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What is a Nation?

Ernest Renan
Aula na Sorbonne em 1882 a partir da tensão entre França e Alemanha sobre o
território de Alsace-Lorraine
A contradição entre o desejo politico estabelecido pelo tratado de Frankfurt e o
desejo popular de uma população – composta principalmente por falantes de alemão –
resistem à transferência territorial. “Renan’s text delineates the more general historical
opposition between the desire for unification on the basis similar culture and language
(...) and the desire for unification on the basis of political will.” (p.3)
A partir desse contexto histórico temos anunciada a prerrogativa que acompanhará
o argumento levantado por Renan ao longo do texto, de que a nação não se limita a um
parametro de identificação fechado somente em termos de cultura, linguagem, etnia,
religião, etc..... Nesse sentido, a nação seria um produto moderno distinto das demais
formas de comunidades formadas pela humanidade ao longo da história, sendo ao mesmo
tempo atravessada por essas características.
Se distanciando das justificativas generalistas sobre a nação, temos então as
características reconhecidas por Renan do que constituiria a nação moderna:
- Trata-se de uma união de vontades. Parte do reconhecimento de um passado
comum, um sacrifício histórico compartilhado pelos sujeitos que compõem a nação.
“Now, it is the essence of a nation that all individuals have a great deal in common and
also that they have forgotten a great deal.” (p.21)
- Esta intrinsecamente ligado ao tempo de formação dos Estados soberanos, o
Estado Nação, partindo do que o autor considera ser um “plebiscito diário”
- Assume um paradoxo inerente ao processo de reconhecimento de uma histórica
comum que se encontra presente na relação entre a memória e o esquecimento, no
apagamento das particularidades culturais dissonantes do projeto de uma cultura nacional.
A partir disso se percebe é a formulação de um discurso mítico – mesmo que
ficcional – que apague, que se faça esqueça, demais crimes e conflitos para a manutenção
da unidade nacional.
Temos então dois movimentos discursivos presentes no entendimento do que seria
uma nação: o primeiro interno, presente na necessidade de se fundar um reconhecimento
comum entre todos os sujeitos que fazem parte da nação, e o segundo externo, capaz de
diferenciar uma cultura nacional das demais, o reconhecimento entre o nacional e o
estrangeiro.
Cap I. O texto se inicia a partir de uma perspectiva histórica, partindo do sentido de
comunidade presente na fundação do Império Romano: “The Roman Empire came much
closer to being a homeland. Roman rule, though at first so harsh, was soon welcomed for
the immense benefit it brought in ending the wars. It was a might association,
synonymous with order, peace and civilization.” (p.15) A positividade civilizacional do
império romano encontra respaldo nas classes instruídas pelo sentimento de pax romana
compartilhado, marcando a distinção entre o sentimento de ordem social e caos bárbaro.
Os valores apontados pelo autor para justificar esse sentimento de “terra natal” já
representam os critérios culturais tomados para se reconhecer a nação moderna.
A extensão territorial do Império Romano torna a separação entre ocidente e oriente
inevitável. A partir das invasões germânicas, Renan aponta os processos pelos quais as
comunidades europeias se instituíram como Estados Nação através de imposições
dinásticas e militares. A heterogeneidade cultural europeia é de tal maneira vasta que se
torna impossível delimitar uma ancestralidade comum, então como essas organizações
dinásticas vieram se tornar as nações que conhecemos? Para Renan, duas circunstâncias
são centrais para entendermos esse processo, a adoção do cristianismo pelos povos
germânicos, que acabou com distinções culturais baseadas na religião, e a
homogeneização linguística. “The critical consequence of these events was that, despite
the extreme brutality of the Germanic invaders, the mould they laid down became, over
the course of centuries, the very mould of the nation”. (p.18) A partir do século X as
primeiras chansons de geste já descrevem os habitantes da França como franceses. Tanto
as distinções raciais quanto os processos de violência pelos quais territórios foram
tomados e culturas extremidades são esquecidos em prol de uma identificação singular.
“Forgetting, I would say historical error, is essential to the creation of a nation, which is
why the advance of historical study often poses a threat to nationality”. (p.19)
O que temos que ter em mente é que o texto de Ernest Renan parte de uma perspectiva
histórica. Sua análise aponta o processo pelo qual, desde a antiguidade clássica, as
diversas formas de organização social vieram a se estabelecer enquanto Estados Nação.
Sendo assim, a formação das nações modernas – mesmo que distintas entre si – seria parte
de um processo quase que natural do desenvolvimento da cultura humana. O texto de
Renan, ao tomar a modernidade em seus aspectos positivos, fundados nas prerrogativas
de razão e progresso, reconhece a nação como um “princípio espiritual” capaz de criar
uma harmonia no que antes se perdia em critérios de raça, linguagem, religião, interesses
comuns e geografia.
Cap II. Definições limitadas: o segundo capítulo pretende apontar as limitações que os
critérios de raça, língua, religião e territorialidade assumem ao tentar definir os limites da
cultura nacional. Porém podemos perceber novamente o valor positivo tomado pelo autor
a respeito da fundação do Estado Nação, reconhecendo no fim dos arranjos dinásticos a
potência para libertação do sujeito. “Moreover, the eighteenth century changed
everything. After centuries of humiliation, humanity recovered its classical spirit, it self-
respect and the notion of human rights.” (p.27) Podemos perceber o caráter emancipatório
desse “espirito” moderno que Renan reconhece no cerne da nação.
Raça: o critério racial é o mais extensivamente debatido por Renan. Isso se dá
pelo fato desse critério apontar duas problemáticas principais. A primeira diz respeito a
uma impossibilidade histórica pois, se tratando do progresso de trocas culturais entre os
diversos povos que compõem cada nação, seria impossível traçar alguma origem comum
– pura – a todos os indivíduos. De forma concreta, um Estado nacional pode abarcar duas
ou mais etnias distintas, sendo assim, mesmo que importante para se entender a formação
dos Estados Nação, os estudos etnográficos são limitados enquanto definidores do que
seria a nação. Um segundo problema apontado pelo autor é o perigo que uma justificativa
racial assumiria ao reconhecer a legitimidade de uma determinada raça sobre outra. Como
potências contrárias o autor coloca: “The principle of primordial right of race is as narrow
and treacherous for true progress as the principle of nations is just and legitimate.” (p.27)
Sendo assim, a justificativa a partir da raça não é somente limitada mas também oposta
ao processo de formação da identificação nacional.
Linguagem: a linguagem como delimitador nacional é vista como um sinal racial.
Por mais que a linguagem indique uma unidade cultural ela não necessariamente a
compeli. Como coloca Renan: “The political importance we attach to lenguage comes
from the fact that we see it as a sign of race.” (p.37) Além de ser uma afirmativa falsa –
texto aponta exemplos de sociedades que não correspondiam as suas línguas –, assumir a
língua como diferenciador cultural torna-se perigoso ao limitar a identificação de um
“espirito humano” a uma diferenciação patriótica. Para Renan, a linguagem assume um
caráter de formação histórica que diz pouco ou nada a respeito da cultura nacional.
Religião: a religiao na antiguidade era entendida como extensao das relações de
ritos familiares. Como organização social, a religião seguida pela comunidade seria uma
extensão dos ritos tidos pelas famílias. Como coloca Renan, nas sociedades clássicas –
nesse caso Atenas e Esparta – recusar os ritos seria recusar o pertencimento a essas
comunidades, semelhante a recusar o serviço militar hoje. Porém, isso não se dá no Estado
Moderno, sendo a religião afastada da esfera publica e se limitando ao aspecto privado da
vida em socidade. Assumindo o discurso positivista da modernidade, o texto parece
favorecer a concepção laica do Estado moderno em oposição ao princípio monárquico.
“Religion has become an individual matter, it concerns our individual conscience alone.”
(p.41)
Interesses comuns: de forma breve Renan aponta que interesses comuns podem
conduzir relações econômicas, porém não bastam para garantir a coesão de um Estado
Nação.
Geografia: o que Renan delimita como entendimento de fronteira natural, a
geografia assume seus limites como determinante nacional por conta da arbitrariedade
das fronteiras nacionais. O argumento se sustenta na mutabilidade dos territórios
nacionais. Marcadores geográficos são ineficazes para demarcar o espaço nacional, então
o território compõe o substrato histórico de formação da nação, dos conflitos que
delimitam suas fronteiras e do trabalho de seu povo com a terra. Como conclui Renan:
“A nation is a spiritual principle, originating in the profound complexities of history; it is
a spiritual family, not a group determined by the configuration of the soil.” (p.45)
Cap III. Plebiscito Diário
No terceiro capitulo podemos compreender o que Renan entende por “principio
espiritual” da nação. Se trata de uma identificação que se funda em dois aspectos, um do
passado e outro do presente. O passado, marcado por um legado de memórias ricas,
heroicas e também de sacrifícios coletivos; e o presente, marcado pelo desejo de se viver
junto, pelo sentimento de herança e necessidade de se perpetuar o esforço conjunto. Mais
do que qualquer delimitador anteriormente considerado, o compartilhamento de uma
herança comum e um projeto de futuro são os fundamentos para a formação da nação.
Mesmo que ainda fechado em um princípio racionalista moderno, a nação como
compreendida por Ernest Renan parte de um discurso sobre a história, mesmo que não
sustentado no “real”. Esse “espirito nacional” partiria da vontade coletiva, de um
plebiscito diário com intuito de perpetuar no presente os valores constituídos no passado.
Próximo ao princípio federalista apontado por Immanuel Kant sobre a paz
perpetua, o progresso racional pelo qual a humanidade atingiu esse patamar de civilidade
traduzido no corpo nacional naturalmente se estenderia para instituições cada vez mais
coletivas de identificação. De uma identidade europeia para uma identidade “humana”.

Comunidades Imaginadas. Benedict Anderson


Introdução: Anderson inicia seu texto apontando duas questões inerentes à ideia de
nacionalismo como produto da modernidade. A primeira diz respeito a observação de que
a partir da segunda guerra mundial as revoluções assumiram um conteúdo nacionalista –
a partir dos históricos revolucionários da China e do Vietnam –, herdando o modelo
político de organização social pré-revolucionário. Tomando as teorias marxistas como
base de suas reflexões, Anderson se dirige à contradição ideológica entre o
internacionalismo proletário e os modelos revolucionários nacionalistas dos Estados
socialistas após a segunda guerra.
Partindo do reconhecimento das burguesias nacionais, as prerrogativas de
Anderson, assim como as de Renan, também apontam para um processo histórico de
formação da “condição nacional”. Porém, ao reconhecer o caráter dialético da luta de
classes como constituinte desse processo histórico a nação aparece menos como um
princípio espiritual e mais como uma identificação cultural marcada por um projeto
hegemônico (aqui podemos pensar o princípio de hegemonia pensado por Gramsci). Por
mais que tenhamos que analisar cada aspecto histórico distinto que atravessa a fundação
do Estado Nação, como coloca Anderson: “depois de criados, esses produtos se tornam
‘modulares’ capazes de serem transplantados com diversos graus de autoconsciência para
uma grande variedade de terrenos sociais, para se incorporarem e serem incorporados a
uma variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas”. (p.30)
Sendo assim, Benedict Anderson aponta o que considera serem as três
prerrogativas para se classificar a nação. Segundo o autor se trata de uma comunidade
imaginada, intrinsicamente limitada e soberana.
Imaginada: essa prerrogativa parte do entendimento comum de todos os
indivíduos de uma nação como constituintes da mesma. Em diálogo com Renan,
Anderson reconhece que só podemos perceber uma identificação nacional quando a
comunidade em questão é capaz de se perceber como compartilhando um projeto comum,
mesmo sem nunca se conhecerem. Esse processo de reconhecimento comum parte
justamente do processo já considerado de memória e esquecimento imbricado na
fundação do “espírito nacional”. “Ela é imaginada porque mesmo os membros da mais
minúscula das nações jamais conhecerão, encontrarão ou bem sequer ouvirão falar da
maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da
comunhão entre eles”. (p.32)
Limitada: a nação se encontra limitada não somente pelos territórios que a
compõem, mas também pelo reconhecimento de que enquanto aspecto cultural se
diferencia das demais nações. Próximo ao que Renan considerou como ponto
diferenciador da identidade nacional, Anderson percebe que, diferente dos projetos
imperiais da antiguidade, nenhuma cultura nacional pretende se estender para toda
humanidade. “mesmo a maior delas, que agregue, digamos, um bilhão de habitantes,
possui fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das quais existem outras nações”.
(p.33)
Soberana: a nação é soberana segundo os preceitos iluministas contrários aos
princípios do reino dinástico. Concomitante ao sentimento de pluralidade religiosa e
liberdade individual, a nação encontra nos moldes do Estado Soberano a garantia dessas
liberdades.
Comunidade: a nação se desenha em termos de comunidade a partir da comunhão
dos sujeitos nacionais a despeito das desigualdades sociais. “independente da
desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro dela, a nação sempre é
concebida como uma profunda camaradagem horizontal”. (p.34)
Cap I. Raízes culturais:
O texto inicia trazendo a imagem do tumulo ao soldado desconhecido como
símbolo do nacionalismo moderno. A ausência de uma definição a respeito de quem seria
o soldado ou se teria algum vínculo real com o passado. Essa imagem traz à tona dois
aspectos importantes da cultura nacional moderna. O primeiro no anonimato que garante
uma identificação coletiva do povo com a figura do herói de guerra, e o segundo no
esforço de se fundar uma narrativa histórica de conquistas comuns, um passado rico em
memórias que, como colocou Renan, são perpetuadas no desejo nacional do presente.
A importância do tumulo do herói desconhecido evidencia uma conexão do
imaginário nacionalista ao religioso. Como instituição capaz de legitimar a dominação, a
religião sempre se voltou a confortar as inquietações sobre o sofrimento humano. Como
matéria do iluminismo o nacionalismo traz em sua formação os traços do secularismo
racional, agindo como novo discurso apaziguador do sofrimento humano, capaz de
transformar a fatalidade em comunidade. Assim, o nacionalismo vive a ambiguidade de
ser uma instituição moderna, ao mesmo tempo em que se sustentam no discurso sobre um
passado imemorial. “O que estou propondo é o entendimento do nacionalismo alinhando-
o não a ideologias políticas conscientemente adotadas, mas aos grandes sistemas culturais
que o precederam, e a partir dos quais ele surgiu, inclusive para combatê-los”. (p.39)
Comunidade Religiosa: a comunidade religiosa esta intrinsecamente ligada a ideia de
língua sagrada e, como o nacionalismo, são dotadas do poder de conversão. O poder
institucional das religiões se dá através do domínio sobre as letras, uma divisão
hierárquica da sociedade que tinha no clero sua forma de configuração hegemônica.
Apesar da forca de identificação coletiva que a religião permitia, após o final da Idade
Média. Dois motivos para essa decadência são apontados:
- Primeiro pela exploração do mundo não-europeu, que marcou uma expansão do
horizonte cultural ao se evidencias novas formas de vida humana. A figura do explorador
surge no texto de Anderson para evidenciar o processo pelo qual a relativização cultural
já assume traços de territorialização, uma relação para ele de comparação e competição.
- A segunda diz respeito ao declínio do Latim como língua sagrada, temática que o autor
depois retoma ao tratar do surgimento do capitalismo tipográfico. “Em suma, o declínio
do latim ilustrava um processo mais amplo, em que as comunidades sagradas
amalgamadas por antigas línguas sacras vinham gradualmente se fragmentando,
pluralizando e territorializando”. (p.47)
Reino Dinástico: Anderson aponta o fato dos reinos dinásticos serem comunidades
legitimadas pela vontade divina, assim, o monarca não seria extensão da vontade popular.
Eram comunidades que se expandiam de forma política e sexual, assumindo
territorialidades mais fluidas, mas contraditoriamente exercendo poder sobre uma
população mais heterogênea e descentralizada. De forma geral, Anderson aponta o século
XVII como ponto de declínio das monarquias sagradas na Europa Ocidental. Mas o que,
para além do declínio das formas antigas de identificação política, possibilita a elaboração
das comunidades nacionais modernas?
Percepções temporais: o que se torna central para análise de Benedict Anderson é a
forma pela qual a imagem unificada de uma comunidade nacional torna-se difundida para
a grande massa populacional que se identifica com ela. “Se o clero transeuropeu letrado
em latim era um elemento essencial na estruturação do imaginário cristão, igualmente
vital era a transmissão dessas concepções para as massas iletradas, por meio de criações
visuais e auditivas, sempre pessoais e particulares”. (p.52) Em diálogo com Marc Bloch,
Anderson reconhece a distinção da apreensão do sujeito medieval em relação ao tempo
histórico, sempre sob a ameaça do fim dos dias. A primeira distinção quanto ao tempo
nacional, que desde Renan já se desenhava em termos de um desejo coletivo para o futuro.
O que se torna central para compreendermos o argumento de Anderson sobre a
comunidade nacional é o conceito de simultaneidade, abordado pelo autor em diálogo
com Auerbach (p.53) e trazendo a concepção de tempo messiânico tomada por Walter
Benjamin – uma simultaneidade de passado e futuro, em um presente instantâneo. Essa
consciência temporal, atravessada por um “tempo vazio e homogêneo” é adotada pela
população através do que Benjamin considera serem as duas formas de criação imaginaria
que florescem na Europa do século XVIII: o romance e o jornal. A partir da análise da
estrutura de um texto literário, Benjamin elabora a forma pela qual o romance e o jornal
passam a figurar a simultaneidade em um tempo vazio e homogêneo. (p.55) Como
Anderson coloca, apesar de duas das personagens não se relacionarem diretamente,
ambas são lidas enquanto pertencentes a uma mesma temporalidade. Isso se dá por dois
fatos, o primeiro relacionado ao pertencimento de ambas a mesma sociedade, e o segundo
marcado pelo espirito onisciente do leitor, capaz de conceber uma comunidade enquanto
mundo imaginado.
A partir da análise de romances nacionais, Benedict Anderson torna evidente as
formas pelas quais passamos a perceber o tempo nacional através de uma abordagem
histórica do texto literário. Anderson, tratando da crítica colonial no texto de José Joaquim
Lizardi, ao relacionar os espaços nacionais no exercício de uma sucessão de plurais,
aponta a importância dos espaços ficcionais (plurais) que figuram como espaço nacional,
comum às personagens e aos leitores, esse horizonte social anuncia a temática nacional.
Também ao abordar a novela do indonésio Marco Kartodikromo (Semarang Negro), o
texto aponta, para além da sucessão de plurais que especializam a nação, a importância
da evocação de um herói mítico. Sem nome, assumindo apenas a função do pronome
possessivo de “nosso rapaz”, o herói da novela pertence ao coletivo de leitores indonésios,
passa a figurar, como coloca Anderson, uma “comunidade imaginada” indonésia em
embrião.
- O ponto central se dá a partir da dupla leitura: lemos o que o personagem está lendo. O
jornal representado na novela toma centralidade no argumento de Benedict Anderson para
que seja evidenciado o papel da imprensa capitalista na fundação de uma “comunidade
imaginada”. O jornal seria responsável por dois vínculos imaginário – o temporal
(marcado pela data), e o seu vínculo com o mercado. A relação com o mercado se dá por
sua função, assim como o livro, de mercadoria produzida em larga escala.

Narrating the nation. Homi Bhabha: “Nations, like narratives, lose their origins in the
myths of time and only fully realize their horizons in the mind’s eye. Such an image of
the nation – or narration – might seem impossibly romantic and excessively metaphorical,
but it is from those traditions of political thought and literary language that the nations
emerge as a powerful historical idea in the west”.
O texto de Homi Bhabha coloca em cena, logo no princípio, a ambivalência do
discurso nacional que discutimos até então. Aproximando o discurso nacional do
exercício narrativo, Bhabha reconhece que a nação surge a partir da formulação de um
mito histórico, uma linguagem metafórica capaz de dar forma ao ideal moderno de
pertencimento nacional.
Para que se formule esse discurso, Bhabha observa que se sustenta uma ideologia
de narrativa continua, inserida em um processo de progresso nacional contínuo – essas
prerrogativas parecem se aproximar das leituras que realizamos até então do
nacionalismo, seja com o “espirito nacional” apontado por Renan, seja a formulação de
um tempo messiânico como colocado por Anderson. Se distanciando dessas leituras,
Bhabha pretende traçar os limites pelos quais são tensionadas as forças discursivas do que
se escreve sobre a nação e a vida daqueles que a vivem. Assumindo uma postura crítica
com relação ao caráter modernizante dessas leituras sobre a nação, Bhabha pretende
quebrar o universalismo intrínseco ao trato da comunidade nacional enquanto modelo de
hegemonia cultural.
Assim, partindo do debate com as ideias de Hanna Arendt (p.2), podemos perceber
como a formação da nacionalidade, realizada em termos de racionalismo político, nada
mais é que imposição de um projeto particular para a esfera pública.
- Temos que observar que Bhabha reconhece que o argumento da nação enquanto
racionalidade assume, para Anderson, as características de descrição do romance realista,
a partir da articulação da diferença pela linguagem. Por mais que o trabalho de Benedict
Anderson já indicasse a ação das elites políticas como condutoras da cultura nacional, o
argumento de Bhabha pretende evidenciar o produto dessa ação de maneira nenhuma
consegue ser reduzido a uma percepção horizontal. Assumindo uma postura próxima ao
discurso dos estudos culturais, a nação, como a narrativa, se torna fraturada pela
pluralidade de discursos que partem da sociedade para impossibilitar o universalismo.
De forma geral, são evidenciadas duas formas tradicionais de se tratar a nação. A
primeira referente ao reconhecimento do aparato ideológico do poder, e a segunda como
o sentido utópico da vontade nacional em forma de uma identidade cultural
compartilhada. Afastando-se dessas premissas, Homi Bhabha considera que a cisão
discursiva se dá entre o exercício ideológico do discurso e a materialidade de vida
popular. Sendo assim, a identidade nacional, tomada enquanto aspecto ideológico –
mesmo que elaborada a partir de um movimento revolucionário – estaria fechada em
parâmetros de uma cultura universal.
A ambivalência da cultural colocada por Bhabha aponta a impossibilidade de se
conceber a cultura nacional nesses parâmetros. Como levantado pelo texto, mesmo que
partindo de uma ideologia emancipatória, qualquer delimitação totalizante da nação
estaria silenciando sistematicamente a pluralidade de identificações possíveis dentro do
espaço nacional. Sendo assim, longe de ser um discurso estático, ou totalizante, narrar a
nação demanda reconhecer o modo como ela é constantemente ressignificada. Esse
movimento constante de ressignificação, segundo o autor, a forma como o sentido
nacional se “dissemina” – em diálogo com Derrida – pelo corpo social é marcado por
duas potencias discursivas singulares: uma de caráter pedagógico e outra de caráter
performático.
Na dinâmica entre o discurso universalizante e as identidades em constante
formação podemos localizar o que Homi Bhabha considerou ser o aspecto pedagógico e
performático da nação. A força pedagógica estaria direcionada à construção de um
passado comum, de uma ideologia responsável por criar um imaginário nacional em
tensão constante com seu aspecto performático, o movimento incessante de significação
e ressignificação do sujeito nacional, na força narrativa que incorpora em sua realidade a
dinâmica de identidades inerentes à cultura nacional.

Disseminação: a análise de Homi Bhabha parte de uma reflexão sobre a diáspora. O


caráter testemunhal que marca o princípio do texto insere a história da sociedade moderna
nos movimentos marginais de migrações e exílios. É interessante perceber que a
abordagem do texto da encena a perspectiva crítica que será desenvolvida. Diferente de
uma narrativa coesa do processo histórico de formação da cultura nacional, Bhabha insere
uma leitura que parte das dobras da história. O exercício de pensar a nação enquanto
narração coloca em cena não a predominância de um discurso hegemônico, mas sim
potencializa a presença de identificações plurais presentes no próprio processo diaspórico
que funda a modernidade.
- é importante frisar a diferença como encaramos o próprio conceito de modernidade,
nesse sentido, o termo não se justifica a partir de uma perspectiva histórica eurocêntrica
de unificação cultural – marcada pelo racionalismo, mas parte de um processo histórico
múltiplo de relações culturais. Essas relações, no que tocam o nacional, acabam
produzindo efeitos de violência e silenciamento histórico. Como coloca Bhabha: “O
discurso do nacionalismo não é meu interesse principal. De certa forma é em oposição à
certeza histórica e à natureza estável desse termo que procuro escrever sobre a nação
ocidental como uma forma obscura e ubíqua de viver a localidade da cultura”. (p.228)

O tempo da nação: Bhabha dirige sua crítica ao historicismo que tradicionalmente


dominam o debate sobre a nação. Tal perspectiva, segundo o autor, acaba engessando a
categoria de “povo” dentro de uma categoria sociológica empírica. A cultura nacional se
fecha em uma perspectiva linear e coesa. A alternativa proposta por Bhabha encara a
nação como estratégia narrativa. Como coloca Bhabha: “Como aparato de poder
simbólico, isso produz um deslizamento contínuo de categorias, como sexualidade,
afiliação de classe, paranoia territorial ou ‘diferença cultural’ no ato de escrever a nação.
O que é revelado nesse deslocamento e repetição de termos é a nação como a medida da
liminaridade da modernidade cultural”. (p.229)
Como característica, esse tempo narrativo da nação requer uma “duplicidade” de
escrita. Se distanciando da perspectiva de tempo homogêneo considerada por Benedict
Anderson, Bhabha quebra a horizontalidade da cultura nacional ao indicar uma
temporalidade cindida que “se move entre formações culturais e processos sociais sem
uma lógica causal centrada”. Sendo assim, o discurso sobre a história da nação equilibra
essa duplicidade nas fraturas do presente, sendo essas fraturas as retoricas de um passado
comum – esse aspecto da pedagogia nacional é responsável pela imagem de um coletivo
unificado, o “espírito nacional” como colocado por Renan. O pensamento clássico sobre
a nação parte então da prerrogativa temporal moderna responsável por reconhecer a
metáfora histórica de “muitos como um”.
De muitos, um: Homi Bhabha reconhece na crítica literária o caráter intrínseco
da elaboração de uma imagem coesa da identidade nacional. A partir da leitura de
Bakhtin, Bhabha elabora sua crítica apontando o que considera serem os limites de
representação reconhecidos por Bakhtin no romance realista de Goethe. De forma breve,
a crítica literária estabelecida por Bakhtin pretende apontar os aspectos narrativos
responsáveis pela “emergência do nacional” em Viagem à Itália, de Goethe – colocando
como triunfo do componente realista sobre o romântico. A leitura parte da valorização do
trabalho com o cotidiano nacional como forma de conferir visibilidade ao aspecto local
(Lokalitat). “o poder do olho em de naturalizar a retórica da afiliação nacional e suas
formas de expressão coletiva.” (p.233) Podemos perceber como essa premissa de
espacialização da retorica nacional se aproxima do aspecto de tempo homogêneo que
norteava o conceito de comunidade imaginada. Como então se dariam essas
temporalidades heterogêneas? Apesar de ainda serem tensionados os tempos românticos
e realistas na narrativa de Goethe, os aspectos do primeiro são superados pelo processo
de estruturação de visualização do tempo. Para Bhabha, isso significa o processo de
engessamento do tempo nacional em uma espacialização estática. De forma simplificada,
significaria a suplementação das temporalidades múltiplas do “povo” pelo discurso
hegemônico da cultura nacional – a proeminência do pedagógico sobre o performático,
ou o próprio ocultamento das demais temporalidades. “Tal apreensão do tempo ‘duplo e
cindido’ da representação nacional’, como estou propondo, nos leva a questionar a visão
homogênea e horizontal associada com a comunidade imaginada da nação”. (p.234)
Bhabha propõe uma leitura que se realize a partir das identificações culturais
marginais, retomando o sentido diaspórico do discurso o autor parte de considerações do
movimento negro nos Estados Unidos, o movimento cultural do Renascimento do
Harlem, para evidenciar aspectos distintos da formação da cultura nacional. Justamente a
partir desse lugar de liminaridade do espaço-nação que Bhabha localiza o conceito de
“povo”. Tomado como estratégia retórica da cultura nacional, o “povo” se faz meio de
tensão entre os dois tempos de narra a nação. O povo como conceito, é pensado em tempo-
duplo.
Tempo pedagógico: uma retorica que funda seus alicerces na elaboração de um
discurso voltado ao passado, “atribui ao discurso uma autoridade que se baseia no
preestabelecido ou na origem histórica constituída no passado”. (p.237)
Tempo performático: marca do povo vivo como aspecto contemporâneo, parte
de uma relação com o presente, o processo cultural constantemente reproduzido.
“Consiste também em ‘sujeitos’ de um processo de significação que deve obliterar
qualquer presença anterior ou originário do povo-nação”.
A nação como narração traz a marca dessa temporalidade dupla, como coloca
Bhabha: “ocorre uma cisão entre a temporalidade continuísta, cumulativa, do pedagógico
e a estratégia repetitiva, recorrente, do performático. É através desse processo de cisão
que a ambivalência conceitual da sociedade moderna se torna lugar de escrever a nação”.
(p.237)
O espaço do povo: partindo da identificação do tempo nacional como duplo, cindido, o
povo passa a representar o limite entre os poderes totalizantes do social como comunidade
homogênea e a permanência de identidades plurais na configuração do corpo social da
nação. Com isso, Bhabha pretende quebrar qualquer justificativa hegemônica sobre o
espaço nacional. O caráter performativo do povo instaura uma fratura em sua própria
constituição, agora não mais delimitado por categorias definidores, o entr-lugar da cultura
nacional pretende acomodar as múltiplas narrativas que surgem de seu aspecto marginal.
Em última instancia, são os sujeitos minoritários, culturas marginais ao discurso nacional
que instituem a diferença não só mais com relação ao outro estrangeiro, mas também com
relação a diferença dentro do próprio corpo nacional.

Nationalism and literature. Sarah Corse


O texto de Sarah Corse parece apontar para uma relação entre a literatura e a nação que
se afasta de uma prerrogativa de filiação automática entre a literatura nacional e a cultura
nacional. Em outras palavras, Corse argumenta que a literatura não se limita a representar
a cultura nacional, mas sim está intrinsecamente ligada ao processo histórico pelo qual a
nação e os sujeitos que a compõem são constituídos. Sendo assim, a literatura deixa de
ser apenas um objeto da cultura nacional a ser observado para assumir um caráter ativo
na constituição da imagem nacional.
- a partir de uma analise comparativa de literaturas populares dos Estados Unidos e do
Canada, pretende-se reconhecer as distintas formas de relação entre o discurso literário e
a forma como a cultura nacional é percebida. Essa relação se sustenta a partir da
observação das relações politicas e sociais implicadas no contexto histórico trabalhado.
A partir da valorização de uma perspectiva histórica, Corse pretende questionar os
pretextos teóricos que se prendem a generalizações especificas de textos canônicos como
delimitadores da cultura nacional. Com isso, seu trabalho parte da análise de quarenta e
nove romances americanos e canadenses. Assim como coloca Corse: “I argue that both
national literature and nations themselves are socially constructed under identifiable
political and historical circumstances (…) and that the two processes are deeply
interwoven”. (p.4)
- partindo das delimitações de alta cultura e cultura popular, Corse aponta a
dinâmica hierárquica em que a literatura se insere enquanto discurso de autoridade
e produto de mercado.
Leitura tradicional: como apontado no texto, as considerações clássicas sobre a literatura
nacional partiam do princípio que as mesmas eram produtos da cultura nacional, sendo
assim, sua existência seria justificada pela necessidade de cada nação se diferenciar entre
si.
Como já trabalhado até esse momento, Sarah Corse deixa claro o quão recente a
literatura nacional se faz na história da humanidade – se referindo ao romantismo alemão
do século XVIII. De forma geral, a autora pretende salientar como teorias reflexivas
tendem a ignorar que a cultura nacional, assim como a literatura, são projetos levados a
cabo pela ação de indivíduos específicos, e que as organizações sociais modernas como
conhecemos não são simples produtos naturais do desenvolvimento histórico. Aqui
podemos perceber como Corse trabalha as temporalidades inseridas na cultura nacional,
reconhecendo o produto histórico de um discurso universalizante reproduzido pelos
cânones nacionais.
A cultura popular se apresenta então a partir de dois fatores indicados pela autora:
1. A predominância de uma significação econômica sobre a simbólica, que delimitaria o
espaço da literatura enquanto commodity; 2. As orientações da indústria cultural para
representações cada vez mais universais, garantindo sua rentabilidade. Assim, a literatura
como produto de mercado estaria condicionada a necessidade de ser consumida pelos
indivíduos. Assim como Anderson, tomamos como princípio a difusão da linguagem pelo
desenvolvimento do mercado capitalista como motor de formulação de uma identidade
nacional. Nesse sentido, a literatura e as políticas nacionais estão interconectadas pelos
projetos de poder de elites sociais.
Sendo assim, Corse rejeita as prerrogativas da teoria reflexiva por elegerem um
único aspecto do texto literário como “verdade” fundadora de uma cultura nacional.
Tomando o contexto histórico como base de suas reflexões, Corse aponta para uma
formulação hierárquica do cânone nacional como forma de universalização de uma visão
política particular. Assim, a literatura não é mais entendida como simples reflexo da
sociedade que a produz, mas como um exercício discursivo responsável por constituir a
cultura nacional.

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