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Católicos

divorciados
e recasados
- A Igreja
não vos esqueceu

Pe. Inácio José Schuster


Vigário Judicial da Diocese de Novo Hamburgo
e do Tribunal Eclesiástico Regional Sul 3 - II Instância

ISBN: 978-85-7517-087-8

TRIBUNAL ECLESIÁSTICO REGIONAL SUL 3-11 INSTÂNCIA


Av. Cristóvão Colombo, 149 - 90.560-003 - Porto Alegre - RS
E-mail: tersul3@portoweb.com.br Fones: (51) 3225-8483 / 3224 - Fax: 3224-9833
Moderador: Dom Dadeus Grings

Nihil Obstat. f Dadeus Grings, 2008.


SUMÁRIO

1. UMA REALIDADE A ACEITAR / 3

2. UM NOVO CAMINHO A SEGUIR / 3


a) Participação na vida da Igreja / 4
b) Escuta da Palavra de Deus e participação na Santa Missa / 4
c) Pefseverar na oração e realizar obras de caridade / 6
d) Educação cristã dos filhos / 7

3. REFLEXÕES EXEGÉTICAS / 7

4. ORAÇÃO DOS QUE SE RECASAM / 12

5. B IB L IO G R A F IA /13

6. ANEXOS / 14
1 Uma realidade a aceitar

Cada casal é um único casal diante de Deus, do Deus que “só Ele conhe­
ce o que há no interior do homem” (João Paulo II, Homilia de 22/10/1978).
Jesus não veio “para condenar, mas para salvar... veio para doentes e.pe­
cadores” .
Cada casal, diante de Deus, deve ver a sua própria realidade, essa que só
Ele conhece.
A Igreja sofre diante de tantos casais vivendo uma segunda união, mas
está presa à Palavra de Jesus (Mc 10, 11-12): “Quem repudia sua mulher e
se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia
o marido e se casa com outro, comete adultério” .
A nossa Igreja presa e prendendo tantos casais, impedindo-os de se
aproximar do Banquete Eucarístico...
Mas a mesma Igreja reconhece: “Em todos os homens de boa vontade,
neles a graça opera de modo invisível. Assim, tendo Cristo morrido por to­
dos e sendo uma só a vocação última do homem, devemos admitir que o
Espírito Santo oferece a todos a possibilidade de se associarem, de modo só
conhecido por Deus, ao mistério pascal” (Gaudium et Spes, cap. 1, n. 268).
Aceitem a sua realidade, não se excluam, nem se sintam excluídos da
Igreja, muito menos do abraço do Pai que é amor, ternura e misericórdia.
Cada casal deve experimentar a ternura, a misericórdia desse Pai que,
como ao Filho Pródigo, dizia: “Meu filho, meu filho! Você nunca deixou de
ser meu filho!”

2 Um novo caminho a seguir

- “Vocês amam a Igreja?”


- “Vocês querem permanecer na Igreja?”
Muitas vezes ouvi de meu pai: “Filho, quando encontrar uma pedra no
seu caminho, não chute, ela irá ferir seu pé, contorne, dê a volta” .
A vida colocou uma pedra no caminho de vocês e vocês vivem a chutá-
la e ela os está ferindo; vamos, pois tentar contornar.

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Embora a Eucaristia seja o grande meio de união com o Senhor, Ela não
é o único meio. A Rússia Comunista viveu quase um século sem Ela e, ao
terminar o Comunismo, como a Igreja novamente refloriu!
Vamos, pois procurar ter uma vida cristã com outros meios.
Retomamos as orientações do Papa João Paulo II, presentes na Exorta­
ção Apostólica Familiaris Consortio, n. 84.

a) Participação na vida da Igreja. Os divorciados recasados são mem­


bros da Igreja. Não somente estão na Igreja, mas podem e mesmo devem
participar de sua vida. Os divorciados, recasados ou não, com mais razão e
na qualidade de membros da Igreja, podem nos edifícar. Todo gesto de
amor, nobre, puro, é capaz de chamar nossa atenção para o Transcendente.

b) Escuta da Palavra de Deus e participação na Santa Missa. Não se


trata apenas da leitura particular da Escritura. Os divorciados recasados sa-
’ berão fazer a leitura bíblica em suas casas, na família que constituíram. Bus­
carão nas Escrituras luzes para sua situação pessoal, para a vivência do
Evangelho em suas vidas. Com a leitura diária de um pequeno trecho da
Palavra de Deus, vocês irão se habituar a perguntar e ouvi-Lo responder.
Ele sempre responde.
Particular encontro terão com a Palavra de Deus na celebração domini­
cal da Santa Missa da qual participarão jubilosamente em união com os
outros fiéis e também com famílias que Vivem a primeira união, realizada
pelo sacramento que celebra a união entre Igreja e Jesus. Ali farão a entrega
de suas vidas ao Pai por Jesus Cristo no Espírito Santo. Apresentarão o culto
agradável ao Senhor. Caberá a eles ter a nítida consciência da não participa­
ção da Eucaristia. Não podendo receber a Eucaristia, poderão contemplá-la!
Poderão comungar espiritualmente. Sentem ali, diante do Sacrário, e falem
com Ele, perguntem a Ele... Dali vocês sentirão brotar luz, entendimento,
calor e muita paz!
Pensemos no abraço do Pai, no seu amor e na sua Misericórdia.
Jesus-, o Bom Pastor, larga as 99 ovelhas para ir buscar a que se desviou
do rebanho e, quando a encontra, a carrega nos ombros... Sintam-se carrega­
dos... “levados ao colo como umá criança que a mãe consola” (Is 66, 13).
A Comunhão espiritual pode ser feita todas as vezes que a alma o dese­
jar. Como prova disto, lembra claramente a Imitação de Cristo (1, IV, c. 10):
‘ “Toda pessoa pode, de resto, todos os dias e todas as horas, entregar-se livre
e salutarmente às comunhões espirituais” . Não tenham medo nem receio de
dizer: “Eu quisera Senhor, receber-Vos com aquela pureza, humildade e
devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima M ãe com o espírito e o
fervor dos santos. Amém ” (São Josemaría Escrivá). Ou então. Meu Jesus,
eu creio que estais presente no Santíssimo Sacramento. Amo-vos sobre to-

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das as coisas e minha alma suspira p o r Vós. Mas, como não posso receber-
Vos agora no Santíssimo Sacramento, vinde, ao menos espiritualmente, ao
meu coração. Abraço-me convosco como se já estivésseis comigo: uno-me
convosco inteiramente. Ah! não permitais que torne a separar-me de Vós! O
Sumo Bem e doce amor meu, vulnerai e inflamai o meu coração, a fim de
que esteja abrasaáo em Vosso Amor para sempre. Amém ” (Santo Afonso
Maria de Ligório).
Participem na Missa e na caridade. Não poder comungar não significa
ficar excluído da Igrçja.
O Senhor está perto de quem tem o coração ferido, das muitas pessoas
que se divorciaram e que vivem uma nova união.
A impossibilidade de aproximar-se da Comunhão Eucarística, para os
casados que vivem estavelmente uma segunda união, não implica um juízo
sobre a relação que une os divorciados que voltaram a se casar.
O fato de que, com freqüência, estas relações sejam vividas com senso
de responsabilidade e com amor, no casal e para com os filhos, é uma reali­
dade que a Igreja e seus pastores levam em consideração.
E um erro considerar que a norma que regulamenta o acesso à Comu­
nhão Eucarística signifique que os cônjuges divorciados que voltam a se
casar estejam excluídos de uma vida de fé e de caridade, vividas dentro da
comunhão eclesial.
Certamente, a vida cristã tem seu cume na plena participação da Eucaris­
tia, mas não se reduz só a seu cume.
Os divorciados que voltam a se casar participem com fé da Missa, ainda
que não possam comungar, pois a riqueza da vida da comunidade eclesial
continua à disposição de quem não pode aproximar-se da Santa Comunhão.
A Igreja espera destas pessoas uma presença ativa e uma disponibilida­
de para servir a quem tem necessidade de sua ajuda, começando pela tarefa
educativa que, como pais, têm de desempenhar com as fam ílias de origem.
A Igreja não vos esqueceu e não vos rejeita nem vos considera indignos.
Para a Igreja, sois irmãos e irmãs amados.
Quando se rompe um matrimônio, não sofrem só os interessados, mas a
Igreja também sofre: Por que o Senhor permite que se rompa o vínculo que
constitui o grande sinal de seu amor total, fiel e inquebrantável?.
Quando se rompe este laço, a Igreja, em certo sentido, se empobrece, fi­
ca privada de um sinal luminoso que devia ser motivo de alegria e consolo.
A Igreja deve tratar com amor aquelas pessoas que, por sua situação
pessoal, não podem comungar.
Não comungar não significa estar excluído da Igreja e muito menos ex­
comungado.

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Há requisitos pessoais que limitam tal direito: a necessidade do estado de
graça para receber a Sagrada Comunhão, a ser julgado pelo interessado e há
também algumas expressões externas que interpelam os sagrados pastores.
Segundo escreveu João Paulo II na Encíclica Ecclesia de Eucharistia,
“nos casos de um comportamento externo grave, aberta e estavelmente con­
trário à norma moral, a Igreja, em seu cuidado pastoral pela boa ordem co­
munitária e por respeito ao Sacramento, não pode mostrar-se indiferente” .
A esta situação de manifesta indisposição moral refere-se a norma do
Código de Direito Canônico que não permite a admissão à comunhão euca-
rística aos que “obstinadamente persistam em um manifesto pecado grave”,
escrevia o Papa Karol Wojtyla.
Esta norma refere-se a uma grande diversidade de situações irregulares:
todas, contudo, devem observar-se com amorosa paciência e solicitude pas­
toral, para tentar que sejam regulares e para evitar que nenhum fiel se afaste
da Igreja, ou que, mais ainda, considere-se excomungado apenas pelo fato
de não poder receber a Comunhão.
A proibição de comungar' aos divorciados que se casaram novamente
não é uma lei inventada pela Igreja, mas obedece à lei de Deus.
Se duas pessoas se casaram e se esse matrimônio é válido diante de
Deus e da Igreja, ainda que esse matrimônio tenha fracassado, não temos o
poder de desfazer esse matrimônio, que é válido ante Deus e a Igreja.
O que fazer? Uma coisa é ter compaixão por eles porque sofrem, e algo
muito distinto é dizer que podem encontrar outro marido ou outra mulher e
viver juntos e receber a comunhão,
São membros da Igreja, mas neste estado não podem - atendendo-se à
verdade de vida - ter acesso à comunhão.
Nós, bispos e padres, não somos mais que*ministros, e temos que res­
ponder perante Deus por isso.

c) Perseverar na oração e realizar obras de caridade. Em sua família,


em sua vida pessoal cuidarão de não negligenciar a oração. Crescerão assim
em sua união com o Senhor. É normal que participem de grupos de oração
em sua comunidade, que se inscrevam para retiros e dias de oração. Todos
eles têm o direito de viver todas as modalidades de oração e de exercícios
espirituais como a Via-Sacra, a recitação do terço, etc. A oração pessoal e
diária é, como disse Santa Teresa de Ávila: “ Uma conversa, um bate-papo
com Aquele que amamos e p o r quem nos sabemos amados”, e essa conversa,
esse bate-papo de coração para coração vai estreitando os laços da nossa
amizade, da nossa intimidade com o Senhor. Assim, procurem se habituar a
falar com Ele sobre sua vida, suas dificuldades, seus problemas. Digam a
Ele: “Jesus eu te amo! Jesus você nem sabe como sofro por não poder comer
Teu Corpo, beber Teu Sangue” . Digam tudo a Ele.

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Todos esses casais poderão e deverão se dedicar a obras de caridade e
misericórdia e mesmo liderar iniciativas em prol da justiça nos grupos da
paróquia. Realizam assim o Mandamento do amor fraterno. Unem-se a todos
os homens de boa vontade que querem instaurar uma terra mais justa e mais
fraterna, mais próxima do ideal do Reino que quer construir um mundo de
irmãos. O fato de que esses casais não possam receber o Sacramento do Ma­
trimônio não tira o valor de sua atividade. Os divorciados não são cidadãos
de segunda categoria na Igreja. Não precisam jamais trabalhar de maneira
escondida.

d) Educação cristã dos filhos. O Papa afirma que a educação cristã é


um direito, um dever e responsabilidade dos pais cristãos, mesmo vivendo
situação especial de casamento.
É normal que tais casais tenham como projeto de seu casamento e de sua
família a educação cristã dos filhos. A Pastoral Familiar deverá informar
estes pais da melhor maneira de despertar a fé nos filhos, de alimentá-la ao
longo da vida, de encaminhá-los para uma comunidade cristã onde recebe­
rão, como todas as crianças, os Sacramentos do Batismo, da Eucaristia e da
Crisma.
Tanto os filhos de pais casados quanto de pais recasados se incluem no
mesmo pano de fundo: podem e devem batizar seus filhos quando há condi­
ções de uma educação na fé cristã.

3 Reflexões exegéticas

As palavras claras de Jesus sobre a indissolubilidade do Matrimônio, re­


feridas pelos três evangelhos sinóticos, talvez recebam uma nova luz pelo
relato de São João sobre o encontro de Jesus com a samaritana. O mesmo
Jesus que, obediente ao Pai, restaura a ordem inicial do Matrimônio indisso­
lúvel, é aquele que “recebe os pecadores e come com eles” (Lc 15, 2) e não
tem nenhum bloqueio jurídico ou moral de sozinho falar com uma mulher, à
beira de um poço.
Para os discípulos, educados nos costumes judaicos, era uma situação
estranha: “Chegaram os seus discípulos e admiravam-se de que falasse com
uma mulher. Nenhum deles, porém, lhe perguntou: Que procuras? Ou o que
falas com ela?” (Jo 4, 27).
Ora, o que procura o Bom Pastor senão a salvação de uma ovelha perdi­
da? E não se reconhece toda a Igreja comprometida com seu Mestre e Espo­
so no mesmo empenho? A frase final do último cânon do Direito Canônico
ilumina não só a pastoral como a própria legislação: “A salvação das almas,
na Igreja, deve ser a lei suprema” (cân. 1752).

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E o que Jesus falou com essa mulher, cuja vida parecia para ele um livro
aberto? Iniciou com ela um dos mais belos diálogos mistagógicos que os
evangelhos nos transmitiram. Disse claramente a ela que conhecia a sua vida
irregular: “Falaste bem: ‘não tenho m arido’, pois tiveste cinco maridos e o
que tens agora não é teu marido” (Jo 4, 17-18). Ela estava juntada com um
homem, sem a sanção legal do casamento. E Jesus não lhe disse: “Não posso
falar contigo, pois estás numa situação irregular. Resolve o teu problema,
realiza o casamento com o homem ou separa-te dele - então podes voltar e
eu vou-te ensinar como rezar ao Pai” . Não!
Ele a acolheu, na situação em que estava, e a evangelizou tão profunda­
mente que ela se tomou apóstola na cidade. Não nos consta que ele deu ins­
truções morais a ela. Será que ele confiou na força transformadora da Boa-
Nova que produz a conversão também dos costumes? Nesta linha não de­
vemos também afirmar que a Igreja existe para evangelizar, não para mora­
lizar? Que ela também deve confiar na força da conversão evangélica que
desabrochará na conduta moral certa? “Agora sois luz no Senhor: andai co­
mo filhos da luz” (E f 5 ,8 ). “Se vivemos pelo Espírito, pelo Espírito também
pautemos a nossa conduta” (G1 5, 25).
A atitude pastoral de Jesus para com a samaritana não contradiz a sua
afirmação categórica sobre a indissolubilidade do Matrimônio. Os discípulos
precisam aprender com o Mestre a junção'polarizada e fecunda dos dois
enfoques: o equilíbrio. Nenhuma posição extremista: nem um rigor legalista
que abafe a misericórdia da atividade pastoral; nem uma tentativa reducio-
nista na interpretação das afirmações claras e fortes sobre Matrimônio e
adultério.
Há quem diga que existem outras palavras radicais de Jesus que a Igreja
não interpreta ao pé da letra.
Como, por exemplo, “caso tua mão direita te leva a pecar, corta-a e lan­
ça-a longe de ti” (Mt 5, 30). Claro que o cristianismo não prescreve o que se
encontra na legislação extremista de alguns países muçulmanos.
Não se poderia também tentar uma interpretação mais branda das afir­
mações sobre o matrimônio? A versão de Mateus não vai nesta direção? De
fato, ele coloca uma ressalva: “Eu vos digo que todo aquele que repudia a
sua mulher - exceto por motivo de fomicação - e desposar uma outra, co­
mete adultério” (Mt 19, 9).
A palavra grega correspondente a “fomicação” é “pom éia” . A Bíblia de
Jemsalém comenta: “Alguns querem ver aí a fomicação no casamento, isto
é, o adultério, e assim acham aqui a permissão para divorciar em caso seme­
lhante; é o que fazem as Igrejas ortodoxas e protestantes. Mas nesse sentido
seria de esperar óutro temio, ‘moicheia’. Ao contrário, no contexto, por-
néia’ parece ter o sentido de 'zenut' ou 'prostituição', como se encontra nos

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escritos rabínicos, o qual se aplica a toda união tomada incestuosa em virtu­
de de um grau parentesco interditado pela lei”.
Parece que a TEB (A Bíblia - Tradução Ecumênica) acompanha este ra­
ciocínio, traduzindo o trecho da ressalva por “exceto em caso de união ile­
gal”. Em tal situação não haveria casamento e a declaração da nulidade en­
volveria a separação.
Nesta linha, a Igreja, desconhecendo o divórcio, aplica a declaração de
nulidade, quando num processo canônico se evidenciou falha grave legal na
constituição de um casamento.
A versão sem ressalvas por parte de Marcos e Lucas é reforçada por São
Paulo quando diz: “Quanto àqueles que estão casados, ordeno, não eu, mas o
Senhor: não se separe a mulher do marido; se, porém, se separar não se case
de novo, ou reconcilie-se com o marido; e o marido não repudie a sua espo­
sa” (IC or 7, 10-11).
São Paulo se refere ainda a uma situação que parecia bastante comum
naquela época: a união matrimonial entre uma parte cristã e outra pagã. O
seu conselho é que fiquem unidos se a outra parte respeita o compromisso
cristão do cônjuge. Se não, ele admite a separação. “Se o não-cristão quer
separar-se, separe-se. O irmão ou a irmã não estão ligados em tal caso; foi
para viver em paz que Deus vos chamou” (1 Cor 7, 15). Não diz claramente
que, em tal caso, a parte cristã poderia contrair o sacramento do Matrimônio
com outro parceiro cristão.
Em outro lugar, sim, dá ao casamento entre cristãos um valor e vigor su­
perior: “Maridos, amai as vossas mulheres como Cristo amou a Igreja... É
grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a Igreja” (Ef 5, 25-32).
A Igreja interpretou as palavras de São Paulo na linha do chamado “pri­
vilégio Paulino”, isto é, como concessão de um novo casamento entre partes
cristãs, depois da separação de uma união matrimonial entre cristão e não-
cristã. Dessa maneira se destaca o aspecto sacramental do Matrimônio entre
cristãos. Mas a indissolubilidade do Matrimônio, segundo as palavras de
Jesus, não repousa apenas sobre a forma sacramental e, sim, sobre a inten­
ção do Criador.
Jesus, a respeito do Sacramento, usa formulações radicais, a ponto de as­
sustar os próprios discípulos, que comentaram: “Se é assim a condição do
homem em relação à mulher, não vale a pena casar-se” (Mt 19, 10). E Jesus
não recua com explicações lenitivas. Mas parece que só a respeito da Eucaris­
tia ele assumiu tal posição radical. Não fez concessões aos judeus escandali­
zados pela afirmação de ser Ele o Pão Vivo descido do Céu. Antes provocou
os discípulos mais próximos: “não quereis vós também partir?” (Jo 6, 67).
Quanto à Eucaristia, como quanto ao Matrimônio indissolúvel, Jesus não
admite reduções. Antes, com sua plena autoridade, maior que a de Moisés,
anula permissões de divórcio e reconduz tudo ao estado inicial, como foi

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intencionado pelo criador: “Moisés, por causa da dureza dos vossos cora­
ções, vos permitiu repudiar as vossas mulheres, mas desde o principio nào
era assim. E eu vos digo...” (Mt 19, 8-9).
“Foi dito aos antigos... Eu, porém, vos digo” (Mt 5, 21-22).
Jesus assume claramente o seu papel de enviado do Pai para restaurar e
salvar a criação. Deus fez repousar a história da humanidade sobre a base da
família. “Não lestes que desde o princípio o criador os fez^ homem e mu­
lher?” (Mt 19, 4). De fato, no Gênesis se lê que Deus disse: “Façamos o ser
humano à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). .
Os Padres gregos descobriram no verbo em plural uma pista trimtana,
numa releitura cristã do texto. Deus criou homem e mulher e disse: “sedes
fecundos, multiplicai-vos” (Gn 1, 28). A família é célula-mãe de toda a so­
ciedade humana. A convivência humana é ameaçada nos seus fundamentos
quando se destrói a consistência da família. Daí a palavra impositiva. O
que Deus uniu o homem não deve separar” (Mt 19, 6).
Sempre me tem impressionado a “vida oculta” de Jesus de Nazaré. Trin­
ta anos! Anos “perdidos”? Ou teria gastado todo esse tempo para lançar o
fundamento da Igreja, pelo cultivo paciente da primeira Igreja doméstica: a
Sagrada Família, Jesus, Maria, José?
Segundo São Paulo, Jesus,' amando a Igreja, se tomou modelo para 9
Matrimônio cristão, que assume um aspecto sagrado e sacramental. E como
tal, com reforços divinos de graça, pode qualificar os cristãos casados e, por
eles, a Igreja toda, a ser fermento na massa humana, ameaçada de se cor­
romper na dissolução dos costumes.
As palavras de Jesus sobre adultério de recasados são duras, intransigen-
tcs?
A Igreja é intransigente ao receber e aplicar essas palavras, em todo seu
vigor? • • « . ,
Quando Jesus anunciou em forma intransigente a Eucaristia, muitos cie
seus discípulos, ouvindo-o, disseram: ‘essa palavra é dura! Quem pode escu-
tá-la?’... A partir daí, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais
com ele” (Jo 6, 60-66). ^ ^
Muitos católicos recasados se chocam com a “intransigência da Igreja a
respeito da irregularidade de um segundo casamento, sobretudo diante da
“exclusão” da Eucaristia.
Quem é Jesus? É difícil ser entendido por nossos sistemas e paradigmas.
Ele é “intransigente” na total obediência ao Pai, até a morte. E é, ao mesmo
tempo, a visibilidade da misericórdia do Pai. Em nossos paradigmas huma­
nitários” confundimos misericórdia com permissividade. A cena da adúltera,
levada aos pés de Jesus, para ele a condenar, é ilustrativa para a pessoa e
conduta de Jesus: “Ninguém te condenou?... Também eu não te condeno;
vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8, 10-11).

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Jesus, como o Pai, ama os pecadores, mas não compactua com o pecado.
Levanta os errantes, mas não declara, permissivamente, o erro como conduta
cejta.
É pena que São João tenha terminado a história da adúltera com a exor­
tação de Jesus: “não peques mais”. Gostaria de saber o que aconteceu na
vida dessa mulher. Ela, convertida e absolvida por Jesus, voltou ao marido?
O marido também a perdoou e eles então viveram fiéis e felizes até o fim da
vida? Ou o marido não a aceitou de volta e ela foi para a casa dos pais? Es­
ses a aceitaram e ela viveu uma vida recolhida e piedosa com eles? Ou nem
os pais a acolheram e ela ficou “na rua”, sem eira nem beira, e caiu na pros­
tituição?
Á vida tefn tantas variantes imprevisíveis! Uma coisa é certa: até na
prostituição o Pai misericordioso a ama.
Sabemos de outra mulher “irregular”, da qual haviam saído sete demô­
nios (Lc 8, 2), e que se tom ou discípula distinta de Jésus: Maria Madalena.
Sabemos que Jesus defendeu a “pécadora”, que lavou seus pés com lágri­
mas, contra a condenação do fariseu que o convidou: “ela demonstrou muito
amor” (Lc 7, 47).
A falta de amor, o rigor excludente de uma auto-suficiência moral orgu­
lhosa é, aos olhos de Jesus, mais detestável do que os pecados contra o sexto
e sétimo mandamentos: “Os publicanos e as prostitutas vos precederão no
Reino de Deus” (Mt 21, 31).
É evidente que, para Jesus, os pecados contra o sexto mandamentç não
são os mais pesados.
Por que então a aparente discriminação dos católicos recasados diante da
Eucaristia? “Discriminação” vem da mesma raiz de “discernir” . Para todos
os cristãos, São Paulo põe uma barreira diante da Eucaristia: “Que cada um
examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois
aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria con­
denação” (IC or 11, 28-29). No contexto, São Paulo não se dirige a recasa­
dos, mas aos Coríntios ricos que se banqueteavam, discriminando os pobres
(cf. ICor 11, 17-22).
Davi é apresentado no AT como amigo de Deus, apesar de não ser mo-
nogâmico. E no pecado de adultério dele o que mais provocou a repreensão
de Deus foi ter eliminado o marido da mulher com quem cometeu adultério.
O próprio Davi viu, no fim da vida, na sua violência o motivo de ter desa­
gradado a Deus, que não lhe permitiu constmir o templo, dizendo: “Tu não
constrairás uma casa ao meu nome, pois derramaste muito sangue sobre a
terra” (1 Cr 22, 5).
Antes de receber a Eucaristia, todos dizem: “Senhor, eu não sou digno
de que entres em minha casa” . Todos somos pecadores, necessitados do
perdão. O aparente rigor eclesiástico para católicos recasados, não permitin­

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do o acesso à comunhão, está na palavra “discriminatória” do próprio Jesus
sobre o adultério.
A Igreja não sabe como perdoá-los eclesial e visivelmente, enquanto
permanecer a situação de um segundo casamento, que representa situação
permanente de adultério. Talvez muitos outros pecados sejam mais graves.
Mas são fatos isolados que, depois de arrependidos, podem ser perdoados.
Mas os problemas de recasados não são fatos isolados e, sim, uma situação
irregular permanente.
Deus ama a todos eles, mas não é a Igreja que pode resolver a situação
por uma interpretação permissiva da palavra de Jesus sobre a indissolubili-
dade do matrimônio.
Devido ao fato de não poderem comungar, a Igreja reza por eles e com
eles. Todos devemos estar muito unidos à dor que experimentam por não
comungar. A comunidade da Igreja se une carinhosamente a eles e sabe que
eles estão contribuindo para a edificação do Corpo de Cristo. Tudo isso su­
põe, da parte dos divorciados recasados, uma sincera e constante busca de
Deus, um desejo de viverem o Evangelho. Outra coisa é o caso de divorcia­
dos que, depois de se recasarem, nunca tendo vivido vida eclesial, agridem a
Igreja. Todo o nosso carinho se volta para aqueles que vivem sua situação
com dor no coração.

4 Oração dos que se recasam

SENHOR, aqui venho eu com o coração pequeno e confiante.


Tu me conheces e perscrutas meu interior.
Tu conheces minha história, minha caminhada, o tormento de meu pri­
meiro casamento, as dores das crianças, o mundo que se foi desmoronando,
enquanto a fonte de minhas lágrimas ia secando.
Amanhã deverei me casar novamente, somente no civil.
Não preciso te dizer quanto custou esta decisão, não preciso te dizer que
me assusta não poder receber o Sacramento do Corpo de Teu Filho, com
quem quero sempre estar em comunhão. Quero continuar a ser cristão(ã),
desejo ardentemente trabalhar pelo Evangelho, suspiro caminhar na senda da
santidade, proponho-me continuar a viver uma família cristã, quero ser
teu(tua), Senhor, na vida e na morte.
Preciso de Tua força, de Tua luz, de Tua misericórdia, de Tua ternura.
Gostaria que meu(minha) novo(a) companheiro(a) fosse pai(mãe) para
meus filhos, amigo(a) deles e meu(minha) companheiro(a). Lutarei, quanto
estiver a meu alcance, para não fracassar uma vez mais.
Conto com Tua força, Senhor Deus de Amor!
Amém.

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5 Bibliografia

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102p.
S c a m p i n i , Luciano. Casais em segunda união e os Sacramentos na "Familiaris C onsortio”.
Editora Santuário, Aparecida, SP, 20041, 91 p.
S c a m p i n i , Luciano. Casais em segunda união: uma Pastoral de esperança misericordiosa. Edito­
ra Santuário, Aparecida, SP, 19991, 259p.
S c a m p i n i , Luciano. Pastoral de casais em segunda união: reflexões e propostas. Editora Santuá­
rio, Aparecida, S P , 20051, 155p.
Z a n i, Rubens M. Casamentos nulos. Editora Santuário, Aparecida, SP, 20001, 62p.

13
6 ANEXOS

1. O GRANDE VALOR DA COMUNHÃO ESPIRITUAL


Pe. Luciano Scampini / Paróquia Nossa Senhora Aparecida, Arquidio­
cese de Campo Grande (MS)

A Comunhão Espiritual é um ato de desejo interior, consciencioso e sé­


rio, de receber a Sagrada Comunhão e, mais especificamente, de se unir ao
Senhor.
A Comunhão Espiritual pode ser feita por palavras ou por pensamentos
interiores que levam a uma íntima união com Cristo, e Jesus não deixará de
conceder as suas copiosas bênçãos.
Nos dias de hoje se pode fazer com freqüência a Comunhão Espiritual
como desejo de maior união e intimidade com Deus, ao longo dos dias da
nossa vida.
A Comunhão Espiritual é e pode ser até o único meio de união e intimi­
dade com Deus, por exemplo, para quem não guardou uma hora de jejum
eucarístico, para quem vive numa situação de irregularidade perante a Igreja,
ou até para quem pratica outra religião.
A comunhão espiritual é o caminho para as pessoas que não podem re­
cebê-lo sacramentalmente na missa, “mas podem recebê-lo espiritualmente”
na Hora Santa ou quando entrar numa igreja ou quando estiver em casa ou
no trabalho ou nas situações de dificuldade por que se passa na vida: “Se­
nhor, que de Vós jamais me aparte” (Jo 6, 35), pois, “Quem come deste pão
viverá eternamente” (Jo 6, 58).
É bom cultivar o desejo da plena união com Cristo, por exemplo, através
da prática da comunhão espiritual, recordada por João Paulo II e recomen­
dada por santos mestres de vida espiritual (SC, 55).
Uma visita ao Santíssimo Sacramento é uma boa oportunidade para se
fazer uma Comunhão Espiritual (cf. universo católico, comunhão freqüente-
comunhão espiritual).

a) Nos Documentos da Igreja


Um dos melhores meios para os divorciados recasados participar ativa­
mente da comunidade cristã, é, segundo o ensinamento da Igreja, a Comu­
nhão espiritual.
Que o Magistério reconheça a relação entre a graça e a Comunhão Espi­
ritual se deduz especialmente do convite que a mesma Igreja faz aos divor­
ciados recasados de unir-se a Cristo pela comunhão espiritual.
Mais ainda: “Os fiéis devem ser ajudados na compreensão mais profun­
da dò valor da participação ao sacrifício de Cristo na Missa, da comunhão
espiritual, da oração, da meditação da palavra de Deus, das obras de carida­

14
de e de justiça” (ef. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos,
1994, n. 6).
“A prática da comunhão espiritual, tão querida à tradição católica pode­
ria e deveria ser em maior medida promovida e explicada, para ajudar os
fiéis a melhor se comunicarem sacramentalmente quer para servir de verda­
deiro conforto a quantos não podem receber a comúnhão do Corpo e do
Sangue de Cristo quer por várias razões. Pensamos que esta prática ajudaria
as pessoas sozinhas, em particular os deficientes, os idosos, os presos e os
refugiados. Conhecemos - afirmam os Bispos do Sínodo - a tristeza de
quantos não podem ter acesso à comunhão sacramental devido a uma situa­
ção familiar não conforme com o mandamento do Senhor (cf. Mt 19, 3-9).
Alguns divorciados que voltaram a casar aceitam com sofrimento não poder
receber a comunhão sacramental e oferecem-no a Deus. Outros não compre­
endem esta restrição e vivem uma frustração interior. Reafirmamos que,
mesmo se na irregularidade da sua situação (cf. CIC 2384), não estão ex­
cluídos da vida da Igreja. Pedimos-lhe que participem na Santa Missa domi­
nical e que se dediquem assiduamente à escuta da palavra de Deus para que
ela possa alimentar a sua vida de fé, de caridade e de partilha” (Mensagem
da XI Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos ao Povo de Deus.
Cidade do Vaticano, 21 de outubro de 2005).
A Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis de 22 de fe­
vereiro de 2007 confirma: “Mesmo quando não for possível abeirar-se da
comunhão sacramental, a participação na Santa Missa permanece necessária,
válida, significativa e frutuosa; neste caso, é bom cultivar o desejo da plena
união com Cristo, por exemplo, através da prática da comunhão espiritual,
recordada por João Paulo II (170) e recomendada por santos mestres de vida
espiritual” (1 7 1 /S C , 55).

b) Na Teologia
É importante, segundo o Pe. G. Muraro redescobrir a doutrina do desejo
do sacramento - através da Comunhão espiritual - para continuar a presença
de Jesus na vida dos divorciados. Ele apela ao antigo princípio segundo o
qual o caminho sacramental não esgota todos os caminhos da graça.
O lugar teológico de referência para entender este caminho alternativo se
encontra em Santo Tomás, aonde ele trata da comunhão espiritual.
Segundo a explicação de Santo Tomás, a realidade do sacramento pode
ser obtida antes da recepção ritual do mesmo sacramento, somente pelo fato
que se deseja recebê-lo (cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologicae, III, q.
80, a, 4).
O valor da Comunhão espiritual como caminho extra-sacramentário da
graça, encontra apoio no fato que a Igreja “com firme confiança crê que,
mesmo aqueles que se afastaram do mandamento do Senhor e vivem agora

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neste estado, poderão obter de Deus a graça da conversão e da salvação, se
perseverarem na oração, na penitência e na caridade FC 84” (cf. G. Muraro,
I divorziati risposati nella comunitá cristiana, Cinisello Balsamo, Paoline,
1994 in Sc. Catt. art. cit. 564-565).
Dom Edvaldo, enfatizando o valor e o bem espiritual da Comunhão Es­
piritual, encoraja os casais em segunda união aconselhando a fazer a Comu­
nhão Espiritual na Santa Missa, devidamente dispostos e desejosos de rece­
ber o .Corpo de Cristo por uma oração sincera. Se sua fé e amor for tão in­
tenso e apaixonado, é possível talvez que eles obtenham maior proveit» es­
piritual do que aqueles que, por rotina e sem piedade alguma, recebem a
sagrada hóstia em nossas celebrações sem nenhuma convicção e adequada
preparação espiritual.

POR QUE NÃO PODEM CONFESSAR E COMUNGAR?


A Sagrada Escritura começa pela criação do homem e da mulher, à ima­
gem e semelhança de Deus (Gn 1, 26-27) e acaba pela visão das “núpcias do
Cordeiro” (Ap 1, 7.9). O próprio Deus é o autor do matrimônio. O matrimô­
nio foi elevado por Cristo à dignidade de sacramento: “os dois serão uma só
carne (Ef 5, 31); “...casar-se... mas apenas no Senhor” (IC or 7, 39). A Escri­
tura diz que o matrimonio é a nóva aliança de Cristo e da Igreja.
O maior problema, o drama e a cruz que tocam diretamente os divorcia­
dos recasados é não poder ter acesso ao sacramento da Reconciliação - que
prepararia e “abriria o caminho ao sacramento eucarístico” (Familiaris Con-
sortio: FC 84) - e ao sacramento da Eucaristia, se viverem sexual e conju­
galmente o seu segundo relacionamento não sacramental.
A este ponto apresenta-se a pergunta espontânea: por que não podem re­
ceber estes dois sacramentos? O que os impede de receber os sacramentos
da Reconciliação e da Eucaristia?
Segundo a FC são dois os argumentos ou motivos: o Doutrinário-
teológico e o Pastoral

1 - ARGUM ENTO / DOUTRINÁRIO-TEOLÓGICO


A Eucaristia comunica, realiza, faz, atua, alimenta, sustenta, santifica a
nova, eterna, indissolúvel união e fiel aliança de Cristo com a Igreja (os fi­
éis). As palavras de Jesus: “Este cálice é a nova aliança em meu sangue que
é derramado por vós...” (Lc 22, 20).
O Matrimônio-sacramento também comunica, realiza, faz, atua, alimen­
ta, sustenta, santifica a indissolúvel união e a fiel aliança de Cristo com os
esposos, elementos estes essenciais do matrimônio-sacramento. De fato,
desta indissolúvel união e fiel aliança nasce a família, primeira célula da
Igreja.

16
“Maridos amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e por ela ,se
entregou... (fidelidade até a morte). É grande este mistério; digo-o em rela­
ção a Cristo e à Igreja” (E f 5, 25.32). Pela Eucaristta os esposos participam
desta união indissolúvel e fiel aliança de Cristo com a Igreja.
Aqui está o problema: a segunda união rompeu, contradiz esta união in­
dissolúvel e fiel aliança dos esposos em Cristo realizada pelo matrimônio-
sacramento. Não pode haver em Cristo duas alianças. A segunda união é
ruptura, contradição destes dois elementos essenciais do matrimônio-
sacramento.
A Pastoral Familiar se baseia sobre dois princípios: o princípio da com­
paixão e da misericórdia e o princípio da verdade e da coerência.
Os Padres do Sínodo colocaram bem claro a coexistência e a influência
mútua dos dois princípios. Sendo eles igualmente importantes e complemen-
tares, os mesmos andam juntos, de tal forma que um não pode ser mais
acentuado do que o Outro, Deste modo a Igreja professa a própria fidelidade
a Cristo reconhecendo o princípio da verdade: o matrimônio sacramento é
indissolúvel e o princípio da compaixão e da misericórdia infinita acolhedo­
ra “igualmente importante” .
Baseando-se nestes dois princípios complementares, a Igreja não pode
mais do que convidar os seus filhos, que se encontram nestas situações dolo­
rosas, a aproximarem-se da misericórdia divina por outras vias, mas não
pela via dos sacramentos, especialmente da Penitência e da Eucaristia, até
que não tenham podido alcançar as condições requeridas.
A Igreja, mãe misericordiosa, comporta-se nestes casos com espírito ma­
terno para com estes filhos, esforçando-se infatigavelmente por oferecer-
lhes os meios de salvação ou seja, o caminho espiritual-pastoral.
A Igreja lembra que há múltiplas presenças de Cristo... A Eucaristia é o
grande encontro com Jesus, mas não é o único. A Palavra de Deus, o sacrifí­
cio da Missa, a Adoração ao Santíssimo, a oração, as obras de penitência e^
da caridade podem e são outrossim encontros com Jesus.

2" ARGUM ENTO / PASTORAL


Existe outra dificuldade para a recepção dos Sacramentos da Reconcilia­
ção e da Eucaristia por parte dos divorciados recasados exposta pelo Papa: é
a “razão pastoral”.
“O respeito devido quer ao sacramento do matrimônio, quer aos próprios
cônjuges e aos seus familiares, quer ainda à comunidade dos fiéis, proíbe os
pastores, por qualquer motivo ou pretexto mesmo pastoral, de fazer, em
favor dos divorciados que contraem nova união, cerimônia de qualquer gê­
nero. Estas dariam a impressão de celebração de núpcias sacramentais váli­
das, e conseqüentemente induziriam em erro sobre a indissolubilidade do
matrimônio contraído validamente” .

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' Esta disposição da Igreja, porém, não impede que a mesma, como mãe
carinhosa, tenha uma atitude pastoral materna. João Paulo II, de fato, na FC
84 ofereceu aos divorciados recasados a oportunidade de aproximar-se do
Sacramento da Reconciliação - que abriria o caminho ao sacramento euca-
rístico - contanto que:
1. Sejam arrependidos de ter violado a indissolubilidade, que é o sinal da
Aliança e da fidelidade a Cristo;
2. Sejam sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em con­
tradição com a indissolubilidade do matrimônio.
3. Assumam a obrigação de viver em plena continência.
Não se deve esquecer, todavia, que a Igreja com firme confiança vê que,
mesmo aqueles que se afastaram do mandamento do Senhor e vivem agora
nesse estado, poderão obter de Deus a graça da conversão e da salvação, se
perseverarem na oração, na penitência e na caridade.

2. AS CHAGAS DO DIVÓRCIO E DO ABORTO


Bento X V I chamou a atenção para a indissolubilidade do matrimônio
e o respeito da vida humana (Ecclesia 05/4/2008)
As chagas do divórcio e do aborto causam muitos sofrimentos na vida
das pessoas, das famílias e da sociedade. Afirmação feita por Bento XVI,
hoje (05), aos participantes do Congresso Internacional promovido pelo
Instituto Pontifício João Paulo II para o Estudo sobre o Matrimônio e a Fa­
mília.
Partindo do tema do Congresso “Óleo nas feridas: uma resposta às cha­
gas do aborto e do divórcio”, o Papa chamou a atenção para a indissolubili­
dade do matrimônio e o respeito da vida humana do nascituro: “Divórcio e
aborto são escolhas de natureza diferente; às vezes, amadurecidas em cir­
cunstâncias difíceis e dramáticas, que podem comportar traumas e ser fonte
de profundos sofrimentos. Tais escolhas podem atingir vítimas inocentes,
nascituros ou não, e os filhos envolvidos numa ruptura familiar” .
No atual contexto social, marcado por um crescente individualismo, he­
donismo e pela falta de solidariedade e apoio social, Bento XVI falou sobre
a posição ética da Igreja em relação ao aborto e ao divórcio: “trata-se de
culpas graves, que atentam contra a dignidade da pessoa e implicam uma
profunda injustiça nas relações humanas e sociais, além de ofenderem a
Deus, garante do pacto conjugal e autor da vida” .
O Evangelho do amor e da vida também é Evangelho da misericórdia,
ressaltou o Papa, recordando os ensinamentos de João Paulo II, do qual se
recorda o terceiro ano de morte: “A partir desta misericórdia, a Igreja cultiva
uma indomável confiança no homem e na sua capacidade de reabilitar-se.
Ela sabe que, com a ajuda da graça, a liberdade humana é capaz de doar-se,
definitiva e fielmente, também nas circunstâncias mais difíceis, que toma

18
possível o matrimônio indissolúvel e a solidariedade para com a vida nas­
cente” .

3. CURANDO FERIDAS DO DIVÓRCIO E DO ABORTO


Um Congresso considera o papel da Igreja sobre o tema
ROMA, terça-feira, 08 de abril de 2008 (ZENIT.org). - A dor e o sofri­
mento causados pelo aborto e pelo divórcio impedem muitas pessoas de
viverem uma vida de fé plena, constatou uma conferência internacional ce­
lebrada em Roma sobre a situação dos filhos de divorciados, assim como de
pais de filhos abortados.
O congresso, celebrado entre 3 e 4 de abril, intitulado «Bálsamo nas fe­
ridas: uma resposta às repercussões do aborto e do divórcio», foi organizádo
pelo Instituto Pontifício João Paulo II para os Estudos sobre o Matrimônio e
a Família, assim como pelos Cavaleiros de Colombo.
Victoria Thom, fundadora do Projeto Raquel, disse que «a ruptura cau­
sada pelo aborto impede que milhões de pessoas entrem plenamente em seu
itinerário de fé e experimentem plenamente a vida divina em seu interior».
“A ferida do aborto - explicou Thom - é por sua vez espiritual e huma­
na e deve ser resolvida em ambos campos para ser curada.”
A mulher que teve um aborto “crê que cometeu um pecado imperdoável.
Este é o núcleo da ferida espiritual. É uma mãe que sabe que é responsável
pela morte de seu filho, uma criança que ela nunca permitiu nascer, ver e
criar. Este é o núcleo da ferida humana”.
A madre Mary Agnes Donovan, das Irmãs da Vida em Nova York, disse
que “a dificuldade em todo aborto consiste em que provoca uma destruição
profunda e inevitável. Se a pessòa alguma vez teve uma faísca de fé, ou
convicção religiosa, ou educação moral, é invadida pela culpabilidade - uma
culpabilidade que pode entrar muito dentro do inconsciente pelas forças que
atuam e que é um câncer na alma” .
Sobre o tema da fé e os filhos de divorciados, Elizabeth Marquardt, vice-
presidente do Centro para o Matrimônio e Famílias do Instituto de Valores
Americanos em Nova York, apresentou um estudo no qual se revela que “as
crianças criadas no divórcio dizem que não existe o ‘bom ’ divórcio. Inclusi­
ve os amistosos ou ‘bons’ divórcios exigem dos filhos crescer entre dois
mundos, obrigados a encontrar sentido nas dramaticamente diferentes cren­
ças, valores e modos de vida de seus pais”.
O divórcio obriga os filhos a darem sentido aos dois mundos de seus
pais. O resultado é que o divórcio supõe um permanente conflito interior na
vida dos filhos. “O conflito interior pesa sobre os filhos, fazendo-os crescer
muito cedo.”
Os filhos de divorciados, acrescentou Marquardt, “se sentem em si
mesmos como divididos, desgarrados entre os mundos de seus pais. Sentem-

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se muito mais sozinhos. Convertem-se em cautelosos e com freqüência re­
servados. Não sabem a quem pertencem. Sentem que têm de resolver as
grandes questões da vida por eles mesmos. Lutam com uma enorme perda
que causa impacto em sua vida espiritual. E fazem isso no isolamento e no
silêncio, porque ninguém fala do trabalho que lhes impôs: dar sentido sozi­
nhos aos dois mundos diferentes de seus pais” .
Como resultado de seus dois mundos, “os filhos de divorciados têm me­
nos probabilidades de ter uma implicação consistente em uma confissão
religiosa quando crescem”; por isso, segundo as estatísticas, “são menos
religiosos que os filhos de famílias unidas”, explicou Marquardt.
Marquardt também revela em sua pesquisa que muitos filhos de divor­
ciados têm grande dificuldade para compreender que Deus é pai, devido à
distância das relações paternas. Agora, para os que têm fé, disse Marquardt,
sua relação com Deus preenche um vazio. “Movem-se a Deus em busca de
amor e guia, ante a ausência de um pai ou de uma mãe, ou para evitar uma
vida solitária.”
“Está claro - concluiu Marquardt - que independentemente de que che­
guem a ser mais ou menos religiosos, os itinerários espirituais dos filhos de
divorciados refletem consistentemente histórias de perda, dor e solidão.”
M arquardt disse que as Igrejas podem prestar uma enorme ajuda aos fi­
lhos e famílias afetados pelo divórcio, por isso se trata de um tema que não
se deve evitar. “É plenamente possível ser compassivos com os filhos de
divorciados e sublinhar a importância do matrimônio e ao mesmo tempo
afirmar e apoiar os progenitores sozinhos e divorciados.”
Por sua parte, Thom sublinhou que “o pecado do aborto se estendeu tan­
to que é um imperativo que a Igreja não apenas mantenha sua postura profé­
tica de proteção das vidas humanas não-nascidas, mas também que ajude a
curar os milhões de pessoas que ficaram envolvidas no mal do aborto, vo­
luntariamente ou obrigadas, conscientes ou ignorantes da realidade, esten­
dendo a eles o perdão e a cura de Deus” .
“As mulheres que experimentam a cura através da misericórdia e do
amor de Deus não realizam mais abortos. Os homens que se recuperam do
aborto trabalham com diligência para acabar com os abortos, assim como as
mulheres. Com efeito - concluiu Thom - , estas pessoas se convertem em
pedras angulares da cultura da vida.”

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