não vale nem a especulação. qualquer definição nacional moderna. Pois esses plebeus não
Isto nos traz ao último critério do protonacionalismo, e cer- ('ram considerados mais do que plebeus que por acaso eram ma-
tamente o mais decisivo, que é a consciência de pertencer ou ter giares e poloneses. Estavam, por definição, fora do quadro da
pertencido a uma entidade política durável. 48 A base mais forte do "nação política". E, em qualquer caso, a ~nação" não deve ser
protonacionalismo já conhecida é, sem dúvida, o que o jargão do confundida com a nacionalidade moderna. ~
século XIX chamou de "nação histórica", especialmente se o Esta- Obviamente, o conceito e o vocabulário de "nação política"
do que formava a referência para a "nação" posterior fosse associ- poderia oportunamente ser estendido para uma nação constituí-
ado a um StaalvoIk especial, o povo-Estado, tal como os russos, os da presumivelmente pela massa dos habitantes de um país, mas
ingleses e os castelhanos. Todavia, aqui deve ser feita uma clara isso quase certamente aconteceu muito depois de sua fonnulação
distinção entre os efeitos diretos e indiretos da historicidade na- pela visão retroativa do nacionalismo. Além disso, os laços entre
cional. as duas coisas eram certamente indiretos, pois enquanto há mui-
Em muitos casos, a "nação política" que originalmente for- tas evidências de que pessoas comuns de um reino pudessem se
mulou o vocabulário do que, mais tarde, tornou-se o povo-nação identificar com o país e o povo através do dominante supremo,
compreendia apenas uma pequena fração dos habitantes de um rei ou czar - como fez Joana d'Arc - não parece ser presumível
Estado, a sua elite privilegiada ou a nobreza e a aristocracia. que camponeses poderiam se identificar com um "país" que con·
Quando os nobres franceses descreveram as cruzadas como gesta sistia na comunidade de senhores que eram, inevitavelmente, o
Dei per francos não tinham a intenção de associar o triunfo da cruz alvo de seus descontentamentos. Caso fossem ligados e leais ao
com a maioria dos habitantes da França ou mesmo com aquela seu senhor, isto não implicaria nenhuma identificação com os
parte pequena do hexágono que levava esse nome no século Xl, interesses do resto da aristocracia nem alguma ligação com qual-
porque a maioria daqueles que se consideravam descendentes dos quer país maior que seu território doméstico.
francos deveriam visualizar o populacho sobre o qual mandava De fato, quando na era pré-nacional encontramos o que
como descendentes dos povos conquistados pelos francos. (Esta hoje seria classificado como um movimento popular autônomo
visão foi posta de pernas para o ar para atender aos objetivos de defesa nacional contra invasores estrangeiros, como na Europa
democráticos da república, que insistia, em textos escolares, que central dos séculos XV e XVI, sua ideologia parece ter sido social
"nossos ancestrais" foram os gauleses e não os francos, versão essa e religiosa, mas não nacional. Os camponeses parecem ter pensa-
que foi reafirmada para objetivos reacionários e eugênicos por do que tinham sido traídos por nobres cujos deveres, como hella-
pós-revolucionários reacionários como o conde Gobineau). O tr.rrBS, deveria ter sido o de clefendê-Ios de invasores como os tur-
"nacionalismo da nobreza" pode ser considerado protonacional cos. Talvez tivessem um acordo secreto com os invasores? Era
na medida em que "os três elementos natio, fidclüas política e então deixado ao povo comum defender a verdadeira fé contra o
communitas, ou seja, as categorias 'nacionalidade', 'lealdade' polí- paganismo, por meio de uma cruzada.51 Sob certas circunstâncias,
tica e 'comunidade política' estão ... já unidos na consciência esses movimentos podem ter criado a base de um patriotismo
sócio-política e nas emoções de um grupo dentro da sociedade popular nacional amplo, como na Boêmia hussita - a ideologia
(einer gesellschafllichen Gruppe) ".49 É o ancestral direto de certos na- hussita original não era nacional-tcheca - ou nas fronteiras mili-
cionalismos posteriores em países como a Polônia ou a Hungria, tares dos Estados cristãós, no meio do campesinato annado e
onde a idéia de uma nação magiar e polonesa poderia acomodar, deixado relativamente livre para esse objetivo. Os cossacos, como
sem a menor dificuldade, o fato de que uma grande parte dos vimos, são um exemplo disso. Todavia, onde a tradição estatal não

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representou uma referência firme e permanente, esse patriotismo noata". Como sempre, o conteúdo da propaganda nacional do
popular de base não pode ser visto como crescendolcontinuada- ~hulo XIX é um guia não confiável para descobrir o que as ca-
mente em direção ao patriotismo nacional moderno. 52 Mas, na madas inferiores do povo comum realmente pensavam antes de
verdade, isso era muito pouco esperado pelos governos do antigo (omeçarem a aderir à causa naciona1. 5! Isso não significa negar, é
regime. O dever dos sujeitos em tais regimes, fora daqueles encar- daro, que a identificação protonacional sobre a qual se podem
regados de deveres militares, era obediência e tranqüilidade e (ollstruir nacionalismos posteriores existisse entre os armênios,
não lealdade e zelo. Frederico, o Grande, recusou indignado a <>u entre camponeses croatas pré-século XIX, embora com uma
oferta de seus leais berlinenses para ajudá-lo a derrotar os russos ('xtensão distinta e menor.
que estavam a um passo de ocupar sua capital, com base em que Entretanto, onde existem ou parecem existir continuidades
guerras eram assunto de soldados e não de civis. E todos nos entre protonacionalismos, elas são muito artificiais. Não há conti-
lembramos da reação de Francisco II à guerrilha que vinha de nuidade histórica entre o protonacionalismo judaico e o sionismo
seus fiéis tiroleses: "Hoje eles são patriotas por mim, amanhã po- moderno. Os habitantes da sagrada terra do Tirol transformaram-
dem ser patriotas contra mim". .~e em uma subvariedade do nacionalismo alemão do nosso sécu-
De um modo ou de outro, no entanto, a vinculação a um [n, e de fato em apoiadores entusiásticos de Adolf Hitler. Contu-
Estado histórico (ou real), presente ou passado, pode agir direta- do, esse processo, que foi excelentemente analisado na literatura,
mente sobre a consciência de pessoas comuns para produzir um lIão tem conexão intrínseca com o levante popular tirolês de 1809
protonacionalismo - ou talvez até algo próximo do patriotismo sob a lidemnça do estalajadeiro Andreas Hofer (étnica e lingüisti-
moderno, como no caso da Inglaterra Tudor. (Seria estreiteza c:amente um alemão), mesmo que os nacionalistas pan-germáni-
recusar esse rótulo às peças propagandísticas de Shakespeare so- cos pensem de outro modo. 5t De fato, se pode, às vezes, ver a total
bre a história inglesa; mas certamente não estamos autorizados a incongruência entre protonacionalismo e nacionalismo mesmo
presumir a falta de habilidade crítica com que são lidas.) Não há quando ambos existem simultaneamente e combinados. Os líde-
razão para negar sentimentos protonacionais aos sérvios anterio- res e organizadores eruditos do nacionalismo grego, no começo
res ao século XIX, não pelo fato de que fossem ortodoxos contra do século XIX, estavam sem dúvida inspirados pelo pensamento
seus vizinhos católicos ou muçulmanos - isso não os teria dife- das antigas glórias helênicas, que também despertava o entusias-
renciado dos búlgaros - mas porque a memória do antigo reino mo dos cultos, isto é, dos estrangeiros eruditos de helenismo clás-
derrotado pelos turcos foi preservada em canções e estórias herói- sico. E a língua culta nacional construída por e para eles, o Ka-
cas e, possivelmente de modo mais interessante aqui, na liturgia tharevousa, era e é um idioma neoclássico elevado que buscava
diária da Igreja sétvia, que canonizou a maioria dos seus reis. Sem trazer a língua dos descendentes de Temístocles e Péricles de
dúvida o fato de haver um czar na Rússia ajudou os russos a se volta à sua verdadeira herança, depois de dois milênios de escravi-
verem ~omo algo parecido a uma nação. É patente o apelo popu- dão, que a haviam corrompido. No entanto, os gregos reais que
lar potencial de uma tradição estatal por um nacionalismo moder- pegaram em anuas para lutar pelo que seria a formação de um
no, cujo objeto é estabelecer a nação como um Estado territorial. Estado-nação independente não falavam o antigo grego mais do
Levou alguns destes movimentos a irem muito além da memória que os italianos falavam latim. Eles falavam e escreviam demótico.
real dos seus povos na busca de um Estado nacional adequado (e Péricles, Ésquilo. Eurípides e as glórias da antiga Esparta e Atenas
adequadamente impressionante) no passado, como no caso dos significavam muito pouco para eles, ou mesmo nada, e na medida
armênios, cujo último reino suficientemente importante existiu em que ouviram deles falar não os consideraram importantes.
no século I a.C., ou como os croatas, cujos nacionalistas se consi- Paradoxalmente, eles punham mais sentido em Roma do que na
deram (improvavelmente) como herdeiros da "nação política Grécia (romaioS)'1l€), ou seja, viam-se a si mesmos como herdeiros

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r

do Império romano cristianizado (isto é, bizantino). Eles lutaram a formação da lealdade e do patriotismo nacionais, uma vez que o
como cristãos contra os muçulmanos pagãos e como romanos Estado tenha sido fundado. Como toi freqüentemente observado,
contra os cães turcos. as nações são mais a consequência de um Estado estabelecido do
Todavia, é evidente - ao menos no caso grego acima citado que as suas fundações. Os EUA e a Austrália são exemplos eviden-
- que o protonacionalismo, onde existiu, facilitou a tarefa do 1cs de Estados-nações nos quais todas as características nacionais
nacionalismo apesar" das suas grandes diferenças, na medida em específicas e critérios de existência de nação foram estabelecidos
que os símbolos e sentimentos existentes na comunidade protona- desde o final do século XVIII, e de fato poderiam não ter existido
cional podiam ser mobilizados para uma causa moderna ou para a~tes da fundação dos seus respectivos Estados e países. Todavia,
o Estado moderno. Todavia, isso não significa dizer que ambos nao precisamos lembrar que o mero estabelecimento de um Esta-
eram a mesma coisa ou que um, lógica e inevitavelmente, deveria do não é suficiente, em si mesmo, para criar uma nação.
se seguir ao outro. Finalmente, vale uma palavra de aviso, como sempre. Sabe-
Pois é evidente que apenas o protonacionalismo não basta mos muito pouco sobre o que aconteceu ou sobre o que acontece
para formar nacionalidades e nações, para não falar em Estados. nas mentes da maioria dos homens e mulheres mais relativamente
O número de movimentos nacionais, com ou sem Estados, é evi- desarticulados, para podermos falar com alguma confiança sobre
dentemente muito menor que o número de grupos humanos ca- seus pensamentos e sentimentos a respeito de nacionalidades e
pazes de formar tais movimentos através dos critérios correntes de (~stados-nações aos quais proclamam suas lealdades. As relações
existência potencial de nações, e certamente é muito menor que reais entre a identificação protonacional e o patriotismo estatal
o número de comunidades com o senso de vinculação comum ou nad~nal posterior devem frequentemente ficar obscuras por
semelhante à do protonacionalismo. E. isso apesar do fato de que es...a razao. Sabemos o que Nelson quis dizer quando, na véspera
reivindicações sérias a um estatismo independente (deixamos de da batalha de Trafalgar, dirigiu-se à sua frota dizendo que a Ingla-
lado a questão da autodeterminação para os 1800 habitantes das terra esperava que cada um cumprisse o seu dever, mas não sabe-
Malvinas ou ilhas Fa1kland) foram feitas por populações tão pe- mos o que se passava nas mentes dos marinheiros de Nelson na-
quenas quanto o são as 70 mil pessoas que lutaram pela indepen- quele dia, mesmo que seja muito pouco razoável duvidar que
dência de uma nação saariana ou os 120 mil que virtualmente alguns deles pudessem ser descritos como patriotas. Sabemos que
declararam a independência da parte turca de Chipre. Deve-se os movimentos e partidos nacionais lêem, no apoio dado por
concordar com Gellner que a dominação ideológica universal essas pessoas da nação, seu consentimento, mas não sabemos o
aparente do nacionalismo hoje é uma espécie de ilusão de ótica. que esses consumidores se tornam depois que compram a coleção
Um mundo de nações não pode existir; apenas um mundo onde desses- bens variados, apresentados a eles como um pacote pelos
alguns grupos potencialmente nacionais, demandando esse status, vendedores da política nacional. Algumas vezes parece 'muito cla~
exclui outros grupos de fazer reivindicações semelhantes, o que ro o que eles querem como conteúdo - por exemplo, no caso
poucos fazem. Se o nacionalismo protonacional fosse suficiente, dos irlandeses, o uso universal da língua gaélica - , mas tais refe-
um movimento nacional sério teria já aparecido entre mapuches rendos seletivos e silenciosos são muito raramente possíveis. Esta-
ou entre os aimaras. Se tais movimentos irão ainda aparecer será mos constantemente correndo o risco de dar notas às pessoas por
por causa da intervenção de outros fatores. um compêndio que elas não estudaram e por um exame que elas
Em segundo lugar, enquanto uma base protonacional pode não fIZeram.
ser desejável, e até mesmo essencial, para a formação de movi- Suponha-se, por exemplo, que se tome a disposição para
mentos nacionais sérios que aspiram a um Estado - embora em morrer pela pátria como um índice de patriotismo, como parece
si mesma não seja suficiente pata criá-los - , não é essencial para bastante plausível e como nacionalistas e governos nacionais incli-

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naram-se a acreditar. Esperaríamos então que os soldados de Gui-
lherme II e de Hitler, talvez mais abertos. ao apelo nacional, luta-
ram mais bravamente que os de Hesse do século XVIII, alugados
como mercenários pelo seu príncipe e que, portanto, estariam
menos motivados. Mas foi assim que eles lutaram? E será que
lutaram melhor do que os turcos na Primeira Guerra, que dificil- NOTAS
mente poderiam ser considerados como patriotas nacionais? Ou
como os gurkhas, que, de modo evidente, não estavam motivados
nem pelo patriotismo britânico nem pelo patriotismo nepalês?
Formulamos aqui estas questões tão absurdas nào para extrair I. Ver Roger ChartieT, The CuUural US($ oI Prinl in Early MOdem Franct
respostas ou estimular teses, mas para indicar a densidade da (PrinceLOn, 1987), Introdução; e também E.J. Hobsbawrn, words oI
bruma que rodeia as questões sobre a consciência nacional de LaWur (Londres, 1984), pp. 3942, para as relações de cultura p0-
homens e mulheres comuns, especialmente no período anterior pular hegemônica.
2. Dados e citações de Juhan Kahk, "'Peasants' Movernents and
ao nacionalismo moderno ter se tornado uma inquestionável for-
National Movements in the History of Eurape" (Acla Univemlalis
ça política de massa. Mesmo na Europa ocidental, como para a
Stocklwlmtnsis. Studia Baltica Stockholmtnsia, 2, 1985: "Nadonal
maioria das nações, isso só aconteceu muito mais tarde, no fim do Movements in the Baltic Counuies During the 19th Centuryn, pP' 15-
século XIX. Então, pelo menos, a escolha se tornou mais clara, 16.
mesmo que, como veremos, o conteúdo tenha permanecido obs- 3. Michel Chemiavsky, Tsar and PwpLe. Studits in Russian M.yth.s (New
curo. Haven e Londres, 1961). Ver também Jeffrey Brooks, Whm Flussia
Ltarntd to Read (Princeton, 1985), capo VI, "Nationa!ism and
Nationalldentityn, esp. pp. 213-232.
4. Chemiavsky, TsarandPeop/.e, pp. 107, 114.
5. lbidtm, p. 113.
6. Ver o pioneirismo de Emst Kantorowicz, The Kíng'J Tl1k; Bodw. A
Study in Medieval Polítical Theology (PrincelOn, 1957),
7. A introdução mais útil para esse complexo de questões é :Einar
Haugen, "Dialect, Language, Nation~ (American AnthroPoÚJgist, 68,
1966, pp. 922-935). Para o campo comparativamente recente da
sociolingüística, cf. J. A. Fishman (org.), ContributioTlS to ~ SociowfrJ
Langunge, 2 vols. (Haia-Paris, 1972), especialmente, do org., "The
Sodology of Language: A Interdisciplinary Social Science App:J'oach
LO Language in Societyn, in vol. I. Para um estudo concreto do de-
senvolvimento/comuução da linguagem de um pioneiro, }-Ieinz
Kloss, Dit EntwiclUung netU'T germanischer Kull.urspraclun VOn 1800 bis
1950 (Munique, 1952),
8. uQs grandes nomes dessa literatura ." jamais celebram a religiãO em
,suas obras; muito ao contrário, eles não perdem nenhuma oportuni-
dade para estigmatizar a ação hostil à unidade nadonal dos dife-
rentes clérigos ... Parece que La pesquisa da identidade Cultural) ."

94 95
fez-se essencialmente em tomo do problema da língua: Christian 188{).J910 (Viena-Colônia-Graz, 1982), e.g. pp. 182, 214,332.
Gut, in Groupe de Travail S1lr l'Europe Ceruralt ti Orientale. Bultelin IR ]osefRoth, TMRadmJt/ymarch (Harmondsworth, 1974), p. 5.
d'lnforma'ion, n" 2, jun. 1978, p. 40 (Maison des Sciences de 19. Frederik Barth (org.), Ethnic Groups anti Jk,u.ntiaries (Boston, 1969),
I'Homme, Paris). p.30.
9. Edith Durham, High Albama (1909, nova ed., Londres, 1985), p. 17; 20. Borst, Du Turmbau wn B~~ pp. 752-753.
S. Thernstrom tt alii, Haroam Encyclnpedia of Amm'can Ethnic Groups 21. Heródoto, Histories VIII, 144. Borst, que discute a questão, destaca
(Cambridge e Londres, 1980), p. 24. que, enquanto os greg05 pensavam certamente que a "linguagem:
10. CiL in Groupe de Travai~ p. 52. eSlava vinculada às "pessoas" e ambas poderiam ser igualadas,
11. Para uma pesquisa conveniente desse campo, com cuidados Eurípides achava que a linguagem era irrelevante, e Zenon, o Es-
acurados em relação à "artifidalidade" da maioria das linguagens- tóico, era bilíngüe, falando fenício e grego (ibidem, 137, 160).
culturais, Marinella L9rinczi Angioni, YAppunti per una Macrostoria 22. Benedict Anderson, lmagined Communitie.5: &jltctions on tM Origins
delle lingue &ritte de rEuropa Modema~ (Quaderni Sardi di Storia, anti Spread oi Natíonali:;m (Londres, 1983), pp. 4649; ver capo V, mais
~,jul. 1981:iun. 1983, pp. 133-156). É útil particularmente para as generalizado em Hnguagem.
línguas melhore~. Para a diferença entre o flamengo tradicional e a 23. Para um debate semelhante em coneKão com a língua eslovaca, ver
língua moderna, desenvolvida a partir de 1841, ver as obscrvaçõc.s de Hugh Seton-WalSOn, Nalians and States: An Enquiry into de Or;gins oi
E. Coomaert in Bulletin d, la Sociill d'Histaire Moderne, 67· ano, 8, Natwns and lhe Politics oi Nationalism (Londres, 1977), pp. 170-171.
1968, p. 5, nas discussões de R. Devleshouwer, ~Données Historiques 24. A fonte básica para estes assuntos é Ferdinand Brunot (org.) , Historie
des Problêmes Linguistiques Belges". Ver também jonatham de la Langue F;rançaise (13 vais., Paris 1927-194~), esp_ vol. IX; e M. de
Steinberg, YThe Historian and the Qtustio~ della Lingua·, in P. Certeau, D. julia, J Revel, U~ Polilique de la Langue: La Riwlution
Burke e Roy Porter (orgs.), The Social Hü/ory of Language Françaist et In ['atais: l'Enquiu de l'Abbi Grigoirt (Paris, 1975). Para o
(Cambridge, 1987), pp. 198-209. problema de ampliar uma língua minoritária nacional para uma
12. A matéria é bem colocada por Ivo Banac, TM National Que.5tion in língua nadonal dt' massa durante e depois da Revolução Francesa,
Yoguslavia: Origins, History, Polilics (Ítaca e Londres, 1981) (de onde ver o excelente Renée Balibar, L 'Institutiorl du Français: Essai sur lt co-
esses dados provêm): "A situação única do dialeto croata, que é o Linguimu de.5 CarolingiEm à la Ripubliqut (ParÍII, 1985); ver também R.
uso de três dialetos ... não podia ser reconciliado com a crença Balibar e D. Laporte, Le Français Natio1laL' Politiqut n Pratique dt la
romântica de que a linguagem era a cKpressão mais profunda do Langue Nalionalt sow la Rioolutian (Paris, 1974).
espírito nacional ... Obviamente uma Nação não poderia ter três 25. Tullio de Mauro, Sloria Linguistica d,U'Italia Unita (Bafi, 1963), p. 41.
espíritos, e nem um dialeto poderia ser compartilhado por dUa!! 26. Até o ~início do século XIX" wMsOS trabalhos de Goethe e &hiller,
nacionalidades" (p. 81). juntos ou separados, parecem ter vendido menos de 100 mil cópias,
l~. Einar Hauger, Tht Scandinavian Languages: An Inlroduction (Londres, isto é, mais de ~().40 anos. H. U. Wehler, Dtulsche GeseUschafts-
1976). gttschichte 1700-1815 (Munique, 1987), p. 305.
14. Relatórios dos Comissários de Informações para a Educação do F~... 27. Ex.cetuando.se a Suíça, provavelmente seja um pouco exagerado
lado no País de Gales (Parliamentary Papers, XXVII, de 1847, parte afirmar que ~até hoje o alemão (Hochdtutsch), mais ainda que o ita_
m, p. 853). liano, é uma verdadeira e própria língua artificial de cultura,
15. Amo Borst, Du Turmbau von BabeL' Gtschichu du Meinungm 1iber subdialetal, 'sob' ou junto com a qual a maior parte dos usuários se
Ursprung unti Vielfalt rÚ!r Sprachm du VO'Iktr, 4 vols. in 6 (Stuttgart, serve mesmo de uma Umgarugsfrrache local" (Lõrinczi Angioni,
YAppunti~, p. 139), ma!! com certeza era verdade no início do século
1957-1963), vol. N, p. 1913.
16. Paul M. G. Lévy, "La Statistique des Langues en Belgique~ (&vut de XIX. Por isso Manzoni, cujo I Promtssi Sposi criou o italiano como
l'Institut de SociolJJgit [Bmxelasl, 18, 1938, pp. 507-570). uma língua nadonal de ficção em prosa, não o falava no dia-a-dia,
17. Emil Brix, Die Umgangsprachm in Alliisterrtich zwischen Agitatíon und comunicando-se com sua esposa francesa na língu.a dela (que ele
Assimilation, Die Sprachstatistilt in thn :c.isleithanischen Volks:uihlungm sabia falar melhor do que o italiano) e com outras pessoas no seu

96 97
milanês nativo. De fato, a primeira edição de sua grande novela . Ia Co . t tU América y el Mtstiwfr (Santiago do
EI Problema RaCial en nqUls a Leyes Indias
ainda mostrava muitos resquícios do milanês, um deslize que ele Ch'! 1963) esp, tapo V, HEntretanto, enquanto as. .
procurou corngir sistematicamente na qunda ediçào. Estou em 1 e" astas os conceitos e termmologla es-
freqüentemente referem--se a c , .' 50 . 1 tU
débito com o professor Conor Fahy por essa informação. tão mudando e são contraditórios~ (SerglO Bagu, Estructura Cla
28. Shepard B. Clough, A History 4 lhe Flemish Movement in Belgium: A la Colonia (Buenos Aires, 1952), p. 122). • I
Study in Nationabsm (Nova York, 19.30, reed. 1968), p. 25. Para a 39 A maior exceção, que con fimna a anaTse 1
deste capltu
.'
o - ver p.
lentidão no desenvolvimento da consciência lingüística, ver também .
196 • •. d '
e a memona o tmpen '"0 inca no Peru que msplrou tanto os
"
VaI R. Lorwin, MBelgium: Religion, Class and Language in National - '(localizados) com vistas a sua restau-
mitos quanto os mOVlmentos nd' J M
Politics~, in Robert A. Dah!, Po/itical Oppwition in W~slt'nl. Dtmocraa'e.s ~ I ia Ideologia Mesiánica dtl MUnM A IruI, uan .
(New Haven, 1966), pp. 158 e segs. raç~o. ~ert an~t~~rna 1973) e AlbertO Flores Galindo, Bu:cando
29. S. B. Clough, A History 01 the Flemish Movem.mJ in Belgium, pp. 21-22. OSStO. . ' TdNg,id' d Ut~ia en los Ande.s (Havana, 1986). Porem pa-
30. Borst, Der Turmbau VQn BabeL 11.11. Inca. l' en a Y -r FI d' OS mo-
. d I nte tratamento que ores a a
31. CiL in Leopold Spira, MBemerkungen zu Jôrg Haider~ (Wi.mer rece daro, a parur o exce e . movimentoS
. toS indígenas e a seus mantenedores. 1. que os ~
Tagebuch,out. 1988, p. 6). Vlmen I ' is' 2 que nao
indígenas contra os mistis eram essencia mente sona , " d '
32. Aceito o argumento convincente de Frederik Barth, Ethnic Gr-oups ~" . na I" ,mesmo porque ate. epOlS
ti h m nenhuma implicaçao nano .
and BoundarUs. n a a M d' I os índios andiRos nem sabiam que
33. Theooore Zeldin, Franc~ 1848-1945 (Oxford, 1977), vol. I, pp. 46-47. da Segunda Guerr ( ~n21')' 3 que os intelectuaUs indigenislas do
moravam no Peru p.:J ,. . d'
34. Ivo Banac, The Natio1kJl Question in Yugvslavia, p. 44. Entretanto, penodo não conheciam nada, virtualmente, sobre os In lOS
como esses fatds são tirados da ampla e erudita lstarija Cme Cort,
publicada em 1970 na capital de uma república baseada na 8UpoSi- (exemplos à p. 292). . (Lo d 1938) ê ampl"
. The Arab Awakemng n res, '
ção de que os montenegrinos não são a mesma coisa que os sérvios, 40. George ~toRlUS, M im Rodinson "Développment et Structure
o leitor poderia tomar certo cuidado, como sõi acontecer com a mente ap::)1ad~ por axMe. e et M~nde Musulman (Paris, 1972),
de l'Arablsme , no seu a1XlSm
historiografia balcânica.
35. John W. Cole e Eric. R. Wolf, The Hiddrn Fron4"er: Ecology and Ethnia'ty pp 587-602. ___ ,_. . ,'_, AN'a'
. M hd &ligion and Nalionwum In sou r",~ ~•.
in an ALpine Valky (Nova York e Londres, 1974), pp. 112-113. 41. Fred. R. van d.er ..
Bunna,lnd~, tne
ep.:.::;"nes
I rr"
(Madison, 196.3), é útil ao considerar
36. Por outro lado, aqueles que não conhecem a posição social da pes-
aíses de religiões muito diferentes.
soa - talvez porque ele ou ela tenham migrado para uma cidade p - I XIX a distinrão entre crentes fervorosos e
42 Entretanto no secu o ~ . d
grande - a julgam meramente pela cor e, por isso, o (ou a) des- . ~ , . troduziu possibilidades adidon.us e se usarem
classifica. Ressentimentos contra isso podem ter sido um motivo co- "momos ou ateus iR . 'rca a simpatizar
. , i3.11 reli ·oso--nadonais. Isso levou a Igreja cato 1
mum para a radicalizaçâo política de estudantes em Lima, nas dé- lRSlgn . ~ os dos bretões bascos e flamengos.
cadas de 60 e 70, quando levas de filho" de famíli3.11 provincianas com taIS movnnen tos, como ' . h do
d Antrim diz-se que o sentir um pun a
cholas, em ascensão, entravam para 3.11 universidades, que estavam em 43. Em um condado como o e , de' ê habitada por
de solo dirá a um homem se a terra de on velO
rápida expansâo. Agradeço a Nicolas Lynch, cujo estudo inédito s0-
bre os líderes maoistas da Univefllidade de San Marcos argumenta católicos ou por protestantes. ." (Lo d s e
Cf Gwyn Alfred WilliaIIll!, The Welsh In lheir HISWry n re
bem o assunto. 44. C· be 1982)' "When was Wales?~ (lDndres, 1985).
37. POrtanto, dos Estados 3.IIiáticos (nâo árabes), hoje, 99% do Japão e
das duas Coréi3.11 são homogêneos, e 94% sâo han na República
S::re
;::':illlt sys~ do império otomano, ver H. A. R. Gibb e H. A
45. Bowen, Islamic Sociel, in the West (Oxford, 1957), voI. I, parte 2, pp.
Popular da China. Esses países existem, mais ou menos, dentro de
SU3.11 fronteiras históricas. 219-226.
Gellner Nations anel Nalionalism (Oxford, 1983).
38. A obra modelo é Magnus Mômer, EI Me.stiz.aje.m la Historia tú Jbero. 46. O tra~ento clássico desse tema ainda é feito por Mare Bloch em
Amlrica (Cidade do México, 1961); ver também Alejandro LipschulZ,
47. Les Rois Thaumalu-rgts (Paris, 1924).

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48. Contudo, não se deve aceitar que essa consclencia tenha afetado
todos os grupos da população do mesmo modo, ou coberto algo
como o território de uma "nação· moderna, ou implicado na moder-
na nacionalidade. A consciência popular grega, presumivelmente
baseada na herança bizantina, era constituída de partes do império III
romano (romaio.sy1l.!).
49. Jenõ Szücs, Nation und Geschichu (Budilpeste, 1981), pp. 84-85.
50. ~A nobreza mantinha comunicações sistemáticas _ a única dM5e a A perspectiva governamental
fazê-Io - através de seus disuitos administrativos, e a Dieta dos Es-
tados era ela própria, com 'a Nação política croata' debatia questões
e tomava decisões. Era uma Nação sem 'nacionalidade' ... isto é, sem
consciência nacional ... porque a nobreza não poderia se identificar
com outros membros da comunidade étnica croata, os camponeses e
os urbanitas. O 'pauiou' feudal amava sua 'terra natal', mas sua
terra natal englobou os Estad08 e as possessões de sua nobreza. e o
'Reino'. Para ele 'a Nação política' da qual era um membro signifi-
cava o território e as tradições do antigo Estado. n Mhjana Gross, "On Deixando as bases, voltemo-nos para os altos escalões, onde os
the Integration of the Croadan Nadon; a Case Study in Nadon- governantes dos Estados e sociedades após a Revolução Francesa se
. Building", EastEuropean Qy.arttrly, XV, 2,jun. 1981, p. 212.
preocupavam com os problemas da nação e da nacionalidade.
51. Szücs, Na/íon und ~schichu, pp. 112-125.
52. Ibidem, pp. 125-130. O Estado moderno típico, que recebeu sua forma sistemáti-
53. Sem conseguir admitir isso de maneira adequada torna a discll8llão ca na era das revoluções francesas - embora, de vários modos,
de Ivo Banac, embora excelente, menos persuasiva, sob o aspecto ele tivesse sido antecipado pelos principados europeus que evoluí-
croata do problema. ram a partir dos sé<:ulos XVI e XVII - , era uma novidade em
54. Cole e Wolf, TIu Hiddm. Fron/.ier, pp. 53, 112-113. muitos aspectos. Era defmido como um território (de preferên-
cia, contínuo e inteiro) dominando a totalidade de seus habitan-
tes; e estava separaú\o de outros territórios semelhantes por fron-
tei~s e limites claramente definidos. Politicamente, seu domínio
e sua administração sobre os habitantes eram exercidos direta-
mente e não através de sistemas intermediários de dominação e
de corporações au tônomas. Procurava, o mais possível, impor as
mesmas leis e arralljos administrativos instituídos por todo o terri-
tório, embora, depois da era das revoluções, estes não fossem
mais as ideologias religiosas ou seculares. Crescentemente, esse
Estado era obrigado a ouvir as opiniões dos indivíduos ou cida-
dãos. porque seu arranjo político lhes havia dado voz - geral-
mente através de várias espécies de representação eleita - e/ou
porque o Estado precisava do seu consentimento prático ou de
sua atividade em outras coisas, como, por exemplo, contribuintes
ou soldados potencialmente convocáveiS. Em resumo, o Estado

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