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Memórias de um Sargento contra as Milícias - 2

Edmar Roberto Prandini


edmarrp@yahoo.com.br
Maio/2019

A Economia de Geodésio

Historicamente, Geodésio teve sua economia baseada na atividade primária, constituindo-se


como sociedade integrada ao ocidente e ao mercado mundial, pela extração aurífera, mas
também de outros produtos minerais. Assim foi que, nos tempos do mercantilismo, entre os
séculos XVII e XIII, grupos “bandeirantes” ingressaram em seu território, caçando e
escravizando índios, trazendo escravos negros e dedicando-se à extração do ouro,
principalmente, instalando as primeiras vilas, dando origem às primeiras cidades, apesar das
agruras das longas expedições necessárias para conduzir ao litoral atlântico todas as
riquezas obtidas. A distância, vale dizer, ao mesmo tempo em que representava uma grande
resistência para os espoliadores extrativistas, requerendo grandes esforços logísticos, servia
como defesa natural, permitindo a formação de uma sociedade distinta, com anseios
particularistas.

A descoberta de veios auríferos ou de outros produtos minerais pelas levas “bandeirantes”


era premiada pela coroa portuguesa com a concessão de títulos de propriedade de terras,
desprezando a presença anterior de populações indígenas de diversas etnias e culturas,
tornando a violência colonizadora uma poderosa alavanca de enriquecimento patrimonial
para os que a comandavam. A apropriação violenta enriquecia e obtinha reconhecimento da
coroa portuguesa, ansiosa pela expansão colonial e exploração mercantilista. Formaram-se,
assim, as primeiras “famílias” importantes da sociedade colonial, detentoras das
propriedades, das riquezas, da produção aurífera e mineral, dos escravos negros e índios e
do poder político local.

A extração aurífera e dos demais minérios e metais preciosos, ainda que importantes, não
logrou alcançar volumes competitivos quando comparados àqueles obtidos na província das
Minas Gerais, de tal modo que ainda que a Coroa Portuguesa impusesse a Geodesio a
mesma legislação e tributação aplicada à Província do leste, o fato é que o empenho em
instalar estruturas políticas e administrativas para o controle da atividade econômica foi muito
menor no oeste. Tanto que a própria ordem política das novas vilas e cidades nascentes em
Geodésio ficou sob a atenção da província de São Paulo, não de Minas, onde a Coroa
instalou um importante aparato colonial, tão acentuado que produziu diversas revoltas
nativistas, desde o começo do século XVIII, sob a liderança de Felipe dos Santos (1720) até
o final do século com o episódio que resultou na morte de Tiradentes, em 1789. Sete
décadas de luta nativista, tão acentuada era a repressão colonial dedicada à exploração da
mineração. Em Geodésio, esse sentimento de rejeição da exploração colonial não existiu. Na
verdade, o sentimento de defesa da sociedade local contra os usurpadores só existiu no final
do século XIX, com a Guerra do Paraguai, em que os invasores eram aqueles provenientes
de uma pequena sociedade que tentava construir um percurso autônomo de
desenvolvimento, com uma participação surpreendente de indigenas da etnia Guarani, algo
impensável em qualquer das províncias colonias portuguesas ou do Império Brasileiro, do
século XIX, quando a Guerra estourou.

Posteriormente, dada a vastidão de seu território, com a presença de exuberante vegetação,


nutrida por volumosa disponibilidade hídrica, as terras foram aproveitadas para a atividade
da criação pecuária, tendo, especialmente a partir do terceiro quarto do século XX,
experimentado um impressionante incremento na produção agrícola, novamente alinhada
com a oportunidade de comercialização dos produtos no mercado mundial, por exportações.

Para esta nova etapa, foram importantes os fluxos migratórios, em certa medida estimuladas
pelos governos da ditadura militar brasileira, com medidas de desapropriação de terras para
efeitos de reforma agrária, regida legalmente pelo Estatuto da Terra e operacionalizada por
intervenções administrativas do INCRA. Nestas migrações, destacou-se a expressiva
quantidade de migrantes dos estados do sul do Brasil, repetindo o desafio enfrentando por
seus ascendentes imigrantes italianos e alemães que haviam desembarcado no Rio Grande
do Sul, Santa Catarina ou Paraná entre o final do século XIX e começo do século XX. Assim
como seus avós e pais, na maioria, estes migrantes tinham por objetivo construir suas vidas
a partir da dedicação à agricultura especialmente.

Os conflitos jurídicos e políticos inerentes ao processo de desapropriação das propriedades


além daqueles sociais decorrentes da migração de populações formadas por culturas
diferentes, em outras regiões do país, sob o impacto de um processamento autoritário dos
conflitos, reverberou em nova acentuação da violência, muitas vezes associada aos conflitos
de terra, mas com grande impacto sobre a cultura acerca dos modus operandi eficazes na
consecução de objetivos e daqueles ineficazes se regidos pelo diálogo ou a negociação
argumentativa e jurídica.

De um lado, a própria ideologia política sofreu impactos, com o enaltecimento das premissas
segundo qual a propriedade privada e a transmissão intergeracional mediante heranças são
pedras angulares da ordem social. Curiosamente, essa ideologia é pensada como se fosse a
defesa da “livre iniciativa”, mas a contradição inerente ao fato de que os “herdeiros” não
precisaram de nenhuma iniciativa para obterem as riquezas é ocultada. Esse é o discurso da
ideologia capitalista e da sua versão neoliberal. Uma série de omissões e ocultamentos
lógicos de suas contradições inerentes. Outra contradição ocultada é aquela decorrente de
que para a formação dos patrimônios dos ricos, quase sem exceção, houve medidas legais
de reconhecimento jurídicos (“de iuri”) pelos governantes, nem sempre instalados no poder
por regimes políticos democráticos, de condições “de facto”, engendradas por práticas
sociais virulentas, como aquelas da apropriação das terras pelos “bandeirantes” ou por
registros cartoriais fraudados.