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A Comédia Humana – Vol.

XVII – Estudos Analíticos – Pequenas Misérias da Vida Conjugal

p. 523: minotaurizá-lo. Expressão criada por Balzac.

p. 531: esta pequena miséria, repetida duas ou três vezes, ensina-o a viver sozinho no seio do lar, a
não dizer tudo aí, a confiar-se apenas a si mesmo; amiúde lhe parece duvidoso que as vantagens do
leito nupcial ultrapassem os respectivos inconvenientes.

p. 531: As Implicâncias: retrato de um recém-casado (descrição dos bens)

Balzac constrói, sobre os personagens fictícios de Carolina e Adolfo, a trajetória de um “típico”


casal francês que constrói o matrimônio. Neste tópico “As Implicâncias”, o papel social de Adolfo é
descrito a partir duma viagem empreendida por ele e sua família através do rio Sena. A posição
social é descrita na vestimenta da sogra e da esposa de Adolfo, além da carroça e dos dois criados
que acabam por formar o grupo juntamento aos dois filhos do casal.

p. 537: “– Peça o meu carro.


Este meu é a complementação do casamento. Durante dois anos disseram o carro do patrão, nosso
carro e, por fim, meu carro.”

Os tópicos são intercalados por Axiomas Por exemplo, o Axioma da p. 537: Um marido sempre
deve saber o que a mulher tem, porque ela sempre sabe o que não tem.
Segue-se o diálogo de Carolina e de Adolfo dentro do carro, após a festa. Após Adolfo perguntar a
esposa o que ela tem, ela responde:
Frio.
A festa foi esplêndida.
Hum! hum! mada distinta! hoje têm a mania de convidar Paris em peso para uma casinha. Até na
escada havia senhoras: os vestidos ficam horrivelmente estragados, o meu está perdido.
Nós nos divertimos.
Quanto a vocês, jogam, e está tudo ótimo. Uma vez casados, ocupam-se das mulheres como os
leões se ocupam das pinturas.
Desconheço-te; estavas tão contente, tão feliz, tão catita quando chegamos!
Ah! vocês nunca nos compreendem. Pedi-lhe que fôssemos embora,e você me deixa ficar, como se
as mulheres alguma vez fizessem qualquer coisa sem razão. Você tem espírito mas, em certos
momentos é realmente extravagante, não sei em que pensa…
Balzac retoma:
Uma vez neste terreno, a discussão se azeda. Ao dar a mão a sua esposa para descer da carruagem,
você segura uma mulher de pedra, que lhe dirige um obrigada pela qual a coloca no mesmo plano
de seu criado. Tal como antes do baile, tampouco depois você a compreendeu, e a custo a
acompanha, pois ela não sobe a escada, boa. A desinteligência é total. (p. 538)

O tom da obra é uma defesa às representações sociais contidas em Adolfo. Por exemplo, na página
539, no tópico “A Lógica das Mulheres”:
Você julga ter desposado uma criatura dotada do uso da razão, equivocou-se profundamente, meu
amigo.
E segue-se o axioma:
Os seres sensíveis não são seres sensatos. O sentimento não é o raciocínio, a razão não é o prazer,
e o prazer, por certo, não é uma razão.

p. 543: Carolina e Adolfo discutem sobre o colocar ou não o filho Carlos, ainda com seis anos, no
colégio interno. Após uma discussão comentada por Balzac, a premissa de que o homem é o único
ser dotado de razão é reiterada nos contra argumentos utilizados por Carolina. O axioma que se
segue é o seguinte: Todo casal tem seu tribunal de recursos que nunca se ocupa do fundo e só julga
a forma.
Ainda no final do tópico, Balzac chama de “termos algébricos” o binômio SIM/NÃO, que seria
como a única solução capaz de lidar com a “razão feminina”. O autor ainda pontua: “Há também
certos movimentos de cabeça que substituem tudo”.
Noção de linguagem corpórea, de significação dos gestos (p. 543).

p. 547: a palavra “economia”, até o momento, não recebe uma significação direta por parte do
Balzac. Entretanto, a palavra “economia” é uma espécie de gesto ofensivo de Adolfo para com
Carolina.

“Sobre este tema, a discussão se azeda.


– O senhor não serve para nada – é um incapaz –, só as mulheres veem as coisas justas. – O senhor
arriscou o pão de seus filhos –, ela o havia dissuadido. – E não pode dizer que foi por ela. Graças a
Deus, ela nada tem que se censurar. Cem vezes por mês ela alude ao seu desastre: “Se o senhor não
tivesse lançado seus capitais em semelhante empresa, eu poderia ter isso, ter aquilo. Doutra vez em
que quiseres fazer um negócio, hás de escutar-me!”. Atingido, convence-se Adolfo de que perdeu
cem mil francos avoadamente, sem propósito, como um tolo, sem haver consultado a esposa.
Carolina dissuade as amigas de casarem. Queixa-se da incapacidade dos homens, que dissipam os
bens das mulheres. Carolina é vingativa! é tola, é atroz! Lamentem Adolfo! Lamentem-se, maridos!
Ó solteiros, rejubilem-se!”

p. 555-556: descrição:
“As mulheres, num jantar que lhes é oferecido, comem pouco: sua armadura secreta incomodo-as,
então com o colete de aparato, acham-se em presença de mulheres cujos olhos e cuja língua são
igualmente temíveis. Elas apreciam, não a boa comida, mas a comida bonita: saborear os lagostins,
comer codornizes au gratin, mordiscar a asa de um tetraz, e iniciar por uma posta de peixe muito
fresco, realçado por um desses molhos que fazem a glória da cozinha francesa. Em tudo, a França
reina pelo gosto: o desenho, as modas etc. O molho representa o triunfo do gosto, em cozinha. Por
conseguinte, costureirinhas, burguesas e duquesas entusiasmam-se com um bom jantarzinho regado
com vinhos escolhidos, tomados em pequena quantidade, e que termina com frutas que só aparecem
em Paris, e principalmente quando se vai digerir esse jantarzinho no teatro, num bom camarote,
escutando tolices, as da cena, e as que se dizem ao ouvido a fim de explicar as da cena. Apenas, a
conta do restaurante vai a cem francos, o camarote custa trinta, e os carros, os acessórios chegam a
outro tanto. Essa galanteria atinge um total de cento e sessenta francos, qualquer coisa como quatro
mil francos por mês, se vamos frequentemente à Ópera Cômica, ao Teatro dos Italianos ou à grande
Ópera. Quatro mil francos por mês valem hoje dois milhões de capital. Mas toda honra conjugal
vale isso”.

p. 561: “Em Londres sem diz: “Não toquem no machado!” Na França, temos de dizer: não toquem
no nariz da mulher.
Nota de rodapé: Não toquem no machado! Palavras de Carlos I, no cadafalso, a um espectadot que
mexia com o machado do verdugo. Balzac adotou esta frase para título de um de seus romances,
que mais tarde se tornou A Duquesa de Langeais.
Balzac faz paráfrase da frase de Carlos I ao descrever uma possível falta de amabilidade de Adolfo
para com Carolina, numa situação hipotética em que esta, recém-saída dum jantar, perguntava ao
marido o que ele achava de seu nariz avermelhado.

p. 578-579: “Ora, em Paris, a menos que se more num palacete próprio, situado em centro de
terreno, todas as existências são conjugadas com outras. Em cada pavimento de um edifício, uma
família encontra outra no prédio fronteiro. Todos mergulham o olhar à vontade na residência do
vizinho. Há uma servidão de mútua observação, um direito de visita comum, aos quais ninguém
pode furtar-se. Em dado momento, pela manhã, você se levanta cedo, a crida do vizinho arruma o
apartamento, deixa as janelas abertas e os tapetes sobre os parapeitos: você adivinha então uma
infinidade de coisas, e reciprocamente. Destarte, num dado momento, você conhece os hábitos da
linda, da velha, da jovem, da namoradeira, da virtuosa mulher que mora em frente, ou os caprichos
do vaidoso, as tramóias do solteirão, a cor dos móveis, o gato do segundo ou terceiro andar”.
Organização social.

p. 584: “– Muito bem: denominamos a isso trismus.


Durante um quarto de hora,e empregando os mais científicos dos termos, o médico explica a
natureza do trismus, donde resulta que o trismus é o trismus; mas ele faz observar, com a maior
modéstia, que se a ciência abe que o trismus é o trismus, ela ignora inteiramente a causa desse
movimento nervoso, que vai, vem, passa, reaparece…
– E – diz ele –, reconhecemos que é puramente nervoso”

* Segunda parte – segundo prefácio (palavras de Balzac que dão à primeira parte do livro o ponto
de vista masculino do casamento, ao passo que a segunda, contempla o “ser social” (p. 587)
feminino. Para o autor, o casamento é necessariamente andrógino.

p. 592: Nessa passagem, Balzac não só faz referência direta à um dos capítulos do romance Ilusões
Perdidas, como parece fazer um esboço da trajetória dos escritores franceses de seu período:
“O mancebo, objeto dessa exportação, parece sempre à sua cidade em peso dispor de tanta
imaginação quanto os mais sublimes autores. Até agora fez excelentes estudos, escreve versos
bastante bonitos, passa por moço de espírito; enfim, é muitas vezes culpado de uma encantadora
novela inserida no jornal da localidade, e que suscitou a admiração do departamento.
Como esses pobres pais ignorarão eternamente o que seus filhos vêm aprender a grande custo em
Paris, a saber: Que é difícil ser escritor e conhecer a língua francesa antes de uma dúzia de anos de
trabalhos hercúleos; Que é preciso ter vasculhado toda a vida social para ser um verdadeiro
romancista, visto que o romance é a história privada das nações; Que os grandes contistas (Esopo,
Luciano, Boccaccio, Rabelais, Cervantes, Swift, La Fontaine, Lesage, Sterne, Voltaire, Walter Scott,
os árabes desconhecidos de As Mil e Uma Noites) são todos homens de gênio tanto quanto colossos
de erudição”

p. 600: “Em nós, a vaidade, minha cara, é prima-irmã do ciúme, desse belo e nobre ciúme que
consiste em não deixar invadir o seu império, a reinar sozinha sobre uma alma, a passar nossa vida
totalmente feliz dentro de um coração. Pois bem, a minha vaidade de mulher sofre. Por pequenas
que sejam essas misérias, aprendi desgraçadamente que na vida conjugal não há pequenas misérias.
Sim, aí tudo se amplia pelo contato incessante das sensações, dos desejos, das ideias. Eis o segredo
dessa tristeza em que me surpreendeste, e que eu não queria explicar explicar-te. Este ponto é um
daqueles em que a palavra vai demasiado longe, e a escrita retém insuficientemente o pensamento
quando o fixa. Há efeitos de perspectiva moral tão diversos entre o que se diz e o que se escreve!
Sobre o papel é tudo tão solene e grave!, não se comete mais nenhuma imprudência. Não é isto que
de uma carta onde nos abandonamos aos nossos sentimentos faz um tesouro?”

p. 614: Balzac faz referência ao hábito dos maridos franceses em apelidarem suas esposas com
“apelidos do reino animal”, e finaliza:
“Afiançam que a causa de um celebérrimo envenenamento de um marido pelo arsênico provinha
das contínuas indiscrições que a esposa sofria em público. Aquele marido dava tapinhas leves nos
ombros daquela mulher conquista à ponta do Código, surpreendia-a com um beijo estalado,
desonrava-a com uma ternura pública temperada com essas grosseiras fatuidades cujo segredo
pertence a esses selvagens da França, que vivem nos confins das províncias, e cujos costumes ainda
não mal conhecidos, apesar dos esforços dos naturalistas do romance.”

p. 615: “Se Carolina, em sua ignorância da vida e da sociedade, começar a causar ao marido as
pequenas misérias provenientes de sua tolice (reler Os Descobrimentos), Adolfo, como todos os
homens, obterá compensações no movimento social: ele vai, vem, sai, faz negócios. Mas para
Carolina tudo se resume em amar ou não amar, se ou não amada.”

p. 618: “Importunada pela reputação da sra. Baronesa Schinner, a quem atribuem talentos
epistolares, e é qualificada de Sévigné dos Bilhetes; da sra. de Fischtaminel, que se atreveu a
escrever um livreco de grandes proporções, in-32, sobre a educação da juventude, no qual,
corajosamente, reimprimiu Fénelon, sem o seu estilo, Carolina trabalha durante seis meses numa
novela dez furos abaixo de Berquin, de uma nauseabunda moralidade e de estilo pretensioso.
Depois de intrigas como sabem as mulheres urdir num interesse de amor-próprio, e cuja tenacidade
e perfeição fariam crer que possuem na cabeça um terceiro sexo, essa novela, intitulada O Meliloto,
aparece em três folhetins num grande diário. Vem assinada: Samuel Crux.”

p. 620: “Nada me diverte mais do que extrair manhosamente o que desejo de cada qual, com auxílio
dessa verruma denominada curiosidade, e receber por meio de um ar atento e jubiloso a soma de
instrução, de anedotas, de saber, de que toda a gente deseja desembaraçar-se; e cada um possui a
sua, o camponês como o banqueiro, o cabo como o marechal da França.
Observei a que ponto esse tonéis repletos de espírito se acham dispostos a se deixarem esvaziar
quando são transportados em diligência ou mala-posta emtodos esses veículos puxados por cavalos,
porque ninguém conversa em estrada de ferro.
Pela maneira por que se executa a saída de Paris, iríamos gastar sete horas no percurso: portanto, fiz
aquele cabo conversar para divertir-me. Não sabia nem ler nem escrever; era tudo inédito. Pois bem,
o caminho pareceu-me mais curto. O cabo fizera todas as campanhas, relatou-me fatos inauditos dos
quais nunca se ocupam os historiadores”.

p. 622: “As camisas sem número eram apenas sete ou oito, como nos mais opulentos enxovais. São
as caminhas que brilham os requintes, os bordados; é necessário ser uma rainha, uma jovem rainha,
para possuir a dúzia completa[…] Esta minúcia de nossos costumes servirá talvez para fazer
suspeitar no mundo masculino o drama íntimo realizado por esta camisa excepcional”

p. 627: “Observemos, para a vergonha de uma época que tudo enumera, que coloca uma redoma
sobre cada criação, que classifica neste momento cento e cinquenta mil espécies de insetos e lhes dá
nomes em us, de forma que, em todos os países, um Silbermanus seja o mesmo indivíduo para
todos os sábios que enroscam ou desenroscam as patas dos insetos com pinças, é uma vergonha,
dizíamos, que nos falte uma nomenclatura para a química culinária que permita a todos os
cozinheiros do globo fazer exatamente os mesmos pratos. Dever-se-ia acordar diplomaticamente
que a língua francesa seria a língua da cozinha, assim como os sábios adotaram o latim para a
botânica e a entomologia, a menos que não se queira imitá-los exatamente, e ter-se de fato o latim
de cozinha”

p. 629: relação entre a mulher Carolina e a criada de quarto, metáfora entre a espionagem feminina
e a espionagem do Estado.

p. 635: trecho escrito “errado”, confrontar com francês. Ideia de analfabetismo.

p. 636: axioma: Em um marido existe apenas um homem; numa mulher casada há um homem, um
pai, uma mãe e uma mulher.

p. 640-641: descrição de quatro mulheres de diferentes posições sociais a partir de quatro bilhetes.