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[Ética/Introdução: 2003.

2]

INTRODUÇÃO À ÉTICA

A Introdução à Ética como ciência do ethos, após uma reflexão inicial sobre o nome
desta disciplina, far-se-á em dois passos:
(1) Caracterização do ethos como objeto do saber ético (fenomenologia do ethos)
(2) Caracterização da Ética como ciência do ethos, i.e. como saber cujo objeto é o ethos
(natureza e formas do saber ético)

Denominação da Ética (Quaestio de nomine)1

1. Problema: Trata-se de saber qual é o termo mais adequado para designar o estudo que
pretendemos realizar e que no nosso currículo recebe o nome de Ética. Com efeito, na
cultura ocidental dois termos são empregados a respeito do tipo (de realidade e) de
conhecimento, que se pretende explorar: Ética e Moral. Daí a pergunta: Trata-se de
designações equivalentes ou há alguma diferença entre Ética e Moral, que justifique a
preferência por um destes termos na designação de nosso estudo? Para respondê-la,
analisaremos:
# o significado original (etimológico) desses termos
# o seu emprego atual

2. Análise etimológica

2.1. “Ética”:

a) O termo origina-se do adjetivo grego “ethiké” (ético):


# Foi usado por Aristóteles para designar o campo da Ética p. ex. na expressão “ethiké
pragmateia” (disciplina ética)
# Posteriormente o termo é substantivado, designando juntamente com os termos
“logiké” e “physiké”, as três partes da Filosofia, i.e. Lógica, Física e Ética (cf. Estóicos).

b) O substantivo de onde deriva o adjetivo “ethiké” é “ethos”. Este termo possui em grego uma
dupla grafia (correspondente a uma dupla etimologia) e um duplo significado filosófico:
# Ethos (com eta): Conjunto dos costumes normativos da vida de um grupo social
(aspecto objetivo e social)
# Ethos (com epsilon): Constância do comportamento do indivíduo cuja vida é regida
pelo ethos-costume (aspecto subjetivo e individual)

c) O termo ethos (com eta) significa originalmente = morada ou covil dos animais. A
transposição analógica deste termo para designar a realidade humana do ethos revela uma
intuição profunda do significado deste fenômeno.
# De fato, o ethos significa a casa simbólica do ser humano, que proporciona à sua
existência uma significação propriamente humana entretecida por relações afetivas,
estéticas e propriamente éticas, que integram a pessoa no plano humano da cultura. Trata-
se do espaço vital da comunidade humana, seu habitat espiritual, que permite a inserção no
mundo e o desenvolvimento de cada indivíduo.
# Do agir ético (práxis) depende a edificação e preservação de nossa verdadeira morada
no mundo (possibilidade da existência autêntica da pessoa e da convivência social) como
seres inteligentes e livres. A destruição deste “habitat” significaria o fim de todo o sentido
para a vida propriamente humana.

1
Cf. H. Vaz: Introdução à Ética Filosófica I, Escritos de filosofia IV, Loyola, São Paulo, 1999, 11-16.
2

2.2. “Moral”:

a) O termo origina-se também de um adjetivo, i.e. do latim “moralis”. Este termo seja como
adjetivo, seja substantivado, tornou-se desde a época clássica a tradução usual do grego
“ethiké”. No latim escolástico veio a designar uma das partes da Filosofia, i.e. a Philosophia
Moralis, equivalente à Ética.

b) O substantivo latino de onde deriva “moralis” é “mos”. Este termo possui uma rica
polissemia, mas, entre outras acepções, significa também o modo humano de proceder,
seja no sentido objetivo como costume, seja no sentido subjetivo como comportamento,
atitude. Tem, portanto, o mesmo significado filosófico que o termo grego ethos.

3. Emprego atual dos termos “Ética” e “Moral”

3.1. Hegel distingue “Moralität” (que designa a moralidade interna, pessoal, na linha de Kant)
e “Sittlichkeit” (derivado de “Sitte”, i.e. costume, que designa o campo da eticidade social
e política), unificando estas duas dimensões na Filosofia do Espírito Objetivo.

3.2. Na época moderna (a partir de Hegel, mas não no seu espírito):

a) Muitos autores, devido à emergência do indivíduo, pensado originalmente em confronto com


o todo social, distinguem os dois termos:
# Moral: Tem caráter individual, refere-se às motivações (necessidades e interesses)
que regem o agir do indivíduo (práxis individual), considerando, portanto, a subjetividade do
agir.
# Ética: Tem caráter social, refere-se aos objetivos (ordenação, conservação e
progresso) da sociedade política, i.e. à realidade histórica e social dos costumes e leis
(práxis social), considerada seja nas suas formas empíricas (Ciências humanas), seja na
sua estrutura teórica (Filosofia).

b) Outros muitos autores usam o termo Ética ou o termo Filosofia Moral, seja indiferentemente,
seja preferindo um ao outro, para designar o estudo filosófico do fenômeno ético ou moral
sob todos os seus aspectos.

4. Conclusão:

4.1. Significado básico dos termos:

a) Indiferença entre os dois termos: Como se vê, nem a etimologia e a tradição, nem uma
terminologia atual consistente, justificam a distinção, entre o significado dos dois termos.
Ambos designam:
# seja o costume socialmente considerado
# seja o hábito do indivíduo de agir segundo o costume estabelecido e legitimado pela
sociedade.

b) Na prática:
# Será dada preferência ao termo “Ética” (substantivo e adjetivo) em virtude de sua
precedência histórica
# O termo “Moral” (substantivo e adjetivo) será empregado apenas em expressões já
consagradas pelo uso como: “consciência moral”, “lei moral”, “moralidade”, “norma da
moralidade”.

4.2. Ambivalências no uso de ambos os termos:

a) Primeira ambivalência: É preciso distinguir:


3

# O que se refere à realidade, i.e. ao fenômeno em questão: o ethos ou o ético, a


moralidade ou a moral de um indivíduo ou grupo social.
# O que se refere ao conhecimento da realidade, i.e. ao estudo deste fenômeno: A Ética,
a Moral, a Filosofia Moral.

b) Segunda ambivalência: “moral” e “ético” podem significar:


# Ou o fenômeno moral em toda a sua amplitude, como dimensão da existência
humana, i.e. o que é relativo à moralidade (problemas morais, juízos morais, consciência
moral, etc.). Neste caso, os termos opõem-se a “não-moral” e “não-etico”, i.e. a outras
esferas da realidade humana, como arte, ciência, religião, etc. Eles serão usados aqui nesta
acepção, p. ex. em perguntas como: Que é a moralidade? Como se relaciona com a
religião?
# Ou apenas a qualificação positiva no campo da moralidade, i.e. o “moralmente bom e
certo”. Neste caso, os antônimos serão “imoral” e “anti-ético”.2

A. FENOMENOLOGIA DO ETHOS

Trata-se de descrever os traços que caracterizam especificamente o ethos como dimensão


constitutiva da existência humana e o distinguem de outros aspectos da mesma existência.

I. Primeira aproximação

1. A atitude ética exemplificada em Sócrates (Cf. Diálogo “Críton”)3

a) Situação: Sócrates, preso e condenado à morte (injustamente), deve ou não fugir de Atenas,
conforme lhe propõem os amigos?

b) Princípios gerais invocados por Sócrates:


# A decisão deve ser tomada (o problema resolvido):
+ não pelo sentimento (emoções)
+ mas pela razão (razões)
# Usar a razão significa:
+ não seguir a opinião da maioria
+ mas pensar por si mesmo
# Não podemos agir contra o ditame da razão, quaisquer que sejam as conseqüências (até
a perda da vida)

c) Reflexão de Sócrates sobre a situação: A sua fuga:


# Lesaria a autoridade do Estado (polis), i.e. das suas leis. Ora, não é lícito prejudicar a
outrem.
# Quebraria o contrato (promessa) de aceitar as leis de Atenas, implícito na sua
permanência na cidade ao longo de toda a vida. Ora, não é lícito faltar à promessa.
# Seria uma desobediência ao Estado, que é como seu pai e senhor. Ora, é preciso
obedecer e respeitar os pais e senhores.

d) Conclusão: A solução da questão moral levantada por Sócrates implicou:

2
Ao termo “moral” pode-se ainda opor “a-moral”. Um ser “amoral” é aquele que não somente não segue as normas
morais (imoral), mas que simplesmente ignora qualquer norma deste gênero, está privado do senso moral e da
experiência deste valor. Trata-se, portanto, de um estado infra-humano.
3
Cf. W. F. Frankena: Ética, Zahar, Rio de Janeiro, 1975, 13-16 [original: Ethics, Prentice-Hall, Englewood Cliffs,
NJ, 1965].
4

# Uma reflexão racional


# Uma decisão livre e consciente
# Acerca de uma ação (fugir)
# Que poderia ser boa ou má
# De modo que a obediência à razão se apresenta como o valor supremo (superior à vida)

2. O significado da moralidade exemplificado em questões:

a) Negativamente: Não são questões éticas, mas técnicas (de caráter científico, político, etc.):
# Qual a melhor forma de governo para o Brasil, presidencialismo ou parlamentarismo?
# Os recursos do programa Fome-Zero poderão ser empregados livremente pelos
beneficiários ou só na compra de bens predeterminados?
# A clonagem de células humanas é ou não viável?
# Qual é a taxa de juros que mais favorece a situação econômica do conjunto do povo
brasileiro nas circunstâncias atuais?

b) Positivamente: A questão moral fundamental é: Que devo fazer? Como devo agir? Esta
questão pode ser considerada:
# Em termos particulares nas circunstâncias concretas da vida, p. ex.:
+ Pio XII deveria ter denunciado publicamente a perseguição nazista dos judeus,
mesmo que a denúncia não tivesse chances de evitar a perseguição, antes viesse
provavelmente a provocar a sua exacerbação (p. ex. deportação também dos judeus
cristãos para os campos de extermínio)?
+ Quem esconde da polícia uma pessoa injustamente perseguida, se interrogado,
deve dizer que sabe onde ela está ou pode e deve mentir?
+ O médico pode fazer uma transfusão de sangue num Testemunha de Jeová contra
a sua vontade, para salvar-lhe a vida?
+ É lícito torturar uma pessoa para arrancar-lhe uma confissão que permitirá salvar a
vida de milhares de inocentes?
# Em termos gerais e fundamentais, como acontece no estudo da Ética Fundamental, p. ex.:
+ Existem valores morais absolutos e universais?
+ O que faz que uma ação seja moralmente boa ou má?
+ É possível justificar racionalmente juízos sobre o bem e o mal moral ou trata-se
apenas de opiniões subjetivas?
+ Como se pode determinar a atitude moralmente correta que uma pessoa deve
assumir em certa situação?

II. Características do ethos

1. Experiência fundamental do ethos

1.1. Fenômeno humano universal

# A existência da moralidade é atestada por uma experiência humana fundamental e goza


da mesma evidência inquestionável que possui nossa percepção da realidade do mundo. 4
Trata-se da experiência do bem e do mal, como possibilidades que se oferecem ao agir
humano.
# Toda pessoa humana adulta e normal tem consciência de que seu comportamento pode
ser justo ou injusto, honesto ou desonesto, moralmente bom ou mau. Distingue de maneira

4
Espontaneamente “não julgamos a moral, mas julgamos em função dela, que é evidente e natural” [On ne juge pas
la morale, on juge en fonction d’elle, qui est évidente et naturelle”] (Eric Weil: Philosophie Morale, Vrin, Paris,
1969, 22).
5

imediata e irredutível entre obrigatório, lícito e ilícito. A moralidade é uma característica


verdadeiramente universal da natureza humana. Manifesta-se em todos os povos e culturas
através da história. Trata-se de uma dimensão específica da existência humana, ao lado da
arte, técnica, religião, etc.
# Por outro lado, só a pessoa humana tem esta prerrogativa da moralidade. Nenhum outro
ser ou acontecimento intramundano (um astro, uma tempestade, uma fruta, o comportamento
de um animal, um automóvel, uma bomba, um quadro, um filme, etc.) pode ser considerado
moralmente bom ou mau em si mesmo.

1.2. Polaridade intrínseca do ethos:5 O ethos possui estruturalmente uma dupla polaridade:
subjetivo-objetivo e individual-social

a) Duplo caráter do ethos6


# Aspecto social e objetivo: Corresponde aos costumes de um grupo social, normas,
regras de conduta, leis, bem, fim, valor, dever, obrigação
# Aspecto individual e subjetivo: Corresponde ao comportamento dos indivíduos, agir
livre, consciência, responsabilidade, hábito, atitude, virtude, perfeição, felicidade

b) Há uma polaridade essencial entre este duplo aspecto do ethos:


# Estes dois polos do fenômeno ético se contrapõem e complementam dialeticamente
como: dever-ser e ser, valor e fato, ideal e real, essência (universal) e existência (singular)
# Como o ethos é uma característica do agir humano enquanto tal (sujeito), i.e. da praxis
(individual ou social) e a praxis, por sua vez, é correlativa do ethos (objeto), a polaridade
objetiva/subjetiva do ethos pode ser expressa também através dos termos ethos/praxis. Em
outras palavras: o termo ethos conota mais o aspecto objetivo e o termo praxis o aspecto
subjetivo do ethos.

c) Fundamento da polaridade do intrínseca do fenômeno moral:


# A sociedade não é uma realidade substancial, prévia aos indivíduos ou independente
deles. Ela compõe-se de indivíduos e só existe neles e por eles.
# Por outro lado, o ser humano é por sua própria natureza um ser social. Os indivíduos
não podem existir humanamente fora da rede de relações sociais (parentesco, trabalho,
profissão, nação, etc.) nas quais estão inseridos.
# Esta relação dialética indivíduo/sociedade reflete-se também no plano da moralidade.

1.3. Caráter histórico do ethos:7 O ethos é histórico enquanto consiste no modo de


comportar-se do ser humano que é um ser histórico por natureza. Em função de sua
historicidade a moralidade adquire uma dupla característica de acordo com suas duas
dimensões (individual e social):

a) Caráter tradicional: A tradição corresponde à historicidade do costume (aspecto social e


objetivo)
# A tradição é a permanência do ethos no tempo. Ela constitui o fundamento do ethos de
um grupo social. É um legado (o mais precioso) transmitido de geração em geração
(traditio, tradere = transmitir). Não é possível refazer continuamente do nada as normas e
costumes nos quais se baseia a vida social.
# Por outro lado, o ethos de um grupo social (e da humanidade), enquanto costume (lei),
embora implique constitutivamente a continuidade da tradição, não é imóvel, mas se
apresenta como dinâmico, num processo de desenvolvimento através da assimilação de
valores e da adaptação a novas situações.
5
Cf. H. Vaz, ob. cit. 12-16, 38-40.
6
O duplo caráter do ethos é revelado pelo próprio significado dos termos gregos que designam este fenômeno (cf.
definição nominal). Como foi visto, ethos (com eta) corresponde ao conjunto de costumes normativos da vida de um
grupo social (aspecto objetivo do fenômeno); ethos (com epsilon) corresponde ao comportamento do indivíduo, cuja
vida é regida pelo costume (aspecto subjetivo do fenômeno).
7
Id. 40-43.
6

# Portanto, o ethos enquanto histórico e caracterizado pela tradição, implica ao mesmo


tempo continuidade e mudança, identidade e diferença.

b) Caráter educativo: A educação corresponde à historicidade do hábito (aspecto individual e


subjetivo)
# À permanência do ethos na vida social sob a forma de costume corresponde sua
interiorização na vida do indivíduo como hábito. O ethos-costume é possuído pelo indivíduo
como hexis (echein = ter, possuir), i.e. hábito (habitus do latim habere = ter)
# O hábito é uma propriedade fundamental da práxis humana, como aquisição pelo
agente, através da repetição de atos, de uma disposição interior que lhe confere a
inclinação e facilidade para agir constantemente de determinada maneira. Assim a ação
humana se distingue do comportamento instintivo e meramente repetitivo que o animal
recebe da natureza (segunda natureza)
+ O hábito prático (virtude/vício), próprio da vida ética, distingue-se do hábito teórico
(p. ex. ciência) e do hábito poiético (técnicas), enquanto é finalizado pelo bem do
indivíduo, que é a sua auto-realização segundo os valores do ethos socialmente
legitimado.
+ A prática virtuosa (areté) assume um caráter de exemplaridade, fundamental para
a transmissão do ethos

c) Conclusão:
# Assim como o ethos-costume tem sua duração no tempo assegurada pela tradição
(historicidade do costume), o ethos-hábito torna-se forma permanente do agir do indivíduo
pela educação (historicidade do hábito). O costume como tradição é um universal abstrato
que encontra sua singularidade na praxis concreta pela qual o indivíduo realiza ou recusa os
valores do costume recebidos pela educação.
# Há, portanto, inter-relação entre o polo objetivo do ethos-costume e o polo subjetivo da
praxis, mediatizada pelo espaço da intersubjetividade, i.e. pela dimensão constitutivamente
social da vida ética.

2. O ethos como praxis (aspecto subjetivo)

A moralidade é uma qualificação específica da pessoa humana no seu modo de agir e


comportar-se (praxis). Pode-se dizer que a pessoa (no seu ser) é boa ou má. Mas isso decorre
das suas ações. É em função de suas ações que ela se torna boa ou má.

2.1. Estrutura geral do agir humano (pressupostos antropológicos)8

a) Relação do agir humano com o bem

 Noção de bem: Bem é um dos aspectos elementares da realidade, que não podem ser
propriamente definidos mediante outras noções, mas apenas designados a partir de seus
efeitos. Ora, o efeito fundamental do que é bom é ser desejável. Portanto, o bem é aquilo que é
digno de ser estimado, procurado e desejado, i.e. algo enquanto merece ser desejado.9 Algo é
desejável por ser bom e não vice-versa.

 Duplo aspecto do bem: O bem refere-se ao agir humano enquanto valor e enquanto fim.
# O valor caracteriza o bem como uma qualidade ou perfeição do objeto, que o torna
desejável. Refere-se à especificação da ação.

8
Cf. J. de Finance: Ensayo sobre el obrar humano, Ed. Gredos, Madrid, 1966, 41-127 (cap. 1) [Orig.: Essai sur l’agir
humain, Presses de l’Univ. Grégorienne, Rome, 1962].
9
“Bonum est id quod omnia appetunt” [Bem é aquilo que todos desejam] (S. Tomás, S. Th. I q.5 a. 1). Cf.
Aristóteles, Eth. Nicom. A 1 1094a.
7

# O fim caracteriza o bem como motivo (movente) do sujeito para agir, i.e. como aquilo
que atrai o agente e provoca nele a tendência ou desejo de alcançá-lo com seu agir. O fim
refere-se à realização da ação.

 Conclusão: Portanto, toda ação humana visa um bem (algo desejável) como valor e como
fim. Todo agir humano é orientado para algum bem, enquanto seu fim ou motivo.10
# Observação: É preciso distinguir, porém, entre o fim ou motivo (causa final) e a causa
eficiente da ação. A causa move a ação por sua potência física, ao passo que o fim provoca
a ação por sua significação (valor). P. ex. o bem (valor) da conversa com um amigo provoca
o desejo de visitá-lo (fim ou motivo), mas quem toma a decisão de fazer a visita e usa todos
os meios necessários para isso é a vontade humana (causa eficiente), i.e. a pessoa
enquanto dotada de vontade. A conversa, que, neste caso, nem existe ainda, não pode ser
a causa da ação de ir visitar o amigo, já que a causa eficiente deve preceder o efeito. Mas o
fim, embora seja o término da ação na linha da execução (real), é o seu primeiro elemento
na linha da intenção (ideal).

 Formas de tendências do ser humano para o fim: No ser humano há três tipos de
inclinação para algo enquanto bom:
# A inclinação natural, inscrita na própria natureza do ser humano, pelo qual ele tende
espontaneamente para o que lhe é conveniente no plano biológico, psíquico ou espiritual
# A inclinacão sensível que é determinada por um bem particular, conhecido, enquanto
tal, pelos sentidos, i.e. pelo objeto concreto que satisfaz tal inclinação (P. ex.: inclinação
para saciar a fome com um alimento)
# A inclinação racional (vontade), cujo objeto é o bem, enquanto tal, conhecido pela
inteligência, i.e. o bem universal e transcendente. A vontade é, portanto, a tendência
ilimitada para o bem, o desejo do bem sem limites.

b) Estrutura teleológica da ação:

 Diversos modos de conceber o fim:


# Quanto àquilo que se procura, o fim da ação é, ao mesmo tempo:
+ A coisa visada pela ação (finis qui [intenditur]). P. ex.: uma quantia de dinheiro
+ A possessão da coisa visada pela ação (finis quo [intenditur]). P. ex.:
conseguir tal quantia de dinheiro.
+ A pessoa pela qual o objeto é visado (finis cui [intenditur]). P. ex.: minha
satisfação por conseguir tal quantia de dinheiro.
# Quanto à sua estrutura operativa, a ação tem, ao mesmo tempo, os seguintes fins:
+ O fim intrínseco do resultado da ação (finis operis). P. ex.: O fim do relógio
que quero fabricar é indicar a hora.
+ O fim próprio da ação em si mesma (finis operationis). P. ex.: O fim da ação
do relojoeiro, enquanto tal, é fabricar um relógio; o fim da ação de falar é comunicar
algo a alguém.
+ O fim da ação enquanto intenção do agente ao exercê-la (finis operantis). P.
ex.: no caso do fabricante de um relógio, pode ser ganhar o seu sustento, ou mero
prazer, ou servir à sociedade, etc.

 Fins e meios:
# Noção de meio: No agir humano entre a decisão e a realização do fim proposto existe
normalmente um hiato, i.e. o fim não é alcançado senão mediante um conjunto de ações.
Estas ações que conduzem ao fim são meios para o fim. O meio é, portanto, um momento
da realização do fim, de modo que não é entendido como meio, a não ser em função do fim.
Por outro lado, a vontade que quer efetivamente um fim deve, para ser coerente, querer os
meios que conduzem a tal fim.

10
“Omne agens agit propter finem”.
8

# Ordem dos fins e meios: A não ser no que se refere ao fim último de toda a existência
humana, que é só fim, a distinção entre meios e fins é relativa. Com efeito, do ponto de vista
psicológico, uma pessoa pode visar como fim, algo que é efetivamente meio para outra
coisa que pretende, mas que no momento não está diretamente focalizada por sua atenção.
Neste sentido podem distinguir-se:
+ Fim próximo ou imediato. P. ex.: No momento o que estou procurando é tomar um
táxi e para isso uso uma série de meios (peço informações, caminho para o lugar mais
indicado, agito o braço, etc.). Evidentemente, tomar um táxi é um meio para outros fins,
mas psicologicamente no momento é o fim que tenho em vista.
+ Fim intermediário, que é ou pode ser um meio, mas participa intrinsecamente do
caráter final do valor que o funda, de modo que é desejado por si mesmo. P. ex.:
Concluir o curso de direito, para exercer a advocacia. Embora concluir o curso de direito
seja um meio para exercer a advocacia, que, por sua vez, também é um meio para
outros fins, a formatura em direito pode funcionar, do ponto de vista psicológico, como
um fim intermediário, que no momento polariza a atenção e as energias da pessoa para
fins próximos (o estudo, a aprovação nos exames, etc.), mais do que propriamente o
exercício da advocacia.
+ Fim último: É o bem supremo do ser humano, para o qual ele tende naturalmente,
i.e. aquilo que o realiza plenamente enquanto ser humano, ou seja, a sua perfeita
realização e felicidade (eudaimonia).
¤ O ser humano deseja necessariamente ser feliz, não é livre em relação ao fim
último de sua existência, considerado em geral.
¤ Entretanto, depende dele, de sua escolha livre, a determinação do seu fim
último em concreto, i.e. do valor que constitui para ele a sua felicidade e realização
(riqueza, poder, fama, bem-estar, amizade, dever [virtude, valor moral], amor gratuito
[de pessoas humanas ou de Deus], etc.). Este valor supremo, escolhido implícita ou
explicitamente, orienta sua vida, determina a escolha dos meios (fins intermédios)
para alcançá-lo.

c) Articulação da inteligência e vontade na unidade da ação humana, enquanto racional e livre:


As duas dimensões do espírito humano, inteligência (conhecimento do bem como fim) e
vontade (desejo do bem) concorrem em cada momento do processo de elaboração do agir
humano. Entretanto, os vários momentos analisados a seguir não são elementos estanques,
mas aspectos de um processo dinâmico de realização do fim que se tem em vista.11

1º momento: Atos relativos ao fim


a- Inteligência: Simples apreensão do bem como fim possível. P. ex.: Ver tal filme é
[seria] bom.
b- Vontade: Inclinação para o bem apreendido. P. ex.: Desejo [desejaria] ver tal filme.
aa- Inteligência: Juízo sobre a oportunidade do bem para mim como fim real. P. ex.: Ver tal
filme é um bem realmente possível.
bb- Vontade: Adesão (intentio) ao bem apreendido como fim desta ação. P. ex.: Quero
ver tal filme.
Obs.: No primeiro sub-momento do processo o objeto se apresenta como um bem em geral,
que provoca só um desejo vago e permanecerá mera veleidade (desejaria), se o juízo da
inteligência mostrar a inviabilidade de alcançá-lo (estou doente; não tenho dinheiro; etc.). Ao
contrário, se o objeto se apresenta como um bem para mim, o desejo se transforma em vontade
efetiva de obtê-lo, vontade que impele a realizar o fim que tenho em vista (ver o filme).

2º momento: Atos relativos aos meios (para alcançar o fim)

11
Trata-se de uma sistematização da análise feita por S. Tomás na Summa Theologiae (I-II q.8-17), inspirado em
Aristóteles, S. Agostinho e S. João Damasceno. Cf. René Simon: Morale, Beauchesne, Paris, 1961, 44-47 [trad. esp.:
Moral, Barcelona, Herder, 1968]; O. Lottin: Morale Fondamentale, vol. 1, Desclée, Tournai, 1954, 65-72.
9

a- Inteligência: Início da deliberação (consilium), i.e. exame dos meios que conduzem ao
fim (prós e contra). P. ex.: de carro ou de ônibus; sozinho ou
acompanhado; etc.
b- Vontade: Aprovação dos meios encontrados (consensus).
aa- Inteligência: Conclusão da deliberação (boulesis), i.e. juízo prático sobre o meio mais
adequado. P. ex.: É melhor [para mim] ir sozinho de carro.
bb- Vontade: Decisão ou Escolha (proairesis, electio) do meio (consentimento à
proposta do juízo prático): quero este meio para realizar o fim que tenho
em vista. P. ex.: Vou sozinho de carro.
Obs.:
(1) A decisão é livre porque o meio escolhido não se impõe racionalmente como o melhor em
si. É melhor (para mim) porque eu o prefiro, em função de meus objetivos, i.e. de valores
aos quais quero dar prioridade. Não se trata de um juízo puramente teórico, mas prático. O
agente dá a si mesmo as razões de sua decisão.
(2) A conclusão da deliberação e a escolha/decisão são duas dimensões do mesmo ato
(judicium electionis), i.e. de uma vontade deliberada.

3º momento: Atos relativos à execução da decisão (sobre os meios para alcançar o fim)
a- Inteligência: Ordem dada (imperium): a inteligência ordena à vontade a execução da
decisão tomada, i.e. o emprego dos meios escolhidos. P. ex.: Devo
preparar-me para sair; tomar o carro, etc.
b- Vontade: Ordem cumprida (usus activus): a vontade aplica as outras potências à
execução da decisão
aa- Inteligência: Emprego dos meios (usus passivus) através de vários atos movidos pela
vontade na direção ordenada pela inteligência. P. ex.: Preparo-me para
sair; tomo o carro; chego ao cinema e assisto ao filme.
bb- Vontade: Contentamento (satisfação, gozo) com o fim alcançado (fruitio)

2.2. O agir humano enquanto moral

a) Caráter livre da ação moral12

A moralidade, como foi visto, refere-se às ações humanas. Entretanto, não é qualquer ato
da pessoa humana que merece uma qualificação moral. Só as ações realizadas livremente
podem ser consideradas como moralmente boas ou más. A liberdade é condição essencial da
ação moral.

 Vontade e liberdade: A vontade tende necessariamente para o bem em geral, i.e. para a
felicidade no sentido da plena realização do ser humano. Ela só é livre em relação aos bens
particulares.
# O fundamento desta liberdade (livre-arbítrio) é justamente a desproporção entre a
amplitude transcendental do objeto próprio da vontade (o bem como tal) e a finitude dos
bens que são objeto de nossa experiência histórica.
# Em outras palavras: A superdeterminação da vontade pelo bem como tal implica sua
indeterminação (liberdade de arbítrio) em relação aos bens limitados. Nenhum bem
particular necessita, i.e. força, a vontade enquanto tal. Portanto, diante dos bens
particulares a vontade é livre, i.e. tem a capacidade de autodeterminar-se escolhendo
qualquer um deles.

 Voluntário e involuntário

12
Cf. A. Léonard: Le fondement de la morale. Essai d’éthique philosophiqe, Cerf, Paris, 1991, 33 –40 [trad. esp.: El
fundamento de la moral: ensayo de ética filosófica, Madrid, BAC, 1997].
10

# Voluntários: São os atos especificamente humanos (actus humanus), i.e. que


procedem do ser humano enquanto racional. Só os atos voluntários têm qualificação moral.
No contexto presente, podem-se equiparar os atos voluntários ao que é realizado
consciente e livremente, i.e. à escolha ou decisão. Na verdade, como se viu acima, o desejo
da felicidade, embora seja um ato plenamente humano, não é livre. Por isso mesmo, esta
orientação natural da vontade para o bem supremo, que constitui certamente o horizonte da
vida ética, não tem em si mesma qualificação moral.
# Involuntário: Nem todos as ações da pessoa humana são especificamente humanas.
Ao contrário, muitas de nossas ações são comuns com os animais, vegetais ou mesmo com
os seres inanimados. As ações que são feitas sem querer, sem consentimento, sem o
controle da vontade, não podem ser consideradas moralmente boas ou más, pelo menos,
diretamente. São atos do homem (actus hominis), mas não enquanto pessoa humana. P.
ex.: ter um certo peso, digerir, respirar, mas também recordar-se espontaneamente de algo,
ficar alegre ou triste, sentir um desejo ou inclinação, olhar inadvertidamente para algo, dizer
uma palavra irrefletidamente, tamborilar maquinalmente sobre a mesa, tomar atitudes em
estado de embriaguez ou sob a pressão de um medo invencível. Estas e outras ações deste
tipo não têm qualificação moral em si mesmas, porque não são livres. Podem ser, porém,
conseqüências de decisões anteriores e, como tais, tornarem-se indiretamente boas ou
más.

b) Conseqüências do caráter livre da ação moral

 Caráter de interioridade: A moralidade reside propriamente no ato próprio da vontade


humana, i.e. na sua escolha ou decisão. Trata-se de uma ação interior, que permanece no
próprio agente e o aperfeiçoa (actio imanens). P. ex. a decisão de dar uma esmola ao pobre.
# A execução da decisão por meio de ações, que, partindo do agente, tendem a
modificar a realidade exterior (actio transiens), como, no caso, o gesto de doação, não tem
valor moral por si mesma, mas em função da decisão interior, p. ex. da natureza da ação (p.
ex.: mentir) ou da intenção do agente (p. ex.: ao dar uma esmola, ajudar o necessitado ou
ser louvado).
# Por outro lado, a decisão boa ou má mantém o seu valor (positivo ou negativo),
mesmo que a execução tenha sido impedida por um fator independente da vontade da
pessoa.

 Caráter de responsabilidade: Enquanto é livre, i.e. senhora de suas ações, a pessoa é


também responsável por elas. A responsabilidade é uma característica própria do campo da
moralidade.
# Ninguém é responsável por sua herança biológica, sua capacidade intelectual, ou por
uma ação que praticou inadvertidamente, etc.
# Mas quem age de maneira desonesta ou injusta sente-se responsável de seu ato
diante de sua consciência. As ações morais são imputadas ao agente como mérito ou
culpa, i.e. ele deve responder por sua ação. Em função de seu conteúdo, ela é
naturalmente objeto de um julgamento de aprovação ou reprovação.

 Caráter ao mesmo tempo racional e afetivo: A moralidade enquanto qualificação do ato


humano, envolve ao mesmo tempo a razão e a afetividade.
# A ação moral deve ser orientada pela razão enquanto conhece o que é bom ou mau,
não pelas emoções e inclinações espontâneas.
# Mas estas são também fundamentais no campo da moralidade, porque sem a
atração que o bem exerce sobre a vontade humana e as potências afetivas, não haverá
decisão nem ação. Por um lado, os valores e antivalores mobilizam profundamente a
afetividade humana. Por outro lado, esta é intimamente afetada pela ação moral, sob a
forma de paz e alegria ou de vergonha, remorso, arrependimento, etc.
11

c) Entrelaçamento do voluntário e do involuntário na ação humana13

 Em geral: A liberdade humana caracteriza-se pela ligação estreita entre o voluntário e o


involuntário. O voluntário e o involuntário não constituem dois compartimentos estanques no
agir do ser humano, mas se condicionam mutuamente. A experiência mostra, em particular, que:
# O voluntário é sempre a reação diante de um dado involuntário que o sustenta. Esta
observação apoia-se em fatos como os seguintes:
# O involuntário, por sua vez, não adquire sua plena significação senão em função de
uma vontade que o assume e orienta. É o que se constata a partir dos seguintes exemplos.

 Em particular: Síntese e reciprocidade do voluntário e do involuntário nos vários


momentos da ação humana
# Escolha livre e motivo involuntário: Toda escolha como ato livre supõe motivos, é
motivada. Há motivos que dependem explicitamente da vontade, especialmente no caso de
decisões morais, quando alguém decide fazer algo porque se sente obrigado em
consciência.
+ Entretanto, na maioria de nossas escolhas está presente uma dose maior ou
menor de motivação involuntária. Entre as motivações primárias ligadas ao involuntário
corporal, podem-se citar a necessidade de alimentação, a busca do prazer e a fuga da
dor. Muitas de nossas atitudes e comportamentos são motivados por estes fatores. Por
outro lado, longe de influir autonomamente, estes impulsos involuntários recebem da
vontade sua última significação. A sua repercussão em nós depende em grande parte de
nossa iniciativa.
+ Por exemplo:
¤ A necessidade de comer é um motivo involuntário (não depende de nós
sentir fome) que motiva muitas escolhas. Mas, o homem, ao contrário do animal,
é capaz de deixar de comer mesmo quando sente necessidade e tem o alimento
à sua disposição.
¤ O amor interpessoal, em particular, não é questão de pura lucidez e escolha
livre. A doação mútua entre duas pessoas, que é uma das expressões mais
elevadas da liberdade humana, implica uma parte importante de espontaneidade
instintiva proveniente das profundezas do eros, ligado à sexualidade. Não
depende de nós sentir o desejo sexual, cuja atração inspira tantos
comportamentos humanos. Entretanto, pertence a nós dar o significado definitivo
a esta motivação involuntária. Depende em grande parte de nossa vontade,
transfigurar a força espontânea e anárquica do eros, impedindo que ele se volte
narcisisticamente sobre si mesmo e sublimando-o no verdadeiro amor como dom
de si ao outro.
+ Conclusão: O agir humano implica paradoxalmente iniciativa e receptividade. Trata-
se da capacidade de tomar uma iniciativa, fazer uma escolha, mas, ao mesmo tempo,
acolher, na escolha, uma motivação que não procede da liberdade, mas da natureza.

# Esforço voluntário e dinamismos espontâneos: O segundo momento da ação que é a


realização da escolha implica também dois elementos. Os dinamismos involuntários são
forças espontâneas de nosso psiquismo, sem as quais o esforço voluntário seria ineficaz.
Podem-se citar os seguintes tipos de dinamismos:
+ Emoções (paixões, sentimentos) são impulsos espontâneos que surgem em nós,
independentemente de nossa vontade, como a indignação, a compaixão, a simpatia. É a
energia que provém delas que dá consistência à ação, tornando possível o esforço,
capaz de realizações de valor. Não se trata, portanto, de motivos, mas de forças que
sustentam a ação.
¤ As paixões, embora surjam involuntariamente, recebem a sua significação
plena em grande parte daquilo que nós fazemos delas por nossas atitudes

13
A. Léonard, ob. cit. 40-54.
12

voluntárias. P. ex. o medo diante de um exame, pode ser paralisante, mas também
ser assumido como um desafio estimulante.
¤ O papel da vontade é de ordenar e canalizar a energia das emoções a serviço
de nossos empreendimentos e esforços. Sem este controle elas correm o risco de
suplantar a ação voluntária em vez de sustentá-la. Não se trata, porém, de extinguir
as paixões, nem de submetê-las ao controle absoluto da vontade, pois a paixão é
preciosa para a ação justamente enquanto excede os cálculos lúcidos da vontade.
+ Hábitos são dinamismos involuntários que facilitam os esforços voluntários para a
realização da ação. O peculiar dos hábitos é que são um involuntário que resulta de atos
voluntários, enquanto são adquiridos pela sua repetição. O hábito amplia, assim, o campo
do involuntário como uma segunda natureza. O hábito é ambivalente em relação à ação
voluntária:
¤ Por um lado, ele ajuda a realizar a ação, enquanto dispõe o agente para ela. P. ex.:
O hábito de dirigir um carro permite fazê-lo com facilidade e segurança (pensando p. ex.
em outras coisas, conversando), ao contrário de quem sem ter o hábito está aprendendo
a dirigir, que precisa fazer um esforçar-se muito e prestar atenção a cada gesto que faz.
Também os hábitos morais (virtudes) consistem numa disposição e inclinação
espontânea para agir bem no campo respectivo.
¤ Por outro lado, o hábito pode constituir uma ameaça ao valor da ação, enquanto se
transforma numa rotina que degrada a liberdade em mecanismo. Ele implica o risco de
ordem excessiva, ao contrário da paixão que corre o risco da desordem.
¤ Daí a necessidade de harmonia entre paixões e hábitos. P. ex.: Equilíbrio entre o
amor-paixão e o amor-fidelidade, que sem aquele tende a banalizar-se.

d) Limite e condicionamentos da liberdade humana14

Ao falar da vontade, afirmamos que ela é livre diante de todos os bens particulares. Esta é,
porém, uma afirmação de princípio, de caráter abstrato, que considera o ato humano
isoladamente na sua pureza racional, enquanto resulta de uma vontade deliberada, na
claridade do conhecimento e na plenitude do consentimento. De fato, porém, a liberdade
humana, enquanto incarnada, está sujeita a uma série de condicionamentos, que, embora não
a anulem necessariamente, afetam profundamente o seu exercício. Daí a necessidade de situar
o ato humano no contexto concreto no qual ele surge e se desenvolve. Dentre os principais
elementos que limitam o exercício da liberdade podemos citar os seguintes.

 Condicionamentos existenciais: Trata-se daquilo que pertence radicalmente ao ser


humano enquanto finito e corporal, i.e. a duração limitada de nossa vida, marcada pelo
nascimento e pela morte.
# Nossa vida começou independentemente de nós mesmos e é sobre este fundo de
necessidade fáctica que se desenvolvem todos os nossos projetos. Além disso, começamos
a existir num ponto determinado do espaço-tempo, que constitui a raiz de muitos outros
condicionamentos (bio-psíquicos e socio-culturais).
# Por outro lado, a morte impõe um termo à nossa existência histórica. A consciência
implícita ou explícita deste horizonte último de todas as nossas escolhas e realizações influi
decisivamente sobre elas.
# Entre um e outro termo da existência desdobra-se, à nossa revelia, o nosso ciclo vital
de crescimento, maturidade e decrepitude.
+ A idade determina consideravelmente o sentido de nossas escolhas e o vigor de
nossos esforços. Não se tomam as mesmas decisões nem se é capaz das mesmas
realizações com qualquer idade.
+ Por outro lado, o tempo passado vai condicionando e limitando progressivamente a
gama de nossas escolhas, em função de decisões anteriores e de fatores independentes
de nossa vontade.

14
A. Léonard, ob. cit. 54-95. R. Simon, ob. cit. 47-72.
13

 Condicionamentos bio-psíquicos: Trata-se do conjunto de fatores ligados à nossa vida


corporal e animal.
# A herança biogenética que determina originalmente a nossa compleição orgânica, bem
como o influxo positivo e negativo dos fatores ambientais sobre o nosso corpo, configuram
um espaço fundamental de possibilidades e limites de nossa liberdade.
# O temperamento,15 que não escolhemos e que não podemos modificar, afeta a tal
ponto o nosso comportamento, que se pode perguntar se deixa ainda algum espaço à
liberdade. Na verdade, porém, o temperamento não exclui a liberdade, mas determina a sua
maneira de ser, afetando assim todas as suas escolhas e seus esforços.
+ Cada um em suas decisões e realizações tem um estilo determinado por seu
temperamento. Ele dá uma coloração específica às nossas ações e ao conjunto de
nosso comportamento. Os próprios valores da pessoa, por mais livremente que
tenham sido assumidos, dependem do temperamento.
+ Nem por isso o temperamento anula a liberdade. O seu determinismo afeta
mais a forma do comportamento do que o seu conteúdo. Pelo fato de alguém ter
determinado temperamento não se pode deduzir o que ele fará de sua vida, mas
apenas prever a maneira como ele procederá qualquer que sejam as suas escolhas
e realizações. Em virtude de nosso temperamento temos uma maneira peculiar de
escolher livremente, que não escolhemos livremente.
# O inconsciente: A descoberta dos mecanismos do inconsciente por Freud significa que
existe uma parte importante de nós mesmos, que é inacessível ao próprio sujeito pensante
e ao influxo de sua vontade. Esta descoberta questiona a interpretação do ser humano
como pura consciência transparente a si mesma (p. ex. Descartes: ser humano = cogito =
substância pensante). Neste sentido, o inconsciente pode ser tratado de maneira objetiva,
como acontece de fato no método psicanalítico, e explicado do ponto de vista causal, como
um fenômeno físico. Assim como há um “corpo-objeto”, enquanto organismo biológico,
distinto do “corpo-sujeito”, assim também há um “psiquismo-objeto”, que pode ser abordado
de maneira impessoal como uma coisa.16 Esta abordagem do psiquismo considera-o como
sede de conflitos, não entre “significações” (p. ex. valores) no nível da consciência, mas
entre “forças” (pulsões, recalques, etc.). Por isso, a terapia psicanalítica, em vez de recorrer
ao sujeito e às suas atividades conscientes (raciocínio, decisão), interessa-se pelo que nele
acontece, sem o seu controle e advertência (técnicas das associações espontâneas e da
interpretação dos sonhos).
+ Poder do inconsciente: O inconsciente, assim considerado, é como o “involuntário
absoluto”. Não posso modificar o meu temperamento, mas posso tomar consciência dele
e com isso adaptá-lo a minhas finalidades. O inconsciente, ao contrário, escapa
completamente à introspecção e ao controle direto da vontade, sem deixar de influir
poderosamente em nossos comportamentos. É o que mostra p. ex. o caso da “dama do
chapéu negro” (resolvido por Freud mediante a análise dos sonhos). Embora amasse
espontânea e sinceramente o seu marido, sentia-se infeliz na vida conjugal. Conforme a
interpretação de Freud, este mal-estar provinha de um trauma inconsciente, i.e. da
frustração de não poder satisfazer seus desejos de compras de compras luxuosas
(chapéu negro). Ela desejava inconscientemente a morte do marido, que lhe permitiria
casar-se com outro mais rico, capaz de oferecer-lhe uma vida mais confortável.
+ Limite do inconsciente: A realidade do inconsciente e a legitimidade do método
psicanalítico não justificam a pretensão de definir o ser humano simplesmente pelo

15
Uma das classificações mais conhecidas dos tipos de temperamentos é a proposta por René Le Senne em seu
“Traité de caractérologie” (Paris, 1945). De acordo com as combinações de três pares de fatores (emotivo ou não
emotivo; ativo ou inativo; primário ou secundário), ele distingue oito tipos: 1) nervosos (emotivos, não ativos,
primários); 2) sentimentais (emotivos, não ativos, secundários); 3) coléricos (emotivos, ativos, primários); 4)
apaixonados (emotivos, ativos, secundários); 5) sangüíneos (não emotivos, ativos, primários); 6) fleugmáticos (não
emotivos, ativos, secundários); 7) amorfos (não emotivos, não ativos, primários); 8) apáticos (não emotivos, não
ativos, secundários).
16
É o que Freud chama de “Es” (traduzido por “id” [pronome neutro latino = isto] na terminologia psicológica
portuguesa) contraposto ao “Ich” (“Ego” = eu = consciente) e ao “Über-ich” (“Super-ego” = valores ideais, deveres).
14

inconsciente, i.e. de reduzir a atividade consciente (valorações, decisões) a mera


resultante dos mecanismos inconscientes.
¤ P. ex. no caso citado, suposta a validade da explicação psicanalítica, afirmar
que a mulher desejava no seu inconsciente a morte do marido é uma maneira
simplificada de falar, que leva a equívocos. Esta afirmação é o resultado de uma
interpretação consciente dos dados do inconsciente (no caso sonhos), feita em
vários níveis: narração (atual) do sonho (passado) feita pela mulher (seletiva e
distinta do fluxo de imagens do próprio sonho); interpretação da narração pelo
psicanalista.
¤ De fato, os pensamentos e sentimentos humanos, como perceber, recordar,
imaginar, temer, desejar, querer, etc. são atos próprios da consciência. Não existe
pensar propriamente fora da consciência. O pensar é necessariamente o pensar de
alguém, i.e. implica a auto-consciência do pensante. Falar de desejo inconsciente é
uma projeção acrítica no inconsciente das propriedades da consciência.
¤ Na verdade, acontece algo no inconsciente que fundamenta a interpretação
psicanalítica. Mas não é legítimo atribuir ao inconsciente algo que não pertence
propriamente senão à consciência clara. Pode-se dizer, no caso em questão, que, se
o que a pessoa vive obscuramente, fosse vivido no plano consciente, expressar-se-
ia pelo desejo da morte do marido. Em outras palavras: Tudo se passa no
inconsciente da mulher como se17ela desejasse a morte do marido. De fato, porém,
ela não deseja isso (enquanto desejo supõe autoconsciência) e pode, através de um
processo psicanalítico complexo tomar consciência de seu trauma inconsciente e
tomar livremente posição em relação a ele, p. ex. renunciando ao desejo de uma
vida luxuosa.
¤ Na verdade, independentemente de posições teóricas redutivas, eventualmente
assumidas pelo psicanalista, a prática efetiva da psicanálise pressupõe a crença na
possível restauração da liberdade do sujeito. O que a análise procura é justamente a
recuperação da liberdade. A cura acontece se, pela mediação da análise, o paciente
se liberta do acontecimento traumático, ao identificá-lo, e se situa livre e
responsavelmente em relação a ele, incorporando-o em sua vida presente.
+ Conclusão: O fato de que o método psicanalítico ponha entre parênteses o sujeito
consciente não permite concluir que o inconsciente basta-se a si mesmo, constituindo
uma realidade autônoma, independente de qualquer referência à consciência, ou seja,
algo que teria todas as propriedades da consciência, menos a auto-consciência, i.e. a
presença a si mesmo. Pelo contrário, o reconhecimento do poder do inconsciente não
exclui que a consciência constitua o núcleo da existência humana. Por mais restrita e
parcial que seja, ela constitui a luz pela qual tudo o mais ganha sentido, inclusive a
obscuridade persistente do inconsciente.

 Condicionamentos sócio-culturais:18 A influência da cultura sobre a formação da


personalidade e, portanto, sobre as decisões de cada um é comprovadamente decisiva. O
desenvolvimento do indivíduo corresponde à sua socialização, i.e. à assimilação dos padrões
de comportamento aceitos no seu mundo (com seu caráter ideológico, seus preconceitos, etc.).
# Entre estes fatores destacam-se os seguintes.
+ Fatores pertencentes à cultura e sociedade como tal: Trata-se dos valores
próprios da visão do mundo de determinada cultura, os costumes nela vigentes,
suas normas de conduta, as instituições que a encarnam (família, escola, profissão,
estado, religião, etc.). Estes fatores constituem o que foi chamado de “personalidade
de base”, i.e. o conjunto de traços comuns aos indivíduos de uma mesma cultura.
Pode-se dizer p. ex. que cada grupo nacional (os norte-americanos, os árabes, os
japoneses, os brasileiros, etc.) possui certas características específicas, espelhadas
no comportamento dos respectivos membros.

17
Esta explicação é proposta por P. Ricoeur.
18
Cf. R. Simon, ob. cit. 68-72 e, particularmente: Gérard Fourez: Choix éthiques et conditionnement social.
Introduction à une philosophie morale, Le Centurion, Paris, 1979.
15

+ Fatores correspondentes à situação social específica dentro da mesma


sociedade: Trata-se do papel social (idade, gênero, profissão, etc.), da classe social,
etc. que diferenciam o contexto socio-cultural no qual vive e cresce cada indivíduo.
# Estes fatores atuam:
+ seja sobre a inteligência, moldando os valores e critérios dos indivíduos
+ seja sobre a vontade, envolvendo as pessoas numa rede de influências e
pressões que limitam ao máximo a sua liberdade de dissenso.
# Conclusão: Existe uma relação dialética entre o indivíduo e seus condicionamentos
socio-culturais. Longe de constituir apenas um obstáculo para o exercício da liberdade ou
mesmo um determinismo insuperável do ato humano, o ambiente social pode e deve ser
concebido também como o terreno para o florescimento da liberdade. Com efeito, o homem
pode até certo ponto modificar o seu meio socio-cultural e tem mesmo certa
responsabilidade de torná-lo mais humano.

e) Conclusão: uma liberdade finita, situada, condicionada

 A análise precedente mostra que a existência com sua necessidade e suas limitações,
que não dependem de mim, é, no entanto, a minha existência. Ela se oferece à minha liberdade
como um fato inelutável, que, entretanto, pode e deve ser assumido e orientado por mim.
Nossos limites não são apenas uma restrição inexorável, mas, mais profundamente, aquilo que
nos proporciona, positivamente, sermos o que somos. Não se trata, portanto, de nos revoltar
contra eles, mas, ao contrário, de assumi-los como um apelo, mediante o consentimento sereno
à sua necessidade, com todas as oportunidades que nos oferece de uma vida na verdadeira
liberdade.
 Podemos tomar iniciativas, exercendo a liberdade, mas sempre sobre o pano de fundo de
um dado involuntário, que nos escapa. Nossa liberdade é, portanto, uma síntese de afirmação
de si e de acolhida de uma alteridade. É só na medida desta acolhida que ela é capaz de uma
autêntica criatividade. Nossos atos livres são reação e resposta, como aceitação ou recusa, de
impulsos e condicionamentos que se apresentam independentemente de nossa vontade.
 Por isso, mais do que um fato já dado, a liberdade humana é um processo de libertação.
Como acontece, aliás, também na linha do saber e conhecimento da verdade, ninguém nasce
livre, a não ser virtualmente. A liberdade não cresce senão na medida em que optamos
livremente. Trata-se do bem mais precioso do homem, mas também do mais ameaçado,
enquanto está ligado indissoluvelmente a seu contrário, a não-liberdade. Corremos
continuamente o risco de sacrificá-la à natureza.
 Daí se segue que a existência da liberdade não pode ser demonstrada senão para quem
tem o sentido da liberdade, a partir da experiência de seu exercício. A verdadeira descoberta da
liberdade dá-se a partir de dentro pelo reconhecimento vivido de sua prática. De fato, mesmo
aqueles que negam teoricamente a liberdade, nas situações decisivas, comportam-se como se
fossem livres, ainda que com uma liberdade simplesmente humana. A negação da liberdade
funda-se no pressuposto enganoso de uma liberdade absoluta, que evidentemente não é
própria do ser humano.

3. O ethos como bem (aspecto objetivo)

3.1. Especificidade do bem moral

A moralidade refere-se ao bem do ser humano. Mas nem tudo que é bom (ou mau) tem
caráter moral. Pode-se falar de uma boa casa, uma fruta boa, um bom pintor, uma boa
oportunidade, uma boa idéia, etc. De fato, os termos “bom” e “bem” e seus contrários “mau” e
“mal” são análogos, i.e. podem ser usados com diversos significados, não totalmente distintos,
mas relacionados entre si. Daí a necessidade de distinguir o bem moral de outros tipos de bem.
16

a) O bem moral na sua sua relação com o sujeito19

 Diversos significados de bem:


# Bem útil: Trata-se de uma coisa desejável enquanto serve para alcançar determinado
fim. O útil tem um valor instrumental, i.e. está na ordem dos meios e como tal não constitui
um bem por si mesmo. Sua utilidade, seu caráter de bem, deriva do fim ao qual ele está
ordenado. P. ex.: Uma faca é boa, enquanto serve para cortar; o caminho bom é o que leva
ao destino pretendido.
# Bem agradável: Trata-se do prazer e satisfação (corporal, psicológica, intelectual ou
mesmo moral [boa ação, boa consciência]) que algo provoca no sujeito. P. ex. assistir a um
bom filme; beber um bom vinho; encontrar a solução de um problema; entreter-se com um
amigo. A satisfação que constitui o bem agradável é desejada por si mesma, mas tem
sempre um caráter subjetivo.
# Bem honesto: Trata-se de uma coisa desejável porque tem valor em si mesma, não
em função de outra coisa (útil), nem da satisfação que pode provocar (agradável), mas
absoluta e intrinsecamente. O bem honesto tem sempre um caráter objetivo. Trata-se de
bens terminais que realizam o ser humano, enquanto tal. De acordo com as duas dimensões
fundamentais do espírito humano, podem distinguir-se:
+ O fim da inteligência (a verdade). Embora conhecer a verdade possa ser útil e
agradável, como tal, é algo que vale por si mesmo e que não está subordinado a outro
fim.
+ O fim da vontade (o bem moral). P. ex. Dizer a verdade (mesmo a custo de
prejuízos).

 Relação entre os tipos de bem: Não se trata de uma distinção entre três espécies de
coisas, mas entre três atitudes do sujeito.20 Por isso:
+ A mesma coisa pode pertencer, conforme o caso, a uma ou outra das classes de bem.
P. ex.: Alguém pode fazer uma viagem em virtude de sua utilidade, ou para sua satisfação,
ou por dever.
+ Cada um dos tipos de bem pode incluir os outros. P. ex.: fazer o bem (honesto) pode
dar satisfação (agradável) e ser útil (pelo menos em vista de uma perfeição ulterior); o
agradável enquanto tal pode ser útil (p. ex. o alimento saboroso, enquanto faz bem à saúde)
e também honesto (descansar, divertir-se pode ser um dever); o útil enquanto tal pode ser
agradável (p. ex. estudar) e também participar da honestidade do fim (estudar é um bem
moral, enquanto ordenado a um fim bom).
+ Mas os vários tipos de bem podem também excluir-se mutuamente. P. ex. O útil (p.
ex.: passar a noite em claro para roubar um banco) pode ser desagradável e desonesto; o
agradável (p. ex. embriagar-se) pode ser inútil e desonesto; o honesto (p. ex. cumprir a
promessa) pode ser, sob certos aspectos, inútil e desagradável.

b) Classificação dos bens ou valores em função do objeto:21 Há muitas maneiras de classificar


os valores. Sem pretender ser completos nem adotar um ponto de vista absolutamente
coerente, podemos distinguir a título de exemplo
# Valores exteriores:
+ Valores econômicos: Relativos à disponibilidade de coisas ou recursos materiais
(riqueza e prosperidade em oposição a pobreza e indigência)

19
Esta distinção remonta a Platão e Aristóteles. Cf. J. de Finance, ob. cit. 48-52.
20
Segundo J. de Finance (ob. cit. 50-52), esta divisão dos tipos de bem, embora útil, não é plenamente satisfatória,
enquanto haveria bens que não se incluiriam perfeitamente em nenhum dos três tipos. P. ex.: o alimento para uma
pessoa faminta; a fuga de um incêndio.
21
Como se viu, a noção de bem inclui a noção de valor. Esta acrescenta à noção transcendental de bem (todo ser
enquanto ser é bom) a relação ao ser humano. O valor é o bem do ser humano, enquanto reconhecido como tal por
ele. P. ex.: a água é boa para o capim e o capim para a vaca. Mas a água e o capim não têm valor senão para o
proprietário da vaca e do capim.
17

+ Valores sociais: Relativos ao reconhecimento e valorização por parte das pessoas


(honra, fama, gratidão, amizade em oposição a desonra, desprezo, ingratidão,
indiferença, etc.)
# Valores corporais:
+ Valores biológicos e vitais: Saúde e perfeição orgânica (em oposição a
enfermidade e deformidade), i.e. desenvolvimento harmonioso dos membros, bom
funcionamento dos órgãos, rapidez e segurança dos reflexos, adaptação ao meio, etc.
+ Valores da sensibilidade: Prazer (em oposição a dor)
# Valores psíquicos:
+ Saúde mental em termos de vitalidade mental (memória, imaginação, raciocínio) e
afetiva (sentimentos, paixões) e de equilíbrio e integração pessoal
+ Energia de caráter, constância nos empreendimentos, etc.
# Valores relacionais:
+ Subjetivos: Capacidade de comunicação, relacionamento, organização, iniciativa,
liderança, etc.
+ Objetivos: Ordem social, paz, liberdades públicas, etc.
# Valores estéticos:
+ Subjetivos: Bom gosto e dotes artísticos
+ Objetivos: Beleza da natureza e das obras humanas
# Valores intelectuais:
+ Subjetivos: Qualidades naturais (capacidade de observação e reflexão,
compreensão e expressão, análise e síntese, crítica e criatividade, etc.) e adquiridas
(hábitos intelectuais, informações e conhecimentos).
+ Objetivos: Obras produzidas pelo espírito humano (saber científico e sapiencial,
técnicas, instituições sociais, etc.)
# Valores morais:
+ Subjetivos: Virtudes (benevolência, justiça, solidariedade, autocontrole, etc.) em
oposição aos vícios
+ Objetivos: As mesmas qualidades como ideais e normas de comportamento
# Valores religiosos:22
+ Subjetivos: Atitude de respeito e confiança para com a divindade
+ Objetivos: O sagrado e divino (ou o Deus pessoal), bem como tudo o que a ele se
refere (mitos, ritos, preceitos divinos)

I.2. Caráter normativo do bem moral

a) Norma e moralidade
# A norma é a medida da correção ou incorreção da ação; ela indica como deve ser a
ação para alcançar a sua perfeição. Há diversos tipos de norma (normas técnicas,
lingüísticas, regras de jogos, etc.).
# A moralidade é essencialmente normativa, enquanto propõe ao ser humano regras
de conduta, que ordenam os seus impulsos espontâneos e dão sentido à sua existência. 23
Uma ação é moralmente boa ou má em função de sua conformidade ou desconformidade
com as normas morais.

b) Normas morais, sociais e religiosas: É necessário distinguir a norma moral de outros tipos
de norma que têm com ela maior semelhança:24
22
A relação entre os valores morais e religiosos é complexa, sobretudo no caso do cristianismo. Embora se
distingam, eles se incluem mutuamente. Sob certo aspecto, o valor moral, como se verá, constitui o valor supremo
que define, em última análise, o valor do ser humano. Por outro lado, o valor religioso já não se refere ao sujeito
como tal, mas o realiza num plano superior, enquanto concerne a sua relação com o princípio de seu ser e de toda a
ordem de valores. Não é possível, a esta altura, tratar com maior profundidade esta questão.
23
“Só o ser humano segue regras, porque só ele pode não segui-las e, de fato, com muita freqüência não as segue. É
enquanto violento que ele é moral, enquanto transgressor que ele tem consciência das regras” (Eric Weil, ob. cit. 21).
24
Cf. J. Leclercq: Les grandes lignes de la Philosophie Morale, Publications Universitaires de Louvain / Vrin,
Louvain / Paris, 1954, 8-15.
18

# Normas sociais: Vigoram num grupo social como orientação do comportamento de


seus membros e condição para sua aceitação pelo grupo.
+ Muitas normas vigentes em grupos sociais são também normas morais. P.
ex.: não roubar.
+ Há, porém, normas que são puramente sociais, i.e. não têm, por si mesmas,
caráter moral. P. ex.: as normas de boas maneiras (polidez, etiqueta), que
prescrevem como comer à mesa, como vestir-se em determinadas circunstâncias,
como saudar as diferentes pessoas, etc. Sua observância ou inobservância pode,
porém, ter uma conotação indiretamente moral, em função da sua motivação ou das
suas conseqüências (p. ex.: desrespeito aos outros, etc.).
+ Na verdade, porém, as normas sociais diferem formalmente da norma moral
por seu caráter meramente formal e exterior. Como tais, elas não exigem a
convicção e adesão interna da pessoa..
# Normas religiosas: São estabelecidas direta ou indiretamente pela divindade como
orientação do comportamento dos fiéis e condição para sua aceitação pela mesma
divindade.
+ Muitas religiões, em particular as religiões bíblicas, têm uma dimensão ética
essencial, e, como tais, propõem preceitos de ordem moral (p. ex.: mandamentos da
lei de Deus).
+ Entretanto, há normas puramente religiosas, relativas p. ex. aos ritos
religiosos (como administrar validamente um sacramento), à observância de jejuns
ou à participação em celebrações festivas, etc. Estas normas podem ter um caráter
indiretamente moral, enquanto é moralmente bom obedecer aos preceitos divinos.
+ Na verdade, porém, são formalmente distintas das normas morais, enquanto
se fundam no fato de terem sido estabelecidas em nome da divindade. Pode mesmo
haver conflito entre uma norma de determinada religião histórica (p. ex.: sacrifícios
humanos) e a norma moral.
# Normas morais:
+ Embora tenham, como se verá, um caráter essencialmente social, enquanto são
necessariamente concretizadas num determinado contexto sociocultural, elas não
resultam simplesmente do fato de vigorarem num grupo social, mas têm seu fundamento
na própria natureza humana enquanto racional.
+ Embora o seu fundamento último seja o próprio Deus, enquanto criador, a norma
moral, enquanto tal, do ponto de vista fenomenológico, não se apresenta como preceito
divino, mas como expressão do próprio bem conhecido pela razão humana.

I.3. Caráter imperativo ou obrigatório do bem moral

a) Valor moral e obrigação


# A norma moral apresenta-se como obrigatória, enquanto impõe um comportamento
ao sujeito. Ele sente-se interiormente constrangido a agir daquela maneira. O bem moral
apresenta-se como o que deve ser feito; o mal como o que deve ser evitado.25
# Distinção entre norma e obrigação:26 A idéia de obrigação não se confunde com a de
norma ou regra, mas é uma conseqüência do valor do ato bom, i.e. realizado em
conformidade com a norma. Porque algo é bom, constitui um valor para a pessoa, torna-se
obrigatório, deve ser procurado por ela. A idéia de norma como regra ou medida do ato é
mais fundamental do que a idéia de norma como obrigação.27
# Necessidade natural e obrigação moral: Mediante a obrigação moral, à necessidade
dada das leis da natureza, acrescenta-se uma nova necessidade instituída dos costumes e

25
Trata-se da formulação clássica do primeiro princípio moral: bonum est faciendum, malum autem vitandum.
26
Cf. J. Maritain: Neuf leçons sur les notions premières de la Philosophie Morale, Tequi, Paris, s/d, 128s., 134s.
[trad. port.: Problemas fundamentais de filosofia moral, Rio de Janeiro, Agir, 1977].
27
O duplo significado do termo “norma” como norma-regra e norma-mandamento, observa-se também no termo
“ordem”, que pode significar tanto disposição ou organização perfeita (está tudo em ordem) como preceito (dar uma
ordem).
19

leis que regulam as relações humanas nas diversas dimensões da existência (instituições
sociais: casamento e família, vida econômica, política, religiosa, etc.). Entretanto, a
necessidade ou obrigação imposta pela norma moral é distinta da necessidade própria das
leis da natureza (físicas, biológicas).
+ Esta não admite alternativas. Segue simplesmente seu curso segundo leis
determinísticas.
+ A obrigação moral, porém, confronta-se com a liberdade humana. Ela impõe
uma exigência à liberdade, que, no entanto, pode ou não ser aceita pela pessoa
livre.28

b) Obrigação moral, social e religiosa: É preciso distinguir a obrigação experimentada no caso


da norma moral da obrigação própria da norma social ou religiosa. A análise dos
sentimentos provocados pela falta contra a norma nos três casos, revela a diferença do tipo
de obrigação que elas implicam.
# Obrigação social e moral: P. ex.: uma pessoa, convidada a um jantar festivo, com um
gesto brusco, mas sem querer, derrama um cálice de vinho na toalha. Sente vergonha e
humilhação diante dos convidados, que podem tachá-lo de sem educação. Lamenta o que
fez e daria tudo para não tê-lo feito.
+ Estes sentimentos de vergonha, humilhação e pesar podem também
acompanhar uma falta moral, p. ex. uma mentira ou roubo, mesmo que não haja
testemunhas.
+ Entretanto, no fundo a pessoa sabe que, num caso, desrespeitou apenas uma
convenção social, prejudicou sua imagem diante dos outros, ao passo que, no outro,
ela agiu contra a sua consciência, lesou a sua própria dignidade de pessoa humana.
A obrigação da norma social é meramente extrínseca.29
# Obrigação religiosa e moral: O sentimento que acompanha a transgressão de uma
norma, enquanto religiosa, situa-se no contexto de uma relação pessoal, de temor ou amor,
com a divindade. Há arrependimento, mas este é provocado seja pelo medo de um eventual
castigo, seja pela vergonha de ter sido ingrato e infiel, desagradando e desrespeitando a
quem deve tantos benefícios. Ao contrário, no caso da falta moral, o pesar resulta da
consciência da própria incoerência, fraqueza, incapacidade de viver os valores assumidos.

I.4. Caráter categórico ou absoluto do valor moral: O bem moral distingue-se de outros bens
ou valores humanos por seu caráter absoluto. Esta característica da moralidade pode
ser melhor compreendida contrapondo-a, sob dois pontos de vista, a valores relativos.
# O imperativo hipotético consiste numa obrigação que vale sob determinada condição.30
P. ex.: se queres ser feliz, deves fazer o bem; se queres preservar a saúde, deves deixar de
beber. Fazer o bem não se impõe aqui como obrigação absoluta. Trata-se de uma
necessidade relativa, dependente da condição: Se queres... Ora, o bem moral obriga por si
mesmo, não em vista de outra coisa. Portanto, a ação que é motivada por um valor não-
moral (felicidade, saúde) perde o seu caráter moral.31

28
Daí o duplo sentido dos verbos “dever” (necessidade natural e obrigação moral) e “poder” (ter a capacidade natural
e ser lícito ou permitido fazer). P. ex.: devo morrer; devo (tenho obrigação de) amar meu irmão, mas posso não fazê-
lo (não sou necessitado naturalmente); ele pode (licitamente, tem direito de) exigir um salário maior, mas não pode
obtê-lo (não tem meios, capacidade real). Os dois sentidos são designados por termos diferentes no alemão (müssen /
sollen e können / dürfen) e no inglês (must / ought (should) e can / may).
29
É preciso distinguir entre o motivo, que pode levar alguém a observar as normas morais, e a consciência do valor
moral da norma. Uma pessoa pode observar as normas morais simplesmente por medo de sanções sociais (o que os
outros vão dizer ou fazer, se eu faltar) ou religiosas (punição divina). Trata-se de certo infantilismo moral. Isso não
significa que esta pessoa não tenha consciência de que a ação contrária à norma é má em si mesma e não só pelas
conseqüências negativas que possam advir-lhe dela. A falta do senso moral propriamente dito é algo mais profundo e,
em princípio, mais raro, embora esteja se alastrando na cultura atual.
30
A distinção entre imperativo categórico e hipotético foi proposta por Kant.
31
Se a preservação da saúde é querida não simplesmente como um valor natural, mas como uma obrigação e
responsabilidade moral, já não se tratará de um imperativo hipotético. É também verdade que entre bem moral e
busca da felicidade não há necessariamente antagonismo. Com efeito, a realização plena (felicidade) do ser humano
20

# O imperativo categórico prescreve o que convém à pessoa absoluta e


incondicionalmente: Deves absolutamente agir ou não agir desta ou daquela maneira. É
este tipo de obrigação que corresponde ao valor moral. Com efeito, a moralidade não
consiste numa técnica para viver bem. Trata-se daquilo que o ser humano deve fazer de
qualquer modo para ser digno de sua humanidade, daquilo que ele deve ser em função do
que ele é, sob pena de faltar ao apelo inscrito no fundo de sua natureza.

I.5. O bem moral como valor supremo32

a) Originalidade do valor moral: A moralidade qualifica radicalmente a pessoa. O próprio do


valor moral, em relação a qualquer outro valor, é que ele merece absolutamente ser
procurado. É este caráter absoluto que determina a originalidade do valor moral, em relação
aos outros valores: econômicos, sociais, estéticos, intelectuais, etc.
# Todos estes valores, mesmo os mais elevados, concernem capacidades específicas
da natureza humana, sem atingir a raiz da sua existência. Alguém pode ser um bom médico
ou pianista (no sentido de competente), ter saúde, inteligência, capacidade de
relacionamento, dotes de administrador, etc. Estes valores o caracterizam sob aspectos
parciais, limitados, na ordem do ter: são qualidades que a pessoa tem.
# A moralidade, porém, qualifica a pessoa humana no seu próprio ser como
simplesmente boa ou má. A razão é que o valor moral, ao contrário dos outros valores,
afeta-a no seu núcleo mais íntimo, naquilo que faz o ser humano ser propriamente ele
mesmo e que decide definitivamente de seu destino humano, i.e. a sua liberdade. É
verdade que o ser humano não é somente liberdade. Mas é em função dela, de sua
abertura ou fechamento ao ser enquanto verdadeiro e bom, que o ser humano se realiza
propriamente. E sem esta realização radical todos os demais valores perdem, em última
análise, a sua consistência.

b) Conseqüências:
# Por isso o valor moral não pode ser legitimamente sacrificado em função de qualquer
outro valor, ao passo que todos os outros valores, por mais preciosos que sejam, devem,
em caso de conflito, ser preteridos em vista dele. Como Sócrates já tinha entendido: É
melhor sofrer a injustiça do que praticá-la. Nenhum outro mal (privação, sofrimento, etc.) é
tão prejudicial ao ser humano como fazer o mal e assim ser mal.
# Por isso, as pessoas são julgadas espontaneamente enquanto pessoas humanas, de
acordo com seu valor moral, i.e. com o uso que fazem de sua liberdade, e não de acordo
com sua raça, sua classe social, sua fortuna, ou mesmo seus dotes intelectuais ou
artísticos. Napoleão pode ser admirado como um gênio militar ou político. Mas como ser
humano, no que constitui o seu valor definitivo, i. e do ponto de vista ético, ele merece
antes reprovação que aprovação, pelo menos à luz de suas ações. Experimentamos alegria
interior quando, mesmo com o sacrifício de outros valores, preferimos o bem ao mal. Ao
contrário, sentimo-nos culpados se conseguimos grandes vantagens às custas de uma
injustiça.
# É natural que as outras qualidades humanas sejam distribuídas desigualmente. Não
há nada de mais em não possuir todas as qualidades humanas (dotes artísticos,
competência científica em determinados campos, etc.). Mas todos os valores morais são
exigidos de todos. Não se pode dizer razoavelmente: Eu me preocupo apenas com ser
justo, não me interessa ser solidário ou compassivo ou humilde, etc.

II. Distinção entre o fenômeno ético e outras dimensões da existência humana,


enquanto racional

consiste em fazer o bem. Entretanto, não se trata de fazer o bem simplesmente para ser feliz, mas de ser feliz fazendo
o bem.
32
Cf. A. Léonard, ob. cit. 114-121; D. von Hildebrand: Ethik, Gesammelte Werke, vol. II, Kohlhammer, Stuttgart,
s/d, 177-185 (original: Christian Ethics, David McKay, New York, 1952).
21

O ethos como fenômeno específico contrapõe-se a physis, logos e techne. Estas distinções
foram formuladas com clareza pela primeira vez por Aristóteles, sistematizando e aprofundando
o pensamento de seus antecessores. Trata-se de categorias fundamentais para a interpretação
da realidade humana.

1. Physis = Natureza = Realidade = Mundo = coisas/pessoas

1.1. Noção de natureza

a) Physis como realidade fundamental: O que é (on, ens, ente) apresenta-se em primeiro lugar
como o mundo de nossa experiência, composto de coisas e pessoas, fatos e relações.
# Esta realidade que se oferece à nossa experiência, vista sobretudo na sua gênese e
no seu dinamismo (processo de surgimento e desaparecimento das coisas), foi chamada
pelos primeiros filósofos gregos de physis (natureza).
# “Physis” deriva do verbo “phyo”, que significa “fazer nascer, gerar, produzir”. Também o
termo latino que traduz “physis”, i.e. “natura” (natureza), vem de “nascor”, que significa
“nascer, vir ao mundo, originar-se”.
# Os primeiros pensadores gregos observaram a regularidade da natureza no seu vir-a-
ser, de modo que a ligação causal entre os fenômenos pode ser expressa em leis universais
e necessárias.

b) Modos de considerar a physis/natureza:


(1) Como o conjunto da realidade mundana, o mundo da experiência
(2) Como o modo de ser (essência) e agir de cada coisa: cada coisa tem a sua natureza
específica (granito, mangueira, cobra, ser humano, Deus, etc.)33

1.2. Gêneros de physis/natureza:

a) Segundo o grau de unidade/autonomia e complexidade:


(1) Natureza física: O ente enquanto corporal (simplesmente) nas suas várias espécies:
água, sal, oxigênio, etc.
(2) Natureza vivente: O ente corporal enquanto vivo (simplesmente) nas suas várias
espécies (vegetais): mangueira, grama, etc. O vivente possui uma unidade superior à do
ente corporal e, ao mesmo tempo, maior abertura ao mundo (adaptação, etc.). Suas
ações próprias são orientadas para o desenvolvimento e realização do indivíduo
(nutrição, etc.) e, em última análise, da espécie (reprodução).
(3) Natureza animal: O ente corporal vivo enquanto sensiente (simplesmente) nas suas
várias espécies: cavalo, sapo, formiga, etc., i.e. animais. Os animais apresentam uma
unidade e autonomia superior à dos simples viventes (vegetais). Nos animais, enquanto
sensientes, a tendência natural ao desenvolvimento e dá-se através do conhecimento
(sentidos) e do apetite sensitivo. Eles tendem para o que conhecem naturalmente pelos
sentidos como útil/bom (p. ex. determinado alimento) para seu desenvolvimento e
realização (fim) como indivíduo ou espécie .
(4) Natureza humana: O ente corporal vivo e sensiente enquanto espiritual: Trata-se do ser
humano como espírito encarnado no mundo, i.e. do vivente dotado de
linguagem/pensamento (zoon logon echon) enquanto é capaz de auto-significar-se e de
significar o mundo na linguagem/pensamento (logos). No ser humano a tendência
natural ao seu desenvolvimento e realização específicos dá-se através do conhecimento
racional e da vontade livre. Ele pode escolher os meios de realizar o seu fim.

b) Observações:

33
Embora a liberdade faça parte da natureza humana (i.e. de sua essência ou modo de ser), muitas vezes opõe-se no
ser humano a liberdade à natureza.
22

(1) O termo “psyché” (alma) é usado em três acepções diferentes segundo os graus de
vida:
# “psyché” como princípio de unidade de todo ser corporal vivo, inclusive os vegetais
(sentido aristotélico, hoje menos usado);
# “psyché” (alma) como princípio de unidade de todo ser corporal sensitivo, i.e.
animais em geral e seres humanos (Sentido científico atual: Psicologia, psiquismo);
# “psyché” (alma) como princípio de unidade do ser humano, enquanto espiritual
(Sentido socrático e hoje mais comum na linguagem ordinária, para a qual só o homem
possui alma).
(2) Além da realidade natural experimentável, nos níveis indicados, a reflexão exige (p. ex.
segundo Aristóteles) a existência de realidades imateriais (separadas totalmente da
matéria) e, portanto, inacessíveis à experiência sensível. Estas realidades (puramente
espirituais: inteligências separadas) têm também seu modo de ser e agir próprios, sua
natureza, mas não pertencem ao mundo da experiência: são realidades meta-físicas.

2. Logos = razão = discurso = pensamento/linguagem = conceito/palavra

2.1. Noção de logos

a) Experiência fundamental do logos: Considerando o conjunto da realidade os filósofos


gregos identificaram um novo fenômeno, distinto da realidade natural (physis), o logos,
característico do ser humano, como “animal dotado de razão” (zoon logon echon).
# O logos ou discurso da razão tem duas faces inseparáveis: pensamento (idéias,
juízos, raciocínios) e linguagem (palavras, frases, argumentação).
# O discurso exprime o conhecimento do ser humano sobre a realidade (saber), i.e. o
seu sentido, significado, razão. Pode ser verdadeiro ou falso. A ciência, na sua dimensão
objetiva, é um discurso elaborado metodicamente.

b) Características do logos
# O logos (discurso) tem em comum com a physis o fato de estar sujeito às regras da
necessidade lógica que ligam o antecedente ao conseqüente em homologia com a
necessidade causal própria dos fenômenos da natureza. P. ex.: Se Pedro é homem e se
todo homem é mortal, Pedro necessariamente é mortal.
# O logos é o resultado de uma ação imanente, i.e. que permanece no próprio agente e
o aperfeiçoa. Saber o significado e a razão das coisas enriquece o ser humano, enquanto
realiza a sua natureza espiritual enquanto inteligente, orientada para a verdade. Portanto o
fim da ação de conhecer é a própria perfeição do agente.

b.1. Relação entre physis e logos: O ser humano pertence à natureza e possui uma
natureza, mas o discurso enquanto discurso é algo que se contrapõe à natureza (coisas,
fatos) em todos os níveis acima indicados.

a) O discurso, como conjunto de idéias/palavras, não se identifica com as coisas naturais


(physis), mas manifesta o seu significado (sentido).
# Quando A e B pensam “esta mesa é retangular”, o pensamento de A não é o
pensamento de B, enquanto realidade natural (psíquica). Mas o conteúdo da afirmação
(juízo) de A e de B é o mesmo, enquanto se refere à mesma coisa. Este conteúdo do juízo
de A e B, i.e. a coisa (mesa retangular) enquanto pensada (através de conceitos, que
constituem o sujeito e predicado do juízo) pertence ao logos. O logos como discurso é a
articulação dos juízos (raciocínio). Ele se distingue tanto do ato singular de pensar
(realidade psíquica) como da coisa pensada (realidade física).
# Quando A e B dizem “esta mesa é retangular” a realidade física do som que eles
emitem não é a mesma, embora usem as mesmas palavras (significante). Mas o significado
é o mesmo. Este significado é o logos, enquanto linguagem. Ele se distingue tanto do som
significante como da coisa significada.
23

b) O logos pressupõe tanto a natureza psíquica do indivíduo que pensa e fala (sujeito), como a
natureza física da coisa sobre que ele pensa e fala (objeto do pensamento/ referente da
linguagem). A própria natureza humana é racional, i.e. capaz de pensar e falar. Portanto é
preciso distinguir:
# a razão enquanto natureza (aspecto subjetivo: capacidade inerente ao ser humano e
sua atuação)
# a razão enquanto razão (aspecto objetivo: discurso produzido pelo sujeito racional
como pensamento/linguagem)

3. Techne = arte = técnica = transformação da realidade

3.1. Noção de techne: Através da techne o ser humano intervém racionalmente na natureza
para adaptá-la aos seus objetivos e interesses.
# A techne como poiesis (fabricação) dá nova forma a uma matéria natural (argila, metal,
pedra, madeira, fibras, palavras, sons, etc.), produzindo uma obra (ergon), um artefato. A
poiesis é uma ação não imanente, mas transitiva, cuja finalidade é o aperfeiçoamento do
mundo natural, i.e. a produção de algo distinto do próprio agente.
# O termo “techne” significa ao mesmo tempo um tipo de conhecimento (razão técnica
ou saber fazer), fundado no conhecimento da natureza, e uma operação produtiva segundo
regras (fazer com base no saber).

b.2. Espécies de techne:34 É preciso distinguir:

a) A techne que tem um caráter utilitário e instrumental, i.e. está orientada à produção de
coisas úteis para a existência humana. Trata-se das (artes) técnicas propriamente ditas:
agricultura, técnicas de edificação, fabricação de vestuário, ferraria, carpintaria,
farmacêutica, medicina (produção da saúde), etc. As propriedades que tornam os produtos
da técnica artefatos úteis são qualidades físicas.

b) A techne que tem um caráter gratuito, não-pragmático, i.e. está orientada à produção de
coisas belas, artísticas (obras-de-arte), próprias das (belas) artes: pintura, arquitetura,
escultura, música (matéria = sons), poesia (matéria = palavras), etc.
# Trata-se de uma fabricação (poiesis), cuja obra (cf. poesia, poema), entretanto, não
tem caráter utilitário e instrumental, mas exprime o sentido e significado da realidade, não
através da linguagem conceptual (logos), mas em forma sensível (obra-de-arte).
# Através da arte a realidade física adquire a beleza, uma qualidade, que não é
simplesmente física, mas de ordem espiritual, embora encarnada na matéria. A beleza da
obra-de-arte, como a verdade do conhecimento é fim em si mesma. A beleza artística,
enquanto resultado de um ato intencional de significação humana, distingue-se da beleza
natural.

4. Ethos = agir humano (praxis) [polo subjetivo] enquanto orientado livremente para um
fim [polo objetivo]

4.1. Noção de ethos

a) A existência do ethos é atestada por uma experiência humana fundamental e goza da


mesma evidência inquestionável com que se apresentam os entes da natureza.

34
O termo grego “techne” equivale ao latim “ars/artis”, abrangendo ambos todo tipo de produção humana.
Entretanto, o português atual, reservou o termo “técnica” (origem grega) para a produção utilitária, e o termo “arte”
(origem latina) para a produção estética.
24

# Trata-se da experiência da qualificação específica (positiva ou privativa) que assume o


agir humano (praxis) em função da responsabilidade do agente em relação à realização do
bem que se apresenta como dever. A ação humana apresenta-se sob este ponto de vista
como moralmente boa ou má.
# Esta experiência fundamental traduz-se na proposição “bonum faciendum, malum
vitandum” [o bem deve ser feito, o mal evitado], que constitui o primeiro princípio da razão
prática, i.e. da ordem moral. Este princípio revela a natureza normativa do ethos, que regula
e ordena a bondade do agir do ponto de vista de sua necessária inserção num contexto
histórico-social.

b) Qualquer ação humana enquanto livre, i.e. enquanto implica escolha e decisão, adquire um
valor específico em função de sua relação de concordância ou discordância com o bem
como fim do ser humano, i.e. com aquilo que contribui para sua plena realização como
natureza espiritual.
# Esta qualificação (valor) da sua ação livre constitui o ethos (moralidade) sob o aspecto
subjetivo.
# Por outro lado, o bem do ser humano, enquanto normativo, i.e. enquanto se apresenta
como critério (medida) do agir humano e como dever (obrigação) constitui o ethos
(moralidade) sob o aspecto objetivo.

c) O ethos, com sua característica histórica, social e individual, é a realidade humana por
excelência. Correspondendo às peculiaridades do agir humano (praxis), ele exprime a
versão humana da physis, como o princípio que qualifica os hábitos (hexeis) ou virtudes
(aretai) segundo os quais o ser humano age de acordo com sua natureza racional em vista
do fim último.

4.2. Distinção entre ethos e physis:


# Aspecto subjetivo: A decisão tomada por alguém aqui e agora de ajudar o outro ou de
prejudicá-lo, enquanto ato da vontade, é uma realidade natural singular de caráter psíquico.
A execução desta decisão (gesto de ajudar ou prejudicar) é uma realidade de natureza
física. Mas o conteúdo/objeto desta decisão e da ação respectiva (ajudar, prejudicar o
outro), enquanto escolha ou recusa livre do bem e do dever, tem uma qualificação (boa ou
má) que não se confunde com sua realidade natural, i.e. tem um valor ético ou moral.
# Aspecto objetivo: O bem que deve ser praticado, objetivado na norma, costume, lei (p.
ex. honrar pai e mãe) traduz-se concretamente em ações de caráter físico e empírico (p. ex.
tomar a bênção). Mas o caráter de bem (valor) e de obrigatoriedade (dever) destes gestos
não é algo físico, mas propriamente ético. Esta necessidade do ético (obrigação moral)
distingue-se também da necessidade natural (p. ex. a chama em contacto com o corpo
humano necessariamente queima, i.e. destrói o tecido) por seu caráter não determinístico,
mas livre, como escolha entre possibilidades. A necessidade que a lei moral impõe à
liberdade vem do fato de que ela é o bem da pessoa e a plena realização de sua liberdade.

4.3. Distinção entre ethos e logos: O ethos e o logos têm em comum o fato de possuírem um
modo de ser, específico do ser humano, que se distingue da physis, mas a pressupõe.
Entretanto:
# O logos enquanto discurso inteligente (conhecimento) revela o sentido da realidade,
i.e., mostra em última análise, em que consiste o bem e o valor do ser humano
# O ethos enquanto ação livre (comportamento) de acordo com o bem manifestado no
logos constitui o valor definitivo do ser humano

4.4. Distinção entre ethos e techne: Tanto o agir humano (praxis), campo do ethos, como o
fazer ou fabricar (poiesis), próprio da techne (arte, técnica), regem-se por modelos de
racionalidade teleológica, i.e. são determinados por um fim, uma intenção livre do
agente. Entretanto:
25

# O finalismo da técnica é orientado para a perfeição da obra a ser produzida. Trata-se


de um processo transiente ou transitivo (trans-ire = passar além) que se completa na
exterioridade da obra enquanto produto.
# O finalismo da praxis é orientado para a perfeição do próprio agente. A ação boa
qualifica o sujeito que a pratica. Trata-se de uma ação imanente (in-manere = permanecer
em), i.e. que se completa no sujeito que a causa. O ético não é um produto exterior nem
uma propriedade dele, mas uma qualificação do próprio agente.

5. Integração entre o ethos e as outras dimensões do ser humano, enquanto racional

5.1. Visão sintética: A natureza humana enquanto espiritual distingue-se por dois atributos
fundamentais razão e liberdade (inteligência e vontade). A atuação do ser humano,
enquanto racional, ocorre em três dimensões interligadas, que podem ser consideradas
sob o aspecto subjetivo e objetivo:
(1) Razão teórica:
# Aspecto subjetivo: noein/theorein = ver (intelectualmente), i.e. entender a realidade
[on, ente], em primeiro lugar a physis
# Aspecto objetivo: logos = pensamento/linguagem como expressão da
compreensão do sentido ou significado da realidade
# Saber correspondente:
+ Aspecto subjetivo = hábito de saber ver (bem), i.e. entender o sentido das
coisas
+ Aspecto objetivo = resultado da compreensão das coisas, expresso no
conhecimento/linguagem (logos)
(2) Razão instrumental:
# Aspecto subjetivo: poiesis = fazer, fabricar, produzir, transformando a realidade, i.e.
a physis
# Aspecto objetivo: ergon = a obra
# Saber correspondente = techne = arte, técnica
+ Aspecto subjetivo = hábito de saber fazer (bem), habilidade, perícia
+ Aspecto objetivo = procedimentos (métodos) de fabricação
(3) Razão prática:
# Aspecto subjetivo: praxis (ethos) = agir humano, enquanto livre
# Aspecto objetivo: ethos = norma do agir, lei, bem, valor
# Saber correspondente
+ Aspecto subjetivo = hábito de saber agir (bem), virtude
+ Aspecto objetivo = conjunto das normas de agir bem

5.2. Natureza e cultura

a) Pertence à natureza tudo aquilo que é dado (surge, acontece) espontaneamente, sem
intervenção do ser humano. O ser humano é por natureza (physis) um ser capaz de cultura.
Entretanto, as realizações culturais, enquanto criações humanas históricas, distinguem-se
da natureza. O logos, o ethos e a techne são próprios da natureza humana, enquanto
espiritual. Entretanto, na sua realidade efetiva o logos (discurso), o ethos e a techne têm um
caráter cultural.

b) A natureza é a base da cultura. Cultura é o cultivo da natureza, o desenvolvimento de suas


potencialidades segundo determinados padrões.
# O desenvolvimento do logos e do ethos aperfeiçoam o ser humano em si mesmo,
enquanto naturalmente orientado para a verdade e para o bem. Trata-se do cultivo do
próprio ser humano enquanto espiritual (inteligência, vontade), i.e. da educação no seu
núcleo fundamental. A realização ética pressupõe a verdade, i.e. o conhecimento do
verdadeiro bem. Entretanto, o valor decisivo para o ser humano é dado pelo ethos: não está
no conhecimento como tal, mas em agir bem.
26

# O desenvolvimento da techne:
+ enquanto técnica de transformação da natureza em função dos interesses
humanos (agricultura, indústria, ginástica, etc.) oferece ao ser humano condições para a
sua própria realização. Daí a importância da educação técnica, enquanto
desenvolvimento de habilidades para o aperfeiçoamento da natureza. Mas a técnica e
seu produtos não realizam o homem na ordem do ser, mas apenas do ter.
+ enquanto criação artística de beleza e sentido contribui para a realização do ser
humano, i.e. para a humanização dos afetos e sentimentos. Daí a importância da
educação artística enquanto desenvolvimento da sensibilidade para com o belo.

c) Valores naturais e culturais


# Ordem da natureza:
+ É possível estabelecer uma série crescente de graus de valor e perfeição natural:
do puramente corporal e orgânico, ao psíquico e deste ao espiritual (cf. supra).
+ Também em cada um destes níveis é possível estabelecer graus de perfeição
corporal (saúde, beleza, etc.), psíquica (equilíbrio, vitalidade, etc.), espiritual
(inteligência, etc.)
# Ordem da cultura: Trata-se do desenvolvimento de:
+ Habilidades técnicas
+ Dotes artísticos
+ Capacidade intelectual (saber, conhecimento da verdade)
+ Virtudes morais
# Comparação:
+ O que constitui em última análise o valor e dignidade do ser humano é a sua
integridade moral, o ser bom, o agir eticamente i.e. de acordo com a norma manifestada na
consciência.
+ A superioridade do valor moral sobre todos os outros valores naturais e culturais
resulta do fato de que no agir ético, enquanto ato inteligente e livre, a pessoa humana se
expressa sinergicamente através das duas dimensões de sua natureza espiritual. Nele se
auto-exprime adequadamente a interioridade mais profunda de nosso “Eu sou”, enquanto se
auto-determina na sua relação com o Bem em vista do Fim inclusivo de todos os outros fins,
i.e. a sua felicidade (eudaimonia), ou seja, a sua auto-realização no Bem.

5.3. Inter-relação entre physis, logos, ethos e techne

a) A physis abrange a totalidade do real natural (físico, psíquico, espiritual)


b) O logos enquanto conhecimento é também universal, estende-se sobre toda a physis, o
ethos e a techne. De fato, pode-se distinguir:
# Saber teórico = saber ver (a physis, mas também o próprio logos e o ethos)
# Saber prático (ético) = saber agir
# Saber poiético (técnico) = saber fazer
c) O ethos estende-se a toda a atividade humana, enquanto livre. Também o logos e a techne,
enquanto atividades humanas têm uma qualificação ética.
d) A techne estende-se a toda a realidade enquanto pode ser transformada em vista de
determinados fins, i.e. ao físico (fabricação de utensílios, instrumentos, etc.), ao psíquico (p.
ex.: técnicas de memorização, etc.), ao logos (p. ex.: lógica como técnica de pensar,
retórica, cálculo matemático, etc.) e ao próprio comportamento humano (p. ex.: técnicas de
dinâmica de grupo, de publicidade, etc.).

B. NATUREZA E FORMAS DO SABER ÉTICO


27

I. Saber ético espontâneo35

1. Fundamento do saber ético

1.1. Saber como constitutivo da natureza humana:


# É próprio do ser humano o conhecimento, enquanto:
+ Assimilação ativa do real
+ Atitude crítica (discernir) e judicativa em relação ao próprio conhecimento
# Todo conhecimento especificamente humano é reflexivo, sendo este voltar-se sobre si
mesmo a condição a priori para a afirmação da identidade ativa do sujeito expressa na
proposição elementar “Eu sou”, que permite também a afirmação do objeto enquanto tal.
# Por outro lado, o conhecimento humano apresenta-se como um processo de acumulação
qualitativa como reorganização da realidade na mente numa rede de relações abstratas e em
séries classificatórias, próprias do logos. P. ex.: Através de relações de identidade e diferença
os indivíduos (p. ex. Pedro, Paulo, Maria, etc.) são classificados numa espécie (humana), que,
por sua vez, pertence a um gênero (animal), etc.
# O conhecimento acumulado e organizado assume a forma de saber, tornando-se o
instrumento mais eficaz e poderoso para o acesso do ser humano ao mundo exterior e para sua
presença em meio às coisas. O saber como diferença específica do ser humano (homo
sapiens) apresenta duas dimensões:
+ Enquanto materializado em instrumentos e objetos fabricados (techne)
+ Enquanto traduzido em expressões simbólicas, como a linguagem articulada, as
expressões artísticas, etc.
# Em virtude de sua homologia com a imensa diversidade do real, possibilitada pela
universalidade abstrata de sua forma (linguagem, conceito), o saber necessariamente se
diversifica em formas distintas, de acordo com as características de seu objeto.

1.2. Especificidade do saber ético


# Em virtude da reflexividade do sujeito humano, o saber ético é uma propriedade do ethos,
tão universal como o próprio ethos. Trata-se da reflexividade do sujeito especificamente como
sujeito ético.
# Como o próprio ethos, o saber ético organiza-se entre os pólos da objetividade do ethos e
da subjetividade da praxis.
+ Aspecto subjetivo: Trata-se do reconhecimento pelo sujeito da própria
responsabilidade para com a realização do ethos, i.e. o seu agir moral. Este “conhece-te a ti
mesmo” (na interpretação socrática do oráculo de Delfos) corresponde a consciência (da
responsabilidade) moral.
+ Aspecto objetivo: Trata-se da experiência do bem como dever e obrigação moral:
bonum est faciendum. A relação entre bem e dever constitui uma das estruturas
fundamentais do saber ético e irá inspirar os dois sistemas paradigmáticos: ética do bem
(Aristóteles), ética do dever (Kant).

2. Formas do saber ético pré-científico:


O saber ético espontâneo expressa-se normalmente através de formas especializadas ou
privilegiadas, que correspondem à tradição ética dos grupos sociais.

2.1. Saber ético religioso (Religião como forma de expressão do saber ético)

a) Características da religião
# A religião funda-se na experiência da relação de dependência do ser humano para
com o sagrado/divino, enquanto princípio de todo ser, verdade e bem.

35
Cf. H. Vaz, ob. cit. 45-55.
28

# Como fenômeno cultural a religião implica não somente a experiência do sagrado,


expressa em crenças e ritos, mas também prescrições rituais e éticas, dela derivadas. Na
linguagem dos mitos e ritos ela é portadora de mensagens éticas, fundadas na autoridade
divina.

b) Relação entre religião e ética pode ser:


# Positiva: Religião como inspiradora de uma moral (atitudes éticas). Esta motivação
religiosa da ética encontra-se p. ex. no Antigo e Novo Testamento.
# Negativa: Separação entre religião e ética ou crítica ética da religião. Exemplos:
+ Antiguidade: Crítica pré-socrática (Xenófanes, Anaxágoras, Sofistas) e platônica da
mitologia da religião tradicional (olímpica). Entretanto, Platão valoriza os mitos
escatológicos da religião órfica.
+ Época moderna: Separação entre religião e ética: Kant, Schleiermacher (religião =
sentimento; ética = razão), Kierkegaard (estágios ético e religioso da existência), M.
Scheler e N. Hartmann (autonomia do valor ético).

2.1. Saber ético como sabedoria da vida:

a) Características da sabedoria da vida


# Ao contrário do saber ético religioso, esta expressão do saber ético não fundamenta o
ethos na autoridade divina, mas na autoridade do ensinamento tradicional, fruto da
experiência acumulada dos grupos humanos
# A sabedoria da vida reflete a característica essencial do ser humano enquanto dotado
de razão (prática) e linguagem (logos).

b) Formas de sabedoria da vida


# Enquanto razão (prática) ela encontra sua expressão concreta na figura do sábio,
paradigma da conduta ética, que aparece sob formas diversas praticamente em todas as
tradições culturais:
+ Culturas orientais (China, Japão)
+ Culturas do mediterrâneo (p. ex.: tradição greco-romana):
¤ Entre os gregos: Personagens de Homero, legenda dos Sete Sábios,
varão prudente (phrónimos), Sócrates (sábio e prudente), sophós estóico, etc.
¤ Entre os romanos: Culto dos “mores maiorum” (valores romanos,
próprios dos antepassados) em Cícero e Sêneca, com influência estóica
+ Culturas do próximo oriente (p. ex. tradição bíblico-cristã): Livros Sapienciais do
AT; culto dos santos cristãos a partir da antiguidade tardia; Jesus Cristo como modelo
singular (imitatio Christi)
# Enquanto linguagem, a sabedoria da vida, como memória ética das culturas, é
responsável pela conservação e transmissão dos costumes. Trata-se de um dos gêneros
mais antigos e universais da linguagem. P. ex.: Hesíodo (Trabalhos e dias), Fábulas (Esopo,
Fedro, La Fontaine), Sentenças ou provérbios tanto na tradição grega (Sete Sábios), como
bíblica (Livros Sapienciais, Regra de ouro do Evangelho [Mt 7,12par], etc.)

2.2. Além das formas específicas mencionadas, o saber ético encontra sua expressão em
todas as manifestações culturais (P. ex.: Arte como fator de educação moral)

III. Ética como ciência do ethos


29

1. Origem da ciência do ethos36

1.1. Teoricamente

 Positivamente: A Ética como ciência da ethos, i.e. como discurso sistemático (logos
demonstrativo), nasce no seio do saber ético espontâneo.
# Trata-se de uma reflexão expressa sobre o saber ético tradicional que procura
explicitar a racionalidade imanente no ethos e na praxis, i.e. a forma lógica e os
fundamentos racionais do saber ético já codificado no ethos da tradição.
# A Ética pressupõe o conhecimento implícito na experiência moral do ser humano. É
sobre estas percepções e julgamentos que reflete para os esclarecer e examinar
criticamente. O filósofo não cria valores e normas morais, mas os descobre no ethos
tradicional e exprime sistematicamente a pré-compreensão nele já presente.

 Negativamente:
# O ponto de partida da Ética não pode ser um começo absoluto, um pensar do ethos,
independente do saber ético historicamente constituído. Não tem sentido uma Ética que
pretenda refazer a partir de zero os critérios de discernimento ético de um grupo humano.
# De fato, as tentativas feitas na modernidade de construir novas Éticas mostraram-se,
do ponto de vista de uma efetiva realização histórico-social, utópicas, ou mesmo,
insensatas, enquanto conseguiram apenas contribuir para a “desconstrução” dos valores
éticos consagrados pela experiência tradicional ou para a “suspeição” lançada sobre eles,
abrindo o vazio ético responsável pelo niilismo da cultura atual.

1.2. Historicamente: O surgimento da ciência (logos demonstrativo) no mundo grego do séc.


VI a.C. é um fenômeno cultural absolutamente singular (hapax), i.e. exclusivo da cultura
grega: Trata-se da passagem da particularidade e arbitrariedade do mito à
universalidade e necessidade do logos. A ciência pretende dar a razão (justificar
criticamente) das asserções feitas sobre a realidade.

 Ciência da natureza: A ciência apresenta-se em primeiro lugar como ciência da natureza


(logos da physis). Trata-se de:
# Classificar os fenômenos através de conceitos gerais, que se agrupam em categorias,
sob a noção englobante de physis (natureza).
# Ordenar os fenômenos em seqüências causais de acordo com leis necessárias

 Ciência do logos: Entretanto, o pensamento grego descobriu desde o início uma


correspondência entre as leis da natureza e as leis da razão ou discurso (logos). Juntamente
com a ciência da natureza (física) surgiu a ciência do logos (lógica) [e a matemática]. Também o
logos se rege por leis universais e necessárias: dos princípios universais seguem-se por
necessidade lógica as conclusões da ciência.

 Ciência do ethos:
# A reflexão crítica sobre o ethos surge apenas quando ele perde sua evidência imediata
e espontânea em virtude da sua inadequação às novas condições socioculturais ou do
confronto com o ethos de outros povos.
# De fato, a Ética como ciência surgiu no mundo grego numa conjuntura específica de
crise e transformação da cultura. Seu nascimento deu-se concretamente como discussão
sobre a virtude (areté) e a educação (paideia) para a virtude (cf. primeiros diálogos
platônicos) no âmbito da conceptualidade filosófica, que vinha sendo desenvolvida pelos
filósofos pré-socráticos. Esta tentativa de refundar racionalmente o saber ético em
contraposição aos defensores do ethos tradicional (p. ex. Aristófanes), seguiu dois caminhos
distintos:
+ Os Sofistas adotam um logos da persuasão (doxa), codificado na Retórica;
36
Id. 57-58.
30

+ Sócrates insiste num logos da demonstração (apodeixis), próprio da Lógica.


Entretanto, a transcrição do saber ético, presente no ethos grego tradicional, nos
códigos do novo saber demonstrativo (ciência, episteme) implica uma problemática
específica.

2. Problemática do caráter científico da Ética:37 Conciliação entre a universalidade e


necessidade da ciência e a particularidade e liberdade do ethos/praxis:

2.1. Problema: O problema envolvido na passagem do saber ético tradicional para a Ética
como ciência é o seguinte: Como pensar o ethos (costumes, normas, leis de um grupo
social) segundo os padrões de universalidade e necessidade próprios da physis e do
logos (ciência)? De fato:
# Dilema Universal x Particular: O ethos é particular, próprio de cada cultura, em contraste
com a universalidade das leis da physis e do logos, que valem para todo ser humano.
# Dilema Necessário x Livre: O agir ético é livre, i.e. implica indeterminação e escolha, em
contraste com o determinismo lógico e natural. Trata-se do conflito entre lei e liberdade: Nem os
costumes mostram a regularidade causal dos fenômenos da natureza, nem a lógica que traduz
essa regularidade pode ser aplicada à ordem dos costumes.

2.2. Alternativas paradigmáticas de fundamentação racional do ethos, que foram propostas


pelo pensamento grego e às quais se reduzem as soluções históricas até hoje
apresentadas, ainda que sob as mais diversas formulações teóricas:

a) Convencionalismo (proposto pelos Sofistas mais antigos como Protágoras e vigente nas
éticas positivistas):

 Noção: Partindo da distinção entre physis (natureza) e nomos (lei como convenção),
funda a universalidade e necessidade do ethos no pacto social implícito (convenção), ligado
imemorialmente à origem de determinado ethos, pelo qual as exigências da natureza são
socialmente controladas pelos costumes (leis).

 Crítica:
# A universalidade do ethos é relativa, porque fundada na convenção e, protanto, ligada
à cultura de um grupo humano particular.
# A necessidade do ethos, i.e. a obrigação de seguir os costumes (leis), como limites da
liberdade, é também relativa, enquanto resulta do consenso social, estabelecido
aleatoriamente sem outro fundamento que a vontade dos participantes.

b) Naturalismo (proposto pelos Sofistas posteriores, sobretudo Górgias, com influxo p. ex. seja
em sistemas éticos da antiguidade [cinismo, hedonismo, estoicismo, epicurismo], seja no
liberalismo econômico moderno):

 Noção: A norma do agir humano é a natureza, como lei universal e necessária, presente
no indivíduo anteriormente à instituição da sociedade. Trata-se portanto da lei do naturalmente
mais forte, do que pode mais, i.e. da afirmação da liberdade (sem limites) como poder, em vista
da satisfação dos próprios desejos.

 Crítica:

37
Id. 59-66.
31

# Foi a fraqueza do convencionalismo, i.e. a fundamentação da universalidade e


necessidade do ethos no consenso aleatório, que levou ao naturalismo, i.e. a buscar o
critério do agir humano na natureza.
# Entretanto, esta posição é desumana, enquanto a satisfação das exigências
elementares da natureza como norma de comportamento leva à tirania dos desejos e ao
imperialismo do poder.

c) Paradigma ideonômico (proposto por Sócrates, foi desenvolvido de maneiras diversas por
Platão e Aristóteles, tornando-se o modelo fundamental da reflexão ética no Ocidente)

 Reformulação exata do problema: Trata-se de descobrir um paradigma racional, segundo


o qual o ethos e a praxis sejam explicáveis em termos universais, transcendendo a
particularidade histórica das culturas e admitindo uma forma de necessidade racional
compatível com a indeterminação básica da praxis. Este problema se tornava mais agudo no
tempo de Sócrates:
# Por um lado, diante da concepção tradicional do ethos grego (expressa
grandiosamente na tragédia ática), que afirmava o domínio do ser humano sobre seu
próprio agir, em termos de liberdade e responsabilidade, e, ao mesmo tempo, a fatalidade
do Destino (Moira): Como conciliar a universalidade cega do Destino (determinismo mítico)
com a universalidade luminosa da Razão, a primeira oprimindo ab extra o indivíduo, a
segunda fazendo emergir ab intra o espaço de sua liberdade?
# Por outro, diante do determinismo da physis (laicização do determinismo mítico), posto
em evidência pelos pré-socráticos, que alcançava sua forma extrema no atomismo de
Demócrito.

 Solução: A superação destes obstáculos pela explicação racional da estrutura do agir


humano deu-se através de dois procedimentos da razão demonstrativa, fundamentais para a
constituição da Ética como ciência do ethos. Eles correspondem a dois modelos clássicos de
pensamento ético, determinantes da tradição filosófica ocidental, constituídos a partir do
ensinamento de Sócrates:
# Ética platônica: Articulada estruturalmente à teoria das Idéias (fundamento metafísico),
com caráter estritamente normativo, como ordenação da vida humana individual e política
sob a norma suprema do Bem contemplado pela Razão. Coube a Platão desenvolver o
procedimento racional que esclareceu o finalismo do Bem como superação da crença na
necessidade cega do Destino
+ O finalismo do Bem exprime a universalidade racional da Lei. De fato, conceber o
Bem como fim universal, i.e. como a realidade a que todo ser aspira, supõe
necessariamente a transgressão dos limites do empírico que é, por definição, particular.
O horizonte (fim) do agir humano não é nenhum bem particular, mas o Bem como tal, i.e.
o universal, a Idéia. O paradigma ético fundado na universalidade do Bem como idéia é
normativo (Lei), em sentido estrito, enquanto o Bem, como princípio último da retidão do
agir ético, transcende toda particularidade empírica.
+ Neste sentido, são superados:
¤ Seja o convencionalismo, já que o Bem não depende da convenção social.
¤ Seja o naturalismo, enquanto a normatividade do Bem não se identifica com o
determinismo da physis (naturalismo), já que a norma como universal é
necessariamente Idéia.
# Ética aristotélica: Mantendo o espaço de universalidade resultante da conjunção da lei
e da liberdade, recusa a univocidade do Bem transcendente de Platão e propõe como
ponto de partida da reflexão ética a pluralidade de bens oferecidos ao dinamismo da praxis,
desde que atendam ao imperativo fundamental do “bem viver” (eu zen) na realização da
felicidade (eudaimonia) segundo a medida humana. Deste modo Aristóteles desenvolve o
procedimento racional que integra o mundo das coisas humanas (ta anthropina) no
horizonte universal da liberdade, onde a praxis ética poderá exercer-se racionalmente na
particularidade das situações e na singularidade das decisões. Esta relativização do Bem
levanta dois problemas:
32

+ Problema epistemológico: Trata-se do estatuto do saber ético, já que as “coisas


humanas” (ta anthropina) não obedecem ao tipo de racionalidade próprio da physis (ou
da meta-física).
¤ Aristóteles responde com a proposta de uma saber prático, que tem por
objeto específico a praxis em sua essencial destinação para a realização do bem
ou do melhor na vida do indivíduo e da comunidade.
¤ Este saber prático procede (como mostram as obras de Aristóteles) através
de questões e com o uso de categorias de natureza filosófica.
¤ Trata-se, portanto, de um saber elaborado (ciência) segundo as regras de
uma lógica particular, exigida por seu objeto, o ethos, e contraposta ao saber
teórico e poiético
+ Problema ontológico: Trata-se da conciliação da pluralidade de bens com a
estrutura teleológica da praxis com sua prerrogativa de escolha (proairesis) em vista de
um fim último.
¤ A admissão por Aristóteles de uma hierarquia de bens implica necessariamente
a admissão de um Bem supremo.
¤ De fato, para ele, a mais alta eudaimonia concedida ao homem é a
contemplação do divino como Inteligível supremo. Deste modo a Ética, como
ensinamento sobre a vita beata vai ser entendida como a razão de ser de toda a
Filosofia.

3. Natureza da Ética filosófica38

À luz do paradigma ideonômico apresentado historicamente, a Ética pode ser definida


pelas seguintes características:

3.1. Objeto da Ética:

a) Definição: O objeto da Ética é a praxis ética, i.e. a praxis que se exerce na esfera do ethos.

 Em função da polaridade constitutiva do ethos, ele pode ser expresso de duas maneiras
complementares:
# “O objeto da Ética (...) é o ethos enquanto realidade histórico-social manifestada na
práxis social e individual ordenada a fins que são os valores nele presentes.”39
# “O objeto da filosofia moral é a operação humana ordenada a um fim ou então o
homem enquanto age voluntariamente em vista de um fim”.40

 Nestas definições, a essência da Ética tem duas notas características:


# objeto material: a operação humana (praxis, agir)
# objeto formal: enquanto é moralmente boa ou má, segundo sua ordenação a um fim

b) Esta definição suscita duas questões:

 Qual a natureza específica da praxis ética, que a distingue de outras formas de atividade
humana?
Resposta: Cf. supra Fenomenologia do ethos, especialmente a caracterização da
praxis/ethos em contraposição a physis, logos, techne

 Qual a natureza da relação constitutiva entre a praxis (agir humano livre) e o fim, que
torna a praxis uma praxis ética (agir moral)?

38
Id. 67-76.
39
H. Vaz: Introdução à Ética filosófica II, Escritos de filosofia V, Loyola, São Paulo, 2000, 15-16.
40
Subjectum moralis philosophiae est operatio humana ordinata ad finem, vel etiam homo prout est voluntarie agens
propter finem (S. Tomás de Aquino: In decem libros Ethicorum Aristotelis ad Nichomacum expositio, I, l.3, n.3)
33

Resposta: Trata-se da natureza teleológica do agir humano, estabelecida por Sócrates a


partir da descoberta da relação constitutiva da alma ( psiche) com as Idéias (eide). Esta
teleologia apresenta três aspectos principais:
# O Bem como fim: Movida por sua congenialidade com as Idéias a alma só pode ter
como fim verdadeiro o bom (agathon).
+ A questão fundamental será então estabelecer qual é o fim último, o Bem
supremo do homem (aspecto objetivo), e, a partir daí a hierarquia de bens, de cuja
prossecução deriva para o homem o próprio bem (aspecto subjetivo) como “viver no
bem” (eu zen), i.e. como felicidade (eudaimonia).
+ A indicação da transcendência da Idéia do Bem (cf. Platão) como única
resposta racionalmente satisfatória à interrogação sobre o fim na reflexão sobre a
praxis, significa a vinculação necessária da Ética à Metafísica.
# O Bem como obrigação (natureza vinculante do Bem): Sendo o melhor, o Bem
necessariamente obriga e liga o indivíduo que age racionalmente. Mas esta necessidade
moral, longe de opor-se à liberdade é sua lei interior, pois é na sua relação constitutiva com
o Bem que a liberdade se realiza na sua verdade. Portanto a relação entre o finalismo
constitutivo da praxis ética e o fim que o define é uma relação absolutamente original na
qual se entrelaçam a necessidade do fim e a liberdade do agir na aceitação do fim.
# Dimensão imanente e transcendente do fim:
+ Por um lado, o agir ético é um ato que tem em si mesmo a sua razão de ser,
i.e. é seu próprio fim (imanência). Através desta praxis realiza-se progressivamente
nos hábitos, pela repetição de atos, a perfeição do sujeito (face subjetiva do fim).
+ Por outro lado, sendo o sujeito finito e condicionado, não pode identificar-se
com o absoluto do Bem, nem reivindicar uma absoluta autonomia. Portanto, o fim
imanente do ato ou sua perfeição própria referem-se necessariamente à norma de
um fim transcendente ou de uma hierarquia de fins, coroada pelo Fim último (face
objetiva do fim), segundo o qual se mede a perfeição imanente do ato.

c) Conclusão: Objeto formal da Ética filosófica: Dois aspectos interligados:

 Aspecto estrutural: Estrutura do agir humano em sua especificidade de agir de acordo


com o ethos. A correspondência entre ethos e praxis, através da continuidade da praxis, dá
origem no indivíduo à forma do hábito ou virtude, que, por sua vez, permite a convivência entre
indivíduos na esfera da moralidade, tornando possível a comunidade ética.

 Aspecto teleológico ou normativo: Sistema de fins e normas aos quais está ordenada e
submetida a praxis como objeto da Ética. Daí se segue que a Ética como reflexão explícita e
sistemática do sujeito ético sobre sua própria praxis na esfera do ethos, é, inseparavelmente,
ciência da ação (i.e. disciplina que pode ser ensinada) e norma do agir (a ser seguida), i.e.
ciência prática.

3.2. Método da Ética: A este respeito é necessário distinguir as seguintes possibilidades:41

a) Ética como ciência puramente teórica:

 Apresentação: A ciência teórica é aquela que tem por finalidade simplesmente conhecer a
verdade das coisas, como elas são.
# Os atos humanos, a praxis ética, segundo o bem e a virtude, podem ser objeto de um
conhecimento teórico, que pretende compreender a sua natureza, bem como a natureza da
liberdade, do bem e da virtude.
# Para Platão, de acordo com sua concepção unívoca da razão científica, a Ética é
propriamente uma ciência teórica, embora derivadamente (pedagogicamente) tenha
também um caráter prático. Para ele, a praxis verdadeira, segundo a virtude, é assumida

41
R. Simon: Morale, Beauchesne, Paris, 1961, 18-25.
34

pela theoria, que, como ciência das idéias, coroada pela intuição da Idéia do Bem, deve
reger as ações humanas orientadas finalisticamente para o Bem.

 Crítica:
# O conhecimento teórico dos atos humanos no horizonte do Bem é próprio da
Antropologia Filosófica e da Metafísica. São questões deste gênero p. ex.:42
¤ A estrutura psicológica do ato humano
¤ A essência da liberdade
¤ A transcendência do espírito humano para o ser e o bem
¤ A estrutura somática-psíquica-racional do ser humano
# No caso da Ética não se trata, porém, de saber o que é agir, mas como se deve
agir. Seu objeto não é algo que já é, mas algo que deve ser. Um conhecimento
puramente teórico não respeitaria o objeto formal da Ética, i.e. não seria um saber
regulativo e normativo do agir humano. Portanto, a Ética não é um saber puramente
teórico.

b) Ëtica como ciência puramente prática:

 Apresentaçãoi: O saber prático é aquele que conhece a verdade a fim de orientar a ação
humana.
 Crítica:
# A Ética não pode ser um saber puramente prático, i.e. que orienta aquilo que deve
ser feito aqui e agora. Esta orientação concreta da ação, em cada caso, não tem o
caráter universal e necessário da ciência.
# O conhecimento puramente prático é próprio da virtude da prudência. Trata-se de
saber como agir bem numa determinada situação, qual a decisão acertada a tomar
nestas circunstâncias. P. ex.:
+ Como devo comportar-me com este filho drogado?
+ Devo denunciar ou não meu amigo que cometeu um delito?
+ Devo socorrer ou não este acidentado na estrada?
+ Devo dar ou não uma esmola a este pedinte?
c) Ética como ciência teórico-prática: Enquanto ciência teórico-prática a Ética procura
compreender a natureza do agir humano, mas formalmente na sua orientação para o bem.

 Apresentação: Esta é a posição de Aristóteles, aqui seguida.


# Com sua concepção analógica da razão científica, ele atribui um estatuto próprio ao
saber prático (distinto do teórico e do poiético). É a prática que produz sua própria teoria,
tendo em vista não só o conhecimento (teoria) do bem, mas também o propósito de tornar
bom o seu praticante. Ética torna-se assim ao mesmo tempo:
+ Teoria da praxis (gen. subj.), i.e. conhecimento do bem
+ Saber prático, i.e. norma do agir
# O caráter teórico-prático da Ética pode ser melhor entendido à luz da analogia entre o
saber prático e o saber poiético (técnica) p. ex. no caso da Medicina.
+ A Medicina implica conhecimentos do organismo humano, mas esta teoria médica
(p. ex. causas e sintomas de enfermidades) surge da própria finalidade operativa da
Medicina, enquanto voltada para a preservação e restabelecimento da saúde
+ Por isso ela se converte em norma do fazer técnico, sob a forma p. ex. de
orientações para o tratamento (clínico ou cirúrgico).dos vários tipos de enfermidade.
+ Entretanto, o diagnóstico e a medicação concreta em cada caso já não são uma
questão de ciência médica, mas de prática médica (saber fazer aqui e agora),
analogamente ao que foi dito da prudência no campo da praxis ética.

 Questões próprias da Ética como ciência teórico-prática. É preciso distinguir:


42
Cf. infra “Pré-requisitos filosóficos da Ética.
35

# Ética Fundamental: Trata do que diz respeito ao agir ético em geral, p. ex.:
+ Em que consiste o bem (e mal) moral? Qual o critério para determinar o caráter
moralmente positivo ou negativo de um comportamento? Por que uma ação é
moralmente boa ou má?
+ Existem valores morais objetivos, absolutos?
+ Qual o fundamento da obrigação moral?
+ O juízo da consciência obriga sempre?
# Ética Especial: Trata do significado e dos fundamentos de princípios e normas éticas
específicas, p. ex.:
+ Não mentir, não roubar, não matar, são deveres morais absolutos?
+ A tortura, a pena de morte, a guerra podem ser moralmente justificadas?
+ Questões de bioética: moralidade do suicídio, eutanásia, aborto, clonagem humana,
etc.
+ São lícitos as relações sexuais pré-matrimoniais, o concubinato, o adultério, o
divórcio, a poligamia?

3.3. Caráter filosófico da Ética:

a) Demonstração da natureza filosófica da Ética: Recorre-se para isso ao exame do conteúdo


inteligível das questões levantadas no intento de justificar racionalmente o ethos.

 A Ética nasceu da necessidade de “dar razão” das categorias fundamentais do ethos


(bem, lei, virtude, etc.).
# Ora, a explicação sofística levou a aporias insolúveis em função do modelo de
racionalidade adotado, i.e. uma explicitação limitada, ao nível da doxa (opinião provável), da
inteligibilidade imanente ao ethos, conduzindo a um relativismo generalizado.
# A própria natureza teleológica da praxis e sua abertura para o universal do Bem
postulam uma hermenêutica adequada a uma explicitação coerente da racionalidade nela
imanente. Este paradigma racional é a Filosofia, especialmente a metafísica do Bem, como
horizonte teórico para a interpretação da praxis.

 De fato, de Platão a Hegel, o pensamento ocidental reconheceu a necessidade:


+ de explicitar os fundamentos filosóficos da Ética
+ de integrar na prática ética, sob a forma da sabedoria mais alta, o exercício do
pensar filosófico (cf. Aristóteles: virtudes dianoéticas)

b) Pre-requisitos filosóficos da Ética:43

 Antropologia Filosófica: Trata-se de dar razão das características originais do agir ético,
sobretudo da correlação entre o agir e o ser total do agente em suas componentes estruturais
(somáticas, psíquicas, espirituais) e em suas relações com o mundo, a comunidade, a
transcendência. Nesta perspectiva:
# A inteligibilidade fundamental da praxis humana manifesta-se na distinção entre as
causas e as condições que concorrem para seu exercício:
+ O influxo causal procede unicamente do espírito, de modo que a praxis
recebe sua especificidade ética enquanto ato inteligente e livre (razão prática)
+ O dinamismo do agir ético assume os condicionamentos somáticos,
psíquicos, objetivos e intersubjetivos, que integram a estrutura total do ato.
# A realização humana tem um caráter essencialmente ético, de modo que a
personalidade ética constitui a mais elevada manifestação da pessoa

 Metafísica: Trata-se de assegurar à Ética um fundamento para pensar a universalidade


de seu objeto como Bem e Fim, através das noções transcendentais (ser, unidade, verdade). A
praxis humana possui uma estrutura essencialmente teleológica, cuja originalidade consiste na
43
Cf. H. Vaz: Introdução à Ética filosófica II, Escritos de filosofia V, Loyola, São Paulo, 2000, 7-8.
36

autodeterminação do sujeito agente em vista de um fim. Em virtude da abertura da razão e da


liberdade ao horizonte universal do Ser e do Bem, o fim exige aqui ser pensado em sua
amplitude transcendental ou metafísica. De fato:
# São questões sobre o agir humano movido pelo impulso amoroso (eros), que
conduzem à contemplação da idéia transcendente do Belo (to kalón) no Banquete.
# São questões sobre a justiça ou o agir humano na comunidade que levam à afirmação
da transcendência do Bem (to agathón) na República

 Epistemologia: Trata-se de estabelecer a especificidade do saber ético, mostrando que a


estrutura normativa do ethos e de seus fins, não é idêntica, mas análoga à estrutura
nomológica da physis. É o que fez Aristóteles com a distinção entre:
+ a necessidade própria do movimento da physis: sempre (aei)
+ a quase-necessidade que caracteriza por meio dos hábitos o agir de acordo com o
ethos: quase sempre (pollakis)

3.4. Conclusão: A Ética é uma ciência filosófica de caráter teórico-prático (normativo) cujo
objeto é o agir humano (praxis) enquanto orientado para o bem como seu fim.

4. Lógica e dialética no discurso da Ética sistemática

4.1. Momentos lógicos do discurso da Ética

a) Idéia diretriz: O homem como auto-expressividade, capaz de auto-significar-se e de


significar o mundo no logos/linguagem (cf. zoon logon echon). A correspondência ontológica
entre ser e agir permite afirmar que o ser humano é ou existe como auto-expressão e se
auto-exprime efetivamente:
+ seja nas estruturas elementares de seu ser (corpo próprio, psiquismo, espírito)
+ seja nas relações elementares que o abrem à realidade (objetividade,
intersubjetividade e transcendência) e permitem, na reflexão ou retorno sobre si mesmo,
que ele se constitua na sua identidade, nelas realizando-se e auto-exprimindo sua
unidade profunda como pessoa.

b) A afirmação “Eu sou” [S] como auto-expressão primordial é o momento mediador entre os
pólos da natureza [N] (que nos constitui onticamente e é um dado para nós) e da forma
propriamente humana [F], pela qual nos constituímos ontologicamente (N-S-F). A forma é o
conteúdo e termo de uma operação, que caracteriza uma saída de si e um retorno a si
(reflexão) do ser operante. Esse retorno no ser humano:
# Realiza-se imperfeitamente no operar orgânico e psíquico inconsciente (actus hominis)
# Torna-se propriamente humano no nível do espírito (razão e liberdade) em que nossa
operação é uma auto-expressão de nós mesmo como seres racionais e livres (actus
humanus)
# A unidade profunda, mediatizada pelo “Eu sou”, da pluralidade de formas com que nos
auto-exprimimos (ato primeiro ou ato do subsistir-em-si do ser humano) foi denominada por
Aristóteles de psyché (anima, alma).

c) O agir ético, enquanto ato inteligente e livre (sinergia da inteligência e vontade), como a
forma mais alta de auto-expressão do Eu, i.e. da interioridade mais profunda de nosso ser.
Portanto, é no domínio da moralidade que tem lugar de modo mais determinante para a vida
humana o movimento de mediação segundo o qual o ser humano se constitui na auto-
expressão de suas formas de existir, i.e. a forma da existência ética é a mais profundamente
significativa de nosso ser.

d) As categorias como estrutura lógica elementar do agir ético, cuja organização em sistema
representa a Forma inteligível unificadora da existência ética.
37

# Como resultantes da mediação do “Eu sou”, enraizado pela experiência ética no


mundo do ethos, elas exprimem aspectos reais dessa experiência, como p. ex. as
categorias de “consciência moral”, “obrigação”, “lei moral”, etc.
# A constituição das categorias, como primeiro momento da conceptualização filosófica,
tem um caráter aporético, sendo no caso da Ética a reiteração, em todos os seus aspectos,
da interrogação socrático-platônica “Como devemos viver?” (pos bioteon;) ou kantiana “Que
devo fazer?”.

4.2. Movimento dialético que organiza em sistema as categorias

a) Ordem natural do discurso: Em cada tema o ponto de partida é o universal que, através da
mediação ou determinação do particular assume o singular na esfera de sua inteligibilidade.

 Exposição do agir ético:


# Ponto de partida: O universal do sujeito (inteligência e liberdade no seu uso
prático) conjugado com o universal do objeto (o fim como Bem)
# Passagem ao particular: Não por uma determinação extrínseca, já que se trata
do movimento imanente da praxis, mas por uma autodeterminação da liberdade, pela
qual o sujeito interioriza o fim, enquanto transcendente, pela assimilação intelectual e
pelo livre consentimento.
# Singularidade da decisão ou livre opção pelo Bem na qual se cumpre o
movimento imanente e que é, por um lado, perfeição atual do sujeito e, por outro,
realização atual do ethos.

 Exposição da existência ética (mesma ordenação lógica): Existência no universal da


virtude, autodeterminando-se na particularidade das situações e realizando assim a sua
existência singular como vida no Bem.

# Observação: O movimento de passagem do universal ao singular pela mediação do


particular:
+ não se dá por uma necessidade simplesmente lógica ou natural
+ mas numa dialética da liberdade que traduz a inteligibilidade intrínseca da praxis.
Nesse movimento o sujeito livre se autodetermina em vista de sua aceitação do objeto, não
sendo determinado por nenhuma diferença extrínseca, o que seria contraditório com a
própria idéia de liberdade.

b) Princípios do processo dialético

 Princípio geral da suprassunção (Aufhebung) que assume na unidade do discurso


(unidade pensada do ser ético como tal) a particularidade das categorias.
# A constituição de cada categoria parte de um dos aspectos da realidade do ethos
preexistente ao indivíduo, que pela mediação do “Eu sou” se manifesta como indivíduo
ético e participante da comunidade ética
# Essa existência na realidade do ethos se auto-exprime:
+ seja no nível da pré-compreensão (saber ético)
+ seja no nível da compreensão explicativa (ciências empíricas do ethos)
+ seja no nível da compreensão transcendental (filosófica), i.e. da Ética, que oferece
a fundamentação inteligível última da existência ética.

 Princípios que regem o movimento do sistema das categorias éticas:


# Princípio da limitação eidética, imposto pela inadequação, própria de nosso
conhecimento finito e situado, entre a categoria e a totalidade da experiência ética acolhida
na amplitude intencional do espírito (“Eu sou”)
# Princípio da ilimitação tética, que decorre do dinamismo ilimitado do movimento
mediador do “Eu sou”, orientado para o horizonte universal do Bem
# Princípio da totalização, que:
38

+ Por um lado, impõe a clausura do sistema numa categoria última englobante


como é a categoria da pessoa moral
+ Por outro, implica a abertura estrutural dessa categoria última e, portanto, de todo
o sistema ao horizonte universal do Bem em sua inalcançável transcendência

4.3. Roteiro da Ética filosófica

a) Questão inicial: Identidade ética do indivíduo, pensada no contexto de uma comunidade


ética pluralista e num universo simbólico habitado por propostas éticas diversas e muitas
vezes conflitantes.
# Para a Ética clássica o ethos, na sua unidade e diversidade, gozava de uma evidência
primeira e, portanto, de uma anterioridade de natureza em relação à praxis individual. Era,
portanto, o primeiro objeto que se oferecia à reflexão ética.
# Entretanto, a dissolução do ethos clássico-cristão na sociedade moderna levou a uma
inversão de prioridades: O pluralismo ético e o relativismo que dele procede impõem a
primazia do indivíduo sobre o ethos, de modo que é a partir desta situação que o discurso
ético deverá reconstruir a racionalidade do ethos, objeto próprio da Ética.

a) Desenvolvimento sistemático-construtivo:
 Trata-se de:
# construir a identidade ética do indivíduo segundo os invariantes conceptuais que a
constituem como tal (estrutura subjetiva do agir ético)
# a partir dos quais o indivíduo se articula com a comunidade ética (estrutura
intersubjetiva do agir ético)
# e se abre ao universo ético (estrutura objetiva do agir ético)
# no qual a sua vida pode realizar-se segundo os padrões da razoabilidade (a existência
ética)
# que lhe permitem alcançar a sua ipseidade ou o seu pleno desenvolvimento como
pessoa moral (a pessoa moral)

 Em outras palavras: O estudo da Ética será assim ordenado:


# Praxis ética na sua essência e dimensões constitutivas (plano abstrato)
+ Aspecto estrutural do agir ético ou sua dimensão subjetiva:
¤ como agir do indivíduo
¤ como agir da comunidade ética
+ Aspecto teleológico-normativo do agir ético ou a dimensão objetiva constitutiva
do universo ético
# Existência ética como realização efetiva da praxis ética (plano concreto)
+ No exercício das virtudes por parte do agente ético
¤ como indivíduo
¤ como comunidade
+ Segundo os objetos, i.e. os fins e valores aos quais os atos das virtudes se
ordenam

5. Outras concepções da ciência do ethos

5.1. Ética e Ciências Humanas

a) Estudo do ethos pelas Ciências Humanas

 As Ciências Humanas (Psicologia, Sociologia, Antropologia Cultural, História), como


ciências meramente positivas, descrevem os aspectos empíricos e as formas históricas do
ethos. Trata-se da explicação do fenômeno ético apenas em termos de padrões culturais e de
categorias psicológicas e sociológicas. Por sua própria natureza, elas consideram o ethos
39

apenas como um fato, prescindindo de qualquer fundamentação dos valores vigentes nas
diversas sociedades e de qualquer juízo de valor a seu respeito.

 Estas ciências contribuem para a compreensão do fenômeno ético, enquanto analisam os


condicionamentos biopsíquicos e socioculturais seja das normas morais seja das decisões
humanas nas diversas situações particulares.

b) Redução da Ética às Ciências Humanas

 Em função do modelo empírico-formal que a rege, a razão moderna, especialmente a


partir do desenvolvimento das Ciência Humanas no século XIX, tende a reduzir a compreensão
do ethos aos elementos resultantes da análise científica deste fenômeno.
# O passo inicial dessa des-construção da Ética filosófica clássica foi dado por Thomas
Hobbes (séc. XVII) com seu modelo mecanicista de interpretação do ser humano e de seu
agir, com rejeição radical do finalismo do Bem e explicação da atividades humana em
termos de exclusiva satisfação das necessidades do indivíduo.
# A Ética perde assim a sua especificidade filosófica e normativa convertendo-se numa
ciência meramente descritiva dos fatos morais (costumes, atitudes humanas, etc.). Ela não
prescreve como se deve agir, mas apenas descreve o agir humano efetivo, de acordo com a
metodologia própria das ciências empíricas: inventário dos fatos; identificação das
correlações existentes entre eles; construção de hipóteses destinadas a explicar os fatos e
a sua correlação; enunciado de leis, no caso da comprovação experimental das hipóteses
formuladas.

 Crítica: Esta concepção positivista da Ética, que leva ao total relativismo moral, é
inaceitável à luz das análises precedentes sobre a natureza do ethos, que serão aprofundadas
ao longo do presente curso.
# Na verdade, mesmo na época moderna, de Descartes a Hegel, a Ética mantém, em
geral, seu caráter filosófico e é ainda, sob certo aspecto, especialmente em Kant, o coração
do projeto filosófico.
# O emprego da conceptualidade filosófica na reflexão sobre os fundamentos da Ética
persiste até hoje, embora minoritariamente, p. ex.:
+ Na 1ª metade do século XX: Entre alguns dos maiores filósofos da época (Max
Scheler, Nikolai Hartmann, Henri Bergson, etc.), sem falar dos pensadores de
inspiração cristã (M. Blondel, J. Maritain, J. Pieper, Dietrich von Hildebrand, etc.)
+ Na 2ª metade do século XX (atualidade): Na escola de G. E. Moore (ainda que
com predomínio dos problemas metaéticos), ou por G. Gadamer, A. Macintyre,
Charles Taylor, Robert Spaemann, P. Ricoeur, etc.

5.2. Ética e Metaética

a) Noção de Metaética

# Ciências formais são as que têm como objeto, não a realidade, mas as formas do saber e
sua articulação em linguagens específicas. São ciências formais, p. ex. a Lógica, (cujo objeto
são as leis do conhecimento em geral); a Matemática (que estuda relações quantitativas entre
entidades definidas abstratamente)
# A Metaética, como ciência formal, tem como objeto não o ethos, como fenômeno real, mas
a própria Ética como saber sobre o ethos. Ela interroga sobre a natureza do conhecimento
moral, i.e. sobre o sentido e valor dos conceitos e julgamentos morais e da argumentação no
campo moral. Ela não se interessada por conhecer, p. ex., se um princípio moral determinado é
verdadeiro ou falso, mas se e como os princípios morais podem ser verdadeiros ou falsos.
40

b) Avaliação da Metaética

# Os estudos metaéticos são perfeitamente legítimos. A Metaética (sem este nome) sempre
foi mais ou menos cultivada na tradição filosófica. Aristóteles, em particular, como se viu,
dedicou grande parte de sua reflexão a determinar o estatuto epistemológico da Ética como
ciência.
# Entretanto, há atualmente uma tendência a dar a primazia aos problemas da Metaética,
resultante do fenômeno cultural que consiste na perda progressiva de referência ao real e que
atinge os paradigmas éticos transmitidos pela tradição.
# Esta tendência é radicalizada pelo Neopositivismo Lógico, segundo o qual os enunciados
morais são a expressão de meros sentimentos, próprios do indivíduo ou prevalentes numa
sociedade. Neste pressuposto, os conceitos morais (bem moral, obrigação moral) não têm um
significado logicamente definível e, por conseguinte, os enunciados éticos não são nem
verdadeiros nem falsos. Portanto, só há lugar para uma Metaética, que demonstra a
impossibilidade da Ética como ciência real do ethos.
# Esta redução da Ética à Metaética é inaceitável, seja pelas razões intrínsecas acima
apresentadas para demonstrar o caráter científico da Ética, seja por suas conseqüências:
+ Instrumentalização da lógica e da linguagem éticas, que, indiferentes a seu conteúdo
real, passam a servir à expressão de um universal relativismo dos valores, de acordo com
as necessidades e fins subjetivos ou com os interesses ideológicos dos agentes éticos.
+ Renúncia à tradição da busca de uma fundamentação filosófica do comportamento
ético, arrastando a Ética para a órbita das Ciências Humanas.

C. PROBLEMAS FUNDAMENTAIS DA ÉTICA FILOSÓFICA

Para uma melhor compreensão do campo próprio da Ética e também da resposta aos
problemas éticos que será dada ao longo do curso, é importante explicitar a problemática ética
fundamental bem como, de maneira esquemática, as soluções que foram dadas historicamente
a tais questões.

I. Fundamentação da dimensão ética da existência humana

# Trata-se de responder às questões sobre a existência e natureza do universo ético:


+ Existe uma dimensão propriamente ética (subjetiva e objetiva) da realidade
humana, irredutível à realidade puramente empírica ou natural?
+ Os valores morais são objetivos e absolutos ou dependem inteiramente de
fatores extrínsecos à ordem moral?

# O pressuposto desta questão é a experiência universal da moralidade, i.e. o fenômeno


da consciência moral identificado e descrito anteriormente. O fato de que o ser humano julga
como moralmente bom ou mau certo tipo de comportamentos constitui uma evidência que não
está em discussão e é admitida também pelos que respondem negativamente à presente
questão. Trata-se agora de saber se o ethos, assim experienciado, tem consistência própria
diante da crítica racional ou a experiência dos valores morais é ilusória, i.e. eles são explicáveis
como o resultado de determinismos naturais ou culturais.

1. Teorias redutivas do fenômeno moral

# Estas teorias reduzem a moralidade a fatores infra- ou extra-morais. O ethos, embora seja
um fenômeno universal, não é uma realidade humana original, mas se explica a partir de outras
41

dimensões do ser humano. As regras morais segundo as quais as pessoas agem e julgam os
comportamentos são puros fatos, que se explicam por seus condicionamentos.

# As soluções redutivas do problema do fundamento do ethos assumem as seguintes


características gerais.
+ Positivismo: A Ética é entendida como uma ciência positiva ou como uma técnica para
obter determinados comportamentos.
+ Relativismo: Os valores éticos não são absolutos nem universais, mas o que é bom ou
mau moralmente depende de condicionamentos naturais e culturais.

1.1. Naturalismo: O fundamento do ethos é a natureza. Os valores e normas morais


reduzem-se a condicionamentos naturais.

# Esta posição foi defendida já na antiguidade por alguns dos sofistas gregos (p. ex.
segundo Platão, Trasímaco [1º livro da República] e Cálicles [diálogo Górgias]), que
diante da crise do ethos tradicional, procuravam uma nova fundamentação para o
comportamento do cidadão na polis. A norma do agir humano não se fundamenta na
convenção (nomos), i.e. nas leis e costumes da sociedade, mas na própria natureza
(physis). A justiça e o direito fundam-se na capacidade natural de cada um, i.e. na sua
força e poder. É justo o que corresponde ao interesse do mais forte. A lei da natureza
assegura o triunfo da força e justifica o desenvolvimento e a satisfação dos impulsos
naturais.
# Atualmente, as teorias que fundamentam a moralidade na natureza assumem as
seguintes modalidades:

a) Biologismo ético: Redução do moral ao biológico (biologização da Ética)


(1) Em geral: Os fatores determinantes da ação humana são os genes (mesmo que se trate
de genes altruístas). Portanto, também a ação moral depende inteiramente da estrutura
genética do organismo, excluindo-se qualquer autonomia moral. Em outras palavras,
tanto o pensamento (valores) como a ação humana (decisão) são determinados por
forças instintivas que configuram o organismo em função do programa genético. Este
determinismo das leis biológicas não deixa qualquer espaço para a liberdade e
responsabilidade pessoais. Esta posição é defendida hoje especialmente por adeptos da
Sociobiologia.44
(2) Ética evolucionista: A consciência moral é o resultado da história filogenética da
humanidade, que, através da seleção natural privilegia os indivíduos cujo
comportamento é mais apto à sobrevivência, eliminando os outros. Esta posição pode
ser apresentada:
# Ou num nível meramente explicativo, entendendo o homem como mero produto
da evolução biológica, de modo que o ethos se reduz de fato aos determinismos
biológicos.
# Ou num nível também normativo (transposição do descritivo para o plano
normativo):45 Um comportamento é moralmente bom na medida em que corresponde ao
sentido do processo evolutivo do cosmo e da história (cf. Herbert Spencer, positivista
inglês do fim do século XIX).46

44
Cf. p. ex. o entomologista norte-americano Edward O. Wilson: Sociobiology. The New Synthesis, Cambridge
(Mass), 1975.
45
Neste nível a Ética evolucionista é uma resposta ao segundo problema que deveremos abordar, i.e. ao problema do
critério da moralidade.
46
Uma forma extrema de Ética evolucionista é a proposta p. ex. por Alexander Tille (“Charles Darwin und die Ethik,
1894”), segundo o qual a lei moral suprema é a seleção dos mais aptos e a eliminação dos biologicamente inferiores
Esta tese deu origem às teorias eugenistas, caras ao nazismo. Tudo indica porém que Darwin não aprovaria nenhuma
forma de Ética evolucionista. Ele não considera a moralidade como resultado da seleção natural (cf. Nicola Erny:
Darwin und das Problem der evolutionären Ethik, in: Zeitschrift für philosophische Forschung, 57/1, 2003, 53-73.
42

b) Psicologismo ético: Reduz o fenômeno ético a fatos psicológicos. A forma mais comum de
psicologismo ético é a que se apoia na psicanálise freudiana.
# Por um lado, a consciência moral, enquanto conjunto de normas e valores, que
orientam a conduta do indivíduo, é identificada com o Super-ego. Este resulta da
internalização inconsciente do resultado do conflito que ocorre na idade infantil entre as
pulsões instintivas do indivíduo e as exigências da convivência humana (cultura). O
recalque de tais pulsões manifesta-se na consciência sob a forma de normas e interditos (p.
ex.: proibição do assassínio, incesto, relações sexuais extraconjugais) que o indivíduo
assume como instância superior à qual deve submeter-se. Deste modo, a origem da
consciência moral é explicada a partir de mecanismos inconscientes, de modo que o que
aparece como valores e obrigações reduz-se a um mero fenômeno psíquico.
# Por outro lado, as decisões individuais, que parecem livres, são de fato determinadas
exclusivamente por fatores inconscientes.
# O psicologismo assume um caráter, não só explicativo, mas também normativo à
medida que a saúde psíquica é considerada como o critério último da moralidade, i.e.
considera-se como bom e positivo o que favorece o equilíbrio psíquico da pessoa e como
negativo o que compromete esta harmonia.

c) Sociologismo ético: A sociedade é a fonte e/ou a norma de todo valor moral. Esta afirmação
pode ser entendida em vários níveis.
# Num nível puramente explicativo, o positivismo sociológico considera o ethos apenas
como um dado. Neste caso, a Ética perde qualquer caráter normativo e reduz-se à
Antropologia Cultural e à Sociologia, que estudam o fato moral enquanto fenômeno cultural
e social. Trata-se apenas de constatar quais são os costumes e valores vigentes em cada
sociedade e cultura, bem como de determinar quais são os fatores de ordem empírica que
explicam a sua origem, a sua diversidade, a sua mudança.
+ Por um lado, p. ex. segundo o conhecido sociólogo francês E. Durkheim (1858-
1917),47 a origem dos valores em geral é a sociedade, entendida como consciência
coletiva, i.e. uma pessoa moral, distinta das pessoas individuais que a compõem. O
conjunto das representações coletivas constitui, no interior das consciências
individuais, a consciência social. A sociedade impõe-se a nós com suas normas e
obrigações, porque ela é exterior e superior a nós. Esta transcendência do grupo
social sobre o indivíduo faz dele uma autoridade diante da qual nossa vontade se
inclina. A consciência moral é em cada um de nós como a marca da consciência
coletiva, que se impõe pelo respeito que lhe devemos.
+ Por outro lado, as convicções morais de cada um de nós dependem, não do
valor intrínseco das normas que aceitamos, mas das influências sociais (pressões e
sentimentos coletivos) exercidas sobre nós, tanto no contexto geral da sociedade e
cultura a que pertencemos, como de acordo com o meio social específico (classe,
tradição religiosa, etc.) no qual vivemos.48
# Num nível normativo, o sociologismo consiste em definir a moralidade pela
conformidade com os costumes e normas vigentes no meio social numa situação
determinada. O bem e o mal não são senão aquilo que a sociedade ordena ou proíbe. Não
é porque uma ação é criminosa (moralmente má) que ela é reprovada pela consciência
social, mas, ao contrário, ela é criminosa porque a consciência social a reprova. É também
a posição de Durkheim e de sua Escola.

1.2. Convencionalismo: O fundamento do ethos é a cultura. A moralidade não é algo original


e natural no ser humano, mas uma realidade puramente cultural, resultante de uma
acordo (implícito ou explícito) destinado a possibilitar a convivência humana. Cada um
deve obedecer a tais normas, enquanto concordou com elas.

47
Cf. as coletâneas póstumas: Sociologie et Philosophie, Paris, Alcan, 1924; L’éducation morale, Paris, Alcan, 1925.
48
Sobre os condicionamentos socioculturais, cf. supra 14-15.
43

a) Convencionalismo antigo: Foi proposto por alguns dos sofistas gregos (p. ex. Arquelau,
Protágoras), como resposta à questão “Como devo agir? Como devo viver?” diante da crise
dos valores tradicionais da civilização grega no século V a.C. Não existe uma norma natural
e universal de comportamento, mas cada sociedade (polis) tem seus costumes e leis,
resultantes de um pacto, que cada cidadão, enquanto membro de tal sociedade, deve
aceitar e observar. Portanto, o bem e o mal têm seu fundamento, não na natureza, mas na
convenção social.

b) Convencionalismo moderno (Teoria do contrato social de Th. Hobbes):

# Apresentação: A teoria foi elaborada para explicar não tanto a obrigação moral, como
a obrigação política de obedecer aos governantes. No estado natural todos os seres
humanos são livres e iguais, no sentido de que não dependem de nenhuma autoridade.
Cada um pode tentar satisfazer os seus impulsos e interesses, sem nenhum controle
externo. Ora, este estado de natureza acarreta uma total insegurança (bellum omnium
contra omnes). Para remediar esta situação, os indivíduos concordam em ceder parte de
seus poderes a uma autoridade, que se comprometa a usar de tais poderes, instituindo
normas de comportamento e fazendo-as observar, para garantir a segurança de todos, i.e.
proteger os seus interesses. Portanto, as normas de comportamento fundam-se no contrato
social e dependem dos termos nele definidos pelos contraentes.
# Limites: A teoria revela, entre outros, os seguinte limites. Por um lado, implica o dever
tanto do governante como dos súditos de cumprir os respectivos compromissos. Sem esta
obrigação o contrato seria ineficaz. Pressupõe, portanto, certos deveres e direitos naturais,
prévios ao contrato, de modo que não explica o fundamento último da moralidade. Por outro
lado, o contrato não é um fato real, mas apenas uma hipótese ideal. Ora, um contrato
hipotético não pode fundamentar a obrigação de cumprir compromissos, igualmente
hipotéticos.

c) Teorias contemporâneas do contrato social:49 Vários pensadores contemporâneos


reformularam a teoria do contrato social, procurando superar as dificuldades e o caráter
limitado que ela apresenta no próprio Hobbes.50 Propõem assim uma explicação do
fundamento da moralidade em geral baseada em dois princípios hobbesianos: (1) as
obrigações morais são convencionais, baseadas na interação entre pessoas; (2) as
obrigações convencionais são vantajosas para todos. Estes princípios são explicados da
seguinte maneira:
# Não há ações humanas que sejam por si mesmas boas ou más, mesmo quando são
prejudiciais a outro. Entretanto, é vantajoso para cada um evitar tais ações, se todos os
outros também evitem prejudicá-lo. Portanto, fazer um acordo para impedir atos prejudiciais
aos outros é mutuamente vantajoso para os contraentes, enquanto poupa-lhes o esforço de
defender-se das agressões alheias e possibilita a cooperação. Neste sentido, prejudicar
outro, embora não seja intrinsecamente mau, é definido como “mau” pelo pacto. O pacto,
que de um ou outro modo vigora em qualquer sociedade, é um “artifício moral”, enquanto
limita o que cada um está naturalmente capacitado a fazer (prejudicando outros), em função
de interesses dominantes.
# Não se pode criticar esta posição, argüindo que ela ignora o dever natural de agir com
justiça e não prejudicar os mais fracos. Com efeito, a existência de tais deveres é
justamente o pressuposto que a teoria nega e que, segundo ela, não pode ser provado.
Segundo o contratualismo, alguém só tem motivos para fazer algo quando tal ação satisfaz
seus desejos (interesses). Se ações, consideradas normalmente como obrigações morais,
não satisfazem um desejo do indivíduo, não há razão para praticá-las. Por que pessoas que
possuem maior poder iriam deixar de usá-lo? Portanto, o fundamento do ethos é a

49
Cf. Kymlicka, Will: The social contract tradition, in: Singer, Peter (ed.): A Companion to Ethics, Blackwell,
Oxford / Cambridge (Mass), 1996 (1ª ed. 1991), 186-204.
50
P. ex. Nozik, R.: Anarchy, State and Utopia, Oxford, Blackwell, 1974; Gauthier, D.: Morals by Agreement, Oxford,
Oxford Univ. Press, 1986.
44

convenção resultante de um cálculo inteligente das vantagens de limitar certa liberdade de


ação para assegurar maiores benefícios.
# O pressuposto da teoria é que todos são naturalmente iguais (não no sentido moral de
direitos e deveres), enquanto, em princípio, podem prejudicar outros e ser prejudicados por
eles. Entretanto, esta maneira de conceber a igualdade é abstrata, já que efetivamente
alguns indivíduos têm mais poder (físico, intelectual, econômico, político, etc.) do que
outros. Assim, a vantagem de aderir a um determinado pacto depende do poder de cada um
de fazer valer os seus interesses. Dada esta diferença, os termos efetivos dos acordos vão
privilegiar os fortes em detrimento dos mais fracos. Estes estarão necessariamente sujeitos
às normas estabelecidas, sem que tenham a possibilidade de fazer valer os seus interesses
na negociação do pacto. Neste sentido, os direitos e deveres (a moralidade), são
meramente convencionais, enquanto derivam das limitações necessárias para assegurar
interesses recíprocos, embora isso possa significar a exploração dos mais fracos pelos mais
fortes. Entretanto, atribuir a diferença entre o que é moralmente bom ou mau a tais
convenções significa não tanto propor uma explicação alternativa da moralidade, como uma
alternativa à própria moralidade.

2. Teorias assertivas da originalidade do fenômeno moral

Estas teorias afirmam a originalidade do ethos, como uma dimensão irredutível da


existência humana, que tem seu fundamento no ser humano, enquanto racional e livre, i.e.
enquanto por sua razão e liberdade transcende os limites da natureza. Dentre as soluções
propostas, nesta perspectiva, para o problema do fundamento do ethos, podem destacar-se as
seguintes.

2.1. Teorias da transcendência objetiva do valor moral: Estas teorias têm um caráter
metafísico, teleológico e ideonômico, enquanto fundamentam o valor moral na Idéia de
Bem, como polo objetivo e transcendente do dinamismo da razão humana.

a) Idealismo platônico:51 Platão, inspirado em Sócrates, introduz contra o relativismo ético dos
Sofistas, o paradigma ideonômico, segundo o qual a Idéia suprema do Bem, contemplada
pela razão (teórica), é a norma do agir e o fim (telos) de todo o dinamismo da alma humana
(psyché), proporcionando o seu aperfeiçoamento pela virtude (areté) na cidade (polis),
regida pela justiça (dikaiosyne).

b) Realismo aristotélico:52 Aristóteles mantém o dinamismo da natureza humana, enquanto


racional e ordenada à consecução de seu fim último (eudaimonia) como contemplação do
divino, mas integra esta perspectiva transcendente com a consideração do mundo das
“coisas humanas”. O bem ou melhor em cada circunstância não pode ser deduzido
simplesmente a partir da idéia de bem, mas deve ser apreciado nas situações concretas.
Introduz assim a noção de razão prática, que orienta o agir na escolha do bem em meio à
diversidade dos bens particulares (analogia da noção de bem) expressos no ethos de cada
cultura.

c) Síntese tomásica:53 Tomás de Aquino assimila a estrutura conceptual da Ética aristotélica


(teleologia da razão prática em direção ao bem supremo, fonte da felicidade, pela vida
segundo a razão reta na prática das virtudes), mas a reformula profundamente no espírito
da tradição cristã. Inspirando-se sobretudo em Agostinho, identifica a Idéia platônica de Bem
com o Deus cristão, cuja essência, enquanto lei eterna, fundamenta o caráter absoluto da lei
moral natural, inscrita na razão humana, enquanto imagem do criador. Trata-se de uma ética
do amor concebida em termos intelectualistas. A teologia cristã permite ampliar o horizonte

51
Cf. supra p.31 e Henrique Vaz: Escritos de Filosofia IV, Introdução à Ética filosófica 1, 93-108.
52
Cf. supra p.31s e Henrique Vaz, id. 109-126.
53
Cf. Henrique Vaz, id. 199-240.
45

da vida ética, com a noção do auxílio sobrenatural, através da revelação e da graça, e da


transformação de seu fim último na beatitude da comunhão eterna com Deus.

d) Retomadas contemporâneas da ética de inspiração cristã:54 Destacam-se as propostas de:

# M. Blondel (1861-1949): Através da análise da ação humana no terreno da vida


concreta supera o imanentismo moderno, mostrando como a inadequação entre as formas
sucessivas que ela assume e seu próprio dinamismo ilimitado conduz inevitavelmente à
alternativa entre a auto-suficiência falaz e a abertura a uma realização plena que transcende
suas exigências e seu dinamismo imanente. O procedimento blondeliano, que implica a
racionalidade autêntica da análise do movimento dialético do agir e a transracionalidade de
seu desfecho, é uma releitura, em matriz dialética, do “ordo amoris” agostiniano e do
“desiderium beatitudinis” tomásico.
# J. Maritain (1882-1973): Em permanente referência ao pensamento de Tomás de
Aquino procura torná-lo inteligível aos contemporâneos, mostrando a sua atualidade e
capacidade de iluminar as grandes questões de seu tempo. Sua reflexão sobre a cultura
moderna sobretudo na sua expressão sociopolítica conduziu-o aos problemas éticos.
Segundo ele, a plena autonomia da razão filosófica não pode ter lugar na Ética, em razão
da condição concreta do sujeito ético, o homem histórico chamado a um fim sobrenatural.
Dentre as suas contribuições originais ao pensamento ético, na linha tomásica, sobressaem
as análises do primeiro ato de liberdade e do conhecimento da lei natural.
# J. Pieper (1904-2000): Sua Ética inspira-se em Platão e sobretudo em Tomás de
Aquino, cujos textos interpreta de modo, ao mesmo tempo, fiel e inovador, enquanto mostra
as suas virtualidades para pensar os problemas fundamentais de nosso tempo. O caráter
interrogante do ser humano traduz-se na sua historicidade, que decorre de sua
criaturalidade, raiz da contingência e da itinerância. Daí o papel fundamental da esperança
que liga a sua Antropologia e a sua Ética pela realidade do Bem. Trata-se de uma Ética das
virtudes, que Pieper desenvolve à luz dos ensinamentos de S. Tomás, antecipando-se à
valorização recente desta dimensão da Ética clássica.

2.2. Teorias da imanência subjetiva do valor moral: Admitem o caráter absoluto e irredutível
do valor moral, enquanto fundado na autonomia absoluta da consciência moral.
Atribuem um caráter formal ao valor moral enquanto correspondência da ação com a lei
imanente da liberdade. Assumem duas modalidades opostas, segundo que consideram
a liberdade no seu ato singular de escolha ou enquanto abertura à universalidade da
razão.

a) Fundamentação do ethos na autonomia absoluta da liberdade como singularidade do “eu”


(J.-P. Sartre em sua primeira fase existencialista): Trata-se de uma Ética da autenticidade e
da criação dos valores. O fundamento dos valores morais é o ato da liberdade que os cria.
Não há valores objetivos que precedam a liberdade e que devam ser por ela ratificados.
Todo ato humano será bom na medida em que exprima um compromisso lúcido e
responsável da liberdade. Não é porque uma ação seria boa em si mesma que devo praticá-
la, mas ela é boa porque a pratico livremente. É moralmente inferior quem se recusa a
assumir sua liberdade criadora e pretende orientar-se por uma essência predeterminada
(valores fundados na razão) ou por qualquer outro condicionamento. Daí a negação da
existência de Deus, já que ela implicaria que nossa ação consiste em realizar o projeto
divino a nosso respeito, uma essência ou natureza que precede a existência, entendida
como liberdade.

b) Fundamentação do ethos na autonomia absoluta da liberdade entendida como razão


universal (Kant): A “boa vontade”, i.e. a bondade dos atos da liberdade não consiste na sua
conformidade com um objeto bom em si mesmo (moral clássica), mas na atitude interior da
própria vontade, i.e. na vontade de cumprir o seu dever. Não basta, porém, agir de acordo
54
Ib. 457-470.
46

com o dever (aspecto material ou seja conteúdo objetivo da ação), mas só é moralmente
válido o agir por dever (aspecto formal ou intenção subjetiva da ação). A necessidade moral
absoluta de agir por dever, que se impõe à consciência como uma evidência, é chamada
por Kant “imperativo categórico”. O dever é a expressão da distância entre a razão prática
(universal e incondicionada) e a liberdade do eu empírico e singular (livre arbítrio).
Transcendente, enquanto ultrapassa o indivíduo, o imperativo categórico é imanente,
enquanto expressão de nossa essência própria, como seres racionais. O imperativo
categórico implica ao mesmo tempo vontade e universalidade. Neste sentido, a vontade de
todo ser racional é legisladora universal. Tal é a fórmula da autonomia da vontade como
liberdade (distinta do livre arbítrio empírico e contingente). Para a vontade livre, a lei só
pode proceder dela mesma. É a mesma coisa uma vontade livre e uma vontade sob leis
morais.

2.3. Teorias contemporâneas orientadas para a fundamentação de uma Ética universal no


contexto do pluralismo da cultura moderna55

a) Liberalismo social: Este título engloba uma série de posições que têm em comum a
preocupação de superar o caráter puramente individualista do contratualismo clássico. Seus
principais propugnadores são os filósofos norte-americanos J. Rawls56 e R. Dworkin.57
# Apresentação: O fundamento das normas morais é o pacto social estabelecido
racionalmente. Toda pessoa quer ser feliz, de modo que é racional organizar a vida para
alcançar a felicidade. Entretanto, as pessoas não são responsáveis pelas qualidades
naturais e sociais que adquirem por nascimento. Por isso, é também racional que em uma
sociedade as cargas e os benefícios sejam distribuídos equitativamente, i.e. que as normas
vigentes sejam as que todos escolheriam se desconhecessem as diferenças entre as
pessoas (imparcialidade). Desta maneira cada um dos participantes do pacto social não visa
apenas à maximização dos benefícios, mas à realização da justiça, como obrigação moral.
Os princípios da justiça são os seguintes:
+ Garantir a todos os cidadãos o maior grau possível de liberdade civil e política,
limitando-a tão somente na medida em que coarcte a liberdade dos demais.
+ Assegurar a igualdade de oportunidades, a não ser que uma distribuição
desigual dos bens favoreça aos mais destituídos (princípio da diferença). Em outras
palavras: a distribuição dos bens numa sociedade será justa quando nenhuma outra
forma de distribuição beneficiaria mais o grupo social menos favorecido.
+ A articulação dos dois princípios leva à distinção entre “liberdade” e “valor de
liberdade”, i.e. o benefício resultante para alguém da proteção do exercício de sua
liberdade. Com efeito, se a sociedade protege igualmente a liberdade de todos pode
acontecer que alguns (dotados de maior capacidade econômica, cultural, etc.) se
beneficiem mais dessa proteção. Portanto, proteger a liberdade obriga a sociedade,
se quer ser justa, a dar-lhe um valor do qual todos possam desfrutar.
# Avaliação: Esta teoria pressupõe que os participantes do pacto social já possuem
sentimentos morais, i.e. um senso de justiça. As pessoas são iguais e merecem igual
consideração, enquanto são “fins em si mesmas” (cf. Kant). Neste sentido, o contrato social
torna-se apenas um recurso ou artifício para exprimir as idéias da igualdade moral entre as
pessoas e do dever de justiça, que já são pressupostas. A questão de como fundamentar o
valor e a obrigação moral fica aparentemente sem resposta.

b) Comunitarismo: Trata-se também de um título com que se designam as posições de vários


filósofos, unidos pela crítica ao liberalismo moderno e pela valorização da dimensão
comunitária do ethos.

55
Cf. Cortina, Adela: Hasta un pueblo de demonios. Ética pública y sociedad, Madrid, Taurus, 1998.
56
A Theory of Justice, London, Oxford Univ. Press, 1971.
57
Taking Rights Seriously, London, Duckworth, 1978.
47

# Na origem do movimento encontra-se o filósofo escocês A. MacIntyre. 58 Por um lado,


critica a concepção moderna de indivíduos atomizados, dotados de direitos naturais, que
decidem entrar em sociedade para defendê-los. Daí se segue um estado generalizado de
anomia, no qual cada cidadão exige que se respeitem seus direitos, sem, contudo, sentir-se
obrigado a assumir sua responsabilidade pelo bem comum. Na verdade, a sociedade não
resulta de um pacto, porque cada pessoa já nasce em uma comunidade (família, nação,
etc.) na qual aprende a dar valor a determinadas qualidades e a colaborar na conservação
destes valores comunitários. MacIntyre propõe, por isso, como solução uma ética
neoaristotélica do caráter, que se vai forjando por meio dos atos das virtudes. As pessoas
podem assim desenvolver sua identidade moral de acordo com as virtudes valorizadas em
sua comunidade, que constituem expressões do bem inerentes às várias tradições culturais.
Na sociedade moderna pluralista o indivíduo ou grupo deve permanecer fiel à sua própria
tradição cultural, sem ceder à relativização de todos os valores. Ele pretende que esta
referência básica ao ethos da própria cultura não é relativista, enquanto julga que é possível
demonstrar racionalmente a superioridade de uma tradição sobre outras, na medida em que
se torna mais capaz de responder satisfatoriamente a novos problemas éticos. Admite,
assim, que, embora os modos de reflexão sejam específicos de cada cultura, a verdade e o
bem, como fim último da teoria e da ação transcendem qualquer tradição.
# Outros representantes independentes desta corrente são Charles Taylor,59 Benjamin
Barber60 e Amitai Etzioni.61 Estes autores procuram conciliar sua visão comunitarista com o
valor moderno da autonomia pessoal. Os direitos dependem das valorações que as pessoas
aprendem em uma comunidade. O simples fato de reconhecer que as pessoas têm certas
capacidades não basta para exigir que seu desenvolvimento seja protegido. Só quando são
valorizadas como capacidades que tornam uma pessoa verdadeiramente humana existe
uma razão para exigir que o exercício e desenvolvimento de tais capacidades seja protegido
por meio de direitos. Portanto, é necessário abandonar a idéia de que existe uma prioridade
do indivíduo e seus direitos sobre a comunidade, bem como ver a esta como mero
instrumento para a consecução de metas individuais. Daí a nova “regra de ouro”: “Respeita
e defende a ordem moral da sociedade como queres que a sociedade defenda e respeite
tua autonomia”.

c) Ética pragmático-transcendental do discurso: Referimo-nos aqui especificamente à Ética do


filósofo alemão Karl Otto Apel.62 Sua preocupação básica é a fundamentação de uma ética
universal na era da ciência moderna, que exclui as normas e valores da esfera da validade
intersubjetiva. Para fundamentar a universalidade de uma ética deontológica recorre a uma
transformação lingüística da filosofia transcendental de Kant (fundamentação pragmático-
transcendental da ética) que permite a mediação entre ética e ciência.
# Num primeiro passo, Apel mostra que a objetividade da ciência pressupõe a validade
intersubjetiva de normas morais (exclusão da mentira, fraude, segredo, etc.), enquanto se
trata de um pensamento público em uma comunidade de argumentação. Estes
pressupostos normativos da argumentação racional não são validados por critérios
positivistas (como as proposições científicas), mas por critérios de reflexão transcendental
(condições de possibilidade).
# Por outro lado, estas normas pressupostas pela lógica da argumentação exigem que o
sujeito argumente logicamente. Em outras palavras: a ética pressuposta pela argumentação
racional não é um mero imperativo hipotético, mas tem um caráter deontológico absoluto.
Com efeito, a condição para que a justificação racional das opiniões seja um dever é que a
escolha da argumentação lógica seja ao mesmo tempo necessária e livre (como toda
obrigação moral). Ora, o caráter inevitável da lógica, i.e. de dar razões, é uma evidência
58
After Virtue, South Bend – Ind, Univ. of Notre Dame Press, 1981.
59
Sources of the Self: The Making of the Modern Identity, Cambridge, Cambridge Univ. Press, 1989 [As Fontes do
Self, Ed. Loyola].
60
Strong Democracy, 1983.
61
The New Golden Rule. Community and Morality in a Democratic Society, New York, Basic Books, 1996.
62
Sprachpragmatik und Philosophie, Frankfurt a.M., Suhrkamp, 1976; Dirkurs und Verantwortung, Frankfurt a.M.,
Suhrkamp, 1988; Ethik und Befreiung, Aachen, Augustinus-Buchhandlung, 1990.
48

indiscutível para o sujeito que reflete sobre os pressupostos da argumentação. A própria


decisão de negar a lógica pressupõe o que nega. Por outro lado, a necessidade objetiva da
aceitação da discussão racional não suprime o ato livre (contingência subjetiva) que
consiste em reafirmar voluntariamente o princípio da justificação argumentativa de toda
pretensão humana.
# A aplicação do princípio deôntico à realidade histórica, sem restringir a sua
universalidade e seu caráter incondicionado de dever, implica a distinção de dois aspectos
no apriori comunicacional que funda a ética (dialética ideal/real): o caráter necessário da
comunicação ideal e a pertença do sujeito a uma comunidade real de comunicação. Neste
contexto o princípio deôntico enquanto princípio de responsabilidade histórica assume duas
formas: (1) a exaustão do ideal quando a violação do princípio (p. ex. mentir para o
criminoso que ameaça matar sua vítima) é apta a suscitar o consenso racional; (2) a
transformação do real, i.e. dever de cooperar para o melhoramento das condições da
comunicação real no sentido de sua aproximação às condições ideais.

d) Fundamentação dialético-metafísica de uma Ética ideonômica e teleológica da razão


prática: Podemos caracterizar deste modo a preocupação básica à qual responde a Ética de
Henrique de Lima Vaz. Ele fundamenta o caráter absoluto do valor e da obrigação moral na
idéia transcendente de bem, como fim e perfeição do agir humano. Sua originalidade
consiste, entretanto, no procedimento dialético 63 que lhe permite fundar metafisicamente o
caráter objetivo do valor moral a partir da análise do dinamismo do sujeito humano enquanto
racional, conciliando assim as perspectivas da filosofia clássica e da filosofia moderna.
Desta maneira a Ética vaziana oferece uma solução para os três problemas básicos da
fundamentação da ética:
# Superação dialética da oposição entre necessidade natural e liberdade arbitrária do
contrato social (soluções positivistas e relativistas) pela afirmação da razão na sua
universalidade e necessidade, que fundam o valor e a obrigação moral sem prejuízo da
liberdade do agir na particularidade das situações. Este caráter ideonômico da Ética é
comum a pensadores tanto antigos quanto modernos, como p. ex. Kant e Hegel.
# Superação dialética da oposição entre imanência subjetiva e transcendência objetiva
(autonomia e heteronomia) do valor moral pela afirmação do caráter teleológico da razão.
Por um lado, o ato do sujeito, enquanto ético, nega o objeto no seu teor simplesmente
empírico ou indiferente e assim o constitui como bem e valor (o objeto, enquanto valor, só
existe para o sujeito ético). Por outro lado, o objeto nega a autonomia do ato do sujeito na
gênese total do bem, pois só ele confere ao bem seu conteúdo real. É a razão prática
(sujeito) que avalia o objeto (como bom ou mau) no horizonte do bem; mas é o objeto
enquanto real que determina o conteúdo do ato da razão prática, que na sua finitude é
incapaz de produzir por si mesma o objeto. Neste sentido é afirmada ao mesmo tempo, mas
sob aspectos diversos, a autonomia e a heteronomia da razão prática. Com efeito, trata-se
de encontrar uma instância capaz de fundar, ao mesmo tempo, o caráter transcendente da
obrigação moral, enquanto obriga realmente o sujeito, e seu caráter imanente enquanto esta
obrigação não é puramente exterior mas impõe-se do interior, i.e. pela consciência. Ora, só
a razão pode satisfazer a esta dupla exigência (como bem viu Kant) enquanto por sua
universalidade transcende o sujeito individual e, por outro lado, é imanente a ele enquanto o
constitui. Entretanto, a conformidade da ação com a razão não pode reduzir-se à
conformidade com a sua lei puramente formal de universalidade (como pretende Kant). A
razão prática se abre por sua universalidade para o reconhecimento do real e de suas
estruturas objetivas. Ela se apresenta como orientada para valores, que, embora, enquanto
tais, sejam constituídos por ela, impõem-se a ela como uma exigência que a determina.
# Superação dialética da oposição entre a apreensão do bem ideal, universal e abstrato,
e a escolha do bem ou melhor hic et nunc, na situação natural e histórica do sujeito, pela
dupla mediação da razão prática enquanto discernimento (phrónesis) e do ethos particular
de cada cultura. Por um lado, a razão prática discerne à luz do bem universal o que deve

63
Cf. supra 36-38.
49

ser feito na situação particular. Por outro, o ethos de cada cultura torna-se norma concreta
da ação na medida em que incorpora a idéia universal de bem.

II. Critério da moralidade

A segunda questão fundamental da Ética trata da essência do valor moral e pode ser
formulada da seguinte maneira: Em que consiste o bem moral? Por que uma ação é
moralmente boa ou má? Qual o critério para determinar o caráter moralmente positivo ou
negativo do comportamento humano?

As várias respostas dadas historicamente a esta questão podem classificar-se da


seguinte maneira.

1. Naturalismos: O critério da moralidade é algo que pertence à natureza e se encontra,


portanto, fora do âmbito da liberdade

1.1. Hedonismo (hedoné = prazer): Trata-se da moral do prazer (concebido amplamente). A


ação é moralmente boa na medida em que contribui para o prazer maior e mais
duradouro. Em outras palavras: viver bem (moralmente) é comportar-se de tal modo a
assegurar o maior bem estar e satisfação possível ou, negativamente, evitar e eliminar
quanto possível a dor.

a) Modalidades: O hedonismo pode assumir várias modalidades conforme o tipo de prazer que
se considera mais autêntico e satisfatório.
# Hedonismo sensualista vulgar: É aquele que se pauta pela busca do prazer sensível,
imediato e momentâneo, sem se preocupar com suas conseqüências.
# Epicurismo: Trata-se da doutrina do filósofo helenista Epicuro (341-270). O prazer é o
fim do ser humano, já que, como mostra a experiência, o ser humano desde seu
nascimento, espontaneamente, busca o prazer e foge da dor. Portanto, todo prazer é um
bem, mas nem todo prazer deve ser procurado, porque alguns prazeres podem ser causa
de maior sofrimento e vice-versa.
+ É preciso distinguir, portanto, entre: os desejos naturais e necessários, cuja
satisfação é indispensável para a vida (p. ex. comer, beber, dormir); os desejos naturais,
mas não necessários, dos quais se pode prescindir sem pôr em risco a vida (p. ex.
relações sexuais); e os desejos nem naturais nem necessário (riqueza, fama, poder,
etc.). A sabedoria consiste em satisfazer aos desejos naturais e necessários, que podem
ser facilmente satisfeitos, e libertar-se dos outros, que são causa de maior sofrimento.
+ O prazer corporal é o fundamento de todos os outros, porque os prazeres
superiores da alma, consistem na posse, na recordação ou na antecipação dos prazeres
do corpo. Entretanto, Epicuro distingue o prazer em movimento (prazer da eliminação
progressiva do sofrimento, como p. ex. prazer de comer, eliminando a fome) do prazer
em repouso (prazer da dor eliminada pela saciedade ou satisfação dos desejos). O ideal
é este prazer em repouso, i.e. uma vida tranqüila, satisfeita, simples, não perturbada,
nem pelo sofrimento, nem pelo desejo. Portanto, Epicuro não é epicurista no vulgar do
termo. Segundo, ele a virtude consiste no discernimento do que se deve escolher e
evitar para viver em paz.

b) O hedonismo de Epicuro tem certa semelhança com o eudaimonismo e com o utilitarismo:


# Distingue-se, porém, do verdadeiro eudaimonismo (aristotélico), enquanto para este o
critério da moralidade não é o maior prazer (menor dor), mas a plena realização do ser
humano no bem segundo a razão, sendo o sentimento de felicidade (prazer) apenas a
repercussão subjetiva desta situação.
# Distingue-se também do utilitarismo, enquanto para este, como veremos, o critério da
ação moral é o mais útil para o bem-estar do indivíduo ou da sociedade, ao passo que para
o hedonismo o critério é propriamente o mais agradável (imediatismo e subjetivismo),
50

embora isso implique a busca dos meios para alcançar o prazer. Nem sempre o mais útil é o
mais agradável, mesmo a longo prazo, e vice-versa.

1.2. Utilitarismo:

a) Apresentação: Trata-se da moral do interesse. Seu princípio fundamental é que algo é


(moralmente) bom na medida em que é bom (útil) para alguém, i.e. traz-lhe vantagens e
corresponde a seus interesses. Muitas vezes, alguém faz o bem, não porque este é seu
dever, mas porque lhe é conveniente. O utilitarismo consagra esta motivação como critério
da moralidade. A ação é moralmente boa enquanto se rege pelo que é mais útil, i.e.
favorável à felicidade do agente e do maior número possível de indivíduos. O utilitarista
parte do princípio de que o interesse de cada indivíduo, corretamente entendido, coincide
com o interesse geral. A intenção dos utilitaristas é aumentar a felicidade geral. Trata-se,
portanto, de procurar um critério da moralidade que seja empiricamente verificável e
controlável. O critério do bem moral é a sua capacidade de produzir (utilidade ou
funcionalidade do meio) um bem não-moral (fim).

b) Modalidades: Os tipos de utilitarismo se distinguem de acordo com o bem não-moral


(natural) que se tem em vista.

# Utilitarismo clássico: Proposto por Jeremie Bentham (1748-1832)64 consiste numa


moral fundada no cálculo judicioso do próprio interesse. Esse cálculo supõe que a felicidade
resulta da soma de prazeres simples (associacionismo). Os prazeres são heterogêneos,
mas é possível medi-los por um elemento homogêneo, i.e. o dinheiro. Eles devem ser
calculados segundo seus diferentes aspectos (intensidade, duração, proximidade,
capacidade de produzir outros prazeres, exclusão de sofrimento, certeza, e, finalmente,
extensão, i.e. capacidade de estender-se a um número maior ou menor de indivíduos).
# Utilitarismo mitigado: John Stuart Mill (1806-1873)65 amplia a noção de interesse,
incluindo também o que contribui para a satisfação de cumprir o próprio dever. O fim da vida
humana é a felicidade, mas para ser feliz é preciso tomar como fim da própria vida, não a
felicidade, mas outro valor.
# Utilitarismo contemporâneo:66 O utilitarismo continua a ter influência na mentalidade
individual e nas políticas públicas atuais (liberalismo, neoliberalismo). Suas principais
expressões contemporâneas são:67
+ Satisfação de preferências: O que deve ser maximizado não é o cálculo do prazer,
mas outros tipos de satisfação. P. ex. Alguém faz uma doação filantrópica com sacrifício
de certos prazeres (p. ex. férias no estrangeiro), em vista de seus próprios interesses
(vaidade ou mesmo pacificação da consciência). Prefere uma coisa à outra, porque lhe
dá maior satisfação. Esta satisfação é que constitui a moralidade da ação, não o ter
socorrido pessoas necessitadas. Entretanto, o utilitarista crê que em muitos casos a sua
maior satisfação vá levá-lo a fazer o que outros considerariam bom em si mesmo.
+ Satisfação dos interesses: A utilidade é entendida como o que satisfaz melhor ao
bem-estar (welfare) das pessoas, independentemente das suas preferências atuais.
Trata-se daquilo que a pessoa escolheria como seu interesse em uma “situação ideal de

64
An Introduction to the Principles of Morals and Legislation, London, 1823.
65
Utilitarianism, 1863.
66
Cf. Robert E. Goodin: Utility and the good, in: Peter Singer (ed.), ob. cit. 241-248.
67
Afim ao Utilitarismo é a Ética do Amor-próprio de Fernando Savater, que afirma p.ex.: “O individualismo é o
reconhecimento teórico-prático de que o centro social de operações e sentido, de legitimidade e decisão, é o
indivíduo autônomo, ou seja, todos e cada um dos indivíduos que constituem o artefato social. Não há, pois, um
sentido de comunidade que transcenda a soma ou a maximização dos interesses de cada um, nem existe uma essência
histórica transcendente – nação, povo, classe – cujo direito de exigir perpetuidade e impor sacrifícios esteja acima
(isto é, possa desinteressar-se de fato ou de direito) da melhor oportunidade de bem-estar e liberdade do conjunto de
seus participantes.” (Ética como amor-próprio, Martins Fontes, São Paulo, 2000, 296-297 [orig. Ética como amor
propio, Grijalbo Mondadori, Madrid, 1998]).
51

escolha”, caracterizada por perfeita informação, vontade reta, etc. Na prática este
utilitarismo leva a somar impessoalmente as utilidades de todos os afetados.

1.3. Naturalismos baseados nas ciências positivas: Trata-se de dar caráter moralmente
normativo às teorias das várias ciências.68

a) Biologismo moral (evolucionista): Um comportamento é moralmente bom na medida em que


corresponde ao sentido do processo evolutivo do cosmo e da história (cf. Herbert Spencer,
positivista inglês do fim do século XIX).

b) Psicologismo moral: A saúde psíquica é considerada como o critério último da moralidade,


i.e. considera-se como bom e positivo o que favorece o equilíbrio psíquico da pessoa e
como negativo o que compromete esta harmonia.

c) Sociologismo moral: O critério da moralidade é a conformidade com os costumes e normas


vigentes no meio social numa situação determinada. O bem e o mal não são senão aquilo
que a sociedade ordena ou proíbe. Não é porque uma ação é criminosa (moralmente má)
que ela é reprovada pela consciência social, mas, ao contrário, ela é criminosa porque a
consciência social a reprova. É também a posição de Durkheim e de sua Escola.

1.4. Éticas do sentimento: As teorias até agora expostas pretendem oferecer um critério
objetivo e racional de moralidade. Para as morais do sentimento, ao contrário, uma ação
é boa ou má conforme corresponde ou não a determinado sentimento que fundamenta a
moral.69

a) Moral da simpatia: O principal representante desta corrente é Adam Smith (1723-1790). 70 A


simpatia é a inclinação natural e instintiva que nos leva a partilhar os sentimentos dos que
conosco convivem. O bem é o que desperta simpatia, o mal o que desperta antipatia. A
norma da moralidade pode ser formulada nos seguintes termos: Age de maneira a provocar
a maior simpatia do maior número de pessoas. Trata-se, portanto, de ser simpático aos
outros, i.e. de despertar neles a simpatia por nós. O sentimento de obrigação reduz-se ao
temor de tornar-se antipático. A consciência moral, como sanção de nossas ações, consiste
na alegria que se experimenta por ser simpático, ou no sofrimento de ser antipático.

b) Moral altruísta: É proposta p. ex. por A. Comte. Nas suas primeiras obras, Comte julgava
que o conhecimento das leis da sociedade (Sociologia) bastaria para levar os seres
humanos a organizar a sua convivência de modo racional, i.e. a agir de acordo com tais leis.
Mais tarde, porém, chegou a conclusão que a moral não se reduz à Sociologia, mas tem um
caráter absolutamente afetivo.71 Trata-se de fazer prevalecer os impulsos altruístas ou de
sociabilidade sobre os impulsos individualistas e egoístas. A norma da ação moral é a
conformidade com tais sentimentos altruístas: Viver para o outro. Para obter esta atitude,
ele propõe a “religião da humanidade”, i.e. substituir o amor de Deus, como valor supremo,
pelo amor dos seres humanos.

c) Moral da compaixão: Corresponde ao ensinamento de A. Schopenhauer.72 O critério da


moralidade deve ser o que é capaz de motivar a ação moral. Ora, todo motivo da ação
humana refere-se em última análise à felicidade ou infelicidade. Mas, quando a ação
motivada tende apenas à felicidade do agente, ela é egoísta e moralmente negativa. A ação
moralmente boa é a que tem por fim suprimir a infelicidade do outro ou torná-lo feliz. Ora,
esta motivação só pode ser dada pela compaixão, pela qual o “eu” se coloca no lugar do

68
Cf. supra 41-42.
69
Cf. René Le Senne: Traité de Morale générale, Paris, PUF, 1967, 425-438.
70
Theory of moral sentiments, 1759.
71
Système de Politique positive, vol. 1, 1851.
72
Die beiden Grundprobleme der Ethik, 1840.
52

outro e se confunde com ele. O sentimento de compaixão é fundamental, porque a dor é a


realidade primeira da existência. O contentamento é a ausência da dor, da privação, da
necessidade. A pessoa contente, enquanto tal, nos deixa indiferentes. Ao contrário, a
infelicidade desperta o sentimento de compaixão, que dita a ação moral. Dela derivam a
justiça e o amor.

2. Morais da Liberdade: O critério da moralidade da ação humana é a sua conveniência com a


lei imanente da liberdade como tal. As Morais da Liberdade podem assumir duas formas
antitéticas, conforme consideram a liberdade singular do “eu” ou a liberdade universal da
razão.73

a) Moral da autenticidade: Corresponde à visão de Sartre na sua fase existencialista. 74 O único


valor objetivo é a liberdade. É ela que constitui o ser humano como tal. Não existem valores,
correspondentes a uma natureza humana, com os quais a ação livre devesse conformar-se.
Ao contrário, “no homem, a existência [liberdade] precede a essência [natureza]”. Ele não
tem outra essência senão a que se dá a si mesmo com suas decisões livres. Trata-se,
portanto, de uma moral formal. Pouco importa o conteúdo objetivo da ação. O que conta é a
sua forma, i.e. a autenticidade e lucidez com que tomo a decisão. O valor moral da ação
consiste em agir livremente, i.e. assumindo com sinceridade a própria responsabilidade, em
vez de agir por “má fé”, i.e. renunciando à sua liberdade para submeter-se a uma norma. É
a fidelidade a si mesmo e não uma verdade objetiva da ação que constitui a dignidade
humana. Trata-se, portanto, de uma “moral da situação”. Na ausência de uma referência
universal e normativa, qualquer comportamento poderá ser adotado moralmente em função
da situação única em que a pessoa se encontra na total indeterminação de sua liberdade.

b) Moral da razão prática pura:75 Segundo Kant, só tem valor moral o que se funda em um
ideal a priori, i.e. independente de qualquer elemento empírico. Para agir moralmente não
basta cumprir materialmente o seu dever. É necessário ter a intenção de cumprir o dever
por dever e não por qualquer outro motivo. A necessidade moral de agir por respeito ao
dever é para Kant uma evidência primeira de caráter absoluto e universal. Trata-se do
“imperativo categórico”, que se traduz na fórmula: “Deves absolutamente e em qualquer
circunstância cumprir o dever por dever”. O dever representa a distância, no interior da
própria pessoa, entre a razão prática universal e a liberdade do eu singular. O imperativo
categórico não é o enunciado de uma lei estranha a nós mesmos, mas a expressão do que
nos constitui especificamente, i.e. da razão. Por isso, a obediência ao dever, longe de ser
uma alienação, consiste na realização da vontade empírica no horizonte universal da nossa
essência racional. A moral assim concebida tem um caráter meramente formal, enquanto
conformidade com a razão prática pura, i.e. sem nenhum conteúdo empírico. A sua única
prescrição é agir de maneira puramente racional. Ora, a forma da razão é a universalidade
incondicionada. Daí a célebre formulação do imperativo categórico: Age de acordo com uma
máxima tal que possas querer ao mesmo tempo que ela se torne uma lei universal.

3. Moral da reta razão

a) Apresentação: Trata-se da posição de Tomás de Aquino e de todos os que de algum modo


nele se inspiram, inclusive Henrique de Lima Vaz. Mas também outros pensadores, que
postulam de algum modo um fundamento metafísico para a moral, embora não usem a
mesma terminologia, coincidem basicamente em considerar que o critério da moralidade é a
conformidade da ação com um universo de valores objetivos no âmbito da razão. Segundo
esta posição a norma da moralidade da ação é a sua conformidade com a razão reta. Por

73
Cf. supra 45-46 as Éticas de Sartre e Kant.
74
Cf. A. Léonard, ob. cit. 149-168.
75
Id. 180-190.
53

“razão reta” entende-se a razão humana enquanto orientada pelos primeiros princípios da
ordem moral, i.e. a razão enquanto funciona no campo prático de acordo com sua
verdadeira natureza. Assim considerada, a razão constitui a norma objetiva da moralidade
dos atos humanos. Trata-se da norma próxima em oposição à norma última da moralidade
que é a essência divina (lei eterna).

b) Esta posição conjuga numa síntese dialética razão/liberdade e natureza.


# Por um lado, como já afirmara Tomás de Aquino e Kant reafirmou com grande vigor, é
a razão, na sua atuação prática, que constitui formalmente a ordem moral. A essência do
valor moral e, por conseguinte, a norma da consciência moral só podem residir na
conformidade da ação humana com a razão. Só neste âmbito pode-se falar de valor e de
obrigação moral.
# Por outro lado, a conformidade da ação com a razão não pode reduzir-se, como quer
Kant, à sua conformidade com a lei puramente formal da universalidade da razão. A razão é
norma da moralidade enquanto aberta na sua universalidade ao reconhecimento do real
com suas estruturas objetivas. Neste sentido, o critério do agir moral implica a referência
aos dados da experiência, mas tão somente enquanto são assumidos pela razão. Portanto,
embora a razão seja o que constitui formalmente o valor moral, a natureza humana constitui
o fundamento próximo e a norma fundamental do agir. Com efeito, as normas que a razão
prática define são a expressão das finalidades essenciais da natureza humana, enquanto
racional. Agindo moralmente, o ser humano atualiza as virtualidades de seu ser racional.
Entretanto, esta atualização não se apresenta como puro fato, mas como valor, que a razão
manifesta e constitui.

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