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FOCO NA SAUDE, NAO NA DOENCA m 2015, Mara Assis, 32 anos, foi a uma consulta no Setor Neuromuscular da Uni- versidade Federal de Sao Paulo (Unifesa) e soube da possibllidade de acessar 0 Am bulatério de Cuidados Integrativos, d cado as Praticas Integrativas Complementares em Satie (PICS), que funciona no mesmo local. O canvite veio de uma integrante da Associagdo Brasileira de Miastenia, doenca com a qual Mara convive pelo me- nos desde os 21 anos, quando foi diagnosticada. Ela ‘egressou na semana seguinte, atrasada e nervosa. E lembra de ter sido recebida por uma funcionaria que ihe acalmou: “fique tranquila, o importante & que voc chegou", Para ficar Desde entdo, Mara frequenta o espaso regula mente. Primeiro, como participante das atividades. Hoje, também como monitora, depois de ter feito o curso de especializacdo em Cuidados Integrativos oferecido pela instituicao, e voluntaria para auxiiar (05 grupos que se retnem as quintas-feiras. O motivo para o constante regresso foi 0 (relencontro consigo mesma, que ela atribui as PICS e a equipe que atua no ambulatério. "Eu me alhava no espelho e no me via mais. Nao tinha nimo para mais nada. € aqui reen- contrel isso", afirma, Reiki, mecitacao, arteterapia e constelagio fa miliar 50 apenas algumas cas atividades que as pessoas atencidas ~ todas com problemas/doengas ‘neurolégicas ~ encontram no ambulatério, gratuita- mente, com 0 apoio de um time multidisciplinarinte- srado por profissionais - incliinéo psicblogasios ~ e voluntarias/os {As PICS passaram a ser contempladas pelo Siste~ sma Unico de Saddle (SUS) a partir de 2006, com a pu- bilicago do Plano Nacional relacionado ao tema. Deli ara cé, o nimero de préticas incluidas no dacumen- to 56 fez crescer e, hoje, chega a quase 30. 0 grande diferencial dos Cuidados Integrativos é a orientacao salutogénica, conceito segundo 0 qual o foco deixa sero tratamento das doencas, mas a atencao a sal de Essa priorizacao trata-se de orienta inclusive nas universidades, de acordo com a doutora, em Ciéncias/Neurologia pela Universidade Federal de »), Sissy Veloso Fontes, coordena- dora e fundadora do Nucleo de Cuidados Integrativos do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Unifesp ¢, atual coordenadora do Nicleo de Medicina ¢ Praticas Integrativas e Complementares (Numepi ‘Nas aulas, fala-se 99% do tempo sobre doengas & 1% sobre sade" avalia ela, que observa haver ainda preconceitos em relaco a adocao das PICS. Sissy os atribui ao desconhecimento e as diferengas metodo- \6gico-académicas, em azo de muitas das pesquk sas sobre as praticas fugirem do padréo quantitati- vo comum aquelas conduzidas em relacdo a drogas @ tratamentos alopaticos. Além disso, boa parte da producéo cientifica relativa as PICS circula em revis- tas menos renomadas e/ou em idiomas que nao o in- gl@s, motives para serem “desacreditadas”. “As Prati- cas Integrativas ndo esto al para advogar contra os tratamentos convencionais, mas para permitir novos caminhos a quem precisa, para valorizar 05 sujeitos @ suas subjetividades, incluindo as famtlias de enfer- mos, que nao poucas vezes adoecem com eles", es- clarece a doutora Porém, a julgar pelos relatos sobre os beneficios das PICS feitos por participantes das atividades do Ambulatério de Cuidados Integrativos da Universida- de Federal de So Paulo (Unifesp), a desconfianca e/ ‘ou desdém pela praticas sao feitas por quem nunca precisou recorrer a este tipo de procedimento ou nao estd aberto a aprender sobre eles, ‘O misico Ant6nio, 88 anos, chegou ao ambulatério por indicagao de sua filha depois de passar a ter dif- culdades de fazer movimentos com os dedos em seu Diz que a divisdo que alguns profissionais da salide insistem em fazer entre as diferentes areas da medicina ~ descartando as “ndo-convencionais & preconceituosa Maria, outra atendida no ambulatério, relatou que as idas ao médico se tomaram totalmente previsiveis, enquanto as praticas Ihe abrem navas possibiidades e perspectivas, Paulo, de 47 anos, disse que chegou ao ambulaté- rio descrente dos tratamentos, mas que isso mudou a0 passo em que comecou a perceber o bem que fa~ zem a ele nao apenas os exercicios individvais, mas também a aproximagdo com outros frequentadores do ambulatério, "Quando fui para a meditacao pela primeira ver e cisseram que 0 exercicio seria de ez minutos, achei uma grande bobagem, que no fun- clonaria. Mas, em cinco minutos eu jé estava pronto” narra, Junko, 61, que enfrenta a Sindrome Pés-Pélio, diz ter aprendido muite sobre autocuidado, relaciona- mentas ~ especialmente com a Constelacao Familiar = @ a se autorrespeitar. "O processo vivido por pes- soas como eu inclui perceber a diminuig0, ano a ano, Pe RSPECTIVA DA/O USUARIA/O. da capacidade de fazer as coisas. Se nao nos cuidamos, esse pro- cesso se tora uma angiistia. Mas, se sa- bemos nos respeitar, ganhamos qualida- de de vida", assegu- ra ela, que destaca a relevancia de tra balhar, simultanea- mente, corpo, alma e mente: “eu me sinto inteira’, resume. Isabel, 63, concorda “Aqui ganhamos incepen- déncia para nos cuidarmos quando precisamos. Escuto coisas feias por ai em razio de minhas dificuldades, mas hoje me respeito e vivo cada dia como se fos- se 0 Ultimo’, afirma. “Aprendi que precisa~ mos fazer as coisas para agradar aos outros, mas também 0 que nos faz bem, Entrei até em um coral e deixei para tras um conjunto de relacdes pes- ssoals que nunca pensei que teria coragem de aban- donar, mas que me fazia mal’, complementa Maria Aparecica. Mara, citada no inicio da matéria, conta que seu diagnéstico de miastenia gravis custou a sai Depois. de um periodo de internaco de varios dias, em que mécicos chegaram a desacreditar em sua recupera- so, preparando a familia para o pior, ela despertou subitamente de um estado de inconsciéncia. Passou ‘tera companhia constante da depressao e, gradual- mente, comecou a sentir a perda de forcas nas mos @ ater quedas sUbitas quando andava pela rua ~ sin- tomas ca doenga com a qual aprendeu a conviver a0 longo de um pouco mais de uma década, De origem humilde, relatou casos de discriminagao racial e de classe ao longo de sua vida, e depois teve de exper mentar também o preconceito em relacdo & doenca, que afeta, entre outras coisas, sua capacidade para 0 trabalho, em razo da fadiga provocada. “Como nao se trata de algo aparente, muitas pessoas acham que nao é sério, que se trata de preguica,eisso afetainclu- sive as possibilidaces de conseguir e manter um em- prego”, diz ela, que hoje vende coces para assegurar renda dacasa que divide com a mle, de 63 anos, empregada coméstica Segundo Mara, uma das coisas que mais Ihe en- cantaram ao chegar ao ambulatério de Cuidados Integrativos da Unifesp dedicado as PICS foram os olhares a ela.“Aquias pessoas te olhamno olho, nos acolhem como uma delas, com respeito, Confesso que ficava até assustada, ndo estava acostumada com isso”, descreve, © ambulatério representou a ‘oportunidade para Mara acessar recursos que nem sabia que existiam, como o Reiki, a primeira pratica com o qual teve contato. “Experimentel sensacdes, vibragées, e tudo me fez muito bem, Tive a certe- za de que era disso que eu precisava.” A partir dai, sua vida mudou: “antes de chegar aqui, eu estava vivendo para a doenca, achei que tudo tinha acaba- do para mim. Aqui recuperei a vida, passel inclusive a me valorizar como mulher e negra. E, a entender que ter satide ndo & 0 mesmo que auséncia de do- enca:o remécio serve para remediar, quem cura so- mos nés mesmos. E preciso aceitar a doenca. O que acontece comigo néo é para ev fraquejar, mas para seguir caminhando", conch ela que agora acalenta reviver © sonho ~ interrompido pela miastenia ~ de ingressar na universidade, para cursar Veterinaria ou Psicologia.