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DIMENSOES «Yo 1 ~ Jt / De 2000 307 ANDRE REBOUCGAS E LOUIS COUTY: IDEIAS PARA O SECULO VINTE Luiz Cléudio Ribeiro As idéias que apresento neste trabalho ecam avangadas hd um século ¢ produziram efeitos imporrantes em seus contemporineos; se em sua origem foram consideradas “esbocos sociolégicos”, hoje sio histéria, Trazé-las ao clardo dos fogos de artificio da passagem do milénio é uma oportunidade de repensé- las & luz dos problemas que a sociedade brasileira ainda enfienta em relacdo a0 trabalho, & propriedade da terra ¢ a tecnologia Foi apés a imposigo do fim do trifico de afticanos pela Inglaterra que 0 problema da mao-de-obra brasileira passou a ordem-do-dia nos meios abolicionistas e, principalmente, nas elites eseravistas. A populagao escrava estendia-se tanto a0 meio urbano quanto 20 rural, fem especial no Rio de Janeiro. Ao lado dos escravos estavam também os mestigos, Numerosos, incultos, seu contingente preocupava as elites por no ser possivel nem igualé-los ao escravo na lavoura quando esta necessitava mais “bragos”, nem guid-los a um projeto econémico “modernizador”, no dizer técnico e racista do Brasil do século XIX. Para fazer entender melhor 0 quanto a preacupacéo com a exaustio do siscema agroexportador atormentava o espitito téenico-liberal, basceio presente trabalho na [citura de obras de dois fcones desse pensamento no Brasil do fim do século XIX: André Rebousas ¢ Louis Couty. O primeiro, brasileiro, negro, monarquista, engenheiro pela Escola Militar, membro da Sociedade Auniliadota da Industria Nacional, do clube de Engenharia e pertencente a0 circulo de personalidades influentes, como 0 Visconde de Taunay, 0 Bardo do Rio Branco ¢ o préprio Imperador, D. Pedro II. O segundo, francés, branco, bidlogo: com menos de 30 anos, jé fora convidado a ensinar Biologia Industrial 308 LUNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPIRITO SANTO ~ Deparment dt Misra na Escola Politéenica ¢ no Museu Nacional. Coury freqtientava © mesmo cfrculo de intelectuais e politicos da corte brasileira, Em suas opinibes nota-se a preocupagio em encontrar para a “crise” que afirmavam existir no sistema econémico brasileiro uma saida que ao mesmo tempo apresentasse o fim da escravidio sem comprometer a produtividade agricola dinamizadora - as lavouras cafeeira, canavieira ¢ de alguns outros produtos tipicamente exportiveis. ‘As primeitas idéias a serem analisadas sfo relativas 20 préprio escravismo. Escrevendo em 1874, Rebougas resumiu a vigéncia de um modelo anacrénico na organizagfo produtiva do Pats. Para ele, aquela altura, te telégeafose locomozivas lavrando a tereaeexportando os seus produtos como a 100 anos atrs é fazer, pelo menos, um papel ridiculo perante o mundo ivilizado que hoje ouve cada uma das nossas palavas, vé cada um de nossos atos, sence cada uma de nossas pulsagbes, sob a ago migica da eletricidade.! Rebougas condenava a escravidao nao apenas pela auséncia de liberdade individual e de iniciativa nesse tipo de trabalho, mas também pela propria ‘qualificagio do escravo para uma economia diversificada. Dezaanos apés, Couty via no negro defeitos que, porsi, incompatibilizavam ‘o sistema com a ideia de progresso: “Achamos o escravo de fazenda inferior a0 irlandés, ao russo, 20 operirio aleméo ou francés, como fator de revoluglo ou de progresso social”? Na busca de um elemento é¢nico afinado com os ares modernizantes, quue a0 mesmo tempo promovesse uma “arrancada” para livrar o Pats do atraso dos séculos de escravidio africana, Couty propugnava: “O esctavo € mau trabalhador, sua produsio ¢ muico cara, de md qualidade ¢ pouco abundante? PPara clea mio-de-obra representava tum fator preponderante ¢ um problema a equacionar, e a proximidade da emancipagio exigia solucio prioritéria. 1 REBOUGAS, A, Arcs nacioah:caudoseconbmicos, Rio de Jano: AJ. Lamoreauy, 1883. 2COUTY, LO Bn en 188% ebocoesocioligios. Bria: FCRB/Senado Federal, 1984. 35, 3 Thi. p 80 DIMENSOBS «Yo 11 Jl Ee 2000 309 ‘As causas da situagio financeira devem see procuradas na prépria formasio do povo € na arregimencagao de suas forgas produtivas. Enquanto clas ppermanecerem as mesmas ou continuarem a diminuir pela supressao progressiva da escravidao, as dificuldades financeiras continuaréo também a se agtavar! Poréin, a0 analisar as desvantagens da escravidio, cafam os autores no problema da propriedade latifundidria, sem a qual o escravismo néo se justificava, Rebougas procurava dar ao problema uma dimensio global, derivada talvez da existéncia dos antagonismos internos dos regimes de propriedade nos diversos pafses que por isso softiam pertirias econémicas: “Os latifiindios ndo s6 perderam a Teélia e tém causado as principais misérias financeitas deste Império, como estio barbarizanda a Islanda ¢ despovoando as regides da prépria Inglaterra” $ JaCouty traravao caso bra entre o tamanho da Javoura e a quantidade de mao-de-obra, com algumas dliferencas regionais perceptiveis para aqueles anos de 1880: io como um problema de dimensionamento ‘A mio-de-obra atual ¢ insuficiente nfo sb para as cerras que precisim ser povoadas mas também para as jé cultivadas: os grandes proptietétios colhem imal o café e a cana-de-agicar, por falta de bragos disponivels. Excetuando-se So Paulo, 2 maior parte desses grandes proprictitios, apegados as suas idéias © jimpregnados de preconceitos escravocratas, também no ousam ou no sabem cempregar os meios necessirias para atrai colonos.© tetceiro fator do atraso a que se referiu Rebougas em relagéo ao processo produtivo brasileiro comparado com a Europa da eletricidade pode ser tratado camo o problema da técnica ou da tecnologia e a preparagdo infra-estrutural existente no Pafs. E digna de nota a preocupacéo de Rebougas com o problema das técnicas mais propicias & lavoura, que afetavam mais diretamente a produgio e cconomizavam o trabalho humano. Ressalte-se a surpreendente preocupasao do engenheiro para o que em nossos dias chamarfamos talvez de causa ecoldgica 4 Tie, p65, 5 REBOUGAS, op. ci, p. 30, not GCOUTY, pct, p. 25, nota 2