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Teoria Geral do Direito Civil II – 1.ª e 2.

ª Turmas
7 de Junho de 2016

Note bem: leia atentamente todo o enunciado da prova. As respostas devem ser convenientemente
justificadas, indicando o respectivo fundamento legal sempre que for caso disso. Seja preciso(a) e
rigoroso(a) no seu discurso. A legislação consultada não deve conter anotações, impressas ou manuscritas,
excepto remissões. Tempo útil de duração: 2 horas. Boa sorte!

I (6 valores)
Distinga entre:
a) Negócio jurídico e negócio de pura obsequiosidade.
Cfr. Carlos Alberto da Mota Pinto, Teoria Geral do Direito Civil, 4.ª ed. por
António Pinto Monteiro e Paulo Mota Pinto, Coimbra Editora, Coimbra, 2005, pp.
379 a 383.
b) Coacção física e coacção moral.
Cfr. Mota Pinto, Teoria Geral, pp. 460, 489, 490, e 529 a 532.
c) Representação sem poderes e abuso de representação.
Cfr. Mota Pinto, Teoria Geral, pp. 539, 540, e 548 a 551.

II (6 valores)
Em Maio de 2013, Alexandra vendeu um serviço de porcelana a Bernardo, por
este estar convencido de que o mesmo era do século XVIII e pintado à mão. Em
Setembro do mesmo ano, Bernardo teve conhecimento da verdadeira data de fabrico do
serviço: 1992. Por este motivo Bernardo não tinha qualquer interesse na manutenção do
negócio, mas, por consideração para com Alexandra, nunca abordou o assunto. Em
Agosto de 2015, através de uma reportagem televisiva, Bernardo ficou a saber que foi
Alexandra quem produziu as louças, escolhendo artificiosamente os materiais de modo a
obter “serviços antigos” para venda. Hoje Bernardo pretende desvincular-se do negócio.
Quid iuris?
Bernardo poderá desvincular-se do negócio, existindo dois meios para o
fazer: os regimes do erro-vício e do dolo.
O erro-vício constitui uma representação inexacta ou ignorância de uma
qualquer circunstância de facto ou de direito, que foi determinante na decisão de
emitir a declaração de vontade (cfr. Mota Pinto, Teoria Geral, p. 504). In casu a
representação incorrecta incide sobre determinadas qualidades do objecto mediato
(o serviço de porcelana), sendo, por isso, um erro sobre o objecto (artigo 251.º CC).
O erro-vício releva como causa de anulabilidade da declaração de vontade se
estiverem presentes certos requisitos gerais e especiais, variando estes últimos em
função da modalidade do erro-vício em causa. Os pressupostos gerais
(essencialidade e propriedade) foram respeitados, uma vez que sem o erro Bernardo
nunca teria emitido a declaração de vontade, e o erro incide sobre qualidades do
objecto mediato e não sobre qualquer elemento legal de validade do negócio.
Também o requisito específico do erro sobre o objecto (artigo 247.º, por remissão do
artigo 251.º) foi observado, uma vez que a essencialidade, para o declarante
Bernardo, do elemento sobre que incidiu o erro deste – as qualidades do objecto –
deveria, no mínimo, ter sido conhecida por Alexandra, que, de resto, forjara o
serviço.
O prazo para arguir a anulabilidade é de um ano a contar da cessação do
vício que lhe serve de fundamento (artigo 287.º). Há duas representações inexactas:
uma cessa em Setembro de 2013, quando Bernardo fica a saber que o serviço havia
sido fabricado em 1992, e não no século XVIII; e uma outra, que cessa em Agosto de
2015, relativa a quem, e como, teria produzido as louças (quanto a esta aceitava-se,
portanto, resposta no sentido de ainda não ter passado aquele prazo de um ano).
Bernardo também havia sido vítima de dolo: um erro-vício (de Bernardo)
determinado por um comportamento artificioso ilícito de Alexandra (cfr. o artigo
253.º).
O dolo, enquanto causa de anulabilidade da declaração de vontade, requer o
preenchimento alguns requisitos: os artifícios têm de ter sido urdidos com intenção
ou consciência de induzir ou manter o declarante (Bernardo) em erro; têm de ser
ilícitos (isto é, o dolo tem de ser mau), o que significa que os artifícios não podem ser
usuais (considerados legítimos segundo as concepções dominantes no comércio
jurídico), nos termos do n.º 2 do artigo 253 a contrario sensu; e têm de ter sido
condição necessária da decisão de emitir a declaração de vontade (dolo essencial).
Todos estes requisitos foram respeitados.
O prazo de um ano para arguição da anulabilidade ainda não havia
expirado, uma vez que Bernardo só tomou conhecimento da solércia de Alexandra
em Agosto de 2015.
O dolo dá ainda origem a responsabilidade pré-contratual caso sejam
igualmente preenchidos os pressupostos do artigo 227.º (tendo esta responsabilidade
lugar mesmo que não se verifiquem todos os requisitos do direito de anular, por
dolo, ou este tenha já caducado; cfr. Mota Pinto, Teoria Geral, p. 525, nota 722).

III (8 valores)
Em Fevereiro de 2013, e pela forma legal, Carlos declarou vender a Diana uma
moradia sita no Algarve. Este negócio foi feito para evitar a eventual execução da
moradia por Xavier, credor de Carlos, não existindo na realidade qualquer intenção
negocial. Em Junho de 2013, Diana doou a moradia a Ernesto pela forma legal,
ignorando o donatário o que se passara antes. Dois meses depois, Ernesto trocou a
vivenda, por escritura pública, com Filipe, grande amigo de Carlos, que no momento da
troca conhecia a situação patrimonial deste e deveria ter sabido que a venda a Diana não
fora verdadeira. Em Março de 2016, Filipe, a quem entretanto Carlos contara o que se
passara antes, vendeu a casa a Graça, a quem disse tudo o que sabia. Todos os actos
descritos foram logo inscritos no registo.
Suponha que Xavier, credor de Carlos, pretende hoje fazer com que o prédio
retorne à titularidade deste, para o poder executar. Terá êxito?
Ernesto, Filipe e Graça adquiriram – em momentos diferentes – direitos
sobre a mesma moradia, a qual havia sido objecto de um negócio simulado entre
Carlos e Diana em Fevereiro de 2013 (simulação absoluta e fraudulenta). Como o
negócio simulado é nulo (artigo 240.º), Diana, que é um dos simuladores, não
adquire o direito de propriedade sobre a moradia que Carlos simulou vender-lhe.
Não tendo adquirido tal direito, não o poderia ter transmitido gratuitamente a
Ernesto através de uma doação; o que está de acordo com o princípio nemo plus
iuris (ninguém pode transmitir poderes jurídicos de que não seja titular).
No entanto, o referido princípio conhece três excepções. Neste caso, uma de
duas dessas excepções poderia ser chamada à colação: ou o artigo 243.º, ou a regra
geral do artigo 291.º.
Como Xavier não era um dos simuladores, a posição do Curso (cfr. Mota
Pinto, Teoria Geral, pp. 479 a 481) é a de que os terceiros – Ernesto, Filipe e Graça –
só se poderiam fazer valer da protecção do artigo 291.º. Sucede que este preceito é
bastante mais exigente do que o artigo 243.º: exige o preenchimento cumulativo de
vários requisitos, entre os quais a aquisição (de direitos) a título oneroso (sendo que
Ernesto havia adquirido a título gratuito, enquanto donatário) e a boa fé do
adquirente, esta definida como desconhecimento, sem culpa, do vício do negócio nulo
ou anulável, no momento da aquisição (n.º 3 do artigo 291.º), o que excluiria Graça e
Filipe do âmbito da sua protecção – este último não estaria de boa fé porque,
embora desconhecesse a simulação, “conhecia a situação patrimonial [de Carlos] e
deveria ter sabido que a venda a Diana não fora verdadeira” (Filipe já se encontraria
protegido caso fosse aplicável o artigo 243.º, que apenas exige o desconhecimento,
independentemente de culpa do terceiro adquirente).
Xavier teria legitimidade para invocar a nulidade da simulação –
sustentando a sua pretensão nos artigos 286.º e 605.º (cfr. Mota Pinto, Teoria Geral,
p. 479) –, bem como para opor esta nulidade, com êxito, aos terceiros Ernesto, Filipe
e Graça, nos termos já apreciados.