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UIVO

Para Carl Salomon

ALLEN GINSBERG

Eu vi as melhores cabeças da minha


geração destruídas pela loucura…

… famélicos histéricos nus, arrastando-se


pelas ruas do bairro negro ao amanhecer
na fissura de um pico,

hipsters (1) de cabeça ardendo pela ancestral


conexão com um dínamo estrelando na
maquinaria da noite,

que pobreza e farrapos e ocos olhos loucos se


sentaram fumando na escuridão sobrenatural
de apartamentos sem aquecimento flutuando
pelos telhados das cidades contemplando o jazz,
que desnudaram cérebros para o céu sob o
viaduto e viram anjos muçulmanos cambaleando
nos telhados dos cortiços iluminados,
que passaram pelas universidades com serenos olhos
radiantes alucinando Arkansas e tragédias
Blake-iluminados entre os mestres da guerra (2),

que foram expulsos das academias por pirarem &


publicarem odes obscenas nas janelas do
crânio,

que se encolheram de cueca em quartos descasados,


queimando seu dinheiro em cestos de lixo e
ouvindo o Terror através das paredes,

que foram revistados nos pentelhos voltando


por Laredo com um cinturão de fumo
para Nova York,

que engoliram fogo em hotéis vagabundos ou beberam


terebintina em Paradise Alley, (3) morte, ou
flagelaram seus torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos despertos,
álcool e paus e fodas sem fim.
incomparáveis ruas fechadas de nuvens trêmulas
e raios na cabeça pulando para postes
no Canadá & em Peterson (4), iluminando todo
o imóvel mundo do Tempo no meio,

solidez de peiote dos corredores, autoras de


cemitério de fundo de quintal arborizado, porres
de vinho nos telhados, subúrbios envidraçados
no viajante néon cintiliante dos faróis
vibrações de Sol e Lua e árvore nos crepitantes
crepúsculos de inverno do Brooklyn, declamações
sobre o lixo e a mansa luz soberana da mente,

que se prenderam no metrô para a interminável


viagem de Battery ao sagrado Bronx com benzedrina
até que o ruído de rodas e crianças
os arrancou de volta tremendo boquiabertos
abatidos desertos do cérebro drenados de todo
brilho na lúgubre luz do zoológico,

que afundaram a noite inteira na luz submarina do


Bickford’s voltaram à tona e passaram
a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s (5)
ouvindo o baque da catástrofe numa jukebox
hidrogênica,

que falaram setenta horas sem parar do parque


ao apê ao bar ao Bellevue (6) ao museu à ponte
do Brooklin,

batalhão perdido de debatedores platônicos


pulando das sacadas das escadas de incêndio dos
parapeitos do Empire State da Lua,

tatagarelando gritando vomitando sussurrando


fatos e lembranças e anedotas e espasmos
oculares e abalos de hospitais prisões e
guerras,
intelectos inteiros regurgitados em completa
rememoração por sete dias e noites com olhos
radiantes, carne para a sinagoga caída na calçada,

que sumiram numa nada zen Nova Jersey deixando


uma trilha de obscuros cartões-postais da
prefeitura de Atlantic City,

sofrendo suores orientais e ossos moídos marroquinos


e enxaquecas chinesas na abstinência de um
desolado quarto mobiliado de Newark,

que perambularam à meia-noite pelo


pátio da ferrovia se perguntando para onde ir
e se foram, sem deixar corações partidos,

que acenderam cigarros em vagões vagões vagões de carga


rumando ruidosamente pela neve para fazendas
solitárias na noite avoterna,

que estudaram Poe Plotino São João da Cruz


telepatia e cabala bop porque o universo
instintivamente vibrava aos seus pés em Kansas,

que erraram pelas ruas de Idaho procurando


visionários anjos indígenas que eram
visionários anjos indígenas,

que só acharam estar loucos quando Baltimore


rebrilhou em êxtase sobrenatural,

que pularam em limusines com o chinês de


Oklahoma no impulso da chuva de meia-noite
de inverno à luz da rua de uma cidadezinha,
que vadiaram famintos e sós através de Hounton
atrás de jazz ou sexo ou sopa, e seguiram o
brilhante espanhol para conversar sobre a
América e a Eternidade, tarefa impossível,
então pegaram um navio para a África,

que desapareceram nos vulcões do México


não deixando nada além da sombra de
seus jeans e a lava e a cinza da poesia
espalhadas na lareira de Chicago, (7)

que reapareceram na Costa Oeste investigando o


FBI de barba e bermuda com grandes olhos
pacifistas sensuais em sua pele queimada
distribuindo folhetos incompreensíveis,

que abriram buracos nos braços com cigarros


protestando contra o narcótico nevoeiro
de tabaco do capitalismo.

que distribuíram panfletos supercomunistas na Union


Square chorando e tirando a roupa enquanto as
sirenes de Los Angeles atravessavam seus gemidos,
gemendo através de Wall Street, e a balsa
de Staten Island também gemeu,

que caíram no choro em ginásios brancos nus


e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,

que morderam policiais no pescoço e urraram de


deleite em viaturas por não terem cometido crime
algum além da pederastia e intoxicação
selvagemente servidas,

que uivaram ajoelhados no metrô e foram


arrastados do telhado agitando genitais
e manuscritos,

que se deixaram ser enrabados por motoqueiros


beatíficos e gritaram com prazer,

que chuparam e foram chupados por esses querubins


humanos,
os marinheiros, carícias do Atlântico
e amor caribenho,

que transaram de manhã de tarde nas roseiras


e na grama dos parques públicos e cemitérios
espalhando livremente seu sêmen para
quem quer que viesse,

que soluçaram interminavelmente tentando rir mas


se contorceram com o choramingo atrás de um
biombo num banho turco onde o anjo loiro & nu
veio vará-los com uma espada,

que perderam seus namorados para as três megeras


do destino a megera caolha do dólar heterossexual
a megera caolha que pisca dentro do útero
e a megera caolha que só sabe sentar sobre sua
bunda e retalhar a dourada fibra intelectual
do tear do artesão,

que copularam extáticos e insaciados com uma


garrafa de cerveja uma namorada um maço de
cigarros uma vela e caíram da cama e
continuaram pelo chão e ao longo do
corredor e acabaram despencando com uma
visão da boceta final e gozaram expelindo
a derradeira ejorração de consciência,

que acalmaram as xoxotas de um milhão de garotas


tremendo ao pôr do sol, tinham os olhos vermelhos
de manhã mas estavam prontos para acalmar a
xoxota da aurora, bundas brilhantes
nos celeiros e peladas no lago,

que foram se prostituir no Colorado numa miríade


de carros noturnos roubados , N.C., herói secreto
desses poemas, garanhão e Adônis de Dever – (8)
júbilo à memória de suas incontáveis trepadas
com garotas em terreno baldio & fundos de botecos,
… cadeiras capengas de cinema, no cume de montanhas em
cavernas ou com garçonetes esquálidas no familiar
erguer de saias solitário à beira da estrada &
especialmente solipsismos secretos de
banheiros públicos, & becos da cidade natal também,

que apagaram em imensos cinemas sórdidos, foram


transportados em sonhos, acordaram numa Manhattan
inesperada e se resgataram de ressacas em porões
de Tokays impiedosos (9) e terrores de sonhos cruéis da
Terceira Avenida & cambalearam até
agências de emprego,

que andaram a noite toda com os sapatos cobertos de


sangue pelo cais recoberto de neve esperando que
uma porta se abrisse no East River repleta
de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nas
margens-penhascos de apartamentos do Hudson
sob o holofote antiaéreo azul da Lua &
suas cabeças hão de ser ungidas pela coroa do
esquecimento,

que comeram o cordeiro ensopado da imaginação ou


digeriram o caranguejo do fundo lamacento dos
rios deBowery,

que choraram ante o romance das ruas com suas


carroças cheias de cebola e música ruim.

que se sentaram em caixas respirando na escuridão sob


a ponte e se ergueram para construir clarivicórdios
em seus sótãos,

que tossiram num sexto andar do Harlen coroado


de chamas sob o céu tuberculoso
cercado pelas caixas laranja da teologia, (10)

que rascunharam a noite inteira deitando e rolando sobre


invocações sublimes que no amanhecer amarelo
eram estrofes de bobagens,

que cozinharam animas apodrecidos pulmão coração pé rabo


borsht & tortillas sonhando com o puro
reino vegetal,

que se atiraram sob caminhões de carne em busca de


um ovo,

que jogaram seus relógios do telhado como apostas


numa Eternidade fora do Tempo, & despertadores
caíram sobre suas cabeças todos os dias pela
década seguinte,

que cortaram os pulsos três vezes sucessivamente sem


sucesso, desistiram e foram forçados a abrir
lojas de antiguidades onde acharam estar
envelhecendo e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos
de flanela na Madison Avenue em meio a rajadas de versos
de chumbo & o tropel cerrado dos batalhões de ferro
da moda & os guinchos de nitroglicerina
das bichinhas da publicidade,
& o gás mostarda de sinistros
editores inteligentes, ou atropelados pelos táxis
bêbados da Realidade Absoluta,

que se jogaram da ponde do Brooklyn isso de fato


aconteceu (11) e se foram desconhecidos e
esquecido pela espectral confusão de Chinatown
sopa vielas & carros de bombeiro, sequer uma
cerveja de graça,

que cantaram em desespero nas janelas, jogaram-se


da janela do metrô, saltaram no Paissac imundo,
pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora,
dançaram descalços sobre garrafas de vinho quebradas
arrebentaram discos de nostálgico jazz europeu
da Alemanha dos anos 1930 mataram o uísque e
vomitaram gemendo no banheiro ensanguentado (12),
lamentos nos ouvidos e o sopro de colossais
apitos de neblina,

que voaram estrada abaixo pelas rodovias do passado


viajando na turbo-Gólgota
vigília prisão-solidão de cada um
ou encarnação do jazz de Birmingham (13),

que dirigiram 72 horas através do país para descobrir


se eu tinha uma visão ou se você tinha ou
se ele tinha uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram a Denver, que morreram em Denver, que
voltaram para Denver & esperaram em vão, que
zelaram por Denver & meditaram & se isolaram em
Denver e finalmente partiram para descobrir o
Tempo, & agora Denver tem saudade de seus heróis,

que caíram de joelhos em catedrais irrecuperáveis


rezando por salvação e luz e peitos para cada um,
até que a alma iluminou seus cabelos por um segundo,

que espatifaram as mentes na prisão esperando


por impossíveis criminosos de cabeças douradas
e o charme da realidade nos corações
que cantaram doces blues por Alcatraz,

que se recolheram ao México para cultivar um vício, ou


às Montanhas Rochosas para atender a Buda ou a Tânger
para os meninos ou à Southern Pacific para a
locomotiva negra ou a Harvard para Narciso a
Woodlawn para a “coroa de flores” ou a cova. (14)

que exigiram exames de sanidade acusando o rádio de


hipnotismo e foram deixados com sua insanidade &
suas mãos & um júri indeciso,

que jogaram salada de batata em conferencistas do CCNY


sobre dadaísmo e em seguida se apresentaram
nos degraus de granito do manicômio com as cabeças
raspadas e um discurso arlequinal de suicídio,
exigindo lobotomia imediata (15),

e que em vez disso receberam o vazio concreto da


insulina Metrazol eletroterapia hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue
& amnésia,

que num protesto triste virara apenas uma


mesa simbólica de pingue-pongue, descansando
um pouco em catatonia,

retornando anos depois realmente carecas exceto por uma


peruca de sangue, e lágrimas e dedos, para o óbvio
destino de louco da vila das insanas cidades do Leste,

corredores fétidos de Pilgrim State, Rockland e Greystone, (16)


lutando com os ecos da alma, agitando-se e revolvendo-se,
no dólmen-domínio banco-solidão de meia-noite do amor,
o sonho da vida um pesadelo, corpos transformados
pedras tão pesadas quanto a Lua,
com a mãe, finalmente *****, e o último livro
fantástico lançado pela janela do cortiço,
e a última porta fechada às quatro da madrugada
e o último telefonema atirado na parede em resposta
e o último quarto mobiliado esvaziado até a última
peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo
retorcida num cabide de arame sobre o armário,
e, mesmo imaginário, nada além de uma
pequena partícula de alucinação

– ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não


estarei a salvo, e agora você está mesmo mergulhado
no completo caldo animal do Tempo –

e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados


por uma súbita iluminação da alquimia do uso da
elipse do catálogo do metro (17) &
do plano vibratório,

que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo &


Espaço através de imagens justapostas, e prenderam
o arcanjo da alma entre duas imagens visuais e
reuniram os verbos elementares e juntaram
o substantivo e o traço de consciência saltando
numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus, (18)
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados na frente de vocês
calados e inteligentes e trêmulos de vergonha,
rejeitados apesar de expor a alma para se conformar
ao ritmo do pensamento em sua cabeça descoberta e
infinita,

o vagabundo louco e beat angelical no Tempo,


desconhecido, apesar de registrar aqui o que
poderia ficar por dizer no tempo após a morte,

e se reergueram reencarnados na roupagem espectral


do jazz à sombra dourada dos instrumentos e
tocaram o sofrimento de amor da mente nua
da América num eli eli lamá sabactani (19) lamento de
sax que estremeceu as cidades até o último rádio,

com o coração absoluto do poema da vida


estripado de seus próprios corpos
bom para comer por mil anos.
II

Que esfinge de cimento e alumínio arrebentou


seus crânios e devorou seus cérebros
e a imaginação?

Moloch! (20) Solidão! Sujeira! Feiura! Latas de lixo


e dólares inalcançáveis! Crianças gritando
embaixo das escadas! Garotos soluçando
nos quartéis! Velhos chorando nas praças!

Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o


sem amor! Moloch mental! Moloch o duro
julgador dos homens!

Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio


sem alma de ossos trançados e congresso de
aflições! Moloch cujas construções são julgamento!
Moloch a pedra imensa da guerra! Moloch os
governos atônitos!

Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo


sangue é dinheiro circulante! Moloch cujos dedos
são dez exércitos! Moloch cujo tórax
é um dínamo canibal! Moloch cuja orelha é uma
cova fumegante!

Moloch cujos olhos são mil janelas apagadas!


Moloch cujos arranha-céus se erguem pelas ruas
extensas como Jeovás infinitos! Moloch cujas
fábricas sonham e arfam na fumaça! Moloch
cujas chaminés e antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é óleo interminável e pedra!
Moloch cuja alma são bancos e eletricidade!
Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio
assexuada! Moloch cujo nome é a Mente!

Moloch em que me mantenho solitário! Moloch em que


sonho anjos! Louco em Moloch! Chupador
de caralhos em Moloch! Sem homem ou amor em Moloch!

Moloch que cedo penetrou em minha alma! Moloch


em que sou uma consciência incorpórea! Moloch
que me afunguentou do meu êxtase natural! Moloch
que abandono! Acordar em Moloch!
luz escorrendo do céu!

Moloch! Moloch! Apartamentos robôs! subúrbios


invisíveis! tesouros esqueléticos! capitais
cegas! indústrias possessas! hospícios invencíveis!
caralhos de granito! bombas monstruosas!

Eles quebraram as costas erguendo Moloch ao céu!


Calçadas, árvores, rádios, toneladas! erguendo
a cidade para o céu que existe e está
em todos os lugares sobre nós!
Visões! presságios! alucinações! milagres! êxtases!
desceram o rio americano!

Sonhos! adorações! iluminações! religiões! a carga


toda de besteira sensitiva!

Investidas! sobre o rio! saltos e mortificações!


desceram a correnteza! Elevações! Epifanias!
Desesperos! Dez anos de uivos e suicídios!
Mentes! Novos amores! Geração enlouquecida!
descendo pelas pedras do Tempo!

Verdadeiras gargalhadas sagradas do rio! Eles viram


tudo! o olhar selvagem! o grito sagrado! Eles
deram adeus! Pularam do telhado! para a solidão!
acenando! levando flores! Rio abaixo! rua acima!

III

Carl Solomon!

Estou com você em Rockland onde você está


mais louco do que eu

Estou com você em Rockland onde você deve estar


se sentindo muito estranho

Estou com você em Rockland onde você imita


a sombra da minha mãe
Estou com você em Rockland onde você matou
suas doze secretárias

Estou com você em Rockland onde você ri


desse humor imperceptível

Estou com você em Rockland onde somos grandes


escritores na mesma máquina de escrever porcaria

Estou com você em Rockland onde seu estado


se tornou grave e é noticiado pelo rádio

Estou com você em Rockland onde as faculdades do


crânio não toleram mais os vermes do sentido

Estou com você em Rockland onde você bebe


o chá dos peitos das solteironas de Utica

Estou com você em Rockland onde você brinca


com os corpos de suas enfermeiras as harpias
do Bronx

Estou com você em Rockland onde você grita


numa camisa de força que está perdendo o jogo
do verdadeiro pingue-pongue do abismo

Estou com você em Rockland onde você martela


um piano catatônico a alma e inocente e imortal
jamais deveria morrer impiamente num manicômio
armado
Estou com você em Rockland onde cinquenta choques a
mais jamais trarão sua alma até seu corpo
de volta de sua peregrinação até uma cruz no vazio

Estou com você em Rockland onde você acusa seus


médicos de insanidade e maquina a revolução
socialista judaica contra o Gólgota fascista
nacional

Estou com você em Rockland onde você rasgará


os céus de Long Island. E ressucitará seu Cristo
vivo e humano da sepultura sobre-humana

Estou com você em Rockland onde vinte e cinco


mil camaradas loucos cantam em conjunto as
estrofes finais da Internacional

Estou com você em Rockland onde abraçamos


e beijamos os Estados Unidos sob nossos
lençóis Estados Unidos que tossem a noite
toda e não nos deixam dormir

Estou com você em Rockland onde despertamos


eletrocutados do coma pelos aviões de nossas
próprias almas rugindo sobre o telhado

eles vieram lançar bombas angelicais o hospital


se ilumina paredes imaginárias colapsam
Ó legiões esqueléticas corram para fora
Ó embandeirado choque de misericórdia a guerra
eterna chegou Ó vitória esqueça sua roupa
de baixo estamos livres

Estou com você em Rockland nos meus sonhos


você caminha gotejando de uma viagem marinha
pela estrada que atravessa a América em lágrimas…
até a porta da minha casa na noite ocidental

San Francisco 1955-1956

Nota de Rodapé a

UIVO

Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!


Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!

O mundo é santo! A alma é santa! A pele é santa!


O nariz é santo! Santos a língua o pau a mão o cu!

Tudo é santo! todo mundo é santo! todo lugar é santo!


todo dia está na eternidade! Todo homem é um anjo!

O vagabundo é tão santo quanto o serafim! o louco


é tão santo quanto você minha alma é santa!

A máquina de escrever é santa o poema é santo a voz


é santa os ouvidos são santos o êxtase é santo
Santo Peter Santo Allen Santo Solomon santo Lucien
santo Kerouac santo Hunke santo Burroughs santo
Cassady (21)
santos os desconhecidos mendigos sofridos e
fodidos santos os horrendos anjos humanos!

Santa a minha mãe no asilo de loucos! Santos os caralhos


dos vovôs do Kansas!

Santo saxofone que geme! Santo o apocalipse bop!


Santos bandas de jazz marijuana hipsters
Paz & pico & bateria!

Santa a solidão dos arranha-céus e das calçadas!


Santas as cafeterias lotadas de milhões!
Santos os misteriosos rios de lágrimas sob as ruas!

Santo o fanático solitário! Santo o imenso cordeiro da


classe média! Santos pastores loucos da rebelião!
Quem saca que Los Angeles É Los Angeles!

Santa New York Santa San Francisco Santa Poeria &


Seattle Santa Paris Santa Tânger Santa Moscou
Santa Istambul!

Santo o tempo na eternidade santa a eternidade no


tempo santos os despertadores no espaço santa
a quarta dimensão santa a Quinta Internacional
santo o anjo em Moloch!

Santo o mar santo o deserto santa a ferrovia santa


a locomotiva santas as visões santas as alucinações
santos os milagres santo o globo ocular santo o
abismo!

Santo perdão! misericórdia! caridade! fé! Santos!


Nossos! corpos! sofrendo! magnanimidade!

Santa a sobrenatural extra iluminada brilhante


bondade da alma!

Berkeley, 1955

Notas da Tradução

1 Desde o início do século XX até hoje, o termo hipster foi utilizado para indicar
diferentes grupos ligados à boemia, ao jazz, às drogas, a certo dandismo cool etc. Nos
anos 1940-1950 – antes da consagração da expressão Beat Generation e do termo hippie
–, hipster era usado para outsiders “antenados” em geral.

2 Referência ao poeta e místico inglês William Blake [1757-1827]. Em 1948,


Ginsberg teria tido uma alucinação provocada pela leitura de seus poemas.

3 Em Paradise Alley [literal e ironicamente, “Beco do Paraíso”], Nova York, ficava


o apartamento de Alene Lee, namorada do escritor Jack Kerouac [transformada na
personagem Mardou Fox de seu romance The subterraneans].
4 Referência a Keouac, de origem franco-canadense, e ao próprio Ginsberg, nascido
em Paterson, Nova Jersey.

5 Os Bickford’s e o Fuggazi’s eram dois bares de comida barata, na Nova York dos
anos 1950.

6 Hospital psiquiátrico de Bellevue, Nova York.

7 O poeta John Hoffman [1930?-1950?], figura algo enigmática e efêmera do


movimento beat em San Francisco, de fato desapareceu no México. O verso faz ainda
referências originais destruídos pelos próprios autores e ao grande incêndio de Chicago
em 1871.

8 Referências a Neal Cassady [1926-1968], amigo de Ginsberg e personagem


emblemático da Beat Generation, nos anos 1950 e do “psicodelismo”; foi modelo para
o personagem Dean Moriaty em On the Road, de Kerouac.

9 Vinho doce de origem húngara.

10 Um músico amigo de Ginsberg, Bill Keck, de fato construiu clavicórdios, antigo


instrumento de teclado, precursor do piano; um estudante de teologia com o qual dividiu
um apartamento, Russel Durgin, guardava seus livros em tais caixas.

11 O poeta e músico Naphtali “Tuli” Kupferberg [1923-2010], amigo de Ginsberg,


saltou certa vez da ponte de Manhattan numa tentativa de suicídio.

12 Referências a Bill Cannastra [1922-1950]. Canastra foi, ao lado de Neal Cassady,


um dos principais “enfants terribles” da Beat Generation, e inspirou vários personagens
de seus amigos escritores [ele de fato morreu depois de pular de uma janela do metrô].

13 Os beats reinauguraram a vida “on the road”, viajando de carro através dos EUA no
segundo pós-guerra [na época da Depressão, cruzava-se o país de trem]. O original fala
em “each other’s hotrod-Golgotha [jail-solitude watch]”: hotrod é o carro ‘preparado”,
de grande potência; Gólgota é o lugar onde Cristo foi cruxificado, logo, uma referência
a “carregar a cruz”.

14 Ao México para se drogar, às montanhas para meditar, ao Marrocos [Tânger] para o


turismo homossexual, à ferrovia Southern Pacific para viajar/vagabundear, a Harvard
para se envaidecer e ao cemitério de Woodlawn, [Bronx, Nova York] para morrer ou
praticar sexo grupal: a “coroa de flores” [“daisychain” no original] refere-se também às
orgias noturnas que aconteciam ali [particularmente a um grupo de garotas praticando
sexo oral uma na outra, formando um círculo ou coroa]. A mãe de Ginsberg, Naomi
Ginsberg, morou perto de Woodlawn.

15 Referências a atitudes “dadaístas” de Carl Solomon [que de fato se internou ao


menos uma vez voluntariamente]. Carl Solomon, poeta e escritor [1928-1993] e Allen
Ginsberg se conheceram quando internados numa instituiçãoo psiquiátrica em Nova
York no final dos anos 1940, o segundo como alternativa à prisão por pequenos delitos.
Solomon ainda passaria por outras internações. CCNY: City College de Nova York.
16 Pilgrim State Hospital e Rockland State Hospital, Nova York; Greystone State
Hospital, Nova Jersey: instituições de saúde mental relacionadas à mãe de Ginsberg,
que sofria de esquizofrenia, e a Carl Solomon.

17 Elipse, catálogo e metro são alusões às três maiores influências de Ginsberg:


Pound, Whitman e Williams. Ou seja, de Pound a alusão, de Whitman o verso longo
repleto de referências e de Williams a medida [em Uivo determinada por Ginsberg
como a de uma “respiração”, uma linha que se pode recitar em um “fôlego”].

18 Referência a Cézanne, particularmente à sua famosa carta de 1904 a Émile


Bernard: “As paralelas ao horizonte dão a extensão, ou seja, uma seção da natureza ou,
se preferir do espetáculo que o Pater Omnipotens Aeterne Deus [‘Deus eterno e todo
poderoso’, da oração ‘Domine, non sum dignus’] expõe diante de nossos olhos”. Em
Correspondência, São Paulo, Martins Fontes, 1922, p. 244.

19 Primeiro verso do Salmo 22: “Senhor, Senhor, por que me abandonaste?”.

20 Moloch é o nome pelo qual a Bíblia hebraica, ou Velho Testamento, se refere a


uma divindade do antigo Oriente Médio, não registrada nos achados arqueológicos.
Apesar disso, o Moloch bíblico possui muitas características em comum com o
historicamente conhecido deus Baal dos fenícios, ao qual recém-nascidos eram
sacrificados no fogo, principalmente, em épocas de crise. Ele é descrito como um
homem com cabeça de touro, em cujo ventre arde uma chama.

21 Peter Orlovsky [namorado de Ginsberg por muitos anos], Carl Solomon, Lucien
Carr, Jack kerouac, Herbert Huncke, William Burroughs e Neal Cassady, amigos e
“companheiros de viagem” de Ginsberg [Allen}.

Referência:
GINSBERG, Allen. Uivo. Ilustrado por Eric Drooker. Tradução de Luis Dolhnikoff.
Rio de Janeiro: Editora Globo, 2015.

Ilustração:
Pôsteres de Eric Drooker da edição original da Peguin Books Ltd. Disponíveis em
diversas fontes do Google.