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Um convite à reflexão: Resenha de podres de mimados – Theodore

Dalrymple

O livro tem seis capítulos. Trabalha uma crítica pertinente ao


sentimentalismo. Afinal de contas, o que é “Sentimentalismo”? Dalrymple,
valendo de uma expressão de Myron Magnet, diz que sentimentalismo é a
expressão da emoção sem julgamento. Talvez ele seja pior do que isso: é a
expressão da emoção sem um reconhecimento de que o julgamento deveria
fazer parte de como devemos reagir ao que vemos e ouvimos (pg. 87). A
pergunta que se faz a essa altura é: “Então, sentimentalismo é contra
qualquer expressão de emoção”? A resposta que Dalrymple é que não. Ele
escreve: “A questão não é se deve haver emoções, mas como, quando e em
que grau elas devem ser expressadas, e que papel elas devem desempenhar
na vida humana” (p. 78).

O livro aponta que o sentimentalismo é a causa de muitos males que


assediam a sociedade hoje. Uma das maiores influências nesse caso é Jean
Jacques Rosseau com o seu romantismo. Segundo Pondé, o Romantismo é
um movimento europeu que nasce no final do século XVIII e segue até
finais do XIX com grande impacto na literatura, na filosofia, na política e
na psicologia. Muitos especialistas usam a expressão ‘constante
romântica’ para os ‘sintomas’ românticos até hoje. O romantismo seria
uma ‘constante’ porque até hoje as causas históricas de seu surgimento
permanecem ativas e, talvez, ainda mais ativas do que sua origem” (p. 08).

Vale lembrar, contudo, que originalmente (nos idos do sec. XVIII) o termo
‘sentimental’ tinha conotações positivas e que identificariam uma pessoa
sensível e compassiva (p. 75). E, portanto, não é contra a expressão dos
sentimentos e nem as emoções que Dalrymple faz sua crítica. O que
Dalrymple critica é a ação de ventilar emoção em público (p. 101). Ele
critica a visibilidade desnecessária que as emoções adquiriram atualmente
(p. 121).

O romantismo e o sentimentalismo produziram muitos efeitos danosos que


persistem atualmente e, ao longo dos capítulos, Dalrymple vai listando
alguns deles. O primeiro deles é a concessão de todo desejo (pp 43-45).
Há uma frase pertinente de Dalrymple nesse sentido:

“Muitas vezes, os pais, que se consideram a si mesmos bons pais,


procuravam-me para perguntar por que seu filho ou sua filha tinha ficado
tão problemático: tão temperamental, agressivo, violento e criminoso. Eles
achavam aquilo de difícil entender porque, como diziam: ‘nós lhes demos
tudo.’ Quando eu lhes perguntava o que eles queriam dizer com ‘tudo’,
eles respondiam. Tirando uma ou outra posse material, ‘os melhores tênis,
um iPod, um aparelho de CD’ (p. 43-44). Então ele prossegue narrando
uma história de uma menina que deu birra por causa de um pé de galinha
na janta e, que por isso, os pais queriam processar o supermercado que
vendeu o produto (pp 56-58).

O segundo deles é a expressão irrefletida das emoções (p. 72). Há uma


frase pertinente nesse caso:

“O efeito das estatísticas aparentemente secas na primeira página do


jornal (que mencionava índices sobre encarcerados na Grã-Bretanha)
depende, portanto, da suspensão voluntária do pensamento, da reflexão, do
questionamento, e da racionalidade em prol de uma resposta
imediatamente emocional – e isso apesar do fato de que a maioria dos
leitores do jornal viria do segmento da sociedade com maior nível de
formação. O sentimentalismo não se limita nem a uma situação nem a uma
classe social” (p. 72 grifos nossos).

O terceiro deles é o exibicionismo (p. 75). Nas palavras de Dalrymple:

A definição acima [do termo sentimental] não menciona uma importante


característica do tipo de sentimentalismo para o qual desejo chamar
atenção – seu caráter público. Não basta mais derramar uma lágrima em
particular, longe da vista alheia, pela morte da pequena Nell [uma
garotinha desaparecida dos pais na Grã-Bretanha]; é necessário fazê-lo,
ou seu equivalente moderno, à plena visão do público”. Segundo
Dalrymple, emoções são como uma teoria hidráulica: A emoção cresce
com a expressão (p.79-80). O sentimentalismo público, o qual Darlymple
combate, usurpa o significado do velho ditado: Vox Populi, Vox Dei [A voz
do povo é a voz de Deus] (p. 82); Isso significa que todo acontecimento
tem que ter uma grande comoção pública, se não o tiver, a pessoa que
absteve-se de comover-se publicamente não é sentimental, e portanto, não é
digna de credibilidade. Só que esse velho ditado é questionado quando se
defende, por exemplo, uma tradição antiga (p. 121). Como salientamos
anteriormente, Dalrymple critica a emoção ventilada em público como
sendo algo sempre benéfico (p. 101). As emoções são como moedas
podendo ser infladas e depreciadas, e nesse caso, ‘o que é ruim afasta o
bom’ (p. 120).

Dalrymple prossegue criticando outros efeitos danosos, os quais


omitiremos, para dar ao leitor o ensejo de ler essa magnânima obra. Um
insight maravilhoso que Dalrymple traz é que o sentimentalismo público e
nocivo se apropria do sofrimento alheio para ampliar a escala e a
importância do sofrimento próprio. Nas palavras do próprio autor, a
desonestidade emocional não conhece fronteiras (p. 136). Então ele
demostra essa verdade através de oito exemplos: Sylvia Plath, Binjamin
Wilsomirski, Laura Grabowski, Misha Defonseca, Rigoberta Menchú,
Margareth B. Jones, James Frey, Stephen Lawrence.

Dalrymple traz outros insights importantes, resumidos em frases


impactantes:

Nem tudo que é mensurável é importante, ao passo que nem tudo que é
importante é mensurável (Einstein) [p. 63]. Isso não significa que, às
vezes, alguém que não expressou publicamente seu pesar ou imensa
alegria, não se importava. Podia importar-se, mas no privado.

Não existe corrupção solitária (Mobutu Sese Seko) [p. 151]. Isso significa
que nós todos, em alguma medida, somos atingidos pela pressão midiática,
pelo sentimentalismo tóxico. A conclusão lógica que Dalrymple chega
indubitavelmente é que Somos sentimentais do berço ao túmulo (p.74). O
que fazer em vista disso, então?

Em primeiro lugar, chamar-se pessoalmente à responsabilidade (p. 70).


Mark Manson e Brené Brown enfatizaram isso nos seus livros,
respectivamente. Chegando a nos dizer que assumindo a responsabilidade
pela nossa história podemos escrever seu final. Escolher o que é importante
é escolher as batalhas que enfrentaremos e isso nos leva a economizar
energia e tempo. Ele retoma esse conceito de responsabilidade pessoal
também na página 171.

Em último lugar, um chamado ao retorno ao pensamento crítico (p. 199).


Abandonado o pensamento irrefletido de que todos são vítimas (p. 88), pois
antigamente a autopiedade é um vício repulsivo (p. 135-136), abandonar a
ideia de que é sadio isentar-se de emitir julgamentos (p. 170). Ideia essa,
inclusive, que adentrou nos arraiais do Cristianismo, infelizmente. Nas
palavras de Dalrymple, apelo nenhum a fotografias de crianças africanas
subnutridas substitui a reflexão (p. 192). Isto é, nenhum apelo emocional
deveria nos fazer deixar de raciocinar. Afinal de contas, ninguém está
imune ao sentimentalismo em sua esfera privada (p.87, 197). O que nos
resta então é, valendo-se do dito de Pascal, decidir esforçar-se para pensar
bem. Eis o princípio da moral. (p. 199).