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Ferreira Gullar- EMERJ setembro de 2005.

2002- indicado prêmio Nobel de Literatura

Entrevista com a jornalista Sonia Peçanha

fita 1-
SP- Infância- menino José Ribamar no Maranhão. Como era esse menino poeta? Ele se destacava
entre as outras crianças?

FG- Esse menino não era poeta não. Era um pivete, marginal. Roubava coisas. Era o Espírito
Esmagado e eu (Mosquito). Éramos nós três. Espírito da Garagem da bosta. Nós três ... Eu, numa
família de onze, de onze filhos. Pessoal não tinha tempo de tomar conta de tanta gente assim. Muita
correria. A gente andava pela rua e eu era o mais moleque de todos. Isso até uma certa altura. De
repente, de uma maneira inesperada, eu parei com isso e comecei a ler. Com 12 anos, 13 anos.

SP- É verdade que teve um amor?

FG- Ah sim. Sempre tem uma menina ali no meio da história. Uma moça. Era uma garotinha.
Começa a descobrir, a gente na adolescência começa a pensar, descobrir certas coisas, que a vida
não é tão simples quanto é.
Mudei. De repente o espírito e o esmagado (?) chegavam defronte à minha casa, chamavam pelo
assovio que era nosso sinal. E eu já não chegava na janela para atender o chamado deles. Pela rua
diziam que eu tinha me tornado um leitor. Ficava meio sorumbático. Foi uma mudança assim um
pouco brusca, inesperada.

SP- E na altura desse acontecimento

FG- Quando eu comecei a ler... na minha casa não tinha livros. Eu ia na biblioteca pública. E na
biblioteca pública tinha a estante geral, com a literatura mundial e tinha a literatura maranhense. E
como eu era maranhense, eu só lia a literatura maranhense. Não queria saber da literatura do
mundo. Só lia autores maranhenses. Até o dia em que eu descobri que existia o mundo. Foi outra
etapa. Primeiro, eu não sabia que existia a cidade, eu achava que era só o meu bairro. Era o bairro
na periferia do bairro operário. Eu vivia no bairro. Eu só ia no centro da cidade roubar alguma
coisa, mas ... Rua do Viado.

SP- Os seus primeiros poetas, são poetas bem tradicionais.

FG- O negócio todo foi quando... Eu estudei numa escola... O meu pai fez um esforço para eu
estudar nessa escola. Era uma escola paga. Eu tinha que fazer o curso secundário. Era um dos
melhores colégios, mas ele não teve dinheiro para continuar pagando a mensalidade. Aí eu fui para
a escola técnica de São Luiz, de graça e profissionalizante, onde eu aprendi marcenaria, serralheria,
prataria, sapataria. Se você quiser eu faço um sapato para você. Não ensinavam quase nada,
literatura. Um dia a professora pediu para a turma fazer um trabalho sobre o dia do trabalho.
Redação. Véspera de feriado, aí eu fui para a casa. E tive a idéia: no dia do trabalho ninguém
trabalhava, então essa idéia genial impressionou demais a professora que me deu 9.5, disse que só
não dava dez porque tinha dois erros de português. Tendo ganho 9.5 e sendo elogiado pela
professora eu achei que eu podia ser um escritor. Como eu tinha errado esses dois erros de
gramática, eu decidi então estudar gramática. Durante dois anos só li gramática, para me
especializar. Fiquei lendo Gramática expositiva de Eduardo Carlos Pereira. Meu mestre. Atrás da
gramática, li uma seleção de poetas, Camões, Bocage, Gonçalves Dias, Castro Alves, Casemiro de
Abreu, Raimundo Correia e vinha até Ronaldo de Carvalho que era moderno, eu gostava. Eu não
entendia nada. Fui lendo: “alma minha.. tão cedo nesta vida...”
“... troféu”... Bocage. Então eu comecei a escrever. Uma menina dos olhos negros, comecei a
escrever para ela, Terezinha não queria mais nada comigo, se quisesse certamente eu não escreveria
o poema. Fui me convencendo que eu era poeta, eu não era nada. Nós somos a invenção de nós
mesmos. Bebê não é nada, é feito pela educação, nós somos criados pela cultura, pelo
conhecimento, aí vai virando gente, porque antes é bicho. É bicho com propriedades de ser gente,
pretensão de ser gente. Então eu fui me inventando poeta. Como eu tinha alguma qualidade, se não
tem qualidade não adianta. Eu sou Napoleão. Se vc. não é Napoleão... Você tem que inventar, mas o
outro tem que concordar com a sua invenção. Não adianta vc. dizer: sou jogador de futebol, vai e
não joga...

SP: Como veio a decisão de vir para o Rio?

FG: O máximo que eu cheguei foi o parnasianismo, Raimundo Corrêa, Emílio de Menezes, Olavo
Billac: Ora direi ouvir estrelas. Eu aprendi de tal maneira a fazer verso decassílabo, que eu só falava
em decassílabo. E aí, quando foi. De modo que. .. minha irmã Conchita... Na minha concepção
poeta, todos tinham morrido. Poeta vivo não existia. Tem jornal que publica poeta? Tem. Aí eu fui
conhecer um poeta morava numa casa pequenininha. Não parecia poeta. Poeta que eu conhecia era
Castro Alves, aquela cabeleira. Ele me levou ao jornal O Combate para publicar o meu primeiro
poema. O dia de trabalho. Eu escrevi depois um soneto, que eu aprendi a fazer um soneto. O
trabalho, era o mesmo tema da redação que eu ganhei 9.5. Já havia dado certo na redação, ia dar
certo na poesia também. Foi esse poeta que se chama Manuel (rufino?) que me levou até a redação
do jornal O combate e lá publicou o meu poema O trabalho. Primeiro poema que eu fiz na vida. Eu
devia ter uns 17 anos. Me apresentou a um poeta, há umas oito quadras da minha casa existia um
bar chamado Bar do Castro que os caras se reuniam, tomavam chope. Poeta achava que tinha
morrido, poeta gostando de chope. Passei a participar da vida literária. Centro cultural Gonçalves
Dias, todo domingo tinha declamação de poema. Foi assim que eu entrei na vida literária.

SP: E a decisão de vir para o Rio?

FG: Um dia caiu na minha mão um livro chamado Poesia até agora, de Carlos Drummond de
Andrade. Eu comecei a ver, achei esquisito: Lua diurética. Esse cara tá pirado. “escrevo teu nome
com letras de macarrão na sopa”. Isso é poesia moderna, você tá por fora. Vou ler para entender... Aí
comecei a ler Mario de Andrade: Pagador de passagem, li A cinza das horas, aí eu fui entender o
que era poesia moderna. Virei poeta moderno. Eu já tinha publicado, o meu primeiro livro: Um
pouco acima do chão. Depois foi eliminado, execrado por mim. Enfim era um livro muito
inconsistente. De modo que eu me empolguei de tal maneira (com a poesia moderna) que eu
comecei a fazer uma poesia que os meus colegas não entendiam mais. Parei de ler as coisas
maranhenses, descobri que existia o mundo. Paris, Nova Iorque, essas coisas todas, e o Rio de
Janeiro. Concurso nacional de poesia, eu mandei o meu poema moderno: O carro. Ganhei o
primeiro prêmio do concurso. Eu lá em São Luiz do Maranhão, chegou um telegrama: Você ganhou
o prêmio! Fiquei bestificado, comecei a pular na sala. Eu descobri a pintura, que as artes plásticas
eram uma coisa que me tocava. Em São Luiz não havia galeria de arte, livro de arte não havia. A
coisa mais difícil era você encontrar alguém que tivesse um livro de arte. Eu vi que não dava para
continuar lá. Decidi ir para o Rio de Janeiro por isso. Nessa altura eu era locutor da rádio (?) do
Maranhão, Rádio Tibira do Maranhão. Eu era locutor de rádio. Comprei um terno tropical. Vendi
tudo o que eu tinha. Peguei um Ita do Norte. Vim para o Rio. Fui morar numa pensão, numa vaga,
um quarto de pensão da rua Benjamin Constant, na Glória.
SP: Sua trajetória como poeta. Na minha época de faculdade eu fiz uma monografia acompanhando
justamente a transição de Luta corporal até os poemas que você faz depois do Neo concretismo.
Esses três momentos. Eu falava de um processo de amadurecimento do poeta.... Como vc. trata
essas três fases que começa com Luta corporal, neo-concretismo e depois os poemas com cunho
mais social.

FG: A luta corporal é um livro... Ao descobrir que havia uma poesia moderna, uma nova poesia que
se caraterizava não pela forma pré-estabelecida como soneto, redondilha e o verso decassílabo, o
verso dodecassílabo que era de formação anterior. Descobri que havia o verso livre que não
obedecia nenhuma norma pré-concebida, pré estabelecida. Ao tomar conhecimento disso foi uma
revolução na minha cabeça e ao tomar conhecimento da contemporânea, comecei a buscar outras
maneiras. E ao ler uma frase do Gaugin que dizia: quando eu aprender a pintar com a mão direita,
passo para a esquerda. Quando eu aprender a pintar com a esquerda, passarei a pintar com os pés.
Eu entendi: não adotar nenhuma técnica a priori e nenhum princípio a priori. Uma coisa que deve
ser criada aqui e agora e não a partir de normas pré- estabelecidas. Essa maneira radical de entender
a arte contemporânea me levou a escrever a Luta Corporal que é um livro que toda vez que eu
consigo conquistar um modo de fazer, eu rompo com ele. Toda vez que o próprio processo de fazer
se estabelece como norma eu rompo com a norma. Até implodir a linguagem final como
conseqüência desse processo terminou com a implosão da linguagem. Os poemas da Luta corporal
são poemas de uma linguagem desintegrada o que me levou a crise total de achar que eu tinha
terminado, que eu não ia escrever mais. Esse fato vai determinar, vai infulir no movimento da
poesia concreta que é uma tentativa de escrever sem o discurso, de construir a poesia sem o
discurso. Esfacelar. Os poetas de São Paulo, Haroldo e Décio me procuraram e conversamos e a
posição deles era um pouco diferente da minha no sentido de que eles queriam construir uma nova
poesia. Mas eles queriam construir um novo verso, como eu tinha desintegrado o verso, então se
tratava de construir uma nova sintaxe, uma nova linguagem. E eles então entenderam que o
caminho seria criar poemas visuais, organizados espacialmente, não com o discurso mais pela
proximidade semelhante das palavras. Assim nasceu a poesia concreta, e eu integrei o movimento.
Mas havia entre nós uma diferença essencial, dessa ruptura acabou nascendo o movimento neo
concreto. A divergência principal era uma coisa que eu não suportava mais que era estabelecer
normas para a poesia. Só que essas normas não eram mais o decassílabo, o dodecassílabo, eram
outras normas. Que a poesia devia ser construída segundo princípios matemáticos. Inviável. Eu era
uma pessoa inquieta buscando entender as coisas. Inclusive um cara chamado Ernest Kassiler que
estudou a filosofia das formas simbólicas entre a linguagem simbólica não há possibilidade de
tradução. Não se pode traduzir matemática em.. música em pintura, as linguagens são intraduzíveis
entre si. O que a música diz só a música diz. Eu posso fazer um poema sobre a quinta sinfonia, mas
não será a quinta sinfonia. Não há relação causal entre a matemática e a linguagem. Isso é uma
coisa que eu tentei convencê-los de que eles estavam errados. Eles insistiram que estavam certos e
aí rompemos, nasceu o movimento neo-concreto.
O movimento neo concreto é bastante inventivo, aberto e terminou até, da minha experiência... eu
terminei fazendo poemas espaciais. Depois de poemas espaciais, construções, placas de madeira e
cubos. Poema lembra: uma tábua branca com um cubo azul escrito a palavra lembra. Você levantava
o cubo azul e embaixo tinha escrito a palavra lembra, aí vc. botava o cubo de novo e aquilo ficava
pulsando, agora vc. sabia que embaixo daquele cubo tinha uma palavra. Essa idéia de fazer do
poema não como forma habitual, mas como uma participação corporal. Poema enterrado. Uma sala,
chão. Sair do gesto para a participação do próprio corpo. A penetração do leitor no poema, dentro do
poema. Instalação. Foi feito em 1969.
Ao chegar nisso. Houve uma época em que eu quis romper com o movimento, arquitetura, não tem
nem dinheiro. Parei. Veio outra crise, eu vivo de crise em crise. Rompi com meus colegas, já tinha
rompido com os concretistas, agora rompi com os neo-concretos e fui fazer romance de cordel. “Eu
vou contar pra vocês um caso que aconteceu na Paraíba do Norte. Voltei pro mais chã das formas
poéticas. Começar do novo, do rés do chão. Fui fazendo. Mas claro que essa poesia de cordel...
nessa altura eu já tinha entrado no Pasquim, eu já tinha me engajado na luta política, então fazer o
cordel era na verdade, não fazer poesia, eu não tava mais afim de fazer poesia, eu tava afim de fazer
a revolução. Eu usava o verso do cordel para levar consciência política às massas, segundo eu
pensava, só que as massas não estavam nem aí.
Eu fazia uma poesia pobre, para ninguém. Então eu compreendi que eu tinha... não é voltar atrás.
Tinha um procedimento... uma linguagem ligada ao cotidiano, ligada à vida política, ligada à luta
revolucionária, mas fazer uma poesia rica, não ficar no cordel, não ficar na forma mais primária da
poesia.

Fazer uma poesia política rica, complexa de qualidade literária. Você aprende ‘levando na cabeça’,
faz achando que tá certo, depois percebe que não dá. Baixou a qualidade e não se comunica com
mais gente, vc. baixou a qualidade para se comunicar com mais gente, agora não tem nem a
qualidade, nem a quantidade de gente. Tá errado. Então eu vou voltar a fazer poesia que continuasse
a dizer coisas que eu acreditava, mas de uma maneira literariamente rica, aí a minha poesia vai
ganhando de novo uma riqueza verbal, qualidade literária, até chegar... até chegar no Poema sujo
que é o assunto hoje aqui.

SP: Vc. falou do CPC, da sua militância política. Como vc. com toda essa história, está vendo a
nossa situação de hoje? Está difícil acompanhar o Brasil hoje?

FG: Eu lamento o que está acontecendo, evidentemente, a surpresa para mim que o que está
acontecendo tenha como fonte a corrupção. Isso pra mim é surpresa. Mas eu confesso que nunca
esperei grandes coisas do governo Lula. Eu não votei no Lula. Eu nunca acreditei no PT. Eu fui do
Partido Comunista, a minha formação é marxista. Aprendi muito com os erros do meu partido, com
meus próprios erros então quando eu vi o PT com os mesmos erros que eu já conhecia eu falei: não
vou permitir a mesma história... Esquerdismo, achar que tem a solução para todos os problemas,
pouca valorização da democracia, desrespeito pelo que é democrático, filosofia de tudo justifica os
meios, como eu sou o salvador da pátria então eu posso roubar, fazer tudo porque eu vou salvar a
pátria, eu vou salvar a alma. Depois te queimo na fogueira, porque só assim eu salvo a sua alma.
Como eu to salvando o máximo que vc. tem de você que é a manifestação divina, eu tenho direito
de fazer. De modo que o PT entrou nessa porque achou que ia salvar a pátria. Parece aquela fábula
do gato e do rato. O rato fala que a vida não tem sentido e o gato fala que você tem toda a razão. Se
a vida não presta... eu tô achando que a vida é boa, como você.

SP: Vc. está escrevendo alguma coisa meio um reflexo desse momento?

FG: Não. Eu escrevo para a Folha de São Paulo. Escrevo tentando entender as coisas na medida do
que eu compreendo. Eu acho que é uma grande lição que nós estamos aprendendo. Tinha que
acontecer, o Lula tinha que ser eleito presidente. Tentou três vezes, foi derrotado três vezes. A
grande parte da população acabou achando: porque não tentar? Um país com 180 milhões de
habitantes, com a história que nós temos de colonização, de escravidão, é um país injusto, com uma
desigualdade, com uma divisão de rendas atrozes. Mas isso não pode ser resolvido do dia para a
noite, é impossível. Gostaria eu de dormir e acordar amanhã com um Brasil perfeito, mas só que
não acontece, então tem o governo, vc. elege o governo. bem intencionado, mas ele não resolverá
todos os problemas. Vc. tem que medir é o seguinte: o que ele fez foi positivo? Mas aí vem o
adversário e fala assim: continuam as pessoas com fome, sempre vai mostrar a miséria, sempre tem.
Então o que vc. tem que entender é o seguinte, não é possível resolver do dia para a noite. Tem que
ver se o cara é honesto, se o cara é íntegro, se o cara trabalhou, se o cara se esforçou, se alguma
coisa foi feita e não achar que agora vem um cara salvador da pátria que vai resolver a situação
econômica. Não existe. Salvador da pátria não existe. O próprio cara autor dessa conversa do gato e
do rato que eu acabei de contar aqui disse uma coisa que pára mim é a sabedoria: o homem perdeu o
paraíso pela impaciência. Uma das piores qualidades humanas é a impaciência, que é o que explica
a conversa do Roda Viva. Está todo mundo bem intencionado, todo mundo quer acabar com a
injustiça. Mas se você não acaba nem em sua casa, tu não acaba nem a injustiça tua com a tua
mulher. Ele acha que a sociedade é mais fácil resolver, ele não sabe como lidar com o filho, então
tem que ser modesto, compreensão, saber que as coisas são complexas. Ter humildade e coragem.
Ter paciência não é ser conivente, ter paciência é ter determinação para ir até lá. Comodismo, ter
paciência é dizer: eu vou até lá nem que dure 20 anos, 50 anos. Eu vou lá. Agora dizer: ou resolve
até segunda feira, ou eu pego meu chapéu e vou embora... que revolucionário é esse? É a pressa.
Quando eu vi o PT dizer eu não ia votar no Lula. Contra o tratado, o Brasil assinar o tratado contra
a proliferação de armas atômicas. O Brasil não devia assinar o tratado porque, segundo ele: se nós
brigarmos com os EUA, vamos brigar com atiradeira... Pode isso? Atiradeira? Nós vamos deixar de
dar dinheiro para saneamento básico, mudar às favelas para fazer?? Eu disse: esse cara é muito
burro, eu não posso votar nele. Outra coisa: no meu governo só se vai exportar cereal quando não
tiver nenhum brasileiro morrendo de fome. Ah porra vai morre todo mundo de fome! Porque o
dinheiro que a gente tem para investir na área social vem do que se vende! Burro demais gente.
Eu posso dizer isso agora porque se eu dissesse isso a dois anos atrás ia ser muito chato. Burrice
passou a ser categoria, ter diploma é insulto. Eu não tenho diploma universitário, não sou nenhum
gênio, mas eu não tenho diploma universitário. Machado de Assis não tinha diploma, só que ele lia
em inglês, francês, conhecia toda a literatura universal, história, filosofia. Ter conhecimento é
fundamental porque o ser humano é cultura. Ele é valor de coisas criadas por ele. Sem cultura não
existe o ser humano. Isso é que é o conhecimento. Nessa civilização nossa o homem é cada vez
mais conhecimento. Vai chegar um ponto que a gente precisa tomar cuidado com a desigualdade
que vai se criar em relação à desigualdade de apropriação do conhecimento. É uma nova injustiça
que vai se criar aí. Nos países mais atrasados, que as pessoas não tem condições, ficam cada vez
mais distanciadas, isso é uma coisa muito séria, vc, não pode louvar a ignorância, na base de que
como é operário vai salvar a pátria. Pera lá! Não é nada disso: pode ser operário, Vicentinho é
colega do Lula e estudou direito, foi estudar porque compreendeu que tem que estudar para saber as
coisas, para ser um líder sindical, saber o que está fazendo. “Eu ando pelo Brasil, eu conheço tudo”.
Não pode ser. Eu chego no Piauí, passo duas semanas lá e conheço tudo.

SP: Vamos voltar para a poesia...

FG: Para encerrar o papo.

Leitura de Poema sujo.

FG: Elogiou muito a leitura dramatizada feita pelos alunos do curso de direção teatral da UFRJ.
Até eu me emocionei. Achei muito bonito. Ver o poema na boca dos outros, emoção.
O sentido da vida são os outros. Não tenho nenhuma dúvida. Eu escrevi esse poema e agora neste
momento de vida... A transcendência é o outro. ?? Cada um inventa a vida como melhor lhe
aprouver, como puder. Certamente que acredita na ressurreição está melhor do que eu. Aquele filme
“Um anjo em Nova Iorque”. O anjo estava vestido de paletó e gravata. Estava lá um anjo e mais
duas pessoas. Um com cachorrinho no colo, que estava nos braços dele. Ele corre e é atropelado.
Ele fica chorando, abraça o cachorro. Um cara iluminado abraça o cachorro. E ele ressuscita. É uma
aspiração profunda do ser humano. Entendi o porquê. Eu não sou católico. Mas eu acredito na
especificidade humana nas necessidades que transcendem ?? as qualidades.?? que se ressuscita.
Mesmo que não ressuscite, no filme ressuscitou, ali ressuscitou. Naquele momento havia
ressuscitou. O homem inventou o teatro, o cinema para o mundo ficar mais humano, mais
acolhedor. O mundo é melhor com poesia, com música. A poesia não é só essa que se faz aqui, é a
que se faz lá no Morro, no interior. A história que o cara conta ao pé do ouvido, a mentira que ele
inventa. Pra vida ficar melhor. Quando o cara para de inventar, ele está perdido. O Vinícius ..
quando eu estava no exílio. Esse poema foi responsável por eu ter voltado, a exigir a minha volta
junto ao governo do Estado. Essa coisa bonita da poesia, da intenção da coisa criada, é uma coisa
necessária que faz a vida mais rica, melhor. Destruir a arte, cobrando que todo mundo tem que ser
de vanguarda, a vanguarda destruía as coisas. Não dá. É uma coisa velha demais, sabe aquele Hipão
que está...Ele não tem mais 17 anos. Então essa coisa da vanguarda pela vanguarda, novidade pela
novidade. Se alguém inventar alguma coisa miraculosa, eu caio de quatro aplaudindo. Eu sou a
favor do que é novo, do que é criado. Não botar cocô numa lata. Não é por nada...porque a
irreverência é acabar com a arte consagrada. Se isso fosse verdade, o mundo ia ser pior. Se não tem
arte, se não tem teatro, se não tem Drummond, o mundo é mais pobre. Você tem todas as galáxias,
todo o sistema solar, todos os planetas, todos os satélites?? que é uma coisa maior do que o
Universo. É tudo uma mistificação? É mistificação mesmo. Precisamos de mistificação. O realismo
é o pior tipo de arte que existe. Pra que mostrar que está todo mundo morrendo de fome. Eu falo
com conhecimento de causa. Na época em que eu queria mostrar que tudo era uma miséria. Não
adianta de nada. Quanto mais você desanima as pessoas, menos capacidade de mudança elas têm.
Antigamente os revolucionários gostavam disso. O cara é pobre, insatisfeito, eu vou estimular para
ele se revoltar? Mas é o contrário, vc. não vai conseguir nada . O cara é pobre, ele vai atrás do que
comer, a classe revolucionária é a classe média. Engels é da classe média, Marx é da classe média,
Prestes é da classe média. Por que ele tem conhecimento dos dois lados da questão, ele não tem os
privilégios também e ele tem escola, leu, ele tem consciência revolucionária e tem condições de
vida um pouco melhor para lutar porque quem depende do emprego, patrão, não tem condição de
lutar.
Vocês viram o que aconteceu no ABC, os caras começaram a demitir todo mundo.

Perguntas do público.

XX- na leitura me chamou atenção... é como se seu texto me levasse para a tradição dos poetas.

FG: O poema sujo eu estava de tal maneira ligado aquilo que eu menciono no poema, poetas. Há
citações dentro do poeta, embora eu não diga, nome do poeta citado. Mas há “lira de alto .. “ Olavo
Billac. Tem um outro pedaço que é Casemiro de Abreu. Tem um outro pedaço que é Drummond.
Porque são coisas que o próprio poema reforça, porque como o poema é minha vida toda até ali. A
medida em que eu ia escrevendo, que eu era assoberbado pela quantidade de memória, matéria
vivida mistura com aquilo. ... minha tia na cozinha, o barulho do galo no quintal. Tudo fazia parte
desse universo de memória, de matéria vivida e o poema que eu li com 17 anos tudo fazia parte
desse universo de lembrança.

Por isso o meu último livro se chama Muitas vozes. É minha maneira de ver as coisa, cada poeta
tem sua maneira de fazer, de entender a poesia. Eu por exemplo procuro não fazer uma poesia que a
única voz seja a minha. Eu estou aqui e tenho que eliminar do meu poema todo e qualquer eco, ou
voz. Não. Não considero que isso seja para mim. Quero que minha poesia sejam muitas vozes, as
vozes dos outros, das pessoas comuns, das pessoas perdidas que se desapareceram e se apagaram e
continuam na minha casa, surgem de repente. Isso é que á riqueza da poesia do meu modo de
entender. Impossível a individualidade, isso não existe. Nós somos compostos dos outros. Nós não
só vivemos para os outro, mas como somos compostos dos outros. Cultura. Não existe cultura com
um só.

XX Poeta que te inspirou.

FG: A minha formação? No começo eu falei quais os poetas que me formaram, basicamente os
poetas parnasianos Raimundo Corrêa, Olavo Billac e tantos outros: Camões, Bocage. Depois Rilke
e Drummond basicamente. A descoberta da linguagem coloquial de um lado e a descoberta de uma
coisa mais fulgurante que está em Eliot. Não é que exista... Todo poema meu é segundo Rilke, não é
isso... Há coisas que não existiam antes e que passam a existir quando é formulada. Quando um
poeta diz determinada coisa, passa a existir aquilo. Você talvez jamais percebesse, se ele não tivesse
dito. E de acordo com a sua sensibilidade, aquilo é ouvido por você e não é ouvido por outro. Eu
tenho certeza que certos poemas do Rilke que eu li que tiveram tal impacto em mim não tiveram tal
impacto em outro poeta e em outros leitores. Então como dizia?? a influência literária é como
transfusão de sangue, tem que ser compatível.

XXX metapoesia dos jovens poetas.

FG: Eu não tenho nada a ver com que os outros poetas fazem. Se gosto gosto, se não gosto não
gosto. A poesia em grande parte, não toda faz a poesia auto referente e hermética. Ilusão de
profundidade, ilusão da complexidade por não se entender. Por exemplo: você diz O pássaro cruzou
a janela. Todo mundo entende. Mas você pode dizer assim: janela, pássaro cruzou. O cara entorta a
sintaxe. A poesia tem que ter mistério e beleza não é para ser entendida como: Eu fui à esquina
comprar pão. Ela tem que ser complexa, rica. Despertar o imaginário das pessoas. Uma coisa que
encosta no mistério do mundo, o insondável. Não tem que ser explícito, mas tem que dar o caminho
para o cara chegar lá. Por que se eu descobri o mistério não adianta de nada. Se eu cheguei no
mistério e não consigo traduzi-lo para o outro não adianta. Então, o grande esforço é quando você
descobre algo que é denso e você encontra um modo de tornar aquilo compreensível sem perder a
complexidade. Esse é o grande problema. Eu sinto o cheiro do jasmim, de noite saindo da casa da
Cláudia. Eu me embriago e fico alucinado. Vou para a casa tonto, tenho que traduzir. Não dá para
colocar o cheiro do jasmim no livro. Eu tenho que escrever um poema que não é o jasmim as
comunique de alguma maneira aquela experiência que não é aquela experiência, é outra. Aquela
nunca vai ser, mas eu vou criar alguma coisa. Não é dizer o caminho, mas é fascinar o outro para
que o outro viva uma experiência tão rica, tão bonita quanto a que eu vivi.
Esse esforço é que é o problema. Se vc. não dá o caminho, fica o enigma. Os elementos que abrem
o caminho para o cara chegar lá no tesouro eles não dão.

XX Eles amadurecerão um dia.

FG: Claro, eu espero. São poucos. O que eu tenho de experiência. Muita gente faz poesia. Da minha
geração quando eu comecei a escrever quantos estavam com poesia nos jornais, em revista e
sumiram. Quem carrega a obra de arte é o povo. As pessoas. O Rilke já morreu há muitos anos. Ele
só continua a ser lido porque as pessoas amam seus poemas, carregam no colo. Sobrevive porque
toca as pessoas.

De repente eu descubro... me revela algo que eu nunca tinha percebido. Vira alguma coisa estranha
que eu tenho que expressar. Uma das funções da poesia no meu modo de ver é o poder de abrir mão
do conhecido, do sabido, do explicado. Ser suficientemente aberto para quando vier, vc. não
explicar. Não está explicado. Eu andando por uma rua eu vejo um pombo bicando o chão. Caminhei
na direção dele, de repente dá uma explosão. Eu levo um susto. Era o pombo que aos meus pés,
alçou vôo e eu só vi uma explosão das asas dele e uma coisa cinza, vermelho e branco. Então
explodiu. Agora o pombo é uma outra coisa. Mas o cara que não é pirado como eu: é um pombo. Só
que eu não... é outra coisa. Não é só um pombo, algo novo aconteceu no mundo, e eu vou ter que
dizer para as pessoas, eu vou ter que contar que algo aconteceu. O poema se incomoda com coisas
aparentemente insignificantes. Uma aranha. Eu abri o livro fui reler uma cena de Hamlet. Pernas
enormes, de uma fragilidade, foi para o canto da página. Inesperado. Ficou me olhando. Espantado.
Nós dois. Eu fiquei... Uma aventura humana. Tá lá deixei no lugar. É isso que é. Que nem criança
porque criança olha as formigas e tem um deslumbramento. O mundo não tem explicação.
Precisamos trabalhar, cumprir nossas obrigações. A razão é fundamental para a existência do ser
humano. Sem ela não existe nada. Mas ela não é tudo.

XX: Por que o poema é sujo?

FG: Por três razões. Porque ele é sujo. Por que ele não se acomoda a oralidade convencional. Ele
fala de coisas que a nossa poesia não fala. Ele é sujo porque eu misturo a prosa com experiências
verbais. Ele não tem o respeito por uma limpidez. E ele é sujo também porque ele retrata a miséria
do tempo. No momento em que eu comecei a escrever eu escrevi uma carta para o Leandro Konder
tava na Alemanha. Comecei a escrever um poema que terá de 70 a 100 páginas e se chamará Poema
Sujo. Eu já sabia o nome o tamanho e tudo.