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EXCLUSÃO SOCIAL E CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA: ANÁLISE DA VIOLAÇÃO À

PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA A PARTIR TEORIA DAS JANELAS QUEBRADAS


ARAUJO, Ericleuson Cruz de. Graduando em Direito pela Universidade Estadual da
Paraíba. Email: ericleuson@hotmail.com
ARAÚJO, Iasmim Barbosa. Graduanda em Direito pela Universidade Estadual da
Paraíba. Email: iasmimb.araujo@hotmail.com
MENDES, Guilherme Alves de Moura. Graduando em Direito pela Universidade
Estadual da Paraíba. Email: guimouram11@gmail.com
SANTOS, Kenedy Vieira dos. Graduando em Direito pela Universidade Estadual da
Paraíba. Email: kenedy.vieirads@gmail.com

INTRODUÇÃO

O presente estudo tem como ponto de partida a análise da exclusão social e da


criminalização da pobreza no Brasil, correlacionando os tópicos com a Teoria das Janelas
Quebradas. O fundamento para a necessidade de discussão da temática abordada surge
com a crescente imputação do crime de associação ao tráfico a jovens moradores de
favelas, ainda que a quantidade portada da droga seja mínima, contrariando o princípio
constitucional da presunção de inocência e tornando evidente a ocorrência da
criminalização da pobreza no país.
Para iniciar o estudo, é importante que se ressalte a estrutura social do Brasil,
que apresenta dois tipos de “sociedades” descritas pelo sociólogo Émile Durkheim.
Entende-se que o país possui uma macrossociedade, a qual envolve todos os membros
da vida social, e, ao mesmo tempo, possui microssociedades, distribuição das formas de
relacionamento e convívio social de acordo com características particulares de cada
grupamento humano, em que os membros se unem por interesse comum e relação de
pertencimento.
Exemplos desse tipo de microssociedade no Brasil são as favelas, por serem
comunidades visivelmente segregadas, cujos membros partilham de uma mesma
realidade social, em regra, e que, muitas vezes, têm do Poder Público apenas uma
contraprestação repressiva, em vez das garantias do Estado Democrático de Direito.
Dentre as garantias constitucionalmente previstas, mas desrespeitada, conforme se
demonstrará no transcorrer do estudo, figura a presunção de inocência, insculpida no
artigo 5º, LVII da Constituição Federal de 1988.
Não raros são os casos de agressões sofridas por moradores de favela por parte
do corpo policial, que atua, primordialmente, na busca pela repressão à criminalidade
da localidade, mas acaba afetando direitos fundamentais de terceiros sem qualquer
envolvimento com o crime. Nessa discussão, é importante é salientar que a
generalização da criminalidade feita pelos policiais acaba gerando efeitos ainda mais
negativos do que a feita pela sociedade civil, já que os policiais são responsáveis pela
manutenção da ordem na comunidade e, muitas vezes, acabam abusando do poder,
como se todos os habitantes devessem ser alvo de sua repressão.
Como consequência da atuação repressiva desmedida, têm-se as
arbitrariedades constantemente cometidas por membros do Poder Público, em nome
da “manutenção da ordem pública”, em detrimento de direitos e garantias individuais
constitucionalmente previstos, partindo-se de estereótipos e padrões de conduta
previamente estabelecidos, de acordo com a localização geográfica do indivíduo.
Ademais, salienta-se a atuação equivocada do Poder Judiciário na busca da penalização
desses indivíduos, sem observar os ditames constitucionais e aplicando, muitas vezes,
as normas da Carta Magna de forma equivocada.
O objetivo deste estudo, portanto, é realizar uma abordagem sociológica e
jurídica a respeito dos direitos e garantias fundamentais, bem como sobre os processos
de marginalização no Brasil, que levaram à conjuntura social atual, em que se visualizam
quadros flagrantes de desrespeito a direitos fundamentais, como a presunção de
inocência, especialmente no que diz respeito à aplicação do direito penal em se tratando
de moradores de favelas.
Para o desenvolvimento desta análise, fez-se uso unicamente da perspectiva
metodológica dedutiva, utilizando-se, para tal, de bibliografia pertinente à temática
tratada, com foco nos autores das áreas da sociologia e da criminologia, dentre os quais
destacam-se Émile Durkheim, Loic Wacquant, Ulrich Beck, Pierre Bourdieu, George
Kelling e James Wilson, sendo estes últimos os expoentes da Teoria das Janelas
Quebradas, ponto-chave deste estudo. Além disso, também foram utilizados dados
extraídos de noticiários de veiculação nacional, a respeito da criminalidade nas
periferias e do modus operandi da Polícia na região.
1 EXCLUSÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA

No Brasil, a marginalização dos grupos de pessoas consideradas “indesejáveis”


sempre se fez presente, a exemplo da segregação racial - em decorrência da escravidão
e pós-abolição - e da proibição do voto às mulheres e analfabetos, que só puderam
adquirir a condição de cidadãos no século XX. Porém, a exclusão dos menos favorecidos
economicamente se deu de forma bastante evidente, especialmente por ter sido
intensificada no início do século XX e, notadamente, criado nichos específicos e
nitidamente separados geograficamente para os diversos grupos. Tal processo se deu,
sobremaneira, com as reformas urbanas ocorridas principalmente nas grandes
metrópoles e capitais dos Estados.
Saliente-se que os projetos de urbanização não tinham como único objetivo
promover o embelezamento urbano, mas, sobretudo, “limpar” a cidade, excluindo dela
tudo aquilo o que não estivesse dentro dos seus padrões, o que incluía negros e pobres,
em geral. Desse modo, foi segregada a parcela social de “indesejáveis”, como os
residentes nos cortiços, que em decorrência disso se amontoaram nos morros, criando
as favelas, lugares com pouca ou nenhuma infraestrutura, em que a atuação do Estado
é meramente repressiva. Nessa ótica, Nascimento (2003, p. 27-65) defende que o
processo de repressão é um gradativo afastamento desses “agentes incômodos” do
espaço de representação social.
Na análise do processo de evolução social, Émile Durkheim (1999, p. 40-83;
128-146) compreende a sociedade como sendo semelhante a um organismo vivo, em
que os membros existem e executam determinados papéis em função de um todo. Entre
tais membros haveria um elo, denominado por este autor de solidariedade, sendo esta
subdividida em dois tipos: mecânica ou orgânica. Nas sociedades primitivas, em que há
uma homogeneidade em sua composição, da qual deriva um alto grau de coesão social,
podemos observar o primeiro tipo de solidariedade, a mecânica, por meio da qual as
pessoas estão ligadas por haver uma relação de identificação entre seus membros, em
que os valores e interesses coletivos sobrepõem-se ao indivíduo e o define; assim, tal
relação possibilita que, mecanicamente, os membros sejam solidários entre si. Nesse
sentido, pode-se notar que a solidariedade mecânica é configurada em face do “ser
coletivo”, haja vista que os homens não pensam no seu modo de agir diante do outro,
mas agem mecanicamente, com um ideal de coletividade; em outras palavras, não se
vive para o “eu”, mas para o “nós”, para a comunidade.
Acontece que, com a ocorrência do processo de segregação social já
explicitado, os elos de solidariedade se tornaram cada vez mais enfraquecidos,
aumentando também as distinções entre “bons e maus” conforme o local em que o
indivíduo habita. É o que Nascimento (2003, p. 65-69) chama de “geografia da exclusão”,
conceito que surge a partir da concepção generalista, criada pela sociedade civil em
geral e a própria polícia, considerando todos os moradores de favela,
independentemente de sua atuação pessoal, bandidos em potencial, pelo simples fato
de lá morarem.

2 CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA E AFRONTA À PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

Conforme o ponto de vista defendido pelo sociólogo Pierre Bourdieu (2008, p.


160 et seq), os seres humanos, entendidos como indivíduos biológicos e agentes sociais,
estão situados em um lugar e ocupam um local. Esse lugar pode ser entendido
absolutamente como o sítio em que um agente ou coisa se situam (espaço físico); ou
relativamente, como posição, escalão no interior de uma ordem. Os agentes, por sua
vez, nada mais são que o resultado de sua interação com o espaço social, ou seja, com
o meio que vivem.
A estrutura do chamado espaço social manifesta-se sob a forma de oposições
espaciais, fazendo com que o espaço habitado se torne um símbolo espontâneo do
espaço social. Ele acrescenta que
Em uma sociedade hierarquizada, não existe espaço que não seja
hierarquizado e que não exprima as hierarquias e as diferenças sociais de um
modo deformado (mais ou menos) e, sobretudo, mascarado pelo efeito de
naturalização acarretado pela inscrição durável das realidades sociais no
mundo físico: diferenças produzidas pela lógica social podem, assim, parecer
emergidas da natureza das coisas (basta pensar na ideia de “fronteira
natural”). (BOURDIEU, 2008, p. 160)
O espaço social fisicamente realizado, ou seja, enquanto espaço habitado e
construído socialmente, se apresenta como distribuição, no espaço físico, de diferentes
espécies de bens raros (públicos ou privados), agentes individuais e de grupos que estão
lá localizados e dotados de oportunidades de se apropriar desses bens, que dependerá
do seu capital, assim como da distância física em relação a esses bens, que também está
ligado ao capital.
Esse capital, que abarca o econômico, o cultural e social, permite que pessoas
e coisas indesejadas sejam mantidas à distância e, inversamente, aqueles não o
possuem sejam afastados, física ou simbolicamente, e condenados a viver com bens e
pessoas mais indesejáveis e menos raros.
Assim, a depender do capital que possui e de qual espaço social fisicamente
realizado ocupam, os indivíduos podem ser consagrados simbolicamente ou
simbolicamente degradados, o que o autor explica através do “efeito clube” e “efeito
gueto”
O efeito de gueto é o inverso exato do efeito de clube: enquanto o bairro
chique, funcionando como um clube fundado na exclusão ativa das pessoas
indesejáveis, consagra simbolicamente cada um de seus habitantes
permitindo-lhe participar do capital acumulado pelo conjunto dos residentes,
o gueto degrada simbolicamente seus habitantes, ajuntando em uma espécie
de reserva um conjunto de agentes que, estando privados de todos os trunfos
necessários para participar dos diferentes jogos sociais, só partilham de sua
comum excomunicação. Além do efeito de estigmatização, o ajuntamento,
em um mesmo lugar, de uma população homogênea na despossessão tem
também por efeito redobrar a despossessão, notadamente em termos de
cultura e de prática cultural (assim como, inversamente, ele reforça a prática
cultural dos mais abastados).(BOURDIEU, 2013, p. 140).

Loïc Wacquant (2001, p. 28-29), em seus estudos sobre a marginalidade


avançada, apregoa que considerar a explosão da violência vinda das classes menos
abastadas como sintomas de crise moral, de patologias das classes baixas, ou como
tantos outros indícios de iminente ruptura societal da lei e da ordem é um discurso
muito sedutor, porém, a análise da inquietação pública dos pobres urbanos constitui
uma resposta à violência estrutural lançada sobre eles.
Essa violência vinda de cima apresenta três componentes primordiais: 1) o
desemprego em massa, que traz consigo a aguda privação material; 2) o exílio em
bairros decadentes, nos quais os recursos públicos e privados são escassos e; 3) a
crescente estigmatização na vida cotidiana e no discurso público.
Lucas Eduardo Dantas (2014, p. 117 et seq) descreve que o processo
criminalizador das classes menos favorecidas deve-se, em um primeiro momento, a dois
motivos: a dominação social e o estabelecimento do discurso da classe dominante, de
cunho conservador. Assim, esse processo, tutelado e fomentado pelo Estado e
reproduzido em massa pela mídia a fim de moldar o imaginário social, é uma medida
paliativa de tratar problemas estruturais da sociedade.
Esse discurso chancelado pelo Estado e reproduzido pela mídia, constrói a todo
tempo uma relação de dependência entre a pobreza e a criminalidade, utilizando
argumentos que reiteram a tentativa de estigmatizar a população periférica, atrelando-
as à imoralidade, à poluição visual e à periculosidade, como também tentando reforçar
a ideia de que a inclinação para práticas delituosas é uma característica inata.
Portanto, esse discurso criminalizador da pobreza, por ser uma construção
histórica e, como tal, reiteradamente aceita e reproduzida, se mantém porque se
caracteriza como uma coerção exterior do pensamento. Durkheim (2007, p. 2-3), ao
explicar o fato social, conclui que as maneiras de agir, pensar e de sentir apresentam
uma notável característica de existirem fora das consciências individuais. Além de serem
exteriores aos indivíduos, possuem uma força imperativa e coercitiva, cujo grau faz-se
sentir mais ou menos, a depender da conformação voluntária a ela.
Assim, considerando a coerção social como uma força exercida pelos fatos
sobre os indivíduos, que os faz internalizar e conformar com as regras sociais, o discurso
que entrelaça a pobreza e a criminalidade tem o condão de fazer com que garantias
fundamentais sejam minoradas ou até totalmente ignoradas, como é o caso do princípio
da Presunção de inocência.
Presente, à nível internacional, nas principais declarações e pactos, e a nível
nacional, no art. 5º, LVII da Constituição Federal de 1998, a presunção de inocência é
princípio basilar da persecução penal. Consagra, sob uma ótica humanista e de
preservação da dignidade da pessoa humana, que ninguém poderá ser considerado
culpado sem o transcorrer do devido processo legal e, por conseguinte, a sentença
condenatória irrecorrível.
Para que haja a efetivação do Estado Democrático de Direito, com a
consequente legitimidade da pretensão punitiva estatal, se faz necessária a
comprovação da culpabilidade do indivíduo; caso contrário, estar-se-ia diante de
possível regressão ao estado de total arbítrio do Leviatã. Apesar disso, a violência
estrutural vivenciada pela clientela habitual do direito penal faz com que, ao contrário,
seja presumida a sua culpabilidade, permitindo que outros princípios, como o in dubio
pro reo, não sejam privilegiados diante da fragilidade probatória.
Não apenas há uma violência de um ponto de vista “positivo”, levando em
conta os indivíduos privilegiados pela mão repressora estatal, mas também uma
violência que pode ser considerada “negativa” ou “reflexa”, quando não é dispensado
um tratamento simétrico a outros transgressores da norma penal. De acordo com
Aléssio e Santos (2006, p. 125-126), nas pesquisas realizadas com pais e professores
sobre a incidência dos jovens na criminalidade é ressaltado o binômio pobreza-violência,
sendo as classes menos favorecidas a ameaça da violência vivida pelas camadas mais
abastadas. Porém, nessas pesquisas, a violência causada por jovens de classe média não
chega a ser citada, com a desigualdade social sendo considerada como a causa principal
da violência causada e sofrida pelos jovens.
Partindo dessa informação, já se confirma a mencionada “geografia da
exclusão”, à medida que os próprios pesquisadores apontaram como agentes
causadores de violência apenas os jovens de camadas menos favorecidas, deixando de
lado sequer o questionamento sobre a possibilidade de cometimento de infrações por
jovens de classes mais abastadas.

3 TEORIA DO RISCO E BUMERANGUE DE ULRICH BECK

O sociólogo alemão Ulrich Beck desenvolveu a importante Teoria da Sociedade


de Risco, a partir de uma abordagem relacionada ao problema do individualismo, já
mencionado no primeiro tópico, da exclusão na sociedade brasileira. A tese defendida
pelo autor é a de que, como aumento da produção, a sociedade teria que arcar com os
riscos que a produção traria consigo, dentre eles incluem-se os riscos sociais, biológicos
etc. Logo, enquanto nas sociedades modernas haveria a distribuição de riquezas, na
sociedade contemporânea o que se verifica é a distribuição dos riscos causados pela
modernização, sendo que o processo de modernização é reflexivo, sendo, ao mesmo
tempo, tema e problema (BECK, 2010, p. p. 23-27).
Em geral, os riscos de que Beck trata são, primordialmente, relacionados à
saúde e ao meio ambiente, sendo que podemos fazer um recorte sociológico, para
inserir a problemática dos riscos ao tema pertinente a este estudo. De acordo com este
autor: “com a distribuição e o incremento dos riscos, surgem situações sociais de
ameaça [...] contém um efeito bumerangue, que implode o esquema de classes”. Porém,
os riscos, assim como as riquezas, são objetos de distribuição, mas de maneira inversa:
enquanto as riquezas são distribuídas de cima para baixo, os riscos são distribuídos de
baixo para cima, não reduzindo, mas ratificando a sociedade de classes, de modo que o
pobre, além de não ter acesso às riquezas, é quem mais tem acesso aos riscos,
justamente por não ter a primeira.
Com relação ao efeito bumerangue, por se tratar de algo que se reflete na
própria elite, é o que mais a preocupa, visto que, com tal efeito, pode haver riscos na
lucratividade e na produtividade, sendo apenas nesse momento que a classe mais
abastada começa a se preocupar com os riscos que o desenvolvimento pode trazer. De
fato, enquanto ele está seguro, tendo condições para comprar segurança, não se
importa com os riscos que o consumo traz. Todavia, quando o efeito bumerangue
começa a agir, há uma preocupação maior com tais riscos, haja vista que a classe em
questão começa a ser diretamente afetada por riscos que já afetavam diretamente a
classe mais baixa.
Assim, como será mais amplamente abordado no tópico que segue, grande parte
da população não se importa com o uso de meios pouco convencionais, ou mesmo
ilegais, para a manutenção da ordem pública, ainda que tais condutas sejam lesivas a
direitos fundamentais. O que se objetiva é garantir que os riscos de que Beck trata sejam
mantidos apartados, marginalizados, juntamente com os mais pobres, que devem arcar
com esse risco sozinhos.
4 APLICAÇÃO DA TEORIA DA ESCOLA DE CHICAGO/TEORIA DAS JANELAS
QUEBRADAS

A Teoria das Janelas Quebradas, desenvolvida pela chamada Escola Sociológica


de Chicago, foi originalmente publicada em 1982, com o título “Broken Windows - the
police and neighborhood safety”, por George L. Kelling e James Q. Wilson, trazendo uma
espécie de estudo de caso sobre o policiamento em Nova Jersey, no anos 70.
Baseada no experimento realizado por Philip Zimbardo em 1969, uma das
principais conclusões a que os autores chegam, talvez uma das que definem mais
fortemente a sua Teoria, é a de que a desordem e o crime, a nível de comunidade, se
estabelecem em uma relação de causalidade. Usando o exemplo dos estudiosos, se uma
janela em um prédio estiver quebrada e for deixada sem reparos, todo o resto das
janelas serão, em breve, quebradas, em decorrência da relação existente entre a
desordem preexistente e a perpetuação da criminalidade. Afirmam, ainda, que o
fenômeno se daria porque, se uma janela está quebrada e ninguém a conserta, significa
que não haveria interesse em consertar qualquer uma delas.
Segundo os autores, foi instituída pelo Governo a política de policiamento a pé,
visando a reduzir o índice de criminalidade na área, embora tal forma de
desenvolvimento de patrulha fosse desacreditada, por reduzir a mobilidade dos policiais
e outras desvantagens inicialmente vislumbradas. Cinco anos após o início da patrulha
nesses moldes, foram divulgados relatórios sobre os índices de criminalidade,
demonstrando que os resultados haviam sido melhores que os esperados. De acordo
com os resultados dos relatórios, não houve redução da criminalidade, mas,
surpreendentemente, os cidadãos residentes nas áreas com esse tipo de patrulha se
mostraram mais confiantes e seguros, assim como os policiais que realizaram as rondas
tiveram sua “moral” elevada e maior satisfação no desempenho das suas funções. Com
base nesses resultados, Kelling e Wilson desenvolveram o que se passou a conhecer
como Teoria das Janelas Quebradas, a partir da análise do caso supramencionado, a
partir de uma perspectiva sociológica e da criminologia.
As regras estabelecidas pela comunidade, a fim de estabelecer a ordem, se
tornaram espécie de lei local. Ainda que outros não conhecessem a sua existência ou
quais eram as normas, os residentes na região as conheciam, tornando-se costume local
seguir tais determinações não escritas. Segundo os autores, caso as regras fossem
quebradas:
If someone violated them, the regulars not only turned to Kelly for help but
also ridiculed the violator. Sometimes what Kelly did could be described as
"enforcing the law," but just as often it involved taking informal or extralegal
steps to help protect what the neighborhood had decided was the
appropriate level of public order. Some of the things he did probably would
not withstand a legal challenge. [...]
Second, the police in this earlier period assisted in that reassertion of
authority by acting, sometimes violently, on behalf of the community. Young
toughs were roughed up, people were arrested "on suspicion" or for
vagrancy, and prostitutes and petty thieves were routed. "Rights" were
something enjoyed by decent folk, and perhaps also by the serious
professional criminal, who avoided violence and could afford a lawyer.
(KELLING; WILSON. 1982)

A população local, como se observa, não se preocupou com a atuação dentro


dos limites da legalidade, chegando a permitir que fossem tomadas medidas extralegais,
ou informais, em nome da proteção da comunidade em primeiro plano.
Acontece que os resultados encontrados se alinham perfeitamente ao tópico
anteriormente tratado, da Teoria do Risco de Beck, resguardadas as devidas proporções
e aplicando-se analogicamente ao objeto do presente estudo, à medida que, enquanto
na comunidade descrita por Kelling e Wilson os cidadãos de um mesmo local “lutam”
pela redução da criminalidade, independentemente das medidas aplicadas, no caso
brasileiro, a sociedade civil em geral busca a repreensão dos delitos, ainda que disso
decorra a violação de princípios constitucionais, como a presunção de inocência, sob a
justificativa de proteção social.
A realidade que se esconde por trás de tais argumentos, porém, é clara: a
perpetuação da exclusão e alocamento dos agentes “indesejáveis” em “seus lugares”,
seja na comunidade em que vivem, ou nas prisões. Desde que os que detêm maior
capital estejam protegidos dos riscos trazidos pela sociedade atual, não importam quais
medidas sejam tomadas e quais direitos sejam violados, a suposta “justiça” terá sido
feita.
5 REALIDADE DOS MORADORES DE FAVELAS. CASOS PRÁTICOS

De acordo com pesquisa realizada pelo Jornal Folha de São Paulo no Banco
Nacional de Mandados de Prisão do Conselho Nacional de Justiça, enquanto a média
nacional de prisão por associação ao tráfico juntamente com o crime de tráfico de
drogas é de 12%, no Rio de Janeiro esse índice chega a cerca de 41%, especialmente se
tratando de moradores de comunidades carentes, ou favelas.
Conforme os resultados obtidos na Pesquisa sobre as sentenças judiciais por
tráfico de drogas na cidade e região metropolitana do Rio de Janeiro (2018), produzida
pela Defensoria Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro em convênio com o Fundo
Nacional Antidrogas da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, em 44,14% das
sentenças houve referência de a ação ter ocorrido em favela, morro ou comunidade.
A pesquisa ainda demonstra que, quando há condenação pela prática das
condutas previstas no art. 33 e 35 da Lei de Drogas em concurso, a justificativa mais
utilizada pelos magistrados em seus razões de condenar é a presunção de que o réu é
integrante de associação criminosa, em razão do local da apreensão, que é dominado
por facção criminosa.
Outro dado alarmante é que, em 62,33% dos casos, o agente de segurança foi
a única testemunha ouvida no processo e em 53,79% dos casos o depoimento do agente
de segurança foi a principal prova valorada pelo magistrado para formar seu
convencimento.
Assim, o magistrado, embasado principalmente no testemunho dos agentes de
segurança pública, sem provas que comprovem vínculo associativo, estável e
permanente para caracterização do delito disposto no art. 35 da Lei de Drogas, presume
que o réu é integrante de associação criminosa, em razão do espaço social fisicamente
realizado que este ocupa. Por fim, concluiu-se que
a maior parte dos processos se refere a réus homens (91%), sem
antecedentes criminais (77,36%) e sem condenações em juízo (73,85%), que
foram abordados sozinhos (50,39%) em flagrantes decorrentes da operação
regular da polícia (57%), em lugar dito conhecido pela venda de drogas
(42,41%), portando consigo uma espécie de droga (48,04%),
majoritariamente até 10g cocaína (47,25%) ou até 100g de maconha
(49,52%). Esses réus têm a maior probabilidade de serem processados pelo
artigo 33 ou pelos artigos 33 e 35 em concurso (83%), de terem o agente de
segurança que como a única testemunha no processo (62,33%), e de serem
condenados integral ou parcialmente (80%) ao cumprimento de uma pena de
71,09 meses ou de 27,4 meses – a depender da aplicação ou não do benefício
previsto no parágrafo 4º do artigo 33, aplicado a 42,35% dos casos – em
regime fechado (58,6%).

Ademais, em notícia veiculada pelo mesmo Jornal, demonstra-se a grande


divergência de tratamento entre os moradores de favela e os demais, ao ser reportado
que, enquanto uma jovem moradora de Ipanema, portando 300g de maconha, foi
acusada de tráfico e responde ao processo em liberdade, um jovem morador de
Manguinhos, que sequer portava drogas ou armas, foi pego em perseguição policial
contra os traficantes da localidade, pelo que foi preso preventivamente e condenado a
sete anos e seis meses pelo crime de associação ao tráfico. A dicotomia existente para
o tratamento do suposto criminoso morador de favela e aquele que reside em área
“nobre” é evidente e fica clara a existência da criminalização da pobreza no Brasil.
Alessandro Baratta (2002, p. 161 et seq) ao tecer seus comentários a respeito
da virada sociológica no âmbito da sociologia criminal e a ascensão da criminologia
crítica, apregoa que a criminalidade se revela, principalmente, como um status atribuído
a determinados indivíduos, mediante uma dupla seleção: primeiramente, a seleção dos
bens protegidos e dos comportamentos que ofendem a estes bens, presentes no tipo
penal; em segundo lugar, a seleção dos indivíduos estigmatizados entre todos os
indivíduos que transgridem a norma.
Análises teóricas e uma série inumerável de pesquisas empíricas conduziram a
crítica do direito penal a resultados condensáveis em três proposições: 1) o direito penal
não ofende todos e somente os bens essenciais e quando pune as ofensas aos bens
essenciais, o faz com intensidade desigual e de modo fragmentário; 2) a lei penal não é
igual para todos assim como o status de criminoso é distribuído desigualmente; 3) o grau
efetivo da tutela e a distribuição do status de criminoso não guarda relação com a
danosidade social das ações e da gravidade das transgressões.
Assim, desmistifica o mito do direito penal como igual por excelência,
demonstrando sua afinidade com ramos do direito burguês, sendo, ao contrário,
desigual por excelência. Nas palavras do autor:
As maiores chances de ser selecionado para fazer parte da “população
criminosa”, aparecem, de fato, concentrados nos níveis mais baixos da escala
social (subproletariado e grupos marginais). A posição precária no mercado
de trabalho (desocupação, subocupação, falta de qualificação profissional) e
defeitos de socialização familiar e escolar, que são características dos
indivíduos pertencentes aos níveis mais baixos, e que na criminologia
positivista e em boa parte da criminologia liberal contemporânea são
indicados como as causas da criminalidade, revelam ser, antes, conotações
sobre a base das quais o status de criminoso é atribuído. (BARATTA, 2002, P.
165).

Portanto, ainda que a pobreza seja realidade flagrante no país, pouco - ou nada
- se faz visando à alteração deste estado social, ou mesmo buscando a redução das
iniquidades sociais existentes. Pelo contrário, o que se tem na realidade prática é a
aplicação de normas cada vez mais duras com aqueles cuja condição financeira seja
menor, penalizando-os pelo fato de residirem em locais cujos índices de criminalidade
sejam mais elevados e presumindo, muitas vezes equivocadamente, pelo seu
envolvimento em condutas delituosas.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A exclusão social intensificada no país em decorrência da modernização e dos


projetos urbanísticos empreendidos, especialmente, nas capitais provocaram inegáveis
consequências na estrutura social do país, especialmente no que diz respeito à
organização e distribuição espacial, provocando maior estratificação da sociedade com
base, principalmente, na classe social a que o indivíduo pertence. Inegavelmente, as
consequências desse fenômeno não puderam ser benéficas, tendo sido ampliada a
marginalização e o pensamento generalizado de criminalização da pobreza, ou de
associação dos mais pobres à prática de delitos em geral.
Ocorre que, em decorrência disso, inúmeros são os casos de pessoas a quem
são imputadas penas injustas, em total assimetria ao procedimento realizado quando se
trata de indivíduo residente em área mais nobre, por exemplo. O método adotado para
o tratamento e julgamento dos mais pobres, especialmente aqueles que residem nas
favelas, é flagrantemente arbitrário e desrespeitoso, conforme se exprime dos casos
apresentados.
Verifica-se, igualmente, que a sociedade civil e o Poder Público têm
empreendido parcos esforços em alterar a realidade apresentada, sendo necessário que
haja melhor orientação dos policiais no que tange às prisões e autuações realizadas com
os moradores dessas localidades, bem como que o Poder Judiciário coadune sua atuação
com as garantias individuais dos cidadãos, evitando que haja agressões à Carta Magna
e perpetuação dos flagrantes desrespeitos até então cometidos.

REFERENCIAL TEÓRICO

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