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TEORIA LITERÁRIA y Para o crítico e

professor (em foto de


1982), a leitura
é fundamental para
se pensar a própria
obra literária

A literatura
como sistema
Alcance social da obra de Antonio Candido
foi além da universidade

Haroldo Ceravolo Sereza

E
m 7 de dezembro de 2015, o grupo da cultura hip hop. Para os poetas e es- como independentes de uma articulação
de trabalho que elaborou o tex- critores da periferia da cidade, o texto visível em um sistema”, escreveu Lajolo
to do Plano Municipal do Livro, em que Candido defende que “uma so- no texto “A leitura na Formação da lite-
Leitura, Literatura e Biblioteca ciedade justa pressupõe o respeito dos ratura brasileira de Antonio Candido”,
da cidade de São Paulo encaminhou ao direitos humanos, e a fruição da arte e da publicado em Antonio Candido (2003),
então prefeito Fernando Haddad uma literatura em todas as modalidades e em organizado por Jorge Ruedas de la Serna,
carta com a sugestão de que, na sanção todos os níveis é um direito inalienável” o último orientando do crítico.
da lei que instituiria o plano, já aprova- foi e permanece central para a construção Para Candido, a ideia de uma literatura
da na Câmara por unanimidade, fosse do movimento social em torno da leitura. que se possa chamar da brasileira exige,
realizada uma homenagem a Antonio A ideia da importância da leitura como necessariamente, a constituição desse
Candido (1918-2017). Na justificativa, o algo fundamental para se pensar a própria “sistema literário”, conceito central de
grupo afirmou que, “entre todos os gran- obra literária guarda raízes profundas no sua análise. É esse sistema que permite
des atributos intelectuais e de cidadania pensamento de Candido, sociólogo, críti- que uma série de textos seja entendida
que o professor Candido representa, é co literário e professor emérito da Uni- como literatura e como uma literatura
dele um dos textos basilares de defesa da versidade de São Paulo (USP). Docente da nacional. Os textos que consideramos
literatura como um direito inalienável”. Universidade Presbiteriana Mackenzie e “literários”, para ele, não nascem lite-
A homenagem acabou não ocorrendo, professora colaboradora na Universidade ratura: são os leitores que legitimam as
mas a carta do grupo revela o alcance so- Estadual de Campinas (Unicamp), ex- obras. Em “Os sete fôlegos de um livro”
cial da obra de Candido – morto em maio -orientanda de Candido, Marisa Lajolo (em Sequências brasileiras, de 1999), Ro-
deste ano – para além da universidade. A avalia que a leitura está “como um im- berto Schwarz aponta o ineditismo da
referência ao texto “O direito à literatura”, plícito” na obra mais lembrada do autor. obra: “A erudição segura, a atualização
de 1988, foi constante durante as plená- Formação da literatura brasileira, publi- teórica, a pesquisa volumosa, a exposição
rias de elaboração do plano e lembrado cada originalmente em 1959, “concebe a equilibrada e elegante, o juízo de gosto
numerosas vezes no momento de redação literatura como integração de autores, bem argumentado, tudo isso estava numa
pelo poeta Ruivo Lopes, representante no obras e público em um sistema articu- escala inédita entre nós”.
grupo de trabalho dos saraus, coletivos lado e não mais como uma pluralidade Uma das questões que Formação des-
literários que são, em boa medida, um aleatória – ainda que cronologicamente tacou é como tratar a literatura produzi-
dos desdobramentos atuais mais fortes próxima – de autores e obras, concebidos da no território brasileiro antes da cons-

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madalena schwartz / acervo instituto moreira salles

pESQUISA FAPESP 257  z  87


1

O crítico começou
a escrever na
imprensa em
revistas como Clima
tituição desse sistema. Para Candido, e no Suplemento
a palavra “formação” era central para Literário do Estadão 2

o recorte proposto. Não se tratava de


uma história da literatura (motivação
inicial do projeto), mas de uma análise na primeira metade do século XIX (...);
dos “momentos decisivos” da consti- é com os chamados árcades mineiros, as
tuição desse sistema literário, ou seja, o últimas academias e certos intelectuais
Arcadismo e o Romantismo. Para a pro- ilustrados, que surgem homens de letras
dução anterior ao Arcadismo, Candido formando conjuntos orgânicos e mani-
utiliza o termo “manifestações literá- festando em graus variáveis a vontade
rias”. O argumento do autor é que falta de fazer literatura brasileira” (grifo dele).
à produção anterior uma continuidade
entre as gerações de escritores. Definin- Sequestro do Barroco
do seu trabalho, ele explicou, no livro, Numa provocação que rendeu debate
que buscou “averiguar quando e como intenso, o crítico, poeta e professor Ha-
se definiu uma continuidade ininter- roldo de Campos (1929-2003) falou em
rupta de obras e autores, cientes quase “sequestro do Barroco” por Candido –
sempre de integrarem um processo de ou seja, essa ideia de literatura elimina-
formação literária”. E completou: “Salvo Candido em ria obras de grande qualidade literária,
melhor juízo, sempre provável em tais anfiteatro da USP, como os escritos atribuídos a Gregório
em 2009:
casos, isto ocorre a partir de meados do de Mattos (1636-1696). Essa poesia, em
interesse por
século XVIII, adquirindo plena nitidez questões sociais que pesem suas qualidades, teria ficado
alijada da história literária. “Estamos,
pois, diante de um verdadeiro paradoxo
borgiano, já que à ‘questão da origem’ se
soma a da identidade ou pseudoidenti-
dade de um autor ‘patronímico’. Um dos
maiores poetas brasileiros anteriores à
Modernidade, aquele cuja existência é
justamente mais fundamental para que
possamos coexistir com ela e nos sen-
tirmos legatários de uma tradição viva,
parece não ter existido literariamen-
te ‘em perspectiva histórica’”, escreveu
Campos em O sequestro do Barroco na
formação da literatura brasileira: O caso
de Gregório de Mattos (1989).
Candido, para Campos (que foi seu
orientando no doutorado), reforçava um
caráter nacionalista da crítica literária
brasileira. A argumentação de Candido
3 retomaria uma questão histórica do de-

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bate literário brasileiro, a questão do ca-
ráter nacional, o que conduziria à exclu-
são da produção anterior ao movimento
literário ligado à luta pela independência
do país. O argumento foi rebatido por
Schwarz no texto já citado, que apontou
o internacionalismo das ideias de Candi-
do – o que não o impediria de perceber a
relevância da constituição de um espaço
literário nacional.
Formação “se encerra” na década de
1880, com os projetos realistas dominan-
do a cena literária. Machado de Assis é
capaz de dar um salto estético porque já
há uma produção e circulação de obras
e leituras que permitem a reelaboração
dessa tradição. E os escritores naturalis-
tas já contam com uma rede de leitores,
críticos e publicações que dão uma espé- 4 5

cie de vida própria à produção literária. Machado de Assis (acima)


A ideia de sistema de Candido está e o poeta barroco Gregório de
Mattos (frontispício de seu livro
intimamente ligada à sua formação so- destaca que Candido trabalhava com a
de 1775, à dir.) foram objeto de
ciológica – seu doutorado na área resul- debate entre os críticos noção de “forma objetiva”: o artista seria
tou na publicação de Os parceiros do Rio aquele capaz de transformar o externo,
Bonito (1964) – e à atuação como pro- ou seja, o contexto sócio-histórico, em
fessor de Sociologia 2 nos anos 1940, na algo interno. Para Cevasco, não há uma
USP, época em que começou a elaborar o obras, ainda assim estamos diante do so- redução, em Candido, da forma ao con-
projeto de Formação e quando escreveu ciólogo que tudo enxerga desde o nexo siderar esse contexto; pelo contrário,
a tese de livre-docência “Introdução ao entre literatura e sociedade”, observa redutor seria pensar a literatura como
método crítico de Silvio Romero” (1945). Leda Tenório da Motta, autora de Sobre algo independente desse contexto. “A
Pedro Dolabela Chagas, professor de a crítica literária brasileira no último meio linguagem é ela mesma social.”
teoria literária da Universidade Federal século (2002), professora do Programa Valentim Facioli, professor aposenta-
do Paraná, afirma que o impacto do re- de Comunicação e Semiótica da Ponti- do do Departamento de Letras Clássicas
corte sociológico de Candido levou ao fícia Universidade Católica de São Paulo e Vernáculas da Faculdade de Filosofia,
surgimento de leituras de cunho metafó- (PUC-SP) e estudiosa das novas críticas. Letras e Ciências Humanas da Univer-
rico e alegórico da obra literária, dando sidade de São Paulo (FFLCH-USP), nu-
fotos 1 eduardo cesar 2 arquivo estadão  3 Luiz Carlos Marauskas / FolhaPress  4 e 5 wikimedia commons

preferência à narrativa e não à poesia. Linguagem social ma análise próxima da feita por Roberto
Essa seria uma das razões da difícil inter- Tenório da Mota faz referência a dois Schwarz, vê Candido como alguém que
locução com os recortes propostos pelo textos incluídos no celebrado livro O escreve num momento em que o sistema
grupo de Haroldo e Augusto de Campos, discurso e a cidade (1993), que discu- literário descrito em Formação está em
em que a poesia tem centralidade. Um tem romances de recorte realista. “Não crise, mas ainda preserva alguma força.
dos legados de Candido, para Chagas, há denominador comum possível entre “Candido escreve muito antes da disper-
seria a do trabalho exaustivo de pesqui- esse enfoque e as leituras formais dos são do sistema atual: hoje, o sistema lite-
sa, a ideia de que não se pode construir representantes da outra corrente que, rário tornou-se orgânico nas universida-
uma história literária apenas com os lei- estes sim, leem linguagem”, diz ela se des; fora delas, morreu”, avalia. Candido
tores e escritores excepcionais: para ele, referindo ao grupo da Noigandres. Para a começou a escrever em revistas como
é preciso pesquisar os textos críticos e professora, o legado de Candido foi “uma Clima, em jornais e participou da edição
a produção literária “menores” para en- história da literatura brasileira com co- de suplementos literários, como o de O
tender, inclusive, os grandes autores. meço, meio e fim, o fim sendo o moder- Estado de S. Paulo, quando a literatura
A relevância da história e da sociologia nismo paulista, mais do que o advento ainda era, de algum modo, uma ques-
na análise de Candido é um dos alicerces do realismo machadiano”. A leitura da tão quotidiana de leitores não especia-
da rejeição de Campos e dos críticos li- obra de Candido por Tenório da Motta lizados. Ele seria, assim, um dos autores
gados à revista Noigandres à ideia de sis- extrapola Formação e inclui a forte liga- que marcam essa passagem, deixando de
tema literário. “Mesmo quando se sabe ção com as ideias do movimento literário publicar regularmente em jornais e pas-
que há um Antonio Candido posterior de 1922, especialmente com as posições sando a fazer circular seus ensaios mais
[à Formação], o dos chamados ensaios de Mário de Andrade. relevantes nos anos 1980 e 1990 inicial-
‘definitivos’, como ‘Dialética da malan- Essa posição é contestada por Ma- mente em revistas acadêmicas e depois
dragem’ e ‘De cortiço a cortiço’, que se ria Elisa Cevasco, do Departamento de em livros, não mais em publicações vol-
voltam para uma certa leitura formal das Letras Modernas da FFLCH-USP. Ela tadas para o público geral. n

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