You are on page 1of 72

1.

Campo de Batalha (Introdução)

Vem da literatura bélica a popularização da palavra tática, e consequentemente de seu conceito.


Debruçados sobre mapas que descreviam a topografia das regiões em conflito, militares das
mais altas patentes destacaram-se pelas vitórias amparadas em planejamento – quem ataca, de
que forma, e quando; quem defende, o que defende, e como.
Da teoria à prática, distribuíam nos campos de batalha seus combatentes e apetrechos letais
conforme uma lógica, levando em consideração o maior número possível de fatores integrados
ao contexto – características do terreno e do tempo, virtudes e defeitos próprios e do adversário.
Seguiam, para a tomada de decisões, preceitos encontrados em livros e no próprio aprendizado
com a experiência.

Nos filmes e seriados sobre o tema os militares encenados criam armadilhas, encurralam
oponentes, induzem os inimigos a fugir na direção de emboscadas minuciosamente
arquitetadas, simulam a queda iminente para abrir a guarda rival. Cada soldado sabe
exatamente qual tarefa cumprir, de forma sincronizada com os demais companheiros de
bandeira.

Alguns comandantes desenham mapas com gravetos no chão arenoso e empilham pedras
simulando habitações. Localizam geograficamente cada combatente, apontando onde ele deve
estar, o que deve fazer, e qual o momento exato para desencadear a ação. Ministram
verdadeiras palestras. Para recordar, ou para (re) ver, pode-se mencionar em especial os
filmes O Patriota, Gladiador, O Último Samurai, 300, Robin Hood…entre muitos outros. Constam
nestes filmes legítimas preleções dos comandantes/treinadores a seus
soldados/jogadores. Sempre há referências táticas em qualquer filme ou seriado de guerra.
Tática é, enfim, a arte de manobrar tropas, de distribuí-las na zona de conflito. Imprescindível,
portanto, à organização das equipes de futebol inseridas no campo de batalha delimitado por
linhas brancas, bandeiras e traves. A organização no futebol apropriou-se do planejamento
bélico pela evidente analogia: há duas tropas formadas por onze guerreiros distribuídos de forma
inteligente e com atribuições definidas para sobrepujar o oponente.

Assim como tais generais assimilavam conteúdo ao mesmo tempo da teoria e da prática, no
futebol o conhecimento pode vir da academia e e/ou da observação. Existe, inclusive, método
para se “aprender vendo”. Antes mesmo da consagração do futebol, o escritor e explorador
inglês Samuel Baker disse:
“A observação sistemática é um método de indagação complexo porque requer que o
observador desempenhe um conjunto de funções e recorra a diferentes meios, incluindo os cinco
sentidos. Por isso, a pesquisa observacional caracteriza-se por requerer um treino especializado
dos observadores, no que respeita a o quê, como e quando observar.”
O que há de mais importante nesta citação? Configurar o observador especializado como
alguém capaz de saber o quê, como e quando observar, um conceito que se aplica
sobremaneira ao analista tático/analista de desempenho/analista de performance. Embora no
Brasil a dita opinião pública subestime a complexidade do futebol, resumindo o jogo a um
conjunto de aleatoriedades, existem conceitos, fundamentos e princípios que o tornam altamente
elaborado. E isso exige, consequentemente, que o observador/analista aprofunde o
conhecimento com estudo e experiência prática – o famoso conhecimento empírico – para
atender a estas prerrogativas.

Outro pensador que nenhuma relação tem com o futebol, mas cujo conhecimento pode ser
aplicado na análise de desempenho, é o antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin,
que afirmou o seguinte:

“É o saber ver que suscita um problema profundo, porque não só qualquer teoria depende de
uma observação, mas também porque qualquer observação depende de uma teoria. Deste
modo, a mera observação, sem uma teoria, não tem validade científica“.
O processo é o mesmo da construção de textos jornalísticos, nos quais o primeiro parágrafo
exige de imediato a resposta às perguntas o quê, quem, aonde, quando, como e por quê,
formando no conjunto de respostas o lide. Ao se observar uma partida de futebol com enfoque
na análise tática, a cada movimento, a cada lance, é preciso perguntar-se tudo isso, buscando
as respostas no seu repertório de conhecimento, e no contexto do jogo.
Este é o problema da análise de futebol no Brasil, entre os jornalistas em geral e entre boa parte
dos torcedores: praticamente não há oferta de conhecimento. Só aprofunda a análise quem toma
a iniciativa de procurar em outras fontes. Do contrário, o vulgo popular é estimulado a desdenhar
desta possibilidade, tornando o debate superficial, subjetivo e opinativo, com pouco ou quase
nenhum embasamento.
Em uma de suas melhores crônicas, Exagero, Luís Fernando Veríssimo fala sobre os avanços
tecnológicos e a consequente adaptação humana aos novos confortos. Ele recorda, por
exemplo, que há algumas décadas não existiam rádios portáteis. Era impossível ouvir uma
transmissão esportiva e assistir ao jogo no estádio simultaneamente. E então Veríssimo ironiza:
“Como as pessoas sabiam se estavam gostando ou não do jogo sem ouvir os comentaristas?”
A sentença é verdadeira, e se aplica ao passado ilustrado pelo autor. Antes da internet e da tevê
a cabo o conhecimento público sobre futebol estava restrito às opiniões dos comentaristas,
geralmente repórteres de campo com muitos anos de trabalho que, pelo desgaste da idade,
subiam às cabines. São reprodutores de uma subjetividade vazia, transmitindo à grande massa
opiniões sem critério e fomentando um debate pobre, visceral e agressivo. Afinal, a interatividade
das novas mídias é reflexo do conteúdo ofertado: jornalismo pobre, interatividade pobre. É um
ciclo difícil de ser interrompido sem que o jornalismo avance para abordagens mais elaboradas,
profundas e contextualizadas.

O objetivo desta compilação de capítulos reescritos do e-book lançado há pouco mais de um


ano, e que teve aproximadamente 18 mil downloads gratuitos, é exatamente prover argumentos
àqueles que pretendem debater o futebol com mais recursos. O conhecimento aqui
compartilhado não vem exclusivamente da academia, mas sim das leituras que fiz e das
experiências que tive em quase uma década dedicada à análise tática – primeiro no jornalismo
esportivo, depois na Central de Dados Digitais (CDD) do Grêmio FBPA, como analista de
desempenho.
2.Padrões de Comportamento e Modelo de Jogo

Identificar padrões de comportamento. Este é o principal objetivo da análise tática, o mantra que
norteia todo o processo de observação, anotação, interpretação, análise, contextualização e
transmissão das informações. E não há mistério nesta premissa, afinal, as equipes de futebol
têm modelos de jogo elaborados por seus treinadores e construídos nos treinamentos.

Em resumo, padrões de comportamento são ações que se repetem. E se repetem porque são
treinados. Analisar taticamente uma equipe é decifrar as orientações transmitidas pelo técnico
aos jogadores, interpretar estas ideias e assim descrever os princípios do modelo de jogo em
questão. Como se aquele time de futebol tivesse uma linguagem própria, e o analista
traduzisse os diálogos, decodificando aquele idioma.

É preciso destacar que os comportamentos dos jogadores e das equipes, quando observados
várias vezes e no confronto com diferentes oponentes, são suscetíveis de exibir traços que
permitem identificar padrões de jogo. Se um time é observado durante uma sequência de jogos
estes padrões ficarão ainda mais claros, evidenciando no conjunto de informações as ideias que
integram o modelo de jogo.

O treinador português Carlos Carvalhal, referência na construção da escola de acadêmicos do


futebol em Portugal, autor do livro Futebol – um saber sobre o saber fazer… escreveu o seguinte
(antes de tudo, vale ressaltar que este e-book desmembrado em capítulos atualizados no blog
não é acadêmico, portanto, as referências e citações não são formais):
“O guia de todo o processo de treino deverá ser o modelo de jogo adotado, estando este
dependente de um sistema de relações que vai articular uma determinada forma de jogar, não
uma forma de jogar qualquer, mas subjacente a uma estrutura especifica“.
Equipes bem orientadas contam com um microciclo de treinamentos voltado a atividades
complexas, que reproduzem em cada trabalho os princípios que alicerçam o modelo de
jogo. São regras que induzem os jogadores a tomar decisões dirigidas em cada ação da partida.

O professor português Júlio Garganta, doutor em ciência do desporto e, talvez, o mais relevante
pensador do futebol moderno, escreveu dezenas de artigos, teses e livros que interligam a
academia à prática, traduzindo para nós esta relação entre os treinamentos, o modelo de jogo e
a consequente identificação de padrões de comportamento:
“O treinador como principal responsável de todo o processo de treino, assume a função de
construir um modelo de jogo para a sua equipe elaborando os princípios que deseja ver
respeitados pelos seus jogadores.”
Parece complicado, mas é simples. Os princípios são guias que orientam os jogadores na hora
de tomar decisões. Exemplo superficial: modelo de jogo voltado à valorização da posse de bola
ofensiva, tendo como alguns princípios e sub-princípios a criação de triângulos com
movimentação, aproximações e execução de passes curtos e rápidos. Os treinos serão
elaborados com atividades que massifiquem estas ideias para que no jogo os atletas
reproduzam-nas, e os analistas identifiquem-nas.

Outro pensador-treinador-teórico português de referência na área do futebol de alto rendimento,


o professor Jorge Castelo, aborda o tema em seus artigos, como nesta passagem:
“Os princípios de jogo estabelecem um quadro de referências para os jogadores, orientando o
pensamento tático dos mesmos e, consequentemente, o comportamento tático-técnico com vista
à resolução eficiente das diversas situações que a competição em si encerra.”
De início, o mais importante é educar-se para separar as circunstâncias de jogo dos padrões de
comportamento. Futebol é movimento, e por vezes toda a ordem treinada à exaustão é
insuficiente para lidar com uma situação, dando espaço à aleatoriedade. No entanto, a
ocorrência de ações circunstanciais não atrapalha a análise porque, obviamente, elas não se
repetem. E, se padrões de comportamento são ações reiteradas, não é difícil peneirar o que é
fruto de treino, e o que é ocasional.

Sobre este dilema o professor Júlio Garganta escreveu:

“Os comportamentos dos jogadores e das equipes, embora repousando sobre uma organização
sustentada numa isonomia de princípios (os mesmos princípios valem para todos) movem-se
entre dois pólos: o vínculo, ou seja, o estabelecido, as regras; e a possibilidade, a inovação.”
Dentro das comissões técnicas, a análise de desempenho serve para auxiliar o treinador no
planejamento de treinos. Diagnosticando padrões de comportamento da equipe nos jogos e nas
atividades prévias, o técnico pode avaliar quais ações estão correspondendo ao trabalho da
semana, e quais outras precisam ser otimizadas, o que interfere positivamente no microciclo de
treinos. Assim como na análise dos futuros adversários o treinador poderá adaptar-se a virtudes
e potenciais vulnerabilidades do oponente, orientando os jogadores a se prevenir ou a explorar
determinados comportamentos observados no modelo de jogo rival.

Falando em modelo de jogo, recorro a mais um treinador-professor-pensador da escola


portuguesa que tem colaborado para a alta produção de conhecimento sobre futebol, José
Guilherme Oliveira:
“O Modelo de Jogo consubstancia-se na construção de um conjunto de princípios de jogo
referentes aos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições) e idealizados pelo
treinador.”
Podemos sair de Portugal e encontrar referências teóricas em outros países. O professor-
pesquisador argentino Pablo Juan Greco abordou em um de seus artigos o papel do jogador na
leitura destas informações:
“Em cada ação o jogador avalia as possibilidades de êxito e prepara mentalmente a ação a
realizar em função da antecipação do comportamento dos adversários e da ação que os
companheiros preveem realizar nesse contexto.”
Algo parecido disse o professor francês Jean Francis Gréhaigne, também especializado na
produção de conteúdo teórico sobre o treinamento no futebol:
“Face a uma situação de jogo, cada jogador privilegia determinadas ações em detrimento de
outras, estabelecendo uma hierarquia de relações de exclusão e de preferência,
com implicações no comportamento da equipe enquanto sistema. Assim, a equipe constitui uma
totalidade em permanente construção, na qual as ações pontuais, mesmo que aparentemente
isoladas, influem no comportamento coletivo.”
“Em permanente construção”, escreveu Gréhaigne. Isso reforça a ideia de que os times de
futebol são “organismos vivos”, cujos órgãos/jogadores relacionam-se em sincronia. Boas
equipes unificam o pensamento de todos chegando ao estágio que o pensamento é coletivo, é
único.

Compreende-se, com isso, que os jogadores nos treinamentos são estimulados a tomar
decisões de acordo com o modelo de jogo e seus respectivos princípios, interpretando as ações
dos adversários e dos companheiros a cada momento, para assim estabelecer seus movimentos
e gestos técnicos dentro de um plano. Desta forma, amparado pelas referências teóricas, mas
também pelo aprendizado com a experiência ao observar uma infinidade de situações em cada
partida, o analista tático precisa estar preparado para traduzir todo este conjunto de informações
e entregá-las de forma clara ao consumidor final – seja ele a comissão técnica e os jogadores,
caso seja analista de desempenho, seja ele o público em geral caso seja jornalista.

3.Conceitos Básicos

Está claro que o futebol, apesar de ser um sistema caótico de constante oposição (com o
adversário) e cooperação (com os companheiros), produz através de posicionamentos e
movimentos treinados padrões de comportamento identificáveis. Percebê-los, entretanto, não
prescinde de treinamento amparado em critérios. Segundo o filósofo, pedagogo e escritor
espanhol José Antônio Marina, “os critérios funcionam como padrões que nos permitem
identificar, selecionar e avaliar as coisas“.
Não basta apenas gostar de futebol para conhecê-lo. É preciso buscar referências teóricas,
criando um repertório de conceitos necessários à observação criteriosa das partidas,
conquistando assim recursos para a identificação dos tais padrões de comportamento e a
interpretação do modelo de jogo em questão.

Convencionei chamar Tríade Primária a diferenciação entre os conceitos mais básicos, e que
tanta confusão provocam entre observadores iniciantes – ou, principalmente, entre as pessoas
resistentes à análise tática especializada: posicionamento inicial, posição e função.

O Posicionamento Inicial é a região da qual o jogador parte, e para onde ele invariavelmente
retorna durante a partida. Não se ignora que futebol é um jogo de constante movimento, mas os
jogadores são orientados a ocupar determinados setores do campo, sendo estas regiões suas
referências – principalmente quando o time está sem a bola.

Já a Posição do jogador tem mais a ver com suas características. É a resposta que ele
preencheria na hipotética questão “profissão” caso fosse entrevistado por recenseadores do
IBGE. Diz respeito a suas virtudes, e como ele as utiliza em campo.

E a Função é o conjunto de atribuições que o jogador cumpre na partida.


Eventuais problemas surgem com a sobreposição dos conceitos de posição e função,
principalmente. É quando o analista confunde a característica do jogador com a função
desempenhada por ele em campo. Podemos nos utilizar de um exemplo próximo e recente:
Robinho é atacante de origem (posição), ou seja, tem característica de jogador de frente; mas,
na Seleção Brasileira de 2010, com o técnico Dunga, cumpria em jogo a função de meia-
extremo, atuando aberto pelo lado esquerdo em um sistema tático que partia inicialmente do 4-2-
3-1. tendo Kaká na meia-central, Elano na extrema direita, e Luís Fabiano como centroavante.

Se um eventual observador atento apenas às características dos jogadores, ignorando os


movimentos realizados na partida, assistisse ao Brasil de Dunga, diria que o sistema tático era o
4-4-2 – porque Robinho e Luís Fabiano são atacantes de origem. Estaria definindo as posições
dos jogadores como critérios únicos. Mas, observando-se os posicionamentos iniciais e as
funções cumpridas por ambos era um 4-2-3-1, com Robinho – apesar de originalmente atacante
por ofício – cumprindo a tática individual de extremo aberto pelo lado esquerdo na segunda linha
de meio-campo.

Existem outras dezenas de casos, e o 4-2-3-1 é pródigo em análises equivocadas quando se


utilizam atacantes de origem (posição) abertos pelos lados na segunda linha de meio-campo
(função no jogo), com os observadores tomando a posição pela função.

Somando-se os posicionamentos iniciais de cada jogador, ou seja, observando-se o desenho


que o time forma quando todos retornam a seus setores originais, é possível definir o Sistema
Tático – o planejamento responsável por ordenar a distribuição dos jogadores em campo,
coordenando todas as partes em si.
Estes sistemas são descritos por números, há alguns anos desdobrados em três blocos (defesa,
meio-campo e ataque) – consagrando o 4-3-3, o 4-4-2, o 3-5-2, etcétera – mas recentemente
transformados em sequências de quatro números (ou às vezes mais) para dividir o meio-campo
em bloco defensivo e bloco ofensivo, trazendo as descrições de sistemas como o 4-2-3-1, o 3-4-
1-2, o 4-3-1-2, e por aí vai. Vale destacar que em Portugal o goleiro não é ignorado na descrição,
sendo bastante comum encontrar na bibliografia especializada e na imprensa deste país
referências ao 1-4-2-3-1, 1-4-3-3, e assim por diante.

Existem muitos críticos – principalmente entre jornalistas esportivos brasileiros – à análise tática,
com especial resistência às descrições numéricas dos sistemas táticos. Utilizam-se de ironias
para depreciar observadores e análises. Considero um desperdício debater sobre um
comportamento tão anacrônico, mas ainda assim é preciso reforçar uma ideia óbvia e translúcida
para qualquer analista: futebol é movimento, não é estático, portanto os posicionamentos iniciais
servem como referência de ocupação espacial sem interferir na análise de todos os movimentos
coordenados e sincronizados que os jogadores realizam.

Porém, se um objeto movimenta-se do ponto A para o ponto B, é sinal de que há um ponto de


partida e um ponto de chegada, ligados pela trajetória daquele que se movimentou.
Enxergar apenas um dos pontos é equivocar-se. Assim como a análise não termina na
identificação dos “pontos de partida” dos jogadores, e do consequente sistema tático inicial da
equipe, ela também não se resume a ver apenas onde eles chegam após os deslocamentos.

É preciso observar todo o conjunto de movimentos e posicionamentos para identificar os padrões


de comportamento e interpretar o modelo de jogo. Portanto, não cabe em uma análise tática
minimamente responsável e criteriosa ignorar-se o “ponto A”. Saber ver os posicionamentos
iniciais e o sistema tático das equipes é a fagulha que inicia a combustão da análise. Sem ela,
todo o restante prescindirá de valor e critério, aumentando a margem de erro.

Ao Sistema Tático, em cada partida, aplica-se a Estratégia – o conjunto de movimentos


atribuídos a cada jogador, e daí em diante a cada pequeno grupo, e também a cada setor. A
estratégia reúne elementos diversos, desde a característica dos jogadores escolhidos, passando
pelo sistema de marcação, pela intensidade dos movimentos, pelas funções, pelas sincronias em
pequenos grupos, pela ordenação dos setores. Assim como os jogadores podem,
individualmente, estabelecer estratégias subjetivas de enfrentamento em uma determinada ação.
Confrontando-se estes dois conceitos, percebe-se que duas equipes com sistemas táticos
semelhantes podem apresentar em um confronto estratégias absolutamente diferentes. E uma
mesma equipe pode, sem alterar o sistema tático inicial – a estrutura que interliga os
posicionamentos dos seus jogadores – estabelecer diferentes estratégias conforme o adversário,
de jogo para jogo, ou até mesmo modificar a estratégia durante o andamento da partida.

Dentro da estratégia aplicada ao sistema, ambas correspondendo a um modelo de jogo que


abriga todos os princípios treinados, há diferentes abordagens para a palavra “tática”. Existe
a Tática Individual, um sinônimo para a Função. Tática individual é, portanto, o conjunto de
atribuições que o jogador cumpre na partida em questão – suas tarefas com bola e sem bola, a
região do campo que ocupa, a maneira como interage com os companheiros e como confronta
os oponentes.
Existe também a Tática de Grupo, um conjunto de funções sincronizadas entre jogadores
próximos. Estes pequenos grupos podem interligar jogadores de diferentes setores – em um 4-2-
3-1, por exemplo, o lateral, o volante e o meia-extremo do mesmo lado forma um triângulo em
constante interação. Cabe a eles desempenhar tarefas que repercutem um no outro, ou seja,
levando eles a cumprir uma tática dirigida a este pequeno grupo.
A tática de grupo pode ainda se referir a um setor – os quatro jogadores da linha defensiva, por
exemplo – estabelecendo movimentos coordenados entre eles. Como no balanço defensivo em
direção ao lado atacado, quando estes quatro jogadores precisam se movimentar em total
sincronia. Conclui-se, com estes dois exemplos, que cada jogador envolve-se em diversas
táticas de grupo.

E a Tática Coletiva é o próprio sistema tático, a descrição numérica que identifica os


posicionamentos iniciais de cada jogador, ampliando a visão para estruturá-los em um desenho
único. Em geral, procura-se identificar linhas que liguem uns aos outros, por isso há tantas
analogias com a geometria (linha, quadrado, losango, triângulo).
No entanto, embora esta premissa aplique-se à quase totalidade das equipes, nem sempre a
simples observação dos posicionamentos iniciais – as regiões do campo para onde os jogadores
retornam quando a equipe está sem a bola – é garantia de acerto na identificação da estrutura,
do sistema tático. É preciso confrontar estas informações com o comportamento dos jogadores,
seus movimentos e suas interações com os companheiros, principalmente quando há dúvida.

Um caso emblemático, e cada vez mais comum, está nas equipes que se utilizam do sistema 4-
2-3-1, mas aplicando a ele uma estratégia de marcação em duas linhas de quatro. Se a
identificação dos posicionamentos iniciais fosse determinante para a definição do sistema
observado, ele seria chamado de 4-4-2.

Mas nota-se, analisando o comportamento defensivo do meia-central, que ele movimenta-se


sem a bola em direção ao zagueiro adversário, entrando na linha do centroavante para
pressionar a saída. Ou seja, ele parte de um ponto A mais recuado para um ponto B mais
adiantado. Embora sem a bola a equipe organize-se em duas linhas de quatro, o sistema inicial é
o 4-2-3-1, conclusão originada pelo cruzamento destas informações e principalmente da
identificação deste movimento específico de marcação do meia-central. Este jogador não está
partindo daquela região adiantada, mas sim chegando até ela vindo de um setor recuado.

Acredito que esta simbiose entre 4-2-3-1 e marcação em duas linhas tenha se popularizado para
amenizar um problema defensivo provocado pela distância entre os meias-extremos e os
laterais, uma espécie de “ponto cego” de marcação do 4-2-3-1. Isso porque, simultaneamente à
subida de pressão do meia-central, os extremos descem para a linha dos volantes, aproximando-
se dos laterais e tornando os setores mais compactos.

Além disso, como a maioria das equipes atua com linha defensiva de quatro jogadores, a subida
de pressão do meia-central coloca dois jogadores para marcar os dois zagueiros adversários,
dificultando a saída de bola. Caso a marcação se desse em 4-2-3-1, além do maior espaço entre
laterais e extremos haveria ainda liberdade para um dos zagueiros oponente fazer a saída.

Este movimento sincronizado foi bastante observado no Chelsea do técnico José Mourinho
campeão da Premier League na temporada 2014/15 – sistema tático 4-2-3-1, mas com
organização defensiva em duas linhas de quatro, graças à simultânea subida de pressão do
meia-central com a descida dos extremos à faixa dos volantes. E está disseminado no
Brasileirão 2015, proporcionando em nosso país muitos exemplos de 4-2-3-1 com marcação em
duas linhas de quatro.

4.Momentos do Jogo e Mudança de Comportamento

São diversos os treinadores, pesquisadores e professores portugueses responsáveis pela


elaboração de conteúdo teórico sobre o futebol. E tornou-se um consenso nesta escola de
produção de conhecimento sobre o jogo e sobre a análise do jogo a divisão em quatro
momentos, sempre em função da bola e, principalmente, de quem está com ela no confronto
entre duas equipes.

Nas primeiras observações, apenas dois eram reconhecidos: o momento ofensivo (equipe sob
enfoque com a bola) e o momento defensivo (equipe sob enfoque sem a bola). Mas concluiu-se
que haveria um terceiro – as transições, os momentos de troca de posse, subdivididos em
transição ofensiva (momento de recuperação da bola) e transição defensiva (momento de perda
da bola).

Segundo o professor-treinador-mestre português José Guilherme Oliveira, “os quatro momentos


devem permitir, em todas as circunstâncias, através da sua inter-relação, a identificação da
singularidade do todo, podendo assumir várias escalas, nomeadamente a escala coletiva
(equipe), setorial (grupo de jogadores), inter-setorial (interligação entre jogadores) e individual
(jogador)“. Ele deixa claro, com isso, que a observação de cada momento
separadamente possibilita a identificação tanto de comportamentos individuais, como de
pequenos grupos, de setores e do todo, do coletivo.

O treinador Jorge Castelo também abordou o tema:


“No jogo de futebol identificam-se dois processos antagônicos perfeitamente distintos (ofensivo e
defensivo), contudo complementares entre si. Estes dois processos refletem, fundamentalmente,
conceitos, objetivos e comportamentos tático-técnicos diferentes, sendo determinados pela
condição de posse, ou não, da bola.”

Na análise de desempenho é preciso identificar os princípios que atendem ao modelo de jogo do


time analisado em todos estes momentos, para identificar os comportamentos que se
evidenciam de forma organizada. Inicialmente, algumas obviedades precisam ser ditas, para
depois se avançar na busca por estes padrões.
Uma equipe está em Organização Ofensiva quando tem a bola. E o que se pretende neste
momento de posse? Construir, preparar e criar situações para finalizar a gol, afinal, é a alteração
do placar a favor que garante na prática a vitória. Além, é claro, de trabalhar para impedir que o
adversário recupere a bola. Dentro do modelo de jogo, o técnico aprimora os princípios e sub-
princípios com os quais deseja estruturar as ações ofensivas da equipe – as regras que os
jogadores devem seguir para evitar que o adversário retome a bola, e para chegar à marcação
de gols.
Reitera-se que estes princípios referentes às ideias de futebol contidas no modelo de jogo
diferem de time para time. Existem treinadores que procuram organização ofensiva com posse,
circulação de bola com passes curtos, formação de triângulos e aproximações, estimulando a
mobilidade e a agilidade, enquanto outros preferem saídas longas em ataques diretos, com
menos trocas de passes e mais objetividade.

Do contrário, na Organização Defensiva a equipe trabalha simultaneamente para evitar que o


adversário finalize a gol, e para recuperar a posse de bola. Não há fórmulas definitivas, e de
novo cada treinador precisa estabelecer as regras que vão estruturar o comportamento dos
jogadores neste momento de proteção do gol e tentativa de recuperação da posse. As
referências estabelecidas podem ser de marcação por zona (defesa de espaço), ou por encaixes
individuais…o time pode se posicionar em bloco mais adiantado ou mais recuado…pode haver
maior ou menor pressão sobre o portador da bola…as linhas e diagonais de cobertura também
diferem conforme as convicções do treinador…são muitas as possibilidades.
Nota-se, entretanto, que estes dois momentos estão em constante interação, não apenas pela
sobreposição de estratégias das equipes em confronto pela posse da bola e pela progressão no
campo adversário, como também porque os jogadores que defendem precisam estar preparados
para atacar, e vice-versa.

Esta Mudança de Comportamento é característica fundamental entre jogadores à frente dos


demais na inteligência de jogo. Na prática, é a capacidade que o atleta tem de identificar
rapidamente que houve alteração na organização da equipe, o que lhe exige modificação de
comportamento tático para cumprir novas atribuições. Algo que se torna muito mais nítido nas
transições, nos momentos de troca de posse.
Segundo o professor Júlio Garganta, “as transições são momentos em que se procura a
alteração rápida e eficaz de comportamentos e atitudes com o intuito de surpreender o
adversário, aproveitando a sua desorganização ou retardando ao máximo a sua organização.
Surgem no momento em que se conquista a posse de bola (defesa-ataque) e no momento em
que se perde a posse de bola (ataque-defesa), em que é necessário mudar o sentido do fluxo de
jogo tão depressa quanto possível.”
José Mourinho, consagrado treinador português, costuma elaborar complexos relatórios nos
quais descreve o modelo de jogo que pretende implementar na sua equipe, antes de iniciar a
temporada. Quando ele comandava o Porto, definiu desta forma a prerrogativa inicial para as
transições:

Transição Ofensiva: “O objetivo mais importante é aproveitar o adversário ainda desorganizado


posicionalmente, para criar o mais rápido possível possibilidades de marcar o gol”. Isso também
pode ser planejado de diversas formas, elaborando saídas em velocidade com troca de corredor,
identificando pontos vulneráveis do adversário, ou proporcionando a chegada em apoio com bom
número de jogadores.

Transição Defensiva: “O objetivo mais importante é organizar-se o mais rápido possível, para
evitar que o adversário possa criar possibilidades de marcar gol”. O que pode se conquistar com
pressão imediata no momento da perda, ou então a sincronia entre um pequeno grupo
atrasando a jogada enquanto os demais se reorganizam.
Nos próximos capítulos vou abordar cada momento do jogo de maneira mais aprofundada, com
descrições dos princípios estruturais das organizações ofensiva e defensiva, e nas transições.

5.Organização Ofensiva

Encontrei diversas referências teóricas, sempre em maior profusão entre autores portugueses
formados pela Universidade do Porto, sobre a Organização Ofensiva no futebol, atendendo à
divisão do jogo em quatro momentos – o ofensivo, o defensivo e as transições ataque-defesa e
defesa ataque – que, sob a perspectiva de cada equipe, alternam-se constantemente em função
da posse de bola.

O professor José Manuel Fernandes de Oliveira, autor de diversos livros e artigos, conceitua a
Organização Ofensiva da seguinte forma:
“O momento de organização ofensiva se caracteriza pelos comportamentos que uma equipe
assume quando tem a posse de bola, tendo por objetivo a preparação e a criação de situações
ofensivas com o intuito final de marcar gol“. Não deixa de ser a elaboração teórica de uma
obviedade – afinal, quem tem a bola pensa em progredir no campo adversário para fazer gols –
mas no futebol as obviedades também precisam ser ditas e enfatizadas.
Mas existe ainda uma sub-divisão deste momento, em outras quatro partes, também
consideradas pelos autores portugueses. Vasculhando artigos de professores, treinadores e
alunos de mestrado/doutorado da Universidade do Porto, deparei-me com esta citação do
técnico Pedro Caixinha, na tese de doutorado publicada em 2012 por Hugo Miguel Borges
Sarmento, sobre análise de jogo no futebol:
“Eu digo que existem quatro fases dentro da organização ofensiva: a primeira fase que é a de
construção, a segunda fase é de preparação, a terceira é de criação e a quarta é de finalização.
Então procuro, por exemplo, ainda fazer uma subdivisão dentro da primeira fase, ou é
construção curta ou é construção longa“.
Muitos destes autores portugueses amparam-se nos textos do francês Claude Bayer, teórico que
descreveu os Princípios Operacionais do jogo de futebol, enumerando três na fase ofensiva:

1. Manutenção da posse de bola: no futebol, o gol não acontece por acaso. Antes de levar a
bola até à baliza adversária, é preciso ter a sua posse. A manutenção cuidada da posse de
bola, não só eleva a capacidade de condução da mesma até à baliza adversária, como o
adversário é obrigado a jogar em reação para conseguir recuperar a sua posse;

2. Progressão até ao campo adversário: logicamente, se a baliza está no campo adversário,


é até o espaço adversário para onde a equipe deve transportar a bola. Como só é possível
fazer ponto se a bola for ao encontro da baliza, então é preciso fazer a bola chegar até
perto da baliza para tentar fazer o gol.

3. Finalização: é considerada uma das três etapas do processo ofensivo. É a etapa mais
curta, mas que apenas se concretiza se as duas outras etapas forem bem realizadas.
Apenas 2% do processo ofensivo termina com o remate à baliza por parte de uma equipe.

Neste aspecto, o brasileiro Rodrigo Aparecido Azevedo Leitão, doutor em Ciência do Esporte e
autor de mais de 200 artigos sobre o tema, avança na análise destes princípios, não apenas
aprofundando aqueles ditos operacionais, como também apresentando uma relação de
princípios estruturais.

Segundo Leitão, “(…) grande parte (senão todas) das referências do jogo de futebol, discutidas
na literatura (sob os nomes de princípios, estruturas ou meios táticos) correspondem a uma
intenção evidente de, com bola, tornar grande o espaço de jogo, com jogadores bem
espalhados, gerenciando e atuando sobre o maior espaço possível, disponíveis para receber a
bola, com boa movimentação e o gol como foco; e sem bola, tornar pequeno o espaço de jogo,
com jogadores próximos, para se ajudarem e para diminuírem as linhas de passe adversárias, e
com uma movimentação que desorganize o mínimo possível o sistema defensivo (e que não
devesse perder nunca, a meta ofensiva como foco (…)“.

Dentro desta ideia de ocupação de espaços no campo ofensivo, quando em posse de bola, para
organizar-se coletivamente de forma inteligente em busca do gol, Leitão identificou sete
princípios estruturais. Eles servem de referência aos jogadores com o objetivo de otimizar a
ocupação de espaços no campo ofensivo tendo como um dos principais objetivos “abrir o
campo”, e consequentemente, abrir espaços/causar desordem na estrutura defensiva adversária.
São eles:

1. Amplitude: a distância entre os jogadores da equipe que estão mais próximos das linhas
laterais. Esta amplitude pode ser conquistada com dois extremos/pontas jogando bem
abertos, ou então os dois laterais ultrapassando ao mesmo tempo, ou ainda o extremo de
um lado e o lateral de outro. Na imagem abaixo vemos uma equipe brasileira que partiu do
sistema tático inicial 4-1-4-1 mas que, em organização ofensiva, recua um volante para
fazer a “saída de três”, permitindo aos dois laterais se projetar simultaneamente ao campo
ofensivo, entrando na linha dos atacantes em amplitude – ou seja, bem abertos pelos lados.
Estão circulados na parte defensiva os dois zagueiros e o volante entre eles, e na parte
ofensiva os dois laterais em amplitude:

A amplitude permite ao time com posse, se não houver possibilidade de progressão


imediata em direção ao gol, manter o controle da bola apenas trocando o lado do ataque.
Esta troca de corredor pode ser com circulação de passes, de pé em pé, levando a bola
de um lado ao outro; pode ser com uma inversão em passe longo de um lado a outro; ou
ainda em diagonal, quando a bola sai do campo de defesa para o lado oposto no ataque,
encontrando o jogador que oferece amplitude. Abaixo, três exemplos das manobras
citadas, pela ordem – troca de corredor com circulação, inversão e diagonal:
2. Penetração: é quando um jogador da ação ofensiva, tendo a bola ou sendo uma opção de
passe, progride em direção ao gol. Acredito que o termo infiltração seja um
sinônimo apropriado. Na imagem abaixo é possível observar um bom exemplo de
penetração/infiltração, com o jogador indicado pela seta ultrapassando a linha defensiva
adversária para receber o passe às costas dos zagueiros:

3. Profundidade: é a oferta de jogadores próximos ao gol adversário, a distância entre seu


atacante mais adiantado e a baliza. Quanto mais próximo, mais profundidade o time
conquistou na ação ofensiva. Este exemplo é de uma equipe que disputou o Campeonato
Gaúcho 2015, em lance de gol marcado. O jogador corre sobre a linha defensiva e muda de
direção para se infiltrar em profundidade no momento do passe, recebendo e chutando
cruzado:
4. Mobilidade: o nome se basta para descrever – é a capacidade que os jogadores sem a
bola, ou seja, os que oferecem linhas de passe ao portador da bola – de se movimentar
inteligentemente para criar espaços, ocupá-los e assim desestruturar a defesa. Abaixo
exemplifico esta mobilidade com uma troca sincronizada entre jogadores da mesma equipe:
enquanto um recua, atraindo para fora do setor o lateral adversário que marca por encaixe
individual, o outro ultrapassa para receber neste espaço aberto de forma inteligente e
organizada:

Já neste lance o jogador, de forma inteligente, identifica o espaço entre as linhas de


marcação do adversário e se movimenta na direção dele, criando assim uma linha de passe
desmarcada, em condições de receber a bola:
5. Apoio: é a aproximação dos jogadores que buscam criar linhas de passe ao homem com a
bola, formando linhas horizontais e verticais, triângulos, etc. Aqui é possível encontrar um
exemplo de aproximação dos jogadores em apoio ao portador da bola. São três linhas de
passe próximas, em superioridade numérica sobre a marcação realizada por três jogadores
(4×3):

6. Compactação ofensiva: é a capacidade de agrupar jogadores na fase ofensiva, acredito


que em função da bola. Na imagem abaixo a equipe assinalada (uniforme claro) conta com
cinco jogadores no mesmo setor, tendo ainda atrás da linha da bola outros dois próximos –
ou seja, agrupou sete jogadores em um curto espaço:
7. Ultrapassagem: outro termo que se basta. É quando um companheiro ultrapassa a linha
do homem com a bola, dando opção imediata de passe à frente – movimento que é
bastante observado nos lados do campo quando o lateral ultrapassa o extremo com a bola,
para receber e chegar à linha de fundo.

Partindo desta premissa teórica apontada por Leitão, dentro destes sete princípios
estruturais da organização ofensiva encontraremos outros movimentos/ações identificáveis
na análise de comportamentos de uma equipe, como o jogo de 1ª e 2ª bola (lançamentos
longos para disputa pelo alto, com aproximação de outros jogadores na busca pela sobra
no chão), o pivô (jogador que recebe de costas para o marcador e gira sobre ele, ou faz o
passe para companheiros em ultrapassagem), o ataque direto (jogo vertical e objetivo que
“ignora” as fases de preparação e criação, saindo da defesa com passes longos para
atacantes receberem e definirem com agilidade), e a vitória pessoal no 1×1 (jogador com
capacidade de drible parado e/ou em condução, eliminando seu marcador).

No recentemente lançado “Para um futebol jogado com ideias”, o professor-doutor Israel


Teoldo enumera outros princípios fundamentais, que podem ser conhecidos neste
post sobre o assunto.
6.Organização Defensiva

Se na Organização Ofensiva os objetivos principais da equipe são manter a posse, progredir no


campo adversário e finalizar, na Organização Defensiva se estabelece exatamente o contrário.
Seguindo no mesmo caminho teórico, são estes os conceitos expostos pelo francês Claude
Bayer na análise dos princípios operacionais defensivos do jogo de futebol:

Recuperação da posse de bola: ao mesmo tempo que é fundamental circular a bola de forma
eficaz para encontrar espaços e caminhos até à baliza adversária, é também muito importante
deixar que o adversário não o faça. Quanto mais depressa a recuperação da bola for feita,
menos tempo terá o adversário para tentar chegar à baliza defendida pela equipe;

Contenção do avanço adversário: o adversário não pode avançar no terreno, nunca. Não quer
dizer que não o consiga fazer, mas se avançar no terreno o menos possível, menores serão as
oportunidades que dispõe para tentar fazer o gol;

Defesa da meta: a meta é o espaço mais importante do campo. No futebol é a baliza. No


basquete, é o cesto, e por aí afora. Qualquer equipe deve ter o caminho para a própria meta
sempre fechado.

O português Júlio Garganta destacou em um de seus artigos a importância das interações entre
os jogadores que defendem, para que a organização estrutural da equipe se mantenha, e assim
seja possível ocupar de forma inteligente os espaços relevantes do próprio campo em qualquer
dos sentidos de ação do adversário:

“Por exemplo, o que permite a uma equipe estar equilibrada quando defende tem a ver, não só
com a disposição dos jogadores no terreno, mas sobretudo com as possibilidades que existem
de ligação entre esses jogadores no sentido de encurtarem distâncias entre si, de diminuírem as
distâncias entre linhas (transversais e longitudinais) e, com isso, criarem e transferirem zonas de
pressão junto da bola“.

O pensamento é o contrário do exposto na Organização Ofensiva. Se, com a bola, o time deve
“espalhar-se”, abrir o campo e assim desorganizar o adversário, sem a bola a principal intenção
é agrupar-se, concentrar-se e manter-se compacto.

É o que afirma o brasileiro Leitão:


“Os princípios estruturais de defesa correspondem a uma intenção da equipe de tornar o espaço
de jogo pequeno, com os jogadores próximos uns aos outros, para se ajudarem e diminuírem as
linhas de passe do adversário, desorganizando-se o menos possível durante a fase de defesa“.
Aprofundando esta análise, Leitão enumerou em seus estudos oito princípios estruturais da
Organização Defensiva, ou seja, as regras que ele acredita serem eficazes para nortear os
comportamentos dos jogadores nesta fase do jogo. São eles:

1. Temporização: segundo Leitão, é quando a equipe que defende aumenta o trajeto do


adversário na direção do seu gol. Parece ser um conceito que se sobrepõe a outros que
serão descritos a seguir, como o direcionamento. Mas o termo “temporização” dá uma ideia
de “atraso”, ou seja, além de aumentar o trajeto em direção ao gol, a equipe diminui a
velocidade do ataque adversário, aumentando também o tempo que ele levará para
encontrar condições de finalizar. Neste lance é possível perceber que os defensores
bloqueiam o retorno do jogador com a bola e de sua linha de passe para a região central do
campo, enquanto outros dois defensores reagrupam-se para a cobertura, ao mesmo tempo
atrasando a ação ofensiva e impedindo que o adversário tome o caminho mais curto na
direção do gol:

2. Cobertura: é a possibilidade concreta de ação dos jogadores que não estão diretamente
combatendo o adversário com a bola participarem do bloqueio à progressão em seu
campo. Estas coberturas se estabelecem em linhas retas ou diagonais, tendo como
referência a bola e o marcador que a pressiona. Alguns times conseguem estabelecer em
seus processos até duas diagonais de cobertura, mas em geral observa-se uma cobertura
em diagonal curta, sendo este jogador o responsável pelo combate imediato caso o
portador da bola vença o primeiro marcador. Nesta imagem observa-se uma equipe do
Campeonato Gaúcho 2015 com um jogador pressionando a bola, um fechando a linha de
passe próxima, e dois fazendo a cobertura – um cobrindo em linha reta o fundo do campo,
e outro em linha diagonal o centro do campo, sendo ambos responsáveis por subir a
pressão caso o adversário ultrapasse os primeiros marcadores:
3. Equilíbrio: é a distribuição estrutural do time que se defende, ocupando os espaços sem
desorganizar as linhas estabelecidas no modelo de jogo. Segundo Leitão, “é a disposição
dos jogadores na fase de defesa levando em consideração as linhas laterais do campo,
fazendo com que eles tenham possibilidades reais de ação em toda a largura do campo”.
Aqui é possível notar este equilíbrio na estrutura das linhas durante a fase defensiva,
partindo de um sistema 4-2-3-1 inicial:

4. Flutuação: acredito que este conceito seja um sinônimo de balanço defensivo, ou como
dizem os portugueses, basculação. É a capacidade que o time desenvolve de se
movimentar coletivamente de um lado a outro do campo, conforme a circulação de bola
realizada pelo adversário. Notem que o termo “coletivo” é essencial para a boa execução
deste balanço/flutuação/basculação, porque basta a inércia de um ou dois defensores para
que este movimento desestruture a organização. Nesta imagem observa-se que os três
jogadores do time sem a bola mais distantes do setor atacado movimentam-se na direção
dos demais para fechar os espaços do corredor central, completando o balanço da equipe:

5. Recuperação: é a transição defensiva, assunto que será abordado em um próximo


capítulo. Segundo Leitão, “é a capacidade da equipe, quando perde a bola, retornar até um
ponto de referência estabelecido pelo treinador“. Na verdade, em geral o processo
de recomposição – um bom sinônimo para o termo – agrupa mais de uma premissa:
enquanto os mais próximos pressionam a bola (ou para roubar, ou para temporizar/atrasar
a ação do adversário) os mais recuados cobrem as zonas importantes do campo defensivo,
e os mais adiantados recuam na intenção de reagrupar a estrutura. Abaixo vemos estes
processos sendo realizados simultaneamente – um jogador pressiona o portador da bola,
dois descem acompanhando as linhas de passe que se projetam pelos lados, um mantém o
encaixe no adversário mais adiantado, e o defensor que está sobrando aproxima-se do
setor atacado para fazer a cobertura, tudo isso imediatamente após a perda:

6. Compactação defensiva: talvez seja o princípio mais importante e norteador de todos os


demais na fase defensiva – a capacidade da equipe se manter agrupada, com jogadores
próximos ocupando os espaços mais importantes no contexto da jogada. Como neste
lance, no qual os dez jogadores de defesa (uniformes claros) estão concentrados em um
curto espaço:

7. Bloco: é um princípio que anda a reboque da compactação defensiva, que exige da equipe
manter-se agrupada no sentido vertical (entre as linhas). Este bloco pode se movimentar
coletivamente, avançando na direção do campo adversário (bloco alto), posicionando-se a
partir do meio-campo (bloco médio) ou atrás da intermediária defensiva (bloco baixo), mas
sempre mantendo curta a distância entre as linhas (setores).Nesta imagem a distância
entre as linhas é tão curta que somente o juiz conseguiu se posicionar entre elas:
8. Direcionamento: é a capacidade de induzir o adversário a se movimentar para regiões
menos importantes do campo. No linguajar das ruas, “proteger a casinha”, fechar o corredor
central, impedir a progressão e manter o adversário preso às laterais, sem profundidade.
Observa-se na imagem abaixo que a equipe de uniformes claros fechou as linhas de passe
com uma pressão coletiva que induziu o adversário a chegar ao lado do campo e, sem
opções, livrar-se da bola com uma ligação direta pela falta de opções. Ou seja, o adversário
fez tudo o que o time em fase defensiva pretendia – quebrou a construção, impediu a
progressão organizada e aumentou a chance de recuperar a posse pela superioridade no
campo defensivo para a disputa da 1ª e da 2ª bola (5×2):

São estes os oito princípios estruturais da organização defensiva enumerados por Leitão, mas é
preciso abordar um conceito extremamente importante para o sucesso de todos estes
conceitos: a pressão sobre a bola. Com linhas compactas (bloco), estreitas (compactação),
agrupadas em um curto espaço, é evidente que diversas regiões do campo ficam descobertas.
Em contrapartida, o adversário na organização ofensiva procura – como já vimos – abrir o
campo, posicionando jogadores em amplitude e profundidade.

Ora, se por exemplo o time sem a bola concentra seus dez jogadores de linha no lado direito,
com mais ou menos 30 metros de distância entre as pontas de seus setores, o adversário terá
pelo menos mais 30 ou 40 metros para explorar no lado oposto, onde estará posicionado pelo
menos um jogador em amplitude.

Para evitar que a bola chegue até ele, é indispensável que o portador da bola seja pressionado
com intensidade, evitando que tenha tempo e espaço para acertar um passe longo na troca de
corredor (inversão ou diagonal). Sem pressão sobre a bola, nenhum destes princípios estruturais
será bem sucedido. Ou seja, é preciso agrupar-se, compactar-se, diminuir distância entre
setores, procurar superioridade numérica ao redor da bola, fechar linhas de passe, direcionar o
adversário para zonas menos importantes e, fundamentalmente, pressionar o portador da
bola insistentemente.

Outros conceitos importantes da Organização Defensiva dizem respeito ao tipo de marcação: por
zona (setorizada), por encaixes setorizados (zona pressionante), por encaixes individualizados,
individual por função ou mista. Leva-se em consideração que, em todas elas, os conceitos se
dão em função da bola – o posicionamento da bola é a principal referência-posicional norteadora
dos comportamentos defensivos.

Na marcação por zona a principal referência-alvo é o espaço, e depois os companheiros. Os


jogadores movimentam-se coletivamente, buscando manter a organização da estrutura
defensiva. O movimento do jogador que pressiona a bola repercute nos demais, que ocupam os
espaços próximos.

Para o português Nuno Amieiro, autor de diversos livros e artigos – um em especial chamado
“Defesa à Zona” – e ex-treinador adjunto do Porto, este modelo defensivo visa a “ocupar os
espaços do jogo de forma inteligente criando superioridade numérica na região da bola como um
dos fatores fundamentais para controlar os adversários“.
Amieiro diz ainda que aqui na marcação zonal “a referência alvo de marcação é o espaço, ou
seja, nossos jogadores buscam sempre se posicionar nos espaços mais valiosos. E a grande
referência posicional é a bola, o que significa que nossos jogadores se movimentam buscando
fechar os espaços mais valiosos (espaços próximos à bola e onde ela não pode entrar)“. A
defesa zonal é um processo coletivo que mantém a estrutura tática da equipe.
Este autor relacionou vários pontos que considera importantes para a conceituação clara da
marcação por zona:

 Os espaços são a referência alvo;


 A preocupação é fechar como equipe os espaços mais valiosos, os próximos à bola;
 As referências de posicionamento são a bola e os companheiros; c
 Cada jogador de forma coordenada com os companheiros fecha diferentes espaços de acordo
com a bola;
 A existência permanente de um sistema de coberturas sucessivas é uma características vital,
escalonando as diferentes linhas;
 É preciso pressionar o portador da bola, para este se ver condicionado em termos de espaço
e tempo para pensar e executar;
 A ocupação dos espaços valiosos permite controlar os adversários sem bola;
 Qualquer marcação próxima a um adversário sem bola é circunstancial e consequente da
ocupação racional dos espaços

Para Castelo, a defesa por zona provoca menor desgaste físico, permite a obstrução organizada
da progressão adversária, com uma linha que força os adversários a contorná-la, e outra que
assegura as coberturas. A zona permite ainda, conforme Castelo, a correção de falhas
individuais e a maior propensão ao contra-ataque.

Na zona pressionante, procura-se criar uma superioridade numérica no setor atacado com
maior agressividade na pressão sobre a bola. A principal tarefa dos companheiros próximos ao
responsável pela pressão ao portador da bola é, dentro do encadeamento de coberturas, fechar
as linhas de passe próximas. É o mesmo processo conceitual da marcação por zona clássica,
mas com maior agressividade, atendendo aos conceitos exigidos pelo futebol moderno, de
compactação no setor atacado.
Desta forma, o portador da bola recebe pressão e todas as linhas de passe próximas são
“fechadas” pelos defensores dentro de seus setores – cada jogador em ação defensiva encurta a
distância na relação com seu companheiro, em função da bola e do espaço, e busca fechar as
linhas de passe de forma ativa, com ênfase nas antecipações. É um padrão defensivo
extremamente difundido entre os clubes europeus. É muito mais uma reinterpretação
comportamental da marcação por zona, estabelecendo zonas de pressão e “abraçando” com
mais intensidade o setor atacado.

Outro modelo defensivo, descrito por Castelo, é a marcação mista. Para ele, a marcação mista
é uma síntese de zona e individual, exigindo pressão ao portador da bola pelo mesmo
marcador inclusive se o alvo sair de sua zona; isso obriga os companheiros a se colocar em
função do homem que pressiona o portador da bola, assim como de adversários que se
desloquem nos espaços da zona original deste marcador momentaneamente fora de lugar,
estabelecendo coberturas, mas com encaixes setorizados.
Ainda segundo Castelo, esta marcação tem como vantagens estabelecer constantes
compensações e trocas, abrindo margem a mais iniciativa e criatividade para os defensores. A
marcação mista também cria aos atacantes dificuldade em chegar à superioridade numérica no
setor, além de possibilitar a anulação de um alvo mais técnico e qualificado pelo
acompanhamento mais próximo de um marcador.

Mas Castelo vê como desvantagens a possibilidade de se abrir espaços, com defensores fora de
seu lugar original (estabelecendo combates longe das zonas com as quais estão mais
familiarizados); esta marcação mista exige ainda elevado grau de solidariedade e
responsabilidade de todos, além de diminuir a eficácia dos contra-ataques, pela desorganização
estrutural.

A diferença deste encaixe setorizado/misto para o encaixe individualizado é a obediência ao


setor. Enquanto na primeira não se estabelecem perseguições, na segunda – muito comum no
futebol sul-americano, em especial no Brasil – os adversários próximos à bola são
acompanhados até que a jogada se finalize, mesmo que se movimentem distantes do setor de
seu marcador temporariamente individual.
Para o professor português Álvaro Martins, este encaixe individualizado dentro do setor é
chamado de “marcação homem a homem”, descrito da seguinte forma:

“Cada jogador tem sua zona para cobrir, e quando um adversário nela entra ele passa a ser a
referência posicional e referência-alvo do nosso jogador. Mesmo que aqui tenhamos um
determinado desenho tático definindo as zonas dos nossos jogadores, ainda trabalhamos em
cima da ação do adversário, já que nos posicionamos sempre tentando encaixar com o nosso
adversário. É o chamado ‘jogo de pares’”.

É curioso que ele conceitue este encaixe de jogo de pares quando se observa as marcações do
futebol brasileiro. E digo curioso, para não afirmar que é engraçado, porque sempre chamei este
modelo de “dança de salão” – cada marcador acompanhando um adversário até o final da
jogada.

Nota-se que ele não acompanhará o mesmo adversário sempre, durante todo o jogo, mas sim
aquele que ingressar em sua zona, e daí em diante até o final da jogada. Na próxima ação
ofensiva do adversário, seu alvo poderá mudar, conforme o comportamento do adversário. Mas
a referência individualizada se sobrepõe ao espaço, estabelecendo perseguições, por vezes
extremamente longas, distanciando os marcadores de seus setores de origem.

Este é o principal problema deste modelo: desestruturar a defesa. À medida que o treinador
orienta seus jogadores a perseguir alvos individualizados, ele permite que o próprio time se
desorganize, por ser reativo (reage aos movimentos do adversário). E um oponente inteligente
pode utilizar estes encaixes para, com movimentos sincronizados, abrir espaços atraindo
marcadores para fora do setor e ocupando estas regiões com outros jogadores em projeção,
identificando defensores com maior tendência a se distanciar das zonas importantes.

Aqui vemos dois exemplos dos encaixes individualizados do futebol brasileiro – alguns mais
longos, outros mais curtos, mas sempre transformando o campo em um imenso “salão de
dança”, ou como bem conceituam os portugueses, em um “jogo de pares”:

Na imagem acima mesmo os adversários distantes do lado da bola são acompanhados


individualmente, como alvos a ser perseguidos. Abaixo, repara-se que apenas dois jogadores do
time sem a bola (o centroavante e um zagueiro) não acompanham homem-a-homem um
adversário:
Na prática, o desenho não se desestruturou – time mantém o 4-1-4-1 inicial porque cada jogador
busca encaixes dentro do setor. Mas qualquer movimento do alvo leva o marcador a reagir e
movimentar junto. No lance, o extremo da equipe de uniforme claro inteligentemente atrai o seu
marcador para perto da bola apenas com a intenção de abrir um espaço às suas costas, girando
sobre ele e recebendo o passe em profundidade em um espaço relevante, progredindo em
velocidade e com seu marcador – agora – às suas costas, não mais à sua frente.

Já este próximo exemplo é da Holanda na Copa do Mundo, com um zagueiro perseguindo seu
alvo individualizado na partida contra a Espanha até o campo ofensivo, sem se preocupar com o
seu setor:

A marcação individual por função é obsoleta, praticamente não mais utilizada. A bola, o
espaço e os companheiros não são importantes, apenas o alvo individual de cada marcador, que
não se altera durante o jogo. Não importando para onde seu alvo movimenta-se, o jogador
incumbido de acompanhá-lo estará próximo. Para não dizer que este modelo está extinto,
observou-se que a Campinense utilizou a marcação individual por função no primeiro semestre
de 2015 – cada jogador perseguindo um alvo exclusivo, durante todo o jogo, independentemente
do espaço ou do posicionamento da bola.
O professor Jorge Castelo é um crítico deste modelo de marcação. Acredito que as restrições
teóricas dele aos sistemas individualizados aplicam-se tanto ao encaixe individualizado como à
marcação individual por função. São eles:

 É a lei do um contra um;


 E uma organização cuja capacidade física é fundamental – provoca alto desgaste físico;
 Tem a responsabilidade individual ao mais alto grau – uma eventual falha individual
compromete todo o sistema;
 Cria espaços em zonas vitais do campo defensivo;
 Limita as ações ofensivas – contra-ataque parte de jogadores distribuídos aleatoriamente em
campo.

No recentemente lançado “Para um futebol jogado com ideias”, o professor-doutor Israel Teoldo
enumera outros princípios fundamentais, que podem ser conhecidos neste post sobre o assunto.

7.Transição Ofensiva

De início a análise mais elaborada do futebol empenhava-se em identificar os padrões “com bola
e sem bola”. Mas, a partir do desenvolvimento desta área de atuação, principalmente na escola
portuguesa com a alta produção de conteúdo teórico/acadêmico sobre os Jogos Desportivos
Coletivos, passou-se a considerar sub-divisões voltadas à análise dos momentos de mudança de
posse: as transições.
Dizer que as transições referem-se aos momentos de mudança de posse é bastante claro. Ou
seja, a transição ofensiva se dá quando uma equipe recupera a bola, assim como a transição
defensiva acontece quando a equipe sob análise perde a bola.

Segundo o professor brasileiro Leandro Calixto Zago, que publicou – entre outros – o excelente
artigo Princípios operacionais de transição, “no momento da perda da posse de bola, a equipe já
deve apresentar respostas individuais e coletivas que estejam conjecturadas com seu modelo de
jogo independentemente do que este propõe. Os jogadores devem ter claro quais são as ações
que eles deverão tomar no instante imediato após a recuperação da bola ou de sua perda. Antes
de se organizar defensivamente, uma equipe deve apresentar características de sua
organização ‘ataque-defesa’ para potencializar os efeitos da sua parte defensiva“.
José Manuel Fernandes de Oliveira também estudou as transições, destacando a importância de
se aproveitar os momentos de desorganização do adversário durante a recuperação da bola:
“O momento de transição ataque-defesa carateriza-se pelos comportamentos que devem ser
assumidos durante os segundos após se perder a posse de bola. Estes segundos são
particularmente importantes tendo em conta que as equipes se encontram momentaneamente
desorganizadas para as novas funções que têm de assumir, pelo que ambas tentam aproveitar
as desorganizações adversárias. Por sua vez, o momento de transição defesa/ataque é
caraterizado pelos comportamentos que se devem manifestar durante os segundos imediatos ao
ganhar-se a posse da bola. Estes segundo são importantes porque, tal como na transição
defesa/ataque, as equipes encontram-se desorganizadas para as novas funções e o objetivo é
aproveitar as desorganizações adversárias para proveito próprio“.
Ou seja, se o adversário tem a bola, obviamente ele assume riscos projetando seus jogadores e
criando movimentos que visam à criação de espaços, tirando-os de seus setores originais. A
partir do momento em que a equipe consegue roubar a bola deste adversário, vai encontrá-lo em
breve desorganização, situação para a qual é preciso haver um plano que possibilite aproveitar
os espaços descobertos de forma ágil e objetiva.

O professor Jorge Castelo avança nestes conceitos, especificando um traço importante da


transição ofensiva: o tempo de execução. Segundo ele, o momento deve durar no máximo 12
segundos. A partir daí, se não houve progressão com finalização, as duas equipes mudam
novamente de fase – quem roubou a bola e não finalizou entra em organização ofensiva, assim
como quem está sem a bola já teve tempo de se reorganizar e entrar em organização defensiva.
Castelo enumerou passos para a execução da transição ofensiva:

1. a conquista da bola é realizada no meio campo defensivo, apresentando-se a equipe


adversária avançada no terreno de jogo e desequilibrada defensivamente;
2. a rápida transição das atitudes e comportamentos tático-técnicos individuais e coletivos da
fase defensiva para a fase ofensiva do jogo, logo após a recuperação da posse da bola;
3. a utilização, sobretudo, de passes longos e para a frente, realizando-se a circulação da bola
mais em profundidade do que em largura, com desmarcações de ruptura;
4. o número reduzido de passes (igual ou inferior a cinco);
5. a elevada velocidade de transição da zona do campo onde se efetuou a recuperação da
posse da bola, às zonas predominantes de finalização, diminuindo, assim, o tempo da fase
de construção do processo ofensivo (inferior a 12 segundos);
6. o ritmo de jogo elevado (elevada velocidade de circulação da bola e dos jogadores).

Nota-se que Castelo destacou outro aspecto fundamental: a mudança de comportamento. A


partir da roubada de bola, os jogadores que estavam na fase defensiva precisam “despertar”
para o novo momento e prontamente seguir o plano direcionado à transição ofensiva,
projetando-se nos espaços vulneráveis.

Neste capítulo é preciso recorrer novamente aos textos do brasileiro Rodrigo Aparecido Azevedo
Leitão que, identificando a carência de fundamentos teóricos sobre o tema, descreveu os
princípios operacionais e estruturais do momento do jogo que é popularmente conhecido por
“contra-ataque”.
Acredito que os princípios estruturais têm maior valor como curiosidade, até pela falta de outras
referências teóricas deste porte, mas mostram-se muito abrangentes e amplos, entrando de
certa forma nos conceitos dos demais momentos do jogo. São três, segundo Leitão, os princípios
estruturais da transição ofensiva:

1. Densidade ofensiva: é a relação entre o número de jogadores que participam da fase de


ataque de uma equipe com o número de jogadores que participam da defesa do adversário;
na prática, é a oposição entre superioridade/inferioridade numérica buscada pelas equipes
em todos os momentos. Basta somar os jogadores e confrontá-los – a equipe X ataca com
7 enquanto a equipe Y defende com 8, por exemplo.

2. Balanço ofensivo: é o número e a forma de disposição dos jogadores ofensivos enquanto


sua equipe sofre um ataque; na imagem abaixo, é possível ter uma ideia deste conceito. A
equipe de uniformes claros tem dois jogadores à frente da linha da bola. Estão recuados e
fechando a linha de passe para os volantes, mas ao mesmo tempo preparados para a
rápida mudança de comportamento, projetando-se em espaços vazios, assim que sua
equipe recuperar a bola:

3. Proporção de ataque: é a relação entre o número de jogadores que participam


efetivamente da fase de ataque da equipe com o número de jogadores que se preocupam
predominantemente com a defesa durante a fase ofensiva – conceito que será levado em
consideração também na transição defensiva, no sentido inverso. Na prática, é a divisão
entre os blocos à frente da linha da bola e atrás da linha da bola – o time X ataca com 7
jogadores, enquanto 3 ficam em posição de espera, por exemplo.

Já os princípios operacionais são mais interessantes e de fácil visualização. Segundo Leitão,


também são três:

1. Tirar a bola da zona de pressão: é um conceito bastante trabalhado nas transições


ofensivas. Se o adversário, no momento da perda, tenta a rápida recuperação – o que pode
ser facilmente observado nas equipes treinadas pelo catalão Pep Guardiola – acionando os
jogadores próximos em direção ao portador da bola, é sinal que espaços no lado oposto
vão se abrir. Nesta imagem percebe-se que o time de uniformes claros, com o portador da
bola sob pressão, sai do corredor central congestionado e aciona o jogador em progressão
pelo corredor direito. Na jogada a saída de pressão é curta, mas existem inúmeros outros
exemplos de saídas mais longas, com passes em diagonal/inversões:

Nesta outra imagem vemos mais um exemplo de saída da zona de pressão, com um
recurso bastante utilizado para tal – o uso do pivô. A partir da roubada de bola, o jogador
mais adiantado recua, recebe o primeiro passe e conta com a projeção de outro
companheiro pelo lado:

2. Progredir com a bola em direção ao gol: esta progressão é coletiva, mais precisamente
chamada de “contra-atacar em apoio”. Mais de um jogador se projeta e dá opção ao
homem com a bola, como no exemplo abaixo, com três jogadores participando da ação e
forma vertical – todos movimentando-se para ultrapassar a linha da bola e dar opção de
passe em profundidade ao autor do passe, em igualdade numérica contra o adversário
(4×4):

3. Manter a bola na zona de pressão: este princípio organizacional da transição ofensiva é


menos utilizado pela óbvia dificuldade de êxito. Ainda assim algumas equipes podem
eventualmente recorrer a ele, em especial de acordo com o contexto da jogada,
dependendo da leitura do jogador com a bola – na fração de segundos que lhe cabe avaliar
as opções, ele conclui que a melhor opção está na região do campo povoada pelos
adversários, e não no lado oposto. Encontrei nos meus arquivos um exemplo que talvez se
adeque a este conceito (pressionado por quatro adversários o jogador com a bola faz o
passe para o companheiro que se projeta próximo, mesmo tendo uma opção – circulada –
livre na zona fora de pressão):

Leandro Zago, no já citado artigo sobre transições, subdivide o contra-ataque em dois


momentos, avançando na análise de Rodrigo Leitão. Segundo ele, no 1º momento a equipe opta
entre sair da pressão ou progredir; caso tenha escolhido sair da pressão, no 2º momento ela
pode manter a posse (entra em organização ofensiva) ou progredir em apoio (oferta de linhas de
passe em projeção); caso opte pela progressão imediata, no 2º momento pode definir-se entre
o ataque rápido (definir objetivamente o lance, mesmo que em jogada individual/condução) ou
combinado, tendo para isso que contar com a aproximação de pelo menos um jogador ao
portador da bola.

8.Transição Defensiva

Muito da teoria sobre as transições já foi dito no capítulo anterior, que tratou especificamente dos
contra-ataques. O que nos permite ser mais objetivo na abordagem dos princípios estruturais e
organizacionais da transição defensiva agora.

Vale lembrar que a transição defensiva é o momento da mudança de posse da equipe sob
análise passando de ter a bola para perdê-la. A partir deste instante os jogadores precisam
também mudar rapidamente de comportamento, saindo da fase ofensiva para buscar – seguindo
o modelo de jogo – novamente a posse, além de impedir que o adversário progrida em seu
campo.
Rapidamente enumero abaixo os princípios estruturais descritos pelo professor Rodrigo Leitão.
São três:
1. Densidade defensiva: é a relação entre o número de jogadores que participam da fase
de defesa de uma equipe com o número de jogadores que participam do ataque adversário.
Novamente, é a comparação entre o time X defendendo-se com 9 jogadores e o Y
atacando com 7, por exemplo;

2. Balanço defensivo: é o número e a forma de disposição dos jogadores defensivos


enquanto sua equipe promove um ataque. Este princípio é mais claro. Em geral, as equipes
quando atacam preparam seus jogadores atrás da linha da bola para a transição defensiva.
É comum perceber que o time com a bola deixa “em espera” seus dois zagueiros e pelo
menos um lateral e um volante, por vezes formando um “losango defensivo” atrás da linha
da bola. Estes jogadores ficam próximos dos adversários que, do contrário, estão à frente
mesmo que sua equipe se defenda, preparando-se para a transição ofensiva. Nesta
imagem nota-se que o time de uniformes brancos, em função do alto número de
adversários adiantados, mesmo estando em organização ofensiva deixa quatro defensores
atrás, formando seu balanço defensivo, com encaixes individualizados e superioridade
numérica – como escrevi antes, formando um losango:

3. Proporção de defesa: é a relação entre o número de jogadores que participam


efetivamente da fase de defesa com o número de jogadores que se preocupam
predominantemente com o ataque durante a fase defensiva. É a contraposição dentro do
próprio time entre 8 jogadores defendendo e 2 à frente da linha da bola, por exemplo.

Já nos princípios organizacionais, é possível se ter uma visualização mais clara destes conceitos
aplicados em campo. E Leitão relaciona outros três, relacionados abaixo:

1. Pressionar o portador da bola: é o que se vê cada vez mais no futebol moderno, muito
em função do êxito das equipes treinadas pelo Pep Guardiola. Assim que o time perde a
bola, a primeira “regra” do modelo de jogo é que os jogadores próximos – em especial
quem estava com a bola, levando consigo os companheiros mais imediatos ao setor em
questão – exerçam forte pressão sobre o adversário. Isso possibilita não apenas que a
posse seja rapidamente recuperada, como também atrasa a progressão adversária.
Nesta imagem temos um exemplo de pressão imediata ao portador da bola no momento da
perda. São 3 jogadores cercando o portador da bola:
Aqui tem um link que fala mais sobre a recuperação em até 5 segundos – a transição
defensiva agressiva (Gegenpressing).

2. Recompor-se: neste caso, a referência é a linha da bola. Se no modelo de jogo a ordem


principal na transição defensiva é a recomposição, os jogadores priorizam o retorno a seus
respectivos setores – dando ênfase à reorganização da linha defensiva à frente da área.
Este movimento é bastante comum quando vemos um jogador de meio-campo (um volante,
como se diz aqui no Brasil) saindo para os lados em cobertura ao lateral que atacava e na
perda se vê fora de lugar. O time exemplificado abaixo, que praticava uma proposta
defensiva – poucos jogadores à frente da linha da bola – priorizou uma transição voltada à
recomposição por ver este princípio facilitado (seus laterais e volantes já estavam próximos
dos zagueiros). Assim, no momento da perda, já apresentava a linha defensiva e os dois
volantes reagrupados, com superioridade numérica, jogo posicional, compactação e
pressão sobre a bola:

3. Manter as estruturas: se não foi possível pressionar, alguns treinadores optam por orientar
seus jogadores a “correr para trás” na transição defensiva. Permitem que o adversário
progrida com a bola, sem pressioná-lo, para guardar a defesa de setor. A imagem abaixo é
bem clara – o lateral do time de uniformes claros poderia ter escolhido adiantar-se para
combater o adversário com a bola, mas preferiu manter-se atrás para não desorganizar a
estrutura da primeira linha, correndo para trás:
Neste ponto, recorro mais uma vez ao complemento proporcionado pelo artigo do
professor Leandro Zago, que também sub-divide a transição defensiva em dois momentos.
Segundo ele, no 1º momento a equipe pode pressionar o portador da bola ou recompor-se; feita
a escolha, caso tenha optado pela pressão imediata no 2º momento é necessário temporizar ou
recuperar a posse; caso a opção tenha sido a recomposição, no 2º momento é hora de proteger
o próprio campo e, consequentemente, o alvo (o gol).
“Temporizar” é sinônimo de “atrasar”. Como dito antes, a pressão imediata visa ou à roubada no
campo de ataque, ou ao atraso/impedimento da progressão adversária, permitindo que os
demais jogadores reorganizem a estrutura defensiva.

Acredito que exista ainda um 4º princípio organizacional, não citado nos artigos/livros que
consultei, mas bastante observado na prática em diversas equipes brasileiras, principalmente as
que utilizam modelos de jogo mais arcaicos: a falta. Não é piada, mas muitos treinadores
acreditam que o anti-jogo é uma forma de transição defensiva, referindo-se a ele como “falta
tática” para impedir contra-ataques adversários. E, se um time recorre frequentemente às faltas
no momento da perda de bola, é necessário que o analista registre este comportamento.

Para encerrar o capítulo, deixo para reflexão esse trecho do artigo de Leandro Zago, ressaltando
a importância do treino e da clareza do modelo de jogo para que os jogadores tenham recursos
na hora de analisar as possibilidades e, em uma fração de segundos, tomar a melhor decisão:

“Para se treinar as transições defensivas e ofensivas são necessários princípios de jogo bem
estabelecidos. Quando recupera a bola a equipe deve saber se é o momento de contra atacar,
tirar simplesmente a bola da zona de pressão, ou alternar entre ambos de acordo com o
comportamento do adversário. Ao perder a bola, deve-se definir referências para pressionar o
portador da bola rapidamente, reorganizar-se em linhas mais recuadas ou coordenar as duas
respostas numa análise rápida da situação que o jogo está propondo. Essa coordenação tem
que estar muito bem construída, porque a transição tem como uma de suas características um
pequeno tempo para sua ocorrência, não permitindo na maioria das vezes que as dúvidas sejam
solucionadas em tempo hábil de resolver o problema”.
9.Bola Parada

Considerada há algum tempo o 5º momento do jogo sob a perspectiva tática – separada, assim,
dos aspectos de organizações ofensiva e defensiva, e das transições ofensiva e defensiva – a
bola parada ainda é uma das searas menos exploradas da teoria do futebol. De fato, boa parte
dos autores aplicam a ela os mesmos conceitos das fases ofensivas e defensivas, adaptando-os
aos lances de bola parada em função de suas peculiaridades.

Mais recentemente, além dos usuais escanteio, falta lateral, falta direta e pênalti, os arremessos
laterais também são utilizados como ferramentas ofensivas na bola parada, exigindo que se
elaborem planos defensivos para conter eventuais adversários que se utilizem destas ações de
arremesso manual diretamente para a área, quase reproduzindo situações de escanteio.

Mas neste capítulo os escanteios serão abordados com maior profundidade – e quase com
exclusividade – por serem as ações de bola parada que, principalmente na fase defensiva,
mostram-se mais elaboradas e diversificadas nas escolhas dos treinadores.

Os estudos nesta área crescem não apenas pelo potencial (aumento de demanda versus
bibliografia escassa) mas pela constatação de sua influência cada vez maior no resultado das
partidas.

Segundo o professor Jorge Castelo, entre 25 e 50% das situações de finalização e de criação
das situações de finalização são originadas a partir de soluções táticas de bola parada. Para ele,
confrontos entre equipes semelhantes são cada vez mais decididos por gols derivados de
escanteios, faltas laterais, faltas diretas, pênaltis ou arremessos laterais:
“As situações de bola parada, como todos nós sabemos, são muito importantes, porque elas
conduzem a situações que podem dar gol, ou que podem também, sofrer o gol, isto é, preparar
armadilhas para na fase defensiva nós podermos contra atacar e podermos ter condições para
fazer o nosso jogo.”
Os professores Mário Bonfanti e Angelo Pereni, autores do livro “Fútbol a Balón Parado“,
também levantaram um número próximo a 50% dos gols marcados no futebol moderno
originados em lances de bola parada, ou em consequência destes lances. Outros
estudos chegaram a marcas semelhantes, apontando em 47% o número de gols resultantes de
bola parada.
Segundo Bonfanti e Pereni, nas situações ofensivas de bola parada deve-se:

 realçar a organização da jogada;


 elaborar a surpresa e a oportunidade de variar as jogadas;
 explorar as habilidades de um jogador do seu time e as debilidades de um adversário;
 ter atenção a lapsos de concentração e à confiança.

O britânico Charles Hughes, diretor de treinadores da Football Association (FA) que gere o
futebol inglês e autor, entre outras obras, do manual de futebol para o curso de treinadores da
instituição enumerou cinco vantagens dos lances de bola parada:

 a bola parada elimina automaticamente a necessidade de controle da bola;


 os adversários precisam se colocar a uma distância mínima do cobrador, o que elimina a
pressão sobre a bola;
 um grande número de atacantes e/ou de jogadores com potencial de jogo aéreo deslocam-se
para área ofensivas de perigo;
 os jogadores se posicionam em zonas pré-planejadas, por vezes atendendo ao estudo de
deficiências na marcação adversária;
 o treinamento sistemático destes lances produz níveis de sincronização dos movimentos.

Mais especificamente no que diz respeito aos escanteios ofensivos, Hughes caracteriza três
tipos de cobrança: longa (direta para a área); média (segundo jogador acionado em aproximação
ao batedor, para cruzamento após o primeiro toque); e curta (segundo jogador próximo ao
cobrador, recebe o passe curto para o cruzamento ou a combinação).

Castelo vai além, e expande essa divisão com mais dois pormenores, ligados à cobrança longa
(direta): efeito para dentro (pé fechado) ou para fora (pé aberto), o que influencia diretamente no
posicionamento tanto da defesa quanto dos atacantes dos lances de bola parada. Estudos
recentes apontam que mais de 85% dos escanteios são cobrados diretamente para a área,
restando apenas 15% de cobranças em dois tempos (curtas ou médias).

Diversos autores ressaltam ainda, nos lances ofensivos de bola parada, a importância das
movimentações sincronizadas entre os atacantes, combinando este aspecto ao estudo da
marcação adversária. Ou seja, aplicar os movimentos pré-treinados às carências identificadas
nos comportamentos defensivos do rival, explorando espaços ou jogadores que possam
comprometer a eficácia da marcação, potencializando a oportunidade de gol.

Em geral, pela observação de jogos das competições mais recentes de todas as principais ligas
mundiais, o padrão quase absoluto das equipes em escanteio ofensivo é ingressar na área com
5 jogadores à espera do cruzamento, variando numericamente apenas no número de jogadores
no rebote (1, 2 ou até mesmo 3) e na possibilidade de haver aproximação para cobrança curta.
Uma das formações mais encontradas é uma linha de 4 jogadores, no espaço entre pequena
área e marca do pênalti, com um 5º jogador próximo ao goleiro – por vezes até buscando o
contato, como na imagem abaixo:

Contra marcações individuais, alguns treinadores buscam a aglomeração de seus


principais cabeceadores, criando uma zona de acúmulo de atacantes e defensores, o que pode
proporcionar erros de marcação. No lance abaixo vemos três cabeceadores sobrepostos,
atraindo três marcadores, completando a área com um na 1ª trave e um na 2ª trave:

Existe ainda, entre muitas outras possibilidades, a movimentação de jogadores que estão fora da
área, para surpreender o adversário e atacar a bola em velocidade. Nesta jogada a equipe
aparenta ter apenas 3 jogadores na área e 4 no rebote, mas 2 destes entram em velocidade por
trás dos 3 primeiros, completando no momento da batida 5 na área e 2 no rebote próximo:
Se aglomerar jogadores em “escadinha” pode funcionar contra marcações individuais, o técnico
André Jardine (de excelentes trabalhos nas categorias de base de Inter, Grêmio e São Paulo)
tem uma boa fórmula para combater a marcação por zona em escanteios:

“Bloqueio e superioridade numérica no setor“, ele me disse, certa vez.


É um conceito que já foi observado na prática. A imagem abaixo é de uma vitória do Chelsea
sobre o Galatasaray, há algumas temporadas, sob comando de José Mourinho. Contra a linha
setorizada turca, Mourinho transformou o zagueiro Terry em um Offensive Tackle do futebol
americano, buscando contato corporal e empurrando o responsável pela zona para trás,
enquanto Ivanovic vem detrás em velocidade e “ataca a bola” exatamente naquele setor
espaçado – contando com a qualidade da cobrança de Oscar.

Ou seja, bloqueio e superioridade no setor. Foi gol:

Outro gol semelhante foi marcado na temporada 2014/15 pelo Barcelona, com dois bloqueios
levando marcadores para dentro da pequena área, permitindo ao pequeno Messi cabecear livre.
São apenas alguns entre tantos exemplos de soluções encontradas nos treinos e praticadas nos
jogos.

Vale o mesmo dos escanteios para as faltas laterais – combinar estudo do adversário e sincronia
de movimentos. Neste tipo de bola parada, Hughes indica ainda o posicionamento de dois
batedores – um destro e um canhoto – o que dificulta a decisão da defesa na hora de posicionar
a linha, e abre a possibilidade de uma cobrança combinada.

Já nos lances de bola parada defensiva, o professor José Maria Yagüe Cabezón define o
processo da seguinte forma:
“Consiste nas soluções tático-técnicas individuais e coletivas da equipe, com a finalidade de
neutralizar e anular as ações de bola parada ofensivas do adversário”. Cabezón enumerou ainda
três princípios básicos dos lances de bola parada defensiva:

 manter elevada a concentração durante o lance;


 dispor de uma organização defensiva bem estruturada, tanto a nível
individual como coletivo;
 possuir estratégias definidas para a transição ofensiva.

E o professor Jorge Castelo divide os tipos de marcação em três: por zona, individual ou mista.
Neste aspecto existe muita discussão sobre a eficácia de cada modelo, por vezes até com
defesas exasperadas de pontos de vista entre defensores da zona e da individual nas bolas
paradas defensivas.

 Individual: cada elemento da equipe que defende tem responsabilidade por um adversário em
particular, nunca se afastando dele; é próxima, rígida e agressiva, aumentando de intensidade
à medida que se aproxima do gol;
 Zona: cada jogador é responsável por uma zona do terreno, intervindo ativamente a partir do
momento em que a bola ou o adversário com a bola entrem em seu raio de ação; visa
a fechar os espaços mais perigosos e a condicionar o comportamento do adversário;
 Mista: combina elementos das duas anteriores, com alguns jogadores respeitando a
referência por zona, e outros as referências individualizadas, na mesma ação.

Alguns estudos têm sido publicados, principalmente nas escolas portuguesas, sobre a utilização
dos três modelos, e os consequentes percentuais de eficácia. Um sobre a Eurocopa de 2004
aponta que 79,5% dos escanteios tiveram defesa mista, 17% individual e apenas 3,5% por
zona; outra competição de 2004 apontou 84% mista, 14% zona e 2% individual; e um
levantamento sobre a Eurocopa de 2008 encontrou 49,6% mista, 27% zona e 23,4% individual.

Variam muito os números, mas em geral a marcação mista é sempre a mais utilizada. Sobre
ela, Manuel Casanova – autor de um excelente estudo sobre a eficácia dos diversos modelos de
bola parada pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto – faz uma importante
subdivisão:
“Este método pode ter uma variedade muito grande: por um lado, pode ser composta na
sua maioria por jogadores a defender à zona e desse modo assemelhar-se mais ao
método defensivo zonal; por outro lado, pode ter mais jogadores a realizar defesa individual
e desse modo assemelhar-se mais com o método de defesa individual.”
Tem sido este, ao menos no futebol brasileiro, o principal ponto de observação nas bolas
paradas defensivas: o crescimento da utilização da marcação mista com supremacia da zona.
Na prática, muitos jogadores marcando por setor, e poucos individualmente, como veremos nas
imagens a seguir.
É difícil de se encontrar uma equipe que marque exclusivamente por zona as bolas paradas,
assim como é muito raro uma exclusivamente individual – se levarmos em consideração que os
jogadores posicionados nos postes estão marcando “setores”, por exemplo. Isso faz com que a
quase totalidade das defesas de bola parada no futebol brasileiro sejam mistas, variando na
supremacia do número de jogadores – uns com mais homens por setor, outros com mais
individuais.

Encontrei em todo o Campeonato Brasileiro apenas um bom exemplo de defesa exclusivamente


por zona em escanteios. É nesta imagem. Embora aparente que um jogador está marcando
individual, ele é na verdade o responsável pelo setor da 2ª trave, permanecendo ali (para dentro
da linha em diagonal que vem definindo os setores desde a 1ª trave) mesmo se o adversário em
questão não estivesse em seu setor:

Observam-se 3 jogadores na 1ª trave, formando um triângulo; 4 alinhados na zona em diagonal


e 1 na zona da 2ª trave, somando com os 2 do rebote a presença de todos os jogadores de linha
na marcação do escanteio.

Mas lá no alto da imagem vemos que o adversário cobra com “pé fechado”. Contra o mesmo
adversário, em situação de “pé aberto”, esta equipe modifica o comportamento e sai da zona
para a marcação mista devido a uma simples variação: o jogador da 2ª trave sai deste setor
e transforma-se em bloqueador individual na altura do pênalti, utilizado como recurso para
atrapalhar a corrida dos melhores cabeceadores, evitando que ingressem com velocidade nas
zonas e vençam os defensores pela maior impulsão e agressividade:
Este é o padrão mais observado empiricamente entre as equipes das principais ligas de futebol
do mundo quando a defesa é por zona na essência: a existência de entre 1 e 3 bloqueadores
individuais, configurando assim o modelo como defesa mista com supremacia setorizada.

Aqui é possível, pela proximidade da imagem, perceber com maior clareza esta defesa mista
com supremacia setorizada. São 2 jogadores no setor da 1ª trave, 4 marcando por zona
alinhados e 1 no bloqueio individual na altura do pênalti, “atrapalhando” a corrida dos
adversários. Na prática, é uma defesa de zona com um bloqueador, mas na teoria é uma “defesa
mista” unicamente pela presença deste jogador circulado:

Falando-se em marcação por zona (mesmo que na teoria seja “mista” pela presença de
bloqueadores) é impossível não se abordar o Corinthians do técnico Tite, que ingressa na
própria área com todos os seus jogadores de linha para defender.
Percebe-se na imagem acima que 2 jogadores ocupam o setor da 1ª trave; outros 4 marcam
alinhados por zona, sendo o último deles o responsável pela 2ª trave, “quebrando” a linha para
dentro; mais 3 jogadores fazem os bloqueios individuais (2 estão na altura do pênalti e outro está
mais afastado perseguindo um alvo que ameaça receber cobrança curta); e o 10º jogador está
na saída da área, para o rebote.

Se as marcações por zona na maioria das vezes contam com um ou mais bloqueadores
individuais, as marcações essencialmente individuais também são mistas na prática – em razão
dos jogadores que defendem a 1ª trave. Podemos perceber esta diferença entre a letra fria da
teoria e a prática nas imagens abaixo, com diversos modelos de marcações individuais, mas
sempre contando com 1, 2 ou 3 defensores setorizados na 1ª trave.

Time de camisas claras com 2 na 1ª trave, 5 marcando 5 individualmente e 2 no rebote


encaixado:
Time de camisas escuras com 2 na 1ª trave, 5 marcando 5 individualmente e 2 no rebote:

Agora o time de camisas claras tem 3 na 1ª trave e 4 marcando 4 individualmente:

Assim como nas defesas por zona, as defesas individuais têm inúmeras combinações possíveis.
Outro aspecto interessante de se observar é o posicionamento do goleiro, por vezes mais para
fora da pequena área, por vezes mais próximo à linha.

Feita a interceptação, outra parte importante do plano defensivo nas bolas paradas é o contra-
ataque. Segundo o professor Júlio Garganta, as transições ofensivas em bolas paradas precisam
levar em consideração os seguintes aspectos:
 Aproveitar a desorganização adversária, em uma ação na qual os zagueiros e demais
defensores altos costumam ir ao ataque;
 É aconselhável trocas poucos passes – entre quatro e cinco, no máximo;
 Estes passes devem ser longos e para a frente;
 Toda a ação precisa levar entre 5 e 10 segundos, no máximo 12 segundos;
 Até 4 jogadores devem se envolver no contra-ataque;
 Deve-se buscar a superioridade numérica sobre a defesa na zona de finalização.

10.Inteligência de Jogo e Tomada de Decisão

“Mas será que os jogadores entendem essa história de losango, linha, quadrado…?“,
questionam os céticos e detratores da análise tática, no comum afã humano por atacar e diminuir
aqueles/aquilo que não se compreende. A resposta está no campo, quando qualquer observador
capaz (não basta ver, mas saber ver, como já foi dito) consegue identificar não apenas os
desenhos proporcionados pelo posicionamento inicial dos jogadores, mas também os complexos
movimentos e comportamentos que caracterizam o modelo de jogo das equipes.
Obviamente, a base de tudo é o treinamento. Os jogadores são diariamente estimulados a
compreender as regras concernentes ao modelo de jogo em todas as suas fases – o que fazer
nas mais diversas situações de posse, transições, posse do adversário ou bolas paradas. Com
este acervo de informações, também são estimulados a tomar as melhores decisões, a cada
fração de segundo, em sintonia com os companheiros e em confronto com os adversários.

O professor argentino Pablo Juan Greco bem definiu esta relação entre jogadores, treinamento e
tomada de decisão:

“Do ponto de vista dos jogos esportivos coletivos, toda a decisão é uma decisão tática e
pressupõe uma atitude cognitiva do jogador, que lhe possibilita reconhecer, orientar-se e regular
suas ações motoras. Portanto, observa-se a necessidade de se compreender a importância do
desenvolvimento do conhecimento através dos processos de ensino-aprendizagem-treinamento.”
Por isso o papel do treinador e de sua comissão técnica, cada vez mais multidisciplinar, é tão
importante. Esta equipe de trabalho precisa construir um modelo de jogo ao mesmo tempo
complexo e claro, criar atividades que transmitam este conteúdo nos treinamentos aos
jogadores, analisar seus comportamentos nas partidas e buscar soluções constantemente. Fica
evidente a necessidade de haver um modelo de jogo e um microciclo de treinos em mais alto
nível.

Segundo o professor/treinador Jorge Castelo, “os princípios de jogo estabelecem um quadro de


referências para os jogadores, orientando o pensamento tático dos mesmos e,
consequentemente, o comportamento tático-técnico com vista à resolução eficiente das diversas
situações que a competição em si encerra.”

É evidente que dentro de campo “quem decide” é o jogador. Mas esta decisão, em cada lance,
precisa estar amparada no acervo de referências adquiridas nos treinamentos, análises de
vídeos, palestras e demais meios de estímulo ao jogador. Cria-se, desta forma, um pensamento
coletivo, interligando as decisões de todos os jogadores entre si, fazendo com que o time mova-
se como um organismo vivo, com as decisões de cada um sendo não apenas assimiladas, mas
antecipadas pelos companheiros.

O professor-doutor Júlio Garganta produziu diversos artigos sobre inteligência de jogo e tomada
de decisão, dos quais recortei muitos trechos para esclarecer este aspecto importantíssimo do
desenvolvimento do jogo de futebol: a capacidade que o jogador tem de saber o que fazer, onde
fazer, quando fazer, e como fazer.

Garganta, embora grande estudioso das complexidades táticas dos jogos desportivos coletivos,
não ignora a presença de aleatoriedade e da imprevisibilidade no desenvolvimento das partidas,
em especial do futebol. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, o ingrediente do aleatório
não isenta os jogadores do conhecimento tático. Na verdade, isso exige ainda mais inteligência
de jogo, estimulando-os a prever até mesmo o imprevisível:

“O futebol é considerado o jogo desportivo coletivo mais imprevisível e aleatório, características


que resultam do envolvimento aberto, do elevado número de jogadores e da dimensão do
espaço de jogo, bem como da duração do tempo de jogo. Neste sentido o jogo de futebol
reclama dos praticantes uma elevada capacidade perceptiva e maiores exigências relativamente
à componente visual que os restantes jogos desportivos coletivos.”
Seguindo o caminho dos ensinamentos do professor Garganta, ele reitera a necessidade de
desenvolvimento desta “inteligência de jogo” para que o atleta tome as decisões certas:

“O sucesso nos jogos táticos depende largamente do nível de desenvolvimento das faculdades
perceptivas e intelectuais dos atletas, especialmente em associação com outros fatores que
determinam a performance. Em cada ação o jogador avalia as possibilidades de êxito e prepara
mentalmente a ação a realizar em função da antecipação do comportamento dos adversários e
da ação que os companheiros preveem realizar-se nesse contexto, exigindo-se decisões
inteligentes através de processos cognitivos.”
Os pesquisadores J.E Rink, K.E French e B.L Tjeerdsma descreveram em um artigo sobre o
aprendizado nos esportes e jogos, relacionando traços cognitivos e motores que levam a se
identificar o jogador mais capaz de tomar boas decisões – e executá-las – devido à sua
inteligência de jogo e refino técnico:
 Conhecimento declarativo e processual mais organizado
e estruturado;
 Processo de captação de informação mais eficiente;
 Processo decisional mais rápido e preciso;
 Mais rápido e preciso reconhecimento dos padrões de jogo (sinais pertinentes);
 Superior conhecimento tático;
 Maior capacidade de antecipação dos eventos do jogo
e das respostas do oponente;
 Superior conhecimento das probabilidades situacionais (evolução
do jogo);
 Elevada taxa de sucesso na execução das técnicas durante o
jogo;
 Maior consistência e adaptabilidade nos padrões de movimento;
 Movimentos automatizados, executados com superior economia de esforço;
 Superior capacidade de detecção de erros e de correção de execução.

Estas informações nos permitem estabelecer um paralelo com aqueles que ironizam a
capacidade de um jogador assimilar instruções que eles próprios (jornalistas formados em curso
superior, por exemplo) não conseguem. Recorro a mais uma citação do professor Júlio Garganta
para que se compreenda essa diferença:

“O indivíduo que sabe jogar é um indivíduo conhecedor, não no que diz respeito a
conhecimentos acadêmicos, mas no que se refere a convenções interativas, nas quais saber
fazer, e saber quando fazer, são o mesmo saber.”
Com o desenvolvimento desta inteligência de jogo, através dos estímulos transmitidos em
elaborados treinamentos e demais meios de levar a informação ao grupo de atletas, os
jogadores precisam tomar as decisões certas durante a partida. Segundo Garganta, este aspecto
é um dos mais importantes para o êxito da equipe.

Como já foi dito, estes estímulos táticos de forma alguma agem no sentido de desconstruir a
criatividade. Pelo contrário, a técnica e a habilidade estão a serviço deste processo, auxiliando o
jogador a encontrar soluções favoráveis mesmo que em momentos imprevisíveis. Ou seja, até o
improviso pode ser treinador e estimulado, permitindo que o jogador tome boas decisões mesmo
frente a situações inesperadas. É como escreveu Garganta no longo trecho abaixo:

“Os comportamentos dos jogadores e das equipes, embora repousando sobre uma organização
sustentada numa isonomia de princípios (os mesmos princípios valem para todos) movem-se
entre dois pólos: o vínculo, ou seja, o estabelecido, as regras; e a possibilidade, a inovação. O
jogo existe, portanto, na confluência de uma dimensão mais previsível, induzida pelas leis e
princípios do jogo, com outra menos previsível, materializada a partir da autonomia dos
jogadores, que fomentam a diversidade e a singularidade dos acontecimentos, a partir do
confronto entre sistemas concorrentes, caracterizados pela alternância de circunstâncias de
ordem e desordem, estabilidade e instabilidade, uniformidade e variedade.”
Integrante das equipes multidisciplinares vinculadas às comissões técnicas, o setor de Análise
de Desempenho tem papel importante na difusão do conhecimento sobre o modelo de jogo do
próprio time e dos adversários, oferecendo conteúdo relevante aos jogadores. Com mais
informações, observando vídeos e recebendo feedbacks, ele consegue agregar mais elementos
para auxiliar nas tomadas de decisão, desenvolvendo seu entendimento sobre o jogo.

Garganta ressalta a importância não apenas dos treinamentos, mas como deste fluxo de
informação sobre o jogo, para incrementar o conhecimento e estimular os jogadores a tomar as
melhores decisões – de acordo com o modelo de jogo, em sintonia com os companheiros, nos
momentos e espaços certos, com execução técnica e em confronto com as vulnerabilidades do
oponente:

“Outra tendência que se perfila prende-se com o incremento da informação sobre a performance,
de modo a facilitar e a tornar mais eficaz a tomada de decisão sobre as táticas de jogo e os
modelos de preparação para os operacionalizar. Por isso, a análise dos comportamentos dos
jogadores e das equipas estende-se, cada vez mais, aos processos de treino, procurando-se
avaliar a efetividade de programas, no que respeita à respectiva congruência com as
ideias/conceitos de jogo que se pretende implementar.”
No futebol esta inteligência de jogo – fortemente vinculada ao entendimento do que se deve
fazer, como e quando fazer – foi durante muito tempo subestimada. No Brasil, em especial, o
senso comum ainda acredita que o jogo é um sucessão de aleatoriedades, e que cabe
exclusivamente ao instinto dos jogadores impulsioná-los à vitória. Mas em outros esportes
coletivos, com destaque para o futebol americano, a compreensão sobre a importância dos
treinos e da análise de desempenho para estabelecer um fluxo de informações e de estímulos
elaborados é enorme, e evidente.

É bastante comum nas transmissões da NFL percebermos à beira do campo, enquanto a equipe
ofensiva tenta marcar pontos, os jogadores de defesa analisando fotos impressas ou em tablets,
para identificar eventuais erros, pontos vulneráveis ou virtudes do adversário, e assim preparar-
se para tomar boas decisões.

Existem inclusive o termo “read option”, conceito aplicado fortemente nas ações ofensivas, mas
também nas defensivas, em jogadas que exigem dos jogadores leituras instantâneas do
comportamento adversário, para que a decisão seja tomada em uma fração de segundos sob o
cruzamento das duas ou três alternativas treinadas e previstas frente aos movimentos revelados
pelos oponentes.

Digo isso para citar, no desfecho deste capítulo, o treinador de futebol americano Howard
Schnellenberger, que também escreveu sobre inteligência de jogo e tomada de decisão nos
esportes coletivos:

“A tomada de decisão consiste na capacidade de tomar decisões rápidas e taticamente exatas,


constituindo uma das mais importantes capacidades do atleta. Ela determina muitas vezes o
sucesso dos jogos técnico-táticos e é frequentemente responsável pelas diferenças na
performance individual.“
11.Análise de jogo

Diversos pesquisadores, em especial na escola portuguesa, criaram métodos de análise dos


jogos de futebol, alguns vinculados a números de scout, com equações cruzando dados para
estabelecer diagnósticos. Não cabe aqui, entretanto, descrever estes métodos – alguns deles já
obsoletos, servindo apenas à curiosidade sobre a evolução do estudo científico do futebol, sem
aplicação útil na prática. Basta saber que é uma ciência em constante evolução, com grande
repertório/precedente bibliográfico.

Em resumo, a base da análise chega a um óbvio consenso: observar e anotar. É o que diz o
professor-doutor Júlio Garganta:

“Quando se pretende analisar o conteúdo de um jogo é necessário observá-lo, para anotar ou


registrar as informações consideradas pertinentes“.
Ou seja, não existe analista de melhores momentos. Se estiver com pressa, não faça. Ninguém
chega a conclusões em 10 minutos. É preciso assistir ao jogo completo – se a análise é
específica deste confronto – ou pelo menos entre dois a três jogos completos (quanto mais
melhor) para se reunir um bom volume de informações.

Por quê? Ora, porque já foi exaustivamente repetido que o mantra da análise de jogos
desportivos é “identificar padrões de comportamento“. Estes padrões, coletivos e individuais, em
todos os momentos de organização da equipe (ataque, defesa, transições e bolas paradas)
revelam as diretrizes do modelo de jogo, permitindo assim identificar e interpretar as ideias
aplicadas pelo técnico e sua comissão a partir dos treinamentos.
E em 10 minutos, com pressa, ninguém consegue uma amostragem suficiente para identificar
padrões. Analisar melhores momentos abre margem para erros de análise. Vale lembrar que
análise tática não é opinião, é informação. O analista, após exaustiva observação, anotação e
interpretação dos comportamentos e dados, reúne as informações relevantes e transmite (seja
no clube, seja na imprensa, seja nas redes sociais) ao seu público-alvo.

Não há espaço para o “eu acho”, e principalmente, não há espaço para o “eu prefiro”. Opinar
demais, achar demais, contamina a analise e a torna um artigo, impreciso. Além do vício pela
opinião, a pressa também provoca erros ao se confundir posicionamentos e movimentos.
Identificar as peças fora de lugar no sistema tático que compromete a análise dos movimentos.

Isto é um erro de informação, tomando o movimento pelo posicionamento. Recentemente vi um


time distribuído no 4-2-3-1 ser descrito como sistema de três zagueiros porque na saída de bola
um volante recuava para fazer o primeiro passe na linha dos defensores. Não eram três
zagueiros, mas sim uma linha defensiva de quatro jogadores, com – por vezes – o recuo de um
dos volantes para realizar a construção inicial, projetando assim os dois laterais ao mesmo
tempo no campo ofensivo. Movimento, por sinal, cada vez mais difundido para dar espaço e
tempo ao volante na saída de bola, saindo da pressão e organizando de frente para o campo
ofensivo.

Ainda segundo Garganta, “a análise do jogo permite interpretar a organização das equipes e das
ações que concorrem para a qualidade do jogo; planificar e organizar o treino; estabelecer
planos táticos adequados em função do adversário; e regular o treino“. Isto, claro, no âmbito dos
clubes. Na imprensa e na internet em geral (sites, blogs e redes sociais) serve para a difusão de
conhecimento, para o aprofundamento do debate, e para a veiculação de informações mais
qualificadas.
A anotação se dá, primariamente, com o velho papel e caneta. Durante muitos anos não assisti a
um único jogo sem ter o bloquinho e a esferográfica por perto. Vai observando, vai identificando,
vai colocando no papel – posicionamentos iniciais (configurando, na soma, o sistema tático)
movimentos que se repetem, sincronias e interações entre os jogadores, comportamentos
coletivos, de pequenos grupos ou individuais. Tudo vai para o papel. E, se a ideia é ilustrar o
texto com frames do jogo (ou com um vídeo editado), cabe anotar também os minutos de
incidência dos lances que chamaram atenção, para facilitar a prospecção futura das imagens.

Esta análise observacional e notacional pode ser quantitativa ou qualitativa. A quantitativa traz os
números de scout, é absolutamente precisa e objetiva, associada às ações técnicas individuais
na maior parte das vezes; já a qualitativa refere-se a comportamentos e movimentos, padrões
mais complexos e, portanto, mais ligados à análise coletiva, interpretativa.

O ideal é que ambas caminhem juntas. Assim como é impossível ser “comentarista de melhores
momentos”, também não é possível se analisar um jogo sem assistí-lo com base nos scouts, por
mais detalhados que eles sejam; no entanto, estes dados são importantes para endossar
comportamentos táticos identificados na observação das imagens, incrementando a análise e
explicando o porquê de movimentos se repetirem – ou o resultado da repetição destes
movimentos.

Mais recentemente, inúmeras empresas especializadas em análise de performance/desempenho


têm surgido no mundo oferecendo avançados serviços de vídeo e scouting. Boa parte delas já
entrega ao clube contratante uma “pré-análise”, cruzando os dados de scout com os
comportamentos táticos, o que facilita o trabalho do analista que pode dedicar seu tempo a
interpretar, realizar diagnósticos e transmitir à comissão as informações sem se ater a trabalhos
braçais como a prospecção dos dados de scout (chamada “medição) ou o corte de vídeos.
Posso citar pelo menos dois bastante difundidos entre os clubes brasileiros – o Wyscout e
o InStat Football.
Há ainda softwares que conciliam protocolos de scout e de edição de vídeo. Cada lance anotado
na medição gera um corte automático na linha do tempo do vídeo, o que pode ser feito
simultaneamente no jogo, separando assim – conforme os eventos listados no protocolo – os
lances por fundamento e por jogador, agilizando a busca pelas imagens. Algumas das empresas
de scouting geram documentos compatíveis com estes programas de vídeo, com o mesmo
propósito – cortar automaticamente o jogo separando eventos e jogadores em linhas do tempo
distintas. O mais conhecido – e muito disseminado no Brasil – para criar protocolos e cortar
vídeos desta forma é o Sportscode.
Outros softwares servem como organização e apresentação dos dados de scout. É preciso
abastecê-los com os scouts (produzidos pelo próprio clube ou contratados de uma empresa
terceirizada – posso citar as mundiais Opta e Squawka, ou a nacional Footstats) para que as
informações sejam mais rapidamente processadas, apresentando os números de forma clara e
permitindo diversos cruzamentos de dados para geração de planilhas customizadas conforme o
usuário deseja no momento, no chamado sistema de “cubo”- como faz a empresa alemã SAP,
entre muitos produtos que ela oferece.
Mais um serviço, avançado e bastante incipiente no futebol mundial – no Brasil, acredito que
apenas o Grêmio o utilize, desde o segundo semestre de 2015 – é a análise demétricas. Estas
métricas reúnem dados de scout em conjuntos que atendem a cálculos baseados em teorias
estatísticas aplicadas ao futebol.
Para isso, o scout deve ser extremamente complexo, confiável e preciso – inclusive no tempo
exato de execução de cada ação, além da coleta de desdobramentos de cada fundamento. A
cada passe, por exemplo, dizendo o autor e o receptor, a direção (para frente, para o lado, para
trás), a localização exata de ambos – autor e receptor – no campo (coordenadas X e Y), o
comprimento (em metros, definindo o que é curto, médio ou longo), o tipo (rasteiro, por cima, de
cabeça, etc) além do segundo exato de saída e de chegada da bola.

Estas métricas, conforme as demandas da comissão técnica, podem apresentar dados sobre os
quadrantes do campo onde a circulação de passes é mais rápida (ou mais lenta), onde é mais
precisa, onde é mais objetiva (passes para frente), assim como – aplicada a itens defensivos
como roubadas, interceptações, etc – pode ajudar a entender quanto tempo o time leva para
roubar a bola, qual o grau de eficiência nos “tackles” em cada quadrante…tudo isto aplicado à
própria equipe, e aos futuros adversários.

Este trabalho de métricas aponta tendências (padrões de comportamento, portanto), permitindo


fazer projeções amparadas em dados concretos. Na análise de determinado adversário, gerando
os cálculos de acordo com os scouts das partidas anteriores dele, é possível identificar
tendências ofensivas e defensivas, como por exemplo em qual quadrante a pressão defensiva é
menor, o que pode auxiliar a comissão técnica a encontrar caminhos mais vulneráveis.

Os matemáticos/estatísticos responsáveis pelo cálculo destas métricas podem ainda criar


parâmetros de rendimento – metas a ser atingidas pelo time a cada partida, com base no próprio
desempenho anterior e nos números alcançados pelos times de ponta no mundo. Cabe ao
analista, novamente, reunir estes dados precisos e objetivos, interpretá-los conforme o modelo
de jogo das equipes (a própria e os adversários) e apresentar diagnósticos à comissão sobre os
motivos táticos/comportamentais que levam àqueles números. Ligando os pontos entre este
parágrafo e o anterior, após assistir ao maior número possível de jogos, o analista encontra o
porquê da pressão mais baixa exercida pelo adversário em determinado quadrante (algum
comportamento individual e/ou coletivo determinante) – é o número incrementando e dando
subsídios à análise, à observação.
Além do mantra “identificar padrões de comportamento” – a análise de desempenho também
entoa o “futebol é a ocupação inteligente dos espaços relevantes“. Afinal, apenas um dos 22
jogadores pode ser o portador da bola, os outros precisam ocupar espaços em relação com os
companheiros e os oponentes, identificando a cada fração de segundo qual decisão está de
acordo com o modelo de jogo, frente a todas as possibilidades que se apresentam.
Diz Garganta: “estudos descritivos têm apontado que, na maior parte do tempo útil de jogo, tanto
o jogador quanto a equipe jogam sem ter a posse da bola. Dos noventa minutos regulamentares,
em média, um jogador e uma equipe passam, respectivamente, 97% e 50% do tempo sem a
bola“.
Para quem cursou jornalismo, e pretende realizar análises táticas, um bom caminho para se criar
um método é lembrar-se do famigerado lead (ou lide), que busca condensar na abertura das
matérias as respostas às seguintes perguntas: o quê?, quem?, aonde? quando?, como? e por
quê?
Segundo o professor Israel Teoldo Costa – um dos autores do fantástico livro “Para um futebol
jogado com ideias“- no artigo “Análise e avaliação do comportamento tático no futebol” todos
estes sistemas modernos de observação e análise de jogo procuram responder às seguintes
questões sobre as ações no jogo:

 quem executa a ação?


 qual ação é realizada?
 como a ação é realizada?
 que tipo de ação é realizada?
 onde a ação se realiza?
 quando a ação se realiza?
 qual é o resultado da ação?

Logicamente, estas perguntas precisam ser respondidas com base em critérios. Critérios
teóricos/científicos. Não se pode analisar um jogo, uma equipe ou um jogador, com base em
determinados conceitos, e na partida seguinte utilizar outras referências – correndo o risco de
criar diagnósticos diferentes para duas situações absolutamente iguais, ou vice-versa. Estudar,
adquirir conhecimento, praticar com base em critérios, e assim evoluir a ponto de conseguir
responder às questões relacionadas pelo professor Israel é fundamental.

Retorno às palavras do professor Israel para reforçar esta ideia na busca pela criação de um
método pessoal de análise que esteja de acordo com os conceitos teóricos, estabelecendo
critérios claros e cruzando as informações com o contexto de cada partida ou situação:

“Acrescenta-se a isso a necessidade de qualificar os dados quantitativos, ou seja, de avaliar as


ações no contexto em que elas ocorrem. A possibilidade de avaliar os dados decorrentes de uma
partida de acordo com o modelo de jogo da equipe e os conteúdos desenvolvidos nos
treinamentos oferece vantagem para a contextualização do desempenho, pois permite conhecer
as ações dos jogadores de acordo com um conjunto de referências que conferem ou que deixam
de dar sentido aos comportamentos adotados. Deste modo, é possível aceder à comparação
entre o desempenho ideal e o desempenho efetivo do jogador e da equipe“.
É preciso, portanto, conhecer os princípios de cada momento do jogo, e as ações táticas
requisitadas. Recomendo a leitura do livro já citado – “Para um futebol jogado com ideias” –
porque nele constam tabelas extremamente claras e completas sobre estas particularidades dos
momentos ofensivo, defensivo, transições e bolas paradas.
Por exemplo, ao analisar-se o momento ofensivo de uma equipe (sub-dividido nas fases de
construção, preparação, criação e finalização) um dos enfoques pode ser no princípio do
apoio (também chamado de cobertura ofensiva por outros autores). As ações táticas exigidas
pelo apoio são: aproximação dando linha de passe, criação de triângulos e superioridade
numérica. Desta forma, o analista pode diagnosticar se o portador da bola, nas fases de
preparação/criação, recebe ofertas de linhas de passe próximas, se a equipe cria triângulos (e
de que forma são estes triângulos, compostos por quem, em que parte do campo, etc.), e se
existe busca pela superioridade numérica no setor.
Quanto mais informações são reunidas a respeito de cada princípio de jogo referente a cada
momento – vocês podem revisá-los nos capítulos sobre Organização Ofensiva,Organização
Defensiva, Transição Ofensiva, Transição Defensiva e Bolas Paradas, com base nos estudos
publicados pelo professor Rodrigo Leitão – mais comportamentos são identificados e
interpretados, e mais diagnósticos são realizados.
Em geral, o analista iniciante prende-se demasiadamente ao posicionamento inicial (o sistema
tático, os numerozinhos). Também já fui assim, basta navegar nos meus blogs antigos. Desde
2008/09, quando criei o que se pode considerar o primeiro blog dedicado exclusivamente à
análise tática na grande imprensa (o Prancheta, que viria a se chamar Preleção, no clicRBS –
com os campinhos customizados), é possível acompanhar a evolução nas minhas análises,
amparada na aquisição de conhecimento – mais estudo, mais referências para se identificar
mais padrões e realizar mais diagnósticos, com maior complexidade. É uma profissão/prática
que logicamente exige essa constante atualização – muitas ideias novas ou reinterpretações de
antigas criam mais precedentes táticos para se incorporar ao repertório.

Além da ênfase nos sistemas, existe também a ânsia pela opinião, pelo “certo ou errado”, e pela
projeção (tentar adivinhar escalações e sistemas, e “sugerir” quais seriam os mais efetivos,
ignorando-se que o papel tudo aceita, que não existe certo ou errado no futebol, e que tudo pode
dar certo se for bem treinado e bem executado). O que, na imprensa e nas redes sociais,
movimenta mais a interatividade – mesmo que seja uma interatividade menos qualificada, por
vezes “raivosa” e folclórica. Análise superficial, opinião e predição, são problemas comuns que
vão se abandonando à medida que agrega-se mais conhecimento. Afinal, análise é informação.

Não é o caso, entretanto, de se subestimar a importância do sistema tático. Pelo contrário. Os


posicionamentos iniciais dos jogadores, que apresentam os “numerozinhos” com os quais se
descrevem os sistemas, são extremamente importantes. Afinal, para analisar movimentos, é
preciso saber de onde o jogador saiu. Ele vai do ponto A para o B. Se o analista ignora o ponto
A, prestando atenção apenas ao B, ele vai transmitir uma informação equivocada, e novamente
tomar o movimento pelo posicionamento.

Podemos pegar como exemplo para um rápido exercício de análise o Napoli que tem
apresentado excelentes atuações nesta temporada 2016. Na partida contra a Juventus (derrota
fora de casa por 1 a 0, perdendo também a liderança do Campeonato Italiano), a equipe partiu
do sistema tático 4-1-4-1. A informação é confirmada neste frame, com o posicionamento inicial
dos seis jogadores de ataque e meio-campo:

Seria suficiente escrever na imprensa ou na internet um texto sobre o Napoli apenas com este
frame? Seria. Na prática, superficialmente, identificado o posicionamento inicial o complemento
poderia vir de avaliações de desempenho individuais, contextos do jogo, leituras sobre
possibilidades (projeções de outros sistemas e/ou jogadores).

Mas, assistindo a todo o jogo, pode-se avançar para a identificação de comportamentos. Na fase
defensiva, por exemplo, o Napoli chamou a atenção pelas constantes subidas de pressão,
muitas vezes comandadas pelo 5-Allan, jogador que parte do lado direito do tripé de meio-
campo, “embretando” a Juventus em um canto lateral do campo defensivo:

Na imagem acima, é o 5-Allan quem comanda a subida de pressão, trazendo junto com ele seis
jogadores, todos com DIRECIONAMENTO para o lado da bola, com ênfase na pressão ao
portador e no fechamento das linhas de passe (ou com encaixes por trás do adversário, ou
tomando a frente e cortando a possibilidade de passar a bola), além de ESTREITAMENTO e
COMPACTAÇÃO DEFENSIVA. Vários princípios e sub-princípios.

Nota-se no frame do posicionamento inicial, e no frame abaixo, que muitas vezes é o passe para
trás que desencadeia esta subida de pressão do 5-Allan. Ele pressiona, na imagem abaixo, o 10-
Pogba, e assim que o portador faz o passe para trás ele segue A TRAJETÓRIA DA BOLA,
chegando junto com ela ao receptor do passe. O que força o adversário a continuar passando
para trás (recuo ao goleiro), e traz junto todos os demais jogadores para posicionar novamente a
primeira linha de pressão à frente da área da Juventus.

Mas o comportamento é coletivo, não individual. Em momento no qual o 5-Allan está fora de
lugar, é o primeiro volante – o 8-Jorginho – quem está mais à frente, acompanhando a subida do
extremo 7-Callejón, novamente DIRECIONANDO a Juventus a uma zona lateral no próprio
campo, sem opções a não ser errar, ceder a posse ou buscar a saída longa.

E para dar certo, este subida de pressão é acompanhada pela defesa, que sobe junto, como se
vê no frame abaixo – mantendo a COMPACTAÇÃO DEFENSIVA, o que diminui ainda mais as
opções de saída da Juventus. Neste lance, o atacante é acionado em bola longa e entra em
impedimento. Para jogar desta forma, destaca-se individualmente a velocidade dos jogadores de
defesa, em especial o zagueiro 26-Koulibaly. Além da rápida RECOMPOSIÇÃO das linhas no 4-
1-4-1 em bloco baixo assim que o adversário consegue sair da primeira pressão – quem subiu
retorna em velocidade para ocupar novamente o posicionamento inicial à frente da área.

Com a bola, outro padrão bastante identificável na fase de construção (a primeira das fases
ofensivas, um sinônimo para “saída de bola”) foi o recuo do meia-esquerda 17-Hamsik no
espaço entre o zagueiro 26-Koulibaly e o lateral-esquerdo 31-Ghoulam. Praticamente, uma
“saída de 3”, mas com o meia, não com o volante.

Desta forma, o meia 17-Hamsik – jogador móvel, com visão de jogo e qualidade de passe –
conquista tempo e espaço para organizar a saída de frente. A consequência deste recuo do
meia-esquerda na fase de construção, é a sincronia entre a projeção do lateral 31-Ghoulam
(atraindo a marcação e abrindo espaço para o 17-Hamsik entrar no campo defensivo) e a
flutuação do extremo 24-Insigne do lado para o centro – afinal, se o lateral avança em amplitude,
ele precisa sair do corredor e ocupar um espaço central entre-linhas.

Tudo isso na mesma fração de segundos, conforme se observa nos quatro frames abaixo. Afinal,
se aconteceu tantas vezes, não é acaso. É um padrão. Fruto de treinamento. Ao analista, cabe
observá-lo, anotá-lo, identificá-lo, contextualizá-lo e interpretá-lo, transmitindo ao seu público-
alvo (comissão ou audiência) conforme o objetivo de seu trabalho.
Este é um exemplo de comunicação no caso de análise para imprensa/internet/redes sociais.
Identificação de sistema, comportamentos, análise de contextos, diagnósticos, encadeados por
um “gancho” que justifique a abordagem desta pauta no momento – falando do Napoli, o gancho
é o desempenho de uma equipe capaz de rivalizar com a hegemonia recente da Juventus.
A apresentação do conteúdo varia pouco, dependendo da mídia (papel, tevê, blogs, sites, etc)
partirá de frames ou de trechos de vídeo, alterando a aparência conforme os softwares
empregados na edição. Para frames, pode-se usar desde o arcaico Paint, passando
pelo PowerPoint, pelo Photoshop, e até pelo Pré-Visualizador de imagens dosMac’s. Em vídeo
também, existem vários – desde o Video Maker quase artesanal, até Pinnacle
Studio, Premiere, Final Cut, até o vanguardista TOG Sports, que vemos nas emissoras de tevê
com o sistema de “tracking” – as edições “seguem” os jogadores em movimento.
Mas nos clubes é preciso produzir mais material, mais conteúdo, seguindo uma rotina – um
protocolo de tarefas e produtos-finais – para atender às demandas da diretoria, da comissão
técnica e dos jogadores. Também, é claro, utilizando-se destes softwares de edição de frames e
vídeos, criação de apresentações e transmissão de dados.

Tem sido muito comum a aquisição de softwares que combinem os processos de edição com os
de transmissão – o já citado Sportscode, por exemplo, permite que os jogadores, instalando
o Player do programa gratuitamente, recebam os vídeos diretamente em seus iPads. Sem isso,
mas no mesmo dispositivo móvel (iPad), a transmissão pode se dar por mp4 via iTunes. Os
velhos DVD’s e até os pen drives estão cada vez mais em desuso.
Outros caminhos são o “upload” via Dropbox e assemelhados, ou em sites como
oWeetransfer em caso de vídeos mais pesados. Recentemente o envio dos vídeos e demais
informações por Whatsapp – convertendo os vídeos para formatos até 16mb, o máximo
permitido pelo aplicativo – tornou-se uma excelente ferramenta. Assim, tanto comissão quanto
jogadores podem assistir a análises de adversários ou feedbacks da equipe diretamente em
seus celulares. Já os relatórios com os frames e descrições por escrito podem ser salvos
em pdf e enviados rapidamente por e-mail ou celular.
Saber comunicar também é essencial. Se, obviamente, carecer de conhecimento sobre teoria
tática inviabiliza o trabalho sério, não saber transmitir a informação também provoca inúmeros
problemas. Compreender o jogo e saber manipular o aparato técnico cada vez mais complexo
cria uma demanda não menos importante ao profissional da área: ser compreendido.

A mensagem precisa chegar de forma simples e objetiva, desde a escolha das melhores
imagens até a correção na linguagem e a clareza do conteúdo. Afinal, analisar também é
comunicar – a não ser que o consumo seja restrito ao próprio analista. Se você analisa para
alguém, precisa fazê-los compreender a mensagem, e a prerrogativa deste entendimento é do
emissor, nunca do receptor. O mesmo vale para jornalistas/blogueiros, o mesmo vale para
analistas de desempenho: conhecimento teórico, domínio das ferramentas, adaptabilidade frente
às constantes inovações (na teoria e nas ferramentas) e capacidade de se comunicar com
clareza e objetividade, entregando um produto de qualidade.
Gegenpressing

Popularizou-se com o modelo de jogo elaborado por Jürgen Klopp no Borussia Dortmund o
termo “gegenpressing” para caracterizar o momento de transição ataque-defesa no futebol de
alto nível. É um sinônimo em alemão para a palavra “counterpressing”, ambas significando para
nós brasileiros a “pressão sobre o contra-ataque adversário”. O contra-ataque do contra-ataque.

No capítulo 8 do e-book gratuito reescrito em posts neste blog já foi abordado o tema Transição
Defensiva, com os pormenores teóricos desta fase do jogo. Vale recordar, resumidamente, os
princípios desta fase – ou seja, as regras gerais que o treinador deve elaborar em seu modelo de
jogo para orientar os jogadores (condicionar a tomada de decisão) no momento em que há troca
de posse em favor do adversário.
Segundo o professor Rodrigo Leitão, os princípios estruturais dizem respeito a relação numérica
entre os jogadores que participam da ação ofensiva, e os jogadores que permanecem atrás da
linha da bola – em relação com os espaços no campo defensivo e com os adversários à frente
da linha da bola. São eles:

 Densidade Defensiva: confronta a quantidade de jogadores atrás da linha da bola (em


espera) com os adversários à frente da linha da bola, em geral buscando superioridade
defensiva;
 Balanço Defensivo: número de jogadores atrás da linha da bola na fase ofensiva, e a
maneira como eles estão distribuídos em campo;
 Proporção de Defesa: confronta, dentro do próprio time, quantos jogadores participam
ativamente da ação ofensiva, e quantos estão “em espera”.
Já os princípios organizacionais são as regras em si estipuladas aos jogadores – os
comportamentos que se pretende executar coletivamente no momento da perda da bola:

 Pressionar o portador da bola;


 Recompor (retornar);
 Manter a organização da estrutura.

Todos estes princípios são levados em consideração na “gegenpressing”. Esta transição


defensiva agressiva delimita o tempo necessário para se recuperar a posse exercendo imediata
pressão a partir da perda.
Em geral, as equipes trabalham com o tempo de 5 segundos: perdeu a bola, os jogadores
próximos seguem o plano e pressionam imediatamente; se, em 5 segundos a bola não foi
recuperada, muda-se o comportamento para recomposição e reorganização das linhas de
defesa, entrando em organização defensiva. No Grêmio trabalha-se com métricas (cálculos
matemáticos sobre scouts agrupados em princípios), e entre várias medições é monitorada a
REC 5 – exatamente a recuperação em 5 segundos (quantas vezes ocorre, em que quadrantes
do campo, com qual percentual de êxito, com quais jogadores) – tanto do Grêmio como dos
adversários.

O site spielverlagerung.de publicou há algum tempo um excelente artigo esmiuçando os


pormenores táticos elaborados pelos treinadores de ponta no desenvolvimento da transição
defensiva agressiva -> cliquem aqui.
No artigo, o autor enumera dois requisitos fundamentais para a execução da gegen – ou counter
– pressing, como diz o título do texto:

 Unidade Ofensiva: atacar de forma organizada, com movimentos sincronizados e jogo


posicional claro, mantém os jogadores próximos e permite uma reação coletiva no imediato
momento da perda da bola; é um pensamento que funciona “melhor” para os times que
valorizam a posse de bola e a circulação em triangulações em passes curtos.
O que me faz lembrar uma frase do técnico Roger Machado nos treinos do Grêmio: “quem tá
próximo para jogar, tá próximo para marcar“.
Ou seja, o mesmo grupo que articulava-se com aproximações em posse é o responsável por,
estando no centro de jogo (no raio de 9,15m ao redor da bola), pressionar os adversários para
a recuperação imediata da bola;

 Balanço Defensivo: como já foi dito, o número de jogadores atrás da linha da bola na fase de
organização ofensiva, e sua distribuição em campo (princípio que sustenta – dá segurança –
aos jogadores que estão no centro de jogo para que eles pressionem a bola);

 Eu tomo a liberdade ainda de acrescentar a Preparação Física. Afinal, é um princípio de jogo


que exige alto condicionamento dos jogadores, o que será alcançado apenas com
treinamentos em periodização tática que atendam à especificidade desta ação.
Thomas Tuchel, sucessor de Klopp, mantém esta “pegada” no Borussia. Pesquei um exemplo da
partida contra o próprio Liverpool de Klopp – empate em 1 a 1 na Alemanha, pela Liga Europa.
Vejamos:
O cronômetro marca 6’12” do 1º tempo. O meia 10-Mkhtaryan, pressionado por dois adversários,
perde a bola. Estão na periferia do centro de jogo os atacantes 11-Reus e 17-Aubameyang, e o
ala-extremo 37-Durm.

No cronômetro, vemos que passaram-se 4 segundos (dentro, portanto, do período de


“gegenpressing”). Notem que o Borussia agora tem 6 jogadores dentro do centro de jogo. As
setas demonstram que pelo menos quatro jogadores tiveram comportamento agressivo de
aproximação, tanto para pressionar o portador, como para marcar os dois alvos de passe
próximo à frente: tanto os atacantes 11-Reus e 17-Aubameyang, como o próprio 10-Mkhtaryan, e
além deles o volante 33-Weigl e o meia oposto 27-Castro (ambos estavam fora do vídeo na
primeira imagem), assim como as aproximações em cobertura do 37-Durm e do lateral-direito
26-Piszczek.

O que aconteceu? Em 4 segundos a partir da perda, o portador da bola “apavora-se” com a


pressão de 6 adversários e é induzido a tomar a decisão errada com a execução técnica errada:
faz o passe nos pés do 10-Mkhtaryan sem que tivesse sequer algum companheiro naquela
direção. Livrou-se da bola.
Mas estas regras – os princípios da transição defensiva agressiva – precisam também prever o
plano B: o que fazer após os 5 segundos se a recuperação da posse não ocorrer?

Além da equipe perguntar-se quando pressionar? e como pressionar? também precisa


perguntar-se (e ter respostas estabelecidas no plano de jogo, treinadas até condicionar o
comportamento coletivo dos jogadores) por quanto tempo pressionar? e quando parar de
pressionar? Times bem treinados têm ideias claras, e os jogadores são condicionados a tomar
decisões de acordo com o modelo, avaliando a cada fração de segundo qual comportamento
adotar.
Vejamos este exemplo do mesmo Borussia de Tuchel contra o Liverpool. Há neste lance uma
boa concentração de jogadores no centro de jogo e na periferia imediata a ele. Estão próximos
do 33-Weigl – que errou o passe e seguiu a trajetória da bola para pressionar imediatamente o
portador – outros 4 jogadores do Borussia (Castro, Schmelzer, Reus e Mkhtaryan).

Porém, observem o comportamento do lateral-direito 26-Piszczek. O cronômetro marca 42’40″do


1º tempo.

O portador da bola – parece-me o volante-meia 23-Emre Can – encontra a solução mais


indicada sob pressão por trás: jogar em um tempo. Ele faz o passe de primeira para o jogador
que se projeta (7-Milner, sinalizado com a linha vermelha), saindo imediatamente da pressão e
encontrando espaço para o receptor do passe progredir tendo ainda dois companheiros
próximos (14-Henderson e 10-Coutinho, ambos à esquerda de Milner).

Dois segundos depois (cronômetro do 42’42”) vejam qual foi a tomada de decisão de Piszczek:
ora, se não dá para pressionar coletivamente e estou em inferioridade numérica, subir o combate
abriria um espaço relevante às costas e induziria Milner a acionar Coutinho em velocidade e sem
marcação. O que faz o lateral-direito do Borussia?

Plano B: recua em velocidade a ponto de ignorar completamente a bola (vira-se de costas para o
portador, tendo como objetivo específico defender o espaço e reorganizar as linhas):
Nota-se que o volante 27-Castro também toma a mesma decisão. Fica evidente que ambos
“pensaram juntos”, avaliaram a situação sob a mesma perspectiva tática e, portanto, agiram
coletivamente. Uma demonstração de time bem treinado. Jogadores condicionados a ler cada
situação de acordo com os princípios do modelo de jogo em cada fase, e assim avaliando todas
as circunstâncias, tomar decisões que atendam a estas regras em sentido de unidade (todos
pensando da mesma forma, um antecipando a ação/reação do outro).

Na sequência do lance, os jogadores que garantiam o balanço defensivo (os dois zagueiros)
fazem a temporização (atrasam a jogada), dando tempo à recomposição dos jogadores que
retornaram em velocidade (comandados pela rápida mudança de comportamento do volante e
do lateral-direito) e em superioridade numérica, com os espaços ocupados de forma organizada,
o Borussia recupera a bola e estanca o contra-ataque.

O artigo apresenta três tipos de “gegenpressing” utilizados atualmente, sob a perspectiva da


cobertura na periferia do centro de jogo:

 encurtamento com encaixes individuais – pressão individual no portador e fechamento


individual das linhas de passe;
 ênfase na pressão ao portador (alvo é a bola);
 encurtamento com fechamento dos ângulos de passe (pressão ao portador e aproximação ao
centro de jogo dos demais jogadores, fazendo “sombra” à frente das linhas de passe
(colocando-se entre o portador e os alvos).

Todas estas regras variando conforme o objetivo, e podem até ser adaptadas ao modelo de jogo
adversário (estratégia, princípio específico). Em geral, as metas principais são roubar a bola,
isolar o portador, impedir ou atrasar a progressão – fazer recuar, induzir ao erro, bloquear o
corredor central – induzir à saída lateral, proteger espaços relevantes…e até mesmo,
dependendo da circunstância, parar a jogada (falta).

As vantagens apontadas para a transição defensiva agressiva – gegenpressing, counterpressing


ou REC 5, como queiram – são fundamentalmente três, todas elas interligadas:
 Estabilidade defensiva: hoje as equipes, em especial as de ponta, são exímias em
transições ofensivas. Apenas recuar e se reestruturar no momento da perda da bola dá a
adversários com jogadores de extrema qualidade técnica, velocidade, controle de bola,
qualidade de passe e capacidade de vitória pessoal no 1×1, tempo e espaço para progredir e
tomar decisões acertadas. A pressão imediata freia esta progressão, induz ao recuo ou ao
erro, e evita a exposição à velocidade e qualidade de extremos e atacantes decisivos;

 Evitar desorganização: quando se está atacando, os jogadores projetam-se e ocupam


espaços ofensivos. A perda da bola pode expor espaços relevantes no campo defensivo. Ao
mesmo tempo, quando o adversário recupera a bola, seus jogadores também se projetam, e
agora é ele quem tende a se expor. O que leva à terceira vantagem:

 Atacar: se o adversário, quando rouba a bola, entra em transição ofensiva e projeta seus
jogadores, a recuperação imediata da bola permite ao time aproveitar esta saída do bloco
rival, identificando e atacando espaços vulneráveis. O contra-ataque do contra-ataque. O que
se torna ainda mais vantajoso por ocorrer no campo ofensivo – próximo à zona de criação e
finalização.

Cabe aos treinadores elaborar planos claros para esta fase de jogo, estabelecendo as regras e
estimulando nos treinos específicos os jogadores a saber identificar/avaliar os momentos de
perda de bola para saber quando, como, onde, quem e para que pressionar a bola
imediatamente após a perda. Outro elemento importante, realizado no Grêmio, é o
monitoramento constante da métrica que mede este princípio (em nosso caso, a REC 5) para
saber o percentual de êxito, os locais do campo (e, portanto, os jogadores envolvidos), as
situações e os contextos onde ela foi realizada e funcionou – o que vai nortear os treinos
específicos e estabelecer metas de evolução.
Princípios Específicos do Jogo

No post com o capítulo 5 do e-book gratuito reescrito, sobre Organização Ofensiva, foi
apresentado um resumo do trabalho do professor-doutor Rodrigo Leitão sobre os princípios
operacionais e fundamentais do futebol na fase de posse de bola. No livro “Para um futebol
jogado com ideias” o também professor-doutor Israel Teoldo apresentou outra forma de agrupar
as mesmas ideias, em uma abordagem extremamente científica, profunda e elaborada.
Para Teoldo, existem quatro grandes grupos de princípios, descritos em seu livro. Além dos
operacionais e fundamentais, ele também fala dos gerais e dos específicos. E, dentro dos
fundamentais, condensa ideias que encontramos separadas no trabalho de Leitão.

No livro, inclusive, Teoldo nos oferece um quadro elucidativo sobre cada um dos três grupos de
princípios abrangentes – os gerais, os operacionais e os fundamentais:
Nota-se que, na comparação com o trabalho de Leitão, o número de princípios fundamentais da
fase ofensiva caiu de 7 para 5, assim como os da fase Defensiva caíram de 8 também para 5. O
que fomenta um debate entre os cientistas do esporte, beneficiando todos os interessados no
tema – em especial os profissionais da área – ao nos permitir a análise de abordagens diferentes
sobre ideias semelhantes, como eu já disse.
Ali no princípio “Espaço” na nomenclatura de Teoldo inserem-se, na prática, os conceitos de
“Amplitude” e “Profundidade” que estão individualizados no trabalho de Leitão, por exemplo.

Em resumo, para diversos autores, os princípios gerais são aqueles comuns aos demais
princípios (operacionais e fundamentais), assim como a todas as fases do jogo (com bola e sem
bola, assim como transições), referindo-se à constante busca pela superioridade numérica; os
princípios operacionais se relacionam a conceitos atitudinais nas duas fases maiores – impedir a
progressão e a finalização adversárias, e conquistar ao mesmo tempo progressão e finalização
contra o adversário; e os princípios fundamentais são conjuntos de regras que orientam as ações
táticas dos jogadores, conforme o planejamento estabelecido no modelo de jogo norteador do
trabalho.
Na prática, os princípios fundamentais são mesmo as “regras” para os jogadores executarem a
maneira de jogar pensada pelo técnico e sua comissão. Como conquistar a amplitude, de que
forma, por quem, em qual local do campo; como oferecer profundidade, onde, quando, por
quem…tudo conforme a posição da bola, dos companheiros e dos adversários, criando
referências para ocupação de espaços de forma inteligente e sincronizada, induzindo os atletas
a avaliar cada lance e escolher entre as alternativas apresentadas pelo contexto da jogada a
melhor decisão. E assim sucessivamente, formando uma unidade de pensamento.

Pode-se observar a análise de alguns destes princípios do Real Madrid, na fase ofensiva, no
vídeo produzido pelo Renato Rodrigues no Data ESPN:

https://youtu.be/I-GKx5RuA-Q
Mas, e os princípios específicos citados nos estudos de Teoldo? Bem, são as referências para
as ações dos adversários, dentro do modelo de jogo desenvolvido, mas com aplicação
obviamente específica naquela partida em questão. Dentro do plano macro o técnico faz ajustes
que buscam aproveitar-se de pontos vulneráveis do rival, assim como prevenir-se das virtudes
dele. Uma zona de pressão mais agressiva sem a bola, por exemplo, ou um local mais propício
para oferecer amplitude com a bola…

Ainda sem saber a autenticidade do documento, o jornal espanhol AS publicou uma imagem
atribuída ao técnico Zinedine Zidane, com o plano tático elaborado para o confronto com o
Barcelona. À mão, percebe-se a descrição dos princípios ESPECÍFICOS – as regras que os
jogadores devem aplicar especificamente nesta partida, em função das virtudes e
vulnerabilidades identificadas na análise prévia do adversário:
Entre dois temas-título (pressão alta sobre o tiro de meta adversário e bloco médio) Zidane
supostamente descreve como princípios específicos, escalonados conforme o Barcelona
progrida no campo – as seguintes regras (ações táticas):

 Fechar linhas de passe por dentro (e consequentemente, na sequência, pede que induzam o
Barça a jogar por fora no lateral) – ideia reiterada duas vezes
 Não permitir que Iniesta e Rakitic recebam – se receberem, que não girem
 Cuidar a “saída de 3” com Busquets construindo de frente
 Ajustar marcações conforme quem aborda (princípio de contenção, portanto) o lateral portador
da bola, enfatizando que Casemiro “afundaria” para a linha defensiva quando a contenção
fosse de lateral x lateral, fazendo o zagueiro do setor cobrir espaço fechando linha de passe
do extremo
 Ajustar marcações conforme Messi recuar para a construção
 Cuidar as diagonais de Suárez às costas da defesa quando a bola estiver em amplitude
 Cuidar a inferioridade numérica pelos lados em 1×2, principalmente no setor de Neymar
Sendo um manuscrito original de Zidane ou não, vale para exemplificar no que consiste os
princípios específicos do jogo, contextualizando informações dos princípios fundamentais com as
características do adversário.

A evolução dos sistemas híbridos

Tem sido tão grande e tão veloz a evolução tática no futebol que em poucos anos paradigmas
tidos por irreversíveis são quebrados. Aumentaram exponencialmente a produção de
conhecimento teórico e a aplicação prática destas inovações por treinadores extraclasse.
Também é cada vez mais farta a disseminação de tecnologias – hardware e software – para a
análise, aprofundando a interpretação de dados com mapeamentos ultra-detalhados,
quantitativos e principalmente qualitativos. Assim como os processos de treino acompanham
esta acelerada evolução. Um a reboque do outro, todos levando o futebol a um elevado grau de
excelência tática.

Há poucos anos o posicionamento inicial dos jogadores era determinante para se diagnosticar o
sistema tático das equipes. Reconhecer o estatuto posicional dos jogadores (a “soma” das
regiões do campo por eles ocupadas com as funções desempenhadas) bastava. Sem a bola,
todos voltavam para os posicionamentos de origem, formando um desenho claro e que poucas
variações proporcionava com a bola.
Segundo o português Júlio Garganta, em referência a este passado recente do qual falávamos,
“no futebol o conceito de sistema tem sido utilizado com um significado diverso. O que
frequentemente se designa por sistema de jogo ou sistema tático, e se descreve através de
siglas como 4-2-4, 4-3-3, 4-4-2, W.M, etc., restringe-se a um dispositivo, a uma distribuição
topológica dos jogadores pelo terreno de jogo, de acordo com o respectivo estatuto posicional“.
Entretanto, as equipes passaram a assumir formações quase distintas nas fases de posse e sem
a posse, impulsionadas – acredito – pela ênfase nas transições, em especial a partir da perda da
bola. E também, como já foi dito, pela união de treinadores-pensadores-inovadores com maior
produção de conhecimento, treinos de vanguarda e maior aparato tecnológico.

Começamos a ver José Mourinho “resolver” o problema defensivo dos pontos-cegos do 4-2-3-1
(a grande distância entre laterais e extremos, expondo os volantes e exigindo movimentos
coletivos de compensação) ao fazer o time jogar em 4-2-3-1, mas marcar em 4-4-2 com duas
linhas de quatro. Hoje, praticamente não há time partindo do 4-2-3-1 que não se defenda em
duas linhas de quatro.

Simultaneamente, vimos Guardiola – ainda no Barça, depois no Bayern – promover sensíveis


alterações estruturais na comparação entre a defesa posicional e o ataque posicional de suas
equipes. Partindo em geral de um 4-3-3 para se defender em 4-1-4-1 e para atacar em 2-3-5 (a
reinversão da pirâmide).

Deparamo-nos, então, com um dilema: como definir o sistema tático destas equipes? E, daí em
diante, para um reflexão ainda mais contundente: qual a relevância de se determinar um
sistema, um rótulo, se as equipes são cada vez mais híbridas?

Vejam este frame ofensivo do Borussia Dortmund do técnico Thomas Tuchel em confronto de
ida contra o Liverpool pela Liga Europa:

Aparentemente, podemos supôr que o Borussia atue no 4-4-2 losango (o 4-3-1-2). Weigl de
primeiro volante, Mktharyan de enganche, Reus e Aubameyang de atacantes, e pelos lados,
como “carrilleros”, Castro pela esquerda e Durm pela direita.

Vejam agora, entretanto, o comportamento do 37-Durm quando o Borussia está na fase


defensiva. E, em consequência, de seus demais companheiros de meio-campo:
Ele simplesmente entra na linha defensiva e age como um ala, enquanto Mkhtaryan sai do
centro para formar um tripé de contenção no corredor central, desenhando na prática o sistema
5-3-2. Ele guarda o setor, sem se expor ao combate, “segurando” na base enquanto espera o
meia se dirigir e fazer a abordagem ao portador.

No lado contrário, porém, o 27-Castro não descia à linha defensiva. Era o lateral Schmelzer
quem esperava para abordar pelo lado, enquanto o volante do setor mantinha-se na diagonal
para o centro. Uma basculação (balanço, direcionamento) em 5-3-2.

E agora? Dizemos que o Borussia partiu do 5-3-2, ou do 4-3-1-2? Ou pior: seria o frame da fase
ofensiva um “frame oportunista”, congelando a imagem em um momento pouco representativo
sobre o todo?

Voltemos à teoria, citando novamente Garganta:

“No futebol moderno mantém-se a denominação dos jogadores segundo o seu posicionamento
no terreno de jogo (defesa, médio, atacante). No entanto, esta nomenclatura, baseada na
posição ocupada pelo jogador no terreno, designa apenas o seu papel dominante, pois que,
dadas as exigências atuais do futebol, a atividade dos jogadores, ao longo do jogo, transcende
largamente o limite imposto por aquela denominação. Deste modo, cada vez mais se esbatem as
fronteiras entre os papéis de defensor, médio e avançado. A diferenciação de papéis e funções
não se realiza tanto a partir da participação, ou não, de determinados jogadores nas fases do
ataque e da defesa, mas sobretudo a partir das características dessa participação, face às
configurações particulares do jogo em determinados momentos e zonas do terreno“.
Em resumo, citando agora o francês Jean-François Grehaigne, autor de diversos livros sobre o
ensino do futebol e o estudo da tática:
“Conhecer o dispositivo não implica conhecer o modo como ele funciona“.
Isto remete à importância da análise de desempenho fixar-se cada vez mais em comportamentos
e interações, ou seja, interpretar dados e movimentos dentro de um contexto, identificando e
apontando tendências, sem o determinismo e o protagonismo do sistema inicial em si. Na
análise do Borussia, nesta partida específica, as formações de defesa (5-3-2) e de ataque (4-3-1-
2) são mais importantes do que a identificação de um ponto de conexão fixo entre elas. E, ainda
melhor, os comportamentos dos jogadores nestas fases, as interações entre eles, as sincronias
de movimentos, são o que mais importa.

Pois vejamos o papel do 37-Durm nesta partida. Além de defender na linha do lateral-direito
Piszcek, ele foi o grande responsável por garantir a amplitude máxima na fase ofensiva,
absolutamente aberto sobre a linha lateral, em profundidade. Nota-se que este comportamento
encontrou sincronia com o lateral-esquerdo Schmelzer – ambos oferecendo amplitude
simultânea em profundidade quando o Borussia ocupou o campo do Liverpool, deixando Castro
e Piszcek para o retorno/cobertura:

São duas imagens da fase ofensiva apresentando o mesmo comportamento – 37-Durm em


amplitude e profundidade pela direita, enquanto o lateral do setor está por trás. E, estando a bola
na direita, nos dois lances com Mkhtaryan articulando, a amplitude no lado oposto é concedida
pelo lateral Schmelzer. Um padrão, portanto.

Assim que vi esta partida lembrei de um trecho do livro Interting the Pyramid, no qual o jornalista
inglês Jonathan Wilson descreve o 4-4-2 que a Itália utilizou na conquista da Copa do Mundo de
1982 – em especial, derrotando o 4-4-2 em quadrado do Brasil de Telê Santana.
Provavelmente não foi esta a inspiração de Tuchel, mas notem como o papel do 37-Durm
assemelha-se ao desempenhado por Bruno Conti no modelo de jogo conhecido e imortalizado
pela alcunha “gioco all’italiana”. O diagrama que elaborei à época para o blog Preleção reproduz
o que foi exposto no livro:

Segundo Wilson, Conti desempenhava o papel de “tornante”, um jogador que ocupava toda a
faixa lateral do campo, seja na fase defensiva – recuando até o final – seja na ofensiva, como um
ponta. Era uma espécie de 4-4-2 “torto”, com um lateral apoiador na esquerda, um lateral-base
na direita, um zagueiro-líbero e um ponta-extremo-ala na direita. Complexo, o sistema estava em
declínio, e acabou com o título mundial.

Observado, compreendido, interpretado, contextualizado e descrito este comportamento do 37-


Durm, o sistema inicial do Borussia fica em segundo plano frente à complexidade de movimentos
que tornam a equipe híbrida. Para concluir, recorro novamente a trechos de textos do professor
Julio Garganta:

“Todavia, a identificação da tática com os ‘sistemas táticos’ tem feito com que a importância
atribuída aos designados sistemas de jogo seja sobrevalorizada“.
“Neste contexto, a organização das ações dos jogadores decorre de sistemas que não se
restringem a uma estrutura de base, ou seja, a uma repartição fixa das forças no terreno de jogo,
mas, pelo contrário, são configurados sobretudo a partir da evolução das funções. Importa,
sobretudo, valorizar o caráter organizacional do jogo, na medida em que é a organização que
produz a unidade global do sistema; é ela que transforma, produz, relaciona e mantém o
sistema, concedendo características distintas e próprias à totalidade sistêmica“.
“Uma equipa possui uma anatomia e uma fisionomia mutáveis, que se vão configurando à
medida que o jogo é urdido, sendo atravessada por formas e fluxos de energia e de matéria que
evoluem no espaço e no tempo, para produzir informação. De acordo com este entendimento, é
cada vez mais reconhecida a importância de se perspectivar o jogo como um confronto de
sistemas dinâmicos complexos“.
Com sistemas complexos e híbridos, importa considerar os posicionamentos iniciais e identificar
sistemas, mas sabedores destas transformações que as equipes cada vez mais apresentam na
comparação entre as fases de posse e sem posse. O que torna mais importante a identificação
dos comportamentos, das interações e dos movimentos.