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MELANIE KLEIN

o Sentiinento de
Solidão
Nosso Mundo Adulto e Outros Ensaios

Coleção Psicologia Psicanalítica


Direção de
IAYME SALOMÃO
Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do
Rio de Janeiro. Membro da Associação Psiquiátrica do Rio de
Janeiro.

Tradução, Prefácio e Nojas de


PAULO DIAS CORREA
Membro-Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicoterapia de
Grupo. Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicaná-
lise do Rio de Janeiro. Membro da Associação Psiquiátrica do
Rio de Janeiro

IMAGO EDITORA LTDA.


PREFÁCIO À EDIÇÃO INGLESA

Este livro constitui o primeiro volume da obra de


Melanie Klein patrocinado pela Fundação Melanie
Klein na condição de seus Testamenteiros Literários.
Na presente coletânea encontram-se dois artigos
que não tinham sido anteriormente publicados, "O
Sentimento de Solidão" e "Certas Reflexões Sobre
'A Oréstia' de Esquilo" Esses dois artigos combina-
dos a "Nosso Mundo Adulto e suas Raízes na Infân-
cia" e "Sobre a Identificação" reúnem os escritos
mais recentes de Melanie Klein a respeito de assun-
tos diferentes do trabalho estritamente clínico. Ela
vinha dedicando mais sua atenção em seus últimos
anos a tais aplicações de maior amplitude de seu co-
nhecimento psicanalítico.
Apenas um dos artigos, "O Sentimento de
Solidão", requereu uma preparação editorial bem
mais extensa. Fora apresentado em sua forma pri-
meira e abreviada ao 21. ° Congresso Internacional de
Psicanálise de Copenhague em 1959. Um esboço qua-
se definitivo da presente versão havia sido concluí-
do pouco antes do falecimento da Sr a. Klein, mas sua
redação final estava por ser feita.
A Fundação deseja agradecer ao Dr. Eric Bren-
nan e à srta. Judith Fay pela tarefa de compilar o
índice Analítíco-Remissivo e também, à Tavistock
Publications Limited pela permissão de reimprimir
11 Sobre A Identificação 11 de New Directions ln Psy-

cho-Analysls e 11 Nosso Mundo Adulto e Suas Raízes


na Infância 11 , de HumaB UelatioHs.

ELLIOTT JAQUES
BETTY JOSEPH
NOTAS À GUISA DE INTRODUÇÃO E PREFÁCIO
O aparecimento da tradução em português desse último
volume da obra publicada de Melanie Klein vinha tardando.
Quase todos os demais - e montam a cerca de oito livros
- são do conhecimento do leitor interessado. Os que se dedi-
cam à psicologia, à pedagogia e à educação, os que trabalham
com a psicologia de crianças especialmente, com as psicote-
rapias e a psicoterapia de grupo em geral -• a analítica e as
outras -• além dos sociólogos, antropólogos ou psicanalistas,
tanto de crianças como de adultos, por certo já os leram e os
conhecem, ou os estudam no original e nas traduções para os
diferentes idiomas.
A característica principal, no entanto, do presente volume,
que traz o título de O Sentimento de Solidão, agora entregue
pela Imago Editora Ltda., principalmente, ao leitor brasileiro
de média e grande cultura, é a de reunir quatro estudos analí-
ticos da criadora da chamada "escola inglesa" de psicanálise
- três dos quais permaneciam inéditos e cuja importância e
significação eu não conseguiria exagerar.
Como em geral se reconhece, Melanie Klein foi uma inova-
dora em matéria de técnica e, consequentemente, de teoria
psicanalíticas. Contribuiu deveras para o desenvolvimento da
psicanálise. Tal fato lhe custou, como seria de se prever, sérios
riscos para a carreira de psicanalista, além de inúmeros con-
tratempos de ordem pessoal. O impacto causado na "Sociedade
Britânica de Psicanálise" quando aí começou a apresentar e
a defender suas ideias marcou época e, ao final de cerca de
quinze anos, acaba por cindir internamente a Sociedade.
As polémicas suscitadas e os ataques que eram ferrenhos,
principalmente por parte da ala mais conservadora da psica-
nálise vigente, valeram-lhe inimizades sem conta e muitos e
rancorosos adversários de prestígio no mundo psicanalítico de
então. O período decisivo ocorreu por volta dos anos de 1943-
1944, conforme rezam as quatro séries das "Controversial Series
oi Discussions" da British Psycho-Analytical Society, e a ex-
tensa bibliografia a respeito (Glover, 1945).
Por fim - os ânimos já arrefecidos e, praticamente, sere-
nada a contenda -• torna-se patente que a famosa entidade,
passando a abrigar e a manter, lado a lado, três correntes dis-
tintas e bem delimitadas de psicanalistas, por pouco não ex-
cluíra definitivamente de seus quadros, a corajosa pesquisado-
ra das ideias do inventor da Psicanálise.
Em escala menor, na verdade, reeditava-se processo idên-
tico ao ocorrido cerca de meio século antes com o próprio
Freud, quando também começou a revelar ao mundo suas des-
cobertas. Com êle, segundo nos afiança Ernest fones (1953),
em documentada e exaustiva biografia do criador da Psicaná-
lise, a situação fora mais crítica: por alguns anos, bem longos,
teve que sustentar, sozinho, suas ideias e achados.
Ao tempo de Melanie Klein, no entanto, em Londres, já
havia ela encontrado adeptos e seguidores, e o mesmo fones
chegou a exercer, pessoalmente, grande influência em seu fa-
vor - circunstância e fato, aliás, que Melanie Klein nunca
esqueceu nem deixou de proclamar.
Contribuir, por conseguinte, ainda que seja em plano cien-
tífico e clínico, nem sempre chega a despertar acolhimento ou
simpatia. Pior ainda se as achegas fornecidas implicam certa
ampliação de conceitos ou aprofundamento consequente de
anteriores descobertas já, por si, tidas como arrojadas. Melanie
Klein o que fêz - hoje se reconhece - foi apenas estender o
conceito do inconsciente, dentro da acepção dinâmica em que
Freud o descrevera e apresentou. Suas ilações e achados, po-
rém, foram considerados perigosos ou quase heréticos, e se
afiguraram como praticamente insuportáveis para o Establish-
ment de então.
Freud também, nos começos da Psicanálise, teve que pros-
seguir apesar de tudo e de todos, e de submeter-se às conclu-
sões inelutáveis de seu trabalho clínico. Diante delas não po-
dia recuar. Foi, por vezes, é verdade, compelido a reformular
sua exposição não só da teoria como da técnica, por amor à
verdade ê observância dos princípios já estabelecidos de pes-
quisa psicanalítica. Assim, Melanie Klein, nos começos de seu
trabalho analítico, igualmente em razão de seus achados não
via meios de se permitir recuos ou desfalecimentos diante da
evidência de suas descobertas.
Impelida, pela observação clínica, a perscrutar analitica-
mente durante meses e anos consecutivos, e a acompanhar e
a assistir as vicissitudes e as raízes da relação da criancinha
com a mãe, e com o seio materno, viu-se colocada diante da
importância fundamental dessa primeira relação bipessoal.
Daí por diante, torna-se para ela muito dificil negar se-
melhantes achados. Era inevitável que a tónica de sua análise
recaísse predominantemente, sobre tal situação bipessoal. Vê
que esta, a princípio, se caracteriza meramente pela relação
"bôca-seio". A seguir, é que pode falar de relação "mãe-filho".
Compreende logo e descreve as diferenças entre o relaciona-
mento da mãe com o filho, e o da mãe com a filha.
Ainda com base nas várias manifestações da relação pri-
mitiva bipessoal, vai reencontrando como reedições delas, os
múltiplos aspectos da relação triangular clássica -• "filho-mãe-
pai" que Freud mui leal e penosamente desvendara em si pró-
prio e descrevera em seus pacientes adultos.
De vários modos, revela Melanie Klein iterativamente em
crianças e adultos, neuróticos e psicóticos, a situação edipiana
plena e completa. A ênfase era posta, entanto, na relação bi-
pessoal ("bôca-seio", "filho-mãe"), indicando com isto a des-
coberta do que chamou (em 1928) de "estágios precoces do
conflito edipiano", ou seja, as indefectíveis raízes e universais
precursores da situação plenamente desenvolvida, em suas ma-
nifestações mais completas, clássica e amplamente descritas
por Freud.
Aconteceu que, o brinquedo das crianças, antes praticamen-
te destituído de significação, ou não passando de mera libe-
ração de energia ainda sem finalidade - como na teoria da
"surplus energy" de Franz Alexander (1948) - para Melanie
Klein, ao contrário, em suas análises de crianças muito peque-
nas, foi visto como encerrando uma mensagem carregada de
ansiedade e acompanhada de mecanismos específicos de defesa.
Ela demonstra clinicamente (de 1923 em diante) poder com-
preender tal situação e interpretá-la dentro da técnica psica-
nalítica preconizada por Freud, com pequenas adaptações in-
dispensáveis à condição da criança, e de cujas interpretações
se seguiam "the release of quantities of an:xiety" (1929, pág.
225 de "Contributions to Psycho-Análysis'').
A técnica que desenvolveu, a sua play-analysis, por neces-
sitar prosseguir como .psicanalista o tratamento de criancinhas
que apenas iniciavam a fazer uso da palavra, precisou eviden-
temente basear-se na atividade lúdica. Esta, ela pôde ver e
demonstrar, além de constituir integralmente significativa ma-
nifestação da fantasia inconsciente da criança de tenra idade,
era absolutamente necessária ao desenvolvimento de sua vida
mental florescente.
Logrou reconhecer assim, com clareza, que o brinquedo re-
presentava uma forma definida da cerebração infantil (ou pri-
mitiva) . Deduziu, por conseguinte, que a criança enquanto brin-
ca está como que proto-pensanão. A expressão pode não ser
adequada, nem será, por certo, a que Melanie Klein empregou.
Melhor diria, talvez, que a criancinha estava simplesmente
sendo: sendo como é; sendo como consegue ser, mas comuni-
cando-se, e passível, portanto, segundo a técnica da play-
therapy, de ser entendida e interpretada analiticamente, e apre-
sentar assim "resolving anã liberating effect" (1927, pág. 190
de "Contributions" citada).
Com o brinquedo, a criança está pois simbolizando algo.
Possivelmente criando imagens concretas e condensadas de
proto-idéias (ou de fantasias inconscientes). Melanie Klein
admitiu e comprovou que, verbalizadas ou designadas por meio
de palavras, tais fantasias podiam vir a ser conscientizaãas.
Isto, caso alguém que, sabendo entendê-las (mãe ou psicana-
lista), se dispusesse a lhes fornecer o significado - ou as in-
terpretações, como em geral se diz em análise.
Melanie Klein não alcançou isto sozinha e de imediato
(de 1919 a 1945). Partiu -• além de sua análise pessoal é evi-
dente - das descobertas de Freud e seu ensinamento de que
os instintos, constituindo-se na fonte e origem de toda energia
vital, encontram sua representação psíquica (simbólica por
conseguinte), na fantasia inconsciente que é, por sua vez, como
estamos repetidamente acentuando, raiz e primeiro mó-
vel do pensamento verbal.
Melanie Klein viu também, no desenvolvimento do apare-
lho psíquico, o quanto o poder de formar símbolos (1929) im-
porta e tem significação relevante no aparecimento e evolu-
ção da capacidade de personificação, da dramatização e de
transformação do pensamento primitivo ou concreto (também
chamado pensamento esquizofrénico) e na sua passagem para
o pensamento verbal: por exemplo, as inibições do "impulso
epistemofílico" (da curiosidade) responsabilizando-se direta-
mente pelos distúrbios da fala ou da aprendizagem em geral.
A capacidade de formar símbolos, portanto reconhecida
como de importância fundamental, tanto para o aparecimento
e uso da palavra quanto como um meio de designação do con-
creto pelo abstrato é recurso precioso de comunicação com o
mundo externo e com o mundo interno; é ainda fator essen-
cial no surgimento da capacidade de abstração e generaliza-
ção; na de particularização; na possibilidade de discernimen-
to, na de cálculo e de previsão, exatamente por dispensar a
presença do objeto concreto do qual, naquele momento, se pre-
cisaria para pensar ou trabalhar com êle.
Tal aptidão funciona também como agente do poder de
síntese dos objetos, antes defensivamente cindidos pelo ego
em seus aspectos bom e mau; atua no aumento da capaci-
dade de integração do ego - a instância psíquica das habili-
dades humanas, do poder de adequação e das realizações -
propiciando a utilização de suas várias funções e virtualidades.
Por fim, não seria admissível deixar de mencionar - se
bem que de passagem também - o que em geral se considera
o ponto alto do desenvolvimento da formação de símbolos
- o tema fascinante do mistério da criação artística, ainda
por desvendar. Mormente dado o fato de que o presente volu-
me de Melanie Klein consta, em mais de metade, de dois alen-
tados estudos de Psicanálise Aplicada, em que ela analisa e
acompanha, interpretando em detalhe, como se estivesse no
consultório, duas importantes obras literárias. Uma, a trilogia
"Orestia", considerada obra prima de Esquilo e do teatro mun-
dial, poetização trágica de episódios que vinham ao encontro
das inquietações da antiguidade clássica relativos ao Destino
ou ao fatalismo; e outra, moderna, o romance de Julien Green
- "If I Were You" (Se Eu Fosse Você), em que se pode ver
também a trágica emolduração, num círculo fechado de cri-
mes, tal como na trilogia mencionada, uma luta contra a ti-
rania da "moira", o quinhão de cada um neste mundo.
Êle - o mistério -• ultimamente se encara, de modo su-
mário, à luz das descobertas e achados da "escola inglesa" de
psicanálise como um fenómeno de reparação à figura da mãe.
O artista, já parecendo ter elaborado suas fantasias primitivas
de destruí-la, através dos seus sentimentos de inveja e com-
petição, agora -• suficientemente motivado em sua capacidade
de admirar a mãe boa e reconhecer-lhe as qualidades - tenta,
com sua criatividade, devolver a ela algo gerado por êle sob
o ponto-de-vista estético universal, como se desse modo sim-
bólico, estivesse alcançando uma solução de ser mãe e che-
gando a criar vida ou uma representação de vida.
Ainda com o recurso da play-technique, Melanie Klein
vislumbrou na mente infantil, a existência de angustiante e
às vezes desesperado esforço de se defender, principalmente
contra determinados temores primitivos: a perseguição, a per-
da, a separação, o luto - e suas consequências imediatas -
a depressão e a melancolia ou o recurso ao suicídio. Seguindo
Freud, Klein vinculou-os à força conflitante dos impulsos ins-
tintivos de amor e de ódio inerentes ao ser humano. Percebeu
que estavam na raiz do relacionamento inicial bipessoal, bebê-
mãe, e eram elementos constantes do que descrevera sob a
rubrica de "estágios precoces do conflito edipiano".
Tais temores ou ansiedades - persecutórias e depressivas
como as denominou - encontram-se descritas e apresentadas
de modo claro e direto no primeiro ensaio do presente volume,
a conferência que prenunciou perante os membros dos Depar-
tamentos de Antropologia Social e de Estudos Sociais da Uni-
versidade de Manchester, em Maio de 1959, e se referem, desde
o raiar da consciência na criancinha (ou seja, desde os seus
três primeiros meses de idade em diante) ao resultado daque-
les conflitos internos específicos, no relacionamento inicial
com a figura da mãe ou substituta, e depois com o mundo,
mas decorrentes sempre da polaridade e concomitância de fan-
tasias amorosas e de fantasias agressivas.

Convém ressaltar que, a relação bipessoal, alvo de tantas


e tamanhas críticas, constitui hoje relacionamento tido como
raiz, base e modelo para todos os demais que se seguiram na
infância e continuarão a vir no futuro. A figura do pai, que
logo passou a fazer parte da cena, adquiriu realmente grande
importância tanto para o desenvolvimento emocional e men-
tal da menina como do menino. Com a descoberta da existên-
cia do pai, a situação triangular ganha na verdade substância,
concretamente, e se apresenta com toda a sua pujança, dos
três aos cinco anos de idade.
A situação edipiana - seja a precoce ou a completa - am-
bas de significação e alcance insofismáveis, têm em análise
suas vicissitudes consectárias à chegada ou a descoberta da
existência também de irmãos e irmãs, ou de familiares e agre-
gados ao círculo familiar de um modo geral.
A suposta heresia daquele tempo, os chamados estágios
precoces do que seria a situação triangular continuaram para
dentro do anteriormente descrito complexo edipiano pleno e
serviram de modelo, com o grupo familiar, também para o
relacionamento com o grupo social mais amplo.
O modo de convivência ou a maneira de ser com esse gru-
po social, inconscientemente já repete e revive, em suas gran-
des linhas, o tipo de relação afetiva do que se conhece como
o "grupo interno". Este, segundo se comprova em clínica psica-
nalítica ou de psicoterapia analítica de grupo, não passa de
uma réplica do "grupo externo", com a diferença única e im-
portante, de que a realidade psíquica o colore à maneira de
seus instintos conforme as pressões ou predominância interna
inconsciente dos sentimentos de amor ou de ódio inerentes ao
indivíduo que estabelece o relacionamento.
O chamado "grupo interno" continuará pois a constar e
se compor e a se formar das imagens e figuras encontradas,
desde o início da vida, e consideradas boas ou más, exatamente
em acordo com a instintividade particular que cada ser huma-
no apresenta de senti-las. É desse modo particular que elas
- imagens e figuras externas -• existem "concretamente"
dentro do indivíduo, se assim posso me expressar, isto é, no
reino de sua fantasia, revelando dinamismo bastante para de-
terminar o comportamento da criança ou da parte infantil do
adulto. Isso continuará assim, sempre, caso não sobrevenha
alguma influência suficientemente esclarecedora do padrão es-
tereotipado.
Esse grupo interno foi considerado mais operante em fun-
ção do grupo familiar, como Melanie Klein o demonstrou, à
luz do relacionamento inicial primitivo com o seio e a mãe.
Seria hoje dificil negar, sob esse ângulo de pensamento, que
daí, desses estágios precoces, como o leitor verá pelo volume
inteiro, da leitura de cada página e cada linha dos quatro
ensaios - partem os fundamentos e a compreensão das varia-
das e numerosas manifestações dos temores, das ansiedades e
fobias, das inibições, das idiossincrasias, das rivalidades, dos
amores e ódios, crimes e renúncias, ou das culpas e repara-
ções, com seus múltiplos e complexos mecanismos de defesa
ou dispositivos de proteção.
A escolha de cônjuge ou amante, a de profissão, a voca-
ção, os chamamentos de natureza vária e recôndita - se bem
que às vezes aparentemente inexplicáveis ou em direções an-
tes insuspeitadas •- qualquer nossa maneira de ser enfim, ou
de outrem, nosso proceder e atitudes existenciais, não obs-
tante as influências modificadoras benfazejas ou não, dificil-
mente podem deixar de revelar as raízes, ou fundamentos ou-
tros que não aqueles primitivos e formadores iniciais de nossa
caracterologia ou tipo de personalidade. Ao que tudo indica,
este foi gradativamente plasmado a partir de nossa entrada
no mundo e em função dos relacionamentos mais precoces que
com êle estabelecemos.
Se a importância que os especialistas, mormente os da
chamada "escola inglesa" de psicanálise atribuem aos fatôres
inconscientes e instintivos na formação da personalidade, no
desenvolvimento das capacidades e aptidões, no poder de rea-
lizar e nas atitudes diante da vida - fôr considerada faná-
tica, hiperbólica ou mesmo subjugada a ideias preconcebidas,
ou a lucubrações apenas de mentes enfermas e tendentes ao
misticismo e à fabulação, a leitura dos quatro ensaios de que
se compõe este opulento volume O Sentimento de Solidão é
que poderá dizer.
Daqueles, um - o último da coletânea - era ainda esboço
quando a morte colheu Melanie Klein, em Setembro de 1960.
Permaneceria inédito se, o alcance e a importância da comu-
nicação não encontrasse redação definitiva, na colaboração
meticulosa e atenta de dois de seus mais constantes e ínti-
mos seguidores - a Dra. Betty Joseph e Mr. Elliott Jaques.
Os que o lêem hoje, e os que conheceram, antes, a Sra.
Klein e com ela privaram ou lhe puderam acompanhar e pe-
netrar a linha de pensamento, consideram o estudo contribui-
ção de plena maturidade e de detida reflexão.
Ao redigir o esboço, Melanie Klein, em idade provecta, já
nele havia consubstanciado uma experiência "ida e vivida" de
cerca de quatro fecundas décadas de clínica, de observação e
pesquisa, caldeada ao calor dos acontecimentos de sua vida
particular, sofrida desde o início da carreira profissional em
Berlim e temperada pelas alegrias de ver o emprego e a acei-
tação de sua técnica e principais teorias.
Se foi perda não havê-lo terminado, a colaboração dedi-
cada dos seguidores que lhe completaram a forma expositiva
fala em favor da unidade de vistas da escola, quanto à experi-
ência de trabalho com a teoria e a técnica, e o vigor e pro-
fundidade de sua compreensão analítica.
Para Klein, expressamente nesse ensaio, o sentimento de
solidão nunca desaparece no ser humano; mas não tem o sen-
tido de estar só. Revela, antes, uma implicação de se sentir
mal acampanhaão, sob o ponto-de-vista interno. Resulta da
fantasia da presença de figura ou figuras perseguidoras dentro.
Êle é, entanto, que, no comum, impele a humanidade à
busca inconsciente da imagem boa do começo da vida (a mãe
ou substituta), na relação com o mundo, e, aliando-se à espe-
rança de reencontrá-la, favorece e propicia a capacidade de
estar só externamente, sem se sentir muito em solidão.

Paulo Dias Corrêa


Capítulo Primeiro

NOSSO MUNDO ADULTO E SUAS


RAÍZES NA INFÂNCIA

Ao considerar do ponto de vista psicanalítico o com-


portamento das pessoas no seu ambiente social, é
necessário investigar como o indivíduo se desen-
volve desde a infância até a maturidade. Um grupo
- seja pequeno ou grande - consta de indivíduos
num relacionamento recíproco; e, portanto, a com-
preensão da personalidade é o fundamento para com-
preender a vida social. A exploração do desenvolvi-
mento do indivíduo conduz o psicanalista de volta,
através de estádios graduais, à infância; e por conse-
guinte, eu primeiro me estenderei sobre as tendên-
cias fundamentais da criança de tenra idade.
Os vários sinais de dificuldades da criancinha
- os estados de raiva, falta de interesse pelos que
a circundam, de incapacidade de suportar a frus-
tração e as expressões fugazes de tristeza - não
encontravam anteriormente qualquer explicação, a
não ser em termos de fatôres físicos. Pois até às
grandes descobertas de Freud havia uma tendência
geral a considerar a infância como um período de
felicidade perfeita, e os vários distúrbios revelados
pelas crianças não eram levados a sério. Os achados

1
de Freud vieram, no curso do tempo, nos ajudar a
compreender a complexidade das emoções da crian-
ça e revelaram que elas passam por conflitos graves.
Isso conduziu a uma melhor compreensão (insight)
da mente infantil e sua conexão com os processos
mentais do adulto.
A técnica do brinquedo que desenvolvi na psica-
nálise de criancinhas e outros progressos na técnica
resultante de meu trabalho me permitiu tirar novas
conclusões sobre os estágios mais primitivos da in-
fância e as camadas mais profundas do inconsciente.
Tal visão (insight) retrospectiva baseia-se em um dos
achados cruciais de Freud, a situação de transferên-
cia, isto é, no fato de que numa psicanálise o pacien-
te restabelece em relação ao psicanalista situações
e emoções primitivas - e eu acrescentaria, mesmo
muito primitivas. Portanto, o relacionamento com o
psicanalista às vezes apresenta, mesmo em adultos,
características muito infantis, tais como a superde-
pendência e a necessidade de ser orientado, junta-
mente com uma desconfiança inteiramente irracio-
nal. Faz parte da técnica do psicanalista reconhecer
o passado nessas manifestações. Sabemos que Freud
descobriu primeiro o complexo de Édipo no adulto
e foi capaz de ver suas origens na infância. Visto
que tive a boa sorte de analisar crianças de idade
muito tenra, pude conseguir uma compreensão
(insight) ainda mais acurada de sua vida mental, o
que me conduziu a uma compreensão da vida men-
tal do bebé. Pude desse modo, pela atenção meti-
culosa que dispensei à transferência na técnica do
brinquedo, chegar a um entendimento mais profundo
das formas pelas quais - na criança e posteriormente
também no adulto - a vida mental é influenciada

2
pelas emoções mais primitivas e fantasias incons-
cientes. É desse ângulo que descreverei, com o em-
prego do menor número possível de termos técnicos,
o que concluí sobre a vida emocional da criancinha.
Formulei a hipótese de que o recém-nasci do ex-
perimenta, tanto no processo do nascer como no ajus-
tamento à situação pós-natal, uma ansiedade de na-
tureza persecutória. Isto se pode explicar pelo fato
de que a criança de tenra idade, sem ser capaz de
apreendê-lo intelectualmente, sente de forma in-
consciente todos os desconfortos como se fossem in-
fligidos sobre ela por forças hostis. Se logo lhe fôr
proporcionado conforto - em particular calor, a
maneira carinhosa com que é segurada e a gratifi-
cação de ser alimentada - isto dá origem a emoções
mais felizes. Ela sente que tal conforto lhe advém
de forças boas e, creio eu, torna possível a primeira
relação amorosa da criança com uma pessoa ou, como
o diria o psicanalista, com um objeto. Minha hipótese
é que a criancinha possui uma percepção inconscien-
te inata da existência da mãe. Sabemos que animais
de pouca idade de imediato se voltam para a mãe
e buscam nela seu alimento. O animal humano não
é diferente nesse sentido, e esse conhecimento ins-
tintivo constitui a base da relação primária da crian-
cinha com a mãe. Podemos também observar que
numa idade de apenas algumas semanas o bebé já
olha o rosto da mãe, reconhece-lhe os passos, o to-
que de suas mãos, o cheiro e o tato de seu seio ou
da mamadeira que ela lhe dá, tudo isso sugerindo
que certa relação, conquanto primitiva, foi estabeleci-
da com a mãe.
Ela não só espera alimento da mãe como tam-
bém deseja seu amor e compreensão. Nos estágios
3
mais primitivos, o amor e a compreensão se expres-
sam através do cuidado da mãe com o bebé e con-
duz a certa unicidade inconsciente que se baseia no
fato de o inconsciente da mãe e da criança estar em
íntima relação mútua. A sensação que a criancinha
experimenta de estar sendo compreendida fundamen-
ta o primeiro relacionamento básico de sua vida -
a relação com a mãe. Ao mesmo tempo, a frustração,
o mal-estar e a dor, percebidos, segundo sugeri, como
perseguição, entram também em seus sentimentos
a respeito da mãe, porque nos primeiros meses ela
representa para a criança o todo do mundo externo;
desse modo, tanto o que é bom como o que é mau
chegam-lhe à mente, provindo da mãe, e isto leva a
uma atitude dúplice em relação a ela mesmo sob as
melhores condições possíveis.
Tanto a capacidade de amar como o sentido de
perseguição têm raízes profundas nos processos men-
tais mais primitivos da criancinha. Primeiramente
eles se dirigem para a mãe. Os impulsos destrutivos
e seus concomitantes - tais como o ressentimento
por frustração, o ódio que ela desperta, a incapaci-
dade para se reconciliar, e a inveja do objeto todo
poderoso, a mãe, de quem dependem sua vida e seu
bem-estar - essas várias emoções despertam ansie-
dade persecutória na criancinha. Mwtatis mutandis,
tais emoções estão ainda operantes na vida ulterior.
Os impulsos destrutivos, por conseguinte, em rela-
ção a qualquer pessoa estão sempre fadados a dar
origem ao sentimento de que essa pessoa também se
tornará hostil e retaliadora.
A agressividade inata inegavelmente aumentará
pelas circunstâncias externas desfavoráveis e, in-
versamente, será mitigada pelo amor e compreensão
4
que a criancinha receber; e tais fatôres continuam
operantes durante todo o desenvolvimento. Embora
a importância de circunstâncias externas, no entanto,
seja agora reconhecida em escala crescente, a im-
portância dos fatôres internos ainda é subestimada.
Os impulsos destrutivos, que variam de indivíduo
para indivíduo, constituem parte integrante da vida
mental, mesmo em circunstâncias favoráveis, e, por-
tanto, temos que considerar o desenvolvimento da
criança e as atitudes dos adultos como resultantes
da interação entre as influências internas e exter-
nas. A luta entre o amor e o ódio - agora que nos-
sa capacidade de compreender os bebes aumentou
- pode, até certo ponto, ser reconhecida através de
cuidadosa observação. Alguns bebes experimentam
intenso ressentimento por qualquer frustração e de-
monstram isso pela incapacidade de aceitar a grati-
ficação quando ela se segue à privação. Diria que
tais crianças têm uma agressividade inata e voraci-
dade mais intensas do que aquelas criancinhas cujas
explosões ocasionais de raiva logo se dissipam. Se
um bebé indicar que é capaz de aceitar alimento e
amor, isto significa que pode superar o ressentimento
pela frustração com relativa rapidez e, quando a
gratificação for novamente proporcionada, readqui-
rir seus sentimentos de amor.
Antes de prosseguir na minha descrição do de-
senvolvimento da criança, julgo que devo definir
brevemente do ponto de vista psicanalítico, os ter-
mos eu e ego. O ego, de acordo com Freud, é a parte
organizada do eu, constantemente influenciada por
impulsos instintivos, porém mantendo-os sob contro-
le pela repressão; além disso, dirige todas as ativi-
dades e estabelece e mantém a relação com o mundo

5
externo. O eu é empregado para abranger toda a per-
sonalidade, que inclui não só o ego como a vida ins-
tintiva que Freud denominou de id.
Meu trabalho levou-me a supor que o ego exis-
te e opera a partir do nascimento e que, além das
funções mencionadas acima, tem a importante tarefa
de defender-se contra a ansiedade estimulada pelo
conflito interno e pelas influências de fora. Ademais,
dá início a numerosos processos dos quais, menciona-
rei primeiro, a introjeção e a projeção. Ao processo
não menos importante de divisão, isto é, de dividir
impulsos e objetos, voltarei mais tarde.
Devemos a Freud e a Abraham a grande desco-
berta de que a introjeção e a projeção são de gran-
de importância tanto em distúrbios mentais graves
como na vida mental normal. Tenho aqui que aban-
donar mesmo a tentativa de descrever como especial-
mente Freud, partindo do estudo da psicose maníaco-
depressiva, chegou à descoberta da introj eção sub-
jacente ao superego. Êle também explanou a relação
vital entre o superego e o ego e o id. Com o decorrer
do tempo, esses conceitos básicos sofreram um de-
senvolvimento ulterior. Como vim a reconhecer, à
luz de meu trabalho psicanalítico com crianças, a in-
trojeção e a projeção funcionam desde o começo
da vida pospus, tcàl como uma das atividades mais pri-
mitivas do ego, que a meu ver opera a partir do nas-
cimento. Considerada sob esse ângulo, a introjeção
significa que o mundo exterior, seu impacto, as si-
tuações que a criancinha vive, e os objetos que ela
encontra, são experimentados não só como externos
mas são recebidos dentro do eu e se tornam parte da
vida interna dela. A vida interna não pode ser avalia-
da mesmo no adulto sem esses acréscimos à persa-

6
nalidade que se ongmam da introjeção contínua. A
projeção, que ocorre simultaneamente, implica que
existe uma capacidade na criança de atribuir a ou-
tras pessoas em torno dela sentimentos de várias es-
pécies, predominantemente o amor e o ódio.
Cheguei à conclusão de que o amor e o ódio para
com a mãe estão vinculados à capacidade da crian-
ça em idade muito tenra de projetar todas as suas
emoções sobre ela, tornando-a assim tanto um obje-
to bom como perigoso. A introjeção e a projeção,
no entanto, embora tenham raízes na infância, não
são apenas processos infantis. Constituem parte das
fantasias da criança, que segundo me parece tam-
bém operam desde o começo e ajudam a plasmar
sua impressão do ambiente; e pela introjeção este
quadro modificado do mundo externo influencia o
que se passa em sua mente. Desse modo, estrutura-
se um mundo interno que é, em parte, um reflexo do
externo. Isto é, o duplo processo de introjeção e de
projeção contribui para a interação entre os fatôres
externos e internos. Esta interação continua através
de cada estágio da vida. Da mesma forma, a introje-
ção e a projeção prosseguem pela vida afora e se mo-
dificam no curso da maturação; mas nunca perdem
sua importância na relação do indivíduo para com o
mundo qúe o cerca. Mesmo no adulto, portanto, o jul-
gamentovde realidade jamais está inteiramente isen-
to da influência de seu mundo interno.
Já sugeri que sob um único ângulo os processos
de projeção e introjeção que venho descrevendo têm
que ser considerados como sias inconscientes.
Como minha amiga, a falecida Susan Isaacs, o disse
em seu trabalho sobre o tema (1), 11 A fantasia é (no
primeiro caso) o corolário mental, a representação
7
psíquica do instinto. Não há impulso, nem pressão ou
resposta instintiva que se não experimentem como
fantasia inconsciente... Uma fantasia representa o
conteúdo específico das necessidades ou sentimentos
(por exemplo, desejos, temores, ansiedades, triunfos,
amor ou pesar) que dominam a mente no momento".
As fantasias inconscientes não são o mesmo que
devaneios (embora a eles estejam vinculadas), mas
uma atividade da mente que ocorre em níveis incons-
cientes profundos e acompanha todo impulso experi-
mentado pela criancinha. Por exemplo, um bebe com
fome pode temporariamente lidar com sua fome alu-
cinando a satisfação de lhe darem o seio, com todos
os prazeres que normalmente tira dele, tais como o
gosto do leite, o cálido tato do seio, e de estar nos
braços da mãe e ser por ela amado. A fantasia in-
consciente, porém, também assume a forma oposta
de sentir-se privado e perseguido pelo seio que se re-
cusa a proporcionar-lhe esta satisfação. As fantasias
- tornando-se mais elaboradas e referentes a uma
variedade maior de objetos e situações - continuam
durante todo o desenvolvimento e acompanham to-
das as atividades; nunca deixam de desempenhar
grande papel na vida mental. A influência da fanta-
sia inconsciente sobre a arte, sobre o trabalho cientí-
fico e sobre as atividades da vida cotidiana não po-
de ser superestimada.
Já mencionei que a mãe é introjetada e que isto
é um fator fundamental do desenvolvimento. A meu
ver, as relações de objeto começam quase desde o
nascimento. A mãe nos seus bons aspectos - aman-
do, ajudando e alimentando a criança - é o primeiro
objeto bom que a criança inclui em seu mundo inte-
rior. Sua capacidade de conseguir isto, gostaria de

8
sugenr, é até certo ponto, inata. Para que o objeto
bom se converta suficientemente numa parte do eu
depende, em certa medida, da ansiedade persecutória
- e, consequentemente, o ressentimento - não de-
ve ser muito intenso; ao mesmo tempo, uma atitude
amorosa por parte da mãe muito contribui para o
êxito deste processo. Se a criança coloca no seu
mundo interno a mãe como um objeto bom e mere-
cedor de confiança, um elemento de vigor é adiciona-
do ao ego. Presumo, pois, que o ego se desenvolve,
em grande parte, em torno desse objeto bom, e a
identificação com as boas características da mãe
torna-se a base para ulteriores identificações benfa-
zejas. A identificação com o objeto bom revela-se ex-
ternamente no copiar a criança de tenra idade as ati-
vidades e atitudes da mãe; isto se pode observar no
seu brinquedo e amiúde também em seu comporta-
mento com crianças mais jovens. Uma intensa iden-
tificação com a mãe boa torna mais fácil para a crian-
ça identificar-se também com um pai bom e ulterior-
mente com outras figuras amigas. Como resultado,
seu mundo interno passa a conter predominante-
mente objetos e sentimentos bons, e a criancinha
sente que esses objetos bons correspondem ao seu
amor. Tudo isto contribui para uma personalidade
estável, e torna possível estender uma simpatia e sen-
timentos amistosos para outras pessoas. É eviden-
te que uma boa relação dos genitores entre si e com
a criança, e uma atmosfera doméstica feliz, desem-
penham um papel vital no êxito deste processo.
Por melhores que sejam, no entanto, os sentimen-
tos da criança em relação a ambos os genitores, a
agressividade e o ódio também permanecem operan-
tes. Uma expressão disso é a rivalidade com o pai

9
que resulta dos desejos do menino em relação à mãe
e todas as fantasias a eles ligadas. Semelhante ri-
validade encontra expressão no complexo de Édipo,
que nitidamente se observa nas crianças de três,
quatro, ou cinco anos de idade. Este complexo exis-
te, todavia, muito mais cedo e tem raízes nas pri-
meiras suspeitas do bebe de que o pai lhe tome o
amor e a aten9ão da mãe. Há grandes diferenças no
complexo de Edipo da menina e do menino, que eu
caracterizarei apenas dizendo que, enquanto o me-
nino em seu desenvolvimento genital retorna ao seu
objeto original, a mãe, e por conseguinte procura
objetos femininos com consequente ciúme do pai e
dos homens em geral, a menina, até certo ponto, tem
que se afastar da mãe e encontrar o objeto de seus
desejos no pai e ulteriormente em outros homens.
Afirmei isso, contudo, de forma bastante simplifica-
da, porque o menino se sente também atraído pelo
pai e com êle se identifica; e portanto um elemento
de homossexualidade entra no desenvolvimento nor-
mal. O mesmo se aplica à menina, para quem a re-
lação com a mãe, e com as mulheres em ~eral, nunca
perde a importância. O complexo de Edipo não é
assim, apenas uma questão de sentimentos de ódio e
de rivalidade em relação a um genitor e de amor
pelo outro, mas os sentimentos de amor e a sensação
de culpa também existem em conexão com o geni-
tor rival. Muitas emoções conflitantes centralizam-se,
portanto, sobre o complexo de Édipo.
Passamos agora novamente à projeção. Quando
alguém projeta a si ou parte de seus impulsos e sen-
timentos sobre outra pessoa, realiza uma identifica-
ção com essa pessoa, embora tal identificação seja
diferente da que se origina da introjeção. Se um obje-

10
to, no entanto, é aceito dentro do eu (é introjetado),
a ênfase está na aquisição de algumas das caracte-
rísticas desse objeto e no ser influenciado por elas.
Por outro lado, ao colocar uma parte de si em ou-
tra pessoa (por projeção), a identificação se baseia
em atribuir ao outro algumas características. A pro-
jeção tem inúmeras repercussões. Inclinamo-nos a
atribuir a outrem - em certo sentido, a colocar neles
- algumas de nossas emoções e pensamentos; e é
óbvio que dependerá de quão equilibrados ou per-
seguidos estivermos se a natureza dessa projeção vai
ser amistosa ou hostil. Atribuindo parte de nossos
sentimentos à outra pessoa, compreendemos seus sen-
timentos, suas necessidades e satisfações; em outra
palavras, estamos nos colocando na pele do outro.
Há pessoas que vão tão longe nessa direção que se
perdem inteiramente dentro de outrem e se tornam
incapazes de discernimento objetivo. Ao mesmo tem-
po, a introj eção excessiva põe em perigo a força do
ego porque êle fica inteiramente dominado pelo obje-
to introjetado. Se a projeção for predominantemente
hostil, a verdadeira empatia e compreensão dos ou-
tros é prejudicada. A característica da projeção é,
portanto, de grande importância em nossas relações
com os outros. Se a interação entre a introjeção e a
projeção não fôr dominada pela hostilidade ou super-
dependência, e fôr bem equilibrada, o mundo interno
se enriquecerá e melhoram as relações com o mundo
externo.
Referi-me anteriormente à tendência do ego in-
fantil para dividir os impulsos e os objetos e consi-
dero isto como outra das atividades primárias do ego.
Esta tendência a dividir resulta do fato de que fal-
ta coerência bastante ao ego primitivo. Mas - aqui

11
de novo tenho que referir-me aos meus próprios
conceitos - a ansiedade persecutória reforça a ne-
cessidade de manter separado o objeto amado do pe-
rigoso e, portanto, de afastar o amor do ódio. É
que a autopreservação da criança em tenra idade
depende de sua confiança numa mãe boa./Áo dividir
os dois aspectos e ao apegar-se ao bom, ela preserva
sua crença num objeto bom e em sua capacidade
de amá-lo; e esta é uma condição essencial para se
manter viva. Isso porque, sem pelo menos certa par-
cela desse sentimento, ela ficaria exposta a um mun-
do inteiramente hostil que ela teme venha a destruí-
la. Esse mundo hostil também seria estruturado den-
tro dela. Há, como sabemos, bebes em quem falta vi-
talidade e que não se mantêm vivos, provavelmente
porque não foram capazes de desenvolver sua rela-
ção de confiança numa mãe boa. Em contraste, há
outros bebes que passam por grandes dificuldades
mas que manifestam suficiente vitalidade para utili-
zar a ajuda e o alimento oferecidos pela mãe. Sei
de uma criancinha que passou por um parto pro-
longado e difícil e sofreu lesões no processo, mas
quando posta ao seio, sugou-o avidamente. O mes-
mo tem sido relatado acerca de bebés que sofreram
operações graves logo após o nascimento. Outras
criancinhas em tais circunstâncias não conseguem
sobreviver porque apresentam dificuldades em acei-
tar alimento e amor, o que implica que não puderam
estabelecer a confiança e o amor na mãe.
O processo de divisão muda de forma e conteúdo
à medida que o desenvolvimento prossegue, mas sob
certos aspectos êle nunca é inteiramente abandona-
do. A meu ver, os impulsos destrutivos onipotentes,
a ansiedade persecutória e a divisão predominam nos

12
três a quatro primeiros meses de vida. Descrevi essa
combinação de mecanismos e ansiedades como a po-
sição esquizoparanóide, que em casos extremos cons-
titui a base da paranóia e da esquizofrenia. Os con-
comitantes dos sentimentos de destruição nesse está-
gio primitivo são de grande importância e separo
deles a voracidade e a inveja como fatôres muito per-
turbadores, em primeiro lugar na relação com a mãe
e ulteriormente com os outros membros da família,
em verdade por toda a vida.
A voracidade varia consideravelmente de uma
criancinha para outra. Há bebês que nunca se satis-
fazem porque sua voracidade ultrapassa tudo que
eles possam receber. A voracidade se acompanha do
impulso de esvaziar o seio da mãe e de explorar
todas as fontes de satisfação sem consideração por
quem quer que seja. A criancinha muito voraz pode
se satisfazer, por alguns instantes, com o que rece-
be; mas tão logo desaparece a gratificação, ela fica
insatisfeita e é impelida a explorar, primeiro a mãe,
e a seguir todos da família que lhe possam propor-
cionar atenção, alimento ou outra gratificação. Não
resta dúvida que a ansiedade aumenta a voracidade
- a ansiedade de se sentir privado, de se sentir rou-
bado e de não se sentir suficientemente bom para ser
amado. A criancinha que se mostra tão voraz por
amor e atenção sente-se também insegura quanto a
sua capacidade de amar; e todas essas ansiedades
reforçam a voracidade. Tal situação permanece imu-
tável em seus fundamentos, tanto na voracidade
da criança de mais idade como na do adulto.
No tocante à inveja, não é fácil explicar como a
mãe que alimenta a criancinha e dela cuida possa
também ser um objeto de inveja. Mas sempre que

13
tem fome ou se sente abandonada, a frustração da
criança leva-a à fantasia de que o leite e o amor
lhe são deliberadamente' negados, ou retidos pela
mãe para se beneficiar com eles. Tais suspeitas cons-
tituem a base da inveja. É inerente ao sentimento
de inveja não só o desejo de posse, mas também um
forte impulso de destruir o prazer que o outro obtém
com o objeto desejado - impulso que tende a des-
truir o objeto. Se a inveja é muito intensa, sua natu-
reza destruidora perturba a relação com a mãe assim
como ulteriormente com os outros; o que quer dizer
também que nada pode ser plenamente desfrutado
de vez que o objeto do desejo já foi destruído pela
inveja. Além disso, se a inveja fôr intensa, a bonda-
de não pode ser assimilada, nem fazer parte da vida
interna, e nem assim dar origem à gratidão. Em con-
traste, a capacidade de desfrutar plenamente o que
foi recebido e a experiência de gratidão para com a
pessoa que a proporciona influenciam intensamente
tanto o caráter quanto as relações com outras pes-
soas. Não é em vão que ao dar graças antes das re-
feições, os cristãos empregam as palavras, "Pelo
que estamos prestes a receber, que o Senhor nos fa-
ça verdadeiramente agradecidos". Essas palavras im-
plicam no pedido daquela qualidade - a gratidão -
que traz a felicidade e liberta do ressentimento e
da inveja. Ouvi uma meninazinha dizer que amava
a mãe mais que a todas as outras pessoas, pois que
faria se a mãe não a fizesse nascer e não a houvesse
alimentado? Esse acentuado sentimento de gratidão
estava vinculado a sua capacidade para o prazer e
revelava-se em seu caráter e suas relações com ou-
tras pessoas, particularmente em sua generosidade e
consideração. Através da vida semelhante capacidade
14
para o prazer e a gratidão tornam possíveis inúme-
ros interesses e alegrias. \
No desenvolvimento normal, com a crescente in-
tegração do ego, os processos de divisão diminuem
e a capacidade aumentada de compreender a reali-
dade externa, e até certa medida de conciliar os im-
pulsos contraditórios da criancinha, conduzem tam-
bém a uma síntese maior dos aspectos bons e maus
do objeto. Isto significa que as pessoas podem ser
amadas apesar de suas limitações e que o mundo não
é visto apenas em termos de preto e branco.
O superego - a parte do ego que critica e con-
trola os impulsos perigosos, e que Freud primeira-
mente situou, em torno do quinto ano de vida -
vigora, de acordo com os meus pontos de vista, des-
de muito antes. Admito a hipótese de que no quinto
ou sexto mês de vida o bebé começa a temer o dano
que seus impulsos destrutivos e sua voracidade cau-
sam, ou podem ter causado, a seus objetos amados.
É que êle ainda não distin~ue seus desejos e impulsos
dos efeitos que causam. Ele experimenta sentimen-
tos de culpa e a necessidade de preservar tais objetos
e de repará-los pelo dano causado. A ansiedade que
agora experimenta é de natureza predominantemen-
te depressiva; e as emoções que a acompanham, bem
domo as defesas desenvolvidas contra elas, eu as
reconheço como parte do desenvolvimento normal,
e as denominei de "posição depressiva". Os senti-
mentos de culpa, que ocasionalmente surgem em to-
dos nós, têm raízes bastante profundas na infância
e a tendência para a reparação desempenham um im-
portante papel em nossas sublimações e relações de
objeto.

15
Quando observamos criancinhas por esse ângulo,
podemos ver que às vezes, sem qualquer causa exter-
na particular, elas parecem deprimidas. Nesse está-
gio tentam agradar às pessoas em torno de todas as
formas ao seu alcance - por meio de sorrisos, de
gestos travessos, mesmo de tentativas de alimentar
a mãe pondo-lhe na boca colher com alimento. Ao
mesmo tempo, este é também um período em que as
inibições a alimentos e os pesadelos muitas vezes so-
brevêm, e todos esses sintomas chegam ao máximo
por ocasião do desmame. Com crianças maiores, a
necessidade de lidar com sentimentos de culpa ex-
pressa-se mais claramente; várias atividades constru-
tivas se empregam para essa finalidade e na relação
com os genitores ou irmãos há uma necessidade ex-
cessiva de agradar e de ser prestimosa, o que ex-
pressa não somente amor como também a necessi-
dade de reparar.
Freud postulou o processo de elaboração como
parte essencial do método psicanalítico. Em poucas
palavras, isso significa permitir ao paciente experi-
mentar suas emoções, ansiedades e situações passa-
das repetidas vezes tanto em relação ao analista como
às diferentes pessoas e situações na vida presente e
passada do paciente. Há, contudo, uma elaboração
que ocorre em certa medida no desenvolvimento in-
dividual normal. A adaptação à realidade externa
aumenta e com ela a criancinha atinge um quadro
menos fantástico do mundo que a cerca. A experiên-
cia repetida da mãe que vai e volta para ela torna
sua ausência menos assustadora e portanto sua des-
confiança de que ela a abandone diminui. Dessa
forma, ela gradualmente elabora seus temores primi-
tivos e consegue certo equilíbrio de seus impulsos e

16
emoções conflitantes. A ansiedade depressiva nesse
estágio predomina e diminui a ansiedade persecutó-
ria. Acredito que muitas manifestações aparente-
mente estranhas, fobias inexplicáveis e idiossincra-
sias que se podem observar em crianças em tenra
idade são, a um tempo indicações de elaboração da
posição depressiva e da maneira de elaborá-la. Se
os sentimentos de culpa que surgem na criança não
são excessivos, a necessidade de reparar e outros
processos que fazem parte do crescimento trarão
alívio. As ansiedades depressivas e persecutórias,
no entanto, nunca são inteiramente superadas; po-
dem retornar temporariamente sob pressão interna
ou externa, embora uma pessoa relativamente nor-
mal possa lidar com esse reaparecimento e readqui-
rir seu equilíbrio. Se, contudo, a tensão fôr demasia-
do grande, o desenvolvimento de uma personalida-
de forte e bem equilibrada poderá ser impedido.
Tendo tratado - embora eu tema que de ma-
neira bastante simplificada - das ansiedades para-
nóides e depressivas e suas implicações, gostaria de
considerar a influência dos processos por mim descri-
tos sobre as relações sociais. Falei da introjeção do
mundo externo e sugeri que esse processo continua
através da vida. Sempre que podemos admirar e amar
alguém - ou odiar e desprezar alguém - também
ficamos com algo deles em nós e nossas atitudes
mais profundas são plasmadas por semelhantes ex-
periências. No primeiro caso nos enriquece, e se tor-
na um fundamento para preciosas lembranças; no
outro, algumas vezes sentimos que o mundo externo
está destruído para nós e o mundo interno fica, por-
tanto, empobrecido.

17
Posso aqui apenas mencionar a importância das
experiências favoráveis e desfavoráveis concretas a
que a criancinha está, desde o início, sujeita, pri-
meiro por parte dos genitores, e ulteriormente por
parte de outrem. As experiências externas são de
suprema importância durante a vida. Contudo, mui-
to depende, mesmo na criancinha, das maneiras pelas
quais ela vai interpretar e assimilar as influências ex-
ternas; e isto por sua vez depende em grande parte
da intensidade com que atuam os impulsos destru-
tivos e as ansiedades persecutórias e depressivas.
Da mesma forma, nossas experiências adultas são
influenciadas por nossas atitudes básicas, que ou
nos ajudam a lidar melhor com os infortúnios ou, se
estivermos demasiadamente dominados pela suspeita
e pela autocompaixão, transformam mesmo pequenas
desilusões em desastres.
As descobertas de Freud sobre a infância au-
mentaram a compreensão dos problemas da educa-
ção, mas tais conhecimentos têm sido amiúde mal
interpretados. Embora seja verdade que uma edu-
cação demasiado rigorosa reforça a tendência da
criança para a repressão, temos que nos recordar de
que demasiada indulgência pode ser quase tão da-
nosa para a criança quanto a extrema restrição. A
chamada "auto-afirmação plena" pode apresentar
grandes desvantagens tanto para os genitores como
para a criança. Enquanto que em épocas pregressas
a criança era amiúde a vítima da atitude rigorosa
dos genitores, estes QOdem agora tornar-se as víti-
mas de seus filhos. É um chiste conhecido de que
havia um homem que nunca comeu peito de galinha;
é que comiam-no os genitores quando êle era crian-
ça, e quando cresceu dava-o aos filhos. Ao lidar com

18
nossos filhos, é essencial manter um equilíbrio entre
excessiva e escassa severidade. Fazer vista grossa a
certas pequenas travessuras constitui uma atitude
bastante saudável. Mas se estas se transformam em
persistente falta de consideração, é necessário ex-
pressar desaprovação e pôr um limite a seu compor-
tamento.
Há outro ângulo do qual cumpre considerar a
indulgência excessiva dos genitores: enquanto a
criança pode tirar vantagem da atitude dos pais, ela
também experimenta um sentimento de culpa quan-
to a explorá-los e sente necessidade de certa restri-
ção que lhe proporcione segurança. Isto também lhe
permitirá experimentar respeito pelos genitores, que
é essencial a uma boa relação para com eles e ao
desenvolvimento do respeito pelos outros. Além dis-
so, devemos considerar também que os pais que so-
frem demasiado diante da auto-afirmação sem limi-
tes da criança - por mais que tentem submeter-se
a ela - experimentarão por certo algum ressenti-
mento que irá contaminar a atitude deles com a
cnança.
Já descrevi a criança de tenra idade que reage
intensamente contra toda frustração - e não há
educação possível sem certa inevitável frustração -
e que tende a se ressentir amargamente ante quais-
quer falhas e restrições de seu ambiente e a subesti-
mar a bondade recebida. Em consequência, projetará
seus rancores muito intensamente sobre as pessoas
em torno. Atitudes semelhantes são bem conhecidas
em adultos, Se confrontamos as pessoas capazes de
suportar a frustração sem ressentimento excessivo,
e que logo readquirem seu equilíbrio após uma desi-
lusão, com aquelas que se inclinam a lançar toda a

19
culpa sobre o mundo externo, podemos verificar o
efeito prejudicial da projeção hostil, É que a proje-
ção do rancor desperta nos outros um sentimento con-
trário de hostilidade. Poucos de nós temos tolerân-
cia para suportar a acusação, mesmo não expressa
em palavras, de que sob certas modalidades somos a
parte culpada. De fato, isso muito amiúde nos faz
desgostar de tais pessoas e lhes parecermos ainda
mais hostis; em consequência, elas experimentam por
nós mais sentimentos persecutórios e suspeitas, e as
relações se tornam cada vez piores.
Uma maneira de lidar com a suspeita excessiva é
tentar apaziguar os inimigos supostos ou reais. Isto
é raramente coroado de êxito. Naturalmente, algu-
mas pessoas podem ser influenciadas pela lisonja e
pelo apaziguamento, mormente se seus sentimentos
de perseguição contribuírem para a necessidade de
serem apaziguados. Mas tal relação facilmente se
desmorona e se transforma em hostilidade mútua.
De passagem, gostaria de mencionar as dificuldades
que tais flutuações nas atitudes dos principais esta-
distas poderão produzir nos assuntos internacionais.
Quando a ansiedade persecutória é menos intensa,
e a projeção, atribuindo, principalmente a outrem
bons sentimentos, torna-se desse modo a base da
empatia, a resposta do mundo exterior é bem dife-
rente. Todos nós conhecemos pessoas que têm a ca-
pacidade de se fazerem amadas; é que temos a im-
pressão de que elas têm certa confiança em nós, o
que desperta em nós um sentimento de amizade. Não
me refiro a pessoas que tentam tornar-se populares
de maneira insincera. Pelo contrário, creio que as
pessoas que são autênticas e têm coragem de susten-

20
tar suas convicções, são as que, em última análise,
despertam respeito e mesmo amor.
Um interessante exemplo da influência das ati-
tudes primitivas através da vida é o fato de que a
relação com as figuras arcaicas continua reaparecen-
do e que os problemas que permaneceram não resol-
vidos no bebé ou na tenra infância são revividos,
embora de forma modificada. Por exemplo, a atitude
em relação a um subordinado ou a um superior re-
pete até certo ponto a relação com um irmão mais
jovem ou com um genitor. Se nos relacionamos com
uma pessoa mais velha de modo cordial e amistoso,
inconscientemente se revive a relação com um geni-
tor ou progenitor amado; ao passo que uni indivíduo
mais velho condescendente e desagradável incita no-
vamente as atitudes rebeldes da criança para com os
pais. Não é necessário que tais pessoas sejam fisica-
mente, mentalmente, ou mesmo em idade real seme-
lhantes às figuras originais; algo em comum em sua
atitude é bastante. Quando alguém se acha inteira-
mente sob o domínio de situações e relações primiti-
vas, seu julgamento das pessoas e dos fatos estará
perturbado. Normalmente, tal vivência das situa-
ções primitivas se limita e se retifica pelo juízo obje-
tivo. Isto é, somos todos capazes de ser influenciados
por fatôres irracionais, mas na vida normal não so-
mos dominados por eles.
A capacidade de amor e de dedicação, primeiro
pela mãe, de muitas maneiras se transforma em de-
dicação a várias causas consideradas boas e valiosas.
Isto significa que o prazer que no passado o bebé con-
seguia experimentar ao se sentir amado e amando,
na vida ulterior se transfere não só para suas rela-
ções com os outros, o que é muito importante, mas
21
também para o trabalho e para tudo que lhe parece
digno de valor. Isto implica também num enriqueci-
mento da personalidade e na capacidade de gostar
do trabalho, e lhe abre múltiplas fontes de satisfação.
Nesse esforço para alcançar nossos objetivos,
bem como nossa relação com outras pessoas, o de-
sejo primitivo de reparar se acrescenta à capacidade
de amar. Já disse que em nossas sublimações, que
decorrem dos interesses mais primitivos da criança,
as atividades construtivas ganham mais ímpeto por-
que a criança inconscientemente sente que desta ma-
neira ela restaura as pessoas amadas a quem dani-
ficou. Esse ímpeto nunca perde sua intensidade, em-
bora muito amiúde não seja reconhecido na vida
comum. O fato irrevogável de que nenhum de nós
jamais esteja inteiramente isento de culpa apresenta
aspectos bastante valiosos porque implica o desejo
nunca plenamente esgotado de reparar e de criar de
qualquer maneira que esteja ao nosso alcance.
Todas as formas de serviço social se beneficiam
com essa necessidade. Em casos extremos, os senti-
mentos de culpa impelem as pessoas a se sacrificarem
completamente por uma causa ou por seus semelhan-
tes, e podem levar ao fanatismo. Sabemos, contudo,
que algumas pessoas arriscam suas vidas a fim de
salvarem outras, e isto não é necessariamente da
mesma ordem. Não é tanto a culpa o que poderia
ser operante em tais casos como a capacidade para
amar, para a generosidade e uma identificação com
o semelhante em perigo.
Ressaltei a importância da identificação com os
pais, e subsequentemente com outras pessoas, para
o desenvolvimento da criança em tenra idade e ago-
ra desejo frisar um aspecto particular de identifica-

22
ção produtiva que se estende até à idade adulta.
Quando a inveja e a rivalidade não são demasiado
intensas, torna-se possível desfrutar vicariantemen-
te dos prazeres alheios. Na infância a hostilidade e a
rivalidade do complexo de Édipo são contrabalança-
das pela capacidade de desfrutar vicariantemente a
felicidade dos genitores, Na vida adulta, os pais po-
dem partilhar dos prazeres da infância e evitar ne-
les interferir porque podem se identificar com os fi-
lhos. São capazes de observar sem inveja os seus
filhos crescerem.
Semelhante atitude torna-se particularmente im-
portante quando as pessoas se tornam mais velhas
e os prazeres da juventude se tornam cada vez me-
nos acessíveis. Se a gratidão por satisfações passa-
das não tiver desaparecido, as pessoas idosas podem
desfrutar do que quer que ainda se encontre ao seu
alcance. Além disso, com tal atitude, que dá margem
à serenidade, podem identificar-se com pessoas jo-
vens. Por exemplo, qualquer um que esteja em bus-
ca de talentos jovens e que ajude a desenvolvê-los -
seja em sua função como professor ou crítico, seja
em épocas anteriores como patrono das artes e da
cultura - somente é capaz de fazê-lo porque pode
identificar-se com outros; num certo sentido, está
repetindo sua vida, algumas vezes chegando mesmo
a alcançar de modo vicariante a satisfação de objeti-
vos não realizados em sua vida.
Em todo estágio, a capacidade de identificar-se tor-
na possível a felicidade de poder admirar o caráter
ou as realizações alheias. Se não pudermos nos per-
mitir apreciar as realizações e as qualidades dos ou-
tros - e isso significa que não somos capazes de su-
portar o pensamento de que nunca poderemos emu-
23
lar com eles - estaremos privados de fontes de
grande felicidade e enriquecimento. O mundo seria
aos nossos olhos um lugar muito mais pobre se não
tivéssemos oportunidade para compreender que a
grandeza existe e continuará a existir no futuro. Tal
admiração também desperta algo em nós e aumenta
indiretamente nossa crença em nós. Essa é uma das
muitas maneiras pela qual as identificações prove-
nientes da infância se tornam parte importante de
nossa personalidade.
A capacidade de admirar as realizações de outra
pessoa é um dos fatôres que torna o trabalho em equi-
pe bem sucedido. Se a inveja não fôr grande em
demasia, podemos ter prazer e orgulho em trabalhar
com pessoas que às vezes superam nossas capaci-
dades, pois nos identificamos com esses membros
proeminentes da equipe.
O problema de identificação é, contudo, mui-
to complexo. Quando Freud descobriu o superego,
considerou-o como parte da estrutura mental deriva-
da da influência dos pais sobre a criança - uma
influência que faz parte das atitudes fundamentais
da criança. Meu trabalho com crianças de tenra ida-
de mostrou-me que mesmo da tenra infância em
diante, a mãe, e logo outras pessoas no ambiente da
criança, se incorporam ao eu, e isto constitui a base
de múltiplas identificações, favoráveis e desfavorá-
veis. Apresentei acima exemplos de identificações
que são úteis tanto para a criança como para o adul-
to. A influência vital, no entanto, do ambiente pri-
mitivo exerce também o efeito de que os aspectos
desfavoráveis das atitudes do adulto com a criança
são prejudiciais ao seu desenvolvimento porque in-
citam nela o ódio e a rebelião ou uma submissão

24
demasiadamente grande. Ao mesmo tempo ela inter-
naliza esta atitude adulta hostil e colérica. De tais
experiências, um genitor excessivamente rigoroso,
ou um genitor carente de compreensão e amor, por
identificação influencia a formação do caráter da
criança e pode conduzi-la a repetir na vida ulterior
aquilo que êle próprio sofreu. Um pai, por conse-
guinte, algumas vezes emprega os mesmos métodos
erróneos com os filhos que seu pai utilizou em re-
lação a êle. Por outro lado, a rebelião contra os
erros experimentados na infância podem conduzir à
reação oposta de fazer tudo diferentemente do modo
pelo qual os genitores fizeram. Isto conduziria ao
outro extremo, por exemplo à super indulgência com
a criança, a que já me referi anteriormente. Ter
aprendido de nossas experiências na infância e, por-
tanto, ser mais compreensivo e tolerante para com
nossos filhos, bem como no tocante a pessoas fora
do círculo familiar, é um sinal de maturidade e de
desenvolvimento sadio. A tolerância, porém, não sig-
nifica ser cego às faltas dos outros. Significa reco-
nhecer tais faltas e, não obstante, não perder a ca-
pacidade de cooperar com pessoas ou mesmo de ex-
perimentar amor por algumas delas.
Ao descrever o desenvolvimento da criança, res-
saltei de forma particular a importância da voraci-
dade. Consideremos agora qual o papel que a vora-
cidade desempenha na formação do caráter e o quan-
to ela influencia as atitudes do adulto. Pode-se obser-
var facilmente o papel da voracidade como um ele-
mento bastante destrutivo da vida social. A pessoa
voraz quer cada vez mais, mesmo à custa de qualquer
outra pessoa. Ela realmente não tem consideração
nem generosidade com os outros. Não me refiro aqui

25
apenas aos bens materiais mas também ao status
e ao prestígio.
O indivíduo muito voraz está sujeito a ser am-
bicioso. O papel da ambição tanto em seus aspectos
úteis como nos perturbadores revela-se onde quer
que observemos o comportamento humano. Não res-
ta dúvida que a ambição dá ímpeto à realização mas,
se ela se torna a principal força propulsora, a coope-
ração com os outros fica em perigo. A pessoa alta-
mente ambiciosa, apesar de todos os seus êxitos, per-
manece sempre insatisfeita, da mesma forma que o
bebé voraz nunca fica satisfeito. Conhecemos bem o
tipo da figura pública que, cada vez mais faminto
de êxito, nunca parece estar contente com o que al-
cançou. Uma característica desta atitude - na qual
a inveja também desempenha importante papel -
é a incapacidade de permitir a outros que se desta-
quem suficientemente. Pode-se-lhes permitir que de-
sempenhem um papel secundário enquanto não
ameaçarem a supremacia da pessoa ambiciosa. Veri-
ficamos igualmente que tais pessoas não conseguem
e não estão dispostas a estimular nem a encorajar
pessoas mais jovens, porque algumas delas poderiam
tornar-se seus sucessores. Um motivo da falta de sa-
tisfação que tiram do êxito aparentemente grande
resulta do fato de que o interesse delas não se de-
dica tanto ao setor no qual trabalham como ao seu
prestígio pessoal. Essa descrição implica a vincula-
ção entre a voracidade e a inveja. O rival não é ape-
nas encarado como aquele que roubou e privou al-
guém de sua posição ou posses, mas também como o
possuidor de valiosas qualidades que incitam a in-
veJa e o desejo de destrui-las.

26
Quando a voracidade e a inveja não são exces-
sivas, mesmo uma pessoa ambiciosa encontra satis-
fação em ajudar os outros a realizarem sua tarefa.
Temos aqui uma das atitudes subjacentes à lideran-
ça verdadeira. Aliás, até certo ponto, isto já é obser-
vável entre as crianças pequenas. Uma criança maior
pode orgulhar-se das realizações de um irmão ou ir-
mã menor e tudo fazer para ajudá-los. Algumas
crianças chegam mesmo a exercer um efeito integra-
dor sobre toda a vida familiar; sendo predominante-
mente amistosas e prestativas melhoram a atmosfera
familiar. Tenho observado que mães que eram mui-
to impacientes e intolerantes diante de dificuldades
melhoraram pela influência de uma criança assim.
O mesmo se aplica à vida escolar, em que algumas
vezes apenas uma ou duas crianças exercem efeito
benéfico sobre a atitude de todas as outras por uma
espécie de liderança moral que se baseia numa rela-
ção amistosa e cooperante com outras crianças sem
qualquer tentativa de fazê-las sentir-se inferiores.
Voltando à liderança: se o líder - e isso pode
também aplicar-se a qualquer membro de um gru-
po - desconfia de que é objeto de ódio, todas as suas
atitudes anti-sociais aumentam com esse sentimento.
Verificamos que a pessoa que é incapaz de suportar
críticas porque ferem de imediato sua ansiedade per-
secutória é não somente presa de sofrimento como
também apresenta dificuldades em relação a outras
pessoas e podem até mesmo pôr em perigo a causa
pela qual trabalham em qualquer condição social;
mostrará incapacidade de corrigir erros e de apren-
der com os outros.
Se encaramos nosso mundo adulto do ponto de
vista de suas raízes na infância, ganhamos uma visão

27
interior (insight) da maneira pela qual nossa men-
te, nossos hábitos e nossos conceitos se estruturaram
a partir das fantasias e emoções da mais tenra in-
fância até as manifestações adultas mais complexas
e elaboradas. Há mais uma conclusão a ser inferida,
ou seja, de que nada que alguma vez existiu no in-
consciente não perde inteiramente sua influência so-
bre a personalidade.
Outro aspecto do desenvolvimento da criança a
ser examinado é a formação de seu caráter. Apresen-
tei alguns exemplos de como os impulsos destruti-
vos, a inveja e a voracidade, e as resultantes ansie-
dades persecutórias, perturbam o equilíbrio emocio-
nal da criança e suas relações sociais. Referi-me tam-
bém aos aspectos benéficos de um desenvolvimento
oposto e tentei mostrar como eles se originam. Expe-
rimentei comunicar a importância da interação en-
tre os fatôres inatos e a influência do meio. Ao atri-
buir importância plena a essa interação, alcançamos
uma compreensão mais profunda de como o caráter
da criança se desenvolve. Sempre tem sido o aspecto
mais importante do trabalho psicanalítico, no curso
de uma análise satisfatória, que o caráter do paciente
sofra mudanças favoráveis.
Uma consequência de um desenvolvimento equi-
librado é a integridade e a força do caráter. Tais qua-
lidades têm um efeito de longo alcance tanto sobre
a autoconfiança do indivíduo como sobre suas rela-
ções com o mundo exterior. A influência de um cará-
ter realmente sincero e genuíno sobre outras pes-
soas facilmente se observa. Mesmo aquelas que não
possuem as mesmas qualidades se impressionam e
não podem deixar de experimentar certo respeito
pela integridade e pela sinceridade. É que tais qua-

28
lidades despertam nos outros uma imagem daquilo
que eles poderiam chegar a ser ou talvez mesmo ve-
nham a ser. Tais personalidades lhes dão certa es-
perança a respeito do mundo em geral e uma con-
fiança maior na bondade.
Concluí este trabalho examinando a importância
do caráter, de vez que, a meu ver, o caráter é o
fundamento de toda realização humana. O efeito de
um bom caráter sobre os outros constitui a base do
desenvolvimento social sadio.

Pós-Escriío

Quando discuti minhas opm10es sobre o desen-


volvimento do caráter com um antropólogo, êle con-
testou meu presuposto de um fundamento geral para
o desenvolvimento do caráter. Citou sua experiência
de que em seu campo de trabalho havia chegado a
uma valorização completamente diferente do cará-
ter. Por exemplo, tinha trabalhado em uma comuni-
dade em que se considerava admirável enganar os
outros. Descreveu também, em resposta a algumas
de minhas perguntas, que nessa comunidade se con-
siderava fraqueza demonstrar clemência com o
adversário. Perguntei-lhe se não havia circunstâncias
em que se devesse mostrar clemência. Replicou-me
que se alguém pudesse se colocar atrás de uma mu-
lher de maneira tal que até certo ponto permaneces-
se recoberto pela vida lhe seria poupada.
Em resposta a outras perguntas, disse-me êle que se
o inimigo conseguisse entrar na tenda de um homem,
não seria morto; e que também havia segurança den-
tro de um santuário.

29
O antropólogo concordou quando sugeri que a
tenda, a saia da mulher e o santuário eram símbolos
da mãe boa e protetora. Aceitou, também, minha in-
terpretação de que a proteção da mãe se estendia a
um irmão odiado - o homem oculto atrás da saia
da mulher - e que a proibição de matar alguém em
sua própria tenda se ligava às leis da hospitalidade.
Minha conclusão a respeito do último ponto é que,
fundamentalmente, a hospitalidade se liga à vida fa-
miliar, à relação das crianças entre si, e principal-
mente com a mãe. É que, como lembrei anterior-
mente, a tenda representa a mãe que protege a fa-
mília.
Cito este exemplo para lembrar possíveis vín-
culos entre culturas que parecem inteiramente dife-
rentes e indicar que tais vínculos se encontram na re-
lação com o objeto bom primitivo, a mãe, quaisquer
que sejam as formas de distorções de caráter que se
aceitem e mesmo se admirem.

BIBLIOGRAFIA

1. ISAACS S. "The Nature and Functions of Phantasy". ln


Klein, M., fleimann, P. lsaacs, S. e Riviere J. Developments in
Psyeho-Analysis, Londres: Hogarth Press, 1952. (Trad. brasil.)
2. KLEINi., M. Envy anã Gr atitude. Lonares: Tav1stock Publica-
tions, 195 1; Nova York: Basic Books. (Trad. brasil.)

30
Capítulo Segundo

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE


"A ORÉSTIA"

A discussão que se segue baseia-se na famosa tra-


dução da Orésíia, de Gilbert Murray. O ângulo prin-
cipal de que tenciono considerar essa trilogia é o da
multiplicidade de papéis simbólicos em que as per-
sonagens aparecem.
Darei primeiro um esboço breve das três peças.
Na primeira, Agamênon, o herói, retorna triunfante,
depois do saque de Tróia. É recebido por Clitemnes-
tra, sua esposa, com falso louvor e admiração, e ela
o persuade a entrar em casa caminhando sobre sun-
tuoso tapete. Há certos indícios de que ela se utilizou
da mesma tapeçaria ulteriormente para prender Aga-
mênon no banho e torná-lo inerme. Ela o mata com
sua acha-de-armas e comparece diante dos Anciãos
num estado de grande triunfo. Justifica seu crime
alegando vingança pela imolação de Ifigênia. É que
Ifigênia tinha sido sacrificada por ordem de Aga-
mênon com a finalidade de conseguir ventos favorá-
veis na viagem para Tróia.
A vingança de Clitemnestra contra Agamênon,
contudo, não tem causa apenas no pesar pela filha.
Durante a ausência do marido, aceita como amante,

31
um m1m1go figadal dele, e se defronta, por conse-
guinte, com o temor da vingança de Agamênon. É
claro que ou Clitemnestra e o amante serão mortos,
ou ela terá que matar o marido. Acima e além de
tais motivos, ela dá a impressão de odiá-lo profun-
damente, o que se evidencia de modo manifesto quan-
do ela fala aos Anciãos e proclama seu triunfo pela
morte dele. A esses sentimentos logo se segue a de-
pressão. Ela admoesta Egisto, que quer imediata-
mente suprimir, pela violência, a oposição entre os
Anciãos, e lhe suplica: "não nos manchemos de san-
gue".
A parte seguinte da trilogia, As Coéforas, refere-
se a Orestes, desterrado pela mãe quando criança de
tenra idade. Êle se encontra com Electra na pira fu-
nerária do pai de ambos. Electra, que arde de hosti-
lidades contra a mãe, viera acompanhada das es-
cravas, por ordens de Clitemnestra, após um sonho
muito assustador, fazer libações sobre o túmulo de
Agamênon. É a porta-voz do coro de libações que
sugere a Electra e Orestes que uma vingança com-
pleta seria a morte tanto de Clitemnestra como de
Egisto. Tais palavras só fazem confirmar em Ores-
tes a ordem que lhe fora dada pelo Oráculo de Del-
fos - ordem que, em última instância, provinha do
próprio Apolo.
Orestes se disfarça de mercador itinerante e,
acompanhado por seu amigo Pílades, chega ao Palá-
cio, onde, admitindo não ser reconhecido, contra a
Clitemnestra que Orestes morrera. Clitemnestra ma-
nifesta seu pesar. De que não está plenamente con-
vencida, no entanto, se revela no seu mandar chamar
Egisto com o aviso de que venha com seus lanceiros.
A porta-voz das escravas omite essa mensagem. Egis-

32
to chega sozinho e desarmado, e Orestes o mata.
Uma escrava informa a Clitemnestra a morte de
Egisto e esta, sente-se em perigo e pede a sua acha-
de-armas. Orestes realmente ameaça matá-la; ao in-
vés, no entanto, de lutar com êle, suplica-lhe que
lhe poupe a vida. Ela também o adverte que as Erí-
nias o puniriam. A despeito de tais advertências, êle
mata a mãe, e as Erínias imediatamente lhe apa-
recem.
Decorrem anos até que a terceira peça (As Eu-
mênicíes) inicia - anos em que Orestes é perseguido
pelas Erínias e distanciado do lar e do trono do pai.
Tenta alcançar Delfos, onde espera ser perdoado.
Apolo o aconselha a apelar para Atena, que simbo-
liza a justiça e a sabedoria. Atena forma um tribu-
nal para que convoca os homens mais sábios de
Atenas e diante dele depõem Apolo, Orestes e as
Erínias. Os votos a favor e contra Orestes se igua-
lam, e A tena, que detém o voto decisivo, concede o
perdão a Orestes. No curso do processo, as Erínias
sustentam obstinadamente que Orestes deve ser cas-
tigado e que não vão abandonar sua presa. Atena,
no entanto, promete-lhes que partilhará com elas seu
poder sobre Atenas e que elas serão para sempre
guardiãs da ordem e da lei e, como tcil, serão honra-
das e amadas. Tais promessas e argumentos produ-
zem uma transformação nas Erínias, que se trans-
formam nas Eumênides, as "bondosas". Concordam
que Orestes seja perdoado, e êle retorna a sua cidade
natal para se tornar o sucessor do pai.
Antes de tentar examinar aqueles aspectos da
Oréstia, que apresentam um interesse especial para
mim, desejo reexpor algumas de minhas verificações
sobre o desenvolvimento primitivo. Na análise de
33
crianças de tenra idade, descobri um superego im-
plável e perseguidor, de par com a relação com os ge-
nitores amados e mesmo idealizados. Retrospecti-
vamente, descobri que durante os três primeiros me-
ses, em que os impulsos destrutivos, a projeção e a
divisão chegam ao seu máximo, figuras terroríficas
e perseguidoras fazem parte da vida emocional da
criança. Em primeiro lugar, elas representam os as-
pectos terroríficos da mãe e ameaçam a criancinha
com todos os males que ela, nos momentos de ódio e
de raiva, dirije contra seu objeto primário. Embora
O amor pela mãe contrabalance essas figuras, elas são,
não obstante, a de grandes ansiedades. 1 Des-
de o princípio, a introjeção e a projeção estão operan-
tes e constituem a base da internalização do objeto
primeiro e fundamental, o seio da mãe e a mãe, tan-
to em seus aspectos terroríficos como nos bons. E é
essa internalização que representa o fundamento do
superego. Tentei mostrar que mesmo a criança que
estabelece uma relação amorosa com a mãe experi-
menta também inconscientemente o terror de ser
devorada, despedaçada e destruída por ela. 2 Seme-
lhantes ansiedades, conquanto modificadas pelo sen-
timento crescente de realidade, perduram numa ex-
tensão maior ou menor, através da primeira infância.
As ansiedades persecutórias dessa natureza fa-
zem parte da posição esquizoparanóide que caracteri-
za os primeiros meses de vida. Inclue certo grau de
retraimento esquizóide; também intensos impulsos
1 Minhas primeiras descrições dessas ansiedades encontram-se
em meu trabalho "Estágios Primitivos do Conflito Edípico"
(1928).
2 Tratei desse ponto mais amr,lamente e apresentei exemplos
de tais ansiedades em minha 'Psicanálise de Crianças". (írad.
em português publicada pela Livraria Mestre Jou (1969).

34
destrutivos (cuja projeção ongma os objetos per-
secutórios) e uma divisão da figura da mãe numa par-
te muito má e numa idealizada boa. Há inúmeros ou-
tros processos de divisão, tais como a fragmentação
e uma forte tendência a relegar as figuras terrorífi-
cas para as camadas profundas do inconsciente. 3
Dentre os mecanismos em sua plenitude durante esse
estágio, está a negação de todas as situações assusta-
doras; isto se prende à idealização. Desse estágio
mais primitivo em diante, tais processos se reforçam
pelas experiências repetidas de frustração, que nun-
ca se podem evitar completamente.
Faz parte da situação de ansiedade da crianci-
nha o não conseguir expelir completamente as fi-
guras terrificantes. Além disso, a projeção do ódio
e dos impulsos destrutivos só tem êxito até certo pon-
to, e a divisão entre a mãe amada e a odiada não se
mantém plenamente. A criancinha, portanto, não
consegue escapar inteiramente aos sentimentos de
culpa, embora nos estágios mais primitivos estes se-
jam apenas fugazes.
Todos esses processos se ligam à tendência da
criancinha para a formação de símbolos e fazem par-
te de sua vida de fantasia. Sob impacto da ansiedade,
da frustração e de sua limitada capacidade para ex-
pressar suas emoções em relação aos objetos amados,
ela é impelida a transferir suas emoções e ansieda-
des para os objetos que a cercam, ocorrendo essa
transferência, primeiramente tanto para as partes
do seu corpo como para partes do corpo da mãe.
Os conflitos que a criança experimenta desde o
nascimento se derivam da luta entre os instintos de
3 Ver meu artig_o "Sobre o Desenvolvimento do Funcionamen-
to Mental" (1958) Int. Jl. Psycho-Anal.

35
vida e os de morte que se expressam no conflito en-
tre os impulsos amorosos e os destrutivos. Ambos
assumem múltiplas formas e têm muitas ramifica-
ções. Assim, por exemplo, o ressentimento reforça os
sentimentos de privação que nunca faltam na vida
de qualquer criancinha. Enquanto que a capacidade
da mãe para alimentar constitue uma fonte de admi-
ração, a inveja dessa capacidade representa um for-
te estímulo para os impulsos destrutivos. É inerente
à inveja que ela vise espoliar e destruir a criativi-
dade da mãe, de que a criancinha, ao mesmo tempo,
depende; e esta dependência reforça o ódio e a inve-
ja. Tão logo se inicia a relação com o pai, surge a
admiração pela sua potência e força, o que de novo
conduz à inveja. As fantasias de inverter a situação
primitiva e de triunfar sobre os genitores são ele-
mentos da vida emocional da criancinha. Os impul-
sos sádicos oriundos de fontes orais, uretrais e anais
encontram expressão nesses sentimentos hostis dirigi-
dos contra os pais, e por sua vez dão origem a uma
perseguição maior e maior medo de retaliação por
parte deles.
Verifiquei que os frequentes pesadelos e fobias
das criancinhas se originam do terror dos pais per-
seguidores que, pela internalização, formam o núcleo
do superego impiedoso. É um fato curioso que as
crianças, a despeito do amor e da dedicação dos pais,
contenham figuras internalizadas ameaçadoras; como
já acentuei, encontro a explicação para esse fenóme-
no na projeção sobre os pais do próprio ódio da crian-
ça, aumentado pelo ressentimento por se encontrar
sob o poder dos genitores. Essa opinião, em certa épo-
ca, parecia contradizer o conceito de superego de
Freud, resultantes principalmente da introjeção dos

36
pais punidores e restritivos. Ulteriormente Freud
aceitou minha ideia de que o ódio e a agressividade
da criança projetados sobre os genitores desempe-
nham um papel importante no desenvolvimento do
superego.
Cheguei, no curso de meu trabalho, a ver mais
claramente que uma consequência dos aspectos per-
secutórios dos pais internalizados é a idealização de-
les. Desde o nascimento, sob a influência do instinto
de vida, a criancinha também introjeta um objeto
bom, e a pressão da ansiedade conduz à tendência a
idealizar esse objeto. Isto vai repercutir sobre o de-
senvolvimento do superego. Lembramo-nos aqui da
opinião que Freud expressa em seu trabalho sobre o
"Humor", 4 que a atitude bondosa dos genitores se
assimila ao superego da criança.
Quando a ansiedade persecutória ainda está em
seu máximo, os sentimentos primitivos de culpa e
de depressão são vividos, em certo grau como per-
seguição. Gradativamente, com o fortalecimento
crescente do ego, com a integração maior e o pro-
gresso na relação com objetos totais, a ansiedade per-
secutória diminue de intensidade e predomina a an-
siedade depressiva. Uma integração maior implica
em que o ódio é em certa medida mitigado pelo amor,
que a capacidade para amar ganha em intensidade,
e que a divisão entre objetos odiados e, por conse-
guinte, terroríficos e os objetos amados diminui. Os
sentimentos de culpa transitórios, ligados à sensa-
ção de incapacidade para impedir que os impulsos
destrutivos venham a danificar os objetos amados.
aumentam e se tornam mais penosos. Descrevi esse

* Standard Edition. Vol. XXI, pág. 116.

37
estágio como posição depressiva, e minha expenen-
cia psicanalítica com crianças e adultos veio a con-
firmar minhas conclusões de que o elaborar a posi-
ção depressiva se dá à custa de sentimentos bastan-
te penosos. Não me cabe examinar aqui as múltiplas
defesas que o ego mais fortalecido desenvolve para
fazer face à depressão e à culpa.
Nesse estágio, o superego funciona como a cons-
ciência; êle condena as tendências assassinas e des-
truidoras e reforça a necessidade que a criança tem
de orientação e de certa restrição provindas dos pais
concretos. O superego representa a base da lei moral
que é comum para a humanidade. Mesmo em adultos
normais, no entanto, sob intensas pressões internas e
externas, os impulsos expelidos do eu e as figuras
perigosas e persecutórias também expelidas ressur-
gem temporariamente e atingem o superego. As an-
siedades então experimentadas se assemelham aos
terrores da criancinha, se bem que se apresentem de
forma diferente.
Quanto mais pronunciada a neurose da criança,
menos capaz se mostrará de efetuar a transição para
a posição depressiva, e sua elaboração estará obstada
por uma vacilação entre a ansiedade persecutória e a
depressiva. Durante esse desenvolvimento primitivo
poderá ocorrer uma regressão à fase esquizoparanói-
de, se bem que um ego mais fortalecido e uma capa-
cidade maior de suportar o sofrimento redundem
numa melhor percepção (insight) da realidade psí-
quica e lhe permitam elaborar a posição depressiva.
Isto não significa, conforme acentuei, que nessa fa-
se ela não experimente ansiedade persecutória. De
fato, a ansiedade persecutória faz parte da posição

38
depressiva, embora nela predominem os sentimentos
depressivos.
As experiências de sofrimento, de depressão e de
culpa ligadas a um maior amor pelo objeto, estimu-
lam uma tendência para a reparação. Essa tendência
diminui a ansiedade persecutória em relação ao obje-
to e torna-o, por conseguinte, mais digno de confian-
ça. Todas essas modificações, que se expressam num
sentimento de esperança, inevitavelmente se ligam
a uma diminuição da severidade do superego.
Se a posição depressiva estiver sendo elaborada
satisfatoriamente - não só durante o seu clímax na
tenra infância mas através da meninice e da vida
adulta - o superego será vivido principalmente na
sua função de comandar e refrear os impulsos des-
trutivos e algo de sua severidade terá sido mitigado.
Quando o superego não é excessivamente rígido, o
indivíduo se sente apoiado e ajudado por essa in-
fluência, de vez que ela lhe fortalece os impulsos
amorosos e lhe estimula a tendência para reparação.
Um equivalente desse processo interno está no in-
centivo dos genitores quando a criança revela ten-
dências mais criadoras e construtivas e sua relação
com o ambiente melhora.
Antes de retornar à Oréstia e às conclusões que
pretendo extrair dela no que diz respeito à vida men-
tal, gostaria de tratar do conceito helénico de Hubris.
Na definição de Gilbert Murray, "o pecado típico
que todas as criaturas, enquanto viverem, cometem
é, em linguagem poética, Hubris, palavra em geral
traduzida por 'insolência' ou 'orgulho'... Hubris
agarra vorazmente, arrebenta grilhões e desafia a
ordem; sua consequência é Dike, a Justiça, a que re-
faz. Esse ritmo - Hubris-Dike, o Orgulho e a Queda,

39
o Pecado e a Punição - constitui o refrão mais co-
mum daqueles poemas filosóficos que caracterizam
a tragédia grega ... "
A meu ver, a razão por que o Hubris parece algo
tão pecaminoso é que se baseia em determinadas
emoções experimentadas como perigosas para os ou-
tros e para o eu. Uma das mais importantes de tais
emoções é a voracidade, primeiramente experimenta-
da em relação à mãe; ela se acompanha da expectati-
va de ser punida pela mãe que foi explorada. A vora-
cidade se liga ao conceito de moira, exposto na In-
trodução de Gilbert Murray. A moira representa o
quinhão atribuído pelos deuses a cada homem. Quan-
do a moira é infringida, segue-se o castigo dos deu-
ses. O medo de tal punição remonta ao fato de que a
voracidade e a inveja são, primeiramente, experimen-
tadas em relação à mãe, vivida agora como tendo si-
do danificada por essas emoções e que pela proje-
ção se transforma na mente da criança numa fi-
gura voraz e ressentida. Ela se torna, por conseguin-
te, temida como fonte de punição, o protótipo de
Deus. Qualquer excesso de moira é também vivido
como intimamente ligado à inveja dos bens de ou-
tros; como sequela, por projeção, levanta-se o medo
persecutório de que outros invejarão e vão destruir
as realizações ou posses.

"... E poucos homens amarão sem ter inveja


Ao amigo que viu prosperar em seus bens.
Pois se penetra esse veneno a sua mente
Duplo e pesado é o sofrimento que ela sente:
- Pensar a chaga do seu próprio coração
E ver o alheio bem como uma maldição."
40
O triunfo sobre os demais, o ódio, o desejo de
destruir a outrem, de os humilhar, o prazer na sua
destruição porque foram invejados, todas essas emo-
ções primitivas, primeiro experimentadas em rela-
ção aos genitores e irmãos fazem parte do hubris.
Toda criança experimenta às vezes certa inveja e
deseja possuir os atributos e as capacidades, primei-
ro, da mãe, e, a seguir, do pai. A inveja está prima-
cialmente voltada contra o seio da mãe e o alimento
que ela pode produzir, em realidade contra a sua
criatividade. Um dos efeitos da inveja intensa é o
desejo de inverter a situação, de tornar os genitores
inermes e infantis e desfrutar um prazer sádico des-
sa inversão. Quando a criancinha teme ser domina-
da por esses impulsos hostis e destrói em sua mente
a bondade e o amor da mãe, ela se sente não só per-
seguida por esta, mas também culpada e despojada
de objetos bons. Uma das razões por que tais fanta-
sias exercem semelhante impacto sobre a vida emo-
cional é que são vividas como onipotentes. Em ou-
tras palavras, na mente da criancinha, aquelas tive-
ram efeito concreto ou podem ter, e ela se sente
responsável por todos os transtornos ou males que
recaiam sobre seus pais. Isto conduz a um temor
constante de perda que aumenta a ansiedade perse-
cutória e constitui a base do medo de punição pelo
hubris.
Ulteriormente, a rivalidade e a ambição, compo-
nentes do hubris, podem se tornar em profundos mo-
tivos de culpa, se a inveja e a destrutividade nelas
predominam. Semelhante culpa pode ser sobrepujada
pela negação, mas por trás desta as reprimendas
oriundas do superego continuam presentes. Acredito
que os processos descritos sejam a razão por que o
41
hubris constitui um sentimento tão acentuadamente
proibido e punido na tradição helénica.
A ansiedade infantil de que triunfar sobre os
outros, e lhes destruir as capacidades os torna inve-
josos e perigosos apresenta importantes consequên-
cias na vida ulterior. Determinadas pessoas tentam
livrar-se dessa ansiedade inibindo seus dotes: Freud
descreveu um tipo de indivíduo que não pode supor-
tar o êxito de vez que este lhe desperta culpa, e vin-
culou essa culpa, principalmente, com o complexo
de Édipo 5 . A meu ver, tais pessoas acreditavam ori-
ginariamente eclipsar e destruir a fertilidade da mãe.
Certos sentimentos desses se transferem para os pais
e irmãos, e ulteriormente para outras pessoas cuja
inveja e ódio então se temem; a culpa consequente
pode levar a fortes inibições do talento e das poten-
cialidades. Há uma afirmação apropriada, feita por
Clitemnestra, que sintetiza esse medo: "Quem teme
a inveja, teme ser grande".
Tentarei agora consubstanciar minhas conclu-
sões com alguns exemplos da análise de crianças de
tenra idade. Quando uma criança no brinquedo ex-
pressa sua rivalidade com o pai, fazendo um tren-
zinho mover-se mais depressa que um grande ou
mostra que o trenzinho ataca o grande, a consequên-
cia é amiúde um sentimento de perseguição e de
culpa. Em A Marrative of a Child Analysis, descrevi
como toda sessão durante algum tempo terminava
com o que o menino chamava de um "desastre" e
que consistia em que todos os brinquedos eram der-
rubados. Simbolicamente, isso significa para a crian-
ça que ela havia sido forte bastante para destruir
5 "Some Character Types Met With in Psycho-Analytic Work"
(1916).

42
seu mundo. Durante inúmeras sessões restava, em
geral, um único sobrevivente - êle próprio - e a
consequência do "desastre" era um sentimento de
solidão, a ansiedade e um anseio pelo retorno do
objeto bom.
Outro exemplo provém da análise de um adulto.
Um paciente que durante toda a vida havia restrin-
gido sua ambição e seu desejo de ser superior aos
outros, e não fora, por conseguinte, capaz de desen-
volver de maneira adequada seus dons, sonhou que
estava de pé ao lado do mastro de uma bandeira,
cercado de crianças. Êle era o único adulto. As crian-
ças tentavam, cada uma por sua vez, galgar o alto
do mastro, mas não o conseguiam. No sonho êle pen-
sou que se tentasse subir e também fracassasse, isso
iria divertir as crianças. Não obstante, contra a sua
vontade, realizou o feito, e se encontrou no topo.
Este sonho confirmou e fortaleceu sua percep-
ção (insight), originária de material anterior, de que
sua ambição e rivalidade eram bem maiores e mais
destrutivas do que anteriormente se havia permi-
tido reconhecer. No sonho êle tinha depreciativa-
mente transformado os pais, a analista e todos os
rivais em potencial em crianças incompetentes e
desvalidas. Apenas êle era o adulto. Ao mesmo tem-
po, tentara impedir-se de ter êxito, porque este sig-
nificaria ferir e humilhar as pessoas que êle também
amava e respeitava e que ficariam transformadas em
perseguidores invejosos e temíveis - as crianças que
iriam se divertir com o seu fracasso. Como o sonho
demonstrou, no entanto, falhou a tentativa de inibir
os seus dons. Êle alcançou o topo e ficou apreensivo
quanto às consequências.

43
Na Oréstia, Agamênon revela o hubris em toda
a plenitude. Não experimenta a menor simpatia pelo
povo de Tróia a quem êle destrói, e parece achar que
era seu direito fazê-lo. Apenas quando fala a Clitem-
nestra sobre Cassandra, refere-se êle ao preceito de
que o conquistador devia mostrar clemência com os
vencidos. De vez, no entanto, que Cassandra era
obviamente sua amante, não é só compaixão o que
expressa, mas também o desejo de preservá-la para
seu deleite. Ao lado disso, fica evidente o quanto se
orgulha da terrível destruição que espalha. A pro-
longada guerra, porém, que sustenta também signi-
fica sofrimento para o povo de Argos, de vez que
muitas mulheres ficam viúvas e inúmeras mães pran-
teiam seus filhos; sua própria família sofre por ficar
abandonada durante dez anos. Assim, em última ins-
tância, algo da destruição de que tanto se orgulha
quando retorna, se abate sobre o povo em relação
a quem êle supunha ter algum amor. Sua destrutivi-
dade, alcançando aqueles que lhe eram mais próxi-
mos, poderia ser interpretada como dirigida contra os
seus objetos amados primitivos. A razão ostensiva
para perpetrar todos aqueles crimes era vingar a
ofensa contra seu irmão e ajudá-lo a reaver Helena.
Esquilo torna claro, no entanto, que Agamênon foi
igualmente impelido pela ambição, e ao se ver acla-
mado "Rei dos Reis" satisfazia seu hubris.
Seus êxitos, entretanto, não satisfizeram apenas
seu hubris; aumentaram-no e acarretaram um en-
durecimento e deterioração do seu caráter. Entreve-
mos que a Sentinela lhe foi dedicada, que os mem-
bros de sua casa e os Anciãos o amavam, e que seus
súditos ansiavam por seu retorno. Isso indicaria que
no passado êle teria sido mais humano do que de-

44
pois de suas vitórias. Agamênon, ao referir seus
triunfos e a destruição de Tróia, não parece digno de
amor, nem capaz de amar. Cito Esquilo de novo:

"Eis aí o pecado.
Visivelmente o Orgulho o seu retorno gera
Aos orgulhosos: pois crescendo suas casas
Com a riqueza feliz, respiram ódio e sangue. 11

Sua destrutividade irreprimível e a glorificação


do poder e da crueldade mostram, a meu ver, uma
regressão. Na tenra idade, a criancinha - principal-
mente o menino - não só admira a bondade como
o poder e a crueldade e atribui essas características
ao pai potente com quem se identifica mas a quem,
ao mesmo tempo, teme. No adulto, a regressão pode
reviver essa atitude infantil e enfraquecer a com-
paixão.
Considerando o hubris excessivo que Agamênon
demonstra, Clitemnestra é, em certo sentido, o ins-
trumento de justiça, o dike. Numa passagem bastan-
te reveladora no Agamênon, ela descreve para os An-
ciãos, antes que o marido chegue, sua visão dos so-
frimentos do povo de Tróia, e o faz com simpatia e
sem palavra alguma de admiração pelos feitos de
Agamênon. Ao revés, no momento em que ela o
assassina, o hubris domina seus sentimentos e não
revela sinais de remorso. Quando de novo se dirige
aos Anciãos, mostra-se orgulhosa do assassinato co-
metido e exultante por isso. Dá apoio a Egisto na
usurpação dos poderes reais de Agamênon.
O hubris de Agamênon segue-se assim do dike
e este por sua vez, do hubris de Clitemnestra, que
de novo é punido pelo dike, representado por Crestes.
45
Gostaria de expor algumas ideias a respeito da
mudança de atitude de Agamênon em relação a seus
súditos e a sua família em consequência do êxito de
suas campanhas. Como já mencionei anteriormente,
é impressionante a sua falta de simpatia pelos sofri-
mentos que com aquela guerra prolongada infligia
ao povo de Argos. Êle se atemoriza, no entanto, dian-
te dos deuses, e do castigo iminente, e por isso só a
contragosto concorda em entrar em casa caminhan-
do pelos belos tapetes que as servas de Clitemnestra
haviam estendido para êle. Quando alega que se pre-
cisa cuidar de não atrair a cólera dos deuses, êle ape-
nas expressa sua ansiedade perseutória e não a
culpa. Talvez a regressão que antes mencionei foi
possível porque a bondade e a compreensão nunca se
estabeleceram suficientemente como elementos do
seu caráter.
Ao contrário, Orestes fica presa de sentimentos
de culpa tão logo perpetra o assassinato da mãe. Essa
a razão que me leva a crer que no fim, Atena con-
segue ajudá-lo. Embora êle não sinta culpa alguma
pelo assassinato de Egisto, vive sério conflito por
haver matado a mãe. Seus motivos para assim proce-
der foram o comando recebido e também seu amor
pelo pai morto, com quem se identifica. Quase nada
há que demonstre a necessidade de triunfar sobre a
mãe. Isso indicaria que o hubris e concomitantes não
seriam excessivos nele. Sabemos que, em parte a in-
fluência de Electra e a ordem de Apolo o levaram a
perpetrar o assassinato da mãe. Imediatamente de-
pois de matá-la, surgem-lhe o remorso e o horror de
si próprio, simbolizados pelas Fúrias que logo o ata-
cam. A porta-voz das escravas, que tanto o encora-
jou a matar a mãe, e que não via as Fúrias, tenta

46
confortá-lo, afirmando que êle fizera justiça com o
seu feito e que havia restaurado a ordem. O fato de
ninguém, exceto Orestes, poder ver as Fúrias, reve-
la que semelhante situação persecutória era interna.
Como sabemos, ao assassinar a mãe, Orestes obe-
dece ao comando de Apolo recebido em Delfos. A
isto também se pode considerar como parte de sua
situação interna. Apolo, sob certo aspecto, representa
aqui a crueldade e os impulsos de vingança de Ores-
tes, e assim percebemos os sentimentos de destrutivi-
dade de Orestes. Os elementos principais no entanto,
que o hubris encerra, tais como a inveja e a neces-
sidade de triunfar, não parecem dominantes nele.
É significativo que Orestes intensamente se com-
padeça da abandonada, infeliz e fúnebre Electra. A
destrutividade dele fora estimulada pelo ressenti-
mento contra a mãe que o abandonou. Esta o havia
desterrado para junto de estranhos; em outras pala-
vras, dera-lhe muito pouco amor. O motivo primário
para o ódio de Electra foi que, na aparência, ela não
se sentiu suficientemente amada pela mãe e que seu
anseio de receber dela amor tinha sido frustrado. O
ódio de Electra contra a mãe - embora intensificado
pelo assassinato de Agamênon -• se compõe também
da rivalidade da filha com a mãe, que culmina em
não poder ter seus desejos sexuais gratificados pelo
pai. Tais perturbações primitivas da relação da meni-
na com a mãe constituem um fator importante no
desenvolvimento de seu complexo de Édipo 6 •
Outro aspecto do complexo de Édipo se revela
na hostilidade entre Cassandra e Clitemnestra. Tal
rivalidade direta no tocante a Agamênon ilustra uma
s Cf The Psycho-Analysis of Children, Capítulo XI.

47
característica da relação filha e mãe - a rivalidade
de duas mulheres pela gratificação sexual com o mes-
mo homem. Como Cassandra tinha sido amante de
Agamênon, ela podia também se sentir como a filha
que na realidade, havia tirado o pai da mãe e espera,
por conseguinte, o castigo desta. Faz parte da situação
edipiana que a mãe reaja - ou pareça que reaja -
com ódio aos desejos edípicos da filha.
Se consideramos a atitude de Apolo, percebemos
indícios de que sua obediência cega a Zeus se liga a
seu ódio às mulheres e ao seu complexo de Édipo
invertido. As passagens que se seguem são caracterís-
ticas de seu menosprezo pela fertilidade das mu-
lheres:

"Não é rebento de um escuro ventre,


Mas vida a florescer que deusa alguma
Gerou jamais ... " (referindo-se a Atena)

"Essa, que os homens dizem mãe por dar à luz,


Essa não gera a vida; essa é a nutriz, não mais,
Do gérmen a florescer. "O que espalha a semente
É o semeador, tão só, e apenas gera ... "

Seu ódio às mulheres também está na ordem de


que Orestes deve matar a mãe, e na pertinácia com
que persegue Cassandra, qualquer que tenha sido o
pecado dela relativo a êle. O fato de que êle era pro-
míscuo não contradiz seu complexo de Édipo inver-
tido. Em contraposição, louva Atena, que mal possui
atributos propriamente femininos e se mostra bas-
tante identificada com o pai. Ao mesmo tempo, sua
admiração pela irmã mais velha pode também indi-
car uma atitude positiva em relação à figura mater-

48
na, ou seja, que certos sinais do complexo de Édipo
positivos não estão inteiramente ausentes.
A boa e prestimosa Atena não nasceu de mãe,
tendo sido gerada por Zeus. Ela não revela hostili-
dade contra as mulheres, mas gostaria de lembrar
que semelhante ausência de rivalidade e de ódio re-
vela certa conexão com o ter ela se apropriado do
pai; este lhe retribui a dedicação, de vez que, ela
detém uma situação especial dentre todos os deuses
e é conhecida como a favorita de Zeus. Sua total sub-
missão e dedicação a Zeus se podem considerar como
expressão do seu complexo de Édipo. Sua aparente
isenção de conflito se poderia atribuir a ter ela orien-
tado o seu amor inteiramente apenas para um objeto.
O complexo de Édipo de Orestes também se po-
de deduzir de vários trechos da Trilogia. Êle acusa
a mãe de tê-lo abandonado e exprime seu ressenti-
mento contra ela. Apesar disso, há indícios de que
sua relação com a mãe não foi inteiramente negati-
va. As libações que Clitemnestra manda fazer a Aga-
mênon são obviamente valorizadas por Orestes de
vez que acredita que estariam revivendo o pai. Quan-
do ela lhe lembra que o havia nutrido e amado, ainda
bebé, êle vacila em sua decisão de matá-la e se vol-
ta para o amigo Pílades em busca de conselho. Há
também sinais de seu ciúme que indicam uma re-
lação edipiana positiva. A tristeza de Clitemnestra
pela morte de Egisto e seu amor por êle despertam
a fúria de Orestes. É experiência frequente que o
ódio pelo pai na situação de Édipo pode se refletir
para outra pessoa; por exemplo, o ódio de Hamlet
pelo tio 7 • Orestes idealiza o pai, e amiúde é mais fá-
7 Cf. Ernest fones (1949), Hamlet anã Oeãipus, Victor
Gollancz, Tiondon.

49
cil refrear a rivalidade e o ódio em relação ao pai
morto do que em relação ao que vive. Sua idealiza-
ção da grandeza de Agamênon - idealização que
Electra também experimenta - leva-o a negar que
Agamênon sacrificara Ifigênia e revelou extrema in-
sensibilidade pelos sofrimentos dos troianos. Admi-
rando Agamênon, Orestes também se identifica com
o pai idealizado, e essa é a maneira pela qual o filho
supera sua rivalidade pela grandeza do pai e sua
inveja dele. Tais atitudes, fortalecidas tanto pelo
abandono a que votou sua mãe como por haver ela
assassinado a Agamênon, formam parte do complexo
de Édipo invertido de Orestes.
Mencionei acima que Orestes parecia relativa-
mente isento de hubris e, a despeito de sua identifica-
ção com o pai, mais propenso a um sentimento de
culpa. Seu sofrimento consequente ao assassinato de
Clitemnestra, representa, a meu ver, a ansiedade per-
secutória e os sentimentos de culpa que fazem parte
da posição depressiva. A interpretação parece indi-
car que Orestes apresentava uma doença maníaco-
depressiva - Gilbert Murray chama-o de louco -
em razão de seus sentimentos de culpa excessivos (re-
presentados pelas Fúrias). Por outro lado, podemos
supor que Esquilo mostra de forma exacerbada um
aspecto de desenvolvimento normal. É que certos
traços que constituem a base da doença maníaco-
depressiva não se vêem intensamente operantes em
Orestes. A meu ver, êle revela o estado mental que
acredito seja característico da transição entre a po-
sição esquizoparanóide e a posição depressiva, está-
gio em que a culpa fundamentalmente se experimen-
ta como perseguição. Quando se alcança e se elabora
a posição depressiva - que na Trilogia está simboli-

50
zado pela mudança de atitude de Orestes no Areó-
pago - a culpa se torna predominante e diminui a
perseguição.
A peça me faz crer que Orestes pode superar
suas ansiedades persecutórias e elaborar a pos1çao
depressiva de vez que nunca abandona o anseio de
se purificar do seu crime e de retornar a seu povo,
a quem êle, presumivelmente deseja governar de ma-
neira benévola. Tais intenções indicam um impulso
para a reparação característica da superação da po-
sição depressiva. Sua relação com Electra que estimu-
la sua compaixão e amor, o fato de que êle nunca
perde a esperança, a despeito do sofrimento e de to-
da a sua atitude em relação aos deuses, em especial
sua gratidão com Atena - tudo isso mostra que sua
internalização de um objeto bom era relativamente
estável e havia uma base para o desenvolvimento
normal. Só podemos admitir que no estágio mais pri-
mitivo, esses sentimentos, de alguma maneira, fize-
ram parte de sua relação com a mãe, de vez que,
quando Clitemnestra lhe lembra,

"Ai, filho meu, não temes


Este seio golpear? Pois aqui não dormiste
E sugou tua boca o leite que te dei?"

decai a espada de Orestes e êle hesita. O calor que


a nutriz lhe demonstra sugere o amor dado e recebi-
do na meninice. A nutriz pode ter sido uma substitu-
ta da mãe; mas até certa época essa relação amorosa
deve igualmente ter-se referido à mãe. O sofrimento
mental e físico de Orestes, quando impelido de um
lugar para outro, constitui um quadro vívido dos
padecimentos experimentados quando a culpa e a

51
persegmçao alcançam o seu max1mo. As Fúrias que
o perseguem são a personificação da consciência
acusadora e não as aplaca a circunstância de lhe ter
sido ordenado que perpetrasse o crime. Indiquei aci-
ma que quando Apolo deu a ordem êle representava
a crueldade de Orestes, e vista desse ângulo compre-
endemos por que as Fúrias não se abrandaram pelo
fato de Apolo lhe ter imposto que cometesse o homi-
cídio; é que constitui uma característica do superego
implacável não perdoar a destrutividade.
A natureza, rígida do superego, e as ansiedades
persecutórias que origina, encontram expressão, creio
eu, no mito helénico de que o poder das Fúrias con-
tinua mesmo após a morte. Isto se vê como uma for-
ma de punir o pecador e constitui um elemento co-
mum à maioria das religiões. Nas Eumênides, diz
Atena:

11 Mãos grandes e potentes, ó Erínias,


Tendes nestas paragens
Onde residem os mortos e imortais."

As Fúrias também proclamam que

"Até que eu morra, meu, Êle vagueia,


Mas liberdade nunca mais terá
Nem mesmo quando morto ... 11

Outro ponto peculiar às crenças helénicas é a


necessidade de vingar os mortos se a morte foi vio-
lenta. Gostaria de lembrar que semelhante exigência
de vingança se origina das ansiedades persecutórias
primitivas que se exacerbam pelos desejos de morte
da criança contra os genitores e lhe debilitam a se-

52
gurança e a alegria. O inimigo implacável é assim,
a corporificação de todos os males que a criancinha
receia como retaliação por seus impulsos destrutivos.
Ocupei-me alhures 8 do medo excessivo da mor-
te naqueles para quem a morte constitui uma per-
seguição de inimigos internos e externos do mesmo
modo que uma ameaça de destruição do objeto bom
internalizado. Se esse medo fôr muito intenso, êle vai
se estender a terrores que ameaçam no após-vida. No
Hades, a vingança contra a ofensa sofrida antes de
morrer é essencial para a paz depois da morte. Ores-
tes e Electra estão ambos convictos que o pai assas-
sinado os apoia na tarefa de vindita; e Orestes, ao
descrever seu conflito diante do Areópago acentua
que Apolo lhe vaticinou o castigo, caso não vingas-
se o pai. O fantasma de Clitemnestra, forçando as
Erínias a renovarem a perseguição a Orestes, quei-
xa-se do menosprezo a que se vê exposta no Hades
porque seu assassino não foi castigado. Ela obvia-
mente se move pelo ódio pertinaz contra Orestes, e
poder-se-ia concluir que o ódio além-túmulo funda-
menta a necessidade de vingança após a morte. Tal-
vez seja também que o sentimento que se atribui aos
mortos, de serem menosprezados enquanto o assas-
sino deles continuar impune, se origina da descon-
fiança de que os descendentes não estariam se im-
portando bastante com eles.
Outra razão pela qual os mortos exigem vindita
parece indicada na Introdução em que Gilbert Mur-
ray se refere à crença de que a Mãe-Terra está man-
chada com o sangue nela derramado e que ela e o
povo ctoniano (os mortos) dentro dela clamam por
8 "On ldentification" (em New Directions in Psyeho-Analysls),
e também o Capítulo Terceiro do presente volume, pág. 74.

53
vingança. Eu interpretaria o povo ctoniano como os
bebés que a mãe não pôde ter, e que a criança teme,
com seu ciúme e fantasias hostis, haver destruído
dentro da mãe. Um abundante material psicanalítico
mostra os profundos sentimentos de culpa por causa
de um aborto da mãe ou do fato de ela não ter outro
filho após o nascimento 9 da criança, e os temores de
que a mãe danificada se vingue.
Gilbert Murray, no entanto, fala também da
Mãe-Terra como doadora de vida e de fecundidade
ao inocente. Nesse aspecto, ela representa a mãe boa,
nutrícia e amorosa. Há muitos anos, sustento que a
divisão da mãe em boa e má, constitui um dos pro-
cessos mais primitivos na relação com ela.
O conceito helénico de que os mortos não desa-
parecem mas continuam uma espécie de existência
obscura do Hades e exercem uma influência sobre
aqueles que permanecem vivos recorda a crença nos
fantasmas impelidos a perseguirem os vivos de vez
que não logram encontrar paz enquanto não forem
vingados. Devemos também ligar semelhante cren-
dice de que os mortos influenciam e controlam os vi-
vos ao conceito de que eles subsistem como objetos
internalizados, experimentados, ao mesmo tempo, co-
mo mortos e ativos dentro do eu, de maneiras boas
ou más. A relação com o objeto interno bom - em
primeiro lugar a mãe boa - subentende que êle é
experimentado como propício e conselheiro. É prin-
cipalmente na perda e no processo do luto que o in-
divíduo luta para preservar a relação boa que an-
teriormente existia e participar da força e do con-
forto dessa companhia interna. Quando o luto fra-

9 Cf Narrative of a Chila Anatysis, Hogarth Press, London,


1960.

54
cassa - e há muitas razões para isso - é que essa
internalização não conseguiu êxito e as identifica-
ções propícias foram prejudicadas. O apelo de Elec-
tra e de Orestes ao pai morto sob o túmulo para
apoiá-los e fortalecê-los, corresponde ao desejo de
se reunir ao objeto bom perdido externamente pela
morte e que precisa ser restabelecido internamente.
Semelhante objeto bom, cujo auxílio imploram, faz
parte do superego em seus aspectos orientadores e
benfazejos. Essa relação boa com o objeto interna-
lizado constitui a base para uma identificação que
se revela da maior importância para a estabilidade
do indivíduo.
A crença de que a libação "abre os lábios res-
sequidos" do morto se origina, acredito, do sentimen-
to básico de que o leite da mãe proporciona ao bebé
um meio de manter vivo não só ao bebé como tam-
bém a seu objeto interno. De vez que a mãe infer-
nalizada (primeiramente o seio) se converte numa
parte do ego da criança, e esta sente que sua vida
está ligada à dela, sente também que, o leite, o amor
e o cuidado dispensados pela mãe externa à criança
são, em certo sentido, benéficos para a mãe interna.
Isto igualmente se aplica a outros objetos internali-
zados. À libação, ordenada na peça por Clitemnestra,
Electra e Orestes tomam-na como um sinal de que
alimentando-lhes o pai internalizado, ela o revive, a
despeito de também haver sido uma mãe má.
Descobrimos na psicanálise o sentimento de que
o objeto interno participa de qualquer prazer que o
indivíduo experimente. Isso também constituo um
meio de reviver o objeto amado morto. A fantasia
de que o objeto infernalizado morto mantém, quan-
do amado, vida própria - benfazejo, consolador, con-

55
selheiro - está em consonância com a convicção
de Orestes e Electra de que serão auxiliados pelo
pai morto redivivo.
Lembrei que os mortos não vingados represen-
tam os objetos mortos internalizados e se transfor-
mam em figuras internalizadas ameaçadoras. Quei-
xam-se do dano que o indivíduo com o seu ódio lhes
causou. Nas pessoas doentes, tais figuras terroríficas
fazem parte do superego e intimamente se ligam à
crença no destino que impele para o mal e pune assim
o malfeitor.
li
Der kenní euch nicht, ihr himmlischen
[Machte.
1hr ftihrt ins Leben uns hinein,
1hr lasst den Ârmen schuldig werden,
Dann uberlasst ihr ihn der Pein;
Denn alie Sclrald racht sieh auf Erden. 11
(Goethe, Harfenspieler)

Este vos desconhece, ó Potências celestes


( 11 •••

Para dentro da vida elas nos conduziram,


E os miseráveis mais culpados se sentiram,
Viram-se gente à própria dor abandonada;
E em torno a terra pelo ódio envenenada.")
(Goethe, O Tocador de Harpa) 1º
10 Esse fragmento do poema de Goethe, bastante truncado na
cita2ão do Iivro de Mefanie Klein, e não acompanhado de tra-
duçao para o inglês, foi aqui reposto para sua forma original
alemã, de acordo com a pág. 163 da antologia de Envin Laaths
(Das Geãicht, Droemer, Múnchen, 1951) e traduzido para o
llOrtuguês. Nilo Aparecida Pinto, com sua delicada sens1bilida-
âe e inspiração, deu, a meu pedido, forma _poética à tradução
que lhe apresentei •- não só âos versos de Goethe como de to-
dos os de Esquilo que aparecem no ensaio sobre a "Oréstia".
(Nota da tradução).

56
Tais figuras persecutórias também se personifi-
cam nas Erínias. Na vida mental primitiva, mesmo
normalmente, a divisão nunca se processa com pleno
êxito e, por conseguinte, os objetos internos assus-
tadores continuam atuantes até certo ponto. Ou seja,
a criança experimenta ansiedades psicóticas que va-
riam de grau conforme o indivíduo. Segundo a lei
taliônica que se baseia na projeção, a criança se tor-
tura com o medo de que os pais lhe façam o que
ela, na fantasia, fez a eles; e isso deve representar
um estímulo para o reforço dos impulsos cruéis. Co-
mo se sente perseguida interna e externamente, é im-
pelida a projetar o castigo para fora e, assim fazen-
do, experimenta na realidade externa, suas ansie-
dades e temores internos de punição concreta. Quan-
to mais culpada e perseguida uma criança se sente -
o que vale dizer, quanto mais doente estiver - mais
agressiva amiúde ela se mostra. Devemos admitir
que processos similares estejam em ação no delin-
quente ou criminoso.
De vez que os impulsos destrutivos primacial-
mente se dirigem contra os genitores, o pecado que
se experimenta como de maior gravidade é o assas-
sinato dos pais. Isso claramente se expressa nas Eu-
mêeides quando, após a intervenção de Atena, as
Erínias descrevem a situação de caos que iria surgir
se elas deixassem de agir como um obstáculo contra
os pecados de matricídio e parricídio e de puni-los
quando ocorressem.

"Daí por diante há para os pais a insídia


Que espreita, e a grande angústia; e às mãos do
[infante
A lâmina que o peito há de rasgar."
57
Afirmei anteriormente que os impulsos cruéis e
destrutivos da criancinha originam o superego primi-
tivo e terrorífico. Há vários indícios acerca do modo
pelo qual as Erínias realizam seus ataques:
"Nutrindo-se de veias
Teu próprio sangue generoso e rubro
Vossas crispadas bocas sugarão
Até que de amargura se alimente
E de sangue o virtuoso coração;
Até que como os mortos arruinados
Eu te arremesse entre os assassinados ... "1011
As torturas com que as Erínias ameaçam Orestes
são da natureza sádico-oral e anal mais primitiva.
Ficamos sabendo que seu hálito é "como um fogo
lançado em todas as direções" e que de seus corpos
emanam vapores venenosos. Alguns dos meios mais
primitivos de destruição de que o bebé se vale, em
sua mente, são os ataques pelos fl.atos e pelas fezes
com que sente estar envenenando a mãe, assim como
queimando-a com urina - o fogo. Em consequên-
cia, o superego primitivo ameaça-o com igual des-
truição. Quando as Erínias temem que seu poder lhes
seja arrebatado por Atena, expressam sua cólera e
apreensão com as seguintes palavras: "Não se volta-
rá a injúria a mim feita sobre este povo, para esma-
gá-lo? Não cairá sobre êle o veneno, este mesmo cuja
dor me queima o coração?" Isto nos lembra a manei-
ra pela qual o ressentimento da criança oriundo da
10" Essa descrição de sugar o sangue de vítima lembra a opi-
nião de Abraham de que, a crueldade também faz parte da fa-
se oral suctória; êle se referiu ao "sugar como um vampiro".
"A Short Study of Development of the Libido, Viewed in The
Light of Mental Disorders" 0924). Tradução brasileira - Teoria
Psicanalítica da Libido, 1970 - IMAGO EDITORA LIDA.

58
frustração, e a dor que esta lhe causa, reforça seus
impulsos destrutivos e a impele a intensificar suas
fantasias agressivas.
As cruéis Erínias, no entanto, também se ligam
a esse aspecto do superego formado de figuras danifi-
cadas e queixosas. Contam-nos que o sangue lhes caí
dos olhos e dos lábios, o que mostra que se sentem
torturadas. A criancinha sente como vingativas e
ameaçadoras essas figuras danificadas internalizadas
e tenta expulsá-las. Apesar disso, elas se imiscuem
em suas ansiedades primitivas e pesadelos e tomam
parte em todas as suas fobias. Porque Orestes inju-
riou e matou a mãe, ela se transformou num daqueles
objetos danificados cuja vindita a criança teme. Êle
fala das Erínias como "cães danados" de sua mãe.
Poderia parecer que Clitemnestra não se sente
perseguida pelo superego, de vez que as Erínias não
a perseguem. Todavia, depois de seu discurso triun-
fante e exaltado, em seguida ao assassinato de Aga-
mênon, ela manifesta sinais de depressão e de culpa.
Daí suas palavras: "Não nos manchemos de sangue."
Experimenta, além disso, ansiedade persecutória que
claramente se vê no seu sonho com o monstro que
ela alimenta ao seio; este a morde com tamanha vio-
lência que sangue se mistura ao leite. Em consequên-
cia da ansiedade que se expressa no sonho, ela orde-
na libações no túmulo de Agamênon. Por conseguin-
te, embora não seja perseguida pelas Erínias, não
estão ausentes a ansiedade persecutória e a culpa.
Outro aspecto das Erínias é que se apegam à
sua mãe - a Noite - sua única protetora e para
ela reiteradamente apelam contra Apolo, o deus-sol,
o inimigo da noite, que deseja privá-las de seu poder
e por quem se sentem perseguidas. Deste ângulo

59
chegamos a uma compreensão (insight) do papel que
o complexo de Édipo invertido desempenha mesmo
nas Erínias. Gostaria de lembrar que os impulsos des-
trutivos em relação à mãe, em certa medida, se des-
locam para o pai - para os homens em geral - e
que a idealização da mãe e do complexo de Édipo
invertido apenas se podem manter por esse deslo-
camento. Elas estão particularmente voltadas para
qualquer dano feito à mãe, e só parecem vingar o
matricídio. Eis a razão por que não perseguem Cli-
temnestra, que assassinou o marido. Argumentam
que ela não matou um parente consanguíneo e, por-
tanto, semelhante crime não revelava importância
suficiente para que elas a perseguissem. Acho que
existe uma grande dose de negação nesse argumento.
O que se nega é que qualquer assassinato se origina,
em última análise, dos sentimentos destrutivos con-
tra os pais e que nenhum homicídio se justifica.
É significativo que a influência de uma mulher
- Atena - tenha ocasionado nas Erínias a mudan-
ça de um ódio implacável para sentimentos mais
brandos. Elas, contudo, não tiveram pai; ou antes,
Zeus, que poderia ter-se-lhes afigurado como um pai,
voltou-se contra elas. Afirmam que por causa do ter-
ror que difundem "e pelo ódio ao mundo que carre-
gamos, Deus nos arremessou fora de sua Morada. 11
Apoio, cheio de desprezo, lhes diz que nem homem
nem deus as beijou jamais.
Acredito que o complexo de Édipo invertido delas
aumentou pela ausência de pai, ou por havê-las odia-
do e negligenciado. Atena promete-lhes que serão
amadas e honradas pelos atenienses, ou seja, tanto
pelos homens quanto pelas mulheres. O Areópago,
integrado por homens, acompanha-as até o local que

60
habitarão em Atenas. Minha suposição é que Ate-
na, representando aqui a mãe e agora partilhando
com as filhas o amor dos homens, isto é, de figuras
paternas, lhes ocasiona uma mudança em seus senti-
mentos e impulsos e no todo do caráter.
Encarando a Trilogia como um todo, podemos
ver o superego representado por uma série de figuras.
Por exemplo, Agamênon, quando se afigura redivivo
e apoiando os filhos, constitue um aspecto do su-
perego que se estruturou no amor e na admiração
pelo pai. Descrevem-se as Erínias como pertencentes
ao período dos antigos deuses, os Titãs, que reina-
vam de maneira bárbara e violenta. A meu ver, elas
se ligam ao superego primitivo e inexorável e re-
presentam as figuras terroríficas resultantes princi-
palmente da projeção que a criança faz de suas fan-
tasias destrutivas sobre seus objetos. Elas, contudo
se mitigam - embora de uma maneira expelida -
pela relação com o objeto bom ou com o objeto idea-
lizado. Já indiquei que a relação da mãe com o filho
- e em grande parte a relação do pai com êle - é
importante para o desenvolvimento do superego de
vez que influe sobre a internalização dos pais. Em
Orestes a internalização do pai, que se funda na
admiração e no amor, revela-se da máxima signifi-
cação para suas ações futuras; o pai morto é parte
muito importante do superego de Orestes.
Quando, pela primeira vez, defini o conceito
de posição depressiva, lembrei que os objetos danifi-
cados internalizados se queixam e por isso fazem
parte dos sentimentos de culpa e, portanto, do su-
perego. De acordo com os pontos de vista que de-
senvolvi ulteriormente, tais sentimentos de culpa -
conquanto fugazes e ainda não configurando a posi-

61
ção depressiva - são, em certa medida, ativos duran-
te a posição esquizoparanóide. Observa-se que há
bebês que não mordem o seio, que mesmo se desma-
mam numa idade por volta dos quatro aos cinco me-
ses sem motivos externos, enquanto que outros, por
danificarem o seio, impossibilitam a mãe de alimen-
tá-los. Tal impossibilidade, eu acredito, indica que o
bebé tem uma percepção inconsciente do desejo de
infligir dano à mãe com sua voracidade. Em conse-
quência, o bebé sente que danificou a mãe e a es-
vaziou, sugando-a vorazmente ou mordendo-a e por
conseguinte, em sua mente, êle contém a mãe ou o
seio numa condição deteriorada. Há evidência bas-
tante, alcançada retrospectivamente na psicanálise
de crianças e mesmo na de adultos, da percepção
muito precoce da mãe como um objeto danificado,
internalizado e externo 11 . Gostaria de lembrar que
esse objeto danificado e queixoso é uma parte do
superego.
A relação com esse objeto danificado e amado
compreende não apenas a culpa mas também a com-
paixão e constitui a fonte primeira de toda simpatia
pelos outros e da consideração por eles. Na Trilogia,
a infeliz Cassandra representa esse aspecto do su-
perego. Agamênon, que a infamou e a atira sob o po-
der de Clitemnestra, experimenta compaixão e exor-
ta Clitemnestra a ter comiseração por ela. (É o único
momento em que êle revela compaixão.) O papel de
Cassandra como aspecto danificado do superego li-
ga-se ao fato de ser famosa profetisa cuja principal
tarefa é anunciar presságios. O corifeu dos Anciãos
comove-se ante o destino dela e tenta confortá-la,

11 Cf The Psycho-Analysis of Chilãren, Capítulo VIII.

62
mostrando-se ao mesmo tempo intimidado com suas
profecias. i
Cassandra como um superego prediz o infortúnio
vindouro e lembra que o castigo virá e o pesar há de
surgir. Conhece de antemão, tanto o seu destino como
a catástrofe geral que recairá sobre Agamênon e sua
casa; mas ninguém dá ouvidos a seus augúrios, e tal
descrença é atribuída à maldição de Apolo. Os An-
ciãos, que revelam grande simpatia por Cassandra,
em parte acreditam nela e no entanto, a despeito
de perceberem a validade dos perigos que ela profeti-
za para Agamênon, para si e para o povo de Argos,
negam suas profecias. Sua recusa em admitir o que
naquele momento já sabem expressa a tendência uni-
versal para a negação. A negação é uma defesa po-
derosa contra a ansiedade persecutória e a culpa re-
sultantes de nunca se poder controlar completamen-
te os impulsos destrutivos. A negação, que sempre
se liga à ansiedade persecutória, pode sufocar os sen-
timentos de amor e a culpa, minar a simpatia e a es-
tima tanto pelos objetos internos como externos e
perturbar a capacidade de julgamento e o sentido de
realidade.
Como sabemos, a negação é um mecanismo oni-
presente e também muito utilizado como justificati-
va para a destrutividade. Clitemnestra justifica ter
assassinado o marido com o fato de que êle havia
imolado a filha e nega seus outros motivos para ma-
tá-lo. Agamênon, que destruiu até os templos dos
deuses de Tróia, sentia-se justificado em sua cruel-
dade por ter seu irmão perdido a esposa. Crestes tem
toda razão, assim pensa, não só de matar o usurpador
Egisto, mas mesmo a própria mãe. A justificativa a
que me referi é uma parte da poderosa negação da

63
culpa e dos impulsos destrutivos. As pessoas com
maior percepção (insighí) dos seus processos inter-
nos e que, portanto, recorrem muito menos à ne-
gação, mostram-se menos sujeitas a satisfazer seus
impulsos destrutivos; em consequência são também
mais tolerantes em relação aos outros.
Há outro ângulo significativo do qual se pode
considerar o papel de Cassandra como superego. No
Agamênon ela se apresenta em estado de transe e, a
princípio, não consegue voltar a si. Recupera-se des-
se estado e diz claramente o que estivera tentando
comunicar antes de maneira confusa. Cumpre-nos
supor que a parte inconsciente do superego se tor-
nou consciente, o que representa um passo essencial
para que se possa senti-lo como consciência.
Outro aspecto do superego se vê em Apolo que
segundo indiquei acima, simboliza os impulsos des-
trutivos de Orestes projetados no superego. Esse as-
pecto do superego impele Orestes à violência e amea-
ça puni-lo se não matar a mãe. De vez que Agamê-
non amargamente se ressentiria de não ser vingado,
tanto Apolo como o pai representam ambos o su-
perego cruel. Semelhante exigência de vingança se
harmoniza com a fúria com que Agamênon destruiu
Tróia, sem revelar a menor piedade pelos sofrimen-
tos de seu povo. Já me referi à conexão entre a cren-
ça helénica de ser a vingança um dever imposto aos
descendentes, e ao papel do superego impelindo ao
crime. É paradoxal que ao mesmo tempo o superego
configure a vingança como um crime, e por conse-
guinte castigue os descendentes pelo assassinato que
perpetraram, embora este lhes fosse o dever.
A sequência repetida de crime e castigo, hwbris
e dike, se exemplifica no demónio familiar que, se-
64
gundo nos contam, ali mora de geração em geração
até que encontra o repouso quando Orestes é per-
doado e regressa a Argos. A crença no demónio fa-
miliar nasce de um círculo vicioso em consequên-
cia do ódio, da inveja e do ressentimento dirigidos
contra o objeto; tais emoções aumentam a ansie-
dade persecutória pela percepção do objeto atacado
como retaliador e então surgem novos ataques a êle.
Ou seja, a ansiedade persecutória aumenta a destru-
tividade e a destrutividade aumenta os sentimentos
de perseguição.
Interessa notar que o demónio, exercendo desde
o tempo de Pélope um reinado de terror na casa real
de Argos, encontre o repouso - assim diz a lenda
- quando tendo sido Orestes perdoado e sem sofri-
mentos retorna, segundo podemos pressupor, a uma
vida normal e profícua. Minha interpretação seria
que a culpa seguida da necessidade de reparação e a
elaboração da posição depressiva romperam o cír-
culo vicioso, de vez que tendo diminuído os impul-
sos destrutivos e sua sequela de ansiedade persecutó-
ria, pôde se restabelecer a relação com o objeto ama-
do.
Apolo, no entanto, que reina em Delfos, repre-
senta na Trilogia não apenas os impulsos destrutivos
e o superego cruel de Orestes. Através da sacerdoti-
za de Delfos êle é também, como sustenta Gilbert
Murray, 11 0 profeta cie deus II além de ser o deus-sol.
No Agamênon, Cassandra a êle se refere como "a
luz dos caminhos dos homens" e a "Luz de tudo que
existe". Apesar disso, não só sua atitude implacável
contra Cassandra mas ainda as palavras dos Anciãos
a seu respeito: "Está escrito, Êle não acolhe a afli-
ção nem a ela dá ouvidos", indicam o fato de que êle

65
não consegue experimentar compaixao e simpatia
pelo sofrimento, a despeito de sua palavra de que
representa o pensamento de Zeus. Deste ângulo Apo-
lo, o Deus-Sol, faz lembrar as pessoas que se esqui-
vam a qualquer tristeza para se defenderem dos sen.
timentos de compaixão e recorrem a um excesso de
negação dos sentimentos depressivos. É típico de
tais pessoas que não experimentem simpatia pelos
velhos e desvalidos. O coro das Fúrias descreve Apo-
lo com os seguintes versos:

"Mulheres somos nós, e velhas; tu cavalgas


Sobre nós, moço e orgulhoso nos calcando. 11

Tais versos também se podem considerar de outro


ponto de vista; se atentamos para sua relação com
Apolo, as Erínias se afiguram como a velha mãe
maltratada pelo filho jovem e ingrato. Essa falta de
compaixão se liga ao papel de Apolo na função de
parte implacável e cruel do superego, que descrevi
acima.
Há outro aspecto, e bastante significativo do su-
perego representado por Zeus. Ele é o pai ( o Pai
dos Deuses) que aprendeu atravez do sofrimento a
ser mais tolerante com seus filhos. Ficamos saben-
do que Zeus, tendo pecado contra o pai e experimen-
tado culpa por isso, mostra-se então generoso com
os suplicantes. Zeus simboliza uma parte importante
do superego, o pai indulgente introjetado, e repre-
senta um estágio em que a posição depressiva foi
elaborada. Conseguir reconhecer e compreender as
tendências destrutivas voltadas contra os pais ama-
dos concorre para uma tolerância maior consigo e
com as deficiências dos outros, para uma melhor ca-

66
pacidade de julgamento e, de um modo geral, para
maior prudência. Como diz Esquilo,

"Só pelo sofrimento o homem aprende.


De novo, a doer de relembrada dor,
Assim o seu coração sangra e não dorme.
Até que contra o seu querer, um dia,
Há-de encontrar-se com a sabedoria."

Zeus também simboliza a parte ideal e onipo-


tente do eu, o ego-ideal, conceito formulado por
Freud antes de desenvolver ~lenamente seus pon-
tos de vista sobre o superego 1 . A meu ver, a parte
idealizada do eu e a do objeto internalizado são afas-
tadas da parte má do eu e da parte má do objeto,
mantendo o indivíduo semelhante idealização para
poder lidar com suas ansiedades.
Há outro aspecto da Trilogia que desejo consi-
derar, ou seja, a relação dos acontecimentos internos
com os externos. Descrevi as Fúrias como simboli-
zando os processos internos, e Esquilo revela isso nos
versos seguintes:

"Algumas vezes será o Medo:


- Esse que suga o seio enquanto espreita
Pela fome sobre êle reinará."

Na Trilogia, entanto, as Fúrias aparecem como fi-


guras externas.
A personalidade de Clitemnestra como um todo
ilustra como Esquilo - enquanto penetra fundo na
mente humana - também se interessa pelas per-
i2 "Sobre o Narcisismo: Introdução", 1914 (S. E. XIV).

67
sonagens como figuras externas. Êle nos fornece vá-
rios indícios de que Clitemnestra era realmente uma
mãe má. Orestes de falta de amor e sabemos
que ela baniu o filho pequeno e maltratou Electra.
Clitemnestra se move por seus desejos sexuais por
Egisto e rejeita os filhos. Isso não se menciona assim
tão explicitamente na Trilogia, mas é óbvio que Cli-
temnestra se livrou de Orestes por vislumbrar nele
o vingador do pai em vista de sua relação com Egisto.
Na verdade, quando duvida do relato de Orestes, or-
dena que Egisto venha com seus lanceiros. Tão logo
descobre que Egisto foi morto, clama por seu ma-
chado:

"Eia! a arma de guerra! Vamos ver


Quem vencerá, quem vai cair, se êle ou se eu ... "

e ameaça matar Orestes.


Há, não obstante, indicações de que nem sem-
pre foi Clitemnestra uma mãe má. Ela alimentou o
filho quando bebé, e seu luto pela filha Ifigênia de-
ve ter sido sincero. Situações externas adversas, po-
rém, operaram uma mudança no seu caráter. Eu acre-
dito que o ódio precoce e os ressentimentos, exacer-
bados por situações externas, reacendem os impul-
sos destrutivos; estes chegam a predominar sobre os
amorosos, e isto acarreta uma mudanç cl ÍlHS condi-
ções da fusão dos instintos de vida com os de morte.
A transformação das Erínias em Eumênides se
apresenta também, em certo grau, influenciada por
uma situação externa. Muito se atormentam diante
do risco de perda de seu poder e Atena as tranqui-
liza dizendo-lhes que em seu novo papel vão exercer
influência sobre Atenas e ajudar a manter a lei e a

68
ordem. Outro exemplo do efeito de situações exter-
nas é a mudança do caráter de Agamênon que se
torna o "Rei dos Reis" graças a seus êxitos na expe-
dição. O êxito, mormente se seu maior valor está
num aumento de prestígio, amiúde é perigoso -
como em geral observamos na vida - porque êle
reforça a ambição e a rivalidade e interfere nos sen-
timentos de amor e de humildade.
Atena representa, como tão frequentemente ela
o diz - os pensamentos e sentimentos de Zeus. Ela
é o superego prudente e aplacado, em contraste com
o superego primitivo, simbolizado pelas Erínias.
Vimos Atena em muitos papéis; ela é o porta-voz
de Zeus e expressa-ihe os pensamentos e desejos; é
um superego aplacado; é também a filha sem mãe e
desse modo evita o complexo de Édipo. Mas revela
ainda outra função e muito importante; contribui
para a paz e o equilíbrio. Ela exprime a esperança
de que os atenienses evitarão a luta interna, repre-
sentando simbolicamente o livrar-se da hostilidade
dentro da família. Consegue uma mudança nas Fú-
rias no que toca ao perdão e à paz. Semelhante atitu-
de expressa a tendência para a reconciliação e a in-
tegração.
Esses traços são característicos do objeto bom
iníernalizado - fundamentalmente da mãe boa -
que se revela a portadora do instinto de vida. Dessa
forma, Atena como a mãe boa se contrapõe a Clitem-
nestra, que representa o aspecto mau da mãe. Aque-
le papel também entra na relação de Apolo com ela.
É a única figura de mulher que êle considera. Re-
fere-se a ela com grande admiração e amplamente
se submete a seu julgamento. Conquanto ela pare-
ça apenas representar uma irmã mais velha, espe-

69
cialmente favorecida pelo pai, eu admito que ela
também representa para êle o aspecto bom da mãe.
Se o objeto bom fôr suficientemente estabelecido
no bebe, o superego se torna mais indulgente; a ten-
dência para a integração, que acredito atua desde o
início da vida e que faz que o amor mitigue o ódio,
adquire força. Mas mesmo o superego indulgente exi-
ge o controle de impulsos destrutivos e visa ao equi-
líbrio dos sentimentos destrutivos e amorosos. Veri-
ficamos, por conseguinte, que A tena representa um
estágio maduro do superego que visa à reconciliação
de impulsos contrastantes; isso se liga ao estabeleci-
mento do objeto bom com maior segurança, e cons-
tituo a base para a integração. Atena expressa a ne-
cessidade de controlar os impulsos destrutivos nas
seguintes palavras:

"E repelindo o Medo, o não repeles todo;


- O impávido, do mal se livrará também?
Não! Reina sobre vós, sobre a vossa cidade,
Esse que, Regra e Lei, do mais fundo nos vem ... "

A atitude de Atena, orientando mas sem domi-


nar, característica do superego maduro estruturado
na base do objeto bom, nela se mostra ao não se ar-
rogar o direito de decidir o destino de Orestes. Ela
convoca o Areópago e escolhe os homens mais sábios
de Atenas, confere-lhes plena liberdade de votar e
apenas reserva para si o voto de qualidade. Se con-
sidero de novo essa parte da Trilogia como represen-
tando os processos internos, iria concluir que os vo-
tos contrários indicam que o eu não se integra com
facilidade, que os impulsos destrutivos têm uma di-
reção, o amor e a capacidade de reparação e de com-

70
paixão têm outras. A paz interna não se estabelece
facilmente.
A integração do ego se realiza quando suas di-
versas partes - representadas na Trilogia pelos
membros do Areópago - podem se reunir, apesar
de suas tendências conflitantes. Isso não significa
que nunca se possam tornar unificados, pelo fato de
que os impulsos destrutivos por um lado, e o amor
e a necessidade de reparar, por outro, se contradi-
zem. Mas o ego, na sua plenitude, consegue reconhe-
cer esses diferentes aspectos e aproximá-los mais
intimamente, se bem que, na tenra infância, eles te-
nham sido intensamente afastados. Nem se elimina
a força do superego; pois mesmo em seu aspecto
mais indulgente, êle ainda pode provocar sentimen-
tos de culpa. A integração e o equilíbrio constituem
a base de uma vida mais plena e mais rica. Em Esqui-
lo esse estado mental se revela pelos cânticos alegres
com que termina a Trilogia.
Esquilo apresenta-nos um quadro do desenvol-
vimento humano, de suas raízes até a seus níveis
mais avançados. Uma das maneiras pela qual sua
compreensão das profundidades da natureza huma-
na se expressa está nos vários papéis simbólicos que
em especial os deuses desempenham. Semelhante va-
riedade corresponde aos diversos impulsos e fanta-
sias, amiúde conflitantes, que existem no inconscien-
te e que, em última análise, se originam da polarida-
de dos instintos de vida e de morte em seus distintos
estados de fusão.
De modo a compreender o papel que o simbolis-
mo desempenha na vida mental, cumpre-nos consi-
derar as muitas maneiras pelas quais o ego em de-
senvolvimento lida com os conflitos e a frustração.

71
Otí meios de expressar os sentimentos de mágoa e
de satisfação, e toda a gama de emoções infantis, se
alteram gradativamente. De vez que as fantasias
povoam a vida mental desde o nascimento, há um po-
deroso impulso a ligá-las aos vários objetos - con-
cretos e fantasiados - que se tornam símbolos e
constituem um escoadouro para as emoções do bebé.
Tais símbolos representam, a princípio, objetos par-
ciais e dentro de alguns meses objetos totais (ou se-
ja, pessoas). A criança volta seu amor e ódio, seus
conflitos, suas satisfações e seus anseios para a cria-
ção desses símbolos, internos e externos, que pas-
sam a fazer parte do seu mundo. O impulso para criar
símbolos é tão intenso que mesmo a mãe mais amo-
rosa não consegue satisfazer as poderosas necessida-
des emocionais do bebe. Na verdade, nenhuma situa-
ção concreta pode preencher os anseios e desejos
não raro contraditórios da vida de fantasia da crian-
ça. Somente quando, na infância, a formação de sím-
bolos se desenvolve em toda a sua plenitude e varie-
dade, e não se vê impedida por inibições, é que o
artista pode ulteriormente se utilizar das forças emo-
cionais subjacentes ao simbolismo. Em antigo traba-
lho meu 13 ressaltei a importância considerável da
formação de símbolos para a vida mental infantil e
deixei subentendido que se a formação de símbolos
era verdadeiramente rica, ela contribuía para o de-
senvolvimento do talento ou mesmo do génio.
Na análise de adultos verificamos que a forma-
ção de símbolos é ainda operante; o adulto, igual-
mente, se vê rodeado de objetos simbólicos. Ao mes-
mo tempo, no entanto, êle é mais capaz de diferen-
1s "A Análise da Criança", 1933, em Contribuições à Psicanálise.

72
ciar a fantasia e a realidade e de ver as pessoas e as
coisas na condição que têm..
O artista criador faz uso pleno dos símbolos;
e quanto mais servem. para expressar os conflitos
do amor e do ódio, da destrutividade e da reparação,
dos instintos de vida e de morte, tanto mais se apro-
ximam. da manifestação universal. Êle assim. conden-
sa a diversidade de símbolos infantis, enquanto se
funda na plena força das emoções e fantasias que
neles se expressam.. A capacidade que o dramaturgo
revela de transferir alguns desses símbolos universais
para a criação de suas personagens, e de ao m.esm.o
tempo transformá-las em. pessoas concretas, mostra
um. dos aspectos de sua grandeza. A conexão dos
símbolos com. a criação artística amiúde tem. sido
lembrada, porém. m.eu interesse principal é estabe-
lecer o elo que existe entre os processos infantis mais
primitivos e as ulteriores produções do artista.
Esquilo na sua Trilogia faz que os deuses se ma-
nifestem. num.a variedade de papéis simbólicos, e
tentei demonstrar com.o isso acrescenta a riqueza e o
significado de suas peças. Concluo com. a admissível
sugestão de que a grandeza das tragédias de Esquilo
- e isso talvez encontre um.a aplicação geral na me-
dida em. que se refere a outros grandes poetas -
provém. de sua percepção intuitiva da inexaurível
profundeza do inconsciente e das maneiras pelas
quais semelhante percepção influencia as persona-
gens e as situações que êle cria.
Capítulo Terceiro

SOBRE A IDENTIFICAÇÃO

Em "O Luto e a Melancolia" 1 Freud mostrou a co-


nexão intrínseca entre a identificação e a introjeção.
Sua descoberta ulterior do superego 2 , que êle atribuiu
à introjeção do pai e à identificação com o mesmo,
conduziu ao reconhecimento de que a identificação
como uma sequela da introjeção faz parte do desen-
volvimento normal. Desde essa descoberta, a intro-
jeção e a identificação têm desempenhado um papel
central no pensamento e na pesquisa psicanalíticos.
Antes de iniciar o tópico básico deste artigo, pen-
so que seria útil recapitular minhas conclusões prin-
cipais sobre esse tema: pode-se fazer remontar o
desenvolvimento do superego à introjeção aos está-
gios mais primitivos da infância; os objetos interna-
lizados primários formam a base de processos com-
1 (1917) S. E. XIV. O trabalho de Abraham sobre a melanco-
lia, já em 1911 ("Notas sobre a Investigação e o Tratamento
Psicanalíticos da boença Maníaco-Depressiva e Condições Aná-
logas") e 1924 ("Breve Estudo do Desenvolvimento da Libido,
Visto à Luz das Desordens Mentais") também foram de gran-
de importância nesse sentido. Cf. Artigos Selecionaãos sobre
Psicanálise, Karl Abraham (Londres, 1927). Trad. brasil. -
Teoria Psicanalítica da Libido, 1970 - IMAGO EDITDRA LIDA
2 O Ego e o lã (1923) S. E. XIX.

74
plexos de identificação; a ansiedade persecutória,
oriunda da experiência do nascimento, é a primeira
forma de ansiedade, logo seguida pela ansiedade de-
pressiva; a introjeção e a projeção operam desde o
início da vida pós-natal e interatuam constantemen-
te. Essa interação estrutura tanto o mundo interno
como forma o quadro da realidade externa. O mun-
do interno consiste de objetos, principalmente a mãe,
internalizados nos vários aspectos e situações emo-
cionais. Os relacionamentos dessas figuras interna-
lizadas e delas com o ego tendem a ser experimenta-
dos - quando a ansiedade persecutória é dominante
- como principalmente hostis e perigosas; aqueles
relacionamentos, o bebé os experimenta como amo-
rosos e bons, quando gratificado e prevalecem os sen-
timentos de felicidade. Este mundo interior, que se
pode descrever em termos de relações e aconteci-
mentos internos, representa o produto dos impulsos,
emoções e fantasias do bebé. Ele é, como é natural,
profundamente influenciado por suas experiências
boas e más oriundas de fontes externas 3 • Mas ao
mesmo tempo o mundo interno influencia sua percep-
ção do mundo externo de um modo que não é me-
nos decisivo para o seu desenvolvimento. A mãe,
principalmente o seio, é o objeto primário tanto para
os processos introjetivos como projetivos do bebé.
O amor e o ódio são desde o início projetados sobre
ela e simultaneamente ela é internalizada junto com
essas emoções primitivas contrastantes, subjacentes
ao sentimento do bebé de que tanto existe uma mãe

• Dentre elas, desde o início da vida, a atitude da mãe é de


importância vital e 2ermanece um fator relevante no desenvol-
vimento da criança. Cf, por exemplo, Os Progressos da Psicaná-
lise, Zahar Editores, Rio, 1969.

75
\

(seio) boa como má. Quanto mais valorizados são â


mãe e o seio - e na medida em que a valorização
depende de uma combinação de fatôres internos e
externos, entre os quais a capacidade inata de amar
é da máxima importância - tanto mais provavel-
mente se instalará na mente do bebe o seio bom in-
ternalizado, protótipo dos objetos internos bons. Isto
por sua vez influencia tanto a intensidade como a
natureza das projeções; principalmente determina
se nelas predominam os sentimentos de amor ou os
impulsos destrutivos 4 •
Tenho descrito em situações várias as fantasias
sádicas do bebé dirigidas contra a mãe. Verifiquei
que os impulsos e as fantasias agressivas oriundos
da relação mais primitiva com o seio da mãe, tal
como sugá-lo, secá-lo e esvaziá-lo, logo conduzem a
ulteriores fantasias de entrar dentro da mãe e rou-
bar-lhe os conteúdos do corpo. Simultaneamente, o
bebé experimenta impulsos e fantasias de atacar a
mãe, colocando excrementos dentro dela. Em tais
fantasias, o bebé sente que os produtos do corpo e as
partes do seu eu foram expelidos, projetados dentro
da mãe e que continuam a existir dentro dela. Seme-
lhantes fantasias logo se estendem ao pai e a outras
pessoas. Afirmei também que a ansiedade persecutó-
ria e o medo da retaliação, resultantes dos impulsos
sádico-orais, uretrais e anais - estão na base do de-
senvolvimento da paranóia e da esquizofrenia.
Não somente são expelidas e projetadas para
dentro de outra pessoa aquelas partes consideradas
destrutivas e "más" do eu, como também as conside-
* Expressando-o em termos da dualidade de instintos, cum-
J)re saber se na luta entre os instintos de Vida e de Morte pre-
âomina o instinto de Vida.

76
radas boas e valiosas. Acentuei anteriormente que
desde o início da vida o primeiro objeto do bebé, o
seio da mãe (e a mãe), está investido de libido e que
isto influencia de maneira vital o modo pelo qual
a mãe é internalizada. Isto por sua vez é de grande
importância para a relação com ela como objeto ex-
terno e interno. O processo pelo qual a mãe é investi-
da de libido consiste principalmente na projeção de
sentimentos bons e de partes boas do eu sobre ela.
No curso de trabalho ulterior cheguei também
a reconhecer a grande importância que têm, para a
identificação, certos mecanismos projetivos comple-
mentares aos introjetivos. O processo subjacente ao
sentimento de identificação com outras pessoas, em
razão de se lhes haver atribuído qualidades ou ati-
tudes da gente, já era, em geral, tacitamente admiti-
do mesmo antes que o conceito correspondente tives-
se sido incorporado à teoria psicanalítica. Por exem-
plo, o mecanismo projetivo que está implícito na em-
patia é familiar na vida cotidiana. Os fenómenos bem
conhecidos em psiquiatria, por exemplo, o sentimen-
to de um paciente de que êle realmente é Cristo,
Deus, um rei, uma pessoa famosa, incluem uma pro-
jeção maior do que de afetos simples. Os mecanismos
subjacentes, porém, em tais fenómenos, não tinham
sido investigados com tanto pormenor quando, nas
minhas "Notas sobre Alguns Mecanismos Esquizóí-
des115, sugeri a expressão "identificação projetiva 11 8,
6 Lidas perante a Sociedade Inglesa de Psicanálise em 4 de
dezembro de 1946, tmblicadas em Int. J. Psycho-Anal.,._, Vol.
XXVII (1946) e em Os Progressos ãa Psicanálise, Zahar bdito-
res, Rio, 1969, Cap. IX.
6 Nesse sentido, refiro-me aos artigos de Herbert Rosenfeld,
"Analysis of a Schizophrenic State with Despersonalization",
Int. J. Psycho-Anal., Vol. XXVIII, 1947; "Remarks on the Re-
lation of Male Homosexuality to Paranóia, Paranoid Anxiety,

77
para aqueles processos que fazem parte da pos1çao
esquizoparanóide. As conclusões a que cheguei na-
quele artigo baseavam-se, no entanto, sobre alguns
de meus achados anteriores 7 , em particular no das
fantasias e impulsos infantis sádico-orais, uretrais e
anais de atacar o corpo da mãe de muitas maneiras,
inclusive pela projeção de excrementos e partes do
eu sobre ela. 1
A identificação projetiva se liga aos processos
de desenvolvimento que surgem durante os três ou
quatro primeiros meses de vida (a posição esquizo-
paranóide) quando a divisão está no seu máximo e
predomina a ansiedade persecutória. O ego está ain-
da em grande parte não integrado e, por conseguinte,
passível de dividir a si suas emoções e a seus objetos
internos e externos, embora a divisão seja também
uma das defesas fundamentais contra a ansiedade
persecutória. Outras defesas oriundas nesse estágio
são a idealização, a negação e o controle onipotente
dos objetos internos e externos. A identificação pela
projeção implica uma combinação de expelir partes
do eu e de projetá-las sobre outra pessoa (ou melhor)
dentro dela. Tais processos apresentam muitas rami-
ficações e influenciam fundamentalmente as relações
de objeto.
No desenvolvimento normal, no segundo trimes-
tre do primeiro ano, a ansiedade persecutória dimi-
nui e a ansiedade depressiva vem para o primeiro

and Narcissism", Int. J Psycho-Anal, Vol. X.XX (1949); e "A


Note on the Psychopathology of State in Chronic Sch1zophre-
nias", Int. J Psycho-Anal., Vol. XXXI (1950), que são relevan-
tes para esses problemas. (Todos incluídos em "Os Estados
Psicoticos", Zahar Editores, Rio, 1967).
7 Cf minha Psycho-Analysis of Children; por exemplo, págs.
186 ff.

73
plano, em consequência da maior capacidade do ego
para se integrar e para sintetizar seus objetos. Isto
acarreta pesar e culpa quanto ao dano feito (nas fan-
tasias onipotentes) a um objeto que é agora vivido
ao mesmo tempo como amado e odiado; tais ansie-
dades e defesas contra elas representam a posição
depressiva. Nesse ponto, uma regressão à posição
esquizoparanóide pode ocorrer na tentativa de esca-
par à depressão.
Sugeri também que a internalização é de gran-
de importância para os processos projetivos, em par-
ticular daquele em que o seio bom internalizado age
como um ponto central do ego, do qual os sentimentos
bons se projetam sobre os objetos externos. Êle for-
talece o ego, contrabalança os processos de divisão
e dispersão e favorece a capacidade para a integração
e síntese. O objeto bom internalizado é assim uma
das pré-condições para um ego integrado e estável
e para boas relações de objetos. A tendência para a
integração, simultânea com a divisão, parece-me ser,
desde a mais tenra infância, um traço dominante da
vida mental. Um dos fatôres principais subjacentes à
necessidade para a integração é o sentimento do in-
divíduo de que esta implica estar vivo, estar amando
e sendo amado pelo objeto bom interno e externo;
ou seja, que existe vinculação íntima entre a inte-
gração e as relações de objeto. Inversamente, o sen-
timento de caos, de desintegração, de deficiência de
emoções resultantes da divisão, parecem-me estreita-
mente relacionados ao medo da morte. Sustentei (nos
"Mecanismos Esquizóides") que o temor do aniqui-
lamento pelas forças destrutivas dentro é o medo
mais profundo que existe. A divisão como uma pri-
meira defesa contra este temor é eficaz na medida

79
em que ocasione uma dispersão da ansiedade e uma
supressão das emoções. Mas falha em outro sentido
porque resulta num sentimento semelhante à morte
- porque a isso é que correspondem a desintegração
e o sentimento de caos concomitantes. Acredito que
os sofrimentos do esquizofrénico não sejam suficien-
temente valorizados porque êle parece destituído de
emoções.
Desejo aqui estender-me além do meu artigo
sobre mecanismos esquizóides. Gostaria de sugerir
que um objeto bom firmemente estabelecido, impli-
cando um amor solidamente manifesto por êle, em-
presta ao ego um sentimento de riqueza e abundância
que favorece um extravazamento de libido e a pro-
jeção de partes boas do eu sobre o mundo externo,
sem que se origine uma sensação de esvaziamento.
O ego pode então também sentir que é capaz de
reintrojetar o amor que dedicou, bem como receber
a bondade de outras fontes, e assim se enriquecer
por todo o processo. Em outras palavras, em tais ca-
sos há um equilíbrio entre o dar e o receber, entre
a projeção e a introjeção.
Além disso, sempre que há a incorporação do
seio não danificado, em estados de gratificação e
amor, isto afeta as maneiras pelas quais o ego divi-
de e projeta. Conforme sugeri, há uma grande varie-
dade de processos de divisão (sobre os quais ainda
temos muito a descobrir) e sua natureza é de grande
importância para o desenvolvimento do ego. O sen-
timento de conter o mamilo e seio não danificados
- embora coexistindo com as fantasias de um seio
devorado e, portanto espedaçado tem o efeito de que
a divisão e a projeção não se relacionam predominan-
temente com as partes fragmentadas da personali-

20
dade, porém com partes mais coerentes do eu. Isto
implica que o ego não se expõe a um enfraquecimento
fatal pela dispersão e por esse motivo se mostra mais
capaz de repetidamente desfazer a divisão e
çar a integração e a síntese em sua relação com os
objetos.
Inversamente, o seio incorporado com ódio, e
por conseguinte vivenciado como destrutivo, torna-
se o protótipo de todos os objetos internos maus, im-
pele o ego a ulterior divisão e se torna o representan-
te do instinto de morte dentro.
Já mencionei que simultaneamente com a inter-
nalização do seio bom, a mãe externa também é in-
vestida com a libido. Em vários sentidos Freud des-
creveu esse processo e algumas de suas implicações:
por exemplo, referindo-se à idealização numa rela-
ção amorosa, afirma8 que 11 0 objeto está sendo trata-
do da mesma maneira que o nosso ego, de modo que
quando estamos amando, uma quantidade considerá-
vel de libido narcí sica se extravasa para o objeto ...
nós o amamos em função das perfeições que somos
impelidos a alcançar para o nosso ego ... 119
A meu ver, os processos que Freud descreve im-
plicam que o objeto amado é vivido como contendo
a parte expelida, amada e valorizada do eu, que des-
ta forma continua sua existência dentro do objeto.
Torna-se êle, portanto, uma extensão do eu 10 .
8 (1921) Group_ Psychology and the Analysis of the Ego (S. E.
XVlII), pág. 1I2.
9 Anua Freud descreveu outro aspecto da projeção sobre um
objeto amado e da identificação com êle no conceito que cha-
mou "renúncia altruísta". The Ego anã the Mechanismos of
Defence, London, 1937, Cap. X (trad. brasil).
10 Ao reler recentemente Group Psychology and the Analysis
oi the Ego, (Psicologia de Grupo e a Análise do Ego), de Freud,
afigurou-se-me que êle estava cônscio do processo de identifi-

81
O exposto acima constitui um breve resumo de
minhas opiniões apresentadas em "Notas sobre Al-
guns Mecanismos Esquizóides 1111 • Não me limitei,
contudo, aos pontos aí examinados, mas acrescentei
certas outras sugestões e ampliei algumas que esta-
vam implícitas mas não explicitamente mencionadas
naquele artigo. Proponho-me agora exemplificar al-
guns desses achados procedendo a uma análise de
uma história do romancista francês Julian Green 12 .

UM ROMANCE QUE ILUSTRA A


IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA

O herói, um jovem amanuense Fabian Especel,


infeliz e insatisfeito consigo, em particular com sua
aparência, sua falta de êxito com as mulheres, sua
pobreza, e com o trabalho inferior a que se sente
condenado. Acha suas convicções religiosas, que atri-
bui às exigências da mãe, muito maçantes, embora
não possa libertar-se delas. O pai, que morreu quan-
do Fabian ainda frequentava a escola, esbanjara to-
do o dinheiro no jogo, levara uma vida "alegre" com
mulheres e morrera de colapso cardíaco, atribuído à
cação por projeção, embora não o diferenciasse por meio de um
termo especial do processo de identificação por introjeção com
que êle principalmente se preocupava. Elliott Jaquesbem "So-
cial Systems as a defence aiainst Persecutory and epressive
Anxiefy" (Cap. 20) New D1reetions in Psycho-Analysis (Lon-
don, 1955, trad. brasil.) cita alguns trechos da Group Psycho-
logy como se referindo implicitamente à identificação por pro-
~eção.
1 Cf. também "Some Theoretical Conclusions Regarding the
Emotional Life of the lnfant" em Developments in Psycho-
Analysis (London, 1952), págs. 202-3, trad. brasil.).
12 // J VSere You (tradução do francês por J. H. P. McEwen),
London, 1950).

82
consequência de sua vida dissoluta. A queixa e a re-
belião pronunciadas de Fabian contra o destino se
ligam a seu ressentimento contra o pai, cuja irres-
ponsabilidade privara-o de melhor educação e mais
amplas perspectivas. Tais sentimentos, segundo pa-
rece, contribuem para o desejo insaciável de Fabian
de riqueza e êxito, e para sua inveja e ódio intensos
daqueles que possuem mais.
O núcleo da história é o poder mágico de trans-
formar-se em outras pessoas que é conferido a Fabian
por um pacto com o demónio, que o seduz com falsas
promessas de felicidade a aceitar esta dádiva sinis-
tra; êle ensina a Fabian uma fórmula secreta pela
qual a transformação em outra pessoa se pode efe-
tuar. Semelhante fórmula inclui seu nome Fabian,
e é de grande importância que êle consiga - acon-
teça o que acontecer - lembra-se da fórmula e do
nome. A primeira escolha de Fabian é o garçom que
lhe traz uma xícara de café, que é apenas o que êle
pode conseguir para o seu café da manhã. Esta ten-
tativa de projeção resulta em nada porque nesse pon-
to êle ainda considera os sentimentos de suas vítimas
em potencial, e o garçom, ao ser solicitado por Fa-
bian se gostaria de trocar de lugar com êle, se recusa.
A escolha seguinte de Fabian recai sobre seu patrão
Poujars. Êle tem muita inveja desse homem que é
rico, pode - conforme julga Fabian - gozar a vida
plenamente, e tem poder sobre outras pessoas, e em
especial sobre Fabian. O autor descreve a inveja que
Fabian tem de Poujars com estas palavras: ("Ah! o
sol. Amiúde lhe parecia que o senhor Poujars tinha-o
escondido no bolso.") Fabian também se mostra mui-
to ressentido contra o patrão por sentir-se humilhado
por êle e preso em seu escritório.

83
Antes de sussurrar a fórmula no ouvido de Pou-
jars, Fabian se dirige a êle da mesma maneira despre-
zível e humilhante que Poujars utilizava com êle. A
transformação tem o efeito de fazer que a vítima en-
tre para o eorpo de Fabian e desmaie; Fabian (agora
no corpo de Poujars) emite vultoso cheque em favor
de Fabian. Êle encontra no bolso de Fabian seu ende-
reço que anota cuidadosamente. (Este pedaço de pa-
pel com o nome e endereço de Fabian êle o conserva
consigo em suas duas transformações seguintes.) Pro-
videncia também para que Fabian, em cujo bolso pôs
o cheque, seja levado para casa, onde seria cuidado
pela mãe. O destino do corpo de Fabian continua sen-
do uma preocupação da mente de Fabian-Poujars de
vez que êle sente poder um dia desejar retornar ao
seu antigo eu; portanto, não quer ver Fabian recupe-
rar a consciência porque teme que os olhos assusta-
dos de Poujars (com quem trocou de lugar), o con-
templem de sua face anterior. Êle imagina, olhando
para Fabian, que ainda está inconsciente, se alguém
jamais o teria amado e se sente alegre de ter-se livra-
do daquela aparência desagradável e daquelas roupas
miseráveis.
Fabian-Poujars logo descobre certas desvanta-
gens em semelhante transformação. Sente-se opri-
mido na sua nova corpulência; perde o apetite e se
dá conta do distúrbio renal de que sofre Poujars.
Descobre com aborrecimento de que não só ficou com
as feições de Poujars como também com sua perso-
nalidade. Já se distanciara de seu antigo eu e pouco
se lembrava da vida de Fabian e suas circunstâncias.
Decide que não continuará um minuto mais que o ne-
cessário na pele de Poujars.

84
Ao deixar o escritório com a carteira de Poujars
em seu poder, gradativamente percebe que se colo-
cou numa situação de extrema gravidade. É que não
somente aborrece a personalidade, a aparência, e as
lembranças desagradáveis que adquiriu, como tam-
bém muito se preocupa com a falta de força de von-
tade e de iniciativa inerentes à idade de Poujars. A
ideia de que não pudesse mobilizar a energia para
se transformar em outra pessoa horroriza-o. Decide
que para seu objeto seguinte deve escolher alguém
jovem e sadio. Quando vê num café um jovem atlé-
tico e de rosto feio, de aspecto arrogante e brigão,
mas revelando no seu todo autoconfiança, vigor e
saúde, Fabian-Poujars - sentindo-se cada vez mais
temeroso de nunca poder se livrar de Poujars - re-
solve aproximar-se do jovem, embora esteja com mui-
to medo dele. Oferece-lhe um maço de notas que
Fabian-Poujars deseja ter depois da transformação
e, enquanto assim distrai a atenção do homem, con-
segue sussurrar-lhe a fórmula ao ouvido e lhe coloca
no bolso o pedaço de papel com o nome e endereço
de Fabian. Em poucos minutos Poujars, cuja pessoa
Fabian acaba de abandonar, desmaia, e Fabian se
transforma no jovem Paul Esménard. Está tomado
de grande alegria por se sentir jovem, sadio e forte.
Perde muito mais do que na primeira transformação,
o seu eu original e se converte numa nova personali-
dade; surpreende-se de encontrar um maço de notas
na mão e no bolso um pedaço de papel, com o nome
e o endereço de Fabian. Logo pensa em Berthe, a
moça cujos favores Paul Esménard vem tentando
conquistar, até então sem êxito. Entre outras coisas
desagradáveis, Berthe lhe disse que ele tem cara de
assassino e que ela tem medo dele. O dinheiro no

85
bolso lhe dá confiança e êle vai direío a casa dela,
determinado a fazê-la ceder aos seus desejos.
Conquanto Fabian se tenha submergido em Paul
Esménard, êle se sente cada vez mais atónito sobre
o nome Fabian lido na tira de papel. "Tal nome per-
manece de algum modo no âmago de seu ser." Um
sentimento de estar aprisionado num corpo desco-
nhecido e submetido por mãos imensas e um cérebro
embotado se apodera dele. Não soluciona o enigma
esforçando-se em vão contra a sua estupidez; imagi-
na qual seria o significado de seu desejo de se liber-
tar. Tudo isso lhe passa pela mente à medida que se
encaminha para a casa de Berthe. Entra à força em
seu quarto, embora ela tente trancar-lhe a porta na
cara. Berthe grita, êle a silencia tapando-lhe a boca
com a mão e na luta que se segue êle a estrangula.
Só gradualmente se dá conta do que havia feito; apa-
vora-se e não ousa deixar o apartamento de Berthe,
porque ouve passos de pessoas que se movimentam
pela De súbito escuta uma pancada na porta,
abre-a e defronta o Diabo a quem êle não reconhece.
O Demónio retira-o dali, ensina-lhe de novo a fór-
mula que Fabian-Esménard esquecera e ajuda-o a
lembrar-se de algo sobre o seu eu original. Adverte-o
também que, para o futuro, não deve passar-se para
pessoa tão estúpida ao utilizar a fórmula e, portanto,
incapaz de efetuar ulteriores transformações.
O demónio leva-o a um salão de leitura em bus-
ca de pessoa em quem Fabian-Esménard possa se
transformar e escolhe Emmanuel Fruges; Fruges e
o demónio se reconhecem imediatamente, de vez que
Fruges vem sempre lutando contra o diabo, que "tan-
tas vezes e tão pacientemente gira em torno daquela
alma inquieta". O Demónio instrui Fabian-Esménard

86
a murmurar a fórmula no ouvido de Fruges, e a
transformação se efetua. Tão logo Fabian entra no
corpo e na personalidade de Fruges, recobra sua ca-
pacidade de pensar. Imagina qual o destino de sua
última vítima e se preocupa um pouco com Fruges
(agora no corpo de Esménard) que será condenado
pelo crime de Fabian-Esménard. Sente-se em parte
responsável pelo crime porque, conforme o Diabo lhe
mostra, as mãos que cometeram o homicídio lhe per-
tenciam até a alguns minutos atrás. Antes de se se-
parar do Demónio, indaga ainda a respeito do Fabian
original e de Poujars. Se bem que recobrando algu-
mas lembranças de seus eus anteriores, percebe que
se está transformando cada vez mais em Fruges e
adquirindo sua personalidade. Ao mesmo tempo, se
dá conta de que suas experiências aumentaram
seu entendimento das outras pessoas, de vez que ago-
ra compreende mais o que ocorria na mente de Pou-
jars, de Paul Esménard e de Fruges. Também expe-
rimenta simpatia, emoção que nunca antes conhece-
ra e volta uma vez mais a ver o que Fruges - no
corpo de Paul Esménard - está fazendo. Contudo,
muito o alegra a ideia não só de sua fuga como tam-
bém a de que sua vítima vai sofrer em seu lugar.
O escritor nos diz que certos elementos da na-
tureza original de Fabian entram mais nesta trans-
formação do que em qualquer outra das anteriores.
Em especial, o aspecto inquisitivo do caráter de Fa-
bian influencia Fabian-Fruges a descobrir cada vez
mais elementos da personalidade de Fruges. Entre
outras coisas, descobre sua predileção por cartões
obscenos que adquire de uma velha numa pequena
papelaria onde os postais ficam ocultos por trás de
outros artigos. Fabian se desgosta com esse ângulo

87
de sua nova natureza; não suporta o ruído feito pela
estante giratória dos postais, na qual estes se encon-
tram, e sente que tal ruído o perseguirá para sempre.
Decide livrar-se de Fruges a quem pode agora, em
certa medida, julgar com os olhos de Fabian.
A seguir um menino de cerca de seis anos entra
na papelaria. George é a imagem "da inocência nas
maçãs do rosto" e Fabian-Fruges se sente imediata-
mente muito atraído por êle. George o faz lembrar
de si naquela idade, e experimenta grande ternura
pela criança. Fabian-Fruges segue George ao sair da
loja, e o observa com grande interesse. Subitamente,
sente-se tentado a transformar-se no menino. Com-
bate essa tentação como nunca, pensa êle, combatera
outra antes, pois acredita que seria criminoso roubar
a personalidade e a vida dessa criança. Não obstan-
te, decide transformar-se em George, ajoelha-se ao
lado dele e sussura-lhe a fórmula ao ouvido, num es-
tado de grande emoção e remorso. Mas nada acon-
tece, e Fabian-Fruges percebe que a mágica não atin-
ge a criança porque o Demónio não tem poder so-
bre ela.
Fabian-Fruges se horroriza com a ideia de não
poder-se livrar de Fruges, com quem se desgosta
cada vez mais. Sente-se prisioneiro de Fruges e luta
por manter vivo seu aspecto de Fabian, pois se dá
conta de que a Fruges falta a iniciativa para ajudá-lo
a escapar. Faz várias tentativas de se aproximar das
pessoas, mas fracassa e, logo se desespera, temendo
que o corpo de Fruges seja seu túmulo, que êle tenha
de permanecer ali até sua morte. "Tinha sempre a
impressão de estar sendo lenta mas inexoravelmente
emparedado; de que uma porta que estivera aberta,
agora gradualmente se fechava sobre êle. 11 Finalmen-

88
te, consegue transformar-se num elegante e sadio jo-
vem de vinte anos chamado Camilie. Neste ponto,
o escritor nos introduz pela primeira vez num círculo
familiar, que se compõe da esposa de Camilie, Ste-
phanie, sua prima Elise, o próprio Camilie, seu irmão
mais moço e o velho tio que os adotara a todos quan-
do eram crianças.
Ao entrar na casa, Fabian-Camille parece estar
procurando algo. Sobe as escadas, investigando os
vários quartos, até que chega aos aposentos de Elise.
Quando se vê refletido no espelho fica muito conten-
te de verificar que é elegante e forte, mas um instan-
te depois descobre que na verdade se transformara
numa pessoa infeliz, fraca e inútil e decide livrar-se
de Camilie. Ao mesmo tempo, percebe o amor apai-
xonado e não correspondido de Elise por Camilie.
Elise entra, e êle lhe diz que a ama e que êle devia
ter-se casado com ela ao invés de com sua prima Ste-
phanie. Elise, atónita e assustada, visto que Camilie
nunca lhe dera sinal de lhe retribuir seu amor, foge.
Sozinho no quarto de Elise, Fabian-Camille pensa
com simpatia nos sofrimentos da moça e que poderia
fazê-la feliz, amando-a. Pensa, então, subitamente
que a ser assim êle poderia ser feliz transformando-se
em Elise. Afugenta, no entanto, semelhante hipóte-
se, de vez que não pode estar seguro de que Camilie,
caso Fabian se transformasse em Elise, iria amá-la.
Nem mesmo tem certeza se êle próprio - Fabian -
ama Elise. Enquanto imagina isso, ocorre-lhe que o
que êle ama em Elise são os olhos, que lhe são de
algum modo familiares.
Antes de deixar a casa, Fabian-Camille vinga-se
do tio, que é hipócrita e tirano, por todo o dano feito

89
à família. Êle também principalmente vinga Elise,
punindo e humilhando sua rival Stephanie. Fabian-
Camille, tendo insultado o velho, deixa-o num estado
de fúria impotente e vai-se embora, sabendo que lhe
seria impossível jamais voltar àquela casa na pessoa
de Camille. Mas antes de partir insiste que Elise,
ainda assustada com êle, o ouça mais uma vez.
Êle lhe diz que realmente não a ama e que ela deve
abandonar sua desventurada paixão por Camille, ou
ela será sempre infeliz.
Como antes, Fabian experimenta ressentimento
contra a pessoa na qual se transformou, porque des-
cobre que ficou um inútil; imagina, portanto com de-
leite como Camille, quando Fabian o deixar, será re-
cebido em casa pelo tio e pela esposa. A única pes-
soa que lamenta perder é Elise; e subitamente lhe
ocorre com quem ela se parece. Seus olhos trazem
11 em si toda a tragédia de um anseio que nunca pode-

rá ser satisfeito"; e imediatamente êle percebe que


são os olhos de Fabian. Assim que esse nome, intei-
ramente esquecido por êle, lhe volta e êle o pronun-
cia em voz alta, seu eco lhe lembra vagamente "um
país distante" apenas conhecido no passado em so-
nhos. É que sua lembrança concreta de Fabian tinha
desaparecido completamente e na sua pressa de esca-
par de Fruges e de transf armar-se em Camille não le-
vara consigo nem o nome nem o endereço de Fabian
nem o dinheiro. Desse momento em diante, o anseio
por Fabian apodera-se dele e luta por recuperar suas
antigas lembranças. É uma criança quem o auxilia
a reconhecer que êle é Fabian, pois quando ela lhe
pergunta qual é o seu nome, êle sem hesitar, respon-
de "Fabian". Agora, Fabian-Camille física e men-

90
talmente se movimenta cada vez mais na direção em
que Fabian pode ser encontrado, pois, como êle o diz,
"eu quero ser eu mesmo de novo". Vagando pelas
ruas, diz em voz alta esse nome que encarna sua
maior aspiração e espera obter uma resposta. A fór-
mula que havia esquecido lhe ocorre e espera que
também venha a se recordar do sobrenome de Fa-
bian. A caminho de casa, os edifícios, as pedras e ár-
vores têm um sentido especial; sente que estão "car-
regados de uma mensagem para êle" e prossegue,
impelido por um impulso. É assim que entra na loja
da velha que fora tão familiar a Fruges. Sente que
olhando em torno dessa loja sombria também está
"explorando um secreto ângulo de sua memória, re-
buscando na sua mente, por assim dizer" e se enche
de uma "depressão profunda". Quando impele a es-
tante giratória com seus cartões, o ruído gritante o
atinge de modo estranho. Abandona precipitada-
mente a loja. A etapa seguinte é o salão de leitura
onde, com a ajuda do Diabo, Fabian-Esménard se
transforma em Fruges. Êle grita "Fabian" mas não
obtém resposta. A seguir, passa pela casa em que
Fabian-Esménard assassinou Berthe e se sente impe-
lido a entrar e descobrir o que aconteceu atrás da ja-
nela para que algumas pessoas apontam; imagina se
ali seria talvez o quarto onde Fabian mora, mas en-
che-se de temor e escapa sorrateiramente ao ouvir as
pessoas falarem sobre o assassinato cometido há três
dias; o assassino ainda não tinha sido encontrado. À
medida que caminha, as casas e as lojas se lhe tor-
nam cada vez mais familiares e profundamente se
comove ao alcançar o local onde o Demónio pela pri-

91
meira vez tentou convencer Fabian. Chega por fim
à casa onde mora Fabian e a porteira deixa entrar
Fabian-Camille. Quando começa a subir as escadas,
uma dor súbita lhe aperta o coração.
Durante os três dias em que todos esses aconte-
cimentos ocorreram Fabian estivera inconsciente, no
leito, sob os cuidados da mãe. Começa a voltar a si
e a ficar inquieto assim que Fabian-Camille se apro-
xima da casa e sobe as escadas. Fabian ouve Fabian-
Camille chamar seu nome do outro lado da porta,
levanta-se da cama e vai até a porta, mas não conse-
gue abri-la. Através da fenda da fechadura Fabian-
Camille diz a fórmula e então vai embora. A mãe en-
contra Fabian inconsciente no chão junto da porta,
mas êle logo recupera os sentidos e recobra certa
energia. Desesperadamente deseja descobrir o que
se passou durante os dias em que esteve inconsciente
e em particular a respeito do encontro com Fabian-
Camille, mas asseguram-lhe que ninguém apareceu e
que êle permaneceu em estado de coma durante três
dias desde que desmaiara no escritório. Tendo a mãe
sentada ao lado do leito, sente-se invadido pelo an-
seio de ser amado por ela e de poder expressar-lhe
seu amor. Deseja tocar-lhe a mão, atirar-se-lhe nos
braços, mas sente que ela não corresponderia. A
despeito disso, percebe que se seu amor por ela ti-
vesse sido mais forte, ela o teria amado mais. A in-
tensa afeição que experimenta por ela subitamente
se estende a toda a humanidade e êle se sente inva-
dido por uma felicidade inefável. A mãe lembra que
êle devia rezar, mas êle só se lembra das palavras
1 Tai Nosso 11 • Em seguida é de novo dominado pores-

ta felicidade misteriosa, e morre.

92
INTERPRETAÇÕES

O autor dessa história revela uma profunda


compreensão (insighí) da mente inconsciente; isto se
pode verificar tanto na forma pela qual retrata os
acontecimentos e as personagens e - o que é de par-
ticular interesse aqui - na escolha das pessoas so-
bre quem Fabian se projeta. Meu interesse pela per-
sonalidade e pelas aventuras de Fabian, que ilustram,
como o fazem, alguns dos problemas complexos e
mesmo obscuros da identificação projetiva, induzi-
ram-me a tentar uma análise deste rico material
quase como se fosse um paciente.
Antes de analisar a identificação projetiva, que
é para mim o tema principal deste livro, pretendo
considerar a interação entre os processos introjeti-
vos, e projetivos que são, a meu ver, também ilustra-
dos no romance. Por exemplo, o escritor descreve o
anseio do desditado Fabian de contemplar as estrelas.
"Sempre que êle as olhava assim dentro da noite que
a tudo envolvia, experimentava a sensação de estar
sendo insensivelmente levado acima do mundo ...
Era quase como se o simples esforço de perscrutar o
espaço, estivesse abrindo em si uma espécie de abis-
mo, que correspondia às vertiginosas profundezas,
dentro das quais mergulhava a imaginação. 11 Isto, me
parece, significa que Fabian olhava simultaneamen-
te a distância e a si; incorporando o céu e as estrelas
bem como projetando no céu e nas estrelas seus obje-
tos internos amados e as partes boas do seu eu. Eu
interpretaria também sua persistente contemplação

93
das estrelas como uma tentativa de reaver seus obje-
tos bons que êle temia estarem perdidos ou mui dis-
tantes.
Outros aspectos das identificações introjetivas
de Fabian esclarecem seus processos projetivos. Cer-
ta ocasião, quando sozinho em seu quarto, à noite,
sente, como tantas vezes, que anseia "ouvir sinais de
vida provindos de outros habitantes do edifício ao
seu redor". Fabian põe sobre a mesa o relógio de ouro
do pai; experimenta grande afeição por êle e princi-
palmente o aprecia por causa "de sua opulência e bri-
lho e dos números nitidamente gravados no mostra-
dor". De maneira vaga, este relógio também lhe
transmite um sentimento de confiança. Quando está
sobre a mesa entre seus papéis, sente que todo o quar-
to adquire um ar de mais ordem e seriedade, talvez
por causa do "ruído apressado e no entanto tranqui-
lizador do seu tique-taque reconfortante no meio da
quietude envolvente". Olhando o relógio e ouvindo
o seu tique-taque, fica a meditar sobre as horas de
alegria e de tristeza da vida do pai que o relógio mar-
cou e este lhe parece vivo e independente do antigo
proprietário falecido. Num trecho anterior diz o no-
velista que desde a infância Fabian "fora perseguido
por um sentimento de certa presença interna que,
numa maneira que êle não poderia ter descrito, sem-
pre estivera fora do alcance de sua consciência ... "
Eu concluiria que o relógio apresentava determina-
das características da natureza paternal, tais como
a ordem e a seriedade, que comunica ao quarto e,
num sentido mais profundo, ao próprio Fabian; em
outras palavras, o relógio representa o pai bom inter-
nalizado a quem êle deseja sentir sempre presente.
Esse aspecto do superego, que se liga à atitude estri-
94
tamente moral e ordeira da mãe, contrasta com às
paixões do pai e sua vida "alegre", de que o tique-
taque do relógio também lembra a Fabian. Êle se
identifica com esse ângulo frívolo, igualmente, como
se vê do seu dedicar tanta atenção às conquistas de
mulheres - embora tais êxitos não lhe proporcionem
grande satisfação.
Outro aspecto do pai internalizado, no entanto,
surge sob a forma do Demónio, pois lemos que quan-
do o Diabo está a caminho dele Fabian ouve passos
ressoando nas escadas: 11 êle começou a sentir aque-
las pisadas sombrias como uma pulsação latejando
em suas têmporas. 11 Um pouco depois, quando face
a face com o Demónio, parece-lhe que 11 a figura dian-
te dele continuaria crescendo e crescendo até esten-
der-se como treva invadindo todo o quarto". Isto,
a meu ver, expressa a internalização do Demónio ( o
pai mau), indicando a escuridão também o terror que
sente por haver incorporado um objeto tão sinistro.
Numa passagem ulterior, quando Fabian viaja de
carruagem com o Demónio, adormece e sonha "que
seu companheiro empurrou o assento para junto de-
le" e que sua voz "parecia envolvê-lo, paralisando-
lhe os braços e sufocando-o com o seu fluxo oleoso".
Vejo nisso o medo de Fabian do objeto mau introdu-
zindo-se nele. Em minhas "Notas Sobre Alguns Me-
canismos Esquizóides 11 , descrevi tais temores como
consequência do impulso de se introduzir em outra
pessoa, isto é, da identificação projetiva. O objeto ex-
terno que se introduz dentro do eu e o objeto mau
que foi introjetado têm muito em comum; essas duas
ansiedades se mostram intimamente ligadas e capa-
zes de se reforçarem mutuamente. Essa relação com o
Demónio, repete, a meu ver, os sentimentos primiti-

95
vos de Fabian a respeito de um aspecto de seu pai -•
o pai sedutor vivenciado como mau. Por outro lado,
pode-se ver o componente moral de seus objetos in-
ternalizados no des~rezo ascético do Demónio pelos
"desejos da carne". 3 Esse aspecto foi influenciado
pela identificação de Fabian com a mãe moral e ascé-
tica, representando assim o Demónio simultaneamen-
te ambos os pais.
Indiquei alguns aspectos do pai que Fabian tinha
internalizado. A incompatibilidade de tais aspectos
constituia uma fonte de interminável conflito nele,
acrescida pelo verdadeiro conflito entre seus pais e
que se perpetuara por sua internalização dos genito-
res em seu infeliz relacionamento mútuo. As várias
maneiras pelas quais êle se identificou com a mãe não
foram menos complexas, como espero demonstrar.
A perseguição e a depressão oriundas dessas relações
internas muito contribuíram para a solidão de Fa-
bian, seus estados de espírito irrequietos e seu an-
seio de escapar do seu odiado eu". O escritor cita em
seu prefácio os versos de Milton "Tu te tornaste sim
(ó pior das prisões) o Cárcere de ti mesmo".
13 As características várias e contraditórias - tanto as ideais
como as más - de que o pai e a mãe dotados, constituem um
traço familiar do desenvolvimento das relações de objeto da
criança. De modo semelhante, tais atitudes conflitivas tam-
bém se atribuem às figuras internalizadas, das quais algumas
formam o superego.
14 Já tive ocasião de sugerir ("Notes on Some Schizoid Me-
chanisms") que a identificação projetiva surge durante a po-
sição esquizoparanóide que se caracteriza Reios processos de
divisão. Ressaltei acima que a depressão de Fabian e seu sen-
timento de inutilidade deram um ímpeto a mais a sua neces-
sidade de escapar de seu eu. A voracidade e a negação intensi-
ficadas que caracterizam as defesas maníacas contra a depres-
são constituem, juntamente com a inveja, também importante
fator nas identificações projetivas.

96
Certa noite, quando Fabian perambulava sem
rumo pelas ruas, a ideia de voltar a seus aposentos
enche-o de horror. Êle sabe que aí só vai encontrar
a si; nem pode refugiar-se num novo caso amoroso,
pois compreende que novamente, como de costume,
logo se cansaria dele. Imagina por que seria tão di-
fícil de se contentar e recorda que alguém lhe havia
dito que o que êle desejava era uma "estátua de mar-
fim e ouro"; pensa que esse excesso de fastio poderia
ser uma herança do pai (o tema de Don Juan). Anseia
escapar de si, mesmo por uma hora, para livrar-se
das "contradições intermináveis" que se desenrolam
dentro dele. Poderia parecer que seus objetos inter-
nalizados lhe faziam exigências incompatíveis e que
estas eram "as contradições intermináveis" pelas
quais êle se sentia tão perseguido. 15
Êle não só odeia seus perseguidores internos
como também se sente inútil porque contém tais ob-
jetos maus. Isto é um corolário do sentimento de cul-
pa; é que êle percebe que seus impulsos e fantasias
agressivos transformaram os pais em perseguidores
retaliatórios ou os destruíram. Assim, o ódio de si,
embora dirigido contra os objetos maus internaliza-
dos, em última análise concentra-se sobre os impul-

is Em The Ego anã the lã (1923) S. E. XIX, escreve Freud


(pág. 3_0):_ "Se elas (as identificações de objetos) alcançarem
a supenondade e se tornarem excessivamente numerosas, mlil-
to intensas e incompatíveis umas com as outras, não estará
longe um desfecho patolóiico. Isto poderá resultar numa rup-
tura do ego em consequencia de ficarem separadas as várias
identific~oes pelas resistências: talvez o segredo dos casos do
que se descreve como "personalidade múltipfa" seja que as vá-
nas identificações se apoderem, por sua vez, da consciência.
Mesmo quando as coisas não chegam até a esse extremo, per-
manece a questão de conflitos entre as várias identificações
nas quais o ego se divide, conflitos que não podem, afinal/ser
descntos como inteiramente patológicos".

97
sos do indivíduo que os vivencia como tendo sido e
ainda vão ser destruidores e perigosos para o ego e
seus objetos bons.
A voracidade, a inveja, e o ódio, os agentes mo-
tores das fantasias agressivas, são traços dominan-
tes do caráter de Fabian, e o escritor nos mostra que
essas emoções forçam Fabian a se apoderar dos bens
de outras pessoas, tanto materiais como espirituais;
eles o impelem irresistivelmente para o que descrevi
como identificações projetivas. Em certa passagem,
quando Fabian já tinha feito o pacto com o Demó-
nio e estava prestes a experimentar seu novo poder,
exclama: "Humanidade, a grande taça da qual bre-
vemente beberei!" Isto sugere o desejo voraz de be-
ber de um seio inexaurível. Podemos supor que essas
emoções e as identificações vorazes pela introjeção
e projeção foram primeiro experimentadas nas rela-
ções de Fabian com seus objetos primitivos, a mãe
e o pai. Minha experiência analítica demonstra-me
que os processos de introjeção e projeção na vida
ulterior repetem em certa medida o modelo das in-
trojeções e projeções mais primitivas; o mundo ex-
terno é cada vez mais incorporado e expelido - re-
introjetado e reprojetado. A voracidade de Fabian,
como se pode depreender da história, é reforçada
pelo ódio de si mesmo e o anseio de escapar à sua
personalidade.

II

Minha interpretação do romance implica que o


escritor apresentou aspectos fundamentais da vida
emocional em dois planos; as experiências do bebé e

98
influência delas sobre a vida do adulto. Nas últimas
páginas abordei algumas das emoções, ansiedades,
introjeções e projeções infantis que tomei como sub-
jacentes ao caráter e experiências de Fabian quando
adulto.
Fundamentarei tais hipóteses lembrando alguns
outros episódios que não mencionei no relato do ro-
mance. Ao reunir os vários incidentes por esse ângu-
lo particular, não seguirei a ordem cronológica nem
do livro nem do desenvolvimento de Fabian. Estou
antes considerando-os como a expressão de certos
aspectos do desenvolvimento infantil, e temos que
nos lembrar que principalmente na infância, as ex-
periências emocionais não são apenas consecutivas
mas, em grande escala, simultâneas.
Há um interlúdio no romance que me parece de
importância fundamental para a compreensão do
desenvolvimento primitivo de Fabian. Fabian-Fru-
ges foi dormir muito deprimido com sua pobreza,
sua incapacidade e cheio de temor de que não pu-
desse transformar-se em ninguém mais. Ao despertar,
vê que a manhã está brilhante e ensolarada. Veste-
se com mais apuro do que de costume, sai e sentado
ao sol fica num estado de exaltação. Todos os rostos
a sua volta lhe parecem belos. Também pensa que
nessa admiração da beleza não existe qualquer "co-
biça lúbrica tão propenso a contaminar mesmo seus
momentos de contemplação realmente séria; ao con-
trário, simplesmente admirava com um toque de res-
peito quase religioso". Contudo, logo sente fome por-
que não tomara o café da manhã e a isto atribui li-
geira tontura que experimenta junto com a esperan-
ça e exaltação. Compreende, todavia, que este esta-
do de felicidade é também perigoso de vez que deve

99
incitá-lo à ação a fim de transformá-lo em outrem;
mas antes êle é impelido pela fome a procurar ali-
menta. 16 V a1. a uma pa dana
. para comprar um pao. -
O próprio cheiro da farinha e do pão quente sempre
faz Fruges recordar-se das férias de sua infância no
interior, numa casa cheia de crianças. Acredito que
toda a loja transforma-se em sua mente na mãe nutri-
ria. Êle fica absorto ao contemplar a grande cesta
de pães frescos e estende a mão em direção a eles
quando ouve a voz de uma mulher perguntando-lhe
o que deseja. Nisto se sobressalta "como um sonâm-
bulo que subitamente tivesse sido despertado". Ela
também tem um odor muito bom - "como um trigal"
- e deseja tocá-la, e êle se surpreende de temer fa-
zê-lo. Encanta-se com sua beleza e sente que por cau-
sa dela, poderia renunciar a todas as suas convicções
e esperanças. Acompanhando deliciado todos os seus
movimentos quando ela lhe entrega o pão, detem-se
sobre seus seios, cujos contornos êle vislumbra sob
a roupa. A brancura de sua pele embriaga-o e êle se
enche de um irresistível desejo de envolvê-la em seus
braços. Tão logo deixa a loja êle é invadido pela tris-
teza. Subitamente experimenta forte impulso de lan-
çar o pão ao solo e pisá-lo com "seus negros sapatos
reluzentes... de maneira a insultar a natureza sa-
grada do pão". A seguir recorda-se de que a mulher
tocou-o e "numa paixão de desejo frustrado morde
furiosamente a parte mais grossa do pão". Ataca
mesmo seus restos, esmagando-os no bolso, e ao mes-
mo tempo sente uma migalha arranhando-lhe a gar-

16 Esse estado de exaltação, a meu ver, compara-se à aluci-


nação da realização de desejos (Freud),1 que a criança sob a
pressão da _realidade, em particular da rome, não podem man-
ter por muito tempo.

100
ganta, como uma pedra. Sente-se angustiado. "Algo
batia e palpitava como um segundo coração logo aci-
ma do estômago, mas algo volumoso e pesado." Ao
pensar novamente na mulher conclui com amargura
que nunca tinha sido amado. Todos os seus casos com
moças tinham sido sórdidos e êle nunca encontrara
numa mulher "aquela plenitude de seios nos quais
só em pensar agora o torturava com sua imagem per-
sistente". Decide retornar à loja para pelo menos
olhá-la outra vez, pois seus desejos lhe parecem
"queimá-lo". Êle a considera ainda mais desejável e
sente que olhá-la é como se fosse tocá-la. Vê então
um homem conversando com ela, com a mão afetuo-
samente em seu braço "branco como leite". A mu-
lher sorri para o homem, e eles discutem planos para
a noite. Fabian-Fruges está certo de que jamais es-
quecerá esta cena, "estando todos os detalhes impreg-
nados de trágica importância". As palavras que o
homem dissera a ela ainda lhe ressoam nos ouvidos.
E não pode "sufocar o som daquela voz que ainda
continua a falar dentro dele." Desesperado cobre os
olhos com as mãos. Não consegue recordar ocasião
alguma em que tenha sofrido ardentemente tais de-
sejos.
Vejo nos pormenores desse episódio o desejo po-
derosamente revivido de Fabian pelo seio da mãe,
com a frustração e ódio resultantes; seu desejo de
pisar o pão com os sapatos pretos expressa seus ata-
ques sádico-anais e seu morder furiosamente o pão,
o seu canibalismo e seus impulsos sádico-orais. Toda
a situação parece internalizada e todas as suas emo-
ções, com o desapontamento e ataques resultantes,
também se aplicam à mãe internalizada. Isso é de-
monstrado por Fabian-Fruges ao esmagar furiosa-

101
mente os resíduos do pão no bolso, e pelo seu senti-
mento de que aquela migalha arranhava como uma
pedra sua garganta e (logo depois) que um segundo
coração mais volumoso palpitava dentro dele, sobre
seu estômago. Nesse mesmo episódio a frustração
experimentada ao seio e na relação mais primitiva
com a mãe parece intimamente ligada à rivalidade
com o pai. Isto representa uma situação muito pri-
mitiva em que o bebé, privado do seio da mãe, sente
que alguém mais, principalmente o pai, levou-o para
si e o desfruta - uma situação de inveja e ciúme que
me parece parte dos estágios mais primitivos do com-
plexo de Edipo. Também aqui o arrebatado ciúme
de Fabian-Fruges pelo homem que êle acredita pos-
suir à noite a mulher da loja se refere também a
uma situação interna; pois sente poder ouvir dentro
de si a voz do homem falando com a mulher. Eu
concluiria que o incidente que êle presenciou sob tão
intensas emoções representa a cena primária que
internalizou no passado. Quando, nesse estado emo-
cional, cobre os olhos com as mãos êle, a meu ver,
revive o desejo da criancinha de nunca ter visto e
nem incorporado a cena primária.
A parte seguinte desse capítulo trata do senti-
mento de culpa de Fabian-Fruges quanto a seus de-
sejos que êle teme venham destruir "como o fogo
consome o lixo." Entra numa igreja e apenas verifica
que não há água benta na pia, que está "inteira-
mente seca", e fica bastante indignado quanto a se-
melhante negligência dos deveres religiosos. Ajoe-
lha-se num estado de depressão e pensa que seria
necessário um milagre para aliviar-lhe a culpa e a
tristeza e solucionar seus conflitos quanto à religião
que ressurgiram nesse momento. Logo suas queixas

102
e acusações se voltam contra Deus. Por que Êle o
criara "tão doente e imundo como um rato envene-
nado?" Em seguida, recorda-se de um velho livro
sobre as inúmeras almas que poderiam ter chegado
a viver mas que não nasceram. Isso foi assim uma
questão de escolha de Deus, e tal pensamento o con-
forta. Torna-se mesmo exaltado porque está vivo e
"coloca as mãos sobre o peito para se assegurar de
que seu coração ainda pulsa." A seguir, pensa que
essas são ideias infantis, mas conclui que "a própria
verdade" é "a concepção de uma criança". Logo de-
pois acende velas votivas em todos os pontos vagos
do altar. Uma voz interna tenta-o novamente, dizen-
do o quanto seria belo ver a mulher da loja à luz de
todas aquelas pequenas velas.
Minha conclusão é que sua culpa e desespero se
relacionam com a destruição fantasiada da mãe ex-
terna e interna e seus seios, e a rivalidade assassina
com o pai, isto é, com o sentimento de que seus obje-
tos bons internos e externos foram destruídos por
êle. Essa ansiedade depressiva ligava-se a uma perse-
cutória. É que Deus, representando o pai, fora acusa-
do de tê-lo feito uma criatura má e envenenada. Êle
oscila entre essa acusação e um sentimento de satis-
fação por ter sido criado de preferência às almas não
nascidas e por estar vivo. Sugiro que as almas que
nunca nasceram representam os irmãos e irmãs não
nascidos de Fabian. O fato de êle ser filho único foi
causa tanto de culpa - visto que foi escolhido para
nascer, enquanto os outros não o foram - como de
satisfação e gratidão para com o pai. A ideia religio-
sa de que a verdade é "a concepção de uma criança"
assume assim outro significado. O maior ato da cria-
ção é criar uma criança, pois isto significa perpetuar

103
a vida. Julgo que quando Fabian-Fruges põe velas
em todos os pontos vazios do altar e as acende, isto
significa engravidar a mãe e dar vida aos bebés não
nascidos. O desejo de ver a mulher da loja à luz
das velas expressaria assim o desejo de vê-la grávida
com todos os filhos que êle lhe daria. Aqui encon-
tramos o desejo incestuoso "pecaminoso" pela mãe
bem como a tendência para a reparação devolvendo-
lhe todos os bebés que êle tinha destruído. Nesse
sentido, sua indignação a respeito da pia "inteira-
mente seca" não tem apenas uma base religiosa. Ve-
jo nela a ansiedade da criança a respeito da mãe
frustrada e abandonada pelo pai, ao invés de ser ama-
da e engravidada por êle. Tal ansiedade é particular-
mente intensa nas crianças muito pequenas e que são
filhos únicos, porque a realidade de que nenhuma
outra criança nascera parece confirmar o sentimento
de culpa de que impediram as relações sexuais dos
pais, a gravidez da mãe e a chegada de outros bebés
pelo ódio e pelo ciúme e por ataques ao corpo da
mãe. 17 Uma vez que suponho que Fabian-Fruges ex-
pressara sua destruição do seio da mãe ao atacar o
pão que a mulher da loja lhe vendeu, concluo que a
pia "inteiramente seca" também representa o seio
esvaziado e destruído pela sua voracidade infantil

1T Abordo aqui uma das causas essenciais para a culpa e a in-


felicidade da mente infantil. A criança em idade muito tenra
sente que seus impulsos e fantasias sádicos são onipotentes e
por conseguinte, tiveram, têm e terão consequências. Ela se
sente de modo semelhante quanto a seus desejos e fantasias
de reparação, mas aparece que com frequência a convicção de
seus poderes de destruição ultrapassa de muito a confiança em
sua capacidade construtiva.

104
Ili

É significativo que o primeiro encontro de Fa-


bian com o demónio ocorra quando se sente intensa-
mente frustrado porque a mãe, que insistiu para
que êle comungasse no dia seguinte, o havia assim
impedido de ter um novo caso amoroso naquela noi-
te; e quando Fabian se rebela e realmente vai en-
contrar-se com a moça, ela não aparece. Naquele mo-
mento entra o Demónio; êle representa nesse con-
texto, a meu ver, os impulsos perigosos que são es-
timulados na criancinha quando a mãe a frustra.
Nesse sentido, o Demónio é a personificação dos im-
pulsos destrutivos do bebé.
Isto, contudo, apenas aborda um aspecto da re-
lação complexa com a mãe, um aspecto ilustrado
por Fabian tentando projetar-se dentro do garçom
que lhe traz o frugal café da manhã (no romance,
sua primeira tentativa de assumir a personalidade
de outro homem). Os processos projetivos dominados
pela voracidade fazem, como repetidamente tenho
observado, parte da relação do bebé com a mãe, mas
são particularmente intensos quando a frustração é
frequente. 18 A frustração reforça tanto o desejo vo-
raz de gratificação ilimitada como os desejos de es-
vaziar o seio e de entrar no corpo da mãe de maneira
a obter à força a gratificação que ela retém. Vimos
na relação com a mulher da loja os desejos impe-
tuosos de Fabian-Fruges pelo seio e o ódio que a frus-
tração despertou nele. O todo do caráter de Fabian e
seus fortes sentimentos de ressentimento e privação
is Conforme ressaltei em várias conexões, a necessidade da
identificação projetiva provém não só da voracidade como de
várias causas.

105
sustentam a hipótese de que ele se sentira muito
frustrado na sua relação alimentar mais primitiva.
Tais sentimentos seriam revividos em relação ao gar-
çom se êle representar um aspecto da mãe - a mãe
que o alimentou mas realmente não o satisfez. A
tentativa de Fabian de transformar-se no garçom re-
presentaria assim um reviver do desejo de se intro-
duzir na mãe de maneira a roubá-la e por conseguin-
te obter mais alimento e satisfação. É também signi-
ficativo que o garçom - o primeiro objeto em quem
Fabian pretendia transformar-se - seja a única pes-
soa cuja permissão êle solicita (permissão que o
garçom recusa). Isto implicaria que a culpa tão niti-
damente expressa na relação com a mulher da loja
está ainda presente na relação com o garçom. 19
No episódio com a mulher da loja, Fabian-Fruges
experimenta toda a gama de emoções em relação à
mãe, isto é, desejos orais, frustração,, ansiedades,
culpa e a necessidade de reparar; êle também revive
o desenvolvimento do seu complexo de Édipo. A com-
binação de desejos físicos apaixonados, de afeição e
de admiração indica que houve época em que a mãe
de Fabian representou para êle tanto a mãe em re-
lação a quem êle experimenta desejos orais e geni-
tais quanto a mãe ideal, a mulher que seria vista à
luz das velas votivas, isto é, seria venerada. É ver-
dade que êle não consegue êxito nesse culto na igre-
ja, de vez que percebe não poder refrear seus dese-

19 Ao formular essa interpretação, me dou conta de que esta


não é a única linha em que esse episódio poderia ser explicado.
O garçom também poderia ser encarado como o pai que não
satisfazia suas expectativas orais; e o episódio da mulher da
loja significaria assim mais um passo atrás na direção do re-
lacionamento materno com todos os seus desejos e desaponta-
mentos.

106
jos. Não obstante, às vezes ela representa a mãe ideal
que não devia ter vida sexual.
Em contraste com a mãe que deve ser idolatrada
como a Madona, há outro aspecto dela. Considero a
transformação no assassino Esménard como uma ex-
pressão dos impulsos infantis de assassinar a mãe,
cuja relação sexual com o pai não só vivida como
uma traição ao amor do bebe por ela, mas inteira-
mente sentida como má e indigna. Esse sentimento
está subjacente à equivalência inconsciente entre a
mãe e a prostituta, característica da adolescência.
Berthe, que é evidentemente considerada uma mu-
lher promíscua, aproxima-se na mente de Fabian-
Esménard do tipo da prostituta. Outro exemplo da
mãe como uma figura sexual má é a velha da loja
sombria, que vende cartões postais obscenos ocultos
por trás de outros artigos. Fabian-Fruges experi-
menta repulsa e prazer ao contemplar quadros obs-
cenos, e também se sente perseguido pelo ruído da
estante giratória. Creio que isto expressa o desejo
do bebé de vigiar e ouvir a cena primária assim como
sua repulsa contra tais desejos. A culpa ligada a tais
observações concretas ou fantasiadas, nas quais os
sons ouvidos frequentemente desempenham um pa-
pel, deriva-se de impulsos sádicos contra os pais nes-
sa situação e também se relaciona com a masturba-
ção que amiúde acompanha tais fantasias sádicas.
Outra figura que representa a mãe má é a em-
pregada da casa de Camille, que é uma velha hipócri-
ta, tramando com o tio mau contra os jovens. A pró-
pria mãe de Fabian é vista sob uma luz semelhante
quando insiste em que êle vá se confessar. É que Fa-
bian mostra-se hostil ao padre confessor e odeia con-

107
fossar-lhe os pecados. A exigência da mãe está, por-
tanto, fadada a representar para êle uma conspiração
entre os pais, aliada contra os desejos agressivos e
sexuais da criança. A relação de Fabian com a mãe,
representada por essas várias figuras, mostra tanto a
desvalorização e o ódio, quanto a idealização.

IV

Há apenas alguns indícios acerca da relação pri-


mitiva de Fabian com o pai, mas são significativos.
Ao falar das identificações introjetivas de Fabian, su-
geri que seu intenso apego ao relógio do pai e os
pensamentos que nele despertava quanto à vida do
pai e seu fim prematuro demonstravam amor e sim-
patia pelo pai e tristeza pela sua morte. Quanto às
observações do escritor de que Fabian desde a in-
fância "fora perseguido pelo sentimento de certa pre-
sença interior. .. " concluí que essa presença interior
representava o pai internalizado.
Acredito que o anseio de compensar a morte pre-
matura do pai e, em certo sentido, conservá-lo vivo,
muito contribuiu para o desejo impetuoso e voraz de
Fabian de viver a vida plenamente. Diria que êle
também foi voraz por amor ao pai. Por outro lado,
em sua busca incansável de mulheres e desprezo pela
saúde, Fabian também reviveu o destino do pai que
se presumia ter morrido prematuramente como re-
sultado de sua vida dissoluta. Tal identificação foi
reforçada pela saúde precária de Fabian, pois êle
tinha a mesma doença cardíaca de que o pai sofrera
e muitas vezes fora advertido a não praticar exces-

108
sos. 20 Pareceria por conseguinte que em Fabian um
impulso no sentido de provocar a morte estava em
conflito com uma necessidade voraz de prolongar a
vida e, portanto, a vida do pai internalizado, pene-
trando em outras pessoas e concretamente rouban-
do-lhes as vidas. Esta luta interior entre a busca da
morte e o combate a ela fazia parte do seu estado
mental instável e irrequieto.
A relação de Fabian com o pai internalizado con-
centrava-se, como acabamos de ver, na necessidade
de prolongar a vida do pai e na de revivê-lo. Dese-
jo mencionar outro aspecto do pai interno morto. A
culpa que se relaciona com a morte do pai - resul-
tante dos desejos de morte contra êle tende a trans-
formar o pai morto internalizado num perseguidor.
Há um episódio no romance de Green que mostra a
relação de Fabian com a morte e com os mortos. An-
tes de Fabian fazer o pacto, o Demónio leva-o à noi-
te numa excursão a uma casa sinistra, onde se acha
reunido estranho grupo. Fabian verifica ser o centro
de intensa atenção e inveja. O que invejam nele é
indicado pelos murmúrios, "É pelo dom ... 11 O
"dom", como sabemos, é a fórmula mágica do de-
mónio que dará a Fabian o poder de transformar-se
em outras pessoas e, como lhe parece, prolongar-lhe
a vida indefinidamente. Fabian é bem acolhido pelo
"subalterno" do Diabo, um aspecto muito sedutor
do Demónio, sucumbe ao seu encanto e se deixa per-
suadir a aceitar o "dom 11 • Parece que as pessoas reu-
nidas visam representar os espíritos dos mortos que
não receberam o "dom" ou deixaram de utilizá-lo
bem. O "subalterno" do Demónio refere-se a elas

20 Isto constitui um exemplo da influência mútua dos fatôres


fisicos (possivelmente herdados) e dos emocionais.

109
com desprezo, dando a impressão de que foram in-
capazes de viver plenamente suas vidas; talvez as
menospreze porque se venderam ao Demónio, e em
vão. A conclusão provável é que essas pessoas insa-
tisfeitas e invejosas também representam o pai mor-
to de Fabian, porque Fabian teria atribuído ao pai
- que de fato desperdiçara a vida - tais sentimentos
de inveja e voracidade. Sua ansiedade corresponden-
te, temendo que o pai internalizado desejasse exaurir-
lhe a vida, somou-se tanto à necessidade de Fabian
de escapar ao seu eu e quanto ao seu desejo voraz
(numa identificação com o pai) de roubar as vidas
de outras pessoas.
A perda prematura do pai muito contribuiu para
sua depressão, mas as raízes dessas ansiedades po-
dem ser encontradas novamente em sua infância, pois
se presumirmos que a intensa emoção de Fabian em
relação ao amante da mulher da loja é a repetição
de seus primeiros sentimentos edipianos, chegaríamos
à conclusão de que êle experimentou fortes desejos
de morte contra o pai. Como sabemos, os desejos de
morte e o ódio contra o pai como um rival conduzem
não somente à ansiedade persecutória como também
- porque entram em conflito com o amor e a com-
paixão - a graves sentimentos de culpa e depressão
na criancinha. É significativo que Fabian, que possui
o poder de transformar-se em qualquer pessoa que
êle deseje, nunca pensou sequer em transformar-se
no invejado amante da mulher que êle admira. Pare-
ce que se houvesse efetivado semelhante transfor-
mação, teria sentido que usurpava o lugar do pai e
dava livre curso a seu ódio assassino em relação a
êle. Tanto o temor ao pai como o conflito entre o
amor e o ódio, isto é, do mesmo modo que a ansie-
110
dade persecutória e a depressiva tê-lo-iam obrigado
a recuar de uma expressão tão ostensiva de seus de-
sejos edipianos. Já descrevi suas atitudes conflitivas
em relação à mãe - de novo um conflito entre o
amor e o ódio - que contribuíram para o seu afastar-
se dela como objeto de amor e para reprimir seus
sentimentos edipianos.
As dificuldades de Fabian em relação ao pai têm
que ser consideradas em conexão com sua voracida-
de, sua inveja e seu ciúme. O seu transformar-se em
Poujars é motivado por voracidade, inveja e ódio
violento, tal como a criança os experimenta em re-
lação ao pai que é adulto e potente e que, na fanta-
sia da criança, possui tudo porque possui a mãe.
Referi-me à descrição que o escritor faz da inveja
de Fabian por Poujars nestas palavras: "Ah! o sol.
Amiúde lhe parecia que o senhor Poujars o conserva-
va oculto no bolso. "21
A inveja e o ciúme, reforçados pelas frustrações,
contribuem para a sensação de mágoa e de ressenti-
mento do bebé contra os pais e estimulam o desejo
de inverter os papéis e despojar a eles. Da atitude
de Fabian, quando trocou de lugar com Poujars e
contempla com um misto de desprezo e piedade a seu
antigo eu antipático, deduzimos o quanto se alegra
de ter invertido os papéis. Outra situação na qual
Fabian castiga uma figura de pai mau surge quando
zí Um dos significados do sol no bolso pode ser a mãe boa a
guem o pai carrega dentro de si. E que a criancinha, con-
forme acentuei anferiormente, sente que quando se acha pri-
vada do seio da mãe é o pai que o receoe. O sentimento de
que o pai contém a mãe boa, roubando-a assim do bebé, suscita
a inveJa e a voracidade e também constitui importante estí-
mulo a homossexualidade.

111
é Fabian-Camille: ele insulta e enraivece o velho tio
de Camille antes de abandonar a casa.
Na relação de Fabian com o pai, como na rela-
ção com a mãe, podemos perceber o processo de idea-
lização e seu corolário, o medo dos objetos persecutó-
rios. Isto se torna claro quando Fabian se transfor-
mou em Fruges cuja luta interior entre seu amor a
Deus e a atração pelo Demónio é muito aguda; Deus
e o Diabo nitidamente representam o pai ideal e o pai
inteiramente mau. A atitude ambivalente em relação
ao pai também se demonstra quando Fabian-Fruges
acusa Deus (o pai) de tê-lo criado como um ser tão
mal dotado: contudo, experimenta gratidão por lhe
haver Êle lhe dado a vida. Dessas indicações con-
cluo que Fabian sempre esteve em busca do pai ideal
e que isto constituiu um forte estímulo para suas
identificações projetivas. Mas em sua busca do pai
ideal êle falha: está destinado a falhar porque é im-
pelido pela voracidade e pela inveja. Todos os ho-
mens nos quais se transforma passam a ser desprezí-
veis e fracos. Fabian os odeia por desapontá-lo e
exulta com a desgraça de suas vítimas.

Sugeri que algumas das experiências emocionais


que ocorrem durante as transformações de Fabian es-
clarecem seu desenvolvimento mais primitivo. Obte-
mos uma imagem de sua vida sexual adulta pelo pe-
ríodo precedente a seu encontro com o Demónio, isto
é, quando êle é ainda o Fabian original. Já mencionei
que os relacionamentos sexuais de Fabian eram efé-
meros e terminavam em desapontamento. Êle não

112
parecia capaz de verdadeiro amor por uma mulher.
Interpretei o encontro com a mulher da loja como
um reviver de seus sentimentos edipianos primitivos.
A elaboração infeliz desses sentimentos e ansiedades
explica seu desenvolvimento sexual ulterior. Sem
tornar-se impotente, desenvolvera a divisão em duas
tendências, descrita por Freud como "amor sagrado
e profano (ou animal)" .22
Mesmo esse processo de divisão deixou de alcan-
çar seus objetivos, pois na realidade êle jamais en-
controu uma mulher a quem pudesse idealizar mas
que semelhante pessoa existia em sua mente se vê
de seu perguntar-se se a única mulher que pudesse
plenamente satisfazê-lo seria "uma estátua de marfim
e ouro." Como vimos no papel de Fabian-Fruges, ex-
perimentou êle uma admiração apaixonada vizinha
da idealização pela mulher da loja. Estava, eu diria,
inconscientemente buscando a vida inteira a mãe
ideal que havia perdido.
Os episódios nos quais Fabian se transforma no
rico Poujars ou no Esménard fisicamente poderoso,
ou finalmente no homem casado (Camille, que possui
uma bela esposa), sugerem uma identificação com o
pai, baseada no seu desejo de ser como êle e de
tomar-lhe o lugar como homem. No romance não há
nenhum indício de que Fabian seja homossexual.
Encontra-se, contudo, uma indicação de homossexua-
lidade em sua forte atração física pelo "subalterno"
do Demónio - um homem jovem e elegante cuja
persuasão sobrepuja as dúvidas e ansiedades de Fa-
22 "Sobre a Tendência Universal à Depreciação na Esfera do
Amor (Contribuições à Psicologia do Amor II)" (1912) trad.
bras. da S. E. XI da Imago Editora Ltda. Rio de Janeiro 1970,
pág. 159.

113
bian em fazer um pacto com o Demónio. Já me re-
feri ao temor de Fabian do que imagina ser as pro-
postas sexuais do Demónio em relação a êle. Mas o
desejo homossexual de ser amante de seu pai mani-
festa-se mais diretamente em relação a Elise. Sentir-
se atraído por Elise - pelos seus olhos amorosos -
traduzia, como assinala o escritor, uma identificação
com ela. Por um momento êle é tentado a transfor-
mar-se nela, se apenas pudesse ter a certeza de que
o elegante Camille a amaria. Mas êle compreende
que isto não poderia acontecer e decide não se trans-
formar em Elise.
Nesse contexto o amor não correspondido de
Elise parece expressar a situação edipiana invertida
de Fabian. Colocar-se no papel de uma mulher ama-
da pelo pai significaria deslocar ou destruir a mãe
e provocaria intensa culpa; de fato, na história Elise
tem como rival odiada a desagradável mas bela es-
ROSa de Camille - outra figura materna, a meu ver.
É interessante que somente perto do fim Fabian che-
ga a experimentar o desejo de transformar-se em
mulher. Isto poderia estar relacionado ao apareci-
mento de desejos e anseios reprimidos, e portanto
com uma diminuição das intensas defesas contra seus
primitivos impulsos femininos e passivo-homos-
sexuais.
Desse material podem se deduzir algumas con-
clusões sobre as graves deficiências de que sofre
Fabian. Sua relação com a mãe esteve fundamental-
mente perturbada. Ela é segundo sabemos, descrita
como mãe zelosa, voltada sobretudo para o bem-estar
físico e moral do filho, mas incapaz de afeição e ter-
nura. Parece provável que tenha tido com êle a mes-
ma atitude que quando êle era criancinha. Já men-

114
cionei que o caráter de Fabian, a natureza de sua
voracidade, sua inveja e ressentimento, indicam que
suas necessidades orais tinham sido muito grandes
e nunca foram superadas. Podemos supor que tais
sentimentos de frustração se estenderam ao pai; é
que nas fantasias da criancinha, o pai é o segundo
objeto de quem se esperam gratificações orais. Em
outras palavras, o lado positivo da homossexuali-
dade de Fabian também foi perturbado na sua ori-
gem.
O fracasso em modificar os desejos e ansiedades
orais fundamentais tem muitas consequências. Em
última análise, significa que a posição esquizopara-
nóide não foi elaborada com êxito. Julgo que isto
se aplicava a Fabian e portanto êle não lidara ade-
quadamente também com a posição depressiva. Por
essas razões, sua capacidade de reparar fora preju-
dicada e êle não pôde lidar ulteriormente com seus
sentimentos de perseguição e de depressão. Em con-
sequência, suas relações com os pais e com as pes-
soas em geral eram muito insatisfatórias. Tudo isso
implica, conforme minha experiência tem demons-
trado, que êle era incapaz de estabelecer com segu-
. bom, a mae
rança o seio - b oa, em seu mun do mterno
. 23

- uma falha inicial que por sua vez o impediu de


desenvolver intensa identificação com o pai bom. A
excessiva voracidade de Fabian, até certo ponto
oriunda de sua insegurança em relação a seus obje-
tos internos bons, influenciou tanto seus processos
introjetivos como projetivos e - de vez que estamos
23 A internalização segura da mãe boa - um processo de im-
portância fundamental -• varia em grau, e nunca é tão com-
pleta que não possa ser abalada por ansiedades oriundas de
fontes internas ou externas.

115
também examinando o Fabian adulto - os processos
de reintrojeção e reprojeção. Todas essas dificulda-
des contribuíram para sua incapacidade de estabele-
cer uma relação amorosa com uma mulher, ou seja,
para a perturbação do seu desenvolvimento sexual.
A meu ver, êle oscilava entre uma homossexualida-
de intensamente reprimida e uma heterossexualida-
de instável.
Já mencionei grande número de fatôres externos
que desempenharam importante papel no desenvol-
vimento infeliz de Fabian, tais como a morte prema-
tura do pai, a falta de afeto da mãe, sua pobreza, a
natureza insatisfatória de seu trabalho, seu conflito
com a mãe sobre religião e - ponto muito importante
- sua doença física. Desses fatos podemos deduzir
algumas outras conclusões. O casamento dos pais
de Fabian obviamente foi infeliz, conforme é indica-
do pelo pai ao procurar prazeres alhures. A mãe não
era apenas incapaz de demonstrar calor de senti-
mento mas também, como podemos presumir, era
uma mulher infeliz que procurava consolo na reli-
gião. Fabian era filho único e sem dúvida solitário.
O pai morreu quando Fabian ainda estava na escola
e isso privou-o de sua ulterior educação e das pers-
pectivas de uma carreira bem sucedida; também
exerceu o efeito de estimular seus sentimentos de
perseguição e depressão.
Sabemos que todos os acontecimentos desde sua
primeira transformação até sua volta a casa devem
ter acontecido em três dias. Durante esses três dias,
como soubemos no final quando Fabian-Camille rein-
corpora-se ao seu eu anterior, Fabian estivera de
cama, inconsciente, sob os cuidados da mãe. Confor-
me ela lhe diz, êle desmaiara no escritório de seu

116
patrão depois de ter-se comportado mal ali, foi leva-
do para casa e permanecera inconsciente desde então.
Quando êle se refere à visita de Camille, ela pensa
que êle estivera delirando. Acaso pretenderia o autor
fazer-nos pensar que toda a história represente as
fantasias de Fabian durante a moléstia que precedeu
sua morte? Isso implicaria em que todas as perso-
nagens fossem figuras de seu mundo interno e mais
uma vez confirma que a introjeção e a projeção atua-
vam nele na mais íntima interação.

VI

Os processos subjacentes à identificação proJe-


tiva são retratados bem concretamente pelo autor.
Uma parte de Fabian literalmente abandona seu eu
e penetra em sua vítima, acontecimento que em am-
bas as partes se acompanha de intensas sensações fí-
sicas. Sabemos que a parte expelida de Fabian sub-
merge em graus variáveis dentro de seus objetos e
perde as lembranças e características pertencentes ao
Fabian original. Devemos, portanto, concluir (acom-
panhando a concepção muito concreta do processo
projetivo do escritor), que as lembranças de Fabian
e os demais aspectos de sua personalidade são deixa-
dos no Fabian rejeitado que deve ter retido boa par-
te de seu ego quando ocorreu a divisão. Essa parte
de Fabian, adormecida até que os aspectos expeli-
dos de sua personalidade retornem, representa, a meu
ver, aquele componente do ego que os pacientes in-
conscientemente sentem que retiveram enquanto ou-
tras partes são projetadas no mundo externo e per-
didas.

117
Os termos espacial e temporal com os quais o
romancista descreve esses acontecimentos são na
realidade aqueles em que nossos pacientes experi-
mentam tais processos. O sentimento de um paciente
de que não mais comanda partes do seu eu, de que
estão distantes ou que desapareceram de todo é na-
turalmente uma fantasia inerente aos processos de
divisão. Mas tais fantasias têm consequências de
grande alcance e influenciam de modo vital a estru-
tura do ego. Têm o efeito de que as partes do seu eu
das quais êle se sente alienado, amiúde incluindo
suas emoções, não são na época aecessíveis nem ao
analista, nem ao paciente24 • O sentimento de que não
sabe para onde foram suas partes que êle dispersou
pelo mundo externo constitui fonte de grande ansie-
dade e insegurança. 25
Considerarei a seguir as identificações projeti-
vas de Fabian de três ângulos: (l.º) a relação das
24 Há outro lado de tais experiências. Como descreve Paula
Heimann em "A Contribution to the re-evaluation of the
Oedipus complex -• The early stages" (New Directions in
Psycho-Analys1s) Londres, (1955) pág. 240, os sentimentos cons-
cientes de um paciente também pooem expressar seus proces-
sos de divisão.
23 Sugeri em "Mecanismos Ksquizóides" que o temor de ficar
aprisionado dentro da mãe como consequência da identifica-
çao projetiva está subjacente a várias situações de ansiedade
e entre elas a claustrofobia. Acrescentaria agora que a iden-
tificação projetiva pode resultar no temor de gue a parte per-
dida oo eu Jamais seja recuperada porque está enterrada den-
tro do objeto. Na história, Fabian sente - tanto depois de sua
transformação em Poujars como em Fruges - que se encontra
sepultado e nunca mais poderá escapar. Isso implica que êle
morrerá dentro de seus objetos. Há outro ponto que desejo
mencionar aqui: ao lado do temor de ser aprisionado dentro da
mãe, verifiquei que outro fator que contribui para a claustro-
fobia é o medo relacionado ao interior do próprio corpo e aos
rjerigos que ali o ameaçam. Citando novamente os versos de
Milfon: 'Tu te tornaste sim (ó pior das prisões) o Cárcere de
ti mesmo".

118
partes expelidas e projetadas de sua personalidade
com aquelas que êle deixou para trás; (2.º) os moti-
vos subjacentes à escolha de objetos dentro dos
quais se projeta; e (3. 0 ) até que ponto nesses proces-
sos a parte projetada do seu eu se submerge no obje-
to ou o controla.
1. º) A ansiedade de Fabian de que êle irá ten-
tar aliviar seu ego expelindo partes e projetando-as
dentro de outras pessoas se expressa, antes que inicie
suas transformações, pela maneira com que olha suas
roupas amontoadas sem ordem sobre uma cadeira:
"Êle tinha ao olhá-las, uma horrível sensação de que
se via, mas a um eu assassinado, ou de alguma ma-
neira destruído. As mangas vazias do paletó tinham,
pendendo inertes acima do chão, um ar desalentado
de tragédia."
Também sabemos que Fabian, quando se trans-
formou em Poujars (isto é, quando os processos de
divisão e de projeção acabavam de ocorrer), está mui-
to preocupado com sua pessoa anterior. Pensa que
poderia desejar voltar ao seu eu original, e estando,
por conseguinte, ansioso de que Fabian deve ser le-
vado para casa, preenche um cheque em seu favor.
A importância ligada ao nome de Fabian tam-
bém indica que sua identidade estava ligada àque-
las partes suas que foram deixadas para trás e que
elas representavam o núcleo de sua personalidade;
o nome era parte essencial da fórmula mágica e é
significativo que a primeira coisa que lhe ocorre,
quando, sob a influência de Elise, experimenta o an-
seio de readquirir seu antigo eu, é o nome "Fabian".
Penso que os sentimentos de culpa por ter abando-
nado e desertado um componente precioso de sua per-
sonalidade contribuíram para o anseio de Fabian de

119
ser êle próprio novamente - um anseio que irresis-
tivelmente o impeliu para casa no fim do romance.
2. 0 ) A escolha de sua primeira próxima vítima,
o garçom, torna-se facilmente compreensível se pre-
sumirmos, conforme sugeri acima, que êle represen-
tava a mãe de Fabian; é que a mãe constitui o pri-
meiro objeto de identificação da criancinha tanto pela
introjeção como pela projeção.
Alguns dos motivos que impeliram Fabian a pro-
jetar-se em Poujars já foram ventilados; sugeri que
êle desejava transformar-se no pai rico e poderoso,
roubando-o assim de todas as suas posses e punindo-o.
Ao fazê-lo, estava também estimulado por um moti-
vo que nesse contexto desejo ressaltar. Julgo que
os impulsos e fantasias sádicos de Fabian (expressos
no desejo de controlar e punir o pai) eram algo que
êle sentia possuir em comum com Poujars. A cruel-
dade de Poujars, conforme Fabian o julgava, tam-
bém representava a própria crueldade e a ânsia de
poder de Fabian.
O contraste entre Poujars (que afinal se re-
velou doentio e infeliz) e o viril jovem Esménard foi
apenas um fator que contribuiu para a escolha de
Fabian do segundo como objeto de identificação.
Creio que a causa principal da decisão de Fabian de
transformar-se em Esménard, embora êle fosse anti-
pático e repelente, era que Esménard representava
uma parte do eu de Fabian, e que o ódio homicida
que impele Fabian-Esménard a assassinar Berthe é
uma repetição das emoções que Fabian experimentou
na infância em relação à mãe quando esta o frustrou,
conforme êle julgava, oral e genitalmente. O ciúme
de Esménard de qualquer homem a quem Berthe fa-
vorecia renova de forma extrema o complexo de

120
Édipo de Fabian e a intensa rivalidade com o pai.
Essa sua parte potencialmente homicida foi perso-
nificada por Esménard. Transformando-se Fabian
em Esménard, projetou assim dentro de outra pes-
soa e viveu de novo algumas de suas próprias ten-
dências destrutivas. A cumplicidade de Fabian no
assassinato é ressaltada pelo Demónio, que lhe re-
lembra, após sua transformação em Fruges, serem
as mãos que estrangularam Berthe apenas, alguns
minutos antes, as suas próprias.
Chegamos agora à escolha de Fruges. Fabian
tem muito em comum com Fruges, em quem, con-
tudo, tais características são muito mais pronuncia-
das. Fabian se inclina a negar o domínio que a re-
ligião (e que também significa Deus - o pai) exer-
ce sobre êle, e atribui seus conflitos religiosos à in-
fluência da mãe. Os conflitos de Fruges sobre reli-
gião são agudos, e conforme descreve o autor, êle es-
tá plenamente consciente de que a luta entre Deus
e o Demónio domina sua vida. Fruges constantemente
luta contra seus desejos de luxúria e de riqueza; sua
consciência o impele à extrema austeridade. Em Fa-
bian o desejo de ser tão rico quanto as pessoas que
êle inveja é também muito pronunciado, mas êle não
tenta restringi-lo. Os dois também têm em comum
suas buscas intelectuais e uma curiosidade intelectual
muito acentuada.
Essas características comuns predisporiam Fa-
bian a escolher Fruges para a identificação projetiva.
Penso, contudo, que outro motivo entra nessa esco-
lha. O Demónio, desempenhando aqui o papel de
um superego orientador, ajudou Fabian a deixar Es-
ménard e advertiu-o de que evitasse de entrar numa
pessoa em quem êle submergisse tanto que nunca

121
escaparia de novo. Fabian se apavora por ter-se trans-
formado num assassino, que, a meu ver, significa ter
sucumbido a sua parte mais perigosa - aos seus im-
pulsos destrutivos; ele portanto escapa trocando os
papéis com alguém completamente diferente de sua
escolha anterior. Minha experiência tem demonstra-
do que a luta contra uma identificação esmagadora
- seja por introjeção, seja por projeção, muitas
vezes impele as pessoas a identificações com objetos
que revelam características opostas. (Outra conse-
quência de tal luta é uma fuga indiscriminada para
dentro de uma multiplicidade de outras identifica-
ções e flutuações entre elas. Tais conflitos e ansie-
dades amiúde se perpetuam, e enfraquecem ainda
mais o ego.)
A escolha seguinte de Fabian, Camille, dificil-
mente teria algo em comum com êle. Mas através
de Camille, assim parece, Fabian identifica-se com
Elise, a moça que está perdidamente apaixonada por
Camille. Como observamos, Elise representava o la-
do feminino de Fabian e os sentimentos dela por
Camille seu amor homossexual irrealizado pelo pai.
Ao mesmo tempo, Elise também representava a par-
te boa de seu eu que era capaz de ter anseios e amar.
A meu ver, o amor infantil de Fabian pelo pai, vin-
culado como estava aos seus desejos homossexuais e
a sua posição feminina, tinha sido perturbado na
base. Também frisei que êle era incapaz de transfor-
mar-se numa mulher porque isto teria representado
uma realização dos desejos femininos profundamente
reprimidos na relação edipiana invertida com o pai.
(Não estou tratando neste contexto de outros fatô-
res que impedem a identificação feminina, principal-
mente o medo da castração.) Com o despertar da ca-

122
pacidade para amar, Fabian pode identificar-se com
a infeliz paixão de Elise por Camille; a meu ver êle
também torna-se capaz de experimentar amor e de-
sejos pelo pai. Concluiria que Elise veio representar
uma parte boa do seu eu.
Além disso, eu sugeriria que Elise também re-
presenta uma irmã imaginária. É bem sabido que
as crianças têm companheiros imaginários. Eles re-
presentam, principalmente na vida de fantasia do
filho único, irmãos ou irmãs mais velhos ou mais
jovens, ou um gémeo, que nunca nasceram. Pode-se
admitir que Fabian, que era filho único, muito teria
ganho com a companhia de urna irmã. Tal relação
também o teria ajudado mais a elaborar o seu com-
plexo de Édipo e a adquirir mais independência da
mãe. Na família de Camille, tal relação realmente
existe entre Elise e o irmão mais moço de Camille.
Devemos lembrar aqui que os esmagadores sen-
timentos de culpa de Fabian-Fruges, na igreja, pa-
reciam relacionar-se a ter sido êle escolhido, em lu-
gar de outras almas que nunca chegaram a viver.
Interpretei o seu acender velas votivas e seu ima-
ginar a mulher da loja por elas rodeada como uma
idealização dela (a mãe como santa) e uma expressão
do seu desejo de reparar trazendo à vida os irmãos
e irmãs não nascidos. Principalmente os filhos mais
novos e os filhos únicos amiúde experimentam inten-
so sentimento de culpa por sentirem que seus impul-
sos de ciúme e de agressão impediram a mãe de dar
à luz nenhum outro filho. Tal sentimento também
se liga a temores de retaliação e perseguição. Tenho
repetidamente verificado que o temor e a suspeita
de colegas de escola ou de outras crianças ligavam-
se a fantasias que os irmãos e irmãs não nascidos ti-

123
nham afinal nascido e eram representados por quais-
quer crianças que pareciam ser hostis. O anseio por
irmãos e irmãs amistosos é acentuadamente influen-
ciado por semelhantes ansiedades.
Até aqui não discuti por que Fabian escolheu,
em primeiro lugar, identificar-se com o Demónio -
fato sobre o qual se baseia o enredo. Frisei anterior-
mente que o Demónio representava o pai sedutor e
perigoso; êle também representava partes da mente
de Fabian, o superego e tanto quanto o id. No ro-
mance, o Demónio não sente preocupação pelas suas
vítimas; extremamente voraz e implacável, êle pa-
rece o protótipo de identificações projetivas hostis e
más que, no romance, se descrevem como intrusões
violentas nas pessoas. Diria que êle mostra de forma
extremada aquele componente da vida emocional
infantil que é dominada pela onipotência, peia vora-
cidade e pelo sadismo, e são essas as características
que Fabian e o Demónio têm em comum. Portanto,
Fabian identifica-se com o Demónio e executa todas
as suas ordens.
É significativo - e penso expressar um aspecto
importante da identificação - que ao transformar-se
numa nova pessoa Fabian, em certa medida, conserva
suas identificações projetivas anteriores. Isso se de-
monstra pelo forte interesse - um interesse mescla-
do de desprezo - que Fabian-Fruges manifesta pelo
destino de suas antigas vítimas, e também em seu
sentimento de que, afinal de contas, êle é responsá-
vel pelo assassinato que perpetrou como Esménard.
Isso se revela com o máximo de clareza no final da
historia, pois suas experiências na pele das persona-
gens em quem êle se transformou estão todas pre-
sentes em sua mente antes de morrer e êle se preo-

124
cupa com o destino delas. Isto implicaria que êle in-
troj eta seus objetos bem como se projeta neles -
conclusão que está em harmonia com o meu ponto de
vista reafirmado na introdução a este capítulo de
que a projeção e a introjeção interatuam desde o iní-
cio da vida.
Ao isolar um motivo importante para a escolha
de objetos para a identificação descrevi, com a fi-
nalidade de apresentação, que isto ocorre em duas fa-
ses: (a) há certa base comum, (b) ocorre a identifica-
ção. Mas o processo, como o examinamos em nosso
trabalho analítico, não é tão dividido, de ver que o
indivíduo, para sentir que êle tem muito em comum
com outra pessoa, contribui com projetar-se naquela
pessoa ( e o mesmo se aplica ao introjetá-la). Esses
processos variam em intensidade e duração e de tais
variações dependem o vigor e a importância de se-
melhantes identificações e suas vicissitudes. Nesse
sentido, desejo chamar a atenção para b fato de que,
enquanto os processos que descrevi muitas vezes pa-
recem operar de modo simultâneo, temos que consi-
derar cuidadosamente em cada estado ou situação
se, por exemplo, a identificação projetiva predomina
sobre os processos introjetivos ou vice-versa. 26
Sugeri em minhas "Notas Sobre Alguns Meca-
nismos Esquizóides 11 que o processo de reintrojetar
uma parte projetada do eu inclui uma internalização
de uma parte do objeto no qual a projeção se verifi-
23 Isso é de grande importância na técnica. É que sempre te-
mos que escolher para mterpretação o material que seJa mais
urgente no momento; e nesse contexto diria que ná trechos de
analise durante os quais alguns pacientes parecem inteiramen-
te dominados pela projeção ou pela introjeção. Por outro lado1
é essencial lembrar que o processo oposto permanece sempre, ate
certo ponto, operante e, portanto, entra, mais c_edo ou mais
tarde, novamente no quadro como fator predommante.

125
cou, parte que o paciente pode sentir como hostil,
perigoso e muitíssimo indesejável de reintrojetar.
Além disso de vez que a projeção de uma parte do
eu inclui a projeção de objetos internos, estes tam-
bém são reintrojetados. Tudo isso diz respeito até
que ponto na mente do indivíduo as partes projeta-
das do eu são capazes de conservar sua força dentro
do objeto no qual foram introduzidas. Farei agora
algumas sugestões sobre esse aspecto do problema,
o que me leva ao meu terceiro ponto.
3. 0 ) No romance, conforme frisei anteriormen-
te, Fabian sucumbe ao Demónio e se identifica com
ele. Embora Fabian parecesse deficiente quanto à
capacidade de amar e à solicitude mesmo antes dis-
so, tão logo segue a orientação do Diabo fica inteira-
mente dominado pela implacabilidade. Isso implica
que, ao identificar-se com o Demónio, Fabian su-
cumbe totalmente à parte voraz, onipotente e destru-
tiva do seu eu. Quando Fabian se transformou em
Poujars, conservou algumas de suas próprias atitu-
des, e particularmente uma opinião crítica da pes-
soa em quem penetrou. Teme perder-se inteiramente
dentro de Poujars, e é somente porque retém algo
da iniciativa de Fabian que é capaz de provocar a
transformação seguinte. Contudo, quase perde intei-
ramente seu antigo eu quando se transforma no as-
sassino Esménard. De vez que no entanto o De-
mónio, que supomos ser também parte de Fabian -
aqui o seu superego - o adverte e ajuda a escapar
do assassino, devemos concluir que Fabian não se
submergiu inteiramente em Esménard. 27

27 Diria que por mais intensamente que operem a divisão e a


projeção, a desintegração do ego nunca é completa enquanto
existir vida. E que creio que o anseio peia integração, con-

126
A situação com Fruges é diferente: nessa trans-
formação o Fabian original permanece muito mais
ativo. Fabian critica muito Fruges e é essa maior
capacidade de manter algo de seu eu original vivo
dentro de Fruges que lhe torna possível gradual-
mente reencontrar seu ego empobrecido e voltar a
ser êle mesmo de novo. Em linhas gerais, sustento
que a extensão em que o indivíduo sente seu ego
submergir nos objetos com quem êle se identifica
pela introjeção ou pela projeção é da máxima im-
portância para o desenvolvimento das relações de
objeto e também determina a força ou a fraqueza
do ego.
Fabian recupera partes de sua personalidade
após sua transformação em Fruges e ao mesmo tem-
po acontece algo mui importante. Fabian-Fruges
observa que suas experiências lhe proporcionaram
melhor compreensão de Poujars, de Esménard e mes-
mo de Fruges, e que êle agora é capaz de experimen-
tar simpatia por suas vítimas. Também através de
Fruges, que gosta de crianças, desperta a afeição
de Fabian pelo pequeno George. George, como des-
creve o autor, é uma criança inocente, encantada
com a mãe e ansiosa por voltar para ela. Êle desperta
em Fabian-Fruges a recordação da infância de Fru-
ges, e surge o desejo impetuoso de transformar-se em
George. Creio que êle está ansioso por recuperar a
capacidade de amar, em outras palavras, um eu in-
fantil ideal.

quanto perturbado -• mesmo na raiz - é, em certa medida,


inerente ao ego. Isso está de acordo com o meu ponto de vista
de que nenhuma criancinha _poderia sobreviver sem possuir em
perto grau um objeto bom. São esse fatos que tornam possível
a análise consegmr certa medida de integração, às vezes mes-
mo em casos muito graves.

127
Esse ressurgir de sentimentos de amor revela-se
de várias formas. Êle experimenta sentimentos apai-
xonados pela mulher da loja, que, a meu ver, signi-
ficava uma repetição de sua vida amorosa primitiva.
Outro passo nesse sentido é a sua transformação num
homem casado e, portanto, sua entrada num círculo
familiar. Mas a única pessoa que Fabian acha atraen-
te e por quem se enamora é Elise. Já descrevi os vá-
rios significados que Elise tem para êle. Em parti-
cular, descobriu nela aquela parte dele que é capaz
de amar, e se sente profundamente atraído por esse
lado de sua própria personalidade; isto é, êle também
descobriu algum amor por si mesmo. Física e mental-
mente, voltando sobre os passos que deu em suas
transformações, é impelido para trás com urgência
crescente mais e mais para seu lar e para o Fabian
enfermo que êle abandonara e que agora passa a re-
presentar a parte boa de sua personalidade. Vimos
que a simpatia por suas vítimas, a ternura por Geor-
ge, a solicitude por Elise e a identificação com sua
paixão frustrada por Camille, bem como o desejo de
uma irmã - todos esses passos são um desdobra-
mento de sua capacidade para amar. Sugiro que esse
desenvolvimento foi uma condição prévia para a ne-
cessidade desesperada de Fabian de encontrar de no-
vo o seu antigo eu, isto é, para a integração. Mesmo
antes de ocorrerem suas transformações, o anseio
de recuperar a melhor parte de sua personalidade -
que, por ter sido perdida, afigurou-se ideal - tinha,
como sugeri, contribuído para sua solidão e inquie-
tude; dera ímpeto a suas identificações projetivas 28 e
28 O sentimento de haver dispersado a bondade e as partes
boas do eu pelo mundo externo aumenta a sensação de perda
e de inveja dos outros que lhe parecem conter a bondade per-
dida.

128
eram um complemento de seu ódio contra si, outro
fator que o impele a entrar à força em outras pes-
soas. A busca do eu ideal2 9 perdido, que constitui
importante característica da vida mental, inevita-
velmente abrange a busca dos objetos ideais perdi-
dos; é que o eu bom constitue aquela parte da per-
sonalidade vivenciada como estando numa relação
amorosa com os seus objetos bons. O protótipo de tal
relação é o vínculo entre o bebé e a mãe. De fato,
quando Fabian se reúne ao seu eu perdido, também
recupera o amor pela mãe.
Com Fabian notamos que êle parecia incapaz de
uma identificação com um objeto bom ou admira-
do. Várias razões teriam que ser discutidas nesse
contexto, mas desejo ater-me apenas a uma, como
explicação possível. Já frisei que a fim de identificar.
se intensamente com outra pessoa, é essencial sentir
que há dentro do eu bastante base comum com aque-
le objeto. De vez que Fabian perdeu - assim pare-
ce - seu eu bom, êle não sentiu que havia bondade
suficiente dentro dele para a identificação com um
objeto verdadeiramente bom. Também poderia ter
havido ansiedade, característica de tais estados men-
tais, de medo de que o objeto admirado pudesse en-
trar num mundo interno que é demasiadamente des-
provido de bondade. O objeto bom é então conserva-
do fora (com Fabian, a meu ver, as estrelas distan-
tes). Mas quando êle redescobriu o seu eu bom, en-

29 O conceito de Freud do ego ideal foi, como sabemos, o


precursor do seu conceito do superego. Mas existem algumas
características do ego ideal que não foram integralmente in-
corporadas ao seu conceito de superego. Minha descrição do
eu ideal que Fabian vem tentando recuperar aproxima-se, a
meu ver, muito mais dos pontos de vista originais de Freud
sobre o ego ideal do que seus conceitos sobre o superego.

129
controu então também seus objetos bons e pôde iden-
tificar-se com eles.
No romance, conforme observamos, a parte exau-
rida de Fabian também anseia por se reunir com as
partes projetadas áo seu eu. Quanto mais Fabian-
Camille se aproxima de casa, mais inquieto se torna
Fabian no seu leito de enfêrno. Recupera a cons-
ciência e caminha até a porta através da qual sua
outra metade, Fabian-Camille, pronuncia a fórmula
mágica. De acordo com a descrição do escritor, as
duas metades de Fabian anseiam por se reunirem.
Isso significa que Fabian ansiava por integrar seu
eu. Como vimos, esse anseio ligava-se a uma capaci-
dade crescente de amar. Isso corresponde à teoria de
síntese de Freud como uma função da libido - em
última análise, do Instinto de Vida.
Sugeri anteriormente que embora Fabian esti-
vesse à procura de um pai bom, foi incapaz de en-
contrá-lo porque a inveja e a voracidade, aumenta-
das pela perda e pelo ódio, determinaram sua escolha
de figuras paternas. Quando êle se torna menos res-
sentido e mais tolerante, seus objetos lhe surgem sob
uma luz melhor, mas aí êle também se mostra me-
nos exigente do que fora no passado. Parece não
mais reclamar que seus pais devam ser ideais e, por-
tanto, pode perdoá-los pelas suas limitações. A sua
maior capacidade para amar corresponde uma dimi-
nuição do ódio, e isso por sua vez resulta numa di-
minuição dos sentimentos de perseguição - tudo
que se relaciona com a redução da voracidade e da
inveja. O ódio contra si foi um dos traços predomi-
nantes do seu caráter; junto com a maior capaci-
dade de amar e de tolerância com os outros, surgi-
ram a maior tolerância e o amor pelo seu eu.

130
No fim, Fabian recupera o amor pela mãe e faz
as pazes com ela. É significativo que êle reconhece
sua falta de ternura, mas sente que ela teria sido me-
lhor se êle fosse um filho melhor. Atende aos apelos
da mãe para rezar e parece ter recuperado, após to-
das as suas lutas, a crença e fé em Deus. As últimas
palavras de Fabian são "Pai Nosso", e pareceria que
naquele momento, em que está pleno de amor pela
humanidade, retorna seu amor pelo pai. Aquelas an-
siedades persecutórias e depressivas fadadas a se mo-
bilizarem pela aproximação da morte seriam em cer-
ta medida contrabalançadas pela idealização e pela
exaltação.
Como já observamos, Fabian-Camille é impelido
para o lar por um impulso irresistível. Parece pro-
vável que seu sentido de morte iminente impele sua
necessidade de se reunir à parte abandonada de seu
eu. Pois admito que o medo da morte que êle havia
negado, embora soubesse de sua grave doença, sur-
giu em plena força. Talvez êle tivesse negado esse
medo porque sua natureza era tão intensamente per-
secutória. Sabemos quão cheio de mágoa êle estava
contra o destino e contra os pais; o quão perseguido
se sentia por sua personalidade insatisfatória. Em
minha experiência, o medo da morte é muito mais
intensificado se a morte é vivida como um ataque
por objetos internos e externos hostis ou se êle sus-
cita ansiedade depressiva por temor de que os obje-
tos bons sejam destruídos por aquelas figuras hostis.
(Essas fantasias persecutórias e depressivas podem
naturalmente coexistir). As ansiedades de natureza
psicótica são a causa desse medo excessivo de morte,
de que sofrem muitos indivíduos durante suas vidas;
e os intensos sofrimentos mentais que, como algumas

131
observações me têm demonstrado, certas pessoas ex-
perimentam em seu leito de morte, se devem, a meu
ver, ao retorno de ansiedades psicóticas infantis.
Considerando que o romancista descreve Fabian
como uma pessoa inquieta e infeliz, cheio de mágoas,
seria de se esperar que sua morte fosse penosa e mo-
bilizasse as ansiedades persecutórias que acabo de
mencionar. Contudo, não é isto o que ocorre na his-
tória, pois Fabian morre feliz e em paz. Qualquer
explicação para esse final inesperado não passa de
uma hipótese. Do ponto de vista artístico, foi pro-
vavelmente a melhor solução do romancista. Mas
mantendo-me dentro da minha concepção das expe-
riências de Fabian que formulei nesse capítulo, in-
clino-me a explicar o final inesperado por nos apre-
sentar a história as duas faces de Fabian. Até o pon-
to em que as transformações começam, é o Fabian
adulto, a quem conhecemos. No curso de suas trans-
formações, encontramos as emoções, as ansiedades
persecutórias e depressivas que caracterizaram, como
acredito, seu desenvolvimento primitivo. Mas en-
quanto que na infância êle não fora capaz de supe-
rar essas ansiedades e alcançar a integração, nos três
dias que o romance abrange, êle transpõe com êxito
um mundo de experiências emocionais que a meu
ver conduz a uma elaboração das posições esquizo-
paranóide e depressiva. Em consequência da supera-
ção das ansiedades psicóticas fundamentais da infân-
cia, a necessidade intrínseca de integração surge com
plena força. Êle alcança a integração ao mesmo tem-
po que reestabelece as relações com o objeto bom
e desse modo repara o que de mal havia feito na
vida.

132
Capítulo Quarto

SOBRE O SENTIMENTO DE SOLIDÃO

Tentar-se-á, no presente artigo, investigar a fon-


te do sentimento de solidão. Por sentimento de so-
lidão não desejo me referir à situação objetiva de
estar privado de companhia externa. Refiro-me ao
sentimento íntimo de solidão - o sentimento de
estar só independentemente de circunstâncias exter-
nas, de sentir-se solitário mesmo quando entre ami-
gos ou recebendo amor. Esse estado de solidão inter-
na, eu acredito, resulta do anseio onipresente de um
estado interno perfeito inatingível. Tal solidão, ex-
perimentada até certo ponto por todos, brota de an-
siedades paranóides e depressivas provenientes das
ansiedades psicóticas da criancinha. Essas ansieda-
des existem em certa medida em todo indivíduo em-
bora sejam excessivamente intensas na doença; por-
tanto, a solidão também faz parte da doença, tanto
na de natureza esquizofrênica como na depressiva.
De maneira a compreender como o sentimento de
solidão se origina, temos que - como para outras ati-
tudes e emoções - reportar-nos à primeira infância
e reconhecer sua influência sobre os estágios ulte-
riores da vida. Como tenho frequentemente descrito,

133
o ego existe e atua desde o nascimento. A princípio
êle é extremamente falho na sua coesão e dominado
pelos mecanismos de divisão. O perigo de ser destruí-
do pelo instinto de morte dirigido contra o eu con-
tri bue para a cisão dos impulsos em bons e maus; co-
mo resultado da projeção desses impulsos sobre o
objeto primário, também este se afigura dividido em
bom e mau. Como consequência, nos estágios, mais
primitivos, a parte boa do ego e o objeto bom são
em certa medida protegidos, uma vez que a agressão
é dirigida para longe deles. Esses são os processos
peculiares de divisão que descrevi como a base de
segurança relativa da criancinha pequena, na medi-
da em que segurança nesse estágio pode ser alcan-
çada; enquanto que outros processos de divisão, tais
como aqueles que conduzem à fragmentação, são pre-
judiciais ao ego e a sua força.
Juntamente com a ânsia para dividir, há desde
o início da vida um impulso no sentido da integração,
que aumenta com o crescimento do ego. Esse pro-
cesso de integração baseia-se na introjeção do obje-
to bom, primariamente um objeto parcial - o seio
da mãe, embora outros aspectos da mãe também se
incluam mesmo na relação mais primitiva. Se o obje-
to interno bom se instalou com relativa segurança,
êle constitue o núcleo do desenvolvimento do ego.
Uma relação primitiva satisfatória com a mãe
(não necessariamente baseada na amamentação ao
seio, de vez que a mamadeira também pode simboli-
camente representá-lo) implica em contato íntimo
do inconsciente da mãecõm o dá criança. Isso é o
fundamento para a experiência mais completa de
compreensão e essencialmente se vincula ao estágio
pré-verbal. Por mais gratificante que seja expressar,

134
na vida ulterior, pensamentos e sentimentos a uma
pessoa afim, parece perdurar um anseio insatisfeito
por uma compreensão sem palavras - fundamental-
mente pela relação mais primitiva com a mãe. Se-
melhante anseio contribui para o sentimento de so-
lidão e se origina da sensação depressiva de uma per-
da irreparável.
Mesmo na melhor hipótese, de uma maneira ou
de outra, a relação feliz com a mãe e o seio nunca
deixa de ser perturbada, uma vez que a ansiedade
persecutória vai sempre surgir. A ansiedade perse-
cutória chega ao seu clímax durante os três primei-
ros meses de vida - o período da posição esquizo-
paranóide; ela aparece desde o começo da vida como
resultado do conflito entre os instintos de vida e
de morte e a experiência do nascimento contribue
para ela. Toda vez que os impulsos de destruição
surgem com muita intensidade, a criancinha, graças
à projeção, sente a mãe e o seio como persecutórios,
e experimenta, por conseguinte, inevitavelmente cer-
ta insegurança; essa insegurança paranóide é uma
das raízes da solidão.
Quando a posição depressiva se manifesta - ge-
ralmente na metade inicial dó primeiro ano de vida
- o ego já está mais integrado. Isto se expressa num
sentido mais determinado de totalidade, de maneira
que a criancinha apresenta uma capacidade maior
para relacionar-se com a mãe, ( e ulteriormente com
outras pessoas), já como pessoa total. Então a ansie-
dade paranóide, como um elemento da solidão, ce-
de gradativamente lugar à ansiedade depressiva. O
próprio processo de integração, no entanto, traz em
si novos problemas, e examinarei alguns deles e sua
relação com a solidão.

135
Um dos fatôres que estimulam a integração é
que os processos de divisão pelos quais o ego primi-
tivo busca neutralizar a insegurança só são eficazes
temporariamente, e o ego se vê compelido a tentar
chegar a bons termos com os impulsos destrutivos.
Essa exigência conduz a uma necessidade de integra-
ção. É que a integração, quando alcançada, apresen-
taria o efeito de mitigar o ódio através do amor e tor-
nar desse modo os impulsos destrutivos menos inten-
sos. O ego iria então se sentir mais seguro não só
quanto à sua sobrevivência como também quanto
à preservação do seu objeto bom. Esse é um dos mo-
tivos por que a falta de integração é extremamente
penosa.
A integração, todavia, é dificil de aceitar. A
aproximação dos impulsos de destruição e dos amo-
rosos, e dos aspectos bom e mau do objeto desperta
a ansiedade de que os sentimentos de destruição ve-
nham a sobrepujar os sentimentos amorosos e a com-
prometer o objeto bom. Há, assim conflito entre o
buscar a integração como salvaguarda contra os im-
pulsos destrutivos e o temer a integração por receio
de que os impulsos de destruição comprometam o
objeto bom e as partes boas do eu, e tenho ouvido
pacientes expressarem a dificuldade de integração
em termos de se sentirem solitários e abandonados,
por estarem inteiramente sós com o que, para eles,
constituía a parte má do eu/E o processo se torna
muito mais penoso quando um superego rígido de-
senvolveu uma repressão muito intensa dos impulsos
de destruição e tenta mantê-la.
É apenas passo a passo que a integração pode
ocorrer e a segurança que ela alcança pode ser per-
turbada tanto por pressão interna como externa; e
136
isso continua assim durante toda a vida. A integra-
ção plena e permanente nunca é possível, de vez que,
certa polaridade entre os instintos de vida e de mor-
te sempre persiste e se mantém como a fonte mais
profunda de conflito. É que integração plena jamais
se alcança, o completo entendimento e aceitação de
nossas emoções, fantasias e ansiedades não é pos-
sível e isto perdura como fator importante na soli-
dão. O anseio de se compreender também se liga à
necessidade de ser compreendido pelo objeto bom
internalizado. Uma expressão desse anseio é a fan-
tasia universal de ter um gémeo - fantasia ~ara a
qual Bion chamou a atenção em artigo inédito. Essa
figura gémea, conforme acredita êle, representa
aquelas partes não-compreendidas e expelidas que o
indivíduo anseia por recuperar, na esperança de al-
cançar sua totalidade e completo entendimento; cer-
tas vezes, o indivíduo sente que elas seriam suas par-
tes ideais. Em outras ocasiões, o gémeo também re-
presenta, de fato, um objeto interno idealizado, dig-
no de toda a confiança.
Há uma outra conexão entre a solidão e o pro-
blema da integração que precisa ser considerado nes-
se ponto. Geralmente se supõe que a solidão pode
originar-se da convicção de que não há pessoa ou
grupo a que se pertença. Pode-se considerar esse não
pertencer, como apresentando um significado bem
mais profundo. Por muito que a integração prossiga,
ela não chega a eliminar a sensação de que certos
componentes do eu não sejam utilizáveis, porque eles
i Em seu "Seconã Thqughts" (Heineman; e próxima tradu-
ção da Imago Editora), W. R. Bion (1967) insere o aludido tra-
balho, além de enriquecê-lo com numerosos comentários. (No-
ta do tradutor).

137
são expelidos e não podem ser recuperados. Algumas
dessas partes expelidas, como irei mostrar mais
adiante, com maior detalhe, são projetadas sobre ou-
tras pessoas, contribuindo para a sensação de não se
estar na plena posse de seu eu, de que não se per-
tence inteiramente a si nem, por conseguinte, a nin-
guém mais. Além disso, a sensação é de que as par-
tes perdidas estão solitárias.
Já sugeri que as ansiedades paranóides e as de-
pressivas nunca são inteiramente vencidas mesmo
pelas pessoas que não estão enfermas e constituem
a base de certa sensação de solidão. Há diferenças
individuais consideráveis na maneira pela qual se ex-
perimenta a solidão. Quando a ansiedade paranóide
é relativamente forte, embora ainda dentro da faixa
da normalidade, a relação com o objeto interno bom
pode ser perturbada e prejudicada a confiança na
parte boa do eu/Em consequência, surge um au-
mento da projeção dos sentimentos paranóides e sus-
peitas sobre os outros, com uma sensação resultante
de solidão.
Na doença esquizofrênica estabelecida, esses fa-
tôres estão necessariamente presentes, embora bas-
tante exacerbados; a falta de integração que até aqui
tenho examinado dentro do limite da normalidade
é agora encarada sob sua forma patológica - em
verdade, todas as características da posição esquizo-
paranóide estão presentes de modo maciço.
Antes de passarmos à apreciação da solidão no
esquizofrénico, é importante considerar com maior
detalhe, alguns dos processos da posição esquizo-
paranóide, principalmente a divisão e a identifica-
ção projetiva. A identificação projetiva se baseia na
divisão do ego e na projeção de partes do eu sobre

138
outras pessoas; em primeiro lugar, a mãe ou o seio.
Essa projeção se origina dos impulsos orais-anais-
uretrais, sendo as partes do eu onipotentemente ex-
pelidas nas substâncias corporais sobre a mãe de
maneira a controlá-la e tomar posse dela. Ela não
é então percebida como uma individualidade separa-
da mas como um aspecto do eu. Se tais excreções
são expelidas com ódio, a sensação é de que a mãe
é perigosa e hostil. Não são porém expelidas e proje-
tadas apenas as partes más, mas também as partes
boas. Comum ente como expus, à medida que o ego
se desenvolve, diminuem a divisão e a projeção, e o
ego se torna mais integrado. Se, no entanto, o ego
fôr muito fraco, o que considero uma característica
inata, e se houve dificuldades no nascimento e no
início da vida, a capacidade de integração •- de reu-
nir as partes expelidas do ego - é também fraca e
há, além disso, uma tendência maior para a divisão
de maneira a evitar a ansiedade suscitada pelos im-
pulsos destruidores dirigidos contra o eu e o mundo
externo. Essa incapacidade de suportar a ansiedade
é assim de uma importância extrema. Ela não só au-
menta a necessidade de dividir o ego e o objeto ma-
ciçamente, que pode conduzir a um estado de frag-
mentação, como também impossibilita a elaboração
das ansiedades primitivas.
Vemos no esquizofrénico o resultado desses pro-
cessos não resolvidos. O esquizofrénico se sente ina-
pelàvelmente em fragmentos e teme que jamais re-
cupere a posse do seu eu. O simples fato de se sentir
tão fragmentado redunda na sua incapacidade de in-
ternalizar adequadamente seu objeto primário (a
mãe) como objeto bom e, por conseguinte, no lhe
faltar a base da estabilidade; êle não pode confiar

139
num objeto bom nem externo nem interno, nem po-
de confiar no seu eu. Este fator se liga à solidão,
de vez que êle aumenta a sensação do esquizofrénico
de estar sozinho, por assim dizer, com a sua des-
graça. A sensação de estar rodeado de um mundo hos-
til, característica do aspecto paranóide da doença es-
quizofrênica, não só aumenta todas as suas ansieda-
des como influencia de modo essencial, seus senti-
mentos de solidão.
Outro fator que contribui para a solidão do es-
quizofrénico é a confusão. Ela resulta de uma série
de fatôres, principalmente a fragmentação do ego,
e do uso maciço de identificação projetiva, de modo
que êle se sente constantemente não só reduzido a
fragmentos, corno confundido com outras pessoas.
Mostra-se então incapaz de distinguir as partes boas
das más do eu, o objeto bom do objeto mau, e a rea-
lidade externa da interna. O esquizofrénico, assim,
não pode se compreender nem confiar em si. Tais fa-
tôres, aliados a sua desconfiança paranóide dos ou-
tros, resultam num estado de retraimento que des-
trói sua capacidade para estabelecer relações de obje-
to e retirar delas o reasseguramento e o prazer que
podem contrabalançar a solidão ao fortalecer o ego.
Anseia ser capaz de estabelecer relações com as pes-
soas, mas não o consegue.
É importante não subestimar a pena e o sofri-
mento do esquizofrénico. Aqueles não são tão fáceis
de descobrir por causa do seu uso defensivo cons-
tante do retraimento e da separação de suas emo-
ções. Não obstante, eu e alguns de meus colegas, de
que apenas menciono o Dr. Davidson, o Dr. Rosen-
feld e a Dra. Hanna Segai, que temos tratado ou
estamos tratando de esquizofrénico, conservamos

140
certo otimismo quanto ao resultado. Esse otimismo
se baseia sobre o fato de que há uma tendência para
a integração, mesmo nessas pessoas doentes, e uma
relação, embora não desenvolvida, entre o objeto bom
e o eu bom.
Desejo agora tratar da solidão característica de
uma predominância da ansiedade depresiva, primei-
ramente dentro do âmbito da normalidade. Tenho
amiúde me referido ao fato de que a vida emocional
primitiva se caracteriza pelas experiências repetidas
de perda e de reaquisição. Sempre que a mãe não es-
tá presente, a criança sente que a perdeu, seja por-
que a danificou, seja porque ela se transformou em
perseguidor. A sensação de tê-la perdido equivale ao
medo de que ela tenha morrido. Em razão da intro-
jeção, a morte da mãe externa significa igualmente
a perda do objeto interno bom, e isto reforça na
criança o temor de sua própria morte. Tais ansie-
dades e emoções se incrementam na fase da posição
depressiva, embora, através da existência, o temor
da morte constitua parte da solidão.
Já sugeri que o sofrimento que acompanha os
processos de integração também contribuem para a
solidão. É que isto significa defrontar-se com seus
impulsos destruidores e partes odiadas do eu, que
às vezes parecem incontroláveis e que, por conse-
guinte põem em risco o objeto bom. Com a integração
e um sentimento crescente de realidade, a onipotên-
cia está fadada a diminuir, e isto de novo contribui
para dificultar a integração, de vez que implica numa
diminuição da capacidade para ter esperança. Con-
quanto haja outras fontes para ter esperança que
se derivam da força do ego e da confiança em s1 e

141
nos outros, um componente de onipotência sempre
faz parte do mesmo.
A integração também significa a perda de um
pouco da idealização - tanto do objeto como de uma
parte do eu - que desde o início coloria a relação
com o objeto bom. A percepção de que o objeto bom
nunca poderia se aproximar da perfeição que se es-
perava do objeto ideal redunda na desidealização:
e mais penoso ainda é o preceber de que em verdade,
não existe nenhuma parte ideal do eu. Em minha
experiência, nunca se abandona completamente a
necessidade da idealização, ainda que no desenvolvi-
mento normal o defrontar a realidade interna e a
externa tenda a diminuí-la. Como me disse um pa-
ciente, embora admitindo o alívio obtido por algu-
mas medidas na integração, 11 0 encanto se desfez".
A análise revelou que o encanto que se desfez fora
a idealização do eu e do objeto, e a perda dele con-
duziu aos sentimentos de solidão.
Alguns desses fatôres entram num grau maior
nos processos mentais característicos da doença ma-
níaco-depressiva. O paciente maníaco-depressivo já
deu alguns passos em direção à posição depressiva,
ou seja, êle experimenta o objeto mais como um to-
do, e seus sentimentos de culpa, embora ainda pre-
sos a mecanismos paranóides, são mais fortes e me-
nos fugazes. Êle, por conseguinte, experimenta mais
do que o esquizofrénico, o anseio de ter o objeto
bom seguramente instalado dentro para preservá-lo
e protegê-lo. Sente-se, todavia, incapaz de conseguir
isto, de vez que, ao mesmo tempo, êle não elaborou
suficientemente a posição depressiva, de modo que
sua capacidade para a reparação, para a síntese do
objeto bom e para alcançar a integração do ego

142
não progrediram suficientemente. Na medida em
que, em sua relação com o objeto bom, ainda há uma
grande quantidade de ódio e, portanto, de temor, êle
se sente incapaz de reparar adequadamente o objeto,
donde sua relação com êle não lhe trazer nenhum alí-
vio mas apenas um sentimento de não ser amado e
ser odiado, e sentir de contínuo que o objeto está
ameaçado por seus impulsos destruidores. O anseio
por chegar a vencer todas essas dificuldades em re-
lação ao objeto bom constitue parte do sentimento
de solidão. Nos casos extremos isso se expressa na
tendência para o suicídio.
Nas relações externas estão em ação processos
similares. O maníaco-depressivo pode apenas às ve-
zes, e muito temporariamente, obter alívio de uma
relação com uma pessoa bem intencionada, de vez
que, como logo projeta seu ódio, ressentimento, in-
veja e medo, êle está constantemente cheio de des-
confiança. Em outras palavras, suas ansiedades para-
nóides ainda são muito intensas. O sentimento de so-
lidão do maníaco-depressivo se centra, por conse-
guinte, mais sobre sua incapacidade de manter uma
convivência interna e externa com um objeto bom
do que com a sua condição de estar em fragmentos.
Examinarei algumas outras dificuldades da in-
tegração e tratarei especialmente do conflito entre
os componentes masculinos e femininos de ambos os
sexos. Sabemos que há um fator biológico na bis-
sexualidade, mas aqui me interessa o aspecto psico-
lógico. Nas mulheres existe universalmente o dese-
jo de ser homem, expresso talvez com a maior clare-
za em termos de inveja do pênis; de modo similar,
encontram-se nos homens a posição feminina, o an-
seio de ter seios e de dar à luz filhos. Tais desejos

143
se ligam a uma identificação com ambos os genitores
e se acompanham de sentimentos de competição e de
inveja, bem como de admiração pelos dotes cobiça-
dos. Tais identificações variam de intensidade e tam-
bém de qualidade, dependendo de se é mais acentua-
da a admiração ou a inveja. Parte do desejo de inte-
gração na criança de tenra idade é o anseio por in-
tegrar esses diferentes aspectos da personalidade.
Além disso, o superego impõe a exigência conflitiva
de se identificar com ambos os genitores, premido
pela necessidade de reparar os desejos primitivos de
roubá-los e de expressar o desejo de mantê-los vivos
internamente. Se o elemento de culpa fôr predomi-
nante, êle prejudicará a integração de tais identifica-
ções. Se, no entanto, essas identificações se alcan-
çam satisfatoriamente, elas se tornam uma fonte de
enriquecimento e base para o desenvolvimento de vá-
rios dons e capacidades.
De maneira a ilustrar as dificuldades desse as-
pecto particular da integração e sua relação com a
solidão, citarei o sonho de um paciente. Uma menina-
zinha estava brincando com uma leoa e segurava um
arco para que ela pulasse através dele, mas do ou-
tro lado havia um precipício. A leoa obedece e mor-
re ao fazê-lo. Ao mesmo tempo, um menino matava
uma serpente. O paciente reconhece, uma vez que
material semelhante havia surgido anteriormente,
que a meninazinha representava sua parte feminina
e o garotinho sua parte masculina. A leoa apresenta-
va pronunciados vínculos comigo, na transferência,
dos quais apenas darei um exemplo. A meninazi-
nha tinha consigo um gato, e isso levou a associa-
ções com o meu gato, que amiúde representava a mi-
nha pessoa. Foi extremamente penoso para o pacien-

144
te dar-se conta de que, estando em competição com
a minha feminilidade, precisava destruir-me, e no
passado, sua mãe. Tal reconhecimento de que uma
parte sua precisava matar a leoa amada - a analista
- que assim privá-lo-ia de seu objeto bom, condu-
ziu-o a um sentimento não só de infelicidade e de
culpa, mas também de solidão na transferência. Foi-
lhe ainda bastante desalentador reconhecer que a
competição com o pai forçou-o a destruir a potência
e o pênis do pai, representados pela serpente.
Esse material levou a um trabalho ulterior e
bastante penoso acerca da integração. O sonho da
leoa, que acabo de mencionar, foi precedido de ou-
tro em que uma mulher se suicidava, atirando-se
de um edificio muito alto e o paciente, contraria-
mente a sua atitude habitual, não sentiu horror al-
gum. A análise que, por aquela ocasião, se ocupava
bastante com sua dificuldade quanto à posição fe-
minina, que então se encontrava em seu clímax,
mostra que a mulher representava sua parte femi-
nina e q__ue êle realmente ansiava que ela fosse des-
truída. Ele sentiu que isto não só prejudicaria seu
relacionamento com as mulheres, como também com-
prometeria sua masculinidade e todas as suas ten-
dências construtivas, inclusive a reparação da mãe,
que se tornou clara em relação a mim. Semelhante
atitude de colocar toda sua inveja e competição em
sua parte feminina revelou-se uma maneira de divi-
dir, e ao mesmo tempo parecia ofuscar sua verdadei-
ra admiração e apreço pela feminilidade. Além disso,
ficou evidente que, conquanto lhe parecesse que a
agressão masculina era relativamente franca e, por
conseguinte, mais honesta, êle atribuía ao lado fe-
minino a inveja e a decepção, e de vez que muito

145
lhe desagradava toda insinceridade e desonestidade,
isso contribuía para suas dificuldades de integração.
A análise de tais atitudes, remontando a seus
sentimentos mais primitivos de inveja da mãe con-
duziu a uma integração bem melhor das partes fe-
mininas e masculinas de sua personalidade e a uma
diminuição da inveja tanto do papel masculino, co-
mo feminino. Isto lhe aumenta a capacidade para seus
relacionamentos e ajuda assim a combater a sensação
de solidão.
Darei agora outro exemplo, da análise de um
paciente, homem que não era infeliz nem doente, e
bem sucedido no trabalho e em seus relacionamentos.
Êle se dava conta de que sempre se sentira solitário
em criança e que este sentimento de solidão nunca
desaparecera inteiramente. O amor pela natureza ti-
nha sido um traço significativo das sublimações de
tal paciente. Mesmo desde a tenra infância encontra-
va bem-estar e satisfação quando ao ar livre. Numa
sessão descreveu sua alegria por uma viagem que
fez pelo interior montanhoso e a seguir a repulsa
que experimentou ao retornar à cidade. Interpretei,
como já o havia feito anteriormente, que para êle a
natureza representava não apenas a beleza, mas tam-
bém a bondade, ou seja, o objeto bom que êle insta-
lara dentro. Respondeu, após uma pausa, que isto
lhe parecia a verdade, porém que a natureza era
não somente boa porque sempre havia nela muita
agressividade. Do mesmo modo, acrescentou êle, sua
relação com o campe também não era inteiramente
boa, exemplificando o quanto, quando menino, cos-
tumava roubar ninhos, conquanto ao mesmo tempo
sempre tivesse desejado criar algo. Afirmou que, ao

146
amar a natureza êle tinha na verdade, conforme o
disse, "aceito dentro um objeto integrado".
De maneira a compreender o quanto o paciente
havia superado a sua solidão no tocante ao campo,
conquanto ainda a experimentasse em relação à ci-
dade, temos que acompanhar algumas de suas asso-
ciações relativas tanto à sua infância como à nature-
za. Êle me referiu que deve ter sido um bebé feliz,
bem alimentado pela mãe, e muito do seu material
- principalmente na situação de transferência -
confirmava semelhante suposição. Logo êle se deu
conta de suas preocupações quanto à saúde de sua
mãe, e também de seu ressentimento acerca da ati-
tude dela algo rigorosa. A despeito disso, sua relação
com ela era, de uma maneira geral, feliz, e êle con-
tinuou gostanto dela; mas sentia-se tolhido no lar
e se dava conta de um premente anseio de estar fora
de casa. Parecia ter desenvolvido uma admiração
demasiado precoce pelas belezas da natureza; e tão
logo podia conseguir mais liberdade para estar fora
de casa, isto se tornara seu maior prazer. Descrevia
como, em companhia de outros meninos, costumava
gastar suas horas de liberdade vagando pelos bos-
ques e campinas. Reconheceu certa agressividade sua?
contra a natureza, como o roubar ninhos e danificar
sebes. Ao mesmo tempo, estava convencido de que-
semelhantes ataques não seriam perduráveis porque
a natureza sempre se refazia. A natureza, êle consi-
derava rica e invulnerável, em flagrante contraste
com sua atitude em relação à mãe. Seu relaciona-
mento com a natureza parecia relativamente isento
de culpa, enquanto que, em sua relação com a mãe,
de cuja fragilidade êle se sentia responsável por

147
motivos inconscientes, havia uma grande quantida-
de de culpa.
De seu material pude concluir que êle tinha, de
algum modo, introjetado a mãe como um objeto bom
e fora capaz de alcançar certa síntese de seus senti-
mentos amorosos e hostis em relação a ela. Conseguiu
também um bom nível de integração, mas este foi
perturbado pela ansiedade persecutória e depressiva
relativa aos pais. Sua relação com o pai tinha sido
muito importante para seu desenvolvimento, mas
não cabe neste ponto específico do material.
Referi-me à necessidade compulsiva desse pa-
ciente de ficar fora de e semelhante fato se
vincula a sua claustrofobia. A claustrofobia como su-
geri alhures, provém de duas fontes principais: da
identificação projetiva sobre a mãe, que origina uma
ansiedade de permanecer aprisionado dentro dela;
e da reíntrojeção cujo resultado é um sentimento de
que, dentro, se está prisioneiro de objetos internos
rancorosos. No que se refere a este paciente, acredi-
tei que sua fuga para a natureza representava uma
defesa contra ambas essas situações de ansiedade.
Em certo sentido, seu amor pela natureza foi extraí-
do de sua relação com a mãe; a desidealização desta
conduziu-o a transferir para a natureza a idealização.
Com relação ao lar e à mãe, sentia-se muito solitário,
e foi este sentimento de solidão que se encontrou na
base de sua repulsa pela cidade. Á liberdade e o
deleite que a natureza lhe proporcionava consti-
tuíam não só iima fonte de prazer, oriundo de um
intenso sentimento de beleza e ligado a seu senso ar-
tístico, mas também, um meio de contrabalançar a
solidão fundamental que nunca o havia abandonado.

148
Noutra sessão, o paciente referiu, com um sen-
timento de culpa, que numa viagem ao campo, apa-
nhara um rato silvestre e o pôs dentro de uma caixa,
no porta-malas do carro, como presente para seu
filho pequeno que, pensou êle, gostaria de tê-lo co-
mo animal de estimação. O paciente esqueceu-se do
rato, só se lembrando dele no dia seguinte. Fêz es-
forços infrutíferos para encontrá-lo, de vez que o
animal roera a caixa e se escondeu no ângulo mais
distante do porta-malas, onde ficava fora de alcan-
ce. Afinal, após repetidos esforços para apanhá-lo,
verificou que êle estava morto. A culpa do paciente
por ter se esquecido do rato silvestre, e assim lhe
causado a morte, levou-o, no curso das sessões sub-
sequentes, a associações com pessoas falecidas, de
cuja morte êle se sentia até certo ponto responsável,
embora sem motivações racionais.
Nas sessões subsequentes houve uma riqueza de
associações com o rato silvestre, que parecia desem-
penhar múltiplos papéis; representou uma parte que
o paciente expelia, solitária e esvaziada. Por identi-
ficação com o filho sentia-se além disso, privado de
um companheiro potencial. Inúmeras associações re-
velaram que através de sua infância o paciente an-
siara por um companheiro de brinquedos de sua ida-
de - anseio que ultrapassou a necessidade concreta
de companheiros externos e resultava da sensação de
que certas partes expelidas do seu eu não poderiam
ser reconquistadas. O rato silvestre também estava
no lugar de um objeto bom seu, que êle encerrava
em seu interior - representado pelo carro - e em
relação a que se sentia culpado e também temia que
se tornasse retaliador. Uma de suas outras associa-
ções, referente ao esquecimento, foi a de que o rato

149
silvestre também representasse uma mulher aban-
donada. Tal associação surgiu após um feriado e im-
plicava em que não somente êle tinha sido abando-
nado pela analista mas que a analista fora deixada
abandonada e solitária. A vinculção com sentimen-
tos similares em relação à mãe tornou-se clara no
material, bem como a conclusão de que o paciente
continha dentro um objeto morto ou solitário, que
aumentava a sua solidão.
O material desse paciente apoia minha afirma-
ção da existência de um vínculo entre a solidão e a
incapacidade para integrar suficientemente o objeto
bom, bem como aquelas partes do eu que a êle lhe
pareciam inacessíveis.
Passarei agora a examinar de modo mais por-
menorizado os fatôres que normalmente mitigam a
solidão. A internalização relativamente estável do
seio bom é característica de certa força inata do ego.
Um ego forte está menos sujeito à fragmentação e é,
por conseguinte, mais capaz de alcançar um grau de
integração e uma boa relação primitiva com o obje-
to primário. Além disso, uma internalização satis-
fatória do objeto bom constitui a base da identifica-
ção com êle que vai fortalecer o sentimento de bon-
dade e a confiança tanto no objeto como no eu. Essa
identificação com o objeto bom mitiga os impulsos
de destruição e, desse modo, diminui também a se-
veridade do superego. Um superego mais propício
não faz exigências tão rigorosas ao ego; isto leva à
tolerância e à capacidade de suportar as limitações
dos objetos amados sem deteriorar a relação com eles.
Uma diminuição da onipotência, que surge com
o progresso da integração e acarreta certa perda de
esperança, torna possível, no entanto, uma distinção
150
entre os impulsos destrutivos e seus efeitos; a agres-
sividade e o ódio, por conseguinte, parecem menos pe-
rigosos. Essa maior adaptação à realidade conduz a
uma aceitação das próprias limitações e, em conse-
quência, alivia o ressentimento pelas frustrações pas-
sadas. Ela abre também fontes de prazer provenien-
tes do mundo externo, e constitui assim outro fator
que diminui a solidão.
Uma relação feliz com o primeiro objeto e uma
internalização satisfatória dele significa poder dar e
receber amor. Em consequência, a criancinha pode
experimentar prazer não só quando é alimentada
como também como resposta à presença e ao afeto
da mãe. As recordações de tais experiências felizes
constituem um suporte para a criança de tenra ida-
de quando se sente frustrada, de vez que aquelas se
vinculam à esperança de tempos felizes vindouros.
Além disso, há uma ligação íntima entre o prazer e o
sentimento de compreender e de ser compreendida.
No momento do prazer, a ansiedade se alivia e a pro-
ximidade com a mãe e a confiança nela são o que
mais importa. A identificação introjetiva e a proje-
tiva, quando não excessivas, desempenham um papel
importante nesse sentimento de proximidade, pois
elas constituem o fundamento da capacidade para
compreender e contribuem para a experiência de ser
compreendida.
O prazer está sempre vinculado à gratidão; se
esta gratidão é experimentada profundamente, ela
inclui o desejo de retribuir a bondade recebida e re-
presenta assim a base para a generosidade. Há sem-
pre uma conexão íntima entre o conseguir aceitar e
dar, e ambos fazem parte da relação com o objeto
bom e, por conseguinte, contrabalançam a solidão.

151
Além disso, o sentimento de generosidade é o funda-
mento da criatividade, e isto se aplica tanto às ativi-
dades construtivas mais primitivas da criancinha
quanto à criatividade do adulto.
A capacidade para o prazer inclui também apre-
condição de certo grau de resignação que concorda
em gozar do que se tem ao alcance sem demasiada
voracidade por gratificações- inaccessíveis e sem ex-
cessivo ressentimento diante da frustração. Seme-
lhante adaptação já se pode observar em determina-
das criancinhas de baixa idade. A resignação se liga
à tolerância e ao sentimento de que os impulsos des-
trutivos não vão sobrepujar o amor, e que, por con-
seguinte, a bondade e a vida serão preservadas.
Uma criança que, a despeito de certa inveja e
ciúme, chega a se identificar com os prazeres das gra-
tificações dos componentes de seu círculo familiar,
irá consegui-lo também em relação a outras pessoas
na vida ulterior. Na velhice, poderá então lograr in-
verter a situação primitiva e identificar-se com as
satisfações da juventude. Isso só poderá acontecer,
se houve gratidão pelos prazeres passados, sem ex-
cessivo ressentimento, de vez que aqueles não po-
dem mais ser alcançados.
Todos os fatôres do desenvolvimento sobre que
me detive, conquanto mitiguem o sentimento de so-
lidão, nunca o eliminam por completo; podem, por
conseguinte, ser utilizados como defesas. Quando
tais defesas são muito intensas e se reforçam mutua-
mente, a solidão amiúde não chega a ser experimen-
tada conscientemente. Certas criancinhas se utili-
zam da extrema dependência da mãe como uma de-
fesa contra a solidão, e a necessidade de dependência
continua um modelo através da vida. Por outro lado,
152
o fugir para o objeto interno, que se pode expressar
na tenra infância pela gratificação alucinatória, é
amiúde empregada defensivamente como uma tenta-
tiva de contrabalançar a dependência em relação ao
objeto externo. Em certos adultos, essa atitude re-
dunda numa rejeição de qualquer companheirismo
que, nos casos extremos, constitui um sintoma de
doença.
O anseio pela independência, que faz parte do
amadurecimento, pode ser usado de modo defensivo
com a finalidade de sobrepujar a solidão. Uma dimi-
nuição da dependência pelo objeto torna o indivíduo
menos vulnerável e contrabalança também sua ne-
cessidade de uma proximidade interna e externa ex-
cessiva das pessoas amadas.
Outra defesa, principalmente na velhice, é a
preocupação com o passado de maneira a evitar as
frustrações do presente. Certa idealização do passa-
do penetra inevitavelmente nessas lembranças e se
coloca a serviço da defesa. Nos jovens, a idealização
do futuro se presta a um propósito semelhante. Cer-
to grau de idealização das pessoas e das motivações
é uma defesa normal e constitui parte da busca dos
objetos internos idealizados projetados sobre o mun-
do externo.
A valorização dos outros e do êxito - origina-
riamente a necessidade infantil de ser valorizada
pela mãe - podem se utilizar como uma defesa con-
tra a solidão. Tal método se revela, porém, muito
ineficaz, quando utilizado em excesso, de vez que a
confiança em si não se estabelece então suficiente-
mente. Outra defesa, ligada à onipotência e que faz
parte da defesa maníaca, está numa utilização espe-
cífica da capacidade de esperar pelo que se deseja;

153
isto pode conduzir a um otimismo exagerado e a uma
falta de iniciativa e pode se ligar a um sentido defi-
ciente da realidade.
A negação da solidão que, com frequência, se
usa como defesa, provavelmente interfere nas rela-
ções com o objeto bom, em contraste com uma atitu-
de em que se dá uma experiência concreta de soli-
dão e ela se torna um estímulo para as relações de
objeto.
Por fim, desejo indicar por que é tão dificil ava-
liar a importância das influências internas e exter-
nas no aparecimento da solidão. Até agora neste es-
crito cuidei principalmente dos aspectos internos -
mas estes não existem no vazio. Há uma interação
constante entre os fatôres internos e externos da vida
mental, baseada nos processos de projeção e introje-
ção que dão início às relações de objeto.
O primeiro impacto poderoso do mundo externo
sobre a criança de tenra idade é o desconforto de vá-
rias espécies ligado ao nascimento e que ela atribui a
forças persecutórias hostis. Essas ansiedades para-
nóides fazem parte de sua situação interna. Os fatô-
res internos também atuam desde o início; o conflito
entre os instintos de vida e de morte ocasiona a defle-
xão do instinto de morte para fora e isto, segundo
Freud, desencadeia a projeção de impulsos destruti-
vos. Acredito, no entanto, que ao mesmo tempo, a
necessidade que o instinto de vida tem de encontrar
um objeto bom no mundo externo conduz igualmen-
te à projeção de impulsos amorosos. Dessa maneira,
o quadro do mundo externo - representado, primei-
ro, pela mãe, e principalmente pelo seio, e baseado
nas experiências concretas boas e más em relação a
ela - é modificada pelos fatôres internos. Pela in-

154
trojeção, este quadro do mundo externo afeta o mun-
do interno. Não são, no entanto, apenas os sentimen-
tos da criancinha acerca do mundo externo que se
modificam pela projeção, mas a relação concreta da
mãe com o filho que, de maneiras indiretas e sutis,
se influenciam pela resposta da criancinha a ela. Um
bebé satisfeito que suga com prazer, afugenta a an-
siedade da mãe; e a felicidade dela se expressa na
maneira de cuidar e de alimentar o bebé, diminuindo
assim a ansiedade persecutória deste e influenciando
sua capacidade de internalizar o seio bom. Ao con-
trário, um bebe que apresenta dificuldades de se ali-
mentar costuma despertar ansiedade e culpa na mãe,
e, desse modo, influenciar desfavoravelmente a rela-
ção dela com êle. Nessas maneiras variáveis, há uma
interação constante entre o mundo interno e o exter-
no que perdura através da vida.
A interação dos fatôres externos e internos re-
vela um grande alcance sobre o aumento ou a dimi-
nuição da solidão. A internalização do seio bom, que
só pode ocorrer de uma interação positiva entre os
elementos internos e externos, constitui um funda-
mento para a integração que mencionei como um
dos fatôres mais importantes na diminuição do sen-
timento de solidão. Além disso, sabe-se bem que, no
desenvolvimento normal, quando se experimentam
intensos sentimentos de solidão, há uma grande ne-
cessidade de se buscarem os objetos externos, de vez
que a solidão parcialmente se afugenta pelos relacio-
namentos externos. As influências externas, mor-
mente a atitude de pessoas significativas para o in-
divíduo, podem, de outras maneiras, minorar a soli-
dão. Por exemplo, uma relação fundamentalmente
boa com os genitores torna mais suportáveis a perda

155
da idealização e a diminuição do sentimento de oni-
potência. Os pais, aceitando a existência dos impul-
sos destrutivos da criança e deixando perceber que
são capazes de se proteger contra a agressividade
dela, conseguem diminuir-lhe a ansiedade quanto aos
efeitos de seus desejos hostis. Em consequência, ela
sente que o objeto interno é menos vulnerável e seu
eu menos destruidor.
Aqui apenas posso mencionar a importância do
superego em relação a todos esses processos. De um
superego rígido nunca se pode esperar indulgência
para os impulsos destrutivos; em verdade, sua exi-
gência é que eles não existissem. Embora o superego
se estruture sobretudo daquela parte que o ego ex-
pulsou e sobre a qual projetou os impulsos, êle tam-
bém se deixa inevitavelmente influenciar pela intro-
jeção das personalidades dos pais concretos e de sua
relação com a criança. Quanto mais rígido o supe-
rego, maior o sentimento de solidão, porque suas ri-
gorosas exigências aumentam as ansiedades depres-
sivas e paranóides.
Em conclusão, desejo reformular minha hipóte-
se de que conquanto o sentimento de solidão possa
diminuir ou aumentar pelas influências externas, êle
nunca pode ser completamente eliminado, porque a
tendência para a integração, assim como o pesar ex-
perimentado nesse mesmo processo, brotam de fon-
tes internas que continuam operantes pela vida
a fora.

156
ESTA OBRA FOI EXECUTADA NA
COMPANHIA GRÁFICA LUX,
ESTRADA DO GABINAL, 1521
JACAREPAGUÁ- GUANABARA

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