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Educação

Ato em defesa da Educação em Belém (PA)


levou 80 mil às ruas e selou pacto para a
greve geral contra Reforma da Previdência
Encurralado com a sequência de denúncias publicadas pela revista eletrônica The Intercept
Brasil e diante da terceira mobilização massiva contra suas medidas de austeridade, o
presidente de extrema-direita se lança ao emaranhado campo de lideranças evangélicas e
policiais

Por Erika Morhy 14/06/2019 16:44

Créditos da foto: (Jean Brito)


Às voltas com o que se desenha, desde domingo (09), como um Watergate brasileiro
e à véspera da greve geral contra seu pacote de maldades fantasiado de Reforma da
Previdência, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) chega à Amazônia paraense para
celebrar os 108 anos da Igreja-mãe das Assembleias de Deus, um dos braços
político-religiosos determinantes para a vitória eleitoral da extrema-direita no país
em 2018. Mas o arco de alianças se evidencia também nas outras três agendas.
Anunciam programação popular pautada pelo Governo do Pará, sob a chefia de
Helder Barbalho (MDB), alçado ao Executivo em coligação com o partido do
presidente e defensor da reforma; e pela Prefeitura de Belém, pilotada pelo tucano
Zenaldo Coutinho. Parlamentares da Câmara de Vereadores de Belém e da
Assembleia Legislativa do Estado aprovaram os títulos de “cidadão” ao presidente,
propostos sugestivamente por um sargento e por um delegado que ocupam
cadeiras nas casas legislativas.

Os dois maiores jornais em circulação no estado estampam como manchete do dia


de hoje as revelações ainda mais bombásticas feitas pela revista virtual The
Intercept Brasil na noite de quarta-feira (12). É a segunda série de reportagens com
denúncias cabais no que se difunde como #VazaJato, dentre outras consignas,
esviscerando o conluio entre poderes da República para derrubar a ex-presidenta
Dilma Rousse� e tornar o ex-presidente Lula um preso político no Brasil,
beneficiando diretamente Bolsonaro. Tem sido homem de poucas palavras, apesar
da tagarelice costumeira no submundo digital. Ciente ou não, ele tem sua crescente
rejeição nacional reverberada pelos editoriais de boa parte dos veículos locais.

Recusado nas urnas pela população de Belém e do Pará, Bolsonaro busca se


equilibrar na corda bamba e rota com a sustentação das redes originais. Apesar de
ser o berço da multitudinária expressão católica, o Círio de Nazaré, a constante
expansão do número de fiéis evangélicos no Pará, em consonância com o cenário
nacional, é favorável ao presidente. O mais recente Censo Demográfico do IBGE
mostra que a população evangélica no Brasil passou de 15,4%, no ano 2000, para
22,2%, em 2010, um aumento de cerca de 16 milhões de pessoas (de 26,2 milhões
para 42,3 milhões). Sessenta por cento são de origem pentecostal e é no Norte que
se identifica maior redução da população católica no país: de 71,3% para 60,6%,
enquanto os evangélicos aumentaram sua representatividade de 19,8% para 28,5%.
Traço dramático que compõe o perfil desse grupo no país, mais de 60% dos
evangélicos pentecostais recebem até 1 salário mínimo.

O pastor Samuel Câmara, irmão do pastor Silas Câmara, presidente da bancada


evangélica e um dos apoiadores de Bolsonaro na Câmara dos Deputados, destaca
que a igreja está presente em 180 países. O pastor Honório Pinto contabiliza 700 mil
membros do exército de irmãos no Pará e 550 templos.

Pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris (2007) e
especialista em Antropologia da Religião e Antropologia Urbana, Ronaldo de
Almeida (Unicamp) assina preciso artigo na mais recente edição da revista “Novos
estudos Cebrap”, sob o título “Bolsonaro presidente: conservadorismo, evangelismo
e a crise brasileira”. Como parte de sua análise, ele esmiúça quatro linhas de forças
sociais que “atravessam a conjuntura brasileira na qual conservadorismo e
evangélicos estão implicados, a saber: econômica, moral, securitária e societal. Não
as trato como as causas da eleição do novo presidente, mas como vetores que
encontraram na sua candidatura a melhor representação”.

O pesquisador conclui que a onda conservadora “é um emaranhado de vários


jogadores em diferentes tabuleiros e ritmos” entrelaçado pela demanda securitária,
pela moralidade dos costumes, pela desqualificação do Estado e pela intolerância
interpessoal, todas articuladas por Bolsonaro em diversas medidas. A Teologia da
Prosperidade pregada pelos neopentecostais, por exemplo, está plenamente afinada
ao entendimento do esforço individual.

Já a agenda do conservadorismo dos costumes não tem sido pregada apenas aos
fiéis, mas disputada no plano da norma jurídica em prol de uma moralidade
pública. E o propósito é explícito com mandatos eletivos no Legislativo e no
Executivo. No Congresso, o número de deputados e senadores pertencentes a
corporações ligadas à segurança pública saltou de 18 para 73 e põe lenha na
fogueira do que o autor identifica como medidas governamentais de postura e
ações repressivas e punitivas. “A redução da maioridade penal, a revisão da lei do
armamento, a lei antiterror, a política de encarceramento, entre outros, são ações
que ampliam a violência legítima do Estado sobre a população criminosa ou não,
sobretudo os mais apartados do universo dos direitos”, destaca Ronaldo de Almeida,
lembrando que cerca de dois terços dos deputados evangélicos votaram a favor da
redução da maioridade penal.
Sintomática a concessão de honrarias a Bolsonaro esta semana pela Câmara de
Vereadores de Belém e Assembleia Legislativa do Pará. O vereador Sargento Silvano
(PSD) e o deputado Delegado Caveira (PP) tiveram êxito na proposição de titular
“cidadão” ao ex-militar por meio das casas parlamentares. E o pastor Samuel
Câmara se dedicou pessoalmente pela aprovação da honraria.

O cerco se arrocha com a qualidade e intensidade das interações sociais diante do


forte antagonismo político, destaca o artigo, com ostensivas tensões de laços de
amizade, de trabalho e de família, potencializadas pelas redes sociais digitais – uma
dinamite desde a campanha presidencial.

O campo progressista está à frente da greve geral neste dia 14, em defesa da
Previdência pública, que promete ser tão massiva quanto os atos dos dias 15 e 30 de
maio. O repúdio aos cortes na Educação levou cerca de 80 mil pessoas às ruas da
capital paraense. Os municípios do estado, como regra no Brasil, terão impactos
fatais em suas economias se a Reforma da Previdência de Jair Bolsonaro for
aprovada, a despeito da reivindicação favorável do governador do Pará, Helder
Barbalho (MDB), eleito por coligação com o partido do presidente. Dados
consolidados peloSindicato dos Servidores do Fisco Estadual do Pará (Sindifisco)
mostram, que em 71% dos 144 municípios, os recursos da Previdência superam os
valores do próprio Fundo de Participação dos Municípios (FPM), correspondendo,
em média, a exorbitantes 80% dos recursos. E é dramático o perfil da população que
vai gerar a poupança de um trilhão e 200 bilhões de reais, segundo planos do
governo Bolsonaro para os próximos dez anos: 70% dos recursos sairão da carteira
de trabalhadores que recebem entre 1 e 2 salários mínimos; ou 87% dos que
recebem até cinco salários mínimos.

Entre as ruas e as redes digitais, não há trégua.


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