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Psicopedagogia Clínica e Institucional

Psicopedagogia Clínica e Institucional

JBEILI, Chafic Adnan.

Psicopedagogia Clínica e Institucional. Bras ília-DF, 2009. Es

te m aterial é parte integrante do curs o/oficina de m es m o


título. Não pode s er vendido s eparadam ente.

1. Ps icopedagogia. 2. Clínica Ps icopedagógica. 3.


Ps icopedagogia Ins titucional.

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3
Psicopedagogia Clínica e Institucional

Prezado cursista,

É com alegria e satisfação que apresento a você mais um de meus cursos, cujo
intuito maior é viabilizar conhecimentos na área psicopedagógica, possibilitando
aprimoramento profissional.

Bom curso!

Oficina: Psicopedagogia Clínica e Institucional.

Justificativa: É comum, embora não seja normal, leigos e profissionais de diversas áreas
questionarem a pertinência da existência da psicopedagogia enquanto ciência específica
para avaliação e intervenção nos processos ensino-aprendizagem. Contudo, embora o
tema facilidades e dificuldades para a aprendizagem seja contemplado no âmbito da
psicologia escolar e na própria pedagogia, além da fonoaudiologia, neurologia, psiquiatria,
entre outras especialidades médicas, a psicopedagogia, enquanto ciência específica
reivindica para si o direito e o dever de existir com suas próprias técnicas e metodologias
para os fins a que se propõe. O olhar psicopedagógico e a atuação do psicopedagogo
clínico e institucional têm particularidades que respaldam sua razão de existir. Conhecer
seus princípios elementares e dominar as técnicas de avaliação e intervenção são pré-
requisitos fundamentais para o saber e a prática psicopedagógica.

Objetivos do curso:
- Oferecer ao cursista conhecimentos sobre as bases epistemológicas do saber
psicopedagógico;
- Estudar as principais teorias sobre a psicopedagogia clínica e institucional;
- Demonstrar como a psicopedagogia pode auxiliar na avaliação e intervenção dos
processos ensino-aprendizagem.

Ao final dos estudos, o cursista estará munido de conhecimentos básicos, suficientes para
distinguir a psicopedagogia das demais ciências que têm como campo de estudo e
atuação a aprendizagem.

Tópicos abordados:
O QUE É PSICOPEDAGOGIA.
A HISTÓRIA DA PSICOPEDAGOGIA.
O PERFIL DO PSICOPEDAGOGO.
PRINCIPAIS CAMPOS OU ÁREAS DE ATUAÇÃO.
AS DIFERENÇAS DE ABORDAGEM DA PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA E DA
PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL.
DIFERENÇA ENTRE A PSICOLOGIA ESCOLAR E A PSICOPEDAGOGIA.
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Psicopedagogia Clínica e Institucional

QUAL O TRABALHO QUE A PSICOPEDAGOGIA PODERIA OFERECER NO


TRABALHO DE COORDENAÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL – CRECHES E
ESCOLAS?
TEORIA PARA DIAGNÓSTICO E INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA.
A ANAMNESE.
MODELOS DE FORMULÁRIOS PARA ATENDIMENTO PSICOPEDAGÓGICO.
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Psicopedagogia Clínica e Institucional

SUMÁRIO
1. O QUE É PSICOPEDAGOGIA? 6
2. A HISTÓRIA DA PSICOPEDAGOGIA 17
3. O PERFIL DO PSICOPEDAGOGO 27
4. PRINCIPAIS CAMPOS OU ÁREAS DE ATUAÇÃO 32
5. AS DIFERENÇAS DE ABORDAGEM DA PSICOPEDAGOGIA
CLÍNICA E DA PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL 42
6. DIFERENÇA ENTRE A PSICOLOGIA ESCOLAR E A
PSICOPEDAGOGIA 51
7. QUAL O TRABALHO QUE A PSICOPEDAGOGIA PODERIA
OFERECER NO TRABALHO DE COORDENAÇÃO DA
EDUCAÇÃO INFANTIL – CRECHES E ESCOLAS? 60
8. DIAGNÓSTICO E A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA 61
9. ANAMNESE 66
REFERÊNCIAS 78
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Psicopedagogia Clínica e Institucional

1. O QUE É PSICOPEDAGOGIA?

A Psicopedagogia nasceu da necessidade de uma melhor compreensão do


processo de aprender para poder atender as necessidades individuais nessa missão. Há
alguns anos, a falta de clareza de alguns educadores a respeito das necessidades
específicas de aprendizagem, inerente a cada sujeito, fazia com que os educadores as
confundissem com déficits de inteligência, do qual o aluno era o portador, o que resultava
no encaminhamento para profissionais de diversas áreas da saúde, como pediatras,
neurologistas, psiquiatras e psicólogos clínicos. Entretanto, na maior parte das vezes,
estes profissionais não encontravam solução, de fato, para os relatados “problemas” que o
educando enfrentava em sala de aula.

Para Beauclair (2004), para entender o significado da Psicopedagogia é preciso


ir além da simples junção dos conhecimentos oriundos da Psicologia e da Pedagogia, o
que ocorre com bastante freqüência no senso comum, em face da sua própria
denominação “psicologia mais pedagogia”, que oferece uma definição simplista a seu
respeito. Na realidade, a Psicopedagogia é um vasto campo que se propõe a integrar, de
modo coerente, conhecimentos e princípios de diferentes ciências e teorias, com o objetivo
de adquirir uma ampla compreensão sobre os variados processos inerentes ao
aprendizado humano. Enquanto área de conhecimento multidisciplinar, a Psicopedagogia
busca a perfeita compreensão de como ocorrem os processos de aprendizagem, bem
como as dificuldades situadas neste movimento. Para tal, faz uso da integração e síntese
de vários campos do conhecimento.

A Psicopedagogia tem por objetivo o estudo da aprendizagem humana e, com o


emprego de processos e estratégias que levam em conta a individualidade do aprendente
e do ensinante, compromete-se com a melhoria do processo ensino-aprendizagem. Já o
processo de aprendizagem constitui-se no conjunto de atividades que envolvem indivíduos
ou grupos humanos e, mediante a incorporação de informações e o desenvolvimento de
experiências, promove modificações estáveis na personalidade e na dinâmica grupal, as
quais se revertem no manejo instrumental da realidade. Assim, o foco da Psicopedagogia
situa-se em torno dos padrões evolutivos normais e patológicos, bem como a influência do
meio — família, escola, comunidade e sociedade — em seu desenvolvimento.
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Psicopedagogia Clínica e Institucional

Para Gonçalves (2003), a Psicopedagogia é uma área de conhecimento e de


atuação dirigida para o processo de aprendizagem humana. Seu objeto de estudo é o ser
cognoscente, ou seja, o sujeito que se dirige para a realidade e dela retira o saber. Vista
no âmbito de um sistema complexo e inerente à condição humana, a aprendizagem não é
estudada pela Psicopedagogia no espaço restrito da escola, ou num determinado
momento da vida, haja vista que ocorre em todos os lugares, durante todo o tempo da
existência. Difere da Pedagogia porque não se ocupa de métodos ou técnicas de ensino,
assim como da Psicologia Escolar, porque não reduz sua investigação e trabalho ao
âmbito da Escola.

Em passado recente, tornou-se comum classificar crianças com dificuldades


para ler e escrever como disléxicas e, as mais agitadas, como hiperativas. É possível que
essas conceituações tenham sido divulgadas em consultórios e, por meio de pessoas
leigas, chegaram às escolas de forma indevida e generalizante. Já os profissionais da área
médica, que reforçavam o diagnóstico dos educadores, recorriam com frequência ao
tratamento com uso de medicamentos, agravando o trato dessa questão. De forma
contrária, Scoz (1996, p. 13) assevera:

os problemas de aprendizagem não são restringíveis, nem as causas


físicas ou psicológicas, nem a análise das conjunturas sociais. É preciso
compreendê-los a partir de um enfoque multidimensional, que amalgame
fatores orgânicos, cognitivos, afetivos, sociais e pedagógicos, percebidos
dentro das articulações sociais. Tanto quanto a análise, as ações sobre os
problemas de aprendizagem devem inserir-se num movimento mais amplo
de luta pela transformação da sociedade.

A Psicopedagogia tem por natureza o trabalho com a aprendizagem, o


conhecimento, sua aquisição, desenvolvimento e distorções. Esse trabalho utiliza-se de
processos e estratégias que levam em consideração a individualidade do educando, os
conhecimentos amplos que dão suporte ao estudo da aprendizagem humana, a
interferência do meio na forma de aprender, as dificuldades encontradas por pais e
educadores no processo educativo e as formas adequadas de intervenção que atendem
às necessidades dos envolvidos com o processo pedagógico. É uma prática comprometida
com a melhoria das condições de aprendizagem; por isso, geralmente, as pessoas
recorrem à Psicopedagogia apenas após o fracasso escolar, aqui considerada a resposta
insuficiente do aluno a uma exigência ou demanda da escola. Esta questão pode ser
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analisada e estudada diante de diferentes perspectivas: da sociedade, da escola e do


aluno.

Para Sisto (1996), a Psicopedagogia é uma área de estudos que trata da


aprendizagem escolar, quer seja no curso normal ou nas dificuldades. Já Campos (1996),
considera que os problemas de aprendizagem constituem-se no campo da
Psicopedagogia. A Psicopedagogia é vista por Souza (1996), como a área que investiga a
relação da criança com o conhecimento. Já o Código de Ética da Psicopedagogia, no
Capítulo I, Artigo 1º., afirma que "a Psicopedagogia é campo de atuação em saúde e
educação o qual lida com o conhecimento, sua ampliação, sua aquisição, distorções,
diferenças e desenvolvimento por meio de múltiplos processos" .

A Psicopedagogia é uma área de estudos relativamente nova, que pode e está


atendendo os sujeitos que apresentam problemas de aprendizagem. Segundo Bossa
(1994), a Psicopedagogia nasce com o objetivo de atender à demanda - dificuldades de
aprendizagem.

Segundo Ferreira (1995, p. 1412), a Psicopedagogia "é o estudo da atividade


psíquica da criança e dos princípios que daí decorrem, para regular a ação educativa do
indivíduo". Neste sentido, Bossa (1994) considera que o termo Psicopedagogia parece
deixar claro que se trata de uma aplicação da Psicologia à Pedagogia: por isso esta
definição não reflete o verdadeiro significado do termo.

De fato, a Psicopedagogia vai além da aplicação da Psicologia à Pedagogia,


pois, conforme Borges (1994) e Souza (1996), ela não pode ser vista sem o caráter
interdisciplinar, o qual implica na dependência da contribuição teórico-prática de outras
áreas de estudos para se constituir como tal. Por outro lado, a Psicopedagogia não é o
estudo da atividade psíquica da criança e dos princípios que daí decorrem, visto que ela
não se limita à aprendizagem da criança, mas abrange todo processo de aprendizagem.
Consequentemente, inclui quem está aprendendo, independente de ser criança,
adolescente ou adulto.

Para Bossa (1994), a Psicopedagogia, ainda está construindo seu corpo teórico,
portanto se constituindo como ciência. Assim sendo, a Psicopedagogia é uma área de
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Psicopedagogia Clínica e Institucional

estudos muito nova, portando pode ser vista com desconfiança por alguns. Por outro lado,
o fato de ser jovem, permite que se construa para atender os problemas enfrentados no
processo de ensino-aprendizagem

São crescentes os problemas referentes às dificuldades de aprendizagem no


Brasil. A Pedagogia embasada em teóricos conceituados como Piaget, Vygotsky, Freinet,
Ferreiro, Teberosky e outros, tem sido insuficiente para prevenir ou intervir nas
dificuldades de aprendizagem. Para tanto, a Psicopedagogia surge para auxiliar na
intervenção e prevenção dos problemas de aprendizagem.

Bossa (1994) destaca que os problemas de aprendizagem têm origem na


constituição do desejo do sujeito. Desnutrição, problemas neurológicos e genéticos, por
exemplo, têm sido apresentado como justificativa para o fracasso escolar, mas poucas são
as explicações que enfatizam as questões inorgânicas, ou seja, as de ordem do desejo do
sujeito.

Para entender os problemas de aprendizagem, realizar diagnósticos e


intervenções torna-se necessário considerar os fatores internos e externos. Por isso,
Bossa (1994, p. 8) ressalta que "os psicopedagogos têm construído sua teoria a partir do
estudo dos problemas de aprendizagem. E a clínica tem se constituído em eficiente
laboratório da teoria". Tanto na clínica quanto na instituição, o psicopedagogo atua
intervindo como mediador entre o sujeito e sua história traumática, ou seja, a história que
lhe acarretou a dificuldade em aprender. No entanto, o profissional não deve fazer parte do
contexto do sujeito, já que ele está contido numa dinâmica familiar, escolar ou social da
qual o profissional deve manter-se ciente do problema de aprendizagem, fazer a leitura e a
intervenção no mesmo. Assim, com o auxílio do psicopedagogo, o sujeito pode reelaborar
sua história de vida, reconstruindo fatos que estavam fragmentados e, então, retomar o
percurso normal de sua aprendizagem. Neste enfoque, o trabalho clínico do
psicopedagogo se completa com a relação entre o sujeito, sua historia pessoal e a sua
modalidade de aprendizagem. Já o trabalho preventivo objetiva "evitar" os problemas de
aprendizagem, enfatizando a instituição escolar, os processos didáticos e metodológicos, a
dinâmica institucional com todos profissionais nela inseridos.
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Chafic.com.br 10 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Para a Psicopedagogia é fundamental que o profissional faça uso do trabalho


interdisciplinar; pois os conhecimentos específicos das diversas teorias contribuem para o
resultado eficiente da intervenção ou prevenção psicopedagógica. Por exemplo, a
Psicanálise pode fornecer embasamento para compreender o mundo inconsciente do
sujeito; a Psicologia Genética proporciona condições para analisar o desenvolvimento
cognitivo do sujeito; a Psicologia possibilita compreender o mundo físico e psíquico do
sujeito; a Linguística permite entender o processo de aquisição da linguagem, tanto oral
quanto escrita. Nestas áreas encontramos autores renomados que contribuem para o
crescimento da Psicopedagogia , tanto no campo preventivo quanto clínico.

Em campo preventivo, conforme Bossa (1994), a Psicopedagogia tenta detectar


perturbações no processo ensino-aprendizagem, conhecer a dinâmica da instituição
educativa e orientar a instituição quanto à metodologia de ensino utilizada; isto, através de
orientação de estudos e apropriação dos conteúdos escolares. Pode-se concluir que o
campo de atuação do psicopedagogo é a aprendizagem, sua intervenção é preventiva e
curativa, pois se dispõe a detectar problemas de aprendizagem e "resolvê-los", também,
preveni-los evitando que surjam outros.

No campo preventivo, Bossa (1994) destaca que a função do psicopedagogo é


detectar possíveis problemas no processo ensino-aprendizagem; participar da dinâmica
das relações da comunidade educativa, objetivando favorecer processos de integração e
trocas; promover e realizar orientações metodológicas para o processo ensino-
aprendizagem, considerando as características do indivíduo ou grupo; colocar em prática o
processo de orientação educacional, vocacional e ocupacional, em grupo ou individual.

Ao referirem-se à Psicopedagogia, diversos autores enfatizam o seu caráter


interdisciplinar. Para Visca (1987, p. 33):

a Psicopedagogia nasceu como uma ocupação empírica pela necessidade


de atender as crianças com dificuldades na aprendizagem, cujas causas
eram estudadas pela medicina e psicologia. Com o decorrer do tempo, o
que inicialmente foi uma ação subsidiária destas disciplinas, perfilou-se
como um conhecimento independente e complementar, possuidor de um
objeto de estudo (o processo de aprendizagem) e de recursos diagnósticos,
corretores e preventivos próprios.
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Suporte e formação continuada para educadores

Para Kiguel (1983), a Psicopedagogia encontra-se em fase de organização de


um corpo teórico específico, visando a integração das ciências pedagógica, psicológica,
fonoaudiológica, neuropsicológica e psicolinguística para uma compreensão mais
integradora do fenômeno da aprendizagem humana. Para Scoz (1992, p.2), "a
Psicopedagogia estuda o processo de aprendizagem e suas dificuldades, e numa ação
profissional deve englobar vários campos do conhecimento, integrando-os e sintetizando-
os".

Já o Código de Ética da Psicopedagogia, no capítulo I do artigo 1º., dispõe que


“a Psicopedagogia é o campo de atuação em saúde e educação, o qual lida com o
conhecimento, sua ampliação, sua aquisição, distorções, diferenças e desenvolvimento
por meio de múltiplos processos”.

Como se observa, a Psicopedagogia defronta-se com um rico campo de


conhecimento e atuação em saúde e educação, que estuda o processo de aprendizagem
e suas dificuldades, tendo, portanto, um caráter preventivo e terapêutico, como apresenta
Golbert (1985, p.13):

o objeto de estudo da Psicopedagogia deve ser entendido a partir de dois


enfoques: preventivo e terapêutico. O enfoque preventivo considera o
objeto de estudo da Psicopedagogia o ser humano em desenvolvimento
enquanto educável. O enfoque terapêutico considera o objeto de estudo da
psicopedagogia a identificação, análise, elaboração de uma metodologia de
diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem.
Em outras palavras, a Psicopedagogia age preventivamente ao buscar construir
uma relação saudável com o conhecimento, não só no âmbito escolar, mas também na
família e na comunidade, esclarecendo as diferentes etapas do desenvolvimento para que
todos possam compreender e entender as características do educando, evitando-se assim
as cobranças insistentes de atitudes ou pensamentos, que não são próprios da idade. E
age terapeuticamente ao possibilitar que investigadores, interessados no processo de
construção do conhecimento e nas dificuldades que se apresentam nessa construção,
utilizem-se de instrumentos para identificar, analisar, planejar e intervir através das etapas
do diagnóstico e do tratamento.

Para Rubinstein (1992, p. 103):


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Suporte e formação continuada para educadores

num primeiro momento a Psicopedagogia esteve voltada para a busca e o


desenvolvimento de metodologias que melhor atendessem aos portadores
de dificuldades, tendo como objetivo fazer a reeducação ou a remediação e
desta forma promover o desaparecimento do sintoma. (...) A partir do
momento em que o foco de atenção passa a ser a compreensão do
processo de aprendizagem e a relação que o aprendiz estabelece com a
mesma, o objeto da psicopedagogia passa a ser mais abrangente: a
metodologia é apenas um aspecto no processo terapêutico, e o principal
objetivo é a investigação de etiologia da dificuldade de aprendizagem, bem
como a compreensão do processamento da aprendizagem considerando
todas as variáveis que intervêm nesse processo.

Assim, o foco de atenção do psicopedagogo passa a ser a reação da criança


diante das tarefas, considerando resistências, bloqueios, lapsos, hesitações, repetição,
sentimentos de angustias. Mesmo o trabalho clínico não deixa de ser preventivo, pois, ao
se tratar alguns transtornos de aprendizagem, é possível evitar o aparecimento de outros.

De acordo com Neves (1991, p.2):

a Psicopedagogia estuda o ato de aprender e ensinar, levando sempre em


conta as realidades interna e externa da aprendizagem, tomadas em
conjunto. E, mais, procurando estudar a construção do conhecimento em
toda a sua complexidade, procurando colocar em pé de igualdade os
aspectos cognitivos, afetivos e sociais que lhe estão implícitos".

Na linha mais direta seguem outros autores, ao tratarem a Psicopedagogia


como uma área de estudos nova que pode e está atendendo os sujeitos que apresentam
problemas de aprendizagem. Do ponto de vista de Weiss (1991, p. 6), "a Psicopedagogia
busca a melhoria das relações com a aprendizagem, assim como a melhor qualidade na
construção da própria aprendizagem de alunos e educadores". Para Sisto (1996), é uma
área de estudos que trata da aprendizagem escolar, quer seja no curso normal ou nas
dificuldades. Para Campos (1996), os problemas de aprendizagem constituem-se no
campo da Psicopedagogia. Para Sousa (1996), a Psicopedagogia é vista como a área que
investiga a relação da criança com o conhecimento. Para Bossa (1994), a Psicopedagogia
nasce com o objetivo de atender a demanda — dificuldades de aprendizagem. Ferreira
(1995, p.1412) diz que a Psicopedagogia “é o estudo da atividade psíquica da criança e
dos princípios que daí decorrem, para regular a ação educativa do indivíduo”. Segundo
Müller, a Psicopedagogia liga-se às características da aprendizagem humana: como se
aprende, como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por outros
fatores; como e porque se produzem as alterações da aprendizagem, como reconhecê-las
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Suporte e formação continuada para educadores

e tratá-las, e o que fazer para preveni-las e para promover processos de aprendizagem


que tenham sentido para os participantes.

De qualquer forma, no momento em que se verifica um crescimento na


conscientização quanto à forma própria e o ritmo de cada educando, o trabalho
psicopedagógico permite introduzir propostas ricas e desafiadoras, no sentido de
transformar as “dificuldades” dos educandos em algo construtivo e produtivo. Conforme
declara Delors (1999, p. 47):

ajudar a transformar a interdependência real em solidariedade desejada


corresponde a uma das tarefas essenciais da educação. Deve, por isso,
preparar cada indivíduo para se compreender a si mesmo e ao outro,
através de um melhor conhecimento do mundo. Para podermos
compreender a crescente complexidade dos fenômenos mundiais, e
dominar o sentimento de incerteza que suscita, precisamos, antes, adquirir
um conjunto de conhecimentos e, em seguida, aprender a relativizar os
fatos e a revelar sentido crítico perante o fluxo de informações.

Enfim, a Psicopedagogia ocupa-se da aprendizagem humana que adveio de


uma demanda: o problema da aprendizagem. E, como se preocupa com o problema de
aprendizagem, deve ocupar-se inicialmente do processo de aprendizagem, estudando
assim as características da aprendizagem humana, sem fazer distinção de idade ou sexo
para o atendimento.

Atualmente, a Psicopedagogia trabalha com uma concepção de aprendizagem


segundo a qual participa desse processo um equipamento biológico com disposições
afetivas e intelectuais que interferem na forma de relação do sujeito com o meio, sendo
que essas disposições influenciam e são influenciadas pelas condições socioculturais do
sujeito e do seu meio.

Ao psicopedagogo cabe saber como se constitui o sujeito, como este se


transforma em suas diversas etapas de vida, quais os recursos de conhecimento de que
ele dispõe e a forma pela qual produz conhecimento e aprende. É preciso, também, que o
psicopedagogo saiba o que é ensinar e o que é aprender; como interferem os sistemas e
métodos educativos; os problemas estruturais que intervêm no surgimento dos transtornos
de aprendizagem e no processo escolar.
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Chafic.com.br 14 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Para Alicia Fernández (1991), todo sujeito tem a sua modalidade de


aprendizagem, ou seja, meios, condições e limites para conhecer, e esse “saber” só é
possível com uma formação que os oriente sobre três pilares: prática clínica, construção
teórica e tratamento psicopedagógico-didático. No trabalho clínico, conceber o sujeito que
aprende como um sujeito epistêmico-epistemofílico implica procedimentos diagnósticos e
terapêuticos que considerem tal concepção. Para isso, é necessária uma leitura clínica na
qual, através da escuta psicopedagógica, se possa decifrar os processos que dão sentido
ao observado e norteiam a intervenção. Ainda conforme Fernández (1991), faz-se
necessário incorporar conhecimentos sobre o organismo, o corpo, a inteligência e o
desejo, estando esses quatro níveis basicamente relacionados ao aprender.
Considerando-se o problema de aprendizagem na interseção desses quatro níveis, as
teorias que se ocupam do organismo, do corpo, da inteligência e do inconsciente,
separadamente, não conseguem resolvê-lo. Ou seja, é imperioso ter-se uma teoria
psicopedagógica fundamentada em conhecimentos de outros corpos teóricos que,
ressignificados, sustentem essa prática.

A Psicopedagogia necessita de várias áreas para compor o seu objeto de


estudo, tais como Psicologia, Filosofia, Neurologia, Sociologia, Línguistica e Psicanálise,
de modo a fundamentar a constituição de uma teoria psicopedagógica. Detalhadamente, a
complexidade do objeto de estudo da Psicopedagogia requer conhecimentos em outras
teorias mais específicas, como a Psicanálise (que encarrega-se do inconsciente), a
Psicologia Social (que observa a construção do sujeito e suas relações familiares e
comunitárias, bem como as condições socioeconômicas e culturais), a Epistemologia ou
Psicologia Genética (que analisa e descreve o processo de construção do conhecimento a
partir da interação com os outros e com os objetos), Linguística (que se encarrega da
compreensão da linguagem), a Pedagogia (que contribui com as diversas abordagens do
processo ensino-aprendizagem) e a Neuropsicologia (que possibilita a compreensão dos
mecanismos cerebrais que regem as atividades mentais).

De modo sistêmico, essas teorias possibilitam meios mais eficazes para refletir
e operar no campo psicopedagógico, cujo conhecimento não se cristaliza em uma
delimitação fixa, nem nos déficits e alterações subjetivas do aprender, mas avalia a
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Suporte e formação continuada para educadores

possibilidade do sujeito, a disponibilidade afetiva de saber e de fazer, reconhecendo que o


saber é próprio do sujeito.

Fonseca Filho (2009, p.1) assim se refere à Psicopedagogia:

voltada para o campo da aprendizagem, ela trabalha com a prevenção, o


diagnóstico, com a busca de soluções para os problemas aí encontrados.
Diferentemente do saber isolado e compartimentado das outras disciplinas,
a Psicopedagogia visa superar a fragmentação do conhecimento, valendo-
se de uma perspectiva transdisciplinar. O saber psicopedagógico surge não
da divergência entre as demais áreas do conhecimento, mas da
convergência entre elas. Bem diferente da visão excludente e segregária
que fecha cada saber em uma especialidade, a Psicopedagogia se abre
numa relação dialógica com as outras formas de conhecimento.

E Fonseca Filho (2009, p.1) completa:

se antes o princípio norteador do conhecimento e, consequentemente, da


educação e da aprendizagem era o da análise, hoje o caminho é outro. A
velha concepção do dividir para entender cede lugar ao unir para conhecer,
compreender. Dentro dessa nova perspectiva, a Psicopedagogia, passo a
passo, vai se firmando como um saber munido dos novos olhares capazes
de enxergar a rede complexa que envolve a aprendizagem.

Conforme Júlia Eugênia Gonçalves1 (apud UTÓPICO, 2008, p.1), é preciso que
seja feita uma ressalva quanto a maneira como a Psicopedagogia encara a aprendizagem
humana, vista sempre como uma feição própria do indivíduo se relacionar com o
conhecimento gerado e armazenado pela cultura, bem como os problemas de
aprendizagem como oriundos de fraturas ocorridas nessa relação, vínculos mal
estabelecidos entre aprendentes e ensinantes, seja por fatores de natureza orgânica,
cognitiva ou emocional. O trabalho psicopedagógico, portanto, não se apresenta como
reeducativo, mas, sim, como terapêutico (uma terapia centrada na aprendizagem); não se
dirige para um público específico, porque aprendentes somos todos nós, humanos:
crianças, jovens, ou velhos que nos mantemos vivos e atuantes, enquanto aprendemos e
ensinamos e podemos contribuir com a nossa marca para a evolução da humanidade.

Ainda segundo Gonçalves (apud UTÓPICO, 2008, p.1), a atuação do


psicopedagogo difere daquela do psicólogo, pois este não está preocupado
especificamente com a aprendizagem, como aquele. Em sua complexidade, o ser humano
1 Júlia Eugênia Gonçalves é doutoranda em Filosofia e Ciências da Educação pela Universidade de Leon,
Espanha, mestre em Educação pela UFF/RJ, especialista em Psicopedagogia Clínica, pela E.P.S.I.B.A,
Argentina, presidente da Fundação Aprender, Varginha (MG) e conselheira eleita da ABPp.
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Chafic.com.br 16 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

articula uma maneira de pedir ajuda, quando está em dificuldades de qualquer natureza.
Seja a criança, apresentando uma dificuldade específica na Escola; seja o jovem fazendo
muitas vezes uma verdadeira negação da escolaridade e enveredando pela marginalidade;
seja o idoso, entrando em depressão por se julgar incapaz de aprender e continuar
contribuindo para sua comunidade. Quando esse pedido de ajuda se dá via aprendizagem,
aí deve atuar o psicopedagogo, por ser o profissional cuja formação o habilita para
compreender e atender tais solicitações.

Os versos abaixo, de autoria da pedagoga Júlia Eugênia Gonçalves (apud


UTÓPICO, 2008, p.1), tenta responder à pergunta “o que é Psicopedagogia?”:
Só posso lhe responder,
que é uma arte, um ofício, uma paixão!
um saber que se constrói
com muita informação.
Um fazer de cada dia,
em trabalho de mudança,
conquistando para a vida,
adulto, jovem e criança.
Para a Psicopedagogia,
cada ser é ensinante
e ao mesmo tempo aprendente.
dirige-se ao conhecimento
de modo muito envolvente,
e encontra-se a si mesmo
em processo de autoria.
Se quiser de fato conhecê-la,
venha se apropriar,
desvendar,
estudar ...
o caminho foi aberto
ao decidir perguntar!
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Chafic.com.br 17 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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2. A HISTÓRIA DA PSICOPEDAGOGIA

Desde que o homem existe, ele se desenvolve e aprende; assim, pode-se


pensar a história da Psicopedagogia a partir de várias origens. Enquanto campo de
conhecimento humano, a Psicopedagogia tem sido influenciada por diversas correntes
teóricas e, em seu histórico, sempre esteve voltada para as questões relativas à
aprendizagem.

Segundo Bossa (2000), a Psicopedagogia nasceu na Europa, no século XIX,


diante da preocupação médica com os problemas de aprendizagem. A preocupação com
os problemas de aprendizagem tornou-se objeto de estudo por filósofos, médicos e
educadores. Basicamente, a ênfase era na reeducação e foi formada uma equipe médico-
pedagógica pelo educador Seguim e pelo psiquiatra Esquilo, passando a neuropsiquiatria
infantil a estudar os problemas neurológicos que afetam a aprendizagem. Nesta visão,
buscava-se enfocar problemas que ocorriam com os sujeitos em relação à aprendizagem,
a partir de uma abordagem neuropsicológica, já que a existência de problemas de
aprendizagem apresentados por tais sujeitos gerava fracassos no espaço e no tempo da
escola e, para que se chegasse a sua solução, deveria-se investigar qual era a dificuldade
ou problema.

Assim, na França, durante as décadas de 40 a 60, a ação do pedagogo era


vinculada à do médico. Conforme Mery (1985), era conhecida como “pedagogia curativa”.
A partir dos trabalhos do Dr. Theodore Heller2, considerado o pai da Psicopedagogia,
começa o interesse pelos problemas escolares, que afetam a personalidade da criança.

Em Paris, no ano de 1946, Juliette Boutonier e George Mauco criaram o


primeiro centro psicopedagógico, com orientação médica e pedagógica. Unindo os
conhecimentos das áreas de Psicologia, Psicanálise e Pedagogia, para tratar crianças com
comportamentos socialmente inadequados, tanto na escola como no lar, além de atender
crianças com dificuldades de aprendizagem embora dotadas de níveis normais de

2 Em 1908, em Viena, Áustria, o Dr. Theodore Heller identificou, pela primeira vez, o Transtorno
Degenerativo da Infância (TDI), que passou a ser conhecida como Síndrome de Heller. A TDI é caracterizada
pela regressão no desenvolvimento da criança, a partir dos dois ou três anos de idade. Antes da regressão,
por exemplo, a criança apresenta habilidades para jogar e comunicar-se.
18
Chafic.com.br 18 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

inteligência. O trabalho considerava também as crianças que apresentavam doenças


crônicas como diabetes, tuberculose, cegueira, surdez ou problemas motores. A
denominação “Psicopedagógico” foi escolhida em detrimento de “Médico Pedagógico”,
porque acreditava-se que, dessa forma, os pais teriam menor resistência em enviar seus
filhos.

A criação do centro psicopedagógico é citado por Mery (apud BOSSA 2000, p.


37):

Na literatura francesa — que, como vimos, influencia as idéias sobre


psicopedagogia na Argentina (a qual, por sua vez, influencia a práxis
brasileira) – encontra-se, entre outros, os trabalhos de Janine Mery, a
psicopedagoga francesa que apresenta algumas considerações sobre o
termo psicopedagogia e sobre a origem dessas idéias na Europa, e os
trabalhos de George Mauco, fundador do primeiro centro médico
psicopedagógico na França, onde se percebeu as primeiras tentativas de
articulação entre Medicina, Psicologia, Psicanálise e Pedagogia, na solução
dos problemas de comportamento e de aprendizagem.

Esperava-se, através dessa união entre ciências, conhecer a criança e o seu


meio, para que fosse possível compreender o caso para determinar uma ação
reeducadora. Diferenciar os que não aprendiam, apesar de inteligentes, daqueles que
apresentavam alguma deficiência mental, física ou sensorial, era uma das preocupações
da época. Acreditava-se que os comprometimentos na área escolar eram provenientes de
causas orgânicas, por isso procurava-se identificar no físico as determinantes das
dificuldades do aprendente. Nesse contexto, criou-se um caráter terapêutico da
Psicopedagogia. Conforme Bossa (2000), a crença de que os problemas de aprendizagem
eram causados por fatores orgânicos perdurou por muitos anos e determinou a forma do
tratamento dada à questão do fracasso escolar até bem recentemente.

Conforme relata Peres (1998, p.43), acredita-se que a primeira experiência


psicopedagógica no Brasil ocorreu em 1958, quando na Escola Guatemala, no antigo
estado da Guanabara (hoje, Rio de Janeiro), foi criado o Serviço de Orientação
Psicopedagógica (SOPP). O principal objetivo do SOPP foi melhorar a relação professor-
aluno, bem como estabelecer um clima mais receptivo para a aprendizagem, aproveitando
para isso as experiências anteriores dos alunos.
19
Chafic.com.br 19 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Assim, nas décadas de 50 e 60, a categoria profissional dos psicopedagogos


organizou-se no país, com a divulgação da abordagem psiconeurológica do
desenvolvimento humano. Nessa época, as dificuldades de aprendizagem eram
associadas a uma disfunção neurológica denominada de “disfunção cerebral mínima”
(DCM), que virou moda nesse período, servindo para camuflar problemas
sociopedagógicos (BOSSA, 2000, p. 48-49). Diante dos problemas de aprendizagem, a
primeira atitude dos familiares era levar seus filhos a uma consulta médica. Devido a esse
pensamento, ainda hoje é comum que o psicopedagogo receba no consultório crianças
que já foram examinadas por um médico, por indicação da escola ou mesmo por iniciativa
da família, devido aos problemas que está apresentando na escola (Id. Ibid., p. 50).

Nessa linha, explica Visca (apud BOSSA, 2000, p.21):

a Psicopedagogia foi inicialmente uma ação subsidiada da Medicina e da


Psicologia, perfilando-se posteriormente como um conhecimento
independente e complementar, possuída de um objeto de estudo,
denominado de processo de aprendizagem, e de recursos diagnósticos,
corretores e preventivos próprios.

A Psicopedagogia foi introduzida no Brasil observando os modelos médicos de


atuação, mas, nos anos 70, alguns profissionais, preocupados com os altos índices de
evasão escolar e repetência, engajados no estudo das causas e intervenções dos
problemas educacionais relacionados ao fracasso escolar, trouxeram da França e
Argentina os aportes teóricos sobre a Psicopedagogia. Assim, dentro da concepção de
problemas de aprendizagem é que se iniciaram, então, os cursos de formação de
especialistas em Psicopedagogia, na Clínica Médico-Pedagógica de Porto Alegre, com a
duração de dois anos (Id. Ibid., p. 52).

Com a visão de uma formação independente, o Brasil recebeu contribuições


para o desenvolvimento da Psicopedagogia, especialmente de profissionais argentinos,
como Jorge Visca, Sara Paín, Jacob Feldmann, Ana Maria Muniz, Alicia Fernández e
Marina Muller. Novas descobertas científicas e movimentos sociais influenciaram a
Psicopedagogia brasileira. O professor argentino Jorge Visca tornou-se um dos maiores
contribuintes da difusão psicopedagógica no país. Foi o criador da Epistemologia
Convergente, linha teórica que propõe o trabalho com a aprendizagem utilizando-se da
integração de três linhas da Psicologia (VISCA, 1991, p. 66):
20
Chafic.com.br 20 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Escola de Genebra, psicogenética de Jean Piaget (ninguém pode


aprender além do que sua estrutura cognitiva permite);
Escola Psicanalítica, Freud (dois sujeitos com igual nível cognitivo e
distintos investimentos afetivos em relação a um objeto aprenderão de
forma diferente); e
Escola de Psicologia Social, de Enrique Pichon Rivière (se ocorrer uma
paridade do cognitivo e afetivo em dois sujeitos de distintas culturas,
também suas aprendizagens em relação a um mesmo objeto serão
diferentes, devido às influências que sofreram em seus meios sócio-
culturais).

Conforme França (apud SISTO et al., 2002, p.101):


Visca propõe o trabalho com a aprendizagem utilizando-se de uma
confluência dos achados teóricos da escola de Genebra, em que o principal
objeto de estudo são os níveis de inteligência, com as teorizações da
psicanálise sobre as manifestações emocionais que representam seu
interesse predominante. A esta confluência, junta, também, as proposições
da psicologia social de Pichon Rivière, mormente porque a aprendizagem
escolar, além do lidar com o cognitivo e com o emocional, lida também com
relações interpessoais vivenciadas em grupos sociais específicos.

A análise do sujeito através de correntes distintas do pensamento psicológico


concebeu uma proposta de diagnóstico, de processo corretor e de prevenção, dando
origem ao método clínico psicopedagógico no Brasil, conforme atesta Visca (1987, p.16):
quando se fala de psicopedagogia clínica, se está fazendo referência a um
método com o qual se tenta conduzir à aprendizagem e não a uma corrente
teórica ou escola. Em concordância com o método clínico podem-se utilizar
diferentes enfoques teóricos. O que eu preconizo é o da epistemologia
convergente.

O professor Visca implantou centros psicopedagógicos no Rio de Janeiro, São


Paulo, Campinas, Salvador e Curitiba. Ministrou aulas em Salvador, Porto Alegre, Rio de
Janeiro, São Paulo, Campinas, Itajaí, Joinville, Maringá, Goiânia, Foz do Iguaçu e muitas
outras (apud BARBOSA, 2001, p. 14).

Em decorrência de novas descobertas científicas e movimentos sociais, a


Psicopedagogia sofreu muitas influências. Novas abordagens teóricas sobre o
desenvolvimento e a aprendizagem, bem como inúmeras pesquisas sobre os fatores intra
e extra-escolares na determinação do fracasso escolar, contribuíram para uma nova visão
mais crítica e abrangente.
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Suporte e formação continuada para educadores

Entre os anos 60 e 70, a Psicopedagogia interessou-se pelos


condicionamentos, saindo da abordagem focada apenas nas possíveis falhas e avaliando
os desempenhos dos sujeitos em situação de aprendizagem numa perspectiva
behaviorista. Considerando os porquês das dificuldades e dos problemas de
aprendizagem nos sujeitos, os estudos psicopedagógicos da década de oitenta mudaram
o enfoque e passaram a ser consideradas as diferentes influências do meio social e
cultural, abandonando a perspectiva de somente observar como estas dificuldades e
problemas se manifestavam. A visão que surgiu, então, é considerada como sendo uma
ótica social, levando em conta a relevância das influências do meio sócio-cultural para a
aprendizagem. As idéias de Lev Vygotsky3 ganharam espaço e fundamentaram novas
perspectivas para se compreender as dinâmicas presentes nos processos de
aprendizagem, construindo um perfil profissional psicopedagógico baseado na
interdisciplinaridade como metodologia e proposta de adoção de estratégias de
intervenção e pesquisa.

Nesse caso, a Psicopedagogia deve ser compreendida como área de estudo


interdisciplinar, que abrange diferentes áreas de conhecimento e cujo campo de atuação
vem a ser identificado por meio do processo de aprendizagem e "que tem por objeto de
estudo o ser cognoscente" (SILVA, 1998, p.51)

Neste mesmo sentido, Berlim e Portella (2007, p.85), argumentam que:


a partir dos anos 90, a práxis psicopedagógica ampliou sua visão e
possibilidade de trabalho, entendendo o ser cognoscente como sujeito ativo
de sua aprendizagem e, extremamente, vinculado com o outro que ensina.

3 Lev Semenovitch Vygotsky (1896-1934) foi um psicólogo bielorrusso, descoberto nos meios acadêmicos
ocidentais depois da sua morte, causada por tuberculose, aos 37 anos. Pensador importante, foi pioneiro na
noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais (e
condições de vida). As obras de Vygotsky incluem alguns conceitos que se tornaram incontornáveis na área
do desenvolvimento da aprendizagem. Um dos conceitos mais importantes é o de Zona de Desenvolvimento
Proximal, que se relaciona com a diferença entre o que a criança consegue realizar sozinha e aquilo que,
embora não consiga realizar sozinha, é capaz de aprender e fazer com a ajuda de uma pessoa mais
experiente. Vygotsky enfatiza a relação entre quem aprende e aquele que ensina, como partícipes de um
mesmo processo chamado mediação, como um pressuposto da relação eu-outro social. A relação mediada
não se dá necessariamente pelo outro corpóreo, mas pela possibilidade de interação com signos, símbolos
culturais e objetos. Para Vygotsky a aprendizagem relaciona-se ao desenvolvimento desde o nascimento,
sendo a principal causa para o desabrochar do desenvolvimento.
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Chafic.com.br 22 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

É necessário ressaltar também que a atualização profissional é imperiosa, uma


vez que trabalhando com tantas áreas, a descoberta e a produção do conhecimento é
bastante acelerada.

Em 1979, após quase vinte anos de práticas psicopedagógicas, na cidade de


São Paulo, foi criado o primeiro curso em nível de pós-graduação em Psicopedagogia, no
Instituto Sedes Sapientiae. Isso serve para mostrar como a área de Psicopedagogia é
relativamente nova no Brasil. Muitos outros cursos de Psicopedagogia surgiram desde
então e este crescimento indica uma grande procura por esta profissão. Para Fagali (2007,
p. 19-20), uma das matrizes geradoras do curso de Psicopedagogia é o Instituto Sedes
Sapientiae. Ela ressalta que a retomada das raízes do curso de formação em
Psicopedagogia do Sedes Sapientiae justifica-se por ter sido um curso pioneiro na
realidade de São Paulo, gerador de líderes de mudança que prosperaram em vários
projetos. Alguns profissionais que terminaram a especialização em Psicopedagogia, no
Instituto Sedes Sapientiae, organizaram um grupo para estudar e definir a prática
psicopedagógica que melhor trabalhasse os problemas de ensino, dando origem à
Associação Estadual de Psicopedagogia de São Paulo (AEP), em 1982, conforme cita
Rubinstein (1987, p.13).

A partir de 1985, a Psicopedagogia passou a tratar a aprendizagem como


processo, o qual se constitui na construção do saber, conceituando aprendizagem e suas
dificuldades, com base em uma interseção das contribuições de diferentes áreas, para as
quais também contribui com o conhecimento.

Na década de 90, com os avanços em outros campos do saber humano,


principalmente das Neurociências, da Biologia, da Sociologia e da Psicolingüística, entre
outras revisões epistemológicas, a Psicopedagogia inseriu-se, definitivamente, como um a
área de atuação e um campo do saber humano interdisciplinar.

Após seis anos de funcionamento, a AEP transformou-se na Associação


Brasileira de Psicopedagogia (ABPp). A ABPp possibilitou aos psicopedagogos
estruturarem um espaço de discussão sobre o corpo teórico de conhecimentos
psicopedagógicos, através do seu vasto acervo de trabalhos científicos publicados,
dissertações de mestrado e teses de doutorado. Peres (1998, p.43) aborda que ao longo
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Chafic.com.br 23 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

de sua existência, a ABPp tem promovido vários encontros e congressos visando dentre
outras coisas refletir sobre: a formação do psicopedagogo, a atuação psicopedagógica
objetivando melhorias da qualidade de ensino nas escolas, a identidade profissional do
psicopedagogo, o campo de estudo e atuação do psicopedagogo, o enfoque
psicopedagógico multidisciplinar.

A ABPp organizou a identidade profissional do psicopedagogo e os objetivos da


psicopedagogia, nos diferentes estados da federação, representando e divulgando a
Psicopedagogia. Outro fato importante ocorreu em 1992, quando entrou em vigor o Código
de Ética aprovado em assembléia da ABPp, durante o “V Encontro e II Congresso de
Psicopedagogia”. Esse Código passou a ser o documento norteador dos princípios da
Psicopedagogia, das responsabilidades gerais do psicopedagogo, das relações com
outras profissões e a importância do sigilo profissional. Posteriormente, na Assembleia
Geral do III Congresso Brasileiro de Psicopedagogia, em 1996, o Código de Ética recebeu
alterações.

A Psicopedagogia nascente na época moderna se diferencia como área de


atuação e reflexão sobre a práxis psicopedagógica, a partir da aprendizagem humana, ao
levar em conta a articulação entre subjetividade e a objetividade humana e o
conhecimento nas diversas maneiras de aprender. O objeto de estudo da Psicopedagogia
se sintetiza naquilo que Silva (1998, p. 25) nos apresenta:

no início, seu objeto são os sintomas das dificuldades de aprendizagem,


como desatenção, desinteresse, lentidão, etc. e, assim, seu objetivo é
remediar esse sintomas. A dificuldade de aprendizagem seria apenas um
mau desempenho, um produto a ser tratado.

Entretanto, se o conhecimento for compreendido como processo contínuo, tal


como fazem os psicopedagogos atualmente, torna-se possível situar a Psicopedagogia
num patamar mais alto, obtendo-se assim uma visão mais ampla.

Diferentemente dos primórdios do movimento educacional, em que a análise do


insucesso escolar das crianças restringia-se ao próprio aluno, a atual tendência considera
o insucesso como sintoma social e não uma mera patologia. Portanto, não há como
desconhecer o papel relevante do pedagogo que, cada vez mais, tem contribuído para a
integração entre criança e instituições, onde a aprendizagem é o foco das atenções.
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Chafic.com.br 24 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

É um momento bastante fecundo para a Psicopedagogia, onde novas


teorizações e aportes significativos surgem como elementos fomentadores da práxis
psicopedagógica que vem ganhando novas perspectivas de ação e novos espaços para
sua inserção. Com isso, a Psicopedagogia avança no sentido de objetivar, cada vez mais,
o sujeito na construção de sua autonomia, vinculando o eu cognoscente às suas relações
com a aprendizagem. Processos de investigação sobre a construção, integração e
expansão deste sujeito aprendente se tornam cada vez mais presentes na pesquisa
psicopedagógica e é muito rica a produção que pode-se notar neste campo. O processo
de aprendizagem passou a ser tema essencial para se compreender a construção do
sujeito cognoscente, meta maior a ser alcançada para que ele se torne capaz de ser o
próprio responsável pela construção do conhecimento.

Numa perspectiva tradicional, sabe-se que a aprendizagem tem sido


compreendida como pista de mão única, onde o professor possui a tarefa de repassar o
saber para o aluno, percebido como um ser que precisa receber este saber, sem que
nenhum outro processo seja válido. Desconsiderando as relações sociais, nesta visão do
processo de aprendizagem, somente o professor detém o saber e entre alunos e
professores nenhuma outra espécie de vínculo pode haver a não ser esta: o professor
sabe e o aluno não sabe, portanto, a tarefa educativa deve ser a de repassar o que o
professor sabe para o aluno, que, supostamente, nada sabe e só vai aprender se receber
o saber.

Na atualidade, muitos são os movimentos pedagógicos para mudar


definitivamente este modo de fazer educação, visto que existem diversos trabalhos e
diferentes práticas que propõem mudanças de olhar e percepção sobre a aprendizagem,
redefinindo os agentes de todo o processo e seus respectivos papéis.

De acordo com Fernández (1991), são estes movimentos de adaptação que


configuram a arquitetura onde a atribuição simbólica de significações próprias, que o
sujeito aprendente faz, em relação aos processos de aprendizagem onde interage.
Entretanto, para que todo este processo favoreça adaptações inteligentes, é necessário
que os movimentos de acomodação e assimilação4 estejam em equilíbrio, ou seja, um não
4 Nos estudos de Piaget, a teoria da equilibração, de uma maneira geral, trata de um ponto de equilíbrio
entre a assimilação e a acomodação. Acomodação é o movimento que o organismo realiza para se submeter
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pode predominar em excesso sobre o outro. Com os estudos de Sara Paín é possível
observar os processos de hipoassimilação / hiperacomodação, e de hipoacomodação /
hiperassimilação, que constituem as diferentes modalidades presentes nos processos
representativos que afetam a formação deste equilíbrio.

Tais modalidades interferem tanto nas reações e respostas que o organismo


produz em sua interação com o meio, quanto nos processos de aprendizagem, que se
pressupõe normal quando esta é produzida numa relação onde os movimentos
assimilativos e acomodativos apresentem-se em equilíbrio.

São as elaborações objetivantes e subjetivantes que farão com que o sujeito


aprendente e desejante, de fato, aprenda, pois aprender é apropriar-se, e tal apropriação
permite que o objeto do conhecimento, da aprendizagem, seja ordenando e classificado.
No aspecto subjetivo, tal movimento irá gerar o reconhecimento e a apropriação do objeto,
como resultado das vivências e das experiências que o aprendente obteve com sua
relação e interação com este objeto. Vale a pena relembrar que todo este processo ocorre
na articulação das instâncias do organismo, do corpo, da inteligência e do desejo que
constituem o mover-se do sujeito aprendente, além dos vínculos que consegue
estabelecer com os outros aprendentes e com os seus ensinantes.

Todas estas idéias favorecem o pensar, agir e refletir para as questões relativas
à aprendizagem em nosso tempo. Se o aprendente se faz sujeito desejante de modo
gradativo, a construção do seu saber deve ser investigada e analisada. Cabe a todo
educador ser ponto de referência, suporte colaborativo e atencioso, observando
expectativas e necessidades e valorizando, cada vez mais, as construções e descobertas
de seus aprendentes.

Nos espaços e tempos educacionais, deve-se buscar de modo permanente o


aprender e o ensinar com prazer, proporcionando que esta sensação de prazer esteja
presente nas ações e estratégias de aprendizagem. A aprendizagem afeta a dinâmica

às exigências exteriores, adequando-se ao meio. Assimilação consiste no processo mental pelo qual os
dados das experiências se incorporam aos esquemas de ação e aos esquemas operatórios existentes, num
movimento de integração do meio com o organismo.
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Chafic.com.br 26 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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individual de cada aprendente e tem forte interferência no articular das instâncias do


organismo, do corpo, do desejo e da inteligência. As ações como educador devem
considerar tais interferências, centrando-se na busca pelas transformações. A
aprendizagem é possibilidade, mas sem o desejo não se transforma em oportunidade. Na
contemporaneidade, são requeridas novas posturas e iniciativas, compreendendo o
espaço e o tempo da escola como estímulos à construções de teias de significações, onde
o aprendente possa transformar-se e libertar suas potencialidades, vivenciando ricas
experiências com os objetos que interage. Em suas ações de ensino, cada educador pode
construir os espaços de confiança, credibilidade e amorosidade, onde seja possível a
alegria da autoria, a alegria do aprender e do ensinar, a alegria de viver enfim.
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Chafic.com.br 27 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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3. O PERFIL DO PSICOPEDAGOGO

O foco de atenção do psicopedagogo é a reação da criança diante das tarefas,


considerando resistências, bloqueios, lapsos, hesitações, repetição, sentimentos de
angustias. O psicopedagogo ensina como aprender e para isso necessita aprender o
aprender e a aprendizagem. Cabe ao psicopedagogo saber como se constitui o sujeito,
como este se transforma em suas diversas etapas de vida, quais os recursos de
conhecimento de que ele dispõe e a forma pela qual produz conhecimento e aprende.
Esse saber exige que o psicopedagogo recorra a teorias que lhe permitam aprender, bem
como às leis que regem esse processo: as influências afetivas e as representações
inconscientes que o acompanham, o que pode comprometê-lo e o que pode favorecê-lo.

O psicopedagogo é o profissional que auxilia na identificação e na resolução


dos problemas no processo do aprender. Esse profissional precisa estar capacitado a lidar
com as mais diversas dificuldades de aprendizagem, um dos fatores atuais que leva uma
boa parcela de alunos à multirrepetência, ao fracasso escolar e, consequentemente, à
evasão. O profissional da psicopedagogia precisa deter um conhecimento científico
específico oriundo da articulação de várias áreas envolvidas nos processos e caminhos do
aprender. Cabe a ele intervir, visando a solução dos problemas de aprendizagem e tendo
como foco o aluno ou a organização educadora (escola). Realizar o diagnóstico e a
intervenção psicopedagógica também é uma atitude que poderá ser efetivada através de
métodos, instrumentos e técnicas próprias da psicopedagogia, sendo relevantes as
questões ligadas à prevenção.

O prefixo “psi“ deriva de “physis“, utilizado pelos pré-socráticos para definir a


totalidade de tudo que é, de tudo que nasce, de tudo que se desenvolve. Conforme Leloup
(2000), Filon de Alexandria descrevia a condição humana em quatro dimensões: corporal
(soma), psíquica (psyche), cognitiva (nous) e espiritual (pneuma). Essas quatro estruturas
permitem a qualquer indivíduo captar o conhecimento e reproduzir-se como humano, para
ser. Ou seja, o prefixo “psi” é aplicável a todos os seres humanos e para se realizar um
trabalho “psi” é necessário interpretar. O homem é o único animal hermenêutico. Ele é
dotado de um pensamento reflexivo, que o capacita a fazer um juízo de valor sobre si
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Chafic.com.br 28 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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mesmo, sobre os outros e sobre a realidade que o cerca. Desde os tempos de Filon, os
terapeutas eram hermeneutas habilitados na arte da interpretação dos textos sagrados,
dos sonhos e dos eventos da existência. Aqueles que Fílon de Alexandria chamava de
terapeutas tinham uma maneira de viver bem diferente daquela que vivenciam os que hoje
levam esse nome. Mas será o psicopedagogo um terapeuta? Terapia é, sem dúvida
nenhuma, a “arte da interpretação“. Efeitos e afetos modificam-se em direção a um melhor
ou a um pior, de acordo com o sentido que se dá a um sofrimento, um evento, um sonho
ou um texto . Os acontecimentos são o que são, o que se faz deles depende do sentido
que se lhes dá.

Terapeuta é aquele que cuida, que se desvela em direção ao outro procurando


aliviar-lhe os sofrimentos. É aquele que cuida, não o que cura. Ele está lá apenas para
colocar o sujeito nas melhores condições possíveis, a fim de que este atue e venha a se
curar. Terapeuta é também aquele que honra, e que, portanto, é responsável por uma
ética subjacente à sua atividade. Neste sentido, os terapeutas são também filósofos,
porque estão sempre em busca da verdade que se encontra por detrás das aparências.

A Psicopedagogia é uma forma de terapia. Daí não haver a distinção, como


lembra Fernández (1991), ao abordar as diferenças entre psicopedagogia institucional e
clínica. Todo trabalho “psi” é clínico, seja realizado numa instituição ou entre as quatro
paredes de um consultório. Clínica é a atitude do psicopedagogo, de respeito pelas
vivências do outro, de disponibilidade perante seus sofrimentos, de olhar e de escutar
além das aparências que lhe são expostas. O psicopedagogo é um terapeuta que trabalha
com esta característica básica do ser humano que é a aprendizagem

Fílon de Alexandria definiu os terapeutas como aqueles que cuidavam do corpo,


das imagens e dos arquétipos que o animam, do desejo e do outro:

1) cuidar do corpo: não o corpo compreendido como organismo, não um


corpo objeto, mas um corpo sujeito, que “fala“. Cuidar do corpo é
prestar atenção ao sopro que o anima e que possibilita a
aprendizagem. É preciso um movimento para que ocorra
aprendizagem. Caberá ao terapeuta a função de dialogar com este
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Chafic.com.br 29 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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corpo, desatando os nós que se colocam como impeditivos à vida e à


inteligência criativa.

2) cuidar do ser: uma escuta e um olhar dirigido para aquele que é, ou seja,
para aquilo que não se apresenta como doentio e mortal. Cuidar do
ser é não estar voltado primeiramente para a doença, ou para o
doente, mas para aquilo que se acha fora do alcance da doença e
que mantém o sujeito vivo. É olhar em primeiro lugar para aquilo que
vai bem, para o ponto de luz que pode dissipar as trevas. É cuidar no
homem aquilo que escapa ao homem, abrindo espaços para
modificações, para mudanças; um espaço onde o homem possa se
recolher e descansar, encontrando seus próprios caminhos para
aprender. Não é ensinar, é possibilitar aprendizagens.

3) cuidar do desejo: uma palavra que ocorre muitas vezes na obra de Fílon
é “equilíbrio”. Cuidar do desejo não é percorrer um caminho de
excessos, mas um caminho do meio. O desejo é “o do outro e o meu”.
No trabalho psicopedagógico não existe professor e aluno, mas
ensinante e aprendente que interagem sem possuírem papéis fixos ou
predeterminados. Não se trata de querer a todo custo fazer
compreender, querer que o outro compartilhe as nossas mais íntimas
convicções. Isso de nada serve e denota uma vontade de poder.
Melhor é respeitar o ritmo do outro como se respeita o próprio ritmo.
Cuidar do desejo é atentar para as próprias necessidades, é procurar
supervisão e terapia para a melhoria de nossa escuta e de nosso
olhar, que se direciona tanto para o outro como para nós mesmos.

4) cuidar do outro: a verdade é a condição da alegria e, por isso, é


necessário ver com clareza. Isso supõe sair das projeções que não
nos deixam ver o que é. Isso significa olhar para uma pessoa, um
acontecimento e não projetar sobre isto nossos temores e desejos,
todas as nossas lembranças. É deixar de lado o próprio ponto de vista
e os seus condicionamentos, ver as coisas a partir delas mesmas. O
olhar do terapeuta não deve ser claro apenas no sentido de lúcido,
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Suporte e formação continuada para educadores

mas também no sentido de esclarecedor. Diante de um olhar assim, a


pessoa não se sente julgada, nem menosprezada, mas aceita, e esta
aceitação é a condição necessária para que se inicie o caminho de
cura. Adquirir um olhar esclarecedor, para o terapeuta, é adquirir a
humildade, é relativizar o “eu “.

A competência do psicopedagogo está, portanto, na difícil tarefa de por em


articulação teoria e prática. Não existe psicopedagogo enquanto o “fazer“ não se inicia.
Não existe Psicopedagogia sem a busca da verdade que esta inscrita no conhecimento de
si e do outro, e na criação de novos conhecimentos. É necessário uma integração
também entre os saberes científicos, a fim de que a competência do psicopedagogo seja
sentida.

Escolher a Psicopedagogia como terapia e fazer-se terapeuta é assumir a


responsabilidade por uma formação contínua, cada vez mais aprofundada nas questões
humanas; é assumir a responsabilidade por uma atividade que implica um saber
interdisciplinar e eclético, sem sectarismos de qualquer espécie; é estar aberto a
mudanças.

O psicopedagogo deve ser um profissional preparado para atender crianças ou


adolescentes com problemas de aprendizagem, atuando na sua prevenção, diagnóstico e
tratamento clínico ou institucional. Ou seja, o psicopedagogo necessita ter conhecimentos
multidisciplinares, pois em um processo de avaliação diagnóstica é necessário estabelecer
e interpretar dados em várias áreas. O conhecimento dessas áreas fará com que o
profissional compreenda o quadro diagnóstico do educando e favorecerá a escolha da
metodologia mais adequada, ou seja, o processo corretor, com vista à superação das
inadequações do aprendente. Envolver-se em pesquisas e estudos científicos acerca dos
problemas e processos de aprendizagem é de fundamental importância no trabalho do
psicopedagogo, pois é através de novos enfoques que poderão ser alcançadas
importantes considerações a respeito da aprendizagem, bem como obtidos argumentos
concretos para o reconhecimento da profissão.

Os psicopedagogos devem seguir certos princípios éticos que estão


condensados no Código de Ética. Porém, a ética não estabelece regras, sua principal
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Chafic.com.br 31 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

característica é a reflexão sobre a ação do Homem. Conforme Griz (2007, p.78), a


Psicopedagogia é a área de conhecimento que mais se propõe a uma práxis que atenda
aos requisitos e princípios éticos, embora muitos profissionais sequer conheçam seu
código de ética. Scoz e colaboradores (apud BOSSA, 2007), escreveram sobre a trajetória
da Associação Brasileira de Psicopedagogia e destacaram que a contínua expansão da
Psicopedagogia e, em consequência disso, a abertura de inúmeros cursos de pós-
graduação para a formação nessa área em todo o país, levou a Associação a elaborar um
documento sobre a identidade profissional do psicopedagogo e os objetivos da
Psicopedagogia, a partir da delimitação de seu campo de estudos e de atuação. Esse
documento passou por várias etapas de discussão, contando com a participação dos
associados da Associação Brasileira e de suas seções, bem como de coordenadores e
representante de inúmeros cursos de Psicopedagogia de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Em 1994, a Associação implantou um curso de Psicopedagogia, em caráter


experimental, no qual assumiu seu próprio modelo de formação, embasado no documento
sobre a identidade profissional do psicopedagogo. Sendo assim, a ABPp tem discutido e
analisado amplamente temas como a identidade do psicopedagogo e a legitimidade da
ação social da Psicopedagogia, dentre outros estudos. A dimensão social da
Psicopedagogia busca o saber por meio de uma ação socioeducativa, pois a
aprendizagem acontece na instituição, seja educacional ou familiar, articulando a
experiência acumulada com o conhecimento adquirido. Conforme Noffs (2000, p. 45), para
a qualidade do psicopedagogo faz-se necessário articular docência, pesquisa e gestão.
Para tal, é essencial que o psicopedagogo conheça o contexto institucional, seja escolar,
hospitalar ou familiar, onde o processo de aprendizagem vai desenvolver-se.
32
Chafic.com.br 32 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

4. PRINCIPAIS CAMPOS OU ÁREAS DE ATUAÇÃO

Há alguns anos, Fernández (1994, p. 102) argumentava que a partir do objeto


de estudo da Psicopedagogia, ainda não foi possível construir uma teoria acerca dessa
prática psicopedagógica. Ela menciona que estamos tentando construir nossa própria
teoria, nosso específico enquadramento, os rasgos diferenciadores de nossa técnica e
nosso lugar como especialistas em problemas de aprendizagem. Mas para os profissionais
brasileiros pode-se verificar que o tema da aprendizagem ocupa-os e preocupa-os, sendo
os problemas desse processo (de aprendizagem) a causa e a razão da Psicopedagogia.

A Psicopedagogia é o espaço profissional para o qual convergem os


profissionais cuja atividade fundamental relaciona-se com a maneira de aprender e se
desenvolver pessoas, com as dificuldades e problemas que encontram quando levam a
cabo novos aprendizagens, com as intervenções dirigidas a ajudar-lhes a superar estas
dificuldades e, em geral, com as atividades especialmente pensadas, planejadas e
executadas para que aprendam mais e melhor. Pode-se afirmar que o trabalho
psicopedagógico está estreitamente vinculado com a análise, o planejamento, o
desenvolvimento e a modificação dos processos educativos; no entanto o espaço
profissional da Psicopedagogia não está circunscrito à escola e à educação escolar. A
princípio, todos os processos educativos, independentemente do contexto institucional em
que estão localizados, são suscetíveis de fazer parte do campo de atuação dos
profissionais da Psicopedagogia.

A atuação psicopedagógica se entende como a orientação educativa realizada


através de programas de intervenção que, com um enfoque preventivo, potencializador e
corretivo, persegue o desenvolvimento dos aprendentes, seja no plano pessoal, escolar,
acadêmico ou de carreira. Todos os indivíduos, em suas diferentes etapas evolutivas,
desde o nascimento até a velhice, são passíveis da intervenção psicopedagógica. O
campo de atuação da Psicopedagogia está tornando-se mais amplo, pois o que
inicialmente caracterizava-se somente no aspecto clínico, hoje pode ser aplicado a outros
segmentos. De modo geral, essa atuação pode estar inserida nos seguintes objetivos:
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Chafic.com.br 33 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

a) assessorar no desenvolvimento do processo de aprendizagem,


incluindo suas perturbações e / ou anomalias, de modo a favorecer as
condições adequadas para o sucesso na aquisição do conhecimento ao
longo de todas as etapas evolutivas, seja de forma individual ou coletiva, no
âmbito da educação, família e saúde mental;

b) realizar ações que possibilitem a detecção das perturbações e / ou


anomalias no processo de aprendizagem nos diferentes âmbitos de
expressão;

c) pesquisar as características psicoevolutivas do sujeito em


situação de aprendizagem;

d) participar na dinâmica das relações da comunidade educativa, a


fim de favorecer os processos de integração e mudanças;

e) orientar a respeito das diferentes adequações metodológicas, de


acordo com as características biológicas, psicológicas, sociais e culturais dos
indivíduos e grupos;

f) desenvolver processos de orientação e reorientação educacional,


vocacional e ocupacional, nas modalidades individual e grupal;

g) elaborar diagnóstico dos aspectos preservados e perturbados,


comprometidos no processo de aprendizagem, para efetuar prognósticos de
evolução;

h) com base nos diagnósticos obtidos, elaborar estratégias


específicas e programas de tratamento, orientação e derivação, destinados a
promover processos harmônicos de aprendizagem;

i) participar em equipes interdisciplinares responsáveis pela


elaboração, execução e avaliação de planos, programas e projetos nas áreas
de educação e a saúde;

j) realizar estudos e investigações relacionados ao plano


educacional e da saúde, relacionados ao processo de aprendizagem e aos
métodos, técnicas e recursos próprios da investigação psicopedagógica;
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Chafic.com.br 34 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

k) exercício da docência na área de sua especialidade em todos os


níveis do sistema educativo.

A atuação psicopedagógica pode realizar-se nos seguintes âmbitos:

a) Clínica: compreende como objeto de estudo o sujeito e sua


relação com a aprendizagem e suas fraturas, a indagação sobre os aspectos
da constituição psíquica comprometidos na atividade representativa, que
permitem o despregue da simbolização ou geram restrições na relação com
os objetos. A tarefa se desenvolve em instituições publicas, privadas ou em
consultórios particulares. A esfera de ação se acha em hospitais gerais,
pediátricos, psiquiátricos ou neuropsiquiátricos, centros de saúde mental,
centros de reabilitação de portadores de necessidade de qualquer tipo,
comunidades terapêuticas, asilos, albergues, clínicas, sanatórios, escolas de
todos os níveis, consultórios particulares, organizações não governamentais
etc.

b) Institucional: compreende diferentes campos ou dimensões a


intervenção individual no contexto grupal, trabalho com diferentes atores,
capacitação específica em diferentes setores ou âmbitos, assessoramento
frente a situações específicas. A esfera de ação se acha nas instituições
educativas de todos os níveis (pré-escolar, fundamental, médio, acadêmico,
educação de adultos), bem como em escolas especiais, creches, centros de
orientação vocacional e demais instituições privadas ou oficiais de finalidade
educativa.

c) Trabalhista: compreende a orientação e o assessoramento


profissional à gestão e organização empresarial, intervindo nos aspectos de
comunicação organizacional, a capacitação para recém-contratados e / ou
nas mudanças de postos e promoções, organização e / ou supervisão de
grupos de trabalho, recrutamento e seleção de pessoal, elaboração de
programas específicos, mediação e resolução de conflitos. A esfera de ação
se acha nas organizações e empresas de qualquer porte.
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Chafic.com.br 35 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

d) Investigação-Capacitação: compreende o desenho e o


desenvolvimento de investigações e capacitação no campo dos grupos, as
instituições, a comunidade, seja no âmbito da educação, saúde ou empresa,
de forma preventiva ou assistencial. A esfera de ação está relacionada às
entidades públicas ou privadas, governamentais e não governamentais, nas
áreas de saúde e educação.

e) Sociocomunitária: compreende o trabalho em ações


sóciocomunitárias, orientadas ao assessoramento ou intervenção a respeito
da prevenção primária, secundária e terciária, em projetos específicos da
disciplina ou apoiando equipes interdisciplinares. A esfera de ação aqui se
relaciona com todas as instituições, grupos e membros da comunidade que,
enquanto forças sociais, influem e afetam a conduta do indivíduo.

f) Jurídica: compreende o estudo e a detecção de condutas


anômalas que possam incidir no desenvolvimento cognitivo do sujeito
provocando inibição cognitiva ou deterioração nas funções, a orientação
psicopedagógica ao sujeito e seus familiares, a elaboração de laudos e
perícias conforme a perspectiva requerida. A esfera de ação está relacionada
aos tribunais de Justiça, institutos penais, institutos de internação de
menores, organismos policiais e demais órgãos com finalidade similar.

De modo geral, a atuação do psicopedagogo é diferente do psicólogo, pois o


primeiro está preocupado especificamente com a aprendizagem. O ser humano, em sua
complexidade, sempre articula uma maneira de pedir ajuda, quando está em dificuldades
de qualquer natureza. Seja enquanto criança, apresentando alguma dificuldade específica
na Escola; seja o jovem, fazendo muitas vezes uma verdadeira negação da escolaridade e
enveredando pela marginalidade; seja o idoso, entrando em depressão por se julgar
incapaz de aprender e continuar contribuindo para sua comunidade. Quando esse pedido
de ajuda se dá via aprendizagem, aí deve atuar o psicopedagogo, por ser o profissional
cuja formação o habilita para compreender e atender tais solicitações.

A Psicopedagogia aplicada a segmentos hospitalares e organizacionais está


voltada para a manutenção de um ambiente harmônico e à identificação e prevenção dos
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Chafic.com.br 36 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

insucessos interpessoais e de aprendizagem. É possível perceber, também, que a


Psicopedagogia detém importante papel no novo momento educacional que é a inserção e
manutenção dos alunos com necessidades educativas especiais (NEE) no ensino regular,
comumente chamada de inclusão social. Colocar o aluno com NEE em sala de aula e não
criar estratégias para a sua permanência e sucesso escolar inviabiliza todo o movimento
nas escolas. Faz-se premente a necessidade de um acompanhamento e estimulação do
aluno com NEE para que a sua aprendizagem seja efetiva.

O psicopedagogo deve ter a consciência de observar o indivíduo como um todo:


coordenação motora ampla, aspecto sensoriomotor, dominância lateral, desenvolvimento
rítmico, desenvolvimento motor fino, criatividade, evolução do traçado e do desenho,
percepção espacial e visiomotora, orientação e relação espaçotemporal, aquisição e
articulação dos sons, aquisição de palavras novas, elaboração e organização mental,
atenção e coordenação, bem como expressões, aquisição de conceitos e, ainda,
desenvolvimento do raciocínio logicomatemático. Através desses complexos ambientes de
observação, o pedagogo deve procurar entender o processo de aprendizagem, conforme a
abordagem “vygotskyana”, que parte do pressuposto de que são várias as razões que
determinam o sucesso ou o fracasso escolar.

A prática psicopedagógica é entendida como o conhecimento dos processos de


aprendizagem em seus mais diversos aspectos: cognitivos, emocionais ou corporais.
Conforme Vygotsky (1991), a atividade criadora é uma manifestação exclusiva do ser
humano, pois só ele tem a capacidade de criar algo novo a partir do que já existe. Através
da memória, o homem pode imaginar situações futuras e construir outras imagens. Sendo
assim, a ação criadora reside no fato da não adaptação do ser, isto é, de não estar
acomodado e conformado com uma situação, buscando através do imaginário e da
fantasia, um equilíbrio, bem como a construção de algo novo.

É mediante esse pressuposto que a intervenção psicopedagógica se faz


atuante, descobrindo no aprendente as suas capacidades e desenvolvendo atividades que
o auxiliem na ordenação e coordenação de suas idéias e manifestações intelectuais.

A especificidade do tratamento psicopedagógico consiste no fato de que existe


um objetivo a ser alcançado, a eliminação dos sintomas. Assim, a relação entre o
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Chafic.com.br 37 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

psicopedagogo e o aprendente é sustentada em atividades bem definidas, cujo objetivo é


solucionar os efeitos nocivos dos sintomas. Por exemplo, pode-se apontar problemas de
aprendizagem relacionados à leitura, motivo bastante frequente para as consultas
psicopedagógicas. É possível que uma criança não aprenda a escrever porque lhe faltam
recursos intelectuais para elaborar e testar suas hipóteses acerca desse novo objeto de
conhecimento. É possível, também, que uma criança cercada de recursos possua
dificuldades em relação à ordenação das ideias e não consiga organizar e construir seu
conhecimento. Assim, cabe ao psicopedagogo trabalhar as duas variantes aprendentes:
de forma preventiva para que sejam detectadas as dificuldades de aprendizagem antes
que os processos se instalem, bem como na elaboração do diagnóstico e trabalho
conjunto com família e escola frente às intercorrências advindas das dificuldades no
processo do aprender. Partindo da ideia de que toda criança aprende, o psicopedagogo
precisará encontrar, entre as diversas teorias educacionais, a que mais se enquadra em
cada caso diagnosticado.

Não se pode falar em aprendizagem sem, portanto, considerar todos os


aspectos relevantes na vida desse sujeito que se relaciona e troca, a partir da criação de
vínculos. No diagnóstico psicopedagógico não se pode desconsiderar as relações entre
produção escolar e as oportunidades reais que a sociedade dá às diversas classes sociais.
Muitas vezes, os alunos de baixa renda são classificados como deficientes nas questões
do aprendizado. Na realidade, faltam-lhes oportunidades de crescimento cultural, de rápida
construção cognitiva e desenvolvimento de linguagem, o que, certamente, aumentariam
suas chances de êxito escolar.

A absorção do conhecimento pelo aluno depende da maneira como as


informações lhe são passadas, que, por sua vez, depende das condições sociais que
determinarão a qualidade desse ensino. Professores em unidades escolares
desestruturadas e sem nenhum apoio material ou pedagógico não terão como tornar real e
atraente um conhecimento. É preciso que o professor, competente e valorizado, encontre
prazer em ensinar para que possibilite o prazer de aprender.

Quando um psicopedagogo chega à instituição escolar, cria-se grande


expectativa de que ele vai solucionar todos os problemas da escola, sejam dificuldades de
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Chafic.com.br 38 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

aprendizagem, indisciplina, evasão, exclusão ou desestímulo do corpo docente. O trabalho


é minucioso e abrangente, pois o profissional da Psicopedagogia não trabalha isolado.
Toda estrutura educacional necessita estar envolvida e ciente das metas estabelecidas no
Projeto Político Pedagógico (PPP), conforme orienta Silva (2003, p.31):

o projeto pedagógico é um instrumento de trabalho que ilumina princípios


filosóficos, define políticas, harmoniza as diretrizes da educação nacional
com a realidade da escola, racionaliza e organiza ações, dá voz aos atores
educacionais, otimiza recursos materiais e financeiros, facilita a
continuidade administrativa, mobiliza diferentes setores na busca de
objetivos comuns e, por ser domínio público, permite constante
acompanhamento e avaliação.

Por isso, o trabalho psicopegagógico se depara com desafios e habilidades tais


como: competência, visão de mundo e conhecimento teórico-prático que determinarão o
sucesso desse trabalho. Com o aluno (aprendente), o trabalho investigativo está em saber
se este quer aprender, se deseja ou não aprender, se deixa seu desejo se manifestar a
partir da sua vontade e construir seu mundo de significados. Com a instituição educadora
(escola), a investigação perpassa desde o organograma até a conversa, em particular,
com cada professor em suas especificidades disciplinares, sem esquecer de abordar o
trabalho em conjunto onde todos queiram alcançar um único objetivo: o sucesso escolar
dos alunos.

A aprendizagem refere-se a um confrontamento objetivo e uma motivação: para


aprender é necessário um vínculo e para que este vínculo se instale ela passa, também,
pelo afeto. Segundo Pichon, (1980), a aprendizagem é uma estrutura dinâmica em
contínuo movimento, que funciona acionada ou movida por motivações psicológicas. Já
Delors (1999) cita os quatro pilares essenciais para um novo conceito de educação, quais
sejam: aprender a conhecer, aprender a viver juntos, aprender a fazer e aprender a ser.
Um desses pilares reflete uma postura amadurecida com relação ao aluno, conforme
aponta Delors (1999, p. 92):

aprender a conhecer supõe, antes de tudo, aprender a aprender,


exercitando a atenção, a memória e o pensamento. O processo de
aprendizagem do conhecimento nunca está acabado, e pode enriquecer-se
com qualquer experiência. A educação primária pode ser considerada bem
sucedida se conseguir transmitir às pessoas o impulso e as bases que
façam com que continuem a aprender ao longo de toda vida, tanto na
escola como fora dela.
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Chafic.com.br 39 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Weiss (2003) entende como fracasso escolar uma resposta insuficiente do


aluno a uma exigência ou demanda da escola. Se o aluno não corresponde a esta
demanda “exigida” pela unidade escolar, algo deverá ser investigado, num envolvimento
global, onde todos os profissionais que fazem parte desta organização caminhem juntos
ao encontro e no repensar de suas posturas pedagógicas.

O fracasso escolar pode ocasionar problemas sociais, que também perpassam


esta trajetória de marginalização e exclusão social. A identificação dos problemas de
aprendizagem necessita de um novo olhar a partir das organizações educadoras. Para
Vygotsky (1991), a aprendizagem da criança começa muito antes da aprendizagem
escolar, que nunca parte do zero. Toda aprendizagem da criança na escola tem uma pré-
história.

O trabalho psicopedagógico está inserido no processo ensino-aprendizagem,


atuando primordialmente, junto aos profissionais comprometidos nas instituições escolares
de forma preventiva, detectando os momentos de dificuldades e prevendo questões que
seriam motivo de tratamento futuro na vida educacional dos aprendentes, como também,
interagindo com o organograma escolar quando os problemas de dificuldades de
aprendizagem já estiverem instalados, trabalhando nos diagnósticos e nas terapias
psicopedagógicas.

É neste momento que a intervenção psicopedagógica alcança seu maior grau


de desempenho, fazendo com que o aluno exercite, através de estímulos, a atenção, a
memória e o pensamento lógico-crítico. Cabe ao profissional da educação proporcionar
aos seus alunos oportunidades para que o conhecimento para a vida aconteça. Como o
saber jamais se dará como acabado, o papel do psicopedagogo terá uma ampla área de
atuação, fazendo com que seus aprendentes descubram qual a melhor forma de
reconhecer e desenvolver suas capacidades intelectuais.

É na prática psicopedagógica que a teoria vygotskyana pode ser vivenciada no


enfoque sociohistórico e cultural. Partindo-se do pressuposto que a criança, ao chegar à
unidade educadora (escola), já possui uma vasta bagagem informativa proveniente do
meio em que vive, é papel dos educadores orientar e conduzir o conhecimento a partir de
uma prática vivenciada e correlacionada à realidade da criança.
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Chafic.com.br 40 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Para que o conhecimento se construa de fato, a relação do


educador/aprendente também passa pela afetividade e pelo vínculo. O educador que se
compromete com a educação deseja que seu aluno (aprendente) construa o conhecimento
para a vida. O professor é apenas um mediador de um processo muito maior, que é o
aprendizado.

Para Vygotsky, a relação entre o pensamento e a palavra é um processo


contínuo. O pensamento não é simplesmente expresso em palavras, mas, por meio delas,
ele passa a existir.

A prioridade no ensino diz respeito, também, às aptidões, às qualidades


pessoais, à cultura, à comunicação; enfim, à valorização do conhecimento que o aluno já
possui e, a partir da sua visão de mundo, o desenvolvimento de uma prática pedagógica
que estimule a pensar, criar, dialogar e participar ativamente na construção de novos
conhecimentos.

Na ótica vygotskyana, que fornece subsídios para uma prática fundamentada na


construção do indivíduo como pessoa, é fundamental que o aprendente se insira num
determinado ambiente cultural, que tanto pode ser formado a partir do seu grupo familiar,
bem como escolar, religioso, esportivo e cultural, pois é esse grupo que fornece
instrumentos que irão possibilitar sua maturidade intelectual.

Pode-se, então, observar que, a cada dia, o objeto de estudo da


Psicopedagogia tem assumido contornos diferenciados, específicos e amplos. Não se trata
do sujeito epistêmico de Piaget, do sujeito do inconsciente de Freud, do sujeito cindido de
Lacan5, do sujeito e suas zonas de desenvolvimento de Vygotsky, entre tantos outros
teóricos da educação. Trata-se de resgatar um sujeito completo; não apenas a soma, mas
a articulação desses sujeitos em suas especificidades.

5 Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981), nasceu na França e formou-se em Medicina, atuando como
neurologista e psiquiatra. Considerado um psicanalista freudiano, para o Dr. Lacan a psicanálise não era
uma ciência, uma visão de mundo ou uma filosofia que pretendia dar a chave do universo, mas uma prática
onde, através do método da livre associação, chegaria-se ao núcleo do ser. Lacan propunha a divisão do
sujeito, pois o inconsciente seria autônomo com relação ao Eu, defendendo que, no registro do inconsciente,
é que deveria situar a ação da psicanálise.
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Chafic.com.br 41 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Nessa variante de teorias educacionais, todos são aprendentes e, no caminhar


da especialização, cada psicopedagogo identifica-se com estes ou aqueles autores. Cabe,
pois, a cada profissional ter a maturidade e a consciência de identificar qual teoria melhor
se enquadra a cada caso tratado.
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Chafic.com.br 42 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

5. AS DIFERENÇAS DE ABORDAGEM DA PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA E DA


PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL

O atendimento da Psicopedagogia Clínica é realizado em centros de


atendimento ou clínicas psicopedagógicas e as atividades ocorrem geralmente de forma
individual. O aspecto institucional ocorre em escolas e organizações educacionais e está
mais voltado para a prevenção dos insucessos relacionais e de aprendizagem, se bem que
muitas vezes, deve-se considerar a prática terapêutica nas organizações como necessária.

A Psicopedagogia no campo clínico emprega como recurso principal a


realização de entrevistas operativas delicadas e a progressiva resolução da problemática
individual e / ou grupal daqueles que a consultam para diagnosticar, orientar, atender em
tratamento, investigar os problemas emergentes nos processos de aprendizagem,
esclarecer os obstáculos que interferem para haver uma boa aprendizagem, auxiliar no
desenvolvimento de atitudes e processos de aprendizagem adequados, realizar o
diagnóstico psicopedagógico, com especial ênfase nas possibilidades e perturbações da
aprendizagem; bem como prestar esclarecimento e orientação vocacional operativa em
todos os níveis educativos. O psicopedagogo, através do diagnóstico clínico, irá identificar
as causas dos problemas de aprendizagem. Para isto, ele usará instrumentos tais como,
provas operatórias (Piaget), provas projetivas (desenhos), estórias, material pedagógico
etc. Na clínica, o psicopedagogo fará uma entrevista inicial com os pais ou responsáveis
para conversar sobre horários, quantidades de sessões, honorários, a importância da
frequência e da presença, e o que mais ocorrer. No primeiro momento não é
recomendável falar sobre o histórico do sujeito, já que isto poderá atrapalhar a
investigação. O histórico do sujeito, desde seu nascimento, será relatado ao final das
sessões numa entrevista chamada anamnese, com os pais ou responsáveis.

O tratamento poderá ser feito com o próprio psicopedagogo que fez o


diagnóstico, ou poderá ser feito com outro psicopedagogo. Neste caso, este último
solicitará o informe psicopedagógico para análise.

Durante o tratamento são realizadas diversas atividades, com o objetivo de


identificar a melhor forma de se aprender e o que poderá estar causando este bloqueio.
Para isto, o psicopedagogo utilizará recursos como jogos, desenhos, brinquedos,
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Chafic.com.br 43 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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brincadeiras, estórias, computador e outras coisas que forem oportunas. A criança, muitas
vezes, não consegue falar sobre seus problemas e é através de atividades lúdicas que ela
poderá revelar a causa de sua dificuldade. É através dos jogos que a criança adquire
maturidade, aprende a ter limites, aprende a ganhar e perder, desenvolve o raciocínio,
aprende a se concentrar, adquire maior atenção. O psicopedagogo solicitará, algumas
vezes, as tarefas escolares, observando cadernos, olhando a organização e os possíveis
erros, ajudando-o a compreender estes erros. Irá ajudar a criança ou adolescente a
encontrar a melhor forma de estudar para que ocorra a aprendizagem. O profissional
poderá ir até a escola para conversar com o(a) professor(a), afinal é ele ou ela que tem
contato diário com o aluno e pode dar muitas informações que possam ajudar no
tratamento. O psicopedagogo precisa estudar muito. E muitas vezes será necessário
recorrer a outro profissional para conversar, trocar idéias, pedir opiniões.

A Psicopedagogia Institucional surgiu da necessidade de se compreender os


até então chamados problemas de aprendizagem, via desenvolvimento cognitivo,
afetivo e psicomotor. Porém, é possível constatar que atualmente as construções
psicopedagógicas detêm-se nas modalidades de aprendizagem a partir da constituição
psicológica, mesológica6 e histórico-cultural do sujeito, e vem para ampliar o olhar quanto a
essas questões, além de propor métodos de intervenção com o objetivo de reintegrar o
aluno ao processo de construção do conhecimento, bem como fomentar a reflexão sobre
os procedimentos didático-metodológicos e éticos que se dão no ambiente escolar e da
sala de aula.

A Psicopedagogia no âmbito institucional apresenta-se como corpo teórico que


visa integrar várias áreas do conhecimento e luta bravamente pelo reconhecimento da
interdependência dos vários aspectos da realidade, e se compromete a estudar os
encaminhamentos do indivíduo na sociedade. Um indivíduo que antes de tudo está
inserido em grupos, tais como escola, família, empresa, associações e outros.

6 Mesologia é a influência de um determinado meio ambiente, seja de forma positiva ou negativa. A maior
parte desta influência vem dos pais e da educação que estes aplicam.
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Chafic.com.br 44 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

A Psicopedagogia institucional acontecerá em escolas e organizações


educacionais, e está mais voltado para a prevenção dos insucessos relacionais e de
aprendizagem, se bem que muitas vezes deva-se considerar a prática terapêutica nas
organizações como necessária. A Psicopedagogia no âmbito institucional apresenta-se
como corpo teórico que visa integrar várias áreas do conhecimento e luta bravamente pelo
reconhecimento da interdependência dos vários aspectos da realidade. E se compromete
a estudar os encaminhamentos do indivíduo na sociedade. Um indivíduo que antes de
tudo está inserido em grupos, tais como a escola, a família, a empresa, as associações e
outros. Esses encaminhamentos se processam nas esferas perceptuais e estruturais dos
campos cognitivo, afetivo e corpóreo, produzindo “uma forma de estar” consigo e com o
outro que dependendo da natureza desse movimento poderá produzir distorções na sua
maneira de apreender a realidade com conseqüências negativas/positivas na construção
de conhecimentos sejam eles formais ou informais.

Introduzida no Brasil por mãos argentinas e francesas de psicólogos e


psicanalistas, no final da década de 60, a Psicologia Institucional surgiu como um
movimento de revisão e crítica do pensamento e da prática profissional, que se restringia
aos atendimentos terapêuticos individuais e em consultórios. Além disso, propôs uma
alternativa de atuação que não fossem apenas os testes, as terapias e as análises
experimentais de comportamento, buscando ampliar os modelos de compreensão teórica
e o âmbito de ação dos profissionais da área psicológica. Apoiada em uma espécie de
discurso moral, convocou os psicólogos a encararem a sua função social, a sua
responsabilidade de se conscientizarem e promover a conscientização de outros do que
significa a inserção numa sociedade de classes, dentro de um modo de produção
capitalista.

Assim, conforme Guirado (1987), o trabalho dos psicólogos, historicamente


confinado em consultórios, escolas, hospitais psiquiátricos, e universidades, começou a
ser percebido, falado e estudado, dentro da perspectiva de ser ou vir a ser um trabalho
“institucional”. Por uma “atuação institucional” começam a ser esboçadas diferentes bases
teóricas e propostas de intervenção prática. Segundo Guirado (1987), as técnicas de
intervenção em grupos nas organizações de saúde, ensino e trabalho, os grupos
operativos e, mais tarde, as tentativas de auto-gestão passaram a configurar, em alguns
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Chafic.com.br 45 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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círculos profissionais, uma prática dominante que buscava sua extensão e fundamentação
em disciplinas dos currículos de Cursos de Psicologia e de Formação de Psicólogos.

Leituras de obras argentinas, como as de Pichón-Riviére e Bleger, tanto quanto


as de origem francesa, como as de Lourau, Lapassade, Mendel, Cooper, Foucault,
tornaram-se centros de discussões e foram bases para cursos de extensão e seminários
nas décadas de 70 e 80. No Brasil, em meados da década de 70, José Guilhon de
Albuquerque, sociólogo e professor de Ciência e Política de São Paulo, destacou-se por
sua forma própria de pensar a questão, tornando-se uma referência nacional em
Psicologia Institucional.

Ainda de acordo com o pensamento de Guirado (1987), uma Psicologia


Institucional vai se estabelecendo enquanto inclui, a cada passo, diferentes orientações
teóricas e novas configurações da prática profissional. Esta inclusão de diferentes
abordagens, no dizer da autora, acaba por fazer com que se confundam os limites da
compreensão sobre que psicologia social está sendo feita. Passa a englobar, num mesmo
rótulo, toda uma variedade de teorias relativas à intervenção do psicólogo em instituições,
bem como as diferentes formas em que esta intervenção se dá. Erroneamente criou-se o
conceito de que “Psicologia Institucional” define o que, efetivamente, acontece, quando um
psicólogo trabalha em instituições. É sobre essa incorreção que fala Guirado (1987, p. 10):

atribuir à diversidade aqui apontada o nome de Psicologia Institucional, ou


seja, usar o termo no singular, é de pouca validade Não se identificam, com
isso, as especificidades dos recortes teóricos, nem das práticas de
Psicologia em instituições e / ou organizações, sequer se identificam tais
práticas na articulação inevitável com outras, relativas a outras profissões e
a outras áreas do conhecimento humano.

Seguindo esse mesmo raciocínio, Baremblitt (1998, p.19) diz:

vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituente que,


como o nome aproximativamente indica, é um conjunto de escolas, um
leque de tendências. Não existe nenhuma escola ou tendência que possa
dizer que encarna, plenamente, o ideário do movimento institucionalista.
Contudo, pode encontrar-se em diversas escolas algumas características
em comum.

Como estudo introdutório para a compreensão dos processos de diagnóstico e


intervenção psicopedagógicos em instituições, segundo a perspectiva do Movimento
Institucionalista, é oportuno refletir sobre as contribuições de três das mais conhecidas e
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Chafic.com.br 46 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

discutidas tendências em Psicologia Institucional nos meios acadêmicos, situando as


linhas gerais do pensamento de José Bleger, Georges Lapassade e Guilhon Albuquerque.

Albuquerque (apud GUIRADO, 1987, p. 49) pensa na instituição dentro de uma


perspectiva foucaultiana, analisando as instituições concretas, ou seja, as formas
singulares com que o binômio instituição / poder se engendram e produzem discursos.
Desta forma, a análise coloca-se fora do espectro de uma totalidade institucional,
dominante, direcionando o olhar para as práticas, para as relações entre agentes. A
instituição é concebida por Albuquerque (apud GUIRADO, 1987, p. 49) como o conjunto de
práticas sociais, configuradas na apropriação de um determinado objeto, um determinado
tipo de relação social sobre o qual reivindica o monopólio, no limite com outras
práticas. Desta forma, a instituição é concreta, pois é constituída por práticas que podem
ser abstraídas a partir da observação do cotidiano, dos rituais, dos discursos. Porém, em
nível de análise, não é possível abstrair a totalidade, é necessário efetuar recortes
específicos, avaliando aspectos da instituição, como economia e ideologia, que não dirão
da totalidade da mesma.

Com mais vagar, é importante uma aproximação do que sejam os elementos


estruturantes da prática institucional, a fim de clarear este conceito. Assim, Albuquerque
(apud GUIRADO, 1987) distingue três elementos: o objeto institucional, o âmbito de ação
institucional e os atores. O objeto institucional é aquilo sobre o que a instituição reivindica
legitimidade, monopólio de legitimidade. Este objeto constitui-se na própria referência da
instituição. Por exemplo, na escola, a relação entre o professor e o aluno (relação
pedagógica) e, nas instituições da saúde, o saber médico-científico. O âmbito da ação
institucional diz respeito às relações sociais que sustentam o objeto institucional. Dessa
forma, na instituição escolar o âmbito de ação da escola é a relação pedagógica. Porém,
como o objeto não é plenamente definido e, além disso, há relações e práticas conexas a
ele, há várias práticas presentes em uma instituição. Por exemplo, em um hospital, além
das práticas ligadas à saúde e à cura, a ação institucional regulamenta as práticas
alimentares, morais, religiosas e sexuais de seus “doentes”. Da mesma forma, em uma
escola, a ação institucional regulamenta a relação pedagógica bem como as relações
sociais decorrentes. Já os atores são os elementos estruturantes das instituições, por
serem os que efetivamente a colocam em funcionamento. Os atores formam um grande
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Chafic.com.br 47 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

guardachuva que abriga os diversos tipos: agentes (privilegiados, subordinados e pessoal


institucional), mandantes, clientela, público e o próprio contexto institucional.

Os agentes institucionais podem ser de três tipos:

a) privilegiados: são aqueles cujas práticas concretizam,


imediatamente, a ação institucional – categoria profissional. Nas escolas, os
professores; nas instituições de saúde, os médicos; nas empresas, os
administradores; nas instituições religiosas, o papa, bispos, clero e religiosos.

b) subordinados, ou subprivilegiados, são igualmente profissionais,


mas, ainda em formação, não são plenamente reconhecidos, ou pertencem a
categorias profissionais subordinadas, tais como estudantes de Medicina,
estagiários ou auxiliares.

c) pessoal institucional é composto pelos empregados, funcionários


da instituição e prestadores de serviço indispensáveis à manutenção da
organização mas não diretamente ligados à ação institucional.

O Mandante é o ator institucional individual ou coletivo, diante do qual a


instituição responde, ou em nome da qual ela age. Relações de mandato: relação de
propriedade (sustentação econômica e apropriação da produção); relação de
subordinação funcional (corpo de agentes institucionais nomeado pelo mandante); relação
de mandato institucional (confere a legitimidade da instituição, tais como Conselho Federal
de Medicina - CFM, Ordem dos Advogados Brasileiros – OAB e órgãos de classe).

A Clientela compreende os atores concretos, individuais ou coletivos, visados


pela ação institucional. Aqueles que, carentes do objeto, posicionam-se enquanto alvo das
ações dos agentes. Na escola, os alunos; nos hospitais, os doentes...

O Público é o conjunto dos atores coletivos ou individuais para quem a ação


institucional é visível (pública), podendo, eventualmente, integrar a clientela.

O Contexto Institucional é o conjunto de instituições que se estabelecem e


interrelacionam na sociedade; é a rede de instituições que faz parte do tecido social.
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Chafic.com.br 48 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

A práxis psicopedagógica é entendida como o conhecimento dos processos de


aprendizagem nos seus aspectos cognitivos, emocionais e corporais.

Em resumo, a Psicopedagogia Clínica diagnostica, orienta, atende em


tratamento e investiga os problemas emergentes nos processos de aprendizagem,
esclarece os obstáculos que interferem para haver uma boa aprendizagem, favorece o
desenvolvimento de atitudes e processos de aprendizagem adequados, realiza o
diagnóstico psicopedagógico, com especial ênfase nas possibilidades e pertubações da
aprendizagem; prestando esclarecimento e orientação vocacional em todos os níveis
educativos. A Psicopedagogia clínica emprega como recurso principal a realização de
entrevistas operativas delicadas e a progressiva resolução da problemática individual e/ou
grupal daqueles que a consultam.

A Psicopedagogia Institucional atua nas diversas instituições, tais como escolas,


hospitais e empresas. Seu papel é analisar os fatores que favorecem, intervêm ou
prejudicam uma boa aprendizagem em uma instituição. Propõe e ajuda o desenvolvimento
dos projetos favoráveis a mudanças. Entre os principais objetivos está conduzir a criança
ou adolescente, o adulto ou a instituição a reinserir-se, reciclar-se numa escolaridade
normal e saudável, de acordo com as possibilidades e interesses dela; promover a
aprendizagem, garantindo o bem estar das pessoas em atendimento profissional, valendo-
se dos recursos disponíveis, incluindo a relação interprofissional; atender indivíduos que
apresentem dificuldades para aprender por diferentes causas, estando assim, inadaptados
social ou pedagogicamente; encorajar aquele que aprende à tornar-se cada vez mais
autônomo em relação ao meio, em interagir com os colegas e resolver os conflitos entre
eles mesmos; a ser independente e curioso; a usar iniciativa própria; ter confiança na
habilidade de formar idéias próprias das coisas; a exprimir suas idéias com convicção e
conviver construtivamente com medos e angústias.

A Psicopedagogia tem muito a ensinar sobre o vínculo professor/aluno,


professor/escola e sua incidência na construção do conhecimento e na constituição
subjetiva de alunos e educadores. Por isso, a Psicopedagogia tem trabalhado com as
relações entre as modalidade de ensino da escola e dos professores e as modalidades de
aprendizagem de alunos e educadores.
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Chafic.com.br 49 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

A Psicopedagogia oferece inúmeros conhecimentos e formas de atuação para a


abertura de espaços objetivos e subjetivos, onde a autoria do pensamento de alunos e
professores seja possível e, consequentemente, a aprendizagem ocorra.

A Psicopedagogia tem realizado trabalhos com grupos de educadores


resgatando suas histórias de aprendizagem, ressignificando seus modelos de aprendentes
/ ensinantes; têm proporcionado a abertura de espaços vivencias para que os educadores
reconheçam a própria autoria de pensamento, permitindo assim que seus alunos também
sejam sujeitos pensantes. Espaços onde os educadores se conectam com a angústia de
conhecer e de desconhecer redimensionando seus vínculos com os alunos.

A natureza da intervenção psicopedagógica reflete duas vertentes. Uma na


dimensão terapêutica e outra na dimensão preventiva. E diz respeito não só aos alunos,
mas a toda dinâmica desenvolvida dentro da instituição escolar. Essa forma de atuação da
Psicopedagogia visa favorecer os mecanismos presentes no aprender e ensinar com o
outro, tocando nas questões pertinentes às relações vinculares do aluno com a escola,
com o professor, com o corpo técnico-diretivo, administrativo e de apoio. Reeditar e
redefinir os procedimentos pedagógicos integrando todas as dimensões implícitas no
saber são ângulos de um mesmo fenômeno e devem ser articulados, refletidos a fim de
que se possa configurar numa quebra de paradigmas quanto aos processos educacionais.

A Psicopedagogia propõe uma reflexão sobre o inacabamento do homem e a


impermanência dos conceitos estabelecidos como imutáveis pelas agências de controle do
imaginário: escola, família, igreja, estado. Com uma escuta e olhar diferenciado num
processo analítico que se dá a partir do referencial da Matriz Diagnóstica apresentada pela
Epistemologia Convergente de Visca (1987), que apoiado em “princípios interracionistas,
construtivistas e estruturalistas, possibilita entre outras questões a leitura dos sintomas
que emergem na ação e interação social, voltada para o sujeito que aprende”. (BARBOSA,
2001).

Portanto, a partir de um referencial interdisciplinar e transdisciplinar como o da


Psicopedagogia, é possível estabelecer a convergência não só no que diz respeito aos
aspectos intrínsecos da educação formal, pois, um novo pensar o mundo / no mundo se
faz premente, a fim de que o indivíduo possa conceber seu sentido de futuro e
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Chafic.com.br 50 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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temporalidade significativa. para gerar a autossustentabilidade psíquica e emocional na


convivência como ser inserido na coletividade.
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Chafic.com.br 51 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

6. DIFERENÇA ENTRE A PSICOLOGIA ESCOLAR E A PSICOPEDAGOGIA

A educação é um processo multidimensional, pois, de fato, ela apresenta uma


dimensão humana, uma dimensão técnica e uma dimensão político-social. Estas
dimensões não podem ser visualizadas como partes que se justapõem, ou que são
acrescentadas, umas às outras, sem guardarem, entre si, uma articulação dinâmica e
coerente. Não se trata de propor um ecletismo ou associar de forma meramente superficial
elementos oriundos das diferentes perspectivas. O desafio está exatamente em construir
uma visão articulada em que partindo de uma perspectiva de educação como prática
social, inserida num contexto político-social determinado, não são deixadas em segundo
plano as variáveis processuais.

Nas civilizações primitivas e nas de baixo nível de desenvolvimento, a


transmissão cultural se faz pela simples convivência entre as gerações. Quando, porém os
conhecimentos que devem ser transmitidos não são do domínio de todos e seu volume é
suficientemente grande a ponto de levar o educando a reservar um tempo necessário para
aprendê-los, a transmissão cultural só se torna possível por meio de instituições
organizadas, denominadas escolas. Portanto, a escola tem funções sociais específicas, o
que a leva ser um espaço onde as atividades, na maioria das vezes, não correspondem à
demanda da sociedade. Torna-se um ambiente artificial em que o professor seleciona o
conteúdo que deve ser transmitido e aprendido pelo aluno sem levar em conta as
experiências, as necessidades e aspirações deste. Ainda encontramos em muitas escolas,
o aluno como espectador passivo, pois não participa do processo de transmissão cultural,
sendo obrigado a aprender, muitas vezes, conteúdos culturais totalmente desvinculados
do contexto em que está inserido, portanto, pouco significativo para ele.

É preciso, pois, que o educador se conscientize de que somente fatos concretos


conhecidos do educando têm sentido para ele. De outra parte, é preciso transformar a
escola, de sistema fechado que é, em um sistema aberto em constante interação com o
ambiente social a que pertence. “a educação é vista fundamentalmente como um processo
de vida pessoal, interpessoal e grupal, e o educador como facilitador deste crescimento”
(CANDAU, 1993, p. 46). O trabalho pedagógico deve ser orientado de tal modo que os
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Chafic.com.br 52 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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conhecimentos transmitidos se transformem em “ferramentas” de ação do educando na


vida social.

Com essa tarefa, em face dos inúmeros obstáculos que se encontra ao tentar-
se implantar uma proposta de tal natureza, a escola acaba transformando-se numa
agência de informação, em detrimento da formação do educando. A escola que tem a
pretensão de preparar o educando para a vida é incoerente ao desenvolver um trabalho no
interior de seus muros, distante da realidade social. É necessário transformar essa
situação, levando o educando a um contato com a comunidade onde está inserido a fim de
desenvolver maior integração social.

Ainda é possível encontrar escolas com regulamentos rígidos, ultra-exigentes


quanto à obediência de suas regras ou normas, e com sua intenção de transmitir o saber
sem reflexão, dando a impressão de que está organizada apenas para depositar
informações. Ao contrário, escola deve, acima de tudo, ensinar o aluno a pensar.

É importante considerar que a escola deve valorizar os muitos saberes do


aluno, e que seja oportunizado a ele demonstrar suas reais potencialidades. A escola tem
valorizado apenas o conhecimento verbal e matemático, deixando de fora tantos
conhecimentos importantes para formação pessoal, intelectual e moral do aprendiz. O
sentimento de pertença deve ser estimulado; alguém que se sinta acuado e excluído
jamais vai demonstrar as potencialidades que possui. Tornando o ambiente escolar
acolhedor, aceitando o aluno como ele é, oferecendo meios para que se desenvolva, já é
uma garantia de dar certo o trabalho em sala de aula.

É necessário que os profissionais da educação adotem uma postura ética em


relação ao aluno, que assim como eles convivem em uma sociedade excludente. Portanto,
diversificar as situações de aprendizagem é adaptá-las às especificidades dos alunos, é
tentar responder ao problema didático da heterogeneidade das aprendizagens, que muitas
vezes é rotulada de dificuldades, conforme lembra Candau (1985, p.13): “o objeto de
estudo da didática é o processo de ensino-aprendizagem. toda proposta didática está
impregnada, implícita ou explicitamente, de uma concepção do processo de ensino-
aprendizagem”.
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Suporte e formação continuada para educadores

É nas relações sociais e na interação com o meio que o indivíduo se constitui e


através dos conhecimentos adquiridos que é inserido, de forma mais organizado no mundo
cultural e simbólico. É a sociedade, então, que outorga à escola o papel de mediadora
nesse processo de inserção no organismo do mundo, sendo ela a responsável por grande
parte dessa aprendizagem. Cada sujeito tem uma história pessoal, da qual fazem parte
várias histórias: a familiar, a escolar, e outras, que articuladas, atuam na formação do
indivíduo. A escola tem, portanto, um papel importante na formação deste sujeito depois
da família e que tanto uma quanto a outra podem contribuir para a formação de algumas
dificuldades de aprendizagem.

Na história da educação, destaca-se a Psicologia da Educação, ou Educativa,


surgida, especialmente, após a obra Educational Psychology, em 1903, de autoria de
Edward L. Thorndike. No contexto da tradição latina, as expressões Psicologia Escolar,
Psicopedagogia, Pedagogia Terapêutica, Pedapsicologia (estudo dos componentes
psicológicos das situações educativas) desenvolviam-se dentro das chamadas ciências
pedagógicas, cujos conteúdos hoje se estudam sob os nomes de Psicopedagogia ou
Psicologia Educativa, considerando-se, também, suas especializações. Ao observar os
conteúdos que atualmente referem-se à Psicologia Educativa, é possível verificar títulos
similares aos dos textos de Pedagogia, didática, planejamento educativo e metodologia do
ensino, entre outros, que por séculos orientaram os educadores. É por esse aspecto que
os estudiosos da educação não vacilam em destacar que, ainda nas épocas em que não
existia a psicologia da educação como disciplina reconhecível sob tal nome, eles já
trabalhavam e desenvolviam tal área. Por suposto, que desde seus palcos naturais, as
salas de aula, os mesmos educadores incorporavam às ciências da educação
conhecimentos provenientes da psicologia, da biologia e da sociologia, pois, a pedagogia
ou teoria da educação, não desprezava aportes de outras áreas do conhecimento. Tanto é
que, na área da educação especial, com frequência se vêem fonoaudiólogos, psicólogos,
oftalmologistas e até psiquiatras, considerando-se educadores especiais.

Epistemologicamente, a Psicologia Escolar se localizou dentro das Ciências


Pedagógicas. Se lhe reconhece atualmente como uma disciplina completa com suas
próprias teorias, métodos de investigação, problemas e técnicas. A psicologia escolar é
diferente a outros ramos da psicologia porque seu objetivo fundamental é o entendimento
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e a melhoria da educação. Em conseqüência, os psicólogos escolares estudam os


processos e resultados do ensino. Em outras palavras, a psicologia escolar tem foco no
estudo psicológico dos problemas cotidianos da educação, a partir dos quais se derivam
princípios, modelos, teorias, procedimentos de ensino e métodos práticos de instrução e
avaliação, bem como métodos de investigação, análise estatística e procedimentos de
medição e avaliação apropriados para estudar os processos afetivos e de pensamento dos
estudantes, bem como os processos social e culturalmente complicados das escolas.

Diferentemente, a Psicopedagogia, na instituição escolar, tem uma função


complexa e por isso provoca algumas distorções conceituais quanto às atividades
desenvolvidas pelo psicopedagogo. Numa ação interdisciplinar ela dedica-se a áreas
relacionadas ao planejamento educacional e ao assessoramento pedagógico, colaborando
com planos educacionais e sanitários no âmbito das organizações, atuando numa
modalidade cujo caráter é clínico institucional, ou seja, realizando diagnóstico institucional
e propostas operacionais pertinentes. O campo de atuação até então discreto, pode ser
classificado também como da modalidade preventiva muito ampla e complexa, mas pouco
explorada.

Sobre o trabalho psicopedagógico na escola muito há o que fazer. Grande parte


da aprendizagem ocorre dentro da instituição escolar, nas relações estabelecidas entre o
professor e o aluno, entre o currículo, programas e conteúdos, e com o grupo social
escolar enquanto um todo, é por isso que se propõe uma visão embasada no modelo
sistêmico, onde as relações têm grande relevância. Pensar a escola à luz da
Psicopedagogia significa analisar um processo que inclui questões metodológicas,
relacionais e socioculturais, englobando o ponto de vista de quem ensina e de quem
aprende, abrangendo a participação da família e da sociedade.

Historicamente, a intervenção psicopedagógica vem ocorrendo na assistência


às pessoas que apresentam dificuldades de aprendizagem. Diante do baixo desempenho
acadêmico, alunos são encaminhados pelas escolas, com o objetivo de elucidar a causa
de suas dificuldades. A questão fica, desde o princípio, centrada em quem aprende, ou
melhor, em quem não aprende. Diferente de estar com dificuldade, o aluno manifesta
dificuldades, revelando uma situação mais ampla, onde também se inscreve a escola,
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Chafic.com.br 55 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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parceira que é no processo da aprendizagem. Portanto, analisar a dificuldade de aprender


inclui, necessariamente, o projeto pedagógico escolar, nas suas propostas de ensino, no
que é valorizado como aprendizagem. A ampliação desta leitura através do aluno permite
ao psicopedagogo abrir espaços para que se disponibilize recursos que façam frente aos
desafios, isto é, na direção da efetivação da aprendizagem.

No entanto, apesar do esforço que as escolas tradicionalmente despendem na


solução dos problemas de aprendizagem, os resultados do estudo psicopedagógico têm
servido, muitas vezes, para diferentes fins, sobretudo quando a escola não se dispõe a
alterar o seu sistema de ensino e acolher o aluno nas suas necessidades. Assim, se a
instituição consagra o armazenamento do conteúdo como fator de soberania, os
resultados do estudo correm o risco de serem compreendidos como a confirmação das
incapacidades do aluno de fazer frente às exigências, acabando por referendar o processo
de exclusão.

Na prática, observa-se diferentes tipos de escola segundo tenham existido ou


não as condições e o tempo suficientes para estabelecer objetivos comuns, para marcar
uma metodologia de base e para explicitar o seu projeto educativo. Em outras palavras,
conforme cita Bassedas (2006, p.26), as escolas são instituições que passam por
momentos evolutivos diferentes.

O estudo psicopedagógico atinge plenamente seus objetivos quando, ampliando


a compreensão sobre as características e necessidades de aprendizagem do aluno, abre
espaço para que a escola viabilize recursos para atender as necessidades de
aprendizagem. Dessa forma, o fazer pedagógico se transforma, podendo se tornar uma
ferramenta poderosa.

A Psicopedagogia traz à tona o encontro com o prazer de trabalhar, de


investigar, de aprender com os alunos (apreendentes). Isso é a busca criativa que leva à
libertação da inteligência, a tirar a criatividade do casulo, a desprender-se, deixar solto o
pensar, a conhecer e fazer crescer o ser humano. Assim reflete Fernández (2001, p.90):

na aprendizagem, a primeira representação do conhecimento também


pouco está diferenciada do outro, mas implica um investimento primordial
do conhecimento. Em um momento posterior, serão investidos o ato de
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conhecer e de pensar e, a partir daí, o conhecimento, diferenciando-o do


seu portador.

Modificar a modalidade de ensino e recuperar o prazer de ensinar e aprender é


o que ensina a Psicopedagogia. É importante destacar que o papel da Psicopedagogia na
formação e postura dos professores que atuam diretamente com o aluno tem sido ainda
tímido e insuficiente devido a questões educacionais estruturais. Contudo, a didática, com
um olhar psicopedagógico inserida na sala de aula, pode prevenir inadequações na
relação do sujeito com o saber.

À medida que o educando se sente de posse do seu processo de aprendizagem


e se torna o pólo central do mesmo, ele se mobiliza para a busca do saber. Uma didática
com um olhar psicopedagógico revoluciona a interrelação professor-aluno. Se de um lado
o aluno é visto de um modo integrativo e participa da construção do conhecimento, de
outro é indispensável uma transformação na postura do professor. É importante que o
educador tenha os cuidados necessários para permitir que a autonomia do educando
avance sem que ele, educador, se sinta ameaçado e não exija mais que o aluno pode dar.
Ao facilitar e organizar o processo produtivo de aprendizagem o educador deve assegurar
a todos a prática e a vivência, a possibilidade de observar e construir o conhecimento.

Um novo olhar para a didática atua não só no interior do aluno ao sensibilizar


para a construção do conhecimento, levando em consideração os desejos do aluno, mas
requer uma transformação interna do professor. Para que o professor se torne um
elemento facilitador que leve o educando ao desenvolvimento da autopercepção,
percepção do mundo e do outro, integrando as três dimensões, deve estar aberto e atento
para lidar com questões referentes ao respeito mútuo, relações de poder, limites e
autoridade. Aprender supõe um sujeito que se historia, assim ele não se perde no tempo
tornando-se um ser aprendente enquanto registra sua presença e a torna significativa.

Para aprender, são necessários dois personagens: o ensinante e o aprendente.


Deve existir, também, um vínculo entre ambos e das modalidades de aprender e ensinar
de cada um. É preciso contar com a aprendizagem do professor também, não só do aluno.
Os cursos de formação docente, preocupados com os estágios supervisionados, deixam
de pensar na construção subjetiva do professor e do aluno e na trama que se estabelece
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Chafic.com.br 57 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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entre as questões da ordem objetiva e subjetiva nos processos de aprender. O campo do


saber da psicopedagogia oferece subsídios para a postura do professor reconhecer sua
modalidade de aprender.

A intervenção psicopedagógica não pode configurar-se da mesma maneira


quando direcionada para o contexto escolar e quando oferecida a uma família; os
instrumentos e as estratégias utilizadas irão variar conforme a orientação esteja
direcionada a um adolescente ou a um trabalhador que, na sua maturidade, precisa
redefinir sua trajetória profissional. (SOLÉ, 2001, p. 28).

A sala de aula é um espaço, por excelência, saudável onde o perguntar é


valorizado e o eleger é possível: um ambiente que promova aprendizagens significativas,
valorize a relação professor-aluno e influencie o desenvolvimento do pensar. Um ambiente
aberto ao questionamento e ao diálogo, encoraja os alunos a serem criativos e autônomos,
ao contrário do ambiente autoritário, cuja ênfase recai sobre a memorização. A atitude do
aprender deixa de ser uma mera atividade porque recebe a influência do ambiente.

Neste contexto do aprender, a Psicopedagogia contribui quando diz que seu


objeto de estudo é o sujeito em situação de aprendizagem. E no processo ensino-
aprendizagem, ao colocar em jogo o corpo, o organismo, a inteligência e o desejo,
desnuda-se o conhecimento e libertam-se as inibições. É nesse jogo simbólico que se
busca a energia e se refaz sempre o pensar. É nos embates e nas contradições que se
encontra a dinâmica e a diversidade nas situações cotidianas e imediatas da sala de aula.
É este o jogo da aprendizagem.

A participação do professor, por inteiro, (corpo, organismo, inteligência e desejo)


nessa relação, na sala de aula, no processo ensino-aprendizagem demanda a participação
dos alunos também por inteiro. Conforme lembra Fernández (1991, p.62): “o organismo,
transversalizado pela inteligência e o desejo, irá se mostrando em um corpo, e é deste
modo que intervém na aprendizagem, já corporizado”. É um processo de
“intercomplementaridade”, isto é, não é produzido nem só pelo professor e nem só pelo
aluno. É uma atividade de interrelação entre os dois sujeitos e é nessa interrelação que a
identidade se concretiza e vai se concretizando, afinal todos são atores e protagonistas da
própria história.
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Chafic.com.br 58 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Sob a denominação "Psicopedagogia” formaram-se os primeiros psicólogos


escolares, os orientadores e os especialistas em problemas de aprendizagem, seja no
ensino regular, na pré-escola ou na educação especial. A explosão do conhecimento em
cada uma das anteriores áreas gerou carreiras separadas, dentro das citadas áreas de
educação. Hoje, consideram-se integrantes da psicologia educativa os orientadores, os
educadores especiais, os psicólogos da educação, os especialistas em pré-escolar e os
especialistas em problemas de aprendizagem, entre outros. Os psicólogos educativos, sob
qualquer das denominações que assinalam sua especialidade, conhecem desde o primeiro
momento de sua carreira o âmbito de seu futuro exercício profissional. A escola, o
currículo, os educadores e os educandos conforme seu universo particular Como
profissionais relacionados com o ensino e a aprendizagem reconhecem sua
responsabilidade na orientação daqueles educandos, seja por limitações, objeto da
educação especial, ou por outras circunstâncias que precisem de sua intervenção. Em
situações específicas, podem realizar encaminhamentos a profissionais da Psicologia,
Fonoaudiologia ou médicos em geral.

Resumidamente, é possível diferenciar a Psicopedagogia da Psicologia Escolar,


de três formas:

1. diferença quanto à origem histórica. A Psicologia Escolar surgiu para


explicar o fracasso escolar, enquanto a
Psicopedagogia surgiu como um trabalho clínico dedicado ao trabalho com
aqueles que apresentavam dificuldades na aprendizagem por problemas
específicos.

2. diferença quanto à formação: A Psicologia Escolar é uma especialização do


curso de graduação em Psicologia, enquanto o curso de Psicopedagogia é
um curso de especialização, que recebe graduados em diversos cursos.

3. diferença em relação ao campo de atuação: talvez esta seja a diferença


mais significativa. O trabalho da Psicologia Escolar se realiza nos limites da
Psicologia, enquanto o trabalho Psicopedagógico se realiza na interface
entre a Psicologia e a Pedagogia ou, mais recentemente, na interface entre
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a Psicanálise e a Pedagogia. Neste último caso, busca entender e intervir no


processo de ensino e aprendizagem, levando em conta o inconsciente e a
relação transferencial.
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Chafic.com.br 60 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

7. QUAL O TRABALHO QUE A PSICOPEDAGOGIA PODERIA OFERECER NO


TRABALHO DE COORDENAÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL – CRECHES E
ESCOLAS?

Embora a Psicopedagogia esteja voltada para o processo de aprendizagem


formal e seus problemas, pode contribuir com o trabalho realizado na educação infantil,
sobretudo na prevenção de futuros problemas de aprendizagem.
Nesse sentido, pode oferecer parâmetros do desenvolvimento infantil e do processo de
organização psíquica. Estes parâmetros podem apontar direções para o planejamento de
atividades a serem realizadas com as crianças, assim como sinalizar eventuais
dificuldades que as crianças dessa faixa etária podem apresentar.

Adiantando alguma coisa sobre isso pode-se dizer que a brincadeira é a


atividade privilegiada da infância. Isso lhe ajuda tanto na sua constituição psíquica como
no seu processo de desenvolvimento, de aprendizagem e de sociabilização. Os
educadores que se dedicam aos pré-escolares devem ter isso em mente e privilegiar
também essa atividade na proposta de tarefas. Se houver interesse de sua parte no curso
de Psicopedagogia, é importante buscar um que contenha uma disciplina dedicada aos
jogos e brincadeiras.

No site www.chafic.com.br tem um ótimo curso sobre este tema. O título é: A


importância do lúdico para o processo ensino-aprendizagem. Se tiver oportunidade, faça-o!
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Chafic.com.br 61 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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8. DIAGNÓSTICO E A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA

O psicopedagogo usa o diagnóstico psicopedagógico para detectar os


problemas de aprendizagem. Rubinstein (1996) compara o diagnóstico psicopedagógico a
um processo de investigação, onde o psicopedagogo assemelha-se a um detetive à
procura de pistas, selecionando-as e centrando-se na investigação de todo o processo de
aprendizagem, levando em conta todos os fatores envolvidos nesse processo. Para
Rubinstein (1999), o diagnóstico psicopedagógico é em si mesmo uma intervenção, pois o
psicopedagogo tem que interagir com o cliente, a família, e a escola, que são partes
envolvidas na dinâmica do problema de aprendizagem.

Rubinstein (1996, p.128) reforça que “durante e após o processo diagnóstico


serão construídos um conhecimento e uma compreensão a respeito do processo de
aprendizagem". Isso permite que o psicopedagogo tenha maior clareza a respeito dos
objetivos a serem alcançados no atendimento psicopedagógico.

Mas quais são os recursos que o psicopedagogo pode utilizar para realizar o
diagnóstico e a intervenção psicopedagógica? O Código de Ética da Psicopedagogia, em
seu Capítulo I - Dos Princípios, artigo 1º., afirma que o psicopedagogo pode utilizar
procedimentos próprios da Psicopedagogia. Neste sentido, realizando o diagnóstico
psicopedagógico, o psicopedagogo está utilizando procedimentos próprios de sua área de
atuação. Já o artigo 2º. do mesmo documento, enfatiza o caráter interdisciplinar da
Psicopedagogia, destacando o uso de recursos das várias áreas do conhecimento humano
para a compreensão do ato de aprender, também mencionando o uso de métodos e
técnicas próprias.

Rubinstein (1992) destaca que o psicopedagogo pode realizar a entrevista com


a família; investigar o motivo da consulta; levantar a história de vida da criança, realizar a
anamnese, entrevistar o cliente, fazer contato com a escola e outros profissionais que
atendam a criança, manter os pais informados do estado da criança e da intervenção que
está sendo realizada e realizar encaminhamento para outros profissionais, quando
necessário. Os recursos apontados por Rubinstein são instrumentos para a realização do
diagnóstico e intervenção psicopedagógica. Porém, Bossa (1994) destaca outros recursos
para o diagnóstico psicopedagógico tais como as Provas de Inteligência (Wisc), Testes
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Chafic.com.br 62 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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Projetivos, Avaliação Perceptomotora (teste Bender), Teste de Apercepção Infantil (CAT),


Teste de Apercepção Temática(TAT), além das provas de nível de pensamento (Piaget),
avaliação do nível pedagógico ( nível de escolaridade), desenho da família, desenho da
figura humana, HTP (House, Tree and Person, ou Casa, Árvore e Pessoa); testes
psicomotores, lateralidade e estruturas rítmicas.

Rubinstein (1992), assim como Fernandéz (1991) e Paín (1985) sugere,


também, o uso de jogos considerando que o sujeito através deles pode manifestar, sem
mecanismos de defesa, os desejos contidos em seu inconsciente. Além do mais, no
enfoque psicopedagógico, os jogos representam situações-problema a serem resolvidas,
pois envolvem regras, apresentam desafios e possibilitam observar como o sujeito age
frente a eles, qual sua estrutura de pensamento e como reage diante de dificuldades.
Levando-se em conta que o sujeito possui poucos recursos (vocabulário, por exemplo)
para se comunicar, expressar o que sente e o que deseja, os jogos, desenhos e
brincadeiras podem facilitar manifestar o que sente. Sendo assim, cabe ao psicopedagogo
estar atento para fazer a leitura e análise das mensagens que o sujeito está lhe enviando.

Conforme Rubinstein (1992), o diagnóstico psicopedagógico possui uma


dinâmica muito particular, fazendo com que o psicopedagogo participe ativamente do
processo psicopedagógico, contrariando os padrões onde o terapeuta adota uma atitude
estática diante da dinâmica do caso. A conduta dinâmica proposta por Rubinstein (1992)
no diagnóstico psicopedagógico, é a Avaliação Assistida que, conforme Linhares (1995, p.
23), refere-se à avaliação assistida como sendo a "combinação entre avaliar e intervir
ensinando diretamente o examinando durante o processo de avaliação". A avaliação
assistida, ou avaliação dinâmica, está fundamentada na teoria sócio-construtivista
proposta por Vygotsky, a qual aborda a "aprendizagem mediada e a zona de
desenvolvimento proximal". Conforme Linhares (1995), a aprendizagem mediada enfatiza
que os eventos são selecionados, ordenados, filtrados e dotados de significado específico
por agentes mediadores, com o objetivo de modificar o repertório das crianças e estimular
a manifestação de níveis mais elevados de funcionamento, com o objetivo da criança
revelar seu potencial para a aprendizagem.
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Chafic.com.br 63 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

Este conceito de aprendizagem mediada influenciou a avaliação do


desempenho intelectual, e vários estudiosos propuseram maior ênfase no potencial de
aprendizagem do que no desempenho real. Este novo enfoque está fundamentado na
teoria de Vygotsky, precisamente em seu conceito de "zona de desenvolvimento proximal".
Neste sentido, o "examinador" verifica a convergência entre o desenvolvimento e a
aprendizagem. A diferença entre avaliação assistida e a avaliação padronizada, segundo
Linhares (1995), está no fato de que a primeira se caracteriza pelo fator dinâmico, já a
segunda se caracteriza como estática.

O quadro abaixo mostra as características entre ambas as avaliações.

AVALIAÇÃO ASSISTIDA AVALIAÇÃO PADRONIZADA

Dinâmica Estática

É flexível Possui instruções padronizadas

Valoriza o conhecimento Dá ênfase em como o


adquirido e resolução de conhecimento é adquirido.
problemas. O avaliador possui Valoriza produtos de
comportamento pautado pelo aprendizagem.
manual do teste.

Resultados: indicadores do Resultados: comparar indivíduos


processo de aprendizagem baseando-se em seus escores
com grupos de referência
Tabela 1: Comparação entre Avaliação Assistida e Padronizada.

Para Linhares (1995) deve-se levar em conta quatro dimensões para


caracterizar a avaliação assistida, as quais são compostas pela Interação (onde as ações
são compartilhadas entre os sujeitos envolvidos); Método (pode ser estruturado de acordo
com o grau de interação entre o sujeito e o examinador, ainda na maneira de incorporar as
intervenções de ajuda no processo da avaliação, podendo ser clínico ou estruturado);
Conteúdo que se deseja ensinar; e Foco (é o desempenho potencial revelado através da
condição de assistente).

Com relação ao Método, Linhares (1995) destaca que, como as intervenções de


ajuda no método clínico são menos sistematizadas, assim como as intervenções se
processam de modo flexível ao longo da avaliação, então fica difícil separar o desempenho
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Chafic.com.br 64 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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inicial de base (que ocorre sem ajuda) do desempenho potencial (que pode ocorrer através
da mediação). Deste modo, o método clínico permite a avaliação qualitativa mais geral do
desempenho do examinado, enquanto que o método estruturado envolve a intervenção de
ajuda mais sistematizada. Nele pode-se estabelecer uma estruturação no processo de
avaliação. Separa-o em fases que se diferenciam pelo fato de serem sem assistência ao
educando e com assistência.

Na fase de ajuda, no método estruturado, é prevista a direção que se pode


tomar. Mas, pode variar a forma e a quantidade de ajuda oferecida.
Em relação ao conteúdo, Linhares (1995) destaca que com a avaliação assistida pode-se
avaliar as habilidades de domínio geral cognitivo: operações cognitivas e raciocínio; as
habilidades de domínio específico como a compreensão da leitura, consciência fonológica
e habilidades aritméticas.

Como o Foco é o desempenho do potencial da criança, revelado através da


condição de assistência que se dá ao educando, pode-se identificar a região de
sensibilidade à instrução do examinado; a velocidade de aprendizagem e a amplitude de
transferência; crianças com alto escores que apresentam bom desempenho na fase de
investigação, independente da assistência; estimular a localização do desenvolvimento
potencial na zona de desenvolvimento proximal. Levando em conta as características da
avaliação assistida, Linhares (1995, p. 29), considera que "a avaliação assistida parece ser
uma modalidade de avaliação promissora, especialmente para crianças classificadas como
deficientes mentais ou referidas como apresentando dificuldades de aprendizagem".

Outro recurso para o diagnóstico psicopedagógico é o LPAD (Learning


Potencial Assessment Device). Tanto Rubinstein (1992) quanto Linhares (1995), referem-
se ao LPAD (Learning Potencial Assessment Device) proposto por Feuerstein 7 (apud
BEYER, 1996), como sendo um método dinâmico de caráter diagnóstico para avaliar o

7 Reuven Feuerstein, professor e psicólogo, nasceu na Romênia em 21.8.1921, sendo o criador da teoria
da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (MCE), a teoria da Experiência da Aprendizagem Mediada (MLE), e
o Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI). A idéia de que inteligência pode ser desenvolvida está
associada ao trabalho do Professor Feuerstein., que estudou na Universidade de Genebra, sob a orientação
de Jean Piaget, André Rey, Barbel Inhelder e Marguerite Loosli Uster, e é um seguidor de Lev Vygotsky.
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Chafic.com.br 65 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

potencial cognitivo dos sujeitos com problemas de aprendizagem. Rubinstein (1992)


destaca que Feuerstein considera os métodos tradicionais de avaliação insuficientes para
avaliar a capacidade de aprendizagem dos indivíduos, enquanto que Linhares aponta o
LPAD como sendo o instrumento dinâmico para avaliar o potencial cognitivo, incluindo o
mapeamento das funções cognitivas deficientes. Rubinstein (1992) ainda enfatiza um
segundo material desenvolvido por Feuerstein o PEI (Instrumental Enrichment), o qual visa
a modificabilidade cognitiva estrutural, combatendo e corrigindo funções cognitivas
abrangentes que instalam, reforçam os princípios cognitivos fundamentais ao nível
operacional abstrato.

Também sobre este tópico, no site www.chafic.com.br você pode encontrar o


curso: Instrumentos de Avaliação Psicopedagógica com detalhamento dos processos
citados neste tópico e, inclusive, com dicas práticas para o atendimento clínico e
institucional no âmbito da psicopedagogia.
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Chafic.com.br 66 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

9. ANAMNESE

Fernández (1991) afirma que o diagnóstico, para o terapeuta, deve ter a mesma
função que a rede para um equilibrista. É ele, portanto, a base que dará suporte ao
psicopedagogo para que este faça o encaminhamento necessário. É um processo que
permite ao profissional investigar, levantar hipóteses provisórias que serão ou não
confirmadas ao longo do processo recorrendo, para isso, a conhecimentos práticos e
teóricos. Esta investigação permanece durante todo o trabalho diagnóstico através de
intervenções e da “escuta psicopedagógica”, para que “se possa decifrar os processos que
dão sentido ao observado e norteiam a intervenção”. (BOSSA, 2000, p. 24).

Na Epistemologia Convergente todo o processo diagnóstico é estruturado para


que se possa observar a dinâmica de interação entre o cognitivo e o afetivo de onde
resulta o funcionamento do sujeito (BOSSE, 1995, p. 80)

Conforme Weiss (2003, p. 32), o objetivo básico do diagnóstico


psicopedagógico é identificar os desvios e os obstáculos básicos no Modelo de
Aprendizagem do sujeito que o impedem de crescer na aprendizagem dentro do esperado
pelo meio social. O diagnóstico possui uma grande relevância tanto quanto o tratamento.
Ele mexe de tal forma com o paciente e sua família que, por muitas vezes, chegam a
acreditar que o sujeito teve uma melhora ou tornou-se agressivo e agitado no decorrer do
trabalho diagnóstico. Por isso deve-se fazer o diagnóstico com muito cuidado observando
o comportamento e mudanças que isto pode acarretar no sujeito.

Para ilustrar como o diagnóstico interfere na vida do sujeito e sua família, é


possível recorrer a um exemplo de Weiss (2003, p.33):

uma paciente, uma adolescente de 18 anos cursando a 7ª. série de escola


especial, queixou-se à mãe que ela (Weiss) estava forçando-a a crescer.
Ela conseguiu fazer a elaboração deste pensamento porque tinha medo de
perder o papel na família da doente que necessitava de atenção exclusiva
para ela. A família percebeu que isto realmente poderia acontecer e era isto
também que sustentava seu casamento “já acabado”. Concordou com a
terapeuta em interromper o diagnóstico.
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Bossa (2000, p.96) frisa que a forma de se operar na clínica para se fazer um
diagnóstico varia entre os profissionais dependendo da postura teórica adotada. Já na
linha da Epistemologia Convergente, Visca (1987, p.69) destaca que o diagnóstico começa
com a consulta inicial (dos pais ou do próprio paciente) e encerra com a devolução.

Antes de se iniciar as sessões com o sujeito, é necessário realizar uma


entrevista contratual com os pais ou responsáveis, objetivando colher informações, tais
como:

a) identificação da criança: nome, filiação, data de nascimento, endereço,


nome da pessoa que cuida da criança, escola que frequenta, série,
turma, horário, nome da professora, irmãos, escolaridades dos irmãos,
idade dos irmãos.

b) motivo da consulta;

c) indicação para a assistência de um psicopedagogo;

d) atendimento anterior (caso houver);

e) expectativa da família e da criança;

f) esclarecimento sobre o trabalho psicopedagógico.

g) definição de local, data e horário para a realização das sessões e


honorários.

Visca (1991) propõe o seguinte Esquema Sequencial baseado na Epistemologia


Convergente:

Ações do entrevistador Procedimentos Internos do Entrevistador


EOCA 1º sistema de hipóteses
Linhas de investigação
Testes Escolha de instrumentos
2º sistema de hipóteses
Linhas de investigação
Anamnese Verificação e decantação do 2º sistema de hipótese.
Formulação do 3º sistema de hipóteses
Elaboração do Informe Elaboração de uma imagem do sujeito (irrepetível) que
articula a aprendizagem com os aspectos energéticos e
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Chafic.com.br 68 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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estruturais, a-históricos e históricos que a condicionam.

Observa-se, no quadro acima, que Visca (apud VISCA, 1987, p.70) propõe
iniciar o diagnóstico com a EOCA e não com a anamnese argumentando que:

os pais, invariavelmente ainda que com intensidades diferentes, durante a


anamnese tentam impor sua opinião, sua ótica, consciente ou
inconscientemente. Isto impede que o agente corretor se aproxime
‘ingenuamente’ do paciente para vê-lo tal como ele é, para descobri-lo.

Os profissionais que optam pela linha da Epistemologia Convergente realizam a


anamnese após as provas, para que não haja “contaminação” pelo bombardeio de
informações trazidas pela família, o que acabaria distorcendo o olhar sobre aquela criança
e influenciando no resultado do diagnóstico. Porém, alguns profissionais iniciam o
diagnóstico com a anamnese. É o caso de Weiss (1994), conforme a sequência
diagnóstica que propõe:

1º. Entrevista Familiar Exploratória Situacional (E.F.E.S.);

2º. Anamnese;

3º. Sessões lúdicas centradas na aprendizagem (para crianças);

4º. Complementação com provas e testes (quando for necessário);

5º. Síntese Diagnóstica – Prognóstico;

6º. Devolução – Encaminhamento.

Esta diferença não altera o resultado do diagnóstico, porém é preciso que o


profissional acredite na linha em que escolheu para seu trabalho psicopedagógico. A
realização da EOCA tem a intenção de investigar o modelo de aprendizagem do sujeito
sendo sua prática baseada na psicologia social de Pichón Rivière, nos postulados da
psicanálise e método clínico da Escola de Genebra (apud BOSSA, 2000, p. 44).

Para Visca (1987, p.72), a EOCA deverá ser um instrumento simples, porém
rico em seus resultados. Consiste em solicitar ao sujeito que mostre ao entrevistador o que
ele sabe fazer, o que lhe ensinaram a fazer e o que aprendeu a fazer, utilizando-se de
materiais dispostos sobre a mesa, após a seguinte observação do entrevistador: “este
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Chafic.com.br 69 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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material é para que você o use se precisar para mostrar-me o que te falei que queria saber
de você”.

O entrevistador poderá apresentar vários materiais, tais como: folhas de


tamanho A4, borracha, caneta, tesoura, régua, livros ou revistas, barbante, cola, lápis,
massa de modelar, lápis de cor, lápis de cera, quebra-cabeça ou ainda outros materiais
que julgar necessários.

O entrevistado tende a comportar-se de diferentes maneiras após ouvir as


orientações iniciais. Alguns, imediatamente, pegam o material e começam a desenhar ou
escrever; outros começam a falar; outros pedem que lhe digam o que fazer, e outros
simplesmente ficam paralisados. Neste último caso, Visca (1987, p.73) propõe empregar o
que ele chamou de modelo de alternativa múltipla, cuja intenção é desencadear respostas
por parte do sujeito. Visca (1987, p.73) exemplifica como deve ser conduzida essa
situação: “você pode desenhar, escrever, fazer alguma coisa de matemática ou qualquer
coisa que lhe venha à cabeça”.

Pain (1985, p.53) fala sobre esta falta de ação na atividade “a hora do jogo”
(atividade trabalhada por alguns psicólogos ou psicopedagogos, que não se aplica à
Epistemologia Convergente, porém é interessante citar para perceber-se a relação do
sujeito com o objeto):

no outro extremo encontramos a criança que não toma qualquer contato


com os objetos. Às vezes se trata de uma evitação fóbica que pode ceder
ao estímulo. Outras vezes se trata de um desligamento da realidade, uma
indiferença sem ansiedade, na qual o sujeito se dobra às vezes sobre seu
próprio corpo e outras vezes permanece numa atividade quase catatônica.

Piaget (apud VISCA, 1991, p.41), coloca que:

o indivíduo não atua senão quando experimenta a necessidade; ou seja;


quando o equilíbrio se acha momentaneamente quebrado entre o meio e o
organismo, a ação tende a reestabelecer este equilíbrio, quer dizer,
precisamente, a readaptar o organismo...

De acordo com Visca (1987, p.73), o que interessa observar na EOCA são os
conhecimentos, atitudes, destrezas, mecanismos de defesa, ansiedades, áreas de expressão da
conduta, níveis de operatividade, mobilidade horizontal e vertical etc.
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Chafic.com.br 70 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

É importante observar, também, três aspectos que fornecerão um sistema de


hipóteses a serem verificados em outros momentos do diagnóstico (Id. Ibid., p.73):

a) a temática: é tudo aquilo que o sujeito diz, tendo sempre um aspecto


manifesto e outro latente;

b) a dinâmica: é tudo aquilo que o sujeito faz, ou seja, gestos, tons de voz,
postura corporal etc. A forma de pegar os materiais ou sentar-se são tão
ou mais reveladores do que os comentários e o produto.

c) o produto: é tudo aquilo que o sujeito produz ou deixa no papel.

Visca (1987) observa que o que obtemos nesta primeira entrevista é um


conjunto de observações que deverão ser submetidas a uma verificação mais rigorosa,
constituindo o próximo passo para o processo diagnóstico. É da EOCA que o
psicopedagogo extrairá o primeiro sistema de hipóteses e definirá sua linha de pesquisa.
Logo após são selecionadas as provas piagetianas para o diagnóstico operatório, as
provas projetivas psicopedagógicas e outros instrumentos de pesquisa complementares.

Visca (1995, p.11) reuniu as provas operatórias aplicadas no método clínico da


Escola de Genebra por Piaget, no qual expõe sucintamente os passos em que usou com
grupos de estudo e cursos para o ensino do diagnóstico psicopedagógico, comentando o
porquê de cada passo. A aplicação das provas operatórias tem como objetivo determinar o
nível de pensamento do sujeito, realizando uma análise quantitativa, e reconhecer a
diferenças funcionais realizando um estudo predominantemente qualitativo.

Visca (1995, p.11) alerta que as provas “nem sempre são entendidas
adequadamente, nem utilizadas de acordo com todas as possibilidades que as mesmas
possuem”. Provavelmente, isto se deve a certa dificuldade em sua correta aplicação,
evolução e extração das conclusões úteis para entender a aprendizagem.

Segundo Weiss (2003, p.106):

as provas operatórias têm como objetivo principal determinar o grau de


aquisição de algumas noções-chave do desenvolvimento cognitivo,
detectando o nível de pensamento alcançado pela criança, ou seja, o nível
de estrutura cognitiva com que opera.
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Suporte e formação continuada para educadores

Weiss (2003) alerta, ainda, para que não se aplique várias provas de
conservação em uma mesma sessão, para se evitar a contaminação na forma de
resposta. Observa que o psicopedagogo deverá fazer registros detalhados dos
procedimentos da criança, observando e anotando suas falas, atitude, respostas dadas às
questões, argumentos e juízos, como o material é arrumado etc. Isto será fundamental
para a interpretação das condutas.

Para a avaliação, as respostas são divididas em três níveis:

Nível 1: não há conservação, o sujeito não atinge o nível operatório nesse


domínio;

Nível 2 ou intermediário: as respostas apresentam oscilações, instabilidade ou


não são completas. Em um momento conservam, em outro não;

Nível 3: as respostas demonstram aquisição da noção sem vacilação.

Weiss (2003, p.111) fala sobre as diferentes condutas em provas distintas:

pode ocorrer que o paciente não obtenha êxito em apenas uma prova,
quando todo o conjunto sugere a sua possibilidade de êxito. Pode-se ver se
há um significado particular para a ação dessa prova que sofra uma
interferência emocional: encontramos várias vezes crianças, filhos de pais
separados e com novos casamentos dos pais, que só não obtinham êxito
na prova de intersecção de classes. Podemos ainda citar crianças muito
dependentes dos adultos que ficam intimidadas com a contra-
argumentação do terapeuta, e passam a concordar com o que ele fala,
deixando de lado a operação que já são capazes de fazer.

Em relação a crianças com alguma deficiência mental, Weiss (2003, p.111-112)


diz que:

no caso de suspeita de deficiência mental, os estudos de B. Inhelder (1944)


em “El diagnóstico del razonamiento en los débiles mentales” mostram que
os oligofrênicos (QI 0-50) não chegam a nenhuma noção de conservação;
os débeis mentais (QI 50-70) chegam a ter êxito na prova de conservação
de substância; os fronteiriços (QI 70-80) podem chegar a ter sucesso na
prova de conservação de peso; os chamados de inteligência normal
“obtusa” ou “baixa”, podem obter êxito em provas de conservação de
volume, e às vezes, quando bem trabalhados, podem atingir o início do
pensamento formal.
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Suporte e formação continuada para educadores

Visca (2005) também reuniu provas projetivas, cuja aplicação tem como objetivo
investigar os vínculos que o sujeito pode estabelecer em três grandes domínios: o escolar,
o familiar e consigo mesmo, através dos quais é possível reconhecer três níveis em
relação ao grau de consciência dos distintos aspectos que constituem o vínculo de
aprendizagem. Sobre as provas projetivas, Weiss (2003, p. 117) observa que:

o princípio básico é de que a maneira do sujeito perceber, interpretar e


estruturar o material ou situação reflete os aspectos fundamentais do seu
psiquismo. É possível, desse modo, buscar relações com a apreensão do
conhecimento como procurar, evitar, distorcer, omitir, esquecer algo que lhe
é apresentado. Podem-se detectar, assim, obstáculos afetivos existentes
nesse processo de aprendizagem de nível geral e especificamente escolar.

Para Paín (1985, p. 61), o que se pode avaliar através do desenho ou relato é a
capacidade do pensamento para construir uma organização coerente e harmoniosa e
elaborar a emoção. Também permitirá avaliar a deteriorização que se produz no próprio
pensamento. O pensamento fala através do desenho onde se diz mal ou não se diz nada,
o que oferece a oportunidade de saber como o sujeito ignora.

De acordo com a Epistemologia Convergente, após a aplicação das provas


operatórias e das técnicas projetivas, o psicopedagogo levantará o segundo sistema de
hipóteses e organizará sua linha de pesquisa para a anamnese que, como já foi visto, terá
lugar no final do processo diagnóstico, de modo a não contaminar previamente a
percepção do avaliador.

Weiss (2003, p.106) reforça que:

as observações sobre o funcionamento cognitivo do paciente não são


restritas às provas do diagnóstico operatório; elas devem ser feitas ao longo
do processo diagnóstico. Na anamnese verifica-se com os pais como se
deu essa construção e as distorções havidas no percurso.

A anamnese é uma das peças fundamentais deste quebra-cabeça que é o


diagnóstico. Através dela serão reveladas as informações do passado e presente do
sujeito, juntamente com as variáveis existentes em seu meio. Será observada, também, a
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Chafic.com.br 73 Psicopedagogia Clínica e Institucional

Suporte e formação continuada para educadores

visão da família sobre a história da criança, seus preconceitos, expectativas, afetos,


conhecimentos e tudo aquilo que é depositado sobre o sujeito. Conforme Weiss (2003,
p.63):

toda anamnese já é, em si, uma intervenção na dinâmica familiar em


relação à “aprendizagem de vida”. No mínimo se processa uma reflexão
dos pais, um mergulho no passado, buscando o início da vida do paciente,
o que inclui espontaneamente uma volta à própria vida da família como um
todo.

Segundo Weiss (2003, p.61), o objetivo da anamnese é “colher dados


significativos sobre a história de vida do paciente”. Em outras palavras, consiste em
entrevistar o pai, a mãe ou responsável para, a partir disso, extrair o máximo de
informações possíveis sobre a criança ou adolescente, realizando uma posterior análise e
levantamento do terceiro sistema de hipóteses. Para isto é preciso que seja muito bem
conduzida e registrada.

O psicopedagogo deverá deixar os pais ou responsáveis à vontade, para que


todos se sintam com liberdade de expor seus pensamentos e sentimentos sobre a criança,
e possam compreender os pontos nevrálgicos ligados à aprendizagem. Deixá-los falar
espontaneamente permite ao psicopedagogo avaliar o que eles recordam e qual a
sequência e a importância dos fatos. O psicopedagogo deverá complementar ou
aprofundar, quando necessário (Id. Ibid., p.62).

Conforme Weiss (2003, p.64), em alguns casos deixa-se a família falar


livremente. Já em outros casos, dependendo das características da família, faz-se
necessário recorrer a perguntas, na forma de uma entrevista. Os objetivos deverão estar
bem definidos e a entrevista deverá ter um caráter semidiretivo.

De acordo com Paín (1985, p.42), a história vital permitirá “detectar o grau de
individualização que a criança tem com relação à mãe e a conservação de sua história
nela”. Por isso, é importante iniciar a entrevista falando sobre a gravidez, a história pré-
natal, fatos relacionados à concepção. Weiss (2003, p.64) lembra que:

a história do paciente tem início no momento da concepção. Os estudos de


Verny (1989) sobre a Psicologia pré-natal e perinatal vêm reforçar a
importância desses momentos na vida do indivíduo e, de algum modo, nos
aspectos inconscientes de aprendizagem.
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Suporte e formação continuada para educadores

Conforme Paín (1985, p.43), algumas circunstâncias durante o parto, como falta
de dilatação, complicações relacionadas ao cordão umbilical, emprego de fórceps,
adiamento da intervenção cesareana, costumam ser causa da destruição de células
nervosas que não se reproduzem e também de posteriores transtornos, especialmente no
nível de adequação perceptivo-motriz. Por isso, é interessante perguntar se foi uma
gravidez desejada ou não, se foi aceita bem pela família ou houve rejeição. Estes pontos
poderão determinar aspectos afetivos dos pais em relação ao filho.

Posteriormente é importante saber sobre as primeiras aprendizagens não


escolares ou informais, tais como: a forma que aprendeu a usar a mamadeira, o copo, a
colher, como e quando aprendeu a engatinhar, a andar, a andar de velocípede, a controlar
as necessidades fisiológicas etc. Conforme Weiss (2003, p.66), a intenção é “descobrir em
que medida a família possibilita o desenvolvimento cognitivo da criança – facilitando a
construção de esquemas e deixando desenvolver o equilíbrio entre assimilação e
acomodação”.

É interessante saber sobre a evolução geral da criança, em aspectos tais como


aquisição de hábitos, controles, fala, alimentação e sono, bem como se ocorreram na faixa
normal de desenvolvimento ou se houve defasagens. Se a mãe não permite que a criança
faça as coisas por si só, não permite, também, que haja o equilíbrio entre a assimilação e
a acomodação. Conforme enfatiza Paín (1985), alguns pais retardam este
desenvolvimento privando a criança de, por exemplo, comer sozinha para não se
lambuzar, tirar as fraldas para não se sujar e não urinar na casa, é o chamado de
hipoassimilação. Ou seja, os esquemas de objeto permanecem empobrecidos, bem como
a capacidade de coordená-los.

Por outro lado, Paín (1985) lembra os casos de internalização prematura dos
esquemas, que é chamada de hiperassimilação; pais que forçam a criança a fazer
determinadas coisas das quais ela ainda não está preparada para assimilar, pois seu
organismo ainda está imaturo, o que acaba prejudicando o desenvolvimento natural da
criança.

Sobre isso, Paín (1985, p.45) diz que é interessante saber se as aquisições
foram feitas pela criança no momento esperado ou se foram retardadas ou preciptadas:
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Chafic.com.br 75 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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“isto nos permite estabelecer um quociente aproximado de desenvolvimento, que se


comparará com o atual, para determinar o deterioramento ou incremento no processo de
evolução”. Por isso, Paín (1985, p.42) aconselha a insistência “nas modalidades para a
educação do controle dos esfíncteres quando apareçam perturbações na acomodação”.

Weiss (2003) orienta também a saber sobre a história clínica, quais doenças,
como foram tratadas, suas conseqüências, diferentes laudos e sequelas. A história escolar
é muito importante: quando começou a frequentar a escola, sua adaptação, primeiro dia de
aula, possíveis rejeições, entusiasmo, porque escolheram aquela escola, trocas de escola,
enfim, os aspectos positivos e negativos e as consequências na aprendizagem.

Todas estas informações são essenciais para a anamnese e devem ser


registradas para que se possa fazer um bom diagnóstico.

Encerrada a anamnese, o psicopedagogo levantará o terceiro sistema de


hipóteses. A anamnese deverá ser confrontada com todo o trabalho do diagnóstico para se
fazer a devolução e o encaminhamento. Devolução, no dicionário, é o “ato de devolver, de
dar de volta”. No sentido da clínica psicopedagógica, a devolução é uma comunicação
verbal, feita aos pais e ao paciente, dos resultados obtidos através de uma investigação
que se utilizou do diagnóstico para obter resultados.

Sobre esse aspecto, Paín (1985, p.72) manifesta que:

talvez o momento mais importante desta aprendizagem seja a entrevista


dedicada à devolução do diagnóstico, entrevista que se realiza
primeiramente com o sujeito e depois com os pais (quando se trata de uma
criança, é claro)

Segundo Weiss (1991, p.130), no caso da criança, é preciso fazer a devolução,


utilizando-se de uma linguagem adequada e compreensível para sua idade, para que não
fique parecendo que há segredos entre o terapeuta e os pais, ou que o terapeuta traiu sua
confiança. É perfeitamente normal que, neste momento, exista muita ansiedade para todos
os envolvidos no processo, seja o psicopedagogo, o paciente e os pais. Muitas vezes
algumas suspeitas observadas ao longo do diagnóstico tendem a se revelar no momento
da devolução. Conforme Id. Ibid (p.130), “ficam evidentes nestas falas as fantasias que
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Chafic.com.br 76 Psicopedagogia Clínica e Institucional

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chegam ao momento da devolução, e que estiveram presentes durante todo o processo


diagnóstico”.

Alguns pais chegam à devolução sem terem consciência do que está


acontecendo ou camuflam o que sabem sobre seu filho. É preciso tomar consciência da
situação e providenciar suas transformações; caso contrário, não será possível realizar um
contrato de tratamento.

Weiss (2003) orienta a organizar os dados sobre o paciente em três áreas:


pedagógica, cognitiva e afetivo-social, e posteriormente rearrumar a sequência dos
assuntos a serem abordados, destacando que ponto dará mais ênfase. É necessário,
também, que haja um roteiro para que o psicopedagogo não se perca e os pais não fiquem
confusos. Tudo deve ser feito com muito afeto e seriedade, passando-se segurança. Os
pais, assim, muitas vezes acabam revelando algo neste momento que surpreende o
psicopedagogo e acaba complementando o diagnóstico.

Inicialmente, é importante que se toque nos aspectos mais positivos do


paciente, para que o mesmo se sinta valorizado. Muitas vezes a criança já se encontra
com sua autoestima tão baixa que a revelação apenas dos aspectos negativos acabam
perturbando-a ainda mais, inviabilizando a possibilidade de novas conquistas. Só depois
deverão ser mencionados os pontos causadores dos problemas de aprendizagem.

Somente após esta conduta podem ser manifestadas as recomendações, tais


como troca de escola ou de turma, amenizar a superproteção dos pais e estimular a leitura
em casa, bem como as indicações que são os atendimentos julgados necessários, como
fonoaudiólogo, psicólogo, neurologista etc.

Em casos de quadros psicóticos, neuroses graves ou outras patologias, Weiss


(2003, p.136) recomenda um tratamento psicoterápico inicial, até que o paciente atinja um
ponto tal que tenha condições de perceber a sua própria necessidade de aprender e
crescer no que respeita à escolaridade; é preciso que se instale nele o desejo de aprender.

Muitas vezes faz-se necessário o encaminhamento para mais de um


profissional; isto complica quando a família pertence a um baixo nível socioeconômico. É
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importante que no momento da devolução, o psicopedagogo tenha algumas indicações de


instituições particulares e públicas que ofereçam serviços gratuitos ou com diferentes
formas pagamento. Isso evita que o problema levantado pelo diagnóstico fique sem
solução, por falta de condições financeiras.

O informe do psicopedagogo é um laudo do que foi diagnosticado. Ele pode ser


solicitado pela escola, outros profissionais, familiares. Quaisquer que sejam os solicitantes,
é importante não redigir o mesmo laudo, resguardando informações conforme o acesso
recomendável a cada solicitante. Conforme Id. Ibid (p.138), a finalidade do laudo é
“resumir as conclusões a que se chegou na busca de respostas às perguntas que
motivaram o diagnóstico”.

Weiss (2003) sugere o seguinte roteiro para o informe:

Dados pessoais;

Motivo da avaliação – encaminhamento;

Período da avaliação e número de sessões;

Instrumentos usados;

Análise dos resultados nas diferentes áreas: pedagógica,


cognitiva, afetivo-social, corporal.

Síntese dos resultados – hipótese diagnóstica;

Prognóstico;

Recomendações e indicações;

Observações: acréscimo de dados conforme casos específicos.


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