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RACHEL CARS0N

PRIMAVERA
SILE NCIOS
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PORTICO
RACIIEL CARSON

Primavera Silenciosa

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EDI ÇÕ ES MELHORAMENTOS
A Albert Schweitzer
que disse:
“ O Homem perdeu a sua capacidade de
prever e de prevenir. E le acabará
destruindo a Terra".
O carriço
desapareceu do lago,
E nenhum pá ssaro canta.
KEATS
#
* *

Sou pessimista a respeito da espécie humana , por


que cia è excessiva mente engenhosa * c isso rdlo lhe
-
pode faaer bem . A nossa atitude* em face da Na -
.
tureza , é a de levà - Ia à submissão Nós ter í amos
uma possibilidade mais favorá vel de sobrevivê ncia,
se nos acomodássemos a éste planeta * c se o con
lempbissemos com um sentido de aprèço e de reco-
-
nhedm ç nio, ao in \rés de o fazer fléptim e ditato-
rialmentc,
£. B. W H I T E
ÍNDICE
Agradecimentos , 8

1. Uma Fá bula Para Amanh ã 11


2. A Obriga çã o de Suportar . . 15
.
3 Elixires da Morte 25
i 4 Aguas de Superf ície e Mares Subterr â neos 49
5. Os Reinos do Solo 63
i
\ 6. O Manto Verde da Terra 73
.
7 Devastaçã o Desnecessá ria 95
8. E Nenhum Pássaro Canta 113
9. Rios de Morte 139
i
10. Indiscriíninadamente, Procedendo dos Céus 163
j
11 . Para Lá dos Sonhos dos Bó rgias 181
12. O Preço Humano 195
13. Através de Uma Janela Estreita 207
14. Um Em Cada Quatro . 225
15. A Natureza Revida 251
16. Os Ribombos de Uma Avalancha 269
17. A Outra Estrada 285

1
AGRADECIMENTOS

Numa carta escrita em janeiro de 195 Sj Olga Owens Huckins


me falou de sua pró pria experiê ncia amarga, relativarnente a um
mundo pequeno, que foi destituído de vida; s? assim levou a mi-
nha aten ção , de pronto, de volta a um problema com o qual eu
andara de longa data preocupada . Ent ão , convenci-me de que
deveria escrever í ste livro.
Durante os anos transcorridos a partir de ent ão* recebi ajuda
e estí mulo da parte de tantas pessoas, que não é poss ível dar aqui
o nome âe todas elas. Os que compartilharam comigo, esponta -
neamente , os frutos de uma experi ê ncia e de um- estudo de muitos
anosT representam ampla variedade de instituições governamentais
diste e de outros paí ses , de universidades e de entidades de pes-
quisa , bem como de inú meras profissões. A todos ê lesr aqui con-
signo os meus mais profundos agradecimentos, pelo tempo e pelo
pensamento que t ão gen erosa mente me deram,
Outrossim , minha gratidão especial vai para aqueles que con-
seguiram tempo para ler porçõ es do manuscrito, e para oferecer
coment ários e observações construtivasy tudo baseado em seus
conhecimentos abalizados. Embora a responsabilidade final, pela
,
exatidão e pela validez do texto seja minha eu não poderia ter
}

completado o livro sem o auxilio generoso distes especialistas:


Lr G, Bartholomew, M . D., da Clinica May o; John J . Biesete , da
. .
Universidade de Texas; A W A Broum, da Universidade de
*

Western Ontario ; Morton S . Biskind , M, D,, de Westport , Connec-


tieut ; C . J Briejêr, do Serviço de Proteção ã s Plantas , da Holan-
*

da; Clarence Cot iam , da Fundaçã o Rob e Bessie Welder em Prol


.
dos Animais Silvestres; George Grile, Jr. M. D , da Clí nica
f

Cleveland ; Frank Egler , de Norfolkt Connecticut ; Malcolm M +

Hatgraves, M. D., da Clinica May o ; Wr C , Hueper, M , D , do .


Instituto Nacional do Câncer; C. f . Ketswill , da Comissão de
Pesquisas da PescaJ do Canad á; Olaus Mime, da Sociedade das
.
Regi ões Rurais; A ,. D Pichett , do Departamento de Agricultura
do Canadá; Thomas G - Scott , da Sociedade de Pesquisa de His -
t ória Natural de Illinois; Clarence Tansmell , do Centro T a f t de
.
Engenharia Sanitária ; e George J Wattace, da Universidade Es-
tadual de Michigan.
8
Todo autor de livro baseado em muitos fatos diversos deve
muito â habilidade e d solicitude de bibliotecários , Tenho dí vida
desta ordem para com muitos diles, mas , particular mente , para
com Ida K . Johnston , eto Biblioteca do Departamento do Interior,
e para com Thelma Robinson , da Biblioteca dos Institutos Na-
cionais de Saúde
-
Como meu editor, Paul Brooks proporcionou me encorajamento
continuo , ao longo de vários anos , e acomodouT de muito bom
grado, os seus planos, aos meus adiamentos e às minhas delongas.
Por isto, bem como pelo seu experimentado julgamento editorial ,
confesso-me perenemente agradecida.
Recebi assist ência capaz e devotada , na enorme tarefa de pes-
quisa em bibliotecas , da parte de Dorothy Algire , Jeanne Davis
e Beí te Haney D u f f . E não me teria sido possí vel completar o
trabalho, sob circunst âncias por vêzes dif íceis, se nã o houvesse o
concurso fiel da minha govemanta , Ida Sprow.
Finalmente, devo consignar a minha vasta dívida para com uma
longa série de pessoas , muitas das quais me são pessoalmente des-
conhecidas , mas que , não obstante isso, concorreram para fazer
com que. a leitura deste livro valesse a pena de ser levada a cabo.
Essas são as pessoas que por primeiro clamaram contra o impru-
dente e irresponsável envenenamento do mundo que o Homem
compartilha com todas as outras criaturas, e que ainda agora
est ão combatendo as mil e uma pequenas batalhas que, ao f i m ,
darão a vit ória <i ponderação e ao bom senso, relativamente à
nossa acomodação ao mundo que nos circundar
RACHEL CARSON

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- í . Uma Fá bula Para Amanh ã


HOUVE OUTRORà uma cidade, no cora ção da Am é rica, onde a
vida t òda parecia viver em harmonia com o ambiente circuns-
tante , A cidade ficava em meio a uma espécie de tabuleiro de
xadrez, composto de fazendas prósperas, com campos de trigo e
encostas de pomares, nos quais, na primavera , nuvens brancas de
flores oscilavam por cima das campinas verdejantes . No outono,
os carvalhos , os bôrdos e os vidoeiros punharn um fulgor de colo-
rido que flamejava e tremulava de través, sobre um fundo de
pinheirais. Depois, as rapôsas uivavam nas colinas, e as renas
cruzavam silenciosamente os campos, meio ocultas pelas brumas
das manh ãs de outono.
Ao longo das estradas, loureiros, vibnrnos e amieiros, grandes
fetos e flòres silvestres, encantavam os olhos dos viajores durante
a maior parte do ano. Até mesmo no inverno, as margens das
estradas eram lugares de beleza, para onde convergiam pássaros
in úmeros, a fim de se alimentar de amoras e de sementes de
ervas sécas, que repontavam por cima da neve. A zona rural .
n
gozava , com efeito, de fama, peia abund â ncia e pela variedade de
suas aves; quando as ondas de aves rnigr adoras passavam por ali,
na primavera e no outono, o povo para ali aflu í a , procedendo
de longas dist â ncias , para as observar. Outras pessoas para ali se
dirigiam a fim de pescar nos rios, cujas á guas flu íam claras e
frescas, emergindo das colinas; e formavam lagunas ensombradas,
onde as trutas se criavam. Assim as coisas tinham sido, desde os
dias — ocorridos há muitos anos — quando os primeiros colon í -
7 adores ergueram suas casas , perfuraram seus po ços e constru í ram
seus celeiros.
Depois, uma doen ça estranha das plantas se espalhou pela á rea
t ôda , e tudo começou a mudar. Algum mau -olhado f ôra atirado
aquela comunidade ; enfermidades misteriosas varreram os bandos
de galinhas ; as vacas e os carneiros adoeciam e morriam . For
tôda parte se via uma sombra de morte . Os lavradores passaram
a falar de muita doen ç a em pessoas de suas fam í lias. Na cidade,
os médicos sc tinham sentido cada vez ma í s intrigados por novas
espé cies de doen ç as que apareciam nos seus pacientes. Registra
ramse v á rias mortes s ú bitas e in explica d as, n ã o sòmente entre os
-
adultos, mas também entre as crian ças; adultos e crian ças sentiam
males repentinos, enquanto caminhavam ou brincavam , e mor -
riam ao cabo de poucas horas.
Havia, alip um estranho sil ê ncio. Os pá ssaros, por exemplo
para onde é que tinham ido? Muita gente falava deles, confusa
e inquieta. Os postos de alimentaçã o, nos quintais, estavam de-

sertos. Os poucos pássaros que por qualquer lado se vissem esta -
vam moribundos; tremiam violentam ente, e n ã o podiam voar.
Aquela era uma primavera sem vozes. Pelas manhas, que ou t ror a
haviam vibrado em consequ ê ncia do côro matinal dos papos- roxos*
dos tordos-dos- remedos, dos pombos, dos gaios, das corru í ras* e
de vintenas de outras aves canoras, n ã o havia , agora , som algum ;
sòmente o sil ê ncio pairava por cima dos campos, das matas e
dos pantanais.
Nas fazendas, as galinhas chocavam ; mas nenhum pintainho
nascia. Os lavradores queixavam -se por n ã o conseguirem . mais criar
porco nenhum ; as crias eram pequenas, e os leitõezinhos sobre
viviam apenas uns poucos dias. As macieiras atingiam a fase da
-
florada , mas nenhuma abelha zumbia por entre suas fl ôres, de
modo que n ã o ocorria a poliniza çã o, e, portanto , n ã o podia haver
fruto.
À s margens das estradas , outrora tio atraentes* apresentavam -se
agora assinaladas por urna vegetação amarronada e murcha , corno

estavam silenciosas

12

se houvesse sido bafejada pelo fogo. Também aquelas margens
desertadas que haviam sido por t ôdas as
formas de vida . Até mesmo os rios se mostravam agora destitu ídos
de vida. Os pescadores j á nlo visitavam rnais os seus cursos
d1água, porquanto todos os peixes tinham morrido.
Nas calhas, por baixo dos beirais, e por entre as telhas dos
telhados, um pó branco, granulado, ainda formava umas poucas
faixas; algumas semanas antes, ésse pó tinha caído, como se f óra
neve, por cima dos telhados e dos relvados, bem como por cima
dos campos e dos rios.
Nenhuma obra de feiti çaria , nenhuma a çã o de inimigo, havia
silenciado o renascer de uma nova vida naquele mundo golpeado
pela morte. Fora o povo, éle pró prio, que fizera aquilo.
Esta cidade não existe concretamente; mas ela poderá encontrar
f à cilmente milhares de suas semelhantes, nos Estados Unidos e
.
por outras partes do mundo N ão sei de comunidade nenhuma
.
que haja sofrido todos os infort ú nios que descrevo Contudo, cada
um de tais desastres já aconteceu , efetivamente ,, em algum lugar ;
e muitas comunidades verdadeiras já sofreram , de fato, um
n ú mero substancial dessas desgra ças. Um espectro sombrio se es-
palmou por cima de nós, quase que sem ser notado; e esta tra -
gédia imaginada poder á f á cil mente tornar-se dura realidade, de
i que todos nós deveremos ter conhecimento.
Que foi que já silenciou as vozes da primavera em in ú meras
cidades dos Estados Unidos? Êste livro constitui uma tentativa
de explica çã o.

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2. A Obrigação de Suportar
A HISTóRIA I>A VIDA sobre a I íTra tem sido uma hist ória de
interação entre as coisas vivas e o seu meio ambiente. Em grande
parte, a forma t ísica e os h á bitos da vegeta çã o da Terra, bem
tomo a sua vida animal , foram moldados pelo seu meio ambiente. *

Tomando-se em considera çã o a dura çã o toda do tempo terrena ] »


o efeito oposto, em que a vida modifica , de fato, o seu meio
ambiente, tem sido rei ativa mente breve. Apenas dentro do mo-
mento de tempo representado pelo século presente é que uma
í —
espécie - o Homem adquiriu capacidade significativa para alte-
rar a natureza do seu mundo.
Durante o passado quarto de século, esta capacidade n ão so-
mente aumentou até atingir inquietante magnitude , mas também
se modificou quanto ao car á ter. O mais alarmante de todos os

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assaltos contra o meio ambiente, efetuados pelo Homem, é repre-
sentado pela contaminação do ar, da terra, dos rios e dos mares,
por via de materiais perigosos e até letais. Esta polui ção é, em
sua maior parte, irremediá vel; a cadeia de males que ela inicia,
n ão apenas no mundo que deve sustentar a vida , mas també m
nos tecidos viventes, é, em sua maior parte, irreversí vel. Nesta
contamina ção, agora universal , do meio ambiente, as substâncias
químicas sà o os parceiros, sinistros e poucos reconhec í veis, das

—radia ções, na tarefa de modificação da pró pria natureza do mundo


da pró pria natureza da vida que palpita nele. O estr ôncio 90,
desprendido por explosões nucleares, e pairante no ar atmosf é rico,
desce à Terra por meio das chuvas, ou vagueia ao lé u , na forma
de resí duos at ó micos; assim , embebe-se no solo, penetra nas ervas,
no inilho, no trigo, que nesse solo se plantam, e, a seu tempo,
vai alojar-se nos ossos de um ser humano, para ali permanecer
até à morte desse ser humano.
De modo semelhante, as subst â ncias qu í micas, difundidas sô bre
terras de cultivo, ou sô bre florestas, ou sobre jardins, fixam -se por
longo tempo no solo ; dali, entram nos organismos vivos ; passam
de um ser vivo a outro ser vivo; e iniciam uma cadeia de enve
nenamentos e de mortes. Ou, entã o, passam misteriosamente, de
-
uma á rea para outra , por via de correntezas subterrâ neas, até que
emergem à flor do ch ão; a seguir, através da alquimia do ar e
da luz do Sol, se combinam sob novas formas que v ã o matar a
vegeta ção, enfermar o gado e produzir males ignorados nos seres
que bebem água dos poços outrora puros. Como Albert Schweítzer
disse: “ O Homem mal consegue reconhecer até mesmo os males
de sua própria cria ção’ .
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Foram necessárias centenas de milh ões de anos para se pro-


duzir a vida que agora habita a Terra; idades de tempo, para
que essa vida , desenvolvendo-se, evoluindo e diversificando-se,
alcan çasse um estado de ajustamento e de equil í brio com o seu
meio ambiente. O meio ambiente, dando conforma çã o e dirigin -
do, rigorosamente, à vida que amparava, continha elementos que
eram ao mesmo tempo hostis e sustem adores. Certas rochas ema -
navam radia ções perigosas; até mesmo dentro da luz do Sol , de
que t ôdas as formas de vida recebem a sua energia , existiam ra -
diações de onda curta, com potência bastante para lesar. Com
o correr do tempo — do tempo nao em anos, e sim em mil é nios
— a vida ajustou -se , e um equil í brio foi conseguido. Porquanto
o tempo c ingrediente essencial ; mas, no mundo moderno, n ã o
há tempo,
A rapidez da mudança e a velocidade com que novas situa ções
se criam acompanham o ritmo impetuoso e insensato do Homem ,

16
ao invés de acompanhar o passo deliberado da Natureza . A radia -
çã o, agora , n ã o é mais apenas a radia ção, de plano secund á rio,
das rochas ; nem é mais o bombardeio dos raios cósmicos, e menos
ainda os raios ultravioleta do Sol , que j á existiam antes que
houvesse qualquer forma de vida sobre Terra , A radia ção,
agora , é a criaçã o não-natural dos malfazeres do Homem com
o á tomo. As subst â ncias qu í micas , em rela ção às quais a vida
é solicitada a efetuar os seus ajustamentos, já n ã o são mais mera -
mente cálcio, o sil ício e o cobre, juntamente com todo o resto
dos minerais lavados pelas chuvas, e por elas levados para longe
das rochas, a caminho dos rios e dos mares; tais substâ ncias sã o
as cria ções sinté ticas do esp í rito inventivo do Homem ; são substâ n -
cias compostas nos laborat órios, c que n ão tem as contrapartes
correspondentes na Natureza.
Para que a vida. se ajustasse a estas substâ ncias qu í micas, seria
necessá rio tempo, numa escala que é apenas da Natureza ; reque-

poss í vel por algum milagre



bé m da vida de gera ções. E at é mesmo isto

rer-se-iam n ã o sòmente os anos da vida de um homem, mas tam -
se isto se tornasse
seria ato f ú til* porque as novas
subst â ncias qu í micas saem dos nossos laboratórios, numa torrente
intermin á vel. Cêrca de quinhentas delas , todos os anos, encontram
caminho para entrar no uso geral , só nos Estados Unidos. Os
algarismos são desconcertantes, e as suas decorrê ncias impl ícitas
n ão sã o f ácilmente percebidas: 500 novas subst â ncias qu ímicas, a
que o corpo do Homem e dos animais é induzido de algum modo
a adaptar -se a cada nôvo ano; substâ ncias qu í micas totalmente
fora dos limites da experiê ncia biológica.
Entre tais substâ ncias, figuram muitas que sã o utilizadas na
guerra ' do Homem contra a Natureza . A partir de meados de
Í 940, mais de 200 subst â ncias qu ímicas, de ordem básica, foram
criadas, para uso na matan ça de insetos, de ervas daninhas, de
roedores e de outros organismos que, no linguajar moderno, se
descrevem como sendo " pestes” * ou "pragas” ; e elas são vendidas
sob vá rios milhares de denomina ções diferentes de marcas,
Êstes borrifos, êstes pós, éstes aerossó is sã o agora aplicados quase
universal mente em fazendas, em jardins, em florestas, em resi -

d ê ncias ; sã o subst â ncias qu í micas n ão-seletivas, que t êm poder
para matar tôda espécie de insetos tanto os "bons” como os
"mausJP; t ê m poder para silenciar o canto dos pássaros e para
deter o pulo dos peixes nas correntezas; para revestir as folhas
das plantas com uma pel í cula mortal, e para perdurar, embebidas
no solo Tudo isto, de uma só vez, ainda que o objetivo desejado
+

seja apenas a elimina çã o de umas poucas ervas, ou uns poucos


insetos. Pode algu é m acreditar que seja poss í vel instituir seme-
17
2 Primavera SitendcM
lhante barragem de venenos, sobre a superf ície da leira, sem a
tomar inadequada para a vida tóda ? Tais substâ ncias n ã o deve-
riam ser denominadas "inseticidas” * e sim " biocidas” .
O inteiro processo do borrifamento ou de pulverizaçã o de
substâncias qu í micas parece que foi colhido por uma espiral sem
fim. À partir de quando o DDT foi colocado a disposiçã o do
uso civil, um processo de escala çã o tem estado em marcha pelo
*
qual materiais cada vez mais t óxicos devem ser encontrados, isto
aconteceu porque os insetos, numa reivindicaçã o triunfante do
princí pio de Darwin , relativo à sobrevivência dos mais fortes e
mais adequados, desenvolveram super - raças imunes aos efeitos do
inseticida cm particular usado contra êíes; da í resultou a neces -

sidade de se prepararem substâ ncias qu í micas ainda mais mort í-

feras cada vez mais letais e, depois, outras, ainda mais propi-
ciadoras de morte, isso aconteceu també m porque, por motivos
que serã o descritos mais adiante, os insetos destrutivos com fre-
qu ê ncia passam por s ú bitos retrocessos, isto é, por uma fase de
ressurgê ncia* depois dos borrifamentos, em quantidades ainda
maiores do que antes de tais borrifamentos. Assim, a guerra qu í-
mica n ão é ganha nunca ; e a vida toda é colhida no seu violento
fogo cruzado,
Juntamente com a possibilidade da extinção da humanidade
por meio da guerra nuclear, o problema centrai da nossa Idade
se tornou, portanto, o da contaminaçã o do meio ambienLe total
do Homem, por força do uso das referidas substâncias de incrível
potê ncia para produzir danos; sã o subst â ncias que se acumulam
nos tecidos das plantas c dos animais, e que at é conseguem pene
-
trar nas cé lulas germinais, a fim de estilha çar ou alterar o próprio
material em que a hereditariedade se consubstancia , e de que
depende a forma do futuro.
Alguns dos prová veis arquitetos do nosso futuro olham para
uma é poca em que será possível modificar o plasma germinal
humano, de acôrdo com planos bem delineados. Mas nós podemos
facilmente estar fazendo isso agora, por inadvertência, visto que
muitas subst â ncias qu í micas, como as radia ções, provocam muta
.
ções nos genes É ir ónico o ato de pensar que o Homem possa
-
determinar o seu próprio futuro por meio de alguma coisa tã o
aparentemente trivial como a escolha de um borrifamento contra
insetos.
Todo êsie risco foi enfrentado —
para quê? Os historiadores
-
futuros bem poderão sentir se admirados em face do nosso dis-
torcido senso das proporções. Como poderiam sê res inteligentes
-
procurar controlar umas poucas espécies ii ão desejadas, |x> r meio
de um mé todo que pode contaminar todo o meio ambiente, e
ia
I

li
que corporifica amea ça de enfermidades e de morte até mesmo
para a sua própria espécie? N ã o obstante, é precisa mente isto o
que nós fizemos. Fizemo-lo, ademais, por motivos que se inutili -
zam e se dissipam no instante em que os examinamos. Informam »

nos que o uso enorme, e cada vez ma is amplo, dos pesticidas, é


necessá rio para sustentar a produ çã o das fazendas agr ícolas, Con -
tudo, não é, porventura, o nosso problema, o da superprodução}
Às nossas fazendas, a despeito das medidas destinadas a retirar
á reas da finalidade da produção, e a pagar fazendeiros para que
não produzam, tcrn produzido tamanhos e t ão desnorteadores
-
excessos de colheitas, que o pagador norte americano de impostos,
em 1962, está pagando a média de mais de um bilhã o de d ólares
anuais, a t í tulo de custo total de execu çã o do programa de arma -
zenamento do excesso de alimento produzido. E será que a situa-
ção é melhorada quando um ramo do Departamento da Agricul
tura procura reduzir a produ çã o, ao passo que outro declara ,
-
ir
-
como o f êz em 1 D 58: Acredita se geralmente que a redu ção de
áreas de produção, de acordo com as provisões do Banco do Solo,
estimular á o interesse pelo uso de substâncias qu í micas destinadas
à obten çã o de um m áximo de produ ção da terra conservada para
o cultivo e para as colheitas ” ?
E tudo isto n ã o equivale a dizer que n ã o há problema de
insetos, nem que n ã o há necessidade de controle. Estou afirmando,
ao contr á rio, que o controle precisa ser conjugado com as reali-
dades , e não com siLua çòes imagin á rias; estou afirmando que os
mé todos empregados devem ser de tal ordem que n ã o nos des -
truam , a n ós, ao mesmo tempo que destroem os insetos.

O problema, cuja solu çã o, apenas tentada , j á provocou seme


lhante encadeamento de desastres, em sua esteira, constitui um
-
acompanhamento da nossa moderna maneira de viver. Muito an -
tes da Idade do Homem , os insetos já habitavam a Terra
compondo um grupo de seres cxtraordinà riamente variados e
extraordinà riamente adaptáveis. No curso do tempo, a contar do

advento do Homem , uma pequena percentagem de mais de meio
milh ã o de espécies de insetos entrou em conflito com o bem -esLar
humano, por duas formas principais: como competidores no con -
sumo do abastecimento de ví veres, c como transmissores de en -
fermidades humanas,
Os insetos transmissores de mol éstias se fazem importantes onde
* os sé res humanos vivem aglomerados, particularmente sob condi-
ções nas quais os recursos sanitá rios são poucos, como acontece
em tempo de desastres naturais, ou de guerra, ou em situa ções
de extrema pobreza , ou de priva çã o extrema. Ent ão, o contr ôle

í
de alguma espécie se torna necessá rio, É fato reconfortante, cn
tretanto, como passaremos agora a ver, o de que o m é todo de
-
contrôle qu ímico maciço só tem conseguido êxitos limitados; ésse
controle, ademais, vem amea çando piorar as pró prias condições
que teve o propósito de eliminar .
Sob as condições agrícolas primitivas, o fazendeiro enfrentava
poucos problemas relativos a insetos. Tais problemas surgiram
com a intensificação da agricultura — com a entrega de imensas
quilometragens quadradas a um ú nico gé nero de colheita , Êsie
sistema preparou o terreno para aumentos explosivos de popula -
ções de insetos específicos. O cultivo da terra com um ú nico
gê nero de planta çã o n ã o tira vantagem dos princ í pios pelos quais
a Natureza opera ; a agricultura, dessa maneira, é agricultura como
o engenheiro a concebe. A Natureza introduziu grande variedade
na paisagem; mas o Homem vem acusando inclina ção para sim *

plificá -la. Assim, o Homem desfaz os controles e os equil í brios


intr í nsecos, por meio dos quais a Natureza mantém as espécies
dentro de determinados limites. Um controle natural, muito im
portante, é o que impõe um limite à quantidade de á rea habi -
t á vel adequada para cada espécie, Òbviamente, pois, um inseto
que vive no trigo pode elevar a sua popula çã o a n í veis muito mais
altos, numa fazenda dedicada ao trigo, do que numa fazenda em
que o trigo se apresenta interpolado por outras plantas, às quais
o mencionado inseto não est á adaptado,
A mesma coisa acontece em outras situa ções. Há uma gera çã o
ou pouco mais, as cidades de grandes á reas dos Estados Unidos
marginavam suas ruas com essas nobres á rvores que sã o os olmos.
Agora, a beleza que elas, esperan çosas, criaram, está amea çada
de destruição completa , uma vez que uma enfermidade devasta
os olmos. Essa enfermidade é transmitida de á rvore em á rvore
por meio de um besouro que nunca teria tido ma ís do que limi-
tadas possibilidades de formar grandes popula ções, nem de se
espalhar passando de uma á rvore a outra, se os olmos houvessem
continuado a ser apenas as á rvores ocasionais que tinham sido,
antes, cm meio a planta ções ricamente diversificadas.
Outro fator, relativo ao moderno problema dos insetos, é um
que precisa ser encarado de encontro a um pano de fundo feito
de história geológica e de hist ória humana . Trata-se da difusã o
de milhares de espécies diferentes de organismos, que saem dos
seus territ órios nativos, para invadir á reas para êles novas. Esta
migra çã o, em escala mundial, já íoi estudada grá fica mente, e
també m grà fieamcnte descrita pelo ecologista brit â nico, Charles
Elton, em seu livro recente intitulado ' The Ecology of Invasions"
{A Ecologia das Invasões), Durante o Período Cret á ceo, h á cêrca

m
I
I

de algumas centenas de milhões de anos, mares inundantes supri -


miram muitas pontes terrestres entre continentes; e os sê res vivos
se viram confinados naquilo que Ekon denomina "colossais reser-
vas separadas da Natureza '*. Ali, isolados de outros indivíduos
de sua espécie, aquéles sê res vivos desenvolveram muitas outras
espécies. Quando algumas das massas terrestres se juntaram de
começaram a mudar se para os novos territórios

nôvo, há cerca de 15 milh ões de anos* as mencionadas espécies
- num movi-
mento que n ã o sòmente ainda se encontra cm progresso, mas que
també m est á recebendo, agora , considerá vel assistê ncia da parte
do Homem ,
A importa çã o de plantas é o agente primacial da moderna
difusão de espécies, porque os animais quase que invariàvelmente
se transferem juntamente com as plantas; note-se que a quaren -
tena é inova çã o compara ti vame n te recente, e* ainda assim, n ã o é
completamente eficaz. O Departamento de Introdu çã o de Plantas,
dos Estados Unidos, sòzinbo, introduziu cê rca de 200.000 espécies

metade dos 180 — ou coisa que o valha



e variedades de plantas, de tôdas as partes do mundo. Cê rca da
principais insetos
inimigos de plantas, nos Estados Unidos, resultou de importações
acidentais, procedendo do exterior ; e a maioria de tais insetos
viajou para os Estados Unidos a cavaleiro de plantas.
Fora do alcance do efeito limitador dos inimigos naturais, que
mantinham em determinado n í vel a sua quantidade, na tetra
nativa, uma planta invasora, ou um. animal invasor, tem possi-
bilidade de se tomar enormemente abundante, no novo território.
Assim, n ã o é põr acaso que os nossos insetos maís aborrecedores
são de espé cies que foram importadas .
Estas invasões, tanto as que ocorrem natural mente, como aque-
las que dependem da contribui çã o humana, têm t òda probabili
dade de prosseguir sendo efetuadas indefinida mente, A quaren -
-
tena e as maciças campanhas com emprego de substâ ncias qu í-
micas sã o apenas recursos dispendiosos de se ganhar tempo. N ós
nos defrontamos, ao que afirma o Dr. Elton, "com uma necessi-
dade, de vida ou de morte, que n ã o se resume sò mente em
encontrar novos meios tecnológicos de suprimir esta planta , ou
aquele animal "; ao contr á rio; em lugar disso, nós precisamos
conquistar um conhecimento básico das popula ções animais* bem
como de suas rela ções com os respectivos meios ambientes, para
que possamos "promover um equil í brio est á vel e manter sob
contrôle o poderio explosivo de novos surtos e de novas invasões ' 1
.
Grande parte do conhecimento indispensável já se encontra
dispon í vel; mas nós ainda não fazemos uso dêlc. N ós treinamos
ecologistas nas nossas universidades, e até os empregamos nas
n
nossas reparei çdes governamentais ; mas raramente lhes seguimos
os conselhos. Deixamos que a chuva de morte qu ímica desabe,
como se nã o houvesse alternativa alguina , ao passo que a verdade
é que há muitas alternativas; ademais, o nosso engenho c as nossas
aptidões logo descobrirão muitas, alternativas ma is, desde que se
lhes dê oportunidade para isso.
Será que n ós caímos em estado de mesmerizaçâo que nos induza
a aceitar como sendo inevitá vel o que é interior, ou o que causa
detrimento? Ser á que perdemos a vontade , ou a visã o, para exigir
o que é bom ? Êste modo de pensar» nas palavras do ecologista
Paul Shepard , "idealiza a vida com apenas a cabeça fora da á gua »
poucas polegadas acima dos limites da toler â ncia da corru ção do
seu pró prio meio ambiente ,.. Por qual razã o dever íamos nós tole
rar uma dieta de venenos fracos, um lar em meio a arredores
-
insí pidos, um círculo de conhecidos que n ã o sejam pró pria mente
nossos inimigos, o barulho de motores com o al í vio apenas sufi
ciente para evitar a insanidade? Quem desejaria viver num mundo
-
que apenas nã o chega a ser de todo fatal ?
Contudo, essa espécie de mundo nos está sendo impingida , A
cruzada no sentido de criar um mundo quimicamente esté ril ,
inteiramente livre de insetos , parece que engendrou certo zelo
fan á tico da parte de muitos especialistas, e da maioria das cha-
madas reparti ções de controle. De todos os lados surgem evid ê ncias
de . que as pessoas empenhadas em opera ções de borrifamento
exercem autoridade discricion á ria , "Os entomologistas regulado-
res., , funcionam como promotores p ú blicos, juí zes e jurados, e
també m como lan çadores de impostos e coletores de taxas, alé m
de funcionarem igualmente k maneira de xerifes, no propósito
de fazer com que sejam cumpridas suas próprias ordens" disse
o entomologia ta Neely Turner» de Connecticut . Os abusos mais —
flagrantes sã o praticados sem repressão, tanto da parte das repar-
tições estaduais» como das repartições federais.
h? ã o é minha afirmativa a de que os inseticidas químicos não
devam ser usados nunca. Afirmo» n ão obstante, que pusemos,
í ndiscrí mi nadamente., substâ ncias qu ímicas venenosas» biol ògica -
mente potentes, nas m ã os de pessoas de iodo ignorantes , ou quase,
quanto à capacidade que tais substâ ncias tê m , de produzir danos.
Submetemos quantidades enormes de gente ao contato de venenos»
sem o consentimento dessa gente» e, com frequ ê ncia, també m sem
o seu conhecimento. Se a Declaração de Direitos n ã o cont é m
garantia alguma» que afirme qtie o cidad ã o deve ser protegido
contra os venenos letais» distribu ídos seja por indivíduos par-
ticulares» seja por funcion á rios p ú blicos» isso se d â , por certo»
apenas porque os nossos antepassados» a despeito de sua consi -
22
derá vel sabedoria e do seu notá vel descortino, não poderiam con-
ceber o aparecimento de semelhante problema.
Afirmo, ademais, que temos permitido que as mencionadas
substâ ncias qu í micas sejam usadas sem que se haja procedido a
investiga ção alguma, ou a apenas uma investiga çã o insuficiente,
quanto aos seus efeitos sobre o solo, sobre a água, sòbre a vida
dos animais silvestres e também sôbre u pró prio homem. Ás
gerações futuras n ão nos perdoarão, com toda probabilidade, a
nossa falta de prudente preocupa ção a respeito da integridade
do mundo natural que sustenta a vida toda.
Ainda há pouca consciê ncia uma consci ê ncia muito limitada
— quanto â natureza da ameaça. Esta é uma é poca de especialistas;
cada especialista vê o seu próprio problema ; e n ão forma noçã o,
ou n ão tolera o estudo da moldura maior em que a sua espe-
cializa ção se enquadra. Esta é, também, uma era dominada peia
ind ústria ; nesta é poca, o direito de auferir lucros, seja l á por que
custo f õ r, muito raramente é discutido.
Quando o p ú blico protesta, depois de se defrontar com algumas
inegá veis evid ências de resultados danosos, decorrentes do em
prego de pesticidas, êsse pú blico recebe umas poucas p ílulas tran -
-
quilizadoras, TI a forma de esclarecimentos que são apenas meias
verdades. N ós precisamos urgen temeu te pôr um fim a tais falsas
seguran ças ; precisamos acabar com o engôdo que consiste em
a ç ucarar os fatos desagrad á veis. Ê o pú blico que est á sendo soli-
citado a assumir os riscos que os controladores dos insetos cal-
culam . E é o p ú blico que deve decidir sobre se deseja continuar
no caminho presente; e o p úblico só poderá fazer isso quando
estiver na plena posse dos fatos. Nas palavras de Jean Rostand:
"A obriga çã o de tolerar, de suportar, d á mos o direito de saber ' r.

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/ 5. Elixires da Morte
PELA PRIMEIRA VEZ na histó ria do mundo, cada ura dos seres
t humanos est á agora sujeito a entrar em contato com subst â ncias
qu í micas perigosas, desde o momento em que é concebido, até
ao instante em que a sua morte ocorre. Em menos de dois decé-
nios do seu uso , os pesticidas sinté ticos foram t ã o intensamente

distribu ídos pelo mundo
mundo inanimado
— seja pelo mundo animado,, seja peio
que eles aparecem virtualmente por tôda
parte. Tais pesticidas foram encontrados e retirados da maior
parte dos grandes sistemas fluviais, e até mesmo de cursos de
i água que fluem, sem ser vistos por n ós, através da Terra „ por
vias subterrâ neas. Os resíduos das referidas subst â ncias qu í micas
permanecem no solo ao qual talvez tenham sido aplicadas uma
d úzia de anos antes. Elas entraram e alojaram-se no corpo dos
peixes, dos pássaros, dos reptis, dos animais domésticos e dos
animais selvagens; e o fizeram tio universalmente, que os cien -
tistas que efetuam experiê ncias animais verificam que se toma
quase impossí vel localizar exemplares que sejam de todo livres
f de semelhante contamina ção. Essas subst âncias foram encontradas


até em peixes de remotos lagos existentes em tôpos de montanhas
em minhocas que perfuram o solo nos ovos dos pá ssaros
— —
1 jj
35
e no próprio homem. E isto porque as mencionadas substâ ncias
qu í micas est ã o agora armazenadas no corpo da vasta maioria dos
seres humanos, independeu temente de sua idade. Elas aparecem
no leite das m ães, e, com tôda probabilidade, també m nos tecidos
dos bebés ainda n ã o nascidos .
Tudo isto acontece em consequ ência do surto repentino e do
prodigioso crescimento da ind ústria criada para a produ ção de
produtos qu í micos, elaborados pela mã o do homem , ou sinteti-
zados, mas sempre dotados de propriedades mort í feras para os
insetos. Esta ind ústria é um dos frutos da Segunda Guerra Mun-
dial , No decorrer do desenvolvimento de agentes utilizá veis na
guerra química, algumas das subst â ncias, criadas no laborat ório,
revelaram , ao que se descobriu , efeitos letais para os insetos. A
descoberta n ã o ocorreu por acaso; os insetos já vinham sendo am
piamente usados nas experiências que se faziam para testar os
-
agentes qu í micos de morte para o homem .
O resultado foi uma torrente ao que parece intermin á vel de
inseticidas sinté ticos. Pelo fato de serem feitos pela m ã o do ho -
mem — atrav és de engenhosas manipulações de laboratório,

.

recompondo moléculas, substituindo á tomos, modificando lhes a
disposi çã o êsses inseticidas diferem nitidamente dos inseticidas
mais simples, inorgâ nicos, dos dias anteriores à mencionada guer -
ra Os inseticidas de antes da guerra derivavam de minerais que
ocorrem na Natureza ; compunham -se, també m , de produtos ex
.
tra ídos das plantas Eram compostos de arsé nico, de cobre, de
-
chumbo, de mangan ês, de zinco e de outros minerais; continham
pí retro, extra ído das flores secas dos crisâ ntemos ; continham ,
igualmente, sulfato de nicotina, extra ído de plantas aparentadas
com o tabaco; e també m rotenona, tomada de plantas leguminosas
das Í ndias Orientais.
O que coloca os inseticidas sinté ticos em categoria à parte é
a enorme potê ncia biol ógica. Êles possuem poder imenso nã o
somente de envenenar, mas també m dc penetrar nos processos
mais í ntimos e vitais do organismo, modificando-os em sentido
sinistro e, com frequ ê ncia, em sentido mortal. Assim, como vere
mos, eles destroem as pr ó prias enzimas cuja fun çã o consiste em
-
proteger o corpo contra danos; êles impedem os processos de
oxida çã o de que o corpo recebe a sua energia; opõem obst áculos
para impedir o funcionamento normal de vá rios órgã os; e podem
iniciar, em determinadas células, modifica ções lentas e irreversí-
veis, que conduzem a enfermidades malignas.
N ã o obstante, substâ ncias qu í micas novas e cada vez mais mor-
tíferas se acrescentam , todos os anos, à lista das já existentes; e
novos usos se imaginam para elas; desta maneira, o contato com
26
os referidos materiais perigosos se tornou pratica mente universal ,
A produ çã o de pesticidas sint é ticos, só nos Estados Unidos, subiu ,

perto de 320 mil tonelatlas em 1960



à maneira de rojã o, de cerca de 03 mil toneladas# em 1947, a
o que corresponde a ntn
aumento de ma is de cinco vézcs. O valor por atacado , de tais
produtos, se situou bem acima de um quarto de bilhã o de d ólares.
Mas, nos planos e nas esperanças da ind ústria, esta produ çã o,
de per si já enorme, constitui apenas o com.êçcc
A defini çã o dos pesticidas, portanto, deve constituir preocupa-
çã o de todos nós. Uma vez que vamos viver tã o int ima mente
ligados a tais substâ ncias qu ímicas — comendo-as e bebendo- as
—— deixando que elas entrem na própria medula dos nossos ossos
será melhor que saibamos alguma coisa a respeito de sua natu -
reza e da sua potência.
Embora a Segunda Guerra Mundial haja marcado o ponto a
partir do qual o mundo se alas to u das substancias inorgânicas,
como pesticidas, e entrou no campo de maravilhas da mol écula
de carbônio, ainda persistem uns poucos dos antigos materiais.
O principal, dentre êstes, é o arsé nico, que ainda representa o
ingrediente básico em. boa variedade de recursos matadores de
ervas daninhas e de insetos indesejá veis , O arsé nico é alta mente
t óxico ; ocorre em abund â ncia, associado a min é rios de vá rios me-
tais ; ocorre també m , porém em quantidades muito reduzidas, em
vulcões, no mar e nas águas de fonte. As suas rela ções para com
.
o Homem sã o variadas e hist óricas Visto que muitos dos seus
compostos sã o destitu ídos de sabor, o arsé nico tem sido agente
favorito de homicí dio, desde muito tempo antes dos Bórgías, at é
aos dias presentes. O arsénico foi o primeiro carcinógeno elemen -
tar reconhecido como tal (isto é, como subst â ncia provocadora do
aparecimento do câ ncer); é le foi identificado, na fuligem das cha -
min és, e relacionado ao câ ncer, há cêrca de dois séculos, por
um m é dico inglês. Epidemias de envenenamento crónico por meio
do arsé nico, abarcando inteiras popula ções, através de longos pe-
r íodos de tempo, est ão registradas na Hist ória. Os meios ambien -
tes contaminados pelo arsénico também t ê m causado enfermidades
e mortes entre cavalos, vacas, cabras* porcos, renas, peixes e abe
lhas. A despeito de semelhante registro na Hist ória, os borrifa-
-
mentos de arsé nico e o lan çamento de pós dessa substâ ncia con
tinuam sendo efetuados comumente por t óda parte.
-
Na regiã o algodoeira do Sul dos Estados Unidos, onde é cos -
tumeiro o borrifa mento de arsé nico, a criaçã o de abelhas, como
ind ústria, quase que desapareceu . Os fazendeiros que fazem uso
de poeira de arsé nico r durante longos per íodos de tempo, são
objeto de envenenamento crónico por essa substâ ncia ; os animais
27
dom ésticos e a pecu á ria t ê m sido envenenados por borrifamentos
de plantações e por ervicidas que contêm arsénico. Nuvens de
poeira de arsé nico, desviando-se, por obra do vento, de áreas
-
plantadas de uva-do monte, se espalham por cima de fazendas
vizinhas, contaminando cursos de á gua , envenenando fataimente
abelhas e vacas, e provocando enfermidades em sères humanos .
“ Mal chega a ser possível. lidar com compostos de arsénico com
»

um desleixo mais extremado para com a sa úde geral, do que com


êsse desleixo que vem sendo praticado em nosso pa ís, nestes anos
— disse o Dr. W. C. Hueper, do Instituto Nacional
mais recentes”
do Câ ncer dos Estados Unidos
—abalizada autoridade em câ ncer
ambiental. "Qualquer pessoa que tenha observado os borrifadores
e disseminadores de inseticidas arsenicais, quando ê les se encon -
tram em a ção, deve ter ficado impressionada em face do quase
supremo descaso com que as substâ ncias venenosas são distribu ídas
e aplicadas” .
Os inseticidas modernos s ã o ainda mais mort í feros. Sua vasta
maioria entra num de dois grandes grupos de substâncias qu í
micas. Um deles é representado pelo DDT, e é conhecido pela
-
denomina çã o de grupo dos “ hidrocarbonetos clorados” . O outro
consiste em inseticidas feitos de f ósforo orgâ nico; é representado
pelo “ malathion" e pelo “ parathion", razoá vel mente familiares.
Como ficou dito acima , tais substâ ncias são elaboradas com base
em á tomos de carbô n ío —á tomos ástes que també m sã o os indis
pensá veis tijolos de constru çã o do mundo vivente, e, por isto, o
-
carbôn ío c classificado como sendo "orgâ nico” . Para compreender
tais compostos, precisamos ver do que é que êles se compõem, e
como é que, embora ligados à qu í mica bá sica da vida tôda, se
prestam às modifica ções que os transformam em agentes da morte.
O elemento básico, que é o carbônío, é subst â ncia cujos á tomos
sã o dotados de uma capacidade quase infinita de se unir uns
aos outros, em cadeias e em an é is, bem como cm outras confi
gura ções; por outro lado, são dotados da mesma capacidade de
-
se ligar a á tomos de outras subst â ncias. Com efeito, a incrí vel

diversidade das criaturas viventes desde a bacté ria até à enorme
baleia azul — é possí vel, em grande parte, devido a esta capaci-
dade do carbôn ío. A complexa molé cula da proteí na tem o á torno
de carbônío por base — dando-se a mesma coisa com as moléculas
de gordura , dos hidrocarbonados, das enzimas e das vitaminas O .
mesmo ocorre, também, com numerosas coisas não-viventes, por
quanto o carbôn í o n ã o é necessàriamente sí mbolo de vida.
-
Alguns compostos orgâ nicos são simplesmente combina ções de
1

carbôn ío e de hidrogé nio. O mais simples dêstes compostos é o


28
I
metano, ou gás dos p â ntanos ; trata -se de gás formado pela Natu -
reza, por v í a da decomposiçã o bact é rica de matéria orgânica por
*
baixo da á gu á , Misturado ao ar , nas devidas proporções, o metano
transformai no tem í vel grisu das minas de carvã o. Sua estrutura
é lindamente simples, consistindo num á tomo de carbônio, a que
quatro á tomos de hidrogé nio se apegam ; assim:

H H

H
vXH
/

Os qu ímicos descobriram que è possível desprender um ou todos


os á tomos de hidrogé nio, e assim substitu í das por á tomos de
outros elementos. Por exemplo: substituindo-se um á tomo de hi-
drogé nio por um de cloro, produza o cloreto de me tilo; assim:

H Cl
\ /
C
K
/
XH
Tolham -se tr ês á tomos de hidrogé nio, substituindo-os por á to-
mos de cloro; e tem -se o clorof órmio anestésico; assim:

.
H Cl
V
</ Xc
Coloquem -se á tomos de cloro, em substituição a todos os á to-
mos de hidrogé nio, e o resultado é o tetracloreto de carbonio* o
tradicional fluido de limpeza; assim:

Cl

c
v
/ X,
Cl

Nos têrmos mais simples possí veis, estas modifica ções, operadas
em t ôrno da molé cula básica do metano, ilustram o que é um
hidrocarhoneto clorado. Mas esta ilustra çã o d á apenas uma pe -
quena idéía da verdadeira complexidade do mundo qu í mico dos
hidrocarbonetos, e també m das manipula ções por meio das quais

29
í

i
o qu í mico orgâ nico cria os seus materiais infitiiLamente variados,
E isto porque, ao invés da mol écula simples do metano, com o
seu ú nico á tomo de carbônio, cie pode trabalhar com mol éculas
de hidrocarbonetos que consistem de muitos á tomos de carbônio,
dispostos em ané is ou em cadeias, com cadeias ou ramos laterais,
tudo se mantendo unido por via de v í nculos químicos, não
apenas por á tomos simples de hidrogé nio, nem de clorop mas
també m por meio de uma ampla variedade de grupos qu í micos.
Por obra de mudan ças igual mente simples, o inteiro car á ter da
substâ ncia se modifica. Por exemplo: n ão sòmente o que se
vincula , mas também o lugar da vincula çã o ao á tomo de carbô
nio, se reveste de grande import â ncia. Manipulações engenhosas,
-
que se utilizam de tais recursos, têm produzido longa sé rie de
venenos de pot ência real mente extraordinária.
O DDT ( iniciais de dicloro-difenil - tricloro-etano) foi pela pri
meira vez sintetizado por um qu ímico alemão, em 1874; mas as
-
suas propriedades, como inseticida , só foram descobertas em 1939.
Quase que imediata mente, o DDT foi saudado como constituindo
recurso para se eliminarem as doen ças transmitidas por insetos,
e para se ganhar, da noite para o dia, a guerra dos agricultores
contra os destruidores de colheitas. O descobridor, Paul Mftller,
da Su íça , ganhou o Pr é mio NoheL
O DDT é t ão universalmente usado, que, para maior parte dos
espíritos, êsse produto assume aspecto familiar de coisa inofensiva.
Talvez que o mito da inocuidade do DDT se origine do fato
de que um dos seus primeiros usos consistiu no borrilamento de
muitos milhares de soldados, de refugiados, e de prisioneiros, para
combater a difusão do piolho. Acredira-se geralmente que , uma
vez que tantas pessoas entraram em contato t ã o í ntimo com o
DDT, e não sofreram efeito pernicioso algum, a subst â ncia qu í
mica deve ser incapaz de produzir malef í cios. Êste êrro, aliás com
--
preens ível , de concepçã o, decorre do tato de que
de outros hidrocarbonetos clorados — — ao contr á rio
o DDT, em forma de pó,
n ã o é prontamente absorvido através da pele. Dissolvido em óleo,
como usualmente éle se apresenta, o DDT é dedd í damente tóxico.
Se engolido, é absorvido íen Lamente pelo trato digestivo; pode
também ser absorvido pelos pulmões. Uma vez penetrado rto or -
ganismo, o DDT é armazenado, principalmente nos órgã os ricos
em substancias graxas ( porque o próprio DDT é sol ú vel na gor-
dura ) ; tais órgã os sã o as glâ ndulas ad -renais, os test ículos, a
ttreóí de. Quantidades relativamente apreciá veis se depositam no
f ígado, nos rins, e na gordura dos grandes e protetores mesemérios
que envolvem os intestinos.
30
Êste armazenamento de DDT começa com a menor ingest ão
possí vel e imagin á vel da substancia inseticida
— (que est á pre-
sente, na forma de resíduo, na maior parte das substâ ncias ali -
mentares) ; e continua a operar-se , até que se atingem n í veis muito
altos do tóxico. Os depósitos graxos, quando armazenados, aluam
como amplificadores biológicos, de modo que uma ingest ã o, de
quantidade m í nima, correspondente a 1 / 10 de uma parte por
milh ã o, na dieta , resulta no armazenamento de cêrca de 10 a 15
partes por milh ã o
mais,
— o que é aumento de cem vêzes, e mesmo

Êstes termos de referenda, t ã o comuns e corriqueiros, para o


qu í mico e para o fannacoiogista , são desusados para a maior parte
do povo. Uma parte, em um milh ã o, soa como se f ôsse quanti
dade muito diminuta; e é mesmo diminuta. Acontece, por ém,
-
que certas subst â ncias são t ão poderosas, que mesmo uma quan-
tidade diminutíssima pode provocar o desencadeamento de vastas
modifica ções no corpo. Fm experi ê ncias feitas com animais, veri-
ficou -se que tr ês partes, por milhão, inibem uma enzima essencial,
no m úsculo do cora çã o ; cinco partes por milh ã o bastaram para
provocar necrose, ou desintegra ção das células do f ígado; e n ã o
se requereram ma is do que duas partes e meia, por milhã o, das
subst â ncias qu ímicas Intima mente relacionadas com o DDT, que
sã o a dieldrina e a clordaiia, para produzir igual efeito.
Isto, na verdade, n ã o surpreende, Na qu í mica normal do orga -
nismo humano, existe precisa mente essa mesma disparidade entre
causa e efeito. Por exemplo; uma quantidade de iodo, t ão dimi-
nuta como a que corresponde a dois décimos milésimos de um
.
gramo, representa a diferença entre a sa úde e a doen ça Devido
ao fato de estas pequenas quantidades de inseticidas serem cumu-
lativa mente armazenadas, e só muito lentamente expelidas, a
amea ça de envenenamento crónico e ile mudan ças degenerativas
jj do f ígado, bem como de outros ó rgã os, é muito concreta e real,
Os cientistas n ã o concordam sobre a quantidade de DDT que
pode ser armazenada no corpo humano. Q Di\ Amo] d Lehman ,
que é farmacologista-chefe da Food and Drug Administration
(Administra ção do Alimento e das Drogas), dos Estados Unidos,
diz que n ã o há um plano t é rreo, abaixo do qual o DDT nã o seja
absorvido, nem um teto, acima do qual a absor çã o e o armaze-
namento cessem. De outra banda , o Di\ Waylatid Hayes, do Ser-
viço de Sa ú de P ú blica dos Estados Unidos, afirma que, em todo
31

i
i
indivíduo, um ponto de equil í brio se atinge, e que todo o DDT,
alé m d êsse ponto, ou dessa quantidade, é excretado .
Para fins pr ásticos, n ão é importante saber qual destes dois
homens está com a verdade, O armazenamento de DDT, no orga-
nismo humano, tem sido muito investigado, e n ós sabemos que
qualquer pessoa , em média, est á armazenando quantidades poten
cial mente perniciosas. De conformidade com v ários estudos , indi
-
víduos sem nenhuma exposição conhecida ao tóxico (com exceção
-
da exposi çã o que decorre da dieta) armazena a m édia de 5, 3
partes por milh ã o a 7 ,4 partes por milhão; os trabalhadores agrí
colas, 17,5 partes por milh ão; e os operá rios que trabalham em
-
f á bricas de inseticidas chegam à s estarrecedoras proporções de
64S partes por milh ã ol Assim, a gama dos armazenamentos com -
provados é muito ampla , e
tante para o caso —
— o que é ainda muito mais impor-
os n ú meros m ínimos já ficam acima do n í vel
em que os danos para o f ígado e para outros ó rgã os, ou tecidos,
podem começar a ser produzidos.
Uma das características mais sinistras do DDT, c das subst â n -
cias qu ímicas com êle relacionadas, é a maneira pela qual os seus
efeitos sâ o transmitidos de um organismo a outro, através de
todos os elos das cacleias alimentares. Por exemplo: os campos de
alfafa são polvilhados de DDT ; o alimento é posteriormente
preparado com a alfafa , e dado à s galinhas; as galinhas botam
ovos que cont êm DDT, Ou , ent ão, o capim, contendo resíduos
de '7 a 8 partes por milh ã o, pode ser dado de comer à s vacas,
O DDT reaparece no leite, na quantidade de cerca de três partes
por milh ão; mas, na manteiga, feita desse leite, a concentra çã o
pode subir até 65 partes por milh ã o. Atravé s de semelhante pro
cesso de transferê ncia , o que tiver começado na forma de quan
-
-
-
tidade muito diminuta de DDT poder á concluir se na forma de
concentração muito densa e pesada.
Hoje em dia, os agricultores acham dif ícil obter forragem n ão
contaminada, para as suas vacas produtoras de leite, embora a
citada Administra çã o do Alimento e das Drogas proí ba a presen ça
de resíduos de inseticidas no leite embarcado para comércio inte-
restadual dos Estados Unidos,
O veneno também pode ser passado adiante, da mãe para o
seu filho, ou filha. Resíduos de inseticidas foram extra ídos de
leite humano* em amostras testadas pelos cientistas d á Food and
Drug Administration. Isto significa que a crian ça amamentada ao
32
seio já est á recebendo adições diminutas , poré m constantes, à
carga de substâ ncias qu í micas t óxicas que se vai formando em
seu organismo. Essa, porém, não é de fornia alguma a primeira
exposiçã o do bebê ao veneno: há boas razões para se admitir
que tal exposição ao veneno começa enquanto a criança se encon -
tra ainda no ventre materno.
Em animais experimentais, os inseticidas compostos de hidra
carbonetos clorados atravessam Jivremente a placenta, que é o
-
tradicionalmente escudo de proteçã o entre o embrião e as subst â n -
.
cias nocivas do organismo materno Embora as quantidades assim
recebidas pelos bebés humanos possam ser normal mente pequenas,
essas mesmas quantidades n ã o são destitu ídas de importâ ncia, por-
que as crianças sã o roais susceptiveis ao envenenamento do que
.
os adultos Esta situação também significa que , hoje, o indiv íduo
m édio come ça sua vida, q urise que com t ôda certeza , com um
primeiro depósito da carga cada vez ma is volumoso de substâ ncias
qu í micas que o seu corpo será soltei Lado a carregai- consigo da í
por diante.
Todos estes fatos

armazenamento mesmo em n í veis muito
baixos, acumulação subsequente, e ocorrê ncia de danos ao f ígado
em níveis que podem ser (à cilmente proporcionados por dietas nor-
mais — fizeram com que os dentistas da Administração do Ali
mento e da Draga declarassem , já em 1950, que é "extremamente
-
prov á vel que o risco potencial do DDT haja sido subestimado".
Nunca houve uma situaçã o paralela
•a essa
— — uma situa ção semelhante
na história da Medicina . Ninguém sabe, por enquanto,
quais poder ã o ser as derradeiras consequê ncias disso,


A dordana outro hidratarboneto clorado — possui todos estes
desagrad á veis atributos do DDT, rnais uns poucos outros, que
sã o peculiar mente seus. Os seus resíduos sã o persistentes, durante
muito tempo, no solo, nas subst â ncias alimentares, e nas super-
f í cies a que possa ser aplicada . A dordana faz uso de todas as
entradas poss í veis* para penetrar no corpo. Pode ser absorvida
através de pele ; pode ser aspirada , na respira çã o, na forma de
borrifo ou. de poalha ; e, como é claro, pode ser absorvida através
do trato digestivo, desde que os seus resíduos sejam engolidos.
Como todos o® outros hidrocarbonetos clorados, os depósitos da
dordana se armazenam no organismo, por processo cumulativo.
Uma dieta que contenha a diminuta quantidade de dordana ,
de 2,5 partes por milh ã o, pode a seu tempo conduzir ao armaze-

3 Primavera Sileruiiasa
naincnto de 75 partes por milhão, na gordura de animais expe -
rimentais.
Uni farmacologia ta experimentado como o Dr. Lehman descre -
veu a dordana , em 1950, como sendo "um dos inseticidas maia
t óxicos... qualquer pessoa que lide com êle pode ser envenenada ” .
Á julgar pela descuidosa liberalidade com que os pús para trata -
mento de gramados são combinados cotn a dordana, pelos mora -
dores dos sub ú rbios, esta advert ê ncia n ão foi recebida de bom
cora çã o, O fato de o morador de sub ú rbio n ão ser atingido,
instantâ nea mente, por mal algum, se reveste de pouca significa çã o;
e isto porque as toxinas podem dormitar muito tempo no corpo,
para só se porem de manifesto meses ou anos depois, numa desor -
dem obscura, quase que impossível de ser relacionada com as suas
origens. De outro lado, a morte pode ocorrer subitamente. Uma
ví tima, que acidenta ) mente derramara uma solu çã o de inseticida
industrial , a 25 por tento, sobre a pró pria pele, passou a acusar
sintomas dc envenena mento dentro de 40 minutos a contar da
ocorrência ; e morreu antes que fosse possí vel obter socorro m é
dico. Nenhuma confiança se pode depositar no recebimento de
-
advertê ncia que nao permita que se tenha tratamento a tempo.
O heptadora , que è um dos constituintes da dordana, é merca -
deado ua forma de formula çã o separada . Possu í capacidade par
.
ticularmente alta de armazenar-se em gordura Se a dieta contém
-
ainda que apenas 1 / 10 de uma parte por milhã o, haverá quan
tidade mensur á vel de heptacloro no corpo. Êle tem també m a
-
curiosa habilidade de transformar-se em uma subst â ncia quimica -
mente diversa, conhecida pela denomina çã o de epóxido de hepta
cloro. Faz isto no solo e nos tecidos, tanto das plantas como dos
-
animais. Os testes feitos em pássaros indicam que o epóxido que
resulta desta modifica çã o é mais tóxico do que a substâ ncia qu í-
mica original, a qual, por seti turno, é quatro vezes ruais tóxica
do que a dordana.
Há bastante tempo, ou seja, em meados da quadra de 1930 40, -

clorados

verificou -se que um grupo de hidrocarbonetos os nafta lenas
d á causa ao aparecimento da hepatite, e també m de
uma doença quase que è invari ável mente fatal, do f ígado, em pes-
soas sujeitas a exposi çã o ocupacional. Estas substâ ncias têm con-
duzido à enfermidade e à morte muitos trabalhadores em ind ú s -
trias elé tricas; e, maU recentemente, em atividades agr ícolas, as
mesmas subst â ncias vem sendo consideradas causa de certa doen ça

M
misteriosa e usualmente falai do gado. À vista distes antecedentes,
nã o admira que três dos inseticidas que est ã o relacionados com
o citado grupo figurem entre os mais violentamente venenosos
de todos os hidrocarbonetos. Tais inseticidas são a dieldrina, a
aldrina e a endrí na,
A dieldrina , assim denominada em honra de um qu í mico
alemão, Biels, é cerca de cinco vêzes mais t óxica do que o DDT,
quando engolida ; mas é 40 vêies mais tóxica quando absorvida
através da pele, em solu çã o, Ê notória por golpear subitamente
e com efeito terrí vel para o sistema nervoso, pondo logo a v í tima
em convulsões. As pessoas assim envenenadas convalescem tã o
lentamente, de modo que a pró pria lentid ão indica os efeitos
cr ónicos. Como acontece com outros hidrocarbonetos clorados,
estes efeitos prolongados no tempo incluem danos severos ao
f ígado. A longa duração dos seus res íduos e a sua eficaz a çã o
inset ícídica fazem da dieldrina um dos inseticidas mais usados
dos dias de hoje, a despeito da desconcertante destruição de vida
silvestre que se tem seguido à sua aplica çã o. Experimentado em
codornízes e em faisões, êsse inseticida demonstrou ser de 40' a
50 vêzes mais t óxico do que o DDT,
Há vastas falhas no nosso conhecimento relativo à maneira
pela qual a dieldr í na se armazena ou se distribui pelo organismo,
ou é por ê le excretado; e isto porque a engenhosidade dos qu í mi-
cos* na concepçã o de inseticidas, há muito tempo que ultrapassou
o conhecimento biológico da maneira pela qual tais venenos
afetam os organismos viventes. Entretanto, h á indica ções de sobra
a respeito do armazenamento prolongado no corpo humano, onde
os depósitos podem permanecer dormentes como um vulcã o ina -
tivo, para entrar em erupção em períodos de estafa fisiológica,
quando o organismo saca contra suas reservas de gorduras.
Muito daquilo que nós sabemos foi aprendido através de á rdua
experiência, no decorrer das campanhas antimalá ricas, levadas a
tê rmo pela Organiza çã o Mundial da Saú de. Assim que a dieldr í na
entrou em uso, substituindo o DDT na tarefa de controle da
mal ária (porque os mosquitos transmissores da malá ria se haviam
tornado resistentes ao DDT ), começaram a aparecer casos de
envenenamento entre os borrifadores e os pulverizadores. Os ata -
ques eram severos: ora metade dos homens, ora todos êles ( va -
riando a quantidade nos diferentes programas), dentre os atin -
gidos pelo inseticida , entravam em convulsões; e vá rios morriam*

35
Alguns sofriam convulsões durante quatro meses a contar da
última exposiçã o â substâ ncia venenosa.
A aldrina é substâ ncia ainda um tanto envolta em misté rio;
r

embora ela exista na forma de entidade separada* manté m rela çã o


de áher ego com a dieldrina. Quando se tomam cenouras, de um
canteiro tratado com aldrina* verifica -se que elas cont êm res íduos
de dieldrina. Esta modificação ocorre em tecidos viventes, e tam -
bé m no solo. Semelhantes transformações alquim ísticas t ê m con-
du / ido a relatos erróneos, porquanto* se um qu ímico, sabendo que
a aldrina foi aplicada* fizer provas para a identificar, ficará de -
cepcionado e se equivocar á , admitindo que iodos os res í duos do
inseticida foram dissipados. Os resíduos lá est ã o; mas est ã o na
forma de dieldrina — e isto exige um tipo diferente de teste.
Como a dieldrina , também a aldrina é extremamente t óxica.
Produz modifica ções degenerativas no f ígado e nos rins. Uma
quantidade do tamanho de um comprimido de aspirina é sufi -
ciente para matar mais de 100 codorn í zes. Muitos casos de enve-
nenamento de seres humanos se encontram registrados, e a maior
parte d êíes em conexã o com o manuseio industrial da referida
subst â ncia.
A aldrina
de inseticidas
——
como a maior parte dos componentes deste grupo
projeta uma sombra amea çadora no futuro: a
sombra da esterilidade. Alguns faisões, que receberam quantidades
de aldrina * excessivamente pequenas* e, portanto , insuficientes
para os niatar, botaram * n ã o obstante* poucos ovos ; e os filhotes
que foram chocados logo morreram. Os efeitos dessa ordem n ão
se confinam aos pá ssaros. Os ratos expostos à aldrina tiveram
menor numero de prenhezes ; e seus filhotes se mostraram doen -
tios, tendo vida muito breve. Cachorrinhos nascidos de cadelas
tratadas com aldrina morreram dentro de três dias.
Por via de um recurso* ou de outro* as novas gerações sofrem
as consequ ências do envenenamento dos seus genitores. Ningué m
sabe se o mesmo efeito se observará em sê res humanos; contudo,
essa subst â ncia qu í mica tem sido borrifada e pulverizada , por meio
de aeroplanos, sóhre á reas suburbanas e també m sobre planta ções.
À endrina é o mais t óxico de todos os hidrocarbonetos clorados.
Embora relacionada * de modo um tanto í ntimo, com a dieldrina,
uma leve distorção* na sua estrutura molecular* torna a endrina

progenitor de todo êste grupo de inseticidas

33

cinco vêz.es mais venenosa do que ela. A endrina faz com que o
o DDT
— sé
I
afigure, cm compara çã o , relativamente inofensivo. Ela é quinze
vêzes ma is venenosa tio que o DDT, para os mam íferos ; 30 vêzes
ma is venenosa, para os peixes; e cerca de 300 vezes, para algumas
aves *

No decé nio do seu uso, a endrina matou enorme quantidade


de peixes; envenenou fatalmente todo o gado que entrou por
hortas e pomares pulverizados; envenenou poços; e provocou en é r -
gica advertê ncia de pelo menos um departamento estadual de
sa ú de p ú blica doa Estados Unidos, assegurando que o seu uso
descuidoso está pondo em perigo vidas humanas.
Num dos casos mais trá gicos de envenenamento pela endrina,
n ã o houve negligência aparente; esforços haviam sido despendidos
para a adoçã o de precau ções aparentemente consideradas adequa -
das. Uma crian ça de um ano de idade f ôra levada , por seus pais
norte-americanos, para viver na Venezuela , Lá, havia baratas na
casa para a qual se mudaram os mencionados pais; e, depois de
uns poucos dias, f êz -se uso de uma pulverização cuja subst â ncia
continha endrina. A crian ça e o pequeno cachorro da fam ília
foram levados para fora da casa, antes que a pulverização fôsse
efetuada , l á pelas nove horas da manh ã. Depois da pulveriza ção,
os assoa lhos foram lavados. A crian ça e o cachorro voltaram à
resid ê ncia, ao meio da tarde. Uma hora ou pouco mais, depois
disto, o cachorro começou a vomitar; a seguir, entrou em convul -
sões; e, afinal , morreu . As 10 horas da noite , do mesmo dia, a
crian ça também começou a vomitar; também entrou em convul-
sões; e depois perdeu a consci ê ncia. Depois daquele fatídico con-
tato com a endrina , a mencionada crian ça que, antes f ôra normal
e saud á vel , se transformou em pouca coisa mais do que um vege-
tal: incapaz de ver e de ouvir, sujeita a frequentes espasmos
musculares, pelos modos completa mente alheada do seu meio
ambiente. Vá rios meses de tratamento, num hospital de Nova
York , n ã o conseguiram modificar-lhe as condições, nem propor -
cionar sequer uma esperan ça de modifica çã o em seu estado,
— É extrema mente duvidoso — relataram os médicos assistentes
— que algum grau ú til de restabelecimento possa ocorrer.

ou fosfatos orgâ nicos—



O segundo dos principais grupos de inseticidas o dos alcalinos
figura entre as substâ ncias qu ímicas mais
venenosas do mundo, O risco mais importante, e mais ó bvio
também, do seu uso, é o de envenenamento agudo das pessoas
87
que aplicam o borrifo ou a pulverização, ou que acidentaImente
entram em contato com a parte da subst â ncia que for levada pelo
vento, ou com a vegetaçã o revestida por tal substâ ncia, ou, ainda ,
com algum recipiente atirado ao lé u, e que haja contido a refe
rida substâ ncia. Na Flórida, duas crian ças encontraram una saco
-
vazio, e util í zaram -se d êle para consertar um balan ço. Logo de
pois, as duas crian ças morreram, e três dos seus companheiros de
-
brinquedos adoeceram. O saco contivera , antes, um inseticida
denominado "para th mo ", do grupo dos íosfatos orgâ nicos. As

através daquela substâ ncia



provas estabeleceram que a morte ocorrera por envenenamento
para tilo. Em outra oport unidades
dois meninotes, em Wiscoosin, primos entre si, morreram na
mesma noite. Um deles estivera brincando em seu quintal, quan -
do a pulveriza çã o foi desviada para ali pelo vento, procedendo de
ura campo vizinho de cultura, onde seu pai andara pulverizando
batatas com paralião; o outro correra, brincando, pelo quintal ;
estivera no paiol depois da sa ída do pai, e pusera a mã o no
bocal da mangueira do equipamento de pulveriza çã o.
A origem d éstes inseticidas tem um certo significado irónico*
-
deradas

Embora algumas das subst â ncias químicas, cm si mesmas consi

ésteres orgâ nicos de á cido fosf órico fossem conhe-
cidas desde muito tempo, as suas propriedades insetkídkas fica
ram para ser descobertas por um qu í mico alemão, Gerhard
-
Schrader — no fim da quadra de 1930-1940. Quase que imediata
mente, o governo alem ã o reconheceu o valor dessas mesmas
-
subst â ncias qu í micas, na qualidade de armas novas e devastadoras,
do Homem contra a sua própria espécie ; e os trabalhos relativos
a tais substâ ncias foram mantidos em segTêdo. Algumas das
subst â ncias foram transformadas nos mortais gases de nervos.
,

Outras,! de estrutura intimamente relacionada, se tornaram inse-


ticidas.
Os inseticidas de f ósforo orgâ nico atuam no organismo vivente
por uma forma peculiar. Tê m a habilidade de destruir enzimas
” as enzimas que realizam fun ções indispensá veis no corpo. A
meta de tais subst â ncias é o sistema nervoso, seja que se trate
de vítima humana, seja que se trate de animal de sangue quente,
seja, ainda, que se trate de inseto. '

Sob condições normais, um impulso passa dc nervo a nervo,


com auxí lio de um transmissor qu ímico" denominado acetilcoli
14

na; esta é subst â ncia que desempenha fun çã o essencial, e depois


-
38
desaparece. Com efeito, a sua existê ncia é tão ef é mera, que os
pesquisadores .da ciência médica sã o incapazes, se não dispuserem
de equipamentos e de procedimentos especiais, de colher amostras
dela , antes que o organismo a destrua. Esta natureza transitória
da substâ ncia qu í mica transmissora é necessá ria ao funcionamento
normal do organismo. Se a acetiJcolina não f ôr destru ída assim
que o impulso nervoso passa, outros impulsos continuam a re-
lampaguear através da ponte criada de nervo a nervo, uma vez
que a citada subst â ncia qu í mica produz seus efeitos de maneira
cada vez mais intensa . Assim , os movimentos do corpo todo se
fazem descoordenados: ocorrem tremores* espasmos musculares,
convulsões — e a morte resulta logo após.
Esta contingê ncia foi criada pelo corpo. Uma enzima protetora,
chamada colinesterase, está ã m ã o, para destruir a subst â ncia
qu í mica transmissora , assim que ela deixa de ser necessária. Por
êste recurso, estabelecesse uru equil í brio exato, e o corpo nunca
acumula* nern produz, quantidades perigosas de acetiJcolina. En -
tretanto, em contato com os inseticidas à base de f ósforo orgâ nico,
a enzima protetora é destru ída; e, na medida em que a quantidade
de enzima se reduz , \ í quantidade da substância química trans-

— —
missora da acetiJcolina se avoluma. Neste efeito, os compostos
de f ósforo orgâ nico se assemelham ao veneno alcaloide, musca-
rina, encontrado num cogumelo venenoso, a amanha.
A exposi ção repetida ao veneno reduz o n í vel de colinesterase,
até que o indiv íduo alcan ça o limite do envenenamento agudo,
limite éste alé m do qual êle pode ser empurrado por meio de
uma bem pequena exposição adicional . Por esta razã o, é consi
derado importante o ato de se fazerem exames periódicos do
-
sangue dos operadores de borrifas e de pulveriza ções* bem como
de outras pessoas que se expõem com regular constâ ncia .
O parati ã o é um dos Fósforos orgâ nicos mais amplamente usa-
dos, É també m dos mais potentes e mais perigosos. As abelhas
mel í feras se tornam "desregrada mente agitadas e belicosas"* quan -
do entram em contato com êie; efetuam fren é ticos movimentos
de limpeza : e são levadas às proximidades da morte dentro de
meia hora.
Um qu í mico, pensando em definir* por meio do processo mais
direto possí vel, a dose dessa subst â ncia , aguda mente t óxica para
sêres humanos, engoliu uma quantidade diminuta* equivalente
a 0,00424 de uma on ça (tendo a on ça 28 gramas). A paralisia
89
se seguiu Ião mstantâ neamente, que o mencionado qu ímico nem
sequer pôde pegar os ant í dotos que havia preparado de antemão;
e assim tile morreu.
Assegura-se que, agora , o paratião vem sendo o instrumento
favorito de suicídio na Finlâ ndia.
Nestes anos ma is recentes, o Estado da Calif órnia relatou a
média de ma is cie 200 casos de envenenamento acidental peio
paratião, por anô. Em muitas partes do mundo, a taxa de casos
fatais, devidos ao parati ã o, é estarrecedora: 100 casos fatais na
Í ndia, e 67 na Síria, em 1058; e a m édia de 336 mortes por
ano, no Japã o,
N ã o obstante, 3.500 toneladas de parati ã o são aplicadas a
planta ções e a pomares, nos Estados Unidos, por via de borrifa
dores de mão, de pulverizadores motorizados, de borrifa dores
-
mecâ nicos, e també m por aeroplanos. Só as quantidades utilizadas
na Calif órnia poderiam, ao que afirma uma autoridade m édica,
“ proporcionar uma dose letal para uma popula ção de cinco a
dez vezes usais numerosa do que a popula çã o do mundo.
Uma das poucas circunst â ncias que nos salvam da extin çã o por
este meio é o fato de que o paratião e outras substâ ncias qu í micas
deste grupo se decompõem de maneira bastante rá pida. Seus
resíduos, nas planta ções e nas colheitas, a que tais substâ ncias
sã o aplicadas* persistem, portanto, apenas por breve tempo, se
comparada a sua dura ção com a dos resíduos dos hidrocarbo-
nctos clorados. Mesmo assim , aqueles res íduos duram o bastante
para criar perigos ; e produzem algumas consequências que v ã o
do meramente sé rio ao deddidamente fatal. Em Riverside, na
Calif órnia, onze, de cada grupo de trinta homens, que colhem
laranjas, se tornaram violenta mente doentes, e todos, menos um ,
tiveram de ser hospitalizados. Os sintomas que acusaram eram
sintomas t í picos do envenenamento pelo paratiã o. Qs laranjais
haviam sido pulverizados com parati ã o, umas duas semanas e
meia antes. Os resí duos, que reduziram aqueles homens a uma
desgra ça feita de vómitos, de scmicegueira e de semiconsci ê ncia,
tinham a idade de dezesse ís a dezenove dias E êste n ã o é, de
+

for ma nenhuma , um recorde de persist ência. Desastres semelhan-


tes ocorreram em pomares pulverizados um ITíêS antes; e os res í
duos foram encontrados na casca das laranjas seis meses depois
-
do tratamento com doses padronizadas.
O perigo, para todos os trabalhadores que aplicam borrifos e
pulveriza ções de inseticidas de f ósforo orgâ nico às planta ções, aos

40
pomares, aos vinhedos, é i ã o extremado, que alguns Estados, que
fazem uso d çstas substâ ncias qu í micas, estabeleceram laborat órios
em que os médicos podem obter aux í lio, seja no diagn óstico, seja
no tratamento. Até mesmo os m édicos podem estar sujeitos a
alguns perigos, a menos que fa çam uso de luvas de borracha, ao
-
lidar com as v í timas de envenenamento. Dá se o mesmo com as
pessoas que lavam as roupas de tais v í timas, pois essas roupas
podem ter ab.: orvido paratião suficiente para as afetar,
— —
O mala tiã o outro dos fosfatos orgâ nicos é quase t ã o fami
liar, para o p ú blico, como o DDTj é aniplaiiiente utilizado pelos
-
jardineiros, em inseticidas caseiros, em pulveriza ções contra mos-
quitos, e també m nos ataques em grande escala contra insetos,
à maneira das pulveriza ções de perto de um milhão de acres
(cê rca de 4 ,1(30 quilómetros quadrados) de comunidades da Fló -
rida, contra a mosca do Mediterrâ neo das frutas, Ê considerada
a menos tóxica do mencionado grupo de substâ ncias qu í micas;
e muita gente presume que pode usá -la livremente, sem receio
algum de dano. A propaganda comercial encoraja esta confor-
t á vel atitude,
A alegada “ segurança ” do inalatião tem sua base num conceito
bastante precário, embora — como com frequê ncia acontece
isto só haja sido descoberto depois tíe a substâ ncia qu í mica se
achar em uso durante vá rios anos. O mala ti ão é “ seguro” apenas

porque o f ígado dos mam í feros
rios poderes protetores — — órgão dotado de extraordin á
o torna rei ativa mente inofensivo. A
-
destoxiza çã o é efetuada por uma das enzimas do f ígado. Se, en -
tretanto, alguma coisa destruir esta enzima , ou interferir em sua
a ção , a pessoa exposta ao mal a ti ao recebe a f òrça total do veneno.
Infclizmente para todos n ós, as oportunidades para que esta
espécie de coisas ocorra forniam legi ões. H á pouco anos, uma
equipe da Food and Drug Administration ( Administra ção do
Alimento e da Droga, dos Estados Unidos) — t òda composta de
cientistas, descobriu que, quando o mala Liã o e certos outros fos-
fatos orgâ nicos são ministrados sí mult â neamente, da í resulta en-
venenamento maciço — tate cinquenta vêzes mais severo do que
poderia ser predito com base na adição das toxidezes das subs -
tâ ncias ministradas. Por outras palavras ; 1 / 100 da dose mortal,
de cada um de dois compostos, pode ser fatal quando os dois
são combinados.
Esta descoberta conduziu à testagem de outras combina ções.
Sabe-se agora que muitos pares de inseticidas baseados em fosfatos

41
orgâ nicos sã o a ]ta mente perigosos, porque a sua toxidez se eleva,
ou é potencializada, ern conseqiiência da a çã o combinada . A
potencializarão parece que ocorre quando um composto destrói
a enzima do f ígado responsá vel pela destoxização do outro. Os
dois, todavia , n ã o precisam ser dados simult â nea mente Êste risco
*

n ã o existe sò mente para o homem que possa pulverizar , esta


semana , êste inseticida, e, na semana seguinte, outro inseticida ;
o risco existe també m para o consumidor dos produtos pulveri-
zados. Um prato de salada pode f ácilmente apresentar uma com -
binaçã o de inseticidas baseados em fosfatos orgâ nicos. Os res íduos,
perfeitamente dentro dos limites legalmente permiss í ve ís, poderã o
interagir.
O escopo verdadeiro e pleno, da perigosa intera çã o das subs-
tâncias qu ímicas, é , por enquanto, muito pouco conhecido; mas
observa ções inquietantes est ã o sendo feitas, regularmente , por
laborató rios cient í ficos. Entre estas observa ções, h á a descoberta
segundo a qual a toxidez de um fosfato orgâ nico pode ser aumen-
tada por um segundo agente que n ão precisa ser necessariamente
inseticida. Por exemplo: um dos agentes plasticí zantes pode agir
ainda mais fortemente do que outro inseticida, no sentido de
tornar o malatião ainda mais perigoso. Repita -se: isto se dá por-
que êle inibe a enzima do f ígado que normal mente tolheria a
agressividade do inseticida venenoso.
Que é que ocorre com outras substâ ncias quí micas que existem
no meio ambiente normal dos seres humanos? Que é que ocorre,
em particular , com as drogas? Apenas um magro começo é o que
se fez, por enquanto, a êste respeito; mas já se sabe que alguns
fosfatos orgâ nicos (como o para tião e o malatião) aumentam a
toxidez de algumas drogas usadas como relaxadoras dos m úsculos;
sabe se, igual mente, que vá rios outros (inclusive, de novo, o ma
la tiã o) aumentam not à velmente o tempo do sono propiciado pelos
-
barbit ú ricos.
Na mitologia grega , a feiticeira Medéia, enfurecida por se
ver suplantada por uma rival , no afeto do seu marido, Jasã o,
presenteou a nova noiva com um manto que possu í a proprieda -
des m ágicas A usu á ria do manto sofreu morte instantâ nea e
*

violenta. Esta morte por meio de comando à dist â ncia agora


encontra a sua contrapartida no que se conhece pela denomi-
na çã o de "inseticidas sistémicos” . Estes inseticidas sã o subst â ncias
qu í micas dotadas de propriedades extraordin á rias, que se util í *

42
zam para se converterem as plantas, ou os animais, numa espécie
de mau lo de Medeia, tomando-os decidid amente venenosos Isto »

se efetua com o propósito de se matarem insetos que possam


entrar em contato com tais substâ ncias, principalmente pela
sucção do suco das plantas, ou do sangue doa animais.
O mundo dos inseticidas sisté micos é um mundo estranho, que
ultrapassa as imagina ções dos irm ã os Grimm — e que talvez seja
mais in ti mamente aparentado com o inundo de hisforietas em
quadrinhos de Charles Àddams. É um mundo em que a floresta
encantada dos contos de fada se transforma na floresta venenosa
em que um inseto mastiga uma f ôlha , ou suga uma seiva, de
uma planta que está condenada, É um mundo em que uma pulga

venenoso

morde um cios e morre porque o sangue do cão foi tornado
ein que um inseto pode morrer devido ao efeito de
vapôres emanados por unia planta em que nunca toeou
que uma abelha pode transportar néctar venenoso de volta à sua
—em

colmeia , e, ent ã o, produzir mel venenoso.


O sonho dos entomologistas, quanto ao inseticida introduzido
no corpo que deve ser defendido, nasceu quando os trabalhadores
no campo da entomologia aplicada perceberam que poderiam
receber uma sugest ão da parte da Natureza: verificaram que o
trigo, nascendo em solo que contivesse selenato de sódio, se tor -
nava imune ao ataque dos af ídios, ou pulgões. O selên ío, ele -
mento que ocorre na Natureza, é encontrado difuso em rochas e
no solo de muitas partes do Globo; e assim se tornou o primeiro
inseticida sisté mico,
O que toma sist é mico um inseticida é a sua capacidade de
permear todos os tecidos de uma planta, ou de um animal, e de
os fazer t óxicos. Esta propriedade é possu ída por algumas substâ n -
cias químicas do grupo dos hidrocarbonetos clorados, e também
por outras substâ ncias, pertencentes ao grupo dos orgauof ósforos,
todos sint è ticamente produzidos; a mesma propriedade é igual-
mente possu ída por vá rias substâ ncias qu ímicas que ocorrem na
Natureza, Na prá tica, entretantOj a maior parte dos inseticidas
sist émicos é extra í da do grupo dos organof ósforos, porque, neste
caso, o problema dos res íduos é um tanto menos agudo .
Os sistémicos atuam por outras maneiras escusas. Aplicados a
sementes, seja por ensopamento, seja por via de revestimento em
combinação com carbônio, êles estendem os seus efeitos na gera -
ção seguinte da planta , e produzem sementes venenosas para os

i 43
af ídios e para outros insetos suga dores. Certos vegetais, como as
ervilhas, os feijões e a beterrabade- açú car sã o, por vezes, pro-
tegidas por esia forma . As sementes de algod ã o, revestidas de
inseticida sist é mico , têm estado em uso por algum tempo na
Calif órnia, onde 25 trabalhadores em fazendas de planta çã o de
algod ã o, no Vale de San Joaquin, em 1959 , foram acometidos
por doença repentina, ocasionada por lidarem êles com os sacos
das sementes assim tratadas.
Na Inglaterra , algu ém desejou saber o que aconteceria quando
as abelhas fizessem uso de néctar tomado de plantas tratadas com
inseticidas sist émicos. Isto foi investigado em á reas tratadas com
uma substâ ncia química denominada "schradan ” , Embora as plan
-
tas houvessem sido pulverizadas antes que suas flores se formas
sem , o néctar posterior mente produzido continha o veneno. O
-
resultado, como bem poderia ser previsto, foi o de que o mel,
feito pelas abelhas, tarnbé m se apresentou contaminado pelo
irschradan’ \
O uso de sist émicos contra animais se concentrou principal
mente no contrôle do berne do gado, pernicioso parasito das
-
manadas. Cuidado extremo se deve ter, quando se pretende criar
um efeito inseticídico no sangue e nos tecidos do hospedeiro, sem
ocasionar envenenamento fatal, O equilí brio é delicado, e os
veterin á rios do governo estadunidense verificaram que pequenas
doses, repetidas, podem reduzir gradativamente a quantidade que
um animal possui , da enzima protetora , eolinesterase, de modo
que, sem pré aviso, uma diminuta dose adicional tende a ocasionar
o envenenamento.
H á fortes indica ções de que campos mais pr óximos da nossa
vida cotidiana estã o sendo abertos. Uma pessoa pode agora dar,
ao seu cão, uma p ílula que, ao que se proclama , o livra de
pulgas, pelo recurso de tornar -lhe o sangue venenoso a tais insetos.
Os riscos descobertos no tratamento do gado poderiam, presumi-
velmente, aplicar-se també m ao cão. Por enquanto, ningu é m pro-
pôs o uso de uma subst â ncia qu í mica sist é mica em sê res humanos,
que possa tornar o nosso sangue letal para os mosquitos. Talvez
que este venha a ser o próximo passo.
Até aqui, neste capí tulo, estivemos apresentando os efeitos mor-
t í feros de substâncias qu í micas que est ã o sendo utilizadas na nossa
guerra contra os insetos. Que é que se diz a respeito da nossa
guerra simultânea contra as ervas daninhas?
O desejo de se possuir um mé todo rá pido e f ácil para se mata -
rem plantas n ã o apreciadas deu origem a uma grande sé rie sempre
crescente de substâ ncias qu í micas, que se conhecem sob a deno-

4*4
mi na ção geral de ervicidas, ou , menos formalmente, de destruido
ras de ervas daninhas.
-
A estória de como estas substancias qu í micas sã o usadas e abu-
sadas será cornada no Capí tulo 6; a quest ão que neste momento
nos preocupa é a de se saber se os destruidores de ervas daninhas
sã o venenosos, e se o seu uso est á contribuindo para o envenena-
mento do meio ambiente,
A lenda segundo a qual os ervicidas sã o tóxicos apenas para as
plantas, e, assim , não constituem amea ça alguma à vida animai,
já foi amplamente divulgada; mas, iiifeJizmente, n ã o corresponde
á verdade. Os ervicidas, os matadores de plantas, compreendem
grande variedade de subst â ncias qu í micas que atuam sobre os
tecidos animais, tanto quanto sobre os tecidos vegetais, Êles va-
riam considerável mente, quanto à sua açã o sô bre o organismo.
Alguns sã o venenos de ordem geral ; outros sã o poderosos esti-
mulantes do metabolismo, ocasionando eleva ções fatais de tem -
peratura; outros induzem tumores malignos, ora sós, ora em co-
minaçã o com outras subst â ncias qu í micas; alguns prejudicam os
materiais gené ticos da raça, pela provoca çã o de muta ções do gene.
Os ervicidas, pois, como os inseticidas, incluem algumas substâ n -
cias químicas muito perigosas ; e o seu uso descu idoso, na cren ça
de que sã o "seguros", de que "não oferecem perigo", pode dar
resultados bem desastrosos,
A despeito da competição de uma torrente constante de novas
subst â ncias qu í micas, a jorrar dos laboratórios, os compostos de
arsé nico ainda estã o sendo liberal mente usados, seja como inse-
ticidas (como já se mencionou), seja como ervicidas* Na fun ção
de ervicidas, êles tomam usual mente a forma qu í mica de arsenito
de sódio, A hist ória do seu uso n ão é tranquilizadora. Como
recursos de pulveriza çã o de margem de estrada , ê les jã custaram,
a muitos fazendeiros, suas vacas ; e já mataram incontá vel quan -
tidade de animais silvestres. Como destruidores de ervas daninhas
aqu á ticas, em lagos e em reservat órios, tais ervicidas t ê m tornado
as águas p ú blicas inadequadas para beber, c at é mesmo para nelas
se nadar. Na forma de pulverização aplicada a campos plantados
de batatas, para destrui çã o de ervas rasteiras, êsses ervicidas jâ
levaram o seu tributo de vidas, humanas e n ão humanas.
Na Inglaterra, esta ú ltima forma de aplica ção se desenvolveu
l á pelo ano de 1951, como consequ ê ncia da escassez de á cido
sulf ú rico, que antcriormente era usado para destruir as ervas da-
ninhas á batata. O Ministro da Agricultura do mencionado pa ís
considerou necessá rio formular uma advertência quanto ao risco
de se entrar em campos recentemente pulverizados com arsénico;
mas a advert ência n ão foi compreendida como relativa també m

45
ao gado (nem , ao que devemos admitir, aos animais silvestres, e
nem, ainda , aos pássaros ) ; e os relatórios informando sôbre gado
envenenado pelas pulverizações de arsénico começaram a aparecer
com monótona regularidade. Quando a morte atingiu també m a
mulher de um lavrador, por via de água contaminada pelo
arsénico, uma das maiores ind ústrias qu í micas da Inglaterra (em
1959) suspendeu a sua produção de pulverizações arsen içais* e
recolheu os abastecimentos já em mãos dos seus revendedores; logo
depois, o Ministério da Agricultura anunciou que, em conse-
qu ência dos elevados riscos para as pessoas e para o gado, seriam
impostas restrições ao uso de arsen í tos, Em 1961, o governo
australiano anunciou providencia semelhante . Nenhuma de tais
restri ções, entretanto, impede o uso dos referidos venenos nos
Estados Unidos.
Alguns dos compostos do "dinitro” també m são usados como
ervicidas. Ê les estão incluído® entre os materiais mais perigosos
diste tipo, agora em uso nos Estados Unidos. O dinitrofenol é
forte estimulante metabólico. Por esta razão, foi , durante algum
tempo, empregado como agente emagrecedor de pessoas; contudo*
a margem entre a dose adelgaçante do corpo e a dose requerida
para envenenar ou matar era muito pequena ; tão pequena , que
vá rios pacientes morreram, e muitos sofreram danos permanentes
antes de o uso da droga ser f í nalmente suspenso.
Uma substância qu í mica aparentada com a acima referida —
o pentaciorofenol — por vezes conhecido por "penta", apenas —
é usado como matador de ervas daninhas, e também como inse-
ticida ; com frequência * é borrifado ou pulverizado ao longo de
trilhos ferroviários, e em áreas onde se jogam detritos. O penta
é extremamente tóxido para uma enorme variedade de organis-
mos, desde a bactéria até ao Homem. Como os d i nitros , êle
interfere, frequentemente de modo fatal, nas fontes de energia
do organismo; deste modo, o organismo afetado quase que se
queima literal mente por inteiro. Sua pavorosa potência é ilustrada
por um acidente fatal recentemente relatado pelo Departamento
de Saúde P ú blica da Califórnia. Um motorista de caminhão-
tanque estava preparando um desfolhador de algod ã o; misturou
óleo diesel com pentaciorofenol . Quando êle sé pós a retirar a
substâ ncia qu í mica concentrada , para fora do tambor que a con-
tinha o batoque caiu 'acidentalmente para trás. O motorista
estendeu o braço, a fim de apanhar o batoque com a mão nua .
Embora lavasse imediatamente a mão, adoeceu gravemente, e
morreu no dia seguinte.
Ao passo que os resultados dos destruidores de ervas daninhas,
tais como o arsenito de sódio, ou os fenóí s* sejam sumàriamente
óbvios, alguns outros ervicidas sã o mais insidiosos em seus efeitos.

— —
Por exemplo: o agora famoso destruidor da erva daninha da
uva -do-monte o aminoulazol, ou amí trol á considerado como
possuindo toxidez relativamente baixa . Todavia, a longo prazo,
a sua tend ência no sentido de causar tumores malignos da tireoide
poder á ser muito ma is significativa para a vida dos animais sil-
vestres, e também, talvez, para a vida do Homem .
Entre os ervicidas, existem alguns que são classificados como
" mutagê nios", ou seja , como agentes capazes de modificar os
genes* isto é* os materiais por meio dos quais se transmite a heredi-
tariedade. Nós nos sentimos justamente estupefatos em presença
dos efeitos gen é ticos das radiações; como poderemos, assim, ficar
indiferentes aos mesmos efeitos produzidos por subst â ncias qu í-
micas que disseminamos amplamente pelo nosso meio ambiente?

47
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4 Águas de Superf í cie e
Mares Subterrâ neos
JUE TODOS OS NOSSOS recursos, a á gua tornou -se o ma is precioso,
A maior parte da superf ície do Globo é coberta pelos seus mares
envolventes; contudo, em meio a esta abundâ ncia, encontramo-nos
necessitados. For via de estranho paradoxo, a maior parte da
abundante á gua da Terra não é usá vel para a Agricultura, para
a Ind ústria , nem. para o consumo humano, em consequ ência da
sua pesada carga de sa ís marí timos ; assim , a maior parte da
popula ção do mundo ou experimenta escassezes cr í ticas de á gua
ou é por elas amea çada . Numa Idade em que o Homem se esque-
ceu de suas origens, e se mostra cego até mesmo para com as suas
necessidades essenciais à sobrevivência, a á gua , juntamente com
outros recursos; foi reduzida à condição de v í tima de sua indi -
ferença.
O problema da polui çã o da á gua, por meio de pesticidas, só
pode ser compreendido no contexto, como fazendo parte do todo
ao qual pertence: a poluiçã o do meio ambiente total da huma -
nidade. A poluição que penetra nos nossos cursos de á gua procede
de muitas fontes: dos res íduos radiativos dos reatores; das labo-
ratórios; dos hospitais; os res íduos resultantes das explosões nuclea-
res; dos detritos domésticos das cidades e das povoa ções; dos
res íduos qu í micos das f á bricas, À is LO se acrescenta uma nova
espécie de res íduo: as pulveriza ções de substâ ncias qu ímicas apli-
cadas às planta ções e aos jardins, bem cama ás florestas e às
culturas agr ícolas. Muitos dos agentes qu ímicos, nesta alarmante
complexidade, imitam e aumentam os efeitos perniciosas das ra-
,

dia ções; ef dentro dos pró prios grupos qu í micos, ocorrem intera -
ções sinistras e ainda pouco compreendidas; acorrem, igualmente,
transforma ções e adições de efeitos ainda obscuros.
Desde quando os qu í micos começaram a manufaturar subst â n
cias que a Natureza nunca inventou , os problemas da purifica çã o
- 1

da água se fizeram complicados, e o perigo para os usu á rios da


água foram aumentados. Como j á vimos, a produ çã o destas
substâ ncias quí micas sinté ticas atingiu tais proporções, que um
desconcertante dil ú vio de poluição qu í mica ê diariamente atirado
para dentro dos cursos de água da nação. Quando inextricá vel -
49
4 Primavera Silend úsd
mente misturadas aos detritos dom ésticos e de outra ordem, des-
carregados na mesma á gua, estas substancias qu í micas por vezes
desafiam a própria deteçã o por via dos mé todos em uso comum
nas esta ções de purificação Muitas de tais substâ ncias sã o tã o
*

estáveis, que n ã o podem ser fracionadas por meio dos pro


cessos ordin á rios. Com frequ ê ncia, elas nem sequer podem ser
-
identificadas. Nos rios, uma variedade real mente incr í vel de


materiais poluidores se combina para produzir depósitos a que


os engenheiros sanitá rios apenas conseguem e com grande deses-
pero o fazem referir-se, atribuindo-lhes, nos Estados Unidos, a
denominação de “ gunk” . O Professor Rolf Eliassen, do Instituto
de Tecnologia de Massachusetts, testemunhou , perante uma co-
missã o do Congresso, sô bre a impossibilidade de se predizer o
efeito composto das subst â ncias qu í micas, e també m de se iden -
tificar a mat é ria org â nica que resulta da mistura.
— N ós n ã o começamos ainda a saber o que isto é
o Professor Eliassen. —
humanas? N ã o o sabemos.
— esclareceu
E qual é o seu efeito sô bre as criaturas

Em grau cada vez maior, as subst â ncias qu í micas usadas para


o controle de insetos, de roedores, ou de vegeta ções n ã o desejadas,
contribuem para a forma çã o destes pohiidores orgâ nicos. Alguns
sã o deliberadamente aplicados à água , para destruir plantas, lar -
vas de insetos , ou peixes n ã o desejados. Alguns procedem de
pulverizações de florestas que podem cobrir dois ou tres milhões
de acres {de uns 8.100 a 12.200 quilómetros quadrados) de um
ú nico Estado, devido ao combate orientado contra uma ú nica - »

espécie, ou peste, de inseto; trata -se de pulveriza ções que caem


em rios, ou que se escoam das frondes folhosas das á rvores para
o ch ã o das florestas, e que ali se transformam em parte do lento
movimento de um idade que se infiltra no solo, e que assim inicia
a sua longa jornada rumo ao mar. Muito prová vel mente, o vulto
de tais subst â ncias contami nadaras se compõe dos resíduos reuni-
dos na água , dos milh ões de quilos de subst â ncias qu í micas de
uso agrícola que foram aplicadas a terras de cultura , para o con -
trole de insetos ou de roedores, e que foram lambidas para fora
do chã o pelas chuvas, assim se transformando em parte integrante
do universal movimento da á gua rumo ao mar.
Aqui e acolá , encontramos provas dram á ticas da presen ça dos
referidos materiais químicos, seja nos nossos cursos de á gua , seja ,
mesmo, nos reservatórios para uso p úblico do precioso líquido.
Por exemplo; uma amostra de á gua potá vel , procedente de uma
á rea de pomares, da Pê nsilvânia , quando testada num peixe, em
determinado laborat ório, deu prova dc conter inseticida suficiente
para matar todos os peixes experimentais em apenas quatro horas
S0
de tempo. A água , procedente de uma correnteza que drenava
campos de algod ã o pulverizados com inseticidas, continuou sendo
letal para os peixes, mesmo depois de passar pelos processos de
purificação de uma instalação própria para isso; e em quinze rios,


tribut á rios do Rio Tennessec, no Alabama, os resí duos lavados
dos campos tratados com toxafeno que é um hidrocarboneto
clorado — mataram todos os peixes que habitavam os referidos
cursos de água. Dois d estes rios eram fontes de abastecimento
municipal de água. Entretanto, durante uma semana depois da
aplicação do inseticida, a água prosseguiu sendo venenosa

que é um fato atestado pelas mortes cotidianas de peixes dourados,
o
suspensos em gaiolas, correnteza abaixo.
-
Em sua maior parte, esta poluição c não vista e invisível; sua
presen ça se acusa e se torna sabida quando centenas ou milhares
de peixes morrem; com maior frequ ência, porém, nunca é detec
tada, Os qu ímicos que vigiam a pureza da água n ã o possuem -
testes rotineiros para identificar a presen ça destes poluidores or-

gâ nicos e també m n ão possuem meios para os remover . Entre
tanto, detectados ou n ão, os pesticidas ali estã o; e, como se pode
esperar, quando se trata de quaisquer materiais aplicados a super-
-

f ícies terrestres, em escala tã o vasta êles agora abrem caminho
em direçã o a muitos e talvez a todos os principais sistemas de
rios do país.
Se algu é m duvida de que as nossas águas se tornaram quase
que universalmente contaminadas pelos inseticidas, êsse algu é m
deve estudar um pequeno relató rio editado pelo Serviço de Peixes
e Animais Silvestres, dos Estados Unidos. Ó mencionado Serviço
realizou estudos para descobrir se os peixes, à maneira dos animais
de sangue quente, armazenam, ou não, os inseticidas, em seus
tecidos. As primeiras amostras foram tomadas de á reas florestais
do Oeste, onde tem havido pulveriza ções em massa de DDT, para
o controle do germe destruidor do gomo do espruce Como se
*
poderia ter esperado, todos os referidos péixes continham DDT,
As verifica ções realmente significativas foram feitas quando os
investigadores se voltaram , para fazer compara ções, para um rega
to, existente numa á rea remota, situada uns 45 quilómetros de
-
dist â ncia da pulverizaçã o mais próxima para contrôle do men -
.
.-
cionado germe Este regato ficava rio acima , em rela çã o ao pri
meiro; e era separado desse primeiro por uma cascata bem alta
Nenhuma pulverização local se sabe que haja sido feita . N ão
obstante, os mencionados peixes, també m, continham DDT. Teria
a substâ ncia quí mica chegado ao regato longínquo por via de
ocultas correntezas subterr â neas? Ou teria ela sido levada pelas
correntes atmosf é ricas, espalhando-se e indo cair ao lé u, à guisa

51
de resíduos, sobre a superf ície do regato? Ainda era outro
estudo comparativo, o DDT foi encontrado em tecidos de peixes
procedentes de um viveiro , onde o abastecimento de água se ori-
ginava num poço profundo. Também ali não havia registro algum
de pulverização local de inseticida , O ú nico meio. possí vel de
contamina çã o pareceu ser o das vias das á guas subterrâ neas.
No quadro de todo o problema da poluiçã o da á gua , talvez
nã o haja nada que seja ma is |>erturbador do que a amea ça da
contamina çã o generalizada das á guas subterrâneas* N ão é possí
vel acrescentar pesticidas à água de qualquer lugar, sem amea çar
-
a pureza das á guas de quaisquer outros lugares. Muito de raro

cm raro se é que alguma vez o faz — é que a Natureza opera
em compartimentos fechados e separados uns dos outros; por
certo, a Natureza n ã o operou por essa forma, na distribui ção dos
abastecimentos da água da Terra.
A chuva, caindo sobre a superf ície terrestre, penetra no solo
e na rocha, através de poros e de fendas; sua á gua inFiltra-se
cada vez ma is profundamente, at é que, em certo momento, atinge
uma zona em que todos os poros da rocha se encontram cheios
de água , formando um mar escuro, subterrâ neo, erguendo-se por
baixo das montanhas, e abaixando-se por sob os vales. Esta á gua
subterrâ nea se encontra sempre em movimento; por vêases, o seu
ritmo é t ão lento, que ela n ã o chega a viajar mais de uns vinte
metros por ano; outras vezes, o ritmo é t ã o veloz, em compa -
.
ra ção que chega a viajar cê rca de duzentos metros por dia.
-
As á guas subterrâ neas movem se através de vias nã o vistas, até
que, aqui ou acolá, essas vias afloram à superfície do ch ão, na
forma de fonte ; ou , talvez, é como que canalizada, para encher
e alimentar um poço. Na maior parte, poré m , essas á guas con -
correm para a forma çã o e para o avolumar-se de correntezas, e,
assim , de rios. Com exceçã o do que entra nas correntezas direta-
mente, sob a forma de chuva , ou de enxurrada de superf ície*
toda a água corrente da superf ície da Terra já foi, num deter -
minado tempo, á gua subterrânea, E, assim, num sentido muito
real e assustador, é a poluição da á gua de tôdas as partes do
Globo.

Deve ter sido por meio dêsse mar escuro, subterrâ neo, que as
substâ ncias qu í micas venenosas viajaram , de uma f ábrica produ -
tora , situada no Colorado, para um distrito agr ícola situado a
vá rios quilómetros de dist â ncia , para ali envenenar poços, enfer-
mar criaturas humanas e animais domésticos, e afinal danificar
colheitas —constituindo isto um episódio extraordin á rio, que
52
pode ser f ácil mente apenas o primeiro de muitos outros seme-
lhantes a êle,.
Sua historia , em breves palavras, é esta:
Em 1943* O Arsenal das Montanhas Rochosas* do Corpo Qu í-
mico do Exé rcito* situado perto de Denver* começou a manufa -
turar materiais de guerra. Oito anos ma is tarde* as instala ções
do arsenal loram alugadas a uma companhia petrol ífera parti-
cular* para a produ çã o de inseticidas. Mesmo antes da mudança
de operações* entretanto, começaram a aparecer misteriosos rela
tórios, de v á rios setores da regiã o. Os agricultores* de vá rios qui -
-
l ómetros de distâ ncia em rela çã o ao estabelecimento do arsenal ,
começaram a queixar-se de doen ças inexpliçadas ern seus reba -
nhos e em suas manadas] começaram a queixar-se, também* de
extensos danos à s plantações e às colheitas , Âs folhas amarelavam ]
as plantas n ã o chegavam k matura ção; e muitas colheitas eram
destru ídas de supet ã o. Houve* igualmente, comunicados relativos
a doen ças em séres humanos, que muitos já ent ã o consideravam
relacionadas com os falos observados nas plantas e nos rebanhos.
As águas de irriga çã o, nas fazendas daquele setor* derivavam
de poços rasos. Quando as á guas de tais poços foram examinadas
( num estudo de 1959, de que participaram vá rias repartições esta -
duais e federais), verificou -se que continham todo um sortimento
de subst âncias qu ímicas. Cloretos, cloratos, sais de á cido iosf ôn íco,
fiuoretos e arsénico — a í estã o algumas das substâncias que ha -
viam sido descarregadas pelo arsenal das Montanhas Rochosas*
nas lagoas de reten çã o, ao longo dos v á rios anos do seu funciona-
mento, Ao que parece, as á guas subterrâ neas , entre o arsenal e
as fazendas* se tornaram contaminadas ; e requereram-se de sete
a oito anos para que os res íduos viajassem , por baixo da terra ,
uma distância de apenas cêrca de uns cinco quil ómetros, a partir
das lagoas de reten çã o, até às fazendas roais próximas, Esta infil -
tra çã o tinha continuado a espalhar-se* contaminando* posterior -
mente* uma á rea de dimensões desconhecidas. Os investigadores
nã o sabiam de recurso algum que conseguisse moderar a conta -
mina ção* ou deter o seu avan ço.
Tudo isto já era de per si bastante ruim ; mas a característica
ma is misteriosa , e , a longo prazo* talvez a ma is significativa , d és te
episódio todo, foi a descoberta do ervicida, do matador de ervas
-
daninhas, 2* 4 D, em alguns dós poços e nas lagoas de reten çã o
do arsenaL Por certo, a sua presen ça foi o bastante para explicar
os preju ízos impostos à s planta ções irrigadas com aquela água.
Mas o misté rio reside no fato de que nenhuma quantidade de
2,4- D foi jamais fabricada no arsenal mencionado, em nenhuma
fase das suas operações.

53
Depois de longo e cuidadoso estudo, os químicos da f á brica
conclu íram que o 2,4-D se havia formado espont â nea mente, nas
lagoas-reservat órios expostas ao ar livre. Havia sido formado ali
pela combina ção de outras substâ ncias despejadas pelo arsenal ]
na presença do ar, da á gua e da luz solar, e inteiramente sem a
interferê ncia dos qu í micos humanos, as lagoas-reservatórios se


transformaram em laboratórios qu í micos para a produ çã o de uma
nova subst â ncia uma subst â ncia mor ti feramente perniciosa à
maior parte das plantas em que toca.
Assim, a estória das fazendas do Colorado e de suas planta ções
danificadas assume significa ção que transcende a sua import â ncia
local. Que outros fatos paralelos podem existir, n ã o sòmente no
Colorado, mas també m em qualquer parte em que a poluição
qu í mica consegue abrir caminho rumo âs águas p ú blicas? Nos
lagos e nos cursos de á gua, por toda parte, na presen ça do efeito
catalisador do ar e da luz do Sol , que subst â ncias qu í micas peri-
gosas se estar ã o originando da combina ção de subst â ncias- m ães,
rotuladas de "inofensivas” , e que,, isoladamente, sã o de fato
inofensivas?
Com efeito, um dos aspectos ma is alarmantes da poluiçã o qu í -
mica da água é o fato de que aqui
reservat órios, ou , quanto
— nos rios, nos lagos, nos
isto, també m uo copo de água que
se serve à mesa do almoço ou do jantai — se encontram mistu
radas vá rias substâ ncias qu í micas que nenhum dentista de res-
-
ponsabilidade pensaria em combinar em seu laborat ório.
A intera ção possí vel entre tais subst â ncias é profundamente
perturbadora, ao espirito dos funcionários do Servi ço de Sa ú de
P ú blica dos Estados Unidos; esses funcion á rios já manifestaram
o temor de que a produ ção de subst â ncias nocivas, através de
combina ções que partem de subst â ncias relat ívamente inócuas,
poder á estar sendo efetuada em escala bastante elevada. As rea ções
poderão dar-se entre duas ou ma is substâ ncias quí micas, ou entre
algumas subst âncias qu í micas e os resíduos radioativos que est ã o
sendo despejados nos nossos rios, em volume cada vez maior Sob .
o impacto das radia ções ionizantes, alguns estranhos arranjos de
á tomos poder ã o ocorrer f àdimcnte; estes arranjos mudarã o a
natureza das substâ ncias combinadas; e mudar ã o por uma forma
n ã o sò mente imprevisí vel , mas també m fora de tôda possibilidade
de controle.
Como é claro, não sã o sòmente as águas subterr â neas que estão
tornando-se contaminadas; també m as á guas que existem à super-
f í cie da Terra passam pelas mesmas circunst âncias; são as águas
dos rios, dos córregos, dos canais de irrigação. Um exemplo in -
quietador desta última hipótese parece que está sendo consubstan-
54
-
ciado nos ref úgios norte americanos de animais silvestres, do Lago
de Tule e do K lama th Inferior, ambos na Calif órnia , Esses ref ú
gios integram parte de uma cadeia que compreende també m o
-
ref úgio do KJamath Superior, que fica logo acima da linha de
fronteira com o Oregon. Todos os ref úgios mencionados est ã o
ligados, talvez fat ídica mente, por um abastecimento comum de
á gua ; e todos sã o afetados pela circunst â ncia de que se situam , à
maneira de pequenas ilhas, em grande á rea de terras de cultivo
agr ícola. São terras reclamadas, por via de drenagens e de desvios
de cursos de água, a um antigo para íso de aves aquá ticas; um
para íso feito de pantanais e de águas descobertas.
As referidas fazendas de cultivo agrícola, ao redor daqueles
ref úgios de animais silvestres, est ã o sendo agora irrigadas pela
água que procede do Lago K lam a th Superior, As águas de irri-
ga çã o, recolhidas dos campos que irrigam, e depois de irrigá -los,
são ent ã o bombeadas para dentro do Lago de Tule, passando
dali para o KJamath Inferior. Todas as á guas dos ref úgios de
animais silvestres, estabelecidos junto à quelas duas massas de
água, representam , portanto, a drenagem das glebas agrícolas. É
importante recordar esta conexã o com os acontecimentos ma is
recentes.
No ver ã o de 1900, os funcionários de um dos ref úgios aludidos
encontraram centenas de pássaros mortos ou moribundos, tanto
no Lago de Tule* como no Klamath inferior. Na maioria, tais
pá ssaros pertenciam à s espécies dos comedores de peixes: garças,
pelicanos, mergulh ões, gaivotas. Efetuada a an á lise, verificou se
que essas aves continham res íduos insetiddicos, identificados como
-
sendo de toxafeno, DD D e DDE. Os peixes dos mencionados lagos
també m continham, ao que se constatou, os referidos inseticidas;
e o mesmo se averiguou quanto às amostras de plancto. A direção
dos ref úgios acredita que os res íduos de pesticidas estã o agora
acumulando-se nas á guas desses mesmos ref úgios, pois convergem
para l á no trajeto de retôrno do fluxo de irriga çã o; o fluxo de
retomo passa por glebas agr ícolas pesadamente pulverizadas com
substâ ncias qu í micas altamente venenosas.
Êste envenenamento de á guas reservadas para fins de conser -
va çã o do solo e da vida de animais silvestres poderá ter conse-
qu ê ncias que ser ão notadas por todos os ca çadores ocidentais de
patos selvagens, e também por qualquer pessoa para a qual a vista
e os rumores dos bandos de aves aqu á ticas, atravessando os cé us
á tardinha, constituem acontecimentos preciosos. Àquêles ref úgios
de vida silvestre, em particular, ocupam posições cr í ticas, do
ponto de vista da conservação das aves aqu á ticas do ocidente
-
norte americano. Situam-se num ponto que corresponde ao es-
55
treito pescoço de um funil, para o qual convergem tôdas as trilhas
migratórias que compõem e integram o que se conhece pela
denomina çã o de Rota das Aves Mígradoras do Pacífico. No curso
da migra çã o do outono, os ref úgios recebem muitos milhões de
patos selvagens, bem como de gansos, que procedem dos lugares
de ninhadas; êstes lugares vã o das margens do Mar de Bering,
para leste, até à Ba ía de Iludson ; e aqueles milhões de aves
representam bem três quartos de tôdas as aves aquá ticas que
-
migram para o Sul, para os Estados norte americanos da costa
do Pac í iico, no outono. No verã o, os ref úgios proporcionam á reas
de repouso, para as aves aqu á ticas, partieularmente para duas
espécies agora em perigo de extin ção: a de cabeça vermelha e a
de corpo rosado. Se os lagos e as lagoas dos citados ref úgios se
contaminaram sèriamente, o dano, para t ôdas as espécies da po-
pula çã o de aves aqu á ticas do Extremo Oeste dos Estados Unidos,
poderá vir a ser irreparável*

À água també m deve ser pensada em tèrmos das cadeias de


vida que ela sustenta — desde as células verdes, pequenas como
grâ nulos de pó, dos len çó is migradores de plane to vegetal , pas-
sando pelas mi ú das pulgas de á gua, at é aos peixes* que se alimen-
tam do planeio que existe na água, e que, por sua vez, sã o


comidos por outros peixes, ou por pássaros, por martas e por ma-
m íferos do gê nero do guaxinim, ou mã o- pelada integrando tudo
isso uma interminá vel transferê ncia cíclica da vida para a vida.
Sabemos que os minerais necessá rios, na água , passam , por essa
forma , de elo em elo da cadeia dos alimentos. Podemos n ós
presumir que os venenos que introduzimos na água deixem de
penetrar nestes ciclos de vida da Natureza?
A resposta deve ser encontrada na surpreendente história do
Lago Gear, na Calif órnia , O Lago Gear {ou Claro) situa se em
região montanhosa, a uns HO quilómetros ao norLe de San Fran -
-
cisco; e h á muito tempo que é preferido pelos pescadores. O
nome do lago n ã o é apropriado, porque, na verdade, suas á guas
são bastante turvas; e sã o turvas devido ao limo negro e mole
que lhe cobre o leito raso, Infelizmente para os pescadores, bem
como para os moradores que habitam as suas margens, as á guas
desse lago tê m proporcionado habiíã t ideal para um pequeno
gnato, o Chaoborus astictopus. Embora Intímamente aparentado
aos mosquitos borrachudos, êste gnato n ã o é sugador de sangue,
e, muito provàvelmente, n ão se alimenta de forma alguma como
um adulto. Entretanto, os seres humanos que compartilham
aquele habitat acham o gnato aborrecedor, devido às suas enor-
mes quantidades. Fizeram -se esforços no sentido de se controlar
êsse mosquito; mas os esforços n ão foram em grande parte bem

$6
sucedidos, no começo; sòmente já nos fins da quadra de 1940-1950
é que os inseticidas com base no hidrocarboneto clorado oferece-
ram armas eficazes para a lula* A substância qu í mica escolhida ,
para um novo ataque, foi a denominada DDD, aparentada muito
de perto ao DDT, mas que, na aparê ncia , oferecia menos perigos
para a vida dos peixes.
As novas medidas de contrôle, postas em pr á tica em 1949,
foram cuidadosa me nte planejadas; e pouca gente poderia supor
que algum mal pudesse resultar da í. Q Jago foi inspecionado;
determinou -se o seu volume; e o inseticida aplicado obedeceu a
tal dissolu çã o, que cada parte de subst â ncia qu í mica, da sua com -
posi ção, corresponderia a 70 milh ões de partes iguais de á gua. Q
controle dos gnatos foi , no começo, muito bom ; entretanto, l á
pelo ano de 1954 , o tratamento teve de ser repetido; desta vez,
poré m , a aplica ção foi de uma parte de inseticida para 50 milhões
de partes de água. A destrui çã o dos gnatos, ao que se pensou,
foi virtual me nte completa.
Nos meses seguintes de inverno, surgiram as primeiras indica -
ções de que outras formas de vida, além da dos gnatos, tinliam
sido afetadas; os mergulh ões ocidentais, do lago, começaram a
morrer ; e logo se registrou a morte de ma is de uma centena deles.
No Lago Glear, os mergulhões sã o aves de ninhada , e também
visitantes de inverno, atra í das pela abund â ncia de peixes do
,

lago, O mergulhão é ave de aparência espetacular e há bitos


enganadores; constrói seu ninho em lagos rasos da parte ocidental
dos Estados Unidos e do Canad á , Naqueles setores, é denomi -
nado “ mergulhão-cisne” , e tom razão; desliza pela água , quase
que sem produzir encrespa mento algum à superf ície do lago; o
corpo nada baixo, ao passo que o pescoço branco e a cabeça negra
.
brilhante sã o mantidos em boa altura Os filhotes, recé m nascidos,
são revestidos de penugem acinzentada , muito macia; poucas horas
depois do nascimento, cada filhote ruma para a água, às costas
do pai ou da m ãe , aninhado por baixo da asa paterna ou
materna .
Em seguida a um terceiro ataque contra a popula çã o de gnatos,
persistente e resiliente, efetuado em 1957, mais mergulhões mor -
reram.. Gomo acontecera , de lato» em 1954 » nenhuma evid ê ncia
de moléstia infeedosa pôde ser encontrada, no decorrer dos exa-
mes procedidos nas aves mortas. Quando, poré m, algué m pensou
em analisar os tecidos graxos dos mergulhões, o que se verificou
foi que tais tecidos estavam impregnados de DDD, na extraordi -
n á ria concentra çã o de . 1.600 partes por milh ã o,

57
A concentração máxima , aplicada k água, f ôra de 1 / 50 de
parte por milh ã o. Como fora poss ível , à subst â ncia qu ímica,
-
elevar se a n í veis tã o prodigiosos no corpo dos mergulh ões? Estas
aves, como é natural , se alimentam de peixes. Quando se analisa-
ram també m os peixes do Lago Gear, o quadro começou a tomar
forma: o veneno f ôra captado pelos organismos mata diminutos;
-
concentrara se e passara para diante, para os predadores maiores.
Organismos de pia neto, ao que se verificou, cont ê m cerca de
5 partes por milh ã o, do inseticida (quase 25 vezes o má ximo de
concentração até agora conseguida na pró pria á gua ); peixes cr
bivoros tinham armazenado acumula ções que iam de 40 a 500
-
partes por milh ã o; os peixes carn í voros foram os que ma is arma -
zenaram , Um deles, de còr castanha — da família do bagre, do

cascudo, do mandi apresentou a surpreendente concentraçã o de
2.500 partes por milh ão, Aquilo era como uma amalucada se-
qu ê ncia, na qual os maiores carní voros tinham comido os carn í -
voros menores, que tinham comido os erbívoros, que tinham
comido o pia neto, que tinha absorvido o veneno contido na á gua.
Observações ainda ma is extraordiná rias foram feitas ma is tarde.
Nenhum vest ígio de DD D pôde ser encontrado na á gua, logo
depois da aplicaçã o dessa substância qu í mica. Mas o veneno n ã o
tinha rea í mciite abandonado o lago; apenas tinha ido para o
contexto da vida que o lago sustentava. Vinte e tr ês meses depois
de haver cessado o tratamento qu ímico* o plancto ainda continha
.
o inseticida , na proporção de 5,5 partes por milhão Neste in -
tervalo de quase dois anos, gera ções sucessivas de plancto tinham
florescido e murchado ; mas o veneno, embora nã o mais presente
na á gua , tinha, de algum modo, passado de geraçã o em gera çã o,
n uma das suas formas de vida.
Ademais, o mesmo inseticida continuou existindo també m na
vida animal do lago. Todos os peixes, todas as aves e todos os
sapos, que foram examinados, depois de uni ano da suspensão
das aplica ções de substâ ncias qu í micas, ainda continham D DD,
A quantidade encontrada na carne excedia sempre, e de muitas
vezes, a concentra çã o original que existia, ou que tinha existido,
na á gua. Entre os portadores vivos da mat é ria qu í mica figuraram
peixes que haviam nascido nove meses após a ultima aplica çã o
de DDD ; figuraram mergulh ões, e gaivotas da Calif órnia, que
tinham acumulado concentra ções de mais de 2.000 partes por
milh ã o. Nesse entrementes, as colónias reprodutoras de mergu -
lh ões se reduziram em n ú mero; sua quantidade desceu de mais
de 1,000 casais, antes do primeiro tratamento |x>r meio de inse-
ticida, para cêrca de 50 casais, cm 1960. E até mesmo êstes trinta
casais parece que se acasalaram em vao, porquanto nenhum mer-
58
1
grilhão nôvo tem sido observado, no mencionado lago, a partir
da ú ltima aplica ção de DD D.
Esta inteira cadeia de envenenamento, pois, parece que se
baseia em plantas miúdas, que devem ter sido as concentrado-
ras originais e iniciais. O que acontece, entretanto, com a
extremidade oposta da mesma cadeia ? Corn os seres humanos,
que, na prová vel ignorâ ncia de t ôda esta sequ ê ncia de aconteci-
mentos, prepararam seus petrechos de pesca , apanharam uma
fieira de peixes das águas do Lago Clear , e as levaram para casa,
para o próprio jantar? Que c que poderia fazer para eles uma
dose pesada de D DD, ou, talvez, uma dose repetida dessa subs-
tancia ?
Embora o Departamento dc Sa úde P ú blica da Calif órnia haja
declarado que n ão viu tra ço algum de perigo, ainda assim, em
1959, êsse mesmo Departamento solicitou que fôsse suspenso o
uso do DD D , nas águas do lago menc ionado. Em face das evi-
d ê ncias cient íficas, relativas à formid á vel pot ê ncia biológica desta
substância qu í mica, tal provid ência parece que constitui um m í-
nimo de medida de proteçã o e seguran ça ,
O efeito fisiológico do DDD é provà velmente ú nico entre os
inseticidas; o DDD destrói parte da gl â ndula supra -renal, isto é,
destr ói as células da camada exterior dc tal glâ ndula, camada esta
que se denomina córtex adrenal ; é esta camada que segrega o
hormónio cortidna. De in ício, acreditou -se que este efeito des-
trutivo, conhecido desde o ano de 1918, se limitasse aos cães; e
isto apenas porque o mesmo efeito n ã o fôra acusado em certos
animais experimentais, tais como os macacos, os ratos, ou os
coelhos. Afigurou -se sugestivo, entretanto, o fato de o DDD pro -
duzir, em cã es, uma condiçã o muito semelhante â que ocorre
no homem, na presen ça da doen ça de Addison. Pesquisas médicas
recentes revelaram que o DDD suprime, violentamente, a fun ção
do córtex adrenal humano. Sua capacidade de destruir cé lulas é
agora utilizada dlnicamente no tratamento de um tipo raro de
câ ncer, que se desenvolve na gl â ndula supra-renaL
A situação criada no Lago Clear traz à baila um problema que
o p ú blico precisa enfrentar : Será prudente, ou desejá vel , fazer
uso de subst â ncias capazes de tã o poderoso efeito sô bre os pro-
cessos fisiológicos, para o controle de insetos, pri íicipalmente
quando as medidas de controle implicam na introdu çã o de subs-
tâncias quí micas diretamente no corpo da água ? O Fato de o
inseticida ser aplicado em concentrações muito baixas n ão tem
significaçã o alguma , uma vez que o seu progresso explosivo, atra -
vés da cadeia natural dos alimentos, no lago, ficou claramente
59
demonstrado. Contudo» o Lago Clear é típico para um n ú mero
grande» que aumenta cada vez mais, de situa ções em que a solu-
çã o de um problema, muitas vézes óbvio e trivial, cria outro
problema bem mais sério» embora convencionalmente menos tan
g í vel . Aqui, o problema foi resolvido a favor dos que estavam
-
sendo aborrecidos pelos gnatos, isto é, por uma espécie de mos-
quito que, apesar de mosquito, n ão é sugador de sangue; foi-o,
porém, a cxpensas de um risco, não declarado e provavelmente
nem sequer claramente compreendido, para todos os que reti
ravam alimento ou água do citado lago,
-
É fato extraordin á rio o de que a introdução deliberada de
venenos cm reservatórios se vai tornando prá tica bastante comum.
O propósito é‘, usual mente, o de promover usos recreaeionais,
ainda que a água deva depois ser tratada a algum custo, a fim de
tornar-se de n ò vo adequada ao desejado emprego como água
de se beber.
Quando os esportistas de uma área desejam "melhorar ” a pesca
num reservatório, fazem pressão, sôbre as autoridades, para que
estas despejem certas quantidades de veneno nesse mesmo reser -
vat ório, na inten çã o de matar os peixes n ã o desejados; tais peixes
sao, posteriormente, substitu ídos por ninhadas de peixes mais
ajustados ao paladar dos esportistas, £ste procedimento tem uma
estranha qualidade de coisa de Alice no Pa ís das Maravilhas. O
reservatório é criado como abastecimento público de água; n ão
obstante, a comunidade, provàvelmente n ão consultada e n ã o
esclarecida quanto ao projeto dos esportistas, é forçada, ou a
beber á gua que contem resíduos venenosos, ou a pagar dinheiro
em taxas e impostos para o tratamento da á gua , destinado a
remover os mesmos venenos — sendo que o tratamento n ã o é,
de maneira nenhuma, de eficácia a tôda prova.
Visto que as águas tanto de superf ície como de profundidade
est ã o contaminadas por pesticidas ou outras subst â ncias qu í micas,
há o perigo de que n ão sòmente substancias perigosas, mas tam
bém originadoras de câ ncer, estejam sendo introduzidas nos esta -
-
belecimentos de águas p ú blicas. Ó Dr. W, G, Hueper, do Instituto
Nacional do Câ ncer, dos Estados Unidos, advertiu que "o perigo
das probabilidades de surtos de câ ncer, decorrente do consumo
de á gua potá vel contaminada, aumentará considerà velmente den -
tro de um futuro previsível*'. E,. com efeito, um estudo feito na
cidade de Holland, nos primeiros anos da quadra de 1950- 1960, dá
apoio ao ponto de vista segundo o qual os cursos de água ,
polu ídos, poderão constituir ameaças de câncer. As cidades que
recebem sua água de beber, de rios , acusaram urna propor çã o
mais elevada de mortes devido ao câ ncer * do que as cidades cuja
6Q
água de beber procedia de fontes presumivelmente menos sus-
ceptiveis de poluiçã o » corno, por exemplo» os poços.
O arsénico» que é a substância ambiental mais claramente
definida como sendo originadora de câ ncer na criatura humana »
está envolvido em dois casos hist óricos; sã o dois casos em que
os abastecimentos polu ídos de água provocaram ocorrência gene -
ralizada de câ ncer, Em um caso, o arsé nico procedeu dos montes
de escórias das operações em minas; no outro, procedeu de rochas
portadoras de elevado conte ú do natural de arsé nico. As mesmas
condi ções poderão ser fàcilmente duplicadas, como resultado de
imensas aplica ções de inseticidas arsenica ís , O solo, nessas á reas,
se torna envenenado. Ás chuvas, a seguir, carreiam parte do
arsénico para dentro de cursos de á gua, de rios» de reservatórios,
e também para os vastos mares subterrâneos de á guas de pro-
fundidade .
Aqui, de n ôvo, devemos lembrar - nos de que, na Natureza , nada
existe por si. Para se compreender mais claramente como a po-
lui çã o do nosso mundo est á acontecendo, precisamos agora dar
urna olhada a outro dos recursos básicos da Terra : o solo,

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5 Os Reinos do Solo
*

A FINA CAMADA de solo que forma a remendada cobertura que


existe por cima dos continentes controla a nossa existê ncia, bem
como a existência de todo outro ser animal à superf ície do Globo.
Sem solo, as plantas terrestres, como nós as conhecemos, nã o
poderiam medrar e crescer ; e, sem plantas, nenhum animal con
seguiria sobreviver.
-
Ainda assim* se é exato que a nossa vida* baseada na Agri-
cultura * depende do solo, també m é verdade que o solo depende
da nossa vida, uma vez que as suas pr óprias origens e a manu
ten çã o da sua verdadeira natureza se encontram intimamente
-
relacionadas às plantas e aos animais* que são sêres viventes.
Porque o solo é* em parte, uma cria ção da vida* oriundo de
uma intera çã o maravilhosa de vida e de n ão- vida* desde infinitas
Idades passadas. Os materiais essenciais foram reunidos na medida
em que os vulcões os despejaram , em torrentes afogueadas; na
medida em que as águas escorreram por cima das rochas nuas* e
assim escorrendo desgastaram até os granitos mais duros; e na
medida em que o cinzel da geada e do gelo fendeu e partiu os
penhascos. Ent ão* os sê res viventes começaram a realizar a sua
mágica criadora; e* a pouco e pouco* estes materiais sobrepostos,
misturados e inertes* se transformaram em solo. Os liquens, que
foram as primeiras coisas que cobriram as rochas* ajudaram a
consuma çã o do processo de desintegra çã o* em consequ ê ncia de
sitas secreções á cidas; e assim prepararam lugares acolhedores para
outras formas de vida. Os musgos tomaram conta das pequenas
cavidades do solo simples — do solo formado por despencados
peda ços de liquens* pelas cascas de insetos min úsculos* pelas
dejeções e pelos restos de uma fauna que ent ã o começava a
emergir do mar.
A vida não sémen te formou o solo, mas també m outras coisas
vivas, de incrí vel abund ância e desconcertante diversidade , que
agora no seu â mbito palpitam. Se isto n ão acontecesse assim * o
,

solo não passaria * hoje* de uma coisa morta e est é ril. Por sua
presen ça e por sua atividade, os milh ões de milhões de orga
nismos do solo o tornam capaz de sustentar o manto verde que
-
reveste a Terra t ôda+

63
O solo existe em estado de mudança constante, tomando parte
em ciclos que n ão têm começo nem fim. Novos materiais sã o
constan temente proporcionados pelas rochas, na medida em que
elas se desintegram ; na medida em que a mat é ria orgâ nica se
deteriora; e na medida em que o nitrogé nio e outros gases sã o
precipitados dos cé us para a superf ície da Terra, por meio das
chuvas. Ao mesmo tempo, outros materiais sã o retirados, a tí tulo
de empréstimo, para uso temporá rio, pdas criaturas viventes*
Mudanças químicas sutis, e altamente importantes, se encontram
comlnuamente em processo; tais mudan ças convertem elementos,
derivados do ar e da água , a fornias adequadas para que as plan
tas deles se utilizem. Em todas estas mudan ças, os organismos
-
vivos é que sã o os agentes ativos*
Poucos estudos h á , que sejam mais fascinantes, e, ao mesmo
tempo, mais esquecidos, do que o das prol í ficas (x> pula ções que
existem nos escuros reinos do solo. Muito pouco sabemos a
respeito dos v í nculos que ligam os organismos do solo uns aos
outros, e que estabelecem as rela ções do seu mundo com o mundo
que lhe fica por cima.
Talvez que o.s organismos mais essenciais, dentre os que existem
no solo, sejam os menores — as hostes invisíveis de bacté rias e
de cogumelos filiformes. As estat ísticas relativas à sua abund â ncia
nos levam , de imediato, a n ú meros astron ómicos. A quantidade
que se conté m numa simples colher , de solo de superf ície, pode
conter bilhões de bacté rias. A despeito do seu tamanho diminut ís-
simo, o peso total destas hostes de bacté rias, encontradas na es-
pessura de uns trinta cent ímetros, da camada superior do solo
de um acre {4.046,84 metros quachados) de chã o f é rtil, pode che-
gar até mcsino a uns 500 quilos. Os fungos radiais, que crescem
em longos filamentos esguios, sã o de algum modo, mais numero-
sos do que as bacté rias; não obstante o lato de serem maiores do
que as bacté rias, o seu peso total , numa dada quantidade de
solo, pode ser mais ou menos o mesmo. Com as pequenas células
verdes, denominadas algas, estes fungos compõem a vida vegetal
1

microscópica do solo.
As bacté rias, os fungos ou cogumelos, e as algas» sã o os agentes
principais da deteriora ção; reduzem os res íduos de plantas e de
animais aos seus componentes minerais Os vastos movimentos
*

c íclicos dos elementos qu í micos, tais como o carbônio e o nitro-


gé nio, através do solo e do art bem como dos tecidos vivos, n ã o
poderiam efetuar-se sem essas microplantas. Sem as bacté rias fixa-
doras de nitrogé nio, por exemplo, as plantas morreriam de fome,
por falta de nitrogénio, embora circundadas por um intermin á vel
oceano de ar atmosf é rico que contém nitrogé nio. Outros orga -
64
n ísmos formam diáxido de earbõn ío, que, como o á cido carbó-
nico, concorre para a dissolu çã o das rochas. Outros micró bios,
ainda, do solo, levam a termo vá rios tipos de oxida çã o e de
redu çã o, por via dos quais certos minerais, ca ís corno o ferro, o
manganês e o enxófre , são transformados e tornados disponíveis
para as plantas.
També m presentes em quantidades prodigiosas são os ácaros, e
os primitivos insetos destitu ídos de asas* denominados poduros.
A despeito do seu pequeno tamanho, éles desempenham papel
importante na decomposiçã o de res íduos de plantas; e prestam
auxílio na lenta conversã o da camada humífera do chão das flo -
restas em solo. À especializa çã o de algumas destas mi ú das criatu-
ras» para as suas tarefas, é quase que inacredit á vel. Vá rias espé-
cies de ácaros, por exemplo, só podem começar a pr ó pria vida em
meio aos pinhões ca ídos dos pinheiros , Àli abrigados, os á caros di-
gerem os tecidos internos dos pinhões. Quando as á caros comple-
tam o .seu desenvolvimento, sò niente a camada exterior das células
é que remauesce. A tarefa verdadeiramente assoberbar» te de lidar
com as tremendas quantidades de materiais vegetais, resultante
da queda anual de f òlhas, no outono, cabe a alguns dos pequenos
insetos do solo e do ch ã o da floresta. Tais insetos maceram e
digerem tolhas :; alem disto, ajudam a misturar a mat é ria decom -
posta ao sol o de superf ície.
Além desta horda de criaturas mi ú das e incessantemen. ee ope-
rantes, existem , como é claro, muitas outras fornias, maiores, de
vida, porquanto a vida que palpita no solo toma a gama t ôda,
desde as bact é rias aos mam í feros. Alguns sã o moradores perma -
nentes das escuras camadas do subsolo; outros hibernam , ou pas-
sam partes hem definidas do ciclo de sua vida em câ maras subter *

ran ças; outros vé m e vã o livremente, entre os seus esconderijos


e o mundo que fica por cima. Em geral, o efeito de tôda esta
popula ção do solo consiste em arejar o próprio solo, e també m
em melhorar a sua drenagem, bem corno a penetra çã o da á gua
através das camadas de que sc nutre o reino vegetal.
-
De todos os m à iores habitantes do solo, provàvelmente nenhum
é ma is importante do que a minhoca. H á mais de três quartos
de século, Charles Darwin publicou um livro in titulado "The
Formatiaii of Vegetable Mould, Through the Action ot Wovrns,
with Observatíons on Their Habits" (A Forma çã o do Mofo Ve -
getal , Através da Açã o dos Vermes, com Observações Sô bre Seus
H á bitos). Nessa obra, Darwin proporcionou ao mundo a primeira
compreensão do papel fundamental das minhocas, na qualidade
de agentes geológicos para o transporte do solo: era um quadro
representando rochas de superf ície que iam sendo gradual mente

5 Prim <3vGr<i 65
cobertas de finas part ículas de solo, levadas das profundidades do
ch ã o, para cima * até à quelas rochas, pelos vermes; as quantidades
anuais d êste movimento de terra sobem a muitas toneladas por
acre (4.046*84 metros quadrados) das á reas ma ís favorá veis. Ao
mesmo tempo, as quantidades de matéria org â nica, contidas nas
folhas e na grama (quantidades que sobem até a 10 quilos por
metro quadrado, em seis meses), sá o puxados para o subsolo para
,
as luras e tocas, para que sejam, afinal , incorporadas ao solo.
Os cálculos de Darwin mostraram que o trabalho das minhocas
poderá acrescentar uma camada de solo, de dois cent í metros c
meio a quatro cent í metros de espessura , num perí odo de dez anos.
E isto n ã o é, de forma alguma, tudo o que elas fazem : os cami-
nhos que abrem arejam o solo, mant ê m - nos bem drenados, e aju-
dam a penetra ção das ra ízes das plantas. A presença das minhocas
aumenta o poder rritrifeador das bacté rias do solo , e reduz o
. ocesso de putrescência da terra . A mat
é ria orgâ nica é decom -
posta , na medida em que vai passando pelos tratos di ativos dos
vermes; e o solo é enriquecido pelos seus produtos excretados.
Esta comunidade do solo, pois, consiste numa teia de vidas
entrela çadas, cada qual relacionada , de alguma forma, com t òdas
as outras; os seres vivos dependem do solo, mas o solo, por seu
turno, també m se transforma em elemento vital da terra ;
isto ,
poré m, se d á tâo-sòmente enquanto floresce esta comunidad e que
dentro dêle existe e deve existir.
O problema que nos preocupa , aqui, é um desses problemas
que têm recebido pouca considera çã o: Que é que acontece a esses
habitantes, incrivelmente numerosos e vitalmente necessários, do
solo, quando subst â ncias qu í micas venenosas são carreadas para
dentro do seu mundo, seja introduzidas diretamente, na forma de
“ esteril izantes” do solo, seja procedentes das chuvas que recebem
a contaminação letal ao infiltrarem se através do dossel de folhas
das florestas e dos pomares, bem corno das planta ções? Será razoá
vel supor que n ós possamos aplicar um inseticida de largo es --
pectro* para destruir os estados larvares, enfurnados, de um inseto
destruidor de colheitas, por exemplo, sem também matar insetos
" bons” , cuja fun ção venha a ser essencial na tarefa de decompor
matérias orgâ nicas? Ou podemos n ós fazer uso de um fungicida
n ã o específico, sem també m matar os fungos que habitam as ra ízes
de muitas árvores, numa ben éfica associação que ajuda as á rvores
a extrair subst â ncias nutrientes do solo?
A verdade chã é a de que êste assunto crhicamente importante,
da ecologia do solo, tem sido bastante abandonado, at é mesmo
pelos cientistas, e quase que completa mente ignorado pelos ho-
mens que exercem o contròle. O contrôle qu í mico dos insetos
66
parece que tem sido realizado na presun çã o de que o solo poderia
aguentar, e aguentaria mesmo, qualquer quantidade de insulto,
por via da introdu ção de venenos , sein revidar. A pró pria natu -
reza do mundo do solo tem sido vaslamente ignorada.
Com base nos poucos estudos que t ê m sido feitos, vem emer-
gindo, devagar, um quadro do impacto dos pesticidas no solo.
N ã o surpreende que os estudos nã o concordem sempre entre st *
porque os tipos de solo variam t ão enormemente, que aquilo
que causa dano, a um tipo, é de todo inócuo a outro. Os solos
leves, arenosos, sofrem muito ma is pesadamente do que os solos
de tipo humoso. As combina ções de substâ ncias qu í micas parece
que fazem rnais mal do que as mesmas substâ ncias aplicadas em
separado, A despeito dos resultados variados, acumulam -se evi
d ências só lidas* e em quantidade suficiente, para causar apreen-
-
sã o no esp í rito de muitos cientistas.
Sob determinadas condi ções, as conversões qu í micas, bem como
as suas transformações, que se situam bem no cora çã o do mundo
,

mosf é rico dispon í vel para as plantas, é um exemplo. O ervidda


-
vivente , sã o afetadas. A nitrifica çã o, que torna o nitrogé nio at

2,4 -D ocasiona a interrupção temporá ria da nitrifica ção. Em ex-


periê ncias recentes, efetuadas na Flórida, a lindaria * o heptacloro
e o EMC (hexacloreto de benzeno) reduziram a nitrifica çã o de-
pois de apenas duas semanas no solo; o BHC e o DDT acusaram
efeitos significativamente detrimentais um ano depois do trata
mento, Em outras experiê ncias, o BHC, a aldrina , a lindaria , o
-
heptacloro e o D DD, todos impediram que as bactérias fixadoras
-
do nitrogé nio formassem os necessá rios nódulos nas ra í zes de plan
tas leguminosas. Uma rela çã o curiosa , porém benéfica , entre os
fungos e as raízes das plantas mais altas, fica sèriamcnte desar
ticulada.
-
For vezes, o pr colem a é de ordem a perturbar ar lé le delicado
equil í brio de popula ções, por meio do qual a Natureza atinge
os seus objetivos mais longínquos, e de maior projeção. Aumen
tos explosivos, em algumas espécies de organismos do solo, tê m
-
ocorrido, quando outras espécies foram reduzidas por meio de
inseticidas— o que perturbou as rela ções de propor çã o entre o
predador e a presa. As mudanças dessa ordem poderiam f ácil-
mente alterar a atividade metabcica do solo, afetando , assim, a
sua produtividade. Isso poderia também significar que organis-
mos potencialincnte perniciosos, anteriormente mantidos sob
contrôle, ficam em condi ções de fugir aos recursos de controle
natural e* por ésse processo , se elevam ao estado de peste,
Uma das coisas mais importantes, e mais dignas de recorda çã o,
a respeito de inseticidas, é a longa persist ê ncia dos mesmos inse-
67
ti cicias, medida não em meses, e sim em anos, A aldrina foi re-
cuperada, do solo , depois de quatro anos, seja como resíduo, seja
.
(e maia stbuiidan temente) convertida em dieldrina Depois de dez
anos, a contar da sua aplica ção, ainda resta* em solo arenoso,
loxafeno bastante para matar té rmites.. O hexadoreto de ben -
zeu o persiste pelo menos durante onze anos; o hep ta cloro, ou um
derivado qu ímico ma is tóxico , pelo menos nove anos, A dor da na
já foi recuperada depois de doze anos após a sua aplica ção; e o
encontro se deu na proporção de 15 por cento da sua quantidade
original.
Aplica ções aparentemente moderadas, de inseticidas, ao longo
de um per íodo de anos, pode induz.ir a acumula ção de quantida -
des fantásticas no solo. Visto que os hidrocarbonetos clorados sao
persistentes e de longa duração, cada nova aplica ção é simples
mente acrescentada á quantidade restante da aplicaçã o anterior
-
*

À velha lenda, de que "meio quilo de DDT por acre (4 046,84 *

metros quadrados) é inofensivo", n ão é coisa alguma , se a pul-


veriza çã o se repete. J á se verificou que solos de batatas contêm
até sete quilos e meio de DDT, por acre; e que os solos de milho
contem até 19 . Um pouco de lòdo, de planta çã o de uva -dremonte,
ao que se verificou* continha a proporção de cerca de de/ essete
quilos por acre. O solo tornado de pomares de macieiras parece
que atinge o apogeu da contamina çã o ; nele, o DDT acumula-se
em ritmo que quase acompanha a cadencia das aplicações anuais
dc inseticidas Até mesmo uma ú nica esta ção do ano, com po-
*

mares pulverizados quatro ou ma ís vezes, os resíduos de DDT


podem subir a extremos de 15 a 25 quilos. Com pulverizações
repetidas ao longo dos anos, a gansa entre as á rvores vai dc 13 a
30 quilos por acre; por baixo das á rvores, até eêrea de 60 quilos,
O arsé nico proporciona uni caso cl ássico de envenenamento vir*

tualrnente permanente do solo. Embora o arsé nico, como pulve-


riza ção só bre tabaco em crescimento* tenha sido em grande parte
substitu ído por inseticidas orgâ nicos sintéticos, desde os meados
da quadra 1940- 1950* o conteúdo de arsé nico, em cigarros feitos
de tabaco de plantações dos Estados Unidos , aumentou em tnais
tle 300 por cento, entre os anos de 1932 c 1952. Estudos posterio-
res revelaram aumentos que chegaram at é 609 por cento O Dr* *

Henry S, Satterlee, autoridade em toxicologia do arsé nico, diz que,


embora os inseticidas orgâ nicos tenham substitu ído, em grande
parte, o arsé nico, as plantas de tabaco continuam a captar o an -
tigo veneno; e isto se d á porque os solos de planta ções de tabaco
est ã o agora totalmente impregnados de resíduos de um veneno
pesado e relativa mente insol ú vel, que é o arseniato de chumbo.
Isto continuará a desprender arsé nico em forma sol ú vel . O solo
m
I

de uma grande proporçã o da gleba plantada de tabaco foi sub -


— metido Ma Um envenenamento cumulativo e quase permanente''
ao que afirma o Dr. Satterlee. O tabaco produzido em pa íses
do Mediterrâ neo oriental, onde os inseticidas arsé nica is n ão sã o
usados, nã o acusou o mencionado aumento em conteúdo de ar-
sé nico.
Vem o- nos confrontados, portanto, com um segundo problema .
Nós n ã o devemos preocupar- nos t ão-sòmente com o que est á acon -
tecendo ao solo; devemos prindpalmentc investigar em que ex
tensã o os inseticidas sã o absorvidos, dos solos contaminados, pelas
-
plantas, e introduzidos nos tecidos dessas mesmas plantas. Muito
depende do tipo do solo, da planta çã o, bem como da natureza
e da concentraçã o do inseticida. O solo com elevado teor de ma -
té ria orgâ nica desprende menores quantidades de venenos, do que
os solos de mitras categorias. As cenouras absorvem ma is inseti -
cida do que qualquer outro vegetal estudado ; se acontece que a
subst â ncia qu í mica usada é a lindana, as cenouras acumulam , de
fato, concentra ções ma is altas do que aquelas que se acham pre
sentes no solo. No futuro, talvez venha a ser necessá rio analisar
-
os solos, para saber quais os inseticidas que deverão ser usados
neles, antes de se proceder à planta çã o de determinadas plantas
alimentares. Se assim n ão se agir, até mesmo as plantações n ão
pulverizadas, nem borrifadas, poder ã o absorver inseticida em grau
suficiente , do solo, ao ponto de as tornar inadequadas para o
mercado.
Esta mesma espécie de contamina çã o criou uma cadeia intermi-
n á vel de problemas para pelo menos um dos principais fabri -
cantes de alimentos para bebés; esse fabricante não se mostra dis
posto a adquirir frutas, nem vegetais, em cujas planta ções hajam
-
sido utilizados inseticidas tóxicos» A subst â ncia que mais aborre
cimento causou , ao referido fabricante , foi o hex adore to de ben-
-
zeno ( BI1G ), que é absorvido pelas ra ízes e pelos tubé rculos das
plantas, acusando a sua presen ça por meio de sabor e cheiro de
mofo. Batatas-doces, produzidas em fazendas da Calif órnia , onde
o BHC foi usado dois anos antes, continham res íduos dessa subs
t â ncia , c tiveram de ser rejeitadas. Em um ano, em que a firma
-
conclu íra contratos na Carolina do Sul , para satisfa çã o total das
suas conveniê ncias em rela ção às batatas-doces, encontrou -se uma
proporçã o tã o consider á vel de á rea contaminada, que a compa
nhia sc viu obrigada a comprar no mercado aberto, com elevadas
-
peidas financeiras. No decorrer dos anos, boa variedade de frutas
-
e de vegetais, produzida cm vá rios Estados norte americanos, teve
-
de ser rejeitada Os problemas mais dif íceis se relacionaram com
os amendoins. Nos Estados do Sul os amendoins sã o usualmente
.

69
produzidos em rotaçã o com o algodão, sendo que, sobre o algo -
d ão, o BHC é extensivamente utilizado. O amendoim produzido
posteriormente, nesse solo, absorve quantidades considerá veis do
mencionado inseticida. Na verdade, basta um tra ço de tal subs -
-
nado cheiro e o referido sabor de mofo

tâ ncia qu ímica * para incorporar, ao produto agr ícola, o mencio
cheiro e sabor que
sã o reveladores inequ ívocos no caso, A subst â ncia qu ímica pe-
netra no amendoim, e nã o pode ser removida dali , O processa -
mento industrial do produto, muito longe de remover a boloro
sidade de cheiro e de gosto, por vezes até chega a acentu á -la * O
-
ú nico caminho aberto* ao manufatureiro resolvido a excluir os
resíduos de BHC, é o de rejeitar todos os produtos tratados com
o aludido inseticida, ou colhido de solos contaminados por êle.
Por vêzes, a amea ça é para a pr ó pria planta ção— ameaça que
permanece por todo o tempo em que a contamina ção do inseti -
cida se encontra no solo. Alguns inseticidas afetam plantas sen -
sí veis, tais como os feijões, o trigo, a cevada, o centeio; retardam-
lhes o desenvolvimento das ra ízes, ou reduzem os resultados das
semeaduras.
As experiê ncias dos cultivadores de l ú pulo, em Washington e
no Idaho, constitu í exemplo disso. Durante a primavera de 1955,
muitos de tais cultivadores empreenderam um programa em
grande escala , para controlar o gorgulho da raiz do morangueiro,
cujas larvas se haviam tornado abundantes nas ra ízes dos l ú pulos.
A conselho de peritos agr ícolas, bem como do? fabricantes de in -
seticidas, ê les escolheram o heptacloro como agente controlador.
Um ano após a aplica çã o do heptacloro, as trepadeiras e as vi-
nhas, nas á reas assim tratadas, estavam mirrando e morrendo. Nas
á reas n â o tratadas, n ã o houve contratempo algum ; o dano dete -
ve-se na linha que estabelecia o limite entre os campos tratados
e os campos n ã o tratados pelo aludido inseticida. As colinas foram
replantadas, com grandes despesas; mas, dentro de mais um ano,
també m as novas ra ízes foram encontradas mortas. Quatro anos
depois* o solo, adi , ainda continha heptacloro; e os dentistas se
sentiram incapazes de predizer por quanto tempo mais a gleba
-
prosseguiria sendo venenosa; sentiram se incapazes, também, de
recomendar qualquer processo para correção daquela situa çã o.
O Departamento Federal de Agricultura , dos Estados Unidos, que,
sòmente em 1959, se encontrou em posiçã o an ómala * por haver
declarado que o heptacloro era aceit á vel para uso relativamente
ao l ú pulo, na forma de tratamento do solo* cancelou, embora
com atraso , o registro de tal substâ ncia para aquele uso. Nesse
entrementes, os plantadores de l ú pulo procuraram, nos tribunais*
a correçã o que lhe seria possível obter, para o mal da í resultante*

7o
Visco como as aplicações de pesticidas continuam sendo feitas,
e sabido como os res íduos, virtualmente indestrut íveis, prosse-
-
guem acumulando se no solo* é quase certo que estamos encami-
nhando- nos para uma situa ção de dores de cabeça. Este foi o con -
senso de um grupo de especialistas que se reuniu na Universidade
de Syr acuse, Estados Unidos, em 1960 , para debater assuntos re -
lacionados com a ecologia do solo. Aquêles especialistas resumi
ram os riscos do uso de “ instrumentos tã o poderosos e tã o pouco
-
compreendidos", tais como as substâ ncias qu í micas e as radia ções,
‘" Uns
poucos passos falsos, da parte do Homem , poder ão desem -
bocar em destruiçã o da produtividade do solo; e ent ão os artró -
podes poderão muito bem tomar conta de tudo".

71
i

>

f^V
I

6. O Manto Verde da Terra


A AGUA, O SOLO e o manto verde da Terra —manto êste com -
posto de plantas — integram o mundo que sustentam a vida ani -
mal à superf ície do nosso Globo. Embora o homem moderno ra -
ramente se lembre do fato segundo u qual éle n ão poderia existir
sem as plantas » esta é a verdade: sã o as plantas que captam a
energia do Sol e fabricam as substâ ncias alimentares básicas, de
que o homem depende para viver* A nossa atitude, para com as
plantas, é singularmente acanhada. Se percebermos alguma utili -
dade numa planta, nós passamos a promovei -lhe o culti vo. Se,
por qualquer motivo, achamos que a sua presença é Indesejável,
ou simplesmente indiferente, chegamos até a conden á -la à ime -
diata destruição. Além das v á rias plantas que sã o venenosas para
o homem e para os seus animais domésticos, ou que, por sua
abund â ncia , chegam a sufocar as plantas alimentares, muitas plan -
I
p tas sã o levadas à destrui çã o meramente porque, de acordo com
o nosso estreito modo de encarar as coisas, acontece estarem elas
no lugar errado e na é poca també m errada. Muitas outras sã o
destru ídas sòmente porque se d á o caso de das estarem associadas
a plantas indesejá veis.
I 75
A vegeta çã o da Terra faz parte de uma tela de vida em que
existem rela ções í u tinias e essenciais entre as plantas e o solo,
entre umas plantas e outras plantas, e entre as plantas e os ani-
mais. Por vêzes, n ã o nos é possí vel escolher ; somos obrigados a
perturbar tais rela ções; mas dever íamos fazer isso ponderada
mente, com perfeita consciê ncia de que aquilo que fazemos pode
-
ter consequ ê ncias remotas no tempo e no espa ço. Entretanto, nem
sombra dessa humildade assinala o próspero negócio dos “ mata -
dores de ervas daninhas", dos dias atuais; é um negócio em que
as vendas, qne vã o de vento etn pòpa , e em que os usos, cada vez
ma is numerosos, premiam a produ çã o de substâ ncias qu ímicas
destruidoras de plantas.
Um dos exempios inais trágicos do nosso impensado e insensato
maltratar da paisagem pode ser visto nas plantações de artem ísia
do Oeste norte-americano, onde uma vasta campanha se encontra
em curso, no sentido de se destruir essa planta e deixar cm seu
lugar os relvados das pradarias, LSC jamais um empreendimento
precisou ser esclarecido, com sentido de História e significa çã o
de paisagem , este é esse empreendimento Porque aqui a paisagem
*

natural é eloquente; ela fala por si , das intera ções das forças que
a criaram. As intera ções desenrolaram-se aos nossos olhos , como
se f õsscm pá ginas de um livro aherto, nas quais podemos ler a
razã o pela qual a terra ê o que é t e també m a razã o pela qual
devemos preservar-lhe a integridade Mas as pá ginas prosseguem
*

sem ser lidas,


A terra da artem ísia é a terra dos planaltos ocidentais, bem
como das faldas inferiores das montanhas que se erguem acima
deles; é uma terra originada da grande eleva çã o do sistema das
Montanhas Rochosas , ocorrida há muitos milhões de anos É lu -
*

gar de ásperos extremos climatéricos: de longos invernos, durante


os quais as saraivadas e as nevascas se arremetem pelas montanhas
abaixo, enquanto que a neve se forma e se acumula , espéssa ,
nas plan ícies ; e de ver ões cujo calor é aliviado apenas por umas
chuvas escassas, durante os quais a seca morde e fende profunda -
mente o solo, e os ventos secos roubam a umidade das folhas e
dos caules.
Na medida em que a paisagem evoluiu , deve ter havido um
longo per íodo de erros e de tentativas de acertos; nesse per íodo,
as plantas tentaram a colonização desta á rea alta e varrida pelos
ventos Uma planta depois de outra deve ter fracassado. Por firn,
*

um grupo de plantas evoluiu , combinando Lôdas as qualidades


indispensá veis para a sobrevivê ncia. A artem ísia — de pouca al-
tura e arbustiva — -
podia firmar se no seu lugar , nas faldas das
montanhas e nas planicies; dentro de suas pequenas folhas côr
74
de cinza, ela podia conter umidade suficiente para desafiar os
.
ventos e os respectivos efeitos de secagem N ão foi acidente, e sim ,
ao contr á rio, resultado de longas idades de experimentação, por
obra da Natureza, que as grandes plan ícies do Oeste norte-ame-
ricano se tornaram terras de artem ísia.
Juntamente com as plantas, também a vida animal evoluiu
em harmonia com as exigê ncias particulares da gleba, A seu
tempo, houve dois animais t ã o perfeita mente ajustados ao seu
habitat como a artem ísia. Um dêsses animais foi um mam í fero,
o veloz e gracioso ant í lope denominado antiloeabra, O outro foi
-
uma ave , o galo silvestre, o “ galo-das campinas", de Lewis e Clark.
A artemísia e o galo-da-campina parece que foram feitos um
para o outro. O habitat original da ave coincidiu com o habitai
da artem ísia, E, visto que as terras da artem ísia foram reduzidas,
assim também a quantidade de galos silvestres se reduziu. À arte-
m ísia é a um só tempo todas as coisas para a mencionada ave
. das planícies. A artem í sia baixa , dos sopés de montanha, abriga -
lhes os ninhos e protege-lhes os filhotes ; as artem ísias mais cres-
cidas e ma is densas servem -lhes de áreas de ninhadas e de acasa -
lamento; em tôdas as fases, a artem ísia proporciona -lhes alimento
básico. Contudo, trata -se, aqui, de uma rela ção de duas m ã os; de
dar e de receber. As espetaculares exibições de nam ôro, dos galos
silvestres, ajudam a soltar o solo que fica por baixo e ao redor
das plantas de artem ísia ; por este processo se facilita a invasã o
da á rea pelas relvas que medram á sombra delas.
O ant í lope, por sua vez, também ajustou a sua vida à artem ísia.
Os antilocabras sã o, primacialmente, animais de planície; e, TIO
inverno, quando as primeiras neves caem, os seres dessa espécie,
que passam o ver ão nas montanhas, migram para eleva ções mais
baixas. A li , a artem ísia proporciona -lhes o alimento que os nutre
através da fase fria do ano. Na é poca em que t ôdas as outras
plantas se despem de folhas, a artem ísia cont í nua sempre verde -
jante, ostentando suas fôlhas verde-cinza ; são f ôlhas amargas, aro-
m á ticas, ricas cm prote í nas, em gorduras e em minerais muito
necessá rios; estas f ôlhas ficam a pender dos ramos das plantas
densas e arbustivas. Embora a neve se acumule, a copa da arte -
m ísia prossegue exposta, ou pode ser alcan çada pelos cascos agu -
çados, escarvadores, do ant ílope. Depois, o galo silvestre também
se alimenta disso, encontrando, como encontra, a artem ísia em so-
calcos nus e varridos pelos ventos , ou acompanhando os ant ílopes,
a fim de se alimentar nos lugares de onde os ant í lopes tiram,
com seus cascos , a neve.
E outra vida anda ã procura da artem ísia , O mule deer , cervo -
mula, que é um veado norte-americano de orelhas compridas,
75
com freqiíência se nutre de artem ísia . Ademais , a artem ísia pode
significar sobrevivência para a alimenta çã o de inverno dos ani-
mais dom ésticos. Os carneiros pastam em muitas invemadas, onde
a artem ísia da espécie grande forma quase que um verdadeiro
e&tande alimentar: durante meio ano, é da a principal forragem
.
d é les, por ser planta de valor energé tico maia elevado at é mesmo
do que o capim ou a alfafa.
As inóspitas plan ícies das á reas altas, as ondas purpurinas das
imensidões tomadas pela artem ísia, e o antílope selvagem e veloz,
juntamente com o galo silvestre, compõem , como se vê, um sis-
tema natural , em equil í brio perfeito. Compõem mesmo? O verbo
precisa ser modificado
— pelo menos naquelas á reas já vastas e
cultivadas, cm que o homem está procurando melhorar as técni -
cas da Natureza, Em nome do progresso, as repartições de admi-
nistra çã o das terras se dispuseram a satisfazer as insaci á veis exi-
gências dos vaqueiros e criadores de gado, que querem sempre
maiores zonas de pastagem . Por esta expressão, êles querem signi-
ficar e significam terra de relva — e relva sem artem ísia. Por esta
forma , numa gleba em que a Natureza achou acertado lazer nas-
cer a relva de mistura com a artem ísia , e á sombra da artem ísia ,
agora se propõe eliminar a artem ísia e criar um relvado ininter
rupto. Poucos, ao que parece, ter ão indagado se as gramas e os
-
relvados são um objetivo est ável e desejável na mencionada re-
gião. Por certo, a resposta que a Natureza deu foi diferente. A
precipita çã o de á guas pluviais, nesta á rea , onde as chuvas rara -
mente desabam , n ã o é suficiente para nutrir uma boa grama,
formadora de torrões; essa precipita ção favorece, ao contrá rio, as
ervas que formam ma çarocas, perenes , e que crescem ao abrigo
da artem ísia.
Não obstante, o programa da erradica çã o da artem ísia esteve
em execu çã o durante certo n ú mero de anos. Vá rios setores gover
namentais estã o ativos, em tal sentido; a ind ústria juntou -se a
-
eles, com entusiasmo , a f í m de promover e estimular um empreen-
dimento que crie mercados ampliados nao sòmente para sementes
de gramas, mas também para um grande sortimento de m á quinas
de cortar grama , de arar glebas c de realizar semeaduras. O acres -
centamento niais recente, às armas de aplicaçã o agr ícola , é o uso
de pulverizaçã o de subst â ncias qu ímicas. Agora, milhares e mi-
lhares de quilómetros quadrados de terras de artem ísia sã o pul-
verizados todos os anos.
Quais sã o os resultados? Os efeitos futuros, da elimina ção da
artemísia e da semeadura de relvas, sã o, em grande parte, mo-
,

tivo para conjeturas. Homens de longa experiê ncia quanto ao


comportamento daquela terra diz que, naquela regiã o, ocorre cres-
7G
cimento melhor de relva entre artem ísias e por haixo delas, do
.
que é poss ível obter nos descampados, depois do desaparecimento
da artem ísia , que é planta rica em umidade.
Ainda que o programa venha a coroar-se de exilo, entretanto,
em seu objetivo imediato, est á claro que a inteira tessitura, ceria -
dametilc entretecida, da vida, foi dilacerada. O antí lope e o galo-
da-campina desaparecerã o juntamente com a artem ísia, A rena
também sofrerá, e a terra ficará ma is pobre, devido à destruiçã o
das coisas silvestres que lhe pertenciam. Até mesmo os animais
dom ésticos, que sã o os pretendidos beneficiá rios, sofrerã o; ne
nhuma quantidade de luxuriante relva verde, no verão, poderá
-
ajudar as ovelhas que sofrerão fome nas tempestades de inverno,
por falta da artem ísia , da " bittcrbrush ” (l ) c de outras vegeta -
ções silvestres das plan ícies.
Este é o primeiro efeito ; primeiro e óbvio; o segundo é de
uma espécie que está sempre associada ao m é todo de tentativas
usado pela Natureza. A pulveriza ção também elimina grande
quantidade de plantas que não são propriamente o seu objetivo
deliberado. C ) Juiz William O. Douglas, em seu recente livro My

Wilderness: East to Katahdin ” ( Meu Deserto: A Leste dc Katah-


d ín) relatou desconcertante exemplo de destruição ecológica efe -
tuada pelo Serviço Florestal dos Estados Unidos, na Floresta Na -
cional de Bridger, no Wyoming. Cerca de 10,000 acres (40,468
quilómetros quadrados) de tetras de artemísia, de salva , foram
pulverizados pelo citado Servi ço, cedendo a pressões exercidas
por criadores de gado que desejavam maiores pastagens. A arte-
m ísia foi morta , como se teve a inten ção de matar. Mas também
o foi a faixa verde , doadora de vida, de salgueiros, que abria
caminho através daquelas plan ícies, acompanhando os meandros
dos cursos de água. Os alces tinham vivido naqueles bosquetes de
salgueiros, porque o salgueiro é, para o alce, o que a artem ísia
é para o antilocabra. Os castores també m tinham vivido ali, ali-
mentando-se dos salgueiros, derrubando- os e fazendo diques ro-
bustos, no través da pequena correnteza que por ali passa. Por
meio do trabalho dos castores, formou -se um lago. As trutas, nos
cursos de água das montanhas, raramente se apresentavam com
ma is de 15 cent í metros de comprimento; no lago referido, elas
se deram t ão prodigiosa mente bem, que muitas cresceram e che -
garam a pesar cêrca de três quilos. Aves aquá ticas eram atra ídas
lambém pelo lago e para o lago, Sòmente em virtude da presen ça
dus salgueiros e dos castores, que dependiam deles , a regi ã o cons-

( !) Planua valiosa para •forragem de inverno, no OcsSe dus EsiaJoi Unidos { Furshia
.
í mlrni íérf â )

71
t í tu ía á rea de atrativo recreacianal, com excelente razão para
pesca e para caça.
Entretanto, com a "melhora" institu ída pelo Servi ço Florestal
dos Estados Unidos, os salgueiros foram afastados das artem ísias,
destru ídos peia pulverização imparcial , indiscriminada. Quando
o Juiz Douglas visitou a á rea, em 1959, que foi o ano da pulveri -
za çã o, ele sentiu -se chocado por ver os salgueiros mirrados e mo-
ribundos — J í 7

-
o dano vasto e inacreditá vel " Que é que teria acon -
tecido ao alce? Aos castores c ao pequeno mundo que eles cons-
tru íram ? Um ano ma is tarde, o Juiz Douglas voltou , para ler a
resposta na paisagem devastada . Õ alce tinha desaparecido; e tanv
hém o castor se tinha ido. O dique principal , que os castores fi-
zeram , se desconjuntou por falta da atenção dos seus há beis ar-
quitetos; e o lago, drenado, desapareceu . Nenhuma das grandes
trutas restou Nenhuma pôde viver no córrego que ali ficou , en-
*

leando através de mua terra á rida , quente, onde nenhuma som -


bra restara . O mundo vivente tinha sido despeda çado.

Além dos mais de quatro milh ões de acres (cerca de 16.200 qui-
lómetros quadrados) de terras de cultivo, que são pulverizados to-
dos os anos, áreas vast íssimas, de outros tipos de glebas, també m
se fazem recebedoras, potenciais ou de fato, de tratamentos qu í-
micos contra eivas daninhas. Por exemplo: unia á rea maior do


que a da Nova Inglaterra que corresponde a uns 50 milhões de
acres (uns 202.500 quilómetros quadrados) se encontra sob „
administra çã o de corporações de utilidades p ú blicas; c a maior
parte disso é rotineira men te tratada para “ controle da mata". No
Sudoeste , uma á rea calculada em 75 milhões de acres ( uns 303.700
quilómetros quadrados)> de terras de algarobeira, requer trata-
mento por algum meio ; e a pulverização de substâ ncias qu í micas
.
é o mé todo mais ativamente praticado Uma quilometragem qua -
drada desconhecida , poré m sabí damente muito ampla, de terras
produtoras de á rvores para madeira, est á sendo agora pulverizada
por meio de aeroplanos, a fim de se destru írem as plantas para -
sitas das con í feras mais resistentes às pulveriza ções. O tratamento
de terras agr ícolas, por meio de ervicidas, dobrou de extensão no
decé nio que se seguiu ao ano de 1949, totalizando 53 milh ões de
acres {uns 214 500 quilómetros quadrados) em 1959. A quilome
*

tragem quadrada, conjunta , de relvados, parques e cursos de golfe,


-
que agora está sendo tratada també m por meio de pulverizações,
monta a n ú meros astron ómicos.
Os destruidores qu ímicos de ervas daninhas constituem um
.
brinquedo brilhante e tiôvo Funcionam de forma espetacular ;
proporcionam, ao homem , uma estonteante sensa çã o de poderio
78
I contra a Natureza ; e, quanto aos seus efeitos a longo prazo, me-

nos óbvios « estes são f àcilmeme postos de lado, como se cons
titu íssem infundadas imaginações de pessoas pessimistas. Os 'en -
-
genheiros agr ícolas" falam alegremente de "ara ção qu ímica ", num
mundo que está sendo impelido a transformar os seus arados em
mangueiras de pulveriza çã o. Os pais citadinos de um milhar de
comunidades tendem ouvidos atenciosos, desejosos de ouvir, aos
vendedores de substâ ncias qu ímicas, bem como aos ansiosos con-
tra Ladores que prometem livrar as margens das estradas da ' mata"
— a tr ôco de um preço em dinheiro. Assim é mais barato do
que a ceifa, é o que se proclama. Assim talvez o caso pareça,
na fila n í tida de algarismos das livros oficiais; mas* nos aspectos
em que entravam os verdadeiros custos — os custos não sòmente
em dólares, mas també m em muitos d é bitos igualmente vá lidos,
que passaremos agora a tomar em considera ção — a difusã o em
grande escala de substâncias qu ímicas tendia a afigurar-se tâo dis -
pendiosa cm dólares como também infinitamente prejudicial para
sa ú de a longo prazo da paisagem, bem como para todos os varia -
dos interesses que disso dependiam.
Tome-se, por exemplo, a comodidade apreciada por ioda câ-
mara de comércio que exista no pa ís: a boa vontade dos turistas
-
em f é rias. Ouve se um coro cada vez mais volumoso de protestos
enfurecidos contra a deturpação do que foram outrora as encan -
tadoras margens de estradas, deturpa çã o essa que se efetua por
meio de pulveriza çã o de substâncias químicas: uma grande ex-
tensão de terreno, coberta por vegetaçã o amarro nada e murcha ,
tomou o lugar das á reas antiga mente povoadas pela beleza das
samambaias e das flores silvestres, bem como dos arbustos nati -
vos, adornados de flores ou de frutos, "Nós estamos criando uma
iaixa confusa de plantas moribundas, ao longo das margens das
estradas” — escreveu , zangada , uma mulher da Nova Inglaterra ,
ao jornal de sua preferência: “ Isto n ão é o que o turista espera ,
depois de todo o dinheiro que estamos despendendo em propa -
ganda relativa à beleza de paisagens e panoramas” .
No ver ão de 1960, os conservacionistas de muitos Estados con-
vergiram para uma tranquila ilha do Mame, a fim de assistir à
sua apresenta çã o k Sociedade Nacional Audubon, por intermédio
de sua proprietária* Millicent Todd Bingham. As aten ções, na -
quele dia , concentraram -se na preserva çã o da paisagem natural,
bem como da complexa maranha de vida cujos fios entrela çados
vao desde os micr óbios at é ao homem. Todavia , por tr ás de tõdas
.is conversações, travadas entre os visitantes da ilha* vibrava a in-
dignação contra o despojainento vegetal das estradas pelas quais
ê les tinham passado. Outrora , era uma alegria acompanhar aque -
79
las rodovias através das florestas sempre verdejantes ; eram estra -
das marginadas por loureiros, por fetos machos, por amieiros e
por ' huckleberrses '* que são plantas erfcáceas, pró prias da Amé-
5

rica do Norte, que d ão frutos comest í veis. Agora, tudo era deso-
la çã o parda, amarronada . Um dos cofiservacionistas escreveu só-
bre aquela peregrina çã o de agosto a urna ilha do Maine: “ Voltei,,,
revoltado contra a profana ção das beiras de estradas do Maine,
Nos lugares em que, em anos anteriores* as rodovias se apresenta -
vam marginadas por floras silvestres e por plantas arbustivas de
aspecto atraente, havia apenas vegeta çã o quase morta, ao longo
de quilómetros e rnais quilómetros... Como ponto de interesse eco *

n õinico, pode o Maine tolerar a per d a da boa vontade dos turis -


tas, que tais cenários induzem ?
As margens das estradas do Maine constituem meramente um
exemplo, embora particular mente desolador, para todos n ós que
nutrimos profundo amor para com a beleza do mencionado Es -
-
tado da União Norte Americana, da insensata destruiçã o que vai
sendo praticada por a í adiante , em nome do controle das plantas
arbustivas de beira de estrada , por todo o âmbito da na ção.
Os bot â nicos do Arboreto de Connect íeut declaram que a eli -
mina çã o das belas plantas arbustivas nativas* bem corno das ado-
r á veis ilóres silvestres, atingiu proporções de “ crise de margem
de estrada ” . Às azá leas, os loureiros da montanha , os mirtilos, as
erk á ceas, os viburnos, os cornisos , as samambaias, os fetos ma -

xas silvestres

chos, a mata rasteira , os azevinhos, as cerejeiras bravas, as amei-
tudo isto está morrendo em face da barragem
química. Dá -se o mesmo com a.s margaridas amarelas* com. as mar
garidas côr de laranja , cora as cenouras silvestres, com as virgas-
-
á ureas, com o áster de outono, que emprestam gra ça e beleza à
paisagem.
A pulveriza ção de substâ ncias químicas n ão sòmente é inade-
quadamente planejada , mas é també m tôda pontilhada de abusos
como os que a í vã o especificados. Numa cidade do sul da Nova
Inglaterra, um contratador completou o seu trabalho com certa
substâ ncia qu í mica que restava em seu tanque. Descarregou essa
subst â ncia ao longo de beiras de estrada de uma zona de matas,
na qual nenhuma pulverizaçã o fora autorizada. Em consequ ê n -
cia, a comunidade perdeu a beleza ouro e azul das suas estradas,
no outono* onde o áster e a virga -á urea costumavam dar espetá -
culo tã o encantador, que fazia valer a pena viajar de longe, para
contempl.á -lo. Em outra comunidade da Nova Inglaterra , uni con
tratador modificou as especifica ções estaduais para pulverizações
-
no â mbito das cidades, sem o conhecimento do departamento de
estradas; e pulverizou vegeta ções de beira de estrada at é à altura
80
de dois metros e meio, ao invés de o fazer até ao especificado
má ximo de um metro e vinte centímetros; e o que .êle deixou
foi um acciro largo, escuro> desfigurador, na paisagem Numa co -
munidade do Massachusetts, os funcionários da cidade compra -
ram certa substancia , matadora de ervas daninhas, a um zeloso
vendedor de materiais de natureza qu ímica; n ã o tiveram conhe-
cimento de que aquela substância continha arsé nico. Um dos re -
sultados da subsequente pulverização da beira das estradas foi a
morte de doze vacas, devido a envenenamento por
arsé nico,
Às á rvores, dentro da Área Natural do Arboreto dc Connec-
ticut, foram ria
s é mente danificada s quando a cidade de Watcr-
ford pulverizou as margens de estradas com matadores qu í micos
de ervas daninhas, em 1 57. At é mesmo á rvores grandes que n o
, ã
foram diretamente pulverizad as ^
, ficaram prejudicad as . As folhas
dos carvalhos começaram a encrespai se e a amarronar -se, embora
se estivesse na estação do ano propícia para o crescimento. De
-
ú come çaram a repontar , e cresceram com
pois , novas verg nteas
rapidez anormal, dando, ás á rvores , aparência chorosa. Duas- es;
-
á rvores estavam mo tos
ta ções mais tarde, os grandes ramos das
í

outros se apresentavam sem folhas; e o aspecto deformado


, cho-
roso, do conjunto de cada á rvore, persistia.
Conheço muito bem uin trecho de estrada em que o sentido
paisagístico da Natureza havia criado uma orla de amieiros, de
vibumos, de fetos-machos e de zimbros, com eleitos estacionai -
mente cambiantes de flores vivamente coloridas, ou de frutos a
pender em cachos como que cobertos de joias, no outono A es-
,

trada n ã o tinha tr á fego muito pesado para suportar ; existiam


poucas curvas fechadas, e muito poucos cruzamentos em que a
mata poderia obstruir a visibilidade dos motoristas. Mas os pul -
verizadores de ervicidas puseram mãos à obra, e quiló metros e
quil ó metros de extensão, dessa estrada, se transformaram em algo
que era preciso atravessar com grande velocidade: transforma-
ram se numa visão tolerável apenas para os espíritos fechados aos
-
pensa mentiis relativos ao mundo estéril e odioso, que estamos dei -
xando que os nossos técnicos criem. Contudo, aqui e acolá a au -
iui idade havia falhado; e, por via de inexplicá vel inadvert
ência,
ainda restaram alguns o á sis de beleza , em meio ao controle aus-
tero e arregimentado —
oásis estes que tornavam ainda mais
rodo
in
-
-
suportá vel a visã o da profana çã o da maior parte daquela
via , Em lugares como é sse , meu esp í rito se animou â vista de ex -
tensões de trevo branco, ou de nuvens dc erviihacas cór de p ú r-
pura , pontilhadas, aqui e acol á, por taças flamejantes de uns lí-
rios-do- mato.
81
f'
^ i J ff n ' ;- A
Estas plantas são "ervas daninhas" sòmente para aquêles cujo
negócio consiste em vender e aplicar substancias qu í micas á ve
getação. Num volume dos "Proceedings” (anais) de uma das con
-
-
ferê ncias de controle de eivas daninhas, que são agora instituições
.
regulares Li, de uma feita, a extraordinária exposição da filosofia
de um destruidor de ervas daninhas. O autor da exposi ção de-
fendia a matança de plantas boas "simplesmente porque elas se
.
encontravam em m á companhia” Aqu êles que se queixam de
que flores silvestres sejam destru ídas ao longo da orla das estra-
das lembraram, àquele autor — ao que êíe mesmo disse
— os an-
tivivisseceionistas, "para os quais, se algué m tivesse de ser jul-
gado por suas a ções, a vida de uni cachorro vira -lata seria ma is
sagrada do que a vida das crian ças” .
Para o autor de tal monografia, muitas de nós seriam inques-
tion ável mente suspeitos, culpados de alguma profunda perversão
do car á ter, por preferirem a visã o da hervilhacu, do trevo e do
lirio-do- mato, em toda a sua beleza delicada e transit ória, k visão
das margens de estradas escorchadas pelo togo, das matas amare-
ladas e quebradiças, dos fetos que outrora ergueram bem alto,
com orgulho, as suas frondes rendadas, e que agora se apresentam
encarquilhados e desca ídos. N ós parecer íamos deploràvelmcnte
fracos por n ã o tolerarmos a visão de tais "ervas daninhas” , por
n ã o nos rejubilarmos era face da sua erradica ção, por n ã o nos
enchermos de exultação pelo fato de o homem rnais uma vez ha-
ver triunfado sobre as inconveniências da Natureza.
O Juiz Douglas conta-nos o fato de haver assistido a uma reu -
nião de funcion ários agrícolas federais, os quais estavam dis-
cutindo os protestos formulados por cidad ã os, contra os planos
de pulverização de artem ísias, que mencionei antes, neste capí
tulo. Aquê les funcionários consideraram hilarian temente diver-
-
tida a circunstâ ncia de uma senhora idosa se haver oposto aos
planos referidos, só porque as flòres silvestres seriam destru ídas.
"Contudo, não era por acaso o direito dela, de
( procurar um l írio
listrado, ou um lírio tigrino), tão inalien á vel como o direito do
criador de gado, no sentido de procurar grama para pastagem, ou
do madeireiro, no sentido de reclamar uma á rvore?”
— é o que
pergunta o mencionado jurista , humano e observador. “ Os valo-
res esté ticos das á reas silvestres constituem nossa heran ça, tanto
quanto os veios de cobre ou de ouro, que existem nas nossas co-
linas, ou nas florestas das nossas montanhas".
Há, naturalmente, mais motivo para se desejar preservar a ve-
geta ção das margens das nossas estradas, do que o representado
por essas considerações estéticas. Na economia da Natureza, a ve-
getação natural tem seu lugar essencial. As sebes, ao longo das
82
estradas provinciais t que beiram campos de cultivo, proporcio-
nam alimento, abrigo e á reas de acasalamento e de reprodução,
para os pássaros, e moradia para. muitos animais pequenos. De
cerca, de 70 espécies de arbustos e de trepadeiras, que sã o espécies
t í picas de beira de estrada, só nos Estados do oriente dos Estados
Unidos, cerca de 65 sã o importantes para a vida silvestre, na qua -
J idade de alimento..
Essa vegeta çã o é també m o habitat de abelhas selvagens c de
outros insetos polinizadores. O homem depende mais desses in -
setos polin úadores, do que ele normalmente presume ou percebe*
At é o pr óprio agricultor só rara mente compreende o valor das
abelhas selvagens; c, com frequê ncia, cie participa da tomada das
pró prias medidas que lhe roubam os serviços delas.
Algumas plantas alimentares e muitas plantas silvestres depen-
dem , em parte, ou no todo, dos serviços dos insetos polinizadores


nativos. Vá rias centenas de espécies de abelhas selvagens tomam
parte na poliniza ção das colheitas agrícolas sendo que umas
cem espécies visitam somente as flores de alfafa. Sem a poliniza
çã o dos inseLos, muitas das plantas fixadoras c enriquecedoras do
-
solo, de á reas nã o cultivadas, definharam e morreram, com graves
consequências de longa repercussão para a ecologia da região in-
teira , Muitas ervas, muitos arbustos e muitas á rvores de florestas
e de montanhas dependem de insetos nativos para a sua repro -
dução; sem estas plantas, muitos animais silvestres e muitos ani
mais de rebanhos encontrariam pouco alimento. Agora , o cultivo
-
científico e a destruição qu í mica das sebes c das eivas est ã o eli -
minando os derradeiros ref úgios destes insetos polinizadores, e
rompendo, portanto, os v í nculos que ligam a vida à vida -
Êstcs insetos, t ão essenciais à nossa agricultura, e, ademais, à.
nossa paisagem , como n ós a conhecemos, merecem algo mais c
melhor, da nossa parte, do que a insensata destrui çã o do seu
.
habitat As abelhas produtoras de mel e as abelhas selvagens de-
pendem sèriamente de tais “ ervas daninhas", tais como a hervi-
ihaca, a mostarda , o deute-de- leão, que fornecem o pólen que
serve de alimento aos seus filhotes. O amieiro proporciona a for-
ragem essencial de primavera para as abelhas, antes de a alfafa
começar a florir; o amieiro sustenta as mencionadas abelhas, no
transcurso da primeira fase da esta ção do ano , de modo que elas
ficam prontas para polinizar a alfafa . No outono, as abelhas de-
pendem da virga-á urea, numa quadra do ano em que nenhum
outro alimento se encontra dispon ível, que possa ser estocado para
-
uso no inverno Pelo acerto do ritmo, exato e delicado, que é
pr ó prio da Natureza, o aparecimento de certa espécie de abelhas
KjMi v
"*‘
'

83
selvagens ocorre exatamente no mesmo dia da abertura da fio-
rada do salgueiro .
N ã o há falta de homens que compreendam estas coisas; mas
êstes não sã o os homens que ordenam a inundação em massa ,
da paisagem, por substancias qu í micas,
Ji onde é que estão os homens que, presumivelmente, com -
preendem o valor do habitat adequado para a preservação da vida
silvestre? Numerosos deles podem ser encontrados entre os que
defendem os ervicidas como se êstes fdssem substâ ncias inofensi
vas ã vida silvestre, só porque são considerados, ou se presume
-
que sejam considerados, menos t óxicos do que os inseticidas. Por-
tanto, è o que se diz , nenhum mai se pratica. Entretanto, visto
como os ervicidas se derramam por cima de florestas e de campos
de cultivo, sobre pantanais e sobre pastagens, êles estão origi
nando o aparecimento de modificações dignas de nota no habitat
-
dos animais silvestres, e mesmo ocasionando destruiçã o perma-
nente de áreas desse habitat , Destruir a morada e também o ali-
mento da vida silvestre é, talvez, pior, com o correr do tempo,
do que a própria matança direta,
A ironia deste assalto a todo pano, com substâ ncias qu ímicas,
levado a efeito contra as margens das estradas e contra os direitos
de trâ nsito das utilidades, tem aspecto duplo, O mencionado as-
salto perpetua o problema que procura corrigir, porquanto, corno
a experiê ncia tem ciaramente mostrado, a aplica çã o dos ervicidas
n ã o controla permaneci temente as ervas rasteiras da orla das es-
tradas; assim, a pulveriza ção precisa ser repetida, ano após ano,
E, como ironia ulterior, nós persistimos fazendo isto, a despeito
do fato segundo o qual um mé todo perfeitamente acertado de
pulverização selecionada, ou seletiva, j á é conhecido; este mé todo
pode efetuar o controle vegetacional de longo prazo; e, além
disto, elimina as pulveriza ções repeLidas contra a maior parte dos
tipos de vegeta çã o,
O objetivo do controle da mata rasteira existente ao longo da
orla das estradas, e dos caminhos de passagem , nã o é o de varrer
a á reap limpando-a de tudo, menos de grama ; é, ao contr á rio, o
de eliminar plantas que afinal se fazem grandes demais, a ponto
de constituir obstru ção à visã o dos motoristas, ou interferê ncia
nos fios* dos direitos de passagem dc condutores de energia elé-
trica. Isto quer dizer, em sentido geral, á rvore. Muitos arbustos
sã o bastante baixos, e n ã o constituem perigo; est ã o neste easop
por certo, as samambaias e as flores silvestres.
A pulveriza çã o seletiva foi aperfei çoada pelo Dr, Frank Fgfer ,
durante um per íodo de vá rios anos, que passou no Museu Norte-
Àraericano cie História Natural, na qualidade de diretor de uma

U
Comissã o de Recomendações de Contròk de Arb ústeos Para Di
rei tos de Paragem. Essa pulverizarã o tirou vantagem da estabili -
dade inerente à Natureza; contou com o lato segundo o qual a
maior parte das espécies de arb ú steos è for temente resistente à
invasão por obra de á rvores. Em compara çã o, as gramí neas sã o
facilmente invadidas por sementes de árvores. O objetivo da pul
verização seletiva nã o é o de produzir gram í neas â beira das en
--
tradas e dos caminhos de direito de passagem, e sim o de elimi -
nar as altas plantas lenhosas, por meio do tratamento direto,
com preserva ção de toda outra vegeta ção. Um tratamento pode
ser suficiente, com possí vel insist ê ncia na pulverizaçã o, em casos
de espécies extremamente resistentes; dai por diante, a mata ras-
teira afirma o seu controle e as á rvores n ã o voltam. Os melhores
meios de controle, e também os mais baratos, para a vegeta ção,
não sã o as subst â ncias qu ímicas, c sim as outras plantas.
Este m é todo tem sido provado em á reas de pesquisa , dispersas
pelo setor oriental tios Estados Unidos. Os resultados demonstram
que , uma vez devidamente tratada, a área se torna estabilizada,
não requerendo repetição da pulverização durante pelo menos
vinte anos. A pulveriza ção pode frequente mente ser feita por ho-
mens que trabalham a pé,. equipados com mochilas (de tipo mi-
litar), para o transporte das substâ ncias qu ímicas e do aparelha-
mento pulverizador , e exercendo controle completo sô bre o ma -
terial sob sua cust ódia. Por vezes, bombas compressora* e outros
equipamentos podem ser montados em chassis de autocaminhóes;
mas n ã o se efetuam pulverizações generalizadas que cubram como
um manto as á reas em questão. O tratamento é dirigido somente
a á rvores e a arbustos excepctonalmente altos, que precisem ser
eliminados. A integridade das á reas circunstantes, ao redor de
cada planta a ser eliminada, é, por essa forma, preservada; o va -
lor enorme do habitat de vida silvestre permanece intato; e a
beleza rias matas, das samambaias e das flòres silvestres, nã o se
sacrifica.
Aqui e acolá, tem sido adotado o mé todo da administraçã o da
vegetação por meio da pulverização seletiva. Em sua maior parte,
os costumes arraigados custam a modificar -se ou a morrer ; e as
pulverizações generalizadas continuam a ser feitas; estas pulveri
za ções indiscriminadas custam preços pesados aos contribuintes,
-
infligindo, tomo infligem , danos extraordiná rios e por vezes irre-
medi á veis ao contexto ecológico da vida. As pulveriza ções indis-
criminadas se efetuam ainda sòmente porque os fatos, relacio
nados com os preju ízos que elas ocasionam, n ã o são conhecidos.
-
Quando os contribuintes, os pagadores de impostos, compreende-
rem que as contas relativas à pulverização das estradas provinciais
devem ser pagas apenas uma. vez em cada gera çã o* ao inv és de
o serem uma vez cada ano , ent ã o eles seni d ú vida se erguer ã o, e
exigirão mudança de mé todos.
Entre as muitas vantagens da pulveriza ção seletiva , figura o fato
de que ela reduz a quantidade de substância qu ímica que deve
ser aplicada â paisagem . N ão há * nela * dispersã o de material; hâ ,
,

ao contrá rio, aplica ção concentrada desse material na base das


árvores. G dano potencial , para a vida silvestre, é, portanto, man
tido no í ndice m í nimo possí vel
-
Os ervicidas ma is usados sã o o 2 /1-D , o 2 ,f J- 7’ e os compostos
correlatos. Se estas substâ ncias sã o ou n ã o são tóxicas, isso é mo-
tivo de contrové rsia. Pessoas que pulverizam seus relvados com
2,4-D , e que se molham com a pulverizaçã o, desenvolveram , oca
sional mente, n eu fites severas; e também ocorreram , com elas, ca
--
sos de paralisia. Embora os acidentes desta ordem sejam aparem
temente incomuns, as autoridades m édicas recomendam cautela
no uso de tais compostos. Outros perigos* ma is obscuros, também
decorrem do uso do 2,4 - D . Ficou demonstrado, experimental
mente , que essa substâ ncia perturba o processo fisiológico básico
-
da respiração, na célula viva , e que ela imita os raios X , na da
nifica çã o dos cromossomos. Alguns estudos bem recentes indicam
-
que a reprodu ção de pá ssaros poder á ser influenciada adversa -
mente, seja por este ervidda * seja por outras substâ ncias seme -
lhantes, em n í veis que sc siLuam bem abaixo daqueles que cau
sam a morte.
-
Afora todos os efeitos t óxicos diretos, h á curiosos resultados in-
diretos que se seguem ao uso de determinados ervicidas. Desco-
bri u -se que vários animais, tanto herbívoros silvestres como her-
b í voros domésticos, ou donsesticados, sã o, por vêzes, estranha
mente atra ídos para uma planta que foi pulverizada, mesmo em
-
se tratando de pianLa que não constitua seu alimento natural . Se
um ervicida altamente venenoso, como o arsé nico, houver sido
usado, no caso, este intenso desejo de comer vegeta ção murcha ,
ou em processo de emurcheci mento, produz , inevit á vel mente, efei
tos desastrosos. Resultados fatais podem decorrer da í, mesmo no
-
caso de emprego de ervicidas menos tóxicos, se acontecer ser a
planta , de per si, venenosa, ou possuir espinhos ou carrapichos.
Ervas daninhas venenosas , das pradarias, por exemplo, tê m-se tor -
,

nado subitamente atraentes para o gado, depois da pulverizaçã o;


e os animais tem morrido, depois de se demorarem nos prazeres
d êste apetite atitioaturai A literatura da medicina veterin á ria é
abundante em exemplos da ordem aqui mencionada. Su í nos, que
se alimentaram de carrapichos e bardarias pulverizados, aparece-
ram atingidos por doen ças severas ; cordeiros, que comeram cardos

m
pulverizados, também se enfermaram ; houve abelhas que se en -
venenaram por pousarem sòbre mostarda que havia sido pulve -
rizada depois de entrar em fase de Clorada. A cerejeira brava,
cujas folhas são alta mente venenosas, tein exercido atra ção fatal,
sò bre o gado, depois de a sua folhagem haver sido pulverizada
com 2,4 D , Ao que se afigura, o emurcheci mento que se segue à
pulveriza ção faz com que a planta se torne atraente como a li *

mento. A tasneira tem proporcionado outros exemplos, O gado,


via de regra , evita esta planta, a menos que seja for çado a vol-
tar -se para ela, na fase final do inverno e no começo da prima-
vera , por falta de outra forragem . Entretanto, os animais voraz-
mente se alimentam desta planta , em qualquer é poca, depois de
a sua folhagem haver sido pulverizada com 2,4 -D.
A explicaçã o deste comportamento peculiar parece, por vêzcs,
que reside nas modifica ções que a substâ ncia qu í mica pulverizada,
ou borrifada, provoca , no metabolismo da pró pria planta. Ocorre,
temporariamente, aumento notá vel do conte údo de a çú car , o que
contribui para que a planta se fa ça mais atraente para muitos
animais.
Outro efeito curioso do 2,4-D produz sintomas importantes sô
bre os animais dom ésticos, sòbre os animais silvestres, e, ao que
-
parece , també m sò bre o pró prio homem. Experiê ncias levadas a
cabo há coisa de um decénio mostraram que , depois do trata -
mento por meio desta substâ ncia qu í mica , se verifica aumento
ní tido e apreciá vel do conte ú do de nitrato no trigo e na beter
raba -de-a çú car. Do mesmo efeito se desconfiou em rela çã o ao sor
-
-
go, ao girassol, à efemerina, à anseriua , ao quenopódio, à persi-
cá ria mordaz. Algumas destas plantas sã o normal mente ignoradas
pelo gado; sã o, porém , comidas com avidez, depois de serem
tratadas com 2,4-D. Certo n ú mero de mortes, ocorrido nos reba *

nhos, pôde ser traceado e atribu ído a ervas daninhas pulveriza -


das; é isto o que afirmam alguns especialistas em assuntos agr í-
colas. O perigo reside no aumento dos nitratos, pois a fisiologia
peculiar dos ruminantes apresenta , de imediato, uni problema cr í-
lim. A maior parte dos ruminantes possui sistema digestivo de
extraordin ária complexidade, inclusive est ômago dividido em
quatro compartimentos. À digest ã o da celulose é efetuada através
( la ação de microrganismos ( bactérias de rume) em um dos com-

partimentos. Quando o animal se alimenta de vegetais que con-


tenham n í vel anormalmente alto de nitratos, os microrganismos
df » rume atuam sò bre esses nitratos, para os modificar, transfor -
-
mando os cm nitri tos al lamente t óxicos. Da í por diante, segue se
uma cadeia fatal de eventos; os nitri tos atuam sòbre o pigmento
ilo sangue, para formar uma substâ ncia amarronada* côr de cho-
87
colate, na qual o oxigcnio é tio finnementc seguro, que n ã o
pode tomar parte na respira çã o; assim , o oxigé nio nã o é transfe-
rido dos pulm ões aos tecidos, A morte, então, ocorre dentro de
poucas horas, por anoxemia, ou falta de oxigé nio. Os vá rios rela
tórios a propósito de perdas de animais domésticos , depois da
- \
pastagem em que hajam sido comidas certas ervas tratadas com
2.4-D, portanto, tém explica ção lógica , O mesmo perigo existe
para os animais silvestres ou selvagens, que perten çam aq grupo
dos niminantes, tais como a rena , o ant í lope , os carneiros , as
cabras, etc.
Embora vá rios fatores (como o tempo atmosf érico excessiva -
mente sêco) possam ocasionar aumento no conte ú do de nitrato,
o efeito do aumento das vendas e de aplica ções do 2 ,4-D nã o
pode ser ignorado, A situa çã o foi considerada importante

por
tal forma que a Universidade de Wisrons í n , através da sua Esta -
çã o Experimental de Agricultura , justificou uma advertê ncia , em
1957 ; di ? ia a advert ê ncia que ;ts "plantas mortas por efeito do
2.4-D podem conter grandes quantidades de nitrato". Os riscos
estendem -se aos sê res humanos , tanto quanto aos animais, e po-
dem ajudar a explicar o misterioso aumento recente cm "mortes
nos si íos", Quando o trigo, a aveia, ou o sorgo, contendo grandes
quantidades de nitrato, são ensilados, cies desprendem gases de
óxido de nitrogé nio, que sã o extremamente venenosos isto cria
-

risco mortal para qualquer pessoa que entre nos silos que conte-
nham tais produtos. Bastam apenas umas poucas aspira ções de
um de tais gases, para ocasionar uma pneumonia qu ímica difusa .
Numa sé rie de casos desta espécie, estudada peia Escola de Me-
dicina da Universidade de Minnesota , todos, menos apenas um ,
se conclu íram pela morte da pessoa afetada .
" Mais uma vez, n ós estamos calcando aos pés a Natureza, como
. .
um elefante em loja de lou ça" Por esta forma , C. J Briejè r, cien
tista dinamarqu ês dc rara clarivid ê ncia , resume o uso que faze-
-
mos das substâ ncias matadoras de ervas. "Em minha opinião, h á
um excesso de coisas que se t ê m por certo, como se f õssem íavas
contadas. Mas nós n ão sabemos se todas as ervas, que aparecem

ben éficas"

numa planta çã o, sã o daninhas , nem se algumas delas sã o ú teis e
afirma o Dr , Briejèr,
Raramente se formula a pergunta: "Qual é a rela çã o entre a
erva e o solo?” Talvez, mesmo do nosso estreito ponto de vista
.
do direto inter êsse pr ó prio, a rela çã o mencionada seja ú til Como
j á vimos, o solo e as coisas viventes, que existem dentro e em
cima d êle, mantê m rela çã o de interdepend ê ncia e de benef ícios
m
m ú tuos. Presumivelmente, a erva est á tomando alguma coisa do
solo; talvez pia esteja també m contribuindo com alguma coisa.
Um exemplo pr á tico foi proporcionado, ainda recentemente,
pelos parques, numa cidade da Holanda. As rosas estavam dan -
do-se mal. As amostras dos solos revelaram pesadas infesta ções
por obra de vermes nemat óides. Os cientistas do Serviço Holan-
dês de Proteçã o à s Plantas n ão recomendaram pulverizações de
subst â ncias qu í micas , nem tratamentos qu í micos do solo; ao in -
v és disso , sugeriram que se plantasse cravo -de-def unto entre as
rosas. Essa planta , que os puristas sem d ú vida consideram como
sendo erva daninha , num roseiral, desprende uma excreçã o, pelas
suas ra í zes , que mata os nemat óides do solo. O conselho foi aceito;
alguns canteiros foram plantados com os referidos cravo-de-de-
funto; outros foram deixados sem isso , para fins de contr ôle. Os
resultados foram flagrantes. Com o aux í lio dos cravos-de-defunto,
as rosas floriram ; TIOS canteiros de controle, as rosas se apresen -
taram enfermi ças e desca ídas. Os cravos-de-defunto sã o agora usa -
dos ein muitos lugares, para o combate aos nematóides.
De igual maneira , e talvez de todo desconhecida para nós, ou -
tras plantas , que erradicamos impiedosamente, podem estar le-
vando a efeito uma fun çã o que seja necessá ria k sa ú de do solo.
Uma fun çã o muito ú til para as comunidades naturais de plantas
— que agora sã o denominadas, de modo bastante generalizado,
"ervas daninhas" — é a de servirem de indicadoras das condições
do solo. Esta fun çã o ú til é, naturalmente, perdida, nos lugares em
que subst â ncias qu ímicas, matadoras de tais ervas, são utilizadas .
Aquêles que encontram resposta para todos os problemas das
pulverizações també m deixam passar despercebido um ponto de
grande import â ncia cient ífica; o da necessidade de se preserva -
rem algumas comunidades naturais de plantas. Nós precisamos dc
tais comunidades naturais k guisa de padr ões , para que, em rela-
çã o a elas, possamos medir as mudan ças que a nossa própria ati-
.
vidade ocasiona Precisamos delas k maneira d ç habitat para a
vida silvestre ; para habitat em que as popula ções originais de in -


setos e de outros organismos possam ser sustentadas , porquanto
como ser á explicado no Capí tulo 16 — o desenvolvimento da
resist ê ncia aos inseticidas est á modificando os fatores gen é ticos dos
insetos, e talvez també m de outros organismos. Um cientista che-
gou mesmo a sugerir que uma espécie de “ zoo ' deveria ser insti-
1

tu ída para preservar insetos , á caros e sêres semelhantes, antes que


:\ sua composi çã o gen é tica seja modificada mais do que já possa
ter sido.
Alguns fjeritos advertem contra modifica ções vegetacionais su -
fis, porém de grande alcance, como consequê ncia do uso cada
89
vez mais amplo e roais intenso dos ervicidas. A substâ ncia 2,4- D ,
pelo processo de matar as plantas de f ôlhas largas, permite que
as gramas medrem na competição reduzida; acontece, entretanto,
que algumas de tais gramas se transformaram , por sua vez , em
"ervas daninhas", apresentando um novo
problema do controle ,
.
e dando outro cariz ao ciclo Esta estranha situação é reconhecida
em recente ediçã o de uma revista dedicada aos problemas das
plantações de vegetais alimentares: "Com u uso cada vez ma 15
difundido do 2,4-D, para o controle das ervas de f ôlhas largas,
as ervas de grama , em particular , vão tornando-se , cada vez inais,
uma ameaça para as planta ções de trigo c de soja” .
A tasneira, o veneno dos sofredores da chamada febrede-feno,
proporciona exemplo interessante da maneira pela qual os esfor-
ços para o controle da Natureza por vèzes se voltam contra o
feiticeiro. Muitos milhares de galões de substâncias qu ímicas fo-
ram despejados ao longo das beiras de estiada , em nome do con-
trole contra a tasneira, Mas a verdade desafortunada é a de que

tidade
— e não em menor quantidade

a pulverização indiscriminada está desembocando em maior quan -
de tasneira. A tasneira
é vegetal anual ; suas sementes requerem solo aberto, para se im-
plantarem todos os anos. A nossa melhor proteçã o, contra esta
planta , est á, portanto, na manuten ção de matas densas, de samam -
.
baias e de outras plantas perenes As pulveriza ções frequentes
destroem esta vegetação protetora , e d ã o origem a á reas descam -
-
padas, que a tasneira se apressa a ocupar. É provável, ademais,
que o conte ú do de pólen , da atmosfera , n ã o tenha rela çã o com
a tasneira de beira de estrada , e sim com a tasneira de terrenos
citadinos e dos campos de alqueíve,
O desenvolvimento das vendas das substâ ncias qu ímicas destrui -
doras do capim sanguin á rio ( também denominado capim das-hor-
tas e capim - pé-de-galinha ) constitui outro exemplo de como os
m é todos inadequados logo se difundem e se radicam. Existe uma
forma bem mais barata, e melhor, de se remover o capim san -
guin á rio, do que a de tentar, ano após ano, matá-lo por meios
qu í micos, O mé todo mais barato consiste em pô-lo em competi-
çã o com uma espécie vegetal, a que n ão consegue sobreviver ; a
competição com outras gramineas, O capim sanguiná rio só existe
em relvados insalubres. Êsse capim é mais um sintoma do que
.
uma enfermidade pròpriamente dita Desde que se proporcione
solo fértil, e que se dê, às gram íneas desejadas, um bom comêço,
é poss ível criar um meio ambiente em que o capim sanguin á rio
n ã o pode prosperar; e isto porque esta espécie de capim requer
espaços abertos, nos quais pode repontar, da semente, ano após
ano.
90
Ao invés de tratar a condi çã o básica, as populações suburbanas
— aconselhadas por hortelões os quais, por sua vez, foram acon
selhados por fabricantes de substancias qu í micas — continuam a
-
aplicar quantidades realmente estouteadoras de substâncias des-
truidoras de capim sanguin á rio, todos os anos, em seus jardins e
relvados. Postos no merca do sob nomes comerciais que n ã o d ã o
ideia da sua natureza , muitas destes preparados contem venenos
tais como o merc ú rio, o arsé nico e a clordana , A sua aplica çã o ,,
de acordo com o ritmo recomendado, deixa tremendas quanti-
dades destas subst â ncias qu í micas nos gramados. Os usuá rios de
um destes produtos, por exemplo, aplicam 30 quilos de clordana
t écnica por acre ( 4.010,84 metros quadrados), se obedecem às ins -
tru ções. LSC cies usam outro dos muitos produtos dispon í veis,
passam a aplicar uns 80 quilos de arsé nico met á lico por acre, A
taxa de mortandade de pássaros, como veremos no Capí tulo 8, é
desconcertante. Até que ponto podem êsses gramados ser letais
para os seres humanos, isto é coisa desconhecida,
O sucesso da pulveriza çã o seletiva ., contra vegeta çã o de beira
de estrada , e também de caminhos de direito de passagem , em
que ela tenha sido praticada, proporciona a esperança de que mé-
todos ecológicos igual mente acertados venham a ser desenvolvi
dos para o combate a outros tipos de vegetação, para fazendas,
-
para florestas e para pradarias; serão m é todos destinados n ão a
destruir urna espécie vegetal em particular , e sim a implantar
uma espécie de administra çã o vegetal, considerado o vegetal co-
mo sendo uma comunidade viva .
Outras realiza ções consolidadas mostram o que pode ser Feito.
O contrô le biológico conseguiu alguns do® seus sucessos rna ís es -
petaculares* no capitulo do dom ínio sobre a vegeta çã o n ã o dese -
jada. A própria Natureza tem enfrentado muitos dos problemas
que agora nos atormentam; e ela , em geral , os resolveu à sua ma -
neira sempre coroada de êxito. Nos setores em que o homem se
mostrou bastante inteligente, observando e copiando os expediem
tes da Natureza * també m ele tem sido recompensado com o su -
cesso.
Exemplo preeminente* no terreno do controle das plantas n ão
desejadas é o trato que se deu ao problema do hiperico, na Ca -
lif órnia . Embora
,
o hiperico, , seja nativo da Europa (onde é de-
nominado erva -de-são- joão ) ela acompanhou o Homem nas
Í :
í

migrações para o Ocidente; apareceu , primeiro, nos Estados Uni


dos, cm 1795, perto de Lancaster, na Pennsylvania . Lá pelo ano
.
-
de 1900, ela já havia chegado à Calif órnia , nas vizinhan ças do
liio Klumatli; da í é que decorre a denomina çã o que na Calif ór-
nia se d á a essa planta : "erva de Klamath". Lá pelo ano de 1929,

yi
essa planta já estava ocupando 100,000 acres ( uns 404 ,690 quiló-
metros quadrados) de terras de plan ície; e, j á no ano de 1952,
tinha invadido urna á rea total de uns dois milh ões e meio de
acres (uns 10.122 quilómetros quadrados).
A erva de Klamath,,ou hiperico, de modo inteiramente diverso
de plantas tais como a artemísia, n ã o tem lugar na ecologia da
regiã o; e nenhum animal , nem nenhuma planta, lhe requer a
presen ça. Ao contr á rio: seja onde f ôr que ele apareça , os animais
dom ésticos se tornam sarnentos,, enfermos da boca e mirrados,
por sc alimentarem da referida erva, que é tóxica . Por toda. parte
onde o hiperico apareceu , o valor das terras se reduziu ; e isto
porque o hiperico foi considerado como constituindo a primeira
hipoteca dessas mesmas terras.
Na Europa , o hiperico, ou erva de-sã o- joã o, nunca chegou a re-
presentar um problema porque , juntam ente com essa planta , o
clima desenvolveu , em combinar ã o com a Natureza, v á rias espé-
cies de insetos; os insetos alimentam-se da erva , devorando-a em
tamanhas quantidades, que a sua abundâ ncia passa a ser forte-
mente reduzida. De modo particular , duas espécies de escaravelho ,
da Fran ça do Sul , ambos do tamanho de uma ervilha , e metá licos
quanto ao colorido, adaptaram por tal Forma a sua maneira de
ser á presença da mencionada planta, que se alimentam e se re
produzem sòmente na sua presen ça, consumindo-a.
-
Constituiu acontecimento de importâ ncia histórica o fato de a
primeira remessa , por via mar í tima , de tais escaravelhos, chegar
aos Estados Unidos, em 1944; isto representou a primeira tenta
tiva , na América do Norte, IIO sentido de controlar a referida
-
,

planta por meio de um inseto comedor dessa planta. Lá pelo ano


de 1948, as duas espécies de escaravelhos se haviam estabelecido
t ã o hem nos Estados Unidos, que nenhuma outra remessa se f êz
necessá ria, A difusão dos escaravelhos se processou coletando-se os
animaiziniios, do seio das col ónias originais, e redistribuindo-os
na proporção de alguns milhões por ano. No â mbito de á reas
pequenas, os escaravelhos efetuam a sua própria difusão; eles vão
para a frente assim que morrem os hipericos no lugar em que se
encontram ; e localizam novas planta ções dessa erva com grande
precisã o. Ademais, na medida em que os escaravelhos vã o des-
truindo a mencionada erva ., outras plantas, bastante desejá veis,
de plan ície ou de montanha , que porventura hajam sido deslo
eadas peia erva daninha, voltam a medrar.
-
Uma supervisã o de dez anos , completada em 1959, mostrou que
o controle do hiperico tinha sido “ mais eficiente do que o espe-
rado até mesmo pelos ma is entusiastas” ; a erva reduziu -se â mera
proporçã o de um por cento, relativa mente à sua antiga afound ã n *

92
da. Esta infesta ção simbólica é inofensiva e, na verdade, indis-
pensá vel, a fim de manter a popula ção de escara velhos, popula -
ção esta que é a garantia contra futuros aumentos daquela planta.


Outro exemplo de controle de erva daninha — controle bem
sucedido e muito econ ómico pode ser encontrado na Austrá lia.
Devido ao gosto dos colonizadores, no sentido de levar plantas ou
animais pala as novas áreas a que se dirigem , o Capitão Arthur
Phillip levou para a Austrá lia, lá pelo ano de 1787, v á rias espé -
cies de cactos; a intenção do capit ão era a de utilizar -se de tais
plantas para a cultura de insetos do tipo da cochonilha , para pro-
du çã o de pigmento vermelho. Alguns dos cactos, do gê nero opú n-
cia , sa íram dos seus jardins ; e, lá pelo ano de 1925, cerca de vinte
espécies poderiam ser encontradas, em estado selvagem. N ão en-
contrando contròle natural nenhum, no nóvo território, os cactos
referidos se difundiram prodigiosamente; em determinado tempo,
chegaram a ocupar cerca de 60 milhões de acres ( uns 242.810 qui -
lómetros quadrados). Pelo menos metade dessa terra ficou tã o
densa mente coberta de cactos, que deixou de ser utilizá vel .
Em 1920 , v á rios entomologistas australianos foram enviados à
América do Norte e à do Sul, a fim de proceder a estudos rela -
tivos aos insetos naturalmente inimigos do cacto opú ncia , no seu
habitat original . Depois de experiê ncias com vá rias espécies, três
bilhões de ovos de uma mariposa argentina foram dispersos pela
Austr á lia , em 1930. Sete anos após, o ú ltimo punhado denso de
op ú ncia foi destru í do; e as á reas, que se haviam tornado íHabi-
táveis , foram reabertas aos agricultores e à forma ção de pastagens.
A opera çã o toda custou menos de um pêni por acre ( 4.016,84
metros quadrados) de terra. Em contraposição, as tentativas insa -
tisfatórias, de contròle, por meio de substâ ncias qu ímicas, levadas
a té rmo em anos anteriores, tinham custado cerca de dez libras
esterlinas por acre.
Ambos estes exemplos sugerem que o contròle radicalmente efi-
caz , de muitas espécies de vegeta ção n ã o desejada , pode ser conse-
-
guido prestando se ma is aten çã o ao papel desempenhado pelos
insetos devoradores de plantas. A ciência da administra ção das
terras de matas tem ignorado, em grande parte, esta possihilidade,
muito embora êstes insetos sejam , talvez, os mais seletivos de to-
dos os animais que pascem ; e as suas dietas altamente restritas,
ou especializadas, podem ser facilmente transformadas em vanta-
gem para o Homem.

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7. Devas t ação Des n ecessá ria
NA MEDIDA em que o Homem avan ça , no seu anunciado obje
-
tivo de conquistar a Natureza , ê le vem escrevendo uma sequência
deprimente de destruições; as destruições nã o sã o dirigidas apenas
contra a Terra que êle habita mas também contra a vida que
*
compartilha o Globo com êle, A hist ória dos séculos maís recen
tes tem suas páginas negras: o massacre do b ú falo nas planícies
-
ocidentais dos Estados Unidos; o massacre das aves caradríiformes
( tais como as saracuras, os ma çaricos , os ira ngos-d ' á gua), pelos
caçadores que mercadeavam a ca ça ; o quasc-exterminio das gar ças
reais, por causa da sua plumagem. Agora, a estas devasta ções, e
a outras semelhantes a elas, nós estamos acrescentando novo ca
pitulo e nova espécie de devastaçã o: a matan ça direta dos pássa
-
*

ros, dos mam íferos, dos peixes, e, com eleito, prà ticamente, de
tôda forma de vida silvestre, por meio de inseticidas qu í micos
pulverizados mdiscrimiiiadamente só bie o solo.
De conformidade com a filosofia que agora parece que guia os
nossos destinos, nada deve interferir na trajetória seguida pelo
Homem, quando ê le se acha armado da mangueira de pulveriza
ção ou de borrifo. As v í timas incidentais desta cruzada contra os
-
insetos n ã o sã o levadas em linha de conta. Se os paposroxos, os
faisões, os m ã os- peladas, os felinos, e mesmo os animais domésti
cos habitam, por via de coincidência, o mesmo trecho de chão
-
ocupado pelos insetos visados, e destinado a ser atingido pela

r
>
/
í
• V.
m
chuva dos venenos matadores de insetos, ningu é m se anima a pro-
-.
testai
O cidadão que desejar fazer julgamento imparcial do problema
das peidas, no setor da vida silvestre, se defronta, hoje, com um
dilema. De um lado, os conservacionistas e muitos biólogos da
vida silvestre afirmam que tais perdas tê m sido severas, e, em al-
guns casos, até mesmo catastróficas. De outro lado, os departa-
mentos de controle inclinam-se a negar, simples e categorica-
mente* que tais perdas hajam ocorrido, ou que se revistam de
alguma importância, se ocorreram. Qual das duas afirmativas de -
vemos nós aceitar?
A credibilidade do testemunho é de capital importâ ncia. O bió-
logo prolissional da vida silvestre, que trabalha no campo, está,
sem d ú vida, ruais beiu qualificado para verificar e interpretar as
perdas registradas no setor da vida silvestre. O entomologista,
cuja especialidade são os insetos, não está ião bem qualii i çado
pelo seu treinamento, e não se mostra psicologicamente disposto
a oiliar para os indesejáveis eleitos laterais do seu programa de
controle. Contudo, os entomoJogistas sã o os homens encarregados
do controle, seja da parte do governo estadual, seja da parte do
— -

governo federal e, juntamente com cies, iiaturalmcnte, os fabri
cantes de substâ ncias qu ímicas que continua mente negam os
latas relatados pelos biólogos, e que declaram que vêern pouca
evid ê ncia de preju ízos para a vida silvestre. Como o sacerdote e
o levita, na narrativa b í blica, éles preferem passar para o outro
lado, e não ver coisa alguma. Ainda que n ós, caridosa mente, ex -
pliquemos os desmentidos deles, como sendo atos devidos à mio-
pia do especialista e do homem com inter êsse imediato na coisa,
isto nã o significa que devamos aceitá -los como testemunhas qua-
lificadas.
O melhor modo de formarmos o nosso próprio julgamento é o
de dar urna olhada a alguns dos principais programas de controle,
e ficar sabendo, por informação dos observadores familiarizados
com as peculiaridades da vida silvestre, mas imparciais quanto ao
critério de aprecia çã o dos ervicidas qu í micos, exa íamente aquilo
que aconteceu em consequê ncia de uma chuva de veneno a cair,
dos cé us, para dentro do mundo da vida silvestre.

Para o observador de pássaros
——
para o morador suburbano
que aufere prazer da visão dos pássaros em seu jardim para o
ca çador, o pescador ou o explorador de regi ões selvagens tudo
m
o que destr ói a vida silvestre de uma á rea, ainda que o taça por
um ú nico an ú T o priva de um prazer ao qual cie tem legitimo di “
rei to. Êste é um vá Jido ponto de vista. Mesmo que* como por
vezes tem acontecido, alguns dos pássaros, dos mamíferos e dos
peixes sejam capazes de se retsiabeleccr no mesmo lugar, depois
de uma ú nica pulveriza çã o* um grande e verdadeiro mal já está
feito.
Entretanto, semelhante leestabelccimento não tem probabili
dade alguma de acontecer. As pulveriza ções tendem a repetir se;
-
-
e uina ú nica exposiçã o aos eleitos das substâ ncias qu í micas, de
que os integrantes da vida silvestre possam ter oportunidade de
recuperai -se, constitui raridade. O que usualmente resulta é um
meio ambiente envenenado, uma armadilha mortífera * em que
não somente as popula ções animais residentes sucumbem , mas
també m as que para a li se dirigem* na qualidade de migradoras,
deixa in de sobreviver. Quanto mais ampla ú a á rea pulverizada,
tanto mais serio é o preju ízo, porque nenhum oásis de seguran ça ,

remanesce. Agora, num decé nio assinalado por programas de con


trole de insetos, em que muitos milhares, e mesmo milh ões de
-


acres sã o pulverizados, e levadas em linha de conta como unidade


um decé nio em que a pulveriza ção particular c p ú blica tam
bé m aumentou de n úmero e de amplitude um registro de des
truição e de morte da vida silvestre norte-americana loi reunido.
-
-
Lancemos um olhar a alguns dos reler idos programas, e vejamos
o que íoi que aconteceu .
Durante o outono de 1959, uns 27, 000 acres , ( uns 109,300 qui-
lómetros quadrados), no setor sudeste de Michigan, inclusive nu
merosos subú rbios de Detroit, luram iiiteusamenté pulverizados*
-
de aviã o, com pastilhas de aldrina , que é um dos mais perigosos
cie todos os hidrocarbonetos clorados. O programa íoi levado a
cabo pelo Departamento de Agricultura de Michigan, com a
coopera çã o do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos*
A finalidade anunciada foi a de controlar o escaravelho japon ês.
Pouca necessidade se demonstrou de uma ação t ão dr ástica e
perigosa. Ao contr á rio: Walter P, Nickell, um dos naturalistas
mais conhecidos e mais beni informados do Estado referido, que
passa a maior parte do seu tempo estudando nos campos, com
permanê ncia de longos per íodos na á rea Sul de Michigan todos
os ver ões, declarou: "Durante mais de trinta anos* que seja de
meu conhecimento direto, o escaravelho japonês tem esLado pre-

97
7 Pfi- mdVÃTõ Silenciosa
sente, na cidade de Detroit, em pequenas quantidades. As quan -
tidades n ão acusaram nenhum aumento apreciável » em todo êste
transcurso de anos. Ainda estou para ver um único escaravelho
japonês (em 1959)» afora os poucos apanhados nas armadilhas go-
vernamentais, em Detroit.., Tudo tem sido mantido em tamanho
segredo, que ainda n ão fui capaz de obter informa ção alguma
quanto ao fato de tais escaravelhos haverem ou nã o haverem au -
mentado de n ú mero” .
Um comunicado oficial » elaborado por uma reparti çã o estadual ,
declara meramente que o escaravelho havia "feito sentir o seu apa-
recimento ” , nas á reas designadas para o ataque a é reo contra ele.
A despeito da falta de justificação, o programa foi lançado; o
Estado proporcionou a mao- de-obra e supervisionou a opera ção;
o governo federal forneceu o equipamento, bem como os homens
adicionais; quem pagou os inseticidas foi a comunidade.
O escaravelho japonês* inseto que , diga-se de passagem* foi le-
vado para dentro dos Estados Unidos, foi descoberto em New
Jersey, em 1916; nesse ano é que uns poucos escaravelhos, de co-
lorido verde metá lico, foram vistos num viveiro de plantas, perto
de Ri ver tom Os escaravelhos* no começo n ã o reconhecidos, foram
finalmente identificados como sendo habitantes comuns das prin-
cipais ilhas do Japão. Ao que parece , os mencionados insetos en -
traram nos Estados Unidos juntamente com remessas de plantas
de viveiros, importados antes do estabelecimento de restrições
estabelecimento êste que ocorreu em 1912.

Do ponto original de penetraçã o, o escaravelho japon ês difun -
diu -se , de modo bastante acentuado, pelo território de muitos dos
Estados a leste do Mississipi, onde as condições de temperatura e
de queda de chuvas são favorá veis à sua exist ê ncia. Iodos os
anos, algum movimento para tora, para além dos limites existen
,
-
tes de sua distribui ção, usualmeute se registra . Nas á reas orientais
onde os referidos escaravelhos se encontram estabelecid os h á mais
tempo, fizeram -se tentativas no sentido de se implantar um con -
trôle natural. Onde isto foi feito, as quantidades do citado esca -
ravelho foram mantidas em n íveis relativamente baixos
o atestam muitos e muitos registros .
— eomo

A despeito do registro de controle razoá vel nas á reas ocidentais,


os Estados do Meio- Oeste, agora situados na orla do alcance do
escaravelho, lan çaram um ataque digno do mais mortal inimigo,
e n ão apenas de um inseto moderada mente destruidor ; nesse ata -

-
que, empregaram se as subst â ncias qu í micas ma is perigosas; e es-
tas substâ ncias foram distribu ídas por uma forma que expõe gran -
de quantidade de gente, bem como os seus animais domésticos,
e toda a vida silvestre da regiã o, aos efeitos de um veneno que
se teve a inten çã o de destinar ao escaravelho. Em consequê ncia,
os programas de destruição do escaravelho japon ês ocasionaram
impressionantes destruições de vida aniuiai, expondo, ademais, os
seres humanos, a riscos inegá veis. Vários setores de Michigan*

tidos a uma chuva de substâ ncias qu í micas



Kentucky, Iowa, Indiana , Illinois, e Missourí, estão sendo subme-
em nome do con -
trole do aludido escaravelho. A pulveriza çã o efetuada em Michb
gan foi um dos primeiros ataques em grande escala , contra o es-
caravelho japonês. A escolha da aldrina * uma das niais mort íferas
substâ ncias qu í micas, nã o foi determinada por nenhuma adequa -
b í lidade peculiar ao controle do referido inseto; foi-o pelo desejo
de se poupar dinheiro: a aldrina era o ruais barato dos compostos
no momento dispon í veis. Ao passo que o Estado, no seu comuni-
cado oficial à imprensa, reconhece que a aldrina é "veneno” , esse
mesmo comunicado tornou impl ícito que nenhum mal poderia
ser ocasionado a sêres humanos, nas á reas densamente povoadas
às quais aquela subst â ncia qu í mica foi aplicada. (A resposta ofi-
cial â interrogativa "Quais as precau ções que deverei tomar ? ” foi
.
esta ; " Para você, nenhuma ” )
Um funcion á rio do Escritório Federal da Avia çã o foi citado,
ma is tarde , pela imprensa local , para esclarecer que ” esta é uma
opera ção segura , sem |>erigo algum ” ; e um representante do De-
partamento de Parques e Diversões, de Detroit , acrescentou a sua
garantia de que "a poeira é inofensiva para seres humanos, e n ão
far ã mal algum, nem âs plantas, nem aos pequenos animais do -
m ésticos/ ' Deve-se presumir que nenhum destes funcion á rios ti-
nha consultado os relatórios publicados, e facilmente encontr á-
veis , elaborados pelo Serviço de Sa ú de P ú blica dos Estados Uni -
dos, bem como pelo Serviço de Peixes e Vida Silvestre; nem ti -
nha tomado conhecimento de ouLras evid ê ncias da natureza ex -
Lremamente venenosa da aldrina .
Agindo de acordo com a lei do controle de pragas, de Michi-
gan — lei esta que permite que o Estado pulverize indiscrimina
da mente, sem notificar, nem obter permissão dos proprietários in -
-
dividuais de terras — os aviões de vôo raso começaram a voar
sobre a á rea de Detroit As autoridades citadinas e o Escritório
99
Federal de Aviaçã o foram imediatamente procurados por cidad ãos
transtornados. Depois de receber cerca de 800 visitas e chamados
numa única hora, a policia pediu * às esta ções emissoras de r á dio
e de televisã o, bem como aos jornais, para que "'contassem, aos
observadores das pulverizações, o que á que eles estavam vendo,


e que os informassem de que aquilo nã o oferecia perigo algum ' '
conforme estampou o jornal “ News" ', de Deiroit. O funcionário
encarregado da segurança, do Escrit ório Federal de Avia ção, as-
segurou, ao p ú blico, que "os aviões estã o sendo cuidadosamente
.
supervisionados", e que '‘estão autorizados a voar baixo" Numa
tentativa bastante equ í voca de desfazer os mèdos, è le acrescentou
que os referidos aviões possu íam válvulas de emergê ncia, que lhes
permitiria desprender e lan çar fora a Larga inteira, instantanea -
mente. Isto, felizmente, n ão foi feito; mas, enquanto os aviões
andaram voando e efetuando a sua tarefa , os grânulos de inseti-
cida foram caindo tanto sobre os escaravelhos como sobre os se-
res humanosj. aquilo foi uina série de thuviscos de veneno ‘'ino-
fensivo ' a atingir pessoas que faziam suas compras, ou iam para
1

o trabalho, atingindo igualmente crianças que se achavam fora


dos edif ícios da escola, por ser hora de lanche e de recreio. As
donas de casa varreram os gr â nulos para longe das soleiras de
suas portas e da parte das cal çadas do passeio, em frente de suas
casas, onde se diz que tais grâ nulos " tinham o aspecto de neve " .
Como foi observado ruais tarde, pela Sociedade Audubon , de De-
troit: " Nos espa ços entre as telhas, nos beirais e nas calhas, nas
fendas existentes em cascas e em ramos, os pequenos gr â nulos
brancos de aldrí na-e-greda, não maiores do que a cabeça de um
alfinete, foram acumuladas aos milh ões, Quando vieram as chu -
»

vas e a neve, cada pocmha de á gua suja se transformou em possí -


vel poçã o mort í fera / '
Dentro de poucos dias, a contar da opera çã o de pulveriza çã o, a
Sociedade Audubon, de Detroit, começou a receber visitas e cha-
mados, com informa ções sobre os pássaros. De conformidade com
a declara çã o da secretaria da Sociedade, Sra. Ann Boyes, "A pri-
meira indica çã o de que o p ú blico estava preocupado com a pul-
veriza çã o íoi um chamado, que recebi certa manhã, num do-
mingo, da parte de uma mulher que relatou que, ao chegar à
sua casa, procedendo da igreja, viu uma quantidade alarmante
de pássaros monos, ou morrendo. A pulveriza ção, ali, fora feita
na quinta-feira anterior. Ela disse que não havia pássaro algum ,
im
voando, naquela á rea ; que havia encontrado pelo menos doze
(mortos)* em seu quintal ; e que os vizinhos tinham encontrado
esquilos mortos". Todos os outros chamados informativos, recebi-
dos pela Sra. Boyes, naquele dia * afirmaram que havia "grande
quantidade de pássaros mortos, na o havendo, entretanto, nenhum
pássaro vivo.,. As pessoas que mantinham lugares especiais para
alimentação de pássaros disseram que n ã o havia mais pássaro al-
gum nesses postos de nutrição". Os pá ssaros, apanhados em con -
dições moribundas* acusavam os sintomas t í picos de envenena
mento por inseticida : tremores, perda da capacidade de voar, pa -
-
ralisia e convulsões.
N ã o eram * de resto* sòmente os pássaros a forma de vida ime-
diatamente afetada por aquelas pulveriza ções. Um veterin á rio lo-
cal comunicou que o seu estabelecimento de consulta estava cheio
de clientes com cachorros e gatos que tinham ca ído doentes de
um momento para outro. Os gatos , que t ão meticulosa mente ar -
rumam os seus pêlos e lambem suas patas, pareciam ser os mais
gravemente atingidos, A doen ça , nêles, tomou a forma de diarréia
severa , de vómitos e de convulsões, O único conselho* que o ve-
terin á rio pôde dar , aos seus clientes, neste episódio* foi o de n ã o
permitir que os seus animais dom ésticos sa íssem desnecessá ria -
mente de casa ; no caso de êles sa í rem * era imperioso lavar-lhes
imediatamente as palas, {Todavia, o hidrocarboneto clorado n ã o
pode ser lavado nem sequer dos frutos* e menos ainda dos vege-
tais; desta maneira , pouca proteção poderia ser esperada através
desta medida de cautela ).
A despeito da insistê ncia do Comissá rio da Sa ú de da Cidade
e da Zona Rural * que afirmava que os pássaros deveriam ter sido
mortos por "alguma outra espécie de pulverizaçã o"., e que o surto
de irrita ções da garganta e do peito, que se seguiu à exposiçã o à
aldr í na , devç r ía ser devido a ^ ' alguma outra coisa ' ", o Departa -
mento da Sa ú de, local* recebeu uma torrente cont í nua , ininter -
rupta , de queixas. Um m édico interno de hospital, de reconhecida
preemin ê ncia, foi chamado para tratar quatro dos seus pacientes*
no espa ço de uma hora depois de ê les se exporem aos efeitos da
pulveriza çã o, enquanto contemplavam os aviões que descreviam
trajetórias no espa ço. Todos acusavam sintomas semelhantes: n á u
sea, vómitos , calafrios, febre, fadiga extrema * e tosse.
-
A experiê ncia de Detroit foi repetida em muitas outras comu -
nidades., na medida eio que Foi crescendo a necessidade de se dar

101
combate ao escaravelho japon ês com subst â ncias qu í micas. Em
-
Blue Island , no Illinois * encontraram se centenas de pássaros mor
tos e a morrer . Os dados coligidos por marcadores de pássaros*
-
com emprêgo de bandas de metal, naquela localidade, sugeriram
que 80 por cento dos pássaros canoros foram sacrificados. Em
foliei * no Illinois., cerca de 3.000 acres (12*140 quilómetros qua
drados) foram tratados com hep íadoro, em 1939. De conformi -
-
dade com os comunicados de um clube local de esportistas, a
popula çã o de pássaros, no â mbito da á rea tratada * foi ' Virtual
mente varrida dali ” .. També m se encontraram boas quantidades
-
de coelhos* de ratos alm iscarados, de gambá s e de peixes ; e uma
das escolas locais f êz , da coleta de pá ssaros envenenados por inse-
ticidas, um projeto cient ífico.

Talvez que nenhuma outra comunidade haja sofrido ma is, por


causa dos escaravelhos e em nome de um mundo destitu ído dêles ,
do que Shelton , no Illinois oriental * bem como nas á reas adja -
centes do Condado de Iroquois. Em 1954* o Departamento de
Agricultura dos listados Unidos iniciou um programa de erradi -
ca ção do escaravelho japon ês, ao longo da linha de avan ço d êsse
inseto para o interior do Illinois; aquele departamento sustentava
a esperan ça e, na verdade , a garantia , de que a pulveriza ção in -
tensiva acabaria destruindo enormes quantidades do inseto in-
vasor. A primeira "erradica çã o" se efetuou nesse ano, quando a
dieldrina foi aplicada a 1.400 acres ( pouco mais de 9 quilóme -
tros quadrados), por via aé rea. Outros 2.600 acres (10*521 quiló-
metros quadrados) foram tratados de modo semelhante, em 3955;
e a tarefa , com t õda probabilidade , se afigurou completa. Entre-
tanto* mais e mais tratamentos por meio de substâ ncias qu í micas
se fizeram necessários; e, ao fim do ano de 1961* cê rea de 13 LOGO
acres (530,136 quilómetros quadrados) tinham sido pulverizados.
J á mesmo nos primeiros anos do programa , tornou-se aparente
que estavam ocorrendo per d as pesadas, seja no dom í nio da vida
silvestre* seja no setor dos animais domésticos. N ã o obstante, os
tratamentos qu ímicos foram continuados, sem consulta ao Serviço
de Feixes e de Vida Silvestre* rios Estados Unidos * nem à Divisã o
de Administra çã o da Ca ça , de Illinois. (Na primavera de 1960,
contudo* funcion á rios do Departamento Federal de Agricultura
compareceram perante uma comissã o congressional, fazendo opo
siçã o a urna propositura que passaria a requerer precisainente essa
-
m
consulta prévia. Declararam aqueles funcion á rios * candidamente,
que a lei era desnecessá ria , porque a coopera çã o e a consulta
.
eram ' usuais ” Os mencionados funcion á rios se mostraram de

todo incapazes de recordar situa ções em que a coopera çã o nã o


houvesse ocorrido “ no n ível de Washington ” . Nas mesmas audiên-
cias, êles afirmaram, claramente , a sua total ausê ncia de disposi -
ção para consultar os departamentos estaduais encarregados da
vida silvestre e da ca ça ).
Embora os fundos para o controle qu í mico tenham sido pro -
porcionados, em torrentes intermin á veis, os biólogos da Supervi -
sã o de Hist ória Natural de Illinois, que tentaram calcular os da -
nos ocasionados à vida silvestre , tiveram de atuar com recursos
.
financeiros muito restritos A mera quantia de 1.100 d ólares foi
posta à disposiçã o, para o emprego de um assistente de campo,
em 1954 ; e nenhum fundo especial foi proporcionado em 1955.
A despeito destas dificuldades paralizadoras, os biólogos consegui -
ram reunir fatos que, coletiva mente, compõem o quadro de uma
destruiçã o quase sem paralelo de vida silvestre — destruiçã o essa
que se tornara ó bvia assim que o programa começou a ser posto
cm execu ção.
Estabeleceram -se condi ções de encomenda para o envenena -
mento de pá ssaros comedores de insetos, seja quanto aos venenos
usados , seja quanto aos acontecimentos postos em marcha pela
sua aplica çã o. Nos primeiros programas de Sheldon, a d ícldrina
foi aplicada na proporçã o de quilo e meio por acre (4.046,84
.
metros quadrados) Para se compreenderem os efeitos s ôbre os
pá ssaros, basta recordar que, cni experi ê ncias de laborat ório coin
codorn í zes, a dieldrina deu provas de ser cerca de 59 veies mais
venenosa do que o DDT, O veneno que se espalhou pela paisa-
gem de Sheldon, portanto, foi mais ou menos equivalente a 75
quilos de DDT por acre! E isto teria sido o m í nimo, porque
parece que houve algumas superposições ao longo das linhas
lim í trofes dos campos, e també m nos campos.
,

Assim que a substâ ncia qu í mica penetrou no solo, as larvas


dos escaravelhos rastejaram para a superf ície do ch ã o, onde per -
maneceram durante algum tempo, antes de morrer , como algo
de atraente para os p ássaros comedores de insetos. Insetos mortos
e moribundos., de vá rias espécies, se apresentaram em grande
quantidade , durante cerca de duas semanas, a contar do trata-
mento. O efeito sô bre os pássaros poderia ser facilmente previsto.

SOI
Sabiás marrons, estorninhos, calhandras, chapins e faisões foram
virtualmente varridos da região. Os tordos foram “quase aniqui
lados", de conformidade com o relatado nos comunicados dos
1
-
biólogos. Minhocas mortas foram vistas em grandes quantidades*
depois de uma leve chuva; com toda probabilidade, os tordos
se haviam alimentado de minhocas envenenadas. Também para
outros pássaros,, a chuva, ou. trora bené fica, se havia modificado,
transformando- se, por forca do efeito venenoso da subst ância
química introduzida no seu mundo, em agente de destruiçã o.
Pássaros vistos a beber e a banhar se em poç as deixadas pela
chuva, poucos dias depois das pulverizações, ficaram inevit á vel -
mente condenados.
Os pá ssaros que sobreviveram talvez se tenham tornado est éreis.
Embora se hajam encontrado uns poucos ninhos, naquela área
pulverizada, alguns dos quais até com ovos, nenhum dêles con-
tinha filhotes.
Entre os mamí feros os esquilos terrestres foram virtualmente
*
aniquilados; seus corpos foram encontrados em atitudes caracte-
rfsticas da morte violenta por envenenamento. Ratos atmiscarados
Foram encontrados mortos nas mesmas áreas quimicamente tra-
tadas; coelhos mortos foram encontrados nos campos. O esquilo-
rapôsa tinha sido animal relativamente comum na cidade; depois
,

das pulveriza ções, êle desaparecem


Na área de Sheldon, rara foi a fazenda que pôde contar com
a bênção da presenç a de um gato,, depois de iniciada a guerra
.
química contra o escaravelho Noventa por cento de todos os
gatos de propriedades agrí colas foram vitimados pela dieldriua,
durante a primeira fase das pulverizações. Isto poderia ter sido
previsto, com base no registro de acontecimentos igualmente sinis-
tros provocados pelo mesmo veneno em outros lugares. Os gatos
são extremamente sensí veis a todos os inseticidas, e, de modo
bastante especial, ao que se afigura, à dieldrina.
Na zona ocidental de Java, no transcurso de um programa
antímalárico, põsto em execução pela Organização Mundial da
Saúde, muitos gatos, ao que se relata, morreram. No setor central
de Java, morreram tantos gatos, que o preço de um désses animais,
vivo, mai.s do que dobrou. De modo semelhante* a Organização
Mundial da Saúde informa que, depois das pulverizações da
referida subst ância química na Venezuela, os gatos foram redu -
zidos ao estado de animal raro.

KW
Em Sheldon* n ão foram apenas os animais selvagens, nem ape-
nas os companheiros domésticos dos sê res humanos, os sacrificados
na campanha contra êste ou aquele inseto. As observa ções feitas
quanto a v á rios rebanhos de carneiros e a uma manada de gado
de corte sã o indicadoras do envenenamento e da morte também
dos animais domesticados, A Supervisã o de Hist ória Natural in -
forma , em um dos seus relat órios, um de tais episódios, pela
seguinte maneira :

'‘Estes carneiros.,, foram impelidos para um pasto pequeno,


nao tratado por substâ ncias qu í micas todo coberto de capim
, -
dos-campos, procedendo do outro lado de uma estrada pavi -
mentada de pedregulho, de um campo que fora tratado com
pulveriza çã o de dieldrina TIO dia 6 de maio. Evidentemente,
alguns borrifos haviam sido desviados e levados pelo vento
para o outro lado da estrada , c, dai , para o mencionado pasto
de capim , porquanto os carneiros começaram a acusar quase
que imediaLamente sintomas de intoxicação... Os carneiros
perderam interesse pelo alimento, e manifestaram inquieta-
ção; depois, passaram a acompanhar a cê rca do pasto* dando
voltas e ma, is voltas* ao que parece à procura de uma sa ída
dali.,, Ttecusaram -se a ser tangidos; baliam quase que conti »

nuamente; e mantinham-se com a cabeça baixa; finalmente,


éles foram carregados para fora do pasto.,. Os carneiros mos-
traram intenso desejo de beber água . Dois dos carneiros foram
encontrados mortos no rio que passa pelo pasto; e os carneiros
restantes foram repetida mente tangidos para longe do rio;
muitos d êles tiveram de ser arrastados para longe da á gua.
Três daqueles animais morreram dias depois; os restantes
se recuperaram , a julgar por todos os detalhes da apar ê ncia
exterior, ”

Este , pois, era o quadro ao fim de 1955, Embora a guerra


qu í mica tenha prosseguido nos anos sucessivos, o veio dos fundos
para pesquisas secou completam ente. As solicitações de dinheiro*
para pesquisas relacionadas com os efeitos dos inseticidas sobre
a vida silvestre* que foram inclu ídas nos orçamentos anuais que
se apresentaram à legislatura de Illinois, por iniciativa da Super -
visã o de História Natural , figuraram í nvariàvelmente entre os
primeiros itens rejeitados: Foi sòmente em 1964) que o dinheiro
m
foi de algum modo encontrado para. o pagamento das despesas
com um assistente de campo — para fazer trabalho que poderia
facilmente ocupar o tempo de quatro homens.
O quadro desolador das perdas da vida silvestre se havia modi
ficado muito pouco quando os bi ólogos retomaram os estudos
-
interrompidos em 1955. Nesse entrementes, aquela subst â ncia
qu ímica tinha sido transformada em aldrina , ainda ma Is t óxica
de 100 a 300 vezes ma í s tóxica do que o DDT, nos testes feitos

com codorn í zes. Lá pelo ano de 1960, tôdas as espécies de animais
silvestres mam í feros, que se sabia que habitavam aquela á rea,
já tinham sofrido perdas. O caso foi ainda pior quanto aos pás-
saros. Na pequena cidade de Donovan , os papos-roxos tinham sido,

varritios dos aresp como també m varridos já haviam sido os estor-


ninhos, os chopins e os sabiás marrons. Estas e muitas outras
aves foram decididamente reduzidas em sua quantidade, em outras
Localidades. Os ca çadores de faisões sentiram os eleitos perniciosos
da campanha contra o escaravelho. A quantidade de ninhadas,
bem como de filhotes por ninhada, produzida nas á reas tratadas
,

com substâ ncias qu í micas, caiu em cerca de 50 por cento. A ca ça


ao faisã o, que tinha sido boa naquelas regiões, em anos anteriores,
foi virtuahcnente abandonada, por n ã o ser ma is compensadora.
A despeito da enorme devasta çã o que havia sido praticada
em nome da erradica çã o do escaravelho japonês, o tratamento
de mais de 100.000 acres (uns 404*700 quil ómetros quadrados)
no condado de Iroquois* ao longo de um per íodo de oito anos*
parece que resultou a penas na supressão temporá ria do inseto;
o escaravelho referido prossegue cm seu movimento rumo ao
ocidente dos Estados Unidos, O montante total do tributo, na
fornia de danos, que foi exigido por és te programa de a çã o, quase
que de todo ineficaz, talvez n ão ser á conhecido nunca; os resul
tados medidos pelos biologistas de Illinois não representam ma ís
-
do que os algarismos mínimos. Se o programa de pesquisa houves-
se sido adequada mente financiado, para permitir plena cobertura,
a destruiçã o que entã o se revelaria seria muito mais estarrecedora .
Entretanto, em oito anos de execu ção daquele programa , sòmente
cê rca de 6.900 d ólares foram proporcionados para estudos bioló
gicos. Nesse entrementes, o govê rno federal despendeu cê rca de
-
375.000 d ólares no esforço de contr òle; e, a essa quantia, v á rios
milhares de d ólares adicionais foram acrescentados pelo governo
estadual, O total, empregado em pesquisas, foi, portanto, apenas
m
uma pequena fra çã o dc um por cento de todo o orçamento para
a execução do programa de pulveriza çã o quimica .
Èstes programas m édio-ocidentais foram levados a termo em
espí rito de crise, como se o avanço do escaravelho representasse
perigo extremo, e justificasse qualquer meio de combate a ê le.
Isto* naturalmente, constitui simples distor çã o dos fatos ; e, se as
comunidades que tiveram de sofrer os banhos qu í micos estivessem
familiarizadas com a hist ória anterior do escaravelho japonês, nos
Estados Unidos, teriam sido, sem d ú vida , menos aquiescentcs.
Os Estados orientais da Uniã o Norte-Americana, que tiveram a
boa sorte de conter a sua invasã o do escaravelho, em tempos
anteriores à é poca em que os inseticidas sinté ticos foram inven-
tados, n ã o sòmente sobreviveram à invasã o , mas també m coloca -
ram o referido injeto sob controle ; e o fizeram utilizando se de
meios que n ã o representaram amea ça alguma às outras formas
de vida. Nada houve, ali, que se comparasse ã s pulveriza ções
ocorridas em Detroit, em Sheldon, e mesmo no Oriente. Os m é-
todos eficazes, ali aplicados, puseram em jogo forças naturais de
controle; o jôgo de tais forças oferece a vantagem de garantir
seguran ça k vida que palpita no seu ambiente; ep ademais, asse-
gura perman ê ncia de efeitos.
Durante os primeiros doze anos posteriores à sua entrada nos
Estados Unidos, o escaravelho aumentou ràpidamente, inteira -
mente livre das restrições que o mantinham sob controle em sua
terra de origem. Entretanto, l á pelo ano de 1945, êle já se havia
transformado em praga, embora de menor importâ ncia, pela
maior parte do território em que se havia espalhado. Seu decl í nio,
em grande parte, se deveu às consequências da importa çã o de
insetos parasitas, procedentes do Extremo Oriente, e à introdu -
çã o de organismos produtores de moléstia fatal para aquele
escaravelho.
Entre os anos de 1920 e 1935, como resultado de pesquisa
diligente por toda a á rea nativa do escaravelho, umas 34 espécies
de insetos parasitas, ou predadores, foram importadas do Oriente,
num esforço de se estabelecer contrôle por meios naturais. De
tais espécies, cinco se instalaram muito bem nos Estados do
Oriente dos Estados Unidos. A espécie mais eficaz e mais ampla-
mente distribu ída é uma vespa paras í tica, procedente da Coreia
.
e da China: Ttphia vernalis A tiphia f êmea , ao encontrar unia
larva de escaravelho no ch ã o, injeta -lhe um flu í do paralisante, e
107
apõe um ú nico òvo k superf ície inferior da larva. A vespa que

-
-
da í nasce, chocando-se como larva, alimenta se da larva paralisada,
destruindo a. Em cftrca de 25 anos, muitas col ónias de tiphia
foram introduzidas em catorze Estados orientais dos Estados Uni
dos, num programa de coopera çã o entre repartições p ú blicas es-
-
taduais e federais, A vespa estabeleceu -se muito bem, e difundiu -
se pela á rea referida ; e a ela atribuem geráhnente os entomoí o -
gistas o m é rito de haver desempenhado importante papel* no
sentido de se colocar o mencionado escaravelho sob contrÃIe,
Um papel ainda mais importante foi desempenhado por uma
doen ça bactérica que afeta os escaravelhos da fam ília a que
pertence o escaravelho japon ês: os escarabideos, A doen ça se
consubstancia num organismo altamente específico, que n ão ataca
outro tipo de insetos; é inofensivo eni rela çã o ãs minhocas, aos
animais de sangue quente e às plantas. Os esporos dessa doen ça
ocorrem no solo. Quando ingeridos pelo gusano do escaravelho,
os referidos esporos se multiplicam prodigiosa mente no seu san -
gue, e fazem com que este sangue assuma um colorido anormal-
mente branco: da í a denomina çã o popular de "doença leitosa'" ,
dada ao citado maL
A doença leitosa foi descoberta em New Jersey* era 1933, Lá
pelo ano de 1938, já estava prevalecendo ampla mente nas pri-
mitivas á reas de infesta çã o do escaravelho japonês. Em 1939 ,
lançou-se um programa de controle, com o propósito de acelerar
a difusã o da referida enfermidade. Nenhum m étodo se desenvol
veu no sentido de se produzir o organismo patol ógico em meio
-
artificial ; cofitudo, um substitutivo satisfatório se aperfei çoou: os
gusanos* ou larvas, infestados, são moídos, secados e combinados
com gêsso. Na mistura padrã o* uma grama dessa fina poeira
contém 100 milhões de esporos Entre 1939 e 1953* cerca de
*

94.000 acres ( uns 380,500 quil ómetros quadrados)* em 14 Estados


orientais da Uniã o norte-americana, foram tratados* num progra -
ma cooperativo estadual-federal * outras á reas* em terras federais,
també m foram tratadas ; e uma á rea extensa * embora de extensã o
n ã o discriminada , foi tratada por organiza ções particulares ou
individuais. Lá pelo ano de 1945* o esporo da doen ça leitosa
andava fazendo devasta ções entre os escaravelhos de Connecticut *
Nova York * New Jersey, Delaware e Maryland . Em algumas á reas
experimentais* a infecçã o das larvas chegou à enorme proporçã o
de 94 por cento. O programa de distribuiçã o foi suspenso, em
im
sua forma de empreendimento governamental em 1953; e a
produ ção foi assumida por um laboratório privado, que continua
a fornecer o mencionado esporo a indiv íduos» a clubes de jardim,
a associa ções de cidadãos e todos os que possam estar interessados
no contrâle do escaravelho .
As á reas orientais, em que êste programa foi posto eni execu çã o,
agora gozam de elevado grau de proteção natural contra o men-
-
cionado escaravelho, O organismo de combate mantém se viável
no solo durante muitos anos, e, portanto, se torna, para todos
os fins e propósitos, permanentemente instalado; assim, êle vai
aumentando a sua eficácia, e vai difundindo-se con ti nuamente por
via de recursos naturais.
Por qual motivo, ent ã o, com este impressionante passado no
Oriente, os mesmos processos nã o foram tentados em Illinois, nem
-
em outros Estados norte americanos do Meio Oeste, Estados estes
onde, agora, ao contrá rio, a batalha química contra os escarave-
lhos est á sendo levada avante com tamanha f ú ria?
Somos informados de que a inoculação de esporos da doen ça
leitosa á "muito dispendiosa ' ' — muito embora ningué m achasse
que ela f õsse cara, nos 14 Estados norte-americanos de leste, na
quadra de 1940 / 1950, E por via de que espécie de cômputo se
terá chegado ao julgamento de que ú “ muito dispendiosa’? Por
certo, nã o o foi por via de um cômputo que levasse cm linha de
conta os custos da destruiçã o total, resultante da execu çã o de
programas tais como esse da pulveriza çã o efetuada em Sheldon,
Aquele julgamento ignora, també m, pov outro lado, o fato de
que a inocula ção de esporos precisa ser feita somente uma vez;
o primeiro custo é a ú nica despesa.
Somos informados de que o esporo da doen ça leitosa nã o pode
ser utilizado na periferia das á reas infestadas pelos escaravelhos,
porque o mencionado esporo só pode fixar-se onde uma. grande
quantidade de larvas já se encontre presente no solo. Como mui -
tos outros comunicados a favor das pulveriza ções, també m êste,

precisa ser esmiu çado. A bacté ria que provoca a doen ça leitosa
infecciona, ao que se verificou , pelo menos 40 outras espécies
de escaravelhos, espécies estas que, conjuntamente, se distribuem
por uma á rea muito ampla ; com toda probabilidade, estas espécies
serviriam para implantar a doen ça até mesmo onde o escaravelho
japonês ou existe em pequena quantidade, ou mesmo n ã o existe
em quantidade nenhuma . Além disto, em consequ ê ncia da longa
ioy
viabilidade dos esporos, no solo, cies podem ser introduzidos até
mesmo na completa ausê ncia de larvas; podem ser introduzidos,
igual mente* na orla exterior da á rea atual de infesta çã o pelo
escaravelho citado, afim de aii ficar à espera do avan ço da difusão
do mencionado inseto.
Os que desejam resultados imediatos, custem o que custarem ,
continuarã o, sem d ú vida, a fazer uso de subst â ncias qu í micas
contra o referido escaravelho. Da mesma fornia se comportar ã o os
que favorecem a tendê ncia moderna de se praticarem atos que
se avelhentam no pró prio momento em que sã o levados a efeito.,
uma vez que o contr òle qu ímico se perpetua por si mesmo , por -
que precisa de repetições frequentes e muito caras.
De outra banda , os que se mostrara dispostos a esperar uma
ou duas esta ções anuais extras* para a consecução dos resultados
plenos, se voltarã o para o uso da doen ça leitosa ; êsses* não há
duvida, serã o recompensados pela efetiva ção do contròle dura -
douro, contròle este que se far á ma is, e n ã o menos, eficiente, com
o transcurso do tempo.
Um extenso programa de pesquisa se encontra em andamento*
no laboratório de Peor í a, Illinois* do Departamento de Agricul
tura dos Estados Unidos, Sua finalidade é a de encontrar um
-
recurso de se cultivar o organismo da doen ça leitosa em meio
artificial . Isto reduzir á grandemente o custo do emprego do orga -
nismo aludido, e encorajar á a sua utiliza çã o em escala cada vez
ma is extensa. Depois de vá rios anos de trabalho, algum sucesso
’stá sendo agora noticiado. Quando esta consecu çã o ficar coinple-
tamente possibilitada, entã o ser á possí vel que algum bom senso
e algumas perspectivas promissoras venham a restaurar se* nos-
modos do nosso combate ao escaravelho japonês; note-se que és te
escaravelho* no apogeu de suas depreda ções* nunca justificou o
pesadelo de excessos representado por alguns dos programas postos
em execu ção por Estados do Meio Oeste norte-americano.

Os incidentes da ordem dos ocorridos com as pulveriza ções fei-


tas no Estado oriental de Illinois aventam uma questã o que não
é de car á ter cientifico, e sim de í ndole moral. A questão consiste
em se saber se alguma civiliza çã o pode levar avante uma guerra
sem tr éguas* contra a vida* sem se destruir a si niesina , e sem
perder o direito de ser chamada "civiliza ção",
LIO
Os inseticidas mencionados no caso não são venenos seletivos,
sã o venenos que n ã o distinguem, das outras, aquela espécie de
que nós desejamos livrar nos. Cada um de tais inseticidas é usado
pela simples razã o de que constitui veneno mort ífero, Conse
q úentemente , êsses inseticidas envenenam todas as formas de vida
-
com as quais entram cm contacto: o gato querido de alguma fa-
m ília; o gado do Fazendeiro e do pecuarista ; o coelho, nos cam
.
pos; a cotovia que desce do céu Êstes animais sã o inocentes, no
-
sentido de que nã o produzem dano algum ao homem. Aliás, êsses
animais, pelo simples fato de existirem , juntamente com os seus
semelhantes, tornam a vida mais agradável. Nao obstante , o Ho-
mem os recompensa com uma forma de morte que n ã o somente
.
é s ú bita, mas que também é horr í vel Os observadores cient íficos,
em Sheldon, descreveram os sintomas dc uma icteria, encontrada
já próxima da morte. “ Embora a ave j á acusasse falta de coorde-
na ção muscular , e não pudesse mais voar , nem ficar de pé, ela
continuava a bater as asas , e a enclavinhar os dedos, enquanto
jazia no ch ão, deitada de lado* O bico era conservado aberto;
.
e a respira ção se mostrava laboriosa" Ainda mais í nspirador de
piedade foi o mudo testemunho dado pela morte de esquilos ter -
restres, Êstes animais ' exibiram atitude caraeter ística na morte,
-
O dorso apresentou se encurvado; as patas dianteiras, com os de-
dos fortemente enclavinhados, vigorosamente puxadas para o t ó-
rax .., A cabeça e o pescoço estavam esticados para a frente; a
bõca, com frequ ê ncia , continha sujeira , sugerindo que os animais,
ao morrer , tinham estado a morder o chã o".
Aquiescendo em praticar um ato que ocasiona tamanho sofri-
mento a uma criatura vivente, quem, dentre nós., n ã o fica dimi
nu ído como ser humano?
-

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8, E Nenluim Pássaro Canta
í QR Á REAS CADA VEZ ma is amplas dos Estados Unidos » a prima
vera agora surge sem ser anunciada pelo regresso dos pássaros ; e
as madrugadas se apresentam estranhamente silenciosas, nas re-

Êsfce s ú bito silenciar da canção dos pássaros



gi ões em que outrora se enchiam da beleza do canto das aves,
esta oblitera çã o
da còr e da beleza, bem como do interesse que as aves empres-
tam ao nosso mundo — se estabeleceu depressa » í nsidio&amente,
sem ser notado por aqueles cujas comunidades estã o sendo por
ora afetadas.
Da cidade de Hinsdale, Illinois, ura a dona de casa escreveu , to-
mada de desespero » a um dos mais not á veis ornitó logos do mundo*
Robert CuShman Murphy, curador emé rito de aves, do Museu
Norte- Americano de História Natural;

Aqui , em nossa aldeia , os olmos tem sido pulverizados du


rante vá rios anos (eia escreveu em 1958) . Quando nos muda -
mos para cá, há seis anos, havia riqueza de vida de aves; ins-
talei » por isso» um pòsto de alimenta çã o para os pássaros; du -
rante o inverno todo» para a li acorria um bando de cardeais,
-
de chapins, de pica - paus pretos, de pica paus cinzentos; e os
cardeais e os chapins traziam seus filhotes no verio.
Agora * depois de vá rios anos de pulveriza ção de BDT, a
cidadezinha esta quase que destitu ída de papos-roxos e de
estorninhos; os chapins já nã o aparecem no meu pòsto de
alimentação há dois anos; e este ano os cardeais também se
foram ; as ninhadas » pelas redondezas , parece que se resumem
num par de pombos e numa fam í lia de tordos-dos - remedos.
É dif ícil explicar » às crian ças, que os pássaros foram elimi-
nados por exterm í nio^ quando essas mesmas crian ças apren -
dem , na escola, que h á uma lei federal que protege os pás-

"Ser á que os pássaros voltarã o um dia ? "



saros, defendendo-os contra a captura e contra a matan ça.
perguntam as
crian ças; e eu nã o tenho resposta para lhes dar. Os olmos
continuam morrendo, e o mesmo acontece com as aves. Est
alguma coisa sendo feita ? Pode alguma coisa ser feita ? Posso
á

eu fazer alguma coisa ?


J 13
-
Um ano depois de o govêrno federal norte americano haver
lan çado maci ço programa de pulverização insctiridica contra a
- -
forni iga de fogo, uma senhora do Alabama escreveu: "A nossa
terra ioi verdadeiro santu ário para os pássaros, durante ma is de
meio século. Em julho ú ltimo, nós todos observamos: “ Há mais
pá ssaros do que em qualquer outro tempo” . Depois, de s ú bito,
na segunda semana de agosto, êies desapareceram. Eu estava acos-
tumada a levantar - me cedo, a fim de cuidar da minha égua favo-
rita, que tinha um jovem potro. N ã o havia sequer um trinado
de canto de pássaro. Tudo era espectral , aterrador. Que é que o
Homem estava fazendo ao nosso mundo perfeito e belo? Final -
mente, cinco meses depois, um guio apareceu; a seguir, uma cor-
ru í ra ,"
Os meses do outono, a que ela se referiu, proporcionaram ou -
tros relatos sombrios , procedentes do Extremo Sul, onde no Mis -
sissipi , na Louisiana e no Alabama , o periódico Field Notes , pu -
blicado trimestralmente pela Sociedade Nacional Audubon, e pelo
Serviço de Peixes e de Vida Silvestre, dos Estados Unidos, fez
observar o impressionante fen ómeno das "á reas nulas, estranha-
mente vazias de t òda vida de aves” . O Field Notes è compila çã o
dos comunicados de observadores experimentados, que passaram
muitos anos em suas á reas particulares dc estudos, e que possuem
conhecimento í mpar da vida normal dos pássaros da regi ã o. Uma
senhora, do grupo de tais observadores, informou que, ao rodar
de automóvel na á rea sul de Mississipi , naquele outono, nã o viu
" pássaro terrestre nenhum , ao longo de grandes dist â ncias” . Ou
tro observador relatou que, eni Bâ ton Rouge, o conte ú do dos seus
-
postos de alimenta çã o de pássaros tinha permanecido intato "du-
rante semanas a fio." Ao mesmo tempo, arbustos frut íferos, que
havia em seu quintal , e que, normalmente, se apresentavam por
aquela época inteira mente despidos de frutos, ainda continua -
vam carregados com è les. Outro informante relatou que a sua ja -
nela panorâ mica , "que com frequência emoldurava com seus ba -
-
tentes uma cena pintalgada pelo vermelho de uns 10 ou 50 car
deais, e apinhada de outras espécies de pássaros, agora só de raro
-
em raro olerec í a o eqjet á cido de um ou dois pássaros por vez".
O Professor Maur íce Brooks, da Universidade de Virg í nia Oci-
dental, autoridade em pássaros da regiã o apalacheana, relatou que
a população av ícola da Virgin ia Ocidental tinha passado por "in -
cr í vel redu ção".
-
Uma narrativa pode servir à maneira de tr á gico s ímbolo do des
tino dos pássaros — destino que j á acometeu vá rias espécies, e
que amea ç.a t ódas elas. Ê a narrativa do papo- roxo, pá ssaro co-
nhecido de tóda gente. Para milhões de norte- americanos, o prí-
U4
meiro papo-roxo da esta ção do ano significa que as garras do in -
verno estio partidas. Sua chegada é acontecimento relatado pelos
jornais , e contado, ammadâinente , à mesa do desjejum . £ na me-
dida em que o n ú mero de aves migradoras cresce, e em que as
primeiras nuanças de verde aparecem nos bosques, milhares de
pessoas se ficani a ouvir os alegres coros matinais dos papos-roxos
vibrando às primeiras luzes da madrugada. Agora, por é m, tudo
está mudado; e nem sequer coin o regresso dos pássaros se pode
.
contar

tas outras espécies de aves — —


A sobrevivê ncia do papo-roxo e, na verdade, també m de mui-
parece que está fatidicamente ligada
ao olmo norte americano; o olmo é á rvore que faz parte da his-
tória de milhares de cidades, desde o Atl â ntico até âs Rochosas,
ornamentando-lhes as ruas, as pra ças e os recreios de colégios com
majestosas arcadas de ramagens verdes. Agora, os olmos sã o afli-
gidos por uma enfermidade que os acomete eni tôda a á rea de
sua prefer ê ncia climatérica ; trata -se de doen ça tã o sé ria , ,que mui-
tos peritos acreditam que todos os esforços, no sentido de se sal -
varem essas á rvores, ser ã o, por f íni, in ú teis. Seria coisa tr á gica per
*

der os olmos; mas seria coisa duplamen íe trágica se, no vã o es-


forço de os salvar, nós mergulh ássemos os vastos segmentos das
nossas popula ções avícolas na noite da extin ção. Todavia , é
precisa mente isto que se amea ça lazer agora.
O chamado mal holand ês, do olmo, entrou nos Estados Unidos,
procedendo da Europa , lá pelo ano de 1930, na forma de excres-
cê ncia, em troncos de olmos, importados pela ind ústria de , ma -
deira compensada. Trata -se de doença í ungosa ; o organismo in
vade os vasos condutores de água, da árvore; espalha -se por meio
-
de esporos que são transportados pelo fluxo da seiva; e, por via
de suas secreções venenosas, bem como por meio de coagula ção
mecâ nica, faz com que os ramos se desvigorizem e murchem , e
com que as plantas morram. A enfermidade se difunde , partindo
de á rvores doentes para á rvores sãs , por meio de escaravelhos pa -
rasiticos pr ó prios da casca do olmo. As galerias que estes insetos
perfuram , à maneira de t ú neis» por baixo da casca das á rvores
mortas, se contaminam de esporos do cogumelo invasor ; os es-
poros aderem ao corpo dos insetos, sendo por estes carregados por
onde quer que ê les voem. Os esfor ços para o contr òle do mal
fungoso dos olmos foram orientados pr í ndpaimente no sentido
de se dominar o inseto transmissor. De comunidade a comunidade,
particularmente por tôda a á rea que constitui a pra ça forte do
-
olmo norte americano, que fica no Meio Oeste e na Nova Ingla -
terra, a pulveriza çã o intensiva de inseticida já se tornou procedi -
mento rotineiro.
115
tl
Q que esta pulveriza çã o poderia significar , para a vida das aves
voadoras, e, de modo especial, dos papos- roxos, foi exposto com
clareza, pela primeira vez, peio trabalho de dois ornitologistas da
Universidade do Estado de Michigan, Professor George Wa 1 lace,
e um dos seus auxiliares graduados, John Mehner. Quando o
Sr. Mehner começou os preparativos para o seu doutorado, em
1954, escolheu um projeto de pesquisa que se relacionava com as
-
popula ções dos papos roxos. Isto ocorreu inteira mente por acaso;
naquele tempo, ninguém suspeitava que os papos- roxos esLivessem
em perigo. Todavia, mesmo na fase em que o Sr, Mehner em -
preendeu sua obra, aconteceram fatos que estavam destinados a ,

modificar o cará ter da iniciativa e , com eleito, a privar o pesqui -


sador do seu material.
A pulveriza çã o insetic ídica contra o mal holand ês dos olmos
começou a ser praticada cm pequena escala , no “ campus” da Uni-
versidade, em 1954 No ano seguinte, a cidade de Lansing Orien -
»

tal ( East Lansing, onde a citada Universidade est á sedeada ), se


-
juntou às pr á ticas de pulveriza çã o; assim , a pulveriza ção no “ cam
pus" foi intensificada e ampliada ; e , com os programas locais de
pulveriza çã o contra a mar ípôsa cigana e contra mosquitos, que
també m se achavam em execu çã o, a chuva das substâ ncias qu ími-
cas aumentou, assumindo proporções de aguaceiro »

Durante o ano de 1954, que foi o ano da primeira pulveriza çã o


leve, Ludo se afigurou bem. Na primavera seguinte # os papos- roxos
migradores começaram a regressar ao ‘campus" como de costume.
4

À maneira da campainha azul, no xnquietaiite ensaio de Tom -


Jinson* “ The Lost Wood ” (O Bosque Perdido), os papos roxos
“ n ã o esperavam mal algum ', quando tornaram a ocupar o seu
-
território familiar.. Logo, entretanto, se Éêz evidente que alguma
coisa estava errada. Papos- roxos mortos, ou moribundos, come -
-
çaram a aparecer na á rea do “ campus” Poucos pássaros foram
-
vistos em suas atividades normais, ou reunindo se nos poleiros
habituais. Poucos ninhos foram construídos. Poucos filhotes apa -
receram. Êste paradigma foi repetido, com mon ó tona regulari -
dade, nas primaveras seguintes, A á rea pulverizada estava trans -
formada em armadilha mortal, na qual bandos e bandos de pa
pos-roxos se eliminavam em cerca de uma semana - Depois, novas
-
ondas chegaram , mas apenas para aumentar a quantidade dos
pássaros condenados que se viam no “ campus” , tomados pelos tre-
mores da agonia que precedem a morte.
"O campus está servindo de cemit é rio para a maior parte dos
papos- roxos que tentam instalar ah sua resid ê ncia na primavera",
disse o Dr. Wa í lactx Mas por qu è ? De início, ê le suspeitou que
,

alguma doença do sistema nervoso houvesse atacado os pássaros;


,
mas logo se tornou claro que, sa despeito das garantias proferidas
pelo pessoal pulverizador de inseticidas, segundo as quais as pul
veriza ções eram inofensivas aos pássaros, os papos- roxos estavam
-
de fato morrendo por envenenamento insetic ídico, As avozinhas
apresentavam os bem conhecidos sintomas de per d a de equil íbrio,
seguidos de tremores, de convulsões e de morte '.1

Vá rios fatos sugeriram que os papos roxos estavam sendo enve -


^

nenados, n ã o tanto pelo contato direto com os inseticidas, quanto


indiretamente, por comerem minhocas, As minhocas do "campus''
tinham sido inadvertidamente dadas a lagostins, num projeto de
pesquisa; e todos os lagostins assim alimentados haviam morrido
de imediato. Uma serpente , conservada em gaiola de laboratório,
tinha entrado em tremores violentos, depois de ser alimentada
com os referidos vermes. E as minhocas sã o o alimento principal
dos papos- roxos, na primavera .
Uma peça de ordem capital, no jogo de quebra-cabeças dos
paposrroxos condenados, logo foi fornecida pelo Dr, Roy Barker ,
da Supervisão cie Hist ória Natural de Illinois, com sede em Ur -
bana , O trabalho do Ur. Barker , publicado em 1958, descreveu
o complicado ciclo de ocorrê ncias pelo qual o destino do papo-
roxo est á ligado ao olmo, por via das minhocas. As á rvores refe-
ridas (os olmos) sã o pulverizadas na primavera ; e sã o- no, usual-
mente, na propor çã o dc um quilo a dois quilos e meio de DDT
por planta da altura de uns vinte metros; isto pode ser o equi
valente a cê rea de uns 12 quilos por acre (4,047 metros quadra -
-
dos)* nos pontos em que os olmos sã o numerosos. Com frequê n -
cia , a pulveriza çã o se repete em julho , com cerca da metade da
concentra ção aludida. Pulverizadores poderosos jorram uma tor-
rente de veneno a todas as partes das á rvores ma is altas, matando,
diretamente, nã o apenas os organismos visados, que são os escara -
velhos da casca , mas també m outros insetos, inclusive espécies de
aranhas predadoras e poliniza d oras* e també m outros escarave-
lhos, O veneno forma uma pel ícula tenaz por cima das folhas e
da casca. As chuvas não o lavam , nem o diluem. No outono, as
folhas caem o chão; acumulam -se em camadas compactas, e co-
meçam o lento processo de se transformarem em humo do solo.
Neste processo, as f ôlhas sã o ajudadas pelo trabalho das minhocas,
que se alimentam da camada hum í fera , porquanto as f ôlhas do
olmo figuram entre os seus alimentos favoritos. Alimentando-se
de tais f ôlhas , os vermes referidos també m ingerem o inseticida;
e o inseticida acumula -se e concentra -se no corpo deles.
Q Dr. Barker encontrou depósitos de DDT em todo o trato di-
gestivo das minhocas, bem como nos vasos sangu í neos, nos nervos
e na parede do corpo. Sem d ú vida , algumas minhocas, elas mes-
117
mas, sucumbem; outras, poré m » sobrevivem, transformando-se em
“ amplificadores biológicos" do citado veneno. Na primavera , os
papos -roxos voltam , e proporcionam outro elo ao ciclo, A pe -
quena quantidade de 11 minhocas grandes , nas mencionadas con -
dições, pode transferir uma dose letal de DDT a um papo roxo. -
E onze minhocas compõem pequena parte da ra çã o diá ria de um
pássaro que devora de 1U a 12 minhocas cm igual n ú mero de
minutos.
Nem todos os papos-roxos recebem dose letal; mas outra con-
sequ ê ncia pode conduzir à extin ção de sua espécie, com tanta
seguran ça como o envenenamento fatal. A perspectiva da esteri -
lidade paira sôbre todos os pássaros estudados; a perspectiva » ade -
mais » se alonga, para compreender em seu â mbito potencial todos
os seres vivos. Só se observam , agora, duas ou três d úzias de pa -
pos - roxos, em cada primavera , em toda a á rea de 185 acres (cerca
de (> »8 de quilómetro quadrado), da Universidade do Estado de
Michigan ; compare-se isto com a estimativa moderada de 370
adultos, na mesma á rea , antes das pulveriza ções. Em 1954 , todos
os ninhos de papo- roxo, sob observaçã o pelo Sr . Mehner , produ -
ziram filhotes. Lá pelo fim de junho de 1957 — e o mês de junho
era quando pelo menos 370 pássaros jovens {constituindo a subs -
titui çã o normal da popula ção adulta ), j á estavam esvoa çando pelo
campusj nos anos anteriores ao in ício das pulveriza ções — o Sr.
Mehner só conseguiu encontrar um ú nico papo- roxo novo . Uni
ano após, o Dr, Wallace relatou ; "Em nenhum momento, du -
rante a primavera e o ver ã o (de 1958) , me foi dado ver um fi-
lhote de papo-roxo, em parte alguma do campus principal; e, até
agora , n ã o consegui encontrar pessoa que houvesse visto um papo -
l oxo por ali ' \
Parte desta falha na produ çã o de filhotes é devida , natural-
mente, ao fato de que um ou roais pares de papos- roxos morrem
antes de se completar o seu ciclo de cria , ou de ninhada . O Dr.
Wallace » porém » possui registros significativos que apontam para
algo ainda mais sinistro: a efetiva destrui çã o da capacidade dos
pássaros, para a reprodução. É le registra , por exemplo» "casos de
papos-roxos e de outros pássaros que constroem ninhos , mas aca -
bam n ã o botando ovos; e casos de papos-roxos e outros pá ssaros
que botam ovos, que os chocam, sem que deles saia filhote al -
gum. N ós temos registro de um papo- roxo que permaneceu sobre
seus ovos, fielmente , durante 21 dias, sem que tais ovos se cho-
cassem . O período normal de incuba çã o é de 13 dias... A nossa
aná lise est á revelando grandes concentra ções de ,DDT nos test í -
culos e nos ová rios de pássaros em época de cria
#

— comunicou
o mesmo ornitólogo a uma comissã o do Congresso» em 19 G0. " Dez
118
machos continham quantidades que subiam de 30 a 109 partes
por milhão, nos testículos; e duas f ê meas continham, uma 151
panes, outra 211 partes, por milhão, rcspectivamcnte, nos fol í
culos do ôvo em seus ová rios.
-
Pouco depois, estudos feitos em outras á reas começaram a re-
velar achados igualmente desconcertantes. O Professor Joseph
Hickey e os seus discípulos, na Universidade do Wisconsiri, após
cuidadosos estudos comparativos de zonas pulverizadas e não pul-
verizadas, comunicaram que a mortalidade do papo-roxo era de
pelo menos 80 a 88 por cento. O Instituto Cranbrook de Ciê ncia ,
de Bloomf íeld Hiils, Michigan, num esforço destinado a calcular
a extensã o das perdas de pássaros, causadas pela pulverizaçã o dos
olmos, solicitou , em 1950 , que todos os pássaros, que se presu -
misse fossem v í timas de envenenamento por DDT, fossem reme-
tidos ao Instituto, para exame, A solicita çã o teve respostas em
n ú mero além de tôda expecta ti va. Dentro de poucas semanas, as
facilidades em instala ções de congelamento, do Instituto, estavam
inteiramente tomadas, de modo que outros exemplares de pá ssa -
ros naquelas condições tiveram de ser recusados. Lã pelo ano de
1959, mil pássaros envenenados, procedentes daquela ú nica comu -
nidade, tinham sido remetidos, ou comunicados. Embora o papo-
roxo fosse a vitima principal ., 63 espécies diferentes de aves fo-
ram inclu ídas entre os espécimes examinados no Instituto. Houve
o caso de uma senhora que, telefonando para o Instituto, assina -
lou que 12 papos-roxos se encontravam mortos, no gramado do
seu jardim , enquanto falava.


Os papos- roxos, portanto» sã o apenas uma parte da cadeia de
devasta çã o ligada à pulveriza çã o inseticklica dos olmos
embora o programa de pulveriza çã o do olmo seja apenas um, en
tre os numerosos programas de pulveriza ção que cobrem a nossa
muito
-
terra de venenos. Mortalidade pesada tem ocorrido entre cerca de
90 espécies de aves, inclusive espécies com as quais as popula ções
suburbanas e os naturalistas amadores se acham bastante familia -
rizados, As quantidades dos pássaros que d ã o ninhadas declina
ram , de modo geral, na proporçã o de 90 por cento, em algumas
-
das cidades cm que as pulveriza ções se realizaram . Como veremos,
todos os diferentes tipos de pássaros sã o afetados — seja que ê les
se alimentem no ch ão, no tôpo das á rvores, na casca das plantas ,
ou ainda , que vivam de rapina.
É simplesmente razoável supor que todos os pássaros e que to-
dos os mam íferos, que dependem grandemente das minhocas e
de outros organismos que se encontram no solo, para a sua ali
menta çã o, se achem amea çados pelo mesmo destino que atingiu
-
os papos - roxos. Cerca de 45 espécies de p á ssaros incluem as mi -
119
nhocas em sua dieta . Entre êsses pássaros figuram a galinhola , que
é uma espécie que passa o inverno em á reas do Sul, á reas estas
que ainda recentemente foram extensa e intensamente pulveri
zadas com heptadoro. Duas descobertas significativas foram agora
-
feitas, a respeito da galirthola , A produção de filhotes de pássaros,
nas á reas de ninhadas de New Brunswick, está definitiva mente re
duzida ; e os pássaros adultos, que foram analisados, contê m gran- -
des quantidades de res íduos de DDT e de heptadoro.
J á existem registros inquietadores de pesada mortalidade no
seio de mais de vinte outras espécies de pá ssaros que se alimen
-
tam no ch ã o, cujo alimento
organismos da terra — — vermes, formigas, gusanos e outros
foi envenenado. Estas espécies compreen-
dem três de tordos cujo canto figura entre as mais delicadas vo-
zes de pássaros: o tordo de dorso cõr de oliva , o tordo dos bos-
ques e o tordo ermitão. E os pardais que correm através das ra -
magens baixas dos arbustos, nas matas, e que captam alimento,
emitindo sons roçagantes, por entre as f ôlhas ca ídas
cantor e o pardal de garganta branca — — o pardal
também estes foram en
contrados entre as v í timas das pulverizações dos olmos.
-
Os mam íferos, igualmente, foram envolvidos no ciclo, seja di-
reta * seja indiretamente. As minhocas sã o importantes, entre os
vá rios alimentos dos guaxinins; e sã o comidas, na primavera e
no outono, pelos gambás. Os perfuradores subterrâ neos, como os
musaranhos e as toupeiras, capturam - nas em certa quantidade, e,
depois, talvez passem adiante o veneno a animais predadores tais
como as corujas das t ònes e as suindaras. V á rias corujas das torres
foram apanhadas, em Wisconsin* em seguida a pesadas chuvas,
na primavera ; estavam envenenadas; e talvez o houvessem sido
atrav és da alimentação com minhocas. Falcões e corujas foram

encontrados em convulsões corujas cornudas , corujas das tôrres,
falcões de ombro vermelho, gaviões comuns e gaviões dos panta -
nais. Estes podem ser casos de envenenamento secundá rio, ocasio-
nado pela ingest ã o de pássaros ou de ratos que hajam acumulado
inseticidas no f ígado ou em outros órgãos.
N ã o são sòmente os animais que se alimentam à flor do solo,
on que Os comem , que est ã o expostos ao perigo da pulveriza çã o
.
foliar dos olmos Todos os que se alimentam nos topos das á r-

tam
——
vores as aves que catam nas f ôlhas os insetos de que se alimen
já desapareceram das áreas intensamente pulverizadas; en
tre as aves figuram as felosas de poupa, tanto as de coroa ver
-
-
-
melha como as de coroa côr de ouro, que são verdadeiros dia-
bretes dos nossos bosques; figuram, igualmente, pássaros come-
dores de mosquitos, toutinegras, sa ís, cujos bandos migradores
voam por entre as á rvores, na primavera , numa autentica maré
120
multicor de vida . Em 1956, uma primavera atrasada fez com que
se adiasse a pulveriza çã o; de modo que a pulveriza ção, quando
foi feita* coincidiu com a chegada de ondas excepcionalmente nu -
merosas de mniotilt ídeos migra dores. Quase t ôdas as espécies de
mniotiltideos, presentes na mencionada área » estiveram represen -
tadas na catastrófica matança que se seguiu. Na cidade de Wh í te *

fish Ray, Wisconsín, pelo menos uns mil pássaros, da fam ília das
toutinegras, podiam ser vistos em migra çã o, durante os anos an
teriores; em 1958, depois da pulveriza çã o dos olinos, os observa-
-
dores conseguiram avistar apenas dois. Assim , com as adições pro-
cedentes de outras comunidades, a lista aumenta ; e os mn í otilt í-
deos mortos pelas pul veriza ções compreendem os que ma is en -
cantam e mais fascinam a todos os que t êm conhecimento d ê les:
o branco e preto, o amarelo, o cór de magnólia e de Cape May,
N .J ; o joã o-de- barro, cujo chamado vibra nos bosques, na fase
+

de maio; o blackbum í ano, cujas asas parecem formadas por laba-


redas; o de flancos castanhos; o canadense; e o verde de garganta
negra . Êstes pássaros que se alimentam nos tôpos das á rvores são
atingidos, seja direta mente, pela ingest ão de insetos envenenados,
seja indiretameme, pela escassez de alimento.
A falta de alimento taipbém atingiu duramente as andorinhas
que cruzam os cé us, como que aspirando os insetos da atmosfera
k maneira do que fazem os arenques com o pia neto do mar. Um
naturalista do Wisconsí n relatou: " "As andorinhas foram dura -
mente atingidas. Tôda gente lamenta a sua pequena quantidade
atual, em compara çã o com a quantidade anterior mente existente.
Qk nossos cé us estavam cheios delas , h á ainda apenas uns quatro
anos. Agora , raramente vemos algumas, se é que as vemos... Isto
pode ter resultado tanto da falta de insetos, em consequê ncia das
pulveriza ções, corno da ingest ã o de insetos envenenados' \
De outros pássaros, o mesmo observador escreveu: "Outra perda
sens í vel é a do pássaro papa -môscas, Os pássaros ca çadores de
moscas sã o escassos por t ôda parte; mas os primitivos c ousados
papa-môscas não mais existem. Vi um dêles, esta primavera, e
também só um deles na primavera passada. Outros observadores
de pássaros, no Wisconsin, formulam a mesma queixa. Tive cinco
o LI seis pares de cardeais* no passad o; agora, nenhum . Corruíras,
papos-roxos, tordos -dos-arremedos e corujas das torres, vinham
construindo ninhos, todos os anos, no nosso jardim. N ã o há ne-
nhum ninho* agora. As manhãs de verã o foram despojadas do
canto da passarada. Sòmente restam os pássaros daninhos, os pom
hos, os estorninhos e os pardais ingleses. É tr ágico, e não posso
-
As pulveriza ções dormentes, aplicadas aos olmos no outono, e
que remetem o veneno para dentro de toda pequena fenda que
exista na casca , são* prov á vel mente, as causadoras da severa redu -
ção verificada na quantidade dos chapins, dos pica -paus, das me
jengras, dos pica - paus cinzentos, e das aves trepadeiras de côr
-
-
marrom . Durante o inverno de 1957 5 B, o Dr. Wallace n ã o viu
chapins, nem pica- paus, no posto de alimenta çã o de pássaros de
sua casa , pela primeira vez, depois de muitos anos. Três chapins,
que ê le encontrou ma is tarde, proporcionaram uma triste li çã o,
ponto por ponto, de causa e efeito: um estava alimentando-se
num olmo; outro foi encontrado a morrer de sintomas t í picos de
.
envenenamento por DDT; e o terceiro já estava morto O pássaro
-
que estava a morrer morreu mesmo; e verificou se, depois, que
continha 226 partes por milhão, de DDT, nos tecidos do corpo.
Os h á bitos alimentares de todos estes pássaros n ã o sòmente os
tornam particular mente vulnerá veis às pulveriza ções contra inse-
tos, mas també m tornam deplor ável a sua perda , seja por motivos
económicos, seja por via de razões menos tang í veis, O alimento
de verã o, do pica-pau de peito branco e da trepadeira marrom ,
por exemplo, compreende os ovos, as larvas e os adultos de grande
quantidade de insetos daninhos ás á rvores. Cerca de três quartos
do alimento do chapim sã o de ordem animal , inclusive todas as
fases do ciclo vital de muitos insetos. Q mé todo de alimenta ção
do chapim é descrito na obra monumental "Life Histories' ( His-1

t ó rias Vividas), de Bent , a respeito dos pássaros norte-americanos;


"Na medida em que o bando se move, cada pássaro examina mi ú -
damente a casca , os ramos, os galhos, em busca de pequenos qui-
nhões de alimento (ovos de aranhas, casulos, ou outra forma dor -
mente de vida de inseto) / '
Vá rios estudos cient íficos definiram o papel cr í tico dos pá&a
ros, quanto ao controle dos insetos, em vá rias situações. Assim , os
-
pica - paus sao o contrôle primacial do escaravelho do abeto, redu -
zindo- lhe a popula çã o de 45 a 98 por cento: e os pássaros sã o
importantes no contrô le da mariposa das planta ções de macieiras.
Os chapins e outros pá ssaros de inverno podem proteger os po-
mares contra lagartas.
Entretanto , o que acontece na Natureza, nã o é permitido que
aconteça no moderno mundo ensopado de subst â ncias qu í micas,
mundo êste em que as pulveriza ções destroem n ã o sòmente os in-
setos, mas també m os seus principais inimigos naturais, que sao
os pássaros. Quando, mais tarde, ocorre o reaparecimento da po-
pula çã o de insetos, como quase sempre acontece, os pássaros já
n ão estã o mais ali , para manter a sua quantidade sob controle.
Como escreveu o Curador de Pá ssaros , do Museu P ú blico de Mil-

m
waukee, Owen J Gromme* no Journalj também de Milwaukce:
+

"Os maiores dnimigos dos insetos são outros insetos, de gê nero


predador, os pássaros e alguns mam íferos; mas o DDT mata in-
diseriminadamente, inclusive as pró prias salvaguardas ou os pró *

prios policiais da Natureza , Em nome do progresso, ser á que


»

nós nos estamos tornando vitimas dos nossos próprios meios dia -
bó licos de contr ôle de insetos, coni que procuramos conseguir con
forto tem por á rio, sòmente para ma is tarde perdermos a parada
-
relativa aos insetos destruidores? Por que meios controlaremos nós
as novas pestes , que atacarã o as restantes espécies de plantas, de-
pois de os olmos desaparecerem? E>epois que as salvaguardas da
Natureza, que são os pássaros* houverem sido varridas da regi ã o,
pelos venenos?"'
O Sr. Gromme informou que os chamados telef ónicos e as car-
tas , a respeito de pá ssaros rnortos e a morrer, estiveram aumen -
tando constantemente, durante todos os anos* a partir de quando
as pulveriza ções começaram a ser feitas no Wisconsin. O interro-
gat ório sempre revelou que a pulveriza çã o, ou a neblin í za çã o* ti-
nha sido praticada na á rea em que os pássaros estavam morrendo.
A experiê ncia do Sr.. Gromme foi compartilhada por ornit ólo-
gos e por conservacionistas da maior parte dos centros de pes-
quisa do Meio Oeste, tais como o do Instituto de Granbrook , em
M íchigan ; a Supervisã o de História Natural » de Illinois; e a Uni
versidade de Wisconsin . Uma olhada às colunas das * 'cartas dos
-
leitores ', dos jornais, de quase todos os pontos em que as pulve-
1

riza ções estão sendo efetuadas, põe em relevo o fato de que os


cidad ã os não sòmente est ã o despertando e sentindo-se indignados,
mas que també m est ã o revelando uma compreensão ma is aguda
dos perigos e das inconsistê ncias das pulverizações* do que a dos
funcion á rios que ordenam que as pulveriza ções se fa çam. " Estou
com receio dos dias, que já agora n ã o dever ã o tardar, em que
muitos pássaros lindos morrer ã o no quintal traseiro de nossas ca -
sas", Foi isto que escreveu uma mulher de Milwaukee, "Esta é
uma experiência de inspirar piedade, de partir o cora çã o , É, »

ademais, lima frustra çã o e uma exaspera çã o, porquanto as pulve-


riza ções * como é evidente, n ã o servem aos propósitos que tê m a
finalidade de servir... Gonsiderando-se bem as coisas» podem -se
poupar á rvores sem poupar também os pássaros? Será que árvo -
res e pássaros, na economia da Natureza , não se defendem red
procamente? N ã o será possível ajudar o equil í brio da Natureza
-
sem destruir êsse mesmo equilí brio?"
À id éia de que os olmos, sendo embora árvores majestosas de
sombra , n ão s ão "vacas sagradas", e n ã o justificam uma campa -
nha intermin á vel de destrui çã o contra todas as outras formas de
123
I
1
vida, est á expressa em outras cartas. "Eu sempre amei as nossas
.
árvores de olmo que se me afiguravam como sendo marcas de
f á brica da nossa paisagem" — escreveu outra mulher do Wiscon-
sin , MMa$ h á muitas espécies de á rvores..., Nós precisamos salvar
também os nossos pássaros. Pode alguém imaginar algo t ão des-
titu ído de alegria e t ão aterrorizai!te corno unia primavera sem
o canto dos papos-roxos?"
Para o p ú blico, a escolha pode f ácil mente parecer que seja
de extraordin á ria simplicidade: Devemos nós ter pássaros , nu
devemos n ós ter olmos? Mas o caso n ã o è t ão siiuplcs assim. E ,
por for ça de uma ironia, dessas que abundam por todo o campo
do controle qu í mico das pestes, nós podemos muito bem acabar
sem á rvores e também sem pássaros, se continuarmos pela estrada
atual, já bem frequentada. Pulverizar é matar pá ssaros; mas n ã o
equivale a salvar os olmos. A ilusão de que a salva çã o dos olmos
reside na extremidade da mangueira de pulverização é fogo- f á tuo
que est á conduzindo uma comunidade após outra para dentro
de uni pantanal de pesadas despesas, sem produzir resultados
duradouros,
A cidade de Greenwich , Connectieut , realizou pulveriza ções
regulares durante dez anos. Depois, um ano de sêca proporcionou
condi ções especialmente favor á veis para os escaravelhos ; e a mor -
talidade dos olmos subiu LO0Q por cento. Em Urbana, Illinois,
onde se situa a Universidade de Illinois, a doen ça holandesa do
olmo apareceu, pela primeira vez, em 1951. A pulverização Foi
empreendida em 1953, Lá pelo ano de 1959* a despeito de seis
anos de pulveriza ções, o ' 'campus" da universidade já havia per-
dido 8ó por cento dos seus olmos
v í tima da doen ça holandesa.
— sendo que a metade ca í ra

Em Toledo, Ohio, uma experiê ncia semelhante f éz com que


o Superintendente do Serviço Florestal , joseph A, Sweeney , lan -
çasse olhares real ísticos aos resultados decorrentes das pulveriza-
ções , A aplica çã o de inseticidas £o í iniciada, ali, em 1953* con -
tinuando até 1959. Nesse entrementes , contudo, o Sr. Sweenev
notou que a escama felpuda do bôrdo se tornou pior, depois da
pulveriza ção recomendada “ pelos livros e pelas autoridades", do
que se apresentava antes. Resolveu, pois, rever , por sua conta ,
os resultados das pulveriza ções contra a doen ça holandesa dos
olmos. As verifica ções surpreenderam -no. Na cidade de Toledo,
ao que êle constatou * “ as ú nicas á reas sob algum contrôle eram
aquelas em que fizemos uso de alguma solicitude quanto à remo -
çã o das árvores doentes , ou incubadoras da doen ça . Nos lugares
em que dependemos da pulverização, a doen ça ficou fora de todo
contrôle. Na zona rural , onde nada f óra feito* a doen ça n ã o se

124
difundiu com rapidez igual à da sua difusão na cidade. IsLo
í ndica que a pulveriza ção destrói todos os inimigos naturais da
mencionada enfermidade vegetal
"Estamos abandonando o uso das pulverizações para o combate
à doença holandesa do olmo. Isto me pôs cm conflito com as
pessoas que apóxam todas as recomenda ções feitas pelo Departa -
mento da Agricultura dos Estados Unidos’ mas eu estou de posse
dos fatos, e ficarei do lado dêles.”
Ê dif ícil compreender o motivo pelo qual as citadas cidades
do Meio Oeste, nas quais a doen ça do olmo se difundiu apenas
reeeiitemente , empreenderam, de maneira tão servil , programas
t ão ambiciosos e tã o caros de pulveriza ções; e o fizeram, ao que
se afigura, sem esperar pelo resultado de inquéritos a respeito
da experi ê ncia efetuada em outras áreas que tiveram um conhe -
cimento muito mais longo do problema , O Estado de Nova York ,
por exemplo, teve, sem dú vida, a história mais longa , quanto á
experiê ncia continua , relacionada com a doença holandesa do
olmo; pois foi no porto de Nova York, ao que se pensa, que a
madeira enferma, de olmo, entrou nos Estados Unidos* l á pelo
ano de 1930. E o Estado de Nova York * hoje, possui a mais im -
pressionante folha de serviços, quanto a conter e a suprimir a
doença. Todavia , o Estado de Nova York nã o se apoiou nas
.
pulveriza ções Na verdade, o seu servi ço de extensão agr ícola
n ã o recomenda a pulveriza çã o como m é todo de controle em
comunidades.
Como foi, então* que o Estado de Nova York conseguiu o seu
esplêndido êxito? Desde os primeiros anos da batalha contra a
doen ça do olmo, at é ao tempo presente, o mencionado Estado
-
vem apoiando se na higiene rigorosa * isto é na remoção imediata
3

e na destrui çã o pronta de toda madeira doente, ou infecrionada.


No com êço, alguns dos resultados pareceram desapontadores; mas
isto aconteceu porque n ão se compreendeu , desde logo, que n ão
sò mente as árvores doentes, mas també m toda madeira de olmo,
em que os escaravelhos poderiam nutrir -se e reproduzir-se, deve-
ria ser destru ída. A madeira de olmo , infestada , depois de ser

de escaravelhos transportadores dos fungos



cortada e armazenada, para servir de Senha, desprende coló nias
,

a n ão ser que seja


queimada antes da primavera * São os escaravelhos adultos, que
emergem da hibernação* para se alimentar em fins de abril e
d tirante o mês de maio, que transmitem a doen ça holandesa do
olmo.
Os entomologistas de Nova York aprenderam , através da ex -
periê ncia , qual a espécie dc material nutriente , para os escara -
velhos, que acusa verdadeira importâ ncia na difusão da enfer -
m
.
midade. Concentrando-se o combate contra êste material perigoso,
tornou -se possível n ã o sòmente obter bons resultados, mas tam-
bém manter o custo do programa higié nico, sanit ário, dentro
de limites razoá veis. Lá pelo ano de 1950, a incid ê ncia da doença
holandesa do olmo, na cidade de Nova York, já estava reduzida
a dois décimos de um por cento dos 55.000 olmos da me tropoJe.
Um programa sanit ário semelhante foi lan çado no condado de
Westehester* em Durante os 14 amos seguintes, a média de
perdas anuais de olmos fos de apenas dois d écimos de um por
cento. A cidade de Buffalo, com 185.000 olmos, tem recorde
excelente de contr ôle da doença por rneio da higiene, com as
perdas recentes montando a apenas três d écimos de um por
cento, por ano. Por outras palavras: com esta m édia anual de
perdas, seriam necessários 300 anos para se eliminarem os olnios
de Bu ífalo.
O que aconteceu em Syracuse é particularmente impressionante,
Ali , nenhum programa efetivo se encontrava em execu çã o antes
de 1957. Entre os anos de 1951 e 1956, Syracuse perdeu cêrca de
3-000 olmos. A seguir, sob a direçã o do Col égio Florestal Howard
C, Mil ler, da Universidade do Estado de Nova York , empreen
deu -se uma investida intensiva , no sentido de se removerem todas
-
as á rvores de olmo que estivessem doentes, juntamente com toda
a madeira de olmo que Eóssc considerada poss í vel ninho de cria ção
de escaravelhos. À propor ção de perdas, agora, está abaixo de um
por cento ao ano,
A economia do m é todo sanit á rio, ou higié nico, é acentuada
pelos peritos do Estado de Nova York em contrôle da doença
holandesa do olmo. " Na maior parte dos casos , a despesa real
é pequena , se comparada com a poupança prová vel, da í decor -
rente" — diz ]. G , Malthys&e, do Colégio de Agricultura de Nova
York. "Sc é o caso de membro morto, ou quebrado, o membro
tem de ser removido a SCLL tempo, como precau ção contra possível
dano à propriedade, ou ferimento em pessoas. Sc se trata de
pilha de lenha para fogo, a lenha pode ser usada antes da pri
mavera ; a casca pode ser retirada da lenha ; ou a madeira pode
-
ser armazenada em lugar seco. No caso de á rvores de olmo, mortas
ou moribundas, a despesa da remoção imediata n ão é maior do
que a que seria indispens á vel ma is tarde, porquanto a rnaior
parte das á rvores mortas, em regi ões urbanas, tem de ser remo-
vida, eventual mente ,, do lugar cm que se encontra."
A situa çã o, relativamente á doen ça holandesa do olmo, é por -
tanto, inteira mente desesperadora, a menos que se adotem medi
das inteligentes e bem informadas. A referida doen ça n ã o pode
-
ser erradicada, por nenhum dos meios agora conhecidos, uma vez

1.26
que ela se instale numa comunidade ; mas pode ser suprimida e
contida em sua difusã o , dentro de limites razoáveis, por meio de
,

recursos sanit ários, e sem o emprego de mé todos que n ão somente


sã o f ú teis, mas també m implicam na tr ágica destruição da passa -
rada, Outras possibilidades residem no campo da gen é tica flores-
tal , onde a experimenta ção oferece esperanças de desenvolvimento
de um olmo h íbrido, resistente à doen ça holandesa. O olmo
europeu é altamente resistente, e muitos exemplares dele foram
plantados em Washington , D . G. Nem mesmo durante certo
per íodo em que alta percentagem dos olmos da cidade se apre-
sentou infestada , se registraram caso® de doença holandesa do
olmo, entre as referidas árvores,
A replantação , através de urn programa imediato de viveiros
de á rvores e de reflorestamento, est á sendo apregoada em comu -
nidades que estão perdendo grandes quantidades de olmos. Isto
é importante’ e, embora os programas dessa ordem possam muito
bem compreender os resistentes olmos europeus, eles dever ã o visar
boa variedade de espécies, de modo que nenhuma epidemia futura
venha a despojar qualquer comunidade de suas árvores. A chave
de urna comunidade saud ável de plantas* ou de animais, reside
nisso que o ecologista britâ nico, Charles EI tem denomina "com
p

serva ção da variedade '. O que est á agora acontecendo é, em


grande parte, resultado da falta de preocupa ções de ordem biol ó-
gica, das gera ções passadas. Ainda h á coisa de uma gera çã o,
apenas, ninguém sabia que encher amplas áreas com uma ú nica
espécie de á rvore equivalia a preparar o terreno para o surto
de um desastre. Em consequ ê ncia , inteiras cidades ornamentaram
suas ruas e pontilharam os seus parques com olmos; hoje, os
olmos morrem — e morrem também os pássaros.

Como o papo-roxo, outra ave norte-americana parece estar na


iminência da extin ção. Trata-se do simbolo nacional dos Estados

Unidos da á guia. A sua quantidade vem reduzindo-se de modo
alarmante, no decorrer deste ú ltimo decé nio. Os fatos sugerem

á guia

que alguma coisa est á atuando* no meio ambiente pr ó prio dessa
e que essa alguma coisa j á lhe destruiu* virtual mente, a
capacidade de reproduzir -se.. O que essa coisa possa ser* n ão se
sabe ainda ; mas h á alguma evid ê ncia de que os inseticidas sã o
responsáveis també m neste caso.
As águias ma í s intensa e ma is extensa mente estudadas, na
Am érica do Norte, t ê m sido aquelas que efetuam ninhadas ao
longo de um trecho da costa , desde Tampa até Fort Myers, na
costa ocidental da Fl órida . Ali, um banqueiro aposentado , proce-
dente de Winnipeg, chamado Charles Broley* conseguiu fama
127
ornitológica; o que ê lc fez foi aplicar an éis de identifica ção em
ma is de J .000 á guias calvas, jovens, durante os anos de 1930- 1949 .
(Sòmcnte 166 á guias tinham sido marcadas por essa forma , em
L õda a hist ória anterior da identifica çã o das aves). O Sr . Broley
marcou á guias e aguietas ; as aguietas foram marcadas durante os
meses do inverno, antes de elas deixarem os seus ninhos. Aves
marcadas, posteriormence recuperadas, mostraram que estas águias,
nascidas na Flórida, abrangem um habitat que se expande para
o norte, ao longo da costa, para dentro do Canad á, indo at é ã
Ilha do Pr íncipe Eduardo. E note-se que, antes, tais águias eram
consideradas n ã o- migr adoras. No outono, elas voltam para o sul ;
e sua migra çã o é observada de pontos hoje famosos, e que ofe-
recem grande vantagem para tal fim, corno os picos da Montanha
,

Hawk, na regi ã o leste da Pênsilvâ nia.


Durante os primeiros anos da marca ção, o sr. Broley costu -
mava encontrar 125 ninhos ativos por ano, no trecho de costa
que escolhera para o seu trabalho. O n ú mero dos filhotes mar *

cados, Lodos os anos, em cada ano, era de cerca de 150. Em


1917, a produção de pássaros jovens começou a declinar. Alguns
ninhos deixaram de conter ovos; outros continiram ovos que
deixavam de chocar. Entre os anos de 1952 e 1957 , cêrca de 80
por cento dos ninhos deixaram de produzir filhotes. No ú ltimo
ano deste per íodo, sòmerue 43 ninhos foram ocupados. Sete d ê les
produziram (oito aguietas); 23 continham ovos que não choca -
ram ; 13 foram usados apenas como postos de nutri çã o por águias
adultas, e n ã o continham ovos. Em 1958, o sr, Broley palmilhou
mais de 190 quilómetros da costa, antes de encontrar e colocar
o anel metá lico, de marca ção, numa aguieta. As águias adultas
que haviam sido vistas em 43 ninhos* em 1957, eram t ão escassas,
que êlc conseguiu observadas somente em dez ninhos.
Embora a morte do sr. Broley, ocorrida em 1959, terminasse
esta valiosa série de observa ções ininterruptas, os comunicados,
por obra da Sociedade Audubon * da Fl órida , bem como de New
Jersey e da Pê nsil vâ nia, confirmaram a tendência que bem
poderá tornar necessá ria, para nós, a escolha de nóvo emblema
nacional . Os relatos de Maurice ttrowxi, curador do Refugio da
Montanha Hawk, são especialmenLe significativos. A Montanha
Hawk é cume pitoresco, na regi ão sul da Pê nsilvâ nia, onde os
contrafortes extremo orientais das Apalacheanas formam uma
ú ltima barreira contra os ventos ocidentais, antes de se aplaina-
rem e se dissiparem na plan ície costeira. Os ventos, golpeando a
montanha , são desviados para cima, de inodo que, em muitos
dias de outono, há urna contínua corrente ascendente ; sô bre essa
m
corrente, os falcões e as águias, de asas amplas, pairam e voam
sou o menor esf ôr ço* percorrendo muitos e muitos quilómetros
da sua via migratória por dia. Na Montanha Haivk, os cabeços
convergem; e também convergem, em consequência, as vias aéreas
— os cursos atmosf éricos, O resultado é que, procedendo de amplo
-
território, ao norte, os pássaros atravessam este gargalo dc-garrafa
do tráfego .
Nos seus inais de vinte anus, passados na qualidade de custódio
do "santu á rio” ali existente, Maurice Brmvn observou, e de fato
tabulou, mais falcões e mais á guias, do que qualquer outro
norte-americano. O apogeu da migra ção da águia calva ocorre
.
em fins de agosto e em começos de setembro Presume-se que
sejam aves da Flórida, regressando ao território natal, depois de
.
passar um ver ão no Norte (Mais tarde, no outono e no comèço
do inverno, umas poucas grandes águias atravessam a região .
Admite-se que estas pertencem a certa raça originá ria do Norte,
viajando rumo a desconhecido lugar, pana o transcurso do in-


verno), Durante os primeiros anos depois da instala çã o do ref ú gio
de 1935 a 1939 —
40 por cento das á guias observadas eram
anejas, facilmente identificá veis |>ela plumagem uniformemente
escura . Entretanto, em anos mais recentes, estas aves imaturas se
tornaram raridade. Entre 1955 e 1959, passaram a compor apenas
29 por cento da contagem total ; e , em um ano, o de 1957 , só
havia uma á guia jovem , para cada 32 águias adultas.
As observações feitas na Montanha Hawk est ã o em harmonia
com os dados colhidos em outros lugares. Um relatório procede
de Elton Fawks, funcionário do Conselho dos Recursos Naturais

— —
de Illinois. As águias provavelmente realizadoras de ninhadas no
Norte passam o inverno ao longo dos Rios Mississipi e Illinois,
Em 1958, o Sr, Fawks relatou que a contagem então recente , de
59 águias, compreendera apenas uma ave imatura dessa espécie.
Indica ções semelhantes, da extin çã o da raça* procede do ú nico
refugio, ou "santuário ', do mundo, excJusívamente reservado a
á guias: o da Ilha Mount Johnson , no Rio Susquehanna. À ilha,
embora situada a apenas um 14 quilómetros da Repú blica de
Conowingo, e a cerca de uns oitocentos metros de distâ ncia do
litoral do Condado de Lancaster, conserva a primitiva caracter ís -
tica selvagem. Desde 1934 , o seu ú nico ninho de águias tem
estado sob observação, por parte do Professor Herbert H. Beck ,
ornitólogo de Lan ças ter e cust ódio do santu ário. Entre os anos

m
9 Primdver ú Silenciosa
de 1935 e 1047 ,. o uso daquele ninho foi regular e uniformemente
bem sucedido. A partir de 1947, embora águias adultas hajam

ocupado o citado ninho e há evidências de postura de ovos
nenhuma aguieta nova foi produzida.
Na Ilha Mount Johnson ,, tal como na Florida, pois, a mesma

situa çã o prevalece: h á relativa ocupação de ninhos pelas águias
adultas ; há alguma produ ção de ovos ; mas h á poucos filhotes, e,
LIS vezes , nenhum . Na procura de explicações para o fenômeno,
somente uma parece que se ajusta a todos os aspectos e a todos
os fatos» íi a de que d capacidade reprodutiva das mencionadas
aves foi r ã o abaixada por efeito de algum agente ambiental, que
agora quase que n ão há adições anuais de aguieLas* para manter
a continuidade existencial da ra ça»

Exata mente esla espécie de situa çã o foi produzida artificial-


mente, em outras variedades de aves, por v á rios experimentadores,
notada me nLe pelo Dr. James DeWitt, do Serviço de Peixes e Vida
Silvestre, doa Estados Unidos. As experiê ncias, agora clássicas, do
Dr. DeWitt, a propósito dos efeitos de uma série de inseticidas
em codorn í zes e faisões , estabeleceram o fato de que a exposição
ao DDT t: ás substancias qu í micas correlatas — mesmo quando
n ão produz males observáveis nas aves genitoras —
pode afetar
seria mente a reprodu ção, prejudicando-a , A maneira pela qual
o efeito se exerce pode variar : mas o resultado final è sempre
o mesmo. Por exemplo: uma codorniz , em cuja dieta se introduziu
DDT, durante toda a esta ção da cria , sobreviveu* e até produziu
n ú mero normal de ovas f érteis. Entretanto, poucos dos referidos
ovos chocaram. “ Muitos embriões pareceram desenvolver-se nor -
mal mente* durante os primeiros est ágios da incubação; mas mor
reram durante o per íodo da choca". Foi isto o que o Dr. DeWitt
-
assinalou. Dos ovos que chocaram* os filhotes respcctivos mor -
reram , na proporção de mais da metader dentro de cinco dias.
Em outras observa ções, em que tanto os faisões como as codorn í-
-
zes foram tomados para as experiências, verificou se que as aves
adultas n ão produziam ovos de jeito nenhum, se lhes f òsse pro
porcionada dieta contaminada por inseticida durame o ano todo .
-
Na Universidade da Calif órnia, o Dr. RoherL Rtidd e o Dr.
Richard Genelly comunicaram achados semelhantes. Quando os
faisões recebiam dieldrina através da respectiva dieta , “ a produ -
çã o de ovos era acentuadamente reduzida , e a sobrevivê ncia dos
filhotes se fazia escassa ". De conformidade com o que verificaram

130
ésses autores, o efeito retardado, por ém letal tios inseticidas,
sôbre as aves recém-nascidas, procede do armazenamento de diel -
iliina na gema do ôvo; ê da í que o veneno é gradativamente
. mimilado, durante a incubação e depois da choca .
Esta sugestã o é tortemente amparada pelos estudos recentes do
l > J . YVaJlace e de um estudante graduado» Kichard F, Bernard ;
èsLcs dois pesquisadores encontraram altas concentrações de DDT
-
em papos roxos, no "campus"' da Universidade do Estado de
JVlidiigarr Encontraram o veneno em textos os test ículos dos
p; ipos-roxos machos examinados ; no desenvolvimento de foliculos
de óvulos, nos ovários das fé meas; em ovos completos, poré m
não postos; nos ovidutos; nos ovos n ã o chocados de ninhos deser
tos; em embriões dentro de ovos; e em ninhadas reccn temente
-
chocadas, mas mortas .
Estes estudos importantes estabelecem o fato segundo o qual
o veneno insetiradico prejudica uma geração, uma vez removida
-
esta do contacto inicial com éle O armazenamento do veneno
no ôvo, na substâ ncia da gema que nutre o embriã o que se
desenvolve, é garantia virtual de morte; e explica o motivo pelo
qual tantas das aves do Dr. DeWítt morreram no ôvo, ou dentro
de poucos dias á pós a choca .
A aplica çã o de laboratório, destes estudos, às águias, apresenta
dificuldades que se fazem quase que insuperá veis; mas os estudos
em campo aberto se encontram agora em curso, na Fl órida, em
New Jersey e em outros Estados norte-americanos ; a esperan ç a
é a de que se conseguirão evidencias definitivas quanto ao agente
que vem causando a flagrante esterilidade da maior parte da
popula çã o de águias ali existente. Nesse entrementes, as evid ê n -
cias circunstanciais, agora disponí veis» sugerem que esse agente é
o inseticida. Em localidades em que os peixes são abundantes, os
peixes compõem a maior parte da dieta alimentar das águias
(cerca de 65 por cento no Alasca ; cerca de 52 por cento na á rea
da Ba ía de Chcsapcake). Quase que inquestionável mente, as
águias, por tanto tempo estudadas pelo sr. Hroley, eram comedoras
de peixes, em sua grande maioria. A partir de 1945, esta á rea
costeira, em particular, tem sido submetida a repetidas pulve
.
-
riza ções de DDT dissolvido em óleo combustí vel O alvo prin -
cipal da pulverização aérea foi o mosquito de pantanais salgados
— mosquito esse que habita os pantanais e as á reas costeiras que
constituem zonas t í picas de pilhagem por parte de águias. Peixes
e caranguejo*» foram mortos em quantidades enormes. As aná lises
de laboratório, dos seus tecidos., revelaram concentra ções de DDT
— na proporção de ate 46 partes por milhão* Como os mergulhões
do Lago de Clear, que acumulavam pesadas concentra ções de
res íduos de inseticidas., por se alimentarem de peixes do mencio -
nado lago, as águias também estão, corri toda certeza, armazenando
DDT, nos tecidos de seu corpo, 1£, como os mergulhões., os faisões,
as codorní zes e os papos- roxos, elas também se mostram cada vez
menos capazes de produzir filhotes e, portanto, de preservar a
continuidade de sua ra ça.

De todas as partes do Globo, chegam ecos do perigo que


amea ça as aves, no nosso mundo moderno* Os comunicados dife »

rem em pormenores, mas sempre repetem o tema da morte cia


vida silvestre, na esteira, ou na trilha , dos pesticidas. Tais são as
histórias de centenas de pequenos pássaros e de perdizes que
morrem, na Fran ça , depois cie as cepas das videiras serem tra -
tadas com erviridas que contêm arsénico, ou das perdizes da
Bélgica; éste pa ís foi, outroia, famoso pela quantidade de suas
aves, mas agora está destituindo-se tle perdizes , depois das pulve-
,

riza ções de inseticidas e de erviridas nas fazendas vizinhas das


á reas de cria ção.
Na Inglaterra, o problema de maior vulto parece que é de
ordem especializada, e que est á vinculado à prá tica cada vez ma is
intensa do tratamento das sementes com inseticidas, antes da
semeadura . O tratamento insetiridico das sementes n ã o é coisa
nova ; mas, nos primeiros anos, as substâ ncias qu í micas, que eram
principalmente usadas, constitu íam fungicidas. Nenhum eleito,
sòbre as aves, parece que foi notado. Depois, l á pelo ano de
1956, houve mudan ça do sistema; passou -se para o tratamento
-
de finalidade dupla ; além do fungicida , ad í cíonou se, ao com-
posto aplicado, ou dicldrina, ou aldrina, ou heptaeloro, para o
.
combate aos insetos do solo Da í por diante, a situa çã o modificou -
se para muito pior*
Na primavera de 1960, um dil ú vio de comunicados, relativos
a pá ssaros mortos, chegou às autoridades brit â nicas responsá veis
pelo trato da vida silvestre; figuram, entre tais autoridades, o
Brí tish ‘Tru.st for Ornithology (Custódia Brit â nica em Prol da
Ornitologia ), a Royal Society for the Protection o£ Birds (So -
ciedade Real Para a Proteçã o aos Pássaros) , e a Game Birds
m
ii m campo de batalha"

Association ( Associa çã o Para a Ca ça de Penas), "O lugar é como
escreveu um proprietá rio de terras de
Norfolk. 110 meu caseiro encontrou in úmeros cad á veres,, at é mes-
mo massas deles , de pequenos pássaros — tentilhões, verdelhões,
pintarroxos, accntores e pardais.,, A destrui çã o da vida silvestre
-
é de inspirar dóM Um guarda-ca ça escreveu: "Minhas perdizes
foram eliminadas; eliminados també m foram os faisões e todos
os outros pássaros: centenas de pássaros foram mortos,.. Na qua -
lidade de guarda -ca ça , que estêve nessa fun çã o a vida tôda , esta é
uma experiê ncia desanimadora para mim. É triste ver pares de
perdizes que morreram juntas” .
Em um comunicado conjunto, o British Trust for Ornithoíogy
e a Royal Society for the Protect íon oF Rirds descreveram umas
ti7 matanças de pássaros — o que constitui lista longe de ser
completa, a propósito da destrui ção que ocorreu na primavera
de 1960. Destas 67 matan ças, 59 foram ocasionadas pelo trata-
mento de semente ; 8, por pulveriza ções t óxicas.
Uma nova onda de envenenamento se verificou no ano seguinte.
A morte de 600 pá ssaros, numa ú nica propriedade, em Norfolk ,
foi comunicada ã Câ mara dos Lordes; e cem faisões morreram ,
numa fazenda, em F.ssex do Norte. Logo se tomou evidente que
ma is condados estavam envolvidos no episódio, do que em 1960
(34 , comparados a 23) , O Lincolnshire, eminentemente agrícola,
parece que foi o que ma is sofreu * pois os relatos lhe davam
10.000 pássaros mortos. Contudo, a destruiçã o afetou íõda a In -
glaterra agrícola, desde Angus, ao norte, até ComuaJha , ao sul*
e desde Anglesev, a oeste, até Norfolk a leste.
Na primavera de 1961, a preocupa çã o atingiu tamanho apogeu,
que uma comissão especial da Câ mara dos Comuns procedeu a
investiga ções sô bre o assunto; a comissã o tomou o depoimento
de fazendeiros , de donos de terras e de representantes do Minis -
t é rio da Agricultura , bem como de v á rias repartições governa-
mentais e de v á rios setores n ã o-governamentais, interessados na
preserva ção da vida silvestre.
MHá pombos que caem s ú bita mente dos cé us ao ch ã o, mortos"
— declarou uma testemunha . "Pode-se viajar ao longo de 150 a


350 quil ómetros, para fora de Londres, e nao avistar sequer um
francelho" relatou outra. " N ã o tem havido paralelo* no século
presente, nem em qualquer outro tempo, de que eu tenha conhe-
cimento; e nlo há d ú vida: esta é a maior amea ça que jamais se
m
nosso pais”

delineou contra a vida silvestre e contra os animais de ca ça, em
testemunharam os funcion á rios do Setor de Con
serva ção da Natureza ,
-
Ás instala ções, para a an á lise qu í mica das v í timas, se revelaram
de todo inadequadas para a tarefa ; sé havia dois qu í micos, na
regi ão, capazes de realizar os testes necessá rios. Um era o qu í mico
do governo ; o outro estava a serviço da Royal Society for the
Protection of Iiirds. As testemunhas referira ni-se a enormes fo-
gueiras, nas quais os corpos dos pássaros vitimados eram. queima-
dos. Contudo, real ízaram -se esfor ços para se coletarem as careas-
sas, para exame; dos pá ssaros analisados, sòmeme um n ão conti -
nha res íduos de pesticida. Esta ú nica exceçã o era uma narceja ,
isto é, unia ave que n ã o se alimenta de sementes.
Juntamente com os pássaros, também as ra posas devem ter sido
afetadas, provàvelmente de modo indireto, por comerem ratos e
pássaros. A Inglaterra , assolada pelos coelhos, precisa muito de
rapôsas* que sã o animais predadores. Entretanto, os meses de
novembro de 1959 e abril de 1960 , pelo menos 1.800 rapôsas
morreram. As mortas foram ma is numerosas nos mesmos condados
dos quais os gaviões, os francelhos e outras aves de rapina tinham
virtual mente desaparecido. Isto sugeria que o veneno estava di-
fundindo-se atra v ós da cadeia dos alimentos, ç abarcava desde os
comedores de sementes, até aos carn í voros tanto de pêlo como
de penas, O espet á culo das raposas moribundas repetia o dos
animais envenenados por inseticidas de hidrocarboneto clorado.
As rapôsas eram vistas a vaguear , descrevendo círculos, estontea
das e meio cegas, antes de morrer tomadas pelas convulsões.
-
Os depoimentos convenceram os membros da comissão de que
a amea ça ã vida silvestre era "das ma ís alarmantes” ; de confor-
midade com isso , a citada comissão recomendou, à Câ mara dos
Comuns, que "o Ministro da Agricultura e o Secretá rio de Estado
para a Escócia determinassem a proibição imediata , para uso na
forma de tratamento e revestimento de sementes, de compostos
qu í micos que contivessem dieldrí na, aldrina ou heplacloro, ou ,
ainda , subst â ncias qu í micas de toxidez equivalente' . A comissão
1

també m recomendou que as substâ ncias qu í micas íòssem adeqtia-

acentuar — —
darnente comprovadas, tanto nos campos como em condi ções de
laboratório, antes de ser lan çadas no mercado. Isto vale a pena
ó um dos grandes pontos cegos, isto é , n ão levados
em considera çã o, na pesquisa de pesticidas, por t ôdas as partes
3 34
<Jn mundo. Os testes comuns, de laboratório, efetuados por ordem
dos fabricantes de inseticidas, com animais próprios para estudos
de gabinete — —
ratos, cachorros, cobaias não incluem variedades
silvestres; n ã o incluem pá ssaros, como norma; nem peixes; e são
levados a cabo sob condi ções controladas, e * portanto, artificiais.
A aplica çã o posterior da substâ ncia, á vida silvestre, em pleno
dom í nio da Natureza , c tudo, menos precisa.
A Inglaterra n ã o é, de lonna alguma, a ú nica na çã o que se
vê a bra ços com o problema da proteçã o dos pássaros contra as
sementes tratadas por inseticidas. Nos Estados Unidos, o problema
tem sido embaraçador, nas áreas de cultivo de arroz, seja da
Calif órnia , seja do Sul do país. H á já bom n ú mero de anos, os
produtores de arroz, da Calif órnia, vem tratando sementes com
DDT, a tf tido de proteçã o contra girinos e min ú sculos crust áceos,
bein como contra escaravelhos, que por vezes danificam as .se -
meaduras de arroz . Os esportistas da Calif órnia têm gozado de
excelente á rea de caça, devido âs grandes concentrações de aves
aqu á ticas e de faisões, que se verificam nos arrozais. Entretanto,
no decénio passado, numerosos comunicados, relativos a peidas
de p ássaros e de aves em geral , particularmente de faisões, de
patos e de melros, t ê m chegado, procedendo de regiões produtoras
de arroz. A "doen ça do faisão” tornou -se fen ómeno bastante
conhecido: as aves “ procuram a água, ficam paralisadas, e s ã o

mendo”

encontradas, à beira dos córregos e dos canteiros de arroz, tre-
ao que assegura um observador , A "doen ça" aparece
na primavera, na é poca em que os campos de arroz são semeados.
A concentração de DDT, usada no tratamento das sementes de
arroz, equivale a muitas v êzes a quantidade bastante para matar
um faisã o adulto.
Passaram -se uns poucos anos, e o desenvolvimento de inseticidas
ainda mais venenosos serviu para aumentar os riscos que decor-
rem de sementes tratadas A aldri íia, que é 100 vézes mais t óxica
*

do que o DDT , para os faisões, est á sendo agora ampla mente


usada como recurso de revestimento de sementes. Nos arrozais
da á rea oriental do Texas, esta prá tica reduziu sèriamente as
popula ções de patos fulvos arborkolas, que é um gê nero de pato,
-
de côr castanha amarelada, parecido com ganso, da Costa do
Golfo. Com efeito, h á algumas razões para se pensar que os
plantadores de arroz, depois de encontrar o meio de reduzir as
popula ções dos melros, estã o recorrendo ao mencionado inseti -
133
rida. para finalidade dupla, com efeitos desastrosos sôbre v á rias
espécies de aves que habitam as vizinhan ças dos arrozais.
Na medida em que o h á bito de matar cresce
—h á bito êsse que
se resume em procurar "erradicar ’ ' todo ser animal que nos possa
aborrecer, ou se nos afigure inconveniente — as aves vã o tor-
nando-se, cada vez mais , alvo direto dos venenos, e não mais alvo
apenas acidental. Há uma tend ê ncia cada vez mais pronunciada
no sentido do emprego de aplica ções aé reas de venenos mortais,
como, por exemplo, o parati ã o para "controlar'' concentrações
de aves que possam afigurar-se desagrad á veis aos fazendeiros. O
Serviço de Peixes de Vida Silvestre achou necessá rio manifestar
a sua séria preocupa çã o a respeito dessa tendência; e fez. observar
que "as áreas tratadas a para ti ao constituem risco potencial para
seres humanos, para animais dom ésticos e para animais silves-
tres” , Na á rea sul de indiana, por exemplo, um grupo de fazen -
deiros se formou , no verão de 1959, para empreender o aluguel
de um avi ã o próprio para pulveriza ções de planta ções; a fina -
lidade era tratar com inseticida uma á rea de baixada ribeirinha ;
e o inseticida era o paratiã o, A á rea era o lugar preferido para
ninhadas de milhares de melros, que se alimentavam nos milha -
ra ís das redondezas, O problema poderia ter sido solucionado por
meio de ligeira modifica çã o dos costumes agr ícolas: bastaria passar
para uma variedade de milho de espigas dispostas em profundi-
dade, e* por isso, n ã o acess í veis aos pá ssaros. Os fazendeiros,
entretanto, tinham sido persuadidos dos m é ritos da extin çã o av í-
cola por meio de venenos ; e por isto mandaram que o avi ã o
alugado prosseguisse na missã o de espalhar a morte *

Os resultados, com toda probabilidade, satisfizeram os fazen -


,

deiros; as mortes de pássaros, que se registraram, compreenderam


cerca de fiõ.000 melros de asa vermelha e estorninhos. Outras
prová veis perdas* cm vidas de animais silvestres, passaram àem
ser assinaladas; e o n ú mero, portanto, é desconhecido,
O parati ã o n ã o é espec í fico contra os melros; trata -se de ma
tador de gama , ou espectro, universal , Assim* os coelhos, os gua -
-
xinins e os gambás, que talvez estivessem perambulando pela
baixada ribeirinha , e que provà velmente nunca visitaram os mb
lharais dos referidos fazendeiros, foram condenados à extin ção,
por um juiz e por um corpo de jurados que nem sabiam da
exist ência deles* nem se incomodavam com tal exist ê ncia.

m
E o que se dirá quanto aos sê res humanos? Na Calif órnia, os
pomares pulverizados com o mesmo parati ão passaram a constituir
amea ça: os trabalhadores que ali desenvolviam suas atividades, e
que lidavam com a folhagem tratada por esse inseticida um mê s
untes, sofreram colapso e entraram em estado de choque: e só
escaparam da morte devido a há bil e pronta aten ção médica.
Ser á que o Estado de Indiana ainda est á criando rapazes que
corram ao lé u, através dos bosques e dos campos, e que cheguem
mesmo a explorar as margens de um rio? Em caso positivo, quern
foi que montou guarda à área envenenada, a fim de evitar que
algum transeunte entrasse nela , na enganosa procura de uma
Natureza nã o contaminada ? Quem foi que manteve vigilâ ncia
cont í nua, para dizer, ao passante inocente, que os campos, em
que estava na imin ência de entrar, se encontravam letalmente

envenenados com t õda a sua vegeta çã o revestida de uma película
mortal de substâ ncia qu í mica portadora de morte? Ainda assim,
com um risco t ão pavoroso, os fazendeiros dali, sem ter ningué m
que os contivesse, levaram avante a sua desnecessá ria guerra con-
tra os melros.
Em cada. uma destas situa ções, a gente se volta para ponderar
sõ bre uma interrogativa: Quem foi que tomou a decisã o que
pôs em movimento estas cadeias de envenenamento, esta onda
cada vez mais ampla de morte que se espalha , como círculos con-
cê ntricos formados quando uma pedra é atirada em lago tranqui-
lo? O nem foi que colocou , nuin dos pratos da balan ça , as f òlhas
que podem ser comidas pelos escaravelhos, e, no outro, os montes
estarrecedores de penas multicoloridas, restos inertes de pássaros
que tombaram, por efeito dos venenos í nseticídicos, de substâ ncias

direito de decidir
— —
não selecionadoras? Quem foi que decidiu quem é que tem o
em nome de incontá veis legiões de pessoas
que nã o são consultadas que o valor supremo é um mundo sem
insetos, ainda que venha a ser um mundo esté ril , destitu ído da
gra ça decorativa de uma asa encurvada, de um pássaro em voo?
A decisã o é do indiv íduo autorit á rio, temporà riamente investido
de autoridade; cie tomou essa decisã o durante um momento de
desaten çã o, em nome de milhões de cidadã os para os quais a
beleza e o bem ordenado inundo da Natureza ainda tem um
significado que é profundo e imperioso.

137
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9 . Rios de Morte
DAS VKRIJF- S PROFUNDIDADES du Atlâ ntico distante do litoral, mui-
tos rumos conduzem de volta à costa . Sã o como que trilhas
seguidas pelos peixes; embora nã o vistas e intangí veis, elas est ã o
ligadas ao fluxo da á gua que se projeta no mar, procedendo dos
rios costeiros. Ao longo de milhares e milhares de anos, o salm ã o
conheceu e seguiu essas trilhas de á gua doce que os conduzem de
volta aos rios; cada salm ã o regressa ao tributá rio em que passou
os seus primeiros meses ou os seus primeiros anos de vida . Assim ,
no verão e no outono de 1953, o salm ã o do rio chamado Mira -
michi , na costa de New Brunswick, voltou novamente às suas
águas, procedendo das suas á reas de alimenta ção situadas em
pleno Oceano Atlâ ntico; e subiu a correnteza do seu rio natal.
Nas cabeceiras do Miramichi , nos cursos de água que se reú nem
para formar ampla rede de riachos ensombrados* o salm ão depo-
S í L ú U seus ovos, nesse outono* em leitos de pedregulho* por cima
do qual o fluxo de á gua deslizava , r á pido e fresco. Os lugares
dessas cabeceiras, d êsses cursos de á gua e dêsses riachos, que
constituem a linha divisória de águas das grandes florestas coní-
feras de abetos e de bálsamos, de cicuta e de pinheiros, propor-
cionam a espécie de campo de desova de que o salm ã o precisa , a
fim de sobreviver.
Estes acontecimentos repetiram um paradigma de longa data:
um paradigma que fizera, do Miramichi, uma das maU notá veis
correntezas de salm ã o da Amé rica do Norte. Naquele ano porém,
o paradigma estava para ser desfeito . *

Durante o outono e o inverno, os ovos de salmão, grandes e


de casca espessa, ficavam em cochos rasos, cheios de seixos, ou
sulcos de desova, que o peixe- m ã e cavava no leito da correnteza.
-
No frio do inverno, as ovas desenvolviam se devagar, como em
do seu feitio; e sòmente quando a primavera finalmente provo-
cava o degelo e o deslizamento dos cursos de água da floresta,
é que os filhotes repontavam. No começo, os filhotes escondiam
-
se por entre os seixos do leito do rio
— pequenos peixes de
pouco mais de um cent í metro de comprimento. N ã o tomavam
alimento algum , vivendo, como viviam , dentro do saco formado
pela gema do ôvo. Sòmente depois de a gema ser absorvida é que
os filhotes começavam a i ercorrer as águas do curso, em busca
de pequenos insetos. ^
Em companhia dos salm ões recém - nascidos, no Miramichi, na-
quela primavera de 1954, estavam pequenos salm ões de desovas
anteriores, com um ano ou dois de idade; eram peixes novos,
envoltos em revestimentos brilhantes, marcados por barras e por
pontos vermelhos muito vivo»* Estes pequenos salm ões alimen-
tavam -se vorazmente, procurando, com avidez, a vida estranha e
variada de insetos da correnteza.
Quando o ver ã o se aproximou, tudo isto foi modificado. Na
quele ano, o divisor de á guas da á rea Noroeste de Miramichi
-
foi inclu í do num vasto programa de pulveriza çã o, que o gòv é rno
canadense havia empreendido um ano antes; era programa des
tinado a salvar as florestas do verme dos brotos do abeto. O
-
verme do broto é inseto nativo, que ataca vá rias espécies de
plantas sempre verdes. No setor oriental do Canad á , parece que
êste inseto se faz extraordin á riamente abundante a cada período
de cêrca de 35 anos. O comêço da quadra de 1950 60 assinalara
/
uma destas erupções de abund â ncia do referido inseto.
Para combater o fen ômeno, deu -se in ício à pulverização da
á rea com DDT; primeiro, em pequenas doses espa çadas; depois,
de s ú bito, em doses mais concentradas e a intervalos mais breves,
em 1953. Milh ões de acres (cada acre mede 4.047 metros quadra-
dos), de florestas* foram pulverizados, ao invés de milhares, como

140
anteriormente; c tudo foi feito num esf òrço para salvar os bá l-
samos, que sã o o sustentá culo principal da ind ú stria de pôlpa e
de papel .
Assim, em 1954, no mês de junho, os aeroplanos visitaram as
florestas do noroeste de Miramichi ; e nuvens brancas, de bruma
que descia ao ch ã o, marcaram o cruzamento e o recruzamento
da trajet ória dos vôos daqueles aviões , A pulveriza ção

porção de meio quilo para cada acre, ou 4.047 metros quadrados,

em solução de óleo £iltrou-se, escoando-se através das florestas
na pro-

chão
— —
de bálsamos; certa quantidade dessa soluçã o chegou, por fim , ao
e também ás á guas correntes. Os pilotos dos aviões pul -
verizadores com o pensamento pôsto apenas na tarefa que lhes
Fôra designada — n ão fizeram esf ú rço algum para evitar os rios,
nem para fechar os tubos de descarga da substâ ncia qu í mica en -
quanto voavam por cima deles; visto, porém, que as pulveriza ções
mudam de rumo e v ã o para t ão longe, ao ma is leve movimento
do ar atmosf é rico, é possí vel que o resultado final fosse muito
pouco diverso, se os mencionados pilotos houvessem voado com
ma ís cautela.
Logo depois da cessa çã o das pulveriza ções , revelaram-se ind ícios
inequ í vocos de que nem tudo correra bem. Dentro de dois dias,
encontraram-se, ao longo das margens das correntezas, peixes ora
mortos, ora moribundos. Trutas de riachos també m apareceram
entre os peixes mortos; ademais, ao longo das estradas e nos bos-
ques, havia pássaros que estavam morrendo. Tôcla a vida dos
cursos de água foi eliminada. Antes das pulverizações, houvera
por ali uma rica diversidade de vida aquá tica, que formava o
alimento do salm ã o e da truta : larvas dc friganas* vivendo em
esconderijos folgadamente protetores, feitos de folhas, de caules
ou de seixos, tudo cimentado com saliva ; crisá lidas de môsca -da -
pedra , apegando-se à s rochas para se defender do remoinho da
corrente ; e larvas semelhantes a vermes, da mosca negra , beirando
as pedras, por baixo de parcé is, ou nos pontos em que a corren-
teza se despeja por cima de rochas dc inclina çã o í ngreme. Agora,
poré m, os insetos da correnteza estavam mortos, como que assas-
sinados pelo DDT; e nada havia para o salmão jovem comer.
Em meio a semelhante quadro de morte e de destruição, mal
se poderia esperar que os próprios salm ões jovens escapassem ; e
n ã o escaparam. Lá pelo m ês de agôsLo, nenhum , dos salm ões
jovens que haviam emergido dos leitos de seixos naquela pri
mavera , restava. A desova de um ano inteiro tinha desembocado
-
em nada. Os filhotes ma is velhos, os que haviam repontado um
-

ano antes, ou pouco mais, conseguiram sair um pouquinho me
lhor mas um pouquinho apenas. Para cada seis salmões jovens,

141
da desova de 1953, que haviam buscado alimento nos cursos de
água , enquanto os avi ões se aproximavam, somente um ainda
existia. Os salmões
tos para rumar em
jovens, da ninhada de 1952, quase que pron
direção ao mar, perderam um ter ço de sua
-
quantidade.
Todos estes Fatos Sí LO conhecidos porque a Junta de Pesquisa
de Peixes, do Canadá, estivera realizando estudos sobre os salm ões,
TIO noroeste de Miram ichi , desde 1950. Todos os anos, a Junta
havia procedido ao recenseamento dos peixes que viviam nas
águas do citado Rio Miramichi. Os registros tios biologistas abar
cavam a quantidade dos salm ões adultos que subiam , para desovar
-
— a quantidade dos Filhotes de cada desova e de cada grupo de
idade, presentes na correnteza — e a popula ção normal, n ão
sò mente dos salm ões, mas també m de outras espécies de peixes
que habiLavam aquelas á guas. Com este completo registro das
condições anteriores à pulverizaçã o, tornou -se possí vel medir o
preju ízo causado pela mencionada pulverização —e medi-lo com
uma precisã o que raramente pôde ser igualada em qualquer
outra parte.
A pesquisa mostrou ma is do que a per d a dos peixes novos;
revelou sé ria mudança ocorrida nas pr ó prias á guas do rio. Pul -
verizações repetidas agora alteraram completamente o meio am-
biente da correnteza; e os insetos aquá ticos, que são o alimento
do salm ã o e da truta., foram destru ídos. Muito c muito tempo se
requer, mesmo depois de uma ú nica pulveriza çã o, para que a
maioria dos mencionados insetos se cric em quaiiLidade suficiente
para alimentar uma popula ção normal de salmões: tempo que
se mede em anos , nã o em meses.
As espécies menores de tais insetos, como o mosquito pólvora
e as moscas negras, tornam a implan Lar-se de modo ma is ou menos
rápido. Estas espécies constituem alimento adequado para os sal -
m ões de menor tamanho, que sã o os filhotes de apenas uns poucos
meses de idade. Todavia » nã o há recupera çã o igualmente rápida
no caso dos insetos aqu á ticos maiores, de que dependem os
salm ões também maiores, entre o segundo e o terceiro anos de
existê ncia. Èstes insetos maiores são a frigana , as môscas-de-pedra
e os efémeros, em estado ainda larval. Mesmo no segundo ano
depois da penetra ção do DDT numa correnteza, um salmão novo,
em busca de alimento, teria dificuldade cm encontrar algo ruais
do que uma ocasional e pequena niàsca-da- pedrsL N ã o poderá
haver mostas-da - pedra , nem ef é meros, nem fri ganas de tamanho
grande. Num es íôr ço para proporcionai este alimento natural, os
canadenses tentaram transplantar larvas dc friganas e de outros
insetos plecó pteros para as cabeceiras á ridas do Miramichi , To -
142
cia via , como é claro, as larvas transplantadas poderiam ser varia *

das dali por qualquer nova repetição das pulverizações *

As popula ções tios vermes de brotos, ao invés de se reduzirem


como se esperava , mostraram-se refratá rias; e, de 1955 a 1957 , a
pulverização foi repetida era vá rias partes de New Brunswick
e de Quebec; alguns lugares da á rea foram pulverizados até tr ês
vezes. Li pelo ano de 1957, cerca de 15 milhões de acres (perto
de 69.729 quilómetros quadrados) já haviam sido pulverir ^s.
Embora a pulverizaçã o tenha sido então suspensa , a tituk le
ipntativa , uma s ú bita eclosão de vermes de brotos conduziu à
retomada da aplicação de inseticidas, eru 1969 e em 1961. Com
efeito, n ão há evidencia alguma, em lugar nenhum , de que a
pulveriza ção de substâ ncias qu í micas constitua mais do que expc «

diente tempor á rio (com o propósito de poupar á rvores, evitando


que elas morram por via de desfolha mem o atrav és de vá rios anos
sucessivos); assim , o infeliz eleito lateral da pulverização conti-
nuar á a ser sentitio, na medida cm que as pulverizações conti-
nuarem a ser feitas.
Num esfor ço destinado a reduzir a destruição dos peixes, os
funcion á rios florestais do Canad á reduziram a concentra ção de
DD 1’, de um quarto de quilo, anteriomiente usado , para um
oitavo de quilo, por acre (4.047 metros quadrados), sob reco-
menda çã o da Junta de Pesquisa em Torno do Peixes. (Nos Es-
tados Unidos, ainda prevalece o padrã o alta meu te mortí fero de
meio quilo de DDT por acre). Agora, depois de vários anos de
observa çã o dos efeitos das pulveriza ções, os canadenses encontram
-
uma situaçã o confusa e complexa mas é situa çã o que proporciona
pouco conf ôrto aos devotos da pesca do salm ã o, se as pulveri -
za ções continuarem.
Unta combinação bastante inusitada de circunstâ ncias vem
salvando, por enquanto, os cursos tle água do noroeste de
Mira mi chi. da destruiçã o que f òra antecipada, ou prevista ; trata -
se de uma constela çã o de ocorrê ncias que podem n ã o acontecer
-
de novo , no decorrer de todo um s ilo. É importante compreen -
r

der o que foi que aconteceu ali, <i as razões que contribu í ram
para isso.
Em 1954, como vimos, as águas divisórias d ês te ramo do
Miramichi foram pesada mente pulverizadas. Da í por diante* com
exceçã o de uma estreita faixa pulverizada em 1956 , toda a parte
superior destas águas divisórias foi exclu ída do programa de pul -
veriza ção. No outono de 1954 , uma tempestade tropical desem-
penhou o seu papel, com relação aos destinos do salmã o tio
Miramichi.
m

O furacão Edna
sua marcha para o norte

violento vendaval, até a extremidade da
provocou chuvas torrenciais nas
costas da Nova Inglaterra e do Canadá. Os córregos de água doce ,
da í resultantes, levaram reabasteci mentos frescos as correntezas
que rumavam para o seio do mar, e permitiram a volta de
quantidades desusadas de salmão. Em consequência , os lei LOS de
seixos, tios rios, que o salmão procura para a desova , recel>era (n
abundâ ncia inusitada de ovos. Os novos salm ões, chocados no
noroeste Miiamichi , na primavera de 1955* encontraram circuns-
t âncias prà ticamente ideais para a sua sobrevivê ncia , O DDT
tinha matado todos os insetos da correnteza, no ano anterior ;
mas os insetos menores, como o mosquito pólvora e as moscas
negras, tinham voltado em grande quantidade. Estes insetos me-
nores constituem o alimento normal do salm ã o filhote, O salmão
de um ou dois anos de existência encontrou, nesse ano, n ã o
sémen te alimento abundante, mas também poucos competidores
na disputa d êsse alimento. Isto decorreu do fato sombrio segundo
o qual o salmã o ainda nôvo, poré m mais idoso do que o da
gera ção posterior, tinha sido morto pela pulveriza ção de 1954,
Em consequência, o salmão jovem de 1955 cresceu muito rapida
mente, e sobreviveu em quantidades cxcepeiona ís. Êsse salmã o
-
completou depressa o seu crescimento em água de rio, e foi para
o mar mais cedo. Muitos exemplares dessa geração voltaram em
1959, e proporcionaram enormes quantidades dc filhotes ás á guas
natais.
Se as cabeceiras do Miramich í de noroeste ainda se encontram
em boas condi ções, isso se dá porque a pulveriza çã o foi efetuada
apenas num ano. Os resultados das pulverizações repetidas podem
ser darame n te vistos em outros córregos das á guas divisórias, onde
est ão ocorrendo decl í nios alarmantes nas quantidades de salm ões.
Em todos os rios pulverizados, os salm ões jovens, de todos os
tamanhos, são escassos. Os ruais novos sã o, com frequ ê ncia, "var-
ridos da existência"* ao que relatam os biólogos. No curso prin -
cipal do Miramich í de sudoeste, que foi pulverizado em 1956 e
em 1957 , o rendimento da pesca foi o menor de todo um decé nio.
Os pescadores notaram a extrema escassez de salmões jovens
o grupo mais jovem de regresso do mar. Na armadilha de triagem

de amostras, existente no estuá rio do Miramich í, a contagem dos
salmões novos correspondeu, cm 1959, a apenas um quarto da
efetuada em 1958. Em 1959, todo o sistema do Miramichí produ -
ziu somente cerca de 600,000 ' smolts ', isto é , pequenos salm ões,
de cêrca de dois anos, que descem para o mar. Isto correspondeu
a menos de um terço das quantidades dos três anos anteriores.
144
Em confronto com semelhante panorama* o futuro das pescas
de salm ã o, enq, New Brunswick, pode muito bem depender de se
encontrar um substituto para a inundação de florestas tom DDT*
â situa çã o do Canad á oriental n ã o é ú nica * exceto, talvez ,
quanto á extensã o das pulveriza ções de florestas, e i riqueza de
fatos que puderam ser coligidos. O Estado do Maine, também,
possui suas florestas de abetos e de bálsamos — como possui ,
igualmente, os seus problemas de controle tios insetos florestais.
O Maine, també m, possui seus rios com salmões — remanescentes
das magn í ficas correntezas de outros tempos; mas são remanes-
centes arduamente conquistados pelo trabalho de biólogos e de
coxiservacion ístas, no sentido de poupar um setor, pelo menos ,
do habitat do salmã o, em correntezas sobrecarregadas de poluição
industrial , e sufocadas por troncos de árvores. Embora a pulve-
rizaçã o haja sido provada, como arma contra o ub íquo verme
dos brotos, as á reas afetadas foram relativa mente pequenas, e
n ã o compreenderam, por enquanto, correntezas de desovas para
salm ões. Mas o que aconteceu a peixes de correnteza, numa á rea
observada pelo Departamento de Caça e Pesca, do Estado do
Maine , cônsul ui, talvez, admoesta çã o a respeito das coisas que
poder ão vir,
“ Imedíatamcntc após a pulveriza çã o de 1958
citado Departamento — — comunicou o
foram observados peixes sugadores — tais

como o bagre, o mandi, o cascudo j á nas proximidades da morte*
e em quantidades extraordin á rias , no Tio Big Goddard . Êstes
peixes exibiam os sintomas t í picos do envenenamento por DDT;
nadavam erraticamente, respiravam com dificuldade e à superf í-
cie da água , c eram pr êsas de tremores e de espasmos. Nos pri-
meiros dias depois da pulveriza ção, 6G8 dos referidos peixes,
mortos, foram recolhidos de duas redes de bloqueio. Barrigudi
nlios e sugadores foram mortos, em grande n úmero, nos rios Lktle
-
Goddard , no Garry, no Alder e no Blake. Muitos peixes foram
por vezes avistados flutuando passivamente pela correnteza abai-
xo, em condi çã o de fraqueza e mesmo de agonia. Em numerosos
-
exemplos, encontraram se trutas cegas e moribundas, també m
Mutuando passivainente correnteza abaixo, inais de uma semana
depois da pulveriza çã o".
O fato de que o DDT pode causar cegueira em peixes é
tonfirmado por vá rios estudos. Um biologista canadense, que
observou pulveriza ções feitas na á rea norte da Ilha de Vancouver,
cru 1957, comunicou que pequenos filhotes de trutas, normaI-
mente vorazes, podiam ser apanhados e retirados dos rios a mã o;
e isto porque se moviam lenta e pesadamente, sem fazer tentativa

145
10 Pnmâ vera Siiençí psa
alguma para escapar. Submetidos a exame, tais peixinhos, ao que
se verificou, estavam com uma pel ícula branca, opaca , a cobrir -
lhes os olhos, indicando que a faculdade da visão havia sido per
turbada, ou destruí da. Os estudos de laboratório, feitos pelo
-
Departamento de Peixes do Canad á, revelaram que quase todos
os peixes (salm ã o Coho) , n ã o mor Los, de fato, pela exposiçã o a
baixas concentrações de DDT ( tr ês partes por milhã o), acusaram
sintomas de cegueira , com acentuada opacidade do cristalino.
Seja onde f ôr que existam grandes florestas, os modernos mé to-
dos de controle contra insetos ameaçam os peixes que habitam
as correntezas cujas águas passam por baixo do abrigo das á rvores.
Um dos mais conhecidos exemplos de destrui çã o de peixes, nos
Estadas Unidos, ocorreu em 1955, como consequ ência da pulve-
riza çã o do Parque Nacional de Yellowslone e suas redondezas,
Lá pelo outono desse ano, encontraram -se tantos peixes mortos,
no Rio Yellowslone, que os esportistas e os administradores do
setor de ca ça e pesca, de Montanha, se sentiram alarmados. Uns
150 quilómetros de percurso do rio tinham sido afetados pela
.
pulveriza ção Num trecho de uns 300 metros de extensã o, da
linha marginal, contaram se 600 peixes mortos, incluindo-se entre
eles trutas marrons, savelhas, bagres e cascudos. Os insetos aqu á
ticos, que são o alimento natural das trutas, tinham desaparecido.
-
Os funcionários do Serviço Florestal declararam que tinham
agido de acôrdo com o conselho que lhes f òra dado, segundo
.

o qual a proporção de meio quilo de DDT, por acre (4.047


metros quadrados), era segura. Contudo, os resultados da pulve-
riza çã o deveriam SCT bastantes para convencer qualquer pessoa de
quer o conselho estivera longe de ser correto. Uni estudo coopera-
tivo foi começado em 1956, pelo Departamento de Caça e Pesca ,
do Estado de Montana, mais duas repartições federais: o Servi ço
de Peixes c Animais Silvestres e o Serviço Florestai. A pulveri-
za çã o, naquele ano, abrangeu 900.600 acres (cerca de 3,644 quil ó-
metros quadrados) ; outros £00.000 acres (cêrca de 3, 280 quiló-
metros quadrados), em 1957 , Os biologistas não tiverarn dificul
dades, portanto, para encontrar á reas de estudo.
-
Em todos os casos, o paradigma da morte assumiu forma carao
ter ística: cheiro de DDT pelas florestas ; pel ícula de óleo à super
f ície das á guas; trutas morta!; ao longo das margens. Todos os
-
peixes analisados, vivos ou mortos, tinham armazenado DDT em
seus tecidos. Como acontecera no setor oriental do Canad á , um
rios mais sírios efeitos da pulveriza çã o foi a redu ção severa dos
organismos que servem de alimento natural aos peixes. Em mui -
tas á reas de estudo, os insetos aqu áticos, bem como outros repre-
se ntantes da fauna de fundo de rio, foram reduzidos a menos de

14S
uiii í|i - í irno de sua quantidade normal . Uma vez destru í das , as

I - ml
'| . iy )t!s de tais insetos, tão essenciais à sobreviv ência das tru
< 1 u querem longo tempo para a sua reconstituição. Até mesmo
.
-
h pelo fim do segundo verão depois da pulverização* apenas es »

i . i v , , i i quantidades de insetos aqu á ticos se haviam recomposto; e


*
— anteriormente muito rico em fauna de fundo de leito

1 1 1 mi i j ( j

1 1 ii renteza mal se conseguiu encontrar alguma quantidade


li . ' * referidos insetos . Nesse rio, ein particular » os peixes apreciados
petos [ jcscadores foram reduzidos na proporção de 80 por cento.
Os peixes não morrem necessária mente de imediato. Na ver-
l ; ni <\ a mortandade retardada pode ser muito ma is extensa do
que a matan ça imediata; e, ao que os biologistas de Montana
descobriram» a mortandade pode passar sem registro» porque
uí orre depois da estação da pesca. Muitas mortes ocorreram , nos
nos cm estudo , entre os peixes que desovam no outono, incluiu1
i l í i st entre ê les as trutas marrons, as trutas de regato e as save -

II Las. Isto nao surpreende, porque, em fases de estafa fisiológica ,


os organismos

trate -se de peixe, ou de homem — retiram da
própria gordura a energia que consomem . Isto expõe os mesmos
organismos, com mais facilidade , ao pleno eleito mort ífero do
DI >T armazenado em seus tecidos.
Tornou-se» portanto, mais do que claro que a pulvexização* na
proporção de meio quilo de DDT por acre {4.047 metros qua-
drados) , constituiu ameaça muito séria contra os peixes, nas cor-
rentezas que atravessam florestas. Ademais , o controle contra os
germes destruidores de brotos não foi conseguido» e muitas áreas
tiveram de ser programadas para nova pulverizaçã o, O Departa -
mento de Caça e Pesca , de Montana* assinalou forte oposi ção a
toda nova pulveriza ção, dizendo que "não se sentia disposto a
tom prometer os recursos para o esporte da pesca, a trôco de pro-
gramas de necessidade questioná vel e de êxito duvidoso” . O De-
partamento declarou , entretanto* que continuaria a cooperar com
o Serviço Florestal » “ na determinação de meios destinados a mi -
norar os efeitos adversos' \
Pode, porém , essa cooperação obter sucesso, de fato, na salva -
ção dos peixes? Uma experi ência feita na Col úmbia Britânica
fala como muitos volumes sô bre este ponto. Aii* um surto de
germes* désses de cabeça negra , destruidores de brotos , estivera
fazendo sentir-se durante vá rios anos . Os funcionários florestais,
receando que o desfolhamento de outra estação do ano poderia
resultar em perd a severa de árvores , resolveu levar a cabo algu-
mas opera ções de contrôle* em 1957 , Houve muitas consultas ao
Departamento de Caça * cujos funcion ários se preocupavam com
os percursos seguidos pelos salmões . À Divisão de Biologia Flo-
147
restai concordou em modificar o programa de pulveriza çã o, por
t ôdas as formas possíveis, menos pela elimina çã o da sua eficácia,
a fim de reduzir os riscos aos peixes.
A despeito das precau ções, e a despeito do fato dc que um es
forço sincero foi feito, ao que parece, em tal sentido, pelo menos
-
em quatro rios de maior vulto quase Í OO por cento dos salm ões
( oram mortos;
Em um dos rios, os filhotes dc salmões, de uma á rea de desova
de uns 40.000 salmões Coho adultos, foram quase que completa -
mente aniquilados. O mesmo sucedeu a filhotes de vá rios milha
res de trutas cabeça -de-a ço, bem como cie outras variedades de
-
trutas. O salmã o Coho tem ciclo de vida de tr ês anos , e as á reas
de desova sã o tomadas quase que inteiramente por peixes de um
ú nico grupo dc idade. Como as outras espécies de salm ã o, o Coho
é dotado de forte instinto de regresso ao lugar natal, que o faz
retornar ao ponto de seu nascimento para desova. N ão haverá
repovoamento por peixes procedentes de outras correntezas. Isto
significa , pois, que, de três em três anos, a viagem do mencionado
salm ã o, pelo Rio Coho, ser á quase n ã o existente, até que chegue
uma época cm que uma administração cuidadosa, venha a ser ca -
paz, por meio de propaga çã o artificial, ou por outros recursos,
de reconstituir esta migra çã o comercialmente importante.
H á maneiras para se resolver éste problema
— e também para
se preservarem as florestas e se pouparem os peixes. Presumir que
devamos resignar - nos a transformar os nossos cursos de água em
rios de morte é o mesmo que seguir o conselho do desespero c
do derrotismo. Temos de fazer uso de mé todos mais amplos c
alternativos, que já sã o agora conhecidos; e temos de dedicar o
nosso engenho e os nossos recursos ao desenvolvimento de outros
-
m é todos mais. H á casos, devidamente registrados, em que o pa
rasitismo natural tem mantido o germe de broto sob controle
e isso com muito mais eficácia do que pela técnica da pulveri - —
za ção de inseticidas. Estes contrôles naturais precisam ser utiliza-
dos ao m á ximo de suas possibilidades. Há possibilidade de se usa -
rem pulveriza ções menos tóxicas, ou, melhor ainda , de se intro-
duzirem microrganismos que possam causar doen ças aos germes
dos brotos, sem afetar o contexto inteiro da vida florestaL Vere -
mos, uiais adiante, quais sã o ês&es vários mé todos alternativos, c o
que é que ê les prometem. Nesse entrementes, é importante for-
mar noçã o de que a pulveriza ção de substâ ncias qu ímicas, contra
insetos florestais, nem é o ú nico recurso, nem é o melhor.
A amea ça pestic ídica contra os peixes pode ser dividida em
três partes. Unia, como já vimos, &e relaciona com os peixes de
água corrente, nas florestas do Norte, e com o problema ú nico e
148
* h! i| > lrs da pulveriza çã o das florestas. Gonf í na -se quase que inteb
i JMENTE ao â mbito dos efeitos do DDT, Outra é vasta , esparra-
iii - KI . I e difusa , porquanto se relaciona com muitas espécies dife-
miics de peixes, tais como percas, sardas, peixes- luas , “ exappies"
p|iii : sã o peixes norte-americanos nativos, de á gua doce), sugado-
i rN c outros, que habitam muitos tipos de águas, paradas ou cor -
M iicrs , em muitos setores do pa ís . Relaciona-se , igual mente, com
i g.ima l ôda dos inseticidas agora em uso agr ícola , embora uns

IKIUCOS d ésses inseticidas, que constituem os principais agentes


ofensivos* como a endrina , o toxafeno, a dieldr í na e o heptadoro,
possam ser f à cilmente apontados. Âinda outro problema precisa
-
í i agora tomado em considera çã o, pdncipalmcnte em termos da

quilo que nós lògicamente supomos que acontecerá no futuro


porque os estudos que revelarão os fatos estão apenas no começo
-
d i sua realização, isto se relaciona com os peixes dos pantanais

salgados, das ba ías c dos estu á rios,
Kra inevitá vel que sé ria destruiçã o dos peixes se seguisse ao uso
indiscriminado dos novos inseticidas orgânicos* Os peixes sã o
quase que fant ástica mente sens í veis aos hidrocarbonetos clorados,
sendo que estas substâ ncias com [>õem o grosso dos inseticidas mo-
der nos, E quando milh ões de toneladas de venenos qu í micos se
aplicam à superf ície da terra, é inevitá vel que alguma quantidade
de tais venenos encontre caminho para dentro do ciclo incessante
das águas que se movem entre a terra e o mar.

desastrosas
— —
Os relatórios sô bre matan ças de peixes algumas de propor ções
já se tornaram iã o comuna, que o Serviço de Sa ú de,
dos Estados Unidos, montou um escritório destinado a recebê-los,
de todos os Estados, a t í tulo de í ndices de poluição da água ,
Éste é um problema que diz respeito a muita gente, Cêrca de
'J5 milh ões de norte-americanos contemplam a pesca como sendo
uma das formas principais de recreaçã o; e h á outros 15 milhões
que são pelo menos pescadores ocasionais. Esta gente gasta tris
bilhões de d ólares, todos os anos, em licenças, petrechos, botes,
equipamento de acampamento* gasolina e alojamento. Qualquer
coisa que a prive d ésse esporte atinge també m grande n ú mero
de interesses econ ómicos. As pescas comerciais representam negó-
cio muito vasto, e, o que é ainda mais importante, constituem
fonte essencial de alimenta çã o. As pescas internas e costeiras (ex -
cluindo-se as de mar alto) d ã o mais de um bilhão e meio de qui
los de alimento por ano. Contudo, como veremos, a invasã o das
-
correntezas, do.s lagos e dos rios, bem como de ba ías e enseadas,
por obra de pesticidas, representa agora ponderá vel ameaça tanto
para a pesca recreacionai como para a pesca comercial.
149
I
Os exemplos de destrui çã o de peixes , por efeilo da pulverização
inseticídica das planta ções, podem ser encontrados por toda parte.
Na Calif órnia, por exemplo, a perda de 60,000 peixes, na maior
parte peixes-luas e suas variedades, se seguiu a uma tentativa para
se controlar o minador das folhas da planta de arroz, por meio
de dieldrina. Na Lauiiiara, ocorreram trinta ou ma ís exemplos
de vasta mortandade de peixes, num só ano (1960), em conse
quê ncia do uso de endrina nos canaviais. Na Pensilvâ nia , houve
-
mortes de peixes em grande n ú mero, por via de endrina usada
para contiolar a existê ncia de ratos em pomares. O emprego da
clordana no controle dos gafanhotos, nas plan ícies elevadas do
ocidente dos Estados Unidos, foi seguido pela morte de in ú meros
peixes de correnteza.
Provável mente, nenhum outro programa agr ícola foi levado
avante em escala tã o ampla como o da pulverizaçã o e do borrifa -
mento de milhares de quilómetros quadrados de terra, nos Esta -
dos do Sul da Uniã o Norte- Americana , com o propósito de con -
trolar a formiga-de-fogo. O heptacloro, que é o material prjnci -
palmente usado, é apenas ligeiramente menos tóxico, para os pei -
xes, do que o DDT, À dieldrina, outro veneno para a formiga -
de-fogo, tem uma história bem documentada de perigo Extremo
para toda a vida aqu á tica. Somente a endrina e o toxafeno, em
rela çã o a ela , representam perigo ainda maior, para os peixes.
TMas as á reas que se incluem na á rea do contròle da formiga -
de-fogo, e que foram tratadas, seja com fieptadoro, seja com diel-
drina, acusaram efeitos desastrosos sobre a vida aqu á tica. Uns
poucos trechos dão o tom dos relatórios elaborados por biólogos
que estudaram os danos. Do Texas: "Pesadas perdas de vida aquá-
tica , a despeito dos esforços para a proteção dos canais"; “ Peixes
mortos,., encontravam -se presentes em tòda a água tratada"; “ A
matan ça de peixes foi vasta , e continuou por ma is de três sema -
nas” * Do Alabama: HA maior parte dos peixes adultos foi morta
( no Condado de Wilcox ), dentro de poucas dias após o trata
mento " ; “ Os peixes, em águas temporá rias e em cursos de peque-
-
nos tributá rios, parece que foram completamente erradicados".
Na Loulsiana , os fazendeiros queixaram -se de perdas nos lagos
de fazendas. Ao longo de um canal, ma ís de 500 peixes mortos
foram vistos a flutuar, ou jazendo nas margens, num trecho de
menos de 400 metros. Em outra paróquia, 150 peixes-luas foram
-
encontrados mortos, para cada 4 peixes luas sobreviventes. Cinco
outras espécies, ao que se afigura , foram completamente varridas
dali.
Na Flórida , os peixes de lagos, dentro de uma á rea pulverizada,
acusaram , ao exame, um conte ú do de res íduos de heptadoro e de
m
uma subst â ncia qu ímica derivada , o epóxido de heptadoro. Na
lista d éstes muitos peixes se inclu í ram peixes-luas de vá rias espé-
i ies, que sã o naturalmente, favoritos dos pescadores, e que comu-
*
nicnte vão diretos para a mesa de jantar. Todavia * as subst â ncias
qu ímicas que continham figuram entre as que a Administra ção
do Alimento e da Droga considera excessivamente perigosas para
Mkiisumo humano, ainda mesmo que em quantidades diminutas.
Tã o extensas foram as matan ças de peixes, de que se teve co-
munica çã o
— de peixes, de sapos e de outros animais aqu á ticos
que a Sociedade Norte-Americana de Ictiologistas e de Herpe-
lologistas
— venerá vel organiza ção cient í fica devotada ao estudo
dos peixes, dos répteis e dos anf í bios, aprovou uma resolu ção, em
1058; a resolu çã o apelava para o Departamento da Agricultura c
para as repartições estaduais com êle relacionadas, no sentido de
irisar a "distribuiçã o aérea do heptacloro, da dieldrina e de ve-
nenos equivalentes, antes que danos irrepar á veis fossem pratica -
dos". A Sociedade chamou a aten ção para a grande variedade de
i pécies de peixes e de outras formas de vida , que habitam a

parte sudeste dos Estados Unidos, inclusive espécies que n ã o ocor-


-
rem em nenhuma outra parte do mundo " Muitos destes animais"
— —
advertiu a Sociedade "ocupam á reas muito reduzidas, e, por-
tanto, podem ser exterminados completamente em tempo muito
breve” .
Os peixes dos Estados do Sul també m soFreram pesadamente ,
por causa dos inseticidas empregados contra insetos que atacam
0 algod ã o, O ver ã o de 1950 foi uma esta ção de desastres, na re-
giã o algodoeira do norte do Alabama. Antes d êsse ano, sòmente
um uso limitado se havia feito, de inseticidas orgâ nicos, para o
controle da lagarta. Entretanto, no ano de 1950* houve muitas
lagartas, em consequ ê ncia de uma série de invernos moderados;
e , assim , uma por çã o calculada entre 80 e 95 por cento dos coto-
nicu í tores, sob a insist ê ncia dos funcion á rios regionais, se voltou
para o uso de inseticidas, A substância qu í mica que mais popula -
1 idade conquistou , entre os fazendeiros , foi o toxafeno

venenos ma is destruidores para os peixes.


— um dos

-
As chuvas foram frequentes e pesadas* naquele verão Essas chu -
vas lavaram as substancias inseticídicas, arrastando-as para os rios ;
c, na medida em que isto acontecia, os fazendeiros faziam novas
aplicações. A área de um acre {4.047 metros quadrados) , de algo -
d ão, naquele ano, recebeu , em média , 32 quilos de toxafeno. Al -
guns fazendeiros empregaram até 100 quilos por acre; um d êles,
em extraordin á rio excesso de zelo, aplicou ma is de um quarto de
tonelada (rnais de 250 quilos) por acre.
151
Os resultados bem poderiam ser facilmente previstos. O que
aconteceu ao Flint Creek , que flui através de cerca de 80 quiló-
metros de zona algodoeira , antes de desembocar no Reservatário
de Wheeler, foi ocorrê ncia t í pica da regi ã o. Em l ,° de agôsto,
chuvas torrenciais desceram sobre as águas divisórias do Flint
Creek. Em veios, em có rregos e, final mente, em torrentes, a água
correu para fora das terras e para dentro dos rios. Q n í vel da
água elevou -se cerca de 16 centí metros, no Flint Creek . Na ma
nha seguinte, era ó bvio que uma grande quantidade de coisas,
-
além da chuva , tinha corrido para dentro dos cursos de água. Os
peixes nadavam ao lé u, em c írculos sem sentido, perto da super -
f ície. Por vezes, um ou outro peixe pulava para fora da á gua ,
caindo na margem. Podiam todos ser f àcilmente apanhados; um
fazendeiro apanhou vários deles , e levou -os para uma lagoa ali
mentada por á gua de fonte. Àli, na á gua pura , aqueles vá rios
-
exemplares se restabeleceram . No rio, poré m , os peixes mortos
flutuaram corrente abaixo, durante o dia todo. Tsto foi apenas
o prel ú dio de um desastre ainda maior ; cada nova chuva carreava
mais inseticida para dentro do rio, matando inais peixes. As chu -
vas de 10 de agosto resultaram em tamanha matan ça de peixes,
por Lodo o comprimento do rio, que poucos restaram para ser
v í timas da erupçã o seguinte de veneno para dentro das á guas,
que ocorreu no dia 15 do mesmo m ês de agosto. Contudo, a evi
dencia da presen ça mortífera das subst â ncias químicas foi conse-
-
guida colocando-se peixes dourados em gaiolas, dentro do rio;
estes peixes de prova morreram dentro de um dia.
Os peixes condenados de Flint Creek compreenderam grandes
quantidades de “ crappics* ' brancos, que sã o peixes favoritos dos
pescadores. Peixes-luas , de algumas variedades, també m foram en -
contrados, pois ocorrem a bunda n temente no Reservató rio de
Wheeler, para dentro do qual o Flint Creek flui. Tôda a popula -
çã o de peixes r ústicos, daquelas á guas , també m foi destru ída : as
carpas , os bú falos (que sã o peixes grandes do Vale do Mississipi),
o tamboril , o sá vel , o bagre. Nenhum acusou sinais de doen ça ;
todos acusavam apenas movimentos errá ticos, pr ó prios dos peixes
moribundos , além de uma cór de vinho, bem escura , muito es-
tranha, nas guelras.
Nas á guas de lagos de fazendas, que sã o á guas fechadas e rela -
tivamente quentes, as condi ções t ê m tôda probabilidade de ser
mort íferas para os peixes, quando se aplicam inseticidas em suas
vizinhan ças. Como muitos exemplos mostram, o veneno é levado
para ali pelas chuvas e pelas enxurradas que procedem das terras
circunstantes. Por vêzes, os lagos recebem n ã o sòmente enxurradas
contaminadas, mas també m doses diretas de veneno, quando os
152
pilotos dos aviões pulverizadores se esquecem de fechar os bocais
de pulveriza ção, ao passar por cima dos mencionados lagos. Mes
mo sem haver complica ções desta ordem, os usos normais dos in -
-
•r ti ridas agr ícolas submetem os peixes a concentra ções muito mais
pesadas, de substâ ncias qu í micas, do que as requeridas para os
matar. Por outras palavras ; uma redu çã o sens í vel, na propor çã o
de inseticida por área, mal poderia alterar a situa ção mort í fera ,
uma vez que as aplica ções superiores a 0,2 de quilo, por acre
( 1.047 metros quadrados), feitas nos lagos , sã o geralmente consi-
deradas perigosas. Uma vez introduzido o veneno na água , é di-
f ícil a gente livrá - la d éle. Um lago, que foi tratado com DDT,
para remoção de pequenos peixes prateados, continuou t ão vene -
noso, depois de repetidos esvaziamentos e de repetidos enchi
mentos com á gua pura , que. matou 91 por cento dos peixes-luas
com que foi posteriormente abastecido. Ao que parece , a substâ n -
cia qu í mica permaneceu embebida na lama do fundo do lago.
Está claro que as condições não sã o melhores, agora, do que
quando os inseticidas modernos entraram pela primeira vez em
uso, O Departamento de Conserva çã o dos Animais Silvestres, de
Oklahoma * publicou , em 1961 , que os comunicados sobre perdas
de peixes , em lagos de fazendas e em lagos comuns , estavam che-
gando na proporçã o de pelo menos um por semana —
comunicados iam aumentando de n ú mero. As condições usual
e que tais
-
mente responsá veis por tais perdas, em Oklahoma, eram aquelas
com que já estavam familiarizados os observadores, devido à re-
petição do fenômeno ao longo dos anos: aplicações de inseticidas
âs plantações, chuvas grossas e veneno levado* pelas enxurradas,
para dentro dos lagos.
Em algumas partes do mundo, a cria ção de peixes, em lagos ,
proporciona fonte indispensá vel de alimento. Em tais lugares, o
i iso de inseticidas, sem considera ção alguma para com os efeitos

sòbre os peixes, origina problemas que exigem solu çã o imediata.


Na Rod ésia , por exemplo* o filhote de um importante alimento
ictiológiro, a brema , pode ser morto pela exposi çã o a apenas
0 ,04 de parte por milh ã o de DDT, em lagos rasos. Até doses bem
menores , de muitos outros inseticidas, podem ser letais. As á guas
ragas, em que êste peixe vive, sã o favor á veis para a multiplica çã o
de mosquitos. O problema do contrôle de tais mosquitos* e , ao
mesmo tempo* da conserva ção de um peixe importante para a
dieta alimentar centro-africana , ainda nã o foi , como ê explicá vel ,
stú ireionado favor ave I me n te.
A cria çã o da ciprinela, ou peixe-leite, nas Filipinas, na China ,
no Vietnam, na Tailâ ndia , na Indonésia e na í ndia, defronta -se
com problemas semelhantes, A ciprinela é criada em lagos rasos,
153
I
ao longo das costas dos referidos pa íses. Os cardumes de peixinhos
aparecem de s ú bito nas águas costeiras (de onde ninguém sabe) ;
a!í , sã o apanhados com conchas , e colocados em ericurralamentos,
onde completam o crescimento. Tão importante é èste peixe,
como fonte de prote í na animal, para os milhões de indiv íduos
comedores de arroz que habitam o sudeste da Ásia e a í ndia , que
o Congresso de Ci ê ncia do Oceano Pac í fico recomendou que se
fa ça um esfor ço internacional , a fim de se procurar os seus luga -
res de desova, por enquanto desconhecidos; por essa forma , po -
der-se-á desenvolver o mé todo de cria do referido peixe, em es -
cala maci ça. Nã o obstante, permitiu -se que a pulveriza çã o de in-
seticidas causasse pesados danos aos encurralamentos existentes.
Nas Filipinas, a pulveriza çã o a érea , para controle do mosquito,
tem custado muito caro aos propriet á rios de lagos de cria çã o de
peixes. Num de tais lagos, que continha 120.000 ciprinelas, mais
da metade de tais peixes morreu depois de um avião de pulveri
zação passar por cima de suas á guas; e isto, a despeito dos deses-
-
perados esforços do proprietá rio, no sentido de diluir o veneno
por meio de sucessivos esvaziamentos e reench í mentos do lago,
Uma das matan ças mais espetaculares de peixes, destes anos
mais recentes, ocorreu no Rio Colorado, abaixo de Austí n, no
Texas, em 1961. Logo depois do raiar do dia , na manhã de do
mingo, dia 15 de janeiro, apareceram peixes mortos, no n ôvo
-
Lago da Cidade, em Aust í n , e també m no rio, ao longo de uma
d ístincia de cerca de oito quiló metros abaixo do citado lago. Ne-
-
nhum peixe morto f ôra visto no dia anterior. Na segunda feira ,
houve comunicados relativos a peixes que apareceram mortos, até
cê rca de oitenta quilómetros corrente abaixo. Por ésse tempo, já
era claro que uma onda de alguma subst â ncia venenosa estava
movendo-se pelas á guas do rio abaixo. No dia 21 de janeiro, os
peixes estavam morrendo a 160 quilómetros de distâ ncia, corrente
abaixo* perto de La Grange; e uma semana mais tarde as substâ n -
cias qu ímicas estavam realizando o seu trabalho mort í fero a 320
quilómetros abaixo de À ustin. Durante a última semana de ja
neiro, as comportas do Curso Intercosteiro de Águas foram fecha-
-
das, a fim de se exclu í rem as á guas t óxicas da Raia de Matagorda ,
e desviá -las para dentro do Gólfo do México.
Entrementes, os investigadores, em Austín* notaram um cheiro
associado aos inseticidas clordana e toxafeno. O cheiro era parti
cularmente forte no ponto de descarga de um dos canais de es-
-
gotos. Èste canal de esgòto, no passado, estivera envolvido num
episódio decorrente de danos causados por obra de res íduos in -
dustriais; quando os funcion á rios da Comissã o de Ca ça e Pesca ,
-
do Texas, acompanhando o esgóto, examinaram lhe todo o per -
15*
i urso, a partir do lago, notaram a presen ça de um cheiro pare -
, até
• ido com o do. hexacloreto de benzeno, em tôdas as aberturas de
uma linha de alimenta ção do referido cheiro , que procedia
M rta usina qu í mica . Entre os principais produtos
*
de tal usina,
o DDT , o hexaclore to de benzeno , a clordana e o to-
figuravam
x a feno, além de menores quantidades de outros inseticida s . O ge-
rente da usina admitiu que certas quantidad es de inseticida s em
p tinham
é » sido levadas por meio de á gua , à queles canais de -
es
*
gotos, ainda recentemente; e, mais significat ivo ainda , é le -
reco
nheceu que semelhante modo de dispor dos res í duos e dos detri -
tos que sobravam * na fabrica çã o de inseticidas, vinha constituin
do
prá tica comum, desde dez anos antes.
Prolongando as investigações , os funcion ários da pesca encon -
traram outras f á bricas, das quais as chuvas, ou mesmo
as limpe
. O fato*
-
zas comuns, podiam carregar inseticidas para os esgotos
e ntretanto, que proporcionou o elo final à cadeia de observa ções,
a de que, poucos dias antes de as á guas , no lago e
foi a descobert
I no rio, se tornarem letais para os peixes , todo o sistema de esgo -
ios e de bueiros fora inundado por v á rios milh õ es de litros de
água* sob alta pressã o, para o limpar de detritos. Esta inunda ção
,
por certo, soltara res íduos de inseticidas que se achavam alojados
nas acumulações de pedregulho , de areia e de entulho , e carre -
-
gara os para o lago ; do lago * para
qu ímicos, ficou averiguada a sua presença
o rio , onde
. * por via de testes

Na medida em que a massa letal vogou pelo Colorado abaixo


,

da foi levando a morte diante de si. Ao longo de uns 220 quil ó-


ter sido
metros, correnteza abaixo, a matan ça dos peixes deve
quase completa; presume-se isto porque, quando se emprega ram
l êdes varredour as , num esfor ço para se verificar se algum peixe
havia escapado* elas voltaram k tona inteí ramente vazias.êrca Peixes
de
mortos, de 27 espécies, foram observad os , totalizan do c
400 quilos por quil ó metro de beira de rio . Havia bagres , cascudos
e mandis* que são os principais objetos de pesca do rio. Havia
nematognatos de cabeça azul e de cabeça chata ; peixes cabeçade
-
boí ; quatro espécies de peixe lua; pequenos peixes prateados
tainhas ,
, TO
suga
---
balinhos, catóstomos* percas de bôca larga carpas , ,
riores como o papa terra e o cu rumba tá. Havia enguias peixes
- , -
igulha , carpas sugadora s, sá veis e peixes -b ú falo . Entre eles figu-

——
ravam alguns dos patriarcas do rio peixes que, pelo seu tama-
nho, deviam ser de grande idade -
muitos pe í xes gato de cabeça
chata , pesando mais de 12 quilos ; alguns de 30 quilos, ao que se
relatou , foram apanhad os pelos residente s locais, ao longo do rio;
alé m dc um gigantesco peixe gato oficialmente registrado como
-
,
pesando 42 quilos.
155
A Comissã o de Ca ça e Pesca afirmou que, mesmo sem ulterior
-
terado por muitos anos. Algumas espécies
periferia do seu habitat natural — —
poluição, o quadro da popula ção piscosa do rio prosseguiria al
as que existiam na
talvez nunca mais serão resta -
belecidas; e outras só conseguir ão recompor-se com o auxilio de
opera ções de reposição intensiva , por parte do Estado,
Tudo isto é o que se sabe sobre o desastre ictiológico de Aus-
tin ; mas deve ter havido, quase que certamente, uma sequ ê ncia,
A á gua t óxica do rio ainda possu ía grande parte do seu poder de
distribuir a morte, além de 350 quil ómetros corrente abaixo. Essa
á gua foi considerada excessiva mente perigosa para ser acrescen -
tada ks á guas da Baia de Matagorda, onde existem cria ções de
,

ostras e pescarias de camar ões; em consequ ê ncia, tôda aquela cor-


renteza t óxica foi desviada para as á guas do largo do Golfo. Quais
sã o os seus efeitos ali ? F. o que é que se sabe quanto ao desem -
bocar de vintenas de outros rios, todos êles carregando subst â ncias
contaminadoras igualmente mort íferas?
Neste momento, as nossas respostas a estas interrogativas sã o,
em sua maior parte, apenas conjecUiras; mas há preocupa ção cres-
cente a respeito do papel da polui çã o pestic ídica dos estu á rios,
dos pantanais salgados , das ba ías , e també m das á guas costeiras.

mas també m — e com grande frequ ê ncia



N ã o sòniente essas á reas recebem a descarga contaminada dos rios ,
elas sã o pulverizadas
ou borrifadas diretamente, no propósito de se controlarem os mos -
quitos e outros insetos.
Em lugar algum foi o efeito dos pesticidas, sobre a vida exis
tente nos pantanais salgados, nos estu á rios e nos tranquilos bra -
-
ços de mar, mais bem demonstrado* gr à fitamente* do que na
costa oriental da Flórida , na zona do Rio Indiam Ali * na prima -
vera de 1955, mais de 2.000 acres ( mais de oito quiló metros qua -
drados) de pâ ntano salgado, no Condado de St. Lucie, foram tra
tados com dieldr í na, com a finalidade de eliminar as larvas do
-
mosquito cú lex , transmissor da febre palustre. A concentra ção
usada foi de 250 gramas de ingrediente ativo por acre (4,047 me-
tros quadrados). O efeito, sôbre a vida existente no interior das
á guas , foi catastr ófico. Os cientistas do Centro de Pesquisa Ento *

mológica , da Diretória de Sa ú de, do Estado, inspecionaram a


á rea da matan ça , depois da pulveriza çã o; e relataram que a ma
tan ça dos peixes foi "substanc í almente completa". Por tòda parte,
-
havia peixes mortos juncando as margens. Do ar, podiam ser vis-
tos os tubar ões aproximando-se da á rea , atra ídos pelos peixes in
defesos e moribundos* que se achavam na á gua. Nenhuma espécie
-
foi poupada. Entre os peixes mortos figuravam tainhas, robalos,
mojarras e peixes- parda í.
150
O m ínimo imediatamcn íe calculado, para a matan ça generali -
/ p o r todps os pâ ntanos, com exclusão das margens do Rio
ludian, foi de 20 a 30 toneladas de peixes, ou cerca de 1.175.000
• Irsses animais, de pelo menos 30 espécies (de acordo com o, co-
.
inuniçado de R . W. Harrington ]r., e VV L . Bidlingmayer da
t omissão de inspeção).
Os moluscos parece que n ã o Foram danificados pela dieldrina.
Os crustá ceos foram virtuahnente exterminados em t òda a á rea .
'
TOda a popula çã o aqu á tica de caranguejos foi ao que parece des-
tru ída ; e os caranguejos u çá foram aniquiladas; sobreviveram
temporà riamcnte apenas os que se achavam em faixas de pâ ntano
evidentemente n ã o atingidas pela pulveriza çã o.
Qs peixes de maior porte, para alimento e para pesca , sucum -
biram mais rà pidamente... Os caranguejos treparam sobre os pei-
xes moribundos e destru íram -nos; mas, no dia seguinte, também
t-lcs estavam mortos. Os caracóis continuaram a devorar as carca -
ças dos peixes. Depois de duas semanas, nenhum vestígio restou
ele todos aqueles peixes mortos.

O mesmo quadro melancólico foi traçado pelo falecido Dr . Her -


bert R . Mills , com base em suas observa ções na Ba ía de Tampa,,
do outro lado da costa da Flórida, onde a Sociedade Norte -Ame
ricana Audubon mant ém um ref úgio para aves marinhas, na
-
á rea , incluindo Whikey Stump Kcy . O ref ú gio, ironicamente, tor -
nou -se pobre abrigo , depois que as autoridades sanitárias locais
empreenderam uma campanha destinada a varrer dali os mosqui-
tos dos pantanais salgados. De novo, os peixes e os caranguejos
foram as principais v í timas. O caranguejo u çá , crustá ceo pequeno
e pitoresco, cujas hordas se movem por cima de plan ícies de lama,
ou por chapad ões de areia , como se se tratasse de gado a pastar,
não tê m defesa contra os pulverizadores. Depois de pulveriza ções
sucessivas, durante os meses do ver ã o e do outono (algumas á reas
foram pulverizadas até IG vezes), o estado dos caranguejos u çá foi
resumido pelo Dr. Mills: " Uma escassez progressiva de carangue-
jos u çá já se havia tornado evidente, por esta é poca. Nos lugares
em que deveriam existir cerca de 100.000 caranguejos u çá , nas
condições de maré e de tempo do dia (12 de outubro) , nâo havia
mais do que cem que pudessem ser vistos em qualquer ponto da
praia ; e estes, ainda assim , estavam todos mortos , ou doentes ; os
doentes estremeciam, torciam -se, tropeçavam, e mal conseguiam
rastejar; n ã o obstante , nas vizinhan ças, em á reas n ã o pulveriza -
das, os caranguejos u çá eram encontrados em grandes quanti-
dades"*
157
O lugar que o caranguejo u çá ocupa, na ecologia do mundo
que ê le habita, é lugar necessá rio, que nao se preenche f àcilmente.
Êsse caranguejo constitui fonte importante de alimento para mui-
tos animais. Os guaxinins costeiros alimentam-se deles. Alimen-
tam -se deles, igualmente, as aves habitantes dos pantanais como
*
os frangos d’ á gua , os caradri ídeos e até as aves marinhas visitan -
tes. Num pâ ntano salgado de New Jersey, pulverizado com DDT,
a população norrnal de gaivotas se reduziu em 85 por cento, du-
rante vá rias semanas, presumivelmente porque tais aves n ã o en -
contraram ma is alimento bastante, depois da pulveriza çã o. Os ca -
ranguejos u çá, dos pâ ntanos, são também importantes por outras
razões, uma vez que sã o ú teis como devoradores de detritos e
como arejadom da lama dos pantanais, devido à s suas perfura-
ções extensas abaixo da superf ície. Ademais, proporcionam gran -
des quantidades de isca para os pescadores,
O caranguejo uçá n ã o é o ú nico animal, dos pâ ntanos de maré
e de estu á rio, que se vê amea çado pelos pesticidas; também ou
tros, de importâ ncia ma is flagrante e evidente para o homem, são
-
postos em situação de perigo. O famoso^caranguejo azul, ou siri
pu ã , da Ba í a de Chesapeake e de outras á reas norte-americanas
da costa atlâ ntica, constitui exemplo. Tal caranguejo é t ã o alta-
mente suscept ível aos inseticidas, que tõda pulverização de cór-
regos. fossos e lagunas, nos pantanais de mar é, mata a maior parte
d ésses crustá ceos que lá vivem. N ã o sò mcnte morrem os caran -
guejos locais, mas també m outros caranguejos, que rumam para
as á reas pulverizadas* procedendo do mar, sucumbem ao efeito
*
do veneno que permanece. Por vêzes, o envenenamento pode ser
indireto, como acontece nos pantanais perto do Rio Indian , onde
os caranguejos devoradores de detritos e de carcassas atacaram os
peixes moribundos, mas logo morreram por sua vez* em conse-
qu ê ncia do veneno existente nas coisas por êles devoradas . Sabe-se
menos a respeito da lagosta . Entretanto, a lagosta pertence ao
mesmo grupo de artrópodes, como o caranguejo azul ; tem essen
cialmente a mesma fisiologia; e deve sofrer , presumivelmente, os
-
mesmos efeitos. Isto dever á ser verdadeiro també m a respeito do
caranguejo de pedra , bem corno de outros crustá ceos que se re-
vestem de importâ ncia econ ómica direta como alimento humano.

——
As águas internas as balas, as enseadas, os estu á rios dos rios
os pantanais de mar é formam uma unidade ecológica da maior*
importâ ncia . Est ão vinculadas t ão In ti mamente e t ão indispen-
sà velmente à vida de muitos peixes, de muitos moluscos, de muitos
crustá ceos* que, se elas se tornassem inabitá veis, esses alimentos
marinhos desapareceriam da nossa mesa.
158
Mesmo entre os peixes cujo habitat se amplia pelas á guas cos-
ir iias em fora , há muitos que dependem de á reas protegidas, si -
( nadas em terra firme, e que servem de zona de desova e de cria -

ç .io para os seus filhotes. Os filhotes de camarupins sã o abun -


dantes em todas essas correntezas labir í nticas, marginadas de man-
gues, e em todos èsses canais que limitam o têrço inferior da
costa ocidental da Fl ó rida. Na costa atlâ ntica, a truta mar í tima ,
i corvina de linha, a pescada, o tamboril (ou peixe sapo) , deso-
va in em baixios arenosos, ao largo das entradas dos braços de
mar, entre as ilhas ou “ bancos” que se situam , como cadeia de
proteção, ao longo da maior parte da costa de Nova York, Os
peixes jovens nascem e sã o levados para os braços de mar , por
Jko, de Bogue e muitas outras — —
meio das marés. Nas ba ías e nas enseadas de Gurrí tuck, de Pam -
Lais peixes encontram alimento
abundante , e crescem rapidamente. Sem as áreas de cria çã o, quem
ii s , protegidas, com águas ricas cm alimento, a popula ção de tais
espécies* bem como de muitas outras* não poderia ser mantida .
N ã o obstante , nós estamos permitindo que os pesticidas entrem
nessas á reas c nessas águas* através dos rios, e também por via
da pulveriza çã o direta por cima dos pâ ntanos marginais, F as
primeiras fases da vida de tais peixes, ainda ma is do que as fases
|á maduras dos animais adultos* sã o particularmente susceptivels
;LO envenenamento qu í mico direto.
També m os camar ões dependem das áreas internas tle alimen -
ta ção para os seus filhotes. Uma espécie abundante, e de ampla
difusão, sustenta tõda a pesca comercial dos Estados do Sul do
,

Atlâ ntico e do Gòlfo. Embora a desova ocorra no mar , os filhotes


entram nos estuá rios e nas ba ías* onde os que já contam umas
[ .•ou ças semanas de idade passam por sucessivas mudas de carcassa
e modificações de forma. Ali ficam cies , de maio ou junho, at é
ao outono, alimentando se dos detritos do fundo. No inteiro pe
- -
-
r íodo da sua vida em á reas de terra firme, o bem estar das popu -
la ções de camar ões, bem como da ind ústria que eles sustentam,
depende das condi ções favor á veis dos estu á rios.
Será que os pesticidas representam ameaça para a pesca do ca -
marã o e para o abastecimento dos mercados? A resposta a esta
interrogativa pode estar contida em recentes experiê ncias de la -
boratório, levadas a cabo pelo Departamento de Pesca Comercial.
A toler â ncia í nseticidica do camar ã o comercial jovem , que apenas
tenha emergido da vida larval, é, ao que se verificou , extrema -
mente pequena ; mede -se em partes por bilh ã o , ao invés de se
medir pelo padrã o ma is comumeme usado de partes por milhão .
Por exemplo: metade dos camar ões, numa expcricncía , foi morta
pela dieldrixia, na concentra çã o de apenas 15 partes por bilhã o.
m
Outras substâ ncias qu í micas se revelaram ainda mais t
óxicas. A
endrina Cjue é sempre um dos pesticidas mais mort íferos, matou
metade dos camar ões, na concentração de sòmentc metade de
uma
parte por bilhão .
A ameaça às ostras e aos mexilhões é m últipla. De novo, êsses
animais são mais vulnerá veis nas primeiras fases da vida .
Êstes
mariscos e estes moluscos de concha habitam os fundos das ba ías
e das enseadas, bem como os rios de mar é, desde a Nova Ingla
terra até ao Texas, e também as á reas protegidas da costa -
do
Pacífico. Embora sedentá rios na vida adulta , êstes animais mari
nhos descarregam seus ovos no mar, onde os filhotes vivem vre-
mente durante o per íodo de v á rias semanas. Num dia de
ií -
uma rede de arrasto, de malha fina, puxada atr á s de um bote ver ão,
,
pode coletar juntamente com outras formas ocasionais de vida
animal e vegetal que compõem o plancto, as larvas, infinitamente
pequenas, fr á geis como vidro, de ostras e de mexilh ões. N ã o maio-
res do que grã os de poeira, estas larvas transpar
entes nadam ao
lé u , nas águas de superf ície, alimentando-se da vida microscó
do plancto. Se deixar de haver abund â ncia dessa min úscula pica
ta ção mar í tima , os mariscos e os moluscos de concha morrem -
vege
de
fome. Não obstante, os pesticidas podem muito bem
destruir
quantidades substanciais de plancto. Alguns dos ervicidas de uso
comum nos gramados dos jardim, nos campos cultivados, e s
margens das estradas, e também nos pantanais costeiros, são exà -
traordin à riamente t óxicos para o plancto vegetal que os molusco
larvais usam como alimento: e alguns o sã o na propor o des
çã
apenas umas poucas partes por bilhã o.
As próprias larvas delicadas podem ser mortas por pequen
quantidades de muitos dos inseticidas mais comuns. Até mesmoasa
exposi çã o a menos do que as quantidades letais pode, por
causar morte das larvas: e, inevitável mente, o ritmo de lim ,
cresci-
mento, das que sobrevivem , é retardado. Isto prolong
a o tempo
que as larvas precisam passar no mundo arriscado do plancto
assim se reduz a probabilidade de elas se desenvolverem e vivereme
;
até à quadra adulta.
Para os moluscos adultos, há, ao que parece, menor perigo
de
envenenamento direto, pelo menos por obra de alguns dos
cidas. Isto não é necessariamente tranquilizador, entretant pesti -
o. As
ostras e os mexilhões podem concentrar tais venenos nos ó
rgã
digestivos, e també m em outros tecidos. Os dois tipos de moluscoos
e de mariscas são normalmente comidos inteiros, e, por s
crus. O Dr. Philip Butler, do Departamento de Pesca Comerc vezes ,
ial ,
apontou um paralelo ominoso, no qual nós poderemos
encon
trar-nos nas mesmas condi ções que os papos-roxos. Os papos -
roxos,
-
160
i o que ê le nos lembra , n ã o morreram como consequ ê ncia direta

da pulveriza çã o de DD L Morreram porque tinham comido mi -


nhocas que já haviam concentrado pesticidas em seus tecidos *

Embora a morte s ú bita de milhares de peixes e de crustá ceos,


em alguns rios e em alguns lagos como efeito direto e vis í vel do
rontrÔJe contra insetos seja dram á tica e alarmante, é certo que
r stes efeitos invisí veis e por enquanto em grande parte desconhe-
• idos c não mensurá veis* dos pesticidas* que atingem os estu ários,
iiidiretamente , através de correntezas e de rios, pí>dem ser, afinai,
\ n m mais desastrosos. A situação toda est á juncada de interroga-
iivas, para as quais, no momento, não há respostas satisfatórias.
Sabemos que os pesticidas contidos nas enxurradas procedentes de
fazendas e de florestas* estão agora sendo carregados para o mar,
de cambulhada com as á guas de muitos e talvez de todos os rios
de maior vulto. Mas n ós n ão sabemos a identidade de todas as
substâ ncias qu í micas, nem a sua quantidade total; e também n ã o
temos, por ora , meios dignos de f é, para a realiza çã o de testes
destinados a identificá -las no estado altaiuente diluído em que
se encontram , depois que entram no mar. Embora saibamos que
as subst â ncias qu í micas devem ter, por certo, passado por muitas
modifica ções, durante o longo per íodo de tr â nsito, nós n ã o sabe-
mos se as substâ ncias qu í micas alteradas sã o mais t óxicas, ou
menos tóxicas, do que as subst â ncias originais. Outra área quase
que inexplorada é o problema das intera ções entre substâ ncias
qu ímicas — problema que se torna particularrnente premente
quando tais subst â ncias entram em meio ambiente marítimo,
onde tantos e tantos minerais diferentes est ã o sujeitos a mistura
e a transporte , Tôdas estas questões requerem urgentemente res-
postas precisas, que sòmente a pesquisa intensiva e extensiva pode
proporcionar; todavia, os fundos para semelhantes finalidades sã o
de inspirar piedade, de t ã o reduzidos*
A pesca de água salgada e de á gua doce constitui fonte alimen-
-
tar de grande importâ ncia * envolvendo interesso e bem estar de
quantidade muito grande de pessoas. Que essa pesca está sendo
agora sériamente amea çada pelas substâncias qu í micas que pene-
tram nas nossas águas, é coisa de que nã o se pode duvidar. Sc
desviássemos para a pesquisa construtiva ainda que fosse uma pe-
quena fra ção do dinheiro que se gasta no desenvolvimento de
pulveriza ções cada vez mais t óxicas, poderíamos encontrar modos
de usar materiais menos perigosos, e de conservar os venenos fora
dos nossos cursos de água.
Quando é que o pú blico se toruará suficieiuemente cônscio des-
tes fatos, para exigir semelhante a çã o?
161
11 Primavera Sileneios-a
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10 . Indiscri mi nadamente ,
Procedendo dos Cé us
P ARTINDO DE WODESTO coMÊço, só bre terras de culdvo e sô bre I]í>
restas, o escô po das pulveriza ções a éreas ampliou -se muito; e o
seu volume aumentou canto, que se transformou nisso que um
ecologista britâ nico, ainda recentemente, denominou Hldesconcer
tante chuva de morte \ sobre a superf ície da Terra A nossa ati- .
-
tude para com os venenos passou por uma alteração sutil. Qu -

crâ nio e dois ossos



trora* os venenos eram contidos em recipientes marcados com ura
duas t íbias ; as ocasiões nada frequentes de
seu uso eram rodeadas do cuidado mais extremado, para que tab
venenos entrassem em contato com o seu alvo, e com mais coisa
nenhuma. Depois do desenvolvimento de novos inseticidas orgâ -
nicos e da abund â ncia de aeroplanos sobrados da Segunda Guerra
Mundial, tudo isso foi esquecido. Embora os venenos dos dias de
hoje sejam bem mais perigosos do que quaisquer outros conheci
dos antes* é ies se tornaram surpreendentemente alguma coisa des-
-
m
tinada a ser despejada , à maneira de chuva, indiscri mi nadamen te,
dos cé us. Não sòmenle os insetos ou as plantas totnadas poi alvo,


mas também todas as demais coisas
— humanas e n ã o humanas
que se encontrem ao alcance dos res íduos ( fallouí ) qu í micos, [>o-
dem ser atingidas pelo toque sinistro do veneno. N ã o somente flo-
restas e campos cultivados são pulverizadas, mas também aldeias
e cidades.
Grande quantidade de pessoas se preocupa, agora, com a dis-
tribuição a érea de subst â ncias qu í micas letais sobre milhares e
milhares de quilómetros quadrados; duas campanhas em prol de
pulveriza ção em grande escala, empreendidas em fins de 1950,
muito contribu í ram para aumentar as preocupa ções e as duvidas,
J ais campanhas foram: uma contra a mariposa cigana, nos Esta -
dos de Noroeste; outra contra a formiga-dc-fiogo, no SuL Nem a
mariposa cigana, nem a formiga-de-fogo, é inseto nativo das re-
giões citadas ; mas esses dois insetos têm estado neste pa ís há mui -
tos e muitos anos, sem criar situações que exigissem medidas dr ás -
ticas de contrapêso. Contudo , iniciativas dr ásticas foram de s ú bito
tomadas a peito contra êles , de acordo com a filosofia segundo a
qual os fins justificam os meios; esta é a filosofia que dirigiu,
por tempo excessiva mente longo, as divisões de controle de pestes
do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos,
O programa contra a mariposa cigana mostra que uma vasta
quantidade de danos pode ser provocada, quando o tratamento
indiscriminado, em larga escala, substitui o controle local e mo
derado. A campanha contra a formiga-de-fogo constitui exemplo
-
primoroso de campanha baseada no exagero grosseiro da necessi-
dade do controle: do controle lançado disparatadamente, sem o
conhecimento cient ífico da dosagem do veneno requerido para
destruir o objeLo visado, nem dos seus efeitos sobre outras formas
de vida. Nenhum desses dois programas atingiu a sua finalidade.
A mariposa cigana , nativa da Europa, encontrasse nos Estados
Unidos há quase ceiri anos. Em 18G9, um cientista francês , Leo-
pold Trouvelot , deixou , acidentalmente , que umas poucas dessas
mariposas escapassem do seu. laboratório, em Medford , Massa -
chusetts, onde ê je estava tentando cruzá-las com o bicho-dit-seda.
A pouco e pouco, a mariposa cigana difundiu -se |x> t toda a Nova
Inglaterra, O agente principal da sua difusã o progressiva é o ven -
to, O estado larval , ou de lagartixa , ê extrcniamente Iever e pode
ser carregado pelo vento a alturas considerá veis e a distâ ncias im -
previs í veis. Outro meio, para isso, é o embarque de plantas que
possuam massas de ovos, que são a forma em que a espécie existe
durante o inverno, A mariposa cigana, que, em seu está gio larval,
m
ataca a folhagem das á rvores de carvalho e de mais umas poucas
madeiras duras, durante umas poucas semanas em cada prima -
vera * agora ocorre em todos os Estados da Nova Inglaterra . Ocor -
re, igualmente* de modo espor á dico, em New Jersey, onde foi
introduz ida em 1911, com um carregamento marítimo de á rvores
de abeto, procedente da Holanda ; e em Michigan* onde o seu
mé todo de entrada n ã o é conhecido, O furac ã o de 1938, da Nova
Inglaterra, levou a citada maripôsa para dentro da Pê nsilvâ nia e
de Nova York ; mas as montanhas de Àdirondack tê m servido ge ~
ralmente de barreira contra o seu progresso para o Oeste, sendo,
ademais, que esse setor possui florestas de espécies que n ã o sã o
atraentes para ela ,
A tareia de se confinar a maripôsa cigana no canto nordeste
dos Estadas Unidos foi conseguida com emprego de vá rios mé to-
dos ; e* cm cerca de cem anos, a contar de sua chegada ao conti-
nente americano, o receio de que ela invadisse as florestas de ma -
deira dura da área sul das Montanhas Apalacheauas, n ã o foi jus
tificado, Treze parasito* e predadores foram importados, sendo
-
implantados com êxito na Nova Inglaterra. D pró prio Departa -
mento de Agricultura atribuiu a tais importações , o m é rito de
*
reduzirem apredávelmente a frequência e a capacidade de des -
truiçã o dos surtos de maripôsa cigana. Este contròie natural, mais
as medidas de quarentena * tudo combinado com as pulverizações
locais* resultou no que o citado Departamento* em 1955, descre-
veu como sendo Mnot á vel restrição de distribuiçã o e de dano".
Todavia * apenas um ano depois de expressar sua satisfa çã o em
face do estado em que se apresentavam as coisas, a Divisã o de
Controle de Pestes das Plantas, do mesmo Departamento, em -
preendeu um programa que abrangeu a pulveriza çã o indiscrimi -
nada de vá rios milhares de quilómetros quadrados por ano, com
a anunciada finalidade de , a seu tempo, “ erradicar" a maripôsa
cigana . ( "Erradicação" significa completa e final extin ção, ou
exterm í nio, de uma espécie, por toda a sua á rea. Todavia , visto
que programas sucessivos postos em prá tica para tal fim fracas-
saram , o Departamento achou necessário falar em segunda e em
terceira “ erradica ções" da mesma espécie de peste, da mesma
área ),
A guerra química a todo pano, do Departamento mencionado,
contra a maripôsa cigana * teve inicio em escala ambiciosa. Em
1956, cêrca de cinco mil quilómetros quadrados foram pulveriza -
dos nos Estados de Pê nsilvâ nia, New jersey , Michigan c Nova
York, Muitas queixas de preju ízos foram formuladas* por pessoas
-
interessadas, nas á reas de pulveriza çã o. Os eonservacionistas se tor
naram cada vez mais inquietos* na medida em que o padr ã o de
165
pulverizações, em grandes á reas, começou a definir-se. Quando se
anunciaram os planos para a pulverização de uns 15 000 quiló-
metros quadrados , em 1057, a oposição popular se fez ainda mais
forte, Qs funcion á rios agr ícolas, tanto federais corno estaduais* en -
colheram caracterlsticamente os ombros* em face das queixas in
dividuais, considerando-as destitu ídas de importâ ncia,
-
A área de Long Island* inclu ída no â mbito da pulveriza ção
contra a mariposa cigana, de 1957, compunha-se de pequenas ci-
dades densamente povoadas, bem como de subúrbios també m de
popula çã o bastante apreciável* e de algumas zonas costeiras, lim í-
trofes de pantanais salgados, O Condado de Nasáau, Long Island ,
é o condado ma ís densamente povoado no Estado de Nova York ,
depois de pró pria cidade de Nova York. Num ato que parece que
é o cumulo do absurdo, a "ameaça de infesta çã o da á rea metro
politana de Nova York ' foi citada como importante justificativa
1
-
para a efetivação do programa , À mariposa cigana é inseto de
floresta : nã o é, de maneira alguma , habitante de cidades. Ade-
mais, ela não vive em pradarias, nem em campos cultivados* nem
em jardins* nem em pantanais. N ã o obstante, os aeroplanos alu -
gados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidas c
pelo Departamento de Agricultura e de Mercados, do Estado de
Nova York, despejaram , em 1957, dos cé us , o prescrito inseticida
composto de DDT dilu ído em óleo combustí vel, indiscri mi nada -
mente. Êsses aviões pulverizaram canteiros de hortali ças , fazendas
produtoras de latic í nios, lagos de cria çã o de peixes e pantanais
de á gua salgada. Pulverizaram pequenos lotes de terra dos sub ú r-
bios, ensopando uma dona de casa que fazia um esforço deses-
perado para cobrir o seu jardim antes que os avi ões roncadores
ali chegassem , e despejando inseticida sobre crian ças que brin -
cavam , bem como sô bre pessoas que esperavam condu çã o numa
esta ção ferrovi á ria. Em Setauker , um fino cavalo* desses que nos
Estados Unidos se criam em montanhas, e que são ó timos para
percorrer distâ ncias at é um quarto de milha ( pouco mais de 400
metros)* bebeu á gua , de um còcho que existia num campo pul-
verizado pelos aeroplanos; dez horas após* o cavalo estava morto.
Os automóveis foram salpicados e manchados por aquela mistura
oleosa; flores e arbustos foram arruinados. Pássaros* peixes, cama-
rões e insetos ú teis foram mortos.
Um grupo de cidad ã os de Long Island , liderado pelo ornitolo-
gista mundial mente famoso, Robert Cushman Murphy, tinha che-
gado a pleitear uma ordem da Justiça * para impedir a pulveri -
za ção de 1957. Negada a primeira solicitação, os cidadã os que ha
viam protestado tiveram de sofrer o prescrito ensopamento de
-
DDT; mas dali por diante persistiram na consecu çã o de uma or-
m
dem permanente de proibiçã o das pulveriza ções. Entretanto, pelo
fato de a a ção já haver sido julgada unia vez, os tribunais susten -
taram que a petiçã o para a proibiçã o era discut ível. A causa foi
levada pela escala tòda , at é à Corte Suprema » que declinou de
conhecer dela, O Juiz do Supremo , William O. Douglas, diver-
gindo íortemente da decisã o de mã o se rever o caso , sustentou que
ilos alarmas que muitos peritos e muitos funcioná rios p ú blicos res-
ponsá veis levantaram , a respeito dos perigos do DDT, acentuam
a importâ ncia p ú blica desta causa ".
A demanda judiciá ria, proposta pelos cidadã os de Long Island »
serviu , pelo menos, para localizar a aten çã o p ú blica na tend ê ncia
cada vez roais pronunciada da aplica çã o de inseticidas em grande
escala ; serviu * igualmente » para chamar a atençã o p ú blica para
os poderes e para a inclina çã o das repartições de controle , no sen -
tido de desprezar direitos de propriedade suposta mente inviola *

dos » de cidad ã os particulares,


A contamina çã o do leite e de produtos de fazenda » no decorrer
das pulverizações contra a mariposa cigana * surgiu como desagra -
dá vel surpresa para muita gente. O que aconteceu na fazenda
Waller* de cerca de 810.000 metros quadrados, na zona norte do
Condado de Westchestcr » Nova York, foi TC velador. A Sra , Waller
havia solicitado* esperificadameme , aos funcioná rios da Agricul -
tura, que n ã o pulverizassem a sua propriedader porque, do con-
tr á rio* seria impossível evitar as pastagens, durante as pulveriza -
ções dos bosques. Ela ofereceu -se para efetuar o controle da mari-
pôsa cigana * e para fazer com que qualquer infesta çã o f ôsse des-
tru ída por meio de pulveriza çã o local. Embora lhe dessem a ga -
rantia de que nenhuma fazenda seria pulverizada , a sua proprie-
dade recebeu duas pulveriza ções diretas » e* ademais, foi duas ve -
zes submetida a borrifamentos desviados pelas correntes de ar. As
amostras de leite* tomadas de vacas Guernsey , de ra ça pura , da
Sra. Waller, 48 horas depois» continham DDT na quantidade de
14 partes por milhã o. As amostras de forragens* dos pastos em que
as vacas haviam pastado, també m estavam contaminadas, natural-
mente. Embora o Departamento de Sa úde, do condado, houvesse
sido notificado, nenhuma instru çã o foi publicada, para que o
leite assim contaminado n ã o f òsse pòsto no mercado. Esta situa -

midor

çã o é infelizmente muito t í pica da falta de proteçã o ao consu -
coisa que, de resto, é bastante comum . Embora a Admi-
nistra ção do Alimento e da Droga n ã o permita que haja res íduos
de pesticidas no leite, as suas restri ções n ã o sò mente sã o inade-
quadamente policiadas, mas també m se aplicam apenas a embar-
ques interestaduais. Os funcion á rios estaduais e comunais n ão são
16?
obrigados a observar as tolerâ ncias federais quanto a pesticidas , a

menos que leis locais o determinem e raramente determinam .
Os horticultores também sofreram. Algumas culturas de vege
tais folhosos ficaram t ão queimadas e t ão manchadas, a ponto de
-
se tornarem imprest áveis para o lan çamento no mercado. Outras
passaram a conter pesada quantidade de res íduos; uma amostra
de ervilhas , analisada na Esta çã o Experimental Agr ícola da Uni-
versidade de Cornei1, continha de 14 a 20 partes por milhã o de
DDT. O máximo legal permissível é de sete partes por milhão.
Os horticultores, portanto, tiveram de suportar perdas consider á -
veis, ou de vender seus produtos sabendo que ê les continham re-
s í duos em teores ilegais. Alguns dos horticultores tentaram con
seguir, e conseguiram , indenizaçã o pelos danos sofridos.
-
Na medida em que aumentou o n ú mero de pulveriza ções de
DDT, foi aumentando também a quantidade de demandas nos
tribunais. Entre estas demandas , figuraram algumas movidas por
apicultores de vá rias á reas do Estado de Nova York . Mestno antes
da pulverizaçã o de 1957, os apicultores já tinham sofrido consi -
deravelmente, em consequência do émprêgo do DDT nas hortas
e nas pomares. " Até 1953* eu tinha considerado como verdade
evangé lica tudo quanto emanasse do Departamento de Agricul-
tura dos Estados Unidos, bem como dos colégios agr ícolas'*
observou um deles* com amargura. Entretanto, em maio desse
ano , o citado apicultor perdeu 800 colónias, depois de o Estado

haver pulverizado uma grande á rea. Tã o generalizada e tã o pe-
sada foi a perda , que 14 outros apicultores se juntaram a ele, na
demanda contra o Estado, reivindicando indeniza çao por um
quarto de milh ã o de d ó lares de preju ízos. Outro apicultor , cujas
400 colónias de abelhas foram alvo acidentais e incidentais da
pulveriza çã o de 1957, comunicou que 100 por cento da quanti-
dade de a bei lias , nos campos ( isto é, as oper á rias, colhendo n éctar
e pólen para as colmeias) tinham sido mortas em á reas florestais
e que 5 Õ por cento o foram nas á reas agr ícolas menos intensa*-
mente pulverizadas. “ Constitui coisa bastante desconforta dor a
escreveu ê le — entrar num quintal, em maio, e n ão ouvir o zum -

bido das abelhas ” *
Os programas de combate à mariposa cigana foram assinalados
por muitos atos de irresponsabilidade . Visto que os aviões de pul
veriza ção foram pagos por litro de subst â ncia pulverizada , e' n ã o
-
por quil ómetro quadrado de á rea coberta , n ão houve esforço al-
gum para se ser moderado; muitas propriedades foram pulveri-
zadas* n ã o uma , e sim vá rias vêzes. Os contratos para os servi ços
de pulverizações aéreas foram , pelo menos em um caso, dados a
lima firma sedeada fora do Estado, sem endereço local , que não

1G8
havia observado gs requisitos legais de registro Junto às reparti
oficiais do Estado, para os fins de estabelecimento da respon-
-
ções
sabilidade legal. Nesta situa çã o extremamente escorregadia , mui-
tos cidad ã os , que sofreram perdas financeiras diretas, por danos
causados a pomares de macieiras, ou a colónias de abelhas# dev
cobriram que nã o havia ninguém contra quem mover a demanda.
Depois da desastrosa pulverização de DDT, de 1957, o pro-
grama foi abruptamente e drasticamente reduzido, com vagas de-
clara ções relativas à “ avaliação” do tr a bailio anterior e à experi -
menta çã o de inseticidas alternativos* Ao invés dos 3,500,000 acres
(14,171 quil ómetros quadrados) pulverizados em 1957 as á reas#

tratadas ca í ram para meio milhã o de acres (2-049 quilómetros


quadrados), em 1958, e cêrca de 100.000 acres (uns 405 quilóme-
tros quadrados) em 1959, 1900 e 190 L Durante este intervalo, as
repartições de controle devem ter adiado inquietadoras as not í
cias relativas à s pulveriza ções de Long Island. A maripôsa cigana
-
reaparecera por lá, em grandes quantidades, A dispendiosa ope-
em confian ça pú blica e em boa vontade

ra çã o de pulveriza çã o, que custara tã o caro, ao Departamento
a opera ção que tivera

o propósito de varrer a maripôsa cigana para sempre nã o tinha #
tia realidade , conseguido coisa alguma.
#

Nesse entrementes, o Departamento de Gontròle das Pestes das


Plantas, por seus representantes ma is qualificados, já se havia es-
quecido das mar í pôsas ciganas porquanto esteve ocupado com o
-
#

lançamento de um programa bem mais ambicioso no Sul , A pa


lavra “ erradica çã o" ainda continuou a sair, com facilidade, das
m á quinas mimeograladoras do citado Departamento; desta feita ,
os comunicados para a imprensa passaram a prometer a erradi -
ca ção da formiga-de-fogo,
A formiga -de-fogo, inseto que recebe o nome devido ao ardor
que a sua ferroada causa, parece que entrou nos Estadas Unidos
procedendo da América do Sul , pelo caminho do porto de Mo-
bile no Alabama, onde a sua presen ça foi descoberta logo depois
-
-

do fim da Primeira Guerra Mundial , I i pelo ano de 1928, essa


formiga já se havia difundido pelos subúrbios de Mobile; e , da í
por diante prosseguiu numa invasão que a levou para o interior
#

da maior parte dos Estados do Sul.


Durante a maior parte dos quarenta e tantos anos que se pas-
saram a contar da sua chegada aos Estados Unidos, a formiga-
de- fogo parece que tem atra ído pouca aten ção. Os Estados em
que essa formiga era roais abundante a consideraram como sendo
forte inconveniê ncia , princ í palniente porque ela constrói grandes
ninhos ou cupins, com trinta e mais cent í metros de altura. ísto
#

169
pode embaraçai a opera ção da maquinaria das fazendas. Mas so-
mente dois Estados inclu íram a mencionada Formiga na lista dos
-
seus vime ma ís importantes insetos pestes; c esses, ainda assim , a
colocaram , por ordem de importâ ncia , bem próximo ao pé da
lista. Nenhum funcionário, nem elemento de ordem particular ,
parece que se preocupou com a form íga-de-fogo em seu aspecto
de ameaça às planta ções e aos animais de cria çã o.
Com o desenvolvimento de substâ ncias qu í micas de amplas
propriedades mortí feras, houve mudan ça s ú bita na atitude oficial
,

para com a. formíga -de-fogo. Em 1957, o Departamento da Agri


cultura dos Estados Unidos lan çou uma das ma is not á veis cam -
-
-
panhas dc publicidade de sua história* À formiga de - Fogo tornou
se, de repente , alvo de verdadeira saraivada de comunicados
-
governamentais, de Fitas cinematogr á ficas, de narrativas de inspi-
ra çã o governamental, retratando-a sob o aspectodc espol íadora
da agricultura do Sul, de matadora de pássaros, de animais de
cria çã o , e até do homem. Anunciou se vasta campanha , em que
o governo federal, em coopera çã o com os Estados atingidos, aca-
baria tratando, por fim, uns 20 milh ões de acres (cê rca de 80.972
quilómetros quadrados), em nove Estados sulinos.
piOs fabricantes de pesticidas, nos Estados Unidos, parece que
entraram em vasta maré Favor á vel de vendas, devido ao n ú mero
crescente de programas de elimina çã o de pestes em larga escala ,
postos em execu çã o pelo Departamento de Agricultura dos Es -
tados Unidos" — relatou, com alegria , um jornal comercial, em
1958, assim que o programa de erradica ção da form íga-de-fogo
se pôs em andamento.
Nunca um programa pestic í d íco foi t ã o completamentc e t ã o
merecidamente condenado por pratica mente todos os cidad ã os,
exceto , natural mente, os beneficiá rios da “ maré favorá vel de
vendas". Êsse programa constitui exemplo edificante de uma ex-
periê ncia mal concebida , péssima mente executada, e inteira mente
prejudicial , relativamente ao controle em grande escala , de inse -
tos ; foi experi ê ncia t ão dispendiosa, ein d ólares, em destruiçã o
de vida animal , e em perda de confiança p ú blica , por parte do
Departamento de Agricultura , que se torna incompreensí vel que
quaisquer novos fundos venham a ser destinados a ela.
O apoio do Congresso, ao projeto, foi inicialmente conseguido
por obra de representa ções que mais tarde foram desacreditadas.
-
A form íga -de fogo foi apresentada e descrita como sendo sé ria
amea ça para a agricultura do sul do pa ís, por via da destrui çã o
das planta ções e de animais silvestres, em consequ ê ncia dos ata
ques, que efetua, contra os lugares de postura e de cria çã o natural
-
170
de pássaros. Assegurou - se que a ferroada da cilada formiga cons
*

ti tuia sé ria amea ça à. sa úde humana.


Até que ponto se justificavam estas afirmativas? As declara ções
feitas pelo Departamento da Agricultura, atravé s das suas teste -
munhas, em busca de verbas para os programas de erradicação,
n ã o estavam em harmonia com as contidas nas principais publi-
cações oficiais do próprio Departamento. O boletim Imectiadc
...
Recommendations for the Control of Tnsecls Attackmg Crops
and Lwestock (Recomendações de Inseticidas... Para o Contrôle
de Insetos que Atacam as Plantações e os Animais de Cria çã o),
datado de 1957, nem sequer chegou a mencionar a formiga-
de-
fogo — omiss ã o extraordi n á ria , se á que o Departam ento referido
acredita cm sua própria propaganda. Ademais, o seu enciclopédico
Yearbook (Anuá rio), para 1952, que foi dedicado a insetos , con -
tinha apenas breve par á grafo sô bre a formiga -de- fogo, num con -
junto de mais de meio milh ão de palavras de texto.
Contra a afirmativa n ã o documentada do Departamento —
segundo a qual a forniiga -de fogo destr ói planta ções e atacao
animais de criação
Agr ícola

se coloca o cuidadoso estudo da Estaçã
do Estado que tem tido a mais í ntima
Experime ntal
experiência com o mencionado inseto: o AI aba ma. De ,
confor
"o dano,
-
midade com o que esclarece m os cientistas do Atabama
para as plantas , em geral, é raro". O Dr . F. S. Arant , entorno--
logista do Instituto Politécnico do Alabama, e , em 1961, presi
dente da Sociedade Entomológica dos Estados Unidos, afirma
que o seu departamento “ n ã o recebeu uma ú nica informa çã o
relativa a dano a plantas, por formigas, nos' passados cinco anos ...
Nenhum dano, à cria çã o , foi observad o . Estes homens , que
rio,
observaram de fato as formigas, no campo e no laborató
asseguram que a formiga -de- fogo se alimenta pi incipalm ente de
boa variedade dc outros insetos , muitos dos quais s ã o conside -
rados danosos aos interesses do Homem . A formiga
de fogo tem
sido observada apanhando larvas da lagarta do algod ã o. Sua
ati-
vidade no sentido de construir cupins presta serviço ú til , arejando
e drenando o solo. Os estudos do Alabama foram consubsta
ncia -
do
dos por investiga ções efetuadas pela Universidade do Estado
Mississipi , e são muito mais impressionantes do que as evidê ncias
; estas eviden -
proporcionadas pelo Departamento de Agricultura mantidas com
cias , ao que parece, se baseiam ou em conversa ções
se tomando
fazendeiros — os quais podem f á cil mente enganar - ,
uma formiga por outra ou cm antigas pesquisas. Alguns enio-

mologistas acreditam que os há bitos da íorm íga-de-fogo se modi-
ficaram , na medida em que esse inseto se tornou mais abundante;
171
nestas condi ções, as observa ções feitas vá rios decé nios atr ás se
revestem agora de pouco valor.
A afirmativa de que a formiga citada constitui amea ça à sa úde
e à vida também sofrem considerá vel alteraçã o. O Departamento
de Agricultura patrocinou uma propaganda cinematogr á fica (a íím
de ganhar apoio para o seu projeto) ' nessa propaganda, as cenas
de horror foram constru ídas ao redor da ferroada da formiga.
-
Deve se admitir que a ferroada ét na verdade, penosa , e que se
deve advertir t òda gente para que evite ser por ela picada, exata -
.
mente como normalmente, se evita a ferroada da abelha, ou da
vespa. Reações severas podem ocorrer de quando em quando,
em indivíduos muito sensíveis; a literatura médica registra uma
morte, possivelmente, embora n ã o definitiva mente, atribu í vel ao
veneno da formiga -de - fogo. Em contraste com isto, o Escrit ório
de Estatísticas Vitais registra 33 mortes, só no ano de 1959, em
.
consequê ncia de ferroadas de abelhas e de vespas Contudo,
ningué m jamais propôs a “ erradica çã o destes insetos. De riõvoi
11

a evidência local é das mais convincentes. Embora a formiga -de-


fogo tenha habitado o Alabama * ao longo de 40 anos, e esteja
mais fortemente concentrada nesse Estado da Uniã o Norte- Ame-
ricana, o Diretor da Sa úde do Estado do Alabama declara que
“ nunca , se registrou , no Alabama, morte de ser humano, que
houvesse resultado de ferroadas de formigas-de-fogo importadas '; 1

o mesmo diretor considera que os casos médicos, decorrentes de


ferroadas de formigas de-fogo, foram meramente “ incidentais* . Os
- 1

cupins nos gramados, ou nos parques infantis, podem criar


situa ções em que as crian ças enfrentem a probabilidade de ser
picadas; mas isto mal chega a ser escusa para se ensoparem
milhares de quilómetros quadrados de chã o com venenos inse-
t í c ídicos. Os casos dessa ordem podem ser f à cilmente liquidados
por meio do tratamento individual dos pró prios cupins.
Os danos às aves de ca ça també m foram alegados, sem que se
reunissem evid ê ncias em seu apoio. Por certo, homem bem qua -
lificado para falar sobre êste t ó pico è o chefe da Unidade de
Pesquisa da Vida Silvestre , em À uburn , no Àlabama , Dr, Maurice
F. Baker; êste cientista tem muitos anos de experi ê ncia na men
cionada área. Mas a opinilo do Dr. Baker está em oposiçã o direta
-
às afirmativas do Departamento da Agricultura* Declara êle: “ No
sul do Alabama , bem como na regiã o noroeste da Flórida , nós
conseguimos ter caça excelente e populações de codornas em
coexistê ncia com densas popula ções de formiga -de-fogo importa
da ,.. Nos quase 40 anos em que o sul do Àlabama tem possuí do
-
-
a formiga-de fogo, as popula ções de aves de ca ça tê m acusado
aumento constante, e muito substancial. Por certo, se a impor-

m
-
tadu formiga de- fogo constitu ísse amea ça sé ria à vida silvestre,
estas condições n ão poderiam existir *.
Que é que aconteceria à vida silvestre, em consequ ê ncia do

inseticida usado contra a formiga de-fogo esta é outra quest ão.
As subst â ncias qu í micas empregadas foram a dieldrina e o hepta -
cloro* ambas relativamente novas, Havia pouca experiência de
uso real , no campo, tanto de uma como de outra dessas substâ n
cias; e ningu é m sabia quais poderiam ser os seus efeitos sôbre
-
os pá ssaros silvestres, sôbre os peixes, ou sô bre os mam íferos,
quando aplicadas em grande escala . Era sabido, entretanto, que
os dois referidos venenos eram muitas vezes ma is L ú X íCOS do que
.

o I )1) T; por aqu éle tempo* o DI )T jã havia sido usado durante


aproxima cl ame tue um decénio, e já tinha matado alguns pássaros,
e també m muitos peixes, até mesmo na dilui çã o de meio quilo
por acre (4,0 -17 metros quadrados). A dosagem da d íeldrina e
do heptadoro foi ma ís pesada — um quilo por acre , na maior
parte das condi ções , ou quilo e meio cie d íeldrina* se o escara
velho orlado de branco també m tivesse de ser controlado. Em
-
termos dos seus efeitos sô bre os pássaros, o uso prescrito de
heptadoro deveria ser equivalente a dez quilos de DDF , por
acre; e o de dieldrina, a sessenta quilos!
Protestos urgentes se formularam * da parte da maioria dos
departamentos estaduais de conserva ção , de repartições federais
de conserva çã o, de ecologistas e també m de alguns entomologis
tas* que se dirigiram ao então Secretá rio da Agricultura * Ezra
-
Bensou ; foi - lhe pedido que adiasse a execu çã o do programa pelo
menos até que alguma pesquisa fosse feita , para se determinarem
os efeitos do heptadoro e da dieldrina sô bre animais domésticos
e silvestres; era preciso, ademais, encontrar a quantidade mí nima
que fosse bastante para o controle da formiga . Os protestos foram
ignorados; o programa foi lan çado em 1938. E milhares de qui-
l ó metros quadrados foram tratadas no primeiro ano. Estava claro
que qualquer pesquisa , ent ão, teria de ser feita na Natureza, ou
post moriem .
Na medida em que o programa foi sendo levado avante , os
fatos começaram a acumular-set resultando de estudos feitos por
biologistas* tanto de repartições do Estado como da Federa çã o,
bem como de vá rias universidades. Os estudos revelaram peidas
de todos os graus, indo at é ã destruiçã o completa da vida silvestre ,
em determinadas partes das áreas tratadas. As aves domésticas,
o gado c os animais de estimaçã o també m foram mortos. O
Departamento da Agricultura pôs de lado t òdas as evid ê ncias de
dano , considerando-as exageradas e equivocas* ou conducentes a
engano.
173
Os fatos, entretanto, continuam a acumular-se. No Condado de
Hardin, no Texas, por exemplo, os gambás, os tatus e uma
abundante população de guaxinins desapareceram virtualmente,
depois que a substâ ncia q ui mica foi aplicada. Até mesmo no
segundo outono, depois do tratamento, os referidos animais eram
escassos. Os poucos guaxinins ent ã o encontrados, na mencionada
á rea, eram portadores de resíduos da citada substâ ncia quí mica
em seus tecidos.
Os pássaros mortos, encontrados nas á reas tratadas, tinham
absorvido, ou engolido, os venenos utilizados contra a formiga-
de -fogo; és te fato ficou ciaram eme demonstrado pela an á lise dos
rcspectivos tecidos. (O ú nico pássaro que sobreviveu , em alguma
quantidade, foi o pardal caseiro; êste pássaro tem dado demons
trações, també m em outras á reas, de ser relativa mente imune).
-
Numa zona do Alabama, tratada em 1959, metade dos pássaros
foi morta. As espécies que se alimentam no ch ã o, ou que fre-
quentam vegetação rasteira, sofreram mortandade de KM) jx>r
-
cento Mesmo um ano após o tratamento, ocorreu uma primavera
de ausê ncia de pássaros de canto; e grande parte de uma á rea
de postura c de cria ção se conservou em silê ncio e n ã o ocupada.
No Texas, melros, trigueir ões de papo preto, papa -figos, foram
encontrados mortos em seus ninhos; e in ú meros ninhos foram
encontrados desertos. Quando se enviaram , ao Servi ço de Peixes
e de Animais Silvestres, do pa ís, exemplares das aves mortas,
procedentes do Texas, da Louisiana, do Alabama, da Geórgia
c da 1 'Lòrida , para a devida análise, mais de 90 por cento de tais
exemplares, ao que se verificou , continham resí duos de dieldr í na ,
ou de uma forma de heptacloro, em quantidades que subiam
até 38 partes por milhão.
As galinholas, que passam o inverno na Louisiana, mas que
se reproduzem no Norte, agora possuem nos tecidos de seu corpo,
tra ços de venenos utilizados contra a form íga -de fogo, A origem
desta contamina ção é clara. As galinholas se alimentam abundante-
mente de minhocas, que procuram , no ch ão, escavandoo com
seus bicos longos. Os vermes sobreviventes às pulveriza ções, que
se encontraram na Louisiana , continham até 20 partes por milhão,
de heptacloro, em seus tecidos, mesmo seis, e mesmo dez meses
depois do tratamento da á rea. Um ano após, tais vermes possu íam
10 partes por milh ão. As consequências do envenenamento suhle-
tal das galinholas est ã o sendo agora vistas no marcante decl í nio
da proporçã o de pássaros jovens, em rela ção aos adultos ; trata -se
de decl í nio observado pela primeira vez na esta çã o seguinte
àquela em que tiveram in ício os tratamentos qu í micos contra a
formiga -de-fogo
+

174
Algumas das not ícias ma is alarmantes, para os esportistas do
Sul, relacionaram -se com as codorn ízes. Esta ave* que aninha
junto ao ch ão e junto ao chã o se alimenta, foi quase que elimi-
nada das á reas tratadas com inseticidas. No AJabama, por exem-
plo, os biologistas da Unidade Cooperativa de Pesquisa em Tôrno
da Vida Silvestre, do mesmo Alabama , efetuou um recenseamento
preliminar da população de codorn í zes* numa área de 3,600 acres
tratamento. Treze ninhadas residentes — —
(cerca de 15 quilómetro® quadrados), que f ôra escolhida para
121 codorn í zes
vam pela á rea. Duas semanas depois do tratamento* sòmeute
codomizes mortas puderam ser encontradas. Todos os espécimes
anda -
remetidos ao Servi ço de Peixes e Vida Silvestre, para an á lise,
continham , ao que se verificou, inseticidas em quantidades sufi-
cientes para lhes causar a morte. As verifica ções feitas no Ala
bama foram duplicadas no Texas, onde uma á rea de 2.500 acres
-
(pouco ma is de 10 quil ómetros quadrados), tratada com hepta-
cloro , perdeu tôdas as suas codorn í zes e tôdas as suas perdizes,
junta mente com essas aves, desapareceram 90 por cento dos
pássaros canoros. De nõvo* a an álise revelou a presen ça de hepta-
cloro nos tecidos dos exemplares mortos.
Em acréscimo às codomizes e perdizes, os perus silvestres foram
sèriamente reduzidos pelo programa contra a formíga -defogo.
Embora 80 perus houvessem sido contados numa á rea * no Con
dado de Wikox* no AI abam a , antes de o heptadoro ser aplicado,
-
nenhum dêles peide ser encontrado depois do tratamento: ne-
nhum , isto é, exceto um grupo de ovos não chocados, al é m de
um peruzinho morto. Os perus silvestres podem ter sofrido o
mesmo destino dos seus irm ã os domésticos; os perus de fazendas,
na área tratada com substâ ncias qu í micas, também produziram
poucos filhotes. Poucos ovos foram chocados com êxito, e quase
nenhum peruzinho sobreviveu. Isto n ã o aconteceu em á reas vizi
nhas n ã o tratadas com subst â ncias qu í micas ,
-
O destino dos perus n ã o foi único. Um dos biologistas ma ís
Iargamente conhecidos e mais respeitados, no setor da vida
silvestre* no pa ís, é o Dr. Clarence Cottam. Este cientista visitou
vá rios fazendeiros* cuja propriedade fôra tratada com subst â ncias
.
inseticidas Al é m de notar que " todos as pequenos pássaros de
á rvoresr " parecia terem desaparecido depois de a á rea ser tratada,
a maior parte das pessoas nela residentes comunicou ter sofrido
peidas em rebanhos, em aves e em animais caseiros de estima çã o.
Um homem se mostrou "irado contra os funcion á rios executores
das pulverizações' * — assinalou o Dr. Cottam — visto que ele
havia enterrado, ou disposto de outra maneira * 19 carcassas de
suas vacas; os animais haviam sido mortos pelo veneno; e ele
175
recebera not ícia rle mais três ou quatro vacas que tinham morrido
em consequ ê ncia do mesmo tratamento inseticídico da regi ã o
Morreram també m bezerros, que só haviam recebido como ali-
mento,. leite desde o nascimento” .
As pessoas que o Dr . Cottam entrevistou se mostraram intriga-
das em face do que tinha acontecido nos meses que se seguiram ao
tratamento de suas terras por meio de substâ ncias insetidd ícas.
Uma senhora lhe disse que possu í a varias galinhas, reunidas
depois que as terras adjacentes foram cobertas de veneno ; e que,
“ por motivos que n ão compreendia , muito poucos
pintainhos
haviam nascido e sobrevivido ” . Outra pessoa, um fazendeiro, “ cria
leitões; e, durante nove meses inteiros, depois da pulverizaçã o
do veneno, n ã o pôde contar com nenhum leitão novo ” . Comu-
nicado semelhante procedeu de outro criador, que disse que, de
37 crias, de que deveriam resultar 250 filhotes, somem te 31 ?-
quenos leitões sobreviveram . O homem que informou isto decla JK
rou , també m, que fora de todo incapaz de criar galinhas, a partir
-
de quando a terra f òra envenenada.
O Departamento da Agricultura tem negado, consistentemente,
as perdiis em manadas e rebanhos, relacionadas com o programa
de combate à formiga -de- fogo. Entmanto, urn veterin á rio, em
Bainhr ídgc\ Geórgia, Dr. Otis L . Poitevint, que foi chamado para
tratar muitos dos animais atingidos, recapitulou suas razões para
atribuir , como de tato atribu ía, as referidas mortes, ao inseticida,
pela maneira que se segue ;
Dentro do período de duas semanas ao de vários meses, a contar
de quando o veneno contra a iormiga-de-fogo foi aplicado, as
vacas, as cabras, os cavalos, as galinhas, os pá ssaros e outras
formas de vida silvestre começaram a sofrer de uma doença
frequentemente fatal , do sistema nervoso. O citado veneno afetou
sò menLe animais que tinham acesso a alimento contaminado , ou
a água contaminada. Os animais estabulados n ã o foram afetados.
A condiçã o mencionada foi observada somente nas á reas tratadas
-
para o controle da fomiiga de-fogo. Os testes de laborat ó rio, para
identifica ção de enfermidades, foram negativos. Os sintomas no-
tados pelo Dr. Poitevint , bem como por outros veterin á rios,
foram os descritos num texto autorizado, indicando envenena -
mento por dieldrina, ou por h çptacloro.
0 Dr. Poitevint iarnbé m descreveu o caso interessante de um
%

bezerro de dois meses de idade, que acusou sintomas de envene-


namento por heptacloro, O animal foi submetido a exaustivos
testes de laborat ó rio. O un íco achado significativo foi a desco-
berta de 79 partes por milh ão, de heptacloro, em seus tecidos
gordurosos. Entretanto, isso aconteceu cinco meses depois que o
176
veneno f ôra aplicado à regi ão. Terá o bezerro citado recebido o
veneno dirctamenie através da pastagem , ou indiretamente do


leite de sua m ãe, ou , ainda, também indiretamente, de sua m ãe,


porém antes de nascer ? "Se o foi através do leite indagou o
Dr. Poitevint por que é que n ã o foram adotadas precau ções
especiais, para proteçã o das nossas crian ças, que tomaram leite
procedente das fazendas locais de criação?”
O relat ório do Dr. Poitevint põe em relêvo um problema
relevante a respeito da contamina çã o do leite. À á rea compreen -
dida pelo programa de contr òle da forni iga - dedogo se compõe pre-
dominantemente de campos e de terras de cultivo. Que se diz do
gado de leite que pasta em tais terras? Nos campos tratados por
inseticidas, as granias devem conter inev í tà velmente resí duos de
heptacloro, em alguma de suas formas; e, se os res íduos são inge-
ridos pelas vacas, o veneno aparece no leite. Esta transmissã o
direta, para o leite, foi experi mental mente demonstrada , para o
heptacloro, em 1955 —
muito antes que o programa de controle
fosse empreendido; e foi demonstrada posterior mente, para a
dieldrina , subst â ncia també m utilizada no programa de extin çã o
-
da formiga de-fogo.
As publicações anuais, do Departamento de Agricultura, agora
alistam o heptacloro e a dieldrina entre as substâ ncias qu í micas
que tornam as plantas forrageiras inadequadas para a alimenta ção
de animais produtores de leite , e també m de animais que estejam
sendo engordados para abate; n ã o obstante, as divisões de con-
trole, do mesmo Departamento, promovem programas de pulve-
riza çã o que espalham o heptacloro e a dieldrina por cima de vas
tas á reas de terras de pasto, no Sul dos Estados Unidos.
-
Quem é que está protegendo o consumidor, e, portanto, cui-
dando para que os res íduos de dieldrina , ou de heptacloro, n ã o
apareçam no leite? O DepartamenLo da Agricultura, dos Estados
Unidos, responderia, sem d úvida, que aconselhou , aos fazendeiros,
a manter as vacas leiteiras fora das pastagens pulverizadas, du
rante o prazo de uns 50 a uns 90 dias. Em face do tamanho pe-
-
queno de muitas das fazendas, e da natureza em grande escala
do programa — sendo a maior parte da subst â ncia qu ímica es-

palhada por meio de aeroplanos é extrema mente duvidoso que
esta recomenda ção haja podido ser observada como devera ter
sido. For outro lado, o período prescrito n ã o é adequado, à vista
da natureza persistente dos res íduos.
A administraçã o do Alimento e da Droga, embora fazendo ca -
reta em presen ça de todo res í duo de qualquer pesticida no leite *
tem pouca autoridade, nesta situação. Na maior parte dos Estados

177
12 Primavera SMttnd õfO
inclu ídos no programa de combate á formiga -de-fogo, a ind ús -
tria de latic í nios ê pequena, e os seus produtos n ã o cruzam fron
teiras estaduais , A proteçã o contra o fornecimento de leite tor-
-
nado perigoso, por melo de um programa federal, é, portanto,
deixada a cargo dos pr ó prios Estados, Perguntas foram dirigidas
aos funcioná rios da sa ú de, ou a outros funcion á rios semelhantes,
no Alabama , na Lo u mau a e no Texas, cm 1959; e as respostas
revelaram que nenhum teste fora feito, e que simplesmente nã o
se sabia se o leite f ôra ou n ão íôra contaminado pelos pesticidas.
Nesse entrementes, depois, mais do que antes, do lançamento
do programa de controle, alguma pesquisa em torno da natureza
peculiar do heptacloro* foi levada a cabo. Talvez f ôsse mais exato
dizer que algu é m deu uma olhada k pesquisa j á publicada , e isto
porque o fato básico, que provocou a a ção retardada da parte
do governo federal , tinha sido descoberto vá rios anos antes; e de-
veria , portanto, ter exercido influ ê ncia no estudo inicial do pro-
grama , Este fato é o de que o hep ta cloro, depois de breve pe-
r í odo passado nos tecidos de animais* ou de plantas, ou no solo*
assume forma considerá vel mente mais t óxica , conhecida pela de -
nomina ção de epóxido de hcptacloro. Q epóxido c popularmente
descrito como sendo um produLo de oxida ção ' r * resultante das
41

intempé ries. O fato de esta transforma çã o poder ocorrer já era


conhecido desde 1952; nesse ano, a Administra çã o do Alimento
e da Droga descobrira que as ratas, alimentadas com 30 partes
por milhão* de heptacloro* tinham armazenado 165 partes por
milh ã o do epóxido muito mais venenoso, apenas duas semanas
depois.
Permitiu -se que êstes fatos sa íssem da obscuridade da literatura
biológica* em 1959, quando a Administra çã o do Alimento e da
Droga tomou uma iniciativa que teve o efeito de banir todos os
res íduos de heptacloro* ou do seu epóxido, nos alimentos. Esta
norma pôs , pelo menos temporariamente* uni freio no programa
insetiddko; embora o Departamento da Agricultura continuasse
a insistir na consecu çã o das suas verbas anuais , para o contrò le
da formiga -de-fogo, os agentes agr ícolas locais, seus representantes,
se fizeram cada vez mais relutantes, desaconselhando os fazendei -
ros a usar as subst â ncias qu í micas que pudessem resultar , prov à -
vcí mcntc, no fato de as suas colheitas se tornarem inadequadas
para lançamento no mercado.
Em poucas palavras; o Departamento da Agricultura lan çou -se
na execu çã o do seu programa sem sequer proceder a uma inves-
tiga çã o elementar a respeito daquilo que já era conhecido quanto
às substâ ncias que poderiam ser utilizadas; ou , se investigou , des-
prezou os resultados da investiga çã o, O mesmo Departamento
178
unibém deve ter deixado de proceder a tòda pesquisa preliminar
g > . ir .1descobrir a quaiiLidade m í nima de substância insetic ídita
• 111 « ' pudesse bastar para a finalidade almejada . Depois de três
ui . is de dosagens pesadas , o Departamento reduziu abruptamente
i proporçã o da aplica çã o do hep[adoro ,, de um quilo para
750
I , I . unas por acre (4 , 047 metros quadrados ) , em 1959; mais tarde ,
irdu / iu a 250 granias por acre , sendo o inseticida aplicado em
• In . is pulverizações cada qual com a concentração de 125 gramas,
• um três a seis meses de intervalo oure uma e outra . Um funcio-
n u io do Departamento explicou que
“ um
programa agressivo
• li melhoramentos de mé todos ’ ' mostrara que a menor proporção
na a mais e í icaz . Se esta informação houvesse estado dispon í vel
lines do lançamento do programa , vasta quantidade de preju í zos
poderia ter sido evitada ; e os contribuintes, isto é, os pagadores
de impostos , poderiam ter poupado boa quantidade de dinheiro.
Em 1959 , talvez numa tentativa de compensar a crescente insa-
i isla ção provocada pelo programa , o Departamento de Agricul -
uua ofereceu as substâncias qu í micas, de gra ça , aos possuidores
de terras do Texas; bastava, para recebe - las , assinar uma decla -
ra ção, isentando os governos federal , estadual e local , de toda res-
ponsabilidade por danos poss íveis. No mesmo ano, o Estado do
Alabama , alarmado e enfurecido, em face do dano ocasionado
pelas substancias qu ímicas, rec usou -se a conceder qualquer nova
verba para o projeto. Um dos seus funcionários ca i adernou o
programa inteiro como sendo “ mal aconselhado, concebido à$
pressas , pobremente planejado, constituindo clamoroso exemplo
de tripúdio, com ferraduras munidas de rompoes , sôbre as respon’ - 1

sabilidades de outras entidades, tanto p úblicas como privadas .


A despeito da ausência de fundos estaduais, o dinheiro federal
continuou a gotejar no Alabama ; e, em 1961 , a legislatura foi
novaniente persuadida a conceder uma pequena verba destinada
a pulveriza ções contra a formiga de fogo. Entrementes, os fazen-
deiros da Louisiana passaram a acusar uma relutância cada vez
maior , quanto a assinar declarações relativas ao projeto, por-
quanto se tornou evidente que o uso de substâncias qu í micas con-
tra a formiga -de - fogo estava causando o surto de insetos destrui-
dores de cana -de -açúcar; Ademais , o programa não estava , óbvia -
mente, dando resultado algum. O estado precário da execução do
programa foi enèrgicamente sumarizado na primavera de 1962,
pelo diretor de Entomologia , departamento de pesquisa , da Esta-
ção Agr í cola Experimental da Universidade do Estado da Loui-
siana , Dr . L, D . Newson : “ O programa de erradica ção da impor-
tada formiga -de-fogo, que tem sido pôstn em prá tica pelas repar -
tições federais e estaduais , é, assim , um fracasso. Existem mais
179
á reas infestadas* agora » na Louisiana * do que quando o programa
de extin ção da suposta peste começou a ser executado.
Um desvio para o uso de método® ma LS sadios e inais conserva -
dores parece que já começou , A Flórida » comunicando que “ há
rnais forni tgas-de-fogo » na Flórida * agora , do que havia quando o
programa começou a ser pôs to em pr á tica ” * anunciou que estava
abandonando t ôda idéia de erradica ção ampla * passando, ao in-
vés.» a concentrar seus esfor ços no controle locaL
Métodos eficazes e pouco dispendiosos, de controle local * sã o
conhecidos desde muitos anos atr ás, O costume de construir
cupins, que as formigassle fogo tem* faz com que o tratamento
individual de cada cupim se transforme em tarefa bem simples.
O custo desse tratamento é de cêrea de um dólar por acre (4,047
metros quadrados). Para situações em que os cupins sã o numero-
sos, e em que os m é todos mecanizados sã o desejá veis* a Esta çã o
Agr ícola Experimental do Mississipi aperfei çoou um conjunto cul
,

tivador, que primeiro nivela e depois aplica o inseticida direta -


-
rnente no cupim , at í ngindo-lhe as profundidades. Este m é todo
proporciona o contrôle de 90 a 9ã por cento das formigas. Seu
custo é de 23 centavos de d ó lar por acre, O programa de contrôle

custa três d ólares e meio por acre



em larga escala * do Departamento de Agricultura , por outro lado*
sendo o mais caro, o inais
prejudicial e menos eficiente de todos os programas.

130
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il . Para Lá dos Sonhos dos Borgias


A -
CONVAM INA çã O do rioE it) mundo n ã o è stjjenas uma questã o de
pulveriza ção em grande escala. Com efeito, para a maior parte
de nós, isto se reveste de menos import â ncia do que as inumerá
veis exposições em pequena escala, a que estamos sujeitos dia a
-
dia* ano após ano. Como o gotejar constante da água * que* por
sua vez , desgasta a pedra ma is dura* este contato, que dura do
nascimento at é à morte, com substâncias qu ímicas perigosas, pode
vir a ser , no fim das contas, catastrófico. Cada uma destas repeti
das exposições ao veneno, por inais leve que seja, contribui para
-
a acumula çã o progressiva de subst â ncias qu í micas em nosso corpo ,
e, assim , para o envenenamento cumulativo Muito provavel- .
mente , pessoa nenhuma está imune ao contato com esta contami-
na ção esparsa , e que cada vez mais se expande, a menos que viva
em situa çã o que seja das ma ís isoladas imagin á veis Seduzido pela .
t écnica insinuante de vendas, bem como pelo persuasor oculto* o
cidad ã o m édio rara mente fornia consci ê ncia do car á ter mort í fero
dos materiais de que se circunda: na verdade , êsse cidad ã o chega
mesmo a n ão perceber sequer que os está usando.
/ ay '
3
^

f
// m'
ri
A Idade das Venenos está tão sòlidamente implantada, que
qualquer pessoa pode entrar numa loja e, sem que lhe sejam diri-
gidas perguntas de nenhuma espécie, adquirir substâ ncias de po-
der mort ífero muito maior do que qualquer rem édio para cuja
compra eia precisa apresentar receita m édica e apor sua assina-
.
tura no "Livro de Venenos ' \ na farmá cia da esquina Basta uma
visita de alguns minutos, em qualquer supermercado, para alar-

mar o fregu ês de coração rnais duro desde que , naturalmente,
cie possua ainda que seja um conhecimento rudimentar das subs-
tâ ncias qu í micas oferecidas à sua escolha.
Se um cr â nio enorme , com duas t í bias cruzadas por baixo, es-
tivesse suspenso no departamento de inseticidas do supermercado,
o fregu ês poderia pelo menos entrar nele com o respeito que nor -
mal mente se reserva aos materiais provocadores de morte. Mas,
ao contrá rio, o ambiente, ali , é caseiro e alegre; juntamente com
os picles e com as azeitonas, do outro lado da ala ; juntamence

com os sabões de lavadeira, logo ao lado veem -se renques e mais
renques de inseticidas. Áo f ácil alcance da mão buseadora de uma
-
criança , encontram -se substâ ncias qu í micas, em recipientes de vi
dro. Se um de tais recipientes cair ao chã o, por obra de crian ça
travèssa , ou de adulto descu í doso, todas as pessoas próximas po-
der ão ser salpicadas pela mesma substâ ncia qu í mica que já lan -
çou em crise de convulsões os pró prios t écnicos pulverizadores de
inseticidas» que a têm usado sem as devidas precau ções. Êste risco,
como é lógico, acompanha o comprador da subst ância , at é direta-
mente dentro do seu lar. lima lata de material contra tra ças e
mariposas, que contenha DDT, por exemplo, ostenta, impressa
em letras bem miú das, a advert ê ncia de que o seu conte ú do est á
sob pressã o, e que a lata pode explodir, se exposta ao calor, ou
diretamente às labaredas. Um inseticida comum, para uso dom és -
tico, que se inclui em vá rios usos, na cozinha, é a clordana. Toda -
via, a Administra çã o do Alimento e da Droga , por seu farmaco-
logista -chefe, j á declarou que o risco de se viver em casa pulveri-
zada ou borrifada com clordana é "muito grande "'. Outros prepa -
rados, de emprêgo caseiro, contê m at é a dieldrina, que é muito
mais tóxica.
O uso de venenos, na cozinha, é tornado atraente e f ácil* O
papel de proteçã o e decora çã o de prateleiras, seja branco, seja de
alguma cor determinada, para corresponder ao ambiente a que
se aplica , pode estar impregnado de inseticida , nã o sòmente de
182
um dos lados, e sim dos dois. Os fabricantes deles nos oferecem
folhetos, do tipo de “ £aça -o-você mesmo” * sò bre a maneira de se
matarem insetos domésticos. Com extrema facilidade, qualquer
pessoa pode difundir uma espécie de névoa nos recantos, nas fres -
tas e nas fendas rnais inacessí veis de qualquer mó vel, de qual -
quer â ngulo, de qualquer tá bua de assoalho.
No caso de sermos incomodados por mosquitos, por micuins,
ou por outros insetos- pestes, na nossa pessoa , disporemos de vasta
possibilidade de escolha de loções, cremes e pulverizações, para
aplicaçã o, seja na roupa, seja na pele. Embora sejamos advertidos
de que algumas dessas subst â ncias dissolvem vernizes, tintas e te -
cidos sintéticos (ou plásticos) , permanecemos sempre na presun-
ção de que a pele humana é imune ao contato com elas, e mesmo
com outras substâncias qu ímicas. Para se certificar de que estamos
preparados* a todo instante, a repelir insetos, uma grande loja
de luxo, de Nova York, anuncia um aplicador de inseticida , de
tamanho de bòlso, adequado ao transporte no bòlso, ou 11a bôlsa ;
ou ao uso na praia , ou no campo de gôlfe; ou para figurar entre
os petrechos de pesca .
Podemos polir e lustrar o nosso assoalho com uma cê ra que dá
garantia de matar qualquer inseto que caminhe sóbre cie. Pode -
mos dependurar tiras, impregnadas da substâ ncia qu í mica cha -
mada lindana, nos nossos banheiros* nos nossos arm á rios, nas nos-
sos sacos de roupas; podemos também colocar essas mesmas tiras
nas gavetas das escrivaninhas e de outros tipos de mesa, na espe -
ran ça de um meio ano de liberdade contra preocupa ções a res -
peito de danos causados por tra ças. Os an ú ncios n ão contém
.
advertê ncia alguma esclarecendo que a lindana é venenosa Como
també m n ã o contêm advertê ncia nenhuma, em tal sentido, os
an ú ncios relativos a um dispositivo electrò n í co que difunde fu -
ma ça de lindana . O que se diz é que essa substâ ncia qu ímica n ã o
oferece perigo, e é sem cheiro. Contudo , a verdade verdadeira
-
é a de que a Associa çã o Médica Norte Americana considera os
vaporizadores de lindana como sendo perigosos — tão perigosos ,
que ela j á levou a cabo vasta campanha contra o seu uso, no
seu Journal .
O Departamento da Agricultura, numa edi ção de Home and
Garden Bttlletin ( Boletim da Casa e do jardim ), aconselha -nos a
pulverizar as nossas roupas com solu ções oleosas de DDT, de diel-
drina , de clordana, ou de quaisquer dos v á rios outros recursos
183
qu ímicos* matadores de traças. Se a pulverização excessiva resulta
em depósitos esbranquiçados dc inseticida na roupa tais depó
* * -
sitos podem ser removidos por meio de escôva

diz o Departa-
mento —deixando de nos acautelar , de nos aconselhar a ser cui -
dadosos, quanto ao lugar e ao modo em que o escovamento deve
ser feito. Uma vez atendidos todos ésies pormenores nós podemos
completar o nosso dia com inseticidas indo para a *cama dormir ,
por baixo de len çóis a prova de traças, mas impregnados* de diel-
drina*

A jardinagem est á agora firmemente vinculada aos supervene


-
nos. Toda loja de ferragens* tóda loja de artigos para jardins,
todos os supermercados, tê m vá rias prateleiras reservadas aos in -
seticidas, para tôdas as situações imagináveis que passam ocorrer
em hortas* pomares e jardins* Os que deixam de fazer uso amplo
de tais artigos* de tamanha coleção de pulveriza ções letais e de
borrifamentos mort íferos, são, por via impl ícita, omissos, uma
vez que quase todos os jornais trazem pá ginas dedicadas à jardi -
nagem; e tatuo essas páginas, como a maioria das revistas especia-
lizadas no assunto, dã o o seu empr êgo como seguro e garantido.
Os inseticidas de f ósforo orgâ nico extremamente mort íferos,
*
são tão extensivamente usados, e seu uso cresce tã o rà pidamente,
em gramados e em plantas ornamentais, que em 1960 a Comissão
* *
de Sa úde* do Estado da Flórida , achou necessário proibir o uso
comercial de pesticidas em á reas residenciais, por qualquer pes-
soa que não houvesse obtido, antes, a indispensá vel permissão, e
satisfeito determinadas exigê ncias. Certo n ú mero de mortes em
consequê ncia do uso do paratião, ocorreu na Fló rida, antes* de
esta regulamentação entrar em vigor.
Pouco se f ê z, porém , para advertir o jardineiro ou o dono da
*
residência* de que êle está lidando com materiais extremam ente
perigosos. Ao contrá rio: uma torrente constante de novos disposi-
tivos torna cada vez ma is f á cil a aplicação de venenos no relvado
ou no jardim — aumentando, ao mesmo tempo, as possibilidades
de contato do homem com tais venenos. Pode -se obter, por exem
plo, um dispositivo em forma de jarro, para se ligar à mangueira
-
do jardim; por meio de tal dispositivo as substâ ncias qu í micas
*
extrema mente perigosas, como a clordana ou a dieldrina , s ã o apli-
cadas enquanto a gente rega as plantas ou a relva. O citado dis-
positivo n ão é sòmente um risco para a pessoa que manuseia a
mangueira; constitui também ameaça pú blica. O "New York Ti-
181
mes" achou necessário divulgar uma advert ê ncia, em página da
sua se ção de jardinagem, esclarecendo que, a menos que se insta -
lassem dispositivos especiais de proteçã o, os venenos insetiddkos
referidos poderiam penetrar no abastecimento da á gua, por via
-
de retroa ção dc sif ã o., Considerando se o n úmero de dispositivos
que se encontram em uso, e també m a escassez de advertê ncias in -
cisivas como esta * ser á mesmo o caso de a gente se admirar diante
do fato de as águas pú blicas serem contaminadas?
À guisa de exemplo do que pode acontecer ao pr óprio jardi -
neiro, podemos dar uma olhada ao caso de uin médico

siasta da jardinagem nas horas vagas que começou a usar DDT,
— entu -

e depois mala tiao, para os seus arbustos e para o seu gramado,


.
fazendo aplicações semanais regulares Por vezes, aplicava as subs-
tâ ncias qu ímicas por meio de pulverizador manual; outras vêzes,
com um dispositivo ligado à sua mangueira. Áo fazer isto, tanto
a sua pele como as suas roupas ficavam freq úentemente ensopa -
das de substâ ncia pulverizada . Depois de cerca de um ano de vi-
gorarem estas condições, êle de s ú bito entrou em colapso * e foi
hospitalizado. O exame de um pouco de sua gordura, para biop -
sia , acusou a acumula çã o de 23 partes por milhão de DDT. Houve
danos extensos em nervos, que os médicos consideraram como
sendo permanentes. Com o correr do tempo, aqu ê le má dico- jar -
dineiro perdeu a vista, passou a sofrer de fadiga extrema , e ex -
perimentou fraqueza muscular peculiar , efeito caracter ístico do
malatiãov Todos estes efeitos persistentes se manifestaram com se -
veridade suficiente para impedir que o facultativo prosseguisse
mantendo sua cl í nica.
Além da outrora inócua mangueira de jardim , também os teh
fadores mecâ nicos de grama já foram equipados com dispositivos
para dissemina ção de inseticidas; os referidos dispositivos jorram
uma nuvem de vapor, enquanto o ceiFador mecânico vai de um
lado para outro, em sua tarefa de cortar a relva. Assim, âs ema
nações potencialmente perigosas dc gasolina queimada , acrescen -
-
tam-se as part ículas finamente esmiu çadas de seja lá qual f ôr o
inseticida que o residente suburbano, provàvelmente sem suspei-
tar coisa alguma , escolhe para disseminar; aumenta-se, por essa
forma, o teor de polui ção do ar logo acima do chão do jardim ,
situando o num n ível que poucas cidades poderiam igualar.
-
Entretanto pouco se fala a respeito dos riscos do passatempo da
jardinagem, em consequ ê ncia do uso de venenos, ou da utiliza ção
185
de inseticidas, em atividades domésticas; as advert ê ncias , constan -
tes dos rótulos p sã o impressas de maneira tao inconsp ícua , em
letrinhas t ã o miúdas, que pouca gente se di ao trabalho de as ler,
e menos ainda de as obedecer. Uma firma industrial empreendeu ,
ainda recentemente, a tarefa de verificar o que significa essa
Mpouca gente'% A pesquisa indicou que menos de quinze pessoas,
de cada grupo de cem, dentre as que fazem uso de aerossóis inse -
tic íd í cos e de pulveriza ções de substâ ncias qu í micas, t ê m noçã o
de que há advert ê ncias impressas nos rótulos dos recipientes em
que tais subst â ncias sã o vendidas.
A tradi çã o dos sub ú rbios agora assinala que o capim sangui-
n á rio precisa ser eliminado a todo custo. Os sacos que cont êm
subst â ncias qu í micas destinadas a livrar os gramados dessa vege -
ta çã o desprezada já se tornaram quase uma espécie de s ímbolo
de situação social do seu possuidor. Estas substâ ncias matadoras
de ervas daninhas sã o vendidas sob denomina ções que nunca su -
gerem a sua identidade nem a sua natureza. Para ficar sabendo
que os compostos correspondeu tes âs denomina ções comerciais
contê m dordana ou dieldr í na , o comprador precisa ler umas li -
nhas impressas, com tipos inexcedivelrnente pequenos, colocadas
em partes menos ostensivas do saco em que os compostos são vem
d idos, A literatura descritiva , que pode ser apanhada em qual -
quer loja que venda artigos para jardinagem , raramente revela ,
se ê que alguma vez revela , o verdadeiro risco impl ícito no ma
nuseio e na aplica çã o do material inset íddico. Ao contrá rio: a
-
ilustra çã o t í pica retrata uma cena de fam ília feliz, com o pai e
o filho a preparar, sorrindo, o material para aplica çã o da subs -
tâ ncia ao gramado, e com crian ças a rolar por cima da relva ,
juntamente com um cachorro.
A questã o dos res íduos qu í micos , no alimento que comemos ,
constitui tema de ardorosos debates. A exist ê ncia de tais res íduos
ou é desprezada pela industria, que a considera sem importâ ncia ,
ou é francamente negada. Simult â neamente, hâ forte tend ê ncia
no sentido de se tacharem de fan á ticos , ou cu 1 tinas, todos os que,
aos olhos daquela ind ústria, se mostram tão perversos , ao ponto
de exigir que o seu alimento se apresente livre de res íduos de
venenos usados contra insetos. Em t õda esta bruma de contro -
vérsias, quais sã o os fatos verdadeiros, concretos?
Já ficou medicinalmente estabelecido que, como o senso co-
mum nos revelaria, as pessoas que viveram e morreram antes do

18«
alvorecer da era do DDT ( lá pelo ano de 1942) n ã o contiveram
vestígio algum de DDT* nem de nenhum material semelhante ,
em seus tecidos. Como se mencionou no Capí tulo 3, amostras de
gordura , coletadas da popula çã o em geral , entre os anos de 1954
e 1956, acusavam resíduos na propor ção de 5*3 até 7 *4 partes, por
milh ã o, de DDT , H á evid ências de que o n í vel médio de tais
resíduos se elevou substancialmente, a partir de ent ão, para alga -
rismos bem superiores ; e de que os indiv íduos que se expõem ao
referido veneno, por decorrê ncia profissional * ou outra circuns
tâ ncia especial* acusam í ndices ainda maiores de res íduos.
-
No seio de popula çã o generalizada, que n ão se haja exposto sa -
-
bidamente aos efeitos de pesadas doses de inseticidas, pode se pre -
sumir que a maior parte do DDT, armazenado em depósitos de
gordura, entrou no corpo através dos alimentos. Para se compro -
var o acerto desta hipótese, um grupo de cientistas do Servi ço de
Sa ú de P ú blica , dos Estados Unidos, colheu amostras de refeições
em restaurantes e em instituições possuidoras de refeit órios. Cada
uma das amostras continha DDT . Com base nisto* os investiga -
dores conclu íram * aliás bastante razoà velmente* que "poucos ali-
mentos podem — se é que o possam
rameme livres de DDT” .
— ser admitidos como intei-

As quantidades desse inseticida, nas refeições, podem ser enor -


mes. Num estudo separado, do Servi ço de Sa ú de Pú blica, dos Es-
tados Unidos, a an á lise de refeições servidas em prisões revelou
itens como êste: frutas secas, refogadas depois* contendo 69 *6 par -
tes por milh ã o, e pã o contendo 100 ,9 partes por milh ã o, de DDT!
Na dieta da residê ncia m édia , as carnes e todos os produtos de-
rivados de gorduras animais contem as maiores proporções de re-
s íduos de hidrocarbonetos clorados. Isto se d á porque as substâ n -
cias qu í micas dessa categoria são sol ú veis em gordura. Os res íduos
existentes em frutas e vegetais tendem a ser de quantidade um
tanto menor. As referidas substâ ncias sã o pouco afetadas por la -
vagens; o único remédio, para a gente se livrar delas, é remover
e atirar fora tôdas as Folhas externas de vegetais como a alface,
ou a couve; é descascar as frutas; é nã o comer pel ícula , nem co-
bertura alguma * de seja lá o que f ôr que proceda de planta ção
pulverizada com inseticidas. O cozimento n ão destró i os res íduos
da espécie aqui referida .
O leite é dos poucos alimentos em que nenhum res íduo de pes-
ticidas é permitido, pelos regulamentos da Administra ção do Ali -
1 &7
I
mento e da Droga, Na realidade dos fatos , entretanto, os res í duos
acusam a sua presença, sempre que se procede ao convincente exa-
me, O aparecimento de res íduos é mais f á cil ocorrer na manteiga
e em outros produtos elaborados pela ind ústria de laticí nios. Urna
-
investiga çã o, realizada em 4 G 1 amostras de tais produtos, em 1960,
revelou que um terço de tais amostras continha res íduos sendo

esta urna situaçã o que a Administra çã o do Alimento e da Droga
caracterizou como ‘ situa çã o que est á muito longe de ser anima
dora".
-
Para encontrar dieta livre de DDT e de subst â ncias correlatas ,
parece que a gente precisa dirigir-se a uma terra bem remota e
primitiva, que ainda esteja destitu ída das amenidades da civiliza -
çã o, Afigura -se que exista uma terra dessa ordem, pelo menos

marginalmente, no distante litoral á rtico do Alasca muito em-
bora , mesmo l á , já se possam ver as sombras que se aproximam.
Quando os cientistas investigaram a dieta nativa dos esquimós,
naquela regiã o, verificou -se que essa dieta estava livre de inseti-
cidas. Os peixes frescos e os peixes secos; a gordura ; o ó leo; a
carne — do castor , da bei uca, do caribti, da gr ã- besta , do urso
polar e da morsa
— o arando, a amora e o ruibarbo silvestre
tudo isto havia, at é ent ã o, escapado à contamina çã o. Só houve —
uma exceçã o: duas corujas brancas, procedentes de Point Hope,
continham pequenas quantidades de DDT, talvez adquiridas du -
rante alguma jornada de migra çã o.
Quando alguns dos próprios esquim ós foram analisados, por
via de amostras de gordura, encontraram -se reduzidas quantidades
de res íduos de DDT (de zero a 1,9 parte por milhã o). A razã o
disto era clara. As amostras de gordura haviam sido retiradas de
pessoas que tinham abandonado as respectivas aldeias natais e
entrado no Hospital do Serviço de Sa ú de Pú blica , dos Estados
Unidos, em Anchorage, para serem submetidas a intervenções ci
-
r ú rgicas. Ali , no hospital, prevaleciam as maneiras da civiliza çã o;
nas refeições do nosocômio, encontraram-se res íduos de DDT em
quantidades aproximadas das que se encontram nas das cidades
mais populosas. Por sua breve estada no seio da civiliza ção, os es-
quimós haviam sido recompensados com um laivo de veneno.
O fato de que cada refeição que n ós comemos possui sua carga
de hidrocarbonetos clorados é a consequ ê ncia inevitá vel da pul-
verização quase universal das culturas agr ícolas com os mencio-
nados venenos. Se o fazendeiro seguir escrupulosamente as ins-
m
truções que aparecem nos rótulos, o emprego de substâ ncias qu í-
micas, que é le fizer , n ã o produzirá res í duos em quantidades maio-
res do que as permitidas pela Administra çã o do Alimento e da
Droga. Bcixando-se de lado, por um momento, o problema de
se saber se os res íduos "legais" ' sã o ou não são "inofensivos", co-
mo se assegura que sejam, sempre resta o fato bom conhecido de
que os fazendeiros, com muita frequê ncia, excedem as dosagens
prescritas; usam as subst â ncias qu í micas muito perto da é poca da
colheita; empregam vá rios inseticidas, onde um bastaria ; e„ por
outras formas, acusam a mesma conduta normalmente humana
de deixar de ler o que vai impresso nos rótulos em letrinhas
mi ú das.
At é mesmo a ind ústria qu í mica reconhece o emprego frequente
de inseticidas, bem como a necessidade da educa ção dos agricul-
tores a tal respeito. Um dos seus principais jornais comerciais
declarou , ainda recentemente, que "muitos usuá rios parece que
nã o compreendem que poderã o exceder os limites de tolerâ ncia,
se fizerem uso de dosagens maiores do que as recomendadas. E
os empregos arbitrá rios de inseticidas, em muitas planta ções, po-
dem estar baseados nos caprichos dos fazendeiros".
Os arquivos da Administra çã o do Alimento e da Droga contêm
registros de quantidade inquietadora de viola ções desse gê nero.
Uns poucos exemplos servir ã o para ilustrar o desprézo dos usu á -
rios para com as instru ções. Um horticultor, produtor de alface,
que aplicou oito inseticidas diferentes, e não um apenas, em sua
planta ção, rouito pouco tempo antes da época da colheita ; um
einbarcador, que usou o mort ífero para tilo para o tratamento do
aipo, em quantidade cinco vezes maior do que a m á xima reco -
mendada; agricultores que fizeram uso de endr í na, que é o mais
t óxico de todos os hidrocarbonetos clorados, em alface, embora
nenhum resíduo de tal substâ ncia f õsse permissí vel em tal horta-
liça ; espinafre pulverizado com DDT, uma semana antes da co-
lheita.
Há també m casos de contamina ção ocasional, ou acidental.
Grandes quantidades de caf é verde, em sacos de serapilheira , tê m
sido contaminadas enquanto estavam sendo transportadas por na-
vios que transportavam também cargas de inseticidas. Os alimentos
empacotados, em armazé ns, estão sujeitos a repetidos tratamentos
por meio de aerossóis, com DDT, lindana e outros inseticidas, que
podem penetrar através do material de empacotamento, e que
199
ocorrem, depois, quantidades mensur á veis, nos alimentos con -
taminados. Quanto toais tempo o alimento permanece em arma
zenagem , tanto maior é o perigo da sua contamina çã o.
-
tais coisas?”

À interrogativa: “ Mas ent ão o governo n ã o nos protege contra
a resposta é esta : “ Somente em escala limitada".
As atividades da Administra çã o do Alimento e da Droga , no setor
da proteção do consumidor, contra os pesticidas., são severamente
limitadas por dois fatos. O primeiro fato é o de que o governo
federal só tem jurisdiçã o sobre alimentos embarcados para co-
mé rcio interestadual ; os alimentos produzidos e mercadeados nos
limites internos de ura Estado Ficam inteiramente fora da esfera
de st » a autoridade, pouco importando a espécie de violação que
se pratique. O segundo fato, muito cr ítico, que limita drastica -
mente a. atividade do governo federal em tal assunto , é a exis-
t ê ncia de apenas pequeno n ú mero de inspetores a seu servi ço re-
gular; menos de 600 homens, para 'todas as in ú meras variedades
dos serviços de inspeção. De conformidade com a declara çã o de
um funcion á rio da Administra çã o do Alimento e da Droga, scV


mente uma parte infinitesimal, dos produtos agrícolas, que se mo-


vem no â mbito do comércio interestadual muito menos do que
um por cento' pode ser controlada por meio das instala ções
agora existentes; e isto não é bastante, para adquirir significa çã o
estat ística . Quanto ao alimento produzido e vendido dentro do
mesmo Estado, a situa çã o é ainda pior ; muitos Estados, como se
sabe, possuem leis terrivelmente inadequadas neste campo.

nominados “ toler â ncias" —


O sistema pelo qual a Administra çã o do Alimento e da Droga
estabelece os limites m á ximos permiss í veis de contamina çã o

ções predominantes no pa ís, esse sistema proporciona mera “ segu
de-
-
tem seus efeitos ó bvios. Sob as condi
-
ran ça no papel ” , e promove uma Impressão completa mente injus -

tificada de que limites de segurança foram determinados e est ão
sendo rigorosa mente observadas. Quanto à Inocuidade do ato de

e assim por diante ——


se permitir o borrifa me n lo ou a pulveriza çã o de venenos sobre o
nosso alimento um pouco sôbre êste, outro pouco sobre aquele,
muita gente admite, com razões altamente
persuasivas, que nenhum veneno é in ócuo, nem desejá vel , nos ali-
mentos. Ao estabelecer n í veis de toler â ncia , a Administra ção do
Alimento e da Droga revê testes efetuados com o veneno em ani
mais de laboratório; e depois determina o n ível má ximo de con -
-

tamina çã o um máximo que é muito menor do que o requerido
para produzir sintomas no animal em prova. Êste sistema, que se
presume que proporcione seguran ça, Ignora certo n ú mero de fa -
tos importantes. Um animal de laborató rio, vivendo sob condi -
190
çSes controladas, altamente artificiais, e consumindo determinada
quantidade de uma subst â ncia qu í mica especifica, é muito dife
rente do ser humano cuja exposi çã o a pesticidas não somente è
-
m ú ltipla , mas també m em sua maior parte não-sabida, nã o-men -
surá vel e incontroláveL Ainda que 7 partes por milhão, de DDT,
na alface da salada do seu almoço constitu íssem fator ' inócuo ', 4

ou "seguro” , toda refeição compreende outros alimentos, cada


qual com os res íduos correspondentes ã sua tolerâ ncia ; assim , os
pesticidas encontrados no alimento do mencionado ser humano
integram , como vimos, apenas uma parte, e possivelmente uma
pequena parte, da sua total exposição ao veneno. Êstc amontoar -se
de substâ ncias qu í micas, procedendo de multas fontes diferentes,
cria e integra uma exposi çã o total que nã o pode ser medida , N ã o
tem sentido, portanto, o falar em t ôrno de "seguran ça ", ou de
"inocuidade ” de nenhuma quantidade especifica de res íduos,
£ há outros defeitos. As toler â ncias, por vezes, foram determi -
nadas contra o melhor critério dos cientistas da Administra çã o do
Alimento e da Droga , como no caso mencionado no Capí tulo 14
dês te livro; ou ent ã o foram estabelecidas com base em conheci-
mento inadequado da subst â ncia qu ímica respeaiva . informa ções
posteriores, e melhores, fizeram com que se reduzissem , e mesmo
se cancelassem , as toler â ncias; mas isso apenas depois de o p ú -
blico ser exposto a n í veis admisslvç lmente perigosos, das subst â n -
cias qu ímicas, por vários meses, e mesmo por anos. Isto aconteceu
quando para o heptacloro se estabeleceu uma toler â ncia que de -
pois teve dc ser revogada . Para algumas subst â ncias químicas, não
existe mé todo pr á tico de an á lise de campo, de aplica çã o genera-
lizada , ames de elas serem devidamente registradas para uso co-
mum. Os inspetores, portanto, sã o frustrados em sua pesquisa à
cata de res íduos. Esta dificuldade embara çou grandemente o tra
balho a respeito da "subst â ncia qu í mica do arando' , que é o ami -
1
-
notr íazoL Faltam mé todos de an á lise, também, para determinados
fungicidas, em uso comum para o tratamento de sementes
mentes estas que, se n ã o forem usadas ao termo da esta çã o de
plantio, podem muito bem ser introduzidas no mercado, na cate-
— se-

goria de alimento para seres humanos.


Com efeito, pois, o ato de estabelecer tolerâ ncias é igual ao de
autorizar a contamina çã o dos abastecimentos de v íveres pú blicos
com substâ ncias qu ímicas venenosas, a fim de que o agricultor e
o processador possam gozar do benef ício da produ ção mais barata
— para depois impor ao consumidor a pena correspondente, ta-
xandoo para poder manter uma repartiçã o polidadora , a fim de
se ter a certeza de que cie, consumidor, não receba dose letal de
191
veneno. Entretanto, para se efetuar devidamente a tarefa de poli -
ciamento, seria preciso dispender dinheiro cuja concessã o ficaria
alé m de toda coragem de pedir * de qualquer legislador, à vista da
enorme quantidade, bem como da pesada toxidcz das subst â ncias
qu í micas de uso agr ícola. Assim* no final das contas* o infeliz
consumidor paga impostos c taxas, mas , independente mente disto*
recebe doses de venenos.
Qual é a solu çã o? A primeira necessidade é a da elimina ção
das tolerâ ncias concedidas aos hjdrocarbonetos clorados* aos pesti-
cidas do grupo do fósforo orgâ nico, e a outras substâ ncias -
qu í mi
cas altamente tóxicas. Objetar-se-á imcdiatarncnte que isto im -
porá um fardo intoler á vel sobre o agricultor. Se, porém, como é
agora o objetivo presum ível , íôr possí vel usar substâ ncias qu ími -
cas por tal forma que elas deixem um resíduo de apenas 7 partes
por milhã o (que é a toler â ncia para o DBT), ou de uma parte
por milh ão (que é a toler â ncia para o para ti ã o)* ou mesmo de
sò mente 0,1 de parte por milhão (como se requer para a dieldrina
aplicada a grande variedade de frutas e de vegetais) então, por
qual motivo não será poss í vel , com apenas um pouco rnais de
cuidado, evitar a ocorrê ncia de res íduos de uma vez? Isto, com
efeito* é o que se requer, para algumas substâ ncias qu í micas , tais
como o heptar.loro, a endrina e a dieldrina , quando aplicadas a
.
determinadas qualidades de vegeta çã o Se a determina çã o de to -
lerâ ncias é considerada prá tica , e se a elimina çã o de tôdas as tole-
râ ncias é possí vel e realizá vel no que se refere às três ultimas subs-
t â ncias pest ícídicas, por que é que as mesmas medidas eliminató-
rias nã o poderio ser aplicadas a t ôdas elas?
Esta , contudo, n ã o é uma solu çã o completa e final , porque a
tolerâ ncia de zero, no papel , se reveste de pouco valor, hio pre -
sente, como j á vimos, mais de 99 por cento dos embarques interes -
taduais de alimentos passam as fronteiras estaduais sem iuspeçá o.
Uma Administra ção do Alimento e da Droga , vigilante e agres-
siva , dispondo de quadro graudemeftte aumentado de inspetores,
é outra necessidade urgente.
Ê ste sistema * entretanto
— o de , primeiro, envenenar delibera -
mesmo envenenamento

damente os nossos viveres, e, depois, policiar os resultados desse
recorda muito Je perto o Cavaleiro
Branco, de Lewis Garroll; o Cavaleiro Branco imaginara "ura
plano para pintar de verde as su íças de uni homem , e, depois
obrigá - lo a usar sempre um grande Jeque, de modo que elas, as
su íças, não pudessem ser vistas",
A resposta definitiva consiste em se usarem substâ ncias qu í mi -
cas menos tóxicas, de maneira que o risco para o p ú blico, deeor-

192
rente do seu uso , fique drasticamente reduzido. Tais subst â ncias
qu í micas já existem : as piretrinas* a rotenona , a ri á nia c outras
subst â ncias derivadas de extratos de plantas. Alguns produtos sin -
t é ticos , para substituir as pire trinas , foram desenvolvidos recente-
mente, de modo que se poderá evitar a escassez que de outra for -
.
ma seria inevitável Precisasse, de maneira urgente , de educa çã o
p ú blica, quanto k natureza das substancias qu ímicas pastas no
mercado , para venda generalizada. O comprador médio fica com -
pletamente desorientado em lace da abundâ ncia dos inseticidas
dispon í veis , bem como dos fungicidas e dos ervicidas; e n ã o tem
meio nenhum para saber quais s ã o os ma is mort í feros, nem quais
sã o os mais razoavelmente seguros.
Além de procedermos a esta mudança para pesticidas agr ícolas
menos perigosos, dever íamos explorar, d iligen temente, as possibi -
lidades dos métodos não-qu ímicos. O uso agr ícola de enfermida -
des dos insetos , causadas por uma bactéria allamente específica
para determinados tipos de insetos , j á est á sendo tentado na Ca -
lif órnia ; e experiê ncias mais amplas, desta ordem de testes , se
encontram em andamento. In ú meras outras possibilidades exis-
tem , para o controle efetivo dos insetos, por métodos que n ã o
deixam res íduos venenosos nos alimentos (vide o Capí tulo 17 ). En -
quanto a conversã o em larga escala , para tais mé todos , não f ôr
efetuada , nos teremos pouco al í vio relativa mente a uma situa ção
que , por quaisquer padr ões de bom senso, já se tornou intoler á vel.
-
Como as coisas se apresentam agora , encontramo nos em posi çã o
pouco melhor do que os hóspedes dos Bórgias

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12 , O Preço Humano
ASSIM QUE A MARF das substâ ncias quí micas, oriunda da Idade
Industrial , se elevou ao ponto de engolfar o nosso meio ambiente,
uma alteraçã o dr á stica decorreu dai , na natureza dos rnais sé rios
problemas de sa úde p ú blica Ainda no dia de ontem » a humani-
*

dade vivia tomada pelo medo de pragas e pestes , como a da va -


r íola, a da cólera , ou a da bubunica , que outrora dizimavam na -
ções por onde passavam. Agora , a nossa principal preocupa çã o
n ã o são mais os organismos provocadores de doen ças, que em ou -
-
tros tempos se faziam onipresentes Os servi ços de ordem sanit ária ,
as melhores condições de vida , juntamente com o uso de novos
remédios, nos deram elevado grau de controle sobre as enfermi -
dades infecciosas. Hoje , preocupamo- nos com uma espécie dife-
rente de risco, que perpassa pelo nosso meio ambiente: um risco
que n ós mesmos introduzimos no nosso mundo, na medida em
que o nosso moderno estilo de vida veio evoluindo e formando-se.
Os novos problemas ambientais de sa ú de sã o m ú ltiplos: foram
criados pelas radia ções, em todas as suas variadas formas; decor-
reram da intermin á vel torrente de subst â ncias qu í micas, de que
os pesticidas fazem parte. Estas substâncias qu ímicas agora im -
m
pregnam o mundo em que vivemos, agindu sobre nós direta e
indii e ta mente, separada c culetivamente. Sua presença lança uma
sombra que n ão é menos agoureira só pelo fato de ser informe e
obscura — nem menos assustadora só pelo fato de ser simples
mente impossível predizer os efeitos da exposi ção, durante a vida
*

toda , ao contato de agentes f ísicos e qu í micos que n ão fazem parte


da experiê ncia biológica do homem.
“ Todos nós vivemos sob o medo aterrador de que alguma coisa
poderá corromper o meio ambiente, até um ponto em que o ho-
mem se junta aos dinossauros, na condi çã o de uma forma obso -
leta de vida" — diz o Dr, David Fr ice, do Servi ço de Sa ú de P ú
blica dos Estados Unidos, “ E o que torna estes pensamentos ainda
-
ma is perturbadores é o conhecimento de que o nosso destino possa
vir a ser talvez selado vinte úU mais anos antes do desenvolvi-
mento dos sintomas ' '.
Onde é que os pesticidas se situam , no quadro da enfermidade
ambiental ? N ós já vimos que ê les agora contaminam o solo, a
água e os alimentos; que ê les tê m o poder cie destituir dc peixes
as nossas correntezas, bem como dc tornar silenciosos, e despojar
de aves os nossos jardins c os nossos bosques. O homem, |>or mais
que ele pretenda ou goste de pretender o contrá rio, faz parte da
Natureza. Poderá ele fugir aos efeitos da poluiçã o que está agora
tã o generalizadamente difundida por tódas as partes do nosso
mundo?
Sabemos que at é mesmo exposi ções isoladas e ocasionais, às re-
feridas subst â ncias qu ímicas, desde que a quantidade delas seja
sufiden temente apreciá vel, pode precipitar o envenenamento
agudo. Êste, porém, não é o maior problema, O adoeci mento s ú -
bito, ou a morte repentina , de fazendeiros, de pulverizadores de
inseticidas, de pilotos polvilhadores, e de outros seres humanos
continua mente expostos a quantidades consider á veis de pesticidas,
constituem episódios tr á gicos; e não deveriam ocorrer. Do ponto
de vista da popula çã o como um todo, devemos preocupar-nos
ainda mais com os eleitos retardados da absor çã o de pequenas
quantidades de pesticidas que contaminam invisivelmente o nosso
mundo.
Funcion á rios p ú blicos responsáveis, da sa ú de p ú blica , tê m feito
observar que os efeitos biológicos das substâ ncias químicas aludi -
das sã o cumulativos, durante longos per íodos de tempo, e que o
risco, para os indiv íduos, pode depender da soma das exposi ções
efetuadas através da vida de cada qual. Precisamente por estas
razões , o perigo é f à cilmente ignorado. É da na Lu reza humana o
ato de encolher os ombros em face daquilo que se afigura amea ça

196
vaga de desastre futuro* "Qs homens ficam naturalmente mais im-
pressionados pelas doenças que efetuam manifesta ções mais
õ hvias"
— diz um médico esclarecido, o Dr, René Dubos: “ toda
via, alguns dos seus piores inimigos os acometem da maneira mais
« lesobstruida possí ve I".
-
Para cada um de n ós, como para o papo- roxo de Michigan , ou
para o salm ã o do Rio Miramichi , este é um problema de ecolo-
gia , de inter - relação, de interdependência, N ós envenenamos a
li igana, num curso de água; e os salm ões se reduzem e morrem ;
envenenamos os mosquitos, num lago; e o veneno viaja, de elo
em elo, da cadeia dos alimentos, assim que os pássaros das mar-
gens do lago se tornam suas vitimas. N ós polvilhamos de inseti -
-
ciosas, sem mais o canto do papo- roxo

cidas os nossos olmos, e as primaveras seguintes se fazem silen
n ã o porque tenhamos
pulverizado de inseticida os papos roxos, diretamente , e sim por
que o veneno viaja, passo a passo, ao longo do agora familiar
-
ciclo de vida constitu ído pelos elos que são a folha do olmo, a
.
minhoca e o papo-roxo Tudo isto é quest ã o de fato, coisa obser-

fatos refletem a teia da vida — ou da morte



v á vel, parte do mundo vis í vel e tangí vel que nos rodeia , Êstes

conhecem e designam pela denomina çã o de Ecologia.


que os cientistas

H á, contudo, também uma ecologia do mundo dentro do nosso


corpo. Neste mundo invisível , pequenas causas produzem efeitos
enormes ; os efeitos, ademais, sã o, com frequê ncia , aparentemente
nãcHrelacionados com as suas causas, por surgirem em partes do
corpo que se situam longe da á rea em que a exposiçã o foi so-
frida. "Uma altera ção num ponto, ainda que numa só molécula »
pode reverberar por todo o sistema , a fim de iniciar modifica -
ções em órgã os e em tecidos aparentemente destitu ídos de qual-
quer rela çã o com ela ” . É isto o que diz um sum á rio recente do
atual estado da pesquisa médica. Quando a gente se preocupa
com o funcionamento misterioso e maravilhoso do corpo humano,
a causa e o efeito raramente sã o coisas simples; rara mente sã o
rela ções de f á cil demonstra çã o. A causa e o efetLo podem estar
ampla mente separados, tanto no espa ço como no tempo. A desco-
berta da causa, ou do agente , da enfermidade ou da morte, de-
pende de minuciosa e paciente recomposição, peça por peça, de
muitos fatos, aparentemente distintos e não relacionados entre si ,
e desvendados através de vasta quantidade de pesquisa em cam-
pos també m iargamente separados uns dos outros.
Estamos acostumadas a procurar o efeito grosseiro e imediato,
e a ignorar tudo o mais. À menos que este efeito surja de pronto»
e de forma tã o óbvia que nã o possa ser ignorado, n ós negamos a
197
exist ê ncia do risco. At é os pró prios homens especializados em pes-
quisas sofrem do percalço de m é todos inadequados de se reconhe-
cerem os começos do mal causado. À ausê ncia de mé todos sufi-
cien íemerite delicados, para se reconhecer a presença do mal feito,
antes que os sintomas apareçam, é um dos grandes problemas n ã o
solucionados da Medicina,
' Mas
— algu é m poderá objetar — eu j á usei a dieldrina , pulve-
rizando com ela , muitas vezes, o relvado, e nunca experimentei
convulsões como as sofridas pelos polvilhadores de inseticidas da
Organiza çã o Mundial da Saú de; logo, essa subst â ncia qu í mica n ã o
me f êz mal algumr \ A coisa não é tão simples assim, A despeito
da ausê ncia de sintomas s ú bitos c dramá ticos, a pessoa que hda
com tais subst â ncias qu í micas est á inqucstion àvelmente armaze-
nando tóxicos em seu corpo, O armazenamento de hidrocarbo-
netos clorados, como já vimos, é cumulativo, começando com a
ingestão mais diminuta poss ível. Os materiais t óxicos se alojam e
se avolumam em todos os tecidos gordurosos do corpo. Quando o
organismo recorrer ao uso destas reservas de gorduras, ent ão o
veneno nela contido pode golpear de imediato. Uma revista mé-
dica da Nova Zelâ ndia proporcionou boru exemplo, ainda recen -
temente. Um homem , sob tratamento por causa de sua obesidade,
de s ú bito começou a manifestar sintomas de envenenamento. Exa *

minada , a sua gordura revelou possuir conte ú do de dieldrina ar -


mazenada ; esta dieldrina estava sendo metabolizada na medida
em que o indivíduo ia perdendo peso. A mesma coisa poderia
acontecer com a perda de pêso por causa de doen ça.
Os resultados do armazenamento, de outro lado, poderiamrser
muito menos ó bvios. Há vá rios anos, o “ Journal ", da American
'

Medicai Association, publicou severa advertê ncia contra os riscos


dos inseticidas armazenados nos tecidos adiposos; e f êz observar
que as drogas, ou as substâ ncias qu í micas que sã o cumulativas,
requerem maior cautela do que aquelas que n ã o acusam tend ê n-
cia para ser armazenadas nos tecidos. O tecido adiposo
nos refere a advertê ncia — —
n ã o é sòmente o lugar para o depó
ao que
-
sito da gordura {sendo que a gordura compõe cêrca de 18 por
cento do peso do nosso corpo) ; esse tecido desempenha muitas
fun ções importantes, nas quais os venenos armazenados podem in -
terferir. Alé m disto, as gorduras sã o muito ampla mente distribu í -
das por lodo o corpo, sendo at é elementos constituintes de mem
branas de células. É importante recordar, portanto, que os inseti-
-
cidas sol úveis em gorduras se armazenam em células individuais
onde ficam em condi ções de interferir nas fun ções mais vitais e
necessá rias de oxida ção e de produ ção de energia. Êste aspecto
198
importante do problema será estudado no próximo capí tulo dêstç
livro*
Um dos fatos mais significativos , a respeito dos inseticidas de
hidrocarbonetos clorados , é o seu efeito sobre o f ígado. De todos
os órgãos existentes no corpo, o f í gado è o mais extraordinário*
Em sua versatilidade, e na natureza indispensá vel das suas fun -
ções, o f í gado n ã o tem igual . Preside tantas atividades vitais, que
até mesmo o mais leve dano, a ele causado, se sobrecarrega de
sérias consequê ncias. N ã o sòmente êle proporciona bile para a di -
gestão de gorduras, mas também — devido à sua localização e aos
especiais trajetos circulatórios que para êle convergem — o f ígado
recebe sangue diretamente do trato digestivo; e está profunda -
mente envolvido de todos os alimentos essenciais. O f ígado arma-
zena açúcar , na forma de gticogênio, e o desprende como glucose,
em quantidades cuidadosamente medidas , a fim de manter o n í vel
de açúcar , no sangue , em sua altura normal . Constrói as prote í nas
do corpo, inclusive algtins elementos essenciais do plasma sangu í -
neo, relacionados com a coagula ção do sangue Mantém o coles-
*

terol em nível adequado, no plasma sangu í neo; e inativa os hoi -


inónios masculino e feminino , quando ê les sobem a n í veis exces -
sivos, É o armazém de muitas vitaminas, algumas das quais , por
sua vez, contribuem para o seu próprio funcionamento.
Sem um f ígado funcionando normalmente, o corpo ficaria de -
sarmado — indefeso em face de grande variedade de venenos que
continuamente o invade. Alguns de tais venenos são subprodutos
normais do metabolismo, que o f í gado rá pida e eficientemente
torna inofensivos , pelo processo de lhes retirar o respectivo nitro-
gé nio. Todavia , os venenos que n ão têm lugar normal no corpo
também podem ser destoxirados Os inseticidas “ inofensivos " , co- '
1

mo o malatião e o metoxjdoro, são menos venenosos do que os


semelhantes , sòmente pelo fato de que uma enzima do f í gado se
encarrega deles, alterando lhes as moléculas por tal forma que a
sua capacidade de produzir o mal fica reduzida . Por processos si -
milares , o f ígado se encarrega de liquidar a maioria dos materiais
t óxicos, a que somos expostos ,
A nossa linha de defesa contra os venenos invasores, ou contra
venenos internos , está agora enfraquecida , e em vias de desmo-
ronar Um f í gado danificado por pesticidas n ão sòmente é inca -
*

paz de nos proteger contra venenos , mas fica também com grande
parte das suas atividades mal influenciada. N ão sòmente são de

199
grande alcance as consequ ê ncias disso, mas també m

— — por f ôrça
da sua variedade e da circunstâ ncia de poderem deixar de apa -
recer j media lamente elas podem n ã o ser atribu ídas à sua causa
verdadeira.
Em conexão com o uso quase universal de inseticidas que são


venenos para o ligado, é interessante notar a eleva çã o flagrante
da quantidade de casos de hepatite que começou durante o de -
cé nio de 1950 a 1960 — está continuando na sua ascensão flu -
tuante. També m a cirrose se diz que está aumentando, quanto
ao n ú mero de casos. Embora seja admissí vel mente dif ícil
lidar com aferes humanos em lugar de animais de laboratório
"provar " que a causa "A" produz o efeito "B” , o senso comum
—— ao

sugere que a relação entre o aumento da quantidade de casas de


enfermidades do f ígado e a predomin â ncia de venenos para o
figado, no meio ambiente , não é simples coincid ê ncia. Sejam ou
n ã o os hidrocarbonetos clorados a sua causa prec í pua, afigura -se
que não é nada razoá vel, sob tais circunstâ ncias, expormo-nos a
venenos que possuam capacidade comprovada de danificar o f í-
gado, e, portanto, de presumivelmente o tornar menos resistente
a doen ças.

— —
Os dois tipos principais de inseticidas os hidrocarbonetos clo-
rados e os fosfatos orgâ nicos afetam diretamente o sistema ner-
voso, embora o fa çam por vias algo diversas um do outro. Isto
já foi tornado claro por meio de infinito n ú mero de experiê ncias
em animais, e també m por meio de observa ções em sê res huma-
nos. Quanto ao DDT, o primeiro dos novos inseticidas orgâ nicos
a ser amplamente utilizado, a sua a çã o se exerce preclpuamente
sobre o sistema nervoso central do homem ; o cerebelo e o córtex
motor superior , ao que se presume, são as á reas principalmente
atingidas por êsse pesticida. Certas sensa ções anormais, tais como
as de comichão, de queimadura , de pontadas, bem como tremores
e mesmo convulsões, podem seguir -se a exposições a apreciá veis
quantidades de DDT, ao que informa um livro de texto padr ão,
de Toxicologia.
O nosso primeiro conhecimento dos sintomas de envenena -
mento agudo, por meto de DDT, foi proporcionado por vá rios
investigadores brit â nicos, que deiiberadamente se expuseram ao
contato com êsse veneno, a fim de estudar as suas consequ ê ncias.
Dois cientistas do Laboratório Fisiológico da Real Marinha Bri
t â nica provocaram em si mesmos a absor çã o de DD 1 atrav és da
-
cm
pele por meio do contato direto com paredes recobertas de uma
pintura sol ú vel em á gua contendo dois por cento de DDT , reves -
tida de fina pel ícula de óleo. O efeito direto, sô bre o sistema
nervoso, é aparente na eloquente descriçã o dos sintomas que ti-
veram : “ A fadiga , o pesadume, a sensação dolorida dos membros
inferiores eram coisas bastante reais; e o estado mental também
se tornou profunda mente desconfortai!te.., (houve) irritabilidade
extrema.,. grande desgosto para com o trabalho de qualquer es -
pécie,., sensa ção de incompetê ncia mental na tarefa de empreen -
der qualquer iniciativa . As dores nas juntas se faziam consider á -
velmente violentas por vêzes".
Outro experimentador britâ nico, que aplicou DDT em solu çã o
de acetona à pr ó pria pele relatou pesadume generalizado e dores
nas pernas, além de fraqueza muscular e de "espasmos de extrema
tensã o nervosa* '. O experimentador em questã o tomou f érias e
melhorou ; mas, ao voltar ao trabalho, suas condições pioraram.
Passou, a seguir, tr ês semanas na cama; as três semanas foram
sombrias, devido a dores constantes nas pernas, tudo acompa -
nhado de tensã o nervosa c de ansiedade aguda . Em algumas oca -
siões , os tremores lhe sacudiram o corpo inteiro; eram tremores
iguais aos que agora se tornaram familiarmente conhecidos atra -
vés da contemplação de pássaros envenenados por DDT. O expe-
rimentador perdeu dez semanas de trabalho; ao cabo de um ano,
a contar da experiência, quando o seu caso foi comunicado e pu -
blicado por uma revista médica inglesa , o restabelecimento ainda
n ão era completo.
( A despeito desta evidê ncia, vá rios investigadores norte-ameri -
canos, que conduziam uma experiência com DDT, sôbre pessoas
que para isso se ofereceram voluntà ri amente, deixaram de reco-
nhecer a queixa quanto a dores de cabeça e a "dores em todos os
ossos” , considerando-as “ òbvinmente de origem psiconeurótica") »
Existem, agora, muitos casos registrados em que os dois referi-
dos sintomas e o curso todo da doen ça apontam para os inseti -
cidas como causa. Tipicamente, nesses casos , a v í tima teve expo-
sição conhecida a um dos inseticidas; os sintomas cederam um
pouco sob tratamento; no tratamento, f êz-se exclusão total de
qualquer inseticida do meio ambiente da v í tima ; e o que é mais
significativo é que os sintomas "retornaram com a renova çã o do
contato” relativo ás substancias qu ímicas nocivas. Esta espécie de


evid ê ncia —
e n ã o mais constitui a base de uma vasta quanti-
201
dade de terapia m édica em muitas outras desordens. N ã o há ra
z ã o pela qual ela n ã o deva servir de advertê ncia, demonstrando
-
que já n ã o é mais razoá vel assumir um homem o "risco calculado*"
que consiste em saturar o nosso meio ambiente com pesticidas.
Por qual. motivo nem todas as pessoas que lidam com insetici
das desenvolvem os mesmos sintomas? Aqui entra a quest ã o da
-
sensibilidade individual. Há alguma comprovação d.e que as mu
lheres sejam, no caso , mais sens í veis do que os homens; como a
-
h á de que as pessoas muito jovens o sejam mais do que as adul-
tas; e també m de que os que vivem vida sedent á ria e caseira o
sejam mais do que os que realizam trabalhos pesados, ou exer-
c ícios ao ar livre , Além destas diferen ças, outras se verificam, que
n ão sã o menos reais pelo fato de serem intangí veis. O que torna
uma pessoa al érgica k poeira ou ao pó len , ou sensí vel a venenos,
ou suscet ível de infecção, ao passo que outra n ã o se mostra alér-
gica a nenhuma de tais coisas, constitui misté rio médico, para o
qual , no momento, ainda nã o hi explica çã o alguma, O problema
n ã o obstante, existe , e afeta um n ú mero expressivo da popula ção.
Alguns médicos calculam que um t ê rço, ou mais, dos seus pacien -
tes, acusa sinais de alguma forma de sensibilidade, e que a pro-
porçã o está aumentando. In felizmente, a sensibilidade pode apa -
recer, de s ú bito, em qualquer pessoa anterior mente na o sensitiva .
Com efeito, alguns médicos acreditam que as exposi ções intermi -
tentes a subst â ncias qu í micas venenosas podem produzir o surto
da mencionada sensibilidade. Se isto se confirmar geneializada -
mente, ficar á explicado o motivo pelo qual alguns estudos, feitos
cm homem sujeitos a continua exposi çã o profissional , encontram
pouca evidê ncia de efeitos tóxicos. Pelo constante contato com as
subst â ncias qu í micas, os mencionados homens se conservam des-
se nsibí liza dos = exatamente como um médico especializado em
«

alergia mantém os seus pacientes dessensí bilizados por meio de


pequenas e repetidas injeções do alergé nio,
O problema todo do envenenamento por pesticidas se complica
enormemente pelo fato de que o ser humano, à diferen ça do ani-
mal de laborat ório, que vive sob condi ções rigidamente contro -
ladas, nunca é exposto a apenas uma substâ ncia qu í mica . No qua -
dro dos principais grupos de inseticidas , e nas rela ções de tais in
seticidas com outras subst â ncias qu í micas, ocorrem intera ções que
-
acusam as potencialidades mais sé rias. Sejam introduzidas no solo,
ou. na á gua » ou no sangue da criatura humana, essas substâ ncias

202
qu í micas, n ã o relacionadas entre si, mas modificadas por efeito
das aludidas interações, n ã o permanecem segregadas; ocorrem mo-
difica ções misteriosas e invis í veis, por via das quais uma subst â n-
cia altera outra, dando- lhe ou aumentando lhe a capacidade de-
lesar.
H á intera çã o até mesmo entre os dois principais grupos de in -
seticidas — grupos êsses que usualmente se presume que sejam
total mente distintos em sua a ção. O poder dos fosfatos orgâ nicos
— desses envenenadores da colinesterase, que é a enzima prote-
tora dos nervos

pode fazer-se maior, desde que o corpo seja,
primeiro, exposto ao contato de um hidrocarbonê to clorado que
fun çã o cio f
,
ígado
ataca o f í gado. Isto ocorre porque , quando a
é perturbada, o n ível de colinesterase cai abaixo do normal.
O
efeito depressivo que se acrescenta , do fosfato orgâ nico , pode , en-
tã o, ser bastante para precipitar o aparecimento de sintomas
agu-
dos. E , como já vimos, os pares de fosfatos org â nicos , em si mes -
mos considerados , podem interagir por tal forma , que acabam
aumentando a respectiva toxidez na proporção de cem ou niais
vêzes. Ou , então, os fosEatos orgâ nicos podem interagir com v á rias
;
drogas , ou com materiais sint é ticos , ou com aditivos alimentares
e quem é que pode dizer com que mais subst âncias do , n ú mero
infinito das que são produzidas pelo homem , e que agora andam
pelo mundo todo?
O efeito de uma subst â ncia qu í mica
mente inócua —

de natureza admissivel -
pode ser dràsticamente modificado pela a ção de
é dado
outra substância qu í mica . Um dos melhores exemplos disto
por um parente bem próximo do DDT, chamado metoxiclor o.
(Na verdade o metoxicloro pode n ã o ser t ã o livre de qualidade s
perigosas , como geralmente se acredita que seja ; trabalhos recen -
tes, com animais experimentais* mostram que h á uma a çã o direta
sòbre o ú tero, e um efeito de bloqueio sô bre alguns dos poderosos
hormônios produzidos pela pituitária
uma vez de, que os horm ô nios sã o subst â

recordando-nos, mais
ncias qu í micas dotadas
de enorme efeito biológico. Outros trabalhos mostram que o me
toxicloro possui uma capacidade potencial de danificar os rins)
Devido ao fato de ele n ã o se armazenar em quantidade apreciá
vel, quando ministrado só, o p ú blico é informado de que o me
toxicloro é substâ ncia qu í mica inócua. Mas isto n ão é necessá ria
mente verdade. Se o f ígado tiver sido danificado por outro agente
o metoxicloro é armazenado no corpo na propor çã o de 100 vêzes
203
ma is do que a sua taxa normal de armazenamento; e, ent ã o, cie
passa a imitar os efeitos do DD F, com repercussões duradouras ,
de grande persist ê ncia , sobre o sistema nervoso. Entretanto, a le
são do f ígado, que provoca esta sucessã o de ocorrê ncias, pode ser
t ã o leve , a ponto de passar despercebida. Essa lesã o pode ser o
resultado de qualquer uma de um grande n ú mero de situações:
uso de outro inseticida ; uso de fluido de limpeza que contenha
tetracloreto de carbono; ou tomada de uma das assim-chamadas
drogas tranquilizadoras, das quais (embora n ã o todas) algumas
são hidrocarboriê tos clorados , sendo dotadas do poder de danifi -
car o ligado.
A lesã o do sistema nervoso n ã o decorre apenas do envenena -
mento agudo; h á tamb é m efeitos retardados da exposi çã o a inse-
ticidas. Danos duradouros, ao cérebro ou aos nervos , já loram
atribu ídos ao metoxicloro e a outras substancias qu ímicas. A diel-
drina , alé m das suas consequê ncias imediatas, pode produzir efei -
tos retardados que v ã o desde a " perda de mem ória , e da insâ nia »
at é aos pesadelos e às manias". A lindana , de conformidade com
as verificações médicas, é armazenada , em quantidades expressi -
vas , no cé rebro e nos tecidos funcionais do f ígado; pode , alé m
disto, induzir "efeitos profundos e duradouros no sistema nervoso
central ". Contudo, esta subst â ncia qu í mica , que é uma forma de
hexaeloreto de benze no, é muito usada em vaporizadores, que
sã o dispositivos que derramam torrentes de vapores de inseticida
volatilizado, em resid ê ncias., em escrit órios e em restaurantes.
Os los fatos orgâ nicos, usual mente considerados apenas em rela-
cão às suas manifestações ma is violentas , em envenenamentos agu -
dos, també m t êm o poder de produzir danos f ísicos permanentes
a tecidos nervoso®, e , de acordo com verifica ções ainda recentes ,
de induzir desordens mentais. Vá rios casos de paralisia retardada
se seguiram ao uso de um ou de outro dos inseticidas conhecidos.
Certo acontecimento bizarro , que se registrou nos Estados Unidos,
durante a fase da proibição de bebidas alcoó licas, lá pelo ano de
1930, constituiu sé rio agouro das coisas que deveriam seguir -se,
O acontecimento foi originado, não por um inseticida , e sim por
uma substâ ncia pertencente, quimicamente, ao mesmo grupo dos
inseticidas de fosfato orgâ nico. Durante aquêle período proibído-
nista , algumas subst â ncias medicinais foram postas for çadamente
em uso, como substitutivos para os licores, porque n ã o eram atin -
gidas pela lei da proibição. Uma destas subst â ncias Foi o gengibre
da Jamaica. Mas o produto da United States Fhartnacopeia era
caro , e os contrabandistas conceberam a íd é ia de produzir um
substitutivo para o gengibre da Jamaica. Obtiveram tamanho
201
ê xito nessa iniciativa , que o seu produto espú rio correspondeu
aos testes qu í mico» apropriados , e acabou iludindo os qu í micos
do governo. Para dar ao falso gengibre o caracter ístico aroma
penetrante, introduziram nele uma substâ ncia qu í mica conhecida
.
pela denomina çã o de fosfato triortorresilko Esta subst â ncia qu í -
mica , como o para Li ã o e seus correlates, destró i a enzima prote-
tora denominada colinesterase, Como consequê ncia da ingestão do
produto dos contrabandistas, umas 15,000 pessoas passaram a so -
frer de um cipo de paralisia de aleijarnemo permanente, dos m ú s -
culos das pernas ; esta condi çã o é agora conhecida como ' 'paralisia
de gengibre” . A paralisia era acompanhada da destruição das bai-
nhas dos nervos, bem como da degeneração das cé lulas das extre-
midades anteriores da medula espinhal.
Cerca de dois decé nios mais tarde, v á rios outros fosfatas orgâ -
nicos entraram em uso, na forma de inseticidas, como já vimos;
e logo começaram a aparecer casos de paralisia que lembravam o
episódio da paralisia de gengibre, llm caso foi o de um traba -
lhador de estufa para cultivo de plantas delicadas, na Alemanha ;
o homem ficou paral í tico vá rios meses depois de provar sintomas
leves de envenenamento, em urnas poucas ocasiões, após o em -
prego de paratião em suas plantas. A seguir , um grupo de três
trabalhadores qu í micos em plantas passou a acusar sintomas de
envenenamento agudo, devido a exposições a inseticidas do grupo
.
dos fosfato» orgâ nicos Os trés se recuperaram com o devido tra -
tamento; mas, depois de dez dias, dois deles desenvolveram fra -
queza muscular nas pernas. Isto persistiu durante dez meses, num
deles; a outra pessoa, uma senhora ainda moça , qu ímica de pro-
fissã o , ficou afetada mais severa mente ; sofreu paralisia de ambas
as pernas, com alguma repercussã o nas m ã os e nos bra ços. Dois
anos após, quando o caso dela foi comunicado, atrav és de uma
revista médica , ainda ela continuava incapaz de caminhar.
O inseticida responsável por tais casos foi retirado do mercado;
mas alguns dos que agora se encontram em uso podem ser capa -
zes de produzir dano semelhante. O ma la tião ( muito querido dos
jardineiro») tem provocado severas fraquezas musculares, nas ex-
periê ncias feitas com pintainhos e galinhas. Êste efeito foi acom -
panhado (como nos casos de paralisia de gengibre) pela destrui-
ção das bainhas dos nervos ci á ticos e da medula espinhal.
Todas estas consequ ê ncias do envenenamento por meio de fos -
fatos orgâ nicos, se a vitima sobrevive, podem ser prel ú dio para
coisa pior. Em face dos danos severos que infligem ao sistema
nervoso, eia talvez inevit á vel que estes inseticidas acabassem
sendo, a tzu tempo, vinculados a doen ças mentais. Esta vincula -
205
çã o foi recentemente proporcionada por obra de investigadores da
Universidade de Melbourne, bem como do Hospital Pr í ncipe
Henrique, também de Melbourne, Austrá lia » estes pesquisadores
informaram que tiveram 16 casos de enfermidade mental Todos .
estes casos tinham urna história de prolongada exposição a inseti -
cidas de fosíatos orgâ nicos. Três dos casos eram cientistas que con -
EROLAVAM a eficá cia das pulveriza ções; oito trabalhavam em estu -
fas de plantas; e cinco eram trabalhadores agr ícolas em fazendas.
Os sintomas iam desde o embara ço da memória até ã esquizo-
frenia e âs reações depressivas. Todos tinham hist órias m édicas
normais, isto é, condições comuas, antes que as substâ ncias qu í-
micas por ê les usadas mudassem de rumo e os atingisse » pros-
trandoos,
Episódios desta espécie podem ser encontrados, como já vimos,
amplamente dispersos pelo â mbito da literatura médica ; ora en-
volvem o uso de hidrocarhonetos clorados, ora o emprego de fos-
fatos orgâ nicos. A confusã o, as alucina ções, a per da dc memória ,
as manias — tudo isto constitui pre ço alt íssimo que se paga pela
destrui çã o tempor á ria de uns poucos insetos; mas é um preço
que continuar á a ser cobrado» enquanto insistirmos no emprego
de subst â ncias qu í micas que lesam direta mente o sistema nervoso.

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13. Atrav és de Uma Janela Estreita


O BIóLOGO GEORõE WALD comparou , de uma feita , o seu tra -
balho sobre um tema extremamente especializado, ou seja, os pig-
mentos visuais dos olhos, a “ uma janela muito estreita através
da qual, de certa distancia, a gente só pode ver uma r éstia de luz .
Na medida em que a gente maís se aproxima, a visibilidade se
faz cada vez ma is ampla , at é que , final mente, através dessa mes-
ma janela estreita , se passa a contemplar o universo” .
Assim é que somente quando n ós assestamos o nosso foco, pri -
meiro nas células do corpo, isolada mente consideradas; depois,
nas min úsculas estruturas existentes no interior das células; e fi-
na 1 mente nas derradeiras rea ções das moléculas dentro destas es-
truturas — sòmente quando nós fazemos isto é que podemos com -
preender os efeitos ma is sérios, e de maior alcance, da introdu ção
acidental de substâ ncias qu í micas estranhas, no nosso meio inte-
rior, Apenas recentemente é que a pesquisa m édica se voltou para
o estudo do funcionamento da célula individual , em sua tarefa
de produzir a energia , que é a indispensá vel qualidade da vida,
O extraordiná rio organismo produtor de energia , que há no cor-
po, é fator básico nã o sò mente para a sa ú de, mas també m para
a vida; transcende* em importâ ncia, at é mesmo os órgã os mais
207
vitais; e isto porque, sem o funcionamento suave e eficiente da
oxidação proporrionadora de energia, nenhuma das funções do
corpo consegue ser levada a cabo. Contudo , a natureza de muitas
das substancias químicas utilizadas contra os insetos, contra os
roedores, contra as ervas daninhas, é de tal ordem , que tais subs-
tâ ncias podem atingir diretamente este sistema , perturbando e
mesmo desfazendo o seu mecanismo de funcionamento linda -
mente perfeito.
A pesquisa que nos conduziu à compreensã o atual da oxida çã o
celular é das realizações mais impressionantes de tôda a Biologia
e de t ôda a Bioqu ímica. O quadro dos que contribu í ram para
esta compreensã o compõe-se inclusive de muitas ganhadores do
Prémio NobeL Passo a passo, a pesquisa foi sendo levada avante
ao longo de um quarto de século, tirando proveito até de traba-
lhos rei ativa mente antigos para a formaçã o de algumas das pedras
fundamentais. Nem mesmo agora a tarefa está completa em todos
os detalhes. E somente no decorrer do passado decé nio é que to-
das as diferentes peças do conjunto, isto é, da pesquisa , acabaram
formando uni todo. Por esta forma, a oxida ção biológica pode
tornar-se parte do conhecimento comum dos biologistas. Ainda
mais importante é o fato de que os cultores da Medicina , que
receberam seu treinamento básico antes de 1950, tê m tido poucas
oportunidades para formar noçã o exata da import â ncia cr í tica do
processo, bem como das riscos que decorrem da perturba çã o d êsse
mesmo processo.
A tarefa final da produ çã o de energia é efetuada , n ã o em al-
gum órgã o especializado, e sim em toda célula do corpo. Uma
cé lula viva , como uma labareda , queima combust ível, a fim de
produzir a energia de que a vida depende. A analogia é mais
poética do que exata , porquanto a célula efetua a sua “ queima ”
dispondo apenas do calor moderado, representado pela tempera-
tura normal do corpo. Ioda via , todos êsses bilh ões de pequenos
iogas acesos fa íscam a energia da vida. Sc êsses fogos se apagassem,
se as células deixassem de "queimar” , "nenhum cora çã o poderia
palpitar; nenhuma planta poderia crescer para ciiua e desafiar a
gravidade; nenhuma ameba poderia nadar; nenhuma sensação
poderia ser comunicada através dos nervos ; nenhum pensamento

poderia relampaguear no cérebro humano" disse o qu í mico Eu-
gene Rabinowitch.
A transformação da matéria cm energia , na célula, é processo
cont í nuo; é um dos ciclos de renovaçã o da Natureza — como uma
roda a girar indefinidamente. Grão a grã o, mol écula a molécula,
o combust í vel feito de hidrato de carbônio, na forma de glucose .
208
é introduzido nessa roda ; em sua passagem cíclica, a molécula de
combust í vel é submetida a fragmenta ções, bem como a uma sé rie
de mi ú das modifica ções qu í micas. As modifica ções são feitas de
maneira bem ordenada; e íetuam -se passo a passo; cada passo é
dirigido e controlado por urna enzima de fun çã o tão especiali
zada que ela , a enzima, faz isso, e nada mais Em cada passo* a
»
-
#

energia é produzida ; os res íduos (dióxido de carbônio e á gua ) sã o


expelidos; e a molécula alterada , de combust í vel, é transferida
para o está gio seguinte. Quando a roda giratória completa um
ciclo, já a molécula de combust í vel está reduzida a nova forma ,
na qual se faz, pronta para se combinar com outra molécula , que
vai ao seu encontro, para assim começar outra vez o ciclo*
O processo pelo qual a célula funciona
qu í mica — — na qualidade de usina
constitui urna das maravilhas do mundo vivente, O
fato de todas as partes funcionais, no caso, serem de tamanho
infinitesimal, acentua o seu cará ter de milagre. Com poucas ex-
ceções, as pró prias células já sã o diminutas; só podem ser vistas
-
com auxilio do microscópio N ã o obstante a maior parte do tra-
#

balho de oxida çã o é. levada a cabo em â mbito muito menor: em


pequen íssimos grâ nulos que existem dentro das cé lulas, e que se
denominam "mitocõndrios". Einbora conhecidos h á niais de ses-
senta anos estes grâ nulos foram inicialmente postos de lado ; con-
#

sideraram- nos elementos celulares de fun çã o desconhecida , e, com


toda probabilidade, destitu ída de importâ ncia , Sòmente na qua -
dra de 1950 / 60 é que o seu estudo se tornou campo entusi asm ante
e prof í cuo de pesquisa; de pronto, esses gr â nulos emergiram , pas-
sando a prender tamanha aten çã o, que mais de 1.000 monogra
fias, sòmente sobre éste assunto, apareceram no breve per íodo de
-
cinco anos.
Mais uma vez, a gente fica perplexa em face da maravilhosa
engenhosídade e da infinita paciê ncia por meio das quais o mis
té rio dos mitocôndrios foi desvendado. Imagine -se uma part ícula
-
tão pequena, que a gente mal consegue vê- la, até mesmo através
de um microscó pio que a aumente 300 vezes. A seguir, imagine -se
a pericia requerida para isolar esta part ícula, para dividi-la e
para lhe analisar os componentes, determinando, para cada um
de tais componentes , isoladamente , e para todos ê les, em con-
junto o delicado e complexo funcionamento. Todavia , isto foi
#

feito com o emprégo do microscópio electrônico, em combina çã o


com as técnicas dos bioqu í micos.
Sabe-se agora que os mitocôndrios sã o pequenos grupos de en
zimas: há um variado sortimento delas, inclusive tôdas as enzi
-
-
mas necessárias ao ciclo oxidador * tôdas elas dispostas de maneira

1 Hii m uví ra í iWnclc Cf


'

^ ‘
^
precisa e ordenada, cio paredes e em compartimentos. Os mito-
còndrios constituem as casas de for ça ” em que ocorre a maior
'

parte das rea ções produLoras de energia. Depois de registrados os


primeiros passos, que sã o preliminares, da oxida ção, no citoplas -
ma , a molécula de combustí vel é levada para dentro do inito-
côndrio* É al í que a oxida çã o se completa; é dali que se des-
prendem enormes quantidades de energia.
As rodas que giram indefinMamente, e que sã o os eidos da oxi
da ção, dentro dos mitocòndrios, girariam para pouca coisa , se
-
nã o decorresse do seu girar este resultado bàsicamente impor-
tante, A energia produzida em cada est ágio do ciclo de oxida ção
apresenta se na forma familiar mente denominada pelos bioqu í-
micos pelas iniciais ATP ( trifosEato de adenosina* ou , em inglês*
. -
' “ adenosme triphosphate” ) Trata se de molécula contendo três
grupos de fosfatas O papel do ATP, no fornecimento da energia,
*

decorre do fato de que ele pode transferir um dos seus grupos


de fosfatos a outras substâ ncias, jumamente com a energia dos
seus v í nculos de eléctrons, estando os eléctrons em movimento
para diante e para tr ás* em alt íssima velocidade. Assim , numa
cé lula de m úsculo, a energia para a contra çã o é ganha quando
um grupo terminal de f ósforo é transferido para o m úsculo que
se contrai. Assim* outro cicio se implanta — um ciclo dentro de
outro ciclo. Uma molécula de ATP cede um dos seus grupos de
fosfatos, e conserva apenas dois, tornando-se molécula de difos-
fatOj ABP, Mas, na medida em que a roda gira , prosseguindo
em seu movimento perpé tuo, outro grupo de fosfato é captado,
e o poderoso ATP é restaurado, A analogia do acumulador el é-
trico já foi utilizada ; o ATP representa o acumulador (ou bate -
ria ) carregado; e o ADP, o acumulador (ou bateria ) descarregado.
O ATP é a moeda universal da energia ; encontra -se em todos
os organismos, desde o do micró bio at é ao do homem. Êle for-
nece energia mecâ nica às cé lulas dos m úsculos; e energia elétrica
às células dos nervos. A célula do esperma; o ovo fertilizado,
pronto para o enorme surto de atividade que o transforma num
sapo, ou num pássaro, ou num ser humano; a célula que precisa
criar um hormôuio — tudo isto é abastecido de ATP. Uma parte
da energia do ATP é utilizada no mitocôndrio; mas a sua maior
parte é despachada para dentro da cé lula , a fim de proporcionar
íôr ça para a realiza çã o de outras atividades, A localiza çã o dos
mitocòndrios, dentro de determinadas células, fala com eloqu ê n -
cia de suas fun ções, uma vez que os mitocòndrios sã o dispostos
por tal maneira , que a energia pode ser proporcionada , ou des-
prendida , precisamente no ponto em que ela é necessá ria. Nas
210
células dos m úsculos, os mitocôndrios agrupam -se ao redor das
libras constritoras; nas cé lulas dos nervos, é les situam -se na jun-
10 de uma com outra cé lula , onde fornecem energia para a trans
-
^
jmeneia dos impulsos; nas cé lulas do esperma , estão concentrados
110 ponto em que a cauda propulsora se liga à cabeça.

O carregamento da bateria , ou do acumulador, em que o ADP


c um grupo livre de fasta tos se combinam, para restaurar o ATP,
está acoplado â fosfor ila çã o, Se a combina çã o se dcsengianza, de-
saparece o meio de se proporcionar energia utilizá vel, A respi -
ra ção continua; mas nenhuma energia é produzida, A cé lula tor -
na -se uma espécie de motor de corrida a gerar calor, mas sem
proporcionar pot ê ncia. Então, o m úsculo nã o pode contrair -se ; e
també m a corrida do impulso, ao longo das trilhas nervosas, deixa
-
de poder efetuar se. Entã o, o esperma não pode locomover-se a
caminho do seu destino; o ôvo fertilizado deixa de poder condu -
zir à comp ] eta çã o as suas complexas divisões e as suas delicadas
elabora ções. As consequências do desengranzamento poderiam,
com efeito, ser desastrosas para qualquer organismo, desde o em-
bri ã o até à forma çã o adulta ; a seu tempo, isto poderia conduzir
à morte do tecido, ou mesmo do organismo.
Como é que o desacoplamento , o desengranzamento, ou seja , a
separação, pode ser provocada ? A radia ção é um desacoplador; e
a morte de células expostas a radia ções é, ao que muitos pesqui
sadores presumem, originada por esta forma. In felizmente, subs-
-
tancias quimicas existem, e em grande quantidade, que também
possuem a facuIdade de separar a oxida çã o, da produ ção de ener-
gia , Os inseticidas e os ervitidas est ão muito bem representados
na lista destas substâ ncias. Os fenóis, coino já vimos, exercem po-
deroso efeito sò bre o metabolismo, ocasionando eleva ção poten -
cialmeute fatal da temperatura ; esta condi çã o é provocada peio
efeito de desacoplamento, ou pela desembreagem, do "motor de
corrida". Os dinitroíen óis e os pentaclorofen óis integram exem-
plos deste grupo que tem emprego amplo na qualidade de ervi-
-
cida. Outro desacoplador, entre os ervicidas, é o 2 4 D. Entre os
}

hidrucarbonetos clorados, o DDT é desacoplador comprovado; e


os estudos vindouros talvez venham a revelar outros desacopla -
dores, no quadro deste grupo.
Todavia, o desacoplamento nã o é o ú nico meio de se extingui -
rem os pequenos "fogos em algumas ou em tòdas as células, que
existem aos bilh ões no corpo vivo. já vimos que cada passo, no
processo de oxidação, é dirigido e despachado por obra de uma
enzima específica . Quando qualquer destas enzimas
— — ainda que
seja uma ú nica dentre elas se destrói , ou se enfraquece, o ciclo
211
da oxida ção, no interior da célula , é suspenso. N ão importa qual
seja a enzima afetada. À oxida çã o progride num ciclo, como roda
que gira. Se nós introduzirmos uma trave entre os raios da roda,
n ã o importa em que ponto façamos isto: a roda deixa de girar.
Pára. Da mesma forma, se destruirmos uma enzima que funcione
em qualquer ponto, num ciclo de oxida çã o, a oxida çã o cessa. N ã o
ocorre, entã o, produçã o ulterior de energia ; desta maneira, o
efeito final é semelhante ao do desacoplaiaento.
A barra, capai de deter as rodas da oxida çã o, pode ser forne-
cida por qualquer substâ ncia química, dentre as numerosas subs-
tâ ncias qu ímicas comum ente usadas como pesticidas. O DDT, o
metoxicloro, o ma lati ão* a íenotiazina e vá rios compostos di nitro
figuram entre os numerosos pesticidas que, ao que se verificou,
inibeni uma ou ruais enzimas envolvidas no ciclo de oxida ção*
lais pesticidas, portanto, aparecem como agentes potencial mente
"

capazes de bloquear o inteiro processo de produção de energia,


e de destituir e privar as cé lulas de oxigé nio utilizá vel. Trata -se,
aqui, de lesão cujas consequê ncias são das ma is desastrosas. Des-
tas consequê ncias, apenas algumas podem ser mencionadas aqui.
Pelo simples recurso de retirar sistematicamente o oxigé nio, os
experimentadores têm feito com que células normais se transfor-

mem em células cancerosas como veremos no capitulo seguinte
Algumas sugestões, a respeito das drásticas consequ ê ncias do ato
*

de se privar de oxigé nio a célula , podem ser vistas em experi-


menta ções animais, relativas ao desenvolvimento de embriões.
Com oxigé nio insuficiente, os processos bem ordenados, por meio
dos quais os tecidas se desenvolvem e os órgã os crescem, se per-
turbam ou se interrompem ; deforma ções, malforma ções e outras
anormalidades podem ocorrer. Presumivelmente, o embri ão hu-
mano, destitu ído de oxigé nio, pode desenvolver també m defor-
midades congé nitas.
H á .sinais de que o aumento do n ú mero de tais desastres está
sendo observado, muito embora poucos pesquisadores lancem suas
vistas a distâ ncia suficiente para abarcai tòdas as causas. Em um
dos ma is desagrad á veis portentos dos tempos, o Departamento de
Estat ísticas Vitais in íeiou, em 1961, uma tabula ção nacional das
malformações de nascen ça , com o comentá rio explicativo segundo
o qual as estat ísticas resultantes proporcionariam os fatos neces-
sá rios a respeito da ocorr ê ncia das malforma ções congé nitas , e
das circunst â ncias sob as quais elas ocorrem. Èstes estudos serã o
orientados, sem d ú vida , em sua maior parte, no sentido de se
medirem os efeitos das radia ções; mas n ão se deve desprezar o
fato de muitas subst â ncias qu í micas serem parceiras das radia -
212
çÕes, produzindo exatamente os mesmos efeitos. Alguns do# de-
feitos e algumas das malforma ções das crian ças de amanh ã , som *

briamente antecipadas ou. previstas pelo Departamento de Esta -


t ísticas Vitais, ocorrerão, quase que certamente, por serem causa-
dos por essas substâ ncias químicas que saturam, ou impregnam ,
ou de algum modo permeiam , o nosso mundo exterior e o nosso
inundo interior.
Será bem possí vel que algumas das verificações a respeito da
diminui ção da reprodu çã o venham a estar ligadas a interferências
na oxidação biol ógica, c à consequente depíeção das reservas de
todo importantes das baterias de ÀTP. O òvo, mesmo antes da
fertiliza ção, precisa ser generosa mente abastecido de ATP, pronto
c à espera de exercer o enorme esf ôr ço, ou seja , o vasto dispê ndio
de energia que será requerido, depois que o esperma entrar c que
a fertilizaçã o ocorrer. O Fato de a cé lula de esperma atingir, ou
n ão atingir, o òvo, para nele penetrar, ou nã o penetrar, depende
do seu pró prio abastecimento de ÀTP ; este abastecimento é ge
rado uos mitocôndríos densamente acumulados no que se diria
-
que é o pescoço da célula. Uma vez efetuada a fertiliza ção, e co-
meçada a divisã o da cé lula , o suprimento de energia , sob a forma
de ATP, determinar á , em grande parte, se o embri ão prosseguirá
ou n ã o em sua evolu çã o, at é completar-se . Os embriologistas, ao
estudar alguns dos seus objetos mais convenientes, que sã o os
ovos das r ãs e das f ê meas do our íço-do- mar, verificaram que, se
o conte ú do de ATP se reduzir abaixo de um determinado n í vel
crí tico, o ôVQ simplesmente deixa de continuar a dividir se, e -
logo depois morre.
N ã o é um passo impossí vel o que vai do laboratório de Embrio -
logia à á rvore que d á ma çãs, onde um ninho de papo-roxo sus
-
tenta o seu complemento de ovos verde azuis; os ovos, poré m , lá
-
est ã o, frios; os fogos da vida , que flamejaram por uns poucos
dias, estã o agora extintos. Ou o passo pode ser dado para o t ô po
do elevado pinheiro da Flórida , onde uma vasta pilha de ramos
e de gravetos, em bem ordenada desordem , mantém três grandes
ovos brancos , de á guia , frios e sem vida. Por que foi que os papos -
roxos e as aguietas deixaram de repontar dos ovos ? Ser á que os
ovos das aves, exatamente como os das r ã s de laboratório, deixa -
dessa que é a moeda comum da energia
— —
ram de desenvolver-se, simplesmente porque lhes faltou reserva
a molécula de ÀTP
para que completassem o desenvolvimento? E ser á que a falta
de moléculas de ATP foi ocasionada pelo fato de, no corpo das
aves- m ã es e nos respectivos ovos que ali estã o, se haverem depo -
sitado e armazenado inseticidas suficientes para deter a rota çã o
513
das rodas de oxida ção, de que depende o abastecimento de
energia?
já n ã o é mais necessá rio procurar adivinhar, no que se refere
à armazenagem de inseticidas nos ovos dos pássaros, ovos estes que ,
natural mente, se prestam a esta espécie de observa ções, muito
mau prontamente que os ovos dos mamíferos. Grandes quanti -
dades de res íduos de DDT e de outros hklroearbonetos foram en -
contradas sempre que procuradas nos ovos de pássaros submeti -
dos à a çã o de tais substâ ncias qu í micas, trate-se de aves experi-
mentais, de laboratório, trate-se de aves silvestres , As concentra -
ções encontradas têm sido pesadas. Os ovos de faisões* numa ex -
periê ncia levada a tê rmo na Calif órnia , continham até 349 partes
.
por milh ã o* de DDT Em Michigan , os ovos retirados dos ovidu -
tos de papos-roxos mortos envenenados por DDT acusaram con -
centra ções de at é 200 partes por milh ã o dessa substâ ncia qu í-
mica, Outros ovos foram retirados de ninhos deixados ao aban -
dono devido ao fato de os papos- roxos, país e mães* serem atin -
gidos pelos efeitos do veneno; també m êstes continham DDT. As
galinhas envenenadas por aldr í na , utilizada numa fazenda vizinha ,
passaram a .substancia qu ímica insettrfdica para os ovos; galinhas,
experimentalmente submetidas a regime de alimentação contendo
DDT, botaram ovos que continham até 65 partes por milhão,
dessa subst â ncia.
-
Sabendo se que o DDT e outros, ou todos os outros hidrocar-
bonetas dotados det êm o ciclo produtor de energia , pelo processo
de í nativar uma enzima específica , ou de desacoplar o mecanismo
produtor de energia, torna -se dif ícil ver como á que algum ôvo,
assim carregado de res í duos venenosos* possa completar o processo
complexo e delicado do seu desenvolvimento: o numero ininnito
de divisões eelulares; a elabora çã o dos tecidos e dos órgãos; a
síntese das substâ ncias vitais, que por fim produzem a criatura
vivente. Tudo isto requer vastas quantidades de energia
pequenos pacotes de ATP, que só o girar da roda metabólica
— desses

pode produzir .
N ã o h á razã o alguma para se presumir que êstes desastrosos
acontecimentos sejam confinados ás aves; O ATP é algo assim
como a moeda universal da energia , e os cicios metabólicos* que
o produzem , se voltam para o mesmo propósito, seja nas aves ou
nas bactérias, seja nos homens, seja TIOS camundongos. O fato de
ocorrer armazenamento de inseticidas nas cé lulas germinais de
quaisquer espécies deve, portanto, perturbar- nos e preocupar- nos,
sugerindo efeitos semelhantes e compará veis em seres humanos,
214
E há indica ções de que estas subst â ncias qu ímicas se alojam em
tecidos relacionados com a manufatura tanto de células germi-
-
nais, como das pró prias células em geral. Descobriram se acumu-
la ções de inseticidas nos órgã os sexuais de grande variedade de

aves e de mam íferos em faisões, em camundongos, em cobaias
sob condi ções controladas, em papos-roxos existentes em á reas
pulverizadas de inseticidas contra a doença dos olmos, e nos ran -
gí feres que andaram pelas florestas ocidentais dos Estados Uni-
dos, florestas estas que haviam sido polvilhadas de pesticidas con-
tra o verme do broto do abeto. Num dos papos- roxos , a concen -
tração de DDT, encontrada nos test ículos, era muito mais pesada
.
do que a encontrada em qualquer outra parte do corpo També m
( 35 faisões acumularam quantidades extraordiná rias nos test ículos;
,

tais quantidades subiram até a 1.500 partes por milh ão.


Prová vel mente como efeito de tal armazenamento nos órgãos
sexuais é que a atrofia dos test ículos foi observada em mam í feros
experimentais. Ratos jovens, expostos aos efeitos do metoxicloro,
tiveram test ículos extraordinariamente pequenos. Quando gaios
novos foram alimentados com dietas polu ídas por DDT, seus tes -
t ículos conseguiram apenas 18 por cento do crescimento normal.
Ás crist ãs dos galos, bem como as respectivas papadas, dependem,
para o seu desenvolvimento, dos efeitos do hormônio test ícular;
e neles acusaram âòmente mn têrço do tamanho normal .
Os pró prios espermatozóides podem muito bem ser afetados
pela per d a de ATP. As experiências mostram que a motilidade
do esperma masculino se reduz, por efeito do dinítrofenol; esta
substâ ncia interfere no acoplamento do mecanismo produtor de
energia , determinando inevit á vel perda de potência. O mesmo
efeito poderia ser, talvez, encontrado, em rela çã o a outras subs -
t â ncias, se a pesquisa a seu respeito houvesse sido levada a cabo.
Alguma indica çã o a respeito do efeito possível sobre seres huma-
nos se pode ver em relatórios m édicos de oligospermia, isto é, em
produ ção reduzida de espermatozóides, entre os profissionais do
polvilhamento de inseticidas por meio de aeroplano, que apli-
cam DDT*
Para a humanidade considerada em seu todo, uma posse infi
nitamente mais valiosa do que a vida individual é a nossa he-
-
ran ça genética, o nosso v ínculo com o passado e com o futuro.
Formados através de longas idades de evolu ção, os nossos genes

contê m , em seus corpos min úsculos , o futuro



nã o sémen te fazem com que sejamos o que somos, mas também
seja que se trate
de promessa , seja que se trate de amea ça . Todavia, a deteriora ção
215
gené tica, através de agentes sintetizados ou elaborados pelo Ho -
mem, constitui a amea ça do nosso tempo
perigo para a nossa civiliza çã o''. — * * o ú ltimo e maior

Mais uma vez, o paralelo entre as subst â ncias qufmicas e as


radia ções se torna inevit á vel.
A célula viva, assaltada pela radia çã o , sofre certa variedade de
lesões: sua capacidade normal de dividir -se pode ser destru ída; a
c élula pode ser submetida a modifica ções na estrutura do cromos -
somo, ou dos genes, que sã o os portadores dos materiais heredi
t á rios; ela pode passar por essas modifica ções s ú bitas, denomi-
-
nadas muta ções, que a induzem a produzir caracter ísticas novas,
em gerações sucessivas. Se f ôr particularmente suscet ível , a célula
pode ser matada imediatamente; ou , n ã o sendo destru ída , pode,
no correr do tempo, depois da passagem de um prazo que se
mede em anos, tornar-se maligna .
Tòdas estas conseqfiê ncias de radiações foram reproduzidas em
estudos de laboratório, com emprego de grande grupo de subs
t â ncias qu ímicas denominadas radiomim é ticas , ou imitadoras das
-
radiaçõ es. Muitas substâ ncias qu í micas, utilizadas como pesticidas
— ervicidas e també m inseticidas — pertencem a êste grupo de
subst â ncias que possuem a habilidade de danificar os cromosso-
mos, de interferir no processo normal da divisão da célula , ou
de provocar-lhe muta ções. Estas lesões impingidas ao material ge -
né tico sã o de uma espécie que pode conduzir a doen ças do indi
v íduo exposto, mas que também pode fazer com que os seus efei-
-
tos sejam sentidos por gera ções seguintes, no futuro.
H á apenas uns poucos decé nios , ningu é m conhecia éstes efeitos,
seja das radia ções, seja das subst â ncias qu ímicas. Naqueles dias ,
o á tomo ainda n ão havia sido estilhaçado; apenas umas poucas
das substâ ncias qu í micas , que estavam para duplicar os efeitos
das radia ções, tinham sido concebidas — e, ainda assim , sòmente
nos tubos de prova dos qu í micos. Depois, em 1927 , um professor
de Zoologia , de uma Universidade do Texas — o Dr. H. J* Muller
— verificou que, expondo-se um organismo a raios X lhe era
poss í vel provocar mutações em gera ções futuras desse niesmo or-
ganismo. Em consequ ê ncia da descoberta de Muller, abriu -se vasto
*

campo novo de conhecimentos cient í ricos e médicos. Mais tarde,


Muller foi contemplado com o Prcmio Nobel de Medicina , por
sua descoberta ; e, num mundo que logo conquistou infeliz fami -
-
liaridade com as chuvas cinzentas do foi a u te, até os n ão cientistas
agora têm conhecimento dos resultados potenciais das radiações.
Embora muito menos notada, uma descoberta companheira da
do Dr. Muller foi feita por Charlotte Auerbath e William Rob-

m
son , na Universidade de Edinburgh , nos rorueços da quadra de
1940 / 50. Trabalhando com gás de mostarda, verificaram que esta
subst â ncia qu í mica produz anomalias permanentes nos cromosso -
mos, sendo que tais anomalias n ã o podem ser diferenciadas das
induzidas por meio de radia ções. Provado em mosca de fruta
o drosófiio
— que é o mesmo organismo que Muller usou no seu

trabalho original com raios X , o gás de mostarda também pro-
duziu mutações. Assim, o primeiro mutagê nio de ordem qu ímica
foi descoberto.
O gás de mostarda , como mutagê nio, agora tem a companhia
de longa lista de outras substâ ncias qu ímicas. Sã o subst â ncias que
se sabe que alteram o material genético existente em plantas e
em animais. Para se compreender como as subst â ncias qu í micas
podem alterar o curso da hereditariedade, precisamos , em pri -
meiro lugar , contemplar o drama bá sico da vida , tal como éle se
desenrola no palco da cé lula vivente.
As células que compõem os tecidos c os órgã os do corpo devem
ter o poder dc aumentar de n ú mero; se é que se deseja que o
corpo cresça e que a correnteza da vida continue fluindo dc ge-
ra ção em gera ção. Isto se realiza pelo processo da mitose , ou seja ,
da divisão nuclear. Numa célula que se encontre na iminência
de d í vidir-se , ocorrem mudan ças da mais extremada importâ ncia:
primeiro, dentro do n ú cleo; mas, a seu tempo, envolvem a cé lula
toda . No interior do n úcleo, os cromossomos movem-se e divi -
dem -se misteriosamente, dispondo-se por si mesmos em paradig-
mas que datam de idades remotas ; estes paradigmas é que ser-
vem para distribuir os determinadores de hereditariedade
genes — às cé lulas - filhas. Primeiro, os paradigmas assumem a
— os

forma de fios alongados , nos quais os genes se alinham, â ma -


neira de contas numa fieira. Depois , cada cromossomo se divide
long í tudinalmente, ou seja , no sentido do seu comprimento (sendo
que os genes também se dividem). Quando as células se dividem
em duas, metade de cada gene vai para cada uma das células-
filhas, Por esta forma cada nova cé lula passa a conter um jôgo
completo de cromossomos, junta mente com toda a informa çã o ge -
né tica como que codificada n ê les. Desta maneira, preserva -se a
integridade da ra ça e das espécies; desta maneira , o semelhante
reproduz o semelhante.
Uma espécie particular de divisão de cé lula ocorre na forma -
çã o das células germinais. Em consequê ncia do fato de o n ú mero
dos cromossomos* para uma dada espécie , ser constante , o ôvo e
-
o esperma , que devem unir se para formar um novo indiv íduo ,
devem levar, para a sua uniã o, apenas metade do n ú mero da es -
217
péeie . Isto se registra com extraordiná ria precisã o por uma mu -
dan ça no comportamento dos cromossomos — mudan ça esta que
se verifica numa das divisões que produzem as mencionadas ct>
lulas. Nesta altura , os cromossomos não se dividem; mas um cro-
mossomo inteiro, de cada par, passa para cada uma das células-
f ilhas.
Neste drama elementar, a vida inteira se revela como una , Qs
eventos do processo da divis ã o de célula sã o comuns a t ôda vida
terrena ; nem o homem, nem a ameba , nem a sequ óí a gigantesca ,
nem a simples célula de fermento pode existir por longo tempor
sem levar avante áste processo de divisã o celular. Qualquer coisa
que perturbe a mitose constitui, portanto, grave amea ça ao bem-
estar do organismo afetado, bem como aos seus descendentes,
,
£
As características básicas da organiza çã o celular, inclusive, por
exemplo, a mitose, devem contar mais de 500 milhões de anos
de existê ncia — talvez quase que um bilh ã o de anos"
George Gaylord Simpson , jumamente com os seus colegas Pit
— escreveu
-
tendrigh e Tiffany, na sua obra de largo f ôlego, que abarca vasto
campo de observa ção, intitulada “ Life" (Vida ), “ Neste sentido, o
mente durá vel através do tempo

mundo da vida , embora [MJF certo frá gil e complexo, é incrivel-
mais durá vel do que as mon-
tanhas. Esta durabilidade é inteira mente dependente da quase
inacredit á vel - precisã o com que a informa çã o herdada é copiada ,
de geração em gera çã o".
Contudo, em todos os milhares de milh ões de anos contempla-
dos por estes autores, nenhuma amea ça golpeou tão direta meu te
e t ã o poderosamente a referida * " inacredit á vel precisão", como a
amea ça , surgida em uieados do século vinte, decorrente da radia
çã o artificial e també m da dissemina çã o, pela m ã o do Homem ,
-
de substâ ncias qu í micas venenosas. Sir Maciarlane Rurnet, not á -
vel médico australiano, ganhador de Prémio Nobel, considera essa
ameaça como sendo “ uma das mais expressivas caracter ísticas mé-
dicas' ' do nosso tempo; dai decorre que, "como subproduto de
processos terapêuticos cada vez mais poderosos , bem como da pro-
du çã o de substâ ncias qu ímicas que ficam do lado de fora das nos -
sas experi ê ncias biológicas, as barreiras protetoras normais, que
conservavam os agentes mutagê nicos fora dos órgã os internos, tê m
sido mais e ruais freq ú entemente vulneradas ' . 1

O estudo dos cromossomos humanos est á ainda em sua inf â ncia ;


assim , só recentemente se tornou poss í vel a observa çã o do efeito
dos fatores ambientais sobre êles. Foi somente em 1956 que no -
vas técnicas tornaram possível determinar acuradamenie o n ú-
218
mero dos cromossomos da cé lula humana 46
— —
e observados
com tamanha min úcia , a ponto de a presen ça ou a ausê ncia de
cromossomos inteiros, ou mesmo de partes de cromossomospassar
ã poder ser acusada ,
O inteiro conceito de dano gené tico, por obra de algo que
exista no meio ambiente , também é relativamente novo; e é ainda
pouco compreendido, a na o ser pelos geneticistas, cujo conselho
muito rara mente se procura * ou se ouve. Os riscos da radia çã o,
em suas variadas formas, sã o agora razoavelmente compreendidos
— embora ainda negados em lugares cuja nega ção surpreende. O
Dr. Muiler teve freqiíentemente ocasiã o de deplorar a "resistê ncia
à aceita çã o de princ í pios gen é ticos da parte de tanta gente , n ã o
sòmente entre os funcionários governamentais, que ocupam posi -
ções onde as diretrizes sã o formuladas e adotadas* mas també m
entre in ú meros membros da profissã o médica ” ,
'

O lato de que as subst â ncias qu ímicas podem desempenhar


papei semelhante ao da radiação ainda mal bruxuleia na mente
publica; mas também n ã o penetrou de todo no esp írito da maior
parte dos trabalhadores m édicos e cient í ficos. Por esta raz ã o, o
papel das subst â ncias qu ímicas, de uso generalizado (ruais tio que
das usadas eh» experimenta ções de laboratório), ainda n ã o foi bem
definido ft extremamente importante que ta í definiçã o se fa ça ,
,

Sir Macfarlane n ã o está só , na sua estimativa do perigo poten -


cial, O Dr. Peter Alcxander, autoridade britâ nica de grande pro -
jeçã o, declarou que as substâ ncias qu í micas radiom í mé ticas " po
derã o bem representar um perigo maior" do que o da pró pria
-
radia çã o, O Dr. Muller, com a perspectiva ganha por decé nios
de not á veis trabalhos de Gené tica , adverte que vá rias subst â ncias
qu í micas (inclusive certos grupos representados pelos pesticidas)
" podem provocar , tanto quanto as radia ções a frequ ê ncia das
*
mutações... Por enquanto, muito pouca coisa se sabe a respeito
da extensã o a que os nossos genes, sob as modernas condi ções de
exposiçã o aos efeitos de subst â ncias qu ímicas inusitadas , estã o
sendo submetidos a tais influ ê ncias mutagenicas",
À negligê ncia generalizada, que se observa quanto ao problema
das subst â ncias qu ímicas mutagcnicas, se deve* talvez, ao fato de
que as primeiras substâ ncias descobertas, desse gê nero, se reves
tiam apenas de interesse cient í fico, A mostarda nitrogê nica , afi-
-
nal de contas, n ã o est á sendo polvilhada por cima de inteiras
populações* por via aérea ; seu uso está reservado e entregue a

I m ã os de biologistas experimentados, ou de m édicos que a empre-


gam na terapia do câ ncer. (Um caso de dano causado a cromosso-
mo* em um paciente que recebeu essa terapia , foi recentemente

219
comunicado). Entretanto, os inseticidas e os ervicida* são postos
em contato í ntimo com grande n ú mero de pessoas ,
A despeito da escassa aten çã o que tem sido dada ao assunto * é
poss í vel reunir informa ções especificas sobre certa quantidade de
tais pesticidas; estas informa ções mostram que eles perturbam os
processos vitais das células , por vá rias formas; e que tais formas
vã o desde o leve dano ao cromossomo até à mutaçã o do gene; e
isto, com consequ ê ncias que se estendem até ao derradeiro desas
tre da malignidade.
-
Os mosquitos expostos aos efeitos do DDT, ao longo de vá rias


gera ções, transformaram-se em estranhas criaturas denominadas
ginandramarfos isto é, em seres em parte masculinos e em parte
femininos.
As plantas tratadas com vá rios fenóis sofreram destrui ções pro-
fundas de cromossomos , mudan ças nos genes * impressionante n ú
mero de muta ções, e “ modifica ções heredit á rias irrevers íveis". As
-
muta ções ocorreram também em drosófilos ( moscas de frutas), que
sã o os objetos clássicos das experimentações gené ticas, quando
submetidos à a çã o de Fen ó is; estas moscas sofreram mutações tã o
danosas* a ponto de se tornarem Fatais, pela exposi çã o a um dos
ervieidas comuns, ou da uretana , A urctana pertence ao grupo
das substancias qu í micas denominadas earbamatos, de que deriva
um n ú mero cada vez maior de inseticidas e fie outras substâ ncias
qu í micas de uso agr ícola. Dois dos caiba ma tos sã o efetiva mente
usados na preven ção da germina çã o de batatas armazenadas

— —
precisamente devido ao seu comprovado efeito no sentido de deter
a divisã o celular. Uma destas subst â ncias a hidrazida malé ica
é classificada como sendo poderoso mu t agonio.
As plantas tratadas com hexacloreto de benieno ( BIIC) , ou lin -
daria , se tornaram monstruosamente deformadas, com incha ços à
guisa de tumores em suas ra í zes. Suas células cresceram em tama -
nho , estufadas que ficaram de cromossomos , os quais dobraram
de n ú mero, À multiplica çã o continuou nas divisões futuras, at é
que novas divisões celulares se fizeram mecanicamente impossí veis.
Q ervicida 2 ,4 -D també m produziu incha ços semelhantes a tu -
mores, em plantas com cie tratadas. Os cromossomos se fizeram
curtos, grossos, aglutinados. A divis ã o celular foi sé riainente retar -
dada . O efeito geral, ao que se diz , è bem paralelo ao produzido
pelos raios X.
Estas sã o apenas umas poucas ilustra ções do caso; muitas mais
poderiam ser apresentadas. Por enquanto* n ã o houve estudo com -
preensivo destinado a comprovar os efeitos mutagê nicos dos pes »

220
ticidas como tal. Os fatos acima citados sã o subprodutos de pes-
quisas feitas cm rela ção à fisiologia das células, ou de ordem ge-
n é tica. O que urge fazer é o ataque direto ao problema.
Alguns cientistas est ã o dispostos a conceder que é potente o
efeito da radia ção ambiental só bre o Homem; não obstante, poem
em d ú vida o lato de as subst â ncias qu í micas mutagênicas pode *

rern, como proposi çã o prá tica, produzir os mesmos efeitos. Ê les ci -


tam a grande for ça de penetração da radia ção; mas duvidam de
que as substâ ncias qu ímicas possam atingir as cé lulas germinais,
Mais uma vez, a tarefa é obstru ída pelo fato de haver havido
pouca investiga ção direta do problema no Homem. Entretanto,
o encontro de grandes quantidades de res íduos de DDT, nas gô-
nadas e nas células germinais de pássaros e de mam íferos, cons-
titui forte evid ê ncia de que os hidrocarbonetos clorados, pelo
menos, nã o sòmente se distribuem larga mente pelo organismo
todo, mas també m entram eiu contato com os materiais gené ticos.
O Professor David E. Davis, da Universidade do Estado de Pen -
sílvânia, descobriu, ainda recentemente , que uma poderosa subs-
tância qu ímica , que impede que as cé lulas se dividam , e que tem
lido limitado uso na terapia do câ ncer, também pode ser utili -
zada para causar esterilidade em pássaros* Os n í veis subletais dessa
substâ ncia qu ímica suspendem a divisão celular nas gònadas. O
Professor Davis obteve algum êxito em experiê ncias feitas em
exemplares da vida silvestre, ò bvíamente, pois, há pouca base
para a esperan ça , ou para a crença, de que as gò nadas de quais
quer organismos se encontrem escudadas contra os eleitos das subs
--
t â ncias qu í micas ambientais.
Recentes observações médicas, no campo das anormalidades dos
cromossomos, são de extremo interesse e de alta significa ção. Em
1959, vá rias equipes inglesas e francesas de pesquisadores nota -
ram que os seus estudos, realizados independentemente* se orien -
tavam para uma conclusã o comum. A conclusã o era a de que
as doen ças da humanidade são causadas pelo dist ú rbio do n ú mero
normal de cromossomos. Em certas enfermidades e em certas anor -
malidades estudadas pelos referidos investigadores, o n ú mero dos
cromossomos diferia do normal. Para ilustrar o caso; sabe-se agora
que todos os mongoloides t ípicos possuem um cromossomo extra.
Ocasionalmente, este cromossomo extra está apegado a outro, de
modo que u n ú mero dos cromossomos continua sendo o n ú mero
normal de 46. Em norma , por ém, o cromossomo extra é cromos-
somo à parte, tornando o n ú mero 47. Nos indivíduos em que
isso acontece , a causa original do defeito deve ter ocorrido na
gera ção que precedeu o seu aparecimento*
221
Um mecanismo diferente parece que opera , tanto na América
como na Gr ã -Bretanha , em certa quantidade de pacientes, que
estejam sofrendo de uma forma cr ónica de leucemia. Verificou-se
que tais pacientes possuem uma anormalidade consistente, rela -
uva a cromossomos, em algumas células do sangue. A anomalia
consiste na perda de uma parte de um cromossomo. Em tais pa
cientes, as cé lulas da pele possuem o seu complemento normal
-
de cromossomos. Isto í ndica que o defeito cromossômico n ã o ocor-
reu nas células germinais que deram origem a tais indivíduos;
esse deleito representa, ao contrá rio, dano causado a células par -
ticulares ( neste caso, as precursoras das cé lulas do sangue) que
deve ter ocorrido durante a vida do indiv íduo. A perda de parte
de um cromossomo talvez prive as células correspondentes das res-
pectivas “ instru ções” , para a manutenção do seu comportamento
normal.
A lista dos defeitos vinculados a perturbações cromossômicas
cresceu, com surpreendente rapidez, desde que se abriu este cam
po que anterior mente se situava além dos limites da pesquisa mé
--
dica. Um de tais defeitos, apenas conhecido pela designa çã o de
s í ndroma de KJineíelter, envolve a duplica ção de um dos cromos-
somos sexuais. O indivíduo dai resultante é masculino; mas, de-
vido ao fato de ele possuir dois das cromossomos X ( lornando se
XXY, ao invés de XY, que é o complemento masculino normal),
-
esse indivíduo é de algum modo anormal. A altura excessiva e
os defeitos mentais acompanham frequentemente a esterilidade
causada por esta condição. Em contraste, o indiv íduo que recebe
somente um cromossomo sexual ( tornando-se XO, ao invés de
XX, ou de XY), é, na verdade, feminino, mas acusa falta de mui -
tas das caracter ístkas sexuais secundárias. Esta condiçã o é acom
panhada de vá rios defeitos f ísicos (e, por vezes, també m de de-
-
feitos mentais), porque, naturalmente, o cromossomo X contém
genes destinados a originar certa variedade de caracter ísticas. Isto
se conhece pela denominação de s índroma de Turner. Ambas as
condições foram descritas, ua literatura médica , muito antes de
a sua causa ser conhecida.
Imensa quantidade de trabalho, sobre o assunto das anormali -
dades relativas aos cromossomos, est á sendo realizada, pelos pes
quisadores, em numerosos pa íses. Um grupo da Universidade de
-
Wiscon.sin , chefiado pelo Dr. Klaus Patau , concentrou seus esfor-
ços no estudo de certa variedade de anormalidades congé nitas,
compreendendo usualmenie o retardamento mental ; êste retarda
mento parece que resulta da duplica çã o de apenas uma parte de
-
um cromossomo, como se, em algum ponto, na forma çã o de uma
222
das células germinais, um cromossomo se houvesse partido, e seus
pedaços não ' houvessem sido apropriadamente distribu ídos, Os
acidentes desta ordem tê m a probabilidade de interferir no de-
senvolvimento normal do embrião.
De conformidade com o conhecimento presente, a ocorrê ncia
de um inteiro cromossomo extra, no corpo, é usualmente letal.,
por impedir a sobrevivê ncia do embrião. Sòmente três de tais con -
dições, ao que se sabe, se fazem viá veis. Uma delas* naturalmente,
é o mongoJ ísmo. A presença de um fragmento extra, apenso, en-
tretanto, embora seja sèriamente prejudicial, n ão é necessária -
mente fatal; ao que informam os investigadores de Wisconsin,
esta situação pode muito bem ser a causa de uma parte substan
cial de casos, até agora incxplicados, em que a criança nasce com
-
m ú ltiplos defeitos, usualmente se incluindo, em tais defeitos, o
do retardamento mental.
Êste é um campo tã o nôvo de estudo* que* por enquanto, os
cientistas se têm preocupado ma is com a identificaçã o das anor-
malidades dos cromossomos* associadas à doen ça e ao desenvol-
vimento defeituoso, do que à especulação cm t ômo de suas cau -
sas. Seria afoiteza presumir que qualquer agente isolado possa ser
responsá vel pela danificação dos cromossomos, ou possa originar
lhes comportamento err á tico, durante a divisã o celular. Podere
--
-
mos nõs, porém, permitir nos o luxo de ignorar o fato de que
estamos saturando o nosso meio ambiente com substâ ncias qu í-
micas ptHSuidoras do poder de golpear diretamente os cromosso-
mos, e de os afetar precisamente pelas formas que podem deter -
minar o aparecimento das referidas condições defeituosas? N ã o
será êste um preço excessivamente elevado, para se pagar por uma
batata n ão germinada, ou por utn pá tio inteira mente limpo de
mosquitos?
N ós podemos, se quisermos, reduzir esta amea ça à nossa he-
ran ça genética. Esta heran ça é uma posse que nos vem através
de uns dois bilhões de anos de evoluçã o e de seleçã o de proto -
plasmas viventes; é uma posse que é nossa apenas para êste mo
mento, ou .seja, até que a passemos para a frente , para as gera ções
-
vindouras. Pouca coisa estamos fazendo, agora , no sentido de pre -
servar a integridade desta heran ça. Embora os fabricantes de subs
tâ ncias qu ímicas sejam obrigados, por lei * a testar seus materiais,
-
a fim de lhes assinalar a toxidez* êsses mesmos fabricantes não
são obrigados, de forma alguma* a realizar testes que possam de-
monstrar, por via de conclusões dignas de confian ça, os seus pos -
s í veis efeitos gené ticos; e eles n ão realizam testes desta natureza.

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14. Um E111 Cada Quatro


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/ BATALHA DAS COISAS VIVAS, contra o câncer, começou há tantos
e tantos anos, que a sua origem se perde no iempo. Essa batalha,
porém, deve ter começado num meio ambiente natural, em que
a vida, fosse ela qual fosse, que habitava o Globo, se via sub
metida, para o bem ou para o mal, a influências que tinham sua
-
origem no Sol , na tempestade c na natureza antiga da Terra.
Alguns dos elementos deste meio ambiente criavam riscos aos
quais a vida tinha de se ajustar, ou perecer. A radia çã o ultra *

violeta, que existe na luz do Sol, podia causar malignidade. O


mesmo poderiam lazer as radia ções procedentes de determinadas
rochas, ou do arsé nico lavado do solo pelas chuvas, ou entã o
lavado das rochas, para contaminar os nossos abastecimentos de
v í veres , ou de á gua.
O meio ambiente já continha estes elementos muito antes de
haver vida; ainda assim, a vida surgiu; e, ao longo de milhões
de anos, ela passou a existir sob uma quantidade infinita de va -
riedades, No decorrer de inteiras idades de tempo sem pressa ,
que é o tempo da Natureza, a vida chegou a um ajustamento
com as tor ças destruidoras, na medida em que a seleção foi eli
minando os seres menus adapt á veis, e permitindo que somente
-
os mais resistentes sobrevivessem, Êsies agentes naturais, causado
res de câ ncer, constituem ainda fator de produ çã o de maligni-
-
dade ; entretanto, sã o poucos em numero; e pertencem a êsse ar -
senal antigo de torças a que a vida já se acostumou , desde os
começos do seu aparecimento.
Com o advento do Homem, a situa çã o começou a modificar se;
porque somente o Homem, entre todas as formas de vida, pode

criar subst â ncias causadoras de câ ncer subst â ncias cancer ígenas,
que, em terminologia médica, também se designam pela expres-
são çarcinóg&rms. Uns poucos agentes cancer ígenos, feitos pelo
Homem , vem constituindo parte do meio ambiente, desde séculos
para cá. Um exemplo disto é a fuligem , que cont ém hidratar bo
netos arom á ticos. Com o alvorecer da era industrial, o mundo tor-
-
nou -se lugar de mudança cont í nua e cada vez mais acelerada. Ao
invés do meio ambiente natural , passou a haver um meio ain -
223
15 Primavera SllerKloM
biente artificial, que rà pidamente substituiu o primeiro, e que se
compõe de novas substâ ncias qu í micas e de novos agentes f ísicos;
muitas destas substâ ncias e muitos destes agentes possuem pode-
rosa capacidade de induzir altera ções de ordem biológica. Contra
êstes cancer ígenos» que a atividade do homem criou, o pró prio
homem n ão tem proteçã o. O que há é que* assim como a sua
heran ça biológica evoluiu lentamente » assim também essa mesma
heran ça se adapta muito devagar a novas condições. Em conse-
qu ê ncia , estas poderosas substâ ncias podem penetrar f àcilmente
no organismo humano, atravessando- lhe as defesas inadequadas.
A hist ória do câncer é longa ; mas o nosso reconhecimento dos
agentes que o provocam , ou produzem, amadureceu multo lenta -
mente . A primeira desconfiança, ou consciência, de que os agentes
externos, ou ambientais, podem produzir altera ções malignas » sur -
giu no espirito de um m édico de Londres, há cê rca de dois sé-
culos. Em 1775» Sir Percival Pott declarou que o câ ncer cscrotal,
t ão comum entre as limpadores de chaminés* poderia ser causado
pela fuligem que se acumulava no corpo dêsses limpadores, O
mencionado médico n ã o pôde apresentar “ provas” do gé nero das
que hoje talvez lhe fossem pedidas ; mas os métodos modernos já
isolaram a substância qu í mica mort ífera * que existe na fuligem;
e comprovou a correção da observação de Pott.
Durante um século» ou inais, depois da descoberta do Dr. Pott,
parece que houve pouca percepção ulterior de que determinadas
subst â ncias qu í micas, existentes no meio ambiente humano, po -
dem causar o aparecimento do câncer, por meio do repetido con-
tato com a pele , da inalação ou da ingestã o. Certo, foi observado
que o câ ncer da pele prevalecia entre os trabalhadores expostos
a vapores de arsénico, nas fundições de cobre, bem como nas fun -
dições de estanho de Gormialha e de Gales , na Inglaterra. E já
se tinha consciê ncia de que os trabalhadores das minas de co-
balto, na Saxônia * bem como das minas de ur â nio de Joachim -
stbal , na Boé mia, eram submetidos a uma doen ça dos pulmões
— doen ça esta que depois foi identificada como sendo câ ncer.
-
Estes por é m, foram fenômenos da era pré industrial; ocorreram
antes do florescimento das ind ústrias cujos produtos passaram,
ruais tarde, a impregnar o meio ambiente de quase que todos os
seres vivos.
O primeiro reconhecimento das malignidades, atribuíveis à
idade da ind ústria , deu-se durante o ú ltimo quarto do século de -
zenove. Lá pela época em que Fasteur andava fazendo demons-
trações relativas à origem microbiana de muitas doenças infeccio-
sas, outros pesquisadores estavam descobrindo a origem qu í mica

226
tio câ ncer — tais como os câ nceres entre os trabalhadores da in -
d ústria de lí uhiie da Saxónia , e da ind ústria do esquis to, da Es-
cócia, juntamente com outros tipos de câ nceres provocados por
exposição ocupadonal ao alcatrão e ao pixe, Lá pelo fim do sé-
culo dezcnove, tornou se conhecida uma meia d úzia de fontes car-
cmogâ nicas, ou câ ncerigenasde ordem industriai. O século vinte
estava para criar incont á vel quantidade de substâ ncias qu í micas
provocadoras de câ ncer, e para colocar a popula ção, em sentido
generalizado, em contato intimo com tais substâ ncias. No espa ço
de menos de dois séculos, que ficou de permeio, a contar dos
trabalhos de Pott até aos nossos dias, a situa ção ambiental foi
cnormemente modificada. As exposições a substâ ncias qu ímicas
perigosas já não sã o mais apenas de ordem ocupadonal; tais ex -
posições est ão presentes no ambiente de qualquer pessoa
mesmo das crian ças e dos séres ainda não- nascidos. Não sur-
—at é

preende, portanto» que agora tenhamos consciê ncia do aumento


alarmante de casos dc enfermidades malignas.
O aumento, em si mesmo considerado, n ã o é mero assunto de
impressões subjetivas. O relatório mensal do Escritório de Esta -
tísticas Vitais, de julho de 1959, declara que os crescimentos ma -

sangue

lignos “ inclusive os dos tecidos linf á ticos e dos formadores de
foram responsáveis por 15 por cento das mortes ocor
ridas em 1958; compare -se isso com a propor çã o de apenas 4 por
cento, em 1900. A julgar pela incid ê ncia atual da enfermidade, a
-
-
Sociedade Norte Americana do Câ ncer calcula que 45 milhões de
norte-americanos, agora vivos, passarã o, a seu tempo, a sofrer de
câ ncer . Isto significa que a doen ça maligna atingir á duas, de
cada grupo de trés fam í lias.
A situaçã o, relativamente ás crianças, é ainda ruais profunda
mente perturbadora . Há um quarto de século, o câncer, nas crian-
-
ças, eia considerado raridade médica. Hoje mais crianças em
?

idade escolar , nos Estados Unidos , morrem de câ ncer , do que


qualquer outra enfermidade . Tão sé ria se tornou esta situa ção,
que a cidade de Boston implantou o primeiro hospital, nos Es
tados Unidos, dedicado cxclusivamente ao tratamento de crian ças
-
sofredoras de câ ncer. Doze por cento de todas as mortes de crian
ças, entre as idades de um a catorze anos, são causados pelo câ n-
-
cer. Grandes quantidades de tumores malignos são descobertas,
clinicamcnte, ein crian ças com idades inferiores a cinco anos; mas
constitui fato ainda mais impressionante o de que uma quanti-
dade muito expressiva de crescimentos malignos, isto é, de tu -
mores cancerosos, se encontra presente ao nascimento da criança,
e mesmo antes disso. O Dr+ W* C. Hueper, do Instituto Nacio-
227
liai do Câ ncer* dos Estados Unidos, autoridade de primeira plana
em quest ões de câ ncer ambiental , sugeriu que os câ nceres congé-
nitos e us cânceres infantis podem estar relacionados à ação dos
agentes provocadores de câ ncer aos quais a m ã e se haja exposto
durante a gravidez; com essa exposiçã o, aqueles agentes podem
ter penetrado na placenta, atravessando-a e indo atuar sobre os
tecidos do feto, que sã o tecidos de desenvolvimento rápido. \s *
experiências mostram que quanto mais jovem é o animal, quando
se vê submetido a agentes provocadores de câ ncer , tanto mais
certo é o aparecimento do câ ncer , O I> r. Francis Ray, da Univer
sidade da Flórida , advertiu que “ nós talvez estejamos iniciando
-
o câncer, nas crianças dus dias de hoje, por meio da adi çã o de
subst â ncias qu í micas (aos alimentos).,. Saberemos, talvez ao longo
de uma ou duas gerações, quais serão os efeitos dessa adi ção' , 1

O problema que nos preocupa, aqui , é o de saber se algumas


das substâ ncias qu ímicas que agora estamos usando, nas nossas
tentativas de controlar a Natureza, desempenham , direta ou indi-
reta mente, algum papei, como causas de câ ncer. Em termos
da
evidência ganha através de experiências feitas em animais, vere-
mos que cinco, ou possivelmente seis, dos pesticidas, devem ser
definidvamente classificados como cancer ígenos. A lista poderá
ser grandemente alongada, se lhe acrescentarmos os pesticidas que
alguns m édicos consideram coiuo sendo causadores de leucemia
em seres humanos. Aqui , a evidência é circunstancial — como è
for çoso que seja , uma vez que n ã o fazemos experiê ncias em seres
humanos; mas, ainda assim, o caso é impressionante. Há ainda
outros pesticidas que podem ser acrescentados ã lista , se se in
cluem aqueles cuja a ção, sôbre tecidos vivos , ou sôbre células vi- -
vas, pode ser considerada como causadora indireta de maligni-
dade.
Um dos pesticidas que primeiramente foram associados ao câ n
cer é o arsénico, que ocorre no arseilito de sódio, como matador -
de ervas daninhas, e no arseniato de cá lcio, bem corno em vários
outros compostos utilizados corno inseticidas. A associa ção entre
o arsénico e o câ ncer, no homem e nos animais, é hist órica . Um
exemplo fascinante das consequê ncias da exposição ao arsé nico
é relatado pelo Dr , Huepcr, na sua obra intitulada Occupacionui
Tumors (Tumores Ocupaeionais), que é monografia clássica sô bre
o assunto,
A cidade de Rcichenstein, na Si1és ia, fora, durante quase mil
anos, lugar de mineração de minérios de ouro c de prata, e, du
rante vá rias centenas de anus, de minérios de arsénico. Ao longo
-
22â
-
I s séculos, os resíduos de arsé nico foram se acumulando nas vi-
zinhanças dós poços das minas; dali , foram sendo apanhados pe-
los cursos de água que desciarn das montanhas . També m as águas
subterrâ neas se tornaram contaminadas. O arsé nico , assim , entrou
na água de beber . Durante séculos , muitos dos habitantes da men -
a denomina çã o de “ doen ça de Reichenstein"

cionada regi ão sofreram de algo que passou a ser conhecido com
-
isto é , de arseni
cismo cr ó nico, com acompanhamento de desordens do 17 gado, da
pele, do aparelho gastrintestinal e do sistema nervoso. Os tumo-
res malignos eram acompanhamento comum de tais males. A

--
doen ça de Reichenstein é, agora , principal mente , de interesse his
t ó rico, porquanto novos abastecimentos de á gua foram propor
cionados à quela regi ã o, h á coisa de um quarto de século; ep de
tais abastecimentos, o arsé nico foi eliminado em parte consi-
der á vel.
Na Prov íncia de Có rdoba , na Argentina, entretanto , o envene-
namento arsenical cró nico, acompanhado de cânceres arseni ca is
da pele , é ocorrência end é mica , devido à contamina çã o da á gua
de beber; esta á gua, a li, deriva de forma ções rochosas que con
t ê m arsénico.
-
N ão seria muito dif ícil criar condições semelhantes à quelas que
existem em Reichenstein e em Córdoba, por meio do uso longa -
mente continuado de inseticidas arsenica í s. Nos Estados Unidos,
05 solos ensopados de arsé nico, das plantações de tabaco, de mui
tos pomares do Noroeste, e dos canteiros de mutilo, no Leste,
-
podem conduzir f àcilmente à polui ção dos reservatórios de á gua.
Um meio ambiente contaminado por arsé nico afeta n ã o sò-
mente o homem, mas também os animais. Relatório de grande
interesse foi o que chegou da Alemanha , em 1936. Na á rea de
Treiberg, na Saxônia , os fundidores de prata e de chumbo espa
lharam vapores de arsénico no ar; os vapõres vagaram por cima
-
da paisagem e das plantações circunvizinhas; depois pousaram
afibre a vegeta ção. De acordo com o que assegura o Dr, Hueper ,
o que aconteceu foi que cavalos, vacas, cabras e porcos, que, na-
turalmente, se alimentaram de tal vegetação, acusaram perda de
pê los e espessa mento da pele. As renas, habitantes de florestas
vizinhas, passaram a apresentar, por vêzes , manchas anormais de
pigmento e verrugas pré-cancerosas. Um de tais animais apresen
tou lesão decidid ífrnente cancerosa . Tanto os animais dom ésticos
-
como os animais silvestres foram atingidos por "enterite arsenical ,
1

neiros, conservados perto das oficinas de fusã o de prata e de


.
por ú lceras gástricas arseni cais, e por cirrose do f ígado ' Os car -

chumbo, desenvolveram câ nceres dos sinus nasais; por sua morte ,


-
encontrou se arsé nico no cérebro, no f ígado e nos tumores. Na
mesma á rea , 'ocorreu també m extraordin á ria mortalidade entre
os insetos, principalmente entre as abelhas. Depois de chuvas,
que lavaram as poeiras arsenicais que havia nas folhas das plan -
tas , e que as arrastaram para as á guas dos córregos e das lagoas,
grande quantidade de peixes morreu ''.
Um exemplo de cancer ígeno pertencente ao grupo de novos pes-
ticidas orgâ nicos é dado por uma substâ ncia qu í mica ampla mente
utilizada contra á caros e carrapatos. Sua história proporciona
prova abundante de que, a despeito das supostas salvaguardas pro -
videnciadas pela legislação, o publico pode ser exposto aos efeitos
de um cancer ígeno conhecido, e isto durante vários anos, antes
que os processos legais , que se movimentam lentamente, possam
colocar a situa çã o sob contrôle. O caso é interessante também de
outro ponto de vista , o que prova que aquilo que o público è
solicitado a aceitar como sendo "seguro” , nos dias de hoje, pode
tornar-se extremamente perigoso amanh ã .
Quando esta substâ ncia qu ímica foi apresentada , em 1955 , o fa -
bricante deu instru ções relativas a uma tolerâ ncia que deveria
sancionar a presen ça de pequenas quantidades de resíduos em
quaisquer planta ções que f ôssem polvilhadas com ela. Como se
requer por lei , o fabricante testou a subst â ncia em animais de
laborat ório, e apresentou os resultados, acompanhados da respec
tiva aplica çã o. Entretanto, os cientistas da Administra çã o do Ali-
-
mento e da Droga interpretaram os resultados como indicando
urna possível tend ê ncia a produzir câ ncer; e a comissão respertiva.
de conformidade com isso, recomendou “ tolerâ ncia zero". "Tole -
r â ncia zero ” era forma de dizer que res íduo nenhum podia ocor
rer* legalmente, cm. alimentos embarcados através de fronteiras
-
estaduais. O fabricante, contudo, tinha o direito legal de apelar ;
e o caso foi, de conformidade com isso, revisto por uma comissã o,
A decisão da comissão resultou em acordo: toler â ncia de uma,

parte por milh ã o, foi o que se estabeleceu: e merca d ea mento do


produto durante dois anos: durante os mencionados dois anos,
outros testes de laborat ório deveriam determinar se a mencionada
subst â ncia qu í mica em, ou n ã o era , cancer ígena.
F.mbora a comissã o n ã o o dissesse, a sua decisã o signiFicava que
o p ú blico deveria ser utilizado como cobaia , .servindo para o teste
da subst â ncia suspeita de ser cancer ígena , ao mesmo tempo em
que se se fizessem testes de laboratório em cã es e cm ratos. To -
davia , os animais de laborat ório d ã o resultados rnais cedo: e, de -
pois de dois anos, fez-se evidente que aquela substâ ncia era , de

25o
I . « lOj. cancerígena* Nem mesmo ao chegarem as coisas a
esse ponto ,
do Alimento e da Droga agir
• m 1957, pôde a Administra çã o
de tolerância
nnediatamente no sentido de rescindir a concessão
• -
11 ic permitia que res í duos
de um cancerígeno, sabido e identifi-
i iito, contaminasse o alimento consum
ido pelo p úblico. Outro
m o foi preciso , para o curso de v ários process os legais. Por fim,
em dezembro de 1958, a tolerância zero que , os membros da co-
missão haviam recomendado em 1955 , se tornou efetiva ,

Estes não são, de maneira nenhum a , os ú nicos cancerígenos


as Em testes de laborat ó rio * feitos
em
mnhecidos entre os pesticid .
mimais, o DDT provocou o aparecimento de tumores suspeito s
no f ígado. Os cientistas da Administraçã o do Aliment o e da Dro -
descobe rta dos mencion ados tumores , se
ga , que comunicaram a
mostraram incertos sôhre a maneira de os classific
ar ; mas o Dr.
l í ueper achou que havia alguma justifica
“ çã o para os considerar
grau '. O Dr.
1

como sendo carcinomas hep á ticos celulare s de baixo


"cance -
Hueper dá, agora , ao DDT, a classificação definitiva de
rígeno químico . ”
IPC
Dois inseticidas, pertencentes ao grupo dos carbaimtos o na
,

e o GIPC , desempenham , ao que se verifico u , papel decisivo


produção de tumores da pele, em camundongos. Alguns asdosmen tu -
mores assim produzidos eram malignos. Á figura - se que -

in í cio à mudan ça maligna ; a


cionadas substâ ncias qu í micas d ã o
seguir , a mudança é completada por outras substâncias qu ímicas
dos tipos predominantes no meio ambiente .
O ervicida denominado aminotriazol originou câ ncer da
ti -
reóide , em testes feitos com animais Esta , subst â ncia qu í mica foi
mal utilizada por certa quantidade de plantadores de arando, em
3959; e da í decorreu a existência de resí duos em bagas postas no
mercado Na controvérsia que se seguiu à apreensão das bagas-
,.

contaminadas, por obra da Administração do Alimento e da Dro


ga, o fato de que a citada substância química seja efetivamente
provocadora de cânceres foi íortemente combatido , até mesmo
por profissionais da Medicina. Os fatos cient í ficos , divulgados
pela mencionada Administração, indicam claramente a natureza
cancerígena do aminotriaznl; tais fatos foram observados em testes
de laborat ório, feitos em ratos . Quando êstes animais foram ali
-

mentados com dietas que continh am a referida subst â ncia qu í -


mica , na proporção'dç 100 partes por milhão , na á gua de beber
(equivalendo a uma colher, das de ch á , de subst â ncia, para cada-
dez mil das mesmas colheres, de água ) , é les começaram a desen
volver tumores da tireoide, na fi 8 .a semana depois do inicio da
aplicação de tal dieta. Depois de dois anos , os citados tumores se
231
fizeram presentes em ma is da metade dos ratos examinados. Os
,

tumores foram diagnosticados como consubstanciando vá rios tipos


de crescimentos, ora benignos , ora malignos. Os mesmos tumores
também apareceram em n íveis ruais baixos de dieta ; e , na ver
dade y um n ível diet ético, que n ão os produzisse> n ão foi encon -
-
trado. Ninguém conhece, naturalmeute, o n ível em que o amino-
triazol pode ser cancer ígeno para o homem; mas, corno observou
um professor de Medicina , da Universidade de Harvard, o Dr.
David Rutstein, o n ível tem tanta probabilidade de ser desfavo -
rá vel , como favorá vel , ao homem.
Por enquanto, é insuficiente o tempo que transcorreu , para re-
velar o efeito total dos inseticidas de hidrocarbonetos clorados , e
também dos ervicidas modernos. Numerosas malignidades se de-
senvolvem t ã o lentamcme , que chegam a requerer considerável
segmento da vida da v ítima , para alcançar a fnse da revela ção de
sintomas cl í nicos. Nos começos da quadra de 1920-30, algumas mu -
lheres , que pintavam figuras luminosas em mostradores de reló-
gios , engoliram min úsculas quantidades de r á dio, pelo processo
de tocar com o pincel nos próprios lá bios. Km vá rias destas mulhe-
res, apareceram câ nceres dos ossos , depois do transcurso de 15 ou
de mais anos. Per íodos de 15 a 30 anos , e mesmo mais , j á foram
demonstrados como sendo necessários para o aparecimento de de-
terminados tipos de câ nceres causados por exposiçã o ocupacional
aos efeitos de substâ ncias qu ímicas cancer ígenas.
Em contraste com estas exposições industriais aos efeitos de v á -
rias subst â ncias cancerígenas, as primeiras exposi ções aos efeitos
do DDT datam mais ou menos de 1942, para o pessoa ] militar, e
de mais ou menos 1915, para o pessoal civil; e foi sòmente depois
dos primeiros anos da quadra de 1950 / 60 que grande variedade
de substâ ncias qu í micas pesticídicas entrou em uso. A matura ção
plena de quaisquer sementes de malignidade, que possam haver
sido semeadas por estas subst â ncias qu í micas, ainda est á para
ocorrer.
H á , entretanto, uma exceçã o, que no momento se conhece , a
essa regra segundo a qual um longo per íodo de lat ê ncia é comum
à maior parte das malignidades. Esta exceçã o é constitu ída pela
leucemia. Os sobreviventes de Hiroxima começaram a desenvolver
leucemia sò mente tr és anos depois do bombardeio at ómico lá
ocorrido; e há agora razões para se acreditar que o per íodo de
latí ncia poder á ser , afinal, consideravelmente mais curto. Com o
tempo, é muito prov á vel que se demonstre que também outros
tipos de câ nceres possuem per íodos bem mais breves de la tenda;
232
mas, no momento, afigurai que a leucemia constitu í a exceção
.
á regTa geral do desenvolvimento extremamente lento.
Dentro do per íodo abarcado pelo aparecimento dos pesticidas
modernos, a evidencia da leucemia vem sendo contl nuamente
consolidada. Os dados numé ricos, proporcionados pelo Escritório
Nacional de Estat ísticas Vitais, estabelecem claraniente que h á
[ perturbadores aumentos de rasos de enfermidades malignas dos
tecidos formadores do sangue.. No ano de 1960 , só a leucemia
ocasionou 12.290 ví timas. As mortes, em conseqtiêncía de todos
os tipos de males malignos do sangue e da linfa , totalizaram
25.400, com um aumento s ú bito e n í tido de 16 , 690 casos, relati -
va mente aos registrados em 1950. Em termos de mortes por gru -
pos de 100, 000 membros da popula ção total , o aumento foi dc
11 ,1 em 1950, e de 14,1 em 1960. O aumento n ã o se confinou , dc ,

modo nenhum , aos Estados Unidos; em. todos os pa íses , as mor-


tes registradas, por leucemia , em todas as ídndes, est ã o aumen -
tando de numero, na proporção dc 4 a 5 por cento, por ano. Que
é que Isto significa ? A que agente letal , ou a que agentes letais,
novos para o nosso meio ambiente , estã o agora as nossas popula -
ções expostas , com frequ ê ncia cada vez maior ?
Algumas instituições mnndinlmente Famosas, como a Cl í nica
Mavo , admitem a ocorrê ncia de centenas de v í timas destas doen -
ças malignas dos ó rgã os produtores de sangue. O Dr. Maleolm
HLLrgravts e seus associados, do Departamento dc Hematologia da
Clínica Mayo, relata que, quase que sem exceção , os pacientes
destas enfermidades possuem hist ória de exposi çã o a vá rias subs-
t â ncias qu í micas t óxicas , inclusive a polvilhamentos e pulveriza -
ções que continham DDT , clordana , benze no, linda na e destila -
dos de petróleo.
As doen ças ambientais, relacionadas com o uso de vá rias subs-
t â ncias qu í micas tóxicas , tê m estado aumentando o seu n ú mero
de incid ê ncias, "partkularmente durante os passados dez anos '
ao que o Dr. Hargraves acredita . Baseando-se em sua extensa ex
8

—-
peri ê ncia cl í nica , acredita ê le que "a vasta maioria dos pacientes
que sofrem de d ísernsias do sangue e de enfermidades linf ó ides
>

possui expressiva hist ória de exposi çã o a, v á rios hidrocarbonetos


clorados, nos quais se incluem numerosos dos pesticidas dos dias
de hoje. Um cuidadoso hist órico módico estabelece , quase que
invari á vel mente essa rela çã o” . Êste especialista possui , agora ,
grande quantidade de casos autênticos, bem detalhados, corres-
pondendo a cada um dos pacientes que teve oportunidade de
ver sofrendo de leucemias, de anemias a plá sticas , de doença de
Hodgkins (câ ncer dos gâ nglios), e de outras desordens seja do san -
233
gue* seja dos tecidos formados do sangue. “ Todos os referidos
pacientes foram expostos aos mencionados agentes qu í micos am-


bientais, com generosa quantidade de exposição aos seus efeitos "
ao que relata a referida autoridade.
Que é que êstes episódios autênticos demonstram ? tirn de tais
episódios foi o de uma dona de casa que tinha horror a aranhas.
Em meados de agosto* ela f ôra para o por ão, com um pulveriza-
dor aerossol contendo DDT e um destilado de petróleo. Borrifou
com aquilo o porã o inteiro; procedeu ao borrifamento também
das partes que ficavam por baixo das escadas; do guardacomidas*
onde guardava frutas; e de todas as á reas protegidas que fica
vam entre o f ôrro e o madeiramento do telhado. Assim que ela
-
terminou o borrifamento, começou a sentir-se bastante mal; teve
n á useas, ansiedade extrema e nervosismo* Dentro de uns poucos
dias seguintes, entretanto, ela sentiu -se melhor; ao que parece*
nã o suspeitou da causa de sua dificuldade; e repetiu o procedi
mento todo em setembro; realizou mais dois cicios de polvilha-
-
mento insetiddico; nos dois ciclos , caiu * de cada vez* novamente
enf êrma ; recuperou -se temporariamente* também de cada vez ; e
tornou a repetir a aplicação da mesma subst â ncia. Depois do ter-
ceiro emprego daquele aerossol , novos sintomas apareceram na
mulher: febre , dores nas juntas e mal-estar geral, al ém de flebite
aguda numa das pernas. Quando examinada pelo Dr, Hargraves,
o que se verificou foi que ela estava sofrendo de leucemia aguda.
Morreu no curso do mês seguinte.
Outro dos pacientes do Dr, Hargraves foi um homem* profis-
sional, que tinha escrit ório em velho pr édio infestado por bara -
tas, Sentindo-se incomodado pela presença de tais insetos* êle to
mou medidas de controle, aplicando-as com suas pró prias mãos.
-
Passou a maior parte de um domingo pulverizando inseticida
no por ã o da casa * bem como em todas as suas á reas fechadas, Â
pulveriza ção era um concentrado de 25 por cento de DDT, sus-
penso num solvente contendo naftalenos metilizados. Pouco tem
-
po depois, c homem começou a machucar se e a sangrar Entrou*

numa cl ínica * sangrando em decorrência de certo n ú mero de he-


morragias. Os estudos feitos com o seu sangue revelaram severa
depressão da medula dos ossos , denominada “ anemia aplástica"*
Durante os cinco e meio meses seguintes , êle recebeu 59 trans-
fusões de sangue, alé m de mitras terapias. Houve recupera ção
parcial; mas* cêrca de nove anos após , desenvolveu -se uma leu
cemia com desfecho fatal.
-
Nos casos em que os pesticidas est ã o envolvidos* as substâ ncias
qu í micas que figuraram com ma sor preemin ê ncia nos casos regis-
234
irados e devidamente estudados foram o DDT, a lindana , o he-
\ adoreto de benzeno, os nitroíenóis, os cristais, ou tolinhas, con -
ira as traças, de paradicloi obemeno, a clordana e* naturalmente
,
is solventes com os quais essas substâ ncias são aplicadas. Como o
mencionado médico acentua, a exposição pura, a uma ú nica subs-
t â ncia qu í mica , constitui exceçã o, e nã o regra. O produto comer
*

dal conté m usualmente combinações de v á rias substâncias, sus-


pensas num destilado de petr óleo, mais algum agente de disper -
sã o. Os hidrocarbonetos cíclicos, aromá ticos e nãosaturados* do
veiculo, podem , em si mesmos considerados, ser um fator de dano
causado a órgãos formadores de sangue. Do ponto de vista pr á-
lico, mais do que do ponto de vista médico* esta distinção se
reveste de pequena importâ ncia * entretanto, porque êsses solven-
tes de petróleo constituem parte insepar ável das pr á ticas mais
comuns de pulveriza ção e de polvilha mento.
À literatura médica deste e de outros pa íses contém muitos ca -
sos significativos que d ão amparo à cten ça do Dr. í largravcs
quanto à rela çã o de causa e efeito entre estas substâ ncias qu í mi -
cas e a leucemia, bem como entre tais substâ ncias e outras de-
sordens do sangue. Os casos mencionados referem-se a gente nor-
mal , tais como os agricultores, que sã o colhidos pelo folaute dos
seus próprios aparelhos de polvilhamento, ou dos seus próprios
aeroplanos pulverizadores; tais como um estudante, que polvi-
lhou de inseticida o seu gabinete de estudo, contra formigas, e
permaneceu no gabinete para estudar ; tais como uma mulher,
que instalara um vaporizador portá til para lindana, em sua resi -
dê ncia ; tais como um trabalhador agr ícola , empregado numa
planta çã o de algod ão que f ô ra polvilhada com clordana e com
toxafenu . Êsses casos consubstanciam , meio ocultas por sua termi-
nologia médica , episódios de tragédias humanas tais como aquela
de dois primos, na Checoslováquia; eram dois rapazolas que vi -
viam na mesma cidadezinha , e que sempre haviam trabalhado e
brincado Juntos. O ú ltimo e mais fat ídico emprego que tiveram
foi numa fazenda cooperativa; nessa fazenda , seu trabalho con --
sistiu em descarregar sacos de um inseticida (hexacloreto de ben
zeno). Oito meses após* um dos rapazolas se viu atingido por leu-
ce uia aguda. Dentro de nove dias da declara çã o do caso, êle
^morreu Mais ou menos a este tempo, o primo sobrevivente co-
.
meçou a cansar-se Jàcilmente* e a acusar temperatura alta. Den-
tro de cê rca de três meses , os seus sintomas se fizeram mais se -
veros; e também êle teve de ser hospitalizado. Mais uma vez, o
diagnóstico foi leucemia aguda ; e, mais unia vez, a doen ça efe-
tuou o seu curso inevitável e fataL
235
E, depois, há o caso de um agricultor sueco» que recorda ostra -
nflamente o episódio ocorrido com aquêle pescador japonês,
Kuboyama » do barco dedicado à pesca do atum, o I .ucky Dragon
{Dragã o Feliz). Como Kuboyama , o agricultor sueco tinha sido
homem sadio, respigando sua vida da terra » como Kuboyama a
ganhava do mar. Para cada um d êsses dois homens, um veneno,
caindo ao l é u » da amplid ão, representou senten ça de morte. Para
um dos dois, o veneno foi a cinza envenenada pela radia ção; para
o outro, o veneno foi a poeira qu í mica. O agricultor tinha tra -
tado cêrca de 60 acres fcêrca de 0 /242 km 2) de terra, com uma
poeira composta de DDT e de hexacloreto de benzeno. Enquanto
ele trabalhava, rajadas de vento fizeram cotn que remoinhos dessa
poeira esvoa çassem ao redor de sua pessoa . "A tarde , cie sentiu -se
desusadamente fatigado, e » durante os dias subsequentes, andou
com uma sensa ção geral de fraqueza , acompanhada de dor de
cabeça e de dores nas pernas, bem como de calafrios; por isto,

viu -se obrigado a recolher-se ao leito" diz. o relatório elaborado
na Cl í nica Médica, de Lund . "Suas condições pioraram muito,
entretanto, e, no dia 19 de maio ( uma semana após a pulveri -
za çã o) , o lavrador tratou de ser admitido ao hospital locar . Teve
febre alta ; e a contagem do seu sangue se revelou anormal. O
homem foi transferido para a Cl í nica Médica, onde, depois de
uma enfermidade que durou dois meses e meio, morreu. O exame
post mortem revelou completa degenerescê ncia da medula dos
ossos.

O modo pelo qual um processo normal e necessá rio, como é o


_
da divisão das células , se modifica por tal forma, ao ponto de se
fazer estranho e destrutivo, é problema que vem concentrando a
atenção de incontável numero de cientistas, custando, por outro
lado, incontáveis somas de dinheiro. Que é que acontece, no in -
terior de uma cé lula, para lhe modificar a bem ordenada mul -
-
tiplica ção, transformando a em descontrolada proliferação de
câ nrer?
Quando as respostas forem encontradas, elas serã o » quase que
com certeza , m ú ltiplas, Exatametue como o pr ó prio câ ncer é en -
fermidade que faz uso de muitos aspectos » aparecendo sob diver-
sas formas que diferem em sua origem , no curso do seu desenvol-
vimento » e nos fatores que exercem influ ê ncia sô bre o seu cres-
cimento e sô bre a sua regressão, assim també m dever á haver uma
correspondente variedade de causas. Nã o obstante, na base dessas
causas tôdas talvez apenas umas espécies básicas de danos causa -
dos às células é que sã o responsá veis. Aqui e acol á , em pesquisas

236
amplaxnente dispersas* e, por vêzes* n ã o empreendidas de forma
alguma tomo estudo do câ ncer » n ós vemos luciluzirem as primei *

i as luzes que dever ão, algum dia, iluminar éste problema


,

Mais uma vez, vertiiçamos que somente observando algumas


das mais diminutas unidades de vida
cromossomas — é que poderemos

encontrar
como a célula e os seus
essa visão mais vasta,
necess á ria para penetrarmos em tais misté rios. Aqui, neste micro-
cosmo* precisamos olhar para os fatores que, de alguma forma*
desviam para fora dos seus padrões normais os mecanismos mara
vilhosamente funcionantes da célula .
-
Uma das teorias mais expressivas, quanto à origem das células
.
do câ ncer foi formulada pelo bioqu ímico alemão Professor Otio
Warburg, do Instituto Max Planck de Fisiologia da Célula. War-
burg dedicou t òda uma vida de estudo à observa ção dos processos
de oxidação que ocorrem dentro da célula* Deste amplo pano-
rama de compreensã o é que resultou uma explica çã o , fascinante
e lú cida, da maneira pela qual a célula pode tornar-se maligna.
Warburg acredita que ou as radiações, ou as substâ ncias qu í-
micas cancer ígenas, atuam pelo recurso de destruir a respiração
normal das células, privando-as, assim, de energia. Esta a ção pode
resultar de min úsculas doses freqiientemente repetidas. Uma vez
conseguido e instalado, o efeito é irreversível. As células não ma-
tadas de pronto* pelo impacto de semelhante veneno respiratório,
lutam para compensar a própria perda de energia. Elas já n ão
podem levar para diante esse ciclo, extraordin á rio e eficiente, por
meio do qual vastas quantidades de ATP se produzem ; ao con -
tr á rio: sã o atiradas para tr ás ; voltam a um m é todo primitivo e
muito menos eficiente, que é o da fermentação. A luta , em prol
da sobrevivê ncia pela fermenta çã o, prossegue durante longo pe-
r íodo de tempo. Continua atrav és das subsequentes divisões celu -
lares; desta maneira , todas as cé lulas descendentes passam a ter
éste m é todo anormal de respiraçã o. Unia vez perdida , pela cé -
lula , a possibilidade da respira çã o normal, essa mesma cé lula n ão
pode mais reconquistá-la — nem em um ano, nem em um decé-
nio, e nem em muitos decé nios. Ao contr á rio; a pouco e pouco,
neste extenuante estorço no sentido de restaurar a energia per *

dida, a célula que sobrevive começa a compensar-se por meio do


-
aumento da fermentação. Trata se de uma luta darwiniana * ã
qual somente as cé lulas mais aptas* mais adapt á veis, sobrevivem.
Por fim , as células sobreviventes atingem um ponto em que a fer-
menta çã o é capaz de produzir tanta energia quanto a respira çã o.
Neste ponto, pode se dizer que as células de câ ncer sã o criadas
por células anormais do corpo.
237
A teoria de Warburg explica muitas outras coisas que, de ou -
tra forma, continuariam a constituir quebra -cabeças. O longo pe -
r í odo de latência da maior parte dos cânceres é o tempo reque-
rido para a efetuação do infinito número de divisões celulares
através das quais a fermenta ção vai gradativamente aumentando,
a partir do ponto inicial do dano causado ao processo normal
-
de respiração O tempo necessário para que a fermentaçã o se faça
predominante varia nas diferentes espécies, devido ao fato de se
registrarem diferentes ritmos de fermentação. Requer-se tempo
breve num rato, no qual o câncer aparece rapidamente; requer-se
longo tempo (até mesmo decé nios ) no homem, no qual o desen -
volvimento de malignidades constitui processo deliberado.
A teoria Warburg também explica o motivo pelo qual as repe-
tidas doses minúsculas de cancerígenos são ruais perigosas, sob de-
terminadas circunstâncias, do que uma úniea dose grande. A dose
grande pode matar imediatamente a célula; ao passo que as do-
ses min úsculas permitem que a célula sobreviva, embora sob con-
di ções de lesão. As cé lulas sobreviventes podem, então, desenvol -
ver-se, transformando-se em células de câncer. Esta é a razão pela
qual não há dose ‘'segurapara o uso de substâncias qu í micas
cancer ígenas.
Na teoria de Warburg, nós também encontramos explicação de
um fato por outros aspectos incompreens ível : o fato de que um
e mesmo agente cancer í geno pode ser ú til no tratamento do cân-
cer, podendo, igualmente, provocar- lhe o aparecimento.
Isto, co-
mo tòda gente sabe , é verdade quanto às radiações; com efeito,
as radiações podem matar as células de câncer , mas podem tam
bém originar a moléstia do câ ncer. Isto também é verdade quanto
a muitas substâncias qu ímicas agora utilizadas contra o câncer.
Por quê? Os dois tipos de agentes danificam a respiração. As cé -
lulas de câncer já têm respiração defeituosa; de modo que, com
a lesão adicional , elas morrem. As cé lulas normais, passando a
sofrer pela primeira vez de lesões em seu sistema respiratório,
n ão morrem; ao contrário: são colocadas 11a trilha que, a seu
tempo, as conduzirá ao estado de malignidade.
As idéias de Warburg receberam confirmação em 1953, quando
outros pesquisadores conseguiram transformar células normais em
cé lulas de câ ncer , pelo simples recurso de as privar de oxigé nio ,
intermitentemente, através de longos per íodos. Depois, em 1961 ,
outras confirmações se conseguiram; desta feita , através de ani -
mais vivos, ao inv és de através de culturas de tecidos. Substâncias
radiativas traceadoras foram injetadas em camundongos cance-
rosos. Depois, por via de medições cuidadosas da respiração de
238
marcadamcnte acima do normal
havia previsto. —
tais camundongos, verificou-se que o ritmo de fermentação era
exatamente como Warburg

Medidos pelos estâ ndares estabelecidos por Warburg, os pes-


ticidas, em sua maior parte, corréspondem ao critério do cance-
rígeno perfeito; e correspondem de maneira excessivamente cor-
,

reta, de modo que o caso n ã o inspira tranquilidade alguma. Co-


rno vimos no capitulo precedente, muitos dos hidrocarbonetos
clorados, dos fen óis, e alguns dos ervicidas, interferem na oxida -

ção e na produ çã o de energia, no interior da célula. Por és te
meio, podem criar células de câ ncer dormentes células nas quais
uma malignidade irreversível poder á instalar -se e permanecer la -
tente e inaeusável, até que, finaímente —já quando a sua causa
está esquecida desde muito tempo , ou mesmo nem sequer Joi sus-

peitada essa malignidade desabrocha franca e rapidamente, na
forma de câncer nitidamente reconhecível
Outro caminho para o câncer pode abrir -se por meio dos cro-
mossomos. Muitos dos pesquisadores itiais distintos, neste campo,
olham, com desconfiança, para muitos agentes que danificam os
cromossomos, que interferem na divisão das células, ou que cau -
.
sam mutações Ao modo de ver de tais pesquisadores, tôda mu
ta çã o celular é causa potencial de aparecimento de câ ncer. Em-
-

bora as discussões sobre as mutações usualmente se referem ás
que ocorrem nas células germinais que podem, a seguir, fazer
sentir os seus efeitos em gera ções futuras —
pode também haver
mutações nas células do corpo. De conformidade com a teoria das
muta ções, relacionada à origem do câ ncer, uma célula, talvez sob
a influ ê ncia da radia çã o, ou de uma subst â ncia qu ímica, desen -
volve certa mutação que permite que ela, a célula, fuja aos con -
troles do corpo, que normal mente presidem â divisão das célulãs,
A *célula mencionada, assim, fica em condições de se multiplicar
de maneira indisciplinada c irregular. As novas células, que re
sultam destas divisões, possuem a mesma habilidade de fugir à
-
a çã o dos controles; e, a seu tempo, tôdas as células assim origi-
nadas se acumulam para constituir um câ ncer.
Outros investigadores apontam para o fato de que os cromos -
somos, em tecido canceroso, são instá veis ; tendem a apresentar sc-
partidos, ou danificados; seu numero pode ser incerto e err á tico ;
e podem até existir cromossomos em jogos duplos.
Os primeiros investigadores que tracearam as anormalidades
dos cromossomos ao longo de toda a sua trajetória at é à malig-
nidade prò priameme dita foram Âlbert Levan e John J. Biesele,
trabalhando no Sloan - Kettcring lustiiute , de Nova York. Quanto
259
àquilo que possa ter aparecido primeiro
perturbação das cromossomos — — a malignidade ou a
o.s citados pesquizadores dizem,
sem hesitação, que "as irregularidades croinossomicas precedem a
malignidade” . Talvez — —
especulam eles depois da lesã o inicial
dos cromossomos, e da consequente instabilidade, ocorre um longo
período de tentativas e de erros, de oscila ções para um lado e
para outro, através de muitas gera ções de células (que compõe o
longo período de latcncia da malignidade) durante o qual uma
série de muta ções finalmente se acumula ; esta acumulaçã o faz
tom que as células escapem ao controle entrando, então, na mul
* -
tiplica çã o desregulada , que è o câncer,
Ojvind Winge, um dos primeiras propositores da teoria da ins -
tabilidade cromossômica* achou que a duplica çã o das cromosso
mos, na mesma célula, se revestia de significação especial. Será
-
*
pois, mera coincidência o lato de se saber, através de repetidas
observa ções, que o hexacloreto de benzeno e a sua derivada , que

perimentais

é a lindaria, dobram o n ú mero dos cromossomos em plantas ex -
e que estas mesmas substâ ncias qu í micas loram
implicadas em muitos casos muito bem documentados de anemias
latais? £ o que c que se d íz de muitos outros pesticidas que in -
terferem no processo da divisão das células, que partem os cro
mossomos, e que causam muta ções ?
-
ÍV f á cil ver o motivo pelo qual a leucemia deve ser uma das
doen ças mais comuns, dentre as resultantes da exposição do indi-
v í duo às radia ções, ou a substâ ncias qu ímicas que imitam as ra
diações. Os alvos principais dos agentes niutagcnicos, seja de or-
-
dem í isica, seja de ordem qu í mica, sã o as células que se encon -
tram em fase de divisão particularmente ativa. Isto inclui vá rios
tecidos; mas o que é mais importante é que inclui tecidos que
se envolvem 11a produ ção de sangue. A medula dos ossos é a prin -
cipal produtora de células vermelhas do sangue, ao longo da
vida toda; ela remete cêrca de 10 milhões de células novas, por
segundo, ao interior da corrente sangu í nea da criatura humana.
Os corp úsculos brancos sã o formados nas glâ ndulas linf á ticas e
em algumas das células da medula, em ritmo variá vel, mas sem-
pre prodigioso.
Certas substâncias qu ímicas — recordando-nos, mais uma vez,
os produtos de radiações, como o Estrôncio 90
— possuem afini-
dade peculiar para com a medula dos ossos. O benzeno, que é
constituinte muito frequente de solventes inseticidicos, aloja -se
na medula , e ali permanece depositado por per íodos que sc sabe
que se estendem at é vinte meses. O pró prio benzeno já foi reco-
240
nher ído, na literatura médica, durante muitos e muitos anos, co -
mo sendo causa de leucemia.
Os tecidos de crescimento rá pido, da criança, também propor
-
cionam condições das mais adequadas para o desenvol vi mento cie
células malignas. Sir MaclarJane Burnet f êz observar que não s <>,
mente vai a leucemia aumentando o n ú mero de suas incid ncias
ê
, tamb é m á tornando - se muito
por t òda a face da Terra mas est
comum entre crian ças de tr ês a quatro anos de idade — que não
é per í odo de idade preferido , que se saiba , por nenhuma outra
doen ça. De conformidade com a afirmativa desta autoridade o
, ‘
, os tr ê s e os quatro anos de idade , mal
ponto de apogeu entre
pode ter outra interpretação, a n ã o ser a exposição do organismo
jovem ao efeito de um estimulador mutagênico, inais ou menos
na época do nascimento^.
Outro mutagênio que se sabe que produz câncer é a uretana
.
ngos f ê meos , em estado de gravidez , s ã o trata-
Quando camundo
dos com esla substâ ncia qu ímica* n ã o sò mcnte ê les desenvolvem
cânceres dos pulmões, mas também os seus filhotes os desenvol-
vem. A ú nica exposição do camundongo novo, aos efeitos da ure-
a subs-
-
tana, é pré natal, em tais experiências; e isto prova que
és da placenta . Nas popu -
t â ncia química deve ter passado atrav
lações humanas expostas
, aos efeitos da u reta na , ou de subst â ncias
de os tumores se de-
qu ímicas dela derivadas, há a possibilidade
senvolverem em crian ç as , atrav és de exposi çõ es pré -
natais , lista é

uma advertência que foi formulada pelo Dr. Hueper.


A uretana, como carbamato, é quimicamente relacionada aos
ervicidas 1PC e Cl PC. A despeito das advertê ncias dos especia,-
listas em câncer, os carbamatos sã o agora amplamente utilizados,
n ã o sòmeuLe como inseticidas, como matadores de ervas daninhas-
e como fungicidas, mas também como ampla variedade de pro
dutos , incluindo-se nisso plasticizadores, remédios, roupas e ma -
teriais isokntes.

O caminho que conduz ao câ ncer també m pode ser indireto.


Uma substâ ncia que n ã o seja cancerígena, nu sentido comum
,
pode perturbar o funcionam ento normal de alguma parte do
corpo; e pode fazê-lo por tal forma , que da í resulte uma situaçã o,
de malignidade. Exemplos importantes, no caso, sã o os câ nceres
principaimeme do sistema reprodutivo, que parece que est ã o ;vin -
culados ás perturbações do equil íbrio dos harmónios sexuais es
-
tas perturba ções, por sua vez , podem , em alguns casos, ser o re -
afete a capacida de do f í gado no sentido de
sultado de algo que
manter o n ível de tais hormô nios. Os hidrocarbonetos clo-
JUSLO

-1b
rados são precisamente a espécie que pode provocar esta forma
indireta de carcinogé nese , porque todos ê les são tóxicos* neste
ou naquele grau , para o f ígado.
Os horinónios sexuais estã o, na í uralrnente* presentes, em via
normal, no corpo; e desempenham funçã o necessá ria* de estimu-
ladores do crescimento, em rela çã o aos vá rios órgãos da reprodu -
çã o, O corpo, entretanto, possui proteção natural , dentro dele
próprio* contra os acúmulos excessivos de tais hormônios* por-
quanto o f ígado atua de maneira a manter o indispensá vel equi-
l í brio entre os harmónios masculinos e femininos, ( Note-se que
as duas espécies de hormônios sã o produzidas nos corpos, dos dois
sexos, embora em quantidades diferentes em cada sexo). Assim *
o f ígado impede que ocorra excesso de acumula ção de qualquer
deles Entretanto, o ligado nao pode fazer isso, se iôr danificado

»

por doença ou por substâ ncias qu ímicas ou mesmo se o abas-


tecimento das vitaminas do complexo B se reduzir. Sob Lais con-
dições* os estr ógenos se acumulam , atingindo n í veis anonnaIntente
elevados.
Quais são os efeitos? Nos animais, pelo menos, há abundante
evidê ncia decorrente de experimenta ções. Em uma experiê ncia ,
um investigador do Instituto Rockefeller Para a Pesquisa Médica
descobriu que os coelhos* com o f ígado lesado por enfermidade*
acusam incidência muito alia de tumores uterinos; são tumores
que se pensa que se desenvolvem devido ao fato de o f ígado não
ser ma is capaz de inativar os estrógenos no sa ngue; deste modo #

os estrógenos “ se elevam, subsequeo temente* a um n ível de or-


dem cancerígena” . Experiências extensivas* feitas em camundon-
gos, em raLos, em cobaias e em macacos mostram que a prolon-

altos) causa mudanças nos tecidos dos órgã os reprodutores



gada miuistra ção de estrógenos ( não necessà rianiente em n í veis
danças estas que variam de su per crescimentos benignos a tumo-
res de decisiva malignidade' . Tumores dos rins foram induzidos
1
mu -

em erice tos ( uma espécie de roedores), por meio da ministra ção


de estrógenos.
Embora a opinião médica se divida nesta questão, muita evi -
d ê ncia existe, para amparar o ponto de vista segundo o qual efei -
tos semelhantes podem ocorrer em tecidos humanos. Os pesqui -
sadores do Royal Victoria Hospital* na Universidade McGill* ve-
rificaram que dois terços dos 150 casos de câ ncer uterino, estu -
dados por eles, forneceram evid ê ncia de uiveis a normal mente al-
tos de estrógenos. Em 90 por cento de uma sé rie ulterior com -
posta de vinte casos houve atividade estrogênica igualmente alta ,
#

242
vel existir lesã o cio f ígado suficiente
poss í para interferir na
. tiniÉ ina çã o do estrogê nio, sem que se acuse a lesão por meio de
n
-.
iilium dos testes atualmente dispon
I s 1 lesão pode ser iacilmeme causada
íveis à
por via
profiss
de
ão m édica
hidrocarbonetos
,

i Jurados, que , como já vimos , implantam modifica ções nas cé lulas

• lo ligado, mesmo com n í veis muito baixos de absorção. Ta ís hi


drocarbonetos clorados també m causam perda das vitaminas do
-
• umplexo B, Também isto é cxiremamentc importante, porque
outras cadeias de evidê ncias mostram que as referidas vitaminas
desempenham fundamental papel de proteçã o contra o câ ncer.
< ) falecido C. P. Rhoads, que foi diretor do Instituto Sloan -Ket -
lering Para a Pesquisa do Câ ncer, verificou que animais de ex -
|»eiié ncía* expostos a uma substancia qu ímica que é poderosa can
, desde
-
í etigena, não desenvolviam câ ncer de nenhuma espécie

f j u e se lhes desse fermento na alimentação — sendo o fermento


fonte muito rica de vitaminas do Complexo B. Uma deficiê ncia
destas vitaminas, ao que se constatou , acompanha o câ ncer da
-
boca , e, talvez , o câ ncer de outros pontos do trato digestivo Isto
se observou n ã o somente nos Estados Unidos, mas também nas
regiões mais ao norte da Su écia e da Finlâ ndia , onde a dieta é
normalmente deficiente em vitaminas. Os grupos propensos ao
câ ncer prim ário do f ígado, como, por exemplo, as tribos bantos
í la Á frica, são tipicamente sujeitos a regimes de má nutri ção. O
câ ncer do peito, do homem , prevalece em vá rias partes da África;
e associasse ã doen ça do f ígado e à m á nutri çã o. Na Grécia de
após-guerra, a ampliação do peito masculino constitui acompa -
nhamento normal dos per íodos de inauição.
Em resumo: o argumento relativo ao papel indiretamente de-
sempenhado pelos pesticidas , no aparecimento do câ ncer, está ba -
seado na comprovada capacidade que tais pesticidas têm, de da -
nificar o f ígado e de reduzir as reservas das vitaminas do com -
plexo B; por esta maneira , os mencionados pesticidas conduzem
ao aumento dos estrógenos "end ógenos” , isto é, dos estr ógenos
produzidas pelo próprio organismo, A éstes, acrescentam se os -
estrógenos das amplas variedades sinté ticas, aos quais n ós estamos
cada vez mais expostos: os que sã o comidos nos cosmé ticos, nos
medicamentos, ou os que decorrem de exposi ções ocupacionais
aos seus efeitos. O efeito combinado de tudo isto é coisa que exige
e justifica a mais séria preocupa çã o.

exposi çã o do ser humano às subst â ncias produtoras de câ ncer


À
(inclusive aos pesticidas) é incontrolada; e tem formas m últiplas.
Um indiv íduo pode passar por muitas exposi ções diferentes à
243
mesma substância qu ímica. O arsénico fornece o exemplo, È le
existe no meio ambiente de todo indiv íduo, sob muitas formas
diversas: tomo polui çã o do ar atmosf érico; como poluição da
água; corno resíduo de pesticida no alimento; como componente
em remédios e cosmé ticos; como conservador de madeiras; como
agente de coloraçã o em tintas de pintar e tintas de escrever, £
muito poss ível que nenhuma destas exposições# individualmente
considerada # baste para precipitar a malignidade; contudo, qual *

quer dose suposta mente "segura" poderá ser suficiente para fazer
inclinar-se a balança, um de cujos pratos já esteja carregado de
outras doses também "seguras".
Ou, então# o maJ pode ser causado por dois ou ma is cancer íge -
nos diferentes, agindo cm conjunto, de modo que há a soma dos
respectivos efeitos. O indivíduo exposto ao DDT, por exemplo,
fica , quase que com absoluta certeza, exposto a outros ludrucar-
bo netos dan í fkadores do f ígado, por serem os IiidrocarboneLos
amplamente utilizados na forma de solventes# de removedores de
pinturas, de agentes de desengorduramoito, de fluidos para lava
gem a seco, c de anestésicos. Qual será # pois, a dose "segura"
-
dc DD 1 ?
A situação c tornada ainda mais complicada pelo fato de que
uma substâ ncia qu í mica pode agir sobre outra, alterando- lhe o
efeito. O câ ncer pode requerer, à$ vezes, a ação complementar de
duas substâ ncias qu ímicas, uma das quais sensibiliza a célula, ou
o tecido, de modo que a cé lula , ou o tecido, possa , mais tarde,
sob a a ção da outra, ou de um agente estimulante, desenvolver
malignidade autêntica. Assim, os ervicidas IPC e Cl PC podem
agir como indicadores, na produ çã o dc tumores da pele, semeando
as sementes da malignidade que poderá, a seguir, ser posta cm

a çã o, ou em exist ê ncia real, por alguma outra coisa até mesmo,
talvez, por um detergente comum.
Poderá haver intera çã o, també m , entre um agente f ísico e um
agente qu í mico. A leucemia pode ocorrer como processo de duas
fases: a mudan ça maligna pode sei- iniciada pela radia ção dos
raios X ; a a çã o estimulante pode ser proporcionada por uma
subst â ncia qu ímica, como, por exemplo, a uietana. A exposição
cada vez mais prolongada das populações aos efeitos de radia ções
procedentes de varias fontes, acrescentada aos muitos contatos com
grande série de substâ ncias qu í micas, sugere um novo e grave
problema para o mundo moderno.
A poluiçã o dos reservatórios de água , por meio de materiais ra-
dia L í vos, apresenta outro problema. Tais materiais, que estã o pre-
sentes, na lorma de contaminadores, na água que també m con -

244
-
n nha substâ ncias qu í micas* podem modificar, de fato, as mesmas
substâ ncias* peio impacto da radia çã o ioniza o te, rearrumando-
llics os á tornos por fornias imprevis í veis, para criar, assim, subs -
Lm cias novas.
Os peritos era poluição da água , por todos os Estados Unidos ,
estilo preocupados com o fato de que os detergentes constituem ,
agora, um conta mi nador bastante incomodo e prá ticamente uni -
versal dos reservatórios de á guas p ú blicas. N ão há recurso pr á tico
para os remover por meio de tratamento. Poucos detergentes são
conhecidos como cancerígenos; mas, de maneira indireta, cies po-
dem promover o aparecimento do câ ncer, atuando no revesti-
mento interno tio trato digestivo, e modificando os tecidos por
tal forma , que esses tecidos venham a absorver ma is f à ri [ mente
-
as substâ ncias qu í micas perigosas; em consequ ê ncia , agrava se o
efeito delas. Mas quem é que pode prever e controlar esta a çã o ?
No cnlidosr.ú pio de condi ções vagas e incertas, qual e a dose de
um determinado cancer ígeno que pode scr considerada "segura ",
a não ser a "dose zero” ?
Nós toleramos a presen ça de agentes provocadores de câncer em
nosso meio ambiente, com grave perigo para nós mesmos, como
ficou ciaram ente demonstrado por um acontecimento ainda re-
cente, Na primavera de 1961 , uma epidemia de câ ncer do f ígado
-
apareceu entre as trutas arco í ris, cm muitos lagos de criação, de
propriedade privada, bem corno em lagos de propriedade federal
e de propriedade estadual . As trutas, tanto das regiões orientais
como das regiões ocidentais dos Estados Unidos, foram afetadas;
cm algumas á reas, pr á tica mente 100 por cento desses peixes, aci -
ma de três anos de idade, desenvolveram o referido tipo de câ n -
cer . Esta descoberta se fez porque havia um entendimento pr é -
existente, entre a Secçã o de Câ ncer Ambiental , do Instituto Na -
cional do Câ ncer, e o Servi ço de Peixes e Animais Silvestres; por
íôr ça de tal entendimento, havia a troca de relat órios sobre todos
os peixes que fôssem encontrados com turnores; dessa maneira ,
poder-se-ia dispor de uma advert ê ncia bem a tempo, quanto aos
riscos de câ ncer para o homem, devido â exist ê ncia de contami -
nadores na á gua.
Embora os estudos ainda se encontrem em andamento, para se
determinar a causa exata da mencionada epidemia espalhada por
uma área t ão vasta , a melhor evidencia , ao que se a Firma , indica ,

certo agente que está presente nos alimentos preparados, que se


usam nos lagos de cria çã o. Tais alimentos contêm incr ível varie-
dade de aditivos qu í micos , bem como de agentes medicinais
acrescentando-se tudo isso às subst â ncias alimentares básicas. —
£ 45
A est ória relativa às trutas é muito importante » por muitas ra-
zões, mas, principalmente, como exemplo do que pode acontecer
quanto um cancer ígeno poderoso se introduz no meio ambiente
de qualquer espécie. O Dr, Hueper descreveu esta epidemia como
constituindo séria advertê ncia no sentido de que uma aten çã o
grandemente aumentada precisa ser dedicada ao contr ,
ôle da


quantidade e da variedade dos cancer ígenos ambientais, 5e estas
l

providencias preventivas nã o forem tomadas” diz o Dr. Hue-


per —Ma cena estará preparada para um ritmo progressivo da
futura ocorrê ncia de um desastre semelhante no seio da popula -
çã o humana '',

A descoberta de que n ós estamos como um dos investigadores

sentencia vivendo “ num mar de cancer ígenos” » é, naturalmente,
desconcertante, e pode f àdlmente conduzir a reações de deses-
pero e de derrotismo. " N ã o é esta uma situa çã o desesperada?"
é a reaçã o mais comum . "Pois n ã o é até impossível tentar elimi
—-
nar do nosso inundo êsses agentes produtores de câ ncer? Pois en-
t ã o n ã o seria melhor não perder tempo tentando o que poderá ser
in ú til, c, ao invés , concentrar todos os nossos esforços no propó-
sito de pesquisar e encontrar uma cura para o câ ncer? ”
Quando interrogativas desta ordem se apresentam ao Dr, Hue -
per, cujos anos de not á veis trabalhos em tórno do câ ncer tor -
nam a sua opinião digna do mais elevado respeito, a resposta
que ê le d á é resposta bem ponderada, de pessoa quê já meditou
longa mente, e que tem uma vida inteira de pesquisa e de expe-
ri ê ncias atr ás do julgamento que formula. O Dr. Hueper acredita
que a nossa situaçã o, re!ativamente ao câ ncer , hoje, è muito se-
melhante à quela com a qual a humanidade se defrontou, relativa -
mente às doenças infecciosas, nos anos finais do século dezenove.
A rela ção causadora entre organismos patogê nicos e muitas enfer -
midades tinha sido estabelecida através dos brilhantes trabalhos
de Pastem e de Koch. Os profissionais da Medicina, e até mesmo
o p ú blico em geral » estavam tornando-se cônscios de que o meio
ambiente humano era habitado por enorme quantidade de mr
crorganismos capazes de originar doenças, exatamente como, nos
dias de hoje, os cancerígenos predominam no nosso meio am -
biente. A maior parte das doen ças infecciosas já foi colocada sob
grau razoável de contr ôle, e algumas delas já furam pardalmentc
eliminadas. Esta brilhante realiza çã o da Medicina se tornou pos-
s í vel devido a um ataque que foi d úplice: um ataque que acen *

tu ou tanto a preven çã o como a cura. A despeito do predom í nio


que essas "balas m á gicas" e essas "drogas-maravilha" mantêm no
espírito do homem leigo, a maior parte das batalhas realmente
24 G
decisivas, da guerra contra as doen ças infecciosas, consistiu em
medidas destinadas a eliminar, do meio ambiente, os organismos
provocadores delas. Um exemplo, proporcionado pela Hist ória, se
relaciona com a grande eclosã o de cólera - morbo, ocorrida em
Londres, h á mais de um século.
Um médico londrino, John Snow, cartografou a ocorrê ncia dos
casos de c ó lera - mor bo, e verificou que êles se originavam numa
determinada á rea ; todos os habitantes dessa á rea retiravam á gua
de beber de uma bornba localizada na Rroad Street ( Rua Larga ).
Num ato r á pido e decisivo de medicina prá tica e preventiva, o Dr .
Snow removeu o bra ço daquela bomba , A epidemia , da í por
diante, foi colocada sob controle —nao por meio de uma p í lula
mágica que matasse o organismo (na época ainda desconhecido)
provocador da cólera -morbo , e sim por meio da elimina çã o do
próprio organismo daquele meio ambiente. Até mesmo as medi -
das terapêuticas d ão o importante resultado de n ã o somente curar
o paciente, mas també m de reduzir os focos de infecçã o. A atual
relativa raridade da tuberculose resultou , em grande medida , do
fato de a pessoa m édia raramente entrar em contato, agora , com
o bacilo tubercular.
Hoje, encontramos o nosso mundo cheio de agentes provoca -
dores de câ ncer. Um ataque contra o câ ncer, que se concentre
inteiramente, ou mesmo em grande parte, em medidas terapê u -
ticas (ainda que se presuma que a ** curaM venha a ser encontrada),
estará destinado a fracassar, na opini ã o do Dr. Hueper ; e isso,
porque o mencionado ataque deixará intatos os grandes reserva-
t órios de agentes cancer ígenos — reservató rios êstes que continua -
r ã o a fazer novas v í timas com muito mais rapidez do que as
,
"curas" ainda ilusórias o poderiam fazer.
Por qual razã o temots n ós acusado tamanha lentid ã o, quanto à
adoçã o desta abordagem, impregnada de bom senso , relativa -
mente ao problema do câ ncer? Muito provà velmente, “ o objetivo
de curar as v í timas do câ ncer é mais estimulante, mais tangí vel,
mais socialmente espetacular, e também mais compensador, do

que a sua preven çã o" assegura o Dr. Hueper. Contudo, pre-
venir o câncer, de maneira que ê le nem sequer possa formar-se, é
"decididamente mais humano ' , e pode ser “ muito mais eficaz, do
que as curas do câ ncer".
O Dr. Hueper tem pouca paciência com o pensamento desejoso
que promete " uma' pílula m á gica , que possa ser tomada todas as
manhãs, antes do desjejum"
— como recurso de proteçã o contra
o aparecimento do câ ncer. Parte da confian ça p ú blica em seme
lhante acontecimento eventual resulta do equ ívoco que consiste
247
em se pensar que o câ ncer é urna ú nica e misteriosa enfermidade,
decorrente de uma ú nica causa , e, esperançosa mente , passí vel de
uma ú nica cura. Is LO , como é lógico, está longe de ser a verdade
hoje conhecida. Assim como os câ nceres ambientais sao induzidos
por grande variedade cie agentes f ísicos e qu ímicos, assim tam-
bé m as condições malign ízantes, cin si mesmas consideradas, se
manifestam sob formas biològicameme diferentes,
A “ avan çada" longa mente prometida , se ou quando se verificar,
n ã o poder á ser , nem se deve esperar que venha a ser, urna pana -
ceia * ú til para combate a todos os tipos de malignidade. Embora
a pesquisa deva ser continuada, em busca de medidas terapê uticas
destinadas a aliviar, ou mesmo a curar, os que j á estiverem so-
frendo de tuna ou outra forma de câ ncer , constitui péssimo des
serviço prestado â humanidade a sustenta çã o da esperança de que
-
uma solu çã o possa ocorrer de s ú bito, num simples toque magis-
-
tral. A solu çã o virá lentamente , dando se um passo de cada vez.
Nesse entrementes, visto que despejamos os nossos milhões de d ó-
lares em pesquisas, e que investimos todas as nossas esperan ças
em vastos programas orientados no sentido do encontro de curas
para os casos conhecidos de câncer, estamos deixando de lado,
por negligência, a oportunidade de ouro para efetuar a preven-
ção, mesmo durante a fase em que estamos procurando a cura.
A tarefa n ão é, de forma alguma , desesperada. Por nm aspecto
importante, n panorama é ma is encora jador do que a situa çã o
relativa á s doen ças infeccíosas o foi , no fim do século passado e
no começo deste. O mundo estava , entã o, cheio de germes dc
doen ças, como hoje o est á de subst â ncias cancerígenas. Mas o ho-
mem nã o havia pôs tu os germes no seu meio ambiente; e o papel
do homem , na difusã o de tais germes, era involuntá rio. Em con -
traste, o homem pvs , de fato , a maioria das substâ ncias cancer í -
genas no seu meio ambiente; e êle pode, se o desejar * eliminar
muitos deles. Os agentes qu ímicos do câ ncer entrincheiraram-se

— —
no nosso mundo, por duas maneiras: primeiro e ironicamente
através da pesquisa , efetuada pelo homem , em busca de uma
forma bem ma is f á cil e cómoda de vida; segundo* porque a ma -
nufatura e a venda de tais subst â ncias qu í micas já se tornaram
parte aceita da nossa economia e da nossa maneira de viver.
Seria irreal ístico supor que todas as subst â ncias cancerígenas
possam ou venham a ser eliminadas do mundo moderno. É certo
que grande parte delas n ão constitui de forma nenhuma, ne-
cessidade da vida. Pela sua elimina çã o, a carga total dos cance-
r ígenos ficaria enorme mente aliviada ; assim , a amea ça segundo a
qual um, de cada grupo de quatro indiv íduos* desenvolverá al -
24S
guina forma de câncer, ficaria, pelo menos, consideravelmente
-
mitigada O esforço mais resoluto deveria ser efetuado no sentido
i \c se eliminarem os cancerígenos que agora contamina
m os nossos
alimentos, os nossos abastecime ntos de água e a nossa atmosfera ;
e isto porque são eles que proporcio nam os tipos mais perigosos
de contato — exposições mi ú das, repetidas vêzes e vezes seguidas ,
através dos anos -
Entre os mais eminentes homens da pesquisa em t òrno do câ n -
cer, figuram muitos outros que compartilham a crença do Dr.
liueper — a cren ça de que as enfermidades malignas podem ser
significativa mente reduzidas por meio de esforços resolutos TIO
sentido de se determinarem as causas ambientais, bem como de
elimin á -las, ou de lhes reduzir o impacto. Para as pessoas para
as quais o câncer já é uma presença oculta ou visível , os esfor ços
cm busca da cura precisam , naturalmente, continuar. Entretanto ,
para aqueles ainda n ão atingidos pela enfermidade, e certamente-
para as gera ções ainda n ã o nascidas, a preven ção c uma necessi
dade imperiosa -

249
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15. A Natureza Revida


ARRISCAR TANTO, nos nossos esforços destinados a moldar a Na -
tureza de acòrdo com, a nossa satisfa çã o e a nossa conveniência ,
e , ainda assim , acabar fracassando, sem atingir o nosso objetivo*
seria, na verdade, a ironia finaJ. Contudo, ao que parece, esta é
a nossa situa çã o. A verdade, raramente mencionada , mas existente,
para ser vista por qualquer pessoa que deseje vê-la, é a de que a
Natureza n ão é facilmente mold á vel, e que os insetos est ã o en-
contrando caminhos para contornar os nossos ataques contra ê les.
fcHQ mundo dos insetos é o mais desconcertante fen ô meno da
Natureza ” , disse o biologista holandês, C. J. Briejèr, "Nada é im -
poss í vel a êsse mundo; a li acontecem comu mente as coisas mais
imprová veis. Quem quer que penetre profundainenie nos seus
mistérios se sente continua mente de respira çã o suspensa, em face
de maravilhas. Quem assim faz sabe que qualquer coisa pode
acontecer, e que o coinpletainente impossível tamhem com fre-
quê ncia acontece” .
O "impossí vel" est á agora acontecendo em duas grandes frentes.
Por um processo de sele ção gen é tica , os insetos est ão desenvol
vendo espécies resistentes a substâncias qu í micas. Isto será dis-
-
cutido no cap í tulo seguinte. Mas o problema bem mais amplo,

251
do qual trataremos agora* é o fato de que o nosso ataque qu í -
mico está enfraquecendo as defesas inerentes ao meio ambiente
pr òpriamente dito — defesas estas designadas para manter sob
contr ò le as v á rias espécies. Toda ver, que rompemos tais defesas,
urna horda de insetos .se despeja para dentro desse meio.
De todas as partes do mundo chegam relató rios que tornam
claro o fato de estarmos em presença de uma contingê ncia muito
séria. Ao fim de um decénio ou ma is, de intensivo controle qu í
mico, os entomologistas estavam verificando que os problemas que
-
consideravam solucionados uns poucos anos antes, tinham vol-
-
tado a acossa los. E novos problemas tinham surgido » uma vez
que inseios, outrora presentes apenas em quantidades insignifi
cantes* haviam passado a existir em estado de pestes considera -
-
velmente sé rias . Por sua própria natureza, os controles qu í micos
sã o autoderrotadores, porque tê m sitio concebidos e aplicados sem
se levarem em linha de conta os complexos sistemas biológicos
contra os quais foram ecgamente lan çados. As substâ ncias qu ími
cas podem ter tido o pretexto de valer contra umas poucas es --
pécies individuais* mas não contra comunidades viventes.
Hoje » em alguns setores, é moda a gente descartar o equil íbrio
da Natureza como sendo um estado de coisas que prevaleceu num
mundo anterior e mrii.s simples
— um estado que foi agora intei -
ra mente pósto de pernas para o ar , por tal forma que poderíamos
esquecer- nos de que ê le existiu. Alguns observadores acham que
este é um pressuposto conveniente; todavia , como mapa para se
traçar um curso de ação* isso é coisa altamente perigosa. O equi -
l í brio da Natureza n ão é o mesmo, hoje que existiu nos temjx>s
*
pleistocènicos; mas existe: é um sistema preciso, complexo , alta -
mente integrado* de rela ções, entre sê res viventes que j á n ã o po
dem mais ser ignorados sem perigo, exatamente como a lei da -
gravidade nã o |x>de ser desafiada com impunidade por um ho-
mem empoleirado à beira de um precip ício, O equil í brio da Na -
tureza n ã o é um status quo ; é fluido; est á sempre em cont ínua
cambiante: em estado constante de ajustamento. O homem , tam
bé m cie, faz parte desse equilíbrio. Por vêzes, o equil í brio se de --
clara a seu favor por vezes
de suas próprias atividades
—— e, com bastante frequê ncia , através
esse equil í brio é operado para sua
desvantagem.
Dois fatos critica mente importantes deixaram de ser levados em
consideração, na concepção dos modernos programas de contr òle
dos insetos. O primeiro fato é o de que o controle realmente
eficiente dos insetos é o aplicado pela Natureza n ã o peio Homem.
*
As popula ções de insetos são mantidas sob contròle por algo que

252
os ecologistas denominam "resistê ncia do meio ambiente ' ; e ioto
1

tem sido assim desde que a primeira forma de vida foi criada, A
quantidade de alimento disponível, as condições do tempo e do
clima, a presença de espécies competidoras e predadoras —
isto é criticamente importante, “ O maior fator isolado, capaz de
tudo

impedir que os insetos subrepujem o resto do mundo, é a guerra


intestina que é les levam avante entre si mesmos" — declarou o
entomoíogista Kobert Mctcalf . N ão obstante, a maior parte das
subst â ncias químicas agora usadas mata rodos os insetos
os insetos nossos amigos, como os insetos nossos inimigos. —tanto

O segundo fato, objeto de negligência* é o poder realmente ex -


plosivo que uma espécie tem, de se reproduzir, assim que a resis-
t ê ncia do meio ambiente se enfraquece, A fecundidade de muitas
formas de vida vai. quase que al é m da nossa capacidade de ima-
gina çã o* muito embora tenhamos, de quando em quando, vislum -
bres sugestivos.
Recordo- me, dos tempos de estudante, do milagre que podia
ser realizado num recipiente que contivesse uma simples mistura
de capim e de água; através tio mero recurso de adicionar, a isso,
umas poucas gotas de material tornado a uma cultora maturada
de protozoá rios. Dentro de poucos dias, o recipiente passava a
conter urna inteira galá xia de vida , remoinhante, dardejando por

——
todos os lados: eram indomá veis trilhões de min úsculos animais
— paratnécios cada qual t ão pequeno como um grâ nulo de
-
poeira, todos multiplicando se sem restri ção alguma * no seu Éden
temporá rio de temperaturas favorá veis, de alimento abundante e
de ausê ncia de inimigos naturais. Ou, entã o, penso nos rochedos
de litoral e de praia, brancos dc cracas, a perder de vista ; ou,
ainda * do espet áculo que se contempla quando se passa através
de um imenso cardume de medusas, abrangendo quil ómetro® e
quilómetros, sem que aparentemente se vislumbre o fim daquelas
formas de vida pulsantes, fantasma ti cas, pouqu íssima coisa ma is
substancia! do que a própria água*
N ós vemos o milagre do contrôle da Natureza em açã o quando
o bacalhau se move* através dos mares, no inverno, a caminho
de suas á reas de desova, onde cada f ê mea deposita vários milhões
de ovos. O mar não se transforma em sólida massa de bacalhau,
como sem d ú vida poderia acontecer * se tòda a progénie de cada
bacalhau sobrevivesse. Os controles, que evitam que isso aconteça ,
e que existem na Natureza * sã o de tal ordem , que , de cada grupo
de milh ões de bacalhaus jovens, produzidos por cada casal , só *

mente sobrevive e chega k vida adulta a quantidade bastante


apenas par substituir os exemplares progenitores.
253
Os biolugisLas costumavam entreter-se especulando sôbre o que
poderia acontecer se, por via de alguma catástrofe impensável,
os contrôles naturais fossem eliminados, c toda a progé nie de um
ú nico par de exemplares sobrevivesse. Assim, Thomas Huxley
calculou , h á um século, que uma ú nica f ê mea de af ídio (de pul -
gão) — que tem a curiosa faculdade de reproduzir sem necessi -

dade de acasalamento poderia produzir, no espa ço de um ú nico
ano, uma progé nie cuja quantidade total se igualaria à dos ha -
bitantes do império chin ês da sua época.
Felizmente para n ós, uma situaçã o extrema, dessa ordem, n ã o
passa de concepçã o teórica mas os terr íveis resultados da pertur-
baçã o dos arranjos da própria Natureza são bem conhecidos dos
estudiosos que observam as popula ções animais, O zêlo dos pe
cuaristas, no sentido de eliminar os coiotes, resultou em pragas
-
de ratos de campo, que outrora os coiotes controlavam. A est óiia
ireqnentemente repetida do rangíier de Kaibab, no Arizona , Es-
tados Unidas, é outro caso qu ê vem a calhar. Em certo momento,
a popula çã o de rangi feres est êve em equil í brio com o seu meio
ambiente. Certa quantidade de predadores
coiotes — — lôbos, pumas e
impedia que os rangi feres sobrevivessem em quantida
des maiores do que as que pudessem ser alimentadas pelas suas
-
,
-
reservas de v íveres. Então, deu se in ício a uma campanha no sen-
tido de se "conservar" o rangifer, pelo processo de se eliminarem
os seus inimigos naturais. Uma vez desaparecidos os predadores,
os rangíieres aumentaram prodigiosamente em quantidade ; e logo
deixou de haver alimento suficiente para é lcs. A linha das ver
gÔnteas, nas á rvores, começou a subir cada vez mais, na medida
-
em que os rangíieres procuravam alimento ; e, com o tempo, mui -
tos mais rang í ieres passaram a morrer de í nanição, do que os que
anterior mente morriam abatidos pelos predadores. Ademais, todo
o meio ambiente ficou danificado pelos espécimes desesperados
d êsses mesmos rangíieres, que procuravam v í veres a todo cus Lo .
Os insetos predadores, de campo e de flores La , desempenham o
mesmo papel dos lóbos e dos coiotes da região de Kaibab. Se êles
forem eliminados, a popula ção dos insetos por êles atacados au -
mentará desmesu rada mente.
Ningu é m sabe quantas espécies de insetos habitam a Terra,
visto que in ú meros deles ainda estã o para ser identificados. To-
davia, mais de 100.000 já foram descritos. Isto quer dizer que, em
termos cie n ú mero de espécies , de 70 a 80 por cento das criaturas
que existem na terra se compõem de insetos. A vasta maioria de
tais insetos é mantida sob oontr òle por efeito de for ças naturais,
sem interven ção alguma da parte do homem. Se assim nã o f ôsse,
254
seria duvidoso que algum volume concebível de substâ ncias qu í-
micas — o que qualquer outro mé todo — tivesse a possibilidade
de conseguir manter no devido n í vel as respectivas populações*
O mal está em que n ós ratamente formamos consciê ncia da
proteçã o que nos é proporcionada pelos inimigos naturais dos in -
setos, enquanto essa proteçã o nao falta. A maior parte dos seres
humanos caminha sem ser vista, pelo mundo, e igualmente sem
criar sequer idéia de suas belezas, das suas maravilhas, nem da
estranha e por vezes terr í vel intensidade de vida que está sendo
vivida ao nosso redor. Desta maneira , as atividades dos insetos
predadores e dos parasites são conhecidas apenas de poucas pes-
soas. Talvez tenhamos notado a presença de um inseto, de íorma
bastante estranha e de aspecto feroz, por baixo de uma moita,
no jardim; e talvez Lenhamos formado uma vaga id éia de que o
predador louva-a-d,eus vive a expensas de outros insetos. Mas n ós
o vemos, com olhares compreensivos, somente se caminharmos
pelo jardim à noite, e se, aqui c acolá, a lanterna elétrica bater
num louva -a -deus aproximando-se e assaltando surrateiramente a
.
sua presa Só então é que percebemos um pouco do drama do
ca çador e do ca çado.. Ent ã o começamos a perceber alguma coisa
dessa f ôrça incansavelmente premente, por meio da qual a Na-


Os predadores

tureza se controla a si mesma.
insetos que matam e devoram outros insetos
sã o de muitas espécies. Alguns sã o rá pidos, e, com a rapidez
das andorinhas, abocardiain rsua prêsa em pleno ar Outros ca
+ *

minham mctòdícamente ao longo de um caule* apanhando e de-


vorando sedentàriamente certos insetos, tomo os pulgões (af ídios).
As vespas amarelas capturam insetos de corpo tenro, e, com o
suco a que os reduzem, alimentam os próprios filhotes. As ves-
pas efecideas, que constroem ninhos em forma de colunas de
barro por baixo dos beirais das casas, costumam armazenar, nesses
ninhos, muitos insetos* com os quais os seus filhotes se alimentam.
A vespa guardiã sobrevoa os rebanhos de animais que estã o no
pasto, e destrói as mòscas sugadoras de sangue que os atormen -
tam. A mèsca sirf ídea , barulhenta zunidora, que muitas vêzes é
tomada equ ívocadamente por abelha, deposita seus ovos sóhre
f ôlhas de plantas infestadas por af ídios; suas larvas, depois, con-
somem quantidades imensas de af ídios. As joaninhas figuram en
tre os destruidores ruais eficazes de af ídios, de cochonilhas e de
-
.
outros insetos comedores de plantas Literal mente, centenas de
af ídios sã o consumidos por uma tinira cochonilha, a fim de sus-
tentar as pequenas fornalhas de energia que ela requer para pro-
duzir ainda que seja urna ú nica postura de ovo§ -
£55
!
Ainda mais extraordiná rios, em seus há bitos, são os insetos pa -
rasiticos. Êstes insetos não matam de pronto os seus hospedeiros.
Ao contrá rio: por via de uma série de adaptações, utilizam esses
hospedeiros, que sã o suas ví timas, para a nutriçã o dos seus filho-
tes. Os insetos parasí ticos depositam seus ovos em meio às larvas
ou aos ovos de sua presa ; assim, quando os seus próprios filhotes
se desenvolvem, logo encontram alimento; c nutrem-se consu-
mindo os seus hospedeiros. Há alguns insetos paras í ticos que co-
lam seus ovos em lagartas, por meio de uma solução viscosa; ao
desenvolver -se, o parasito larval fax um perfura çã o através da pele
.
da lagarta hospedeira Outros, levados por um instinto que si-
mula um sentido de previsã o, põem seus ovos simplesmente sôbre
uma folha , de modo que uma lagarta, comendo brotos de plantas
com folhas, as ingere sem dar por isso.
Por t ôda parte, no campo, nas sebes, no jardim e na floresta ,
os insetos predadores e parasiticos se encontram em a çã o. Aqui ,
por cima de uma lagoa , as libélulas como que dardejam ora nesta ,
ora naquela direçã o; e o sol parece que tira fa íscas de suas asas.
Da mesma forma, os seus ancestrais esvoaçavam , rá pidos, sô bre
pantanais, onde viviam enormes reptis. Agora , como naqueles
tempos antigos, as libélulas, de vista agud íssima, capturam mos-
quitos no ar, apanhando-os com suas peruas em forma de césta.
Nas á guas que ficam por baixo, seus filhotes, as ninfas de libé
lulas, ou ná iades, procedem às suas rapinas, em meio aos est á gios-
aquá ticos dos mosquitos e de outros insetos.
Ou, ent ão, ali , quase que invisível de encontro a uma folha ,
sc encontra o hemeró bio, com asas de gaze verde e com olhos
dourados; é inseto tímido e que gosta de ocultação; descende de
uma antiga ra ça que viveu nas épocas permianas. Os hemeróbios
adultos alimentam-se principalmente de n éctares de plantas e de
secreções a çucaradas de cercas plantas e de certos animais, como,
por exemplo, os af ídios; a seu tempo, a fémea hemeróbia põe
seus ovos; cada ôvo é posto à extremidade de uma longa vari
nha, que ela fixa a uma f ôlha. Dali, emergem os filhotes — que -
sã o larvas estranhas, cobertas de cerdas, que se denominam leões
af ídios; estas larvas sã o predadoras contra af ídios, joaninhas e
á caros, que capturam e sugam , deixando-os de todo secos de flui
dos. Cada le ã o af ídio pode consumir vá rias centenas de af ídios,
-
antes que o andamento incessante do ciclo de sua vida chegue ao
momento em que êle precisa tecer o seu casulo branco, de seda,
no qual dever á passar para o est á gio de pupa.
E existem muitas vespas, como também muitas moscas, cuja
exist ência depende da destruiçã o dos ovos, ou das larvas, de outros
256
insetos , através do parasitismo. Alguns dos parasitos de ovos sao
vespas extremamente miúdas; ainda assim » devido ao seudenmuitas úmero
c à sua grande atividade , elas diminuem a abund â ncia
espécies de insetos destruidores de plantações e de colheitas*
iodas estas pequenas criaturas da Natureza se encontram em
trabalho; trabalham ao sol e â chuva , durante as horas da es--
curidão, e até mesmo depois de as rudezas do inverno lhes ha
verem reduzido o fogo da vida a mero borralho. Nesta fase a
,
força vital permanece como que em lat éncia , à espera do tempo
adequado para desabrochar de nôvo e entrar outra vez em ativi-
dade , quando a primavera desperta o mundo dos insetos. Nesse
-
entrementes, por baixo do manto da neve, por baixo do solo en
durecido pelo frio , nas fendas das cascas das á rvores , c tamb é m
em cavernas abrigadas , os parasitos e os predadores encontram
modos de sobreviver ã esta ção invernal.
--
Os ovos do louva a deus ficam seguros em pequenos envoltórios
de película muito fina, apegados a ramos de arbustos pela mãe que,
já viveu o tempo todo da duração de sua vida no verã o amerior
-
A f êmea da vespa Polistes* abrigantlo se cm algum canto esque-
cido de algum sótão, carrega, no seu corpo, os ovos fecundados
,

que sã o a heran ç a de que depende o inteiro futuro da sua coló -


nia. Eia , a ú nica sobrevivente , começará a construir um pequeno
ninho de papel, na primavera; porá uns poucos ovos em suas cé-
lulas; a criará, cuidadosaniente, uma pequena equipe de traba -
lhadores, de operá rias. Com a ajuda destes, ela entã o alarga o
ninho e desenvolve a colónia. Depois, os operários, andando à
cata de alimento* sem cessar, durante os dias quentes do
verão,
passam a destruir quantidades incontá veis de lagartas .
Assim, através das circunstâncias de suas vidas , e na natureza
nas nossas próprias conveniê ncias humanas, todos os referidos in-
setos, poi uma forma ou por outra , sã o nossos aliados , na
tarefa
,
de sustentar o equil í brio da Natureza num tendo o prato da ba -
lan ça inclinado a nosso favor . Contudo , n ós voltamos nossas pe-
ças de artilharia contra os nossos amigos . O perigo terr í vel é o
de que subestimamos grosseiramente o valor desses nossos aliados ,
no esforço que éles desenvolv em para manter sob contr ô le uma
negra mar é de inimigos que, se tais aliados n ã o existissem, po-
deria sobrepujar-nos.
A perspectiva de uma redu çã o geral e permanente da resist ê n -
cia ambiental se torna sombria, e cada vez mais real, a cada n ôvo
ano que se passa, uma vez que a quantidade* a variedade e a ca -
pacidade de destruição tios inseticidas v ã o se tornando cada vez
maiores. Com o transcurso do tempo, podemos esperar, progressi -
257
17 Prlrnavwra Silencioso
vamente, surtos mais sérios de insetos, tanto das espécies Lrans >

missoras de doenças, como das espécies destruidoras de planta *

ções e dc colheitas; serão surtos que, do ponto de vista da quan-


tidade dos referidos insetos* superarão tudo quanto até agora co-
nhecemos.
“ Está bem ; mas tudo isso nã o é apenas teoria?”
— poderá o
leitor indagar. ' Por certo que isso não acontecerá 11a realidade
— e , em todo caso, não acontecerá no decurso da minha vida".
Contudo, o exato é que isso está acontecendo, neste nosso mun -
do, e agora mesmo. As publicações cient íficas j á registraram mais
de 50 espécies de insetos envolvidas nas violentas deslocações do
equil í brio da Natureza, praticadas lá pelo ano de 1958, Novos
exemplos estão sendo descobertos todos os anos. Uma pesquisa
recente, sôbre o assunto, conteve referências a 215 publica ções
que relatavam ou discutiam perturbações desfavoráveis do equi -
l í brio das populações de insetos operadas por pesticidas.
*
Por vezes* o resultado dos polvilhamentos químicos tem sido
um renovado surto, de tremendas proporções, de todos os insetos
que o polviihamento teve o propósito de controlar — como acon-
teceu quando as moscas negras, no Ontário se fizeram 17 vezes
*
mais abundantes depois da aplicação dos inseticidas , do que o
*
haviam sitio antes. Ou quando, na Inglaterra um surto enorme
*
de af ídios tla couve — surto que não tem paralelo 11a História
se seguiu à pulverização coin uma das substâ ncias qu í micas de - —
rivadas do f ósforo orgânico.
Em outras vezes* o polviihamento de pesticidas, sendo embora ,
*
razoavelmente eficaz contra o inseto que se desejava destruir pôs
à solta uma inteira variedade de pestes destruidoras — pestes *estas
que nunca * antes, haviam sido sulicientemente abundantes para
causar aborrecimento, O carrapato-estrela por exemplo, já se tor -
*
nou peste de âmbito mundial * principalmente depois que o DDT
e outros inseticidas destru íram os seus inimigos , O carrapato-es -
trela não é bem um inseto, É um ser vivo que mal chega a ser
vis í vel , com oito pernas, pertencente ao grupo que compreende
as aranhas* os escorpiões e os araen ídeos parasiticos. Têm partes
da boca adaptadas para perfurar e para sugar; é dotado de pro-
digioso aj>etite por clorofila , substância que dá a còr verde na
natureza vegetal . £le insere as min úsculas partes bucais, agudas
como estile tes* nas células exteriores das f ô lhas e nas pinlias das
plantas sempre verdes , de onde extrai a clorofila . Uma infestação
leve dá * às plantas e aos arbustos, aparência pontilhada também
denominada sal -e-pimenta . Quando h á grande populaçã*o de car-
rapato-estrela, a folhagem faz -se amarela c acaba caindo.
25 \f
Foi isto o que aconteceu em algumas das flores Las da á rea oci -
dental dos Estados Unidos* ainda há poucos anos* quando, em
1956* o Servi ço de Florestas dos Estados Unidos polvilhou uns
885.000 acres (cé rca de 3.585 quilómetros quadrados) de terra flo-
restal * com DOT, A inten çã o foi a de destruir o germe do broto
de abeto; no verã o seguinte, poré m , descobriu -se que se havia
criado um problema bem pior do que o dano que o mencionado
-
germe poderia causar.. Sobrevoando se as referidas florestas, vas-
tas á reas esbranquiçadas podiam ser vistas, nos pontos em que
magníficos abetos Douglas estavam tornando-se amarro nados e
deixando cair suas pinhas. Na Floresta Nacional de Helena, e
também nas faldas ocidentais das Montanhas do Grande Cintu -
rão, depois em outras á reas de Monta na, e descendo dali para
Idaho, as florestas apresentavam aspecto de ter sido escorcbadas.
-
Tornava se evidente que aquele verão de 1957 havia levado para
l á a infesta çã o inais extensa e ma is espetacular, de carrapatos-es -
trÊlas , da História. Quase toda a á rea polvilhada foi atingida .
Em. nenhuma outra parte o dano se tez evidente. Pesquisando os
antecedentes, os homens do serviço florestal conseguiram lembrar-
-
se de outras pragas de carrapatos es trelas, embora menos dramá -
ticas do que a aqui mencionada. Males semelhantes se haviam
registrado ao longo do Rio Madison, no Parque Yellowstotie, em
1929; no Colorado* 20 anos mais tarde; c depois no N óvo México*
etn 1956. Cada um dos mencionados surtos se havia seguido a pol
.
vilhamento de inseticidas (O polvilhamentn de 1929, registrado
-
antes da era do DDT, empregara arseniato de chumbo)*
For que é cjue parece que o carrapato-estrèla se alimenta de
inseticidas? Além do fato ó bvio de que o carrapato-estrèla é in-
sens ível aos inseticidas, afigura-se que existem duas outras razões.
Na Natureza, êle é mantido sob contrôle por obra de vá rios pre-
-
dadores, lais como a joaninha * o mosquito pólvora da gaiha, os
á caros predadores e vá rios outros insetos piratas, todos ê les sen -
s í veis à a çã o dos inseticidas. A terceira razã o diz respeito ã pres-
sã o populacional no interior das col ónias de carrapatos-estrelas.
Uma coló nia desses carrapatos, nã o perturbada por coisa alguma *
constitui comunidade densamente implantada , como que empi-
lhada por baixo de urna teia protetora , a fim de se ocultar aos
seus inimigos naturais. Quando polvilhadas de inseticidas, as co -
l ónias se desfazem, porquanto os carrapatos -estt é las, irritados, mas
não mortos pelas substâ ncias qu ímicas usadas, se dispersam , indo
em busca de lugares em que n ão possatu ser perturbados. Ao fa -
zer isto, êles encontram ' utua abundâ ncia ainda mais acentuada
de espa ço e de alimento, do que a que se encontrava dispon ível

259
às colónias anteriores. Os seus inimigos naturais estilo agora mor-
tos; de moclo que n ã o há mais necessidade alguma, para os car-
-
rapatos estrelas, de despender suas energias segregando teias e pe-
lículas protetoras. Ao invés, eles aplicam tôdas as energias na ta -
reia de produzir ma is carrapa tosses trelas, seus descendentes. N ão
é incomum a circunstâ ncia de a sua produ ção fie ovos aumentar

at é tr ês e ma is vetes tudo isto em decorr ê ncia dos efeitos dos
inseticidas, efeitos estes que lhes são benéficos.
No Vale de Shenandoah* na Virgí nia, famosa região produtora
de ma çãs, hordas de um pequeno inseto. denominado ciurolador
*

debnuulo de- vcrrnelJio das íó lhas, apareceu, para atormentar os


-
plantadores, assim que o DD 1 começou a substituir o arseniaLo
de chumbo. As depreda ções do referido inseto não haviam sido
nunca importantes; Jogo, porém, o seu tributo se elevou à pro -
porçã o de 50 por cento da colheita ; assim, atingiu a classificação
da peste ma is destruidora de maçãs, n ã o sòmente na regi ão alu -
dida, mas também na maior parte das á reas de Leste e do Meio-
Oeste, na medida em que o uso de DD I aumentou.
A situa ção assim criada é rica em ironias. Nos pomares de ma -

--
deiras da Nova Escócia, nos fins do decé nio de 1940-1950, as pio
res infestações de mariposas de maçãs (causa das "maçãs vermina
das” ) foram combatidas regularmente por pulverizações de insetici-
das. Nos pomares não pulverizados, as citadas mariposas n ã o eram
suficicii temente abundantes, a ponto de causar aborrecimento.
A diligência, nas pulverizações, tiveram ou proporcionaram re-
compensa igual mente insatisfatória no Sud ã o oriental, onde os
plantadores de algod ão passaram por amarga experiê ncia com re-
la çã o ao DDT. Cerca de 60.000 acres ( uns 243 quil ómetros qua -
drados ) de planta ções de algodão estavam sendo cultivados, sob
regime de irriga ção, no delta do Rio Cache (Gash ). Uma vez que
as primitivas experiências com DDT haviam dado resultados apa -
rentemente bons, a pulveriza çã o dêsse inseticida íoi intensificada.
Foi ent ã o que a dor-de-cabeça começou. Um dos inimigos ma is
destruidores do algod ã o é a lagarta. Entretanto, quanto mais se
polvilhava o algodã o com inseticida, tanto mais a lagarta se mul -
tiplicava. O algodã o nã o polvilhado sofreu menos dano, em seus
frutos, e, mais tarde, cm suas ma çãs maduras, per obra d êsse in -
seto, do que o algodã o tratado; nos algodoais pulverizados duas

--
vêzes, o rendimento das sementes de algod ão caiu significativa
mente. Embora alguns dos insetos devoradores de folhas houves
sem sido eliminados, todo o benef ício, que talvez por isso pudesse
ser ganho, foi mais do que sobrepujado pelo dano decorrente da
a ção da lagarta. Por fim , os cotonicultores defrontaram -se com a
3G0
desagradável verdade que consistiu em verificar que o rendimento
do seu algod ã o teria sido bem maior , se êles se houvessem pou -
pa fio si mesmos o trabalho e a despesa da aplica çã o do men -
cionado inseticida.
No Congo Belga e em Uganda , os resultados das aplica ções in -
tensivas de DDT* contra urn inseto- peste do cafeeiro, foram quase
que catastróficas. Verificou -se que a peste, em si mesma conside -
rada , se conservou quase que completamente intata , por n ã o ser
atacada pelo DDT, ao passo que o predador , destruidor daquela
peste, se revelou extrema mente sensí vel â citada substâ ncia qu í-
mica.
Nos Estados Unidos, os agricultores trocaram repetidamente um
inseto seu inimigo por outro mais inimigo ainda , devido à circuns-
t â ncia de o polvilhamento inseticídico desequilibrar a din âmica
da popula çã o no mundo dos insetos. Dois dos programas de pulve -
riza çã o em massa , recentemente realizados, tiveram precisa mente
êsse efeito. Um de tais programas foi o da erradica çã o da formiga -
-
de fogo, no Sul; o outro foi o polvilhamento contra o escaravelho
japonês , no Meio-Oeste (Vide os Cap í tulos 10 e 7, deste livro).
Quando a aplica çã o generalizada de heptacloro foi feita , nas
terras agr ícolas da I.ouisiana , em 1957, o resultado foi o desacor-
rentamento de um dos piores inimigos das planta ções de cana -de-
a çú car: a broca de ca na -de - a çú car. Logo depois do tratamento a
heptacloro, os danos, ocasionados pela referida broca , foram au -
mentados ver tical mente, A substâ ncia qu ímica destinada a com-
bater a formiga de fogo tinha matado os inimigos naturais da bro -
ca , A safra foi tã o severamente prejudicada , que os fazendeiros
tentaram at é processar o Estado, por negligê ncia , uma vez que
as autoridades estaduais n ão os avisaram de que aquilo poderia
acontecer.
A mesma li ção amarga foi dada aos agricultores do Illinois.
Depois do banho devastador de dieldrina * recentemente minis-
trado às terras de cultivo da á rea oriental do Illinois , para o con -
trole do escaravelho japon ês, os fazendeiros descobriram que a
broca do milho tinha aumentado enormemente de n ú mero, nas
zonas polvilhadas. Com efeito, o milho produzido em planta ções
contidas nesta á rea possu ía quase o dobro da destruidora larva
deste inseto, do que o milho produzido em campos situados fora
dos limites desta á rea. Os agricultores podem ainda n ã o ter for -
mado consciê ncia clara das bases biol ógicas daquilo que aconte-
ceu ; mas eles não precisam de cientistas para lhes dizer que fize -
ram um mau negócio. Na tentativa de se livrar do referido in -

261
se to, o fazendeiro dali provocou o aparecimento de uma praga
ainda maís destruidora. De conformidade com as estimativas do
Departamento da Agricultura, o dano total, causado pelo escara -
velho japonê s, nos Estados Unidos, soma cêrca de dez milhões de
dólares por ano , ao passo que os prejuí zos decorrentes da presença
da broca do milho sobem a cérca de 85 milhões também por ano
Vale a pena notar que as fòr ças naturais tinham sido levadas
sèriamente em linha de conta, no caso do controle da broca do
milho. Dentro de dois anos a partir de quanto este inseto foi
acidentalmente introduzido nos Estados Unidos, procedendo da
Europa, em 1917, o governo norte-americano concatenou um dos
seu 5 ma is intensivos programas destinados a localizar e a importar
parasitos de uma peste de insetos, A contar daquela época, vinte
e quatro espécies de parasitos da broca do milho foram levadas
da Europa e do Oriente para os Estados Unidos, a custo de con -
sider á veis dispêndios de dinheiro. Destas espécies , cinco são re-
conhecidas como sendo de valor not ável no referido controle . Não
é preciso dizer que os resultados de todo este trabalho estão agora
prá tica mente condenados, ou cancelados, uma vez que os inimi -
gos da broca do milho estão atualmente sendo destru í dos pelos
polvilhamentos inseticídicos.
Se isto se afigura absurdo, considere se a situaçã o criada nas
plantações de frutas cí tricas da Califórnia. Foi ali que se levou
a cabo a experiência mais famosa e ma is bem sucedida do mun-
do, quanto ao controle biológico de pestes, na quadra de 1880 /
1890. Em 1872 um inseto escamoso, que se alimenta da seiva das
* I
árvores cí tricas, apareceu na Califórnia: e, no curso dos 15 anos
seguintes, sua difusão assumiu propor ções de peste; de uma peste
tão destruidora, que a colheita de frutas , em muitas plantações ,
foi completamente perdida. Á ent ão jovem industria de frutas
cí tricas se viu ameaçada de destruição total. Muitos plantadores
desistiram de prosseguir na atividade encetada; c arrancaram suas
á rvores. Ent ão, um parasito do inseto escamoso, ou da cochoni-
lha, foi importado da Austrália; o citado parasito era uma pe-
quena coccinela, semelhante à joaninha , chamada vedália. Den-
tro de apenas dois anos, depois da primeira remessa de vedálias,
a cochonilha estava sob contr ôle, em todas as áreas produtoras
de frufas cí tricas da Califórnia. Dessa época em diante, pôde-se
pesquisar durante dias e dias consecutivos, por entre as planta-
ções de laranja , sem encontrar uma única cochonilha.
A seguir , na quadra de 1940 a 1950, os citrí cultores começaram
a fazer experiências com subst â ncias quí micas novas, que estavam
em moda , contra outros insetos. Com o advento do DDT, e de

202
substâ ncias ainda ma is tóxicas do que êle, que se lhe seguiram ,
as popula ções ..de vediUas, em muitos setores da Calif órnia , fo-
ram dizimadas e mesmo eliminadas. A sua importação custara ,
ao govêrnoj, uns meros 5.000 dólares. As atividades das ved á lias
tinham salvado, em benef ício dos plantadores, muitos milhões de
d ólares , por ano; todavia, num só momento de incúria, o bene -
f ício foi cancelado, As Infesta ções de cochonilha logo reaparece
ram , e os danos então causados por elas excederam tudo quanto
lora visto durante cinquenta anos.
"Isto possivelmente assinalou o fim de uma era’ r

— disse o Ov.
Paul DeBach, da Esta çã o Experimental de Ci í ros, de Ri ver side.
Agora, o controle da cochon í lha se tornou enormemente compli
cado, À ved á lia pode ser sustentada somente por meio de lança -
-
mentos repetidos, e també m por meio da ma is meticulosa aten çã o
quanto aos programas cie pulveriza çã o í nsetic ídica , a fim de re-
duzir ao m á ximo o poss ível contato dela com a substâ ncia qu í-
mica utilizada. Além disto, independentemente daquilo que os
ciur í cultores fazem , êles, as ritrkultares, ficam sempre à mercê dos
proprietá rios das terras de cultivo adjacentes; e isto porque danos
severos tem sido ocasionados pelos desvios que as correntes atmos-
f é ricas e que as á guas das chuvas imprimem a inseticidas aplica-
dos nas CIRCLINVIZINHAN ças.
Todos êstes exemplas se referem a Insetos que atacam realiza
ções de ordem agr ícola. Que é que se diz dos que transmitem
-
doen ças? J á tê m havido advertê ncias. Na Ilha de Nissan , no Pa -
c í fico Sul, por exemplo, a pulveriza ção de inseticidas foi levada
avante intensiva mente, durante a Segunda Guerra Mundial; mas
ioí suspensa , quando as hostilidades chegaram ao fim . Pouco tem -
po depois, bandos vast íssimos de mosquitos transmissores da ina
laria tornaram a invadir a ilha . Tqdos os predadores, inimigos
-
de tais mosquitos, tinham sido eliminados; e n ão houvera tempo
para a forma çã o e o crescimento de novas popula ções dêles, O
caminho ficou , portanto, inteiramente desobstru ído, o que faci -
litou uma tremenda explosão populacional de mosquitos ma lá
ricos. Marshall La í rd , que descreveu êste incidente, compara o
-
controle qu í mico de insetos a um moinho de roda grande: uma
vez que se põe o pé nele , fica -se incapaz de o deter, de medo
das consequ ê ncias.
F. m algumas partes do mundo, a doença pode ser ligada ás apli -
ca ções í nsetiddicas, por uma forma bem diversa. Por alguma ra
zã o, os moluscos do tipo dos caracóis parece que são quase que
-
imunes aos efeitos dos ' inseticidas. Este fato tem sido observado
já vá rias vezes. No holocausto geral que se seguiu à pulveriza ção
263
imetiddica de pantanais salgados, na á rea oriental da Flórida
(Capí tulo 0 deste livro) , as lesmas aqu á ticas , e sómente elasp so-
breviveram. A cena, como foi descrita , compôs uni quadro ma -
A
cabro: algo que poderia ter sido criado por um pincel de artista
surrealista. As lesmas moviam-se por entre os corpos de peixes
mortos, e por entre os caranguejos moribundos, devorando as v í-
timas da mort ífera chuva de veneno.
Por que é, porém, que isto é importante? É importante porque
muitos caracóis aqu á ticos servem de hospedeiros a perigosos ver -
mes paras í ticos, vermes êstes que passam parte do seu ciclo de
vida num molusco, e outra parte no corpo de um ser humano.
Exemplas disso sá o os vermes trematódeos, ou esquistossomas, que
causam sé rias doen ças no homem , quando lhe entram no corpo
por meio da água de beber, ou através da pele; esta ultima hi-
pótese ocorre quando a criatura humana se banha em á guas in
festadas. Os trematódeos são soltos na água pelos caramujos hos-
-
pedeiros. As enfermidades decorrentes deste fen ómeno predomi-
nam especialmente em setores da Asia e da África. Onde elas
ocorrem, as medidas de contrôle de insetos , que favorecem vasto
aumento dos caramujos, tendem a ser seguidas por grav íssimas
consequências.
Como é natural, o homem n ão é o ú nico a estar sujeito a doen -
ças òriundas de caramujos. A doen ça do f ígado em bois e vacas ,
em carneiros, em cabras, cm renas , em alces, em coelhos e em
vá rios outros animais de sangue quente , pode ser causada por
trematódeos que passam parte do ciclo de sua vida em caramu
jos de á gua doce. Os f ígados infestados por êstes vermes são ina -
-
dequados para uso ua forma de alimento humano; e sã o, por
isso, condenados rotineiramente. Essa condena ção, que implica na
rejeição das peças condenadas, por parte do mercado consumidor,
-
custa , aos pecuaristas norte americanos, cê rca de 3.500.000 d ó la
res , por ano. Tudo o que possa contribuir para aumentar o n ú-
-
mero de lesmas , caracóis, caramujos, pode també m tornar êste pro-
blema òbviamente ainda ma ís sério do que tem sido e do que é.
Ao longo do passado decénio, éstes problemas atiraram som -
bras enormes ; mas n ós fomos lerdos; tardamos a reconliecê-las.
A maior parte dos homens ma is indicados e ma is adequados para
desenvolver os contrôles naturais, e para prestar assistência na
tarefa de os pô r em pr á tica , estêve excessivamente ocupada, tra -
balhando no terreno mais estimulante e mais espetacular do con -
trôle qu ímico. Relatou -se, em 1900, que sòmente dois por cento
de todos os entomologistas econ ómicos, dos Estados Unidos, es-
tavam trabalhando no campo dos contr ô les biológicos. Uma parte

m
substancial dos 98 por cento restantes se encontrava empenhada
na pesquisa de inseticidas qu í micos.
Por que é que as coisas tiveram de ser assim? Às principais
companhias produtoras de substâ ncias qu í micas est ã o proporcio-
nando dinheiro às universidades , a fim de amparar a pesquisa
relativa aos inseticidas. Isto cria rumos fascinantes para os estu -
dantes graduados; e cria também posições muito atraentes, nos
quadros permanentes das organizações industriais. Os estudos re-
la civos aos controles biológicos, por outro lado, nunca são tão
bem dotados de recursos pecuniá rios — pela simples razão de que
ê les n ã o prometem, a ningu ém, as fortunas que podem ser con -
seguidas na industria qu ímica. Estas pesquisas, por isto, sao dei-
xadas a cargo do Estado e das repartições federais, onde os sa -
lá rios pagos sao bem menores.
Esta situação também explica o fato, por outros títulos misti -
ficado!, de que determinados entomologistas not á veis figuram en -
tre as principais propugnadores e advogados do controle qu í mico.
As investigações realizadas quanto ao passado, à vida e aos inte-
resses de tais entomologistas revelam que a totalidade dos seus
programas de pesquisas é financiada pela ind ústria qu ímica. .Seu
prestígio profissional , e por vezes até o seu próprio trabalho,
bem como os seus empregos nas firmas industriais, dependem
da perpetua çã o dos mé todos qu í micos. Poderemos, entã o, esperar
que cies mordam a m ã o que literalmente os alimenta ? Conhe-
cendo-lhes, poré m, os percal ços, quanta confiança , quanta cren ça,
podemos n ós depositar nas suas declara ções de que os inseticidas
sã o inofensivos?
Em meio ao clamor geral que afirma que os métodos químicos
sã o os ú nicos m étodos adequados para o controle de insetos, têm
aparecido, ocasionalinente, relatórios, elaborados por minorias de
cientistas, isto é, por êsses poucos entomologistas que não perde-
ram de vista a realidade segundo a qual êles não sã o qu í micos,
nem engenheiros, e sim biologistas,
F. H. Jaeob, na Inglaterra , declarou que "as atividades de mui-
tos dos assí m -chamados entomologistas poderiam fazer parecer
que cies atuam na cren ça de que a salva çã o reside na extremi -
dade final da mangueira de pulverizaçã o ou de borrifo. Poderiam
fazer crer que, quando tais atividades criam problemas de ressur-
gé neia, ou de resistê ncia , ou de toxidez mam ífera* o qu í mico já
tem, pronta , outra pílula, para os combater ou solucionar, Este
ponto de vista n ã o é sustentado aqui... Finalmente, só o biolo-
gista é que proporcionará as respostas aos problemas básicos do
contrôle das pestes".
K65

A. D. Pickett , da Nova Escócia

“ Os entomologistas econ ó micos devem formar noçã o escreveu
de que estã o lidando com sé res
vivos.,, O trabalho dê les deve consistir em algo ma í s do que sim -
plesmente fazer testes com inseticidas ou empreender buscas à
cata de substâ ncias qu í micas iria ís altamente destrutivas". O Dr,
Pickett, em pessoa, foi pioneiro na tarefa de se encontrarem mé
todos sadios de contrôle dos insetos, isto é , métodos que tirem
-
.
proveito e vantagem das espécies predadoras e paras í ticas O mé-
todo que êle e as seus associados desenvolveram constitui , hoje,
brilhante modelo, embora , infelizmente, muito pouco imitado.
Somente nos programas integrados de controle, desenvolvidos e
aplicados por alguns entomologistas da Calif órnia , é que nós en-
contramos algo cie compará vel neste pa ís,
O Dr, Pickett começou a sua obra h ã coisa de uns trinta e
cinco anos, nos pomares de macieiras do Vale de À nnapolis* na
Nova Escócia ; outrora , essa toi uma das á reas de maior concen
.
traçã o da produção de frutas, do Canadá Naquela é poca , acredi-
-
tava -sé que os inseticidas — que ent ã o eram subst â ncias qu ímicas
inorgâ nicas — resolveriam os problemas do controle dos insetos ,
e que a tareia consistia apenas em induzir os fruticultores a se -
guir os m é todos para isso recomendados. Todavia , o quadro côr
de rosa deixou de consubstanciar -se. De algum modo, os insetos
persistiram. Acrescentaram -se novas .subst â ncias qu í micas; conce -
-
beram se melhores recursos de pulverização* de polvi lha mento e
de borrifo; e o cuidado das aplica ções foi acentuado; mas o pro-
blema dos insetos n ã o acusou melhora alguma. O DDT prome-
teu “ dissipar o pesad êlo" dos surtos de mariposa das ma çãs. O
que realmente resultou , do seu uso, foi uma peste de á caros, in
teira mente sem paralelo na História. “ Nós passamos de crise cm
-
crise, n ã o fazendo ruais do que trocar um problema por outro"
— declarou o Dr. Pickett,
Neste ponto, entretanto, o Dr. Pickett e os seus associados con -
seguiram descobrir unia nova estrada; deixaram de acompanhar
os outros entomologistas que continuaram a sair em busca do
fogo-f á tuo de substâ ncias qu ímicas cada vez ma ís t óxicas. Reco -
nhecendo que possu íam umn forte aliada na Natureza , ê les con
ceberam um programa que faz o maior uso poss í vel dos controles
-
naturais , e o m í nimo uso poss ível de inseticidas químicos. Sem -
pre que se aplicam inseticidas, só se faz uso de dosagens m í nimas
— apenas o bastante para controlar a f >este, sem causar dano al -
gum , que possa ser evitado, às espécies benéficas de insetos, A es -
colha da época certa també m entra no processo. Assim , se o sul-
fato de nicotina for aplicado antes, ao invés de o ser depois de

266
as flores da macieira se fazerem cor de rosa , poupar-se-á a exis-
t ê ncia de um ,dos predadores importantes , prová vel mente pelo
fato de ê le se encontrar ainda no est á gio do Avo.
O Dr. Pickett faz uso de cuidado especial para selecionar as
subst â ncias qu í micas que possam causar t ã o pouco dano quanto
poss ível aos insetos paras í ticos e aos insetos predadores. ‘ Quando
chegamos ao ponto de empregar DDF, pam tiao, clordana e ou -
tros inseticidas novos, em medidas rotineiras de controle, pela
mesma forma pela qual aplicamos, no passado, substâncias inor -
gâ nicas, os entomologistas, interessados em controles de* ordem
biológica , podem muito bem atirar a esponja ao tablado '
ê le. No lugar dêsses inseticidas altamente t ó xicos, de
— diz
espectro
amplo , cie prefere a riâ nia (derivada de ramos rasteiros de uma
planta tropical ) , o sulfato de nicotina e o arseniato de chumbo
— depositando inteira confian ça neles. Em algumas situa ções, con -
centra ções bem fracas de DDT ou de malatião, sã o aplicadas
(uma ou duas onças por 100 galões , ou seja, de 28 a 56 gramas
por uns 400 litros). Embora êstes dois pesticidas sejam pouco tó -
xicos, ali ás os menos tóxicos dos inseticidas modernos, o Dr.
Pickett espera , por um meio de futuras pesquisas, substitu í-los
por substâncias mais seguras e mais seletivas.
Dc que maneira funcionou êste programa ? Os fruticultores da
Nova Escócia, que estã o seguindo os conselhos do Dr. Pickett, e
-
executando lhe o modificado programa de pulveriza ções , est ã o pro -
duzindo uma proporção t ã o elevada fie frutas de primeira catego -
ria , como a propor çã o conseguida por aqueles que fazem uso in -
tensivo dc aplica ções qu ímicas. Est ã o obtendo, também , uma pro-
.
duçã o igualmente boa Estã o recebendo êstes resultados, ademais,
.
atrav és de um custo substancialmente baixo As despesas para in -
seticidas, nas planta ções de macieiras da Nova Escócia, correspon -
dem apenas â propor çã o de 10 a 20 por cento da quantia despen -
dida na maior parte das outras á reas de plantação dc macieiras.
Bem mais importante até do que êstes excelentes resultados é
o fato de que o programa modificado , elaborado pelos entorno
Jogistas da Nova Escócia, n ã o está operando violê ncia alguma
contra o equil í brio da Natureza. Ê sse programa está a caminho
da realização da filosofia assentada pelo eiitomologista canadense,
G. C. IJllyett , h á cê rea de dez anos: "N ós precisamos modificar
a nossa filosofia , abandonar a nossa atitude de humana superio-
ridade , e admitir que, em muitos casos, nos meios ambientes na -
turais, nós encontramos vias e meios de imitar as populações de
organismos por uma forma bem mais econ ómica do que por
qualquer forma que nó« mesmos possamos aplicar"*
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