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INTRODUÇÃO

AO ESTUDO DA HISTÓRIA

autores
WILLIAM DE SOUZA NUNES MARTINS
FLAVIA MIGUEL DE SOUZA

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2019
Conselho editorial  roberto paes e gisele lima

Autores do original  william de souza nunes martins e flavia miguel de souza

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  andré lage, luís salgueiro e luana barbosa da silva

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  rodrigo dos santos rainha

Imagem de capa  elena schweitzer | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2019.

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 5

1. O ofício do historiador 7
A prática do historiador 8

As fontes e a escrita da História 11

Mas, afinal, quem é que faz um historiador? 15

2. A História tem uma história 23


Os sentidos da ciência 24

O “nascimento da história” no Ocidente 25

Por uma “História Moderna” 27

O século XIX e o predomínio da ciência 29

A história ciência: o positivismo e o historicismo 32

3. O movimento dos Annales 39


A segunda geração 45

Terceira geração 48

4. As escolas, inglesa e alemã 57


Escola inglesa 71

5. Outras possibilidades historiográficas:


a América Latina 79
A historiografia latino americana 81

Novas abordagens: a questão de gênero 89


Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

A história, enquanto disciplina, pode ser dividida em algumas macro áreas


do conhecimento, como História Antiga, História Medieval e Teoria da História.
Este livro localiza-se na área da Teoria de História e tem como objetivo apresentar
alguns dos principais conceitos e teoria da história, através do estudo sobre a for-
mação da disciplina Histórica.
Nem sempre a História foi considerada ciência e aqui veremos as primeiras
formulações sistemáticas de trabalhos de história, desde a antiguidade clássica,
passando pelo século XIX até nossos dias.
Inicialmente, falaremos sobre o início da “história da história”, além de
analisarmos o que faz um historiador, qual seu papel social e seu compromisso
científico. A partir dessa caracterização, veremos como se constrói um trabalho
científico na área de História.
Selecionamos algumas produções emblemáticas para a compreensão da
história que hoje estudamos, focando nosso olhar nas historiografias produzidas
na França, Itália, Inglaterra e Alemanha.
Analisaremos alguns dos fundamentos da História ciência, no século XIX,
destacando o positivismo francês e o Historicismo alemão, de Leopold Von
Ranke. As propostas do século XIX são rompidas com a fundação da Escola dos
Annales, na França, já no século XX, por Marc Bloch e Lucien Febvre. Os Annales
fundam novos paradigmas que alterariam definitivamente a historiografia e cujos
efeitos podem ser percebidos, quase cem anos depois nos trabalhos produzidos
pelos historiadores contemporâneos.
Veremos alguns dos desdobramentos desta Escola, em especial a micro história
italiana, discutindo a mudança de escala no estudo de um objeto e suas implicações.
Ganham destaque em seguida, a história marxista inglesa e a história conceitual
alemã. Como teoria, o marxismo, a despeito de ter sido produzido no século XIX,
ainda é bastante relevante nas produções atuais, em especial no que toca ao estudo
do capitalismo e dos meios de produção.
Mas nem só de Europa vive a História. Fechando esta obra estudaremos a
produção fora continente europeu, com destaque para América Latina.

5
Esperamos que este livro contribua para o entendimento da história e de seus
fundamentos, localizando o leitor acerca do historiador e de seu ofício.

Bons estudos!
1
O ofício do
historiador
O ofício do historiador
Estamos começando nossa jornada rumo aos estudos históricos. Vamos falar,
sobretudo, acerca do papel do historiador e das questões que norteiam este ofício.
O que faz um historiador? Qual sua relação com as fontes? Existe impar-
cialidade em história? O historiador deve buscar a “verdade”? Estas são algumas
das questões que nos propomos a discutir nesse capítulo, dando início ao nosso
diálogo acerca do estudo da história.

OBJETIVOS
•  Caracterizar o ofício do historiador;
•  Identificar as etapas da pesquisa histórica;
•  Analisar a questão da “verdade” em história;
•  Distinguir as diversas possibilidades de discursos;
•  Reconhecer as caraterísticas da escrita da história.

A prática do historiador

A história é um carro alegre


Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue

Cancion Por la Unidad de Latino America

Pablo Milanes e Chico Buarque de Hollanda

O trecho da música com o qual iniciamos nosso capítulo busca ilustrar algumas
questões já bastante discutidas com relação à história e ao ofício de historiador,
como a existência ou não de uma verdade histórica e qual a “função da história”
Quando estudamos história como curso superior, podemos ter duas habilitações
no que toca ao estudo da história, bacharel e licenciado. O licenciado, que cursou a
habilitação em licenciatura em História, é aquele que se dedica, sobretudo, ao ensino.
Já o bacharel é aquele que, ao cursar a habilitação bacharelado, se dedica a pesquisa.
É interessante, entretanto, vermos que estas habilitações são complementares e um

capítulo 1 •8
licenciado pode também cursar, se assim o desejar, o bacharelado, e vice-versa. O
ideal é que ensino e pesquisa caminhem juntos e que mesmo em habilitações em
que a pesquisa não seja a ênfase, como é o caso das licenciaturas, tenhamos uma
formação teórica sólida, comum a professores e pesquisadores.
Esse é o fundamento deste livro. Fazer com que você, leitor, estudante de
história ou não, bacharel ou licenciado, conheça um pouco mais da História
enquanto disciplina, como esta foi construída e como se desenvolveram as
teorias que hoje constituem esse imenso universo historiográfico, cada vez mais
interligado e dialógico.
Na obra hoje clássica Apologia da História ou o Ofício de Historiador, do francês
Marc Bloch, publicado pela primeira vez em 1949, o autor começa com uma
pergunta cuja resposta ainda nos dedicamos a encontrar: “Para que serve a história?”.
O questionamento, feito então por seu filho, permitiu a Bloch construir uma
enorme discussão que se tornou um dos pilares da profissão de historiador e sobre
a qual falaremos mais detidamente nos nossos próximos capítulos.
Mas será que existe uma resposta para esta pergunta?
Sim e não. Não temos uma resposta, temos várias. Algumas se tornaram
clichês que devem ser desconstruídos como a ideia de que a história serve para não
repetirmos os erros do passado e de alguma forma, prever o futuro.
Como hoje compreendemos, conhecer o passado não nos torna imunes
a repetir erros, como é o caso das guerras, por exemplo. Estudando a história
podemos ver o que o genocídio, a exclusão e o preconceito causaram, citando, por
exemplo, a Segunda Guerra Mundial, onde a perseguição aos judeus e a outros
grupos étnicos levou a um conflito sem precedentes e que vitimou milhares de
pessoas. Termos esse conhecimento não impediu conflitos posteriores, também
com fundamento étnico, como é o caso do Massacre de Ruanda, em 1994, onde
membros da etnia Hutu perseguiram e assassinaram membros da etnia tutsi.

CURIOSIDADE
Em apenas cem dias em 1994, cerca de 800 mil pessoas foram massacradas em
Ruanda por extremistas étnicos hutus. Eles vitimaram membros da comunidade minoritária
tutsi, assim como seus adversários políticos, independentemente da sua origem étnica.
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/04/
140407_ruanda_genocidio_ms

capítulo 1 •9
As chamadas “lições do passado” não são absolutas. Cada momento histórico é
apreendido e compreendido de maneira diferente. Retornemos ao nosso exemplo
sobre a Segunda Guerra Mundial. Imagine que três historiadores irão escrever a
história da Batalha de Stalingrado, que ocorreu em 1941. Esta foi, sem dúvida,
uma das mais importantes batalhas deste conflito e foi decisiva para a vitória dos
aliados, nelas se enfrentaram, sobretudo, as tropas alemãs e soviéticas. Pois bem:
nossos historiadores são um alemão, um soviético e um norte-americano. Será que
todos escreveriam sobre esta batalha da mesma maneira?
Provavelmente, não!
Mas por que não, se a batalha foi uma só? Porque cada um deles escreveria
sobre esta batalha de acordo com um ponto de vista específico.
O autor Miguel A. Teodoro questiona acerca da escrita da história como
conhecemos e a tradição latino-americana de uma história ancorada na Europa.
Como colônias, a América latina esteve submetida ao jugo europeu e grande parte
da escrita da história que se construiu, até o século XX, era contada do ponto de
vista da Europa. Segundo ele:

Deveríamos nos perguntar e até mesmo imaginar, como seriam as páginas de nos-
sa História se essas fossem reveladas segundo as narrativas do descendentes dos
Beckmans, dos Emboabas, de Filipe dos Santos , do Alferes Xavier, dos explorados em
decorrência da fuga da família real de Portugal, dos torturados e mortos na Revolução
Pernambucana de 1817, dos massacrados da Confederação do Equador, das vítimas
das revoltas do Período Regencial, na visão daqueles que conviveram com Antônio
Conselheiro e que sobreviveram ao massacre de Canudos e tantos outros fatos mais?
Com certeza, não seria a História à qual estamos acostumados a aprender. Todavia, é
preciso aprender a aprendê-la. Assim, teríamos uma outra visão da realidade que nos
cerca e, certamente, pensaríamos de forma diferente, colocando-nos, de fato, como
sujeitos ativos e autênticos, protagonistas dos fatos e não como objetos e vítimas da
história eurocentralizada (...)

Fonte: TEODORO, M. A. . O Enigma Tiradentes. 2ª. ed. São Paulo: AgBook, 2014. P. 39

Ah, então quer dizer que a história depende de quem a escreve?


Em certa medida. Embora um historiador esteja conformado pelo seu lugar
de fala ele está comprometido com as fontes de sua pesquisa. Podemos definir
lugar de fala de forma mais objetiva, como o lugar de onde o sujeito escreve. Isso
significa que o historiador norte-americano de nosso exemplo irá escrever do lugar
do vencedor, daquele que obteve sucesso em uma guerra enquanto o historiador
alemão irá escrever do lugar do vencido. Todos os historiadores de nosso exemplo

capítulo 1 • 10
estarão também escrevendo em um contexto próprio, que irá considerar uma série
de fatores como as relações políticas entre seus países, a Guerra Fria e assim por
diante.
Todavia, o lugar de fala não é o único determinante da escrita da História. É a
partir das fontes que construímos nosso estudo e sem elas não há historiografia.
Historiografia significa escrita da história. Isso quer dizer que tudo que o
historiador produz – artigos, livros, teses – fazem parte da historiografia. Devemos
ter cuidado ao usar este termo porque historiografia não é sinônimo de História.
A Revolução Francesa é um fato histórico. O que foi escrito sobre ela pelos
historiadores é historiografia.

As fontes e a escrita da História

A narrativa histórica, que compõe a historiografia, possui uma série de


particularidades. Ela difere de outras formas de narrativa, como a jornalística e
a literária. Na narrativa jornalística, ainda que o profissional esteja amparado em
evento, uma “notícia”, ele é livre para fazer a interpretação que quiser e, até mesmo,
para privilegiar um “lado” da história. Ele pode, portanto, defender uma opinião a
partir de seus interesses particulares porque isso é parte do jornalismo. Já na escrita
literária ela pode ser ficcional ou não. Não há um compromisso com um evento real
e quando há ele pode ser romantizado de acordo com o desejo do autor.
Nenhuma dessas características está presente na escrita histórica. O historiador
está “preso” à fonte histórica. Mesmo que faça sua análise, pessoal e única sobre
um objeto, esta tem que ser amparada em fontes, que podem ser dos mais variados
tipos: escritas, orais, iconográficas, arquitetônicas etc.
Chegamos agora a um ponto importante de nossa discussão. Se o historiador
está embasado nas fontes, então tudo que o historiador escreve é a verdade, certo?
Essa é uma visão que é importante desconstruirmos: a ideia de verdade.
Lembram do nosso exemplo dos historiadores? Pois bem, todos escreveriam
histórias diferentes e todas elas seriam verdade. Isso quer dizer que não existe
uma verdade em história, mas várias verdades. No próximo capítulo, quando
estudaremos sobre a história da história, veremos que quando esta começou a se
organizar enquanto disciplina e se tornar uma “ciência” foi construída esta ideia
de verdade. O ensino de história foi muito influenciado por essa ideia de verdade
e acabamos por reproduzi-la – ainda que em menor grau – até os dias de hoje. Ou
seja, continuamos reproduzindo ideias que foram construídas no século XIX. De

capítulo 1 • 11
certa forma, essa “busca pela verdade” confere uma certa legitimidade ao estudo
da história. Isso era importante quando a história ainda engatinhava como ciência
e atualmente, essa ideia de verdade perdeu sua razão de ser.
Mas, e o compromisso com a fonte que falamos anteriormente? A fonte não
traz a verdade?
Não exatamente. Estamos sim, ligados a fonte, mas nosso papel é analisá-la de
forma crítica e não tomá-la como verdade. Nenhuma fonte é um acesso direto ao
passado, mas uma interpretação sobre o que um grupo, povo ou indivíduo enten-
dia acerca do mundo em que vivia.
Vamos ver alguns exemplos de fontes para compreendermos melhor esta
questão.

Procurando mostrar força e confiando na grandíssima bondade e misericórdia de Deus,


que não permitiria que perdêssemos tão maravilhosa terra que havíamos conquistado
para Vossa Majestade, resolvemos voltar a atacar (...) E assim lutamos e derrotamos
os inimigos dessa província, fazendo com que os principais senhores dela viessem a
se oferecer como vassalos de vossa alteza, deixando em nós a convicção de que, com
a ajuda de Nosso Senhor, as demais províncias em breve estarão submetidas ao real
domínio de Vossa majestade. Fiz muitos escravos nestas províncias (...) para provocar
medo nos de Culúa e porque há gente que se não provocarmos grande e cruel castigo
não se emenda jamais.

Fonte: CORTEZ, Hernan. A Conquista do México. Porto Alegre:


L&PM, 1996 p. 83

Este é o trecho de uma carta escrita pelo conquistador Hernan Cortez para o
rei da Espanha, em 1519. Em suas cartas, Cortez exalta seus feitos diante da Coroa
e relata a submissão dos índios, a quem considerava selvagens, bárbaros, primitivos
e infiéis. No trecho que lemos podemos ver que, apesar da barbárie e de estar
descrevendo a derrota e a escravidão dos indígenas, Cortez é um católico devoto
e isso não é uma contradição. Analisar uma fonte significa vê-la com os olhos do
passado e no século XVI a Igreja Católica era pensada, pelos países fortemente
católicos como Espanha e Portugal, como a verdadeira fé.
Isso significa que a Igreja Católica era “má”?
Essa é uma pergunta que não cabe ao historiador. Não podemos analisar as
fontes em termos como bom e mau, positivo e negativo. Estas são categorias muito
subjetivas e não devem ser utilizadas na análise histórica. Na fonte analisada vemos
que o Cortez tem plena convicção de que suas ações são necessárias e justificáveis.
A conquista e a conversão dos indígenas eram vistas, naquele contexto, como

capítulo 1 • 12
necessária para a salvação das almas dos índios. Não é um pretexto, mas sim uma
ideologia que embora hoje nos seja estranha, era a mentalidade da época.
É claro que esta visão foi hoje superada, mas ela deixou um legado que ainda
pode ser percebido no ensino de História, como a ideia de descobrimento ou um
senso comum que ainda prevalece acerca de estereótipos sobre os índios, cuja
cultura ainda é vista como primitiva e “inferior”.
Cortez é um homem de seu tempo e como tal, vai escrever acerca do modo
como entende seu próprio mundo. Logo, essa fonte é uma interpretação sobre
a conquista da América, é uma “janela” onde podemos observar a realidade do
século XVI através dos olhos de quem a viveu.
Vamos agora ver outra fonte, escrita no mesmo período:

Na ilha Espanhola que foi a primeira, como se disse, a que chegaram os espanhóis,
começaram as grandes matanças e perdas de gente, tendo os espanhóis começado a
tomar as mulheres e filhos dos índios para deles servir-se e usar mal e a comer seus
víveres adquiridos por seus suores e trabalhos, não se contentando com o que os índios
de bom grado lhes davam, cada qual segundo sua faculdade, a qual é sempre pequena
porque estão acostumados a não ter de provisão mais do que necessitam e que ob-
têm com pouco trabalho. E o que pode bastar durante um mês para três lares de dez
pessoas, um espanhol o come ou destrói num só dia. Depois de muitos outros abusos,
violências e tormentos a que os submetiam, os índios começaram a perceber que esses
homens não podiam ter descido do céu. Alguns escondiam suas carnes, outros suas
mulheres e seus filhos e outros fugiam para as montanhas a fim de se afastar dessa
Nação. Os espanhóis lhes davam bofetadas, socos e bastonadas e se ingeriam em sua
vida até deitar a mão sobre os senhores das cidades.

Fonte: LAS CASAS, Frei Bartolomeu. O Paraíso Destruído. São Paulo:


L&M Pocket, 2001.

Este trecho foi escrito por um religioso, Bartolomeu de Las Casas um frei do-
minicano, também no século XVI. Las Casas defendia os índios e se posicionava
contra a escravidão indígena, mas não se opunha a escravidão africana, o que era
uma postura comum na época. E de se pensar que, ao se opor a escravidão indí-
gena, Las Casas estivesse indo contra a Coroa Espanhola, mas não foi bem assim.
Apesar de sua defesa dos índios, Las Casas foi bispo no México, embora tenha
escrito o trecho que destacamos no Peru.
O que devemos atentar, considerando as duas fontes que vimos, é que ambas
trazem uma “verdade” própria e particular, referente a pessoa que a escreve. Cabe
ao historiador investigar esta fonte para chegar ao contexto em que esta foi produ-
zida e compreender o que esta fala representa.

capítulo 1 • 13
Podemos pensar que as fontes que vimos, como são escritos pessoais, de certa
forma, permitem uma “invenção”, uma interpretação de mundo, que as outras
fontes não possuem. Por exemplo, tabelas, documentos oficiais, inventários e
testamentos são documentos que não mentem, certo? Eles trazem a verdade e não
uma interpretação, não é?
Não. Como fontes, independente de serem numéricas ou não, elas estão
sujeitas a interpretação. O tráfico de escravos no Brasil se encerra em 1835, mas
sabemos que os escravos continuaram entrando sob a forma de contrabando. Logo,
as estatísticas sobre o número de entrada de africanos se encerram, oficialmente,
em 1835, o que não quer dizer que não continuassem entrando africanos.
Todas estas fontes são interpretações de um mundo e todas são válidas. Cabe
ao historiador decodificar estas interpretações e construir a historiografia, o resgate
do passado.
Só do passado?
Não podemos perder de vista que o objeto de estudo da história é o homem
no tempo e este tempo pode ser o passado ou o presente. A história se dedica ao
estudo deste homem e de suas relações sociais a partir da análise de fontes. Ao
estudo da atualidade chamamos de História do Tempo Presente.
Atualmente, entendemos a existência de diversos tipos de fontes, como fo-
tografias, músicas e pinturas, entendendo que cada uma dessas fontes deve ser
analisada de maneira específica.
Um dos mais importantes historiadores do século XX, Lucien Febvre, afirma
que a história é filha do seu tempo. Dessa forma, olhamos para o passado em
busca de respostas para perguntas que nos fazemos hoje e tendemos a incorrer no
equívoco de “julgar” o passado de acordo com categorias que não cabem a ele,
incorrendo em anacronismo.

Arqueologia Penso
no Futuro!
que é uma
prisão do
século XX

Figura 1.1  –  Fonte: <https://humornanet.com/arqueologia-no-futuro/>.

capítulo 1 • 14
Neste quadrinho vemos os “riscos” de tentarmos compreender o passado sem
a adequada análise. Cada momento histórico só pode ser compreendido a partir
do tempo em que ocorreu e, como historiadores, nos cabe tentar recuperar e ela-
borar as interpretações sobre os diversos momentos da história.

Mas, afinal, quem é que faz um historiador?

É muito comum ouvirmos que a história é uma disciplina chata, que a maior
parte dos alunos não gosta de estudar história e que história é só “decoreba”.
Também há aqueles que veem o profissional de história como uma enciclopédia
de assuntos aleatórios, um repositório de curiosidades. As duas visões, embora
equivocadas, possuem um fundamento. Durante muito tempo a história foi vista
como algo “morto”, o estudo de um passado parado no tempo, inerte, a espera
de ser descoberto pelo historiador. Esse historiador era visto, então, como um
erudito, que sabia “de cor” datas e eventos e sua função era meramente reproduzi-
los. A essa reprodução chamávamos ensino de História.
A historiografia produzida seguia a mesma diretriz. Reproduzir eventos, datas
e biografias dos grandes “vultos da História”. Essa forma de fazer história, hoje
ultrapassada, prevaleceu durante algumas décadas e consagrou uma imagem um
tanto deturpada do historiador. Como vimos até agora, o trabalho do historiador
consiste em pesquisar, analisar e construir uma escrita da história.
Para compreendermos melhor como se processa essa escrita da história, vamos
sistematizar o processo de pesquisa e escrita.
1. Delimitação de um tema
2. Escolha de um objeto
3. Elaboração de objetivos
4. Levantamento Bibliográfico
5. Pesquisa de fontes
6. Análise teórica

Vamos ver cada uma dessas etapas.

1. Delimitação de um tema
O tema é um assunto que o historiador escolhe estudar, de forma mais
ampla. Essa escolha é absolutamente pessoal porque é feita a partir de interesses
particulares, de aptidões e desejos que chamam a atenção do pesquisador. Um

capítulo 1 • 15
tema deve ser definido e delimitado claramente. Alguém que deseje estudar o
Século XX e que tenha essa proposta como tema provavelmente jamais acabará seu
trabalho. Século XX, onde? O que, exatamente, será estudado? Para demonstrar o
quê? Onde se pretende chegar?
Todo trabalho de pesquisa se propõe a responder determinadas questões. Sem
estas questões, que são propostas pelo pesquisador, o trabalho se torna meramente
descritivo e não se configura como uma análise, de fato.

2. Escolha de um objeto
É muito importante não confundirmos tema e objeto. O objeto deve ser
específico e ele será o fundamento da pesquisa, aquilo no qual iremos aprofundar
nossos estudos.
Exemplos:
Aguiar, Carolina Amaral de. O Chile na obra de Chris Marker: um olhar para
a Unidade Popular desde a França.
Nesta tese de doutorado o tema é o Chile contemporâneo e o objeto de estudo
a obra de Chris Marker.
Dângelo, Newton. Ouvindo o Brasil: o ensino de história pelo rádio - décadas
de 1930/40.
Neste artigo, o tema é o Ensino de História e o objeto os programas de rádio
nos anos 30 e 40.
MAKINO, Miyoko. Ornamentação do Museu Paulista para o primeiro
centenário: construção da identidade nacional na década de 20.
Neste artigo o tema é a construção da identidade nacional e o objeto, o
Museu Paulista.

É sempre importante que o objeto esteja claro, bem como o período que
se deseja estudar. O trabalho do historiador é sempre minucioso e deve sempre
buscar a coerência.

3. Elaboração de objetivos
Depois de delimitado o tema e o objeto, o historiador traça objetivos para sua
pesquisa. Os objetivos estão intrinsecamente vinculados às hipóteses da pesquisa.
Usando a filosofia para definir as hipóteses, podemos dizer que estas são
“verdades temporárias”.

capítulo 1 • 16
Quando começamos o estudo de um objeto, temos uma ideia, uma percepção
de onde queremos chegar e do que desejamos demonstrar. Essa percepção dá ori-
gem a hipóteses que podem ou não se confirmar ao longo do trabalho. As hipóte-
ses são, portanto, mutáveis e são ajustadas conforme a pesquisa avança.
Tomemos como exemplo um trabalho cujo tema é a escravidão no Brasil
colonial. Como objeto, escolhemos a escravidão feminina urbana na Bahia do
século XVII. Como objetivos, propomos:

PERGUNTA
Investigar as peculiaridades do trabalho escravo feminino.
Analisar as diferenças entre o trabalho doméstico e o escravo de ganho
Distinguir as funções realizadas exclusivamente por mulheres escravas

Alinhados a estes objetivos traçaremos nossas hipóteses.

PERGUNTA
Que havia uma diferença entre o trabalho masculino e feminino na escravidão
Que os trabalhos femininos eram menos valorizados.
Que a mulher escrava que exercia a função de escrava de ganho possuía um estatuto
social diferenciado.

Estas hipóteses podem ser comprovadas? Não sabemos. Só saberemos à medida


que formos analisando as fontes e desenvolvendo a pesquisa. Eventualmente,
uma ou mais destas hipóteses propostas podem não se comprovar e caberá ao
pesquisador rever estas proposições.

4. Levantamento Bibliográfico
Uma das mais importantes etapas da pesquisa é o levantamento bibliográfico,
também chamado de estado da arte. Através deste levantamento é que podemos
saber o que já foi escrito sobre o objeto que escolhemos estudar.

capítulo 1 • 17
É fundamental seguir alguns critérios neste levantamento:
•  Fazer uma busca ampla, desde os livros clássicos até produções mais atuais,
como teses e dissertações.
•  Usar somente trabalhos com qualidade acadêmica reconhecida, produzido
por historiadores ou por especialistas no assunto.
•  Não utilizar sites da internet que não sejam estritamente acadêmicos.

A partir desse levantamento, fazemos uma análise do que já foi trabalhado.


Isso não quer dizer que é obrigatório escolhermos um objeto inédito. Um dos
temas mais pesquisados no mundo é a Revolução francesa e são trabalhos sempre
diferentes. Por mais que o tema se repita, a abordagem, as fontes, a perspectiva, os
objetivos e as hipóteses são diferentes. Uma mesma fonte pode ser analisada por
diversos historiadores e nem por isso teríamos trabalhos idênticos. Cada análise
é única.
A internet contribui bastante para integrar as diversas pesquisas que são
realizadas ao redor do mundo. Entretanto, essa ferramenta também evidenciou
uma prática que é cada vez mais coibida no mundo acadêmico: o plágio.

LEITURA
Cartilha sobre plágio acadêmico: <http://www.noticias.uff.br/arquivos/cartilha-
sobre-plagio-academico.pdf>.

Entendemos como plágio o uso, sem referência de trechos ou de ideias de


outros autores. O plágio fere os princípios éticos da prática acadêmica e tem sido
cada vez mais assunto de debate sobre as formas de coibi-lo.
Uma vez que tenhamos feito um levantamento sobre o que já foi produzido, é
hora de fazer uma análise desse material. É importante sempre que o pesquisador
faça uma explanação sobre trabalhos anteriores que abordaram seu objeto de
estudo, o que auxilia na localização teórica e metodológica da pesquisa que se
pretende realizar.

5. Pesquisa de fontes
É comum nos depararmos com alguns equívocos, quando começamos nossos
estudos, no que diz respeito à fonte histórica. Ainda que, atualmente, o universo

capítulo 1 • 18
de fontes possíveis seja bastante amplo, é preciso cuidado e atenção na seleção
de fontes. Um dos erros mais comuns é acharmos que todo o material que
consultamos é uma fonte e na pesquisa acadêmica isso não é verdadeiro.
Vejamos exemplos:
MARTINS, Ruth B. Do papel ao digital: a trajetória de duas revistas
científicas brasileiras.
As fontes dessa pesquisa são as revistas que se desejam estudar. A estas
fontes podem ser acrescentadas outras, como documentos que o autor considere
relevantes. Entretanto, os livros que foram usados para construir o quadro teórico,
ou o contexto, não são fonte, são bibliografia.
Um outro exemplo:
ABDALA JR., Roberto. O cinema na conquista da América: um filme e seus
diálogos com a história
A fonte deste autor é o filme 1492, a conquista do paraíso, de Ridley Scott. O
objetivo é analisar esta fonte e demonstrar suas hipóteses. Para isso são usadas várias
obras, como livros sobre história e teoria do cinema. Estes livros são bibliografia
enquanto o filme, em si, é a fonte.

6. Análise teórica
Todo trabalho acadêmico necessita de um fundamento teórico independente
da área em que se realiza. A teoria nos fornece os instrumentos necessários para
que possamos analisar nosso objeto de estudo. Sem ela, o trabalho se torna vazio
e uma mera descrição. Será uma narrativa que não terá legitimidade científica.
Existem centenas de teorias, de campos diferentes e autores diferentes. É
importante montar um quadro teórico coerente, com teorias que “conversem”
entre si e sejam afins ao objeto de pesquisa.

Então, este é o ofício do historiador?

Em parte. Este ofício compreende um aspecto de seu trabalho. A pesquisa,


que leva a elaboração de uma tese, um artigo, uma dissertação, é a materialização
do trabalho do historiador. Sua função, entretanto, não é meramente descritiva,
sob nenhum aspecto. Seu papel é sempre analítico. A escrita da história é pessoal,
implica em compreendermos as posições de determinados autores e também de
marcarmos nossa posição no campo da história.

capítulo 1 • 19
Isso implica em dizer que as visões da história são sempre múltiplas, o que per-
mite um universo quase infinito de proposições e análises que vão se sofisticando a
medida que novas teorias são elaboradas, novas fontes são pesquisadas. Por isso a his-
tória é viva, porque ela muda e constrói diálogos constantes entre passado e presente.
E para que serve a história, pergunta que fizemos no início deste capítulo?
A busca pela utilidade é um fenômeno contemporâneo. O saber pode ou não
ter uma “utilidade prática”, o que de forma alguma invalida saberes mais teóricos.
Em última instância, a história “serve” para compreendermos a trajetória do
homem, os mecanismos sociais, políticos e econômicos que foram construídos ao
longo dos séculos e suas implicações na construção do ser social que vemos hoje.
E se isto não bastar, fiquemos então com as palavras de Marc Bloch:

(...) todas as ciências são interessantes, mas todo cientista só encontra uma única
cuja prática o diverte. Descobri-la para a ela se dedicar é propriamente o que se
chama vocação. BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício de Historiador. Rio de
Janeiro: Zahar, 2002. P.39

MULTIMÍDIA
Alguns filmes nos fazem refletir sobre as questões que discutimos neste capítulo. Não
deixe de assistir:
Narradores de Javé. Brasil/2004 Direção: Eliane Caffé. As diversas formas de trabalhador
a memória são o tema deste filme brasileiro de 2004.
O Show de Truman. EUA/1998 Direção: Peter Weir.
Um dos melhores filmes do fim do século XX, o Show de Truman mostra a construção de
uma realidade imaginada elaborada para um público que acaba por desumanizar seu “herói”.

REFLEXÃO
Na primeira parte deste trabalho pudemos conhecer o que faz um historiador, quais as
etapas da pesquisa histórica e levantar questões fundamentais que ainda inquietam os es-
tudantes de história, como a existência de uma “verdade” em história. Discutimos o sentido
da narrativa histórica e a escrita da história, distinguindo-as de outras narrativas, como a
jornalística e a literária.

capítulo 1 • 20
ATIVIDADES
01. (Prefeitura de Fortaleza - CE 2016 – adaptada) Sobre o ofício do historiador, é incor-
reto afirmar que:
a) O historiador tem uma relação próxima com a produção do conhecimento e essa tarefa
é bem sofisticada, pois, para produzir conhecimento, é preciso dominar alguns conceitos
que são próprios dessa atividade.
b) O historiador escreve a partir daquilo que ele pesquisa, e esta é a primeira tarefa para a
produção do conhecimento em história; num certo sentido, é preciso provar aquilo que
se afirma, ou seja, com os documentos que ele consegue em suas pesquisas.
c) No seu ofício, o historiador deve dar uma maior importância a seus instintos e princípios,
ou seja, como não existe imparcialidade na história, a produção historiográfica sempre é
construída de acordo com a influência direta de crenças, ambiente e educação que lhe
foi dada pelos pais e pela escola.
d) Para o historiador efetivar a produção do conhecimento, é preciso uma série de reflexões
que nos auxilia a ir muito além da mera observação de um fenômeno, é preciso superar
essa etapa, conhecer a profundidade daquilo que se deseja estudar.
e) Ainda que entendamos não haver imparcialidade em história, o historiador não deve ser
tendencioso e está comprometido com as fontes para o estudo de seu objeto.

02. (Upe 2014) Existe em todo historiador, em toda pessoa apaixonada pelo arquivo uma
espécie de culto narcísico do arquivo, uma captação especular da narração histórica pelo ar-
quivo, e é preciso se violentar para não ceder a ele. Se tudo está arquivado, se tudo é vigiado,
anotado, julgado, a história como criação não é mais possível: é então substituída pelo arqui-
vo transformado em saber absoluto, espelho de si. Mas se nada está arquivado, se tudo está
apagado ou destruído, a história tende para a fantasia ou o delírio, para a soberania delirante
do eu, ou seja, para um arquivo reinventado que funciona como dogma.
(ROUDINESCO, Elisabeth. A análise e o arquivo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, p.
09.)

Refletindo sobre o historiador e sua relação com os arquivos, o texto nos mostra que:
a) Todo conhecimento histórico se encerra dentro dos arquivos, e o historiador é um mero
reprodutor de documentos oficiais.
b) Só por meio do arquivo, no século XXI, ele pode retratar o passado tal qual foi.
c) Essa relação é ambivalente, e, ao mesmo tempo em que ele necessita do arquivo para
legitimar sua narrativa, deve ter o cuidado de não transformá-lo num saber absoluto.

capítulo 1 • 21
d) No seu trabalho, é melhor a ausência de arquivo que o excesso.
e) Todo conhecimento histórico é produzido sem necessidade dos arquivos.

03. (Udesc 2015) “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passa-


do. Mas talvez não seja menos vão esgotar-se em compreender o passado se nada se sabe
do presente.”
Marc Bloch. Apologia da História ou o ofício do historiador.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 65.

Assinale a alternativa que contém a definição de história mais coerente com a citação do
historiador Marc Bloch.
a) A História é a ciência que resgata o passado para explicar o presente e fazer previsões
sobre o futuro.
b) A História é uma ciência que visa promover o entretenimento dos expectadores do
presente e um conhecimento inútil sobre o passado.
c) A História é, tal como a literatura, uma narrativa sobre o passado determinada pela
imaginação do historiador.
d) A História é a ciência que se refugia no passado para não compreender as questões do
presente.
e) A História é uma ciência que formula questões sobre o passado a partir de inquietações
e experiências vividas no presente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TEODORO, M. A. . O Enigma Tiradentes. 2ª. ed. São Paulo: AgBook, 2014.
BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
CORTEZ, Hernan. A Conquista do México. Porto Alegre: L&PM, 1996.
LAS CASAS, Frei Bartolomeu. O Paraíso Destruído (1502). São Paulo: L&M Pocket, 2001.

capítulo 1 • 22
2
A História tem uma
história
A História tem uma história
O que hoje chamamos de História é bem diferente das primeiras tentativas
de se escrever a história, ainda na Grécia clássica. Estudar a trajetória da história
até que esta se entenda como ciência no século XIX é um dos propósitos desta
unidade. Veremos que as transformações foram intensas e que o modo de pensar a
história sofreu e sofre mudanças caracterizando a história como uma ciência viva
e em constante transformação.

OBJETIVOS
•  Identificar as primeiras abordagens históricas;
•  Caracterizar a História na Grécia Clássica;
•  Analisar a história na modernidade;
•  Distinguir as diversas abordagens da filosofia da história;
•  Reconhecer a formação da história enquanto ciência no século XIX.

Os sentidos da ciência

Se fizermos uma pesquisa perguntando se a História é uma ciência é bem


provável que a maior parte das respostas obtidas seja sim. Hoje esse caráter
científico da história é, entre o senso comum, quase indiscutível.
Mas será que a história é mesmo ciência?
E mais, será que sempre foi considerada ciência?
A resposta para a primeira pergunta é múltipla. Já a segunda interrogação
pode ser respondida com uma negativa clara. Não, nem sempre a história foi
considerada uma ciência.
Nosso primeiro problema, ao começarmos estas indagações, é o que
entendemos, afinal, como ciência? Segundo Ricardo Abramovay:

A ciência retira sentido do mundo, já que faz dele um ‘ cosmos de causalidade natural’,
algo perfeitamente explicável e, portanto, desprovido de mistério. Ao mesmo tempo, a
ciência se caracteriza exatamente pela impossibilidade de uma visão única, completa,

capítulo 2 • 24
acabada a respeito dos fenômenos que estuda: é provisória por definição e, portanto,
é aí que reside exatamente sua força, que consiste sempre em ser superada por novos
avanços. (ABRAMOVAY, 2004)

Nesse sentido, podemos entender como ciência aquilo cujas ideias e princípios
podem ser alterados. Acreditava-se que a terra era plana e esta era uma ideia
científica, até ser substituída por outra, baseada em estudos e experimentações,
onde passou a ser entendido que a terra era redonda. O pensamento de que o sol
girava em torno da terra foi uma vez científico sendo depois substituído por outro
modelo, no qual é a terra que gira em torno do sol.
A história, enquanto ciência, tem uma trajetória própria e as primeiras
iniciativas históricas não são consideradas científicas.

O “nascimento da história” no Ocidente

Estamos falando da Antiguidade, onde as primeiras tentativas de sistematizar


uma história surgem. Neste aspecto, Heródoto será considerado como o pai da
História sendo sua obra, denominada Histórias, uma das primeiras obras históricas
já produzidas.
Estima-se que Heródoto tenha nascido em Halicarnasso, aproximadamente em
484 a C. Oriundo de uma família de pessoas letradas e ilustres, desde cedo teve
contato com a literatura de sua época. Questões políticas envolvendo sua família o fez
buscar abrigo na Ilha de Samos. Após deixar Halicarnasso fez inúmeras viagens nas
quais se tornou um astuto observador das sociedades que encontrava. Estabeleceu-se
em Atenas, uma das mais importantes cidades da Grécia clássica, tendo falecido nos
primeiros anos da Guerra do Peloponeso, ocorrida entre 431 a 404 a.C
O mundo de Heródoto era uma realidade conflituosa. As guerras contra
os persas e a Guerra do Peloponeso influenciaram sua vida e sua obra. Em suas
histórias, ele coloca como objetivo preservar a memória das realizações humanas.
Heródoto não é exatamente o primeiro a buscar descrever eventos ditos
históricos. Antes dele, Hesíodo já havia escrito, em forma de poesia, sua Teogonia,
na qual explicava o nascimento do mundo. Há, entretanto, muitas diferenças entre
a obra de Heródoto e daqueles que o antecederam, como Hesíodo e Homero.
De modo geral, tanto Hesíodo como Homero misturam narrativas mitológicas
as suas próprias narrativas, combinando mito e eventos. Diferente deles, Heródoto
entende que sua escrita é baseada em suas observações e que não é influenciada
pelos deuses ou pelas musas.

capítulo 2 • 25
Outro ponto importante é que Heródoto busca o testemunho, o relato
daqueles que viveram os eventos históricos que ele deseja imortalizar. Logo, a obra
de Heródoto é ciência de fato, certo?
Como hoje entendemos, não. Os testemunhos que Heródoto recolhe são de
pessoas consideradas por ele como “confiáveis”, ou seja, homens cultos e da elite.
Eles representavam uma parcela pequena da população e tinham, é claro, uma
visão extremamente comprometida.
Cabe fazermos aqui um aparte sobre testemunhos e sobre a história oral para
evitarmos algum lá entendido que possa ocorrer mais adiante em nossa leitura.
A história oral nem sempre foi uma ferramenta considerada válida. Ela começa
a ser utilizada a partir das transformações operadas nos anos 30 do século XX, com
a ampliação de fontes da Escola dos Annales, que veremos em nosso próximo
capítulo. Ainda assim, a fonte oral passa por um processo criterioso de análise e
crítico, no qual se localiza o lugar de fala do informante, suas perspectivas próprias
etc. Ou seja, hoje entendemos o testemunho oral como um aspecto particular,
um ponto de vista e não como a verdade. Diferente, portanto, da forma como
Heródoto a entendia, pois para ele a palavra daquelas “testemunhas oculares” era
real, verdadeira e não cabia contestação.
Ora, quem melhor para dizer o que houve do que a elite que viveu o momento?
Ignora-se, portanto, a visão de mulheres, camponeses, homens pobres em geral.
Além disso, o aspecto mitológico, característico da narrativa grega, acaba por
obliterar a análise histórica de Heródoto.
Heródoto não foi o único a se aventurar na escrita da História. Tucídides, que
se dedicou a estudar a Guerra do Peloponeso foi também de grande importância
para as primeiras sistematizações da escrita histórica. Diferente de Heródoto,
Tucídides era ateniense. Tendo nascido e vivido em uma das mais importantes
cidades gregas, sem dúvida influenciou sua obra e sua forma de ver o mundo.
Viveu a o período da guerra do Peloponeso sobre o qual escreveu, como analista e
como testemunha. Sobre ele, o historiador Leopold Von Ranke coloca que:

A narrativa de Tucídides é totalmente analítica; ele preza particularmente a cronologia


precisa. Em tudo, inclui acontecimentos que outros poderiam considerar insignificantes,
pois seu propósito é registrar o que aconteceu. Mas neste propósito assenta um desen-
volvimento que volta e meia salienta, de modo que a atenção do leitor está sempre, si-
multaneamente, voltada para o geral. Os méritos de sua narrativa aumentam e diminuem
com os acontecimentos (RANKE, 2011 p 257).

capítulo 2 • 26
Tomando como base estas duas narrativas, de Heródoto e de Tucídides, pode-
mos aferir que os gregos, ao dar início a narrativa histórica, preocupavam-se com a
história do tempo presente, com o que viviam e com aquilo que possuía testemu-
nho oral. O curioso é perceber que esta que hoje chamamos de História do Tempo
presente foi, durante muito tempo, deixada de lado pois, comparada a sociologia,
não era vista propriamente como uma área de estudos da história.

LEITURA
A questão da filosofia e da ciência e sua relação é, ainda hoje, fonte de debates
intelectuais e tema de trabalhos acadêmicos como o de Renato Pereira, que afirma em seu
trabalho que:
A compreensão de que o pensamento filosófico está associado ao pensamento científico,
na historiografia das ciências, foi, por vezes, questionada. Não era estranha a afirmação de
que ao historiador cabia estabelecer os fatos históricos de uma ciência ou de um cientista
e a ligação entre eles, enquanto que o estudo do sistema filosófico da época dessa ciência
caberia ao filósofo. Em síntese, existia uma fronteira no interior da história das ciências que
impedia a realização de uma história do pensamento científico, pois se os fatos históricos
são objetos do historiador, o pensamento era objeto do filósofo; ou fazia-se uma história
dos acontecimentos científicos ou uma filosofia do passado da ciência. Uma nova relação
foi estabelecida entre a filosofia2 e a história das ciências no final do século XIX. Outro
fator que determinou para que nosso percurso iniciasse nesse período é o surgimento do
conceito de Renascimento, que só apareceu no pensamento historiográfico em 1860. Não
era possível escrever uma história das ciências no Renascimento antes do próprio conceito
de Renascimento.
Veja mais em: PEREIRA, Renato Fagundes. A ciência na historiografia do Renascimento:
de Jacob Burckhardt a Alexandre Koyré / Renato Fagundes Pereira. - Dissertação (Mestrado)
– Universidade Federal de Goiás, Faculdade de História, 2013.

Por uma “História Moderna”

A trajetória do pensamento histórico seria retomada como matéria de interesse no


século XVI, já sob influência do racionalismo e do estado moderno. Mas ainda não
era uma “história ciência” como hoje a entendemos, mas sim algo que se aproximava
mais de uma filosofia da história, com uma perspectiva humanista e racional.

capítulo 2 • 27
Como sabemos, o Renascimento foi um dos mais importantes momentos da
história moderna. Sua sofisticação e as alterações operadas nas mais diversas áreas
quase nos fazem esquecer que, na verdade, o renascimento começa ainda na Idade
Média e recebe influências tanto das estruturas mentais medievais quanto das rup-
turas que caracterizariam a idade moderna. É sempre importante lembrar que
o Renascimento não foi, de forma alguma, uma mudança meramente cultural,
embora seja o campo artístico aquele mais notado, pois os renascentistas como
Leonardo da Vinci ainda são amplamente discutidos. Entretanto, o Renascimento
suscita debates nas ciências, na economia, na filosofia e em outras áreas sendo o
conceito de ciência um tema de debate constante que chegaria até o iluminismo.
É o Renascimento que primeiro recupera a cultura clássica, não só nas artes
plásticas, mas também na estrutura do conhecimento. Cícero, filósofo e orador,
e recuperado como exemplo de homem público. Já o grego Plutarco, tem sua
obra sobre as vidas dos imperadores sendo entendida como exemplo de uma
historiografia que diversifica as concepções de Heródoto e Tucídides.
Essa primeira ideia de filosofia histórica tem um caráter quase pedagógico, daí
a importância da retomada de nomes como Cícero e dos discursos ancorados em
uma ideia de cidadania que perpassaria o discurso filosófico e político dos séculos
XVII e XVIII.
É a obra de Cícero que permite a construção do humanismo, tema tão caro aos
renascentistas. As discussões focadas no homem e não mais em uma perspectiva
meramente teológica enriquecem os debates intelectuais do século XVIII.
Soma-se a isso a emergência do despotismo esclarecido, que levou a existência
de uma “classe” de reis filósofos, monarcas e governantes que estimulavam
sobremaneira o conhecimento e a erudição.

LEITURA
O despotismo esclarecido pode ser definido como uma forma de governar em que
aspectos do absolutismo se somavam a algumas características iluministas. A Historiadora
Lilia Schwarcz analisa o déspota esclarecido português, Marquês de Pombal e as medidas
que este toma após o terremoto que destruiu Lisboa apontando como estas se adequam ao
despotismo esclarecido pombalino.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa
à independência do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2002.

capítulo 2 • 28
A construção de uma certa tradição erudita fez com que a História ganhasse
áreas de narrativa. A análise da narrativa histórica é, desde então, tema de análise
nas discussões de teoria da história.
O iluminismo do século XVIII traz luz a uma nova preocupação com relação
às ciências e, em particular, à história. Os iluministas buscavam disponibilizar o
conhecimento e tinham a pretensão de organizar obras que compilassem conhe-
cimentos diversos para facilitar sua disseminação. O trabalho mais notável neste
sentido é, sem dúvida, a Encyclopedie, elaborada por Diderot e D`Alembert com a
cooperação de diversos autores como Voltaire a quem coube escrever a definição do
verbete História. A iniciativa de Voltaire, no entanto, não foi a única. Outro verbete
história foi escrito por Jean-François Marmontel e nunca publicado. Marmontel
estava preocupado com a questão da retórica histórica enquanto Voltaire havia já
avançado um pouco mais na discussão, sendo seu verbete focado na concepção de
que ao historiador cabia trazer a verdade. Em comum, ambos se preocupam com a
questão da certeza histórica, que deve ser comprovada por fontes escritas e pela ideia
de que a história é uma “arte do espírito” como coloca Daniela Kern.

Enquanto Marmontel se detém com mais vagar em exemplos de estilo tirados de Tácito
e Tito Lívio, apontando as fragilidades da escrita contemporânea da história, sem cogitar
o uso de outras fontes pelo historiador que não as textuais, Voltaire se ocupa com a dis-
tinção entre história e mito e com a especulação sobre a utilidade ou não dos objetos de
antiquário, dos monumentos, como fontes para a pesquisa histórica. Também põe em xe-
que a expectativa de certeza na história: “Toda certeza que não é demonstração matemá-
tica não passa de uma extrema probabilidade. Não há outra certeza histórica”. Marmontel
reforça essa afirmação, pois compartilha com Voltaire a leitura atenta da obra de Pierre
Bayle. Pelo menos mais um ponto Marmontel e Voltaire apresentam em comum em seus
respectivos verbetes: a ideia de que a história é uma arte do espírito e de que, como tal,
poucos são os artistas capazes de bem executá-la. (KERN, 2013 p 315)

Esse debate, acerca da veracidade da escrita histórica e da natureza das fontes


seria fundamental no século seguinte, onde a história se consolidaria como ciência
e como disciplina.

O século XIX e o predomínio da ciência

É, de fato, no século XIX, que o debate científico ganha impulso. Não


podemos esquecer que toda ciência é fruto de seu próprio tempo e o século XIX é
propício ao desenvolvimento científico.

capítulo 2 • 29
Mas... por quê?
Vamos voltar um pouquinho para poder entender melhor as transformações
que nos levaram ao “século da ciência”.
No século XVIII a Inglaterra fez a chamada Revolução Industrial. A primeira
questão que devemos perceber é que chamamos esse momento de “revolução”
mesmo não tendo sido um conflito armado ou uma guerra civil. Logo, Revolução,
neste sentido, se refere a uma grande transformação, neste caso, uma transformação
no modo produtivo.
Essa mudança no modo de produzir – do trabalho artesanal para o
maquinofaturado – alterou toda a estrutura social política e econômica e, de certa
forma, consolidou o mundo contemporâneo como o conhecemos.
Se a Era Moderna constrói e afirma a classe burguesa, na Era Contemporânea
essa burguesia divide espaço com outro importante ator social, nascido da
industrialização: o operariado.
O século XIX é palco da chamada Segunda Revolução Industrial, quando
o modelo produtivo inglês se espalha por alguns países europeus e, em alguns
casos, ultrapassa as barreiras continentais, alcançando a Ásia – através do Japão e
da Revolução Meiji – e a América – com a industrialização dos Estados Unidos.

MULTIMÍDIA
O filme O Último Samurai descreve o processo da Revolução Meiji e o choque entre as
antigas e novas culturais no mundo japonês.
O Último Samurai
Direção: Edward Zwick
EUA/Japão
2003

A tecnologia acompanha as mudanças produtivas. Novas máquinas são


desenvolvidas quando o objetivo de produzir mais em um espaço de tempo menor.
As condições de trabalho são insalubres, não há direitos trabalhistas e jornadas
de 18 horas nas fábricas são comuns. Também é comum o trabalho infantil e
o trabalho feminino, ambos remunerados de forma diferenciada ao trabalho
masculino.

capítulo 2 • 30
As questões sociais passam a se tornar assunto para debate entre os intelectuais
e a filosofia da história começaria a delinear mais claramente alguns principais
como a racionalidade e o processo histórico.
Destacamos os trabalhos de Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx.
O princípio de filosofia da História, para Hegel, consiste no entendimento de
que os fenômenos sociais só podem ser entendidos se analisados a partir de sua
concepção histórica. Nesse sentido, temos uma perspectiva fortemente racionalista
e a busca por uma história universal posto que, para Hegel, a razão é o que governa
o mundo. A capacidade de pensar e a própria racionalidade está, por sua vez,
submetida, necessariamente, ao real. Ele afirma que:

Nunca, desde que o Sol começou a brilhar no firmamento e os planetas começaram


a girar ao seu redor, se havia percebido que a existência do homem está centrada em
sua cabeça, isto é, no pensamento, a partir do qual ele constrói a realidade efetiva.
Anaxágoras foi o primeiro a dizer que o nous rege o mundo; mas só agora o homem
reconheceu que o pensamento deve governar a efetiva realidade espiritual. Assim se
deu um glorioso amanhecer. Todos os seres pensantes comemoram essa época. Uma
sublime comoção dominou naquele tempo, um entusiasmo do espírito estremeceu o
mundo, como se só agora tivesse acontecido a efetiva reconciliação do divino com o
mundo. (HEGEL, 1999 p. 366)

Entretanto, talvez um dos pontos mais interessantes – e controversos –


da filosofia da história Hegeliana seja ele entender que há um fim da história.
Pioneiro em enunciar este fim, Hegel foi recuperado posteriormente, por autores
como Francis Fukuyama que também se amparavam na ideia de que a história
teria um fim.
Um dos críticos de Hegel foi Karl Marx que, por sua vez, compreendia o estudo
da história a partir da análise das forças produtivas. Bresser- Pereira coloca que:

A filosofia da história começou com Joan Batista Vico, foi central para o Iluminismo,
passou por Kant e por Herder, chegou a Hegel, e afinal encontrou uma expressão
clássica em Marx e nas suas conhecidas fases da história: o comunismo primitivo, o
escravismo, o feudalismo, o capitalismo, o socialismo e o comunismo. Até à fase ca-
pitalista podemos criticar o excessivo grau de abstração de sua análise, mas há um
acerto básico. O perigo que apresenta esta como todas as periodizações é de levar
analistas apressados a imaginar de que se trata de um modelo universal e necessá-
rio, de forma que todos os países do mundo deverão passar necessariamente pelas

capítulo 2 • 31
mesmas etapas. Marx classificava os modos de produção de acordo com seu grau de
desenvolvimento tecnológico e com a complexidade de suas relações de produção.
Nesse sentido, modos de produção mais avançados representam um estágio supe-
rior em relação ao outro, estão crescentemente afastados das comunidades primitivas.
(BRESSER-PEREIRA, 2011)

Devemos entender a obra de Karl Marx de forma múltipla, evitando equívocos


entre suas propostas teórico metodológicas para a escrita da história e suas
propostas político ideológicas. A discussão acerca da validade ou não dos projetos
políticos de Marx não é o foco de nossa discussão quando falamos em teoria da
história. Nosso objetivo é compreender como este autor concebe a história e as
diversas formas de fazer história.
Nesse sentido, a obra de Marx é fundamental para a constituição de diversos
campos da história, em especial da história econômica, onde os paradigmas
formulados por ele ainda são considerados importantes do ponto de vista conceitual.
Destaca-se o materialismo histórico, onde entende-se que a história deve ser
entendida a partir dos modos de produção das sociedades humanas, ou seja, das
condições materiais de produção. A partir dessa premissa Marx elabora a tese de
que a história do homem é a história da luta de classes, o que norteara boa parte
de seu pensamento história, filosófico e político.
Cabe lembrar que tanto Marx quanto Hegel eram alemães e viveram em um
momento em que a Alemanha ainda não havia se unificado. A realidade alemã,
dividida em reinos, afetou a obra destes autores e foi também campo fértil para
que estas ideias fossem disseminadas. Considerando o contexto do século XIX,
dois países se destacaram na conformação da História enquanto ciência. Um, a
Alemanha de Marx e Hegel e o outro, a França de Auguste Comte.

A história ciência: o positivismo e o historicismo

A filosofia da História se segue à conformação da história enquanto ciência em


um momento em que diversas ciências humanas estavam se consolidando. A gran-
de questão que se coloca é que métodos e teorias devem ser utilizados pelas ciências
humanas para que estas de fato, sejam pensadas enquanto ciência. A resposta pare-
ceu relativamente simples: o método das ciências exatas que sempre foram, inequi-
vocamente, pensadas como ciência. Surge assim o fundamento da escola metódica,
ou positivismo, que vai se desenvolver, sobretudo, na Alemanha e na França.
Assim como foi na Alemanha que a filosofia da história ganhou espaço, foi
também neste país em construção que, de certa forma, “nasce” a história ciência.

capítulo 2 • 32
O precursor é Leopold Von Ranke. Ranke retoma a obra dos gregos clássicos,
notadamente de Tucídides, a quem admira pelo caráter detalhista da escrita – é
de Ranke a citação que vimos no início deste capítulo, sobre os autores gregos
Heródoto e Tucídides.
Ao desenvolver a história científica alemã, que ficou conhecida como
historicismo, Ranke busca revelar a verdade através do uso de fontes históricas
oficiais e escritas. Apenas estas fontes são consideradas válidas. Nesta perspectiva,
o papel do historiador é meramente descrever o que aconteceu, recuperar a
história através das fontes, sem juízo de valor ou análise pessoal. Cabe lembrar
que o trabalho de Ranke será fundamental para construir a identidade e o
nacionalismo alemão pós unificação, que ocorre em 1871. O objeto por excelência
do historicismo é a história política e o uso de fontes diplomáticas, oriundas do
estado, compuseram - para este autor - uma base sólida de pesquisa onde a verdade
seria revelada através do trabalho minucioso e isento do historiador.
No caso da França, sempre que falamos em positivismo nos vêm a mente,
inevitavelmente, o nome de Auguste Comte.
Comte foi um dos principais pensadores franceses e estabeleceu as bases do
positivismo como movimento político e ideológico. No Brasil, sua influência é
notável tendo, inclusive, estimulado a criação de uma igreja positivista no Rio
de Janeiro, onde se valorizava a razão e onde ocorriam reuniões intelectuais e
políticas. O Positivismo comteano influenciou a primeira constituição republicana
de 1891 e o lema da bandeira brasileira, Ordem e Progresso, sendo estes apenas
alguns exemplos mais evidentes da importância do positivismo que transcendeu
rapidamente as fronteiras francesas.
Como pensamento social, o positivismo que é defendido por Comte é
fundamental para a sistematização da história enquanto ciência, bem como das
demais ciências humanas, pois se ampara na busca pela definição de métodos
e teorias, neste caso, herdadas das ciências exatas. O positivismo entende a
razão humana como absoluta e entende a sociedade – que chegou em um grau
de desenvolvimento em que impera o domínio da razão – como um organismo
racionalmente concebido e organizado, podendo ser comparado ao mecanismo
de um relógio.
Na história, entretanto, o positivismo se desenvolve a partir de outros nomes,
dos quais destacamos dois: Gabriel Monod e Fustel de Coulanges.
Monod funda, em 1876, a Revista História (Revue Historique) que seria
fundamental para disseminar os princípios do positivismo francês na História.

capítulo 2 • 33
Cabe retomar o verbete de Voltaire, ao qual já aludimos anteriormente e que
compõe a Encyclopedie iluminista: “História é a narrativa de fatos apresentados
como verdadeiros, em contraste com a fábula, a qual é a enumeração de fatos
apresentados como falsos. Existe a história das opiniões a qual nada mais é que uma
coleção de erros humanos.” Essa concepção herdada da ilustração é desenvolvida
pelo positivismo francês que, a exemplo do alemão, demanda uma busca pela
verdade e reivindica a imparcialidade e neutralidade do historiador que assume o
papel de escriba e não de analista.
Os princípios positivistas franceses podem ser pensados como um projeto de
ciência histórica, que possui sua própria historiografia. Neste sentido, o melhor
exemplo pode ser encontrado na obra de Fustel de Coulanges, em especial no
trabalho A Cidade Antiga, onde aplica os princípios da história dita científica.
Coulanges defende a possibilidade de o historiador levantar fontes – somente
escritas – e analisá-las de forma imparcial e neutra, sem interpretar aquilo que lê.
Esta é a tentativa que empreende ao escrever a cidade antiga, colocando-se como
um observador.
É muito importante que tenhamos em mente que, embora esta forma de
pensar a história tenha sido válida durante algum tempo e, é claro, tenha sido
fundamental para a forma como a história se estrutura enquanto disciplina
acadêmica e saber científico, ela é hoje vista como superada.
Atualmente, após inúmeros estudos e uma enorme ampliação do campo
histórico e da própria definição de fonte – que veremos no capítulo 3 – o
historiador não busca mais a verdade, pois entendemos que a verdade, como
queriam os positivistas, não existe. Nenhum documento traz a verdade absoluta
– nem os documentos oficiais. Toda fonte é uma escolha de alguém, em algum
momento. E uma forma de ver o mundo, uma pequena janela que nos permite
uma visão parcial, mas que nos interdita a vista da paisagem completa.
A despeito das inúmeras transformações teóricas e metodológicas pelas
quais a história passou, uma parte considerável do chamado “ensino tradicional”
ministrado na educação básica ainda se ancora na forma positivista de ver a
história. Entretanto, mesmo na educação básica, esta metodologia tem sido
progressivamente substituída por novas visões, como o construtivismo e as
perspectivas de construção do conhecimento coletivas, entendendo o aluno
como sujeito histórico. Para os positivistas, como suas fontes se limitam às fontes
escritas e oficiais, seus objetos de estudo e áreas de análise também são limitados
aos grandes vultos e a história política, fundamentalmente. Nesta concepção o que
importa é o fato enquanto as novas propostas históricas valorizam a análise.

capítulo 2 • 34
REFLEXÃO
Vimos as diferentes formas de se pensar a história até sua concepção como ciência
no século XIX. Durante o século XX, novas formas de conceber e compreender a história
irão se desenvolver e esta maneira de fazer história que vimos surgir no século XIX será,
progressivamente, superada.

ATIVIDADES
01. (IF - PA 2015) “Na Antiguidade clássica, muito ao contrário, a história recente era o foco
central da preocupação dos historiadores. Para Heródoto e Tucídides, a história era um repo-
sitório de exemplos que deveriam ser preservados, e o trabalho do historiador era expor os
fatos recentes atestados por testemunhos diretos. Não havia, portanto, nenhuma interdição
ao estudo dos fatos recentes, e as testemunhas oculares eram fontes privilegiadas para a
pesquisa” (FERREIRA, Marieta de Moraes. História do tempo presente: desafios. Petrópolis:
Cultura Vozes, 2000, p. 17)

Com base no texto é INCORRETO afirmar que:


a) O historiador do presente deve seguir o exemplo de Heródoto e Tucídides, preservar seu
testemunho ocular sobre os fatos e garantir a verdade sobre o tema da pesquisa.
b) O texto sugere que pode haver pesquisadores que não reconhecem o tempo presente
como possível de estudo.
c) O historiador da Antiguidade adotava a história recente como objeto de pesquisa.
d) No método adotado por Heródoto e Tucídides, as fontes orais tinham relevância significativa.
e) Para os historiadores da Antiguidade, a história vivida no presente merece registro e
garantia de posteridade.

02. (Ufu - 2005 - adaptada) Hegel, em seus cursos universitários de Filosofia da História,
fez a seguinte afirmação sobre a relação entre a filosofia e a história: “O único pensamento
que a filosofia aporta é a contemplação da história”.
HEGEL, G. W. F. Filosofia da História. 2 ed. Brasília:
Editora da UnB, 1998, p. 17.
De acordo com a reflexão de Hegel, é correto afirmar que:
I. A razão governa o mundo e, portanto, a história universal é um processo racional.
II. A ação dos homens obedece a vontade divina que preestabelece o curso da história.

capítulo 2 • 35
III. No processo histórico, o pensar está subordinado ao real existente.
IV. A ideia ou a razão se originam da força material de produção e reprodução da história.
Assinale a alternativa que contém somente assertivas corretas.
a) III e IV c) II e III e) I e IV
b) I e II d) I e III

03. (Ufu - 1998) Sobre o positivismo, como uma das formas de pensamento social, pode-
mos afirmar que:
I. É a primeira corrente teórica do pensamento sociológico preocupada em definir o objeto,
estabelecer conceitos e definir uma metodologia.
II. Derivou-se da crença no poder absoluto e exclusivo da razão humana em conhecer a
realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais.
III. Foi um pensamento predominante na Alemanha, no século XIX, nascido principalmente
de correntes filosóficas da Ilustração.
IV. Nele, a sociedade foi concebida como um organismo constituído de partes integradas e
coisas que funcionam harmoniosamente, segundo um modelo físico ou mecânico.
a) II, III e IV estão corretas. d) I e III estão corretas.
b) I, II e III estão corretas. e) Todas as afirmativas estão corretas.
c) I, II e IV estão corretas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABRAMOVAY, Ricardo. A razão do Ocidente: o processo de racionalização em
Weber. Folha de São Paulo, 14 fev. 2004, Caderno de Resenha. Disponível em: http://www1.folha.
uol.com.br/fsp/resenha/rs1402200409.htm. Acesso em: 04 out 2018.
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. As duas fases da História e as fases do capitalismo In: Escola
de Economia de São Paulo Textos para discussão 278 Maio de 2011 Disponível em: <https://
bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/8081/TD%20278%20-%20Luiz%20
Carlos%20Bresser%20Pereira.pdf>. Acesso em: 08 out de 2018
COULANGES, Fustel de. A cidade Antiga. RJ: Ediouro, 2004
RANKE, Leopold Von Heródoto e Tucidides In: História da historiografia Ouro Preto Numero 6
Março 2011 PP. 252-259 Disponível em: https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/
viewFile/252/196 Acesso em: 08 de out de 2018
REIS, José Carlos. A história entre a filosofia e a ciência. Belo Horizonte: Autêntica, 2011

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KERN, Daniela. Um verbete jamais publicado na Enciclopédia: “História”, de Marmontel In: História
da historiografia Ouro Preto Numero 11 Abril Março 2013 PP. 313 - 317 Disponível em: https://www.
historiadahistoriografia.com.br/revista/article/viewFile/501/364 Acesso em: 08 de out de 2018
PEREIRA, Renato Fagundes. A ciência na historiografia do Renascimento: de Jacob Burckhardt
a Alexandre Koyré / Renato Fagundes Pereira. - Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de
Goiás, Faculdade de História, 2013.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da História. 2ª edição. Trad. Maria Rodrigues e Harden.
Brasília: Editora da UnB, 1999.
VOLTAIRE, History. In: Encyclopedia of Diderot & D´Alembert. Vol. 8 (1765), pp. 220–225
Disponível em http://hdl.handle.net/2027/spo.did2222.0000.088 Acesso em: 08 de out de 2018

capítulo 2 • 37
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3
O movimento dos
Annales
O movimento dos Annales
A revista dos Annales, fundada em 1929, teve a capacidade de oferecer uma nova
perspectiva a escrita da história. Lucien Febvre e Marc Bloch fundaram a Revista
Les Annales d´ Histoire Économique et Sociale, em 1929. Tinham como objetivos:
eliminar o espírito de especialidade, promover a pluridisciplinaridade, favorecer a
união das ciências humanas, substituir a tradicional narrativa de acontecimentos
por uma história-problema, trabalhar com a história das atividades humanas e não
apenas a história política.
A Revista dos Annales surge numa época em que a “escola metódica” exalta
a sua preocupação com a dimensão política - procurando dar grande ênfase ao
acontecimento. Os Annales vão focar sua atenção da vida política para a atividade
econômica e a organização social.
Esse capítulo visa apresentar ao aluno o nascimento da escola dos Annales
bem como as três gerações que marcaram a escola francesa. Além disso vamos
conhecer também como essa escola influenciou o movimento da escola italiana.

OBJETIVOS
•  Conhecer a Escola dos Annales;
•  Entender as três gerações da Escola dos Annales;
•  Conhecer a Escola Italiana;
•  Relacionar o pensamento dessas escolas com a forma de escrita da história.

O surgimento do movimento do Annales bem como suas características e


influências deve ser pensado a partir do contexto o qual propiciou a Marc Bloch,
Lucien Febvre e outros autores a criação, em 1929, da revista Annales d’histoire
économique et sociale.
Desde o final do século XIX e início do século XX o historicismo passou a so-
frer pesadas críticas de diferentes intelectuais que não concordavam com sua me-
todologia de análise. Em 1900, o filósofo Henri Berr fundou a Revue de Synthèse
historique, pois recusava-se a aceitar que a história era uma simples reprodução
de fatos, como acreditava Leopold Von Ranke. Junto a Henri Berr outros inte-
lectuais de diferentes disciplinas contribuíram com sua forma de pensar, como
o geógrafo Paul Vidal de La Blanche e o sociólogo Émile Durkheim. Berr teve

capítulo 3 • 40
papel fundamental para a formação intelectual de Febvre, fazendo com que este
aumentasse cada vez mais seu interesse pela geografia histórica. Além de Henri
Berr, Vidal de La Blanche também havia sido antigo professor de Febvre.
A partir de críticas como esta, na mesma lógica, em 1906 surgiu na França um
grupo de historiadores voltado para os estudos econômicos dedicados a pesquisas
com temas e metodologias inovadoras, liderado por Paul Mantouz. Assim, aos
poucos e continuamente foram surgindo novas formas de se pensar a história e a
sociedade com características em comum.
A relação direta estabelecida por Ranke entre a história e a narrativa dos
acontecimentos políticos e a valorização da história, apenas dos grandes dirigentes
e chefes militares passou a sofrer enormes críticas. Se podemos atribuir o
entendimento da História como ciência aos esforços teóricos de Ranke, a forma
de analisar a História já não dava conta de se entender a complexidade das relações
sociais no decorrer do tempo.
Os Annales surgiram, assim, como herdeiros dessas mudanças e da Revue
de Synthèse historique, que desde a sua fundação já pregava a valorização da
interdisciplinaridade conclamada a ser utilizada entre as diferentes ciências que
tratavam do homem.
Para alguns historiadores como Peter Burke, por exemplo, o surgimento dos
Annales não estava ligado apenas à fundação de uma revista ou à inauguração
de uma escola. Esse surgimento representou um movimento de transformações
historiográficas muito maior, chegando a comparar as mudanças trazidas pelo
grupo a uma revolução dentro da própria história1.
Não se pode negar, contudo, que a revista e as inovações atribuídas por
seus intelectuais surgiram a partir de um ambiente de muitas transformações
acadêmicas. Sobre o nascimento dessa nova forma de olhar para a história, afirma
Nilo Odália na apresentação do livro de Peter Burke sobre a Escola do Annales:
A necessidade de uma história mais abrangente e totalizante nascia do fato de
que o homem se sentia como um ser cuja complexidade em sua maneira de sentir,
pensar e agir não podia reduzir-se a um pálido reflexo de jogos de poder, ou de
maneiras de sentir, pensar e agir dos poderosos do momento.
Fazer uma outra história, na expressão usada por Febvre, era, portanto, menos
redescobrir o homem do que, enfim, descobri-lo na plenitude de suas virtualidades,
que se inscreviam concretamente em suas realizações históricas.

1  BURKE, Peter. A Escola dos Annales: a revolução Francesa na Historiografia

capítulo 3 • 41
Abre-se, em consequência, o leque de possibilidades do fazer historiográfico,
da mesma maneira que se impõe a esse fazer a necessidade de ir buscar junto a
outras ciências do homem os conceitos e os instrumentos que permitiram ao his-
toriador ampliar sua visão do homem2.
A Annales d’histoire économique et sociale foi fundada no dia 15 de Janeiro de
1929, com a contribuição de Lucien Febvre e Marc Bloch como diretores; Henri
Houser como historiador, mais voltado para os estudos da História Moderna; o
medievalista Georges Espinas; o especialista em História Antiga André Piganiol;
o historiador belga Henri Pirenne; o sociólogo Maurice Halbwachs; o economista
Charles Rist e o analista político André Siegfried. A primeira publicação da revista
afirma a vontade de se escrever a história a partir de uma reflexão econômica e
social.
Embora Febvre e Bloch não fossem os únicos colaboradores da revista, são
considerados seus principais expoentes.

AUTOR
Marc Bloch era filho de uma família judia, oriundo de Lyon, na França, e filho de um
especialista em História Antiga, Gustav Bloch. Em 1919, foi nomeado para a universidade
de Estrasburgo, após ter defendido sua tese em História Medieval Rois et serfs. Suas obras
mais conhecidas são: Le Rois Thaumaturges (1924); Les caractères originaux de l’histoire
rurale (1931); La société féodale (1936). Dessas três obras, a mais conhecida ficou sendo Le
Rois Thaumaturges, onde Bloch fez um estudo comparativo dos ritos de sagração na França
e na Inglaterra e busca compreender como determinadas populações puderam acreditar no
poder de cura das escrófulas pelos reis. O autor foi eleito para a universidade de Sorbone,
em 1936. Em 1941 lecionou na universidade de Clemont-Ferrandi. Já em 1942, ameaçado
pela invasão alemã, refugiou-se e uniu-se à resistência. Preso pelos alemães, foi fuzilado em
junho de 1944. Seu último livro, Apologia da História ou o Ofício do Historiador, escrito en-
quanto esteve preso, ficou inacabado. Contudo, tornou-se leitura fundamental por apresentar
as primeiras ideias da escola dos Annales e até hoje é leitura obrigatória em vários cursos de
História ao redor do mundo.

2  Idem. P.

capítulo 3 • 42
AUTOR
Lucien Febvre nasceu na região de Nacy, na França. O autor iniciou seus trabalhos através
da pesquisa Philippe II et la Franche-Comté. Assim como Bloch foi professor em Estrasburgo
em 1919, e depois no Còllege de France em 1933. Especializou-se em estudar o século XVI
e alguns de seus personagens importantes ligados à religiosidade como Lutero, por exemplo.
Algumas obras importantes suas foram: Um destin: Martin Luther de 1928; Le Problème de
l’incroyance au XVI cièle; La religion de rabelais de 1942, dentre outras. Febvre foi também um
autor muito ligado às influências geográficas e renovou as relações entre as duas disciplinas
com o livro Le Problème historique du Rhim, de 1931, onde buscou entender como o rio Reno,
a partir da prática da comercialização acabou transformando-se em fronteira para as nações.

As publicações pós-1929, na França, deixaram de lado a história voltada apenas


para o relato, bem como demonstravam que não era possível o conhecimento
total sobre o passado. Este deveria ser reconstruído, com a ajuda que as outras
ciências poderiam oferecer. Para Marc Bloch, em Apologia à História, o passado
estaria sempre em processo e progresso, mudando muitas vezes seu modo de
compreendê-lo, sendo que poderia ser escrito de maneira diferenciada, de acordo
com a visão de cada historiador e/ou do leitor3.
Outro ponto de ruptura com a historiografia do século XIX estava na superação
da história nacional e na valorização da história comparada, muito utilizada por
Henri Pirenne e por Bloch que, para sua utilização, defendia ainda uma maior
proximidade entre a história e a antropologia.
A Revista também contrariava a objetividade tão valorizava pela geração an-
terior como garantia para a veracidade e a cientificidade da história. Os Annales
insistiam sobre a influência do historiador, inevitável já no ato da pesquisa. A total
separação entre sujeito e objeto de pesquisa era impossível. O papel atribuído ao
historiador era completamente diferente, pois caberia a ele a construção da sua
pesquisa. Era o pesquisador quem deveria buscar, analisar e interrogar seu objeto
através das fontes. Nessa perspectiva, o homem deveria ser visto como sujeito da
sua história, não apenas ligada a fatos, datas e relatos, mas uma história que con-
seguisse compreender as relações existentes nas entrelinhas dos acontecimentos.
Deveria apreender seus problemas e os contextos nos quais estavam inseridos.

3  BLOCH, Marc. Apologia da História ou ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

capítulo 3 • 43
O objetivo do pesquisador era claro: o homem e não apenas o passado, como
algo que não tivesse qualquer relação com um determinado período. O passado
estudado pelos Annales deveria estar sempre voltado para o presente. Havia uma
relação clara entre essas duas temporalidades, pois seriam os questionamentos do
presente que levariam ao estudo do passado.
Marc Bloch e Lucien Fevbre, renovaram também trazendo à historiografia o
interesse pela atualidade. De acordo com o historiador François Dosse, mais de
40% dos trabalhos pela revista, entre 1929 e 1941, foram dedicados à história
contemporânea4.
A história não se apresentava para esse grupo apenas como uma ciência preo-
cupada com um passado distante, até porque não estava mais tão preocupada em
legitimar a formação dos Estados Nacionais, assim aparecia normalmente durante
o século anterior. A colaboração entre as diversas ciências sociais e a história é outro
dado, sobretudo, as relações traçadas entre a geografia e a história. A contribuição
dos geógrafos nos Annales é de suma importância e fica clara nas publicações que
ambas as ciências se influenciavam mutuamente. Pode-se citar como exemplo o
trabalho de Bloch intitulado Les caractères originaux de l’histoire rurale française.
Mais tarde, essa relação também vai se fazer presente nas obras de Fernand Braudel.
O movimento dos Annales, assim como o Materialismo Histórico e o
Historicismo construiu, sem dúvida, uma das influências mais importantes
para a historiografia atual. Muitos autores, posteriormente, vão questionar se o
movimento teria sido realmente uma inovação, entretanto, o impacto das suas
ideias sobre a historiografia ocidental como um todo é inquestionável.
Sem dúvida, Bloch e Fevbre não foram os primeiros a repensar a escrita da
história, bem como houve uma enorme contribuição de pensamentos oriundos de
intelectuais de outras ciências que possibilitaram suas inovações e sucesso, o que
não apaga, contudo, o seu brilho como movimento bem estruturado e triunfante
na historiografia francesa e ocidental.
Como afirma Peter Burke, em seu livro A Escola dos Annales 1929-1989 – A
Revolução Francesa da Historiografia

... a história dos Annales pode assim ser interpretada em termos da existência de três
gerações, mas serve também para ilustrar o processo cíclico comum segundo o qual os
rebeldes de hoje serão os establishment de amanhã .

BURKE, Peter. A Escola dos Annales 1929 – 1989. A Revolução Francesa da


Historiografia. São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1997. p. 13.

4  DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à Nova História. Campinas: Unicamp, 1992. pp.61 -62.

capítulo 3 • 44
A segunda geração

A segunda geração dos Annales é representada por Fernand Braudel. Braudel


foi aluno e seguidor de Febvre. A segunda geração, tal como a primeira, também foi
fortemente marcada pela ideia de interdisciplinaridade. No caso, um dos saberes
científicos mais utilizados foi a Geografia e a Economia. Na segunda geração temos
o interesse pela história econômica, tendo a busca pelas ideias de Marx através de
Labrousse. Esse período da história dos Annales ficou conhecido por buscar nas
ciências vizinhas elementos para desenvolver as suas pesquisas historiográficas,
sendo desenvolvido uma importância à história regional, quantitativa e serial.
Uma das obras de maior relevância desse período é do principal dirigente dos
Annales, Braudel. O livro O mediterrâneo e o mundo mediterrêneo na época de
Felipe II assegurou lugar de destaque na historiografia.
Compreender a história da Segunda Geração dos Annales passa necessariamente
por entender a forma de analisar a história a partir da perspectiva de Fernand
Braudel. Elemento importante no desenvolvimento da história como algo global,
ainda que esse conceito seja confuso e impreciso, ele concebeu a história total de
uma determinada civilização como articulada em níveis de duração, do evento à
estrutura e dela ao evento, cuja análise, descrição e articulação seriam fundamentais
para a construção do quadro total dessa sociedade.

CONEXÃO
Para conhecer mais: Fernand Braudel acesse: <http://www.profwilliam.com/2010/12/
fichamento-dinamica-do-capitalismo-de.html>

LEITURA
No momento em que a Escola dos Annles foi gerada, em 1929, Fernand Braudel tinha
27 anos. Ele estudou na Sorbonne e, ao mesmo tempo, ministrou aula de História em uma
escola da Argélia. Naquele momento, trabalhava em sua tese, que foi pensada originalmente
como um estudo sobre Felipe II e o Mediterrâneo, em outras palavras, uma análise da política
externa do soberano; visão bastante tradicional da História.
Fernand Braudel, o mais influente historiador da Segunda Geração dos Annales, su-
cedeu Lucien Febvre, assumindo a direção da Revista dos Annales, tornando-se, até sua
morte, em 1985, o mais importante e influente historiador francês. Em sua obra, a construção

capítulo 3 • 45
de uma história global é tema constante, principalmente porque, segundo ele, as diferentes
ciências deveriam transpor fronteiras e prestar-se a reagrupamentos e não buscar o divórcio
entre as mesmas, principalmente ciências afins.

Segundo ele:
O desejo de se reafirmar junto aos outros, dá forçosamente lugar a novas
curiosidades: negar o próximo pressupõe conhecê-lo previamente. Mais ainda:
sem terem explícita vontade disso, as ciências sociais impõem-se umas às outras:
cada uma pretende captar o social na sua totalidade; cada uma delas se intromete
no terreno de suas vizinhas, na crença de permanecer no próprio. A economia
descobre a sociologia, que a rodeia; e a história – talvez a menos estruturada
das ciências do homem – aceita todas as lições que lhe oferece a sua múltipla
vizinhança e esforça-se por as repercutir5.
A concepção de uma história de longa duração acompanha o trabalho de
Braudel ao longo de sua produção acadêmica. Sua principal obra, “O Mediterrâneo
e o mundo mediterrâneo à época de Felipe II”, caminha no sentido de criar uma
história que abre diferentes perspectivas e olhares para a história e seu diálogo com
outras ciências, principalmente com a geografia. Ele buscava a interdisciplinaridade
com outras ciências, retomando uma ideia central dos primeiros Annales e para ele,
a crise existente entre a geografia e a história abriria espaço para o desenvolvimento
de um novo conceito, a geo-história, que viria a resolver os problemas de descrição
e narração que ambas viviam.
Seu livro é considerado uma obra-prima, pois trabalha tópicos como política,
sociedade, geografia e cultura de forma brilhante, o que corrobora sua ideia de cons-
truir uma história global, com uma clara abertura das ciências entre si, cada qual
contribuindo de alguma forma para o conceito de história total. Suas intenções com
a geografia aparecem claras. O exemplo mais acessível parece ainda o da coerção
geográfica. Durante séculos, o homem é prisioneiro de climas, de vegetações, de
populações animais, de culturas, de um equilíbrio lentamente construído do qual
não pode desviar-se sem o risco de pôr tudo novamente em jogo.
A constante presença de aspectos geográficos interagindo com as sociedades
despertam a curiosidade de Braudel, que passa a considerá-la como elemento de
extrema importância para o estudo de uma dada civilização. Considera a geografia
tanto nos aspectos físicos quanto humanos, o que corrobora sua tese de que o

5  BRAUDEL, Fernand. História e Ciências Sociais. Editora Presença, 1972. p. 3

capítulo 3 • 46
homem ocupou o espaço, tornou-o habitável e imprimiu nele, marcadamente,
suas características, tornando-o cenário de suas ações.
Ressalta-se aqui que, para Braudel, a geografia, mesmo com grande
importância, era uma ciência subordinada à história, assim como a economia, a
sociologia, a antropologia e demais ciências. Ao retornar de sua viagem ao Brasil,
depois de lecionar na Universidade de São Paulo no período de 1935 a 1937,
Braudel conheceu Lucien Febvre que escrevia sua tese inicialmente intitulada
“Felipe II e o Mediterrâneo”, quando foi convencido por Braudel a inverter o
título, o tornando assim “O Mediterrâneo e Felipe II”.
Braudel começou a escrever sua tese durante a Segunda Guerra Mundial
enquanto estava preso em um campo perto de Lubeck. Embora não pudesse
consultar bibliotecas, sua memória permitiu que iniciasse os rascunhos de “O
Mediterrâneo” em cadernos que eram enviados a Lucien Febvre, e assim devolvidos
posteriormente. “O Mediterrâneo” é famoso pela forma que foi escrito, marcando
uma nova forma de abordagem do passado. O livro foi dividido em três partes,
temos a História “quase sem tempo”, que trata das relações entre o homem e o
ambiente; a História mutante das estruturas já conhecidas e trabalhadas como
economia, política, cultura e campo social; e a terceira parte corresponde à História
dos acontecimentos e também corresponde à ideia.
A principal aspiração de Braudel era a de atingir a “História Total”, porém
em seus trabalhos pouco se encontra a respeito de “mentalidades coletivas” e até
mesmo sobre valores ou atitudes. Em seus trabalhos também não encontramos
muito a respeito de honra, vergonha e masculinidade. Esse sistema de valores, de
acordo com o que a Antropologia nos mostra, ainda tem bastante importância no
mundo mediterrâneo.
Por tais motivos ou “ausências” ocorre a insinuação de que seu livro não pro-
põe um problema, o que Febvre e Bloch defendem como base da pesquisa his-
tórica, uma História voltada para os problemas. Porém, vemos em Braudel essa
preocupação quando diz que “a região é o alicerce da pesquisa, esse alicerce é o
problema”. E assim, o único problema para Braudel “é demonstrar que o tempo
avança com diferentes velocidades”.
A importância de Braudel para os Historiadores está na sua tentativa em di-
vidir o tempo histórico em tempo geográfico, social e individual. Nos levando
assim a Longa Duração, que se baseia no tempo geográfico. E embora ele coloque
o meio como um dos pontos mais importantes, sua contribuição para a História

capítulo 3 • 47
está na forma como ele estabelece a complexa interação entre meio, economia,
sociedade, política, cultura e os acontecimentos.
E ainda, para ele, a contribuição que o historiador presta às ciências sociais
está na consciência de que as “estruturas” são passíveis de mudanças. Podemos
dividir da seguinte forma a questão temporal em Braudel:

É o tempo dos acontecimentos, é a história dos eventos, é uma


CURTA DURAÇÃO história superficial dos fatos.

É o tempo das conjunturas, onde visualiza a mutação das estru-


MÉDIA DURAÇÃO turas políticas, econômicas, sociais e mentais.

É o tempo da história quase imóvel ou quase sem tempo da


LONGA DURAÇÃO relação entre o homem e o ambiente.

Durante as décadas de 1950-1980 Braudel foi o mais importante historiador


francês, mesmo depois de sua aposentadoria, em 1972. Em 1956, devido ao
falecimento de Febvre, Braudel se tornou diretor eletivo de Annales, com isso as
relações entre os membros se tornaram instáveis. Assim, Braudel decidiu recrutar
novos historiadores como Jacques Le Goff, Emmanuel Le Roy Ladurie, Marc
Ferro, com a finalidade de renovar Annales. Assim como ocorreu em Annales,
Braudel sucedeu Febvre como presidente da IV seção da École.

Terceira geração

Podemos pensar no surgimento da Terceira geração de Annales quando, em


1969, nomes como Jacques Revel e André Burguière assumem a administração da
escola, seguidos por Jacques Le Goff. Embora as mudanças administrativas nesse
período sejam bem claras, o campo intelectual é difícil de ser descrito. Observamos,
então, o rompimento com a metodologia utilizada por Braudel, fazendo com que
a História fosse estudada com grande auxílio de disciplinas como a Antropologia,
a Literatura e até mesmo a Psicologia.
Outro ponto importante é que podemos perceber que nessa geração não
encontramos nenhuma forma de liderança como observamos nas anteriores com
Bloch, Febvre e Braudel. Os historiadores da terceira geração foram bastante
influenciados por ideias estrangeiras, principalmente americanas. Muitos deles
viveram nos Estados Unidos por algum tempo e até mesmo escreveram em inglês.
Os campos de pesquisa também se ampliaram, alguns historiadores voltaram a

capítulo 3 • 48
se dedicar ao estudo da história política enquanto outros seguiam pela história
quantitativa. Novas abordagens como nova história econômica, psico-história,
história da cultura popular, entre outras, também surgiram durante a terceira
geração6.
Essa renovação historiográfica possibilitou à história enxergar a vivência
humana a partir de elementos que antes não eram considerados, como o corpo,
a infância e os sonhos. Observamos também o espaço dado às mulheres, o que
não aconteceu nas gerações anteriores. Historiadoras como Christiane Klapisch,
Arlette Farge, Michelle Perrot e Mona Ozouf, que estudaram temas como a
família, a mulher e o trabalho. Os trabalhos oriundos da terceira geração ficaram
caracterizados pelo estudo das mentalidades. A mentalidade é filha direta da
escola dos Annales e, desde o começo do movimento, esteve na preocupação dos
historiadores, como diz Ronando Vainfas:
A preocupação com “os modos de sentir e pensar” ocupou a atenção dos
annalistes desde os primórdios da revista Annales, quando não antes, nos estudos
de Marc Bloch e de Lucien Febvre produzidos na década de 1920.
Além do mais, é preciso lembrar que, apesar das várias mudanças por que
passou a historiografia francesa nos últimos 60 anos, os estudiosos das mentalidades
sempre se reconheceram como herdeiros contemporâneos de Bloch e de Febvre,
por muitos chamados de “pais fundadores” da chamada Nova história produzida
na França7.
Inicialmente o conceito de mentalidades era marcado pela indefinição e, se-
gundo Le Goff, a indefinição era importante para a fase de assimilação de um
novo campo de investigação pelos historiadores.
Assim, “A história das mentalidades (...) dirige a atenção exclusiva para o não
conscientizado, o cotidiano, os automatismos do comportamento, os aspectos
extra pessoais da consciência individual, para aquilo que foi comum a César e  ao
último soldado das suas legiões, a São Luís e ao camponês (...)8
Um dos primeiros a contestar a história quantitativa e se aventurar na história
das mentalidades foi Philippe Ariès. Seu trabalho era voltado para as relações entre
natureza e cultura, como a cultura enxerga fenômenos como a infância e a morte,
por exemplo. No caso da infância, Philippe trabalhou com a perspectiva de que
o sentimento da infância não existia durante a Idade Média, e que essa forma de
6  BURKE, Peter. Op. Cit. p.80.
7  VAINFAS, Ronaldo. História das mentalidades e história cultural. In: CARDOSO, Ciro Framarion e VAINFAS,
Ronaldo. Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p.129
8  GURIÊVITCH, Aaron. A síntese histórica e a escola dos anais. São Paulo: Perspectiva, 2003.p. 178.

capítulo 3 • 49
observar as crianças passou a existir na França somente a partir do século XVII,
em seu livro L’Enfant et la vie familiale sous l’Ancien Regime – A criança e a vida
familiar no Antigo Regime.
Ao tratar da morte, Philippe Ariès também utilizou a perspectiva da morte
como fenômeno da natureza e como o homem reage diante desse fenômeno. O
livro L’Homme devant la mort – o homem diante da morte - trabalha um período
de quase mil anos abordando as atitudes do homem diante da morte em diversos
períodos da história.
L’Homme devant la mort tem os mesmos méritos e defeitos do livro L’Enfant
et la vie familiale sous l’Ancien Regime. Nele se encontram a mesma audácia e a
mesma originalidade, o mesmo uso de uma ampla variedade de evidências, que
incluiu literatura e arte, mas não a estatística, e a mesma vontade de não tratar
cartas regionais ou sociais de diferenças9.
O livro de Ariès levou vários historiadores a darem mais atenção às
“mentalidades”, dando início à aproximação da história e literatura, mostrando
que as fontes literárias podiam ser utilizadas no estudo da história.
Podemos destacar a figura de Alphonse Dupront, que elaborou sua tese
de doutorado em torno do estudo das Cruzadas como uma guerra santa para
a conquista de lugares sagrados. Outro importante historiador do período foi
Robert Mandrou, o principal historiador a seguir pelo caminho de Febvre no
estudo da psicologia histórica. Madrou também trabalhou com história cultural.
Além desse trabalho, Le Roy Ladurie também escreveu sobre história climática e
sobre história rural, trabalhando com largos períodos de tempo, característica dos
historiadores de Annales.
Embora a vasta gama de interesses, historiadores e diferentes métodos de estu-
do da história utilizada pela terceira geração tenha sido benéfica para a historiogra-
fia, podemos observar que a história estudada através da longa duração não é uma
alternativa viável quando trabalhamos com a história moderna, devido à rapidez
com que novos acontecimentos aparecem.
A tecnologia passou a influenciar a vida do homem transformando rapida-
mente o meio ambiente, não apenas com o crescimento das cidades e diminui-
ção das áreas rurais, mas também com o crescimento de uma nova modalidade
de moradia: as favelas. As transformações da vida cotidiana influenciam a forma
com que as expectativas culturais serão tratadas e assim, determinadas aproxima-
ções e métodos da Escola de Annales não davam conta de trabalhar tais aspectos.
9  BURKE, Peter. Op. cit. p.83.

capítulo 3 • 50
Um dos importantes legados da terceira geração dos Annales foi o tipo de
história que produziam. A reunião com a antropologia, com a psicologia e uma
nova narrativa histórica tornou esse tipo de história bastante popular na França.
As influências do movimento de Annales.
Podemos sinalizar como tributários ao trabalho desenvolvido pelo
movimento de Annales, a ideia e escola hoje já é bastante criticada, era muito
mais um espaço de troca de reconhecimento de novas possibilidades do campo
de História do que necessária uma ruptura definitiva. Mas o trabalho de seus
historiadores, ainda que muitos já fortemente criticados, como a concepção de
uma história das mentalidades, ou a lógica de uma história total, ainda a busca
de grandes sínteses, esse movimento redimensionou a busca e a percepção dos
objetos de história.
Peter Burke reconhece essa importância ao destacar a abordagem da história
cultural como tributária ao movimento e aos historiados franceses e aqueles que
embarcaram na busca de pensar seus objetos. A História Cultural transformou e
permitiu a história tornar-se mais militante, observar reconhecimento de grupos e
a constituição de novas relações de força.
Outra escola fundamental a ser influenciada pelos Annales é a historiografia
italiana, em especial a representada primeira por Momigliano, seguidos por Geovani
Levi e Carlo Ginzburg. Críticos a percepção de busca de uma síntese, permitindo
uma outra abordagem da documentação e do dimensionamento da história.

“um esclarecimento preliminar da forma como entendemos, nesse artigo, a ideia de


micro história. O historiador Jaques Revel faz uma distinção entre duas vertentes da
micro história, sendo a primeira a “americana”, proposta por Carlo Ginzburg e essen-
cialmente baseada na ideia de “paradigma indiciário”; e uma segunda versão, a “fran-
cesa”, que entende a micro história como uma investigação acerca da história social e
sobre a construção dos seus objetos. A micro história nasce eminentemente de uma
prática, como esforço de um exercício empírico comum a um grupo de estudiosos reu-
nidos pelas mesmas intenções de adotar uma renovada perspectiva de discussão e de
abordagem. A micro história ganha espaço como uma reação, como uma tomada de
posição contra um certo “fazer” pesquisa e contra determinadas “práticas” no âmbito
da história social.

Ravel

capítulo 3 • 51
ATIVIDADES
01. Para Lucien Febvre, o movimento da Ecole des analles pretendia fazer uma nova história.
A expressão utilizada por este autor refere-se:
a) Ao resgate dos eventos históricos sob o ponto de vista cultural.
b) A redescoberta do homem como ser político.
c) A retomada de valores fisiocratas para o estudo da história acrescentando o viés cultural
d) A descoberta do homem, mais do que somente uma redescoberta, em sua plenitude,
como agente histórico.
e) A utilização de conceitos tradicionais reformados sob o ponto de vista das transforma-
ções das primeiras décadas do século XX.

02. Para Marc Bloch, cabe ao historiador, em seu ofício, fazer falar suas fontes, bem como
duvidar delas. Como exemplo de fontes não confiáveis, o autor cita:
a) As tradições inventadas, estudadas por Eric Hobsbawn e Terence Ranger.
b) Os contos dos camponeses de o Grande Massacre de Gatos, estudados por Robert
Darnton.
c) As cartas escritas por Maria Antonieta, e que teriam sido forjadas no século XIX.
d) Os relatos orais, cuja validade não pode ser atestada.
e) As tradições folclóricas das quais se desconhece a origem.

03. “Mas história não é relojoaria ou marcenaria. É um esforço para um melhor conhecer: por
conseguinte, uma coisa em movimento.”
BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar,
2001. P. 12.

Nessa afirmativa, Bloch expõe os fundamentos:


a) Do historicismo. d) Da Nova História.
b) Do Positivismo. e) Da Micro história.
c) Da História tradicional.

04. A proposta de renovação historiográfica dos fundadores dos Annales opunha-se a fazer
uma análise historiográfica que encerrava a história num campo limitado de atuação, identi-
ficado à chamada escola metódica.

capítulo 3 • 52
Pode-se afirmar que essa oposição entre a historiografia dos Annales e da escola metó-
dica, naquele momento, apresentou as características a seguir. Depois de ler as afirmações a
seguir, marque a ÚNICA alternativa que demonstra quais frases estão corretas.

I. Desvalorização dos eventos de natureza política, por serem insuficientes para explicar os
processos históricos por si mesmos.
II. Defesa da interdisciplinaridade como forma de buscar instrumentos mais eficazes para
a análise dos complexos processos sociais.
III. Desenvolvimento de um novo programa de pesquisa, baseado, sobretudo, na micro his-
tória, em oposição à história política tradicional.
IV. Rejeição aos métodos de pesquisa empírica e ao uso maciço dos documentos, vistos
como procedimentos anacrônicos.
a) II e III b) I e III c) III e IV d) I, II e III e) II, III e IV

05. “Paisagens e telhas. Com as formas do campo e as ervas daninhas. Com os eclipses
da lua e a atrelagem dos cavalos de tiro. Com os exames de pedras feitos pelos geólogos e
com as análises de metais feitas pelos químicos. Numa palavra, com tudo que, pertencendo
ao homem demonstra a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem.”
LE GOFF, Jaques. História e memória. 4. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996, p
536.

A afirmativa a seguir que não se relaciona com o texto anterior é:


a) A palavra documento passa a ser entendida de modo a compreender não apenas o do-
cumento escrito, mas também o ilustrado, sonoro, transcrito pela imagem ou de qualquer
outra forma.
b) A existência não aparece do acaso, mas da ação deliberada da sociedade que o fabricou
como legado às gerações futuras.
c) A análise documental é fundamental para a compreensão dos modos de ser de deter-
minada sociedade, para isso o historiador não deve deter-se apenas a um tipo de docu-
mentação.
d) Não é o historiador que deve fazer uma análise de qualquer fonte documental, na ver-
dade, apenas o geólogo pode trabalhar com os materiais pertinentes à sua disciplina,
cabendo ao historiador a análise de relatos escritos, considerados fontes primárias.
e) O conceito de documento é amplo, sugerindo ao historiador que utilize os textos escritos
quando estes existirem; caso não existam, a história poderá ser feita a partir de outras
informações pertinentes, pesquisadas com habilidade pelo historiador.

capítulo 3 • 53
06. Considerando-se o movimento da História Nova ligado às concepções publicadas pelos
historiadores do Annales, assinale a alternativa INCORRETA.
a) A História Nova nasceu de um movimento contra a historiografia positivista do sécu-
lo XIX.
b) Com a História Nova ampliou-se o campo do documento histórico, que passou a incluir
escritos de todos os tipos, documentos figurados, sonoros, produtos de escavações ar-
queológicas, documentos orais e outros.
c) A História Nova ressalta a história política, fundamentada na narrativa e nos aconteci-
mentos, constituindo-se, portanto, numa história factual.
d) A Escola de Annales, que se desdobrou na História Nova, propõe que se compreenda a
história a partir da problematização: a história-problema.
e) A História Nova representou um passo na busca de uma história total, que contempla os
homens em todos os seus aspectos.

07. A revista dos Annales foi fundada por March Bloch e Lucian Febvre em 1929 para pro-
mover uma nova espécie de história e continua, ainda hoje, a encorajar inovações. Sobre sua
ideias e diretrizes podemos afirmar que:
a) Não valorizavam a história de todas as atividades humanas apenas as atividades políti-
cas, vistas como fundamentais para o desenvolvimento das organizações sociais.
b) Promoviam a valorização da história como a única ciência social possível de analisar as
relações sociais.
c) Limitavam-se apenas ao uso de fontes escritas.
d) Promoviam a substituição da tradicional narrativa de acontecimentos por uma história-
-problema.
e) Descartava toda e qualquer análise econômica da história.

08. A segunda fase dos Annales, representada, sobretudo, por Fernand Braudel, é caracte-
rizada por:
a) A elaboração de uma história quantitativa.
b) O reconhecimento das fontes orais como documentos históricos.
c) A análise do papel das massas nas transformações econômicas
d) O combate à história dos eventos.
e) O desenvolvimento da história serial.

capítulo 3 • 54
09. Uma das principais contribuições de Fernand Braudel para a história foi a criação de
uma análise baseada em três tempos históricos. Sobre essa inovação, pode-se afirmar que:
a) A história quase sem tempo estaria ligada às relações políticas, enquanto a história de
média e curta duração estaria relacionada às relações econômicas e de troca.
b) Há a história de longa duração ligada a relação entre homem e meio ambiente, a história
das estruturas econômicas sociais e políticas e, uma terceira história mais curta, ligada
aos acontecimentos.
c) A preocupação de Braudel é situar indivíduos e eventos em um determinismo econô-
mico.
d) A sua verdadeira matéria de estudo é a história do homem e sua relação com as estru-
turas políticas.
e) Braudel descarta as relações entre história e geografia, pois apenas a ciência histórica
determina as relações temporais existentes na sociedade.

10. Em uma aula de história, Guto, um aluno matriculado em uma turma para jovens e adul-
tos, perguntou para o seu professor por que ele não utilizava letras de músicas em suas
aulas sobre ditadura militar brasileira. O aluno argumentou que ficaria mais fácil compreender
alguns acontecimentos referentes ao período. Seu professor, entretanto, afirmou que letras
de músicas não são fontes históricas confiáveis e completou: o verdadeiro historiador utiliza
apenas fontes escritas, qualquer outra, torna o processo histórico distorcido.
a) Positivista d) Braudeliana
b) Economicista e) Escola de Frankfurt
c) Concepção dos Annales

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BURKE, Peter. A revolução francesa da historiografia: a escola dos Annales (1929 – 1989). São
Paulo: Unesp, 1991.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à Nova História. Campinas: Unicamp, 1992.
GARDINER, Patrick. Teorias da história. Lisboa: Fundação Kalouste Goulbenkian, 1984.
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das
letras.
GURIÊVITCH, Aaron. A síntese histórica e a escola dos anais. São Paulo: Perspectiva, 2003
REVEL, Jacques. Entrevista. In: Topoi: Revista de História. Rio de Janeiro: Programa de pós-
graduação em História Social da UFRJ/7 letras, 2001, v. 2, pp. 197 – 216.

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capítulo 3 • 56
4
As escolas, inglesa
e alemã
As escolas, inglesa e alemã
A necessidade de perceber outras dinâmicas de compreensão da história nos
leva aos debates sobre a concepção de história sobre um viés que não se apoia nos
referenciais franceses.
Nesse capítulo você será convidado a perceber como a dinâmica histórica pode
estabelecer caminhos e diálogos diversos daqueles que parecem estabelecidos.

OBJETIVOS
•  Conhecer a concepção de história pelo viés da cultura alemã;
•  Discutir as influências do pensamento alemão na conformação historiográfica ocidental;
•  Contrapor com a visão inglesa complementando o quadro de oposições que compõem a
formação do campo da história.

Quando se fala em “história da história”, pode-se pensar tanto em uma


história da historiografia – no sentido de uma história da escrita da história, ou
da “representação historiadora”, para falar como Paul Ricoeur – como em uma
história dos modos de consciência histórica, entendidos como formas particulares
de atribuir significação à experiência da finitude. Ao mesmo tempo, uma história
da história pode privilegiar tanto as descontinuidades, como na noção de
“regimes de historicidade” sugerida por François Hartog, quanto certas condições
antropológicas de validade geral, condições de “todas as histórias possíveis”,
alicerces, segundo Reinhart Koselleck, de uma teoria da história não limitada à
hermenêutica. A história da história, ainda, pode mirar tanto as transformações no
interior de uma disciplina como se ater ao exame sincrônico de culturas históricas
particulares, no sentido de reflexões sobre os modos diversos de apropriação,
em uma sociedade, dos vestígios materiais de outras épocas – museus, coleções,
romances históricos, filmes –, numa proliferação de “lugares de memória” e
representações não-acadêmicas do passado. Diante de tantas possibilidades, além
de muitas outras não esboçadas anteriormente, faz-se necessário definir um eixo
analítico a partir do qual estruturar este texto.
O século XIX ficou convencionalmente conhecido como “o século da histó-
ria”. Nele se deu a afirmação da história como discurso científico, ao mesmo tem-
po em que a história não perdeu sua particularidade de elemento de orientação

capítulo 4 • 58
para a ação no mundo. No regime de historicidade antigo, a história era com-
preendida como gênero retórico-poético, de caráter prudencial, cuja função pri-
mordial consistia no estabelecimento de lições morais de validade indistinta – a
história como filosofia ensinada por meio de exemplos – ou ensinamentos prag-
máticos que, com base numa ideia estável de natureza humana, poderiam orientar
as ações presentes com vistas à construção de um futuro previsível. As mudanças
no modo de experiência do tempo e na ideia de natureza humana foram cruciais
para a consolidação de um novo sentido de história – ou, para falar como François
Hartog, um novo regime de historicidade. Conforme analisou Reinhart Koselleck
no verbete “História” do dicionário de Conceitos históricos fundamentais, con-
solida-se, entre 1750 e 1850 – período que ele chama de Sattelzeit –, a ideia
de história como totalidade em movimento, singular-coletivo, a história em si,
a qual convergia, num mesmo conceito, o evento e sua representação. Assim, a
história deixa de ser entendida como memoria rerum gestarum, como na tradição
antiga, passando a ser compreendida como conhecimento de si mesma, segundo
formulação de Droysen. Tratou-se, segundo Koselleck, de uma mudança concei-
tual decisiva, associada a outras transformações conceituais, como nos conceitos
de revolução, progresso e tempo. Como conhecimento de si mesma, a história
precisava encontrar novas regras que não aquelas dos tratados retóricos antigos.
Nesse sentido, duas formulações tornaram-se dominantes, galhos da mesma ár-
vore da história em seu sentido moderno. A primeira diz respeito às filosofias
especulativas da história, como formuladas por autores como Condorcet, Kant,
Hegel, Marx, Comte entre outros. Trata-se de indagação sobre a racionalidade
a priori do processo histórico. O conhecimento dos eventos não deve constituir
um fim em si: embora seja crucial para uma história filosófica o conhecimento
apropriado dos acontecimentos do passado, trata-se de olhar “através” dos eventos,
de tomá-los como manifestação de algo mais profundo, a saber, a própria Razão,
como em Hegel, ou os desígnios da Natureza, como em Kant, ou a luta de classes,
como em Marx. Os acontecimentos particulares, para o filósofo especulativo da
história, são meios, não fins em si mesmos. A centralidade da história transcende a
própria historiografia. Em passagem riscada no manuscrito de A ideologia alemã,
mas que ainda assim tornou-se conhecidíssima, Marx e Engels afirmam conhecer
uma única ciência, a ciência da história. Como percebe Eric Hobsbawn no artigo
Marx, Engels e o socialismo pré-marxiano, Marx e Engels inseriram “o socialismo
na estrutura de uma análise histórica evolutiva, capaz de explicar seja por que mo-
tivo o socialismo surgira como teoria e como movimento naquele dado período

capítulo 4 • 59
histórico, seja por que motivo o desenvolvimento histórico do capitalismo devia
produzir, no final das contas, uma sociedade socialista”. A ciência da história,
assim, não é a historiografia, mas o materialismo histórico, cuja premissa é a inver-
são da filosofia hegeliana – do céu à terra –, como sugerido em A ideologia alemã.
Já o historicismo pode ser pensado como uma resposta distinta ao problema
teórico da relação entre geral e particular, resposta formulada a partir de indagações
sobre as significativas transformações pelas quais passava a Europa entre meados do
século XVIII e meados do século XIX – período chamado por Reinhart Koselleck
de Sattelzeit. Afirma Friedrich Meinecke que o termo “historismus” foi empregado
pela primeira vez, no sentido corrente, no ano de 1879, por Karl Werner, em livro
sobre Vico, mas, ainda segundo o autor, a estabilização do termo é bem mais re-
cente que o estabelecimento de seus alicerces. O historicismo foi muito mais que
uma questão associada à disciplina histórica. Tratou-se, propriamente, de questão
associada à formação de uma cultura histórica, a modos diversos de representação
do passado predominantes entre os alemães do século XIX, a maneiras distintas
de associar categorias como Geist, Bildung e Kultur aos modos predominantes
de explicação histórica, no sentido de pensar a extensão do passado no presente,
e a compreensão da totalidade através do particular. Como percebeu Friedrich
Meinecke em seu estudo sobre a gênese do historicismo, “o historicismo foi uma
das maiores revoluções espirituais” nos modos de pensar dos povos Ocidentais.
Ele teria constituído o primeiro passo no sentido da superação filosófica da me-
tafísica, condição de possibilidade da fenomenologia de Husserl, da filosofia do
Dasein heideggeriana. Assim, Meinecke recusa uma definição limitada de histori-
cismo, pensada ora como método das ciências do espírito, ora como conjunto de
postulados relativistas. Trata-se, para ele, “da aplicação à vida histórica de novos
princípios vitais descobertos pelo grande movimento alemão que foi de Leibiniz à
morte de Goethe”. O fulcro do historicismo, segundo Meinecke, estaria na “subs-
tituição de uma consideração generalizante sobre as forças humanas históricas por
uma consideração individualizante. Isto não quer dizer”, prossegue o autor, “que
o historicismo em geral exclua a busca de regularidades e tipos universais da vida
humana”. Estes, porém, devem ser pensados na busca pelo individual.
Trata-se da recusa da ideia de uma razão transcendente, operando na história,
como no caso da filosofia da História hegeliana. Meinecke enfatiza, assim, as for-
ças irracionais e particulares: tudo aquilo que o homem realiza tem por fundamen-
to o seu próprio tempo, e o movimento que levou à construção desse tempo, o
passado se inscrevendo no presente, se fazendo presente. Karl Mannheim, por sua

capítulo 4 • 60
vez, sustenta que o historicismo, “força intelectual de extraordinária importância”,
resumiria a Weltanschauung, visão de mundo, alemã. Trata-se ao mesmo tempo da
“mão invisível” que organiza o trabalho das ciências do espírito, como também de
uma força que percorre a vida cotidiana, que se enraíza nos modos mais básicos de
representação, “base sobre a qual construímos as nossas observações da realidade
sócio-cultural”. Assim como Meinecke, Mannheim faz questão de não reduzir o
historicismo a um tipo de concepção de escrita da história: “não é a historiografia
que nos traz o historicismo, mas antes o processo histórico que vivemos que nos
faz historicistas”.
Tanto Meinecke quanto Mannheim procuram estabelecer as raízes profundas
do historicismo. Nesse sentido, antes mesmo de discutir o que significou o
historicismo para a afirmação da ciência histórica, na Alemanha do século XIX,
deve-se indagar acerca dos fundamentos dessa “visão de mundo”. Para Mannheim,
o fundamento do historicismo deve ser buscado no modo de enxergar a dinâmica
da realidade pautado pela ideia de movimento – o que ele chama de “modo
histórico de pensamento”. Afirma o autor que “a primeira aproximação ao modo
histórico de pensamento e vida assenta, em qualquer caso, na capacidade para
experimentarmos qualquer segmento do mundo espiritual-intelectual num
estado de movimento e crescimento”, o que incide na busca de “um princípio
ordenador desta aparente anarquia da mudança”, que pode ser, por exemplo, a
categoria de evolução, diferenciada, por ele, de progresso. Tal princípio pode se
basear tanto na procura de um critério geral, como nas filosofias especulativas
da história, quanto no olhar para o particular, típico da historiografia. Esta não
deixa de buscar princípios ordenadores, embora rejeite a ideia de que eles possam
ser dados a priori ou compreendidos como desígnio divino ou Razão desvelada:
“não queremos saber só ‘o que aconteceu’. Estamos interessados não apenas no
‘porquê’ imediato (os antecedentes causais imediatos) de um acontecimento, mas
perguntamo-nos constantemente: ‘o que quer dizer?’”. Daí que, para o autor,
seja “cada vez mais evidente que a separação rígida e imutável entre história e
filosofia da história, de acordo com a qual a história aparece como uma disciplina
rigidamente especializada, só corresponde a uma perspectiva, ou melhor, à falta de
perspectiva de uma época particular. Ao mesmo tempo, é cada vez mais claro que
mesmo a investigação aparentemente mais especializada do pormenor histórico
tem a sua base na filosofia da história”. Daí que o historicismo seja, para ele, um o
modo de compreender a dinâmica da realidade, visão de mundo cujo fundamento
reside na tentativa de atribuir sentido à passagem do tempo, tentativa que, no

capítulo 4 • 61
regime de historicidade moderno – para empregar categoria proposta por François
Hartog –, se torna fugidia, na medida em que o futuro se torna um tempo aberto,
novo. O historicismo articula futuro e passado, explica o futuro e o presente pelo
passado, não como eterno retorno do mesmo, mas como contínua construção
e deterioração.
A visão de Mannheim ajuda a compreender e trazer nova luz à polêmica ge-
rada pela publicação, em 1957, do livro A miséria do historicismo. Karl Popper,
autor do livro, equipara historicismo às tentativas de predizer o futuro, por meio
do estabelecimento de possíveis leis do processo histórico, como no caso dos mo-
delos especulativos de autores como Hegel, Marx, Comte, Spengler e Hempel.
A hipótese fundamental para a refutação do historicismo, segundo Popper, se
daria como resultado do fato de que “se há um crescimento dos conhecimen-
tos humanos, não poderemos antecipar hoje o que saberemos amanhã”. Popper
propõe, ainda, uma distinção entre historicismo e historismo, estando o segun-
do termo associado à consideração dos fenômenos sociais como sendo produ-
tos de um determinado tempo. Se seguirmos a linha de pensamento proposta
por Manhheim, veremos que seria um equívoco tratar o viés especulativo, que
Popper identifica com a predição, como essencialmente antagônico em relação
ao “historismo”. Ambos partem do princípio, de caráter filosófico, de que é pre-
ciso buscar um princípio ordenador capaz de fornecer sentido ao problema da
passagem do tempo. O historicismo, assim, consistiria numa questão associada
à própria formação do conceito moderno de história, às indagações suscitadas
por mudanças estruturais significativas. Como nota Fredrich Meinecke, uma
das principais contribuições do historicismo teria sido a recusa da ideia de uma
natureza humana imutável – na formulação de Ortega y Gasset, “o homem não
tem natureza. O que ele tem é história”. Como argumenta Reinhart Koselleck
no verbete “História” do Dicionário de Conceitos Históricos Fundamentais,
o sentido moderno de história é o produto de uma transformação conceitual,
ocorrida entre meados do século XVIII e primeiros decênios do século XIX – o
Sattelzeit –, transformação diretamente ligada a mudanças significativas nas ma-
neiras de experimentar o tempo e conceber a natureza humana. A história deixa
de ser concebida como memoria rerum gestarum e passa a ser entendida como
conhecimento de si mesma, numa convergência entre evento e representação. A
experiência do tempo é historicizada, deixando de estar atrelada aos ciclos na-
turais, abrindo-se como espaço do novo, da transformação. A ideia de natureza
humana estável cai por terra ante as investidas racionais iluministas. A história

capítulo 4 • 62
passa a ser vista como singular coletivo, totalidade em movimento, um proces-
so dotado de sentido. Articulando-se as posições de Meinecke, Manhheim e
Koselleck, torna-se possível dizer que o historicismo consiste no modo moderno
de atribuir sentido à dinâmica do processo histórico a partir de referências bus-
cadas na própria história, entendida como singular coletivo, sentido que pode
ser “descoberto” por métodos especulativos ou empíricos, valorizando-se assim
ora a racionalidade ora a irracionalidade das manifestações da vida – ou, o que é
mais comum, por meio da combinação das duas perspectivas, como no caso de
autores como Ranke e Droysen. Assim, segundo definição proposta por Frank
Ankersmit, o princípio básico do historicismo seria o de que “a natureza de
uma coisa reside em sua história; se desejarmos compreender a natureza de uma
nação, um povo, uma instituição ou uma ideia, o historicista nos solicitará a
consideração do seu desenvolvimento histórico”.
Tal ideia, segundo Meinecke, tem suas origens no início do século XVIII,
com Vico. Mas foi Herder quem sistematizou a questão de forma mais evidente.
Valendo-se de categorias como Bildung, Kultur e Geist, as quais, em acordo com o
espírito geral do Sattelzeit, passavam por transformações semânticas significativas,
Herder propôs uma filosofia da história calcada no respeito às particularidades, e
sobretudo ao modo com que as particularidades chegam a ser o que são. Ou seja:
em sua filosofia da história, a questão principal não é o progresso, mas a formação,
o cultivo, a aquisição. Como percebe Fritz Ringer em O declínio dos mandarins
alemães, a questão da formação, tanto individual quanto coletiva, era um debate
crucial nos meios educados alemães no fim do século XVIII. “Na Universidade
de Göttingen, fundada em 1734”, diz Ringer, “teve início, por volta de meados
do século, o ressurgimento neo-humanista. [...] Na visão neo-humanista, o ensino
implicava claramente algo mais que a formação intelectual. O contato com as
fontes reverenciáveis da Antiguidade tinha por objetivo transformar o caráter inte-
gral do estudante, convertê-lo num novo homem”. Desenvolve-se, nesse sentido,
um ideal de cultivo pessoal, um princípio abrangente de educação que marcará
profundamente a cultura alemã de fins do século XVIII e por todo o século XIX,
que tem como alicerces o tripé Bildung, Kultur e Geist. Ainda segundo Ringer,
“o próprio ideal de educação dos mandarins, desenvolvido como a antítese direta
ao conhecimento prático, vinha expresso nas palavras Bildung (formação, educa-
ção) e Kultur (cultura). Ambos os termos apareceram pela primeira vez durante
a revivescência cultural do final do século XVIII. [...] Conceito fundamental da
psicologia desde Pestalozzi, Bildung significa formar a alma por meio do ambiente

capítulo 4 • 63
cultural”. Já a palavra Kultur, segundo Ringer, “foi adaptada de cultura animi de
Cícero por Samuel Pufendorf e Gottfried von Herder. Até os últimos anos do
século XVIII, continuou estreitamente relacionado com o conceito de Bildung.
Tinha o significado de ‘cultura pessoal’; referia-se ao cultivo da mente e do espí-
rito. Depois, gradativamente, passou a ser usada, nos círculos alemães cultos, em
seu sentido mais geral de síntese de todas as realizações do homem civilizado na
sociedade”. Kultur, nesse sentido, passa a se distinguir de civilização, oposição
que, como nota Norbert Elias, já se faz presente em Kant. “O conceito alemão
de Kultur”, afirma Elias, “dá ênfase especial a diferenças nacionais e à identidade
particular de grupos”. Assim, diferentemente da categoria civilização, predomi-
nante nas tradições francesa e inglesa, que “inclui a função de dar expressão a uma
tendência continuamente expansionista de grupos colonizadores, o conceito de
Kultur reflete a consciência de si mesma de uma nação que teve de buscar e cons-
tituir incessante e novamente suas fronteiras, tanto no sentido político como espi-
ritual”. É nesse sentido que a categoria aparece em Herder: a nação como cultivo,
como conjunto de forças particulares individualizantes que, ao mesmo tempo,
não negam a totalidade do processo histórico, dotada de movimento, embora não
linear. Em Também uma Filosofia da História para a Formação da Humanidade,
texto de 1774, Herder critica aqueles que medem um tempo por outro. Como
percebe Georg Iggers em The German Conception of History, apenas no trabalho
de Herder, de 1774, “encontramos a posição historicista formulada em sua forma
mais radical: a concepção de que cada era deve ser vista em termos de seus próprios
valores imediatos”.
Os três conceitos referidos – kultur, bildung e geist – articulam, em seus diversos
usos possíveis, reflexões complexas sobre a dinâmica entre forças individualizantes
e forças totalizantes, na medida em que carregam uma dimensão de construto:
Bildung é a formação individual, que só pode se dar pela incorporação de valores
coletivos; Kultur, por sua vez, indica a singularidade e especificidade de um povo,
ao mesmo tempo em que denota uma ideia de todo, de grupamento; Geist indica
um já, um presente que não se dá a compreender como dado imediato, mas como
aquisição, conquista. Como percebe Humboldt em A tarefa do historiador, “tudo
que é fruto do espírito – ciência, arte, instituições morais – perde o que nelas
há de espiritual e se torna matéria se o espírito não as renova a cada vez”. E é
precisamente a visão de mundo historicista, em seu sentido amplo, como pensado
por Meinecke e Mannheim, que as três categorias se articulam como modos de
conceber a dinâmica processual da realidade, em múltiplos modos de representar
o passado, de concebê-lo como origem, como ponto de partida, concepção que,

capítulo 4 • 64
como percebe Stephen Bann, pode ser caracterizada, a partir do Romantismo,
como um desejo por história. Trata-se de atribuir sentido à realidade por meio,
novamente empregando categoria de Mannheim, de um “modo histórico de
pensamento”, de um “pensar historicamente”, como falava Droysen.
É nesse sentido, diante desse quadro de mudanças conceituais significativas,
que deve ser pensado o surgimento, no início do século XIX, de um projeto cientí-
fico de disciplina histórica. Como nota John Pocock em Barbarism and Religion, a
partir de hipótese originalmente proposta por Arnaldo Momigiano, esta constitui
produto da convergência de três tradições distintas, a saber, a história erudita dos
antiquários, a história narrativa, retórica, predominante desde o mundo antigo, e a
história filosófica dos iluministas. Porém, se a história científica se constitui a par-
tir da convergência dessas tradições – convergência que pode ser articulada a partir
da ideia de aufhebung, suprassunção, conservação que transforma –, é no debate
crítico com a tradição hegeliana que seus contornos filosóficos serão delimitados.
Nesse sentido, o texto de Wilhelm von Humboldt A tarefa do historiador pode
ser considerado paradigmático, especialmente a passagem em que ele afirma que
“a abordagem filosófica representa uma ameaça muito maior para a autenticidade
histórica do que o tratamento poético, pois este pelo menos está acostumado a dar
livre curso ao material com que lida”. Prossegue Humboldt: “A filosofia dita um
objetivo aos eventos, e assim essa busca por causas finais, sejam elas deduzidas da
essência da natureza ou do próprio homem, perturba e falsifica toda visão livre
sobre a ação própria das forças”. É com base nesta oposição que se pode entender
a afirmação de Humboldt de que a tarefa do historiador consiste na exposição
dos acontecimentos. Porém, argumenta ele, afastando a possível equiparação entre
historiador e cronista, “o historiador digno deste nome deve expor cada evento
como parte de um todo, ou, o que é a mesma coisa, a cada evento dar a forma da
história”. Ele visar à compreensão dos modos de atuação das “forças criadoras da
história”, como por exemplo as nações e os Estados: “Cada individualidade é uma
ideia que se arraiga no fenômeno, e em algumas tal ideia reluz tão brilhantemente
que ela parece ter tomado a forma do indivíduo para que nele se revelasse a si mes-
ma”. E conclui: “não é diferente com a individualidade das nações”. Precisamente
por meio das individualidades históricas, especialmente Estados e nações, que se
configura um “plano mundial”, sem o qual a história seria incompreensível, plano
este que, todavia, é imperscrutável em sua plenitude: “a perspectiva humana não
é capaz de vislumbrar imediatamente a diretriz do mundo, mas somente pode
chegar até ele pelas ideias através das quais tal plano se revela e, por isso, para tal

capítulo 4 • 65
perspectiva a história não é senão a atualização de uma ideia, e nela estão simul-
taneamente a força e o objetivo”. Como percebe Georg Iggers em The German
Conception of History, embora Humboldt tenha desenvolvido sua teoria da indi-
vidualidade a partir de fundamentos metafísicos, a história, para ele, era o único
guia para uma compreensão aproximada da “totalidade do ser”.
A recusa de Humboldt da “abordagem filosófica” não era uma exclusividade
sua. Segundo Iggers, a Universidade de Berlim, fundada em 1810 pelo próprio
Humboldt em seu projeto de reorganização do ensino prussiano, dividia-se, nas
primeiras décadas do século XIX, em dois grupos fundamentais, cuja influência
transcendia o campo das ciências do espírito. O primeiro grupo tinha em Hegel
a figura central; o outro concentrava-se em torno dos juristas da chamada Escola
Histórica do Direito, como Savigny e Eichhorn. Segundo Iggers, “o que dividia
as duas escolas era uma concepção diferente de verdade e realidade”. Para os
hegelianos, a diversidade do mundo fenomênico era entendida como manifestação
de um princípio racional subjacente; por esse viés, a verdade poderia ser alcançada
pela redução da diversidade a conceitos racionais. Já os autores ligados à Escola
Histórica argumentavam que a realidade era a própria diversidade, e que sua
redução a um esquema conceitual seria uma violação da individualidade inerente à
vida. Porém, ainda segundo Iggers, “ambas escolas compartilhavam a convicção de
que por trás dos fenômenos dos estudos históricos havia uma realidade metafísica”.
Porém, para os autores da Escola Histórica, “somente a história oferecia respostas
às questões fundamentais da filosofia”. De acordo com Savigny e Eichhorn, a
história seria o único caminho para o verdadeiro conhecimento de nossa condição.
Diante desse quadro, esboçado pela Escola Histórica, de valorização
fenomênica da realidade, a preocupação com o método crítico da pesquisa histórica
se mostrava essencial. Niebhur, professor em Göttingen, mas intimamente ligado
a Savigny e Eichhorn, embora ateste, no prefácio à primeira edição de sua História
de Roma, publicada em 1811, seu débito em relação à Gibbon, defende que sua
história se baseia em outros requisitos: ele afirma a intenção de eliminar toda
ficção e procurar se ater apenas à verdade. Ao mesmo tempo, diz ele, é preciso
afirmar a conexão geral dos eventos. No prefácio à segunda edição, Niebhur, ao
oferecer esclarecimentos acerca do seu procedimento crítico, mostra-se herdeiro
da tradição erudita desenvolvida no século XVII. Diz ele que “o século XVII
testemunhou a emancipação do intelecto e da ciência de sua prévia menoridade”.
Segundo palavras de Anthony Grafton em As origens trágicas da erudição,
“Niebhur demoliu a história tradicional da fundação de Roma por dois jovens

capítulo 4 • 66
alimentados por uma loba, Rômulo e Reno, tão habilmente quanto Wolf fez com
a ideia de que Homero havia escrito poemas épicos elaborados, classicamente
coerentes. Ambos, finalmente, insistiram em que seu trabalho de demolição era
apenas o prefácio a uma verdadeira apreciação do mundo antigo”. Tratava-se, nesse
caso, não apenas de um trabalho de erudição nos moldes antiquários, voltado para
a afirmação de fatos e datas, mas do emprego de tais métodos para a escrita de
obras históricas preocupadas com o estabelecimento de padrões explicativos, com
base em nexos causais. Além de Niebhur e Wolff, o linguista Gottfried Hermann
teve um papel decisivo para a incorporação do método crítico pela historiografia
alemã de fins do século XVIII.
Hermann e Niebhur tiveram papéis decisivos na formação de Leopold von
Ranke – embora este, mesmo reconhecendo seu débito em relação aos seus mestres,
sempre tenha afirmado a originalidade dos seus procedimentos. De acordo com
Grafton, “quando Ranke entrou na Universidade de Leipzig, no verão de 1814,
imediatamente começou a assistir às preleções de Hermann sobre Ésquilo e Píndaro.
Hermann – um discípulo brilhante e austero de Kant – é atualmente lembrado por
seus estudos extraordinariamente originais sobre métrica grega e crítica textual. [...]
Como mostram as notas de Ranke sobre as aulas de Hermann, ele ensinou muito
seus alunos acerca das dores e dos prazeres da crítica histórica”. Ante o quadro da
ampla do método crítico já no século XVIII, Felix Gilbert se indaga: “o que era real-
mente novo em Ranke?”. Como percebe o autor, já no século XVIII os preceitos da
imparcialidade e credibilidade da pesquisa histórica haviam se difundido, sobretudo
na Alemanha. “Ranke”, afirma Gilbert, “estava ciente dos reconhecidos padrões do
conhecimento histórico, como eles tinham sido desenvolvidos no século XVIII, mas
ele estendeu o método da crítica histórica”. É nesse sentido que pode ser interpreta-
do o reconhecimento de Ranke às lições de Niebhur e Hermann, associada, ao mes-
mo tempo à autoafirmação de sua própria originalidade. Segundo Gilbert, a crítica
de Ranke a Guicciardini no apêndice crítico às suas Histórias dos Povos Românicos e
Germânicos pode ser tomada como indício de sua concepção do método histórico:
“como mostra sua análise dos escritos de Maquiavel e Guicciardini, ele via uma
profunda conexão entre a personalidade de um autor e o tipo de relato por ele apre-
sentado. [...] O que as fontes apresentam sobre o passado não pode ser aceito como
fato; o estabelecimento dos fatos é o trabalho do historiador, que deve reconstruí-los
com base em todo material disponível”. Assim, o primado do testemunho ocular,
afirmado pela história erudita do século XVIII, deixa de ser uma condição exclusiva
de veracidade: é preciso realizar um trabalho hermenêutico qualitativo de crítica

capítulo 4 • 67
documental, sobretudo por meio do estabelecimento de um corpus, um conjunto
de fontes de certa natureza, documentos que, segundo ele, estariam menos marcados
por posições e juízos pessoais, como as legações oficiais de embaixadores. Em suma:
embora esta imagem tenha sido associada à Ranke pela posteridade, as fontes não
falam por si mesmas. Cabe ao historiador estabelecer seus fatos por meio de crítica
apurada, comparação, suposição de relações causais, imaginação a partir de silêncios.
Somente deste modo, valendo-se de um procedimento crítico bem delimitado, o
historiador poderia alcançar seu objetivo maior, a saber, alcançar “a verdade nua,
sem embelezamento, por meio da investigação do fato individual, o resto deixado
a Deus, sem poetizar, sem fantasiar” – ou, como na famosíssima passagem, “mera-
mente mostrar o que realmente aconteceu”, passagem que, como demonstra Gilbert
é suscetível a três interpretações, o que efetivamente aconteceu, o que realmente
aconteceu ou o que essencialmente aconteceu, todas válidas e pertinentes.
Fundamentalmente, para Ranke, a história deveria ser uma disciplina autô-
noma: este, para Gilbert, era o fulcro do novo conceito de história advogado pelo
historiador prussiano. Na Universidade de Göttingen, por exemplo, embora fosse
dada atenção à história, ela ainda se mantinha como um campo de investigação
subordinado a outras disciplinas, como a filologia e o direito. É em Berlim, com
Ranke, que ela adquire seu estatuto particular, muito em função da sistematização
teórico-metodológica proposta pelo historiador. Georg Iggers delineia os princi-
pais pressupostos teórico-metodológios da historiografia rankeana: puro amor à
verdade; análise penetrante das fontes; definição de relações causais; princípio da
imparcialidade; busca do contexto total; compreensão como imersão na matéria.
Tal imersão era pensada por Ranke por meio da noção de empatia, e, segundo
Iggers, caracteriza um tipo de abordagem intuitiva retomada por Dilthey e rejeita-
da, se não totalmente, ao menos parcialmente, por Max Weber.
Gilbert menciona ainda outro aspecto: a história, para Ranke, era também uma
arte literária, e seus exercícios de estilo eram parte de um projeto teórico de fazer o
passado visível, especialmente em suas relações complexas. Nesse sentido, pode-se
dizer que para Ranke estabelecer os fatos não era suficiente: era preciso fazer o leitor
visualizar as relações dos fatos entre si, os nexos causais, os movimentos ocultos
que, no mais das vezes, se revelavam em detalhes. Assim como em Humboldt, o
estudo do particular, em Ranke, não é um fim em si mesmo: ele deve permitir
a definição das forças atuantes da história, e essas forças fundamentais, em sua
ótica, eram os Estados e as Nações, especialmente os europeus, que conformavam
uma totalidade sempre cambiante chamada Europa, cuja balança de poder era o

capítulo 4 • 68
verdadeiro plano divino realizado na História. Como afirma Gilbert, “a visão de
Ranke da Europa articula tanto o reconhecimento da individualidade nacional
quanto mostra uma tendência à unidade”. Segundo Georg Iggers, a realidade, para
Ranke, consiste na multiplicidade de naturezas individuais, cujo sentido seria Deus
e sua Vontade. Em seu estudo sobre Ranke, Carl Hinrichs afirma que uma questão
importante nos estudos de juventude de Ranke dizia respeito à indagação sobre
como se pode encontrar lugar para Deus numa história particularizada. Os dois
caminhos mais comuns – a realização de um plano divino e a história do progresso
– não eram satisfatórios para ele. Em carta de 1835 a Heinrich Ritter, ele afirma
que “o singular não aparecerá em sua plena luz se não for compreendido em sua
relação com o universal”. De acordo com Hinrichs, as chaves para a compreensão
dos modos de articulação entre particular e geral em Ranke podem ser encontradas
em seu diálogo com a teologia luterana (liberdade x necessidade), com a filosofia
de Fichte (mundo como manifestação da ideia divina; ideia de que deus se faz
reconhecer nos grandes indivíduos; Deus invisível e ativo na História), a poesia
de Goethe (ver o universal no indivíduo) e a filosofia neo-platônica (somo dos
fenômenos do mundo se torna harmoniosa em virtude de Deus; um é tudo, tudo
é um). É nesse sentido que se pode pensar aquilo que Georg Iggers chama de uma
“metafísica da política”: “embora toda existência só possa ser compreendida em
termos de sua história, por trás da aparência efêmera de cada fenômeno particular
haveria uma verdade geral. Uma ideia final é a de que os Estados existentes na
história são as expressões concretas dessas ideias subjacentes”. A valorização dos
grandes personagens deve ser entendida nesse sentido: Ranke chega a afirmar que
os grandes indivíduos eram “espíritos originais que intervêm autonomamente
na batalha das ideias e das forças universais”. Nesse sentido, pode-se dizer que,
para Ranke, a tarefa fundamental do historiador seria a apresentação não só da
verdade factual, como também da verdade essencial, a qual se confundia com o
jogo das forças históricas; nesse sentido, embora ela não constitua uma filosofia
especulativa do progresso, a concepção rankeana de história comporta a ideia de
progresso, cujo sentido último, porém, permanece imperscrutável.
A geração seguinte a Ranke, definida como “Escola Prussiana”, dá
um direcionamento político ainda mais evidente à referida “metafísica da
política”. Afirma Iggers que “para duas gerações de historiadores, que estavam
profundamente envolvidos na luta pela liberalização e unificação nacional, o
ideal de Ranke de objetividade histórica parecia expressar um grau lamentável de
indiferença moral. Crescentemente comprometidos com a aplicação cuidadosa de

capítulo 4 • 69
métodos de análise das fontes, esses jovens escritores, todavia, não compreendiam
o estudo do passado como um fim em si mesmo”. Os dois maiores representantes
da Escola Prussiana foram Von Sybel e Droysen. Para Droysen, só se pode falar da
história como ciência na medida em que esta procura direção, um plano, plano
este que, em sua concepção, era formado pelo desenvolvimento das forças morais.
Fundamentalmente, a história é um processo que pode ser compreendido. Pensar
historicamente, para Droysen, é pensar o mundo ético em seu desenvolvimento,
em seu progresso. Ao mesmo tempo, Droysen se apresenta como crítico do que
chamava de “objetividade eunuca”: diz ele em Historik que “eu não quero mais do
que deixar à mostra a verdade relativa de meu ponto de vista”.
Com Jacob Burckhardt e Friedrich Nieztesche, os limites da abordagem
científica da história, já esboças por Droysen, são expostos em suas contradições e
fraquezas. Ao mesmo tempo, trata-se não apenas de um direcionamento crítico à
ciência história, mas à própria cultura histórica oitocentista, especialmente em seus
desenvolvimentos da segunda metade do século XIX. O historicismo, entendido
no sentido de Mannheim como um modo de explicação dos fenômenos pela
história visando à compreensão do presente pelo passado e à atribuição de sentido à
experiência da passagem do tempo, tornou-se efetivamente uma “visão de mundo”
amplamente disseminada, historicizando as ciências da natureza, que passam a
estar alicerçadas na noção de progresso, monumentalizando o passado, a cultura,
o Geist. Porém, como percebeu Walter Benjamin com agudeza, olhando, pelos
olhos do anjo da história, para os resultados do progresso, todo monumento da
cultura é também um monumento à barbárie. Segundo argumento defendido por
Reinhart Koselleck em Crítica e Crise, “a sociedade burguesa que se desenvolveu no
século XVIIII entendia-se como um mundo novo: reclamava intelectualmente o
mundo inteiro e negava o mundo antigo”. A filosofia da história deixou de ser um
problema especulativo; ao ser politizada, ela opera uma moralização da política,
que passa a ser vista como uma questão de interpretação do devir. Os agentes
individuais são coletivizados, ganham vontade autônoma. É diante desses quadros
que se pode compreender o diagnóstico de Nietzsche de que seu tempo padecia de
uma febre histórica; ele também pode ser associado à recusa, por Burckhardt, de
uma ideia de história pautada no critério de subordinação, em favor de uma ideia
de história que valorize a coordenação.
De acordo com Nietzsche, o homem precisaria da história “para a vida e para a
ação”. Esquecer é parte da condição humana, condição para que não nos sintamos
seres amarrados por um passado sempre se atualizando com força – o que Hayden

capítulo 4 • 70
White chamará, muitos anos depois, de “fardo da história”. “A história”, afirma
Nietzsche, “uma vez que se encontra a serviço da vida, se encontra a serviço de
um poder a-histórico, e por isto jamais, nesta hierarquia, poderá e deverá se tornar
ciência pura, mais ou menos como o é a matemática”. O modo de consciência his-
tórica oitocentista seria particularmente pernicioso por fazer com que o indivíduo
deixe de acreditar em si mesmo: tudo é resultado do processo histórico; os homens
se veem como velhos, na medida em que suas vidas são resultantes de séculos de
desenlace do processo histórico. Trata-se, segundo ele, da voz da “cultura históri-
ca”, “cultura que só conhece a palavra vir a ser”.
Nesse sentido, é bastante sintomático que Nietzsche visse em Burckhardt
a figura do verdadeiro historiador. Em A Cultura do Renascimento na Itália, o
historiador suíço analisa a Itália dos séculos XIV a XVI num quadro estático,
retrato dos aspectos mais recorrentes, a descrição do zeitgeist de uma época.
Trata-se da modernidade em formação, mas uma modernidade diferente, não a
modernidade da cultura histórica oitocentista, do progresso, das massas, e sim
a modernidade do individualismo, do culto a si, às potencialidades humanas,
à glória. A história da cultura, para Burckhardt, não deveria ser a história dos
grandes nexos causais, das transformações diacrônicas, e sim um meio de
formação, um meio para a Bildung: trata-se da leitura intensa e abrangente dos
textos do passado, especialmente aqueles produzidos nos grandes momentos da
história da humanidade. O historiador da cultura, por esse viés, teria a função de
manter acesa a chama dos valores eternos, permanentes, associados ao cultivo de
si, à individualidade e à recusa da cultura massificada. A história da cultura seria
uma história dos grandes valores espirituais, e seu objetivo maior seria exatamente
a preservação desses valores. Em Burckhardt, as três categorias-chave da cultura
alemã de fim do XVIII e do XIX – Kultur, Bildung, Geist – aparecem com toda
a força, em acepções muito próximas àquelas delineadas em fins do XVIII nos
escritor de Herder; até mesmo em função disso, elas aparecem como aspectos
centrais da crítica à filosofia do progresso, em seu viés totalizante e modernizante,
expresso tanto pelas filosofias especulativas quanto, em menor grau, pela história
científica de Ranke e Droysen.

Escola inglesa

A Escola Inglesa, também conhecida como Escola Marxista Britânica, ou


ainda como História Social Inglesa, é um movimento historiográfico surgido na

capítulo 4 • 71
década de 1960, a partir de um conjunto de trabalhos produzidos por diversos
acadêmicos, historiadores e teóricos de outras áreas. Estes autores adotaram uma
linha de pesquisa da história a partir da obra de Marx, porém em contraposição
a perspectiva dogmática do marxismo, chamada de “marxismo vulgar” por Eric
Hobsbawm. Além do já citado Eric Hobsbawm, podemos citar outros expoen-
tes do marxismo inglês, assim como E. P. Thompson, Christopher Hill, Perry
Anderson, Tom Nairn, Raymond Williams.
Para começarmos analisar este movimento, é necessário entender o conceito
de classe social no contexto marxista que é definido a partir do constante conflito
entre a burguesia, que detém os meios de produção, e o proletariado, que detém
a mão de obra. Mas a escola inglesa buscava uma análise da sociedade na sua
totalidade e transições, não se limitando a abordagens socioeconômicas dentro
do desenvolvimento do capitalismo, ou seja, a tradição marxista, mas também se
preocupava com elementos culturais.
A proposta do movimento, que representou uma renovação na perspectiva
marxista, foi influenciada por dois fatores fundamentais: de um lado temos as
ideias levantadas pela revista francesa dos Annales, responsáveis por destacar a
importância dos aspectos social e econômico em oposição a historiografia do
século XIX. O movimento dos Annales surgiu como crítica a historiografia
pautada no protagonismo dos estadistas, reis, heróis, Igreja a partir da narração
dos eventos através dos documentos oficiais, considerados como única fonte
confiável; do outro o movimento político global iniciado na segunda metade do
século XX “New Left”. Este movimento surgiu como resposta às posturas dos
Partidos Comunistas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.
A “New Left” inglesa surgiu como postura de repúdio a política stalinista denun-
ciada por Nikita Kruschev durante o XX Congresso do Partido Comunista da União
Soviética. A denúncia de Kruschev fora planejada para ocorrer secretamente, ou seja,
sem a presença de observadores internacionais, porém, mesmo com a retirada da im-
prensa estrangeira, em pouco tempo seu discurso percorria o mundo. Tal denúncia
fez com que diversos membros abandonassem o Partido Comunista da Grã-Bretanha
abrindo caminho para novas formas de interpretação do marxismo clássico.
Os dissidentes do Partido Comunista da Grã-Bretanha formaram a revista
“New Reasoner”, que não foi o único movimento voltado a repensar o marxismo,
já que a “New Reasoner” logo se fundiu a “Universities and Left Review”, dando
origem a “New Left Review10”, espaço de debate político e teórico reconhecido na
Inglaterra e no mundo.
10 <https://newleftreview.org/history>

capítulo 4 • 72
A escola inglesa foi marcada por divergências teóricas e metodológicas. E aqui
iremos analisar o trabalho de três dos mais influentes pensadores deste movimento.

Eric Hobsbawm
Hobsbawm nasceu em 1917, em Alexandria, durante o período de domínio
britânico sob o Egito. Durante a infância viveu em Viena e Berlim, que também
passavam por uma fase conturbada devido a grave crise econômica e social que
afetou tanto a Áustria e a Alemanha, consequência da Primeira Guerra Mundial.
Devido ao falecimento de seus pais, Hobsbawm e sua irmã foram adotadas por
sua tia, Gretl. Foi neste momento que passou a morar em Londres, em 1933. A
ida fora motivada por dois aspectos, a perseguição nazista e a bolsa de estudos que
recebera de Cambridge – onde se formou em História.
A vida de Eric Hobsbawm foi marcada pelo envolvimento intenso com a
política. Em 1931, enquanto ainda morava em Berlim, se filiou ao Partido
Comunista de Berlim. Mais tarde, em 1936, entrou para o Partido Comunista
Britânico, sendo membro por 60 anos, até a dissolução do partido em 1991.
Com a eclosão da Segunda Guerra, Hobsbawm serviu o exército britânico no
setor de inteligência, como tradutor, pois falava quatro idiomas. Ao final da guerra
regressou a Cambridge para seu doutorado e formou o Grupo de Historiadores do
Partido Comunista, movimento que deu origem a escola inglesa.
Segundo Hobsbawm, a importância do marxismo se deu pela sua inserção nas
ciências sociais criticando o positivismo e sua forma de estudo dos fatos humanos,
da história, através de um olhar que equiparava as ciências sociais às ciências
humanas. Por se tratar de uma teoria estruturalista-funcionalista, o marxismo
disserta sobre os diversos níveis que interagem na sociedade. Dentre os fatores
que caracterizam as diferenças entre o marxismo e as demais teorias podemos
destacar a hierarquia dos fenômenos sociais e as tensões que geram mudanças
através da história.
Outra característica marcante presente no pensamento de Hobsbawm se dá
através da crítica ao que ele definiu como “marxismo vulgar”. Para ele as pesquisas
elaboradas a partir desta definição seriam baseadas em uma interpretação econo-
micista da história, que seria explicada apenas pelo interesse de classe, pela defesa
de leis de inevitabilidade histórica, o que resultava numa regularidade rígida e
mecânica ao analisar a sociedade.

capítulo 4 • 73
todo historiador tem seu próprio tempo de vida, um poleiro particular a partir do qual
sondar o mundo. Meu próprio poleiro é constituído, entre outros materiais, de uma infân-
cia na Viena dos anos 20, os anos da ascensão de Hitler em Berlim, que determinaram
minhas posições políticas e meu interesse pela história, e a Inglaterra, e especificamente
a Cambridge dos anos 30, que confirmaram ambos”. Sobre História, de Eric Hobsbawm.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Raymond Williams
Nascido em 1921, no pequeno vilarejo de Llanfihangel Crucorney, no País de
Gales, Raymond Williams se tornou um dos nomes mais significativos em estudos
culturais da Nova Esquerda Inglesa. Suas contribuições nesta esfera permeiam as
áreas de literatura, teatro e televisão, na busca da compreensão de tais veículos
a partir do ponto de vista de uma cultura erudita, mas também no âmbito da
cultura popular, além de trabalhar com a indústria cultural.
Williams participava do Clube do Livro de Esquerda regional. O clube, criado
por Victor Gollancz em 1936, tinha como objetivo disseminar as ideias da esquer-
da e combater o crescimento do fascismo11.
A obra de Williams é um reflexo da critica ao modelo estrutural-funcionalista
de base econômica do marxismo marcada pela preocupação com questões
socioculturais e culturais. Assim como Thompson – autor que trataremos a seguir
– Raymond Williams defendia uma nova interpretação do conceito “modos de
produção”. Para eles este conceito não deveria ser limitado a esfera econômica,
de produção, de trabalho e relações sociais dentro do processo de fabricação de
mercadorias, mas também para analisar a como a sociedade, dentro de suas relações
sociais, a partir de suas experiências entre si e o ambiente, produzem cultura.
A obra do autor é voltada para o entendimento do conceito de cultura de
forma mais abrangente, trabalhada em cima de uma significação antropológica
considerando a totalidade dos fenômenos humanos, em oposição à teoria da cultura
no marxismo clássico. Desta forma, práticas sociais como as religiões e costumes,
por exemplo, são consideradas modos de produção, o que ficou conhecido como
“história de baixo pra cima”.

Uma sociedade marcada pelo princípio da contradição só pode ser analisada e, conse-
quentemente, transformada a partir do reconhecimento de que a hegemonia não opera
de maneira linear na esfera do sistema econômico. Há, nas palavras do autor, uma “in-
separabilidade de estruturas”

11 https://www.leftbookclub.com/about

capítulo 4 • 74
LEITURA
A cultura é algo comum a todos: este o fato primordial. Toda sociedade humana tem sua
própria forma, seus próprios propósitos, seus próprios significados. Toda sociedade humana
expressa isso nas instituições, nas artes e no conhecimento. A formação de uma sociedade
é a descoberta de significados e direções comuns, e seu desenvolvimento se dá no debate
ativo e no seu aperfeiçoamento, sob a pressão da experiência, do contato e das invenções,
inscrevendo-se na própria terra. A sociedade em desenvolvimento é um dado e, no entanto,
ela se constrói e se reconstrói em cada modo de pensar individual. A formação desse modo
individual é, a princípio, o lento aprendizado das formas, dos propósitos e dos significados
de modo a possibilitar o trabalho, a observação e a comunicação. Depois, em segundo lugar,
mas de igual importância, está a comprovação destes na experiência, a construção de novas
observações, comparações e significados. Uma cultura tem dois aspectos: os significados
e direções conhecidos, em que seus integrantes são treinados; e as novas observações
e os significados que são apresentados e testados. Esses processos são ordinários das
sociedades humanas e das mentes humanas, e observamos através deles a natureza e uma
cultura: que é sempre tradicional quanto criativa; que é tanto os mais ordinários significados
comuns quanto os mais refinados significados individuais
(WILLIAMS, 2015, p. 5). WILLIAMS, Raymond. Recursos da esperança.
São Paulo: Editora UNESP, 2015

E. P. Thompson
Nascido em Oxford em 1924, foi aluno de História na Universidade de
Cambridge, porém devido a Segunda Guerra Mundial, interrompeu seus estudos
e alistou-se no exército.
Durante seu período de graduação foi militante do Partido Comunista da
Grã-Bretanha, onde juntamente com Hobsbawm, Christhopher Hill e outros
pesquisadores, formou o Grupo de Historiadores do Partido Comunista.
Mais tarde, em 1948, foi contratado para dar aulas a trabalhadores no período
noturno pela Universidade de Leeds. Sua obra “A formação da classe trabalhadora
Inglesa” pode ser entendida como um reflexo desta experiência.
Na segunda metade do século XX, momento em que o movimento da nova es-
querda (New Left) iniciou, Thompson foi um dos nomes responsáveis pela criação
do núcleo da revista “New Reasoner”, que posteriormente se fundiu a “Universities
and Left Review” dando origem a “New Left Review”, que existe até hoje.

capítulo 4 • 75
Podemos dizer que Thompson partilhava de algumas das propostas e críticas
elaboradas por Williams, principalmente no que diz respeito as interpretações de
determinismo econômico dentro do marxismo clássico, o que é abordado em sua
obra “A Formação da Classe Operária Inglesa”. Sua crítica recai sobre o entendi-
mento da classe operária enquanto simples produto de exploração do trabalho a
partir da Revolução Industrial, ele defende que a consciência desta classe provém
de uma formação a partir de aspectos culturais, ou seja, um modo de produção
cultural, que envolve aspectos das experiências sociais que precedem a revolução
e o inicio dos trabalhos nas fábricas. Dentre os aspectos anteriores ao trabalho
nas fábricas, o autor levava em consideração, por exemplo, os cercamentos de
terra, mudanças sociais na maneira de viver. Ao valorizar tais experiências que são
diversas e diferem de acordo com cada grupo e região, Thompson defende o uso
de “classes operárias”. Sobre estas considerações, a obra “Costumes em Comum”
buscou compreender aspectos particulares dos costumes ingleses do século XVIII
e XIX como formas de luta e resistência de cultura popular.

Thompson propõe a distinção entre a experiência vivida e a experiência percebida.


A segunda categoria aproxima-se daquilo que Marx denominou de consciência so-
cial, uma vez que elas resultam das causas materiais. No entanto, a pressão das ex-
periências sobre as ações históricas não poderiam ser adiadas ou falsificadas pela
falsa consciência. Acrescenta Thompson: [...] Em uma análise comparativa, o modelo
tem apenas valor heurístico, passível de geralmente redundar em perigo dada sua
tendência em direção a uma estase conceitual. Na história, nenhuma formação de
classe específica é mais autêntica ou mais real que outra. As classes se definem de
acordo com o modo como tal formação acontece efetivamente (Thompson, 2001: p
277). Thompson irá argumentar que o conceito de experiência histórica serviria para
que os historiadores percebessem que não é possível pensar determinada classe so-
cial separada da outra, ou propor graus de importância e autenticidade entre elas.
O processo de auto formação acontece efetivamente a partir das experiências his-
tóricas conquistas e apreendidas por homens e mulheres concretas. Nesse sentido,
alerta Müller (2003): Thompson observa que as regularidades no interior do ser so-
cial, com frequência resultam de causas materiais que ocorrem de forma indepen-
dente da consciência ou da intencionalidade. Tais causas inevitavelmente dão ou
devem dar origem a experiência vivida, a experiência I, mas não penetram como re-
flexos na experiência II. No entanto, a pressão dessas causas sobre a totalidades do
campo da consciência não pode ser adiada, falsificada ou suprimida indefinidamente
pela ideologia[...] (2003: 341). As experiências históricas e suas articulações seriam

capítulo 4 • 76
inevitáveis e continuas. Teriam a função de exercer pressão sobre a consciência so-
cial, determinando a construção de materiais humanos conscientes de seus papeis na
sociedade de classes.

THOMPSON, Edward. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas:


Ed. da Unicamp, 2001.

MORAES, Maria Célia de Marcondes e MÜLLER, Ricardo Gaspar. História


e Experiência: contribuições de E. Thompson à pesquisa em educação. Revista
Perspectiva, Florianópolis, vol 21, nº02, p. 329-349, jul/dez de 2003

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capítulo 4 • 78
5
Outras
possibilidades
historiográficas: a
América Latina
Outras possibilidades historiográficas:
a América Latina

Neste capítulo analisaremos a escrita da história fora do eixo europeu,


focando na América Latina. É certo que muito da historiografia latino-americana
foi influenciada por aquela produzida na Europa, do positivismo, passando pelo
marxismo até a Escola dos Annales. Essas influências, longe de engessarem os
historiadores latinos, permitiram que, a medida que estes estudos históricos se
consolidavam, teorias próprias, que diziam respeito a análise e compreensão do
continente como um todo e dos países em particular fossem sendo gestadas e
aplicadas.

OBJETIVOS
•  Caracterizar a historiografia latino-americana pós independência;
•  Identificar alguns objetos de estudo caro a esta historiografia;
•  Analisar a influência europeia na escrita da história latina;
•  Reconhecer alguns objetos em particular, como a questão de gênero;
•  Distinguir entre a escrita da história, a literatura e o jornalismo.

Como vimos em nossos capítulos anteriores, a História é uma disciplina que


possui inúmeras abordagens possíveis. Seus objetos estão ligados às demandas de
seu próprio tempo e o que entendemos sobre fonte histórica foi notadamente
ampliado no século XX.
Veja, quando dizemos que os objetos da história estão ligados ao seu próprio
tempo queremos ilustrar que estudamos aquilo que hoje nos chama atenção, por
alguma razão. Quando estudamos o ofício do historiador percebemos que a prática
da história está ligada a uma certa afinidade, que Bloch chamava de vocação. Isso
quer dizer que o historiador escolhe para estudar o objeto que mais o interesse e
esse interesse, em geral, está ligado ao tempo em que vive.
Vejamos exemplos:
Quando estudamos a história enquanto ciência, vimos que Leopold Von
Ranke, ao pensar o historicismo, defendia o uso somente de documentos oficiais
e achava que história deveria se concentrar na área política. Ranke é um homem

capítulo 5 • 80
de seu tempo, o século XIX, quando a Alemanha, seu país de origem, ainda se
unificava. Logo, ele escolhe como objeto de seu estudo aquilo que observa e que
deseja entender em seu país em formação.
Vamos fazer um rápido resumo do que vimos até aqui:

HISTÓRIA NA Possui um componente mitológico e não é entendida como


ANTIGUIDADE Ciência
CLÁSSICA
FILOSOFIA DA Período em que a história começa a ser sistematizada, mas ainda
HISTÓRIA não nos parâmetros científicos de fato.

A partir do positivismo francês e do historicismo alemão, a his-


HISTÓRIA NO tória começa a ser pensada como ciência. Há um claro limite
SÉCULO XIX no entendimento de fonte e no que pode ser considerado como
objeto de estudo.

ESCOLA DOS Marc Bloch e Lucien Febvre fudam uma nova forma de pensar
ANNALES a história, nos anos 30 do século XX. Essa mudança ampliaria o
(SÉCULO XX) horizonte historiográfico e sua influência existe até os dias atuais.

Vimos, na no capítulo 3, que a própria escola dos Annales passou por


mudanças e depois dos fundadores outras gerações se seguiram com outras formas
de pensar e entender a história.
Veremos agora algumas abordagens contemporâneas na historiografia e como
estas foram possíveis exatamente porque os Annales ampliaram o que pode ou não
ser pensado como história.

A historiografia latino americana

Afirmar que a história de um país ou continente é interessante é sempre um


pouco redundante. Todos os países do mundo possuem sua própria história, com
suas peculiaridades únicas e que, certamente, possuem interesse para a história.
Isto posto, é muito importante, como historiadores, analisarmos estas histórias
sem o olhar etnocêntrico que caracterizou a ciência por tantas décadas.
Vamos analisar a questão etnocêntrica para podermos compreender como esta
influencia a historiografia do continente latino-americano.

capítulo 5 • 81
Vejamos esta imagem:
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 5.1  –  Desembarque de Cabral em Porto Seguro (óleo sobre tela), autor:
Oscar Pereira da Silva, 1904. Acervo do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Ela retrata um momento bastante conhecido, certo? O desembarque dos


europeus no Brasil. Durante muito tempo, este momento foi referido como
descobrimento, termo que hoje não utilizamos mais. Como a história é algo
vivo, ela muda e se modifica progressivamente a medida que a mentalidade, a
sociedade e as culturas também se modificam. Hoje, entendemos que utilizarmos
o termo descobrimento desconsidera as sociedades indígenas que já existiam, não
só no Brasil, mas em toda a América. Estes povos, por sua vez, também possuem
história, como veremos mais adiante.
O domínio europeu do continente americano fez com que as primeiras
tentativas de se pensar uma história latino-americana fossem permeadas pelas
visões eurocêntricas:

CONCEITO
Etnocentrismo é um conceito da antropologia que é amplamente utilizado nas ciên-
cias humanas. Uma perspectiva etnocêntrica é quando um grupo – um povo por exemplo
– entende a sua cultura melhor do que a de outro grupo. No caso que estamos discutindo,
os europeus entendiam que sua cultura era superior a cultura indígena, originando a visão
etnocêntrica da qual falamos.

capítulo 5 • 82
Como todo o continente americano foi colônia de algum reino europeu,
a história dos atuais países deste continente é dividida em várias fases, mas
distinguiremos duas, a colônia e a independência.
A história colonial da América Latina foi marcada pelas relações de dominação.
A historiografia que era produzida neste período está profundamente influenciada
pela mentalidade metropolitana. O europeu representava o civilizado e os
indígenas e africanos – que haviam sido traficados como escravos para realizar
trabalhos braçais nas colônias – eram bárbaros e inferiores.
Passados séculos desde o fim do período colonial, é inegável que esta visão,
já bastante superada, deixou marcas indeléveis na cultura e na sociedade latino-
americana, sendo o preconceito e a desigualdade exemplos deste legado que ainda
não foram superados.
A historiografia latino-americana tem na independência seu momento crucial.
É quando os países passam a considerar as questões internas de forma autônoma,
sem a necessidade de se entender a partir de uma metrópole.
Mas, será que é possível que, subitamente, este pensamento se desvencilhe das
metrópoles e se torne, de fato, autônomo?
Esta é uma questão bastante interessante para discutirmos.
A despeito da autonomia obtida nos movimentos de independência do século
XIX, esta significou a emancipação política, mas não exatamente a emancipação
cultural. A desigualdade social persistiu, índios continuaram na base da pirâmide
social, assim como os negros que, embora libertos (em alguns casos), mantinham-
se excluídos da sociedade.
Um dos exemplos mais claros da manutenção das estruturas coloniais na nova
ordem é a manutenção da escravidão. Países como Brasil e Estados Unidos aboliram
a escravidão muito depois da independência (em 1888 e 1863, respectivamente).
Para estes indivíduos, que haviam sido escravizados, a independência nada
significou e o discurso de liberdade tão em voga quando se falava da “opressão
metropolitana” não se dirigia aqueles que eram submetidos ao cativeiro.
A posse da terra, outro problema atávico do continente latino, tampouco
sofreu alteração. No início da colonização as terras foram distribuídas em grandes
lotes que se constituíram os latifúndios, dedicados a agricultura e a pecuária. A
posse de muita terra por poucos sempre foi uma questão central, por isso o tema da
Reforma Agrária é discutido até hoje sem que haja uma solução definitiva a vista.
A história que passa a ser escrita a partir da Independência foi feita, em grande
medida, por aqueles que haviam participado deste processo. Durante o século

capítulo 5 • 83
XIX, a historiografia latino-americana pouco diferia daquela pensada pelo positi-
vismo europeu. Era fruto de abordagens políticas, feita por indivíduos que pode-
riam estar ligados ou não às chamadas academias de história. Sobre estas, Claudia
Wasserman coloca que:

Na segunda metade do século XIX, apareceram os primeiros “historiadores”, intelectuais


ligados a academias de história ou centros e institutos de pesquisa histórica. Embora
sem profissionalização, estes sujeitos tiveram uma preocupação com a investigação
histórica e suas obras transformaram-se em um legado de valor documental para
futuros historiadores de ofício. (WASSERMAN, 2011 p. 96)

Um dos primeiros objetos a se tornar foco da história a ser produzida neste pe-
ríodo pós independência, foi a identidade nacional. Esta não estava clara ou delimi-
tada, mas, ainda assim, era necessária para que os novos estados recém-formados se
tornassem nações consolidadas. Mas que identidade nacional seria essa? Não poderia
ser europeia porque os laços de dependência com os europeus haviam acabado de
ser rompido. Não era indígena nem africana porque estas eram consideradas etnias
inferiores. Mas também não era americana porque, afinal, o que era ser americano, ou
latino americano? Quem era então o brasileiro, o mexicano ou o argentino?
Segundo Claudia Wasserman:

A questão nacional na América Latina e os problemas de identidade nacional,


das origens da nação e da nacionalidade são temas consagrados há muito pelos
intelectuais e pelos historiadores latino-americanos. A busca do caráter nacional e
das origens da nação está evidentemente relacionada às dificuldades de construção
de ordenamentos políticos estáveis na região. A isso, somou-se o fato de constituir-se
um contingente populacional “transplantado”, com origens variadas, conforme o país.
(WASSERMAN, 2011 p. 95)

Duas questões logo se tornariam claras à historiografia latino-americana. A


identidade nacional e a formação da população. Cabe lembrar que no século XIX
e início do século XX grassavam as teorias raciais que entendiam negros e indíge-
nas como inferiores e prediziam que os países que havia sido colônias não pode-
riam prosperar ou desenvolver porque jamais conseguiriam superar seu passado
colonial não só do ponto de vista politico e econômico, mas também do ponto
de vista étnico.

capítulo 5 • 84
LEITURA
SILVEIRA, Renato da. Os selvagens e a massa: papel do racismo científico na montagem
da hegemonia ocidental. In: Afro-Asia, n 23 UFBA pp. 87-144 Disponível em: <http://www.
egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/26173-26175-1-PB.pdf>.

Assim como no Brasil, a historiografia latino-americana nas décadas que


sucedem as independências, pode ser caracterizada, de forma geral, como
perspectivas historiográficas tradicionais. Não há, ainda, a chamada história
problema, que veremos apenas no século XX. Os modelos utilizados são europeus,
e a história é escrita não necessariamente por historiadores, posto que o próprio
título historiador é um tanto difuso. Chamava-se historiador todo intelectual, em
geral autodidata neste aspecto – que se dedicasse a escrever sobe algum aspecto
histórico, de forma descritiva e não problematizada. Não havia a preocupação
com a análise e estes intelectuais entendiam estar levando ao público a “verdade”,
a história como ela é, sem interferências. Visões hoje bastante ultrapassadas, mas
que devem ser entendidas em seu período de produção.
Considerando essa perspectiva acerca da “história da história latino-americana”
não podemos deixar de enfatizar o salto qualitativo que esta viveu – e ainda vive
– nas últimas décadas. A partir dos anos 60 a historiografia latino-americana se
desenvolveu sobremaneira e incorporou discussões de diversas outras academias,
além, é claro, de voltar-se para questões que lhe são particularmente caras, como a
questão indígena e a mão de obra escrava.
Os historiadores voltam-se para a busca da compreensão das realidades
nacionais, construindo modelos interpretativos que deem conta não de uma
América imaginada, idealizada ou europeizada, mas daquilo que se observa no
cotidiano, desde as estruturas legadas da colonização até aquelas construídas
pelos movimentos republicanos. Novos atores sociais passam a fazer parte dessa
narrativa, como camponeses e indígenas.
No tocante a história indígena é inegável a influência das tendências cultura-
listas europeias que ampliaram o escopo do que se entendia como fonte – vimos
essa expansão ao estudarmos os Annales, como falamos anteriormente – que per-
mitiram a existência, de fato, do estudo de uma história indígena.

capítulo 5 • 85
Inicialmente, os índios foram considerados povos sem história. Arte das
sociedades indígenas americanas não possuíam escritas e seu vestígios e culturas não
eram, na história tradicional, considerado como fonte. Isso permitiu que a história
deixasse de lado esse objeto por muito tempo, entendendo que não havia, em si
uma história indígena, apenas antropologia. Um dos estudos mais importantes
acerca da questão indígena na América é, justamente, de antropologia, a obra a
Sociedade contra o estado, de Pierre Clastres, onde o autor afirma que:

Que acontece com os Índios da América? Sabe-se que à exceção das altas culturas
do México, da América Central e dos Andes, todas as sociedades índias são arcaicas:
ignoram a escrita e «subsistem», do ponto de vista econômico. Por outro lado, todas, ou
quase todas, são dirigidas por líderes, chefes e, característica decisiva digna de reter a
atenção, nenhum destes caciques possui «poder». (CLASTRES, 1978 p. 9)

Nesta visão tradicional, ainda se entendia haver uma hierarquização entre


as culturas, havendo, portanto, culturas superiores e inferiores, desenvolvidas e
subdesenvolvidas.
Como estamos dando nossos passos iniciais na história, através desta disciplina,
é importante relembrarmos alguns pontos que devemos guardar, pois serão
fundamentais ao longo de todo nosso curso e, posteriormente, de nossa carreira.
Não existem culturas superiores e inferiores.
Portanto, não existe uma hierarquização entre as culturas.
Cada cultura possui suas próprias características e elas não são melhores ou
piores uma das outras.
Povos sem escrita não são, necessariamente, povos atrasados.
Povos sem escrita não são povos sem história. Vestígios das mais diversas
ordens, como linguísticos, culinários, arquitetônicos, são fontes válidas para o
estudo das sociedades.
E, é claro, o objeto do estudo da história não é o passado. E o estudo do
homem no tempo que pode ser o passado ou o presente.
Entretanto, não era assim que pensavam os primeiros “historiadores” da
América latina, que desconsideravam a cultura indígena por entender que estes
povos eram inferiores e sem história. Progressivamente, conforme a academia de
história começa a se devolver de fato como um campo de estudo, através das uni-
versidades, da formação de professores e especialistas, do estabelecimento de áreas
de pesquisa, essa historiografia. Como coloca Jurandir Malerba:

capítulo 5 • 86
Desde então, porém, assiste-se a uma verdadeira explosão da produção historiográfica,
marcada pela expansão das historiografias nacionais, pela consolidação de seus progra-
mas de pós-graduação, pelo incremento dos veículos de difusão do conhecimento his-
tórico, pela maior inserção dos historiadores latino-americanos no debate internacional
e por uma relativa profissionalização da área na maioria dos países da América Latina.
(MALERBA, 2009 p. 13)

Na década de 60 do século XX as teorias marxistas ganham espaço na


historiografia. Como colocamos anteriormente, quando falamos sobre marxismo,
estamos nos referindo a teorias que estudam a história a partir de seus meios de
produção e não a uma perceptiva ideológica ligada ao socialismo ou regimes afins.
As teorias marxistas possuíam apelo como modelo explicativo por se encontrar
em alguns aspectos importantes para o entendimento da sociedade latina. Primeiro, as
peculiaridades do capitalismo que foi desenvolvido no continente. Este foi gestado a
partir das estruturas da antiga empresa colonial logo, desigual e baseado na exploração
dos trabalhadores. Conceitos oriundos da obra de Marx como burguês (dono dos
meios de produção) que na América podia tanto assumir o papel do caudilho ou do
empresariado nascente e proletariado, em referência ao trabalhador das fábricas, além
do campesinato, que constituía a maior parte da população trabalhadora.
Observar este cenário e tentar entendê-lo do ponto de vista da história foi,
nesse momento, buscar modelos explicativos que entendiam o capitalismo como
um sistema que gerava e aprofundava desigualdades. Isso ocorre, de forma geral,
em todos os países latinos embora as historiografias e peculiaridades locais tenham
ganho força a medida que a história se especializa.
Podemos citar como exemplo o trabalho de Alberto Flores Galindo, no que
toca a análise da sociedade peruana. Galindo analisa a divisão analítica dessa
sociedade que parece estar dividida entre civis e militares, representantes do
binômio democracia e autoritarismo. Segundo ele: “Alguns quiseram resumir a
história republicana como o ir e vir de um Pêndulo em cujos extremos se encontram
civis e militares, sinônimos de democracia e autoritarismo, respectivamente.
(GALINDO, 1990 p.24)1
Se o marxismo predominou nos anos 60 e 70, os anos 80 e 90 deram lugar aos
estudos sobre a cultura. A proposta de análise marxista não engloba, inicialmente,
perspectivas culturais, o que não significa que esta jamais possa ser utilizada para
estudar a cultura. Historiadores como E. P. Thompson, de matriz marxista, utiliza-
ram alguns dos fundamentos dessa teoria – como a ideia de classe e experiência de
classe – para fazer estudos acerca da cultura. Entretanto, essa possibilidade deve ser
examinada com cuidado para que a teoria original seja adaptada e não distorcida.

capítulo 5 • 87
Carlos Sempat Assadourian, um dos principais analistas da formação econô-
mica latina, escreveu, em sua obra O sistema da economia colonial, que:

Com particular persistência, a historiografia hispano-americana buscou na relação metró-


pole – colônia as chaves para a compreensão do processo histórico de nosso continente.
Na verdade, ela é responsável, em grande medida, pelo ordenamento de toda a estrutura
do espaço colonial. Um ordenamento interessado e voltado para, entre outras coisas, sa-
tisfazer as motivações de lucro que impulsionam o grupo invasor e que geram uma trans-
ferência de excedentes para a metrópole. (ASSADOURIAN, 1982 p 16)

Esta análise, que busca compreender não só os mecanismos da empresa


colonial, mas analisar de que forma esta conformou o sistema econômico latino
é um exemplo da teoria marxista aplicada ao objeto histórico, ou seja, o autor
utiliza o paradigma marxista baseado nas relações de produção para entender a
sociedade latina.
As abordagens culturalistas ganham folego e se dedicam a rever os objetos que
já apontamos, como a cultura indígena e africana. Isso quer dizer que os indígenas
podem ser estudados, partir de sua – agora reconhecida – cultura, bem como os
africanos podem ser estudados a partir dos legados culturais e das práticas que
permanecem nas sociedades latinas. A escravidão deixa de ser vista como uma
instituição pacífica e harmônica e passa a ser entendida como inerentemente
conflituosa. Da mesma forma, as revoltas escravas ganham novas interpretações,
vistas como resistência sistemática ao regime escravista.
A historiografia latino-americana recebeu diversas influências e acabou por
construir laços sólidos com as acadêmicas que formam os continentes. Programas
de intercâmbio e colaboração permitem que haja, atualmente, um enorme
desenvolvimento na escrita da história na América Latina.

CONEXÃO
Sobre a questão do tráfico de escravos, da escravidão e da complexidade deste sistema,
assista ao filme Amistad.
Amistad (EUA), 1997
Direção: Steven Spielberg

capítulo 5 • 88
Novas abordagens: a questão de gênero

Em História, é sempre importante evitarmos generalizações. Nenhum


trabalho jamais trará a verdade sobre um objeto, posto que desenvolve um ponto
de vista, em meio a muitos outros. Nenhum trabalho também poderá cobrir todas
as possibilidades, todas as características de um objeto. Tendo isso em vista, é
bastante complicado afirmarmos que um tema é mais complexo que outro ou
que há poucos estudos sobre algo – estudos de história estão sendo realizados no
mundo inteiro, enquanto lemos este texto – e é fundamental relativizarmos estas
afirmações generalistas.
Dito isto, um dos temas que ocupam um lugar controverso na historiografia
hoje são as questões de gênero. Importante esclarecermos que estudos sobre a
questão de gênero implicam em uma multiplicidade de objetos, desde o papel da
mulher nas sociedades e tempos em que vivem até formas de sexualidade e relações
de poder e alteridade.
A história das relações de gênero passou a ser trabalhada a partir das
possibilidades abertas pela terceira geração dos Annales, em especial. Em seu início,
a história de gênero confundiu-se com a história das mulheres. Progressivamente,
este campo foi se especializando e desenvolvendo uma metodologia própria que
permitisse diversificar seus objetos para além da questão do feminino.
Uma das primeiras historiadoras a se dedicar ao tema foi Natalie Zemon Davis,
considerada, inicialmente, ligada a história cultural. O historiador e as pesquisas
que desenvolvem estão sempre ligados a um campo da história, o que não significa
que este mesmo historiador esteja preso a ele. No caso de Natalie Davis, embora
tenha realizado importantes estudos sobre as mulheres, seus trabalhos e interesses
são múltiplos tendo estudo também, o judaísmo, por exemplo.
As décadas de 60 e 70 do século XX foram efervescentes em vários sentidos.
Do ponto de vista político o mundo vivia a bipolaridade, o que tornava as tensões
internacionais constantes e aterrorizantes. O fim do mundo era iminente e
relembrado com frequência na literatura, na música, nos jornais e no cinema. A
maior parte dos países latinos vivia ditaduras alinhadas aos Estados Unidos.
Mas se o conservadorismo grassava na política, na cultura e na ciência, as
posições eram bem diferentes. Foram as décadas do cinema experimental, da lite-
ratura outsider, do movimento hippie e do feminismo. Os estudos sobre a mulher,
alimentados pela perspectiva feminista começaram a ganhar corpo e inicialmente,
procuravam recuperar a mulher do lugar invisível que ocupavam na história.

capítulo 5 • 89
A medida em que se constituía como um campo em si, os estudos de gênero
passaram a se compor e a desenvolver suas próprias teorias para analisar um objeto
que não era só a questão feminina, mas as relações travadas a partir do gênero e de
suas diversas possibilidades. Como coloca Maria de Matos:

Quanto às categorias de análise, o uso do gênero apontou a necessidade de se libertar de


conceitos abstratos e universais, bem como, a necessidade de se historicizar os concei-
tos e categorias (entre elas a própria categoria gênero), construindo-os durante o próprio
processo de pesquisa. Além de aceitar conscientemente a transitoriedade dos conceitos e
do próprio conhecimento, bem como incorporar a própria efemeridade das perspectivas, a
instabilidade das categorias analíticas, constantemente desconstruídas e reconstruídas, e a
historicidade inerente ao processo de conhecimento. (MATOS, 1998 p 69)

Tais estudos, longe de se esgotarem em si mesmos, permitiram outras análises,


o que é interessante para podermos compreender melhor a dinâmica que envolve
o desenvolvimento de uma ciência tão particular como a história.
Os historiadores, amparados em fontes e em hipóteses, formulam teorias.
Estas teorias, em geral, estão ligadas a um campo (história da cultura, história da
arte etc.) e são aplicadas a um objeto de interesse do historiador. Outras teorias
podem ser desenvolvidas, a respeito do mesmo objeto, e nem por isso invalidam,
necessariamente, o trabalho feito anteriormente. Isso quer dizer que a ciência
reside no acúmulo e uma teoria pode, perfeitamente, coexistir com outra. Daí a
dificuldade em compreendemos a dinâmica das ciências humanas porque nosso
paradigma interno – a definição que está arraigada em nossa mente – é das ciências
exatas onde uma teoria supera a outra.
Vejamos um exemplo:
Acreditava-se, na antiguidade, que o Sol girava em torno da terra (modelo
geocêntrico). Naquela época isso era uma afirmação científica.
Posteriormente, os estudos de física e astronomia mostraram que, na verdade,
era a terra que girava em torno do Sol (modelo heliocêntrico) e logo essa verdade
científica superou a outra proposição.
Estas afirmações, embora corretas, não se aplicam às ciências humanas, porque
nestas não há uma única verdade.
Tomemos um historiador que analise, hoje, a sociedade chinesa. Ele provavel-
mente irá afirmar que aquela sociedade carece de liberdade e que seus habitantes
possuem poucos direitos e muitos deveres em relação ao estado. Essa é uma infor-
mação correta, certo?

capítulo 5 • 90
Vejamos agora outro historiador, que tenha lido este trabalho e entendido
que, apesar de terem poucos direitos, a China é um dos países que mais cresce
no mundo e que o Estado, apesar de autoritário, investe cada vez mais em áreas
básicas, como a educação. Essa também é uma interpretação válida. São duas
perspectivas diferentes que não invalidam uma a outra.
Mas, então, qual a diferença da história para a literatura ou o jornalismo?
Deixemos Natalie Zemon Davis nos responder:

A pesquisa histórica envolve algum trabalho da imaginação e a escrita da história exige


uma habilidade que é, em parte, imaginativa. Há, por assim dizer, no modo como se pen-
sa e se escreve, uma região em que as fronteiras entre história e ficção se confundem.
Mas, por outro lado, os historiadores, em regra, consultam textos - algo externo a eles
mesmos -, e não suas próprias mentes, quando precisam verificar algo. (...) esta é uma
diferença profunda entre os dois gêneros. Na ficção, o autor pode muito bem decidir
que não consultará nenhum texto e que vai simplesmente deixar a coisa fluir, o que nós
historiadores não podemos fazer. Não nos é permitido escapar às regras da história, e
muito me agrada, na verdade, ter que me submeter a algo exterior a mim mesma. (DAVIS
2000 P 108)

Para finalizar nosso aprendizado a partir da fala de Davis, podemos concluir


que é claro que o que estudamos é resultado, em alguma medida, de nossas
aptidões pessoais. Que é necessário fazer um esforço imaginativo para completar
algumas lacunas, que são corroboradas pelas fontes ou devidamente apontadas
como conjecturas. Um trabalho historiográfico tem sempre duas vozes: a do seu
autor e das fontes que este usa. O objetivo é construir um diálogo coeso entre
fonte e análise que são o fundamento da historiografia.

REFLEXÃO
Vimos, nesse capítulo, as possibilidades teórico e metodológicas para a escrita da his-
tória latino-americana. Não podemos esquecer que esta historiografia segue em produção
constante, incorporando novos objetos e procurando tecer modelos explicativos para os fe-
nômenos que observamos hoje, como o retorno das posições conservadoras ao poder.
Em contrapartida ao conservadorismo crescente – uma marca aparentemente cíclica do
continente – temos a ampliação dos estudos sobre inclusão e da valorização das culturas
antes entendidas como periféricas, como as culturas indígenas e africanas.

capítulo 5 • 91
ATIVIDADES
01. (IBFC - 2017 - SEDUC-MT - Professor - Sociologia)
“Saber o que é etnocentrismo e entender um pouco de seus delineamentos é fundamen-
tal para explicar o surgimento da antropologia como ciência e qual o seu objeto de estudo”.
(BATISTA, J. de P., 2010, p.2) Assinale a alternativa correta acerca da afirmação anterior-
mente:
a) Etnocentrismo é o estudo que toma a questão étnica como central
b) O etnocentrismo é um procedimento puramente intelectual
c) Etnocentrismo é o estudo de agrupamentos étnicos no centro do país
d) Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como cen-
tro de tudo
e) O etnocentrismo ameniza discursos de superioridade étnicas raciais por tomar a questão
étnica como centro de seus argumentos

02. Como uma das principais características da historiografia Latino-americana no período


imediatamente posterior aos processos de independência ocorridos no Século XIX, podemos
destacar:
a) Seu caráter tradicional d) A ênfase na história indígena
b) A influência da Escola dos Annales e) O foco na história africana
c) Sua perspectiva marxista

03. Sobre a Escrita da História, é correto afirmar:


a) Existe apenas uma possibilidade de escrita da história
b) O historiador sempre recupera a verdade sobre o objeto estudado
c) Os objetos disponíveis para o estudo da história são limitados.
d) A função da História é estudar o passado.
e) A escrita da história é múltipla, posto que há várias possibilidades de interpretação de
um mesmo objeto.

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capítulo 5 • 92
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DAVIS, Natalie Zemon. Entrevista. In: PALLARES-BURKE, Maria Lúcia. (org.). As muitasfaces da
história. Nove entrevistas. São Paulo, SP: Unesp, 2000

GABARITO
Capítulo 1
01. C 02. C 03. E

Capítulo 2
01. A 02. D 03. C

Capítulo 3
01. D 05. D 09. B
02. C 06. C 10. A
03. D 07. D
04. A 08. E

Capítulo 5
01. D 02. A 03. E

capítulo 5 • 93
ANOTAÇÕES

capítulo 5 • 94
ANOTAÇÕES

capítulo 5 • 95
ANOTAÇÕES

capítulo 5 • 96