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Organizadores A driAnA P ereirA C AmPos K átiA s Ausen dA m otA K

Organizadores

AdriAnA PereirA CAmPos KátiA sAusen dA motA KArulliny silverol siqueirA viAnnA rAfAelA domingos lAgo

Encontro Internacional de História UFES - PARIS-EST

Memórias, Traumas e Rupturas

Caderno de Resumos

História UFES - PARIS-EST Memórias, Traumas e Rupturas Caderno de Resumos Laboratório de História, Poder e

Laboratório de História, Poder e Linguagens

História UFES - PARIS-EST Memórias, Traumas e Rupturas Caderno de Resumos Laboratório de História, Poder e
História UFES - PARIS-EST Memórias, Traumas e Rupturas Caderno de Resumos Laboratório de História, Poder e

Organizadores

AdriAnA PereirA CAmPos KátiA sAusen dA motA KArulliny silverol siqueirA viAnnA rAfAelA domingos lAgo

Encontro Internacional de História UFES - PARIS-EST

Memórias, Traumas e Rupturas

Caderno de Resumos

História UFES - PARIS-EST Memórias, Traumas e Rupturas Caderno de Resumos Laboratório de História, Poder e

Laboratório de História, Poder e Linguagens

História UFES - PARIS-EST Memórias, Traumas e Rupturas Caderno de Resumos Laboratório de História, Poder e
História UFES - PARIS-EST Memórias, Traumas e Rupturas Caderno de Resumos Laboratório de História, Poder e

lAborAtório de HistóriA, Poder e linguAgens

ProgrAmA de Pós-grAduAção em HistóriA soCiAl dAs relAções PolítiCAs

Centro de CiênCiAs HumAnAs e nAturAis

universidAde federAl do esPírito sAnto

Organizadores

Adriana Pereira Campos Kátia Sausen da Mota Karulliny Silverol Siqueira Vianna Rafaela Domingos Lago

Comitê Científico

Adriana Pereira Campos Maud Chirio Pedro Fagundes Julio Bentivoglio Geraldo Antonio Soares

Monitores

Joana D’ark Pim Leite Júlio Cesar Silva Karolina Fernandes Rocha Meyre Ellen Aparecida Pereira Teixeira Pollyanna Soares Rangel Rogério da Silva Ferreira

Projeto Gráfico e Editoração

Carlos Alberto Schneider Junior

Obs. Esse encontro constitui atividade do Laboratório de História, Poder e Linguagens e do Projeto “Memória, Traumas e Rupturas” patrocinado pelo Edital n.1 da Secretaria de Assuntos Internacionais da Pro-Reitoria da UFES.

Encontro Internacional de História UFES - PARIS-EST

Memórias, Traumas e Rupturas

Caderno de Resumos

Conferências

 

4

Minicursos

 

8

Comunicações Coordenadas Resumos

10

18

11

de novembro

14h

Credenciamento

Local: Auditório IC-II

16h

Conferência de Abertura

Local: Auditório do IC-II

Violência, trauma e frustração no Brasil e na Argentina:

papel do historiador

Prof. Dr. Carlos Fico (PPGHIS/UFRJ)

12 de novembro

10h

Mesa 1: Revoluções Atlânticas e Liberdade

Local: Auditório IC-II Coordenador: Prof. Dr. Rogério Arthmar (PPGHIS/UFES)

1.1 La Société Morale Chretienne e a abolição da Escravidão Moderna

Profa. Dra. Adriana Pereira Campos (PPGHIS/UFES)

1.2 D’une révolution à l’autre, pour une histoire connectée des révolutions

Profa. Dra. Mathilde Larrère (LAP/ Paris-Est)

1.3 Le Peuple, La Réforme et La Révolution en France et en Grande-Bretagne au XIXe Siècle

Prof. Dr. Frédéric Moret (LAP/ Paris-Est)

13 de novembro

10h

Mesa 2: A Memória e o Trauma

Local: Auditório IC-II Coordenador: Prof. Dr. Alexandre Avelar (UFU)

2.1 Paul Ricoeur, Les Historiens et Le Devoir de Mémoire : Un débat?

Prof. Dr. Christian Delacroix (LAP/ Paris-Est)

2.2 Primo Levi e a escrita do testemunho

Prof. Dr. Geraldo Antonio Soares (PPGHIS/UFES)

2.3 Os Pontos Cegos da História: a produção e odireito ao esquecimento no passado e no presente

Prof. Dr. Julio Bentivoglio (PPGHIS/UFES)

4

14 de novembro

10h

Mesa 3: Memórias, Ensino e Repressão

Local: Auditório IC-II Coordenador : Prof. Dr. Valter Pires Pereira (DH/UFES)

3.1 morte do estudante secundarista Edson Luis (1968)

A

e

seu regime de historicidade

Profa. Dra. Angélica Müller (PPGHIS/Universidade Salgado de Oliveira)

3.2 O movimento estudantil e a luta pela Anistia no Brasil:

repressão e esquecimento

Prof. Dr. Pedro Ernesto Fagundes (PPGHIS/UFES)

3.3 Lutas políticas, repressão e ensino de História

Profa. Dra. Marieta de Moraes Ferreira (UFRJ e CPDOC/FGV)

14h

Mesa 4: A Modernidade, as Luzes e as Doenças

Local: Anfiteatro 1 (Anexo CCHN) Coordenadora: Profa. Dra. Cristina Dadalto (PPGHIS/UFES)

4.1

Mémoires contrastées: regards portugais et chinois sur La première ambassade officielle des Portugais en Chine (1517-1524)

Profa. Dra. Pascale Girard (LAP/ Paris-Est)

4.2

A

Obra de Luis Antônio Verney: aspectos da Ilustração

Católica Portuguesa

Profa. Dra. Patrícia Merlo (PPGHIS/UFES)

4.3

Protagonizando a história: queixas e reivindicações populares na ocorrência da cólera na província do Espírito Santo (1855-1856)

Prof. Dr. Sebastião Pimentel Franco (PPGHIS/UFES)

6

Minicurso I

Esquecidos e renascidos - a percepção de si mesmo, nas origens da formação política do Brasil Colonial

Professor: Dr. Valter Pires Pereira (UFES)

11 de novembro

18h30 - 20h30

12 de novembro

18h30 - 20h30

13 de novembro

18h30 - 20h30

Minicurso II

O Esquecimento do Pathos? Uma releitura sobre memória e sofrimento na obra Casa-Grande e Senzala (1933)

Professores: Dra. Márcia Barros Ferreira Rodrigues (UFES) Ms. Claudio Marcio Coelho (UFES)

11 de novembro

18h30 - 20h30

12 de novembro

18h30 - 20h30

13 de novembro

18h30 - 20h30

Minicurso III

Gođkynningr: o rei escandinavo como ponte entre deuses e homens

Professor: Ms. Munir Lutfe Ayoub (PUC-SP)

11 de novembro

18h30 - 20h30

12 de novembro

18h30 - 20h30

13 de novembro

18h30 - 20h30

8

12 de novembro

14h às 16h

Sessão I

Local: Anfiteatro 1 (Anexo CCHN)

Além e Aquém-mar: notícias e ideias políticas no Espírito Santo pós Revolução do Porto

Rodrigo da Silva Goularte (UFF)

Bases da cultura política brasileira do início do século XIX

Maiara Caliman Campos Figueiredo (UFES)

Enlaces e desenlaces: a estabilidade das famílias escravas no Es- pírito Santo (1790-1871)

Geisa Lourenço Ribeiro (UFES)

Pontos de interseção e vontades: estratégias de compadrio e o caso da escravaria de Francisco Pinto Homem de Azevedo

Rafaela Domingos Lago (UFES)

Memórias de uma opinião: as ideias abolicionistas no Journal da Société de la Morale Chrétienne (1836-1848)

Pollyanna Soares Rangel (UFES)

Escritoras do Oitocentos e o movimento abolicionista: emanci- pando escravos e mulheres

Karolina Fernandes Rocha (UFES)

Festas populares capixabas e as raízes de um sistema de repre- sentações em torno das tragédias do mar

Michel Dal Col Costa (UNIRIO)

Sessão II

Local: Anfiteatro 2 (Anexo CCHN)

Conflito de discursos na greve de 1948 na Companhia Vale do Rio Doce

André Ricardo Valle Vasco Pereira (UFES)

A vale do Rio Doce na ordem do dia: Acusações e omissões no discurso de Eurico Rezende em A Gazeta

Douglas Edward Furness Grandson

Partido Comunista do Brasil: a defesa do projeto político nacio- nal na Câmara de Vitória – ES, 1948

Marlon Pittol de Oliveira (UFES)

Trabalhismo e Populismo: uma breve discussão

Lucian Rodrigues Cardoso (UFES)

10

A campanha eleitoral do comunista Antônio Granja a vereador

em 1947 em Cariacica

Vinicius Oliveira Machado (UFES)

Integralismo e Imprensa: o caso da Revista Vida Capichaba

Diego Stanger (UFES)

Sessão III

Local: NPIH (IC-III)

Modernização e ruptura na Belle Époque capixaba: revisitando o Novo Arrabalde

Coordenador: Leandro do Carmo Quintão (IFES)

A lógica capital x coerção no Espírito Santo da Primeira Repú-

blica

Marco Aurélio Borges Costa (UFRJ/CUSC)

Luiz Antônio Monteiro Lindenberg: memórias da eleição muni- cipal de 1922

Adilson Silva Santos (CUSC)

A construção do passado inglório na representação da trajetória

da AIB em Cachoeiro de Itapemirim

Flávio dos Santos Oliveira (UFES)

Cachoeiro de Itapemirim – ES: Para além do bairrismo

Joana D’Arck Caetano (UFES) Sílvia de Souza Dias (UFES)

Estudos sobre os casos de defloramento na Comarca de Itapemi- rim de 1930 à 1939

Marcos da Silva Azevedo (CUSC) Luiz Carlos Ferreira Neto (CUSC)

12 de novembro

16h às 18h

Sessão IV

Local: Anfiteatro 1 (Anexo CCHN)

2013 - Das jornadas de junho à Rosa dos ventos: para onde so- pram as linhas do horizonte?

Valter Pires Pereira (UFES)

Regime Civil-militar de 64 e as elites capixabas: rupturas e

continuidades

Ueber José de Oliveira (UFES)

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

Max Mauro e o Trabalhismo no Espírito Santo: da implosão do PMDB à ascensão do PDT (1987-1990)

Amarildo Mendes Lemos (UFES/IFES)

A opinião pública e a corrupção no Espírito Santo

Rafael Claudio Simões (UFES)

História e Memória: o livro de memórias do senador Eurico Re- zende (1963–1978), entre as memórias, os traumas e as rupturas

Levy Soares da Silva (UFES)

O capitalismo e subdesenvolvimento no Espírito Santo

Diones Augusto Ribeiro (Monteiro Lobato Cems/PMV)

Sessão V

Local: Anfiteatro 2 (Anexo CCHN)

Migração e desigualdade socioeconômica

Madson Gonçalves da Silva (UFES)

Industrialização: resultados e impactos na vida do migrante

Maria Rita de Cássia Sales Régis (UFES)

As cidades das histórias: Constituição simbólica das cidades de Vitória e da Serra por meio das narrativas de imigrantes

Leonardo Teixeira de Freitas Ribeiro Vilhagra (UFES)

representações

Ciganos

sócio-políticas (1885-1936)

Daniela Simiqueli Durante (UFES)

nas

terras

do

Espírito

Santo:

Sessão VI

Local: NPIH (IC-III)

Memória, monumento e nostalgia na cidade: reflexões sobre a transição da República para o Império em Roma

Ludmila Caliman Campos (UFES)

Repensando

discussão teórica

uma

a

ruptura

entre

República

e

Principado:

Camilla Ferreira Paulino da Silva (UFES)

A conversão na Escandinávia medieval, a sidaskipti como uma

forma de estigmatização

André Araújo de Oliveira (UFMA)

Entre a magia e o poder: A simbologia do bastão da völva

Sara Carvalho Divino (UFMA)

12

13 de novembro

14h às 16h

Sessão VII

Local: Anfiteatro 1 (Anexo CCHN)

Jacobinos na Independência do Brasil: uma análise do radica- lismo político nos impressos do processo de independência do Brasil

Jorge Vinícius Monteiro Vianna (UFRRJ/Faculdade Saberes)

A imprensa capixaba no Oitocentos: redatores, leitores e leituras

Fabíola Martins Bastos (IFES/UFES)

No caminho das urnas: a participação eleitoral no Império

Kátia Sausen da Motta (UFES)

A atuação da Guarda Nacional na província do Espírito Santo (1831 a 1862)

Kamyla Nunes de Deus Oliveira (UFES)

“A República bate-nos à porta”: a imprensa da província do Es- pírito Santo na crise do Império brasileiro, 1880-1889

Coordenador: Karulliny Silverol Siqueira Vianna (UFES)

Música nos Teatros Cariocas: a passagem da Monarquia à República

Mônica Vermes (UFES / IA-Unesp)

Sessão VIII

Local: Anfiteatro 2 (Anexo CCHN)

Gênero, Papel Social e o Poder Masculino: Contribuições Con- ceituais para a História Social das Relações de Gênero

Coordenador: Helvécio de Jesus Júnior (UFES)

Definindo um Aliado: A Reumanização do Povo Japonês nas Páginas da Revista Life (1945-1964)

Edelson Geraldo Gonçalves (UFES)

Os obstáculos do progresso: o mito do atraso colonial e a repre- sentação dos indígenas na obra de José Teixeira

Rafael Cerqueira do Nascimento (UFES)

Os desafios da memória como fonte histórica: esquecimentos, silêncios, mutações e realidades

Dinoráh Lopes Rubim Almeida (UFES)

Revistas historiográficas inglesas - da reconstrução a descons- trução

Thiago Vieira de Brito (UFES)

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

Pensar a Nação em um contexto de ruptura: Mariano Moreno e a Independência da América Espanhola

Tito Souza da Silva (UFES)

Sessão IX

Local: NPIH (IC-III)

O cotidiano na Antiguidade Tardia: considerações em torno da

África romana nos tempos de Agostinho de Hipona (354-430)

Coordenador: José Mário Gonçalves (UFES)

Verdade e virtude: na disputa anti-maniqueísta de Agostinho de Hipona

Joana Paula Pereira Correia (UFES)

Debate de Tortosa e o processo de representação e estigma ju-

daicos

Jordânia Lopes de Freitas (UFES)

A Questão da tirania em Isidoro de Sevilha: contradições de um

discurso

Luís Eduardo Formentini (UFES)

13 de novembro

16h às 18h

Sessão X

Local: Anfiteatro 1 (Anexo CCHN)

Desumanizando o judeu medieval: sangue e pecado

Coordenador: Sérgio Alberto Feldman (UFES)

O Antijudaísmo Medieval em perspectiva: a violência dos po-

groms da Primeira Cruzada e sua influência sociocultural e religiosa para as comunidades ashkenazim da Germânia no

século XI

Karla Constancio de Souza (UFES)

A fronteira entre ortodoxia e heresia na cristandade tardo antiga

sob a perspectiva da controvérsia pelagiana

Raphael Leite Reis (UFES)

A problemática da efetividade das imposições clericais: o con-

trole da carnalidade, do feminino e do laicato no baixo-medievo

cristão

Anny Barcelos Mazioli (UFES)

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Entre Paris e Barcelona: os debates Judaico-Cristãos no século

XIII

Regilene Amaral dos Santos (UFES)

A doença como representação do pecado no imaginário cristão

dos Reinos Ibéricos nos séculos XV e XVI

Larissa Oliveira Heringer (UFES)

Sessão XI

Local: Anfiteatro 2 (Anexo CCHN)

Existe uma identidade capixaba? Dilemas de um historiador

José Candido Rifan Sueth (UFES)

Imigração pomerana no Espírito Santo: território e identidades

Helmar Spamer (UFES)

Da contemporaneidade Italo-capixaba ao passado histórico no Espírito Santo

Otávio Benincá Toscano (UFES)

A Fronteira como espaço de Memória

Filipo Carpi Girão (UFES)

Sessão XII

Local: NPIH (IC-III)

Educação inclusiva, abandono escolar e criminalidade juvenil (1980-2010) ruptura ou continuidade?

Coordenador: Rosely Maria Aparecida Machado (UFES)

Políticas educacionais no Município de Cariacica: Aspectos his- tóricos e mudanças institucionais (2005-2008/2009-2012)

Elisangela dos Santos de Oliveira (UFES)

A Ufes e a Reforma Universitária da ditadura: dos acordos ME-

C-USAID à reação do estudantes

Alexandre Caetano (UFES)

O impacto da consciência negra na visão, no comportamento e

na atitude social dos alunos sobre a questão da igualdade étni-

co-racial

Jayza Monteiro Almeida (Faculdade Saberes)

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST

MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

Luiz Antônio Monteiro Lindenberg:

memórias da eleição municipal de 1922

Adilson Silva Santos - CUSC

O objetivo dessa comunicação é apresentar a eleição de 1922 para prefeito de Cachoeiro de Itapemirim e os seus desdobramen- tos para a carreira política de Luiz Antônio Monteiro Lindenberg. Candidato à reeleição, Luiz Lindenberg teve sua candidatura subs- tituída às vésperas da eleição e isso teve um impacto importante em sua trajetória: o abandono da carreira política e o retorno ao exercí- cio de sua profissão, a medicina. O que o teria levado a tomar essa decisão é analisado a partir da análise qualitativa do Cachoeirano, O Município e do Diário da Manhã, importantes periódicos da época, bem como das Atas da Câmara Municipal de Cachoeiro de Itape- mirim. A escolha por esse tipo de pesquisa justifica-se porque ela permite que se desenvolvam investigações científicas em situações complexas onde somente as informações estatísticas relacionadas ao passado não são suficientes para coleta de dados. Trata-se, portanto, de uma pesquisa documental e à luz da Nova História Política. Luiz Antônio Monteiro Lindenberg nasceu na fazenda Monte Líbano, era filho de Carlos Adolfo Lindenberg e Bárbara Monteiro Lindenberg, filha do capitão Francisco de Souza Monteiro. Graduou-se médico e, tempos depois, entrou para a carreira política por incentivo de seu tio, Bernardino de Souza Monteiro, e José Gomes Pinheiro Jr. e já em sua primeira eleição foi eleito para o cargo de prefeito da cidade de Cachoeiro de Itapemirim, a mais importante do sul do Espírito Santo. Na eleição de 1922 para o mesmo cargo foi preterido embora já tivesse sido lançado como candidato pelo Partido Republicano Espírito-Santense. Dos fatos que evolvem essa eleição municipal conclui-se que a substituição da candidatura de Luiz Lindenberg próximo ao pleito municipal pela de Augusto Seabra Muniz, teria sido determinante para o seu abandono da vida pública e para e seu retorno ao exercício da medicina. Não obstante isso vale ressaltar que essa substituição esteve ligada ao racha ocorrido no seio da oli- garquia Monteiro nas eleições para o governo do Espírito Santo, em 1920. Depois do racha entre Jerônimo e Bernardino Monteiro, nas eleições estaduais de 1920, os pleitos eleitorais nos municípios vão refletir essa cisão, uma vez que os candidatos partidários de Jerôni- mo vão disputar o poder com os partidários de Bernardino. A lógica quase sempre será a mesma: como Bernardino passa a ser o chefe

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da oligarquia estadual, seus candidatos vão vencer os pleitos uma vez que controlam a máquina eleitoral. Além disso, os candidatos lançados pelo PRES serão os de conciliação para evitar confrontos e dissensões no partido.

Palavras-chave: Luiz Lindenberg; eleições municipais; oligarquia Monteiro.

Ufes e a Reforma Universitária da ditadura:

dos acordos MEC-USAID à reação do estudantes

Alexandre Caetano - UFES

Este trabalho procura analisar a reação do Movimento Estu- dantil (ME) diante da reestruturação acadêmico-científica da Uni- versidade Federal do Espírito Santo (Ufes), elaborada entre os anos de 1966 e 1968. Naquele período, o ME em todo o país se mobiliza- va e protestava contra os acordos celebrados entre o regime mili- tar e agência norte-americana United States Agency International Developmet (USAID), para a efetivação da Reforma Universitária no Brasil. Pretendemos demonstrar que a Ufes foi um dos labora- tórios dessa reforma e, ao mesmo tempo, estabelecer até que ponto essas questões não passaram ao largo do ME local em função de sua ligação com a prática e as bandeiras defendidas pelo movimen- to nacional. Nossa perspectiva de estudo, baseada na visão de João Roberto Martins Filho e Marialice Foracchi, procura despir-se de qualquer tentação de dar ao ME o caráter épico que costuma receber em representações construídas por seus atores e mesmo em muitos dos estudos e pesquisas dedicados ao movimento do período que analisamos. A nova estrutura proposta pelo Plano de Reestrutura- ção Acadêmico-Científica da Ufes seria referendada pelo presiden- te-marechal Costa e Silva, através do decreto nº 63.577, de 08 de novembro de 1968, 20 dias antes da promulgação da Lei 5.540/1968, que impôs a Reforma Universitária da ditadura. A Universidade ca- pixaba já estava sintonizada com ela. A partir da promulgação do decreto, a Ufes ganhou uma estrutura, semelhante a que tem hoje, com nove centros. O Plano de Reestruturação da Ufes foi elaborado por um técnico do USAID e possui o espírito da Reforma Universi- tária promovida pela ditadura. Mais do que isso, podemos afirmar que, como foi elaborado antes mesmo da promulgação dos decre-

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

tos-leis (53/1996 e 252/1967) que orientaram a reestruturação das universidades federais brasileiras, que a Ufes foi de fato um labora- tório para a reforma. Não por acaso, a estrutura prevista no projeto é até hoje, 45 anos depois de sua promulgação, a coluna vertebral da Universidade. Os depoimentos e documentos que conseguimos reu- nir parecem confirmar nossa hipótese de que as lideranças estudan- tis, mesmo as mais à esquerda, não tiveram a dimensão de que Ufes era um laboratório da reforma universitária da ditadura. O Plano de Reestruturação, que acabou sendo aprovado com certa facilidade, foi mesmo uma estrutura elaborada nas bases dos odiados acordos MEC-USAID. Isso não quer dizer que pretendemos fazer um julga- mento das lideranças estudantis daquele período, até porque en- tendemos que eles cumpriram um importante papel na resistência contra o regime militar e na luta pela redemocratização do país. O que pretendemos é lançar as bases do debate sobre a capacidade da Esquerda de fazer uma análise específica sobre a realidade local fora do contexto nacional, especialmente em Estados periféricos como o Espírito Santo. Por sinal, os desdobramentos dos acontecimentos no país, demonstrariam que a própria leitura da conjuntura nacional era equivocada.

Palavras-chave: Movimento Estudantil; ditadura militar; reforma universitária.

Max Mauro e o Trabalhismo no Espírito Santo:

da implosão do PMDB à ascensão do PDT (1987-1990)

Amarildo Mendes Lemos (UFES/IFES)

O presente trabalho tem como objetivo identificar aspectos do trabalhismo e das relações de poder no Espírito Santo que estiveram presentes no fortalecimento do PDT, para onde muitos políticos ca- pixabas migraram durante a fragmentação do PMDB. A ascensão do PDT no cenário político capixaba esteve, além de outros fatores, intimamente ligada à decisão pessoal do governador Max Mauro, membro da ala progressista, de migrar para esse partido. A crise dentro do PMDB tinha proporções nacionais, porém, a disputa pela hegemonia em âmbito estadual intensificou a procura por outras legendas ao longo da segunda metade da década de 1980. Até que ponto Max Mauro e os chamados maxistas participaram desse pro-

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cesso? Essa questão se defronta com o que o cientista político Fer- nando Abrúcio explica acerca do poder que o chefe do executivo estadual em relação ao poder legislativo. Para ele os governado- res possuíam um controle milimétrico sobre as bases locais (2002, p.173). Tanto no PMDB quanto no PDT pode ser identificada a po- larização entre o governador e o senador Gérson Camata. A par- tir da cobertura jornalística e de outras fontes refletimos sobre essa opção e seus desdobramentos no cenário político capixaba visando detalhar esse processo para entender seus nuances. Não houve um crescimento dentro do PDT que ocasionasse uma grande expressão no legislativo estadual obtida por meio da cooptação do governa- dor (PEREIRA & LEMOS, 2002). Apesar disso, as informações ob- tidas apontam para um grande crescimento no âmbito municipal. Foi possível perceber no crescimento do PDT não só os recursos do governo do estadual sustentaram alianças, Camata a partir compo- sição na base de sustentação do governo federal também conseguia influenciar na transferência de recursos para prefeituras e na indica- ção de cargos nas estatais. Assim, apesar das vitórias obtidas tanto no PMDB quanto no PDT, Max não obteve a hegemonia nos par- tidos. As alianças realizadas durante os debates sobre a sucessão afastou aliados e fortaleceu antigos adversários. Nesse processo a ligação de Albuíno com prefeitos e deputados estaduais o conectou com a direita camatista, que atuou diretamente na ruptura entre ele e Max. Assim, o fortalecimento do partido no Espírito Santo não seguiu a orientação dos fundadores do partido em âmbito nacional, entre os quais se destaca Leonel Brizola. Muitos ligados a Camata ou aos partidos de direita participaram desse crescimento do PDT no Espírito Santo, enquanto Max apesar de algumas alianças com o PT se manteve alheio ao crescimento que esse partido obteve entre os eleitores de esquerda. Ao mesmo tempo que isso ocorria o PMDB perdeu membros progressistas e tornou-se mais destro tanto aqui no Espírito Santo como no resto do país.

Palavras-chave: Max Mauro; PDT; PMDB.

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

A conversão na Escandinávia medieval, a sidaskipti como uma forma de estigmatização

André Araújo de Oliveira - PPGHIS-UFMA

O cristianismo na Idade Média não se tornou consenso desde seu princípio, se expandindo gradativamente se aliando, ocasional- mente, com o poder político para sedimentar com mais firmeza em terras onde não se tinha firmado. Foi o caso da Escandinávia que mesmo no século X ainda possuía lideranças locais seguidores dos velhos costumes, pagãos. A conversão foi um processo lento que deixou marcas na população local, contudo uma questão a se le- vantar foi como se deu esse processo de estigmatização. Na região que hoje seria a Noruega o processo de cristianização se iniciou, segundo os documentos históricos como as sagas, Heimskringla, en- tre outros, com o Hákongóði, filho de HaraldrHálfdanarson o primeiro unificador da Noruega. Haroldo enviou seu filho para o rei Athelstan da Inglaterra, um reino cristão, e com a sua morte Hákon é o próximo da linha de sucessão. Ao se tornar governante Hákontenta introduzir o cristianismo contudo sem resultados positivos, levando a morte de padres e Igrejas queimadas. Os velhos costumes estavam ainda muito vinculados a esse povo, em que a conversão não era vista como um ato religioso mas uma mudança de costumes, sidaskipti. As tentativas de conversão foram se repetindo com o passar dos anos com os reis seguintes tendo retornos aos velhos costumes oca- sionais. Haraldrgráfeldr, sucessor e meio-irmão de Hákon, foi menos brando destruindo templos e causando inimizade, levando ao seu assassinato e sucessão por HákonSigurðarson, que liderou um “re- nascimento pagão” onde templos foram reconstruídos. OlafTryggva- son neto de HaraldrHálfdanarson, acabou sucedendo o trono retiran- do Hákon do poder, e com sua ascensão em 995 a Noruega entrou em um processo violento e acelerado de conversão ao cristianismo. As influências da Olafse expandiram além de suas terras levando a conversão de outras regiões próximas por meio da pressão como a Islândia. A Islândia foi colonizada em 874 por uma aristocracia rural noruegueses, fugida da pressão do novo rei HaraldrHálfdanarson. O documento que narra essa migração e os primeiros anos é chama- da de Landnámabók. A Islândiavivia um sistema de político, no qual todas as decisões ou disputas eram resolvidas e decididas por meio de uma Assembléia onde todos os senhores poderiam participar, chamada de Thing, ocorrendo assembleias gerais da ilha, Allthing,

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para as decisões que envolveria a todos. Em 999 na Allthingrealiza- da na planície de Thingvellir foi decidido que devido a pressão de Olaf, seria necessário a “conversão” de todos para o cristianismo. Como apresentado até aqui o processo de conversão da Escandiná- via medieval não foi um processo uniforme de evolução continua e harmônica. Essa apresentação tem como objetivo apresentar o pro- cesso de formação de identidade cristã por meio da análise das Sa- gas Islandesas se utilizando da metodologia backtiniana de análise de fontes textuais. Concluindo-se que na Noruega e Islândia, para se formar uma identidade cristã correta se necessitou estigmatizar o paganismo e os pagãos.

Palavras-chave: Escandinávia medieval, Conversão, Cristianismo.

Conflito de discursos na greve de 1948 na Companhia Vale do Rio Doce

André Ricardo Valle Vasco Pereira - UFES

Esta comunicação trata do conflito discursivo que se deu du- rante da greve ocorrida na Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), em 1948, nos estados do Espírito Santo e de Minas Gerais. Ela foi conduzida por militantes do Partido Comunista do Brasil (PCB). Teve como resultado um aumento salarial, a demissão de vários funcionários e a intensificação dos mecanismos de controle sobre os trabalhadores. Devido ao peso desta empresa na realidade local, o sucesso da repressão teve resultados posteriores, já que a Vale foi o principal ator da modernização capitalista nas regiões de sua influ- ência. O fracasso da ação autônoma que a greve de 1948 representa fez com que parcela importante da classe trabalhadora fosse sub- metida a um processo de disciplinarização que continua até hoje, com graves consequências para o funcionamento da democracia no país. Um dos pontos fundamentais para o bom desempenho da de- mocracia é a liberdade de expressão e, como resultado, o reconheci- mento da legitimidade das ações e discursos de todos os atores que se apresentam na arena pública como representantes de interesses radicados na Sociedade. No momento histórico abordado por este trabalho, o projeto de Nação dominante era o de industrialização via estatal, no qual a CVRD teve importância fundamental. Ele foi implantado sem rompimento aberto com as elites dominantes tra-

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

dicionais, radicadas no campo, e com os valores sociais herdados de períodos anteriores. Desta forma, na área de atuação da empre-

sa, deu-se um conflito de leituras acerca da realidade. Os atores en- volvidos no choque de representações foram: 1) as elites dirigentes, divididas entre conservadores e liberais, com espaço privilegiado na imprensa local; b) os dirigentes da CVRD, comprometidos com

o projeto de modernização; c) os agentes do aparelho de repressão,

em particular das Delegacias de Ordem Política e Social; d) os agen-

tes da regulação estatal do trabalho, em particular o Delegado Re-

gional do Trabalho do Espírito Santo; e) os trabalhadores, represen- tados pela Comissão de Salários, que conduziu a greve. Aqui, são considerados os discursos elaborados por tais atores e as imagens por eles produzidas. As elites procuraram qualificar a greve e as condições de trabalho numa leitura que vitimizava os empregados

e culpava a Justiça do Trabalho, retirando-lhes, portanto, a legiti-

midade para a ação política. A empresa, os órgãos de repressão e a DRT se uniram para qualificar o movimento como radical e elabo- raram imagens fantasiosas sobre o perigo que supostamente repre- sentava. Já os dirigentes da greve enfrentaram a enorme dificuldade de defenderem o direito à ação autônoma da classe trabalhadora. A repressão que sofreram teve como resultado a desqualificação desta via interpretativa.

A problemática da efetividade das imposições clericais:

o controle da carnalidade, do feminino e do laicato no baixo-medievo cristão

Anny Barcelos Mazioli – UFES

Durante a Idade Média, muitos escritores cristãos se pautaram nas produções filosóficas antigas para elaborar os valores cristãos que pretendiam regular a sociedade medieval. Formou-se uma teo- logia embasada na repressão do desejo e que sugeria o uso do sexo apenas para reprodução, e que alocava à mulher um papel secun- dário visto ser essa percepção misógina. Esta concepção teológica glorificava o espírito e propunha a mortificação crescente da carne. Houve, portanto, uma tentativa eclesiástica de definir os parâme- tros comportamentais cristãos que regulariam a sexualidade na so- ciedade cristã do baixo medievo. O objetivo deste trabalho é ques- tionar se a teologia produzida no período realmente formou uma

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sociedade na qual a sexualidade era restrita à reprodução. Procura- mos responder a essa questão por meio das construções reguladoras acerca da mulher, do corpo e da sexualidade e das elaborações teó- ricas de autores que pensaram a Europa Medieval, como Jacques Le Goff, Georges Duby e James Avery Brundage, explicitando as ideias clericais e socialmente idealizadas acerca desses temas. Em contra- partida, trazemos algumas ideias contidas em fonte de época que problematizam a efetividade do controle da Igreja sobre a sexuali- dade dos laicos. Além disso, incluímos também algumas produções bibliográficas acerca da ocorrência da prostituição no medievo, que retratam como as vivências eram diferenciadas do que se prescrevia nos escritos eclesiásticos. A metodologia a ser empregada neste ar- tigo abarcará a leitura de uma bibliografia (em parte acima citada) que contemple a história do Cristianismo e das construções acerca da sexualidade ao longo da Idade Média Ocidental, em particular no período do baixo medievo nos países da cristandade europeia. Objetivamos através dessa leitura, poder questionar a resposta da sociedade leiga em geral às obrigações e mandamentos impostos pelos religiosos, além de explorar os dogmas da Igreja sobre o corpo e o sexo, analisando o caráter anti-sexual e misógino assumido por ela ao longo do medievo. O arcabouço teórico e metodológico que fundamentou esse estudo foi a Análise do Discurso (BRANDÃO, 2002), que nos permitiu discutir o caráter “ideológico” e moralizador dos discursos vigentes no período, além dos conceitos de História Cultural e representação (CHARTIER, 1990) a fim de compreender, os dogmas anti-sexuais da Igreja e sua significância e efetividade enquanto mecanismo de controle e ordem social. A problemática, portanto, se insere em como o laicato recebia formulações teológi- cas sobre sua sexualidade e como convivia com elas. É necessário então analisar até que ponto as normas advindas da Igreja ditavam as práticas sexuais, além disso, problematizar a efetividade das im- posições feitas ao social pelo clerical, como no papel da mulher, no lugar do casamento, do corpo e do sexo na sociedade.

Palavras-chave: carnalidade, feminino, Igreja.

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Repensando a ruptura entre República e Principado:

uma discussão teórica

Camilla Ferreira Paulino da Silva - UFES

A História de Roma é tradicionalmente dividida entre Monar-

quia, República e Império, o que estabelece a falsa impressão de que ocorreram grandes rupturas nos supostos momentos de transição e poucas continuidades. Além disso, tal divisão também desenvolve

o efeito de uniformidade entre os períodos históricos assim apresen- tados, como se poucas mudanças tivessem ocorrido durante séculos de História. Nessa apresentação pretendemos levantar uma série de discussões acerca da passagem da República para o Principado, apresentando um debate sobre a importância do pensamento crítico

à periodização da História romana.

Palavras-chave: República romana; Principado; Ruptura; Crise.

Ciganos nas terras do Espírito Santo:

representações sócio-políticas (1885-1936)

Daniela Simiqueli Durante PGHIS/UFES

O presente trabalho é resultado das pesquisas que estão sendo

desenvolvidas no mestrado em História/UFES. O estudo versa so- bre as populações ciganas no Brasil e tem como objetivo realizar um estudo de cunho historiográfico, utilizando um recorte espácio-tem- poral específico entre os anos de 1885 a 1936 no Estado do Espírito Santo. Em território brasileiro, até o presente momento, pouco se sabe sobre o modo de vida das comunidades ciganas espalhadas no país. Há cerca de 450 anos que os ciganos encontram-se em nos- so território, contudo a sua participação na construção do processo histórico é negligenciado de modo ostensivo até os dias atuais. Ori- ginários da Índia, os ciganos possuem um passado histórico pouco conhecido e, muitas vezes, contado de maneira folclorizada pelos não-ciganos, que em seu imaginário, representam os Roma (etnô- nimo dos povos ciganos) de diversas maneiras, utilizando imagens contraditórias que oscilam entre sentimentos de liberdade e alegria como de repulsa, indolência e marginalidade. O período histórico proposto em nosso projeto de pesquisa (1885 - 1936) foi marcado-

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por uma série de acontecimentos que ocasionaram profundas trans- formações políticas, sociais e econômicas na sociedade brasileira e, consequentemente no Espírito Santo. Todos estes acontecimentos foram calcados na criação de novos valores e concepções que se ba- seavamna modernidade, no progresso e nos ideais de conservação da família pautados no modelo burguês Sob a luz de um projeto mo- dernizador, a partir da década de 1870 ocorre a entrada de um ideá- rio positivista-evolucionista no país onde os modelos raciais se tor- naram eixo principal. Com a maior população negra das Américas e os consequentes avanços da luta abolicionista, além do progressivo aumento da população de despossuídos nas cidades e a vinda de estrangeiros em busca de trabalho (incluímos aqui vários grupos de ciganos provenientes, em sua maioria, da Europa Oriental o que ca- racteriza para os ciganólogos a chamada segunda onda migratória), observamos uma corporificação do liberalismo e do racismo tanto na atuação política quanto a concepção de Estado. Para esta inves- tigação, baseamos no pensamento de Roger Chartier. O conceito de representação social defendido pelo autor propõe que há uma busca constante de legitimar uma identidade social onde, muitas vezes, pode ocorrer o desmerecimento de outros grupos sociais. Somen- te entendendo determinada realidade social é que traduziremos o seu contexto, a partir da análise dos diferentes atores sociais que a integram. Estudar os ciganos no período referenciado só é possível se compreendermos a sociedade da época, examinando o discurso utilizado e o papel do cigano e o que ele representava para o gru- po dominante. Para tal intento estamos pesquisando os jornais do Estado do Espírito Santo no período enfocado. Esperamos analisar ainda novos parâmetros de conhecimento da sociedade capixaba da época tomando para estudo as representações sociais adotadas por esta sobre os ciganos.

Palavras-chave: ciganos; História do Espírito Santo; Representação social.

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Integralismo e Imprensa:

o caso da Revista Vida Capichaba

Diego Stanger - UFES

A Revista Vida Capichaba começou a ser publicada em abril de 1923, e, foi o veículo de comunicação de maior circulação e mais influente no estado do Espírito Santo, das décadas de 1920 até 1940. A publicação atingia um amplo público leitor, disseminando atra- vés de suas páginas não somente fatos cotidianos considerados im- portantes, mas, também comportamentos e opiniões determinados pelas classes sociais dominantes. Assim, a importância adquirida por esta revista dentro da sociedade capixaba a transforma em re- levante fonte histórica para podermos conhecer melhor determina- dos aspectos do período em que esteve em circulação. Nosso recorte temporal está inserido entre os anos de 1932 e 1945, o qual na His- tória do Brasil é denominado por Era Vargas, devido à permanência ininterrupta de Getúlio Vargas no comando do país. No Espírito Santo, o aparelho administrativo estadual foi controlado por inter- ventores nomeados pelo governante nacional. Entre 1930 e 1943 o estado foi governado por João Punaro Bley, e, a partir de 1943, a função foi transferida para Jones dos Santos Neves. É fundamen- tal salientar que em 1932 foi criada a Ação Integralista Brasileira, também conhecida pela sigla AIB, primeiramente organizada como grupo cujo objetivo seria estudar a cultura brasileira, depois trans- formada em partido político. O Integralismo conquistou adeptos em diversos setores sociais brasileiros e capixabas. No Espírito Santo a AIB teve importante atuação política no decorrer da década de 1930, elegendo diversos representantes em cargos dos poderes legislativo e executivo municipais de nosso estado. O Integralismo se caracteri- zou por grande determinação na busca de conquistar adeptos à sua causa, usando para isso os mais diversos recursos, entre eles temos a transmissão de discursos do Chefe Nacional da AIB, Plínio Salgado, no rádio, e, além disso, os meios de comunicação impressos foram importantíssimos para a causa Integralista, assim, ocorreu a criação de jornais nacionais e locais, cujo objetivo era fazer propaganda de seus ideais, e, também aconteceram alianças com impressos inde- pendentes para aumentar o raio de alcance de sua propaganda. A Revista Vida Capichaba foi uma aliada dos Integralistas em nosso estado, mas que no final da década de 1930 sofre abrupta mudança do seu discurso em relação à AIB. O objetivo deste trabalho é ana-

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lisar o discurso apresentado na Revista Vida Capichaba acerca do Integralismo, nos anos de 1932 a 1945, visto que a mesma foi uma importante publicação regional, que colaborou para a tentativa da construção de uma opinião pública positiva sobre o Integralismo. Pretende-se mostrar como a revista passa por uma mudança de dis- curso no decorrer do período escolhido como objeto de análise.

Palavras-chave: Imprensa, Integralismo, Espírito Santo.

Desafios da memória como fonte histórica:

esquecimentos, silêncios, mutações e realidades

Dinoráh Lopes Rubim Almeida - UFES

Este trabalho tem como objeto discutir a memória como fon- te histórica, abordando seus desafios e contribuições. Como exem- plo de sua aplicabilidade, analisaremos as diferentes memórias do primeiro foco guerrilheiro do Brasil contra a Ditadura Militar, organizado pelo Movimento Nacional Revolucionário - MNR, em 1966-1967, na região do Caparaó, divisa dos Estados de Minas Ge- rais e Espírito Santo. Para tanto, objetivamos analisar a memória de diferentes atores, demonstrando assim, as diferentes percepções e representações sobre a referida Guerrilha. Daí surge a problemática de filtrar e confrontar depoimentos e documentos, para averiguar a veracidade dos fatos recolhidos. Como metodologia, utilizamos a história oral, recolhendo as memórias dos guerrilheiros, dos agentes da repressão e dos habitantes das comunidades do entorno minei- ro e capixaba do Parque Nacional do Caparaó, que vivenciaram o período. Também são analisadas as memórias dos setores conserva- dores da sociedade, através da análise de documentos, revistas e jor- nais. Entendemos por memória um conjunto de registros episódicos ou semânticos sobre um acontecimento, que pode ser transmitida através de relatos orais, de monumentos, das artes ou de arquivos escritos que trazem os apontamentos de determinado fato. Reconhe- cemos, no entanto, que os arquivos escritos correspondem a uma memória seletiva, filtrada de acordo com as percepções de quem as escreve, uma memória que o historiador francês, Pierre Nora chama de “memória historicizada”. As memórias sofrem, portanto, uma forte percepção do presente, podendo comprometer a originalidade da lembrança, com esquecimentos ou apagamentos, e até mutações, de

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acordo com a vivência do indivíduo que as relata. Tal compreensão é compartilhada pelo filósofo francês Henri BERGSON, que a res- peito das sobrevivências das imagens passadas, alerta no sentido de que “estas imagens irão misturar-se constantemente à nossa percep- ção do presente e poderão inclusive substituí-las.” Tratar de memó- ria é, sem dúvida, mexer em um terreno movediço, que requer cau- tela, uma vez que as memórias não estão isoladas de um contexto e das influências externas que se tornam manipulações conscientes ou inconscientes que atuam sobre os atos mnemônicos. Buscaremos as

memórias e suas inserções na coletividade e na realidade histórica, não destacando os aspectos individuais. Portanto, é na perspectiva da memória, segundo Halbwachs, Le Goff, Ricouer e Pollak, que encontramos os referenciais fundamentais para a reflexão histórica que propomos neste estudo. Daí a importância de ter toda a cautela

e habilidade para nortear a pesquisa nos moldes das lembranças e

memórias, que muitas vezes tornam-se oficiais, representando na verdade uma história defendida por determinado grupo ou clas- se, que busca perpetuar seu poder, através de representações e re- construções da realidade histórica, segundo seus interesses. Mas é

justamente aí que entra o papel do historiador: analisar e discutir o mesmo fato histórico sob diferentes aspectos, apresentando as per- manências e ausências das memórias relatadas, contrapondo-as e demonstrando a luta que se trava sobre o domínio da memória, que

é um processo permanente de construção e reconstrução.

Palavras-chave: Memória, representações, Guerrilha do Caparaó.

Capitalismo e (sub)desenvolvimento no Espírito Santo no século XX

Diones Augusto Ribeiro - Monteiro Lobato Cems/PMV

O trabalho tem como objetivo compreender a inserção da eco- nomia do Estado do Espírito Santo no contexto de desenvolvimento capitalista no século XX. Foi o momento em que diversas políticas públicas foram criadas com o objetivo de superar o atraso do estado através da industrialização e da diversificação da infra-estrutura. Os Grandes Projeto de Impacto, da década de 1970, visavam adequar a economia capixaba a uma nova dinâmica, calcada numa perspectiva oligopolista do capitalismo internacional, através da associação do

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capital público com o privado. Um dos objetivos do trabalho será analisar a superação da representação de bastardia, ou seja, do atraso econômico no Espírito Santo pela via da industrialização planejada. Aliás, a situação secundária do Espírito Santo, dentro do contexto da federação, é devidamente contemplada pela historiografia, o que reforça assim a tese sobre a bastardia. O planejamento e os Grandes Projetos no Estado, já no século XX, foram pensados com o objetivo de reverter essa situação, desenvolvendo as forças produtivas e as indústrias locais para superarem o atraso econômico e social. O de- senvolvimentismo, dentro desta perspectiva, surgiu como projeto a ser seguido pelas elites locais no século XX, já que ele, através de uma série de metas e programas, principalmente através da asso- ciação do capital público com o privado, foi utilizado como meio de se pular etapas do desenvolvimento capitalista, servindo assim para maximizar as forças produtivas e criar um parque industrial forte e competitivo, superando alicerces arcaicos, principalmente aqueles ligados ao setor agrário-exportador, surgindo aqui empre- sas como a Companhia Siderúrgica de Tubarão, Samarco Mineração etc. Tal proposta é justificada pela necessidade de se conhecer melhor os aspectos históricos ligados à industrialização do Espírito Santo, além de seus impactos políticos, econômicos e sociais. Além disso, esperamos elucidar alguns aspectos do desenvolvimento econômico do Estado, esperando como resultado final a elucidação de como se deu a dinâmica do desenvolvimento do capitalismo capixaba. Nos- sa metodologia irá se nortear por uma perspectiva ligada à Econo- mia Política, tendo em vista as relações necessárias entre as políticas públicas e econômicas no contexto da industrialização do Espírito Santo, além de seus impactos no campo social, político e econômico. Dessa forma, pretende-se abordar numa perspectiva histórica liga- das à diferentes contextos, nos quais é possível observar as caracte- rísticas da economia capixaba em sua relação com o capitalismo no Brasil e no mundo. Outra proposta é avaliar como uma perspectiva historiográfica orientada pela noção de déficit histórico do Espírito Santo traz implicações na interpretação e na escrita da história ca- pixaba. No mais, pode-se concluir que o desenvolvimento proposto pelas elites do Estado no século XX não foram acompanhadas de reformas sociais e estruturais significativas, cujos efeitos são per- cebidos neste começo de século XXI, principalmente a questão da miséria social e da violência.

Palavras chaves: capitalismo; bastardia; subdesenvolvimento.

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A Vale do Rio Doce na ordem do dia:

Acusações e omissões no discurso de Eurico Rezende em A Gazeta

Douglas Edward Furness Grandson - UFES

O presente texto tem por objetivo a análise do discurso da colu- na Ordem do Dia, publicada no jornal A Gazeta, de agosto de 1947

a fevereiro de 1948, pelo advogado Eurico Rezende, editor-chefe do

jornal naquele período. A coluna, quase exclusivamente direcionada

à diretoria da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), aborda even-

tos que ocorriam na empresa e que contrariavam o próprio discurso moderno que a legitimava. Observada sob o olhar de Rezende, libe- ral e partidário da UDN, os eventos da direção da empresa foram

decodificados sob tal prisma político, que desqualificou totalmente

a sua atuação, omitindo, porém, no que ela vinha se engajando, que

era a luta pela manutenção da autonomia empresarial em relação aos interesses norte-americanos no comando da estatal. Apontar mecanismos internos da CVRD através das colunas de Rezende e identificar como esses foram alocados no pensamento udenista é o objetivo deste trabalho. A direção da empresa foi composta por bra- sileiros e norte-americanos. Esses, por sua vez, eram representantes do Eximbank. Essa composição gerou uma disputa por poder dentro da sua direção, pois os representantes norte-americanos indicados pelo banco tinham poder de veto nas decisões gerenciais, o que ge- rou reação por parte do presidente da empresa, Dermeval Pimenta e seu antecessor, Israel Pinheiro. Pimenta, percebendo a aproximação do ministro da Fazenda do governo Dutra, Correia e Castro, com os objetivos do Eximbank, juntamente com Israel Pinheiro, exercen- do o cargo de deputado federal, buscou sensibilizar a Presidência da República para a alteração dos estatutos da empresa, com um aporte de capital que eliminasse a influência dos norte-americanos. Travou-se, assim, um conflito entre estrangeiros e brasileiros, esses com forte ideologia nacionalista. Em 1947, iniciou-se a publicação, no jornal A Gazeta, da coluna Ordem do Dia, escrita pelo editor-chefe da publicação, Eurico Rezende. Tal coluna se estendeu de agosto de 1947 até fevereiro de 1948, ou seja, por quase seis meses. Essa colu- na, segundo o autor, servia para mostrar umas “verdadezinhas” so- bre a administração dos engenheiros que comandaram a Vale, haja vista o pedido de aumento de capital feito ao governo federal em 1946, pelas dificuldades que encontravam para investir na estrada

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de ferro. Rezende se pegou no aumento de capital para atacar a di- reção da empresa. Por outro lado, ele adequou situações que real-

mente aconteceram na Vale ao discurso de seu partido, dando um valor peculiar aos eventos, usando da ideologia para conferir sen- tido aos seus achados na Vale. A visão que os udenistas tinham de

si era de superioridade moral em relação aos outros. Por esta razão,

seriam mais aptos ao exercício do poder, “sua missão de sacrifício”. Desta forma, moralismo e elitismo eram marcas do partido, e isso estava refletido na postura de Eurico Rezende. Rezende adequa as situações a sua ideologia, nos deixa traços do que era a CVRD, mas também nos deixa a percepção de que a ideologia privilegia alguns fatos em detrimento ao outros, conforme os interesses em jogo, ba- sicamente a ideologia nacionalista governista sob ataques dos libe- rais, representados pela UDN.

Palavras-chave: Vale do Rio Doce; A Gazeta; Eurico Rezende.

Definindo um Aliado: A Reumanização do Povo Japonês nas Páginas da Revista Life (1945-1964)

Edelson Geraldo Gonçalves - UFES

Esta comunicação tratará do processo de reumanização do povo japonês durante as primeiras décadas do período pós Segun- da-Guerra Mundial, mais especificamente entre os anos de 1945 (ano da rendição do Japão) e 1964 (marcado pela realização das Olimpí- adas de Tóquio), tendo como guia os processos de desumanização do povo japonês, apresentado por John W. Dower em seu livro War Without Mercy, e de reumanização deste mesmo povo apresentado por Shibusawa Naoko, em seu livro America’s Geisha Ally. No perí- odo aqui estudado o antigo inimigo aliado do eixo foi plenamente convertido em um aliado estratégico no contexto da Guerra-Fria, e um povo que durante a Segunda-Guerra foi definido como bárba- ro e fanático pela mídia norte-americana passa a ser definido como amável e plenamente humano, buscando assim varrer da memória norte-americana (e ocidental como um todo) a lembrança do pas- sado recente militarista e agressor da nação japonesa. Na aborda-

gem aqui proposta nos limitaremos à averiguação deste processo nas páginas da revista semanal Life no período de setembro de 1945

a

setembro de 1964, usando como fonte as reportagens referentes

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

ao Japão escritas durante este período e identificando nelas o novo discurso americano sobre o Japão e como este contrasta com o an- terior para assim entendermos a definição dada pelos EUA do seu novo aliado. As questões norteadoras do trabalho serão: como se deu o processo de reumanização do povo japonês nas páginas da revista Life? E como exatamente é esta imagem reumanizada que emergiu dessas páginas? A conclusão é de que o processo de reu- manização se deu pela construção de uma imagem dos japoneses que fosse dentro do possível, familiar aos norte-americanos, sendo o novo Japão não apenas mais um país exótico do Extremo Oriente, mas uma nação moderna e pacificada, que absorveu os valores de democracia e individualismo, tornando-se assim algo reconhecível e confiável aos olhos americanos.

Palavras-chave: Japão; reumanização; Revista Life.

Políticas educacionais no Município de Cariacica:

Aspectos históricos e mudanças institucionais

(2005-2008/2009-2012)

Elisangela dos Santos de Oliveira – PPGE/UFES

A presente comunicação tem como propósito refletir acerca da gestão da rede municipal de educação de Cariacica, no Estado do Es- pírito Santo, desenvolvida entre os anos de 2005/2008 e 2009/2012, com o foco na execução de algumas ações voltadas para a institucio- nalização de novas formas de sociabilidade no contexto escolar, por meio da implantação da gestão democrática. Basicamente, a reflexão busca vetores explicativos para o seguinte questionamento: por que, a despeito de ser algo consensual entre os segmentos que compõem a co- munidade escolar, é tão difícil instaurar uma gestão democrática, de fato, nas escolas municipais de Cariacica? Visando encontrar elementos que possam responder à indagação, o trabalho se inclina para a análise da longa tradição oligárquica do município, cuja principal conse- qüência foi transferir para o ambiente da escola uma lógica de poder na qual não se nota uma distinção clara entre o público e o privado. Analisa-se, também, a sua histórica instabilidade institucional, con- substanciada na grande rotatividade de mandatários, constatada ao longo dos seus mais de 120 anos de município emancipado, e de

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que modo isso pode ser reproduzido e/ou impactado no ambiente escolar.

Palavras-chave: Políticas educacionais; Gestão Democrática; Caria- cica.

A imprensa capixaba no Oitocentos:

redatores, leitores e leituras

Fabíola Martins Bastos - PPGHIS/UFES -IFES

Nesta comunicação discutimos a formação de uma imprensa orgânica em Vitória, capital da Província do Espírito Santo, no in- tervalo de 1849 a 1889, destacando os processos de produção e de recepção dos impressos. Objetiva-se identificar os produtores da imprensa, personalizados na figura dos redatores, e os leitores com suas práticas de leitura. Partimos da premissa de que os jornais ca-

pixabas, desde a sua criação, mantiveram vínculos estreitos com a política provincial, seja por meio dos contratos das tipografias com a presidência da Província para a impressão dos atos oficiais, seja pelo envolvimento de homens públicos nas atividades tipográficas. A pesquisa pautou-se em dois procedimentos: na primeira fase pro- cedeu-se ao levantamento quantitativo dos jornais publicados em Vitória no período assinalado, cotejando as publicações que inte- ressavam ao objeto de estudo; num segundo momento realizou-se

a leitura qualitativa desses registros. Após a análise conjugada dos

aspectos quantitativos e qualitativos da investigação verificou-se a procedência de nossa questão norteadora, porque os redatores e lei-

tores identificados confirmaram a existência de laços estreitos entre

a política local e a imprensa capixaba.

Palavras-chave: Imprensa periódica; Redatores; Leitores; Política.

A Fronteira como espaço de Memória

Filipo Carpi Girão – UFES

Os jovens trazem uma leitura de cultura italiana para a festa bastante peculiar, própria que se diferencia dos mais velhos, mes- mo que estes tenham tomado contato com a festa por meio de seus

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familiares mais velhos. As relações entre cultura e vida coletiva são bastante complexas nesse caso. Esta separação de memória dentro do espaço coletivo se apresenta como uma fronteira entre os jovens

e os anciãos de uma sociedade, desse modo podemos diagnosticar a

presença de duas culturas, uma voltada ao passado que não carece de mudanças e uma totalmente cambiada, por assim dizer jovem. Desta maneira observamos uma fronteira cultural dentro da pers-

pectiva de ser jovem em uma cidade do interior onde o contato com

a Itália se estabelece por meio da homenagem aos nonos e nonas.

Passado e presente se confundem tal como uma fronteira, uma vez que esta é cultural. O trabalho e todos os elementos culturais que o

envolvem demarcam o território de permanência como italianos e como brasileiros, mesmo que estes sejam brasileiros natos apenas com descendência italiana, demarcando assim um lugar de memó- ria que os torna diferentes dentro do quadro populacional do estado do Espírito Santo. Assim sendo, o lugar onde dois conceitos de cul- tura se apresentam torna-se um lugar que não há prevalência nem relativização de uma cultura única. O lugar é produto de uma soma de conceitos e ideias sobre o que vem a ser a cultura, considerando que todos são sujeitos históricos, portanto produtores de cultura. Anderson (2010) nos apresenta o conceito de imaginário que sus- tenta o pensamento de fronteira como ideal simbólico de ruptura entre as gerações evidenciando o ponto de transição do pensamento

tradicional da cultura. Conforma avalia Silva (2000) a fronteira pode ser pensada como a ideia de dimensionamento da característica de uma sociedade especifica como os descendentes de italianos. Fir- ma-se o ideal de uma cultura coletiva italiana que é estabelecida além da fronteira física do país bem como pensando no presente se distancia da cultura existente naquela nação. Portanto, a marca da ruptura não é um processo fronteiriço de estabelecimento desta por meio de uma guerra ou independência é na verdade a montagem de uma cultura própria de um lugar que é longe da base original mas que se denomina dessa maneira, como por exemplo uma cultura ita- liana fora da península. Portanto, uma festa que se propõe resgatar

o passado de uma determinada cultura aparece como um lugar de

fronteira de idade e pensamento, juventude e vivência. Neste senti- do quando há o conflito o que se verifica é de fato a fronteira entre

o jovem e os seus anseios do presente de fronte a recordação de um ancião dentro de uma festa folclórica.

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A construção do passado inglório na representação da trajetória da AIB em Cachoeiro de Itapemirim

Flávio dos Santos Oliveira - UFES

Nas últimas décadas, o depoimento oral visando à análise his- tórica vem adquirindo cada vez mais prestígio nos meios acadêmi- cos, pois a fonte oral não apenas contribui para a preservação de de- terminados fatos e acontecimentos de valor inestimável à sociedade, mas também permite obter, desenvolver e fundamentar novos co- nhecimentos com base na criação de fontes inéditas. Além de sua importância epistemológica por meio do confronto entre os novos conhecimentos produzidos e as versões oficiais veiculadas pela his- toriografia tradicional, o uso das fontes orais exercem uma significa- tiva importância social, sobretudo, no que diz respeito à revisão da memória oficial construída acerca de determinados eventos como o violento conflito envolvendo integralistas, aliancistas e antiinte- gralistas na Estação Ferroviária Leopoldina, quando da trajetória política da Ação Integralista Brasileira em Cachoeiro de Itapemirim. Refletindo sobre essa questão Giovanni Contini estabelece uma dis- tinção entre o que denominou memória oficial (aquela construída e reconstruída pelas instituições) e memória dividida (aquela preser- vada pelos sobreviventes, viúvas e órfãos de um evento traumáti- co). Atualmente, já que existe uma parca documentação sobre o in- tegralismo em Cachoeiro de Itapemirim, a memória coletiva que se construiu por meio de instituições como a família, escola, igreja, Es- tado, partido etc., amiúde ignora e negligencia os ressentimentos da dor, do luto e do escândalo, impressos no espírito dos protagonistas que vivenciaram aquele evento. Com efeito, a importância dessa pesquisa consiste em contribuir, de alguma maneira, para ampliar os estudos da AIB no Espírito Santo e, em especial, Cachoeiro de Itapemirim. Nosso objetivo aqui é propor novos questionamentos acerca da trajetória da AIB em Cachoeiro de Itapemirim e investigar por que uma parcela considerável dos cachoeirenses da década de 1930 aderiu ao movimento. A metodologia utilizada neste trabalho combinará a pesquisa bibliográfica cujo objetivo é situar o problema dentro de uma perspectiva teórica mais abrangente, com a pesqui- sa documental, onde foram analisados, entre outras fontes, o jornal Vida Capixaba, trechos de entrevistas concedidas por ex-militantes da AIB e da ANL e, principalmente, o importante documento his-

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tórico de inestimável valor sócio-cultural realizado pelo jornalista Luzimar Nogueira Dias.

Palavras chaves: Integralismo; Memória coletiva; Ideologia.

Enlaces e desenlaces:a estabilidade das famílias escravas no Espírito Santo (1790-1871)

Geisa Lourenço Ribeiro - UFES

Às vésperas da Abolição, em 1888, o Espírito Santo permane- cia intimamente ligado à escravidão, ainda que abrigasse regiões bastante diferentes em seu território. No século XIX, é possível dis- tinguir três divisões administrativas na Província espiritossantense, sendo que duas delas receberão enfoque neste trabalho. A primeira, de colonização mais antiga, é a Central, nos arredores de Vitória; esta se caracterizava pela produção de alimentos em pequenas pro- priedades e por uma população escrava basicamente crioula. En- quanto isso, o Sul foi marcado por uma colonização tardia e por grandes propriedades agroexportadoras. As diferenças intraprovin- ciais foram exacerbadas após meados do Oitocentos com a expansão da cultura cafeeira na província. Para o Sul, ricos fazendeiros do Rio de Janeiro e de Minas Gerais migraram junto de suas famílias e de seus escravos, onde montaram imensas fazendas cafeeiras — para os padrões do Espírito Santo —, contribuindo para afirmar a região como o reduto da grande lavoura provincial. Tais caracterís- ticas transformam as terras espírito-santenses em locus privilegiado para a pesquisa referente à escravidão. Aproveitando esse cenário dinâmico, estabeleceu-se como objetivo investigar a estabilidade da família escrava — cuja existência não é mais assunto a ser debatido, posto que amplamente confirmado — nas Regiões Central e Sul da Província capixaba, procurando perceber as diferenças e semelhan- ças entre os cenários de pequenas propriedades e aquele dominado pelas grandes fazendas cafeeiras, desde o final da Colônia (1790) até a libertação do ventre das mulheres cativas (1871). Importa per- ceber se a Lei Eusébio de Queirós, que pôs fim ao tráfico Atlântico, interferiu na instituição escravista, nas relações entre senhores e es- cravos, especialmente no quesito “família”. Por uma questão meto- dológica, o período estudando será subdividido em dois: o primeiro refere-se aos últimos anos da Colônia, iniciando-se em 1790 e esten-

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dido até 1821; o segundo começa no ano da citada Lei que pôs fim à importação de escravos africanos (ainda que tenha levado alguns anos pra isso), isto é, em 1850, e termina com a promulgação da Lei Rio Branco, responsável por eliminar a possibilidade de reiteração da escravidão por meio dos nascimentos. Seguindo o exemplo dos pesquisadores da família escrava, utilizamos como fonte básica de pesquisa inventários post-mortem, testamentos, livros de casamento, relatórios do Censo e de presidentes de província. Tal documenta- ção, como se percebe, privilegia análises quantitativas, para as quais utilizamos como instrumento de análise o programa SPSS. Contudo, ainda que cada fonte se assemelhe a um “retrato”, revelando apenas um breve instante da vida daquelas pessoas, ela permitiu estabe- lecer os perfis das famílias escravas em cada região estudada, bem como perceber o reconhecimento de sua importância — inclusive pela sociedade escravista — tanto na área de pequenas proprieda- des quanto no reduto da grande lavoura.

Palavras-chave: Escravidão; Famílias; Espírito Santo.

Imigração pomerana no Espírito Santo:

território e identidades

Helmar Spamer - UFES

Esta pesquisa está vinculada ao Laboratório de Estudos do Mo- vimento Migratório (LEMM) da Universidade Federal do Espírito Santo, e o que se propõe nesta comunicação é apresentar sua fun- damentação teórico-metodológica. A imigração europeia marcou a história do Espírito Santo. Desde meados do século XIX o Estado passou a receber grandes levas de imigrantes, dentre os quais se encontravam os pomeranos, tema de estudo deste trabalho. Eram oriundos da antiga região da Pomerânia, uma província da Prús- sia, próxima ao Mar Báltico, subdividida em Pomerânia Anterior (a oeste) e Pomerânia Posterior (a leste). A maioria dos pomeranos que migraram para o Espírito Santo é originária da Pomerânia Pos- terior, região que foi anexada ao território polonês após a Segunda Guerra Mundial. Os pomeranos foram grandes desbravadores das terras capixabas, estabelecendo-se inicialmente na região das mon- tanhas e, posteriormente, no final do século XIX e início do século XX, migraram também para o Norte do estado, em direção ao Vale

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

do Rio Doce. Nosso objeto de pesquisa é uma comunidade pome- rana localizada no Município de Pancas ao norte do Espírito Santo, mais especificamente no distrito de Laginha. Por meio da História Oral e à luz de uma bibliografia já existente, pretende-se entender a dinâmica de deslocamento transmigratório dos pomeranos dentro

do Espírito Santo e analisar os aspectos socioculturais, econômicos e políticos que caracterizam esse deslocamento. Além de fontes orais, que ainda serão colhidas, nos utilizamos, também, de outras fontes disponíveis como registros religiosos, documentos oficiais e mate- rial iconográfico para obter maior coleta de informações possíveis e promover melhor discussão e análise da problemática em questão. Os imigrantes pomeranos apresentam estreita ligação com a terra

e com o seu cultivo. Isso decorre devido ao assentamento dos imi-

grantes em pequenos lotes de terra — minifúndios — aspecto que caracteriza o Espírito Santo até os dias atuais. Na comunidade po- merana de Laginha predomina a produção do café como principal fonte de renda. Há de se observar que as comunidades pomeranas localizadas nos municípios serranos do estado destacam-se pelos hortifrutigranjeiros. Discutimos, nesta pesquisa, questões que per- meiam o conceito de território no cotidiano campesino das relações

sociais estabelecidas, considerando que território não se restringe somente ao material, à terra, por exemplo. Território é o lugar onde

o homem manifesta a sua existência e todas as suas relações, o exer-

cício da vida. Muitos traços culturais ainda permanecem firmes e são expressos nas tradições pomeranas. No entanto, muitos cos- tumes se perderam no decorrer do tempo. Além disso, elementos culturais foram transformados e reelaborados. Assim, trabalhamos, também, com o conceito de identidades, no intuito de discutir essas transformações culturais e como elas se estabelecem e são identifica- das no cotidiano pomerano com vistas a compreender as caracterís- ticas utilizadas para identificar o povo pomerano como grupo social étnico no Espírito Santo.

Palavras-chave: Pomeranos; Território; Identidades.

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Gênero, Papel Social e o Poder Masculino:

Contribuições Conceituais para a História Social das Relações de Gênero

Helvécio de Jesus Júnior - UVV - UFES

O gênero, enquanto campo específico de estudo, tem sido ali- jado de muitas áreas de conhecimento das ciências sociais nos seus chamados mainstreams teóricos. Em outras palavras as característi- cas e funções relativas ao papel feminino, em muitos casos, são colo- cadas em subcategorias às margens das perspectivas filosóficas e so-

ciológicas. Seja por sua condição inferior nas sociedades tradicionais pós-coloniais onde essas modalidades de conflitos abundam, seja por seus papeis sociais submissos nessas sociedades, as mulheres acabam sendo as maiores penalizadas com os efeitos colaterais das guerras. As mulheres que precisam buscar alimento e água ficam limitadas ou mesmo paralisadas em razão da guerra, além disso, são absurdamente elevados os números de abusos sexuais verificados nesses conflitos e noticiados por organizações não-governamentais (ONG) de direitos humanos e pela Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo desse artigo é apresentar os debates conceituais

e teóricos sobre conceitos como gênero, família, papel social e po-

der masculino no âmbito da História Social, Sociologia e Teoria das Relações Internacionais. Em um primeiro momento destacarei os temas das relações de gênero, papel social e controle social. Em um segundo momento descreverei a análise sobre o papel social mascu- lino, ou seja, a construção social de uma identidade dos homens e os padrões de poder e violência incutidos nesses processos. Outrossim, buscarei apresentar o debate incipiente sobre o papel do gênero na

História Social, suas principais origens e suas agendas. Tratarei das repercussões teóricas desse novo movimento para a História Social

e dos fenômenos políticos relacionados às mulheres que deman-

dam mais atenção analítica no mundo contemporâneo. A história das relações de gênero é um campo primordial para a compreensão da construção social das relações de gênero. Os estudos dentro da historiografia sobre o papel social desempenhado por mulheres e homens demonstram que a concepção do conceito de gênero não se- gue apenas significados biológicos. Compreende-se, à luz da histó-

ria social das relações de gênero, que a hierarquização da sociedade

e os preconceitos advindos desse modelo são processos históricos

informados por contextos culturais específicos que ditam modelos

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

de comportamento para homens e mulheres e moldam as identida- des de gênero conforme os interesses políticos, sociais e econômi- cos. A imposição de um papel social masculino voltado ao poder de controlar as mulheres, ao ser macho, a virilidade e a agressividade, sugerem que os homens são igualmente objetos dessas imposições culturais e acabam agindo dentro das expectativas de uma cultu- ra de gênero patriarcal que consolida um ambiente hostil para as mulheres. Para compreender a estrutura das relações de gênero de um determinado período é preciso recorrer a história da construção desses conceitos. As transformações no âmbito dos papeis sociais esperados entre homens e mulheres são lentas, pois não seguem a uma lógica jurídica ou institucional, mas sim cultural, representada nos valores sociais mais internalizados na identidade dos indivídu- os.

O Impacto da consciência negra na visão, no comportamento e na atitude social dos alunos sobre a questão da igualdade étnico-racial

Jayza Monteiro Almeida – Faculdade Saberes

A abordagem deste estudo diz respeito respeito à Consciência Negra e o comportamento dos alunos sobre a questão da igualdade étnico-racial. Assim, entende-se que o Brasil tem traçado o rumo da conscientização étnica desde o final da ditadura militar, quando com a volta da liberdade de expressão, diversos movimentos sociais foram fundados para manifestar o direito das minorias étnico-ra- ciais e lutarem pelo seu reconhecimento histórico-social. As etnias indígenas e os auto-denominados afro-descendentes começaram a se organizar para conquistar seu espaço na sociedade a partir da educação e das leis. Assim, diante do cenário ora apresentado, de- finiu-se como objetivo geral analisar o impacto da comemoração do Dia da Consciência Negra nas representações, atitudes e com- portamentos dos alunos sobre a igualdade étnico-racial. Entre os objetivos específicos, destacam-se: conhecer as representações dos alunos sobre a igualdade étnico-racial; caracterizar o que vem a ser consciência negra; apresentar conceitos sobre racismo, preconceito e igualdade étnico racial. A justificativa do estudo está no fato de poder demonstrar que a etnia afro-descendente avançou em relação às suas reivindicações, conquistando a promulgação de Lei Especí-

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fica que obriga o estudo da História da África. Interessante é que a referida lei é anterior aos PCNs, que não a incluíram; assim, apesar de lei obrigatória em relação ao estudo das raízes africanas do povo brasileiro, o próprio Estado a cargo da Educação não conseguiu fa-

zer com que a lei seja aplicada. O que se conseguiu foi a instituição, em 2003, de lei que obriga o Dia Nacional da Consciência Negra

a ser comemorado nas escolas, ocasião em que a conscientização

em relação às diferenças a partir dos afro-descendentes, é pratica- do. A relevânica do estudo, está ainda, no fato de mostrar que os

problemas de discriminação e preonceitos vivenciados pela etnias estimularam esta pesquisa. A metodologia foi elaborada com base na pesquisa bibliográfica como levantamento dos fundamentos teó-

ricos sobre a temática. A investigação teórica (revisão bibliográfica) aborda livros, periódicos, revistas especializadas, etc, em forma im- pressa ou eletrônica). As conclusões finais do estudo demonstraram que a implementação dos objetivos legais em torno da valorização da etnia afro-brasileira parece não ter encontrado aceitação por par- te das próprias escolas, que anos depois de lei específica obrigando

o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, ainda discute a sua implementação global a partir de experiências-piloto em algumas escolas. Um plano nacional para implementação da lei, cinco anos depois de sua promulgação pelo governo federal é propalado pelo MEC como conquista da sociedade brasileira.

Palavras-chave: Racial. Consciência. Comportamento.

Cachoeiro de Itapemirim - ES: Para além do bairrismo

Joana D’Arck Caetano - UFES Sílvia de Souza Dias - UFES

O presente trabalho propõe a reflexãono que tange ao senti- mento conhecido como bairrismo, expresso no discurso e atitudes de um grupo da sociedade na cidade de Cachoeiro de Itapemirim - ES. O discurso é caracterizado pela defesa da cidade, privilegiando a “terra natal”, e encontra presente nos espaços tradicionais na cida- de, nas rodas de conversa e pontos de encontros. Conhecido como epicentro econômico em meados do século XIX, sendo responsável pela dinâmica econômica da província de todo o Espírito Santo, no contexto da produção cafeeira, o sul do Espírito Santo, teve até mea-

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dos do século XX a presença de uma oligarquia que atuou no âmbito estadual. Paralelo a questão econômica, uma intensa atividade cul-

tural se destacou no cenário nacional, expressadas na literatura, tea- tro, cinema, música e política que se perpetuou até os anos sessenta. Cachoeiro de Itapemirim foi palco de muitas atividades culturais

e a vida social se enchia de encantos e viveu uma época de glória

não só no campo econômico, mas também no político e cultural. A música também se fez presente através da Escola de Música de Ca-

choeiro de Itapemirim, que oferecia aulas de solfejo, violino, piano, violoncelo, cornetim trombone, flauta, saxofone e canto e no que se refere às bandas de música, ainda é mais longínquo os registro, pois datam de 1880, 1900, 1917, 1922 e 1931, sendo que duas delas ainda existem na atualidade, a banda Lira de Ouro (1922) e a banda 26 de julho (1931). São de Cachoeiro personalidades artísticas conhecidas nacionalmente e algumas obras que também expressam o sentimen- to pela cidade. Talvez este grupo, que possui esse sentimento de bairrismo, vê a cidade com os olhos do passado e revela uma sauda- de dos tempos de glória que muitos não conheceram. A história tem buscado se relacionar com diversas áreas do conhecimento, sendo

o estudo do sentimento, entendido como importante para a com-

preensão da dinâmica social. Debater esse tema — o bairrismo em

Cachoeiro de Itapemirim — é bastante oportuno, uma vez que não há outro trabalho em termos acadêmicos que tenha se debruçado sobre o assunto. É salutar o “amor” à terra, a sua defesa frente a ati- tudes que tentam reduzir, desclassificar ou macular a sua imagem.

a defesa do ninho e de seu ambiente. Mas a extremada condição

do bairrismo pode ser também um comportamento alienante, in-

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capaz de ver o que existe de bom além do muro imposto por esse sentimento. A questão é: até onde o sentimento de bairrismo é salu- tar para a cidade e até onde é prejudicial em relação à imagem que podemos passar? OBJETIVO: Refletir se o bairrismo pertence a toda população cachoeirense e se está relacionado ao período econômico

e cultural citado. METODOLOGIA: A pesquisa foi feita através de

entrevista matérias de jornais, literatura diversificada e revisão bi- bliográfica.

Palavras-chave: Cachoeiro de Itapemirim; bairrismo; sentimento.

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Verdade e virtude: na disputa anti-maniqueísta de Agostinho de Hipona

Joana Paula Pereira Correia - PPGHIS - UFES

Nas Confissões, escrita no momento de maturidade do hiponen- se, quando este já era bispo de Hipona, Agostinho destaca a busca pela verdade como norteadora de sua entrada e saída no Manique-

ísmo e sua transição para o Cristianismo. Obra autobiográfica na qual o autor relembra sua trajetória de infância e juventude, o mani- queísmo é mencionado como um erro do passado, no qual em busca da verdade o jovem é enganado pelas promessas maniqueístas. A verdade buscada pelo jovem hiponense era o conhecimento filosófi- co do mundo criado, suas causas primárias e secundárias. Pelo uso da razão queria compreender a origem do universo, compreender o uno e o múltiplo, e, portanto, Deus. Agostinho encontra a explicação para a origem do universo primeiramente no maniqueísmo passan- do a compreender o mundo de forma dualista. Para os maniqueus

o mundo foi criado devido a uma disputa entre Satanás (Príncipe

das Trevas) e Deus (Príncipe da Luz). Nesta disputa, parte da luz é aprisionada pelas trevas, o que dá início a criação do universo, para separar novamente luz e trevas / bem e mal / matéria e luz. O ho- mem também compartilha desta mistura, sendo sua alma boa, cabe

a ela buscar a salvação, ou seja, o retorno a Deus, por meio de prá-

ticas ascéticas, ou seja, pelo afastamento das questões materiais. Os maniqueus são divididos em dois grupos, os eleitos e os ouvintes. Os primeiros são espécie de clérigos que devem cumprir um rígido

código moral ascético, que os impedede dizer mentira, blasfêmia, perjúrio, comer carne, beber bebidas alcoólicas, se casar, fazer sexo, trabalhar, matar animais vegetais e seres humanos; devem viver da caridade do ouvinte. Já estes, espécie de catecúmenos, seguiam

a uma moral menos rígida, podiam se casar, mas não deviam ter

filhos, deviam fazer jejuns de tempos e tempos e evitar alimentos como carne e bebidas alcoólicas. Agostinho permanece como ou- vinte maniqueísmo por nove anos, quando se desilude e após um período de crise se converte ao cristianismo, no qual julga encontrar explicações para todas as suas angustias morais e intelectuais. Nes- te também compreende a virtude como um conceito cristão, como algo buscado e desejado pela alma, é encontrada em Deus. Assim, verdade e virtude estão intimamente ligadas à fé e à Igreja Católica e passam a ser utilizados no combate ao Maniqueísmo. Este trabalho

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busca analisar o uso que Agostinho faz destes conceitos no primeiro livro de Demoribuseclesiaecatholicaeet de moribusmanichaeorum bus- cando compreender como estes são fundamentais para a compreen-

são da trajetória intelectual e moral do hiponense, assim como para

a disputa com os maniqueístas.

Palavras-chave: Maniqueísmo, Agostinho de Hipona, verdade, vir- tude, anti-maniqueísmo

Debate de Tortosa e o processo de representação e estigmação judaicos

Jordânia Lopes de Freitas - UFES

Os judeus foram segregados e estigmatizados na sociedade medieval cristã. As qualidades e virtudes cristãs foram apresenta- das em contraponto aos defeitos judaicos. A questão religiosa de- sencadeou uma série de confrontos, que perpassaram pelo campo político, econômico, social e cultural. Durante toda a Idade Média

os judeus sofreram vários ataques (verbais e físicos) por parte da co- munidade cristã, que os considerava infiéis, pecadores, avarentos e praticantes de usura. Inúmeras vezes este antijudaísmo aflorou e as comunidades judaicas foram perseguidas e atacadas, como ocorreu nos reinos de Castela e Aragão no final do século XIV. Diante desse contexto de conflito entre culturas e religiões diversas destacamos

a problemática de qual seria o interesse da Igreja Católica, no reino

de Aragão, organizar um novo debate (Tortosa) entre cristãos e ju- deus no início do século XV? O desejo/interesse de uma possível conversão em massa de judeus, para alguns setores da Igreja (em especial os dominicanos) e para os monarcas hispânicos serviria, de fato, para uma confirmação/reafirmação da identidade cristã que se encontrava em crise? A identidade cristã se encontrava enfraqueci- da por uma crise no instalada no interior da Igreja haja vista a dis- puta entre os três papas rivais, bem como a existência de críticas ao poder secular/temporal adquirido pela Igreja e seu distanciamento dos valores apostólicos. Nessa comunicação, temos por objetivo ex- plorar a maneira pela qual a Igreja Católica, por intermédio das suas campanhas e preconceitos contra os judeus dificulta a interação en- tre judeus e cristãos e tenta isolar ainda mais os primeiros buscando preservar a comunidade cristã de toda “contaminação” advinda dos

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meios judaicos. Em alguns momentos, podemos perceber a tentati- va de estimular e intensificar a conversão forçada de judeus ao Cris- tianismo. Em 1391, um elevado número de judeus das comunidades aragonesas e castelhanas foi obrigado a escolher entre o batismo ou a morte. Neste contexto de adversidade para as comunidades ju- daicas nos reinos ibéricos, a promulgação da Bula de Benedito XIII (1415) e o ordenamento das Cortes de Valladolid (1412) corrobora- ram para status construído do Judaísmo como religião “inferior” e desprezível tanto para o monarca castelhano quanto para o arago- nês, assim como para alguns setores da Igreja. Para tanto, analisa- remos a disputa judaico-cristã de Tortosa (1413-4), fazendo uso da Análise do Discurso, promovida pelo soberano da Coroa de Aragão e pelos prelados cristãos, em comum acordo de alguns judeus con- versos, com a finalidade de conferir maior credibilidade à identida- de cristã a custo da estigmatização dos judeus e suas crenças.

Palavras-chave: Judeus; Representação; Estigmatização.

Jacobinos na Independência do Brasil:

uma análise do radicalismo político nos impressos do processo de independência do Brasil

Jorge Vinícius Monteiro Vianna - UFRRJ/Faculdade Saberes

O processo de Independência do Brasil deixou como legado um conjunto de documentos impressos que revelam as diferentes formas com que indivíduos e grupos imaginavam uma nação bra- sileira ideal. Para além da possibilidade de ruptura ou de estreita- mento dos laços entre Brasil e Portugal, os escritos políticos deste complexo processo histórico são capazes de nos revelar uma gama de divergências políticas, apresentadas por meio de um amplo e rico vocabulário político no qual a historiografia da Independên- cia ainda precisa destinar mais atenção. A proposta de comunicação sustenta a existência de dois diferentes projetos políticos de nação no âmbito da elite intelectual defensora do ideal de soberania do povo durante o processo de independência do Brasil, ou seja, um projeto centralizador e monárquico, além de outro, radical, fede- ralista e republicano. Em suma, é sobre esse segundo projeto que estruturamos nosso estudo. Assim, a comunicação visa apresentar uma investigação das principais características do liberalismo polí-

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tico radical durante o processo de Independência do Brasil. Busca-se desconstruir a perspectiva historiográfica que enfatiza a existência da opção monárquica como uma alternativa política única dentro do debate político iniciado com a difusão do ideário político cons- titucionalista e liberal vintista. Para tanto, os escritos políticos de circunstâncias evidenciados nos periódicos redigidos por sujeitos históricos como Cipriano Barata, João Soares Lisboa e Frei caneca, bem como panfletos anônimos, serão analisados na perspectiva me- todológica das Linguagens Políticas desenvolvida por Q. Skinner e J. Pocok. Teoricamente trazemos à análise do conceito de radicalis- mo político, baseado em autores como Arturo Colombo e Marcello Basile, que definem essa noção, no Oitocentos, como uma união de valores liberais e democráticas. As análises estão focadas nas ques- tões referentes à defesa da soberania do povo, do federalismo, do di- reito de resistência, do republicanismo e do antimonarquismo, isto é, características centrais do radicalismo político no início do século XIX. Objetiva-se, portanto, demonstrar que, para além dos projetos políticos monárquicos, existiam, no âmbito político, projetos de na- ção que avançavam em busca de uma legitimação concreta da noção prática de soberania popular.

Palavras-chave: Independência do Brasil; Radicalismo; Imprensa.

Existe uma identidade capixaba? Dilemas de um Historiador

José Candido Rifan Sueth - UFES

Neste estudo pretende-se analisar a importância, para a histo- riografia, das pesquisas relacionadas com a problemática da identi- dade, especificamente de uma identidade regional, como a capixaba. É historicamente conhecido que, na vida política capixaba, existem alguns traços que permanecem há mais de um século, talvez permi- tindo, por isso, afirmar que se tratam de características que fazem parte de uma longa duração, conforme o conceito de Braudel. Po- de-se citar como exemplo a atuação política de Muniz Freire que, ao longo de sua intensa vida pública, tomou várias atitudes, pro- nunciou inúmeros discursos e escreveu muitos artigos em que se lamenta do desprezo e do esquecimento em que é colocado o estado do Espírito Santo no cenário político nacional. Este artigo cita al-

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guns trechos de suas Cartas ao Imperador, escritas em 1885, em que ele coloca muito claramente essa problemática. Em muitos de seus

escritos, Muniz Freire deixa essa ideia muito clara: o Espírito Santo é um estado “satélite” na Federação. Ora, essa característica do estado do Espírito Santo permanece ao longo do século XX e chega ao sécu- lo XXI. O artigo faz referência, por exemplo, ao fato de que em todo

o período da Primeira República (1889-1930), o estado do Espírito

Santo foi tão ausente da política nacional, que sequer um político capixaba esteve presente em qualquer dos diversos ministérios que

compunham os governos de então. Ora, para quem acompanha a

política brasileira na atualidade, vê-se que se trata de uma perma- nência histórica, em que a exclusão do estado do Espírito Santo - e

a mágoa daí decorrente, marcando muitas declarações de políticos,

como também de representantes da intelectualidade capixaba. Po- de-se, assim, afirmar que se trata claramente da continuidade de um mesmo processo no qual a autonomia do Espírito Santo acha-se ausente pelo menos há mais de um século. Isto tudo fará parte de uma identidade política capixaba? Existe essa identidade política? É historicamente admissível estudar identidades políticas regionais?

Tem importância histórica estudar identidades regionais em plena era da globalização? São perguntas que as reflexões até aqui feitas certamente suscitam e cujas respostas este artigo procura encontrar.

O artigo, então, procura se aprofundar, primeiramente, no conceito

de identidade. O que se deve entender por identidade? Trata-se de uma problemática do semelhante e do diferente, ou seja, da identi- dade, e que já preocupava os pensadores, desde a Antiguidade. For- mulado o conceito, o artigo parte para o estudo de autores como Zygmunt Bauman, Peter Burke, Stuart Hall e René Rémond, a fim de indagar sobre o que eles entendem por identidade e a importân- cia de seu estudo para a historiografia atual. Bauman, por exemplo, afirma que atualmente a identidade é o papo do momento, um as- sunto de extrema importância e em evidência. Tratam-se de autores que desenvolvem conceitos e sugerem metodologias que permitam ao pesquisador aprofundar-se no estudo dessa problemática e, as- sim, analisar casos concretos, como o do estado do Espírito Santo.

Palavras- chave: política; identidade; estado do Espírito Santo.

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O cotidiano na Antiguidade Tardia:

considerações em torno da África romana nos tempos de Agostinho de Hipona (354-430)

José Mário Gonçalves - UFES

De acordo com Agnes Heller, a vida cotidiana é a vida de todo ser humano, vivida por inteiro. Dele participam todos os aspectos de nossa individualidade, todos os nossos sentidos, capacidades, habilidades, sentimentos, paixões, ideias e ideologias. É a vida do indivíduo, mas sempre em relação com uma comunidade, na qual constrói tanto sua consciência individual, quanto coletiva. O coti- diano é lugar de permanências e de rotinas, mas também de ruptu- ras e de transgressões. Nele, o indivíduo possui uma margem, ainda que limitada, de movimento e invenção, que o permite se apropriar da realidade a seu favor e imprimir nela a sua própria marca. A presente comunicação tem como objetivo tratar do cotidiano como locus apropriado para se investigar a história, com atenção especial à África Romana entre fins do século IV e início do século V, palco de controvérsias que envolveram o bispo Agostinho de Hipona contra os donatistas e outros grupos religiosos que coexistiam no mesmo espaço geográfico. O trabalho está estruturado em três partes: na primeira, faremos um breve balanço historiográfico a respeito do tema do cotidiano, apontando as principais contribuições teóricas dadas à sua compreensão — com destaque para os trabalhos de Ag- nes Heller, Erving Goffman e Michel de Certeau. Na segunda par- te, discutiremos a pertinência e a possibilidade de fazer uso dessa perspectiva para estudar o período tardo antigo, procurando definir o que caracteriza o cotidiano naquele contexto histórico. Aqui, pro- curamos destacar o lugar que a religião ocupava no cotidiano e sua relação com outras áreas da vida. Na parte final, a nossa atenção se volta para a questão dos métodos e fontes de pesquisa. Quan- to às fontes, elegemos em nossa pesquisa de doutorado as cartas que Agostinho, ao longo do seu ministério episcopal, trocou com inúmeros interlocutores. Em virtude de sua natureza mais pesso- al e circunstancial, bem como da diversidade de temas, pessoas e situações tratadas, entendemos que a correspondência do bispo de Hipona nos permite olhar mais de perto o cotidiano do período em questão. No tocante ao método, acreditamos ser adequado o uso do paradigma indiciário, que, conforme Carlo Ginzburg, nos ajuda a prestar atenção aos detalhes, aos casos particulares, aos indivídu-

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os, enfim, a tudo que pode ser revelador das relações cotidianas. A intenção é ler as cartas agostinianas lançando sobre elas um olhar oblíquo, percebendo os indícios dos conflitos, das negociações, das táticas de resistência e de sobrevivência num cotidiano permeado pela presença significativa das questões religiosas.

Palavras-chave: cotidiano; Agostinho; religião.

A atuação da Guarda Nacional na província do Espírito Santo (1831 a 1862)

Kamyla Nunes de Deus Oliveira - UFES

Nesta comunicação, analisamos a atuação da Guarda Nacional na província do Espírito no período de 1831 a 1862. Para tanto utili- zamos como fontes: o Registro da Correspondência do Governo re- lativo à Guarda Nacional (1846-1871), o Registro da Correspondên- cia do Governo com diversas autoridades civis e militares da capital (1831-1837) e os Relatórios dos Presidentes de Província de 1831 a 1862. A Guarda Nacional foi criada nos primeiros anos da Regência, sendo uma das medidas de descentralização que aquele fértil pe- ríodo promoveu. A também denominada milícia cidadã procurou denotar a presença do Estado por toda extensão do Império, uma vez que ela estava presente em todas as províncias brasileiras. Os guardas nacionais executavam serviços ordinários dentro do muni- cípio, serviços ordinários de destacamento fora do município (estes eram remunerados) e serviços de auxílio ao Exército de Linha. Além disso, o serviço dos milicianos era solicitado para capturar crimi- nosos, segundo requisição feita pelos juízes locais e delegados de polícia; para patrulhamento e policiamento das cidades, assim como das guarnições de cidades e prisões; para destruir quilombos, repri- mir o tráfico de escravos, dentre outros serviços. Ao mesmo tempo, a milícia cidadã constituiu-se num espaço de expressão do domínio das elites locais que ocupavam os principais postos de comando. No Espírito Santo é possível observar em sucessivos relatórios dos pre- sidentes de província a necessidade de se organizar a milícia para reprimir, sobretudo, os grupos de escravos fugidos. Tais relatórios atestam o que autores como Jeanne Castro (1977) apontam: a demo- ra para se organizar plenamente a Guarda Nacional ocorreu devido, sobretudo, à ausência do Estado no cumprimento de suas responsa-

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

bilidades, que eram poucas, com a instituição. O provimento de ar- mas e instrução segundo a Lei do Orçamento eram despesas gerais, portanto, cabia ao Governo Central fornecê-los. Porém, ele não cum- pria com suas funções, ficando a Guarda Nacional dependente dos recursos dos milicianos de alta patente. O crescimento de algumas vilas da província do Espírito Santo, no século XIX, alertavam para a necessidade da organização efetiva da milícia. A Guarda Nacional no Espírito foi um exemplo de instituição em busca da organização para seu funcionamento previsto na lei que a criara, a Lei de 18 de agosto de 1831. A ausência mínima do Estado, somada à falta de estrutura que a província já enfrentava, impediu que se formasse um verdadeiro aparato que contribuísse na manutenção da ordem nesta província. Da mesma forma, observamos que embora fossem muitas as carências no Espírito Santo o fracasso da milícia como instrumento de Força pública não foi um privilégio desta província.

Palavras-chave: Espírito Santo; Guarda Nacional; Força pública.

O Antijudaísmo Medieval em perspectiva:

a violência dos pogroms da Primeira Cruzada e sua influência sociocultural e religiosa para as comunidades ashkenazim da Germânia no século XI

Karla Constancio de Souza - UFES

O presente estudo irá alocar sua discussão entre os séculos X-XI, início de um longo período de violência e perseguição contra judeus da Europa. Especialmente na região germânica do Vale do Reno, o contexto foi marcado pelos maiores pogroms da Idade Média, a de- nominada Cruzada Germânica. A conjuntura foi palco da incitação dos fiéis cristãos pelos sermões de clérigos itinerantes em favor do extermínio de judeus e hereges, assim como a consagração do ódio antijudaico. Foi também momento de fortalecimento da influência do Cristianismo e da Igreja no campo dos valores e ideias do homem medieval. A tolerância aos judeus entra em questão quando surgem acusações de deicídio, conspiração, usura, e uma série de outras ca- racterísticas difamatórias que vinham sendo radicadas no imaginá- rio popular por séculos e agora serão intensificadas. Dentre nossos objetivos buscaremos identificar a posição do alto e baixo clero em relação à presença judaica e sua funcionalidade na sociedade cristã.

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Assim poderemos observar a influência do conflito discursivo cle- rical para a efetivação da violência contra as judiarias do Vale do Reno na Primeira Cruzada, aliada aos agravantes da estigmatização dessas comunidades judaicas. Em paralelo a todo esse contexto his- tórico que se desenvolve e culminará nos pogroms, ou seja, os mas- sacres perpetrados contra comunidades judias ashkenazim do Sacro Império Romano Germânico, iremos delinear algumas percepções iniciais sobre uma problemática em que procuramos verificar o im- pacto que tais acontecimentos causaram ao judaísmo como religião e cultura a médio prazo. Definimos como “médio prazo”, pois nos- sa fonte foi, segundo especialistas, escrita cerca de um século após os eventos, como uma maneira de fortalecer a identidade judaica que estava se deteriorando. Segundo Avraham Grossman e Jeremy Cohen (1994) a apostasia representava uma séria ameaça para as ju- diarias germânicas no período em que foram compostas as crônicas, e se a deterioração social e religiosa fosse uma questão de apostasia, enfatizar o repúdio da conversão em 1096 e a apologia ao sacrifício do mártir eram linhas lógicas a se seguir. Outra problemática que também traremos à luz deste trabalho diz respeito à questão deter- minante que foi a divergência dos discursos entre alto e baixo clero para o desenvolvimento desses eventos. Problematizaremos a atri- buição dos pogroms como consequência de um discurso derivado do baixo clero da Igreja, o que valida tal discurso como uma das vozes da instituição, mesmo que não oficial. Para isso utilizaremos uma ótica que abarcará conceitos como identidade e alteridade, desta- cando os estudos acerca dos marginalizados e excluídos do mundo medieval. Nossa metodologia utiliza o conceito das representações d’ A História Cultural de Roger Chartier para analisar a construção da representação criada no imaginário de uma comunidade em re- lação à outra — entre cristãos e judeus e vice-versa — que se revela como um produto criado para o benefício da concepção da própria comunidade criadora. A análise de fontes se fundamenta na Análise do Discurso, e para isso nos baseamos em duas obras principais: Eni Orlandi (2006) e Helena Brandão (2002).

Palavras-chave: Antijudaísmo; Idade Média; Cruzadas

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

Escritoras do Oitocentos e o movimento abolicionista:

emancipando escravos e mulheres

Karolina Fernandes Rocha - UFES

As décadas finais do século XIX se destacaram pela grande efervescência política e cultural, e, sobretudo, pelo desenvolvimen- to da imprensa de opinião, que serviu de veículo para a difusão das grandes discussões sobre a crise do Império brasileiro. Entre os principais debates, constava a defesa do abolicionismo que ganhou as páginas dos periódicos e das principais obras do período, de- monstrando suas múltiplas expressões e significados. Considerado o primeiro grande movimento social brasileiro (ALONSO, 2002) e de autêntica participação popular (CARVALHO, 2003), o abolicio- nismo foi responsável por trazer a lume setores da sociedade tradi- cionalmente alijados da política, como, por exemplo, as mulheres e os escravos. Neste sentido, o discurso feminino em prol da liberda- de ganhou destaque na sociedade oitocentista. Algumas mulheres aproveitaram os seus dotes artísticos, como Chiquinha Gonzaga — o Rouxinol Abolicionista — e Josephina Senespleda, e promoveram através de seus espetáculos, a arrecadação de donativos para a ma- numissão dos escravos; outras se organizaram em sociedades eman- cipacionistas ou tomaram parte nas associações masculinas e assim contribuíram na organização dos meetings, proferiram discursos, arrecadaram dinheiro, dentre as demais atividades das quais os ho- mens tomavam parte. Dentre essas mulheres escritoras, destacamos Maria Firmina dos Reis, autora do romance Úrsula e do conto A Es- crava; Júlia Lopes Almeida e sua obra A Família Medeiros; e Francisca Senhorinha da Mota Diniz, proprietária do jornal O Sexo Feminino. Por se tratar de tema ainda pouco explorado pela literatura acerca do movimento abolicionista, o objetivo de nossa pesquisar é ana- lisar o discurso feminino a respeito da emancipação escravista e a utilização do conceito de liberdade na produção literária e jornalís- tica e buscamos identificar os elementos que contribuíram para que estas mulheres defendessem a abolição da escravidão no Brasil e narrar a maneira pelas quais elas o fizeram.

Palavras-chave: Abolicionismo. Mulheres. Literatura.

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“A República bate-nos à porta”:

a imprensa da província do Espírito Santo na crise do Império brasileiro, 1880-1889

Karulliny Silverol Siqueira Vianna/ UFES-FAPES

A difusão do projeto republicano nas últimas décadas do Impé-

rio foi consequência de importantes cisões políticas ocorridas na eli- te, e, sobretudo, da contestação da ordem por parte dos indivíduos marginalizados do poder. As divergências dentro do partido Liberal abriram espaço para a atuação dos radicais, que viam na República

a solução para os problemas sociais e políticos do país. A imprensa

política e de opinião serviu como veículo condutor da crítica à Mo- narquia, destruindo as bases simbólicas do Império por meio da di- fusão das “novas ideias”. A intensa circulação de ideias demandou também a utilização de novos conceitos e novas linguagens que, por meio dos jornais, livros e outros impressos, indicavam o iminente fim do Império. No Espírito Santo oitocentista a situação partidária se distinguia da maioria das províncias que se empenhava na causa contra o Império, já que até o fim da década de 1880 ainda não havia um partido Republicano. No entanto, a ausência de um partido não impediu que as críticas fossem divulgadas e debatidas na provín- cia. Este trabalho pretende analisar a contestação da monarquia e a difusão das ideias republicanas nos jornais produzidos na década

de 1880, o que deu base para a elaboração de novo arcabouço con- ceitual. Investiga-se aqui a forma como a imprensa política foi utili- zada no Espírito Santo durante este contexto, além da variedade de ideias e projetos políticos que circularam na província por meio das tipografias, e da leitura de impressos, tanto por bibliotecas particu- lares, como nos espaços públicos de discussão. Pretende-se destacar

a emergência de nova cultura política, baseada em novas práticas de

leitura e na difusão de um vocabulário cientificista baseado em con- ceitos como: república, progresso, evolução social e soberania popular. A investigação centra-se na análise das linguagens políticas, atentando para a crítica ao regime feita por jornais de tendência positivista e republicana, como também na defesa dos pilares do Império feita por jornais monarquistas. Objetiva-se, deste modo, investigar a o papel da imprensa durante a recepção do projeto republicano na provín- cia do Espírito Santo.

Palavras-chave: imprensa; política; Império

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No caminho das urnas:

a participação eleitoral no Império

Kátia Sausen da Motta - PPGHIS/UFES

Na renovação do interesse dos historiadores pela História Po-

lítica, as eleições surgem como importante objeto para discussão da cidadania e dos direitos políticos no Brasil Império. Por muito tempo predominou na historiografia brasileira interpretações pou- co precisas sobre a extensão do sufrágio no Império. Sem dúvida,

o critério de renda exigido pela legislação colaborou intensamente para isso. Novas fontes e abordagens, como também testemunhos

da época apontam a ocorrência constante de eleições em todo país e

o grande número de participantes no pleito, elementos reveladores

da intensa atividade eleitoral no país e da participação ativa dos cidadãos no processo decisório eleitoral. O objetivo desta comu- nicação é demonstrar a amplitude do voto e o perfil dos votantes nas freguesias da província do Espírito Santo no século XIX. Com

a apresentação de dados eleitorais quantitativos busca-se delinear

as características singulares da região e permitir aproximação dessa parcela expressiva de homens que trilhavam o caminho às urnas no Brasil Império.

Palavras-chave: Eleição; Participação Política; Brasil Império.

A doença como representação do pecado no imaginário cristão dos Reinos Ibéricos nos séculos XV e XVI

Larissa Oliveira Heringer - UFES

No presente trabalho, propomo-nos à apresentação de um estu- do sobre a construção da representação das doenças como manifes- tações do pecado nos reinos Ibéricos da Baixa Idade Média, a partir das posições adotadas pela Igreja em relação às enfermidades e aos doentes, na tentativa de compreender o impacto por elas causado no seio dessa sociedade. Buscaremos entender de que forma a ótica cristã concernente às enfermidades fomentou a abordagem de peca- do e transgressão das leis divinas, culpabilizando o doente pela sua condição. Para o homem medieval não era possível separar os acon-

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tecimentos corporais de sua significação espiritual. Dessa forma, observaremos em nossas fontes as representações criadas acerca da doença que a consideram, primeiramente, como uma manifestação externa de uma alma corrompida pelo pecado, em especial pelo pe- cado sexual, e ainda como um castigo enviado aos homens deso- bedientes em consequência à ira de Deus por seus pecados. Nesse

sentido, nos atentaremos a duas ocorrências em especial: a lepra e

a peste. Isto pois, ambas evidenciam nesse esse período situações

diferenciadas de pecado e impureza. A lepra, como representação

do castigo devido às transgressões individuais, e a peste, resultante do castigo consequente das transgressões coletivas. Nesse contexto, analisaremos o discurso cristão de uma moral rígida, à qual a socie- dade devia ser submetida, que marginalizava e excluía os que dela se distanciavam de alguma forma, a fim de entender o medo ocasio- nado pela ideia do contágio tanto da doença que afligia ao corpo, quanto dos pecados que afligiam a alma. Ainda quanto a moral pre- gada pela cristandade, o corpo representava um paradoxo: ora exal- tado, ora negado. Este paradoxo se estendia a condição dos doentes. Ora excluídos por serem impuros e pecadores, ora assistidos devido

a responsabilidade de lhes prestar caridade. Essas representações

atribuídas aos enfermos encontram legitimidade na Bíblia, que é rica em exemplos de homens e mulheres, humildes e ilustres, que se

tornavam doentes em consequência da desobediência à lei divina.

A metodologia empregada nessa apresentação abrange leituras que

auxiliam na concepção de alteridade, diferença e marginalização, a fim de compreendermos a temática das minorias marginalizadas na Idade Média, dentre as quais se inserem os doentes. Nesse sentido tomamos como base o trabalho História Cultural de Roger Chartier (1990), no que concerne ao conceito de representação, além de uma série de leituras específicas do tema e do recorte em questão, a fim de situarmos nossa pesquisa no tempo e no espaço trabalhados.

Palavras-chave: doença, pecado, Igreja.

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

Modernização e ruptura na Belle Époque capixaba:

revisitando o Novo Arrabalde

Leandro do Carmo Quintão -IFES

Esse artigo tem por objetivo analisar o processo de moderni- zação urbana em Vitória, ocorrido na Belle Époque. Busca-se expor os principais interesses que giravam em torno dessa modernização, relacionando-o com processos de maiores proporções em importan- tes cidades, tanto no Brasil como na Europa, com destaque para as cidades do Rio de Janeiro e de Paris. Nesse sentido, defendemos duas hipóteses: primeiramente, a de que o intento de modernizar a capital capixaba não somente se pautava por transformação urbana que rompesse com o aspecto colonial do sítio urbano, mas adequa- va-se a um projeto de desenvolvimento regional centrado no for- talecimento da capital; em seguida, de que a atuação do Estado na definição dos espaços contemplados pelo projeto foi mais forte do que sugere interpretações anteriores.

Palavras-chaves: Modernização urbana; Primeira República; Espí- rito Santo;

As cidades das histórias:

Constituição imaginária das cidades de Vitória e da Serra por meio das narrativas de imigrantes.

Leonardo Teixeira de Freitas Ribeiro Vilhagra - UFES

Analisar as narrativas orais recolhidas de distintos moradores do município da Serra e Vitória, observando como elas constroem discursivamente e simbolicamente cada uma das cidades nas quais residem. O objetivo é demonstrar múltiplos olhares direcionados a cada cidade, revelando como os imigrantes, munidos de experiên- cias e histórias de vida únicas, engendram mentalmente os novos locais de moradia, a partir das ressignificações simbólicas contidas em suas narrativas registradas via História Oral. As cidades atuais, conforme Bauman (2009), tornaram-se “objeto de novos e intensos fluxos de população e de uma profunda redistribuição da renda” (BAUMAN, 2009, p. 8). As dinâmicas sociais de transferências de pessoas aumentaram vertiginosamente atualmente, proporcionan-

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do mudanças, não só no cotidiano de cada habitante, mas também nas próprias cidades. Dentre talmovimento, este trabalho focará es- pecificamente o movimento migratório. Oriundos de outras regiões brasileiras e do exterior, o imigrante, optando por determinado lo- cal, trás consigo sua cultura coletiva e sua história individual, os quais proporcionam uma visão de mundo singular, transformando o ambiente circundante. Uma maneira de perceber essas transfor- mações é através dos símbolos verbais utilizados por eles, buscando retratar seu novo lar, produzindo ressignificações. Conforme Pierce (1977), o símbolo mediaa interpretação do mundo, auxiliando nossa representação dele. Neste viés, Cornelius Castoriadis (1982) desven- da o caráter imaginário e simbólico da sociedade e das instituições modernas. O sistema simbólico consiste em ligar símbolos (signifi- cantes) a significados (representações, significações). Esta noção do simbólico e do imaginário em Castoriadis se aproxima da teoria se- miótica de Pierce. Tal aproximação possibilita a afirmação de que o signo cria cadeias produtoras de sentidos ancoradas em instituições sociais, dentre elas, a cidade. Como cada pessoa desenvolve suas re- lações simbólicas individuais, identificar e analisar os símbolos que permeiam o relato oral do imigrante contribuiria para a formação representativa da cidade, sinalizando suas várias faces que a com- põem. Consoante à Sayad (1988), a imigração é um evento duplo fa- cetado: Individual e Coletivo, cuja análise se fundamenta tanto nos motivos pelos quais acarretaram a mudança de ares desde a origem, quanto na representação da mudança social, econômica, política e histórica ocorrida pelo estabelecimento nesse novo local adotado para se viver (SAYAD, 1988). Logo, a metodologia empregada neste trabalho será a História Oral, pois ela possibilita investigar qualita- tivamente as informações colhidas oralmente, extraindo fatos e in- formações de maneira mais sensível e perceptiva, principalmente, contemplando o que François (2006) denomina como “Silenciosos” e “Excluídos” (FRANÇOIS, 2006). Este trabalho almejou coletar as narrativas orais de imigrantes de Vitória e da Serra, para analisá-los, de maneira que se indiquem as transformações a respeito da signi- ficação de ambos os centros urbanos. Conforme examinado, todos os imigrantes tinham uma imagem inicial a respeito das cidades e, ao longo do tempo de residência, tal percepção mudou, transfor- mou-se à medida que novas vivências são somadas às já existentes, permitindo, assim, novas imagens e construções mentais acerca das cidades. Haja vista os aspectos conclusivos, notamos que as repre-

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sentações dos imigrantes se mostram relevantes para compreender as evoluções e mudanças de ambas as cidades no decorrer do tempo.

Palavras-chave: Fluxo migratório, História Oral, Imaginário urbano.

História e Memória: o livro de memórias do senador Eurico Rezende (1963-1978), entre as memórias, os traumas e as rupturas

Levy Soares da Silva – UFES

Nesse trabalho nos propomos a analisar o livro de memórias escrito pelo político capixaba Eurico Vieira de Rezende ao final de sua carreira política na década de 1980, utilizando-nos da metodo- logia da análise do discurso na busca da compreensão dos elemen- tos motivadores à escrita de uma obra desse modelo e as suas con- seqüentes implicações para a História do Espírito Santo e para os capixabas, em se tratando de algo que se refere à história capixaba recente. O momento de escrita do livro de memórias é emblemá- tico, pois coincidiu com o processo de redemocratização do Brasil no final da década de 1980, o senador Eurico Rezende encerrava aquele que seria o seu último mandato eletivo no momento em que um ciclo na vida política brasileira também se encerrava, e o seu li- vro de memórias reflete todo esse momento, uma vez que, centra-se na sua atuação enquanto senador. Assim, por meio dessa análise alcançamos a mentalidade do político, e conseqüentemente de sua geração, enquanto ator ativo dos fatos que narra e descreve no livro, descortinando a complexa fronteira existente entre a História e a Memória, o senador Eurico Rezende seletivamente excluiu de seu livro qualquer menção acerca de seus outros mandatos eletivos, ten- do sido deputado estadual e também governador do Estado do Es- pírito Santo, optou por relatar somente o mandato que considerou de mais relevo em sua vida política, como pudemos analisar essa ação não foi não intencional, o político capixaba havia feito parte da base de sustentação política do Regime Militar do Brasil (1964-1985) e no processo em que este encontra o seu fim parte significativa de seus antigos aliados e/ou apoiadores procurava não apenas se des- vencilhar do mesmo, mas, principalmente, construir uma imagem que não os vincule aos militares, isso ao menos geraria uma rup- tura, posto que fosse praticamente impossível apagar os resquícios

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de ligação entre os políticos e os militares. Nesse sentido, o político Eurico Rezende ao escrever o seu livro de memórias procurou ofer- tar aos capixabas, e extensivamente aos brasileiros, uma autobio- grafia de um político com reputação ilibada e que, ainda que tenha apoiado o Regime Militar, estava credenciado para a vida pública na democracia, ou seja, minimiza o fato de ter apoiado os militares enquanto os mesmos estiveram no poder, colocando isso como algo menor e sem importância tendo em vista a sua comprometida atua- ção política. Buscando o esquecimento político do povo na medida em que se apresenta como um político altamente capacitado para continuar atuando na política, Eurico Rezende testa a sua formula- ção nas eleições de 1994, candidatando-se novamente ao cargo de senador pelo Estado do Espírito Santo, sendo que nesse pleito não foi eleito. Assim, percebemos a construção de uma memória cole- tiva, onde Rezende e os políticos de sua geração deixavam a vida política à força, pois demandava-se a oxigenação da classe política por novas gerações, estes políticos, entretanto, saíam ressentidos e exigiam, através de biografias e memórias, o eterno agradecimento do povo brasileiro por seus feitos legislativos considerando-se polí- ticos e brasileiros incomparáveis.

Palavras-chave: História Política. Memória. Livro de Memórias.

Trabalhismo e Populismo: uma breve discussão

Lucian Rodrigues Cardoso - UFES O presente trabalho diz respeito a uma parte da análise teórica e interpretativa presente na monografia, orientada pelo Professor Dr. André Ricardo Valle Vasco Pereira, sob título Entre a raia miúda e o blacktie, em que estudou-se a administração do trabalhista Mario Gurgel a frente da Prefeitura de Vitória, no intervalo de junho de 1957 a agosto de 1958. Desta forma, traz à luz o debate na literatura que versa sobre trabalhismo e populismo. Objetiva-se estudar alguns autores que abordaram este projeto de nação promovido pelo Es- tado brasileiro a partir do Estado Novo, que encontrou no Partido Trabalhista Brasileiro(PTB) o seu principal defensor no período de- mocrático subsequente ao período acima citado. A análise bibliográ- fica do conceito, não sem intenção, inicia-se com a obra de Angela de Castro Gomes, visto que esta criou uma nova tradição no estudo do fenômeno ao romper com as abordagens que o retratavam como

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

um mero acidente na história política brasileira, resultado, ora da anomia das classes trabalhadoras frente a um Estado todo-podero-

so, ora de um pacto social ‘cimentado’ pelos ganhos materiais numa lógica racionalista e puramente material de adesão. A partir da aná- lise de Castro Gomes como um novo marco, discutiremos as abor- dagens de outros autores, sendo eles Lucilia Delgado, Jorge Ferreira e Glaucio Soares, que também reelaboram, com suas especificidades de análise, o período Varguista e democrático do pós-45 a partir do estudo do trabalhismo/populismo e do PTB. Se Angela de Castro Gomes e Jorge Ferreira, este seguidor da primeira, abandonam o termo populismo em favor do trabalhismo, Lucilia Delgado opta pelo primeiro ao descrever o fenômeno. Isto porque a autora analisa o assunto como uma fase em que o Estado se mostrou forte o bas- tante para conduzir os movimentos trabalhista e sindical, devido

à falta de organização autônoma empenhada pelos próprios traba-

lhadores, porque incapazes de fornecer um projeto alternativo de nação. Estes pressupostos se assemelham com a leitura que Glaucio Soares faz ao estudar a atuação do PTB em áreas subdesenvolvi- das e predominantemente rurais, focando-se na falta de identidade de classe e força das classes trabalhadoras. O resultado disso é a tática dos trabalhistas dessas regiões em se aliarem aos partidos e

elites conservadoras, para sub-representar — ou representar de for- ma vanguardista, dirigista e personalista - as demandas populares e dos trabalhadores. Entretanto, se os autores possuem congruências

e discordâncias com a obra inaugural de Castro Gomes, todos são

uníssonos em defenderem um ponto:que o trabalhismo/populismo consistiu na introdução, ainda que autoritária e elitista, dos traba- lhadores na sociedade política brasileira. Desta forma, reporta-se

ao que existe na literatura sobre o trabalhismoe populismoe como o mesmo no caso brasileiro estava organizado, em seus debates, em sua agenda, em suas atividades e em suas cisões para elucidar a complexidade do fenômeno, para além de taxações e pré-conceitos que sombreiam uma parte significativa e latente da história política brasileira.

Palavras-chave: Trabalhismo; Populismo; PTB.

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Rupturas nos hábitos de indumentária:

um estudo de caso das mulheres cristãs no norte da África (séc. III)

Ludimila Caliman Campos - UFES

Quando adentramos o campo de pesquisa dos hábitos e dos costumes de uma dada comunidade, ficamos envoltos em uma sé- rie de aspectos do campo simbólico e cognitivo que não podem ser desprezados. Considerando-se que o estudo ora proposto busca elu- cidar a formação de costumes religiosos de ordem híbrida no cris- tianismo, nossa atenção se voltará para determinadas manifestações no âmbito das representações visuais, a fim de não nos distanciar-

mos do foco de nossa proposta. A partir das fontes consultadas, jul- gamos que a análise das escolhas e dos hábitos de indumentária e de decoração de ambientes de alguns cristãos, entendendo-se tais como manifestações artísticas, é fundamental para uma compreen- são inicial da construção das identidades nestas comunidades. Isso porque o vestuário, por exemplo, não serve apenas para proteger

o corpo ou como um simples adereço, mas é parte integrante do

cotidiano, do habitus humano, traduzindo identidades pessoais e

coletivas, estando ligado a fatores de natureza psicológica, política, econômica e sociocultural. Além disso, entendemos que, a partir da percepção da adoção de determinados adereços, vestimentas e de- coração de ambientes, é possível alcançar formas de representação

e de comportamentos de uma dada época, demonstrando e carac-

terizando sistemas de regulação e de pressões sociais. É evidente, ainda, que a indumentária e a decoração de ambientes identifica, rotula, exclui ou insere o indivíduo em um determinado contexto ou grupo social. Será a partir da compreensão desses hábitos que poderemos perceber como se deram as primeiras confecções de íco- nes entre os cristãos. Clemente entendia que as roupas tinham uma função específica: cobertura do corpo, além da defesa do frio e do calor. Ornar a vestimenta seria papel daqueles que viviam para o mundo e não para Deus (Pedag., II, XI). Os textos de Clemente mos- tram, ainda, haver mulheres que se convertiam ao cristianismo e que permaneciam com as mesmas vestimentas usadas quando eram pagãs. Essas mulheres, provenientes de famílias da aristocracia ale- xandrina, parecem não querer abdicar desses costumes. Por outro lado, Clemente desejava que os cristãos andassem em uma unida- de de pensamento e de costumes, sendo necessário, para isso, que

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

os cristãos recém-convertidos abrissem mão do antigo modo de se vestir. Algumas imagens provenientes de catacumbas romanas tam- bém ratificam que muitas mulheres não aderiam à vestimenta idea-

lizada pelos bispos. Tais figuras revelam, pela precisão nas feições, que se tratava de representações de mulheres reais. Deste modo, nossa comunicação vai abordar fontes escritas e imagéticas a fim de abordar a construção de novas identidades no seio do cristianismo

e o estabelecimento de rupturas com padrões de comportamento ditados pelos clérigos.

Palavras-chave: História do Cristianismo; Ruptura; Gênero.

A questão da tirania em Isidoro de Sevilha:

contradições de um discurso

Luís Eduardo Formentini - UFES

Isidoro, bispo de Sevilha, foi um dos maiores nomes do epis- copado hispano-godo do século VII, e um importante expoente do pensamento eclesiástico da Antiguidade Tardia. Suas obras mar- caram profundamente o pensamento religioso e político do Reino Visigótico de Toledo. Durante mais de três décadas, sua proemi- nência em relação ao conjunto dos bispos lhe valeu a proximidade

dos círculos reais, durante o reinado de vários monarcas visigodos. Além disso, o período de atividade de Isidoro foi exercido numa época em que a conversão dos visigodos ao catolicismo, e a subse- quente aproximação entre realeza e episcopado era algo recente. Tal aliança, cujo ponto de partida foi o III Concílio de Toledo, em 589, resultou em um novo papel dos bispos: serem os principais legiti- madores do poder do rei, dando ao monarca uma sanção espiritual. Desse modo, era comum os bispos escreverem sobre temas políti- cos: desde o Baixo Império Romano, com a crescente aproximação entre o cristianismo e o poder imperial, vários membros do clero em formação, de modo especial os bispos, escreveram tratados de teologia política, ou seja, obras que de algum modo relacionavam o poder temporal, representado pelo Império Romano, com o poder espiritual vindo de Deus e exercido por sua representante na Terra:

a Igreja. Isidoro de Sevilha não se furtou a essa tendência: ele tam- bém contribuiu para o pensamento político tardo-antigo. Contudo, não encontramos, na obra do bispo de Sevilha, um tratado que verse

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exclusivamente sobre a realeza: o pensamento político de Isidoro se encontra disperso entre seus vários escritos, sendo que três deles ocupam lugar de destaque em nosso trabalho: As Etimologias, com- pilação isidoriana de todo o saber registrado da época; as Sentenças, coleção de pequenos tratados sobre questões teológicas e políticas e a Historia Gothorum (História dos Godos), formada por perfis curtos de todos os reis visigodos até a época de Isidoro. Um dos temas mais trabalhados pelos escritores tardo-antigos é a questão do mau go- vernante, outyrannus. O que qualificaria um soberano como um tira- no? O modo como chegou ao poder? Seu comportamento perante os súditos? Sua maneira de exercer o mandato? É lícito ou não retirá-lo do poder? Tais questionamentos eram comuns à maior parte dos escritores eclesiásticos tardo-antigos, e Isidoro não constitui exce- ção. No entanto, o pensamento isidoriano sobre otyrannus apresenta contradições, pois este se encontra em obras diferentes, escritas em momentos diferentes, e que não versam apenas sobre política. As- sim temos nas Etimologias uma aparente defesa do afastamento do mau rei do poder, enquanto nas Sentenças, o bispo de Sevilha afir- ma que tanto o bom soberano quanto o tirano foram designados por Deus para governarem. Em nosso trabalho, nos propomos a analisar tais contradições e suas consequências para a trajetória política do Reino de Toledo.

Palavras-chave: Tirania; sacralização; estabilidade.

Migração e desigualdade socioeconômica

Madson Gonçalves da Silva - UFES

Esta comunicação é reflexão do projeto de mestrado “Fluxo mi- gratório e criminalidade: entrecruzamento e desdobramentos nos municípios de Vitória e Serra (1970-2010), realizado no Programa de Pós-Graduação em História, UFES. O trabalho está vinculado à li- nha de pesquisa “Estado e políticas públicas”. Objetiva-se, portanto, descrever o “Plano de Valorização Econômica do Espírito Santo”, desenvolvido no governo de Jones dos Santos Neves (1951-1954) como gênese do desenvolvimento urbano-industrial verificado a partir dos “Grandes Projetos industriais”. Descreve ainda o proces- so migratório e a desigualdade socioeconômica como efeitos desse crescimento. Nesse sentido, qual relação pode-se inferir que o cres-

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cimento urbano-industrial da Região Metropolitana da Grande Vi- tória tenha contribuído para o processo de migração e aumento da desigualdade socioeconômica, no período de 1950-80? Hipotetica- mente, aduz-se que, a quantidade da mão-de-obra dos desemprega- dos da hinterlândia, decorrente, precipuamente, da erradicação dos cafezais antieconômicos, no período 1962-1977, somado ao grupo de migrantes de outros estados compuseram, majoritariamente, a mão- -de-obra informal (desqualificada) na RMGV, no período 1970-1977. Essa mão-de-obra colaborou para o crescimento urbano-industrial, ao passo que ampliava as fileiras dos segregados socioeconomica- mente, incluídos de forma precária na população da Região Metro- politana da Grande Vitória. Estima-se, segundo Rocha e Morandi (2012), que o desemprego nesse período atingiu cerca de 60 mil pessoas. Segundo Singer (1980), a migração é resposta a processos sociais, econômicos e políticos, denotando que existem fatores de origem e de destino: quanto aos de origem ressaltam-se mudança e estagnação, que se apresentam como redução da oportunidade de

emprego, seja pelas relações capitalistas de trabalho, seja pela estag- nação da produção e uso da terra; quanto aos fatores de destino po- dem-se mencionar as “oportunidades econômicas”, representados por oferta de trabalho. Esta comunicação, ainda, objetiva descrever

o acentuado crescimento econômico, urbano-industrial na Região

Metropolitana da Grande Vitória, no período 1950-1980, ressaltan- do a crise de superprodução do café no estado, que culminou com

a “Erradicação dos cafezais”. Pretende-as, também, correlacionar a

desigualdade socioeconômica, do período 1970-1977, como um dos efeitos da política de erradicação dos cafezais, abarcando dentro do grupo dos segregados e marginalizados a classe dos trabalhadores desempregados oriundos do interior e de outros estados. Ainda, ci- tar o “Plano de Valorização do Estado do Espírito Santo”, durante o governo de Jones dos Santos Neves (1951-1954), também os “Gran- des Projetos Industriais” e a política de “Erradicação dos cafezais” como fatores preponderantes do desenvolvimento urbano-indus- trial. Ainda, apontar indicadores de desigualdade socioeconômicos a partir da renda/salários dos trabalhadores oriundos do interior e outros estados, compondo uma classe de mão-de-obra desqualifi- cada, analisando sua relação com o crescimento urbano-industrial da RMGV entre 1970-1977. Embora Simmons (1991) afirme que os diversos olhares das Ciências Humanas e Sociais sejam incapazes de integrar as diversas formas do fenômeno migratório, uma vez que

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essas ciências se apliquem em “contextos particulares e preocupa- ções conceituais”, essa será a perspectiva: olhar a partir da Histó- ria imediata, buscando relacionar no contexto específico a interação entre migração, desenvolvimento urbano-industrial e desigualdade socioeconômica, no período 1950-1980, na Região Metropolitana da Grande Vitória, Espírito Santo.

Palavras-chave: Migração; Industrialização; desigualdade socioeco- nômica.

Bases da cultura política brasileira do início do século XIX

Maiara Caliman Campos Figueiredo - UFES

Este artigo discute a cultura política brasileira do início do sé- culo XIX. Sabemos que a ideologia liberal foi um projeto que nutriu grande parte das sociedades ocidentais do Oitocentospor meio da

literatura emergente das Revoluções Francesa e Americana, estipu- lando padrões políticos, sociais, econômicas, jurídicos e internacio- nais. No mundo luso-brasileiro isso não foi diferente. No ínterim do Oitocentos, também presenciamos um intenso debate em torno da ideologia do liberalismo. Conscientes desta realidade, nosso objeti- vo principal é apresentar a dinâmica do processo de independência

a partir dos antagonismos do liberalismo pátrio existentes em ra-

zão da ausência dos pressupostos básicos de sustentação daquele liberalismo pregado no século das luzes. No Brasil, esta ideologia significou um projeto antimetropolitano de manutenção do mono- pólio da aristocracia agrária regional escravista. Logo, mesmo com

a independência de inspiração liberais, permaneceu a mesma dinâ-

mica social e política de bloqueio do homem livre emrazão da ma- nutenção das práticas autoritárias de dominação. Desde o período

colonial, a forma de dominação no Brasil foi fortemente influencia- da pela difícil determinação fronteiriça entre o público e o privado. A administração privada da justiça foi uma realidade que dificultou

a racionalização burocrática do aparelho administrativo, atuando o

liberalismo sobre o terreno do clientelismo e outras formas de au- toritarismo. Para entendermos melhor como o clube aristocrático trabalhou suas formas de dominação, contamos com a ajuda das categorias sociológicas de Weber (2004), no que diz respeito à tipo- logia de “burocracia patrimonial”.Apesar dos tipos ideais de Weber

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

serem construídos em seus sentidos puros, a burocracia patrimonial no Brasil foi um fenômeno que se regulou tanto pela forma racional de dominação, quanto pela forma tradicional. Pudemos identificar de um lado a autoridade política atuando por meio do aparato ad- ministrativo-burocrático do Estado, e por outro lado a autoridade política atuando patrimonialmente através das classes locais. Por isso, fomos levados a crer que os meios de dominação descritos sob as formas efetivas do exercício do poder no Brasil foram legal e pa- triarcalmente legitimados. Ainda para este estudo, identificamos a noção daideologiado liberalismo como uma “falsa consciência” de relações de domínio entre as classes (CHAUÍ, 2004), ou seja, utiliza- mos o significado negativo de ideologia, predominante no contexto da tradição teórica da sociologia crítica. À medida que o liberalismo se fixou em um universo relativamente coerente, se tornou um po- deroso instrumento de disputa política, de dominação, ocultando os verdadeiros propósitospregados pelos pensadores iluministas. Concluímos que nossa experiência de liberalismo é um tanto quan- to conservadora, em detrimento da ambiguidade entre a estrutura liberal e o conteúdo oligárquico. Foi em tal contexto que nos dedi- camos à reflexão das bases sobre as quais foi construído o Estado brasileiro.

Palavras-chave: Brasil Império; Liberalismo; Processo de Indepen- dência.

A lógica capital x coerção no Espírito Santo da Primeira República

Marco Aurélio Borges Costa - UFRJ/CUSC

A proposta consiste em aplicar a tese geral de Charles Tilly acerca da relação capital x coerção desenvolvida pelo autor para compreender a evolução do Estado na Europa ao contexto do Es- pírito Santo. A hipótese geral é que a necessidade de incentivar a acumulação e a concentração de capital no estado diante da peque- na estrutura coercitiva levou os administradores estaduais a adotar estratégias diversas para compensar a baixa concentração de capi- tal e pouca capacidade de coerção que vão desde associação com grupos criminosos às tentativas de aceleração do desenvolvimento econômico via modernização autoritária. Importante observar no

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processo histórico do Espírito Santo a situação desvantajosa dos po- deres locais em relação aos poderes nacionais em vista a inserção tardia do estado na economia nacionalgerando decisões, ações e rea- ções das elites governantes locais e da sociedade no que se refere ao “desenvolvimento” nesse contexto desfavorável. Dependendo dos grupos que alcançavam a hegemonia política e assumiam o controle do Aparelho Regional de Estado, alternam-se momentos em que o objetivo era resistir a tendências industrializantes, modernizantes, que se impunham na pauta do país e, em outros, a acelerar pro- cessos desejáveis de modernização, intensificando conscientemente ou não aspectos indesejados resultantes desse processo. As relações de autoridade no estado do Espírito Santo permaneceram durante muito tempo ao estilo de grandes proprietários rurais, sustentadas na dependência do café que será o principal elemento da economia capixaba até o fim da década de 60 do século XX. A própria fraque- za desses proprietários e a fragmentação das grandes propriedades em algumas regiões no início do Século XX afetaram a consolidação da coerção e do capital gerando a necessidade de mais coerção para compensar o desequilíbrio acumulação/concentração de capital x gestão da coerção, produzindo um contexto ainda mais autoritário que justificaria o uso de meios ilegítimos para essa coerção, assim como a neutralização moral das suas consequências. A fragilidade do pacto de dominação sustentada na fraca acumulação/ concen- tração de capital exige mais violência para que o grupo dominante se imponha sobre o grupo dominado para obter qualquer forma de hegemonia. A permanência de formas arcaicas de exploração da ter- ra e de dominação social mesmo após o Estado Novo foi um fator importante para a manutenção de padrões e lideranças políticas ao estilo do início do século, sustentadas em relações próximas de um “coronelismo” adaptado as novas imposições nacionais que se co- locavam em termos eleitorais e legais. Não previamente ignoradas

pelas elites políticas, mas gerenciadas como “efeitos colaterais”, os resultados das tentativas de modernização autoritária, em especial

a partir dos anos 60, fogem ao controle no vácuo organizacional do

fim do regime militar e aprofundam a crise institucional no esta- do do Espírito Santo. Como no restante do Brasil, a urbanização,

a estruturação e expansão para o interior do Aparelho de Estado,

central e local, a mudança de base econômica e produtiva durante a

Ditadura enfraqueceram definitivamente o poder dos proprietários

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de terra, que mantiveram sua influência participando sob outras formas do pacto de dominação.

Palavras-chave: Capital, coerção, Espírito Santo.

Estudos sobre os casos de defloramento na Comarca de Itapemirim de 1930 à 1939

Marcos da Silva Azevedo (CUSC) Luiz Carlos Ferreira Neto (CUSC)

Os documentos que se refere essa pesquisa encontram-se no laboratório de Pesquisas Históricas e Sociais (LAPHIS) do Centro Universitário São Camilo - ES, na cidade de Cachoeiro de Itapemi- rim ES. Baseou-se na análise qualitativa de 7 documentos processu- ais referentes a casos de defloramento na década de 1930 na Comar- ca de Itapemirim-ES. Esses documentos revelam hábitos, conflitos, relacionamentos, enfim, uma verdadeira amostra da cultura da épo- ca e as relações que as cercavam e os seus paradigmas. Evidencian- do como eram tratados os casos de defloramento perante a justiça e sociedade. Os casos de defloramento mostram um pouco de como que e as mulheres foram desmoralizadas perante a sociedade e o judiciário e como o ato de deflorar uma jovem pode acabar não só com sua reputação pessoal mais também de sua família. Um dos motivos que levam essa jovem ser devolvida e o fator econômico, devido a ele, a amasia era comum entre os mais pobres e esse tipo

de união era tido como uma deformidade nos patrões da época essa moça, que já era retraída e oprimida pelo simples fato de ser mulher, eram ainda mais subjugadas por está de certa forma na clandesti- nidade matrimonial e a opressão e o desprezo social tendia a au- mentar devidos os discursos da santa amada igreja descriminada a pratica. Os casos de defloramento mostram um pouco de como que

e as mulheres foram desmoralizadas perante a sociedade e o judiciá- rio e como o ato de deflorar uma jovem pode acabar não só com sua reputação pessoal mais também de sua família. Um dos motivos que

levam essa jovem ser devolvida e o fator econômico, devido a ele,

a amasia era comum entre os mais pobres e esse tipo de união era

tido como uma deformidade nos patrões da época essa moça, que já era retraída e oprimida pelo simples fato de ser mulher, eram ainda mais subjugadas por está de certa forma na clandestinidade matri-

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monial e a opressão e o desprezo social tendia a aumentar devidos os discursos da santa amada igreja descriminada a pratica. A socie-

dade brasileira e oriunda de uma filosofia patriarcal deixando assim

à mulher a margem social, sendo subjugada deixada de lado sempre

com discursos desmoralizardes e de inferioridade como a do “sexo

frágil”, assim deixando a historia da mulher de lado sendo apaga- da com o passa do tempo. A principal justificativa desta pesquisa

e resgata o prestigio da historia feminina, mostra que as mulheres

fizeram a diferença na nossa historia, que essa mulher tinha desejos

sonhos e mesmo nascendo sem direitos é apenas com deveres de ser uma boa esposa uma excelente mãe e se casar, mesmo essas deflora- das tinha o sonho de se casar obter sua família, mas devido fatores econômicos e paradigmas sociais eram impedidas do matrimonio legalizado.

Palavras-chaves: Defloramento, Honra, Família, Amancebamento.

Industrialização: resultados e impactos na vida do mi- grante

Maria Rita de Cássia Sales Régis - UFES

O progresso, a tecnologia, a contínua oferta de trabalho, o desenvolvimento das pessoas, das empresas e comunidades bem como a manutenção e sustentabilidade do meio ambiente é essen- cial. Neste contexto a garantia ao acesso destas oportunidades por parte da comunidade anfitriã e o preparo prévio do local aonde se instalam plantas industriais poderiam minimizar os fenômenos que afetam o cenário e cotidiano local. Industrialização aqui é entendida como processo de desenvolvimento industrial em uma determinada localidade, cujo principal interesse é a substituição do modo de pro- dução para maximização dos lucros. Ocorre nessas localidades estu- dos prévios realizados por grupos empresarias a fim de verificar os requisitos (estrutural, capacidade produtiva e de ampliação, aces- sibilidade para chegada de serviços inerentes e saída do produto e quantitativo mão de obra qualificada ou a qualificar), além da ava- liação da carga tributária, concessões. Tendo em vista a movimenta- ção e deslocamento de pessoas é essencial compreender o fenômeno histórico da migração que evidencia o confronto dos padrões cultu- rais (tradições, crenças e valores) estabelecidos. Esse deslocamento,

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

via de regra, neste contexto poderá interferir na estrutura arquite- tônica, na economia, geografia e política local (ações ou proposições de políticas públicas) e obviamente na vida do migrante por meio do aparelho do Estado (educação, habitação, saúde, segurança). A migração ocorre motivada por inúmeras razões, no entanto esse es- tudo propõe o movimento migratório em face de busca de melhoria na qualidade de vida e condição monetária do sujeito e da sua fa- mília, ou seja, sobrevivência e prosperidade. A (OIM) Organização Internacional de Migração destaca a essencialidade de se ter uma migração ordenada, a fim de garantir os reais benefícios tanto ao migrante quanto à comunidade anfitriã. No universo apropriado para esta pesquisa, em sendo a migração mais bem gestada, com es- tudos prévios, amplos e focalizados, poder-se-ia visar ações prediti- vas e preventivas não com o propósito de somar barreiras mas sim para garantir o desenvolvimento sócio econômico equitativo. Assim o presente projeto se paramenta para se inserir historicamente nos eventos ocorridos por ocasião da implantação da Aracruz Celulose na década de 70 e compreender fenômenos que se repetem ou que foram previamente articulados na atual implantação do Estaleiro Jurongue. Neste sentido o Estado do Espírito Santo oferta amplo ambiente para estudos e pesquisa de eventos que notadamente in- fluenciaram a vida de tantos que aqui chegaram, passaram, perma- necem. Outra aspecto é como o estado do Espírito Santo tendo uma localização privilegiada do ponto de vista econômico geográfico (fronteira com Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia), fazendo parte da região Sudeste, considerada a mais desenvolvida no cenário bra- sileiro diante das demais regiões do Brasil, é ainda confundida com Vitória da Conquista, município baiano, portanto da região Nor- deste. Credita-se este fato a identidade ainda refratária no cenário nacional deste pequeno, mas importante produtor de divisas para o Brasil. Naturalmente que a abordagem despertará memórias do local, traumas pelas mudanças pouco articuladas e rupturas frente ao devir.

Palavras-chave: industrialização; migrante; impactos.

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Partido Comunista do Brasil: a defesa do projeto político nacional na Câmara de Vitória - ES, 1948

Marlon Pittol de Oliveira - UFES

Esta comunicação visa relacionar o discurso presente no reque- rimento apresentado pelo vereador comunista Hermógenes Lima Fonseca à Câmara Municipal de Vitória (CMV), no dia dois de feve- reiro de 1948, à defesa do projeto político nacional do Partido Co- munista do Brasil (PCB). Hermógenes inicia com uma crítica muito comum no período em questão, apontando o alto nível de carestia (inflação), a ineficácia dos serviços prestados e os altos preços da venda de energia cobrados pela Companhia Central Brasileira de Força Elétrica (CCBFE). A argumentação desenvolvida para diag- nosticar os problemas levantados demonstra o alinhamento do le- gislador com o programa do Comitê Central do Partido Comunista. Desde sua origem, em 1922, o PCB sempre esteve na ilegalidade. Após o fim do Estado Novo e a redemocratização do país, em fe- vereiro de 1945, conquistou o direito de existência legal. A direção do Partido optou por uma linha pacifica de conciliação, com gran- de foco no trabalho de disputa eleitoral, buscando alianças com a chamada “burguesia-progressista”. Naquele ano, o PCB teve um grande crescimento, elegendo uma quantidade significativa de par- lamentares, inclusive o Secretário Geral, Luiz Carlos Prestes, para o Senado. A linha mantida até então seria profundamente abalada após julgamento do dia 7 de maio de 1947, que decidiu pela sus- pensão do seu registro. Posteriormente, os mandatos de seus parla- mentares foram cassados, em janeiro de 1948. O partido passou por um processo de radicalização, colocando-se em oposição ferrenha ao governo de Dutra. Hermógenes foi eleito neste contexto. O pe- ríodo que compreende seu mandato, de janeiro de 1948 a janeiro de 1951, foi marcado pela radicalidade do partido. O edil era um conhecido e destacado militante do PCB no Espírito Santo. Lançou sua candidatura pelo Partido Republicano (PR) e foi eleito com uma quantidade de votos tão expressiva que permitiu a vitória de outros seis vereadores que disputaram por sua legenda. O requerimento apresentado demonstra que Hermógenes usou o espaço da Câma- ra Municipal na disputa e defesa do programa do PCB. Ao tratar do aumento excessivo do preço dos alimentos, Hermógenes não apontou apenas as falhas administrativas. Seu ataque foi direcio-

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

nado principalmente aos latifundiários especuladores da Cidade de Vitória, assinalando a necessidade da reforma agrária. No que diz respeito à CCBFE — um truste norte-americano em território capi-

xaba - acusou a empresa de não ter interesse na melhoria do serviço, responsabilizando a Companhia pelo baixo desenvolvimento indus- trial do Espírito Santo, que ganhou destaque na discussão. Apontou

a ofensiva de setores “fascistas” e a necessidade de enfrentamento

ao governo Dutra, interpretado como uma ditadura que estava se consolidando. Demonstrou também a preocupação de defender o Petróleo brasileiro contra os interesses do imperialismo aliado ao governo Dutra, que foi citado como “governo de traição nacional”.

Fica claro, assim, que a análise feita por Hermógenes tem como base

a adaptação da leitura do Comitê Central do PCB no período em

questão, que pode ser constatada no Manifesto de Janeiro de 1948, de Luiz Carlos Prestes.

Palavras-chave: Partido Comunista do Brasil, Hermógenes Lima Fonseca, Câmara, Municipal de Vitória.

Festas populares capixabas e as raízes de um sistema de representações em torno das tragédias do mar

Michel Dal Col Costa - UNIRIO

No Espírito Santo há uma série de festejos populares protago-

nizados ao longo da história por indivíduos de ascendência africana

e índia. São as festas devotados aos santos católicos construídas em

formatos rituais distintos das práticas ortodoxas da Igreja. Nelas, as dramatizações populares de rua, a dança e a música de origem negra das bandas de congo são os elementos centrais das festas. A principal delas é a de São Benedito que, na Serra e em outras cidades capixabas, remonta a uma espécie de mito de origem, a um naufrá- gio ocorrido nos mares capixabas no século XIX, cujos passageiros negros foram salvos do sinistro marinho pela ação milagrosa do santo negro. Por gratidão, a comunidade local definiu a promessa de todos os anos erguerem um quadro de São Benedito sobre um mastro, ex-voto de naufrágio que vem sendo feito desde então. Não foi possível, nas pesquisa realizadas até então, encontrar relatos jor- nalísticos ou escritos sobre o fato em si. Ele permanece como um

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objeto específico da memória tradicional popular, revestido de uma aura mítica. Mas, por outro lado, o tema dos naufrágios enquanto problemas difíceis e dos salvamentos impossíveis como atos sobre- naturais de milagre, constituem um modo de representação comu- memum âmbito espacial e temporal bem mais amplo que a região do Espírito Santo. Nesse sentido, o trabalho apresenta uma série de indícios que apontam para a existência de um sistema antigo de re- presentações em torno do mar, ora visto como um fator de desco- nhecimento, impotência, temor e traumas; ora como um palco para a manifestação do poder da fé e da devoção no poder sobrenatural de Deus. Influenciado pela leitura de Alain Corbin e o seu clássico livro sobre o mar, intitulado “O Território do Vazio. A Praia e o Imaginário Ocidental” e também por uma perspectiva de história detetivesca nos moldes de Carlo Ginzburg, o texto busca apresentar uma interpretação das Festas de Mastro do folclore espírito-santen- se e outras manifestações congêneres, intentando situá-las como ele- mentos, matizes, clivagens, apropriações ou manifestações práticas de uma duradoura forma de relação com o mar alicerçada na fé, marcante no mundo ocidental da era cristã, sobretudo a partir das grandes navegações do Período Moderno. Assim, o texto identifica, descreve e analisa traços que compõem tal sistema de representa- ções ao longo da história, tais como: os relatos de naufrágio do XVI ao XIX; manifestações populares brasileiras relacionadas às comu- nidades de pescadores e ao mar; alegorias relacionadas ao mar e aos seus temores; e, por fim, as próprias festas de mastro do Espírito Santo, dando destaque para o modelo da cidade da Serra.

Palavras-chave: Mar; Representações de Naufrágio; cultura popular do Espírito Santo.

Música nos Teatros Cariocas:

a passagem da Monarquia à República

Mónica Vermes - UFES / IA-Unesp

A intensa vida cultural do Rio de Janeiro na virada do sécu- lo XIX para o século XX tinha os teatros como um de seus espaços principais. A tradição da historiografia musical brasileira, que tra- ta música erudita e música popular como entidades isoladas, tem registrado as atividades musicais desenvolvidas nos teatros cario-

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

cas desse período de forma parcial. No projeto Música nos Teatros Cariocas: repertórios, recepção e práticas culturais (1890-1920), em an- damento como estágio de pós-doutorado no Instituto de Artes da Unesp e com financiamento do CNPq, proponho um levantamento do repertório musical praticado nos principais teatros da cidade do Rio de Janeiro entre 1890 e 1920. A partir da análise desse reper- tório (compositores, forças musicais empregadas, gêneros pratica- dos) e da crítica musical encontrada nos periódicos e nos cronistas urbanos serão discutidas a recepção e as práticas musicais nesses espaços, bem como seu significado social e sua importância para a prática e pesquisa da atualidade. O assunto mais geral do projeto são as atividades musicais realizadas na cidade do Rio de Janeiro entre 1890 e 1920. Capital da recém-proclamada República, o Rio era palco de uma atividade musical fervilhante e variada. Tais ativi- dades tinham lugar em vários espaços: teatros, clubes, residências, salões, cinemas e na rua. O repertório musical incluía óperas italia- nas, modinhas, lundus, música de câmara, maxixes, sambas, música sinfônica pautada nos moldes centro-europeus dos séculos XVIII e XIX, vários gêneros de teatro musical. As personagens envolvidas nessas atividades incluíam músicos profissionais e amadores, em- presários, afinadores de piano, professores de música, proprietários de estabelecimentos comerciais musicais, editores de música, críti- cos, público. A movimentação das pessoas pela cidade e o trânsito dos repertórios para além de seus espaços de origem ou destinos preferenciais tornam essa rede musical complexa e interessante. A apreensão dessa totalidade, das relações entre essas várias persona- gens, repertórios, práticas e instituições, sujeitas ainda aos estímulos e choques com forças políticas, econômicas e culturais mais gerais, exige uma abordagem que leve em consideração essa polifonia e exige também recortes precisos que a tornem abordável. Tipicamen- te o tratamento dado às práticas musicais é submetido a uma cliva- gem em duas grandes categorias: música erudita (associada a uma educação musical formal e à prática dos gêneros musicais do reper- tório europeu dos séculos XVIII e XIX) e música popular (abarcan- do grosseiramente todas as outras práticas musicais urbanas). Essa organização preliminar em duas grandes categorias tende a sugerir uma distribuição da vida musical em círculos mais ou menos está- veis e independentes constituídos em torno de camada social, gêne- ro musical e espaço (por exemplo, elites – ópera – teatro).Trabalhos recentes realizados principalmente na área da História Cultural têm

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evidenciado quanto essa ideia de uniformidade e independência é ilusória. Nesta comunicação apresento resultados parciais do levan- tamento da atividade teatral carioca, concentrando-me no momento de transição Monarquia – República e na maneira como a mudança de regime incidiu mais diretamente nesse âmbito da vida da cidade.

Palavras-chave: Rio de Janeiro - música, gêneros do teatro musical, práticas culturais.

Gođkynningr: o rei escandinavo como ponte entre deuses e homens

Munir Lutfe Ayoub PUC-SP

O presente trabalho por meio de uma metodologia compara- da entre as fontes literárias e arqueológicas buscou compreender as modificações ocorridas nas praticas cultuais que possibilitaram a forja de ideais, de legitimação e a formação das funções das realezas escandinavas, além de buscar as funções e ânsias que esses homens tinham sobre seus deuses. Evidenciando por fim a importância dos antigos costumes nórdicos e da mitologia nórdica como instrumen- to de legitimação e de criação de poderes sociais, contribuindo para a compreensão de um período onde rito, mito e os poderes sociais estavam em plena conexão, relações essas que marcariam o período Viking na Escandinávia. Tendo assim sua baliza temporal inserida entre os séculos VIII e X sendo o primeiro o século no qual surgiram as primeiras realezas escandinavas e o segundo o século no qual os povos escandinavos começaram a sofrer um processo de conversão ao cristianismo.

Palavras-chave: Realeza; ritos; mitos.

Da contemporaneidade Italo-capixaba ao passado histórico no Espírito Santo

Otávio Benincá Toscano - UFES

Com o surgimento Fibria (primeiramente denominada Aracruz Celulose) empresa localizada no município de Aracruz (ES), em

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1978 , deu-se uma grande migração para a sede municipal — local onde se instalou a empresa. Tal mobilidade gerou um crescimen- to populacional significativo em praticamente todos os distritos de Aracruz. A exceção foi a localidade de Guaraná, distante da fábri- ca da referida empresa. Tal fato se constitui enquanto objeto deste

estudo, no qual se busca analisar o discurso na obra “Faça-se Ara- cruz”, de Maurilen de Paulo Cruz, bem como o discurso de um dos fundadores do grupo de dança Unità Itália de Guaraná. O objetivo é identificar a construção das representações e memórias sobre a imi- gração italiana após o surgimento da Fibria. A hipótese desse estu- do é que há uma simbiose entre os dois discursos: o memorialístico

e a narrativa atual. O grupo Unità Itália é formado por moradores

de Guaraná, parte deles descendente dos imigrantes italianos, que quando questionados sobre a história dos descendentes, apenas re- petem o que foi narrado pelos líderes. Além da dança, os moradores de Guaraná buscam outra forma de reviver o seu passado. Um de- les é o museu criado pela comunidade do distrito que visa mostrar às gerações futuras como viviam seus antepassados. O museu que foi montado por meio da doação de bens de moradores, possui ex- postos na entrada duas fotos de importantes personagens históricos considerados de extrema importância para o município de Aracruz. São eles Pietro Tabachi, quem organizou a primeira expedição de italianos em massa ao Brasil junto ao governo provincial — vieram 336 famílias no navio a vela “La Sofia” que desembarcou em 1874 no porto de Santa Cruz, distrito de Aracruz, berço da imigração italia- na no Espírito Santo —, e Aristides Armínio Guaraná, um empreen- dedor que ajudou a formar diversas vilas com a ajuda dos imigran- tes, e instalou o telégrafo na região, bem como construiu um grande

fabrica de açúcar . Diante disso, é possível problematizar: qual a im- portância da transmissão oral nas representações de memória dos cidadãos do município de Guaraná (ES)? E se Santa Cruz é o porto que recebeu a primeira expedição de imigrantes em massa por que as representações de memória não surgiram nesse distrito? Trata-se de uma pesquisa qualitativa que utiliza a história oral para analisar

o discurso dos integrantes do grupo de dança Unità Itália. Optou-se

pela entrevista oral e fonte histórica secundária. As análises mos- tram que a transmissão oral e a cumplicidade entre os cidadãos dos distritos de Guaraná pode ser considerada como uma estratégia de

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preservar as representações e memórias da cultura italiana nessa localidade .

Palavras-chave: imigração italiana; memória; cultura

Memórias de uma opinião:

as ideias abolicionistas no Journal da Société de la Morale Chrétienne (1836-1848)

Pollyanna Soares Rangel - UFES

Não se encontra esgotado o campo de estudos sobre a abolição

da escravidão no Brasil. O debate a respeito do fim da escravidão no território brasileironutria-se, muitas vezes, de argumentos gerados no estrangeiro. Na historiografia do período têm-se um amplo co- nhecimento a respeito da opinião pública inglesa no tocante ao fim do tráfico e da escravidão, contrastando com certo desconhecimento

do mesmo processo na França. Sabe-se que desde 1788 os franceses

criaram sociedades defensoras da emancipação dos escravos. A pri- meira delas foi a Societédes Amis de Noirs. Esta contava com ilustres

membros da sociedade francesa como Mirabeau, o abade Grégroire, Lafayette e Sieyès. A sociedade objetivava a emancipação gradual dos escravos das colônias francesas, a declaração de igualdade en-

tre negros e brancos e a proibição do comércio de escravos. Criada em 1821, a Société de laMoraleChrétienne, teve considerável duração no século XIX e empreendeu diversos debates sobre o assunto nas páginas do seu periódico, Journal da Sociéte de laMoraleChrétienne.

A decisão da Assembleia Constituinte francesa pela abolição da

escravidão não ocorreu sem polêmica. Pela lei de 20 de maio de 1802, Napoleão Bonaparte restabeleceu a escravidão em territórios como Guadalupe e Guyane que havia sido findada por decreto da Convenção de 4 de fevereiro de 1794. A Revolução do Haiti trou- xera uma enorme repercussão para o processo escravista em toda a América e com consequências fundamentais sobre a escravidão após essa revolta. Em resposta a pressão abolicionista, iniciou-se uma segunda escravidão que acelerou a compra de africanos pelos senhores escravagistas americanos devido ao temor do fim do co- mércio de escravos. Pressionado pelos ingleses, em 1815, Napoleão I proibiu o tráfico negreiro e nos anos seguintes foi instituída uma lei que interditava e reprimia o tráfico negreiro francês no mar, além

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

da introdução de navios franceses para a repressão do comércio. O presente trabalho tem como propósito discutir aspectos da opinião pública francesa a respeito da emancipação dos escravos na Améri- ca contidas no Journal da Société de La Morale Chrétienne, entre os anos de 1836 e 1848.O periódico era um órgão formado, basicamente, por protestantes (calvinistas, luteranos, anglicanos e batistas) que per- tenciam às classes mais afortunadas da sociedade francesa e podiam custear suas causas. No recorte cronológico abrangido por essa co- municação situam-se, dentre outros eventos, a proibição do comér- cio de escravos e a abolição da escravatura nos territórios franceses.

Palavras-chave: França; Escravidão; Abolição.

O Esquecimento do Pathos? Uma releitura sobre memória e sofrimento na obra Casa-Grande e Senzala (1933)

Márcia Barros Ferreira Rodrigues - UFES Claudio Marcio Coelho - UFES

O curso propõe a reflexão e a discussão de temas como me- mória, sofrimento e esquecimento na formação histórica e social do Brasil, a partir de uma releitura do pensamento de Gilberto Freyre (1900-1987) e de sua obra germinal Casa-Grande e Senzala, publica- da em 1933. Essa discussão será orientada pelo Paradigma Indiciá- rio de Base Psicanalítica, e pela busca de diálogos e interfaces entre História e Psicanálise. Assim, indicaremos e analisaremos inúmeros trechos da obra, onde o pathos (sofrimento em psicanálise) aparece de forma pujante, surpreendendo os leitores, acostumados e sedu- zidos pelas descrições poéticas e emocionadas do autor. Demons- traremos como G. Freyre apropriou-se de conceitos psicanalíticos como “sadismo” e “masoquismo” para interpretar relações sociais entre brancos (colonizadores) e negros (escravos), no Brasil colonial. Muito embora, a violência e a dor estejam presentes na construção da narrativa freyreana, o sofrimento (pathos) não prevalece na in- terpretação do Brasil e no imaginário brasileiro. Na perspectiva do autor (e do leitor), o ethos vence, e a conciliação das etnias (negros, índios e brancos) faz nascer a maior civilização dos trópicos. Isto posto, desejamos discutir como e porque o ethos vence o pathos na interpretação freyreana do Brasil. Esta discussão será construída a

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partir do que denominamos como “história subjetivada”, pois sabe-

Palavras-chave: Memória, Sofrimento, Esquecimento, Formação do

A opinião pública e a corrupção no Espírito Santo

mos que o processo histórico não é comandado apenas por forças es-

Rafael Cláudio Simões - UFES

truturais e conscientes, e que, o curso individual (subjetivo daquele narra a história) também é guiado por emoções inconscientes. Esses aspectos abrem espaço para um importante diálogo entre História e Psicanálise, principalmente, para a pesquisa historiográfica.

Brasil.

Com base em pesquisas de opinião pública realizadas em par-

ceria pela Transparência Capixaba e o Instituto de pesquisas Flex- consult, entre os anos de 2007 e 2011, denominadas de Barômetro Capixaba da Corrupção, pretende-se realizar uma análise dos prin- cipais elementos que constituem a percepção dos capixabas sobre

 

o

fenômeno da corrupção, como ele afeta as instituições, as ações

Os obstáculos do progresso:

delas no seu combate, o papel do cidadão na questão do comba- te à corrupção e a ocorrência da propina. As pesquisa são do tipo survey e tiveram sua metodologia traçada de acordo com o padrão

o discurso do atraso colonial e a representação dos indígenas na obra de José Teixeira

recomendado pela Associação Brasileira de Empresas de Pesqui- sa (ABEP) e da Associação Mundial de Mercado, Pesquisa Social e

Rafael Cerqueira do Nascimento - UFES

Opinião (ESOMAR), com Intervalo de Confiança de 95% e Margem

A obra História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira, é considerada como referência da historiografia capixaba. Deve ser observada, também, como portadora de um discurso que se pretende oficial, pois foi editada por três governos estaduais nos anos de 1951, 1974 e 2006. Dessa forma, pretendemos demonstrar

Palavras-chave: Representação; historiografia; indígenas.

de Erro em torno de 4,9%, com plano de amostragem baseado nos dados do IBGE 2000, TSE 2006, 2008 e 2010 e Instituto Jones dos San- tos Neves. Foram realizadas 400 entrevistas na Grande Vitória. Têm por base o “Global Corruption Barometer” realizado bianualmente pela Transparência Internacional desde 2003. Por certo, não se pre- tende, de modo algum, reduzir a análise do fenômeno da corrupção

que a obra de José Teixeira elaborou uma representação do passa-

e

de sua ocorrência à média da opinião dos cidadãos. Arlette Farge

do capixaba fundamentada em critérios de avaliação e qualificação

nos alerta que “a opinião é um lugar emaranhado onde a memó-

a partir de um binarismo atraso versus progresso. Tal perspectiva teve sua implicação na escrita sobre a história do Espírito Santo,

ria, o saber, a informação e a projeção sobre o presente e o porvir se mesclam para o desenhar; através das tensões e das distorções de

uma vez que definiu um sentido para a trajetória capixaba, a da

suas formas de expressão nota-se um bocado de heterogeneidade”.

superação do atraso. Nesse sentido, evidenciaremos como a narrati-

Newton Bignotto afirma que as pesquisas podem ser utilizadas para

va do autor estabeleceu uma imagem do passado colonial capixaba

a

compreensão dos mecanismos que minam a nossa vida coletiva

como sendo do atraso, marcado por diversas dificuldades. Nessa

e

que precisamos auferir bem o objeto que se pretende e precisam

construção, atribui lugares e papéis a determinados personagens. Uns tornaram-se símbolo do progresso, outros, correspondiam ao atraso. Demonstraremos, portanto, que os indígenas foram repre- sentados como símbolos do atraso colonial.

ser repetidas por período significativo para captar as nuances da opinião pública. Destacando os principais elementos da análise po- demos afirmar que no que diz respeito ao processo de desenvolvi- mento da corrupção em nosso estado, apesar de toda a discussão pública ocorrida sobre o tema e das ações que os poderes afirmavam realizar para o seu combate, a opinião se manteve estavelmente ne- gativa. Essas pesquisas, em que pese a generalidade das perguntas, conseguem estabelecer, segundo a percepção dos cidadãos, uma presença constante da corrupção em nossas instituições públicas e servem para que o sistema político, a sociedade de modo geral, suas organizações sociais e o mundo acadêmico, seja mobilizado para a

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

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discussão e o tratamento do tema. Dito isso, é possível perceber pelo Barômetro Capixaba da Corrupção, que os capixabas, residentes na Grande Vitória, têm, ao longo desses últimos cinco anos, demons- trado preocupação com a dimensão do problema da corrupção, com

a falta de ação coordenada e específica dos poderes e órgãos para

combater a sua ocorrência, mas que ao mesmo tempo, e isso é algo relevante, percebem, cada vez menor o papel dos cidadãos nesse processo. Como destacou Marc Bloch “a história consiste não ape- nas em saber como os acontecimentos ocorreram, mas igualmente como foram percebidos”.

Palavras-chave: Corrupção, Opinião Pública, Poderes Públicos

Pontos de interseção e vontades:

estratégias de compadrio e o caso da escravaria de Francisco Pinto Homem de Azevedo

Rafaela Domingos Lago - UFES

No presente trabalho, objetivou-se analisar os significados so- ciais das relações de compadrio de escravos estabelecidas na Pia ba- tismal da Catedral de Vitória (ES) durante parte do Oitocentos. A análise das relações rituais de cativos pertencentes à escravaria de Francisco Pinto Homem de Azevedo permite asseverar que tal co-

munidade se expandia com a admissão frequente de homens livres como compadres. Enquanto os cativos buscavam construir vínculos de solidariedade e proteção com homens fora do cativeiro, os padri- nhos livres, por sua vez, viam nessas alianças ampliação da autori- dade e respeito com escravos que não os seus. O compadrio emerge nesses casos como estratégia para multiplicação das alianças sociais e políticas, como ponto de interseção das vontades de cativos e li- vres. Com o presente estudo, acredita-se contribuir para a amplia- ção e sistematização dos estudos sobre o compadrio, no Brasil e para

a historiografia da escravidão no Espírito Santo.

Palavras-chave: Escravidão; Compadrio; Província do Espírito San- to.

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A fronteira entre ortodoxia e heresia na cristandade tardoantiga sob a perspectiva da controvérsia pelagiana

Raphael Leite Reis - UFES

Nos últimos anos a historiografia acerca do Império Romano tem se voltado para uma análise mais profunda sobre as fronteiras. Para além das discussões concernentes ao sentido dado ao conceito de fronteira, tais estudos transpassam os aspectos puramente ter- ritoriais e políticos e avançam rumo à compreensão dos limites e das intersecções das representações sociais e culturais da civilização romana. A presente comunicação visa inquirir sobre os embates in- telectuais entre o bispo Agostinho de Hipona (354-430) e o asceta bretão Pelágio (354-42?) — momento apreendido pela história como a “controvérsia pelagiana” que culminou com a vitória de Agosti- nho, considerado a partir de então o grande representante da “orto- doxia” cristã, e com a condenação de Pelágio como herege e de suas ideias como “heresia”, o pelagianismo — exatamente mediante os estudos sobre as fronteiras, nesse caso em particular, a respeito das fronteiras identitárias que permeavam o universo romano cristão da primeira metade do século V — momento que entende-se inserido dentro do conceito e do período conhecido por Antiguidade Tardia. Ora, tanto Agostinho quanto o próprio Pelágio, se consideravam de- fensores da “tradição cristã”. O ortodoxo é, na verdade, aquele que uma vez vitorioso passa a “segregar” e a tentar, pelos mais variados meios, expurgar o derrotado (herege) de seu meio fazendo prevale- cer sua abordagem doutrinária e suas práticas e representações re- lacionadas à fé cristã. O olhar retrospecto e privilegiado da história do fim do Baixo Império Romano ao mesmo tempo em que exalta a vitória do pensamento agostiniano sobre as concepções pelagianas acaba por relegar estas últimas apenas à uma condição de “trans- gressoras da verdadeira doutrina” sem dar-lhes a devida importân- cia como importantes colaboradoras na demarcação de limites so- cioculturais imprescindíveis à sociedade do período e na formação de grupos identitários cujas semelhanças e diferenças além de não muito claras eram bastante flexíveis no seio da cristandade tardo an- tiga ocidental. Porém, em um olhar voltado para o universo oriental do Império Romano, por exemplo, a situação se altera vertiginosa- mente: lá, as ideias agostinianas é que não eram tão benquistas, Pe- lágio, por outro lado, obteve uma profusão de seguidores com seus

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ideais de austeridade. Utilizando a análise do discurso (ORLANDI e MAINGUENEAU) como método de pesquisa, este trabalho pre- tende compreender algumas dimensões relacionadas à construção das representações de identidade e de alteridade através do con- junto de tratados feitos por Agostinho com o intuito de combater o pensamento pelagiano (De Gesti Pelagi) e de alguns raros escritos de

Pelágio comportando algumas de suas ideias principais, para que a partir dessa compreensão se possa refletir com relação ao limiar, à fronteira entre o ortodoxo e o herético, e as características atreladas

à construção e à consolidação desse binômio.

Palavras-chave: Fronteira, Agostinho, Pelágio.

Entre Paris e Barcelona:

Os Debates Judaico-Cristãos no século XIII

Regilene Amaral dos Santos - UFES

Oriundos de uma mesma vertente religiosa, cristãos e judeus

conviveram os primeiros séculos da era comum em conflitos atenu- ados. Como religião lícita o Judaísmo se apoiava em direitos insti- tuídos por leis que garantiam a sua existência. A situação mudou

a partir do início do século IV, quando a Igreja Católica tornou-se

hegemônica. A partir de então podemos analisar que o trato com o Outro, na figura do judeu, pode se inverter no momento histórico em que se processa, a depender de múltiplos fatores, “entre eles a interação social permanece provavelmente bastante influente, pois

através dela se expressam as disputas de interesses, os valores vigen-

tes a cada momento [

também, se pode expressar de interação social, seriam as artima- nhas que a Igreja construiu durante a Idade Média com o propósito de se firmar como a única detentora da verdade, os debates seriam uma dessas estratégias. A Igreja então, buscou construir interpreta- ções dos textos sagrados que a colocou como instituição eleita por Deus e como tal detentora da verdade absoluta o que garantiu o fortalecimento da identidade cristã. Com a finalidade proselitista, os debates entre judeus e cristãos ocorridos desde há muito se in- tensificaram no século XIII, momento auge da Hierocracia Católica. Antes de haver o confronto a verdade já imperava: o Cristianismo. Ali se encontravam os rabinos unicamente para representar os erros

(ARRUDA 1998, p. 41). Um exemplo que,

]”

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

das “falsas verdades” dos praticantes do Judaísmo. A proposta des- sa comunicação é analisar como se deram os debates judaico-cris- tãos no século XIII à luz dos ocorridos nas regiões da França (De- bate de Paris) e Espanha (Debate de Barcelona) e demonstrar como a desenvoltura dos debates refletiram a situação/aceitação judaica naquelas regiões. Como método de pesquisa utilizamos a leitura de obras de caráter geral acerca da temática das minorias marginali- zadas do medievo e bibliografias específicas acerca dos conceitos e contextos do antijudaismo e as várias correntes interpretativas que o tem como objeto de estudo. Como aporte teórico utilizamos como referência Os Estabelecidos e os Outsiders (SCOTSON; ELIAS, 2000)

que nos possibilitou refletir sobre a temática das minorias, no intui-

to de contextualizar e contrapor as perspectivas cristãs da margina-

lização dos judeus, além de sua identificação e legitimação social. Nesta perspectiva, tentamos compreender os motivos que levaram ao desenvolvimento da imagem herética do judeu praticante de sua

religião. No campo historiográfico específico à temática dos Debates judaico-cristãos utilizamos a obra, rica em fontes do tema abordado,

O Judaísmo em Julgamento: Os Debates Judaico-Cristãos na Idade

Média (MACCOBY, 1996).

Palavras-chave: Judeus. Cristãos. Talmude.

Além e Aquém mar: notícias e ideias políticas no Espírito Santo pós Revolução do Porto

Rodrigo da Silva Goularte- UFF

Esta reflexão se debruça sobre as releituras de ideias e notícias recebidas no Espírito Santo, então província do Reino Unido Lusi- tano, a respeito das transformações políticas que se processavam em Portugal no início da década de 1820, contexto da realização das Cortes, desdobramento da Revolução do Porto. Essas releituras va- riavam de acordo com o grupo sociopolítico regional que recebia as novidades das mudanças inauguradas no além mar. Esse estudo foi feito com base na análise de documentos enviados por autoridades das Vilas para a Junta Provisória de Governo, órgão criado pelas Cortes para administração das províncias, incluindo o Espírito San- to, procurando-se perceber como os personagens em tela percebiam esse momento. Dentre esses personagens, estão autoridades locais,

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escravos e milicianos, cada um produzindo ações e discursos parti- culares ligados às posições especificas ocupadas naquele universo social. De acordo com cada grupo produtor de discursos e ações, palavras como liberdade, adesão e sossego possuíam significados peculiares. Apesar dessas diferenças, foi possível observar que, na- quele momento, as notícias políticas vindas de Portugal eram in- terpretadas no Espírito Santo como um novo tempo, um tempo em que demandas anteriores seriam satisfeitas. Para alguns escravos, seria um tempo de liberdade; para os milicianos, seria uma época de melhores condições para o desempenho de suas funções; e para as autoridades um tempo de estabilização social, de sossego públi- co. Apesar de contemporâneos, não eram projetos convergentes, demonstrando a diversidade das leituras dessas ideias políticas de acordo com cada grupo social. No caso dos milicianos e escravos, os discursos e ações foram acessados por meio da fala de outros perso- nagens, Juízes Ordinários e Câmaras de Vila. Foram localizadas re- voltas escravas que se referenciavam nas notícias de liberdade que chegavam do além-mar e milicianos que exigiam melhorias de vida respaldando-se na Causa Pública. Para promoção do sossego público, as autoridades locais tentavam enquadrar ou reprimir esses tumul- tos, classificando-os como anarquia. Apesar dessa mediação das au- toridades, foi possível perceber como grupos fora das elites também se informaram desse novo contexto político e dele retiraram suas próprias conclusões, e a partir delas se mobilizaram no sentido de se incluírem como agentes e beneficiários de mudanças sociais. Essa in- vestigação tenta ser uma contribuição para uma gama de pesquisas regionais que se dedicam à compreensão do nascimento do Estado Brasileiro, como esse processo se deu em nível local, de acordo com as peculiaridades de cada região. Percebe-se que o Espírito Santo não ficou fora desse processo e que os atores que dele participaram não eram apenas membros das elites, mas também dos grupos de cativos e dos livres pobres.

Palavras-chave: Cortes, Escravos, Milícias.

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Educação inclusiva, abandono escolar e criminalidade juvenil (1980-2010) ruptura ou continuidade?

Rosely Maria Aparecida Machado - UFES

Este estudo visa analisar e refletir sobre algumas tendências pedagógicas que entraram em cena no Brasil a partir da década de 1920 e que deram direcionamentos, também, ao campo do currículo. Contudo, na década de 1980 na conjuntura do processo de redemo- cratização, tivemos a abertura para a influência de algumas visões críticas, com isso novos enfoques também foram dados ao currículo escolar e, que no Estado Espírito Santo culminou com a elabora- ção do Currículo Básico Comum das escolas estaduais publicado em 2009. Neste sentido, propomos uma discussão sobre a escola de qualidade e a importância de discutir o currículo e o ensino focados especialmente na visão de mundo e sociedade que permeiam diver- sos fazeres escolares, bem como a seleção de conteúdos e seu desen- volvimento na prática, assim como, avaliar certas práticas que são incompatíveis com um projeto vinculado a uma perspectiva eman- cipatória. Nossa discussão se inscreve no âmbito das políticas públi- cas para educação inclusiva, para atender, inclusive, aos interesses de adolescentes e jovens que cumprem medidas socioeducativas e que não conseguem cumprir com determinação de estar concluindo os estudos. Destacaremos o abandono escolar e a transversalidade desse tema no que concerne a temática da criminalidade juvenil na região metropolitana da Grande Vitória.

Palavras-chave: Currículo, criminalidade juvenil, inclusão.

Entre a magia e o poder:

A simbologia do bastão da völva

Sara Carvalho Divino - UFMA

Resumo: A análise da simbologia do bastão da völva se realizará por meio de analises de fontes primárias literárias e do debate ar- queológico a cerca dos bastões já encontradas. E a partir dessas ana- lises observar os elementos que estão ligados ao bastão e a völva e assim localizar o lugar social em que esta personagem está inserida durante a Escandinávia Medieval. O imaginário permeia as mais di-

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ferentes épocas da história e através dela a tradução do pensamento desta época. O simbolismo existente entre os imaginários medievais são bastante similares e antagônicos na mesma proporção. A defini- ção de uma característica não pode ser desvinculada de uma época sem que se observe as influências as quais ela estava. As uniões e as intercessões dessa influência é que dá a capacidade para que se

perceba como essa sociedade se projeta. A construção da figura da völur se caracteriza de diversos debates entre eles de que essa figura era apenas um personagem mitológico inspirada nos adivinhos que existiam durante a Escandinávia Medieval. A völva é a aquela que pratica o seiðr, spá e galdr, praticas mágicas que englobam a profecia

e

muitas outras formas de magia. Várias representações históricas

e

literárias demonstram a importância que as völur (plural de völ-

va) possuíam, pois as mesmas eram consultadas para saber o que o futuro os reservava. Na sociedade Viking entre 793 - 1066, a völva era uma mulher que se libertou dos fortes laços familiares e comu- nitários. Ela viajava de um clã ao outro, às vezes acompanhado por jovens aprendizes, sendo ela convocada em tempos de crise. Talvez

o relato mais detalhado de uma völva é a Eiríks saga rauða, onde des-

creve Thorbjörg visitando uma littlevölva (pequena profetisa/viden- te). Como grande parte dos personagens da Era Viking possuíam objeto e/ou símbolo que os identificavam, a völva também possuía

o seu e este era o seu bastão. Em Örvar-Odds saga, a völva usa um

manto azul e carrega uma roca, um bastão que supostamente tem o poder de causar esquecimento em quem é tocado três vezes no rosto por ele. A cor da capa pode ser menos importante do que o fato de

que ela tinha a intenção de significar a alteridade da praticante de magia. Acredita-se que assim como as armas feitas de metais encon- tradas e datas da Era Viking eram marcadores sociais, o bastão tam- bém era um marcador, demonstrando então a importância da völva.

O

bastão que a völva carrega envolve está envolvido por significados

e

funções, no entanto existe a associação do bastão da völva com as

nornas, a Skuld, principalmente, que são as mulheres que a partir da tecelagem de fios num roca definem o destino dos deuses e dos

homens, sendo então associada ao bastão do tear.

Palavras-Chave: Bastão, Escandinávia Medieval, Völva.

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Desumanizando o judeu medieval: sangue e pecado

Sergio Alberto Feldman - UFES

Esta comunicação almeja refletir sobre a construção do estere- ótipo medieval do judeu, nos reinos cristãos no assim denominado Ocidente medieval, nos séculos XI até o XIII. O eixo desta análise está embasado tanto em textos judaicos, quanto em crônicas e do- cumentos cristãos. A problemática central é como numa sociedade medieval os mitos e as representações circulam, ora da cultura cleri- cal no sentido da cultura popular, ora no sentido oposto, da cultura popular para a erudita/clerical. Os judeus são percebidos, desde a Antiguidade Tardia, nas sociedades em que convivem, como infiéis e incrédulos, mas são tolerados pelos governantes e pelas autorida- des eclesiásticas como inferiores, mas dotados de “humanidade”. Potencialmente podem ser salvos, pela evangelização e pela con- versão, desde que sincera. O período das Cruzadas traz em seu bojo uma alteração bastante radical na percepção dos judeus. A atitude judaica de resistência gera o sacrifício em “santificação do Nome divino” que propicia a morte de muitos judeus, que sacrificam suas famílias e depois se autoimolam. Esta atitude direciona a percepção cristã de uma conspiração judaica que consolida, geralmente na cul- tura popular, mas ascendendo até elementos dum nível intermediá- rio, tais como monges e padres e por fim chegando a cultura clerical erudita envidando a contrução de diversos estereótipos tais como o crime ritual, a profanação das hóstias e a efeminação dos judeus que são descritos, “sangrando” em função de seus pecados, em especial por causa do deicídio. O recorte espacial é os reinos da França e Inglaterra e o Império Germânico. As fontes são fundamentalmente clericais. Parcela de uma pesquisa de Pós Doutorado realizado no EHESS Paris sob patrocínio de bolsa da CAPES.

Revistas historiográficas inglesas - da reconstrução a desconstrução

Thiago Vieira de Brito - UFES

A apresentação pretende analisar os perfis historiográficos de três periódicos ingleses: English historical review, Past and present e Rethinking history. Sob a perspectiva do desconstrucionismo, proposto

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por Alun Munslow e Keith Jenkins, que também são idealizadores da revista Rethinking history, existe uma releitura das tradicionais divisões da historiografia, e essa nova perspectiva permite também uma nova interpretação dos lugares historiográficos que os perió- dicos ingleses sobre história ocupam. Trata-se de uma tentativa de

entender a dinâmica entre estas três revistas e as possíveis repercus- sões disso também em outros ambientes historiográficos, para além do contexto anglo-saxão. A heterodoxa maneira de compreender a dinâmica da história e seus autores sob o viés do desconstrucionismo tem efeitos em todas as tradições historiográficas. E é por esse mo- tivo que se faz necessária a compreensão dessa nova perspectiva em seu local de origem - neste caso a historiografia inglesa — pois, é ali que se demonstram os conflitos que resultaram na criação de uma nova revista que pudesse dar conta de uma possível nova di- nâmica da historiografia. Para propor este novo olhar sobre os pe- riódicos historiográficos ingleses é necessário entender o panorama da perspectiva desconstrucionista da história e suas digressões sobre os outros paradigmas narrativos que ela propõe: o reconstrucionista

e construcionista. Se há de fato esses três tipos de narrativa, e cada um deles possui uma proposta de compreensão de como funciona

a relação do passado e sua representação na linguagem, há também

uma epistemologia diferenciada em cada um deles. Essas epistemo- logias são inconciliáveis e necessitam de meios ou dispositivos espe- cíficos para difusão de sua estrutura de narrativa. As revistas por sua vez, devem ser compreendidas como o lugar onde se realiza a divisão formal dos modelos de narrativa estruturados na redivisão de Alun Munslow e Keith Jenkins. Essas revistas abrigam cada uma seu gênero de vazão narrativa. Em English historical review existe uma proposta reconstrucionista de narrativa do passado. Em Past and present ocorre uma proposta construcionista da narrativa do passado. E, por fim, em Rethink history se concentra o reduto de uma narrativa desconstrucionista do passado. Tal redivisão da historiografia inglesa pode ser tomada como parâmetro para encontrar pontos de conta- to com outras tradições historiográficas. É possível vislumbrar tais aspectos narrativos em outros periódicos de outros países? Em que medida é aceitável, compreender tradições narrativas pelo o que elas não se auto intitulam? Tais ambientes historiográficos podem ser compreendidos como órbitas de revistas? São essas as questões

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

que a comunicação tentará levantar, apresentando possíveis respos- tas.

Palavras-chave: revistas, desconstrucionissmo, narrativas

Pensar a Nação em um contexto de ruptura:

Mariano Moreno e a Independência da América Espanhola

Tito Souza da Silva - UFES

A partir de 1792 a Espanha esteve inserida em inúmeras guer- ras no continente europeu, com destaque para as invasões francesas que culminaram na abdicação forçada de Carlos IV (1788-1808) e de seu filho, Fernando VII (1808, 1814-1833). Neste contexto, uma Junta Central de Governo foi estabelecida em Sevilha, e reconhecida pela maioria dos Vice-reinos, Capitanias Gerais e Províncias do Impé- rio. Essa instituição, entretanto, teve uma existência efêmera, sendo dissolvida em 1810. Diante da ausência de um governo unificado, ocorreu a formação de juntas autônomas de governo nas principais cidades da América Espanhola. Em 25 de maio de 1810, por con- seguinte, foi proclamado em Buenos Aires um ‘cabildo aberto’, ou seja, uma assembléia política formada pelos principais moradores — chamados de gente decente -, responsável por nomear uma Junta autônoma de governo para a então chamada região do Rio da Prata. Nesta época de ruptura e transição, destacaram-se os discursos po- líticos do advogado Mariano Moreno, que ocupou o cargo de secre- tário da Guerra e do Governo na Primeira Junta. Moreno defendia a formação da Junta de Governo a partir do ‘pactismo’, uma teoria de- senvolvida no século XVI pelo jesuíta Francisco Suárez (1548-1617), a qual afirmava que a autoridade divina não repousava diretamente sobre o monarca, e sim no povo (pueblo) que transferia tal autori- dade ao rei. Na tradição espanhola, ademais, o conceito de Nação estava diretamente relacionado à Monarquia e a todos os reinos e cidades-províncias que a compunham. Com base nos preceitos ‘pac- tistas’, o advogado afirmava que, a partir das invasões napoleôni- cas e da deposição do rei, o poder de governar deveria retornar aos ‘pueblos’. Tal argumento ficou conhecido como a teoria da ‘retrover- são de poderes’, e expressava um apoio ao cativo Fernando VII, bem como a recusa por aceitar e legitimar o governo exercido por uma

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nação estrangeira. Havia também nos discursos de Moreno a junção de uma rigorosa moralidade cristã com a teoria do contrato social de Jean-Jacques Rousseau e o jacobinismo francês, fatores que o le- varam a idealizar uma república constituída por homens virtuosos. Esta comunicação pretende, portanto, abordar o período de inde- pendência da América Espanhola, principalmente da região do Rio da Prata, destacando os discursos políticos de Mariano Moreno. E, a partir dos estudos contemporâneos de Elías Paltí, José Chiaramonte, Noemí Goldman e outros, ressaltar como os conceitos de ‘pactismo’, ‘nação’ e ‘pueblo’ foram utilizados no contexto de ruptura do pacto colonial e surgimento de novos países.

Palavras-chave: pactismo, nação, pueblo.

Regime Civil-militar de 64 e elites capixabas:

rupturas e continuidades

Ueber José de Oliveira – UFES

No conjunto da literatura relevante sobre partidos políticos e sistemas eleitorais, poucos são os trabalhos que enfatizam o fato de que o novo sistema partidário não é tão novo quanto parece num primeiro olhar e que, em grande medida, é formado a partir das fa- mílias e máquinas políticas e eleitorais que transpõem com êxito as fronteiras e turbulências representadas pelas mudanças institucio- nais. Diante dessa premissa, a presente comunicação tem por objeti- vo analisar como as elites políticas capixabas do multipartidarismo do período 1945-1965 se reestruturaram à luz da nova instituciona- lidade político-partidária instaurada após o golpe civil-militar de 1964. Aventa-se a hipótese de que, apesar das restrições impostas pelo regime militar ao funcionamento do sistema bipartidário, iden- tificam-se certas linhas de continuidade entre os períodos pré e pós- 1964, em que os principais atores políticos, sejam eles indivíduos ou agrupamentos, no interior das agremiações políticas em apre- ço, mantiveram certos padrões de posicionamento já verificados no cenário político-eleitoral do período 1945-1964. No caso da Arena capixaba, o partido reuniu tanto os membros do antigo PSD, com suas duas principais alas — a urbano-industrial e a agro-fundiária —, quanto as forças políticas que se aglutinavam em torno da frente partidária convencionalmente chamada de Coligação Democrática,

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

que abrigava uma ampla gama de partidos políticos — UDN, PTB, PSP, PSB, PR, entre outros — os quais faziam oposição ao PSD. Já o MDB, foi, desde o início, aparelhado por um ex-membro da ala mais conservadora do antigo PTB e seu grupo, o que transmitiu ao par- tido oposicionista capixaba o mesmo perfil conservador verificado no PTB regional.

Palavras-chave: Regime Militar; Elites Políticas Regionais; Partidos Políticos.

2013 - as jornadas de junho e a rosa dos ventos:

para onde sopram as linhas do horizonte?

Valter Pires Pereira - UFES

A presente comunicação refere-se à pesquisa em andamento acerca do ciclo de manifestações, apressadamente nomeadas “Jorna- das de Junho”, apesar da sequência de eventos ainda recentes, cujas características se encontram em fase de refinamento e configuração de imagens e significados. A partir da elaboração de um conceito de manifestação, que deve orientar as análises destes atos sociais coletivos, incorporam-se aspectos conceituais desde “A Opinião e as Massas”, de Gabriel Tarde, bem como contribuições abstraídas da teoria das elites, com objetivos de reconhecer as complexidades conjunturais e específicas do ciclo de manifestações, adiversidade de objetos-problemas e competências comunicativas e deliberati- vas, nos parâmetros das interações entre sociedade civil e socieda- de política. O ensaio de discernimento dos corpos coletivos, para o reconhecimento dos interlocutores, anseios e possibilidades de en- caminhamentos políticos, bem como viabilização de utopias remo- tas ou ulteriores, sugerem o vislumbre de miragens refletidas nas imprecisas linhas dos horizontes dispersos daRosa dos Ventos, no que concerne às possibilidades de conformação da práxis política em cidadania participativa de novo tipo, nos parâmetros da nome- ada democracia representativa, numa sociedade tradicionalmente autoritária.

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Esquecidos e renascidos - a percepção de si mesmo, nas origens da formação política do Brasil Colonial

Valter Pires Pereira - UFES

Trata das primeiras formas de organização social, em espaços urbanos, na América Portuguesa, a partir das organizações de so- ciedades literárias conhecidas como arcádias e academias, a exem- plo da Academia Brasílica dos Esquecidos e Academia Brasílica dos Renascidos, entre outras, constituindo ambientes da produção do conhecimento e cristalização da cultura erudita regionais. Trata também da organização de sociedades secretas, como areópagos e maçonarias, como ambientes de conhecimento das ideias iluminis- tas e liberais, com repercussões em manifestações políticas. Conclui com a criação da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, em 1827, entre outras associações, destacando-se a idealização e funda- ção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

A campanha eleitoral do comunista Antônio Granja

a vereador em 1947 em Cariacica

Vinícius Machado - UFES

A presente comunicação se propõe a discutir a campanha elei- toral do dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCB), Antônio Ribeiro Granja, ao pleito de vereador na cidade de Cariacica no final do ano de 1947. Para tanto, recorro à análise de duas entrevistas concedidas por ele. A primeira, concedidaao Professor Doutor An- dré Pereira no dia 19/07/2012 e, a segunda, concedida a mim no dia 22/10/2013. Ambas na residência do entrevistado no município da Serra. O objetivo da pesquisa é, através da análise do discurso, problematizar quais foram as estratégias adotadas e contradições enfrentadas pelo candidato comunista durante a campanha para convencer o eleitorado e conseguir votos, em um município pobre, com perfil predominantemente agrícola e relações de trabalho não capitalistas, dominado por oligarquias cafeeiras em decadência. Mas que, ao mesmo tempo, graças principalmente a presença da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e da Companhia Ferro e Aço de Vitória (COFAVI), possuía um operariado ferroviário e metalúr-

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA UFES - PARIS-EST MEMÓRIAS, TRAUMAS E RUPTURAS

gico expressivo para sua realidade. Procuro traçar qual o tipo de memória - “bergsoniana” ou “halbwachiana” - é predominante na fala do entrevistado, além de analisar se houve ressonância entre os trabalhadores, durante o processo eleitoral, das campanhas que

o PCB abraçava naquela conjuntura: a luta em defesa do petróleo,

pela paz e contra o Imperialismo. A metodologia utilizada é a da História Oral. Busco do entrevistadoa percepção social dos even- tos na época e não a “verdade dos fatos”, mas sim a forma como a campanha eleitoral ocorreu e quais discursos foram elaborados pelo militante comunista naquele momento. Para tanto, procuro estabe- lecer uma diferença entre os aspectos pessoais, privados da memó- ria, e seus componentes coletivos, remetendo o paralelo que Ecléia Bosi estabelece entre asconcepções de Henri Bergson e Maurice Hal- bwachspara fazer uma classificação do tipo de memória elaborada pelo entrevistado. Apesar da pesquisa estar em seu começo e não seja possível fechar um quadro definitivo sobre o período que estou

analisando, aponto algumas conclusões iniciais a partir das análises das entrevistas: o fato de um candidato comunista atuar numa ci- dade com uma economia agrária, mas com um expressivo - embora não dê pra medir o seu peso nas eleições — operariado metalúrgico

e ferroviário, obrigou-o a adotar estratégias diferentes para atingir

essas bases. Os principais temas utilizados nos núcleos operários era o aumento dos salários e a construção de moradias. Já nas re- giões rurais, o estímulo à participação nas eleições e as promessas de favores foi o modo encontrado por Antônio Granja para chegar até esse eleitorado. Sua memória é predominantemente “halbwa- chiana”. Alinhada a leitura do PCB à época: destaque para ênfase no caráter semi-feudal do país e do atraso da classe operária (anal- fabeta, incapaz de ser politizada, etc). Apesar de terem sido temas explorados durante a campanha eleitoral, a luta em defesa do petró- leo, pela paz e contra o Imperialismo não teve ressonância entre os trabalhadores.

Palavras-chave: Partido Comunista do Brasil (PCB), Antonio Ribei- ro Granja, Campanha eleitoral.

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