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Memórias de um Sargento contra as Milícias – 5

Edmar Roberto Prandini


edmarrp@yahoo.com.br
Maio de 2019

Assim que apresentou seus documentos para trabalhar no Governo de Geodésio, a convite,
na primeira fase, enquanto aguardava a nomeação no concurso público em que fora
aprovado, Argento pensou, como sempre fizera, que teria muito que aprender, mas também
muito a oferecer.

Argento já não era um rapazinho. Era um homem adulto, com mais de 40 anos de idade,
àquela altura, que havia trabalhado desde quando ainda menino, com 11 anos. Havia
enfrentado muitas vicissitudes, muitos desafios. Mas, sempre dedicou-se a conseguir
melhorias para si, para sua família e para o país. Argento havia se dedicado a estudar. Tinha
completado curso superior e havia conseguido ingressar em um mestrado numa das
instituições de ensino superior público brasileiro que estava sempre, ano após ano, entre as
cinco melhores universidades do país.

Na verdade, quando tentou o mestrado, Argento inscreveu-se em duas instituições: uma


pública e outra particular, mas de natureza confessional. Havia obtido a classificação para
matricular-se em qualquer uma das duas, para o mestrado, mas optou pela universidade
pública e gratuita. E diplomou-se com o título do mestrado.

Argento vinha de uma família pobre. Conhecia muito bem as dificuldades que a sociedade
impunha aos pobres nas situações de desemprego, de doença, sem casa própria,
dependendo exclusivamente do transporte público. Também tinha sido contratado várias
vezes sem registro em carteira. Todas as dificuldades dos pobres, Argento conhecera por
experiências próprias, na sua vida, de seus pais e irmãos. Mas, sempre fora interessado,
lutador. Nunca pediu nenhum favor a ninguém. Obteve por direito. Conquistara com
dignidade.

Então, quando da sua contratação, disseram a Argento que ele deveria autorizar um
desconto de 3% em sua folha de pagamentos, que seria direcionado como contribuição
política. Argento estranhou, mas ele sempre fizera donativos para partido político, de sua
preferência ideológica, desde quando filiou-se a primeira vez, com 19 anos, ao PT – Partido
dos Trabalhadores, em que havia ingressado por escolha própria, quando morava no Brasil.

Mas, Argento, assim que observou que o desconto foi feito sem que lhe requisitassem a ficha
de filiação partidária, foi consultar para saber para onde fora destinado os 3% de seu salário.
Argento não pretendia contribuir com o partido do governante, nem nenhum outro. Só
aceitaria fazer contribuição política para o partido que escolhesse, com qual se iden tificasse
ideologicamente. Disseram o dinheiro era para o PR, que ele pensou que fosse o Partido
Republicano, como havia no Brasil, ainda da separação de Geodésio. Mas, então, Argento
pediu para direcionarem o valor ao Partido dos Trabalhadores, o que foi dito que seria
impossível. Então, Argento disse que queria cancelar a autorização de contribuição
partidária.

Nadilva, a funcionária responsável, disse que iria conversar com sua chefia e depois diria o
que poderia ser feito. Argento não gostou muito, mas esperou mais um mês. O desconto
aconteceu novamente, e Argento foi procurar Nadilva. Ele queria cancelar o desconto, não
pretendia contribuir com o PR e disse que daquele modo, com desconto em folha de
pagamento, o desconto era ilegal. O partido polítco não podia cobrar com desconto em folha
de pagamento, de ninguém, na verdade. Muito menos dele, que não tinha nenhum interesse
em apoiar um partido político com qual ele não tinha nenhuma afinidade ideológica. Nadilva,
pressionada, pediu que ele redigisse a solicitação de cancelamento e nos meses seguintes a
cobrança não seria feita.

Foi então que ele foi procurado por Zenilton Batistoni, que disse que ele tinha que autorizar
os descontos. Zenilton Batistoni disse que haveria muita gente que não iria aceitar que
Argento não pagasse a cobrança de 3% e que ele teria muitos problemas por essa decisão.
Argento perguntou que tipo de problemas? Quem podia impor-lhe uma obrigação ilegal e
diferente daquela que ele escolhesse por ideologia própria? Zenilton Batistoni disse que
Argento iria sofrer consequências, mas foi embora.

Uma ameaça? De quem? Por que? Que tipo de consequências aconteceriam por deixar de
pagar um partido que sequer era o partido do governante?

Argento, então, resolveu procurar Giane Brejnielli, que havia feito o convite para Argento vir
trabalhar em Geodésio. Disse-lhe que não sabia que Giane Brejnielli era do PR, mas que ele
não era e que não iria contribuir politicamente com um partido com qual não tinha afinidade
ideológica. Disse que Giane Brejnielli não o havia avisado dessa exigência e que se
soubesse, teria considerado a hipótese, mas com chance de que não aceitasse o emprego.
Giane Brejnielli disse que não era do PR e que fato todos tinham que contribuir, mas que
Argento não se preocupasse: ele não seria mais cobrado.

Mas, e a ameaça de Zenilton Batistoni? Será que haveria algum tipo de outra consequência
por não contribuir com o PR?

Mais tarde, Argento começou a suspeitar que o valor não ia para o PR, partido político.
Segundo sua suspeita, outras pessoas se apropriavam do dinheiro dos servidores públicos,
sem nenhum destino partidário ou político. Argento suspeitava de que algumas pessoas
obtinham benefícios particulares com aquele dinheiro, mas ele não tinha instrumentos para
confirmar sua hipótese. Também entendeu que não deveria afrontar Zenilton Batistoni com
este questionamento. Mas, quando Cadaveric lhe falou que na Secretaria de Meio Ambiente
haviam pagamentos “por fora”, ele começou a desconfiar que na Secretaria de Planejamento
também existissem e fosse financiados por essa cobrança ilegal, que agora lhe parecia uma
cortina de fumaça dissimulada como se fosse contribuição partidária.

Haveria uma “gangue” por dentro do governo, roubando os servidores públicos e obtendo
benefícios particulares com esse dinheiro? Drogas? Prostituição? Festas? Viagens? O que
seria?
Argento preferiu não investigar. Ele não era policial. Não tinha meios para obter informações.
E, não podia acusar ninguém. Desde que não lhe cobrassem mais. E que não o
ameaçassem de novo. E que não o prejudicassem no seu cotidiano. Mas, e a conduta de
Cadaveric? Negando-se a colaborar com o trabalho da equipe? Será que Cadaveric usufruia
desse tipo de dinheiro? E, por isso, queriam impedir Argento de ter êxito em seu trabalho? E
Nandes Saulo Rodrigo? Também evitava que Argento pudesse avançar com seu trabalho por
causa desse dinheiro? E Tojo Taniguchi? Mesmo sendo tão pouco o valor que Argento
poderia pagar, mas a pressão poderia ser tão forte? Com tantas consequências prejudiciais
ao próprio governo?

Argento evitou pensar a esse respeito ou agir tendo essa hipótese em mente, mas jamais
conseguiu de fato tranquilizar-se depois da ameaça de Zenilton Batista.