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FICÇÃO BRASILEIRA – 1ª PARTE

SÉCULO XIX- NATURALISMO

Aluísio Azevedo Adolfo Caminha

Profª: Cristina Prates

Universidade Veiga de Almeida


1° semestre de 2019
2

Realismo / Naturalismo

“O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; - o Realismo é a
anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos - para condenar o que
houve de mal na nossa sociedade.”
Eça de Queirós

CONTEXTO HISTÓRICO

▪ Segunda metade do séc. XIX - 1850/1900;


▪ Segunda Revolução Industrial;
▪ Desenvolvimento Ciência: questionamento da mentalidade burguesa, idealista e cristã;

CORRENTES CIENTÍFICAS INFLUENTES

▪ Positivismo: Curso Filosofia Positiva, Augusto Comte, 1842.


▪ Socialismo: Manifesto Comunista, Marx e Engels – 1848.
▪ Evolucionismo: Origem das Espécies, Charles Darwin; 1859.
▪ Determinismo: Filosofia da Arte, Hipólito Taine 1869.
▪ Anticlericalismo: “A vida de Jesus, Joseph Renan, 1863.
▪ Filosofia: Pessimismo, Schopenhauer.

CARACTERÍSTICAS REALISTAS

▪ Privilégio da Realidade Objetiva: Exatidão: documentação da realidade, verossimilhança;


▪ Detalhismo: importância das minúcias; Descritivismo: descrição “científica”;
▪ Privilégio da literatura em prosa: literatura documental;
▪ Narrador terceira pessoa, onisciente:; postura “científica” do observador; neutralidade; explicação lógica,
científica, para o comportamento do ser humano;
▪ Análise do comportamento; personagem esférica; dinamismo: variação de qualidades e tendências;
complexidade: verossimilhança; profundidade psicológica: investigação dos motivos das ações humanas;
▪ Prioridade dos sentidos; predomínio das sensações; problematização da sexualidade:“sexualização” do amor;
Temas polêmicos: adultério, celibato, homossexualismo [objetivo científico];
▪ Temática contemporânea: romance analítico: observação e análise da realidade; temas contemporâneos;
questionamento filosófico da existência e do ser humano;
▪ Crítica social: Crítica social [mazelas da burguesia e do clero, questões sociais etc.]; questionamento da
existência e do ser humano [sentido filosófico];
▪ Influência científica: cientificismo:aplicação de conceitos filosóficos materialistas e cientificistas à obra; visão
pessimista da realidade: tragicidade [“final infeliz”].

CARACTERÍSTICAS NATURALISTAS

▪ Influência das teorias do final do século XIX:

Evolucionismo: Charles Darwin (1809 – 1882) – teoria científica que mostra o processo de
evolução das espécies a partir da seleção natural, ou seja, diz que apenas “os fortes”, aqueles que têm
condições de adaptar as adversidades, têm condição de sobreviver. Darwin, em sua obra Origem da
Espécies (1859), questiona as teorias religiosas sobre a criação, pois o homem não seria fruto do divino,
mas da própria evolução das espécies.

•Darwinismo social: Herbert Spencer (1820-1903) foi um filosofo e sociólogo inglês,


responsável pela teoria do darwinismo social. Tentou aplicar as ideias de Darwin ao contexto da vida
do homem em sociedade. Dentro deste contexto, Spencer aplicou a lei do mais forte às estruturas sociais.
Chegou à conclusão de que a seleção natural se aplicaria à sociedade quando pensada em termos de
cooperação entre indivíduos em prol da supremacia de um grupo. Assim, não se trata somente do
indivíduo mais forte prosperar, mas do grupo mais coeso e forte tornar-se hegemônico, formando a elite
dirigente de uma civilização.
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•Determinismo: Hippolyte Taine (1828 – 1893) – teoria que defende que o comportamento
humano é determinado por três fatores: o meio, a raça, e o momento histórico.

• Positivismo: Auguste Comte (1798 – 1857) – teoria científica que defende posturas
exclusivamente materialistas e limita o conhecimento das coisas apenas quando estas podem ser provadas
cientificamente. A realidade é apenas aquilo que vemos, pegamos e podemos explicar.

• Socialismo Científico de Karl Marx (1818 – 1883) e Friederich Engels (1820 – 1895) –
teoria científica que estimula as lutas de classe e a organização política do proletariado. É uma resposta da
exploração do operário nas indústrias e nos grandes centros urbanos. Nessa teoria, Marx e Engels
mostram o quanto o aspecto social está vinculado ao processo econômico e político.

▪ Positivismo radical: análise do comportamento humano à luz das teorias científicas;


▪ Materialismo: concepção biológica da realidade humana (instinto); Mecanicismo: homem produto de leis
biológicas;
▪ Exploração da miséria humana: vulgaridade, sordidez: aspectos grotescos degradantes da condição humana;
Exploração da anormalidade: degeneração física e moral;
▪ Crítica social ferrenha: análise da estrutura da sociedade; ênfase nos marginalizados;
▪ Temática polêmica: patologia humana e social; Miséria; criminalidade; desequilíbrio psíquico; desvios da
sexualidade;

REALISMO-NATURALISMO – QUADRO COMPARATIVO

REALISMO NATURALISMO
Origem: França, com Madame Bovary, de Gustave Flaubert Origem: França, com Thérèse Raquim, Émile Zola
(1857); (1867);
Romance experimental, apoiado na experimentação
Romance documental, apoiado na observação e análise.
científica.
Acumula documentos, fotografa a realidade, para dar Imagina experiências que remetem a conclusões que
impressão de vida real. seriam impossíveis apenas pela observação.
Arte engajada, de denúncia; possui preocupações
Arte desinteressada, impassibilidade.
políticas e sociais.
Detém-se nos aspectos mais torpes e degradantes da
Seleciona os temas, tem aspirações estéticas, busca o “Belo”.
realidade.
Reproduz a realidade exterior e interior através da análise Centra-se nos aspectos exteriores: atos, gestos,
psicológica. ambientes.
Volta-se para a psicologia, para o indivíduo. Prefere a biologia, a patologia, centra-se no social.
Retrata e critica as classes dominantes, a alta burguesia Espelha as camadas inferiores, o proletariado, os
urbana. marginalizados.
É direto na interpretação; expõem conclusões, cabendo
É indireto na interpretação; o leitor tira as suas conclusões.
ao leitor aceitá-las ou discuti-las.
O estilo é relegado a segundo plano. Em primeiro
Grande preocupação com o estilo.
plano a está denúncia.
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O Cortiço. Aluísio Azevedo

O naturalismo brasileiro contou com alguns representantes notáveis, Adolfo Caminha, Inglês de Souza, Júlio Ribeiro
e Aluísio Azevedo. Esse último, com certeza, foi um dos expoentes do movimento Naturalista brasileiro. Influenciado
pelo francês Émile Zola, Azevedo escreveu uma tríade de obras marcante que é composta por O mulato, Casa de
pensão e O cortiço.

Aluísio Azevedo (1857- Maranhão -1913- Buenos Características:


Aires) ▪ Influência de Eça de Queirós e de Émile Zola;
▪ Aproximação com o falar português repleto de
▪ Primeiro escritor profissional do Brasil; arcaísmos e lusitanismos com diálogos rápidos e
▪ Escreveu: folhetins romanescos, contos, teatro, precisos;
crônicas e romances naturalistas; ▪ Vocabulário patológico e apego ao pormenor
▪ Obra heterogênea: do Romantismo ao Naturalismo; pitoresco;
▪ Vertente social e urbana do Naturalismo; ▪ Cuidado descritivo com valorização sensorial;
▪ Visão determinista: Meio, Raça e Momento ▪ Técnica do pintor e caricaturista;
▪ O melhor prosador naturalista brasileiro; ▪ Retratos de “tipos” sociais e descrições sugestivas;
Principais Romances ▪ Preferência por retratos de habitações coletivas e o
O Mulato – 1881; Casa de Pensão– 1884; O Cortiço seu cotidiano;
– 1890 ▪ Personagens psicologicamente superficiais
dada à influência determinista (os personagens são
vistos de fora e orientados pelas “leis naturais”);
Temática ▪ Romance de tese: a utilização da narrativa como
▪ Preconceito racial; laboratório em que se testa, mediante recursos
▪ Crítica à hipocrisia da vida provinciana; literários, o procedimento análogo a de um cientista,
▪ Anticlericalismo; próprio de um romance de tese, como apresentado
▪ A força do SEXO (determinismo biológico); por Émile Zola, em sua obra O Romance
▪ A devoração do homem pelo próprio homem Experimental (1979). O método desenvolvido pelo
(espécie de “seleção natural”); escritor francês era baseado na obra do médico
▪ Zoomorfização agressiva; Claude Bernard. Sua aplicação no romance consistia
▪ Homossexualismo, adultério, violência urbana em, basicamente, recolher os dados da realidade
▪ Degradação do ser humano; as patologias (observação) e com as informações em mãos,
▪ Denúncia das dificuldades enfrentadas pelas classes valendo-se das teorias cientificistas, testar os dados
sociais menos privilegiadas, sendo considerado o na construção do romance.
primeiro romancista de massas da literatura ▪ Importância de suas habilidades como desenhista e
brasileira. pintor na construção de seus personagens: “Quando
escrevo pinto mentalmente. Primeiro desenho meus
romances. Depois, redijo-os.”

➢ De acordo com Flora Sussekind, no seu livro Tal Brasil, qual romance (1984)1, apresentando-se como
escrita do real, o naturalismo pressupõe uma linguagem transparente, invisível, capaz de deixar ver o
"mundo", a "história", a "verdade". Menos que um conjunto de procedimentos, o naturalismo e os outros
realismos seriam "ideologias estéticas" que surgiram no Ocidente no bojo de transformações sociais e
econômicas.

➢ Como demonstra a ensaísta, no texto literário da época, abriu- se um espaço para a linguagem científica,
com sua pretensa exatidão. Essa novidade obedece à tentativa dos escritores naturalistas de aproximarem sua
linguagem daquela em pregada pelos cientistas. Por isso, nesses romances ocorrem inúmeras referências à
fisiologia humana, a doenças - principalmente as mentais -, a assuntos da medicina em geral, incluindo-se
casos de histeria, de temperamentos patológicos, as mais diversas doenças, os aspectos instintivos do
homem, as tendências à morbidez, à criminalidade, aos vícios, e, sobretudo, à sexualidade.

➢ Assim, os realismos surgem como esforços estéticos e ideológicos de unificação de realidades


fragmentadas, lançando mão, para isso, do estabelecimento de nexos causais, por exemplo entre o homem

1
SUSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance.? Uma ideologia estética e sua história: o naturalismo. Rio de Janeiro:
Achiamé, 1984.
5
e o meio ou as transformações econômicas. Analisando três momentos dessa tradição no Brasil (do final
do séc. XIX ao final do séc., passando pelo romance regionalista de 30), Sussekind conclui que

A moldura naturalista é estreita. Nela não cabem fragmentos. Nela não há lugar para
dúvidas ou divisões. A imagem naturalista reconstitui com minúcia microscópica uma
identidade fraturada e tenta revigorar seios-enfraquecidos de uma América-Iracema que
procura repetidamente, senão reviver, ao menos retratar. Sob a forma de estudos de
temperamento, dos ciclos, dos romances-reportagem. E com o auxílio de lentes tomadas de
empréstimo ora à ciência natural, ora às ciências sociais, ora às ciências da comunicação.
Lentes meio mágicas que tiram do fundo falso de uma cartola estético-ideológica
identidades que não se possuem, e as trilhas de uma viagem impossível em direção à utopia.
(1984, p.198)

➢Romances naturalistas como romances documentais: segundo Sussekind, ocorreram, pois, três grandes “surtos”
naturalistas: o da década de 1890, de linhagem positivista e cientificista, em forma de “estudos de temperamento”, que
responde ao impacto sobretudo das obras de Emile Zola e Eça de Queiroz, com Aluísio Azevedo à frente no Brasil; o da
década de 1930, do chamado “romance social” de Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Graciliano
Ramos, em forma de “ciclos romanescos memorialistas”; e o da década de 1970, em que a prática de um (in)certo
jornalismo literário ou “romance-reportagem”, entre o denuncismo e as páginas policiais, passaria a dar a chave para os
usos da ficção, com destaque aos nomes de João Antônio, José Louzeiro e Aguinaldo Silva, romancistas da “realidade”
brasileira em tempos de predominância dos meios de comunicação de massa – dos quais o último é, significativamente,
um frequentador bem-sucedido como roteirista de telenovelas.

O cortiço, Aluísio Azevedo.


Observações a partir do ensaio “De cortiço a cortiço”, Antonio Candido2

Resumo

O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é claramente inspirado em L'Assomoir, de Émile Zola, do qual toma de
empréstimo a ideia de descrever a vida do trabalhador pobre no quadro de um cortiço; é, portanto, um texto
segundo. Mas é também, noutro sentido, texto primeiro, já que reproduz e interpreta o meio que cerca o
autor: o cortiço é o Brasil em escorço. Antonio Candido procura esclarecer como, em país subdesenvolvido,
a elaboração de um mundo ficcional coerente sofre, ao mesmo tempo, a influência dos textos feitos nos
países centrais e a solicitação da realidade natural e social imediata.

1. Diferenciação e indiferenciação (p.112)

Influências da obra de Emile Zola

•Influências do romance: L’assommoir, (A taberna) de Emile Zola: não apenas uma cópia, mas uma recriação, que
parte da realidade brasileira.

“Como L 'Assommoir, O Cortiço narra histórias de trabalhadores pobres, alguns miseráveis,


amontoados numa habitação coletiva. Como lá, um elemento central da narrativa é a
degradação motivada pela promiscuidade. Lá, agravada pelo álcool; aqui, também pelo
sexo e a violência. O Cortiço é tematicamente mais variado, porque Aluísio concentrou no
mesmo livro uma série de problemas e ousadias que Zola dispersou entre os vários
romances da sua obra cíclica.”

•Eixo da narrativa: Explorado e explorador: A originalidade do romance de Aluísio está nessa coexistência
íntima do explorado e do explorador,

•Regime da escravidão, que acarretava não apenas contato, mas exploração direta e predatória do trabalho muscular.

Exploração brutal do trabalho servil, da renda imobiliária arrancada do pobre, da usura e até do roubo puro e simples,
constituindo o que se poderia qualificar de primitivismo econômico:

2CANDIDO, Antonio. “De cortiço a cortiço”. In: O discurso e a cidade. São Paulo. Duas Cidades: 1993, p.123-152.
Novos Estudos CEBRAP Nº 30, julho de 1991 pp.111-129. Disponível em: http://novosestudos.uol.com.br/produto/edicao-30/
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O Cortiço narra com efeito a ascensão do taverneiro português João Romão, começando
pela exploração de uma escrava fugida que usou como amante e besta de carga, fingindo tê-
la alforriado, e que se mata quando ele a vai devolver ao dono, pois, uma vez enriquecido,
precisa liquidar os hábitos do passado para assumir as marcas da posição nova. Mas a
verdadeira matéria-prima do seu êxito é o cortiço, do qual tira um máximo de lucro sob a
forma de aluguéis e venda de gêneros.

•Ao lado da habitação coletiva dos pobres o sobrado dos ricos, meta visada pelo esforço de João Romão.

2. Uma língua do pê (p. 114)

• Equiparação do homem ao animal, entendendo-se (e aí está a chave) que não é o homem na integridade do seu ser,
mas o homem=trabalhador.

Século XVIII: "No Brasil, costumam dizer que para o escravo são necessários três P.P.P., a saber, Pau, Pão
e Pano" (Antonil)

Século XIX: "Para português, negro e burro, três pês: pão para comer, pano para vestir, pau para trabalhar”

Nivelamento do português ao escravo: de tamanco e camisa de meia, trabalhava como um burro

João Romão, que seria ironizado pela brasileira livre, que não se submetia ao trabalho, acaba, ao final, dando a volta
por cima, pronto para ser Comendador ou Visconde. : ascetismo inicial e a aceitação de modalidades diretas e brutais de
exploração, incluindo o furto como forma de ganho e a transformação da mulher escrava em companheira-máquina

Essa acumulação assume para o romancista a forma odiosa da exploração do nacional pelo estrangeiro,

Nacionalismo e xenofobia: N 'O Cortiço há pouco sentimento de injustiça social e nenhum da exploração de classe,
mas nacionalismo e xenofobia, ataque ao abuso do imigrante "que vem tirar o nosso sangue". Daí a presença duma
espécie de luta de raças e nacionalidades, num romance que não questiona os fundamentos da ordem.

Relação com o meio:

1. português que chega e vence o


2. português que chega e é vencido pelo MEIO

3. brasileiro explorado e adaptado ao

3. A verdade dos pês (p. 116)

Sentimento do brasileiro branco livre em relação ao português e ao negro:


Rejeição ao escravo e ao português: “eu, brasileiro nato, livre, branco, não posso me confundir com o homem de
trabalho bruto, que é escravo e de outra cor; e odeio o português, que trabalha como ele e acaba mais rico e mais
importante do que eu, sendo além disso mais branco. Quanto mais ruidosamente eu proclamar os meus débeis
privilégios, mais possibilidades terei de ser considerado branco, gente bem, candidato viável aos benefícios que a
Sociedade e o Estado devem reservar aos seus prediletos”.

Os portugueses:
• Comendador Miranda: morador no sobrado vizinho do cortiço
•João Romão: labutando no cortiço e, olhando para o sobrado e lá chegando
• Jerônimo e outros, que seguem os impulsos, nivelam-se aos da terra e perdem a vez.

Os negros/mestiços:
Capoeira Firmo, Rita Baiana, a arraia miúda dos cortiços, que mesmo quando etnicamente branca é socialmente
negra
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Animal:
Redução biológica do Naturalismo vê todos, brancos e negros, como animais. E sobretudo que a descrição das
relações de trabalho revela um nível mais grave de animalização, que transcende essa redução naturalista, pois é a
própria redução do homem à condição de besta de carga, explorada para formar o capital dos outros.

Três Pês: primeiro, o explorador capitalista; segundo o trabalhador reduzido a escravo; terceiro, o homem
socialmente alienado, rebaixado ao nível do animal.

4. Espontâneo e dirigido (p.118)

Cortiço:
Horizontal; cria frangos e porcos, convive com as hortas, a árvore e o capim, invade terrenos baldios e vai
para o lado da pedreira, que João Romão também explora. Mais tarde, verticaliza-se com sobrado de dos
andares.

Realidade orgânica, por meio de imagens orgânicas que o animam e fazem dele uma espécie de continuação do
mundo natural.

João Romão: a vontade de João Romão parece ir atenuando o ritmo espontâneo, em troca de um caráter mais
mecânico de planejamento. Ele usa as forças do meio, não se submete a elas # Jeronimo: o cavouqueiro hercúleo
que opta pela adesão à terra e é tragado por ela.

Incêndio: organização do cortiço


Antigo cortiço: orgânico, natureza # cortiço reconstruído: imagem de cunho mecânico e urbano.

Os moradores inadaptados são expulsos ou se expulsam, indo continuar o ritmo da desordem no cortiço próximo
e rival, denominado Cabeça-de-Gato.

Cortiço velho: Carapicus


era um aglomerado de aparência espontânea, que todavia continha em gérmen o elemento racional e dirigido do
projeto

Cortiço novo: Vila São Romão


Limpo e ordenado como um triunfo do dirigido; e há um reforço do cortiço rival, o Cabeça- de-Gato, que
mantém a espontaneidade caótica sobre a qual atuou no outro cortiço, como força racionalizadora, o projeto de
acumulação monetária do português. Mas o triunfo desse projeto é o sobrado que João Romão constrói para si
ao mesmo tempo que reforma o cortiço, marcando a sua entrada nas classes superiores e desbancando o
sobrado do vizinho Miranda, com cuja filha acaba por casar.

5. O cortiço e/ ou o Brasil (p. 119)

Cortiço: alegoria do Brasil


Uma alegoria do Brasil, com a sua mistura de raças, o choque entre elas, a natureza fascinadora e difícil, o
capitalista estrangeiro postado na entrada, vigiando, extorquindo, mandando, desprezando e participando

Teoria naturalista: Meio —>Raça —> Brasil; e que no projeto do ficcionista foi: Natureza tropical do Rio —>
Raças e tipos humanos misturados —> Cortiço.

Visão pejorativa e pessimista sobre o Brasil:


O romancista traduz a mistura de raças e a sua convencia como promiscuidade da habitação coletiva, que
deste modo se torna mesmo um Brasil miniatura, onde brancos, negros e mulatos eram igualmente
dominados e explorados por esse bicho-papão dos jacobinos, o português ganhador de dinheiro, que
manobrava tantos cordéis de ascensão social e econômica nas cidades.
O coletivo exprime a generalidade do social.
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Natureza brasileira: reinterpretação naturalista
A natureza brasileira desempenha papel essencial, como explicação dos comportamentos transgressivos, como
combustível das paixões e até da simples rotina fisiológica. Aluísio aceita a visão romântico-exótica de uma
natureza poderosa e transformadora, reinterpretando-a em chave naturalista.
A natureza brasileira é incompatível com a ordem e a ponderação dos costumes europeus e com as virtudes
da civilização; e ao cair nessa falácia mesológica, que tanto perturbou naquele tempo a vida intelectual brasileira
e a própria definição de uma consciência nacional, ele deixa transparecer o pessimismo, alimentado pelo
sentimento de inferioridade com que a sua geração retificou a euforia patriótica dos românticos.

Raça: elemento essencialmente naturalista no romance


Ambiguidade do intelectual brasileiro que aceitava e rejeitava a sua terra, dela se orgulhava e se envergonhava,
nela confiava e dela desesperava, oscilando entre o otimismo idiota das visões oficiais e o sombrio pessimismo
devido à consciência do atraso.

Mestiço:
N’O Cortiço, o mestiço é capitoso, sensual, irrequieto, fermento de dissolução que justifica todas as transgressões
e constitui em face do europeu um perigo e uma tentação

Determinismo:
De fora para dentro: A natureza (meio) condicionando o grupo (raça) e ambos definindo as relações humanas
na habitação coletiva.
De dentro para fora: o mecanismo de exploração do português, que rompe as contingências e, a partir do projeto
do ganhador de dinheiro aproveita as circunstâncias, transformando-as em vantagens.
Esta tensão ambígua pode talvez ser considerada um dos núcleos germinais da narrativa:

Um duplo movimento, portanto, ou dois movimentos complementares: um,


centrípeto, é a pressão do meio e da raça pesando negativamente sobre o cortiço e
fazendo dele o que é; outro, centrífugo, é o esforço do estrangeiro vencendo
triunfalmente as pressões. Um leva ao cortiço; outro, sai dele. Aquilo que é
condição de esmagamento para o brasileiro seria condição de realização para o
explorador de fora, pois sempre a pobreza e a privação foram as melhores e mais
seguras fontes de riqueza. De qualquer modo, o movimento social parece o mesmo
que o movimento da narrativa, porque, como vimos, o cortiço é ao mesmo tempo
um sistema de relações concretas entre personagens e uma figuração do próprio
Brasil. (grifos nossos)

6. O meio e a raça (p.121)

Jerônimo: português honrado e comedido que, ao se apaixonar pela mestiça Rita Baiana e por causa dela
abandonar mulher e filha, cedeu à atração da terra, dissolveu-se nela e com isso perdeu a possibilidade de dominá-
la, como João Romão, porque deixou quebrar a relação de possuidor e coisa possuída.
Agir como brasileiro redunda para o imigrante em ser como brasileiro, isto é, no quadro estreito d'O Cortiço,
ser massa dominada. Este processo é descrito pelo romancista como processo natural de envolvimento e queda,
onde a natureza do país funciona como força perigosa, encarnada figuradamente em Rita, que sendo personagem
atuante é ao mesmo tempo símbolo, súcubo e gênio da terra:

Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebera
chegando aqui: ela era a luz ardente do meio dia; ela era o calor vermelho das sestas
da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoava nas matas
brasileiras...

O abrasileiramento de Jerônimo:
Mudança de comportamento> ao adotar hábitos brasileiros, perde a seriedade, abandona a casa, e a mulher
Piedade culpa o abandono e a escolha por Rita Baiana à natureza exótica do Brasil, tão diferente da sua
terra natal:

[...] não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquele sol crapuloso,
que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. Parecia
rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-
lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.

• Perda do "espírito da economia e da ordem", da "esperança do enriquecer".


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Rita Baiana e Iracema: sua paixão (de Jerônimo) violenta é apresentada pelo romancista como consequência das
"imposições mesológicas", sendo Rita "o fruto dourado e acre destes sertões americanos". Sob tal aspecto há n'O
Cortiço um pouco de Iracema coada pelo Naturalismo, com a índia=virgem dos lábios de mel+licor da jurema,
transposta aqui para a baiana=corpo cheiroso + filtros capitosos, que derrubam um novo Martim Soares Moreno
finalmente desdobrado, cuja parte arrivista e conquistadora é João Romão, mas cuja parte romântica e fascinada pela
terra é Jerônimo. Iracema e Rita são igualmente a Terra. Lá, com o filtro da jurema, aqui, com o do café, que tem um
sentido afrodisíaco e simbólico de beberagem através da qual penetram no português as seduções do meio:"[...] a
chávena fumegante da perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores".

O Sol:
Percorre o livro como manifestação da natureza tropical e princípio masculino de fertilidade. Sol e calor são
concebidos como chama que queima, derrete a disciplina, fomenta a inquietação e a turbulência, fecunda como
sexo.

Medo de ser brasileiro:


Apesar do antilusitanísmo, Azevedo, como a maioria dos intelectuais brasileiros, temia a brasilidade e era levado
a admirar o espirito prático dos americanos e os hábitos europeus, mas ambiguamente, menosprezava
literariamente o europeu desalmado, desfrutador da terra e ladrão da herança dos seus naturais a sua presença no
“Essas ambivalências que fazem do nosso patriotismo uma espécie de amor-desprezo, uma nostalgia dos
países-matrizes e uma adoração confusa da mão que pune e explora.”

João Romão
O português tem a força, a astúcia, a tradição. O brasileiro serve a ele de inepto animal de carga, e sua única
vingança consiste em absorvê-lo passivamente pelo erotismo, que, já vimos, aparece como símbolo da sedução da
terra. Para se livrar disso e poder realizar o seu projeto de enriquecimento e ascensão social, o português do tipo
João Romão precisa despir o sexo de qualquer atrativo, recusar o encanto das Ritas Baianas e ligar-se com a podre
Bertoleza, meio gente, meio bicho.

Instinto racial, a raça inferior, o desejo de melhorá-la, o contato redentor com a raça superior
Bertoleza
Cafuza, serve para surpreendermos o narrador em pleno racismo, corrente no seu tempo com apoio numa
pseudociência antropológica que angustiava os intelectuais brasileiros quando pensavam na mestiçagem local.
João Romão propõe a Bertoleza morarem juntos, e ela aceita, feliz, "porque, como toda cafuza [...] não queria
sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua".

Rita Baiana: Como Bertoleza, Rita também troca o capoeira Firmino mulato como ela, porque "o sangue
da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior".

Branco-europeu: raça superior # negro-brasileiro: raça inferior


Já que no romance o branco é sobretudo português, fica uma impressão geral de ser legítima a oposição
branco=europeu x mestiço ou negro=brasileiro, como se o romancista, simplificando, identificasse a
"raça superior" ao invasor econômico e a "a raça inferior" ao natural explorado por ele.

7. O reino animal (p.124)

Animalidade:
Além dessas reduções de "cientificismo" naturalista há uma redução maior, que as ultrapassa e atinge todos
os personagens na sua humanidade, para lá do processo econômico: refiro-me ao substrato comum de
animalidade, ou que melhor nome tenha.

Destino animal dos personagens

O branco, predatório ou avacalhado, sem meio termo; o mulato e o negro, desordenados, fatores de desequilíbrio
— todos têm na economia d' O Cortiço uma espécie de destino animal comum, acentuado pelo gosto naturalista
da visão fisiológica, a tendência a conceber a vida como soma das atividades do sexo e da nutrição, sem outras
esferas significativas.
10
Zoomorfização do próprio cortiço:
Conjunto da habitação coletiva, vista como "aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas", que manifestam o
"prazer animal de existir", mais acentuado noutro trecho, onde se fala d'"aquela massa informe de machos e
fêmeas a comichar, a fremir concupiscente, sufocando-se uns aos outros"; e logo depois vemos "as mulheres [que]
iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador". Mesmo em contexto não sexual elas
aparecem "mostrando a uberdade das tetas cheias", o que ocorre também quando se trata de cada uma
isoladamente, como na cena em que Henriquinho (um hóspede no sobrado do Comendador Miranda) vê da janela
Leocádia lavando roupa e o "tremular das redondas tetas à larga".

Animalização
Redução voluntária ao natural, ao elementar comum, que nivela o homem ao bicho, enquanto organismos sujeitos
ambos às leis decorrentes de sua estrutura.

Redução geral à fisiologia, ou ao homem concebido como síntese das funções orgânicas. A finalidade desta
operação parece apenas científica, mas na verdade é também ética, devido às conotações relativas a certa
concepção do homem. Ao contrário das aparências, a correlação entre esses dois níveis é visível no Naturalismo,
manifestando-se através de camadas correspondentes do estilo, que se contaminam reciprocamente.

Concepção moral: complexidade do naturalismo


A descrição fisiológica supera, no romance, o âmbito naturalista, quando ganha tons de obscenidade: de um lado,
mera constatação da grosseria e da vulgaridade nas relações humanas; mas que de outro parece às vezes uma
condenação, uma certa reprovação daquilo que, no entanto, deveria ser considerado natural

Sexualidade
As suas descrições da vida sexual são mais atrevidas (para o tempo), podendo-se dizer que as levou a um extremo
não ultrapassado no Brasil, nem mesmo pelo rumoroso A Carne, de Júlio Ribeiro, onde a parolagem dissolve o
impacto eventual das cenas e a violência. está mais na exaltação do narrador do que na realidade das
descrições. N'O Cortiço a gama do ato sexual é extensa, desde a comicidade quase de anedota, como a posse
de Leocádia no capinzal por um Henriquinho extremamente matreiro, que segura pelas orelhas o coelho
branco prometido como preço, até a posse de Piedade, bêbada, pelo vagabundo Pataca, com a filha
observando e um vômito final de conspurcação (...).

8. A "pensão do sexo"(p.126)

A menstruação
Natureza física do Brasil, encarnada ainda aqui pelo Sol como manifestação simbólica
Pombinha: os sinais não aparecem, apesar da moça ter quase dezoito anos, e há uma expectativa geral, indiscreta,
da mãe noivo, dos vizinhos, que fazem perguntas do tipo "já veio?", "já chegou?".
Ela é "enfermiça e nervosa ao último ponto", e o toque de anormalidade se acentua pela interferência do safismo.
A relação homossexual, ato desnatural, com a cocotte francesa, é que provoca finalmente os sinais de maturidade
sexual.
Dupla interpretação: a primeira causa é degradante, abaixo da realidade natural (o safismo); a outra é redentora,
acima dela (a mediação da natureza).
Menstruação: o sonho e o sol: Símbolo e Alegoria: Sol-Brasil, que escalda o sangue, dissolve os costumes,
desencaminha os portugueses honrados é também força de vida.

9. Força e fraqueza das mediações (p.128)

Memórias de um Sargento de Milícias


Quase não aparecem o trabalho e as obrigações de todo o dia, e onde em consequência o dinheiro brota meio
milagrosamente de heranças e subterfúgios, ficando aliás em franco segundo plano.

O Cortiço
O mundo do trabalho, do lucro, da competição, da exploração econômica visível, que dissolvem a fábula e sua
intemporalidade. .
Jogo do espontâneo e do dirigido, concebidos, não como pares antinômicos, mas como momentos de um
processo que sintetiza os elementos antitéticos. Espontâneo — mais como tendência, ou como organização
difusa, à maneira da sociabilidade inicial do cortiço, fortemente marcada pelo espírito livre do grupo; Dirigido
— que é a atuação de um projeto racional
11
O cortiço e o Brasil:
O cortiço passa a representar também o Brasil, na medida em que o espaço limitado onde atua o projeto
econômico de João Romão figura em escorço as condições gerais do país, visto como matéria-prima de lucro
para o capitalista.

Entre a representação concreta particular (cortiço) e a nossa percepção da pobreza se interpõe o Brasil
como intermediário

Necessidade da literatura brasileira de autodefinição nacional

O cortiço: meio e raça


meio e raça eram conceitos que correspondiam a problemas reais e a obsessões profundas, pesando nas
concepções dos intelectuais e constituindo uma força impositiva em virtude das teorias científicas do momento,
tão questionáveis na perspectiva de hoje.

Sugestões de leituras:

CANDIDO, Antonio. “De cortiço a cortiço”. In:_________. O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades,
1993.

SANT’ANNA, Afonso Romano de. O cortiço. In: Análise estrutural de romances brasileiros. Petrópolis:
Editora Vozes, 1973

SCHWARZ, Roberto. “Adequação nacional e originalidade crítica”. In: Sequências brasileiras. São Paulo:
Companhia das Letras, 1999.

SUSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Uma ideologia estética e sua história: o naturalismo. Rio de
Janeiro: Achiamé, 1984.

Filmografia

Adaptação para cinema do romance O cortiço: Filme “O cortiço” (1978): Direção de Francisco Ramalho Jr.
Com Betty Faria, Armando Bógus, Mário Gomes.
YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=USdxKiALLi0

Amarelo Manga (2002) Direção: Cláudio Assis. Com: Matheus Nachtergaele, Matheus Nachtergaele,
Jonas Bloch, Dira Paes, Chico Diaz, Leona Cavalli
YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=77-WSr45Vmk
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Exercícios

Texto I
Leia um fragmento do terceiro capítulo de O cortiço, o melhor livro de Aluísio Azevedo, observando as
características naturalistas do romance:

Capítulo III

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de
portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se
sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente,
dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de
sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo
anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos bocejos, fortes
como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro
quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras,
os bons-dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá dentro das
casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava,
destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos,
cacarejar de galinhas. De alguns quartos saiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do
papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se à luz
nova do dia.
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e
fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de
uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não
as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo
para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a
cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as
palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e
sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças
não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da
estalagem ou no recanto das hortas.
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam
vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na
venda; ensarilhavam-se discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se.
Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés
vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar
sobre a terra.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 1998 (Coleção L&PM Pocket

1) Um procedimento narrativo característico do Naturalismo é apresentar o ambiente físico e social num


grande painel informativo, como se o narrador estivesse munido de uma máquina fotográfica dotada de
lentes do tipo zum, que lhe permitisse compor e decompor os detalhes do cenário em que ocorrem os fatos,
havendo a preocupação de transmitir um quadro verossímil, produzido a partir de uma rigorosa observação
do mundo físico.

a) Qual a relação entre essa visão objetiva da realidade e o foco narrativo em terceira pessoa?

b) Através de sugestões sensitivas, o narrador busca aproximar o leitor da cena descrita, imprimindo cor
local à narrativa. Retire exemplos de:
•Sensações olfativas:
•Sensações auditivas:
“•Sensações táteis:
•Sensações visuais:
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2) O ser humano é visto, pelo Naturalismo, numa perspectiva biológica, em que se considera seu lado
instintivo e animal. E, até mesmo, degradante.

a) Retire do texto alguns exemplos da zoomorfização dos personagens:

b) Identifique situações que denunciam a condição degradante do ser humano:

c) Segundo os críticos Antonio Candido e José Aderaldo Castelo, o Naturalismo significou” a busca de uma
explicação materialista para os fenômenos da vida e do espírito, bem como a redução dos fatos sociais aos
seus aspectos externos, sobretudo os biológicos, segundo os padrões definidos pelas ciências naturais.(...) O
Romantismo foi combatido, entre outras coisas, no que tinha de compromisso com as filosofias de cunho
espiritualista, e no que tinha de idealização da realidade.”

•Comprove as afirmações dos críticos, levando em consideração a descrição das mulheres

Texto II

Agora Fabiano conseguiu arranjar as ideias. O que o segurara era a família. Vivia preso como um
novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava
o pé não. O que lhe amolecia o corpo era a lembrança da mulher e dos filhos. Sem aqueles cambões pesados,
não envergaria o espinhaço não, sairia dali como onça e faria uma asneira. Carregaria a espingarda e daria
um tiro de pé de pau no soldado amarelo. Não. O soldado amarelo era um infeliz que nem merecia um tabefe
com as costas da mão. Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam o soldado
amarelo. Não ficaria um para semente. Era a ideia que lhe fervia na cabeça. Mas havia a mulher, havia os
meninos, havia a cachorrinha”.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2005.

1. Romance regionalista da década de 30, Vidas secas encerra traços que nos remetem aos romances
naturalistas.
•Comprove essa afirmativa, ressaltando-o a característica que melhor aproxima o romance de Graciliano
Ramos ao enfoque ideológico do naturalismo.

2. Indique dois procedimentos que aproximam Fabiano aos personagens naturalistas. Explique e retire do
texto um fragmento que ratifique sua resposta.

3. Associe o título “Vidas secas” a um dos preceitos defendidos pela escola literária de Emile Zola, na
França, e de Aluísio Azevedo no Brasil.

Texto III
- Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a
supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio
universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas
tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para
transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem
em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz nesse
caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a
alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se
a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só
comemora e ama o que lhe aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza
uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

ASSIS, Machado. Quincas Borba. Porto Alegre: L&PM, 2009.


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a) Qual é a relação entre o “sistema de filosofia” do “Humanitismo”, tal como imaginado pelo personagem
Quincas Borba e as correntes de pensamento filosófico e científico presentes no contexto histórico-cultural
em que essa obra foi escrita? Explique resumidamente.

b) De que maneira, em O cortiço, de Aluísio Azevedo, são encaradas as correntes de pensamento filosófico e
científico de grande prestígio na época em que o romance foi escrito? Explique sucintamente.

c) Levando em conta a relação das personagens com o meio, compare o final das trajetórias do português
Jerônimo e do português João Romão

Questões Objetivas

1. “Aluísio Azevedo certamente se inspirou em L’assommoir (A Taberna), de Émile Zola, para escrever O
Cortiço (1890), e por muitos aspectos seu texto é um texto segundo, que tomou de empréstimo não apenas a
ideia de descrever a vida do trabalhador pobre no quadro de um cortiço, mas um bom número de
pormenores, mais ou menos importantes. Mas, ao mesmo tempo, Aluísio quis reproduzir e interpretar a
realidade que o cercava e sob esse aspecto elaborou um texto primeiro. Texto primeiro na medida em que
filtra o meio; texto segundo na medida em que vê o meio com lentes de empréstimo. Se pudermos marcar
alguns aspectos dessa interação, talvez possamos esclarecer como, em um país subdesenvolvido, a
elaboração
de um mundo ficcional coerente sofre de maneira acentuada o impacto dos textos feitos nos países centrais e,
ao mesmo tempo, a solicitação imperiosa da realidade natural e social imediata.”
(Antonio Candido. “De cortiço a cortiço”. In: O discurso e a cidade. São Paulo / Rio de Janeiro: Ouro sobre
Azul, 2004, p.106-7/128-9, com adaptações.)

•Assinale a opção em que a relação intertextual entre O Cortiço e Germinal (textos 1 e 2, respectivamente) é
interpretada pela perspectiva crítica apresentada no texto 3, de Antonio Candido, acerca da ligação entre a
obra de Aluísio Azevedo e a de Émile Zola.
A) O texto de Aluísio Azevedo é um texto primeiro em relação ao de Zola porque foi escrito anteriormente e
influenciou a produção naturalista do escritor francês.
B) A relação de proximidade entre o texto de Azevedo e o de Zola evidencia que o diálogo entre os textos
desvincula-os da realidade social em que foram produzidos.
C) O texto de Aluísio Azevedo, por suas condições de produção, está submetido ao modelo naturalista
europeu, ao mesmo tempo em que atende a demandas da realidade nacional.
D) O Cortiço é um texto segundo em relação ao texto de Zola porque é, sobretudo, uma mera duplicação do
modelo literário francês e da realidade social das classes operárias europeias.
E) A presença de elementos do Naturalismo francês em O Cortiço é indicativa da troca cultural que ocorre
no espaço do intertexto, independentemente das realidades locais de produção.

2. A questão a seguir baseia-se no seguinte fragmento do romance O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo:

Fechou-se um entra-e-sai de maribondos defronte daquelas cem casinhas ameaçadas pelo


fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao ombro, numa balbúrdia de doidos. O pátio
e a rua enchiam-se agora de camas velhas e colchões espocados. Ninguém se conhecia naquela zumba de
gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas pela dor e pelo desespero. Da casa do
Barão saíam clamores apopléticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhavam com um ataque.
E começou a aparecer água. Quem a trouxe? Ninguém sabia dizê-lo; mas viam-se baldes e baldes que se
despejavam sobre as chamas.
Os sinos da vizinhança começaram a badalar. E tudo era um clamor.
A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha acesa. Estava horrível; nunca fora
tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta,
desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens, dava-lhe um caráter fantástico de fúria
saída do inferno. E ela ria-se, ébria de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, vitoriosa no meio
daquela orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em segredo a sua alma extravagante de maluca.
Ia atirar-se cá para fora, quando se ouviu estalar o madeiramento da casa incendiada, que abateu
rapidamente, sepultando a louca num montão de brasas.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 1998 (Coleção L&PM Pocket)
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• Releia o fragmento de O cortiço, com especial atenção aos dois trechos a seguir:

Ninguém se conhecia naquela zumba de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas
arrancadas pela dor e pelo desespero. (...) E começou a aparecer água. Quem a trouxe? Ninguém sabia
dizê-lo; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chamas.

No fragmento, rico em efeitos descritivos e soluções literárias que configuram imagens plásticas no
espírito do leitor, Aluísio Azevedo apresenta características psicológicas de comportamento comunitário.
Aponte a alternativa que explicita o que os dois trechos têm em comum:

A) Preocupação de um em relação à tragédia do outro, no primeiro trecho, e preocupação de poucos em


relação à tragédia comum, no segundo trecho.
B) Desprezo de uns pelos outros, no primeiro trecho, e desprezo de todos por si próprios, no segundo trecho.
C) Angústia de um não poder ajudar o outro, no primeiro trecho, e angústia de não se conhecer o outro, por
quem se é ajudado, no segundo trecho.
D) Desespero que se expressa por murmúrios, no primeiro trecho, e desespero que se expressa por apatia, no
segundo trecho.
E) Anonimato da confusão e do “salve-se quem puder”, no primeiro trecho, e anonimato da cooperação e do
“todos por todos”, no segundo trecho.

3. O caráter naturalista nessa obra de Aluísio Azevedo oferece, de maneira figurada, um retrato de nosso
país, no final do século XIX. Põe em evidência a competição dos mais fortes, entre si, e estes, esmagando as
camadas de baixo, compostas de brancos pobres, mestiços e escravos africanos.
No ambiente de degradação de um cortiço, o autor expõe um quadro tenso de misérias materiais e humanas.
No fragmento, há várias outras características do Naturalismo.

•Aponte a alternativa em que as duas características apresentadas são corretas.

A) Exploração do comportamento anormal e dos instintos baixos; enfoque da vida e dos fatos sociais
contemporâneos ao escritor.
B) Visão subjetivista dada pelo foco narrativo; tensão conflitiva entre o ser humano e o meio ambiente.
C) Preferência pelos temas do passado, propiciando uma visão objetiva dos fatos; crítica aos valores
burgueses e predileção pelos mais pobres.
D) A onisciência do narrador imprime-lhe o papel de criador, e se confunde com a idéia de Deus; utilização
de preciosismos vocabulares, para enfatizar o distanciamento entre a enunciação e os fatos enunciados.
E) Exploração de um tema em que o ser humano é aviltado pelo mais forte; predominância de elementos
anticientíficos, para ajustar a narração ao ambiente degradante dos personagens.

4. TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 4 a 7

E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos enamorados. Naquela mulata estava o
grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia;
ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o
atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta;
era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre
feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que
esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras
embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha
daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de
cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 1998 (Coleção L&PM Pocket)

4. Em que pese a oposição programática do Naturalismo ao Romantismo, verifica-se no excerto – e na obra


a que pertence – a presença de uma linha de continuidade entre o movimento romântico e a corrente
naturalista brasileira, a saber, a
a) exaltação patriótica da mistura de raças.
b) necessidade de autodefinição nacional.
c) aversão ao cientificismo.
d) recusa dos modelos literários estrangeiros.
e) idealização das relações amorosas.
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5. Entre as características atribuídas, no texto, à natureza brasileira, sintetizada em Rita Baiana, aquela que
corresponde, de modo mais completo, ao teor das transformações que o contato com essa mesma natureza
provocará em Jerônimo é a que se expressa em:
a) “era o calor vermelho das sestas da fazenda”.
b) “era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta”.
c) “era o veneno e era o açúcar gostoso”.
d) “era a cobra verde e traiçoeira”.
e) “[era] a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele”.

6. O efeito expressivo do texto – bem como seu pertencimento ao Naturalismo em literatura – baseiam-se
amplamente no procedimento de explorar de modo intensivo aspectos biológicos da natureza. Entre esses
procedimentos empregados no texto, só NÃO se encontra a
a) representação do homem como ser vivo em interação constante com o ambiente.
b) exploração exaustiva dos receptores sensoriais humanos (audição, visão, olfação, gustação), bem como
dos receptores mecânicos.
c) figuração variada tanto de plantas quanto de animais, inclusive observados em sua interação.
d) ênfase em processos naturais ligados à reprodução humana e à metamorfose em animais.
e) focalização dos processos de seleção natural como principal força direcionadora do processo evolutivo.

7. Para entender as impressões de Jerônimo diante da natureza brasileira, é preciso ter como pressuposto que

a) um contraste entre a experiência prévia da personagem e sua vivência da diversidade biológica do país em
que agora se encontra.
b) uma continuidade na experiência de vida da personagem, posto que a diversidade biológica aqui e em seu
local de origem são muito semelhantes.
c) uma ampliação no universo de conhecimento da personagem, que já tinha vivência de diversidade
biológica semelhante, mas a expande aqui.
d) um equívoco na forma como a personagem percebe e vivencia a diversidade biológica local, que não
comporta os organismos que ele julga ver.
e) um estreitamento na experiência de vida do personagem, que vem de um local com maior diversidade de
ambientes e de organismos.