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28/05/2018 OS MINTADI E A COSMOVISÃO DOS BAKONGO

OS MINTADI E A COSMOVISÃO DOS


BAKONGO
Jornal Cultura · 3 agosto 2015 · EMANUEL CABOCO

A região do Noki (província do Zaire) possui uma grande importância no contexto das escolas
tradicionais de arte que ao longo dos tempos foram se ixando no território que hoje constitui
a República de Angola. Ali foi desenvolvida uma escultura tradicional (estátuas) simbólica,
muito conhecida e apreciada, não somente no nosso país mas, também no seio da comunida-
de cientí ica estrangeira, sob a designação de Mintadi. Ela tornar-se-á, de geração em gera-
ção, num símbolo de grande relevância para a cultura material e imaterial dos povos Bakongo
e da nossa Cultura e Identidade.

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28/05/2018 OS MINTADI E A COSMOVISÃO DOS BAKONGO

Os Mintadi são estatuetas de característica essencialmente antropomorfa, feitas de esteatite,


conhecida como pedra-sabão, mas que no entanto, os povos a denominam localmente como
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28/05/2018 OS MINTADI E A COSMOVISÃO DOS BAKONGO

Matadi Mafumu.
Apesar de não terem sido desenvolvidos estudos su icientes ou profundos relativamente ao
conhecimento do seu signi icado e das suas possíveis funções junto da comunidade, a limita-
da literatura sobre si revela que os Mintadi são, de facto, uma produção artística e de grande
signi icado e utilidade junto da comunidade e, parece não haver grande divergência, em rela-
ção à sua função no universo ilosó ico dos povos Bakongo.
Uns a irmam que os Mintadi estão associados, sobretudo, ao poder tradicional, rituais fune-
rários, culto religioso popular. Outros ainda a distinguem em virtude do seu signi icado na
língua portuguesa: vigiador, vigilante, guardião ou ainda seguidores, remetendose-lhe, as-
sim, para uma utilidade básica de protecção à família e comunidade (para estes os Mintadi
proclamam a estabilidade e a coesão no seu seio). Resumem ainda outros que os Mintadi es-
tão associados às concepções estéticas e ilosó icas da cultura Bakongo, ao norte de Angola.
Todos, contudo, acabam por concordar que os Mintadi representam a cosmovisão dos Bakon-
go. Criatividade A criatividade artística dos seus autores, está assente na grande e rica diver-
sidade dos temas e formas das peças esculpidas, destacando-se em quantidade os exemplares
que representam a maternidade e as práticas sociais ou simplesmente, o quotidiano.
Os seus escultores muitas vezes trabalham em segredo, particularmente na criação dos “ob-
jectos” que, estão estritamente relacionados às práticas de culto, justamente por se tratar de
representações ligadas às forças espirituais dos seus ancestrais.
Alguns desses objectos podem, muitas vezes, atender a mais de uma inalidade e re lectindo
uma série de signi icados. Contudo, essas esculturas servem para marcar os eventos ou fases
da vida.
Eventualmente, assim se pode justi icar o porque dos Mintadi manterem, ao longo dos tem-
pos, uma relação vinculativa com a sua comunidade, tendo, para ela, uma utilidade constante
e permanente no quotidiano. As estatuetas são, sobretudo, usadas em cerimónias especiais.
Em algumas ocasiões e cerimónias elas são colocadas para justi icar ou representar o
soberano, na sua ausência. No passado, por exemplo, quando uma peça fosse colocada sobre o
trono de uma autoridade tradicional ausente, os membros da comunidade tinham que se
comportar como se o seu soberano ali estivesse. Levadas para a Europa Muitas dessas emble-
máticas peças, foram levadas para a Europa no passado. No século XVIII, XIX e XX, terão sido
levadas por missionários, estudiosos e outros interessados numerosos exemplares para se-
rem expostos em museus europeus. Só assim se pode justi icar a presença dos Mintadi, por
exemplo no Museo Pré-histórico e Etnográ ico Luigi Pigorini, em Roma e em outros museus
na Bélgica (Museu de Teourvin) e ainda em Portugal (Sociedade de Geogra ia de Lisboa, Anti-
go Museu do Ultramar, etc) e França.
Nos anos 50 do passado século, ainda, um pintor belga, Verly, passando por Angola terá leva-
do consigo uma grande quantidade de peças de boa qualidade. Algumas dessas peças foram
fotografadas e descritas no seu artigo “Les Mintadi, la statuaire de Pierre Bakongo”, Revista
“Zaire” nº 9, Louvain, 1955.
Há informações de que o seu fabrico terá perdurado até à segunda metade do século XX, em-
bora já com uma reduzida produção. Contudo, no período colonial foi deliberada a sua repro-
dução (falsi icação), inundando o mercado turístico (como artesanato comercial ou fazendo-
se passar por originais).

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Em alguns museus de Angola, estão expostos, um número signi icativo de exemplares dessa
escultura tradicional atribuída aos Bakongo, que importa estudar, conhecer, preservar e valo-
rizar.

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