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UMA

NOVA
VIDA
O destino é surpreendente

Junho/2019
Dedico à minha filha, Rachel Lins Aguiar,
que passou horas sem a minha companhia,
enquanto eu terminava esta história
PRÓLOGO

“Por que eu não consigo me lembrar de nada? Só me lembro de uma


luz forte vindo em minha direção... E aí... eu me apaguei...”

Assim a vida de Erick mudou completamente.


Ele estava vivendo... UMA NOVA VIDA

E não era só ele quem estava vivendo uma nova vida. A vida com que
todos eles estavam acostumados mudou após o acidente. Mas tudo
tem um lado bom.
Capítulo 1

Malu havia se mudado para uma casa maior, com piscina e


quarto de hóspedes. O bairro era bem tranquilo e arborizado,
lembrando os bairros mais nobres dos Estados Unidos. A avó de Malu
havia falecido, deixando uma boa herança para a família. Era seu
primeiro dia na casa nova e Erick, seu vizinho fora lhe dar as boas-
vindas. Malu atendeu a porta:
- Oi! – E sorriu.
O sorriso de Malu deixava qualquer um paralisado. Erick sorriu
de volta e não conseguiu dizer nada.
- Oi, sou a Malu. Diz alguma coisa!
Erick se recompôs e respondeu, sem graça:
- Sou Erick e moro na casa da frente. Aquela verde ali! –
Respondeu o menino, apontando para o outro lado da rua. Ele estava
notavelmente nervoso.
Sua casa era uma das maiores e ele morava ali desde que
nascera. Erick era moreno, de cabelo negros e olhos cor de avelã e,
assim como Malu, tinha doze anos.
Malu tinha a pele bronzeada, olhos verdes e cabelos castanhos
bem lisos.
- Muito prazer. Quer entrar?
- Não, obrigado. Minha avó me pediu que eu trouxesse esses
bolinhos de chuva para lhe desejar as boas-vindas.
Malu, enquanto pegava a bandeja das mãos de Erick, olhava
encantada para o menino, que era muito bonito e educado.
A mãe de Malu, dona Carmem foi até a porta cumprimentá-lo:
- Olá, mocinho. Como vai?
- Oi, como vai a senhora? Sou Erick, moro na casa da frente.
Só vim dar as boas-vindas e trazer esses bolinhos feitos pela minha
avó, que é uma ótima cozinheira! Mas eu preciso ir. Até mais!
- Mas já? Vamos entrar! – Insistiu a mãe de Malu.
Erick estava sem graça e olhou para Malu, dizendo:
- Eu tenho mesmo que ir. Preciso estudar um pouco. Aliás,
onde você vai estudar, Malu? Deve ser na mesma escola onde estudo.
- Ah, acho que é uma aqui do bairro. Deve ser a mesma, sim.
Tchau, Erick, nos vemos depois. E agradeça sua avó pelos bolinhos.
Malu ficou admirada, nunca tinha visto um menino tão educado
naquela idade. A casa onde ela vivia anteriormente tinha apenas cinco
cômodos, e Malu vivia na rua, brincando com os amigos. Erick mal
saía de casa. Passava os dias estudando e, quando fazia muito calor
ele aproveitava a piscina de casa, sozinho. Seu único amigo morava
num bairro bem longe dali.
No dia seguinte, na escola, Malu ainda não havia conhecido
ninguém. Ela tinha visto Erick de longe, mas ainda não tinha tido a
oportunidade de ir vê-lo. Estava muito ocupada conhecendo a escola,
acompanhada da supervisora. Quando ela finalmente ficou sozinha,
uma colega de sua turma logo se apresentou:
- Oi, sou Clara. O seu nome é Malu mesmo, ou é algum
apelido? Porque achei diferente.
- É Malu, mesmo. Meus pais gostam de nomes assim.
- Entendi. Bem, eu sento lá na frente, porque detesto bagunça
no fundo da sala.
Clara tinha a pele tão alva, que contrastava com seus longos
cabelos negros e ondulados, e seus olhos eram esverdeados. Era uma
aluna exemplar. Assim como Erick, também estudava muito. Ela
morava em um bairro mais distante da escola, e sua casa era muito
grande. Daquelas que a gente se perde quando entra.
Malu se empolgou e começou a conversar com a colega, antes
que a professora chegasse.
- Você mora aqui perto da escola?
- Não muito perto, mas eu venho com o meu motorista. E você,
veio de onde?
- Eu me mudei ontem pra cá, morava bem longe, você nem
deve conhecer. Minha casa é amarela e tem uma piscina enorme!
- Interessante. E qual casa não tem piscina por aqui?
Clara pensou um pouco e se lembrou que em frente à casa de
Erick havia uma casa amarela, muito grande, à venda. E disse:
- Peraí! A sua casa é em frente à casa do Erick?
- Como sabe?
- Você é muito sortuda! Eu sempre quis morar lá, mas meu avô
gosta da casa onde moramos.
- Entendi. Então você conhece o Erick?
- Quem não conhece o menino mais inteligente da escola? E
mais lindo, mais interessante..., mas ele já tem dona!
Malu não prestou atenção na última frase que Clara disse, pois
acabara de tocar o sinal para o início da aula, e Erick entrou na sala.
Malu abriu um sorriso enorme e foi falar com ele.
- Erick! Você é da minha sala?
Erick olha envergonhado para seus colegas e diz à Malu:
- Oi, Malu, é o que parece, mas não precisa gritar. Está todo
mundo rindo de você.
Malu olhou ao redor e viu que Clara também ria, com um ar de
deboche.
- Desculpe. Eu fiquei contente que vamos estudar juntos, afinal
você é a única pessoa que eu conheço nesta escola, além da Clara,
que acabei de conhecer.
Erick sorriu e respondeu, sem disfarçar o interesse pela
menina:
- Tudo bem. Também estou feliz por isso!
Clara percebeu que algo poderia estar acontecendo entre os
dois. Ela sentia muito ciúme dele. Clara gostava de Erick, mas
fantasiava o amor dos dois em segredo. Ela já havia dito a ele que
sentia algo especial quando estavam perto um do outro, mas
infelizmente ele não podia dizer o mesmo. Eles mantinham a amizade
há mais ou menos quatros anos, desde que começaram a estudar na
mesma escola. Mas Erick já tinha deixado bem claro que não gostava
de Clara do mesmo jeito que ela gostava dele. Mas ela não aceitou, e
alimentava esperanças.
No entanto, Erick olhava diferente para Malu, mas ela não
havia percebido. Isso desagradou muito Clara, que foi conversar com
Malu, no intervalo:
- E aí, Malu! Está gostando da nova escola?
- To sim. Você estuda aqui há muito tempo?
- Há uns quatro anos. É uma das melhores escolas que eu
conheço. Mas, me diz uma coisa, como você e o Erick se
conheceram?
- Ele foi à minha casa ontem para dar as boas-vindas e levou
uns bolinhos deliciosos que a avó dele fez.
- Hum... que legal. Ele é bem-educado, mesmo. Depois você
me convida pra nadar na sua casa?
Malu riu.
- Tudo bem. Assim que as coisas da mudança estiverem em
seu devido lugar a gente faz uma reuniãozinha para comemorar.
- Reuniãozinha? Aff! Até parece que você nunca morou em
uma casa com piscina!
- Não mesmo. Onde eu morava não cabia piscina... a casa era
muito pequena e eu brincava mais na rua do que dentro de casa.
- Ah... sei... então é só marcar.
- Você tem alguma amiga aqui na escola?
Clara mudou a expressão imediatamente.
- Ah, é que... eu não me socializo muito. Acho não me dou
muito bem com nenhuma das meninas da escola, e no meu bairro
ninguém brinca na rua…
Clara perdera os pais quando ainda era bebê e ela foi criada
pelo avô, que a mimava, dava tudo o que ela queria, para compensar
a falta dos pais; mas ela era sozinha, desde pequena brincava sozinha
em seu quarto, com os brinquedos mais modernos que ganhava. E por
ser muito sozinha, ela imaginava o Erick ao seu lado o tempo todo,
sonhava em se casar com ele um dia.
Erick vinha em direção às duas com uma maçã na mão:
- Oi, alguém quer uma maçã?
Clara não respondeu.
- Ah, quero sim, obrigada. – Respondeu Malu, rapidamente. –
Quer se juntar a nós? Senta aqui!
Clara olhou para Erick e sorriu, dizendo:
- É, senta aqui com a gente. Eu fiquei surpresa em saber que
você e a Malu são vizinhos.
- Pois é... aquela casa estava à venda há tempos!
Erick sentou-se ao lado de Malu e perguntou:
- Como está sendo seu primeiro dia de aula aqui?
- Bem legal. Já tenho dois amigos, você e a Clara. – Disse
Malu, enquanto pegava na mão dos dois.
Clara soltou a mão da menina. Mas Erick não quis soltar a mão
de Malu, segurando mais firme. Erick não havia percebido que Clara
estava olhando, e morrendo de ciúmes. Ele queria continuar
segurando a mão de Malu, porque havia gostado da sensação de
estar mais próximo dela. Era só o que pensava. Clara não aguentou e
puxou Malu, dizendo:
- Vamos ao banheiro!
- Mas... o Erick…
- Anda logo, Malu!
No banheiro, Malu perguntara à sua nova amiga por que ela
havia feito aquilo.
- Mas eu não fiz de propósito… eu só quis mostrar a vocês que
estou feliz. Pegar na mão é um gesto carinhoso, só isso. - Respondeu
Malu, sem entender por que Clara estava tão irritada.
Clara não podia contar a ela que era apaixonada por Erick e
sentia muito ciúme dele. Ela, tentando disfarçar, disse:
- É que… eu não to acostumada com esse tipo de atitude…
não costumo ficar pegando nas pessoas.
Malu estava cada vez mais perto dele. Ela teria que pensar em
um jeito de conquistar Erick, a qualquer custo, antes que Malu
pudesse pensar em ficar com ele. Talvez essa amizade com a
“queridinha” do menino fosse a maneira ideal de se aproximar dele.
No final da aula, Clara foi correndo falar com Malu:
- E então, quando vou conhecer sua casa?
- Preciso falar com os meus pais primeiro.
- Aposto que o Erick já conhece.
- Não, minha mãe o convidou pra entrar, mas ele não quis.
Depois eu marco um dia pra vocês dois irem nadar lá, tá?
- Ok, queridinha. Beijinhos, viu?
Clara deu às costas à nova amiga e entrou no carro, pois seu
motorista já a aguardava.
Assim que Erick saiu da escola, viu que Malu ainda estava por
ali; ele chegou mais perto dela, cobrindo-lhe os olhos.
- Adivinha quem é?
- É o Erick?
Malu virou-se rapidamente para trás, e Erick sorriu para ela.
Aquele instante parecia único, e tudo o que estava ao redor dos dois
desapareceu. Malu não parava de olhar para Erick, quando ele
interrompeu:
- Vamos para casa? A propósito, minha avó está convidando
você e sua família para almoçarem lá em casa no próximo sábado.
- Sério? Ah, vamos sim! Quer dizer, se meus pais
concordarem…
Durante a tarde, Malu terminou sua lição de casa e foi tomar
um ar em volta da piscina. Ela estava mesmo gostando de Erick. Ele
vinha em seus pensamentos o tempo todo. Não parava de pensar no
sorriso daquele garoto. Mal sabia Malu que Clara também gostava
dele. Justo a sua amiga.
A semana passou rápido. Malu estava ansiosa para almoçar na
casa de Erick. E finalmente o sábado tão esperado por Malu havia
chegado. Foi um dia bem agradável e todos se divertiram bastante,
principalmente Erick e Malu, que quase não saíam da piscina. No final
da tarde, eles jogaram xadrez e outros jogos de tabuleiro. Erick era
muito bom nisso! Eles aproveitaram para conversar e contar sobre
suas vidas. Malu descobriu que Erick desenhava muito bem; desenhar
é o que ele mais gostava de fazer nas horas vagas.
- Sempre que tenho um tempinho eu desenho alguma coisa.
Quer ver alguns dos meus desenhos?
Erick e Malu foram para a biblioteca, onde Erick guardava seus
desenhos. Malu ficara encantada com todos aqueles desenhos.
Pareciam profissionais.
- Você faz curso de desenho?
- Não. Eu aprendi sozinho. Fui tentando copiar alguns
desenhos e acabei gostando. Tive uma ideia! Você quer ir comigo na
rua ver uma coisa?
- Mas... e os meus pais?
- É rapidinho, eles nem precisam ficar sabendo.
Erick puxou Malu pelo braço e saíram correndo até a rua. Eles
entraram no lote vago, que ficava ao lado da casa do menino. Quando
Malu olhou para cima, viu uma grande árvore, com um tronco reto e
uns galhos retorcidos. As folhas eram de um tom verde incomum.
- E então? Gostou? Essa é minha árvore favorita. No outono
fica ainda mais bonita. Senta aí.
Malu sorriu. Os dois passaram vários minutos sentados
embaixo da árvore, conversando. Erick contou que seus pais moravam
no interior e ele tinha se mudado para a cidade para estudar e ter um
futuro melhor.
- E eles vêm te visitar sempre?
- Não muito. Eu não me dou muito bem com meu pai. Mas vou
às vezes ver minha mãe. Ela trabalha o dia todo no Armazém que eles
têm por lá. Esse armazém era do meu bisavô, e meu pai acabou
ficando com ele.
Quase uma hora depois, a avó de Erick o chamou. Ele se
assustou e novamente puxou Malu. Os dois entraram correndo pela
porta dos fundos.
- Oi, vó, o que aconteceu?
- Onde vocês estavam? Está na hora do lanche. Os pais da
Malu têm compromisso mais tarde e precisam se despedir.
- Ah... já? – Disse Malu – Eu estava gostando tanto de ficar
aqui.
- É, vó! A Malu pode ficar mais? Os pais dela podem ir. Depois
eu deixo ela na porta de casa.
Eles insistiram tanto que os pais de Malu deixaram a menina
passar o resto da tarde com seu amigo. No final da tarde, antes que
Malu fosse embora, Erick a presenteou com um desenho da árvore.
- Olha, é para você. Essa pode ser a nossa árvore. E sempre
que você quiser sentar em algum lugar para refletir, ou para ouvir os
pássaros, é só sentar embaixo dela. Ela te ouve também, pode
desabafar tranquilamente.
- Obrigada, Erick! – Malu sorriu e deu-lhe um beijo no rosto –
Acho que eu preciso ir agora. Daqui a pouco anoitece.
Erick atravessou a rua com Malu e esperou que ela entrasse
em casa.
- Tchau, Erick. Amei passar o dia com você... digo, na sua
casa!
Ele não respondeu, apenas sorriu. Malu, para disfarçar, disse:
- Semana que vem eu vou convidar a Clara para nadar aqui em
casa. Ela me pediu isso a semana toda, mas eu só fico enrolando.
- Então eu posso ir também?
- Claro! Ah... Erick, posso te perguntar uma coisa?
- Depende do que é.
- Só fiquei curiosa e queria saber se você já teve alguma
amiga?
- Eu não sei se posso chamar a Clara de amiga, mas já
conversamos e estudamos juntos algumas vezes. E meu único amigo
mora longe…
Malu se despediu de Erick.
Assim que ele voltou para casa, sua avó lhe perguntou:
- Você gosta mesmo dessa menina, hein?
- Acho que sim, vó. A Malu tem um encanto, que eu nunca
tinha visto em nenhuma outra menina. Queria que minha mãe
estivesse aqui para conhecê-la.
- Eu sei, meu amor, mas sua mãe deve estar muito ocupada lá
no interior com os negócios do seu pai. Qualquer dia desses você
pode convidar a Malu pra passear por lá.
Erick se empolgou. Sua avó, dona Anna, era sua amiga
confidente.
- Posso saber onde vocês estavam quando sumiram?
- Fui mostrar pra Malu a nossa árvore. Quero dizer, a árvore
que eu gosto tanto. Acabou se tornando a nossa árvore, porque ela é
tão especial quanto a Malu.
Dona Anna abraçou Erick, bem apertado.
- Vó, a senhora acha que a Malu também gosta de mim?
- Tenho certeza que sim. Ela te olha de um jeito… E não
consegue disfarçar a alegria, quando está do seu lado. Mas vai com
calma, para não se machucar. Vocês precisam se conhecer bem para
dar um passo a mais. Mas tem tempo, vocês são muito novos!
Na segunda-feira, Clara foi falar com Malu no intervalo da
escola:
- Parece que seu fim de semana foi ótimo, né? Você não para
de rir.
- Foi sim! Melhor impossível.
- Eu sei. Parece que os dentes vão cair da sua boca, de tanto
que você sorri.
- Eu e meus pais fomos almoçar na casa do Erick. A avó dele
convidou, porque somos os novos vizinhos. Mas não fica chateada,
porque sábado que vem você pode nadar na minha casa. Eu já
conversei com a minha mãe sobre isso.
Clara deu de ombros e respondeu:
- Vou pensar. Nem to mais com tanta vontade.
- Que pena, porque ia ser muito divertido. O Erick também vai!
- O Erick vai?
Malu percebeu que Clara havia mudado sua fisionomia de
repente. Clara disfarçou.
- Eu... vou pensar e te falo mais tarde. Até mais, Malu!
Malu ficou desconfiada e pensativa. Clara realmente não podia
perder aquele sábado na casa de Malu, simplesmente porque Erick
estaria lá. Só isso importava. E Malu passou o resto da aula pensando
nisso.
À tarde, Erick chamou Malu para conversar embaixo da árvore.
Ele reparou em Malu e disse:
- Você está estranha hoje! Foi alguma coisa que eu te fiz?
Malu... olha pra mim…
- Não, Erick, desculpe. – Malu pegou na mão do menino. – É a
Clara. Ela realmente é estranha, concordo com você.
- O que ela te fez?
- Nada, mas eu entendo que ela deve ter seus motivos para ser
assim. É só isso.
- Que bom que não aconteceu nada entre nós... porque eu to
morrendo de vontade de nadar na sua casa no sábado. Vamos tirar
uma foto nossa agora? – Disse Erick, pegando seu celular no bolso.
Os dois passaram a tarde rindo, conversando e tirando várias
fotos. Erick não tinha redes sociais, não gostava disso, por isso não
postava as fotos, apenas guardava para ele. Dona Carmem chegou
em casa e viu Malu do outro lado da rua. Ela a chamou:
- Malu! Vem pra casa! Você sabe que horas são?
Erick olhou, assustado, as horas no celular e disse:
- É melhor irmos mesmo. Já passou da hora do lanche. Minha
avó deve estar sentindo a minha falta.
- Tudo bem. Tchau, Erick!
Erick lembrou-se do que sua avó havia dito no sábado passado
e perguntou se a Malu queria passar um fim de semana no interior
com ele, para conhecer seus pais. É claro que ela aceitou.
Eles se abraçaram e, naquele momento Malu não viu nem
ouviu mais nada. Ela sempre ficava nas nuvens quando abraçava
Erick.
Sua mãe continuava chamando. Ela entrou em casa e seu pai
reclamou:
- Posso saber onde você estava até agora?
- Estávamos embaixo da árvore.
- Como assim “estávamos”?
- Eu e o Erick ficamos conversando e acabamos esquecendo a
hora. Ele me contou que gosta muito de desenhar e meu deu alguns
desenhos, olha!
Malu mostrou ao pai os desenhos que Erick havia lhe dado. Ele
nem mostrou interesse.
- Foi só isso mesmo?
- Sim. Ele até me convidou para conhecer os pais dele no
interior.
- Convidou? Mas você só vai se eu deixar. – Respondeu o pai
e saiu da sala, furioso.
Malu não entendeu a reação do pai e foi para o quarto,
entristecida.
Dona Carmem percebeu que Malu estava chateada e foi atrás
da filha. Ela bateu na porta, mas Malu não quis abrir.
- Eu quero ficar sozinha, mãe.
Malu queria muito ir para o interior com Erick, mas seu pai era
muito “cabeça-dura”.
Sábado chegou. Malu mal conseguiu dormir naquela noite, mas
mesmo um pouco cansada, ajudou sua mãe a organizar a casa e a
preparar as receitas do almoço. Seria um dia inesquecível. A menina
não parava de andar, de um lado para o outro.
- Filha, por que está tão inquieta? – Perguntou o pai de Malu,
incomodado.
- Ah, querido, deixa a menina! – Intrometeu a mãe, e continuou
– É a primeira vez que ela convida seus amigos para passar o dia
conosco, na casa nova. É normal essa ansiedade.
Mas Malu estava ansiosa mesmo porque Erick conheceria sua
casa, e seria mais um fim de semana que ela passaria mais perto dele.
O interfone tocou. Malu correu para atender a porta. Era Erick e
ela lhe deu um abraço.
- Que bom que você veio!
- Mas eu disse que vinha!
Malu sorriu.
Eles correram para o jardim, onde ficava a piscina. A mãe de
Malu foi até lá e cumprimentou o menino. O pai de Malu estava na sala
lendo jornal e, da janela, apenas acenou.
- Seu pai parece ser bravo.
- Ele só não está num bom dia. Ah, e também ficou furioso por
causa daquele dia na árvore, lembra que eu te contei na escola?
- Até hoje ele está com raiva?
- Ele também não quer deixar eu ir para o interior com você.
Vou ter que convencê-lo ainda.
- Posso te ajudar. Depois falamos com ele mais tarde. E a
Clara, não vem?
- Ela disse que ia pensar e me dava a resposta depois, mas
como ela não disse nada, fiquei sem saber. Enquanto isso, vamos
beber um suco. Você aceita?
- Claro, obrigado!
Erick pegou o copo da mão de Malu, olhando bem fundo nos
olhos dela. E, curioso, perguntou:
- Você me perguntou se eu já tive amigas, eu também fiquei
curioso. Você já teve muitos amigos?
- Ah, sim! Lá onde eu morava conheci alguns meninos que
brincavam na rua com as meninas e na escola também, mas nenhum
era tão especial quanto você, se é o que você quer saber. –
Respondeu ela, sorrindo.
Clara finalmente chega e interrompe os dois:
- Oi gente! Demorei? Estava preparando uns “muffins” para
trazer.
- Humm, adoro “muffins”! Minha avó faz um de cenoura que é
uma delícia! – Disse Erick.
- Que bom, agora eu já sei do que você gosta! – Respondeu
Clara.
- Na verdade, eu gosto de tudo o que a minha avó faz. – Ele
riu.
Malu convidou seus amigos para nadar. Os três pularam na
piscina e inventaram várias brincadeiras. Na hora do almoço, a mãe de
Malu chamou-os para a mesa. Clara fez questão de sentar ao lado de
Erick.
- Posso? – Perguntou.
- Se faz tanta questão, por mim tudo bem – ele respondeu.
Quem não gostou nada disso foi Malu. Seu pai percebeu que ela
estava morrendo de ciúmes e achou melhor deixar como estava;
afinal, sua filha era muito nova para se apaixonar por alguém. O pai
de Malu quis saber mais sobre Erick, e começou a fazer perguntas
sobre seus pais e sobre o que ele quer fazer no futuro.
- Eles vivem no interior, cuidando de um Armazém. E eu não
me dou muito bem com meu pai. Ele sempre foi muito durão e quando
soube que eu queria ser desenhista não deu a mínima. Disse que
preferia que eu fosse um grande médico ou advogado, que isso é que
era profissão de rico. Já a minha mãe adorou e me deu todo o apoio.
Eu sempre faço alguns desenhos bem legais e envio pra ela, por
correio. Sinto mais falta dela do que dele. Ou melhor, não sinto falta
dele...
E, aproveitando o assunto, Erick completou:
- Aliás, você bem que podia deixar a Malu ir comigo para o
interior. É só um fim de semana. Ela vai adorar! Minha mãe fica no
Armazém o dia todo e na roça, onde meus pais vivem tem muitos
animais, plantações... um caseiro que cuida de tudo, é um lugar muito
gostoso!
- Sei não. Vou pensar.
- Por favor, pai!
- Já disse que vou pensar.
Clara intrometeu:
- Eu não posso ir?
Erick, para não ser mal-educado, respondeu:
- Vou ver com a minha mãe se posso levar mais de uma amiga.
- Você é um bom menino, Erick – disse Dona Carmem.
Clara sorriu para ele, que virou o rosto, olhando para Malu. A
mãe de Malu levantou-se, foi para a cozinha e voltou com um pudim.
- Hora da sobremesa! Vocês gostam de pudim de chocolate?
- Claro! – Respondeu Erick – Eu amo tudo o que é de
chocolate!
Clara acenou afirmativamente com a cabeça.
- Erick, qual é a sua comida favorita? – Perguntou Malu.
- É a lasanha de berinjela da minha avó. Nem a minha mãe
consegue fazer igual.
- Humm, Lasanha! Eu também amo massas! – Disse Malu – E
você, Clara?
- O que tem eu?
- Gosta de comer o quê?
- Purê de batata gratinado com cogumelos.
- Nossa, nunca experimentei. Deve ser bom!
Erick interrompeu:
- Malu, por que não vamos ficar embaixo da nossa árvore? A
Clara pode ir também, se quiser.
- Nossa árvore? – Perguntou Clara, confusa.
- Sim, é minha e do Erick, e é lá onde passamos muitos
momentos bons. Fica no lote ao lado da casa dele, do outro lado da
rua.
- Eu sei onde é a casa dele. E desde quando árvore tem dono?
Mas por que vocês têm uma árvore?
- Porque gostamos dela, ora! – Repetiu Erick.
Embaixo da árvore, Erick começou a desenhar. Clara sentou-
se na entrada do lote, em um toco que havia por lá.
- Vou desenhar a minha mãe pra você ver como ela é linda –
disse ele.
Clara, sentindo-se excluída, intrometeu:
- Ô Erick, por que você vive me evitando, hein? Eu sou amiga
da Malu, poxa.
- Calma, Clara! Ninguém está te evitando – disse Malu.
- Mas é o que parece. Ele só fala com você, só mostra as
coisas pra você... ah! E olha, Malu, ele já me evitava mesmo antes de
você chegar, parece que me odeia.
Erick ficou sem graça e se desculpou com a menina.
- Desculpa, eu não quis magoar você.
Clara, com um “sorriso amarelo”, respondeu que ele estava
desculpado.
Alguns minutos depois, o desenho havia ficado pronto.
- Vejam, meninas! Esta é a minha mãe, não é bonita?
- Nossa, ela é muito linda mesmo! Você teve a quem puxar –
disse Malu, sorrindo meio sem graça.
- Ela é bonita, sim, Erick. – Disse Clara. – Vocês dois têm sorte
de ter uma mãe, mesmo a sua, morando longe.
- Você não tem mãe? – Perguntou Malu.
- Não, meus pais morreram quando eu tinha menos de dois
anos. Sofreram um acidente. Eu tenho pavor de acidente, acho que
nunca vou tirar carteira de habilitação…
- Nossa, que coisa horrível! Eu sinto muito…
Clara cansou de falar sobre aquilo e se irritou com Malu,
dizendo com grosseria:
- Tá, tudo bem! Eu nem sei como é viver com os pais. Então
não faz diferença, não precisa ter pena de mim…
- Não estou com pena de você, mas você deve sentir falta
deles.
- Como vou sentir falta de algo que nunca tive e nem sei como
é! E fique sabendo que o meu avô cuida direitinho de mim e me dá
tudo o que eu quero. Eu sempre tive tudo o que quis e nunca me falta
nada.
- Clara, eu não quis te irritar. Foi mal, mesmo!
Erick e Malu se olharam entristecidos.
No final da tarde, o avô de Clara chegou para buscá-la. Ela abraçou
Erick e Malu e entrou no carro. Malu comentou:
- Coitada dela, acha que é feliz só porque é rica. Eu, pelo
menos, sempre fui feliz sem ter luxo.
- Ela sabe que não é feliz, mas tenta evitar o assunto por
causar muito sofrimento. O que falta mesmo pra ela é amor, carinho,
atenção… Mas já está tarde, eu tenho que ir!
Malu deu um abraço bem apertado em Erick. Depois que o
menino foi embora, ela correu para o quarto. Sua mãe foi falar com
ela:
- Filha, posso entrar?
- Oi mãe, pode sim. O que foi?
- Eu to muito curiosa, me diz uma coisa, você está gostando do
Erick?
- Bem... acho que sim. Deu pra perceber?
A mãe fez que sim com a cabeça.
- Ah, mãe, pensa bem! É impossível não gostar dele. Além de
lindo, fofo e inteligente, é super educado, um verdadeiro cavalheiro! Eu
nunca tinha conhecido um menino assim!
- Meu Deus, quantas qualidades! Então tá, eu só queria saber.
E eu quero dizer também que pode contar comigo, eu aprovo vocês
dois juntos e…
- Mãe! A gente nem tá junto ainda…
- Ainda, né! E toma cuidado com o seu pai, você sabe como ele
é. Não vai gostar nada dessa história, viu? Ele tem ciúme de você por
ser filha única. Mas se depender de mim o segredo fica guardado.
Malu abraçou a mãe, que lhe deu um beijo de boa noite.
O domingo foi chuvoso e Erick não pôde visitar Malu. Ela
passou o dia mexendo no notebook. Mais tarde eles fizeram uma
chamada de vídeo pelo celular.
- Oi Erick! Que dia chato. O que você está fazendo de bom?
- Bem, eu não estava fazendo nada bom, até você me chamar!
Meus avós estão jogando cartas e eu estava lendo um pouco.
- Hum, pensei que estivesse desenhando.
- Eu desenhei mais cedo. Deixa eu pegar aqui pra te mostrar
e... pronto! Esta é você, o que achou?
Malu, mais uma vez, ficou encantada. Erick fazia cada desenho
mais lindo que o outro.
- Eu amei! Mas está mais bonito do que eu sou de verdade! –
Riu Malu.
- Claro que não, eu fiz o desenho do jeitinho que eu te vejo. E
não precisa ficar envergonhada, olha pra mim…
Malu levantou a cabeça e Erick sorriu pra ela.
- Se eu pudesse, ficaria aqui o resto do dia só olhando para
você.
- Ah, para, Erick! Deixa de ser bobo!
- Mas eu sou bobo mesmo. Vou ter que ajudar a minha avó a
preparar o jantar. A empregada tá de folga hoje e meu avô, de
bengala, nem pode ficar muito tempo em pé.
- Tadinho! Eu vi ele andando de bengala quando fui almoçar aí.
Os dois deram uma risadinha. Malu se despediu de Erick e
começou a imaginar se eles ficassem juntos, como seria. E então veio
a imagem da Clara em sua mente, e pensou:
- Será que a Clara gosta mesmo do Erick, ou eu to ficando
doida? Bem, seja lá o que for, eu acho que o Erick gosta de mim,
então eu preciso me preocupar só com isso.
No próximo fim de semana Erick estaria indo para o interior.
Malu conseguiu convencer seu pai a deixá-la ir também. Clara não
pôde ir, estava resfriada e seu avô achou melhor que ela ficasse
quietinha em casa, de repouso.
Chegou o dia da viagem. Malu e Erick estavam muito felizes,
porque passariam o fim de semana juntos novamente.
A viagem durou mais ou menos cinco horas. Saíram cedo e
chegaram na hora do almoço. A comida cheirava bem, e dava para
sentir da porteira. Dona Lúcia, a mãe de Erick, havia preparado um
almoço especial para a grande amiga de seu filho.
Assim que desceu do carro Malu observou tudo ao redor. A
casa parecia ser bem aconchegante e tinha muito espaço para correr
com os cachorros da casa. Havia uma rede na lateral da casa, onde
Ricardo, o pai de Erick descansava, enquanto esperava o almoço. Era
sábado, e especialmente naquele fim de semana, o Armazém ficaria
apenas aos cuidados de Ricardo, já que dona Lúcia passaria o tempo
com o filho.
Dona Lúcia adorou conhecer Malu. Depois do almoço, elas
conversaram:
- Você é uma menina muito especial! Aposto que todo mundo
diz a mesma coisa.
- Obrigada, dona Lúcia. Especial é o seu filho! É ele que me faz
sentir especial quando estou ao lado dele. Eu nunca tive um amigo
assim, tão atencioso como ele.
- Meu filho é um anjo, mesmo. Não estou dizendo isso só
porque é meu filho, mas ele merece só coisas boas. E você é uma
coisa boa na vida dele! Pessoas boas atraem pessoas boas.
As duas passaram um tempão conversando, enquanto Erick
ajudava o caseiro a cuidar dos animais. Era algo que ele gostava de
fazer, e fazia sempre quando ia para a roça.
Depois que Malu e dona Lúcia conversaram, Erick levou Malu
para conhecer o jardim. Havia flores de todas as cores, e ela ficou
encantada com tudo aquilo.
Dona Lúcia levava flores para vender no Armazém, além de
legumes, verduras e frutas do próprio quintal. Era como um sítio. E os
cachorros corriam por todos os lados, o dia inteiro, cuidando da casa.
No fim da tarde, Malu e Erick sentaram embaixo de uma árvore
para conversar.
- Eu amo esse lugar! Ficar ao ar livre, perto da natureza, poder
sentir o ar puro. Isso me inspira a desenhar! – Disse Erick.
- Você podia desenhar tudo o que gosta de ver por aqui e levar
pra cidade. Assim, quando sentir falta daqui é só ver os desenhos.
- Sim, é uma ótima ideia. Amanhã eu começo cedo a desenhar.
- A casa onde você mora é dos seus avós?
- É deles, sim. Meu avô ama aquela casa, ele comprou quando
se casou com a minha avó. Então, quando meu pai nasceu, minha avó
veio para o interior, para criar ele livre, no mato; e ele acabou
crescendo meio revoltado porque não estudou numa boa escola, não
fez faculdade... por isso ele pega no meu pé, querendo que eu estude
muito e tenha uma profissão de rico.
- Ah, no fundo seu pai não é uma má pessoa. Ele só não quer
que você passe pelas mesmas dificuldades que ele passou.
- Eu sei, mas o jeito dele pensar me irrita. Como se eu não
pudesse ser alguém na vida fazendo o que eu gosto, que é desenhar.
Erick e Malu ficaram conversando até o anoitecer. Ele contou
tudo sobre sua vida para ela, e vice-versa. Começava ali uma grande
amizade.
O domingo foi chuvoso. Erick levantou cedo e foi para a
varanda desenhar tudo o que gostava. Os cachorros, com frio, subiram
na rede e se “enrolaram” em Malu, que também estava na rede. Os
pais de Erick estavam na sala vendo tevê. O dia passou voando. Malu
não queria voltar para casa, para a rotina. Mas, logo ao entardecer,
Ricardo os levou de volta para a cidade.
Eles chegaram à noite. Malu e Erick se despediram. Erick
presenteou Malu com um de seus desenhos que havia feito na roça.
Eram os cachorros e ela, deitados na rede. Malu simplesmente amou
aquele desenho. E guardou com muito carinho na sua gaveta especial.
Era a gaveta onde guardava tudo o que recebia de presente dos seus
pais e de outras pessoas especiais para ela. Erick se tornara especial.
Seu melhor amigo.
As semanas passavam cada vez mais rápido. Clara, como
sempre, não suportava ver Malu e Erick sempre juntos. Mas ela
também ficava perto deles, para garantir que nada aconteceria entre
os dois.
Erick, Malu e Clara já tinham feito treze anos. Em uma certa
tarde, Erick e Malu estavam conversando embaixo da árvore, quando
acabou rolando um clima entre eles. Erick acabou deixando escapar
que não conseguia ficar um minuto sem pensar em Malu e que ela
havia se tornado a garota mais especial que ele já tinha conhecido. E
assim aconteceu o primeiro beijo de Erick e Malu.
Mas eles ainda não estavam namorando, porque tinham medo
da reação de Clara. Ela fazia questão de estar perto dos dois. É claro
que nem sempre ela conseguia, pois morava em outro bairro, e Erick e
Malu aproveitavam quase todas as tardes juntos, fazendo dever de
casa, conversando, jogando, rindo... E, de vez em quando, eles se
beijavam por alguns instantes e paravam logo, antes que alguém
visse.

Capítulo 2

Mais um ano se passou. Malu, Clara e Erick já tinham quase


quinze anos. Leandro estava mais bonito, tinha tirado o aparelho e
agora sorria incansavelmente, para exibir seus dentes.
Clara continuava morrendo de ciúmes dos amigos, sempre se
oferecendo para ir com eles em todo lugar. Quem via os três juntos até
diziam que eram amigos inseparáveis, mas no fundo Clara queria ter
algo com Erick. E Malu sempre tomava o maior cuidado para não
deixar a amiga se aproximar demais do menino.
Certo dia, depois da aula, Clara ligou para Erick:
- Oi Erick, tudo bem? Eu posso passar aí na sua casa?
- Pode sim, mas pra quê?
- Eu to me sentindo sozinha. Tentei falar com a Malu, mas ela
não me atende, então pensei em conversar com você.
- Ela não te atendeu? Que estranho, será que aconteceu
alguma coisa?
- Não sei, ela deve estar ocupada, ajudando a mãe com
alguma coisa.
Clara foi à casa de Erick e se ofereceu para fazer um lanchinho
para os dois. Erick disse que não precisava, já que a empregada
estava em casa, mas ela insistiu. Enquanto lanchavam, Clara pegou o
celular e começou a fotografar os dois.
- O que você está fazendo?
- Só estou tirando umas “selfies”? Assim eu me sinto melhor.
- Tá, mas não posta isso, por favor! Não gosto de me expor
desse jeito, você sabe. Agora me diz, por que veio mesmo?
- Eu to me sentindo sozinha. Meu avô só fica enfiado nos
papéis o dia todo, cuidando de negócios. Queria alguém pra ficar do
meu lado, me ouvir e me apoiar. Já que a Malu não pode, ficamos nós
dois juntinhos.
- Como assim “juntinhos”?
- É só um jeito de dizer, Erick. Deixa de ser bobo. Já somos
amigos há tanto tempo, não custa nada você passar um tempo
comigo. A Malu não precisa estar com a gente sempre. Não nascemos
grudados!
Erick não podia contar que estava gostando de Malu; tentou
disfarçar, dizendo que tinha combinado de ver a Malu aquela tarde
para estudarem um pouco. Ele não queria ficar sozinho com Clara.
Malu podia aparecer e não entender o que estava acontecendo por ali.
- Sabe o que é, Clara. Eu tinha combinado de estudar com a
Malu hoje. Vamos na casa dela? Ela deve estar me esperando.
- Mas... e se ela estiver ocupada? Acho que ela se esqueceu
de você.
- Eu te garanto que para mim ela sempre arruma um tempinho,
quer apostar?
- Não. Mas e eu? Vocês podem estudar outro dia.
Erick acabou atravessando a rua e tocando o interfone da casa
de Malu. Dona Carmem atendeu e quando soube que era o Erick, foi
logo abrindo a porta. Ela ficou surpresa ao vê-lo em companhia de
Clara, e disse:
- Ah, oi, pensei que estivesse sozinho. Entrem!
Clara mostrou um “sorriso amarelo” e entrou. Malu desceu as
escadas correndo e abraçou os amigos.
- Que surpresa! O que fazem aqui?
- O Erick disse que... – começou Clara.
- Que a gente tinha que estudar hoje, lembra? – Completou
Erick.
Malu disfarçou e respondeu:
- Ah... é mesmo... que cabeça a minha!
- Eu fui visitar o Erick e fiz um lanchinho para ele. Ele amou as
panquecas, não é mesmo? – Interrompeu Clara.
Erick apenas balançou a cabeça, concordando.
Malu achou estranho sua amiga ter ido visitar Erick. E agora ela
ficara com medo de que essas visitas se tornassem frequentes. Mas,
como era uma menina educada, ela simplesmente sorriu e respondeu:
- Ah, que bom! Então eu não vou precisar preparar nada, vocês
já comeram. Vamos para o meu quarto.
Clara puxou Erick, que não gostou e empurrou a mão dela.
Malu pegou na mão de Erick e eles se olharam, sorrindo.
Essa relação amigável dos três já estava ficando esquisita.
Malu sabia que sua amiga gostava de Erick e que não media esforços
para conseguir conquistá-la. Mas Erick não gostava dela da mesma
forma, e isso a chateava muito. Se ela descobrisse que Malu e Erick
eram apaixonados um pelo outro, sabe-se lá o que ela seria capaz de
fazer.
Faltavam poucos dias para o aniversário de Malu. Seus pais
estavam preparando uma linda festa, como ela nunca tivera antes de
se mudarem para aquela casa. E pensaram que uma festa de quinze
anos para uma menina deveria ser muito especial.
Malu planejara dançar valsa com Erick, mas Clara ainda não
sabia. Eles ensaiavam juntos, escondido. Clara só soube da dança na
hora, pois Malu fez questão de guardar esse segredo. O pai de Malu,
como sempre, ficou de cara amarrada a festa inteira, vendo sua filha
de papo com Erick. Clara reclamou:
- Eu devia saber! Só podia ser o Erick, o grande par da Malu. A
minha festa está chegando, e eu também quero dançar com ele. Ele é
nosso único amigo, vai ter que dançar com nós duas!
Mal sabia Clara do envolvimento dos dois.
Logo após a valsa, Erick chamou Malu num canto:
- Malu, eu já disse que você está encantadora hoje?
Malu sorriu envergonhada. Ele continuou:
- Quer fugir comigo para debaixo da árvore?
- Ah, mas vamos deixar os convidados aqui?
- Eles nem vão perceber, tá todo mundo se divertindo.
- Como sempre, nós dois fugindo juntos...
Erick puxou Malu pela mão. Clara os seguiu. Não estava
entendendo todo aquele mistério.
Embaixo da árvore, Erick disse:
- Tenho medo de dizer isso por causa da nossa amizade, que é
muito importante para mim, e não quero que acabe por nenhum
motivo. Sei que já nos beijamos algumas vezes, e isso me fez ter a
certeza de que é você que eu amo. Eu não consigo mais segurar isso.
Você quer ser minha namorada? Pode ser escondido, se preferir.
Malu não esperava pelo pedido de namoro. Ela esperava, sim,
mas não na sua festa de aniversário. Ficou sem ar, sem palavras.
Erick perguntou novamente. Os olhos de Malu se encheram de
lágrimas. Ela não conseguia conter a alegria e, finalmente respondeu.
- Claro que eu quero, seu bobo... você é a pessoa mais
especial para mim, depois da minha mãe, é claro! – E riu.
Uma música romântica começou a tocar tão alto na festa, que
dava para ouvir do lado de fora. E eles se beijaram lentamente. Malu
não ouviu mais música nenhuma. Ela mal sentia seus pés e parecia
estar flutuando. O mesmo aconteceu com Erick. Eles estavam muito
apaixonados. Parecia que aquele era o primeiro beijo dos dois, pois o
momento era especial.
E Clara que viu tudo? Não sabia se sentia raiva ou tristeza. Ela
ficou em choque. Não podia imaginar que Erick e Malu já tinham se
beijado e que, agora, eles eram namorados. Ela foi para o jardim e se
escondeu perto da piscina. Ela tentou segurar, mas acabou chorando.
Chorou muito alto, tão alto que dona Carmem, que passava ali perto
com uma bandeja de refrigerantes, viu a menina naquele estado e foi
falar com ela:
- O que aconteceu, Clara? Vem comigo!
Dona Carmem deixou a bandeja em uma mesa e levou Clara
para dentro de casa.
- Agora pode dizer, estamos sozinhas aqui.
- Não foi nada.
- Não quer me contar? Olha, eu já tive a sua idade. Algum
menino te magoou?
- Foi a sua filha que me fez chorar! Ela está aos beijos com o
Erick lá fora, embaixo da árvore. – Clara respondeu, soluçando.
Dona Carmem já imaginava que Erick e Malu acabariam juntos,
mas ela não sabia que Clara também gostava dele. E tentou acalmar a
menina:
- Entendi, eu já sofri por meninos na sua idade, sei como é.
Mas na hora certa, você encontrará o garoto certo para você. Não
fique assim. Nem tudo é como a gente quer.
Dona Carmem deu um copo d’água para Clara e foi lá fora
bisbilhotar a filha. Ao sair da casa, viu Erick e Malu abraçados, indo
em direção à piscina. Malu tentou disfarçar e retirou os braços de Erick
de seus ombros, mas sua mãe já tinha visto.
- Eles estão tão bonitinhos juntos! – pensou dona Carmem.
Erick sorriu para dona Carmem e entrou na casa. Enquanto ele
ia ao banheiro, dona Carmem conversou com a filha.
- Vocês estão juntos? – Perguntou ela.
- Sim, ele me pediu em namoro. Mas ninguém sabe, ainda.
- Uai, mas do jeito que vocês estavam abraçados, achei que
era pra todo mundo saber.
Malu riu. Dona Carmem pegou a bandeja de refrigerantes que
tinha deixado na mesa e foi entregar aos convidados.
Quando Erick saiu do banheiro, Clara o esperava na porta.
- Muito bonito, né? Você e a Malu? Eu não podia imaginar
nunca isso!
- Para de gritar, Clara. Não quer estragar a festa, quer?
- E se quiser? Pra mim não faz sentido mais essa festa!
Erick cobriu a boca de Clara, pois estava falando muito alto.
Clara segurou sua mão e, chorando, continuou falando:
- Você sabia que eu te amava desde sempre... não podia fazer
isso comigo. E justo com a Malu? Pensei que fôssemos amigas.
Malu deitou na grama de casa para observar as estrelas.
Estava muito feliz, e mal podia imaginar que dentro de casa Erick e
Clara discutiam.
Clara continuou:
- Eu esperava que um dia ficássemos juntos. Pensei que você
não queria ainda porque preferia estudar, e eu respeitei isso.
- Mas eu já tinha deixado bem claro que não gostava de você
da mesma forma.
- Mesmo assim, tinha esperança que um dia você fosse se
apaixonar por mim, assim como se apaixonou pela Malu, que de
amiga não tinha nada.
Erick retirou a mão de Clara de sua mão e continuou:
- Olha, Clara, não adianta agora ficar desse jeito. Eu já pedi a
Malu em namoro...
- Eu sei! Ouvi tudo!
Erick percebeu que não dava pra conversar naquele momento
e saiu da casa, deixando Clara sozinha na sala. Clara não parava de
chorar, e disse baixinho:
- O Erick vai ser meu, meu... esse namoro não vai durar nada!
Lá fora, Erick contou o ocorrido à Malu, que ficou assustada e
não conseguiu mais olhar na cara de Clara aquela noite.
Dona Carmem ligou para a casa de Clara e disse que ela não
se sentia muito bem. O motorista chegou minutos depois.
A festa terminou tarde. Depois que todo mundo foi embora,
Malu tomou um banho, foi para o quarto e dormiu como um anjo.
Assim que amanheceu, dona Carmem foi até o quarto da filha
levar seu café-da-manhã:
- Filha! Acorda!
- Ah nem, mãe! Deixa eu dormir mais um pouquinho...
- Tudo bem, a festa foi cansativa mesmo. Mas, só uma
coisinha. Eu não sabia que a Clara gostava tanto do Erick, ela estava
aos prantos, depois que viu vocês juntos.
Malu deu um pulo da cama e até perdeu o sono.
- A Clara? Pois é... eu sabia, mas não posso deixar de ficar
com o Erick por causa disso.
- Está bem, filha. Eu entendo que vocês dois se amam, mas a
Clara... fiquei com pena de vê-la naquele estado.
- E o que quer que eu faça? O Erick gosta de mim, e não dela.
- Sim, mas acho que vocês deviam evitar ficar juntos na
presença dela. E se fosse você no lugar dela? Você ia gostar de ver o
Erick e a sua amiga se beijando na sua frente? Não deixa a menina
pior do que já está.
- Tem razão! Eu não queria ter causado isso. Depois converso
com a Clara.
- Sim, você e o Erick deveriam falar com ela, juntos. Quem
sabe ela não desencana? Ela gosta do Erick há muito tempo, e foi um
choque pra ela ver vocês juntos.
Malu abraçou a mãe e sorriu. Ela estava feliz pelo namoro, mas
também um pouco chateada pela amiga. Agora teria que pensar num
jeito de melhorar as coisas. Não queria que Clara ficasse tão mal, mas
também não queria ficar longe de Erick.
À tardinha, Erick foi à casa de Malu. Eles se abraçaram e foram
conversar embaixo da árvore.
- Tá tudo bem, minha linda? Seu olhar parece tão distante, sem
brilho... Era pra você estar feliz, afinal estamos namorando!
- Sim! Estou muito feliz por isso! Mas meu pai não pode nem
sonhar em saber! Você promete que não vai enjoar de mim? Eu tenho
medo de te perder.
Erick colocou a mão no queixo da menina e levantou sua
cabeça:
- Olha pra mim, bobona! Eu nunca vou enjoar de você. Você
não vai me perder, acabamos de começar a namorar!
Malu começou a chorar. Erick a abraçou.
- Quer me contar o que está acontecendo? É por causa de seu
pai?
- Não... o problema é que eu te amo muito.
- Isso é um problema?
- Não exatamente, o problema é a Clara. Não quero magoá-la,
e ao mesmo tempo não quero te perder.
- Você não vai me perder, já disse. Fica tranquila. Vamos
conversar com a Clara e ela vai ter que entender de uma vez por todas
que quero ficar com você. Eu te amo e o que eu sinto é verdadeiro,
não vai acabar.
- Eu acredito em você..., é que o destino às vezes nos prega
peças. Os meus pais também se amavam muito quando eram novos;
hoje eles mal se falam.
- Somos muito novos ainda e temos muito que viver e
aprender. Não vamos pensar em futuro, vamos curtir o presente.
Eles se beijaram e viram o pôr-do-sol, abraçados. Antes de se
despedir, eles tiraram algumas fotos. Erick disse:
- Faltam dois dias para o meu aniversário e eu queria que você
fosse jantar lá em casa. Não vou fazer festa.
- Só eu?
- Eu tinha pensado em convidar a Clara, mas talvez ela nem
queira ir... depois de tudo o que aconteceu.
Estava ficando tarde e Malu precisava ir embora.
- Amanhã é segunda, conversamos com a Clara na escola.
Erick foi embora pensativo. Ele amava muito Malu, mas
também estava incomodado com a situação de Clara.
No dia seguinte, na escola, Erick procurou Clara para
conversar, mas ela não tinha ido. Ele passou a aula desenhando. Malu
ficou do seu lado o tempo todo, apenas observando como ele
desenhava. A hora do intervalo havia chegado. Malu sentou-se num
canto sozinha para lanchar. Erick sentou-se ao lado de Malu:
- Cadê a Malu sorridente que eu conheço?
- Não consigo sorrir. Estou preocupada com a Clara. Ela não
veio e ontem não apareceu lá no bairro.
- Mas ficar assim não vai resolver nada. Depois falamos com
ela. Ela já sabia que eu não gostava dela da mesma forma.
- Ela está me odiando agora.
- Não fique pensando nisso, Malu. A gente se ama, uma hora
ela vai ter que aceitar. Não vamos deixar de ser felizes por causa dela.
- Erick sorriu e pegou nas mãos de Malu, e continuou - Você sabe que
eu só tenho olhos para você. Nunca vou trocar você por ela. Tudo o
que já passamos juntos foi especial pra mim, e não seria igual com
nenhuma outra menina.
Malu abraçou o namorado, com os olhos cheios de lágrimas.
Erick retribuiu o abraço e disse:
- Eu prometo que não vou te deixar. Eu te amo muito!
- Eu te amo mais!
Na saída da escola, Clara apareceu. Estava do outro lado da
rua.
Malu atravessou e foi falar com ela.
- Por que você não veio na aula? Como você está?
- Tá preocupada comigo? Então deixa eu ficar com o Erick!
Erick chegou bem na hora em que Clara havia dito aquilo e
respondeu:
- Clara, por favor, entenda de uma vez por todas que eu estou
namorando a Malu e é com ela que eu quero ficar. Não adianta você
ficar emburrada pelos cantos, chorando escondido, faltando às aulas,
ou fazendo qualquer outra coisa pra chamar a minha atenção.
- Eu não to querendo chamar a sua atenção, Erick! Eu to triste!
– Gritou Clara, e saiu correndo.
Erick e Malu foram embora juntos. Clara ainda estava por
perto, porém escondida, e ficou observando-os. Ela estava
decepcionada. Mas não tinha perdido as esperanças. Clara era
obcecada pelo menino. Faria qualquer coisa para ficar com ele.
Malu pensava em acabar com a amizade entre as duas. Talvez
não daria certo ser amiga de uma menina que amava seu namorado.
Erick estava decidido, não tinha dúvidas de que era da Malu que ele
gostava.
A tarde foi bem chuvosa. Erick e Malu conversaram por
chamada de vídeo.
- Coitada da Clara. Ela queria ficar com você muito antes de eu
chegar.
- Sim, mas se eu ficasse com ela, só ela seria feliz, eu não!
- Eu sinto um pouco de culpa.
- Então, é melhor esquecer isso. Não vai te fazer bem. Se ela
não quer entender como as coisas funcionam em um relacionamento,
eu sinto muito. Se ela quiser continuar sendo nossa amiga, tudo bem.
Se não quiser, também sinto muito.
Malu calou-se. Preferiu não dizer mais nada sobre isso. Erick
mudou de assunto.
- Quanto ao meu aniversário, que é amanhã, você vem?
- Mas é claro que sim, que pergunta! Até já comprei o seu
presente!
- Humm, agora fiquei curioso! Mostra aí na câmera!
- Não, quer estragar a surpresa?
- Ah! Nem vou dormir essa noite!
- Não seja exagerado! É só um presentinho!
- Tá bom, então vamos falar de outra coisa. Convidei a Clara
para o meu aniversário. Mandei uma mensagem, ela visualizou e não
disse nada. Será que ela vem?
- Mesmo magoada, ela vai aparecer sim. Você acha que ela vai
perder uma oportunidade de estar perto de você, ainda mais no seu
aniversário?
- Verdade. Ah, esqueci de te contar, amanhã começo o meu
curso de desenho. Consegui uma bolsa em uma das melhores escolas
de desenho. Queria fazer surpresa, por isso não contei nada antes!
- Sério? Ai, que legal! Estou muito orgulhosa, você merece!
- Obrigado, minha linda! E quando eu for procurar emprego
nessa área já estarei bem preparado.
Eles se despediram, pois já estava ficando tarde e a mãe de
Malu já havia aparecido na porta do quarto várias vezes mandando
desligar o notebook, antes que o pai dela visse e arrumasse uma
confusão por nada.

Capítulo 3

No dia seguinte, um novo aluno entrara na escola, na mesma


turma de Clara, Erick e Malu. Seu nome era Leandro e Erick já o
conhecia desde a infância.
Leandro era alto, magro, loiro e usava aparelho nos dentes.
Era o seu amigo que morava longe e agora havia se mudado
para um bairro mais próximo, por isso se matriculou na mesma escola.
Foi uma grande surpresa para Erick, pois eles não se falavam há
meses. O pai de Leandro era mecânico e conheceu o pai de Erick em
uma emergência na estrada. Erick e Leandro acabaram se tornando
amigos.
Eles conversaram muito durante a aula. Mataram a saudade e
trocaram os números de telefone. Erick chamou Leandro para ficar
com ele e Malu. Clara fez questão de desaparecer pela escola. Ela
tinha ido à aula naquele dia, mas preferiu ficar longe. Erick apresentou
Leandro à sua namorada.
- Essa é a Malu! Malu, esse é meu amigo de infância. Aquele
que eu comentei com você, meu único amigo.
Leandro cumprimentou Malu, pegando em sua mão:
- Oi Malu, meu nome é Leandro, mas você pode me chamar de
Lê. É assim para os mais chegados.
- Então, Lê, a Malu é minha namorada – disse Erick.
- Ah, beleza, foi mal o meu jeito de falar – respondeu Leandro,
sem graça.
Para disfarçar, ele continuou:
- Esse é seu nome mesmo ou apelido?
- É meu nome, todo mundo me pergunta isso – respondeu ela,
sorrindo.
Leandro trocou olhares com ela. A sorte foi que Erick estava
justamente olhando para o outro lado, procurando pela Clara. Leandro
havia ficado paralisado com o sorriso de Malu. Qual menino não
ficaria? O sorriso brilhante da menina ofuscava os olhos de todo
mundo. Malu olhou virou-se para Erick e perguntou:
- O que você está procurando?
- A Clara, eu queria perguntar se ela vai ao meu jantar hoje. Eu
convidei o Lê também e pensei que se ela aparecesse, poderia ficar
de papo com ele, e finalmente me esquecer.
- Ah, amor, bem pensado. Então, Lê, a Clara é nossa amiga,
ela é bem linda, viu! Mas ela tá com raiva da gente, porque
começamos a namorar sem falar nada pra ela. – Disse Malu rindo.
- Sei como é... mas ela tá com raiva só por que vocês não
contaram?
- É porque ela gosta de mim, cara.
- Ixi... que mancada! Mas se você escolheu a Malu, fazer o que,
né! – Disse Leandro, olhando para Malu.
Leandro pensou:
- Se o sorriso da Clara for igual ao da Malu eu fico com ela.
A tarde demorou passar. Erick foi para o curso de desenho.
Clara não havia aparecido ainda. Malu ficou vendo TV, até chegar a
hora de se arrumar para o jantar na casa do namorado.
Chegou a hora do jantar. Malu estava linda em seu vestido
novo. Malu não via a hora de abraçar o namorado. Ela atravessou a
rua e tocou o interfone. Erick atendeu. Assim que o portão abriu, Malu
entrou deslumbrante. Erick não acreditou no que via. Ele correu ao
encontro da namorada e disse:
- Malu, você está simplesmente incrível! Entre!
Malu agradeceu, abraçando-o e o parabenizou, entregando-lhe
o presente.
Os avós de Erick estavam na sala esperando os convidados.
Malu os cumprimentou e depois foi com Erick até o quarto, que subiu
as escadas já abrindo o presente, de tanta curiosidade.
- Espero que goste do que eu comprei – disse Malu. - Eu não
sei escolher presente, principalmente porque você é meu namorado e
teria que ser uma coisa bem especial.
- Não, Malu – riu Erick e continuou –, você não precisava se
preocupar em me dar nada. Você é o meu presente e só de você estar
aqui comigo já é o suficiente.
Erick abriu seu presente. Era um estojo com uma caneta e uma
lapiseira. E dentro do estojo havia também um cartão perfumado, onde
Malu dera um beijo de batom e escreveu em letras bem grandes: “Eu
te amo, Erick! Feliz aniversário! De sua sempre Malu.” Eles se
beijaram.
Minutos depois, o interfone tocou novamente. Era Clara, e Erick
desceu as escadas para recebê-la. Clara sorriu para ele e lhe deu um
abraço bem apertado.
- Oi Erick, meus parabéns! Trouxe este presente, não sei se vai
te agradar. Mas achei que combinaria com você.
Malu estava no quarto de Erick, olhando a escrivaninha, cheia
de desenhos feitos por ele. Ela desceu as escadas para ver quem
havia chegado.
Ao ver que Clara conversava com Erick bem pertinho dele, ela
simplesmente ignorou-os e sentou-se no sofá, junto com os avós dele.
Erick a chamou. Clara fez cara feia, mas Malu foi correndo ficar com o
namorado. Malu cumprimentou a amiga de longe, sem saber se ainda
eram amigas.
- Oi Clara. O Leandro deve estar quase chegando.
- E quem é Leandro?
- Ele é o meu amigo de infância. Aquele novato da nossa sala,
lembra? – Disse Erick.
- Sei, então vocês são amigos? Entendi... mas e daí que ele
está chegando?
Erick não quis explicar e pensou:
- Se for para eles terem algo, vai acontecer naturalmente; é
melhor eu não dizer nada sobre o Lê querer conhecê-la.
Os três subiram para p quarto e Erick abriu o presente de
Clara. Era uma camisa de manga comprida, toda listradinha.
- Achei que ficaria legal em você.
- Obrigado. É muito bonita, sim.
Malu ficou olhando pela janela, pensativa, enquanto Erick e
Clara olhavam os outros presentes que ele havia ganhado.
- Quem te deu tudo isso? – Perguntou Clara.
- Foram os meus avós, e meus pais enviaram estes aqui pelo
correio – respondeu Erick, mostrando uma caixa azul e outra amarela.
- E por que eles não vieram te ver?
- Eles estão sempre ocupados – respondeu ele, entristecido. –
Pelo menos eles telefonaram.
Os três ficaram sentados na varanda do quarto de Erick,
ouvindo música. Leandro só chegou meia hora depois, dizendo que
havia ficado perdido.
- Eu nunca vim aqui sozinho. Meu pai não pôde me trazer,
então eu peguei um ônibus e tive que quebrar a minha cabeça pra
conseguir chegar – disse ele, e riu.
- Beleza, cara! Ainda é cedo, não soprei as velas... –
respondeu Erick, rindo. - Ainda bem que você conseguiu chegar.
Clara olhou para Leandro. Erick os apresentou. Clara não
mostrou muito interesse pelo menino. Ele também não gostou tanto
dela, já que ela não sorriu e, para ele, sorriso era algo fundamental.
- Acho que o jantar já está servido. Quem aí está com fome? –
Disse Erick, chamando todos para a mesa.
Durante o jantar, Clara não parava de olhar para Erick, que só
tinha olhos para Malu. Leandro achara Clara bonita e atraente, mas
ela quase não sorria. Malu acabou sendo um pouco inconveniente,
tentando quebrar o silêncio:
- E então, Lê. O que você achou da Clara?
Clara olhou desconfiada para Malu, sem entender o que estava
acontecendo.
- Ela é linda – respondeu Leandro, imediatamente.
- Como assim “o que ele achou de mim”, Malu?
- É que... nós íamos apresentar vocês dois na escola, mas
como você sumiu, eu falei sobre você para o Leandro e ele ficou doido
pra te conhecer – disse Erick, tentando consertar tudo.
- Sei... pelo menos falaram bem de mim?
- Claro que sim, pode ficar tranquila.
- Ah, que bom, pelo menos isso!
Clara sorriu e Leandro finalmente pôde ver seu sorriso.
Erick notara Clara um pouco diferente, já que ela não
costumava sorrir, e pensou que, talvez agora ela pudesse gostar de
Leandro e finalmente esquecê-lo.
Depois do jantar, Erick foi até a cozinha ajudar sua avó a
organizar tudo para cantarem o “Parabéns”. Leandro foi ajudar seu
amigo, deixando Clara e Malu sozinhas na sala de jantar. Malu não
conseguiu ficar calada, para evitar problemas:
- Olha, Clara, eu sei que você deve estar me odiando, porque
mesmo sabendo que você gosta do Erick eu aceitei ser namorada dele
e...
- E quem disse que eu gosto dele?
- Só sendo cega para não perceber o seu jeito de olhar para
ele. Fora as vezes em que você fez questão de sair com a gente, só
pra ficar mais tempo perto dele.
- Para de me encher, garota! Isso não vai mais acontecer, nós
nem somos mais amigas!
- Eu sabia que a minha amizade nem era tão importante assim
pra você. Mas no seu lugar eu também ficaria chateada, me desculpe,
só que... o Erick me ama e você vai ter que aceitar!
- Cala a boca, Malu! Eu não te perguntei nada!
Clara já estava com os olhos cheios de lágrimas, pela
humilhação que Malu a fizera passar.
- Então aceita que o Erick e eu estamos juntos, e que ele nunca
vai ser seu!! – Gritou Malu, irritada.
- Para de falar, menina! – Também gritou, Clara.
Erick ouviu a confusão e correu até a mesa.
- Vocês estão brigando?
- Essa louca que começou a gritar. Gente sem classe é assim
mesmo! – Respondeu Clara, tentando engolir o choro.
Cada vez que ela olhava para Erick, seu coração ficava
apertado.
Leandro olhou para Malu, que também queria chorar. Naquele
momento ele só pensava em ir consolar Malu, mas não quis se meter
na confusão. Isso quem deveria fazer era o Erick, mas ele estava
enraivecido.
- Se for pra vocês brigarem, eu termino a festa agora!
Malu não sabia onde enfiava a cabeça, de tanta vergonha pela
confusão que causara. Ela apenas tentou se desculpar:
- Não, desculpe, meu amor. É tudo culpa minha! Eu não
deveria ter dito nada. Vamos esquecer, não quero estragar a sua
festa.
Erick continuava furioso, mas deixou pra lá e prosseguiu com a
festa. Todos comeram bolo em silêncio. O clima não estava bom. Malu
levou um pedaço do bolo para a avó de Erick, pois seu avô já havia ido
dormir.
Clara aumentou o som e começou a dançar. Malu e Erick
dançaram juntos, apesar da cara amarrada do menino. Leandro
dançou sozinho, num canto, pois não queria ficar com Clara. Ele
pensou:
- Eu não sei bem o que aconteceu, mas estou do lado da Malu.
Clara foi muito arrogante em dizer que ela não tem classe. Só por que
ela veio de um lugar mais humilde?
No final da festa, Malu se despediu, pois já era tarde e seu pai
a aguardava no portão de casa. Clara também foi embora com seu
motorista. Antes de sair, ela tentou conversar com Erick, mas ele
preferiu não falar mais nada sobre a briga, pelo menos naquela noite.
Leandro preferiu ficar mais um pouco, fazendo companhia ao
amigo. Afinal, fazia muito tempo que os dois não conversavam direito.
- Então, cara, que babado essas duas, hein! Você tá podendo!
- Que nada... isso é muito estressante. A Clara sabe que eu
não quero nada com ela, mas ela insiste.
- Ela quer te conquistar de qualquer jeito, vencer pelo cansaço.
Os dois passaram quase uma hora conversando, até que o pai
de Leandro ligou para saber se estava tudo bem. Leandro chamou um
carro pelo aplicativo e foi embora.
Erick já não sabia mais o que fazer com tanta insistência da
Clara. Ele sentou-se na varanda do quarto e colocou o fone de ouvido.
Em vez de dormir, passou a noite em claro, ouvindo música e olhando
para o céu.
No dia seguinte, bem cedo, Erick chamou Malu pela chamada
de vídeo, no celular.
- Você quer conversar agora? – Perguntou ele.
- É melhor não, temos aula agora. Você não vai para a escola?
- Vou, mas queria falar com você antes. Passei a noite
acordado, pensando na briga entre você e a Clara.
- Você ainda está chateado comigo?
- Não estou chateado com você, eu só queria entender o que
foi aquela briga entre vocês duas.
- Ah, amor, eu não consegui evitar. Tive que dizer o que estava
entalado. A Clara tem que cair na real.
Erick se despediu, desligando a chamada de voz.
Os pais de Malu estavam esperando por ela, na cozinha. Ela
desceu depressa, pois estava atrasada. Seu pai reclamou:
- Isso são horas de descer? Seu café deve ter esfriado!
- Eu estava conversando com o Erick.
- Pelo amor de Deus! Já não falou com ele ontem à noite? E o
que vocês tanto falam?
Malu não soube o que dizer, por isso pegou suas coisas e saiu.
Dona Carmem foi atrás da menina, no portão.
- Oi filha, eu to te achando um pouco triste. Aconteceu alguma
coisa na festa ontem? Eu nem te vi chegar. Simplesmente subiu as
escadas e trancou a porta do quarto...
- Foi a Clara. Eu me irritei com ela, nós discutimos e quase
estragamos a festa. Eu me sinto mal por isso.
- E por que discutiram?
- Eu só fui dizer que o Erick me ama e que ela vai ter que
aceitar... mas eu acabei fazendo ela chorar e o Erick está chateado
comigo.
- Entendi. Namoro é assim mesmo, filha, cheio de altos e
baixos. Mas uma hora a Clara amadurece e para com esse ciúme.
Na escola, Erick estava cabisbaixo. Malu ainda não tinha
chegado. Leandro foi falar com o amigo:
- Levanta essa cabeça, cara! Não foi esse Erick que eu conheci
há alguns anos.
- Eu sei, mas essas meninas me tiram do sério brigando por
minha causa. Já vi que esse namoro vai me dar dor de cabeça.
- E o que você está pensando em fazer? Vai terminar tudo com
a Malu?
- Não, de jeito nenhum! Eu amo a Malu, só não quero que fique
esse clima chato entre nós. Talvez a gente devesse dar um tempo, até
as coisas esfriarem...
- E você acha que algum dia a Clara vai parar de querer ficar
com você? Se você e a Malu derem um tempo, a Clara vai até
comemorar.
- Você tem razão. Ela vai achar que o caminho está aberto.
- Pois é... a Clara é sua amiga, mas pelo que eu percebi, ela
nunca quis só sua amizade, e ela não vai desistir de você tão fácil.
Erick contou sobre Clara para Leandro. Contou que ela era
muito sozinha, não tinha amigos e que Malu e ela precisavam fazer as
pazes. Eles pensaram juntos o que poderia ser feito, mas não
encontraram nenhuma solução.
Durante a aula, Erick nem olhou para Malu. E ela estava tão
triste, que pediu para sair da sala, pois precisava chorar um pouco e
tomar um ar.
No intervalo, Malu ficou na biblioteca tentando estudar, mas
não conseguia entender nada do que lia.
Clara aproveitou que Erick estava sozinho e foi falar com ele:
- Oi Erick, por que está sozinho? Cadê sua namoradinha?
Vocês não se amam tanto?
- Ela deve estar estudando. Mas eu não estou sozinho, o Lê
vem vindo, só foi na cantina buscar o lanche.
Clara sorriu e sentou-se ao lado de Erick.
- Vou te fazer companhia enquanto ele não vem.
- Olha, Clara, eu não queria estragar a amizade entre você e a
Malu. Por que não voltam a se falar?
- Estragar? Como assim? O que você tem com isso?
- Vocês brigaram por minha causa, ora!
- Tudo bem, mas eu não estou chateada com você. Você sabe
que a Malu não é como nós. Ela veio de um lugar pobre. Só ficou rica
por causa do tal parente falecido...
- A avó – corrigiu Erick.
- Tanto faz. Ela é uma sem classe, de qualquer forma. Como
vou ser amiga de alguém assim? Você não viu como ela me atacou
ontem na mesa. Só faltou me bater!
- Ei, não fala assim da Malu, por favor. Eu sei que vocês não
estão se dando bem nos últimos tempos, mas também não precisar
humilhar a menina só porque ela não nasceu em berço de ouro, como
você.
- Erick, me poupe! Ainda não entendi o que você viu nela.
- Tá, mas mesmo você sentindo toda essa raiva, seria bom que
fizessem as pazes. No fundo, a Malu tem um bom coração. Ela só está
enciumada, é normal.
Clara não queria essa amizade, mas para ficar perto de Erick,
ela faria qualquer coisa. Até aturar Malu.
- Tudo bem, Erick. Se for pra te deixar melhor, eu volto a falar
com a Malu. Esse namorico bobo não vai durar, mesmo!
- Eu conheço a Malu suficiente para saber que ela é o amor da
minha vida.
Clara virou-se para o outro lado e começou a comer seu
lanche. Ela não suportava mais ouvir o nome “Malu”.
Erick abriu um livro. Enquanto ele lia, Clara o observava,
disfarçadamente.
Leandro viu Erick e Clara juntos, e aproveitou para ir até a
biblioteca conversar com Malu.
- Oi Malu, como ficou entre você e a Clara?
- Sei não, não queria estar brigada com ela. Eu entendo o jeito
implicante dela, mas se ela não aceita que o Erick fique comigo, eu
não tenho o que fazer.
- É, uma hora ela cansa – respondeu Leandro, sorrido para
Malu.
Ela retribuiu o sorriso e continuou:
- O aniversário dela é daqui a duas semanas e eu pensei em
fazer uma festinha surpresa, pra ver se melhora o clima entre nós. O
que você acha?
- Se você quiser, eu te ajudo, acho uma boa ideia. Vamos falar
com o Erick também. Só espero que a Clara não estrague tudo...
Durante a semana seguinte, os três planejaram e organizaram
uma festinha na casa de Erick. Apesar de tudo, Malu ainda
considerava a amiga. Erick não queria que a festa acontecesse em
sua casa, mas era o único jeito de convencer a menina a participar.
O dia da festa chegou. Erick marcou com Clara de se
encontrarem em sua casa. Ele inventou que precisava da ajuda da
menina para estudar uma matéria na qual ele sabia que ela era ótima
e, é claro, ela concordou. Rapidinho ela se arrumou e foi se encontrar
com ele.
Assim que pisou na casa de Erick, Leandro e Malu
apareceram:
- Surpresa!
Clara levou um susto e nem soube o que dizer. É claro que ela
não esperava uma festa, já que, durante as duas últimas semanas, os
três mal falaram com ela. Erick perguntou:
- E então? Gostou da surpresa? Foi ideia da Malu. Apesar de
tudo o que aconteceu, ainda queremos a sua amizade.
Clara sorriu. Ela realmente havia gostado, mas ainda não
dissera nada.
- Fala alguma coisa, menina! – Disse Leandro.
E finalmente, ela disse:
- Eu... eu não sei o que dizer. Pensei que vocês tinham
esquecido o meu aniversário. Mas eu agradeço que tenham pensado
em fazer tudo isso só pra mim. – Respondeu ela e, olhando para Erick,
continuou - Então aquela história de estudar era mentira!
Malu a abraçou, dizendo:
- Eu espero que fique tudo bem entre nós. Nunca foi minha
intenção te magoar.
Clara não respondeu.
A festinha foi bem agradável, mas Clara ainda não havia
desistido de Erick; ela também pensou que, estar entre os amigos,
algum dia ainda poderia despertar o interesse de Erick por ela.
À noitinha todos se despediram, menos Malu, que aproveitou
que era sexta-feira para ficar mais tempo com o namorado até mais
tarde. Os avós de Erick também aproveitaram para conversar.
Contaram vários casos do menino para Malu e deram boas risadas.
Mais tarde, Erick deixou Malu no portão de casa.
- Que bom que deu tudo certo. Pelo menos a Clara voltou a
falar com a gente normalmente.
- Sim, meu amor. O seu plano deu certo! – Respondeu ele,
abraçando a menina. – Eu te amo para sempre!
Eles atravessaram a rua e, antes que Malu abrisse o portão,
eles se beijaram; parecia um beijo mais especial que os outros. Assim
que Malu entrou em casa, Erick assoviou e Malu olhou para ele. Ele
fez um coração com as mãos e Malu retribuiu com outro coração. O
menino não queria ir embora, mas acabou indo, pois, o pai de Malu
apareceu na janela reclamando, e a menina entrou em casa.

Capítulo 4

Este último ano passara muito rápido. O namoro de Malu e


Erick ia muito bem. A amizade entre Erick e Leandro tinha ficado mais
forte, e sempre que ele precisava de ajuda em alguma coisa, era
Leandro que estava lá para estender suas mãos.
Clara continuava arrogante, mas seus três amigos aprenderam
a conviver com isso. Ela fazia questão de ficar ao lado de Erick nos
passeios e encontros da turma, e prestava atenção em tudo o que ele
e Malu faziam. É claro que ela morria de ciúmes dos dois, que viviam
abraçados, trocando carícias e beijos apaixonados, mas tentava
parecer tranquila.
E nos finais de semana os quatro sempre inventavam um
programa para fazer. Eles desconheciam a palavra “tédio”. Ir ao
shopping fazer compras, ver um filme no cinema, nadar ora na piscina
de Erick ora na de Malu, ir às exposições de arte, já que Erick amava
desenhos e pinturas, sair para correr ou andar de bicicleta nos
parques do bairro.
Certo dia, os quatro faziam um piquenique em um parque,
quando surgiu o assunto “profissão”. Leandro comentou:
- Que vontade que eu tenho de trabalhar logo! Ainda bem que
já vamos fazer dezesseis anos e ano que vem terminamos os estudos
na escola. E, começando a “facul”, vamos estudar apenas o que
gostamos, e não o que somos obrigados, como acontece na escola –
e riu.
- É verdade, eu decidi fazer jornalismo, acho que combina
comigo – disse Malu – E vocês, já sabem o que querem?
Clara ficou pensativa e respondeu:
- Não sei ainda, não tenho pressa para escolher isso. É melhor
demorar mais para pensar e escolher a coisa certa, do que começar
logo de cara uma profissão que você não tem certeza.
- Eu já sei o que quero desde os dez anos, quando meu pai
criticou a minha escolha – disse Erick.
- E você não esqueceu isso ainda?
- Não, só vou esquecer quando eu provar para o meu pai que é
isso que me faz feliz. Ele ainda vai sentir orgulho de mim.
- Eu não acho que você precisa provar nada. E é claro que seu
pai sente orgulho de você. Você é um ótimo filho e ele te ama, apesar
de implicar com você – disse Clara.
Leandro sorriu e concordou. Clara continuou:
- Então, você é uma das poucas pessoas que já nasceram
sabendo o que quer da vida. É uma das qualidades que admiro em
você.
Malu interrompeu:
- É por isso que, quando você coloca uma ideia na cabeça,
ninguém tira. Ninguém consegue fazer você esquecer, porque você
sabe que pode e que vai conseguir.
Clara interrompeu:
- Muito eu! Eu não desisto fácil das coisas.
Leandro riu com a indireta de Clara para Erick. Erick e Malu
fingiram que não ouviram aquilo.
Leandro Era apaixonado pelo sorriso de Malu e sempre que ela
abria a boca para falar, ele a admirava. Não conseguia desviar seu
olhar da menina, quando a via sorrindo.
- E você, Lê? Não pensou em nada ainda? Quer tanto
trabalhar... – perguntou Erick.
- Ah, pensei sim. Eu quero ter um escritório ou um estúdio de
Marketing Digital, cheio de computadores e instrumentos tecnológicos.
Essa era tecnológica me encanta. Não é possível que vocês ainda não
perceberam isso!
- Eu percebi! Você não larga seu tablet... – respondeu Malu.
Todos riram.
- Pois é, meu sonho é participar daquelas conferências
internacionais sobre tecnologia, viajar para lugares bem mais
avançados que o nosso, tecnologicamente falando.
E assim, o papo deles sobre profissão durou o dia inteiro.
Os quatro fariam aniversário em datas muito próximas; então
eles combinaram de ir ao cinema, no próximo fim de semana. Malu
disse que na lanchonete ao lado do cinema tinha uma torta deliciosa
de chocolate, com calda de morango, e que ela encomendaria uma
daquela para comemorarem. Todos gostaram de ideia, menos Clara
que, como sempre, teve que reclamar de alguma coisa:
- Nós vamos comemorar numa lanchonete? Ai, que coisa mais
pobre!
- E o que você sugere? – Perguntou Malu.
- Sei lá, preferia uma festa, mas numa lanchonete com várias
pessoas estranhas olhando... é meios constrangedor, não acham?
Podíamos, pelo menos, levar a torta pra outro lugar.
Erick sugeriu que levasse a torta para o lote ao lado de sua
casa e montassem um piquenique embaixo da árvore. Assim ninguém
veria a “festinha” e eles estariam em um lugar familiar.
Sábado chegou. Erick e Malu chegaram no cinema juntos, com
um carro chamado pelo aplicativo. Clara foi com seu motorista e
Leandro, com seu pai. Enquanto estava no carro, Malu comentou:
- Não vejo a hora de ter meu próprio carro. Assim a gente não
precisa ficar pagando. E é mais liberdade para nós dois também.
- Eu vou pegar carona com você todos os dias – riu Erick – Eu
não vejo a hora de fazer dezoito anos e poder ir na balada com você.
Meus pais não estão nem aí pra mim, vou poder fazer o que eu quiser!
- Não, espera aí, amor! Também não exagera. A sua mãe se
preocupa com você. E seu pai, por mais que não demonstre, também
se preocupa.
- Tá, mas eles nunca vêm me ver. Telefonar não é a mesma
coisa.
- Talvez o Armazém dê um pouco de trabalho e eles acabam
não tendo tempo, e quando têm tempo estão cansados para fazer uma
viagem. Sua mãe precisa tirar férias – riu Malu.
- É verdade. Mas eu também acho que meu pai é muito
mandão, não é só o Armazém. Ele podia muito bem cuidar de lá
sozinho por alguns dias. Eu nunca trataria minha esposa como ele
trata a minha mãe.
Leandro foi o primeiro a chegar ao cinema. Foi logo comprando
os ingressos e a sua pipoca e entrando na fila. Clara chegou logo
depois e também comprou pipoca e mais algumas balinhas.
Malu e Erick correram para a fila. Leandro os chamou:
- Oi gente! Já to aqui na frente guardando lugar pra vocês! Já
comprei nossos ingressos. Se quiserem pipoca tem que comprar, essa
aqui só dá pra mim – e riu.
Eles assistiram ao filme e, depois, como combinaram, foram
para a lanchonete buscar a tal torta. Malu foi até o balcão pegar, e
depois eles dividiram o valor.
Leandro, como sempre, não parou de olhar para ela e,
disfarçadamente, admirou-a, pensando:
- Malu do meu coração, por que o Erick chegou primeiro para te
conquistar, hein? Mesmo sabendo que você nunca será minha,
continuo pensando em você.
Assim que saíram da lanchonete, o motorista de Clara
esperava por eles do lado de fora, e os levou até a casa de Erick. Eles
foram para o lote ao lado, como haviam combinado.
Embaixo da árvore, Malu forrou uma toalha no chão e
colocaram a torta com quatro velas. Cantaram “Parabéns” e os quatro
sopraram juntos as velas. Erick e Malu se abraçaram. Leandro olhava
para Malu e, quando percebeu que Clara o observava, ele desviou o
olhar e foi pegar os guardanapos para servir a torta.
Enquanto comia, Erick comentou:
- Que torta mais que perfeita! É, sem dúvida, a mais gostosa
que eu já comi!
- Mais gostosa que aquelas delícias que a sua avó faz?
- Bem, talvez. Sei lá, tem algo a mais que eu não consegui
identificar. Minha avó sabe fazer doces gostosos, mas esta torta...
humm!
Clara intrometeu:
- São amêndoas com um leve toque de licor de cacau.
- Como sabe?
- Lá em casa tem um licor desses e eu tomo um gole de vez
em quando. E as amêndoas, bem... quem não come amêndoas nas
panquecas, no café da manhã?
- Eu – os três responderam.
Malu riu e acrescentou:
- Eu nem como panquecas no café da manhã, muito menos
com amêndoas!
- Ah, gente, por favor, né! Não tem nada melhor do que acordar
e sentir o cheirinho do caramelo sobre as panquecas..., minha
empregada sabe fazer o melhor café da manhã do mundo.
- Tá bom, Clara, nós já entendemos. Agora vamos aproveitar a
nossa torta de aniversário, que está boa demais! – interrompeu Erick.
Já estava anoitecendo. O motorista de Clara precisava levá-la
pra casa. Ela ofereceu carona para Leandro. Ele estranhou, porque o
caminho era outro. Mas aceitou mesmo assim, já que não ia precisar
pagar outro carro ou um ônibus.
Durante o caminho, Leandro agradeceu:
- Valeu, só não entendi porque quis me dar carona se eu moro
do outro lado.
- Não importa, meu motorista é pago pra fazer o que eu mando.
A propósito, não te dei carona só por bondade. Preciso falar com você.
- Eu devia saber. Mas o que você quer?
- Eu percebi que você tá gostando da Malu.
Leandro tapou a boca de Clara.
- Xiu! Ninguém precisa ficar sabendo.
- Ah, Leandro! Como se o meu motorista fosse contar alguma
coisa que ele escuta aqui no carro...
Leandro estava assustado. Não sabia o que dizer. E nem era
isso que ele queria ter dito. Ele queria fazer Clara pensar que ela
estava enganada, mas acabou dizendo sem querer que ninguém
precisava saber.
- Então, não precisa esconder isso de mim. Eu sei que você
gosta dela, assim como eu gosto do Erick. E muito antes da Malu
chegar.
- Não entendi aonde você quer chegar com isso.
- É simples. Vamos separar os dois. Eles não combinam.
- Não, Clara. Tá maluca?
- Pensa comigo. Se você jogar um charme pra Malu ela vai
acabar gostando de você. Foi assim que aconteceu com o Erick. Ele
simplesmente foi até a casa dela levar uns bolinhos e ela se apaixonou
por ele. Fácil, não?
- Não é tão simples assim. Eles já são amigos há muito tempo,
e só depois começaram a namorar.
- E daí! Ele já era meu amigo bem antes.
- Mas não foi você que ele pediu em namoro.
- Não importa! O Erick vai ser meu! Vai me ajudar ou não?
Leandro não concordou. O carro parou e ele desceu.
- Aonde você vai?
- Eu pego um ônibus daqui. Não vou concordar com esse
absurdo que você tá dizendo! E não vou atrapalhar o namoro do meu
melhor amigo. Ele é feliz com a Malu, você querendo ou não! –
Respondeu Leandro e correu para o ponto de ônibus mais próximo
dali.
Na porta da casa de Malu, antes de Erick se despedir, ele a
puxou pelo braço.
- O que houve, amor?
- Estamos completando também um ano de namoro e eu queria
ficar um pouco sozinho com você. Tenho um desenho para te dar.
Erick pegou no bolso um desenho e entregou à namorada. Era
um coração, e dentro dele estava escrito: “Você foi a melhor coisa que
aconteceu na minha vida!”
- Que lindo! Eu amei!
- Eu amo você, minha linda! Sempre vou amar, não importa o
que aconteça. E não precisa ter medo de me perder.
Eles se abraçaram e encostaram no portão, sem querer,
fazendo barulho. O pai de Malu ouviu o barulho do portão e olhou na
janela. Ele viu os dois abraçados.
Assim que a menina entrou em casa, ele perguntou:
- Então você e o Erick estão juntos e você não me disse nada?
- Então... olha pai, eu não te contei antes porque eu sabia que
você não ia aprovar, mesmo conhecendo o Erick muito bem.
- Você é muito nova para namorar. Eu não aprovo mesmo.
- Mas pai, eu já tenho dezesseis anos, não sou tão nova assim.
E eu e o Erick já nos conhecemos há quatro anos, somos amigos e,
acima de tudo... nos amamos.
- Que absurdo! E sua mãe, sabe disso?
- Sim, mas fui eu quem pedi segredo. Desculpa, pai, por ter
escondido isso de você. Olha, o Erick acabou de me dar esse desenho
– respondeu Malu, mostrando o desenho ao pai, que nem olhou
direito.
A mãe de Malu apareceu:
- Oi filha, como foi o passeio com seus amigos?
O pai interrompeu:
- Pode parar de mentir, eu já descobri tudo. E que amigos?
Eles são namorados!
- Sim, querido, mas a Malu saiu com os amigos para
comemorarem o aniversário.
- Que aniversário? Nem é hoje!
Dona Carmem estranhou seu marido tão alterado e perguntou
à filha o que tinha acontecido.
- Ele viu o Erick e eu juntos... e já sabe de tudo.
Malu foi para o quarto. Ela ouviu seus pais discutindo no quarto
ao lado, mas não dava para entender nada, pois a porta estava
fechada.
Na manhã seguinte, na hora do café, dona Carmem apareceu
com os olhos inchados, de quem havia chorado a noite toda. Malu,
espantada, foi logo querendo saber sobre a discussão da noite
passada.
- Eu e seu pai vamos nos separar. Ele quer se mudar para o
Canadá, e disse que cansou de viver aqui com a gente. Parece que
ele tem outros planos – disse dona Carmem.
Malu a abraçou, dizendo:
- Ô mãe, não fica assim. Se ele prefere ir e deixar a família dele
aqui, então deixa. Já que ele acha que vai ser mais feliz longe de nós,
não podemos fazer nada. Mas cadê ele?
- Saiu antes do amanhecer para resolver uns assuntos. Foi o
que ele disse. Ah, desculpa, filha... eu tentei convencê-lo a ficar, mas
não adiantou nada.
- É culpa minha, mãe. Ele ficou com raiva por eu ter escondido
meu namoro. Ele deve estar se sentindo excluído da família..., mas
você sabe como o papai é, nunca ia aceitar. Ele disse que sou muito
nova pra namorar...
- A culpa não é sua. Ninguém tem culpa de nada. Seu pai já
devia estar planejando algo há mais. Ele ficava pelos cantos,
pensativo.
Malu concordou que seu pai tinha um jeito estranho. Nunca se
metia nos assuntos de família; trabalhava muito e quando estava em
casa só lia jornal e assistia tevê. Talvez ele estivesse mesmo cansado
daquela vida.
Malu foi para a escola. Como estava um pouco atrasada, Erick
correu para falar com ela, antes que a aula começasse, e lhe entregou
um aparelhinho de MP3 com apenas uma música.
- É pra você ouvir enquanto pensa em mim. Essa música é a
nossa cara!
Malu sorriu, mas ela não estava feliz de verdade.
- Obrigada, meu amor. Você pode me ver hoje à tarde, na
árvore?
- Claro que sim, mas aconteceu alguma coisa? Não é nada
com a gente, é?
- Não, de jeito nenhum. É com os meus pais. Só preciso
desabafar um pouco.
Malu passou a aula inteira e o intervalo ouvindo a música “Be
With You”, de Mondays.
Erick passou o intervalo com Leandro e Clara.
Leandro estranhou que Malu não estivesse ali com eles.
- O que houve com a Malu? Vocês brigaram? – Perguntou ele
ao amigo.
Clara já estava torcendo para que eles tivessem brigado, para
ir consolar Erick. Mas se isso tivesse acontecido, ele não estaria
normal, pelo contrário, estaria chorando, ou pelo menos muito triste.
- Acho que está tudo bem entre nós. Parece que houve algum
problema com os pais dela, mas ela ainda não me contou – respondeu
Erick.
À tarde, como haviam combinado, Erick e Malu se encontraram
na árvore. Malu levou o MP3 com a música dos dois.
- Meus pais vão se separar.
- Mas por quê? Eles pareciam tão bem!
- Só aparência mesmo. Meu pai sempre foi fechado, na dele.
Deve ter planejado tudo sozinho. Acho que há muito tempo ele não é
feliz.
- O que ele planejou?
- Ir para o Canadá. Minha mãe me garantiu que ele quer sumir
daqui, que está cansado de viver conosco.
Erick abraçou a namorada e eles ouviram juntos a música que
estava no MP3.
- Essa vai ser a nossa música. Você gostou?
- Ela é perfeita, simplesmente linda! – Sorriu Malu.
- Que tal se a gente for naquela lanchonete amanhã, depois da
aula. To com uma vontade de comer aquela torta...
- Vamos sim! Já vi que agora é a sua sobremesa favorita!
Clara passava com o motorista próximo dali e viu os dois
juntos, embaixo da árvore. Ela pediu que o motorista a deixasse ali e
fossem embora e, assim que ela quisesse ir embora o chamava de
volta. Ele fez o que a menina pediu.
Assim que desceu do carro, Clara se escondeu, pois não
queria que Erick e Malu os visse. Ela escutou quando Erick elogiou a
torta, e pensou:
- Ótimo, agora já sei como agradá-lo!
Erick colocou o MP3 numa caixinha de som portátil e eles
dançaram, abraçados, ouvindo a música “Be With You”. Clara foi se
afastando lentamente, sem ninguém a vir, até desaparecer. Depois
ligou para o motorista.
De dentro do carro, Clara enviou uma mensagem para
Leandro, perguntando se ele tinha pensado na proposta de ajudá-la a
separar Erick e Malu. Ele apenas respondeu: “Não conte comigo!”.
Clara enviou outra mensagem: “Bom, eu posso contar pra eles que
você gosta da Malu...”. Leandro respondeu: “Vou pensar”.
À noite, Malu tentou falar com seu pai, mas ele não quis
conversar. Ela só queria entender direito o motivo da sua ida para o
exterior. A mãe de Malu estava na cozinha, quando seu pai pegou
suas coisas e foi dormir no quarto de hóspedes.
- Amanhã cedo começo a arrumar as minhas malas – disse ele.
Quem sabe um dia eu volto, mas eu espero que não!
Malu correu para a cozinha e contou à mãe o que seu pai
dissera. Elas se abraçaram. Malu voltou para o quarto e foi dormir. Já
era tarde e na manhã seguinte ela teria uma prova na escola.
No dia seguinte, depois da aula, Erick e Malu foram à
lanchonete ao lado do cinema. Eles fizeram um lanche e comeram a
torta de chocolate de sobremesa. Malu estava um pouco chateada por
causa da decisão de seu pai. Erick a consolou:
- Vem cá, minha linda. Eu não quero te ver assim, fica aqui
juntinho de mim que sua tristeza passa logo.
O tempo passou rápido, enquanto eles comiam a torta,
abraçados. Erick olhou para o relógio e viu que estava quase na hora
de sua aula de desenho. Ele pagou a conta da lanchonete, e disse à
Malu:
- Vamos, meu amor. Vou te deixar em casa e de lá pego meu
material e vou para o curso.
Quando Malu chegou em casa, seu pai arrumava as malas. Ela
bateu na porta do quarto.
- Pai, posso falar com você?
- O que você quer, Malu? Não posso me atrasar para o vôo.
Tenho que terminar de arrumar as minhas coisas.
Malu entrou no quarto e abraçou o pai:
- Desculpa se te magoei, pai. Por mais que você esteja
decidido a partir e tenha seus motivos, você será sempre bem-vindo
aqui em casa.
- Tá tudo bem, filha. Mas eu não vou voltar. Eu estou me
separando de sua mãe. Mas você pode me visitar quando quiser no
Canadá. Toma, aqui está o endereço - disse ele, entregando um
papelzinho para Malu.
- Não quer me contar por que está indo embora?
- Eu consegui um emprego, mas de lá vou enviando dinheiro
pra ajudar vocês. Pode ficar tranquila.
- Mas precisa separar da mamãe?
- A gente não se ama mais, Malu. Ela não te contou isso antes
porque não queria te entristecer. Mas ela já sabia que eu planejava
sair de casa.
- Eu só espero que seja feliz por lá, pai.
Malu deu-lhe um beijo e voltou para o quarto, chorando. Sua
mãe não estava em casa; provavelmente soube que seu marido ia
embora naquela tarde e não quis se despedir. Ela ainda o amava, mas
ele não.
À noite, Malu e Erick conversaram por chamada de vídeo.
- Meu pai foi embora hoje.
- Sinto muito...
- Ele foi transferido para o Canadá, onde fica a sede da
empresa em que trabalha. E ele e a minha mãe também não estavam
se dando muito bem.
- É chato, isso. Mas vai ser melhor, assim. Agora, mudando de
assunto, você tinha dito que queria tirar carteira de habilitação logo.
Pensa em comprar um carro novo ou usado?
- Tanto faz, quero um carro que funcione – e riu -. Vou usar o
dinheiro que minha avó deixou de herança, e o restante pago a minha
faculdade.
- Que bom! Eu também pretendo tirar carteira assim, mas antes
vou tentar arrumar um bom emprego, de preferência numa editora de
quadrinhos.
Eles riram. Malu se despediu, pois já era tarde. Antes de
desligar, Erick lembrou:
- Ah, Malu, espera! Eu fiz um desenho hoje na aula. Amanhã
eu te mostro.
- Ah, mostra agora, vai!
- Não, eu desenhei você e queria te mostrar pessoalmente, e
aproveitar para roubar um beijo seu. Assim pela tela não tem graça e
você não vai der os detalhes.
No dia seguinte, depois da aula, Clara foi à lanchonete e
comprou uma torta de chocolate para Erick. Leandro tinha ido à
lanchonete almoçar e observou Clara, enquanto comia. Na saída, ele
pegou Clara pelo braço. Ela levou um susto e gritou:
- Ai, me solta! Ficou maluco, Leandro?
- Desculpa se te machuquei, eu só quero saber o que você vai
fazer com essa torta.
- Não é da sua conta! Não posso levar pra casa, não?
- Tem certeza de que vai levar para a sua casa? Este caminho
é da casa do Erick. Você pensa que eu sou burro?
- Ô garoto, dá pra parar de me seguir, eu vou aonde eu quiser,
sai da minha frente! Deixa de ser “mala”. O que tem de mais eu levar
uma torta pra ele? Vai que ele se apaixona por mim, do mesmo jeito
que ele conquistou a Malu – respondeu Clara, empurrando Leandro.
- Eu não vou deixar você atrapalhar os dois.
- Tudo bem. Deixa o Erick saber que você é caidinho pela
Malu!
- É chantagem agora?
- Se você não quer me ajudar, também não atrapalha.
- Pelo menos eu não fico dando em cima da Malu, nem
tentando roubá-la do meu melhor amigo. Eu tenho uma imensa
consideração por ele, nunca o magoaria.
- Tá, tá, dá licença, e não se mete onde não é chamado.
Leandro, irritado, respondeu:
- Eu sabia que você não era nossa amiga de verdade. Você só
está com a gente porque quer o Erick.
- E se for?
Clara deu-lhe as costas e disse baixinho, mas não tão baixo a
ponto de Leandro conseguir ouvir:
- Não vou descansar enquanto não conquistar o Erick. Ele
ainda vai ser meu, custe o que custar.
Leandro foi embora decepcionado. Ele não queria que Malu
sofresse e, se Clara realmente queria o Erick, Malu sofreria muito por
perder o namorado para a sua melhor amiga; pelo menos Malu achava
que Clara era sua melhor amiga.
Clara levou a torta para Erick. Ele atendeu a porta, recebeu o
presente, mas não convidou a menina para entrar.
- Não posso entrar? – Perguntou ela.
- Desculpe, Clara, mas eu tenho um encontro com a Malu daqui
a pouco. Mas obrigado pela torta!
- Eu sei que é sua sobremesa favorita, por isso eu trouxe.
- Tudo bem, eu já disse “obrigado”. Agora eu preciso ir, Clara,
me desculpe.
Clara foi embora chateada, pensando:
- Mas que imbecil. Eu levo a torta favorita pra ele e o que ele
faz? Simplesmente me ignora e vai se encontrar com a Malu...
À tardinha, Erick levou seu desenho para Malu, que o esperava
embaixo da árvore. Malu o beijou e disse:
- Que lindo! Seus desenhos estão cada vez melhores!
Malu percebeu que Erick estava com o pensamento meio
distante e perguntou o que havia acontecido.
- A Clara esteve lá em casa agora há pouco – respondeu ele.
- E o que ela foi fazer lá?
- Levou a minha torta favorita de chocolate.
Malu estranhou:
- Mas assim, do nada? Não tem nenhuma comemoração, que
eu saiba...
- Eu disse que tinha um encontro, mas ela foi embora com
raiva.
Malu não gostou nada daquilo e, mais uma vez ficou
preocupada em perder o Erick. Será que Clara nunca ia deixar para os
dois namorarem em paz? Ela não ia desistir dele, pois era apaixonada
por ele há bastante tempo e não cansava de ser ignorada pelo
menino.

Capítulo 5

No dia seguinte, depois da aula, Erick e Malu iam se encontrar


na árvore, como de costume, quando ouviram um barulho muito alto.
Eles correram para ver o que estava acontecendo.
Viram um trator e vários homens. Um deles carregava uma
serra elétrica. Erick gritou:
- Ei, o que vocês estão fazendo? Parem com isso! – E abriu os
braços em frente ao trator.
- Sai daí garoto! Estamos cortando a árvore, não está vendo?
- Por isso mesmo eu estou aqui, tentando impedir que façam
uma besteira dessas.
- Mas por que estão fazendo isso? Desliga essa porcaria! Eu
proíbo vocês de fazerem isso! – Gritou Malu.
Ela ficou encostada na árvore, com os braços abertos. Um dos
homens ordenou que ela saísse. Erick gritou, apavorado:
- Cuidado, Malu! Sai daí!
- Eu não vou sair daqui. Ninguém vai cortar a nossa árvore!
O homem que estava com a serra foi falar com ela:
- Olha aqui, mocinha, dá licença, por favor. Nós temos outros
compromissos, não podemos ficar o dia todo aqui esperando você
sair.
- Essa árvore é nossa! – Malu começou a chorar e continuou –
Por que estão fazendo isso?
- Essa árvore está no meio do lote. Vão construir um prédio e
ela está atrapalhando. Agora dá licença, menina. Já disse que não to
com tempo para gracinhas. Se não cortarmos hoje, voltaremos
amanhã e cortaremos de qualquer jeito!
Erick puxou Malu e a abraçou fortemente. Ela não conseguia
parar de chorar. Eles não podiam fazer nada, pois o lote havia sido
vendido a uma construtora e realmente fariam um prédio. Por azar, a
árvore estava bem no meio do lote e não era possível construir ali, a
não ser que construíssem ao redor dela, sem precisar cortá-la; mas
ninguém havia pensado nisso na hora de elaborar o projeto.
Mais tarde, os dois voltaram no lote. A árvore não estava mais
lá. Malu, arrasada comentou:
- Eu me sinto tão mal de não poder fazer nada. Uma parte de
mim se foi. É o dia mais triste da minha vida...
- É amor, você não sabe como isso dói em mim. Era minha
árvore favorita. Pelo menos eu fiz o desenho dela e tiramos algumas
fotos embaixo dela também. Serão as nossas únicas lembranças.
Eles se despediram. Em casa, Erick, de tristeza, acabou
comendo metade de sua torta de chocolate.
O dia seguinte amanheceu chuvoso. Mas mesmo assim Erick
foi ver Malu. Ele ainda estava muito chateado. Era sábado e a mãe de
Malu havia preparado uma lasanha de berinjela e convidado Erick para
almoçar.
- Não sei se ficou gostosa, mas eu tentei pelo menos – disse
ela.
- Está uma delícia! Quase igual a que minha avó faz. Obrigado
por me convidar.
- Pode vir sempre que quiser.
Ele havia levado a outra metade da torta de chocolate para
comerem de sobremesa.
A mãe de Malu comentou:
- Essa casa ficou tão vazia depois que o pai da Malu foi
embora. Ele faz falta, mas não vou ficar chorando pelos cantos; foi ele
quem quis assim.
- Mas eu virei mais vezes, pelo menos a casa não fica tão
vazia.
Um silêncio tomou conta da casa. Dona Carmem lembrou-se
da árvore.
- Eu soube que cortaram a árvore que era de vocês.
- Sim, foi de partir o coração.
E novamente veio o silêncio. Depois da sobremesa, Dona
Carmem foi assistir tevê, enquanto Erick e Malu conversavam no
quarto.
- A Clara tá meio distante, você não acha? Até na escola ela
mal fala com a gente...
- É verdade, ela não é mais a mesma. Já o Lê fala comigo
todos os dias na escola e por mensagens... – Erick riu.
Erick aproveitou o clima e colocou a música “Be With You” para
tocar. Malu sorriu, dizendo:
- Você, como sempre, me surpreendendo!
Eles se beijaram e ficaram agarradinhos ouvindo a música.
Mais tarde, Dona Anna ligou para Erick, pedindo que fosse
embora. Estar ao lado de Malu era tão bom que ele nem via as horas
passarem, até mesmo porque não desejava que aquele momento
terminasse.
Eles se despediram. A mãe de Malu foi ao quarto da menina e
brincou:
- Cada vez mais apaixonada, hein, filha!
- Mãe, você ficou ouvindo atrás da porta?
- Não, mas eu escutei a música lá do corredor – riu a mãe.
Dias depois, os quatro amigos fizeram um acampamento no
jardim da casa de Erick. Clara só ficava jogando charme pra cima dele,
na frente de Malu. Leandro tentava distrair Malu, para que não se
irritasse com as provocações de Clara.
Na semana seguinte, na escola, Erick, Malu e Leandro
ignoraram Clara. Ela se irritou e foi falar com eles:
- Por que vocês me excluíram? Eu sou do grupo de vocês.
- Tem que fazer por merecer – respondeu Malu, e continuou –
Não é tentando roubar o meu namorado que você vai conseguir a
nossa amizade. Isso só me faz ter raiva de você.
Leandro não quis falar nada, com medo de que Clara acabasse
contando a Erick sobre seu sentimento por Malu.
- Pois é, Clara! – Disse Erick – Nós tentamos te dar uma
chance, mas você não entendeu até hoje que eu amo a Malu e nada
vai me afastar dela. Então fica difícil aceitar você no nosso grupo,
sabendo que o seu interesse é ficar comigo.
- Como você pode dizer uma coisa dessas? Eu sou amiga de
vocês e me esforço para ser o mais legal possível.
Clara se sentiu humilhada na frente de todos, e saiu de perto
deles, resmungando:
- Um dia o Erick vai ser meu, e a Malu vai ter o que merece por
me fazer passar por isso na escola.
E, mais uma vez, o aniversário dos amigos se aproximava.
Primeiro foi o de Malu. Ela não quis dar uma festa, apenas preparou
um almoço e chamou Erick e Leandro. Erick levara um bolo de
brigadeiro, feito por sua avó.
Depois foi o aniversário de Erick. Ele não quis comemorar em
casa. Levou Malu e Leandro em um restaurante, onde tiraram várias
fotos e riram bastante com as histórias antigas que eles contaram de
seus avós. Foi uma noite bem divertida.
No aniversário de Leandro, Erick e Malu conheceram a sua
casa e brincaram com os cinco cachorros do amigo. Os pais de
Leandro fizeram uma festinha simples e convidaram toda a família do
menino. Teve música e muita comida.
Clara, desta vez, não ganhou festinha surpresa. Ninguém ligou
para lhe dar os “parabéns”. No dia seguinte, na escola, Malu foi falar
com ela:
- Oi Clara, como está?
- Como acha que estou? Fui excluída do grupo e agora não
tenho amigos.
- Olha, sinceramente, não parecia que éramos amigos. Você
mal falava com a gente, e quando estávamos em grupo você só dava
atenção para o Erick.
- Nada a ver. Eu gosto de estar perto de vocês três. Não só
dele.
- Não era o que parecia. Eu te considero muito, apesar de você
ser chatinha de vez em quando, mas somos amigas.
- Vocês pensaram errado de mim esse tempo todo. Eu já tinha
esquecido que um dia gostei do Erick. Juro que não tenho mais
intenção nenhuma de ficar com ele. Já entendi que ele nunca vai
gostar de mim.
Malu acreditou; pelo menos ela achou que Clara estava sendo
sincera. E lembrou-se:
- Então, ontem foi seu aniversário, meus parabéns atrasados! –
E abraçou a amiga.
- Obrigada. Você vai me aceitar de novo no grupo?
- Por mim tudo bem, mas eu preciso falar com os meninos
primeiro.
Clara concordou. Era melhor para ela ficar mais quieta e perto
de Erick do que se afastar de vez; ela não suportaria.
À tarde, Malu ligou para Erick e Leandro e disse que precisava
conversar com eles. Leandro marcou com eles numa pracinha, perto
de sua casa. Malu achou aquele lugar incrível.
- Amor, que lugar lindo! É um pouco longe de casa, mas pra
namorar vale a pena vir aqui, o que acha?
- Sim, sim! É perfeito pra gente dar uns beijos de vez em
quando – ele riu.
- Foi justamente o que eu pensei, um lugar para vocês
namorarem, já que não tem mais árvore... – disse Leandro.
- Tem razão, Lê. Nem me lembre da árvore..., mas aqui parece
ser bem tranquilo, ninguém vai nos incomodar.
Leandro lembrou:
- E então, Malu, o que você tem pra nos dizer?
- Eu conversei com a Clara na escola, ela disse que não quer
roubar você de mim e quer fazer parte do grupo de novo. E me
pareceu bem convincente.
Erick olhou para Leandro, como quem não acreditava nessa
lorota.
- Mas você achou mesmo que ela foi sincera?
- Acreditei. E vocês sabem que ela não pode contar com mais
ninguém além de nós. E pensem bem, se ela tiver más intenções é
melhor estar perto de nós, porque longe não podemos controlá-la. Não
tem aquele ditado que diz que devemos manter nossos amigos perto e
os inimigos mais perto ainda?
- Verdade. Ela também não chega a ser uma inimiga. Mas vai
ser a última chance! – Concordou Leandro.
Os três decidiram que Clara voltaria para o grupo, desde que
não tivesse comportamentos estranhos, como acontecera da última
vez, que ela mal ficava perto deles e só se aproximava de Erick.
No dia seguinte, na escola, houve uma exposição e eles não
tiveram aula. Erick, Malu e Leandro aproveitaram para falar com Clara,
no pátio:
- Então, Clara, hoje vamos ao cinema depois da escola. Quer ir
com a gente? Nós decidimos que você pode entrar de novo para o
grupo, mas vai ter que participar de todos os nossos programas. É
assim, ou nada feito.
- Tudo bem, como quiserem.
Erick estava mais feliz do que nunca, pois havia sido chamado
para uma entrevista de estágio, numa editora de quadrinhos. Era o
que ele mais queria, desde que descobrira seu talento para desenhar,
aos dez anos de idade.
Ele correu até a casa de Malu para lhe dar a notícia. Malu o
abraçou e se ofereceu para ajudá-lo. Eles passaram aquela tarde
preparando tudo, desde o Portfolio, até as roupas que Erick usaria
durante a entrevista. O dia seguinte seria promissor.

Na escola, Leandro abraçou o amigo e desejou sorte na


entrevista. Malu estava na cantina e não viu que Clara abraçara seu
namorado, ao mesmo tempo que tentava lhe roubar um beijo. Erick
virou o rosto.
- Boa sorte, lindinho! Vai dar tudo certo na entrevista. Eu sei
que você tem potencial. – Disse Clara.
Erick sorriu, sem graça.
Leandro ficou, de longe, olhando Malu, que voltava da cantina
com os cabelos lisos, ao vento. Ele estava cada vez mais apaixonado
por ela, mas ficou na dele, só observando. Malu percebeu que
Leandro a observava e sorriu. Ele sorriu de volta. Depois ela foi até
Erick e disse:
- Isso é pra você estar de bom humor na entrevista. Dizem que
chocolate acalma – e lhe entregou um bombom.
Depois da aula, os quatro foram almoçar na lanchonete. Mas
Erick não conseguiu comer direito, estava tenso. Ao voltarem para
casa, Malu e Erick pararam na pracinha. Ela fez uma massagem em
seus ombros para relaxar.
Pouco antes de sair para a entrevista, Erick tomou um banho,
comeu o bombom que Malu lhe dera na escola, escovou os dentes,
pegou uma pasta com seu Portfolio e saiu.
Malu ficou da janela vendo o namorado sair de casa com o
carro chamado pelo aplicativo.
Malu estava tão ansiosa, que as horas pareciam não passar
naquela tarde. Ela mal podia esperar pelo resultado da entrevista.
Ligou a tevê, mudou de canal várias vezes, mexeu no celular, tentou
ler um livro para esquecer a ansiedade, mas nada prendia sua
atenção. Ela foi para o jardim ouvir música.
Quando Malu conseguiu se distrair com a música, o interfone
tocou. Ela atendeu.
- Amor, vem cá, meu amor! – Chamou Erick, eufórico.
Malu foi correndo para o portão abraçar o namorado.
- E aí, amor, como foi?
- Fui contratado! – Respondeu ele, pulando de alegria –
Amanhã já posso começar, minha linda!
Malu deu um grito de emoção e encheu Erick de beijos,
dizendo:
- Eu sabia que você ia conseguir! Meus parabéns, amor da
minha vida!
Erick trabalharia como estagiário duas vezes por semana. Nos
outros dias, continuaria o curso de desenho. Agora ele teria menos
tempo para ficar com Malu. Mas esse era seu sonho e nada iria
impedi-lo de realizar. Malu estava muito feliz pelo namorado. Talvez
um dia a editora o contratasse definitivamente, quando tivesse mais
experiência; e essa era sua intenção, ficar ali subindo de cargo.
- Graças à sua ajuda eu me dei super bem. Todo mundo
gostou dos meus desenhos e das minhas respostas – disse Erick,
sorrindo.
Os dois ficaram sentados no meio-fio, abraçados por um bom
tempo, até que dona Carmem os chamou para um lanchinho.
Erick contou-lhe sobre a entrevista e ficou na casa de Malu até
o anoitecer.
Meses depois, a mãe de Malu recebeu um telefonema do
marido. Ela contou à filha sobre a conversa que tiveram:
- Seu pai disse que está muito bem no Canadá e está
convidando para passar uns dias com ele.
- Convidando quem? Nós duas?
- Sim. Você não quer ir ver seu pai?
- Eu fico feliz que ele está bem por lá, mas eu não sei se quero
ir. Tenho estudado muito pra conseguir entrar em uma boa
Universidade, e também tem o Erick. Não quero deixá-lo sozinho.
- Mas são só uns dias, filha. Não custa nada.
- Custa sim! Imagine eu ficar uns dias sem o Erick.
- Ah, você não vai morrer por causa disso. A menos que você
esteja preocupada com outra coisa, a Clara.
- Claro que não, mãe. Eu confio no Erick.
- Está bem, filha. Você confia nele, mas não nela. E se quiser
ir, vai depois, nas férias. Seu pai vai entender.
- Vocês estão se falando normalmente?
- Bem, acho que sim. Seu pai disse que sente a nossa falta e
que ainda não se acostumou a viver sozinho. Ficamos casados por
quase 20 anos!
- Bastante tempo mesmo. Quero ficar muito mais tempo com o
Erick, até ficarmos velhinhos.
Malu e Erick se encontraram na pracinha. Ele arrumou uma
bicicleta para chegar mais rápido e ela ia a pé mesmo, o que
demorava mais de vinte minutos. Erick levara outro desenho que havia
feito do rosto de Malu, e mostrou a ela, todo empolgado.
- Olha, esse é o mais perfeito de todos! E vou guardar comigo
lá em casa. Quem sabe eu não levo para o trabalho, pra me servir de
inspiração?
Malu sorriu. Ele continuou:
- Então, eu reservei uma mesa no melhor restaurante da
cidade. Hoje à noite quero te levar lá e brindar o sucesso do meu
estágio e o nosso amor também.
Malu achou aquilo muito romântico e encheu o namorado de
beijos, dizendo:
- Você caiu do céu! Você não existe!
Aquela noite foi muito especial. Erick e Malu estavam muito
felizes. Eles pediram um prato leve e, de sobremesa, comeram um
pudim de amêndoas com calda de laranja. Estava tudo uma delícia;
mas já era hora de voltar pra casa.
Ao chegar em casa, Erick viu Clara sentada na sala, esperando
por ele.
- Oi Erick! Estava passando aqui perto e resolvi passar aqui
para te ver, mas como você não estava, sua avó me deixou entrar e
esperar.
- Pois é, mas a Malu quase te viu. Você sabia que ela ia entrar
aqui? Estávamos tendo uma noite especial, mas ela acabou indo
embora, porque estava tarde.
- Ui! Noite especial... especial como?
- Estávamos comemorando meu estágio e o meu namoro com
ela também.
- Entendi. Pode terminar de comemorar comigo, uai. Somos
amigos, ou não?
- Mas não é a mesma coisa. Estávamos em um encontro
romântico.
- Tá, essa parte deixa pra lá. Posso comemorar com você o
seu estágio também.
- Melhor não, Clara. Está realmente muito tarde. Eu preciso
dormir, estou bem cansado.
Clara se afastou, respondendo:
- Tudo bem... vou respeitar sua vontade. É melhor eu voltar pra
casa.
- Melhor assim.
Clara beijou Erick no rosto e se despediu:
- Tchau, lindinho, boa noite.
Malu ainda não havia dormido. Passara quase meia hora
escutando música. Sua mãe foi até seu quarto lembrá-la da hora de
dormir. Elas conversaram sobre a noite especial que tiveram. E, assim
que Malu pegou no sono sonhou com Erick.
Malu estava tão apaixonada que mal prestava atenção nas
aulas e nas pessoas ao seu redor. Sorte da Clara, porque se Malu
descobrisse sobre a noite anterior não teria perdão, era a sua última
chance. Afinal, mesmo não parecendo, Clara sempre estivera com
segundas intenções. Sempre que pudesse estar sozinha com Erick,
ela o faria.
No intervalo, Leandro sentou-se ao lado de Erick para
conversar. Erick parecia um pouco distante.
- Então, cara, to te achando sério demais. O que aconteceu?
- É a Clara. Eu saí com a Malu ontem à noite, e quando voltei
adivinha só. A Clara estava me esperando na minha casa, minha avó
deixou ela entrar...
- Ih, caramba! E a Malu? Rolou barraco?
- Ela não sabe de nada. Nem pode imaginar! A Clara quase me
beijou. Ah, cara, isso me irritou tanto, você nem imagina. Acho que ela
já está abusando da amizade.
Leandro desviou o olhar e disse:
- Se você não amasse tanto a Malu, eu diria para você ficar
com a Clara. Acho que vocês até combinam, sem querer ser chato.
- De jeito nenhum. Eu e a Malu fomos feitos um para o outro.
Mas que conversa é essa de que eu combino com a Clara?
- Nada, ué. É só o que eu acho. A Clara é gata e... ela é louca
por você.
- Nem vem! Fica você com ela, então. Já que acha ela bonita.
- Mas eu acabei de dizer que ela gosta de você.
Malu viu os dois conversando no cantinho e foi falar com eles.
Leandro viu a tempo e disfarçou, piscando para o amigo:
- Então, cara, a gente combina direitinho...
Malu interrompeu:
- O que vocês estão planejando, hein?
- Ah, amor, é que... o Lê estava pensando em passar lá em
casa pra ver meus desenhos, né, cara?
- É, pois é, eu vou num fim de semana, beleza? – Respondeu
Leandro e saiu andando.
Malu achou estranho e comentou:
- Vocês dois estão estranhos, era sobre isso mesmo que vocês
estavam falando? Desde quando o Leandro precisa marcar pra ir na
sua casa ver seus desenhos?
- É que... agora que comecei a trabalhar, os horários ficam
meio apertados.
- Entendi.
Para mudar de assunto, Erick convidou Malu para irem à praça
durante a tarde.
- Precisamos aproveitar meu dia de folga. Só nós dois... quero
ficar agarradinho com você, te dar uns beijinhos...
Malu sorriu, sem graça:
- Ah, tudo bem... pode ser. E depois passamos lá em casa para
experimentar a torta de maçã com coco que minha mãe fez. Ela
acabou de me mandar uma mensagem.
Clara observava os dois de longe, com ciúmes. Ela não
conseguia se conformar com esse namoro e queria conquistar o Erick
de qualquer jeito. Nunca havia ficado com nenhum outro garoto,
esperando que Erick a visse com outros olhos. Ela não se cansava de
inventar planos para estar sempre perto dele, sem que Malu
percebesse.
À tarde, Malu e Erick se encontraram na praça. Clara estava
atrás dos arbustos e ninguém a viu. Ela ficou ali, a tarde toda
admirando a beleza de Erick e ouvindo a conversa. Ela só não olhava
enquanto eles se beijavam. No caminho para a casa de Malu, Clara
correu para alcança-los e, fingindo se encontrar com eles por acaso,
disse:
- Oi gente, que coincidência vocês por aqui! Estão indo pra
onde?
- Clara? Estávamos na praça e agora vamos para a minha
casa.
- Posso ir? Não tenho nada para fazer agora. Por favor, Malu!
Clara tanto insistiu que Malu deixou que ela fosse com os dois
para sua casa.
Dona Carmem contou que viajaria para o Canadá no próximo
fim de semana, para ver seu marido. Clara intrometeu:
- Ai, que máximo! Eu amo o Canadá, já fui pra lá três vezes!
Erick e Malu sorriram. Dona Carmem continuou:
- Mas eu volto em alguns dias.
- Ué, você e o papai estão se dando bem de novo? Você o
chamou de marido!
- Ah, filha! Eu esqueço que estamos separados. Oficialmente
ainda somos casados...
- Tá bom, mãe – riu Malu.
- Juízo, viu? Vocês dois!
- Eu tenho juízo de sobra – respondeu Malu e olhou para Clara,
que abaixou a cabeça.
Mais tarde o motorista de Clara tocou o interfone e pediu que a
menina descesse:
- Clara, seu avô telefonou, mandou você voltar pra casa antes
do anoitecer. Desça logo!
Clara se despediu.
No fim de semana, Dona Carmem viajou para o Canadá. Malu
e Erick foram se despedir no aeroporto. Malu aproveitou o resto
daquela tarde para estudar para a prova que teria na segunda-feira.
Erick ficara em casa, desenhando e, mais tarde, acabou estudando um
pouco também.
O interfone tocou e Erick atendeu:
- Mas você de novo, Clara? Você já está me irritando!
- Posso entrar?
Erick abriu o portão. Clara entrou e lhe deu um abraço. Ele se
irritou:
- Olha, Clara, eu estava estudando! Você deveria fazer o
mesmo, sabia?
- Eu não, já sei a matéria toda de cor. Mas eu vim até aqui
porque precisamos conversar sério.
- Lá vem você... o que é mais sério pra você do que tirar boas
notas e passar de ano?
- Você. Eu não sei o que você viu na Malu, sério. Vocês não
combinam.
- Eu sinto pena de você, fica se humilhando pra tentar me
conquistar. Para com isso! Já deu!
Clara abaixou a cabeça, pensativa. E lembrou-se do que
Leandro dissera sobre seu sentimento por Malu. Clara continuou:
- Imagine se fosse você que amasse alguém há muito tempo e,
de repente chega outra pessoa que você nem imagina e rouba seu
grande amor, aquele que você queria ter bem antes dessa pessoa
chegar. Coloque-se no meu lugar! O que você faria se alguém
tentasse roubar a sua Maluzinha?
- Bem, eu não sei. Mas como assim? Tem alguém tentando
roubar a Malu de mim?
Clara sorriu ironicamente e respondeu:
- Não, Erick, imagina, foi só uma suposição. Só estou tentando
te mostrar que ver vocês dois juntos me deixa arrasada. Mas vai que
tem alguém de olho nela, né... nunca se sabe. Ela não sorri pra todo
mundo?
- Você sabe de alguma coisa? Pode falar!
- Não, já disse que não sei de nada. E olha só, eu te amo
desde os meus onze anos, aí fizemos doze e a Malu apareceu na sua
vida pra estragar tudo! Você sabe como isso dói? Não, você não sabe,
porque se soubesse teria me escolhido!
Erick segurou Clara pelos braços e pediu:
- Para de fazer drama, daqui a pouco minha avó vem ver o que
está acontecendo.
- Erick, então me escuta, eu te amo há muito mais tempo que
ela, não vai nem me dar uma chance?
- Já chega, Clara, sai da minha casa, por favor!
- Não me trata assim! Eu tenho sentimentos... e você faz
questão de pisar neles!
Clara saiu correndo, chorando; entrou no carro e se foi.
Na semana seguinte, Erick e Clara mal se olharam na escola.
Malu achou aquilo estranho e perguntou o que havia acontecido, mas
Erick inventou que estava muito focado nos estudos e no estágio e
não podia ficar de papo com ninguém. Malu entendeu e o abraçou.
Depois foi fazer companhia à Clara, que fingiu estar bem. Leandro
estava lanchando e ficou observando as meninas, de longe.
Malu disse à Clara:
- Está tudo bem?
- Está sim, por quê?
- Nada, não. Eu pensei em te chamar pra passar a tarde lá em
casa, já que a minha mãe tá viajando e o Erick vai para o estágio.
Clara pensou e aceitou o convite, pois queria estar mais perto
de Malu para tentar descobrir mais alguma coisa interessante sobre o
Erick, além de suas comidas e música favoritas.
- O Erick hoje está meio na dele, não quer conversar –
continuou Malu.
- É, eu percebi. Coitadinho, deve ter mil coisas na cabeça; não
deve estar sendo fácil o estágio, a escola e o curso de desenho, e
ainda cuidar dos avós dele. Ainda bem que meus empregados cuidam
do meu avô.
O sinal tocou e todos foram para a sala. Malu nem pôde
responder Clara, que saiu correndo para a sala de aula.
Depois da escola, Erick passou na casa de Malu só para lhe
dar um beijo, antes de ir para o estágio. Ela ficou muito feliz com a
surpresa e o abraçou, dizendo que o amava.
- Eu te amo muito mais, Malu! Tenho que ir agora – respondeu
ele.
Mais tarde, Clara visitou Malu. Elas passaram a tarde no
quarto, conversando.
- Vou te mostrar os desenhos que o Erick me deu.
Malu ligou o som, para não ficar um silêncio chato e mostrou os
desenhos à Clara. Clara mal prestou atenção, já que aqueles
desenhos não eram interessantes para ela.
- Malu, você já percebeu que o Lê não tira os olhos de você?
- O Lê? Como assim? Não, você deve ter visto errado.
- Tá querendo dizer que eu não enxergo bem?
- Não, Clara, talvez o Leandro tenha olhado para outro lado e
você achou que ele estava olhando pra mim...
- Ah, mas eu não vi só uma vez. Ele sempre te olha diferente,
parece que gosta de você. Já faz tempo que eu reparei nisso.
- Pode parar Clara, não inventa!
- E você, não sente nada por ele?
Malu não era boba e percebeu que Clara queria que ela ficasse
com Leandro só para ela ficar com Erick, e respondeu, séria:
- Eu e o Leandro somos apenas amigos! Só isso e nada mais!
Clara continuou provocando:
- Mas você não respondeu a minha pergunta.
- Não, eu não sinto nada por ele.
- E você acha que vai ficar com o Erick até quando? Você acha
que vai se casar com ele? E se ele deixar de te amar, hein? Não
sabemos o futuro.
- É claro que nós não sabemos o futuro, mas se não tiver nada
e nem ninguém para nos atrapalhar podemos nos casar, sim! Temos
muitas coisas em comum e temos tudo para dar certo.
Clara fez uma cara de quem não havia gostado da resposta,
mas para evitar confusões de novo com o grupo, resolveu ficar quieta.
Malu ficou pensativa. Será que era verdade que Leandro
estava gostando dela?
Mais tarde, Clara se despediu de Malu e, em vez de ir embora,
passou na casa de Erick. Ela levava um livro na bolsa e disse ao avô
do menino que havia levado para ele estudar.
- Entendi, entre. O Erick não deve demorar. Com licença –
disse seu Correia, o avô de Erick, e continuou -, eu preciso ir para o
quarto, a minha esposa não está muito bem. Boa noite!
- Tudo bem, boa noite e melhoras para ela – respondeu Clara.
Erick chegou em casa tarde. Clara estava cochilando no sofá.
Ele levou um susto quando a viu e entrou sem fazer barulho, para não
acordá-la. Depois foi até o quarto dos avós, que sempre o esperavam
voltar do estágio, mas naquela noite não estavam na sala.
Dona Anna não se sentia muito bem. Estaca deitada na cama
desde o fim da tarde, e não quis comer nada.
- E então, vô, é melhor levarmos a vovó para o hospital.
E assim o fizeram. Clara acordou, enquanto a ambulância
buscava a avó de Erick.
- O que está acontecendo? Erick, você já chegou?
- Clara, é melhor você ir embora. Minha avó está passando mal
e eu tenho que acompanhá-la até o hospital. Depois conversamos.
Clara pegou suas coisas e saiu.
Erick e seu avô passaram a noite no hospital. Dona Anna tinha
piorado, a pressão havia subido e ela sentia dores no peito. Teria que
ficar internada. Erick ligou para seu pai, pedindo que ele ficasse no
hospital durante aqueles dias, já que ele tinha estágio, escola e curso
e não poderia ficar com a avó. O avô dele dormiria ali aquela noite,
mas no dia seguinte teria que voltar para casa, para descansar.
Na escola, Erick contou aos amigos e à namorada o ocorrido.
Ele estava muito abalado, mas tinha esperanças de que a avó saísse
logo do hospital.
- Ela sempre foi tão forte, nunca teve nada... nenhuma doença.
- Sempre tem a primeira vez – disse Clara.
- Deixa de ser insensível, Clara! – Reclamou Leandro.
À tarde, Ricardo chegou do interior e foi direto para o hospital,
ver sua mãe.
Erick estava muito triste pela avó, mas precisou tocar sua vida
para frente. Foi ao curso de desenho, mesmo sem vontade e, na volta,
passou na igreja onde sua avó costumava assistir às missas, e
colocou o nome dela nas intenções de uma missa.
À noite, Erick voltou à igreja. Ele chorava, recostado sobre o
ombro de Malu:
- Minha avó tem que melhorar... ela não merece sofrer assim.
- É claro que não merece, meu amor. Mas ela é forte, tenho
certeza que vai melhorar logo e voltar pra casa.
Mas infelizmente não foi o que aconteceu. A avó de Erick havia
falecido na manhã seguinte. Ele fora chamado na escola, durante a
aula de Educação Física.
Durante o velório, Erick não conseguia parar de chorar. Malu
estava do seu lado, abraçando-o, quando Leandro e Clara chegaram.
Leandro viu que seu amigo estava mal e buscou um copo d’água. Sua
avó realmente faria muita falta.
Dona Lúcia permanecia abraçada com seu marido, e nem
percebera que Erick e Malu estavam tão próximos. À noite, eles
voltaram para o interior.
Pelo resto da noite, Erick chorou muito, e ainda consolava seu
avô. Malu tentava acalmá-lo.
- Vocês vão ficar bem. Sua avó agora descansa em um lugar
melhor, pode ter certeza.
- Não consigo entender. Logo a minha vozinha...
E aquela foi mais uma noite mal dormida. Erick providenciou
um colchão para que Malu pudesse dormir em seu quarto, fazendo-lhe
companhia. E, mesmo assim, ele dormiu tão mal que nem conseguiu ir
à aula no dia seguinte; estava de luto. Malu, bem cedo, passou em
casa para tomar um banho, e foi para a escola.
Malu passou na lanchonete depois da aula e comprou uma
torta de chocolate, para tentar animar Erick. Mas ele não conseguiu
comer direito. Leandro e Clara também foram à casa dele, mas nada
fazia o menino parar de chorar.
Mais tarde, Ricardo telefonara dizendo que levaria seu Correia
para morar no interior. Erick ficou furioso:
- E você acha que aí no interior ele vai ter uma vida digna? E
se ele precisar de um atendimento urgente? Eu não aceito que leve
meu avô daqui! Ah, então pergunta se ele quer ir!
O avô de Erick atendeu ao telefone e, depois de quase uma
hora de conversa, decidiu que se mudaria para o interior.
Erick não gostou nada da ideia.
Malu falou com ele:
- Ah, meu amor, se seu avô decidiu isso, então deixa ele.
- Eu não acho que ele queira ir, só está indo para agradar meu
pai, que acha que manda em todo mundo. Meu pai só me dá motivos
para eu detestá-lo!
- É para o bem do seu avô. Pensa bem, você quase não tem
parado em casa, com tantos afazeres. E agora, sem a sua avó, ele vai
ficar muito tempo sozinho.
- Posso arrumar uma pessoa pra lhe fazer companhia.
- Mas não seria a mesma coisa... não é a família dele.
- E o que eu vou fazer, morando aqui sozinho, nessa casa
imensa?
Leandro sugeriu:
- Você pode vender esta casa e comprar uma menor, ou um
apartamento perto do seu trabalho. Assim, você pode até ir de
bicicleta.
- E acho que mudanças são necessárias, meu filho – disse seu
Correia, que escutava a conversa de Erick e seus amigos -, não fique
assim. Eu vou, mas sempre que quiser me visitar, eu estarei lá.
Malu não gostou muito da ideia, afinal Erick ficaria bem longe
dela. Já era difícil ver o Erick morando perto, imagina morando mais
longe, trabalhando e estudando?
- Mas amor, e eu? Como vamos nos encontrar sempre?
- Calma, uma casa desse tamanho e preço não vende de um
dia para o outro. Vai demorar muito e...
- Eu sei, demora, mas vende. E do mesmo jeito vamos morar
longe um do outro. Seja amanhã, daqui a um mês, um ano, mas isso
vai acontecer.
De qualquer forma, Malu deveria pensar no melhor para seu
namorado. Eles ficariam mais distantes, mas para Erick seria bem
mais cômodo.

Capítulo 6

Clara e Leandro gostaram da ideia de Erick e Malu morarem


longe um do outro. Seria uma chance a mais de Clara se aproximar de
Erick, e Leandro de Malu. O destino acabaria fazendo o resto para
eles ficarem juntos.
Sábado chegou e tinha sido bem agitado. Seu Correia se
despediu de Erick:
- O vovô vai estar de lá torcendo para que tudo continue dando
certo pra você. E não fica desanimado por causa da sua vida corrida e
da distância entre você e a Malu. Um dia tudo se ajeita. É só ter
paciência.
Erick já havia procurado um corretor para vender o casarão
onde morava.
No domingo, Malu e Erick almoçaram juntos. Ela ainda não se
conformava com a venda da casa.
- Amor, por que você não desiste de vender sua casa e só
aluga? Vai que um dia você resolver voltar...
- Essa casa me traz muitas. Mas eu acho que tudo precisa
mudar. Respirar novos ares, ir para um lugar novo, isso faz bem de
vez em quando. Se eu voltar pra cá um dia, vou me sentir como se
estivesse voltando ao passado.
- Você não vai sentir a minha falta?
Erick abraçou Malu e disse que sentiria muito, mas a distância
não seria problema, já que eles se amavam de verdade. Eles dariam
um jeito de se encontrarem nos fins de semana e, enquanto
estivessem estudando, iam se ver na escola.
No dia seguinte, dona Carmem voltara de viagem. As duas
tinham muitas novidades para contar uma à outra. E passaram a tarde
toda colocando as fofocas em dia. Malu contou sobre a morte de dona
Anna e a mudança de Erick, que seria em breve. Dona Carmem
contou que estava se dando bem com seu marido, e que ele sentia
muita falta dela.
Naquele dia, Erick voltara do estágio mais cedo e aproveitou
para ficar em casa, estudando um pouco. Clara estava numa rua perto
da casa dele, e o avistou indo para casa. Ela deu um tempo, para não
parecer que o seguia, e tocou o interfone:
- Oi Erick, que bom que está em casa. Achei que estivesse
trabalhando...
- Estou sim, saí mais cedo, por quê? O que você quer?
- Posso entrar?
Erick abriu o portão e a recebeu na porta da sala. Clara
continuou:
- Ainda bem que a Malu não está aqui, porque tudo é motivo
para ela brigar comigo...
- Ela não sabe que voltei mais cedo. Soube que a mãe dela
chegaria de viagem hoje, então não quis atrapalhar as duas de
conversarem.
- Entendi. Eu só queria mesmo saber como você está.
- Estou péssimo, não poderia estar pior! – Respondeu ele,
cabisbaixo.
Clara colocou a mão em seu ombro, e disse:
- Mas você sabe que pode contar comigo, não me chama
porque não quer. Eu estou livre todas as tardes.
- Sei disso, mas eu tenho a Malu. Obrigado por se preocupar
comigo, mas eu preciso ficar sozinho. Você sabe que a Malu é muito
ciumenta, se te pega aqui...
- Ah, Erick, eu não vou mais tentar atrapalhar seu namoro com
a Malu. Ela deveria parar de pensar isso.
- Será que podemos acreditar mesmo nisso?
Clara desviou o olhar, pensativa. Depois sorriu para Erick e
respondeu:
- Eu pensei bem e vi que tudo o que eu fiz para te conquistar foi
em vão e que... você nunca vai me amar como ama a Malu.
Clara estava sentindo muita raiva em ter que dizer aquilo, mas
no fundo ela sabia que ia conseguir, assim que o Erick se mudasse
daquela casa. Ela jamais desistiria do amor da sua vida
Erick continuou achando aquela conversa toda muito esquisita.
Ele sabia que não podia confiar em Clara e a conhecia o suficiente
para saber que ela não desistia fácil das coisas que queria. Mas se
fosse verdade, seria ótimo para ele e Malu.
- Ainda bem que você pensou melhor sobre isso. Isso era o
mínimo que você deveria fazer, em respeito à amizade entre você a
Malu... Sempre fomos amigos, você que confundiu as coisas.
- Eu não confundi nada! Já disse que te amava muito antes da
Malu aparecer na sua vida. Mas se você preferiu ficar com ela, o que
mais eu posso fazer? Só fique sabendo que meu amor por você não
acabou, eu só vou tentar fingir que está tudo bem e tentar te esquecer,
para não causar mais confusão.
Leandro também não via a hora de Erick se mudar dali para ele
poder visitar Malu. Apesar da amizade entre ele e Erick e ele, ele
estava apaixonado por Malu, mas não demonstrava em consideração
ao amigo.
O resto do ano passou muito rápido. Houve uma festinha de
formatura do Ensino Médio. Um mês depois Malu conseguira entrar
em uma grande universidade, para cursar Jornalismo.
Erick completara dezoito anos. Fizeram uma reunião para
comemorar. Na empresa onde ele estagiava, seu chefe lhe contratou
como profissional. Agora Erick trabalharia como ilustrador de uma
grande revista da editora e ficaria responsável por toda a parte da
criação dos personagens. Isso significou mais trabalho, maior salário,
mais responsabilidade e menos tempo para namorar. Ele estava
realizando um grande sonho.
Havia uma família interessada em comprar a casa de Erick,
mas o preço que pedira estava um pouco acima do que a família
poderia pagar; como Erick precisava se mudar logo, pois a distância
até seu emprego estava dificultando as coisas, ele decidiu vender a
casa por um preço menor. Com o dinheiro, pôde comprar um
apartamento próximo à editora e guardou o restante do dinheiro para
qualquer emergência que precisasse. Seus pais haviam concordado
em deixar o dinheiro guardado, já que não precisariam dele no interior.
Malu não gostou muito da mudança; sabia que uma hora ou
outra ia acontecer e, se Erick estava feliz, era o que importava. Ela se
dedicava às aulas de direção, enquanto as aulas da Faculdade ainda
não haviam começado e, por isso não ficava pensando muito na
mudança de casa do namorado. Estava disposta a comprar um carro
para visitar o namorado sempre que pudesse.
Erick não pensava em aprender a dirigir. Estava satisfeito com
sua bicicleta e, como trabalhava muito próximo ao seu novo
apartamento, era o suficiente.
O aniversário de Malu já havia passado, mas Erick quis fazer
uma pequena comemoração, já que estariam completando também
três anos de namoro. Clara e Leandro chegaram em seu novo
apartamento para ajudarem o amigo a preparar a festinha.
Mais tarde, Malu havia chegado. Ela nem podia imaginar que
os três tinham preparado uma festa surpresa e isso a deixou muito
feliz. Leandro a abraçou, desejando-lhe felicidades pelo aniversário
atrasado e pelo namoro com Erick.
Era a primeira vez que os quatro bebiam cerveja. Erick adorou.
Malu preferiu tomar o vinho que Leandro levara. Ele, ao contrário de
todos, não gostou muito de nenhuma bebida e preferiu beber somente
o refrigerante. Clara acompanhou Erick na cerveja e, mais tarde
abriram um champanhe. Estavam todos muito animados aquela noite.
Depois de tanta bebida, cantaram “Parabéns” e comeram torta
de chocolate. Erick e Malu passaram o resto da noite abraçados,
trocando beijos e carícias.
Clara deitou-se no sofá e acabou dormindo com a música que
tocava durante a festa. Leandro chamou um táxi e a levou para casa.
Malu não queria ir embora, e não queria que aquela noite
acabasse, porque quando voltasse para casa estaria longe de Erick.
Não era mais como antigamente, que bastava atravessar a rua e
acenar do portão. Isso era muito triste.
- Eu não queria ir embora, meu amor, mas minha mãe precisa
de mim em casa, e eu não gosto de deixá-la sozinha, nem
preocupada.
- Mas ela sabe que você está comigo. Nada de ruim vai
acontecer. Liga pra ela e diz que você vai dormir aqui hoje.
Malu não quis dormir lá. Ela tinha medo de que eles
acabassem tendo mais intimidade e dormissem juntos. Ela não queria
que sua primeira vez fosse com o Erick bêbado; isso não tornaria a
noite especial como imaginava. Por isso, disse que realmente
precisava ir.
Eles se despediram e Malu entrou no carro que havia
chamado. Ela o abraçou:
- Te amo e obrigada pela festa. E por favor, se cuida! Não
gosto de te deixar sozinho, mas eu preciso ir.
Erick, como de costume, fez um coração com as mãos. Assim
que Malu se foi começou a chover, e Erick acabou ficando ali, na
chuva, encharcado, pensando em nela. Só depois, quando a chuva
parou que Erick entrou no prédio e pensou:
- Malu... que falta você me faz! Queria me casar com você...
Erick tinha bebido um pouco além da conta. Um outro morador
do prédio apareceu na escada e pediu silêncio, pois já era bem tarde.
No dia seguinte, Erick dormiu até tarde. Ainda bem que era
sábado e ele não trabalhava. Ele desejara que Malu tivesse dormido
em seu apartamento e, quando acordasse receberia o café-da-manhã
na cama, com muitos beijos apaixonados. Mas isso não acontecera.
Quando acordou, seu apartamento estava uma bagunça por
causa da festa e ele não tinha nada para comer. Erick precisou sair
para fazer compras. Ele ainda não conhecia muito bem o bairro e nem
sabia onde ficava o supermercado mais próximo.
Coincidentemente, Clara fazia caminhada toda manhã em uma
avenida próximo dali. Ela o viu de longe.
- Gente, não é o Erick? Todo descabelado e ainda parece
perdido.
Ela foi até ele.
- Erick? O que faz por aqui?
- Eu que te pergunto.
- Eu estava fazendo caminhada. Você sabia que naquela
avenida nova, ali embaixo, tem pista de Cooper e ciclismo? Então, eu
ia lá agora. E você, o que faz a essa hora na rua?
- Estou procurando um supermercado. Não tem nada lá em
casa pra comer.
- Então vem comigo, eu sei onde podemos fazer compras.
Clara e Erick foram juntos ao supermercado. Ela o ajudou com
as sacolas e ele disse:
- Da próxima vez eu trago uma sacola ecológica! Quanto
plástico!
Clara riu. Ela andava bem junto dele e, sempre que podia
encostava o braço no braço de Erick. Ele nem percebeu. Ainda estava
com efeito da bebida da noite anterior.
Ao chegar no prédio, Erick reparou no look esportivo de Clara,
e disse:
- Nada mal!
- O que você disse?
- Nada não. Pode ir, eu subo sozinho.
Clara quis ajudar Erick a subir com as compras. Mas realmente
não precisava. O prédio tinha elevador. Eles se despediram.
Clara havia notado que Erick olhara diferente para ela. Mas
talvez fosse porque ainda não tinha se recuperado da noite. Eles
tinham bebido muito, mesmo.
Enquanto caminhava, Clara enviou uma mensagem à Leandro,
contando sobre como Erick havia reparado nela.
Assim que Malu acordou, ela foi à praça para pensar um
pouco. Precisava descansar a cabeça, enquanto ouvia o canto dos
pássaros. Sua mãe voltaria para o Canadá em algumas semanas para
visitar seu pai, e ela ficaria sozinha mais uma vez, por alguns dias.
Voltando para casa, ela aproveitou para estudar um pouco. Seu
exame de direção seria em duas semanas e, assim que passasse,
compraria um carro. Enquanto Malu estudava, Erick ligou para ela,
morrendo de saudades.
- Oi meu amor, tá muito difícil ficar aqui sem você.
- Aqui também. Eu estou lendo um pouco a matéria para a
prova de direção. Não vejo a hora de tirar carteira.
- Minha vida está tão chata... passar o fim de semana sem você
vai ser complicado.
- E por que vai passar longe de mim? É só você vir até aqui,
ora!
- Ah, eu to meio cansado. Depois da festa ainda tive que limpar
toda a sujeira. Também saí para fazer umas comprinhas. Morar
sozinho não é fácil. Se pelo menos eu estivesse morando aí ainda, era
só atravessar a rua pra te ver.
- Sim, mas você sabia que seria complicado e mesmo assim
aceitou por causa do trabalho. Não está satisfeito com isso?
- Com o trabalho, sim. Mas longe de você não dá, as horas não
passam. Aquela frase que todo mundo diz, agora faz todo o sentido
para mim.
- Que frase?
- Não se pode ter tudo o que quer. Agora que realizei um sonho
de trabalhar na editora, estou sem você.
- Amor, para de bobagem, você não está sem mim. Olha, eu já
disse que vou comprar um carro e poderei te visitar sempre.
Eles se despediram. Erick aproveitou o resto do dia para
descansar.
À noite, Clara apareceu para lhe fazer uma visita.
- Oi Erick, sou eu, Clara.
Erick abriu o portão e Clara subiu as escadas. Ao ver o estado
em que ele estava, Clara fez o maior escândalo:
- Mas o que deu em você? Está tão acabado! Não, já para o
banheiro! Vai tomar um banho que eu vou arrumar um pijama para
você.
- Eu to cansado. Tenho trabalhado demais e a Malu não tá aqui
pra me fazer companhia.
- Ai Erick, você bebeu, não acredito! Mas que bafo horrível! Vai
logo tomar banho e escovar os dentes, eca! Tá parecendo criança...
Clara esperou Erick para dormir e deixou um bilhete, antes de
sair, que dizia: “Erick, deixei um chá pronto na garrafa térmica e umas
torradas com geléia no pote marrom. E se cuida! Não quero passar o
domingo preocupada com você”.
Na manhã seguinte, assim que Erick acordou, viu o bilhete e
sorriu. Depois pensou:
- O que você tá fazendo, Erick idiota? Não devia ter bebido
ontem e deixado a Clara entrar. Você tem namorada, esqueceu? – e
bateu em si mesmo.
Malu foi visitar o namorado. Ela levou o almoço de Erick e uma
sobremesa que ela mesma havia preparado. Eles se beijaram. Malu
não gostou de ver Erick naquele estado, meio deprimido. Estava com
olheiras enormes e parecia pálido.
- Meu amor, por que está assim?
Erick começou a chorar e abraçou Malu, respondendo:
- Eu te amo tanto, Malu. Depois de tanto tempo nos
encontrando todos os dias, tá muito difícil desse jeito. Não sei se vou
suportar essa distância. Isso está me matando.
- Não, Erick, para de falar bobagem. Você precisa se cuidar.
Olha, amanhã você volta para o trabalho e vai ver que a semana será
tão produtiva que você nem vai ver passar. E quando chegar o fim de
semana, a gente se encontra de novo. Mas você vai ter que me
prometer que vai se cuidar, senão vai acabar perdendo o emprego dos
seus sonhos.
- Só se você prometer que vai passar um fim de semana inteiro
comigo.
- Ah, amor, mas fica complicado eu ter que vir nos dois dias.
- Eu to dizendo pra você dormir aqui. Por favor, linda!
Erick estava tão carente de atenção que Malu prometeu voltar
no próximo sábado e ir embora só no domingo à noite, aproveitando
que sua mãe viajaria e ela ficaria sozinha em casa.
Durante aquela semana, Malu resolveu tudo o que estava
pendente. Inclusive comprou seu carro. E avisou à sua mãe que
passaria o fim de semana na casa de Erick.
Ela o ajudaria com as lições da autoescola, que ele decidira
começar na próxima semana. Malu havia insistido muito para que ele
aprendesse a dirigir pois, era importante, caso eles precisassem viajar
algum dia e tivessem que revezar no volante.
Sábado finalmente havia chegado. Malu foi para a casa de
Erick. Eles almoçaram, estudaram bastante e, à noite, assistiram a um
filme.
Erick pediu que Malu dormisse em sua cama, mas prometeu
que não aconteceria nada entre eles. Ficariam apenas agarradinhos. E
assim que eles passaram a noite, abraçados. Eles se conheciam tão
bem que podiam confiar plenamente um no outro.
Na manhã seguinte, Malu se levantou bem cedo, preparou um
café delicioso com panquecas integrais e mix de frutas e levou na
cama para o namorado. Erick acordou tão bem! Não queria de jeito
nenhum que aquele momento terminasse.
Mais uma semana passou voando. Erick finalmente terminou
as aulas de direção e passara no exame.
Ele estava muito ocupado no trabalho, terminando um projeto
muito importante, por isso passou alguns dias sozinho em casa, para
poder trabalhar em paz. Mesmo sentindo muito a falta de Malu, Erick
conseguiu focar apenas no trabalho.
Leandro passara em seu apartamento para lhe fazer uma visita
e conversar um pouco.
- Cara, quanto tempo! A Clara me contou que você andou
bebendo.
- Ih, lá vem a fofoqueira!
- Que nada, ela só disse que você bebeu muito e ficou meio
perdido pelas ruas.
Erick riu e respondeu:
- Ah, você nem imagina o que eu passei. Eu já estava ficando
louco, isolado aqui nesse apartamento. Mas depois a Malu veio dormir
comigo e eu melhorei um pouco.
Leandro bateu no peito do amigo, sorrindo:
- Hummm! Dormiram juntos! Por que não me contou antes,
hein? – Disse ele.
- Não, não teve nada disso que você está pensando. Não rolou
nada, eu só precisava de carinho.
- Ah, amigão, eu hein! Teve oportunidade e perdeu?
- Mas não é para ser assim! A hora certa vai chegar, cara! Eu
não tenho pressa para isso; tenho outras prioridades por enquanto. E
você, não arrumou nenhuma menina ainda?
- Pois é, assim como você, eu tenho outras coisas para me
preocupar. E foi bom você tocar no assunto, porque eu tenho uma
notícia bem legal para te dar.
Erick ofereceu uma bebida a Leandro que, mesmo não
gostando muito de beber, fez companhia ao amigo. Enquanto bebiam,
eles conversavam:
- Isso é licor de cacau, a Clara trouxe pra mim.
- Entendi... ela não gosta que você bebe mas traz bebida? Vai
entender...
- Como assim, ela não gosta que eu bebo?
- Ela fica toda preocupada com você quando bebe demais.
Disse que você estava igual a uma criança, e que ela até precisou te
colocar pra dormir – respondeu Leandro, e riu.
- Ah, que exagero!
- Do jeito que ela me contou, só faltou cantar uma musiquinha
pra você dormir.
Erick estranhou; não se lembrava de nada disso.
Leandro continuou:
- Mas então, mudando um pouco de assunto, a empresa onde
eu faço estágio está me convidando para um evento em Londres, onde
eu irei participar de conferências e de sorteios de itens de tecnologia.
- Que legal! É bem a sua cara, mesmo.
- É tipo um curso, e o bom é que é tudo pago por eles! Mas eu
vou passar dois meses fora... então eu vim pedir para você se cuidar,
cara.
- Do jeito que a Clara falou sobre mim, agora todo mundo vai
ficar preocupado, achando que eu não sei me cuidar.
- Mas eu sou seu melhor amigo e me preocupo com você,
mesmo. Eu estou muito ansioso, e comecei até a arrumar as minhas
malas!
Erick parabenizou o amigo.
- E quando você vai?
- Daqui a duas semanas.
- Que tal se a gente programasse algo pra semana que vem,
antes da sua viagem?
- Beleza, e o que você sugere? Eu conheço uma balada super
maneira lá perto de casa. Lembra quando disse que queria fazer logo
dezoito anos pra ir numa balada com a Malu? Pois é, ela me contou
sua empolgação.
- Então tá fechado, vamos lá, nós quatro. Temos que
comemorar a sua viagem!
Os dois amigos estavam muito felizes. Erick ligou para a sua
mãe e pediu que ela fosse conhecer seu novo apartamento e sua
namorada. Mas ele quis fazer suspense e não contou nada sobre
Malu, inclusive que pediria ela para ser sua noiva. Dona Lúcia ficaria
muito feliz, quando soubesse que a melhor amiga de seu filho era sua
namorada.
No dia seguinte, a mãe de Malu viajou novamente para o
Canadá. Ela passaria um bom tempo fora fazendo compras e
namorando o marido. Eles estavam bem, novamente, e seria uma
segunda lua-de-mel. Quando voltasse, ela traria vários presentes para
a filha.
Erick chamou Malu na chamada de vídeo:
- Oi meu amor, como passou o fim de semana?
- Foi chato sem você. Minha mãe viajou para o Canadá de
novo para ver meu pai. Mas dessa vez vai demorar muitos dias para
voltar. Eles voltaram a ficar juntos.
- Você podia vir pra cá de novo.
- Ah, amor, dessa vez eu não posso, desculpa... eu prometi à
minha mãe que cuidaria da casa, do jardim dela, não posso deixar a
casa sozinha. Além do mais, as minhas aulas começam semana que
vem, lembra?
- Mas é só um dia.
- Eu sei que não é. Se eu for você vai conseguir me convencer
a ficar por mais tempo.
Erick ficou chateado, mas tentou entender.
- Tudo bem, mas olha só. No próximo domingo nós vamos na
balada, eu, você, o Lê e a Clara, tudo bem?
Erick contou sobre a viagem do amigo. Depois de um bom
tempo conversando, Malu mandou um beijo para Erick, que não
perdera o costume de fazer um coração com as mãos.
E mais uma semana se passou. Erick não via a hora de se
encontrar com Malu para dizer que a amava pessoalmente.
No sábado, Malu saiu para fazer compras e passou no
apartamento de Erick para lhe dar um beijo.
- Meu amor, que surpresa! Eu não via a hora de te ver e te
abraçar! Eu te amo, amo muito e sempre vou amar, entendeu?
Malu sorriu e retribuiu todo aquele amor, enchendo Erick de
beijos e lhe deu um abraço bem apertado, como se eles não se vissem
há meses.
De repente, bateu uma angústia e Malu começou a chorar. Ela
não se sentia bem.
- O que foi, linda? Quer um copo d’água?
Malu não conseguia responder. Erick buscou a água e ela
bebeu tudo de uma vez. Depois enxugou as lágrimas.
- Eu não sei o que deu em mim. Senti um aperto no peito.
- Tipo uma dor no coração? Quer que eu chame um médico?
- Não, não precisa. Não foi bem uma dor, mas uma sensação
ruim. Amor, olha para mim. Promete que vai se cuidar, por favor!
- Pode deixar, meu amor. Não se preocupe! – Respondeu ele,
e a abraçou.
Malu ficou no apartamento de Erick por mais algumas horas.
Eles assistiram tevê. Mais tarde, eles se despediram. Malu ainda se
sentia estranha, mas voltou logo para casa, guardou as compras e foi
descansar. E dormiu até o dia seguinte.
O domingo amanheceu um pouco frio. Erick tomou um café
com leite e ligou para Malu.
- Oi meu amor, bom dia! Você se sente melhor?
- Ainda não. Já liguei para a minha mãe e ela disse que por lá
está tudo bem. E você, tá bem? Eu to preocupada. É um mau
pressentimento. Acho que vou meditar um pouco, comer alguma coisa,
assim eu paro de pensar nisso.
- Sim, faça isso! À noite a gente se vê. Eu te amo!
- Também te amo. Eu passo aí para te pegar às nove horas.
Depois do almoço, Clara passou na casa de Erick. Ela não se
cansava de ir atrás do menino, principalmente agora que Malu estava
morando longe dele, deixando-o carente de atenção.
Erick atendeu o interfone. Clara pediu para subir, mas Erick
disse que não se sentia bem. Clara insistiu tanto que ele deixou que
ela subisse. Ele fez cara feia para ela. Ela reclamou:
- Que ingrato você é, hein! Eu só vim cuidar de você um pouco,
já que a Malu te abandonou. E é assim que você me recebe?
- Ela não me abandonou! – Gritou ele – Pois fique sabendo que
ela veio aqui ontem mesmo, só pra me dar um beijo.
- Nossa, ela saiu daquele fim de mundo só pra vir aqui te dar
um beijo? – Riu Clara, com ar de deboche.
- O que você quer dizer com isso?
- Ué, nada! Eu moro bem mais perto. Se precisar de companhia
pode me chamar; a Malu não precisa vir só pra isso. Aliás, vou ficar
aqui até a hora da balada, já estou pronta mesmo!
Erick irritou-se:
- Eu não tenho tempo e nem paciência para as suas bobagens.
É melhor você ir embora. A Malu não vai gostar de saber que você
passou o dia aqui comigo.
- Calma, lindinho! A Malu não precisa saber de nada.
- Ela não saberia se não viesse me buscar à noite.
Clara arregalou os olhos. E tentou acalmar Erick.
- Tudo bem, se o problema é esse, eu vou embora antes.
- Clara, pelo amor de Deus! Quantas vezes eu já disse que eu
e você somos apenas amigos?
Erick empurrou Clara para a porta.
- Agora que você já viu que eu não preciso de nada, pode ir
embora.
- Mas Erick...
- Sai da minha casa!
- Erick, eu te amo... – disse ela, passando as mãos no peito do
menino.
Erick começou a se acalmar.
- Eu sei que você está nervoso esses dias. Morar sozinho não
deve estar sendo fácil. Mas fique calmo. Eu estou aqui para te ajudar.
- Para, Clara! Não me provoque!
- É só um carinho...
- E se a Malu descobre...
- Relaxa, esquece a Malu um pouco, você está precisando de
alguém agora, e a Malu não está aqui. Eu estou aqui com você –
respondeu Clara, roubando-lhe um beijo na boca.
Ela o abraçou, como sempre sonhou, e se aconchegou nos
braços do seu grande amor. Erick não resistiu ao carinho da amiga.
Ele amava Malu, mas desde que havia visto Clara no dia da
caminhada, sentia um desejo inexplicável por ela, que ele nunca havia
sentido antes. Talvez todo o carinho, a preocupação e o cuidado que
ela tinha com ele, o fez brotar algum sentimento por ela.
Ele deixou-se levar pela vontade e acabaram indo para o
quarto. Tiveram um momento especial, cheio de carinho, só deles.
Passaram a tarde toda juntos. Clara estava muito feliz. Erick, por um
momento, esqueceu Malu e se entregou totalmente.
Eles acabaram cochilando, logo depois. Quando Erick se deu
conta da hora, Malu estava chegando para busca-lo.
Ele acordou Clara às pressas e pediu que ela fosse embora,
para que Malu não descobrisse nada. Antes de descer, ela disse:
- Você não sabe quanto tempo esperei pelo momento em que
ficássemos juntos. Valeu a pena esperar.
Depois que Clara foi embora, acabou batendo uma culpa em
Erick:
- Não acredito que eu deixei isso acontecer. Eu traí a Malu...
O relógio marcava nove horas. Malu era bem pontual e tocou o
interfone.
Erick entrou no carro, ainda se sentindo culpado, e não falou
uma palavra no carro. Na porta da balada, Malu o beijou e perguntou
se tinha acontecido alguma coisa.
- Não, não aconteceu nada. Vamos logo.
- Você está estranho.
- Eu... só estou preocupado com você. Aquela sensação ruim
passou? – Perguntou ele, descendo do carro.
- Ainda não, mas vamos nos divertir esta noite e esquecer.
Na balada, Leandro já os esperava. Clara achou melhor não
aparecer por lá. Estava nas nuvens, lembrando de como Erick tinha
sido fofo e carinhoso com ela, e preferiu ficar sozinha pensando nele,
para guardar bem tudo o que tinha acontecido, na memória.
Erick ficou muito pensativo a noite inteira. Tomou uns goles de
vinho e ficou longe, num canto, enquanto Malu dançava. Leandro
tentou puxar conversa, mas ele apenas disse que era um idiota e que
precisava ficar sozinho.
Leandro foi buscar um refrigerante, depois acabou fazendo
companhia à Malu na pista de dança.
- Você sabe da Clara?
- Não, mandei mensagem, mas ela não respondeu.
Erick pediu várias bebidas; e bebeu muito o resto da noite.
Clara passou na porta da balada e, vendo que o movimento
parecia bom, resolveu entrar, dispensando o motorista. Mas ela não
deixou que ninguém a visse; ficou de longe, só admirando Erick.
Malu parou de dançar um pouco e foi falar com o namorado:
- Amor, você não devia beber tanto! Vamos dançar um pouco,
você não queria esfriar a cabeça? Então, para de beber e vem curtir a
música.
Ele nem deu papo. Continuou bebendo, sem parar. Nada que
Malu e Leandro dissessem, tirava Erick daquele canto. Malu, intrigada,
perguntou ao amigo se ele tinha dito alguma coisa.
- Ele apenas disse que é um idiota.
Malu voltou para perto do namorado e o abraçou,
permanecendo assim por um bom tempo. Ainda tinha a sensação de
que algo ruim poderia acontecer, mas ela não quis dizer nada para ele
não se preocupar.
Clara, de longe, via os dois abraçados e pensava:
- Parece até que ele não gostou de ficar comigo. Está lá, bem
abraçado com a Malu.
Erick começou a se sentir mal e, de tanto pensar, sua cabeça
começou a doer muito. E disse:
- Minha cabeça está explodindo. Vamos embora?
- Claro, vou chamar o Lê.
Na porta da balada, Erick pegou a chave do carro de Malu e
disse que ia dirigir.
- Não, amor! Você não está em condições de dirigir. Você
bebeu a noite toda! Devolve a minha chave. Eu deixo vocês dois em
casa.
Erick não quis nem saber, e respondeu:
- Eu to bem, posso dirigir, galera. Vamos logo...
- Amor, você está com sono, está bêbado.
- Eu juro que eu to bem! Eu não tô bêbado, ora.
Erick mal conseguia parar em pé. Ele acabou caindo dentro do
carro.
Malu entrou do outro lado para tentar pegar a chave de sua
mão, mas ele conseguiu ligar o carro.
Leandro intrometeu:
- Não, Erick, você não pode dirigir assim. E o carro nem é seu!
Desce daí que a Malu vai dirigir!
- Ah, a Malu me empresta... eu sei dirigir.
A avenida estava muito movimentada. Erick acelerou. Malu
tentou pisar no freio, mas o carro balançava muito e ela não
conseguiu. Erick acelerou ainda mais. Leandro correu atrás do carro,
gritando:
- Para o carro! Olha o caminhão!
Mas nada adiantou. Enquanto Erick dirigia, só conseguia
enxergar o rosto de Clara na sua frente, o que o fez sentir mais culpa.
Um caminhão vinha em sua direção. Erick entrou na contramão
e Malu colocou a mão no volante, tentando desviar, mas ele fez força
e virou de volta, em direção ao caminhão.
- Eu sou um idiota! Eu estraguei tudo!
- Do que você está falando?
O caminhão tentou desviar, mas não tinha para onde ir. Foi
tudo muito rápido. O farol alto do caminhão não deixou que Malu
enxergasse direito. Malu deu um grito e eles não viram mais nada.
Ambos estavam desacordados.
O carro de Malu ficara destruído e ela havia ficado presa
embaixo das ferragens. As pessoas que passavam na avenida,
naquele momento, pararam para ver o que havia acontecido e
chamaram o resgate.
Erick estava bastante ferido, tinha batido a cabeça com força.
O caminhão havia batido de frente, apertando Malu e Erick entre o
painel e os bancos. A sorte foi que o motorista tentou frear, senão teria
sido muito pior.
Clara, que estava escondida na balada para não ser vista pelos
amigos, ouviu o barulho, assim como todos que estavam por lá, e
correu para ver o que havia acontecido. Leandro, quando viu os
amigos feridos, entrou em desespero.
- Meu Deus, cadê a ambulância que não chega! Erick! Malu!
Vocês estão me ouvindo?
Clara, quando viu que Erick estava desmaiada, gritou:
- Não!!! Por favor, Erick, você não pode me deixar!
Ela não conseguia parar de chorar.
Uma senhora que observava o tumulto, chegou perto de Clara,
tentando consolá-la.
- Erick, não!!
O resgate havia chegado. Todos se afastaram. Erick fora
retirado do carro primeiro, já que Malu estava presa. Ambos estavam
inconscientes; eles foram imobilizados e levados para dentro da
ambulância. Leandro entrou no carro onde Malu estava e a
acompanhou até o hospital. Enquanto não chegavam, ele pegou a
bolsa de Malu, para procurar seu celular e tentar avisar dona Carmem.
Dona Carmem não atendia. Ela estava no Canadá. Leandro
pensou que depois, com calma, enviaria uma mensagem a ela.
Antes que as ambulâncias saíssem de lá, Clara ligou para o
seu motorista. Eles seguiram os carros para saber em qual hospital
Erick e Malu ficariam. Mas ela não entrou no hospital; não enquanto
Leandro estivesse lá com eles. Ela não queria que ninguém os visse.
Mais tarde, Leandro finalmente conseguiu enviar uma
mensagem à mãe de Malu, mas ela ainda não tinha visualizado. Ele,
então, ligou para a mãe de Erick.
- Eu sou o Leandro, melhor amigo do Erick. Ele sofreu um
acidente, porque dirigiu bêbado. É uma longa história, depois conto
com calma. Ele ainda está inconsciente, mas um dos médicos disse
que o estado dele não é mais crítico.
A mãe de Erick ficou em choque com a notícia, e pediu que
Leandro avisasse quando Erick acordasse para que ela o visitasse,
pois não queria ver o filho naquele estado, desacordado.
Clara ficou na porta do hospital, dentro do carro, escondida,
esperando a hora que Leandro saísse para ela entrar. Mas demorou
muito. Leandro passou a madrugada conversando com os médicos e
resolvendo as pendências de Malu, como o seguro do carro e a
faculdade que começaria no dia seguinte.Também enviou uma
mensagem para o chefe de Erick, avisando que ele não trabalharia
nos próximos dias. Depois falou com o médico:
- Olha, doutor, eu preciso ir. Tenho que arrumar as minhas
malas, porque eu viajo amanhã à tarde. Mas eu volto antes da viagem
para ver como ficaram as coisas por aqui.
Ele saiu do hospital e, finalmente, Clara entrou. Ela se
identificou como melhor amiga de Erick e Malu. Sua entrada foi
liberada e ela conversou com uma enfermeira, que estava naquele
corredor.
- Em qual quarto eles estão? Eu sou a melhor amiga deles e
soube agora do acidente.
- Bem, eles não podem receber visita, por enquanto. A Malu
está em coma e o Erick ainda está desacordado. Precisamos esperar
que ele acorde para fazer mais exames e certificar de que ele está
realmente bem. Você pode esperar naquele corredor que o médico vai
te passando as informações.
Clara pensou:
- A Malu está em coma? Coitada...
Ela sentou-se em uma das cadeiras do corredor, mas como
estava ansiosa não conseguiu ficar quieta. Minutos depois ela olhou
pelo vidro da porta e viu Erick deitado, dormindo como um anjo. Assim
que o médico saiu do quarto, ela o chamou:
- Doutor, como o Erick está?
- Olá, você é parente dele?
- Eu... sou a pessoa mais próxima dele.
- Ele está se recuperando e deve acordar em algumas horas,
mas deve ter algumas sequelas.
- Que tipo de sequelas?
- Não sabemos ainda, só vamos saber quando ele acordar.
Faremos alguns exames e testes para descobrir. A moça que estava
com ele está em coma.
- Ah sim, eu já soube da Malu. Vou esperar ele acordar, então.
Eu não posso vê-lo de perto?
O médico permitiu que Clara entrasse no quarto de Erick, mas
no de Malu não era permitido ainda. Assim que viu Erick naquele
estado, Clara chorou e disse:
- Você não pode ter sequelas... imagina só você com algum
problema, eu não suportaria te ver sofrendo.
Clara voltou para o corredor e acabou cochilando.

Capítulo 7

Por volta das oito da manhã, Erick acordou. O médico estava


no quarto com ele.
- Onde estou? Isso é um hospital?
- Sim, Erick, você sofreu um acidente e agora que acordou
precisamos fazer alguns exames.
- Você disse Erick?
- Sim, você não lembra o seu nome?
Ele estava confuso, não estava entendendo nada, não se
lembrava de nada. Parecia que todas as suas memórias haviam
sumido e sua mente tinha ficado completamente vazia. Enquanto
tentava pensar em algo, o médico checou todos os seus membros
para ver se Erick os movimentava normalmente, olhou seus ouvidos e
olhos com uma lanterninha e perguntou:
- Você consegue se lembrar de alguma coisa?
Erick balançou a cabeça negativamente.
- Você bateu a cabeça com muita força na hora do acidente.
Esse trauma é muito comum e costuma passar rápido quando o
paciente tem contato com amigos e parentes, que o ajudam a
refrescar a memória aos poucos. É preciso ver fotos, vídeos e
qualquer outra lembrança que possa destravar seu subconsciente –
continuou o médico -. A lesão costuma ser temporária e logo sua vida
voltará ao normal. Mas ainda precisamos fazer vários exames, como a
tomografia.
Erick continuou confuso.
- Você disse que meu nome é Erick. E que acidente foi esse?
Quem estava lá comigo, você sabe?
- Bom, eu não sei muita coisa, mas me disseram que você
bebeu muito e dirigiu logo depois. E parece que havia uma moça no
carro com você, mas ela está em coma. Não sei o nome dela, porque
eu não fiquei responsável pelo caso dela.
O médico disse que precisava ver outro paciente. Ele saiu do
quarto de Erick e avisou à Clara que ele havia acordado, porém tinha
perdido a memória. Clara acordou assustada, mas estava feliz que ele
havia acordado. Ela pensou:
- Se ele tiver mesmo perdido a memória, é a minha chance de
ficar com ele definitivamente, ainda mais agora que a Malu está em
coma – e sorriu.
Enquanto isso, no quarto, Erick tentava se lembrar do acidente.
Ele apenas se lembrou do farol alto do caminhão, indo em sua direção.
Depois não viu mais nada. Ele não conseguia se lembrar de nada, por
mais que ele se esforçasse.
Clara entrou no quarto de Erick:
- Oi amor, que bom que você acordou! Fiquei sabendo que
você perdeu a memória. Fiquei tão triste..., mas que bom que você
está bem, pelo menos não quebrou nada, né! A memória é o de
menos.
Erick estranhou aquela linda mulher em seu quarto, e ainda o
chamando de amor, e quis saber:
- Amor?! Como assim?
- Você não se lembra de nada mesmo, nem do seu nome?
- O médico me chamou de Erick, deve ser isso mesmo.
- É isso sim! Eu sou a Clara, sua namorada.
Clara deu-lhe um beijo na boca. Erick riu, meio sem graça e
muito confuso, ainda:
- Ah tá... pelo menos eu tenho bom gosto.
- Olha, amorzinho, você não precisa se preocupar que eu vou
te ajudar a se lembrar de tudo!
Ela virou o rosto e pensou:
- Ele vai se lembrar de tudo sim, menos da Malu, se depender
de mim.
Erick continuou:
- Você sabe o que aconteceu pra eu perder a memória?
- Bem, você sofreu um acidente de carro, mas eu não sei
detalhes. Eu não estava lá no momento – respondeu Clara, indo em
direção à porta do quarto -. Eu já volto, vou beber uma água.
Ela saiu do quarto e, no corredor chamou uma médica que
estava por perto.
- Ah, doutora, você sabe se tem alguma Malu internada aqui?
- Você é parente dela?
- Eu sou a melhor amiga. Parece que ela sofreu um acidente e
está em coma, é verdade?
- Ah, tá, é verdade. Venha comigo.
A médica levou Clara até o quarto de Malu. Ao vê-la naquele
estado, Clara não perdeu a oportunidade de falar o que não devia, e
Malu, infelizmente, não podia fazer nada.
- Ah, Malu... não acredito que você está em coma. Mas não se
preocupe, eu vou cuidar direitinho do Erick – disse, bem baixinho, no
ouvido de Malu.
Depois que saiu do quarto de Malu, Clara olhou pelo vidro da
porta de Erick e viu que ele estava dormindo. Ela foi embora. Mais
tarde, Leandro voltou ao hospital, como havia prometido, para ver
como estavam as coisas. Ele ficou surpreso quando soube que Erick
havia acordado.
- Oi cara, que bom que você está bem! Eu disse pra você não
pegar no volante, você estava bêbado... foi muita sorte não acontecer
nada com você, porque com a Malu...
- Hã? Mas quem é você? Eu te conheço?
- Ah não, não acredito que você perdeu a memória, cara! Você
só pode estar de brincadeira. Você não se lembra de mim, nem da sua
namorada?
- Minha namorada já veio aqui me ver.
- Como assim? A Malu está em coma.
- Não, a Clara veio aqui me ver. Não sei quem é essa tal Malu.
Mas e você? É meu irmão, amigo, primo...
Leandro não se conformou em ver Erick daquele jeito, todo
confuso.
- Eu sou o Leandro, seu melhor amigo. Você me chamava de
Lê. Mas, espera aí, a Clara veio aqui? Como ela soube do acidente?
- Eu não sei... não estou entendendo nada. E por que você
ficou bravo?
- A Clara não é sua namorada, é uma aproveitadora! Sua
namorada é a Malu, ela está internada aqui, em coma. Pode confiar
em mim! Estávamos juntos na balada, antes de... tudo acontecer.
Erick ficou perdido com aquelas informações:
- Mas e a Clara?
Leandro suspirou e respondeu:
- Eu vou te falar uma única vez, ela não presta.
Ele lembrou-se da viagem e contou ao amigo:
- Olha, eu não vou poder cuidar de você por dois meses. Tenho
que viajar a trabalho. Eu já tinha comentado com você sobre isso, mas
já que você perdeu a memória... eu só peço para você tomar cuidado
com a Clara. Você tem meu telefone salvo no seu celular, se precisar
de algo me liga, manda uma mensagem, qualquer coisa. Só não vou
poder voltar antes do tempo previsto, porque esta viagem é muito
importante para a minha carreira.
Leandro se despediu do amigo e foi embora, pois já estava
atrasado.
No dia seguinte, Clara voltou ao hospital para ver Erick.
- Oi amor, você está melhor? – Ela disse sorrindo e mostrando-
lhe uma foto – Olha só o que eu trouxe! Uma foto de nós dois para
você se lembrar de como a gente era feliz. Essa é a minha foto
preferida, tiramos no seu último aniversário!
Clara também havia levado a torta de chocolate:
- Eu também trouxe a sua torta favorita. A gente sempre comia
quando ia ao cinema.
Erick se sentiu melhor depois de ver aquela foto e a torta em
cima da mesinha. Clara cortou a torta e lhe ofereceu uma fatia. Ele
simplesmente amou, como sempre.
- Hummm! Mas que delícia!
- Boa demais, né!
- Sim, é sua torta favorita! Mas, mudando de assunto um
pouco, você pode me dizer quem é Malu?
Clara ficou desconsertada com a pergunta.
- Malu?! Como assim “Malu”?
- É, Malu. Você conhece alguém com esse nome?
Clara irritou-se:
- Como soube dela? E o que te contaram?
- Uma pessoa veio aqui e me contou, e disse também que você
é perigosa, não exatamente com essas palavras...
- Quem disse isso, amor? Quem veio aqui te ver? – Clara
irritou-se.
- Foi um tal de Leandro, e disse que é meu melhor amigo, mas
por quê?
- Ah, tinha que ser. Ele não vai com a minha cara. E você se
lembrou dele?
- Eu ainda to muito confuso.
Clara tentou acalmá-lo.
- Não precisa ficar nervoso. Aliás, o médico vai te dar alta
amanhã mesmo! Os exames estão normais. Foi só a perda de
memória, mesmo, mas soube que isso logo passa.
- Ótimo! Eu preciso sair daqui o quanto antes. Você não
imagina como é difícil não se lembrar de nada; bate um desespero, um
vazio insuportável!
- Eu imagino, mas olha amor, amanhã eu vou te levar pro seu
apartamento e você vai se lembrar rapidinho de tudo, eu prometo, tá
bom?
- Tudo bem – respondeu ele, e insistiu – Mas você mudou de
assunto. O que sabe sobre a Malu?
- Ah, bem, a Malu é nossa amiga. Acho que ela tem um caso
com o Leandro, e ela acha que ninguém sabe disso. Mas não vamos
falar disso.
- E sobre o meu trabalho, eu faço o quê?
- Ah, você é desenhista, mas está de licença até se recuperar.
Não precisa se preocupar com isso agora.
- Mas talvez o trabalho possa me ajudar a lembrar de tudo.
- Sim, amor, mas vamos com calma. Você sofreu um acidente
terrível, é como se tivesse nascido de novo. Antes de tudo você
precisa estar bem fisicamente.
Erick sentiu uma tontura, provavelmente efeito de algum
medicamento que havia tomado, pois tinha alguns ferimentos na
cabeça. Clara disse que precisava descansar e deitou na cadeira de
acompanhante que havia no quarto. Ela acabou cochilando até o dia
seguinte.
De manhã, Clara saiu do quarto para comprar algo para comer
e a médica responsável por Malu a chamou:
- Ei, moça! Você disse que é amiga da Malu, poderia me
passar algumas informações? Você sabe da família dela?
- Ah, doutora, perdão, mas eu não sei onde os pais dela estão.
Eu... já tentei falar por telefone, mas ninguém atende. Vocês olharam
nos documentos dela?
- Sim, pegamos os contatos do celular, mas ainda não
encontramos ninguém que possa vir até aqui. Encontramos também
esta foto.
Era uma fotografia de Erick e Malu.
- Esse aqui não é o rapaz que perdeu a memória? – Perguntou
a médica.
- Ah, é ele sim – respondeu Clara, pegando a foto da mão da
médica, e continuou – Nós três somos muito amigos. Deixa esta foto
comigo que vou mostrar para o Erick, quando ele acordar. Ah, e
procura um tal de Leandro no celular da Malu, ele é a pessoa mais
próxima que pode ajudar. Agora eu tenho que ir.
Clara rasgou a foto e jogou na lixeira mais próxima, sem que a
médica visse, dizendo:
- Ele nunca mais vai ver esta foto!
Depois ela foi até o quarto de Erick, toda feliz.
- Amor, que bom que você acordou! Hoje você vai voltar pra
casa! Você pode me emprestar a chave para eu ajeitar tudo, antes de
você voltar? Você é bem bagunceiro – disse Clara, e riu.
- Ah tá, mas eu não sei onde está a chave.
- Deve estar junto com esses documentos e sua carteira –
disse ela, apontando para a mesinha que ficava ao lado da cama –
Deixa eu procurar.
Ela encontrou a chave do apartamento e disse:
- Encontrei a chave, amor, e vou lá arrumar tudo agora mesmo.
Assim que terminar eu volto pra te buscar.
Quando Clara saiu do quarto de Erick, a médica novamente a
chamou:
- Oi, preciso te agradecer por me passar o contato do Leandro.
Eu consegui falar com ele por telefone, mas está viajando. Pelo menos
disse que vai cuidar de tudo e tentar falar com os pais da Malu
também.
- Ah, tá. Que bom – respondeu Clara, desinteressada.
- E você, não vai visitar sua amiga hoje?
- Eu não! Quer dizer... hoje não vai dar tempo, tenho que levar
o Erick para casa. A mãe dele mora no interior e vou cuidar de tudo
enquanto ela não puder vir. Tchau, doutora!
Clara foi até o apartamento de Erick. Nas paredes e no armário
havia várias fotos dele e de Malu.
- Eu preciso esconder tudo o que é da Malu. Vou espalhar fotos
de nós dois pela casa e jogar o meu perfume. Ele não pode se lembrar
da Malu. Afinal, foi comigo que ele ficou pela última vez.
Mais tarde, Clara buscou Erick no hospital e o levou para o seu
apartamento.
- Enfim, em casa! Deixei tudo do jeitinho que você gosta. Até fiz
a sua lasanha favorita, de berinjela.
- Oba! – Ele riu
- Você se lembrou da lasanha?
- Não, mas o cheiro tá muito bom!
Eles sentaram no sofá e Clara levou a lasanha para a sala.
Erick comentou:
- Humm, parece deliciosa! Eu to mesmo morrendo de fome!
- Então vamos jantar e depois você vê o resto da casa.
Eles comeram a lasanha. Logo depois Erick se levantou do
sofá e foi até o armário da sala, onde viu várias fotos dele com Clara,
não muito recentes, mas ele nem reparou nisso.
- A gente gostava mesmo de tirar fotos, mas não tem nenhuma
foto da gente se beijando, por quê?
Clara sorriu, sem graça e respondeu:
- Ah, amor, eu acho ridículo fotografar assim... mas se você
quiser e gente tira uma agora que tal?
- É, pode ser, então. Eu não ligo de mostrar meus sentimentos
para os outros através das fotos. Se somos namorados, por que não
mostrar?
Clara pegou seu celular, abraçou Erick e eles se beijaram
lentamente. Eles ficaram um bom tempo vendo TV, pois Erick ainda
estava cansado e precisava ficar mais tempo de repouso.
Mais tarde, Erick achou que poderia estar incomodando Clara,
que já tinha tido o trabalho de levá-lo para o apartamento, depois de
organizá-lo todo e disse:
- Clara, se você quiser pode ir. Eu acho que preciso ficar
sozinho um pouco. O médico disse que tenho que descansar bastante,
para ver se meus neurônios se recuperam logo.
- Ah, mas você não quer nem a minha companhia para dormir?
Você não resistia quando eu implorava para passar a noite aqui –
insistiu ela.
- Desculpa, mas eu ainda não consigo me lembrar de nada. Eu
preciso dormir sozinho, pelo menos hoje.
- Está bem, você é quem sabe! – Sorriu Clara e continuou – Eu
te amo, Erick! Se precisar é só me ligar. Meu número está nos seus
contatos do celular.
Ela lhe deu um beijo no rosto.
Clara lembrou-se de que não havia apagado o número da Malu
do celular de Erick, mas não se preocupou com isso, pois Malu estava
em coma, e mesmo que Erick quisesse ligar para ela, não teria como
ela atender.
Erick deitou-se no sofá.
- Agora vou relaxar um pouco.
Minutos depois o interfone tocou. Era dona Lúcia. Ele deixou
que ela subisse, pois mesmo sem se lembrar dela, sua voz era
realmente bem familiar para ele.
- Filho, como você está?
Erick não se lembrou dela, mas sentiu algo muito bom ao vê-
la. Ela o abraçou.
- Eu soube do acidente e vim cuidar de você. Eu estive no
hospital e disseram que você teve alta. Pensei que sua namorada
estivesse aqui cuidando de você.
- Bem... ela até quis ficar, mas eu preferi ficar sozinho. Eu to
muito confuso ainda. E que bom que você veio, aliás onde você mora?
Não me lembro de nada e talvez você possa me ajudar a lembrar de
muita coisa.
A mãe lhe contou toda a sua história, desde quando eles
moravam no interior, até ele se mudar para o casarão dos avós, e
depois para o apartamento. De lá pra cá, ela não havia acompanhado
a vida do filho de perto, então não podia ajudar muito. A última vez que
eles tinham se visto, foi quando Erick levou Malu no interior para
conhece-la.
Erick conseguiu se lembrar de algumas coisas de sua infância
e de seu pai, que não era muito legal com ele, mas não se lembrou de
Malu, que fizera parte de sua vida naquele casarão. Ele também se
lembrou de alguns momentos que havia passado com a mãe.
- Mãe, você conhece uma tal de Malu?
- Conheço, filho. Ela era sua melhor amiga, quando tinham uns
doze, treze anos...
- Mas só nesta época?
- Não sei, querido. De lá pra cá não nos falamos muito. E dias
antes do acidente você me ligou pedindo que eu viesse conhecer sua
namorada. Mas você não me contou detalhes. Até pensei que poderia
ser a Malu, já que vocês pareciam tão amigos!
- Ela não é minha namorada, por mais que o Leandro, meu
amigo diga isso. Talvez em me lembre dela quando a vir
pessoalmente. O médico me contou que ela estava no carro comigo,
no momento do acidente, mas eu não consigo me lembrar dela. Ela
acabou ficando em coma.
- Nossa, filho, que situação! Foi seu amigo Leandro que me
ligou contando sobre o acidente... eu só estava esperando você
acordar para vir te visitar, e também para te ajudar no que precisar.
- Que bom que você veio, porque eu to muito confuso. Você vai
ficar aqui por muito tempo?
- Não sei ainda, filho. Como eu disse, temos negócios no
interior e seu pai ficou lá sozinho, cuidando de tudo. Mas eu posso
ficar aqui por uns dias, até você se recuperar um pouco mais.
Dona Lúcia abraçou o filho.
- E a Malu? Você não se lembra de nada mesmo? Será que
não é sua namorada? Você disse que o Leandro insiste em dizer que
ela é sua namorada... afinal, quem é?
- Ah, bem... o nome dela é Clara. E se a Malu fosse mesmo
minha namorada, eu teria me lembrado, e teria também várias
lembranças de nós dois..., Mas aqui em casa só encontrei lembranças
minhas com a Clara.
- Entendi, filho. Eu só achei que você gostasse mais da Malu,
porque você só levou ela para conhecer a roça. E eu me lembro de ter
conversado bastante com a Malu, demos boas risadas.
- Estranho mesmo. Talvez eu acabei trocando ela pela Clara, já
que a Clara me disse que a Malu tem um caso com o Leandro.
Um silêncio tomou conta daquele momento. Em instantes, Erick
quebrou o silêncio:
- Acho que vou ao hospital amanhã. Eu preciso ver a Malu.
Preciso ver o que sinto quando chegar perto dela.
- Você ainda não tinha carro. Pelo que sei, você andava de
bicicleta. Será que esse carro era da Malu?
- É, não sei, preciso que a Malu saia do coma e que o Leandro
volte logo da viagem, assim eles me explicam melhor tudo.
- A sua avó, que infelizmente já faleceu, sabia de toda a sua
vida, porque vocês moravam na mesma casa. Quem sabe você não
volta no casarão com sua namorada pra tentar se lembrar de alguma
coisa importante. O seu avô não anda muito bem da cabeça, então
não pode ajudar também.
No dia seguinte, Erick foi ao hospital.
- Oi doutora, vim visitar a Malu.
- Ah, sim, sua amiga está na mesma. Permanece desacordada.
E você, como se sente?
- Eu me sinto ótimo!
- Que bom. Pode me acompanhar, por favor.
Erick entrou no quarto de Malu e sentou-se na cadeira. Ele
olhou para ela e pensou:
- Então essa é a Malu. É muito bonita! Não seria um absurdo
se ela fosse minha namorada, em vez da Clara.
Ele disse à Malu:
- Olha, eu só espero que você acorde logo, preciso saber
exatamente quem é você. Talvez você saiba me dizer se a Clara é
mesmo a minha namorada. Você parece um anjo, dormindo.
Depois abaixou a cabeça e continuou:
- Como eu queria que você respondesse. Será que pode me
ouvir?
Enquanto Erick estava fora de casa, Clara entrou em seu
apartamento, pois havia feito uma cópia das chaves, para depois, caso
Erick perguntasse, ela dissesse que ele havia entregue as chaves a
ela antes do acidente.
- Oi amor, como você es...
Dona Lúcia apareceu na sala. Clara levou um susto, quando a
viu sentada no sofá.
- Ops... quem é a senhora? E cadê o Erick?
- Eu sou a mãe dele. E você é quem?
- Eu sou Clara, a namorada dele. Muito prazer!
- Ah sim, o Erick falou de você. Não sabia que você tinha a
chave daqui.
- Pois é, ele me passou, já que estamos quase noivos...
- Noivos? – Assustou-se dona Lúcia.
- É modo de dizer que estamos bem próximos – respondeu
Clara e riu, sem graça.
Elas sentaram no sofá para conversar melhor e a mãe de Erick
quis saber mais sobre o relacionamento dos dois.
- Então você tem cuidado do meu filho esses dias...
- Claro, como sempre. O Erick é um menino ainda, e eu vivo
tomando conta dele, ainda mais depois que cismou de beber... E todo
dia eu tenho que vir aqui, porque ele bebe e bagunça a casa toda. Por
isso achei melhor ficar com a cópia da chave. A propósito, ele se
lembrou da senhora?
- Lembrou sim, nós conversamos bastante. Contei a ele toda a
história de sua infância no interior e depois no casarão. Contei também
que ele tinha levado a Malu pra me conhecer...
- E ele disse alguma coisa?
Dona Lúcia estranhou a reação de Clara, quando mencionou o
nome Malu.
- Alguma coisa como?
- Sei lá. É que do jeito que ele está, pode pensar que tem ou
teve alguma coisa com a Malu, já que eles eram tão amigos. Sabe
como é... eu não aguentaria perder o Erick.
Dona Lúcia sorriu desconfiada. Clara continuou:
- Por falar nele, onde ele está? Estamos conversando há um
tempão e ele nem apareceu.
- Ele disse que ia no hospital ver a Malu.
- Como assim foi ver a Malu?
- O que foi?
Clara disfarçou, rindo sem graça.
- É que... não é bom o Erick ficar saindo sozinho por aí, ele não
se lembra de nada. Pode se perder.
- É só isso? Ah, então vai atrás dele, se está tão preocupada.
Ele disse que pegaria um táxi pra ir e voltar. Até anotou o endereço
pra saber chegar direitinho.
- A senhora tem razão. Eu estou preocupada à toa. Eu vou
esperar por ele aqui, posso?
- Pode sim, é bom que você me faz companhia.
Dona Lúcia perguntou:
- Vocês estão juntos há quanto tempo?
- Então, a gente já namora há um tempão, nossa! Tipo uns três
anos, e como eu disse, estamos quase noivos.
Minutos depois, Erick chegou em casa.
- Oi mãe, voltei. Ah, oi Clara, você por aqui?
Erick estranhou que Clara estivesse lá e pensou que sua mãe
tivesse aberto a porta para ela, por isso não disse nada.
- Oi, amorzinho! – Respondeu Clara, abraçando o “namorado”
e continuou – Ficou surpreso?
- Não, eu só não esperava te ver aqui tão cedo.
- Senti saudade, e sua mãe e eu nos demos super bem. Ela é
um amor!
- Ah, que bom!
- Soube que foi ver Malu, ela melhorou?
- Tá na mesma, nem se mexe. Eu só não entendo porque ela
estava no carro comigo, na hora do acidente.
- Senta aqui que eu te explico. A Malu tinha brigado com o
Leandro na balada. Eu acabei indo embora mais cedo da balada e não
pude ficar com você. Então... a parte que vocês entraram no carro eu
não vi. Mas talvez você tenha se oferecido para dirigir, porque ela
estava fora de si, depois da briga. Só que você tinha bebido além da
conta.
- E por que você teve que ir embora mais cedo?
- Um probleminha com o meu avô. Eu moro com ele e, ele não
estava se sentindo muito bem, aí me ligou.
- Entendi... E o Leandro, por que será que não fez nada para
impedir, já que eu estava bêbado?
A mãe de Erick interrompeu:
- Filho, até eu que não convivo muito tempo com você sei como
é. Quando você coloca uma ideia na cabeça ninguém tira.
Erick não se sentia muito bem, sentia ainda um pouco de culpa
pela Malu.
- A Malu tá em coma, isso é muito sério. E se ela não acordar
mais, ou demorar muito tempo? Eu me sinto mal por isso. Se eu quis
dirigir, então a culpa dela estar nesse estado é minha.
Clara tentou acalmá-lo:
- Não fica assim, amor. Não é culpa sua, a Malu sabia que você
estava bêbado e mesmo assim deixou você pegar no volante.
- Pois é, filho, todos foram irresponsáveis de beber a esse
ponto.
A mãe de Erick disse que estava cansada e foi para o quarto
deitar um pouco. Ela lhe deu um beijo na testa, dizendo:
- Fica bem, filhinho.

Capítulo 8

Erick aproveitou a visita de Clara e a convidou para dar uma


volta.
- Onde podemos ir?
- Eu sei de um lugar perfeito!
Clara foi esperta e o levou até a pracinha. Durante o passeio,
Erick admirava a natureza daquele lugar. Clara disse:
- Você adorava vir aqui na praça. Foi aqui que você se declarou
para mim. Era tão apaixonado! Espero que um dia você se lembre
desses momentos. Se não lembrar, não tem problema. Eu sempre vou
te amar, e podemos começar tudo de novo.
Eles se beijaram. Depois ela perguntou:
- Meu beijo te faz lembrar algo?
- Talvez, é um beijo tão doce... E essa praça...
- Que foi?
- Não sei, me veio a imagem da Malu na cabeça, não consigo
parar de pensar nela lá no hospital, daquele jeito.
- Esquece ela, amor! Você está preocupado demais, isso vai te
fazer mal.
- Tudo bem, amor, me desculpe.
- Você me chamou de amor?
- Ué, eu não te chamava assim antes?
- Não, quer dizer, nem sempre. Mas é tão bom ouvir isso
assim, tão espontâneo.
Clara mais uma vez beijou Erick. Ela era louca por ele e não
podia perder uma única oportunidade de beijá-lo.
Mais tarde, Erick voltou para sua casa. Sua mãe estava no
sofá.
- Oi mãe, voltei. Que bom que está acordada, preciso falar com
você.
- Ah, senta aí, meu filho. Pode falar, estou aqui para te ajudar
no que precisar.
- Então, eu me diverti muito com a Clara hoje. Acho que ela tá
certa, parece que nos conhecemos há anos! E eu sempre me sinto
muito bem ao lado dela, bem à vontade!
- Hum, mas você conseguiu se lembrar de mais alguma coisa?
- Sim, eu me lembrei da Clara e eu na cama, namorando.
Tendo uma noite de amor. E a cena foi tão nítida!
- Nossa, filho! – Respondeu dona Lúcia, constrangida - Mas
que bom! Espero que isso seja mesmo uma lembrança. Andei
pesquisando sobre sua amnésia e em alguns sites diz que o cérebro
pode fazer confusão ao se lembrar de cenas.
- Ixi... espero mesmo que tenha sido uma cena vivida por mim.
Erick pensou um pouco, depois continuou:
- Será que a Malu pode me ouvir, mesmo em coma? Queria
tanto poder conversar com ela, quem sabe ela não acorda, me
ouvindo.
- Eu acredito que pode te ouvir sim, filho. Só não sei se,
quando ela acordar, vai se lembrar do que você disse enquanto ela
estava em coma.
- Não importa. Ela precisa acordar logo. Vou continuar me
sentindo culpado, enquanto ela não acordar. Acho que vou visitá-la
amanhã de novo.
A mãe de Erick lembrou-se dos desenhos dele:
- Filho, por que você não vê os seus desenhos? Eu também
tenho um guardado comigo há anos. Eu sempre mostro orgulhosa pra
todo mundo no interior e digo que meu filho é um ótimo desenhista.
Olha!
Era o desenho da árvore. A árvore de Erick e Malu.
- Essa árvore, mãe! É tão linda! – Erick animou-se. - Eu me
lembro dela. Onde ela está?
- Ela ficava no lote, ao lado do casarão onde você morava com
seus avós. A árvore foi cortada há alguns meses, infelizmente; eu
lembro muito bem de quando você me ligou chorando por causa disso.
E disse que essa árvore era muito especial pra você. Era embaixo dela
que você passava as tardes com seus amigos, especialmente a Malu.
Mas eles construíram um prédio...
Erick entristeceu-se, ao se lembrar da árvore, sabendo que ela
tinha sido cortada.
- Por que disse “especialmente a Malu”?
- Porque uma vez você me disse que a Malu ficava as tardes
com você, embaixo da árvore, conversando e estudando. Você podia
até namorar a Clara, mas era com a Malu que você passava a maior
parte do tempo. Eram amigos inseparáveis. Sua avó que sabia o
quanto vocês eram “grudados”.
- Que estranho, e será que a Clara não sentia ciúmes?
- A Clara? Acho que é a menina mais ciumenta que eu
conheço. Olha, você pode ficar com ele, se quiser – disse dona
Carmem, entregando-lhe o desenho -, pode te ajudar a se lembrar de
mais alguma coisa.
- Sim, eu vou ficar com ele. Obrigado, mãe. Essa árvore me
inspirava a desenhar... E me veio uma imagem de uma menina linda...
- Como é essa menina?
- Eu só vi os olhos esverdeados e um sorriso, um sorriso
brilhante... pode ser a Clara... ou a Malu. Eu devo ter feito um desenho
dessa árvore pra elas também, o que acha?
- Depois pergunta pra Clara, filho. A Malu não pode ajudar
agora. A menos que a gente consiga falar com a mãe dela.
- Tem razão. Depois vou ligar para o Leandro e pedir o número
da mãe da Malu. Acho que tem o número dele no meu celular.
Dona Lúcia balançou a cabeça, concordando.
- Se a Clara é sua namorada, então com certeza tem algum
desenho seu, você sempre gostou de presentear as pessoas com
seus desenhos. Quanto mais imagens melhor, filho.
Erick se levantou do sofá e dirigiu-se até o armário da sala,
onde guardava suas coisas. Ele pegou uma pasta e dentro dela havia
vários desenhos.
- Olha, eu desenhei uma moça.
- Que desenho lindo, filho. E me fez lembrar a Malu.
- Ela se parece com esse desenho?
- Sim. Bom, a última vez que a vi vocês ainda eram crianças.
Mas parece, sim. Você que a viu no hospital, acha que se parece com
ela?
- Não sei, não deu pra ver direito, porque está cheia de
aparelhos no rosto, mas ela é morena, de cabelos lisos e castanhos.
Não sei como são os olhos dela...
- São dessa cor, igualzinho ao desenho.
Mais tarde, Clara voltou ao apartamento de Erick, levando seu
celular. Erick achou estranho ela ter entrado sem tocar o interfone.
- Você tem as chaves?
- Sim, amor, eu pedi a você quando cismou de beber quase
todos os dias. Você bebia muito e até passava mal, por isso achei
melhor ter as chaves, caso eu precisasse entrar pra te socorrer.
- Entendi. Acho que eu era um alcoólatra, todo mundo diz que
eu bebia muito. Por que será que eu era assim?
- Por causa da Malu! Ela ficava no nosso pé o tempo todo e
você já tinha perdido a paciência com ela.
Erick tentou entender melhor, e perguntou:
- Como era o relacionamento entre você e a Malu?
- Já fomos amigas. Mas ela não nos deixava namorar em paz.
Nos últimos meses ela acabou ficando com o Leandro, já que você
não quis nada com ela, de jeito nenhum.
- Engraçado, eu e a Malu éramos também muito amigos.
- Como sabe? Você se lembrou de alguma coisa?
- Sim, de quando eu ficava embaixo da árvore com ela. E não
me lembro de você lá com a gente...
Clara precisava pensar bem no que dizer a Erick, porque ele ia
acreditar em suas palavras. Ela não podia engasgar na hora de contar
suas mentiras, teria que ser convincente.
- Sabe o que é, amor, você e a Malu eram muito amigos, sim,
porque eram vizinhos. E eu morava longe, não podia ficar sempre com
vocês. Mas isso faz tempo, ainda tínhamos doze ou treze anos.
Quando eu fiz quinze, você me pediu em namoro. Porque, apesar de
ser muito amigo da Malu, era de mim que você gostava de verdade.
Clara havia conseguido enganar Erick direitinho. Ela sempre
tinha as respostas certas na ponta da língua. Erick sorriu.
- Você é mesmo muito linda! Sabe do que eu lembrei? Da
gente namorando, num escurinho aconchegante...
- Jura? Que bom, meu amor!
Eles se beijaram. Foi um beijo demorado. Erick estava se
apaixonando por Clara de verdade. Ele mal podia imaginar que seu
grande amor estava em coma e não podia se defender das mentiras
de Clara.
- Olha só amor, eu trouxe a nossa música – disse clara, após o
beijo. - Agora tenho certeza de que você vai se lembrar de como
éramos felizes.
Clara colocou a música “Be With You”, que era dele e da Malu,
para tocar em seu celular. Erick ouviu com atenção. Não conseguia se
lembrar da música, mas sentou algo bom ao ouvi-la.
- Você vai ter que ter muita paciência, eu to muito confuso. Mas
essa, com certeza, é a música mais linda que já ouvi.
- É nosso tema de namoro!
Clara não suportava ouvir aquela música. Mas, por Erick, ela
faria qualquer esforço.
- Agora eu sei que tipo de música eu gosto. Qualquer dia
desses a gente podia voltar lá na tal balada, quem sabe eu não me
lembro de mais alguma coisa?
Clara pensou:
- Não, é melhor não, ele pode se lembrar que dançou a noite
toda com a Malu e o Leandro, e nem me viu por lá. Ele não dançou, só
ficou bebendo, mas esteve apenas com os dois, e não comigo.
Depois respondeu:
- Sim, amor, qualquer dia desses a gente vai. Mas sem pressa.
Erick pegou seu desenho da árvore e mostrou à Clara.
- Eu, por acaso, já te dei um desenho igual a esse, da árvore?
Clara lembrou-se da árvore que ela odiava chegar perto,
simplesmente porque era dele e da Malu. E fingiu que não sabia de
nada.
- Não, você não me deu um desenho desse. Deve ter dado à
Malu, já que vocês dois ficavam lá. Eu não vejo nada de mais nessa
árvore.
- Como não? Ela era incrível! Pena que foi cortada...
- Sim, amor, por isso não é bom ficar lembrando dela.
- É, tem razão. Eu já te dei algum outro desenho?
- Não... quer dizer, alguns, mas estão lá em casa bem
guardados, eu te mostro depois.
Clara mexeu no armário da sala e disse:
- Olha o que achei, amor.
- O que é isso?
- São fotos de quando você era pequeno.
- Que legal!
- Olha como você era bonitinho!
- Eu era?
Clara riu.
- Eu quis dizer que você é bonitinho desde essa época.
Eles riram muito vendo as fotos. Mais tarde, Clara precisou ir
embora. Na hora de se despedir, ela o beijou e disse que o amava.
- Eu também te amo – respondeu ele.
Clara ficou muito feliz com aquilo. As coisas estavam saindo
como planejado. Erick estava gostando dela e era tudo o que ela
sempre quis.
Na tarde em que ocorrera o acidente, Clara já havia sentido
que Erick estava na dela, pois tinha sido tudo tão perfeito.
Antes que ela saísse pela porta, Erick a puxou pelo braço e lhe
roubou outro beijo. Ela saiu toda sorridente.
No dia seguinte, Erick foi ver Malu no hospital. A médica o
chamou e disse:
- Oi Erick, tudo bem? Veio ver a Malu?
- Sim, ela tá melhor?
- Bem, os exames mostraram que ela possivelmente não terá
nenhuma sequela quando acordar. Mas só teremos certeza quando
ela acordar. Isso não é ótimo?
- Claro que sim! – Ele respondeu muito feliz, e entristeceu-se
logo depois – Pena que não sabemos quando isso vai acontecer. Pode
demorar muito tempo, ou pode ser que ela acorde amanhã mesmo.
Ele entrou no quarto de Malu.
- Oi Malu, eu ainda me sinto culpado pelo que houve com você,
eu só queria que você me perdoasse quando sair daqui. E por mais
que você queira atrapalhar o meu namoro com a Clara, eu não sinto
raiva de você. Olhando pra você eu sinto uma coisa boa. Acho que já
fomos muito amigos, por isso essa consideração por você.
Voltando para casa, aproveitando que estava sozinho, Erick
telefonou para Leandro. Ele atendeu com uma voz cansada.
- Erick? O que aconteceu pra você me ligar a essa hora?
- Oi Lê. É ainda estranho te chamar assim, mas já que disse
que é seu apelido...
- Tudo bem. Quantas horas por aí?
- Aqui já são dezessete.
- Aqui é bem tarde. Mas pode dizer, o que aconteceu?
- Eu tô precisando do telefone da mãe da Malu... qual o nome
dela mesmo?
- Ah, sim, dona Carmem. Mas o que houve, a Malu acordou?
- Infelizmente não. Eu quero muito conversar com ela.
Leandro passou o número de dona Carmem, mas disse que ele
já tinha falado com ela há uns dois dias e que logo ela estaria
chegando na cidade para ver a filha.
- E você, como está? Já parou de dar papo pra Clara?
- Não, eu gosto dela, não posso parar de falar com ela.
- Não digo parar de falar, e sim parar de achar que ela é sua
namorada. Ela não é. Você sempre foi louco pela Malu, cara. Deixa de
ser bobo, caindo na conversa da Clara. É isso que ela quer e, pelo
jeito está conseguindo.
Erick contou que havia se lembrado da cena em que ele e
Clara namoravam, em sua cama.
Leandro assustou-se.
- Como assim, lembrou de uma cena dessas? Isso nunca
aconteceu! Tem certeza de que não estava sonhando?
- Não, eu estava bem acordado. E por que isso nunca
aconteceu? Como sabe do que eu fazia com a Clara. Somos
namorados. E acho que esse tipo de coisa eu não te contava.
Leandro não estava conseguindo acreditar no que acabara de
ouvir. Se Erick se lembrara daquela cena, ela realmente poderia ter
acontecido, e isso significava que ele havia traído a Malu. Ou ele
estava muito confuso, misturando cenas.
- É, foi mal, cara. É que... eu não sabia que você e a Clara...
bem, você sabe.
Leandro não conseguia acreditar no que havia escutado. E, se
Erick estava se apaixonando por Clara, seria melhor para ele, assim
poderia conquistar a Malu, ainda mais agora, sabendo que eles
possivelmente haviam tido um momento íntimo, que ele nunca tinha
tido com Malu. Malu talvez não perdoaria isso, se soubesse.
Erick se despediu e pediu desculpas por ligar para o amigo
àquela hora.
Leandro desligou o telefone e pensou em Malu. O amor que
sentia por Malu, voltara a florescer em seu coração desiludido, e ele
agora voltara a ter esperanças. Ele queria muito que Malu acordasse
para saber se ela ia se lembrar de tudo, ou se ficaria como o Erick.
No dia seguinte, dona Carmem voltara do Canadá. Ela passou
no hospital para ver a filha. Estava inconformada com o ocorrido.
- Eu não posso acreditar que o menino que te amava fez isso
com você. O que deu na cabeça do Erick aquela noite?
Malu não mexia, não dava nenhum sinal. Dona Carmem
disparou a chorar e não conseguia mais parar. A enfermeira entrou no
quarto e pediu que ela se retirasse, e lhe deu um calmante.
Dona Carmem, ainda no corredor do hospital, ligou para a casa
de Erick, dizendo que ia visitá-lo. Dona Lúcia atendeu e disse que ela
podia ir, pois estavam todos em casa.
Em meia hora ela estava na porta do prédio, tocando o
interfone. Clara também estava lá. Não podia deixar dona Carmem
sozinha com Erick e dona Lúcia. Ela sabia do namoro da filha e ia
acabar desmentindo tudo.
- Erick! Que bom te ver! Fico feliz em ver que está bem, ao
contrário da minha filha.
- Oi, dona...
- Carmem! Ah, esqueceu o meu nome? Eu fico mais no
Canadá do que aqui, não é mesmo?
Dona Lúcia interrompeu:
- O meu filho... bem, ele perdeu a memória, não se lembra de
muita coisa.
Dona Carmem abraçou Erick e se lamentou.
- Você se lembra da minha filhinha, pelo menos? Vocês eram
tão felizes...
Clara apareceu na sala, naquele momento, não deixando que
dona Carmem continuasse a falar dos dois.
- Sim, mas isso faz tempo. Esqueceu que eu e o Erick estamos
juntos?
Dona Carmem estranhou. E não disse mais nada. Uma
sensação estranha pairava no ar. Ela se despediu e disse a Erick que
podia ligar para ela, se precisasse de algo. Dona Carmem disse aquilo
torcendo para que ele ligasse, para que ela contasse que ele estava
sendo enganado, pois não era possível que ele e Clara estivessem
juntos, se ela havia falado com a filha um dia antes do acidente e ela
não tinha comentado nada.
Erick havia percebido que dona Carmem tinha ficado estranha
e comentou:
- Mulher estranha. Do nada para de falar e quer ir embora.
- Ah, filho, coitada. Ela deve ter se lembrado da Malu e do
estado em que ela está, desacordada. Em vez de chorar aqui, ela
preferiu ir embora para chorar em casa.
Clara estava satisfeita, já que o que ela tinha dito havia feito
dona Carmem ir embora. Ela disse que dormiria ali, no apartamento de
Erick, caso ele precisasse de algo.
- Não precisa, minha mãe está aqui. E a dona Carmem também
se ofereceu para ajudar.
- Amor, você não está pensando em pedir ajuda para alguém
que você mal lembra o nome, está?
- Não, quer dizer, por enquanto não. Mas você pode ir embora.
Já me ajudou muito por hoje. Eu vou ficar com a minha mãe.
Dona Lúcia completou:
- Sim, amanhã eu devo voltar para o interior, por isso quero
aproveitar meu filho ao máximo!
Clara se despediu de Erick com um beijo. Erick não pareceu
gostar do beijo, talvez não era momento para isso. Estava muito
pensativo. Ele queria conversar com dona Carmem, mas teria que ser
longe de Clara.
Assim que Clara foi embora, ele perguntou à mãe:
- Você não achou estranho o jeito que a dona Carmem falou
que eu e a Malu éramos felizes? E do nada ela quis embora...
- É, eu achei mesmo. A Clara interrompeu. Parecia que ela
queria falar mais alguma coisa sobre vocês dois. Amanhã você
conversa com ela, mas não deixa a Clara saber de nada.
No dia seguinte, dona Lúcia arrumou as malas bem cedo e
partiu para o interior, afinal seu Correia precisava dela por lá. Erick já
estava melhor e podia investigar toda aquela história, sozinho. Antes
de ir embora, dona Lúcia disse ao filho:
- Se precisar conversar, pode me ligar a hora que for!
Assim que sua mãe foi embora, Erick ligou para dona Carmem,
pediu o endereço e foi até lá. Quando chegou na porta da casa de
Malu, ele teve um sentimento estranho. Não sabia o que era
exatamente. Ele olhou para trás, viu o casarão e teve vontade de
chorar. Depois tocou a campainha da casa de Malu. Dona Carmem
apareceu e abriu o portão, dizendo:
- Erick! Dá um abraço! Eu sabia que você ia aparecer.
Ela percebeu que os olhos dele estavam cheios de lágrimas.
- Ô filho, não fica assim. Quando se perde a memória e começa
a se lembrar de tudo, bate uma tristeza, mesmo.
Erick não conseguia parar de chorar. Dona Carmem o levou
para dentro de casa e lhe serviu um chá.
- Vamos conversar e você vai se sentir melhor. Que bom que
veio sozinho.
Erick tomou um gole do chá e reparou na sala da casa. Ele
sentiu como se estivesse em sua própria casa, e que podia confiar em
Dona Carmem. Ela continuou:
- A Clara é uma manipuladora. Você não percebeu que ela está
te enganando? Ela aproveitou que minha filhinha está em coma e que
você não se lembra de nada, para ficar com você.
- Não, dona Carmem. Mas ela me provou que somos
namorados. Ela me mostrou nossas fotos, nossa pracinha, nossa
música... me deu uma torta de chocolate, dizendo ser minha preferida.
- É claro, meu anjo, ela sabe de tudo o que você gosta e está
usando tudo para fingir que eram coisas que vocês dois gostavam,
mas você amava tanto a Malu... não pode acreditar na Clara.
Dona Carmem estava decepcionada. Ela e Leandro eram as
únicas pessoas que sabiam o quanto Erick era feliz com Malu. Ela
precisava convencer Erick sobre a verdade. E continuou:
- Eu só quero o seu bem. Eu tenho cara de quem está
mentindo?
- Eu entendo que você gosta de mim e quer me proteger, mas
eu ainda to muito confuso. Você não imagina como é não poder se
lembrar de nada e ter que confiar em palavras que todo mundo diz.
- Bem, você é quem sabe. Se prefere dar ouvidos à Clara, eu
acho que agora só a Malu acordando pra fazer você mudar de ideia.
- Não é que estou dando ouvidos à Clara. Eu só... estou
apaixonado por ela e...
- Tá aí, mais um motivo pra você querer acreditar nela! Você
acabou de dizer que está apaixonado por ela. Mas está agora, porque
ela deve estar fazendo de tudo para que isso aconteça. Antes você
amava a Malu.
Erick sentiu algo diferente. Aquela última frase que ouvira fez
sua cabeça girar; ele quase desmaiou. Mas conseguiu levantar a
cabeça e ir para casa. E ele ficou lembrando do que dona Carmem
havia dito o resto do dia:
- “Antes você amava a Malu”.
Erick tentava entender porque não havia nenhuma evidência de
que sua namorada era Malu, já que todos diziam isso. Ele só via fotos
dele com Clara, e tudo o que ele conseguia se lembrar era da tarde
em que ele e ela ficaram juntos, em seu quarto. Se ele amava tanto a
Malu, por que não conseguia se lembrar deles juntos? Seus
pensamentos estavam muito confusos. Erick precisava descansar,
depois de tantas informações.
Clara havia mandando várias mensagens a ele, pedindo para
passar a noite lá, mas ele nem respondeu. Ela pensou que ele
pudesse estar bebendo, de novo. E foi até seu apartamento conferir.
Assim que ela entrou no quarto de Erick, ele estava deitado, dormindo
profundamente. Clara achou melhor ir embora e deixa-lo descansar.
Mas antes, preparou um chá com torradas, como ele gostava e deixou
um bilhete: “Isso é para você saber que eu me preocupo com você. Eu
te amo.”

Capítulo 9

E durante um mês, Erick e Clara se divertiram juntos. Foram ao


parque, ao cinema, à lanchonete comer a torta de chocolate que Erick
tanto amava; além dos passeios frequentes, eles também namoraram
muito. Clara passava quase todos os dias no apartamento de Erick.
Ele estava tão apaixonado por ela que não queria pensar em
mais nada. Tentava ignorar tudo o que diziam sobre seu
relacionamento com Malu, e aproveitou aqueles dias para curtir a vida
com Clara, como se tivesse nascido de novo e precisasse viver tudo
novamente. Quando se lembrava de Malu, ele apenas desejava que
ela acordasse logo e o perdoasse pelo acidente.
Leandro voltou de sua viagem e foi ver o amigo.
- Surpresa! – Disse ele, e foi entrando no apartamento.
- Ah, oi Lê.
- Desculpa entrar assim, você não se lembra o quanto eu sou
um pouco doido. E somos amigos confidentes, por isso tenho essa
liberdade com você.
- Tudo bem... espero me lembrar disso um dia. Mas que bom
que voltou de viagem.
- Pois é, que bom que agora podemos conversar em paz e...
- Oi Leandro! – Disse, Clara, aparecendo na porta da cozinha.
Leandro queria conversar a sós com Erick, mas com Clara ali
perto, ouvindo e se intrometendo, seria impossível.
- Vem cá, a Clara está morando aqui? – Perguntou ele, em tom
mais baixo.
- Não, por quê?
- Eu queria conversar com você sobre a Malu – respondeu
Leandro, em tom mais baixo ainda.
- De novo esse papo?
- Tem muita coisa que você ainda precisa saber. E eu queria te
contar porque sou seu amigo.
Clara escutou essa última frase, foi até a sala e chamou
Leandro.
- Leandro, pode me ajudar aqui na cozinha, por favor?
- Mas eu nem sei cozinhar.
Clara puxou-o pelo braço.
Erick estranhou o jeito de Clara. Mas ligou a TV e deixou para
lá.
- Clara é meio estabanada, mesmo – pensou ele.
Na cozinha, Clara olhou com os olhos arregalados para
Leandro e disse:
- Você é burro ou o quê? Deveria aproveitar que ele perdeu a
memória e fazer o mesmo que eu, fingir que é namorado da Malu.
- E você não pensou se a Malu acorda e conta tudo? Não
sabemos se ela também perdeu a memória...
- Nem se ela vai acordar um dia. E se esse dia acontecer, até
lá eu posso até estar casada com o Erick, e ele vai me amar cada vez
mais. E você vai dar um jeito de ficar com ela.
- Mas o Erick é meu amigo. Ele deveria saber a verdade.
- Se depender de você, ele pode até saber, mas se depender
de mim, ele não vai acreditar em nada que você disser!
Erick levantou-se e foi até a cozinha.
- Tá tudo bem por aqui? Vocês parecem conversar mais do que
cozinhar...
- Tá tudo bem, sim, meu amor. Já vamos levar a lasanha pra
mesa. É que o Lê ficou tanto tempo viajando que aproveitei para
conversar sobre isso, enquanto preparávamos o almoço.
Clara olhou desconfiada para Leandro. Ele estava realmente
dividido. Não queria enganar o amigo, mas, por outro lado, queria
muito ficar com a Malu. Se Erick não se lembrava de nada, talvez não
fosse tão ruim ele não saber de nada do que passara com a Malu.
Afinal, ele estava começando uma nova vida ao lado de Clara.
Mas, e quando Malu acordasse? O que ia pensar? Com
certeza Malu sofreria muito em saber que seu grande amor teria se
envolvido com Clara, que sempre quis roubá-lo dela. E o pior, ela nem
poderia imaginar que, antes do acidente, Erick e Clara teriam tido
relações íntimas. Leandro realmente não sabia o que fazer.
Na mesa, Erick e Leandro conversaram sobre a viagem. Clara
não tirava os olhos de Leandro, querendo saber se ele já tinha
decidido o que fazer. Mas ele balançava a cabeça, negando.
Depois do almoço, Erick deitou um pouco para descansar.
Enquanto cochilava, ele sonhou que Malu tinha acordado e que eles
passeavam abraçados na praça, onde Clara o tinha levado. No sonho,
Malu chorava, dizendo que não queria perdê-lo, que já o tinha perdido
uma vez. Erick não respondia nada, porque não entendia direito do
que ela estava falando.
Enquanto Erick descansava, Clara e Leandro conversavam.
- Você vai me ajudar, ou não? É o melhor para todos. Você diz
ao Erick que tudo o que tinha dito antes sobre ele e a Malu era
mentira. A Malu vai preferir ficar com você, quando acordar e ver que o
Erick não a ama mais.
- Eu sei, amo a Malu há muito tempo. Mas o Erick é meu
melhor amigo. Em consideração à nossa amizade acho que prefiro
ficar calado.
- Se a Malu acordar querendo o Erick, eu posso contar que
fiquei com ele, antes do acidente.
- Tá maluca? A Malu vai odiar o Erick pra sempre. E você
também.
- Não me importo. Vai ser o único jeito dela não querer mais
ficar com ele. E aí, ela vai correr para os seus braços, porque ela sabe
que você gosta dela.
- Sabe como?
- Eu contei uma vez que você olhava diferente pra ela. Ela ficou
um tanto abalada com isso.
- Bom, não sabemos quando a Malu acorda, então você
precisa pensar nisso e decidir o quanto antes.
Uma semana depois, Leandro foi até o hospital e levou para ela
um vaso com begônias, suas flores favoritas. Uma vez, Malu havia
comentado que sua mãe plantara begônias em seu jardim e que ela
tinha amado, tornando suas flores favoritas a partir dali. Ele nunca se
esquecera disso.
Enquanto olhava para Malu, deitada, imóvel, parecendo um
anjo, Leandro pensava em como dizer a ela que a amava e que o
Erick estava agora com a Clara. Seria uma dor para ela saber sobre o
Erick, mas, se Leandro tivesse sorte, ela poderia chorar nos seus
braços e, assim, ele a consolaria.
Antes de sair do quarto, Leandro pegou na mão de Malu,
encostou-a sobre seu rosto e deixou uma lágrima escorrer. Depois
beijou sua testa e disse, baixinho:
- Eu te amo, Malu! Eu sei que você vai entender tudo.
Assim que saiu do hospital, dona Carmem entrou e viu as
flores. Não tinha nenhum bilhete. Ela pensou que pudesse ter sido um
presente de Erick. Talvez o coração dele ainda soubesse que amava
Malu, e não Clara, como ele pensava, e que ele tinha se lembrado das
flores preferidas da Malu.
Uma semana depois, as begônias ainda estavam lindas em
cima da mesinha do quarto de Malu, no hospital.
Para a surpresa dos médicos, naquela manhã Malu mexera
uma das mãos. A mão que Erick tinha segurado. Uma enfermeira viu e
correu para chamar a médica responsável pelo caso de Malu.
Todos ali ficaram felizes em saber da notícia. Dona Carmem
visitou a filha, Leandro também, mas Clara não tinha ido e disse à
Erick que era melhor ir somente quando Malu acordasse de vez. Não
ia adiantar nada eles irem, ela só tinha mexido a mão e, para ela, não
era nada de mais.
Os dias foram passando e Malu cada dia mexia uma parte
diferente do corpo, até que, numa madrugada, Dona Carmem fora
chamada ao hospital. Sua filha suava muito, mexia para os lados e
chamava pelo Erick. Mas ainda não tinha aberto os olhos.
Dona Carmem correu até o apartamento de Erick e pediu que
ele fosse até o hospital.
- Pra quê? – Intrometeu Clara. – Deixa ele dormir.
Erick acordou com o falatório e levantou-se, indo até a porta.
- O que houve, dona Carmem?
- Você precisa vir comigo. Só você – completou ela, olhando
para Clara. - No caminho eu te explico.
Erick vestiu um sobretudo por cima do pijama e foi com dona
Carmem até o hospital.
Assim que entrou no quarto de Malu, ela chamava por ele,
chorava, mas não acordava. Erick não soube o que fazer, apenas
segurou uma das mãos da menina, e ela se acalmou.
A médica explicou que ela poderia estar sonhando com ele e
quis saber o que ele tinha a ver com ela.
- Éramos amigos, que eu saiba.
- Mentira. Eu já disse um milhão de vezes que vocês se
amavam, mas você prefere ficar com a Clara.
- Eu amo a Clara!
- Não ama, nada! Você não viu como a Malu ficou bem, depois
que você apertou a mão dela?
- Qualquer um podia ter feito isso antes. Eu nem precisava vir!
- Quanta consideração, hein!
A enfermeira pediu silêncio.
Dona Carmem pediu desculpas e se recompôs. Erick abaixou a
cabeça. Assim que tudo se acalmou, eles foram embora.
Quando chegou em casa, Erick contou à Clara o que tinha
acontecido no hospital. Ela se irritou e disse:
- Tá vendo, amor? Da próxima vez que isso acontecer, é
melhor você ficar em casa. OU eu vou com você. Quem essa dona
Carmem pensa que é pra falar assim com você?
Na casa de Malu, dona Carmem pensava em como o Erick
havia mudado, depois que se envolveu com Clara. Ele não era mais
aquele menino educado que ela havia conhecido, e ele não gostava
mais de Malu. Não da forma como deveria. Tudo havia mudado. E,
quando Malu acordasse ela precisara fazer algo para que ela não
sofresse pelo Erick.
Assim que amanheceu, dona Carmem ligou para Leandro,
contando sobre a confusão no hospital aquela madrugada. Mais tarde,
ele foi até o hospital e pegou na mão de Malu, novamente. As
begônias ainda estavam intactas e coloridas. Ele disse à Malu:
- Eu não vou deixar você sofrer. Pare de sonhar com o Erick,
ele não quer mais ficar com você, mas eu quero. Eu sempre quis.
Dona Carmem estava ouvindo da porta, sem querer, pois havia
acabado de chegar e não quis atrapalhar os dois. Então ela soube
quem havia deixado as flores ali. E sorriu, aliviada, porque Leandro
estava ali com sua filha e não a abandonaria, como Erick havia feito.
Leandro continuou:
- Quando você acordar, vou me declarar e você vai se
apaixonar por mim.
Assim que Leandro beijou a mão de Malu, ela abriu os olhos.
Dona Carmem, que estava espiando escondido, entrou
imediatamente no quarto.
- Filha! Você está de volta!
- Mãe! Onde eu estou?
Leandro sorriu. Estava muito feliz. Mas esquecera de soltar a
mão de Malu.
- Lê? Por que está segurando a minha mão?
Ele soltou a mão de Malu, sem graça.
- Calma, filha, nós vamos te explicar tudo. Fique calma. Vou
chamar a médica e avisar que você acordou. Talvez ela precise te
examinar primeiro.
- Por que estou num hospital? Mãe, você sabe que detesto
esse lugar...
Leandro olhou para Malu. Ela olhou para ele, sem entender
ainda.
- E cadê o Erick? – Perguntou ela.
A médica apareceu e precisou examinar a menina. Dona
Carmem olhava para a filha, tão feliz que não continha o sorriso.
Depois que viram que Malu estava bem e que não havia tido sequelas,
a médica disse que ela seria liberada para voltar para casa no dia
seguinte.
Leandro e dona Carmem estavam aliviados com a notícia, e se
abraçaram.
Malu perguntou novamente sobre Erick. Ninguém respondeu.
Ela olhou para o lado e viu as flores em cima da mesa.
- Minhas flores favoritas! Foi o Erick, não foi? Ele não pôde vir e
mandou as flores.
Leandro aproximou-se de Malu e disse:
- Fui eu. Eu sabia que você gostava de begônias. Por isso eu
trouxe para alegrar o seu quarto. Você passou tempo demais aqui.
Malu agradeceu. Mas ela não esquecia Erick.
- Mãe, o que aconteceu? Como assim, eu passei tempo demais
aqui? E o Erick?
Dona Carmem pediu que a filha ficasse quieta, que assim que
ela tivesse alta e voltasse para casa, ela explicaria tudo direitinho, e
concluiu:
- O Erick não pôde vir mesmo.
Leandro foi embora e dona Carmem dormiu no hospital,
esperando que sua filha tivesse alta logo. Mas ela só conseguiu sair
dali depois do almoço, no dia seguinte.
Elas chegaram em casa à tardinha. Malu correu para seu
quarto. Sua mãe foi atrás e pediu que ela não ligasse para Erick,
porque ele não podia atender.
Leandro mandou uma mensagem para Malu, dizendo que
precisava falar com ela. Ela disse que precisava dormir, porque no dia
seguinte ia até a casa de Erick. E, temendo que Malu ficasse
desapontada ao ver que Erick não era mais apaixonado por ela,
Leandro foi até a sua casa, insistindo que eles precisavam conversar,
ela querendo ou não.
Dona Carmem viu que Leandro subia para o quarto da menina,
pediu:
- Por favor, não conte nada sobre a Clara, por enquanto. Vai
ser um choque.
- Então o que eu vim fazer aqui? Eu quero evitar que ela tenha
essa decepção amanhã, na casa dele. Prefiro adiantar o assunto.
- Apenas conversem sobre o acidente.
- Desculpa, dona Carmem, mas uma hora ela vai saber. E é
melhor que seja o quanto antes.
Leandro entrou no quarto de Malu.
- Você se lembra que sofreu um acidente?
- Mais ou menos. Eu lembro de ter entrado no meu carro, mas
quem dirigia era o Erick. Sim! Ele estava bêbado!
- Pois é, eu também tentei impedir que ele acelerasse o carro,
mas infelizmente vocês bateram em um caminhão.
Malu, assustada, prestava atenção ao que Leandro contava.
- E assim aconteceu tudo. Não sabemos porque o Erick bebeu
tanto aquela noite, ele estava muito mal. Mas o acidente foi muito
grave. Tão grave que você ficou em coma e ele perdeu parte da
memória.
- Como assim, Lê?
Leandro respirou fundo e continuou:
- Meu amigo não é mais o mesmo. Ele não se lembra de muita
coisa, inclusive de você.
- O Erick não se lembra de mim?
- Lembra que vocês eram amigos, mas não que vocês
namoravam.
Malu sentiu algo horrível e quase desmaiou.
Leandro a segurou para que não caísse no chão, e ela acabou
deitando na cama, permanecendo imóvel. Estava em choque, como
dona Carmem havia dito que aconteceria.
- Malu, fala alguma coisa.
- O Erick não se lembra de mim. O que quer que eu diga? –
Disse Malu, enquanto se levantava da cama.
Leandro tentou abraça-la, mas ela não quis.
- Eu preciso entender essa história. Eu duvido que, se ele me
ver pessoalmente, não vai se lembrar de mim. Amanhã vou até a casa
dele.
- Não, Malu, por favor, é melhor que não vá. Ele não vai se
lembrar e você vai ficar muito chateada.
Dona Carmem entrou no quarto e falou com a filha:
- Escuta seu amigo. Ele só quer o seu bem. Talvez seja melhor
você não ir. Eu posso ligar para ele e avisar que você acordou do
coma. Se ele quiser vir te ver, é melhor.
Malu fingiu concordar com a mãe, para que ela saísse do
quarto, mas já tinha decidido ir até a casa de Erick no dia seguinte, e
mostrar todas as coisas boas que eles tinham vivido, para ele se
lembrar na marra.
Assim que Leandro foi embora, Malu começou a juntar as fotos,
os desenhos e outros presentes que Erick lhe dera, e colocou tudo em
uma sacola. Ela escondeu a sacola embaixo da cama, caso sua mãe
entrasse no quarto.
- O Erick precisa se lembrar de mim. Ele me amava mais do
que tudo! Por isso eu tinha medo de perde-lo. Aquilo que eu sentia no
dia do acidente não foi à toa, alguma coisa me dizia pra tomar
cuidado, mas eu não entendi o recado, e deixei ele beber a noite
inteira e ainda dirigir! Eu sou uma burra! – Pensou Malu, já deitada em
sua cama, pronta para dormir.
No dia seguinte, bem cedinho, Malu foi até o quarto de sua
mãe, para ter certeza de que dormia. Depois saiu de fininho.
O interfone de Erick tocou. Eram seis horas, e ainda estava
escuro. Erick não acreditou quando ouviu a voz de Malu. Clara ainda
dormia. Quando Erick abriu a porta, Malu o abraçou bem forte:
- Erick! Que saudade!
- Ma-malu? Você acordou?
- Sim, meu amorzinho, e estou aqui, de volta para você! Não
está feliz em me ver? Posso entrar?
Malu entrou e sentou-se no sofá. Erick não sabia o que dizer,
ficou sem reação. Ele não esperava ver Malu tão cedo. Já tinha
perdido as esperanças. E estava muito bem com Clara.
É claro que ele estava feliz e precisava do perdão de Malu,
mas estava ainda surpreso.
- O que foi, Erick? Até parece que você não está feliz em me
ver. Olha, eu acordei, nasci de novo! A médica me disse que você ia
sempre no hospital me visitar, mas ela disse que você perdeu a
memória... então você não se lembra de nós dois?
- Malu, eu to muito feliz por você ter acordado, inclusive eu
preciso te pedir perdão por ter acelerado o carro. Eu não lembro do
acidente, mas todos disseram que eu estava bêbado e dirigi, mesmo
depois de você entrar no carro para tentar impedir.
- Você está feliz em me ver, de verdade? Mas você se lembra
de mim, lembra que namorávamos?
- Infelizmente dessa parte eu não me lembro nadinha... eu e a
Clara estamos juntos agora. Ela inclusive está dormindo lá no meu
quarto
Malu não gostou do que acabara de ouvir.
- Você e a Clara, juntos? Não, meu amor, você não pode me
trocar por ela! Você me ama! Tudo o que nós vivemos foi em vão?
- Eu esperei você acordar para me contar tudo, mas agora eu
to apaixonado pela Clara. Eu não sabia quando você ia acordar e... eu
não podia deixar a minha vida parada daquele jeito, esperando por
você. E ela me convenceu de que eu e ela éramos namorados... eu
não me lembrava de nada, apesar do Leandro e da sua mãe disserem
que era mentira e que... era você que eu amava.
- Erick... eu não vou conseguir viver sem você. Era melhor que
eu nunca saísse do coma, do que ter que ouvir você dizer que está
com a Clara – respondeu Malu, quase chorando.
- Desculpa, Malu, não queria te deixar assim, mas eu não
consigo me lembrar de nada. Você pode dizer que éramos as pessoas
mais felizes do mundo. Pra mim, é como se eu tivesse nascido de
novo, estou vivendo tudo diferente, entende?
- Não, eu não entendo! A Clara te enganou esse tempo todo!
Não sei como ela fez isso, mas você caiu direitinho! Ela se aproveitou
da sua perda de memória... E eu também estava naquela cama sem
poder fazer nada! Que raiva!
- Eu sinto muito, de verdade, mas você me perdoa? Sei que o
acidente foi culpa minha.
- Eu te perdoo por estragar meu carro, até porque o seguro vai
me dar outro, e olha aqui, você não pode acreditar em nada que a
Clara disser sobre vocês dois. Porque nunca existiu “vocês dois”. É
tudo mentira! Eu e você éramos melhores amigos desde os doze anos
e namorados desde os quinze. Você sabe o que isso significava para
mim? Você foi meu primeiro amor... você vivia dizendo que nunca ia
deixar de me amar, independente do que acontecesse.
- Tá, mas é diferente! Eu não me lembro de nada, é como se
isso nunca tivesse acontecido para mim, como se eu nunca tivesse
vivido nada disso que todos insistem em dizer. Tenta entender meu
lado!
Clara acordou e foi na sala ver com quem Erick conversava.
Ela se assustou quando viu a Malu sentada no sofá.
- Malu?
- Clara, sua falsa! Conseguiu o que queria, meus parabéns! –
Disse Malu, batendo palmas.
- Calma, Malu. Eu posso explicar...
- Explica o quê? Que você enganou o Erick esse tempo todo?
Conta pra ele que era tudo mentira e que ele sempre me amou. Ele
nunca gostou de você! O Erick me amava! – Gritou Malu.
- Tem certeza?
Erick percebeu que a discussão estava ficando feia e foi para o
quarto. Ele não queria se envolver na confusão, porque não se
lembrava de nada direito. Qualquer coisa que ele dissesse podia piorar
tudo.
- Como assim? O que você quer dizer com isso? O fato dele
estar apaixonado por você agora não significa que ele nunca me amou
de verdade.
- Talvez. Mas talvez também ele estava de saco cheio de você
no dia do acidente, por isso bebeu demais na balada e não quis
dançar.
- Como sabe que ele não quis dançar? Você não estava lá.
- Eu estava, sim, mas preferi ficar longe de vocês, lembrando
do momento que passei com o Erick aquela tarde.
Malu engoliu seco. Não entendeu onde Clara queria chegar.
- Pois é, Malu! Você pensava que o Erick te amava, mas ele
me levou para a cama naquele dia, e ficamos horas agarradinhos, até
que você chegou para busca-lo. Ele não queria ir com você, queria
ficar ali comigo, curtindo o momento.
- Ele fez o quê?
Malu não conseguia acreditar no que Clara acabara de dizer.
Ela realmente ficou em choque.
- Agora diz que o Erick te amava! Você era só um enfeite para
ele, porque na hora do bem bom era comigo que ele ficava!
Malu voltou para casa decepcionada, chorando. Nem
conseguiu entregar a sacola para Erick. Ela não esperava que seu
grande amor a traísse, e com a sua amiga. Malu passou na praça,
onde eles namoravam e chorou muito.
Dona Carmem acordou e viu que a filha não estava no quarto.
Ela ligou várias vezes para Malu, mas ela não quis atender. Dona
Carmem acabou ligando para Leandro e pedindo que ele fosse atrás
de Malu.
Ele pensou que ela poderia ter ido à casa de Erick. E foi até lá.
Mas Clara atendeu e disse que não tinha visto Malu. Foi então que
Leandro se lembrou da pracinha, onde Malu e Erick costumava ir para
namorar. Ele foi até lá, e encontrou Malu aos prantos.
- Malu? O que aconteceu?
- O Erick e a Clara...
- Sim, eles estão juntos. Como soube?
- Eu fu até lá. Mas eles não estão só juntos.
- Como assim?
- Eles transaram! Você sabe o que isso significa?
- Sim, eles dormem juntos, é provável que eles façam essas
coisas juntos...
- Eu estou dizendo antes do acidente. A Clara me contou que o
Erick foi pra cama com ela e que eles passaram horas juntos! O Erick
me traiu da pior forma possível!
Leandro não soube o que dizer.
- Você sabia?
- Bem...
- Por que não me contou?
- Eu soube há poucos dias. Juro que no dia da balada eu não
sabia de nada ainda. Eu quis te contar ontem, mas você estava tão
animada pra ir atrás do Erick e fazê-lo lembrar de vocês dois juntos,
que eu nem tive coragem de contar nada.
Malu não conseguia parar de chorar. Leandro a abraçou.
- Eu sei que você não esperava isso. Mas olha, eu estou muito
feliz que você tenha acordado e está bem! Quero que saiba também
que você não está sozinha e que pode contar comigo sempre.
Leandro levou Malu para casa. Dona Carmem soube que a
filha tinha ido até a casa de Erick e que Clara a maltratou, e xingou a
menina:
- Eu disse que era melhor você não ir. Mas você é teimosa!
Malu subiu as escadas correndo e deixou a sacola com as
lembranças cair no chão. Depois entrou no quarto e bateu a porta.
- Ah, Leandro, eu tive que falar assim com ela. Quem sabe ela
não aprende a me ouvir! – Disse dona Carmem.
Leandro viu a sacola e pegou para ver o que era. Quando viu
que eram fotos e coisas importantes de Erick e Malu, ele subiu as
escadas e disse que ia devolver pra Malu. Dona Carmem foi para a
cozinha.
Leandro bateu na porta. Malu não quis atender.
- Malu, eu só quero devolver sua sacola.
- Depois eu pego. Eu quero ficar sozinha.
Ele deixou a sacola em frente à porta do quarto e desceu as
escadas.
- Dona Carmem, é melhor que fique atenta à Malu. Ela pode
fazer qualquer loucura. Não deve estar sendo fácil perder o Erick
desse jeito.
Mais tarde, Malu abriu a porta e pegou a sacola. Depois
mandou uma mensagem para Erick, marcando um encontro. Disse
que precisava mostrar umas coisas importantes a ele, e que ele
deveria ir sozinho.
No dia seguinte, no horário do encontro, Erick e Malu se
encontraram na praça.
- Oi Malu.
- Oi, Erick. Eu trouxe essa sacola com as nossas lembranças.
Queria que você olhasse tudo com carinho, para tentar se lembrar de
algum momento que passamos juntos. Por mais que você esteja com
a Clara agora, eu não queria que tudo o que vivemos apagasse
totalmente da sua memória, porque foi tudo tão incrível.
Malu abaixou a cabeça, entristecida, entregando-lhe a sacola.
Erick pegou e começou a olhar tudo.
- Posso levar pra casa, pra olhar com calma?
- Mas e a Clara? Se ela encontrar essa sacola vai jogar tudo
fora.
- Pode deixar que eu escondo em um lugar que só eu vou
saber. Não se preocupe. Depois eu te devolvo. Preciso estar sozinho e
concentrado para tentar me lembrar de tudo.
Malu pôs a mão no ombro de Erick e continuou:
- A Clara sempre quis ser sua namorada. E quando soube que
você havia me pedido em namoro no meu aniversário de quinze anos,
ela ficou com raiva e disse que não ia desistir de você.
- Malu, me perdoa por ter ficado em ela, antes da balada. Eu só
me lembrei desse momento, por isso, quando ela me disse que era
minha namorada eu não duvidei. Essa era uma prova bem concreta de
que estávamos juntos.
- Erick... por favor, eu não quero saber mais sobre isso. Eu
pensava que você me amava de verdade. Justo eu, que fazia tudo pra
te ver feliz, fui traída.
- Eu devia ser um idiota mesmo de não ter reconhecido isso.
Eu acredito no que está dizendo – e sorriu.
Erick mostrou à Malu o desenho da árvore.
- Por acaso você já viu esse desenho?
- Sim, claro, amor, quer dizer... Erick. Eu tenho um igualzinho lá
em casa. Foi embaixo dessa árvore que você me pediu em namoro.
Era a nossa árvore... Sempre que queríamos um tempo sozinhos, era
pra lá que íamos.
- Então a Clara me enganou mesmo. Ela me disse que eu a
havia pedido em namoro aqui nessa praça. Até levou uma torta de
chocolate no hospital e disse que era minha preferida e fez uma
lasanha de berinjela!
- Sim, Erick, ela sabia de todos os seus gostos e sempre nos
acompanhava em todos os lugares que a gente ia só para saber mais
sobre você. Às vezes até se escondia para prestar atenção em tudo. E
achava que eu não a via.
- Até a nossa música de namoro ela colocou pra eu ouvir.
- Não acredito. Aquela música era só nossa... e ela ainda dizia
ser minha amiga. Eu ficava perto dela, chamava ela pra ir nos lugares
com a gente pra ela não se sentir sozinha, e é isso que ela faz.
Também, podia esperar qualquer coisa da Clara, ela sempre foi louca
por você.
- Talvez seja por isso que eu fiquei com ela antes da balada. E
acabei me arrependendo e bebendo muito por ter te traído. Eu sinto
muito, mesmo – disse Erick, olhando bem fundo nos olhos de Malu.
Malu estava muito chateada com tudo aquilo. E pensou que, se
Clara não tivesse isso atrás de Erick naquela tarde, eles não teriam
ficado juntos e ele não teria bebido.
- Agora entendi tudo. O destino quis nos separar.
- O problema é que eu me apaixonei pela Clara, mesmo sendo
enganado. Ela conseguiu fazer com que eu gostasse dela.
Malu levantou-se do banco da praça para se despedir, e
continuou:
- Olha, Erick eu só queria que você se lembrasse de tudo. Já
que não vamos ficar juntos, pelo menos tenta se lembrar, porque no
meu coração esses momentos ficarão guardados para sempre.
Erick não soube o que dizer, percebendo algumas lágrimas
escorriam no rosto de Malu. Ele se levantou, querendo abraçá-la, mas
como não sabia que reação ela teria, preferiu não fazer nada.
- Eu tenho que ir. Qualquer coisa você ainda deve ter meu
número, é só me ligar.

Capítulo 10

Malu já tinha se recuperado e retomou sua vida normalmente.


Frequentava a faculdade e passou a conversar muito com Leandro.
Ele sempre ia à casa dela, esperando a oportunidade para se declarar.
O sorriso de Malu continuava o mesmo, e sempre que Leandro
estava perto dela, dava uma enorme vontade de beijá-la, mas ele
conseguia resistir. Ele a amava e não se importava se tivesse que
esperar muito tempo para ter seu amor correspondido; não queria
forçar nada, queria que Malu percebesse e se apaixonasse por ele
também, no tempo dela.
O avô de Clara estava muito doente e precisava dela por perto.
Ela voltou para casa, para ficar um pouco com o avô. Ele passava a
maior parte do tempo com uma enfermeira e outros empregados da
casa, mas queria que sua neta ficasse mais perto dele, já que poderia
“bater as botas” a qualquer momento, como ele mesmo dizia.
Erick finalmente pôde ter um pouco de paz, sem a Clara para
intrometer em todos os seus assuntos. Ele aproveitou para olhar o que
havia na sacola de Malu.
Viu todas as fotos, desenhos e presentinhos que havia dado a
ela, mas não conseguia se lembrar de muita coisa. Até que viu um
desenho de coração, que ele tinha dado a ela. Nele estava escrito:
“Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida!”. Uma lágrima
escorreu. Então ele se lembrou daquele dia.
- Peraí, foi nesse dia que eu disse à Malu que sempre a
amaria, não importando o que acontecesse. Eu lembrei disso!
Erick, por um momento, se alegrou e riu sem parar. Depois,
pensou:
- Tá, mas e daí. Eu lembrei desse dia, mas eu agora estou com
a Clara... eu gosto da Clara, mas acho que meu namoro com ela não é
igual ao meu com a Malu. Parecíamos realmente felizes.
Erick olhou novamente para as fotos dele e Malu, juntos e
felizes.
- Eu gosto da Clara, mas não sinto essa emoção toda, quando
estou com ela. Nem coração eu tenho vontade de fazer para
presenteá-la. Pode ser que, com o tempo isso aconteça. Ou não,
talvez se eu desse uma chance pra mim mesmo e ficasse com a Malu
de novo, poderia sentir o mesmo amor que sentia antes.
Clara telefonava e mandava mensagens para Erick o dia
inteiro, dizendo que sentia a falta dele e que logo estaria de volta,
assim que o avô dela melhorasse.
Erick não aguentava mais receber mensagens. Estava tão
cansado, que acabou dormindo em cima das coisas de Malu.
Mais tarde, o interfone tocou. Era Leandro.
- E aí, cara, tá melhor?
- Oi Leandro, quer dizer, Lê, eu tô mais ou menos.
Leandro viu as coisas da Malu espalhadas na cama de Erick.
- A Malu te entregou a sacola?
- Pois é, como sabe dessa sacola?
- Eu estou muito próximo da Malu. Eu estava com ela, no dia
que ela veio aqui te entregar, mas como a Clara acabou dizendo o que
não devia, ela foi embora chorando.
- Eu sinto muito. Mas você disse que está mais próximo da
Malu, em que sentido?
- Eu to pensando em me declarar pra ela. Eu vim aqui
justamente pra isso. Precisava te contar que gosto da Malu desde
quando a conheci, com quatorze anos. Mas como vocês se amavam,
eu fiquei na minha, não quis atrapalhar em consideração à nossa
amizade.
Leandro explicou que eles eram amigos desde pequenos,
quando o seu pai, que é mecânico, foi chamado na estrada para
consertar o carro do pai de Erick, que estava vindo do interior para a
cidade grande.
- Como você conseguiu acreditar na conversa da Clara, de que
vocês eram namorados?
- A Clara foi a primeira pessoa que vi, quando acordei, que
parecia bem familiar. Então acabei pensando que ela estivesse
falando a verdade e fiquei com ela. Eu me apaixonei, e me lembrei do
dia em que fizemos amor.
Leandro riu.
- Qual é a graça?
- Nada. Você falou de um jeito engraçado. Mas a questão é que
eu vou pedir a Malu em namoro. Já que agora você está com a Clara,
não tenho mais nenhum impedimento.
Erick olhou desconfiado para o amigo.
- A Clara às vezes me sufoca. Ela pensa que eu sou uma
criança e não sei me virar sozinho. O tempo todo ela quer ficar do meu
lado.
- Vai se acostumando, porque quando você namorava a Malu
era a mesma coisa. A Clara não desgrudava da gente. Ela é muito
carente, não tem amigos, nem parentes próximos, só o avô mesmo.
- E agora ele está doente, se morrer vai sobrar pra mim.
Erick queria dar uma chance para Malu, mas depois dessa
conversa, precisava pensar duas vezes. Ele gostava da Clara, e ela
precisava dele. Já a Malu poderia ficar com o Leandro, já que ele
gostava dela há muito tempo.
Certa tarde, Leandro e Malu estavam no jardim da casa dela.
Fazia muito calor e Malu perguntou se Leandro não queria entrar na
piscina. Eles nadaram por muito tempo, salpicaram água um no outro,
riram e se divertiram bastante.
Leandro foi ao banheiro. Assim que voltou, Malu saía da água,
balançando o cabelo. Ela viu que Leandro voltava, e sorriu para ele; o
sol batia em seu rosto, fazendo seu sorriso brilhar ainda mais.
Eles sentaram na beirada da piscina para pegar um pouco de
sol. Leandro olhou fundo nos olhos de Malu. Ela olhou de volta e
sentiu o coração bater mais forte. Ela pegou na mão de Leandro e
colocou em seu peito, para que ele sentisse o quão forte seu coração
batia. E, lentamente encostaram seus lábios. Foi um beijo tão doce e
demorado, que Malu estava nas nuvens.
Leandro não imaginava que beijaria Malu antes de se declarar,
mas nem foi preciso. Aquele beijo fez Malu entender, de uma vez por
todas, que Leandro realmente a amava, e há muito tempo.
Eles se abraçaram e ficaram ali fora, até o anoitecer.
Dona Carmem procurou pela filha e, quando olhou pela janela
da cozinha, viu os dois perto da piscina, juntos e felizes. Ela sorriu e
comemorou. Finalmente Malu ficaria com quem a amava de verdade.
Quando começou a esfriar, Leandro buscou uma toalha,
envolveu Malu e a aconchegou em seus braços. Eles ficaram um
tempinho ainda do lado de fora, observando a lua e as estrelas.
Ambos desejaram que aquele momento não acabasse nunca.
E Malu pensou:
- Dessa vez eu serei feliz de verdade. O destino não pode levar
o Leandro da minha vida. Se estamos juntos é porque tinha que ser
assim.
Dona Carmem fez um jantar, a pedido de Leandro, para que
pedisse Malu em namoro. Malu nem podia imaginar a surpresa que a
aguardava.
Leandro saiu da Faculdade e foi até a casa de Malu, para
ajudar dona Carmem com o jantar. Ele soube que Malu chegaria tarde
em casa naquele dia, pois ficaria mais tempo na Faculdade fazendo
um trabalho e, por isso, aquele seria o dia perfeito para fazer surpresa.
Quando Malu saiu da Faculdade, Erick apareceu para devolver
sua sacola com as lembranças. Ele quis abraça-la, mas ela achou
melhor que eles ficassem mais distantes um do outro. Erick estranhou.
- O que foi, Malu?
- Você está com a Clara, é melhor não.
- Tudo bem. Eu só vim te devolver a sacola.
- Obrigada. Você conseguiu se lembrar de alguma coisa?
- Sim, lembrei de muita coisa e confesso que fui um babaca por
ter te traído. Você não merecia.
- E você, está feliz com a Clara?
- Não sei. Ela está na casa do avô, ele está muito doente.
- O que eu quero saber é como está o relacionamento de
vocês.
- Bem... eu acho.
- Entendi. Eu preciso ir. Tchau.
Malu deu as costas a Erick. Ele a chamou:
- Malu, espera!
- O que foi?
- Se eu quisesse voltar pra você agora, você me aceitaria?
Malu não entendeu nada, e voltou para falar com Erick.
- Como assim, voltar pra mim? Você acabou de dizer que
estava bem com a Clara.
- É que... vendo todas aquelas lembranças eu pensei que
talvez pudesse... sei lá, talvez se ficássemos juntos de novo, eu
poderia voltar a te amar.
- Voltar a me amar? De onde tirou essa ideia absurda? Olha,
Erick, se você pensa que eu sou qualquer uma, que você pode ficar e
largar quando quiser, saiba que eu não sou desse tipo.
- Desculpa, Malu, não foi isso que eu quis dizer.
- Ah, não? Então não sei aonde quer chegar. E me dá licença
que já está tarde. Eu preciso voltar pra casa.
Malu voltou e concluiu:
- E fique sabendo que eu estou com o Leandro.
Erick não soube explicar suas intenções e ficou ali, vendo Malu
ir embora. Ele nunca mais teria chance de conversar sobre esse
assunto com ela.
Malu chegou em casa chateada, depois da rápida conversa
que teve com Erick. Leandro foi até a porta recebê-la.
- Oi, meu amor. Que cara é essa?
- Leandro? Você está aqui! Que bom!
Ela o abraçou tão forte e não conseguiu conter as lágrimas.
Dona Carmem estava na cozinha terminando de preparar o
jantar.
- O que aconteceu?
- O Erick me chamou na porta da Faculdade agora e disse
coisas absurdas.
- O Erick? Mas... o que ele disse?
- Disse que se eu voltasse pra ela, ele poderia voltar a me
amar, como antes. Isso me magoou tanto!
Leandro estava enfurecido, mas conteve a raiva, preferindo não
estragar o jantar e conversar com Erick depois.
- Ele não me conhece mais, pensa que sou qualquer uma.
- Ele deve ter um motivo pra querer voltar pra você. Mas talvez
não seja culpa dele, porque está meio confuso ainda.
- Não importa. Depois de tudo o que eu mostrei pra ele, as
lembranças, as fotos, os desenhos, ele ainda acha que sou uma
qualquer, que pode ficar com ele, esperando ele me amar de novo?
- Calma, meu amor. Não fique assim! Depois converso com ele.
- Não, deixa pra lá. É melhor esquecer isso. Você está aqui
comigo, você me ama de verdade e eu confio em você, sei que não vai
me decepcionar.
Eles se abraçaram. Leandro enxugou as lágrimas de Malu.
Dona Carmem veio da cozinha e viu Malu com o rosto
molhado, os olhos inchados e olhou para Leandro. Ele fez um sinal,
avisando que depois contaria tudo a ela.
- Vamos jantar? Está na mesa.
Os três sentaram-se à mesa. Dona Carmem não aguentou
esperar e perguntou à filha por que ela estava chorando, quando
chegou em casa.
- Nada não, mãe. Não se preocupe.
- Que bom, porque o Leandro me pediu pra fazer esse jantar
especialmente para vocês dois. Então, como eu já comi mais cedo,
vou deitar e deixar vocês sozinhos.
Malu olhou para Leandro e sorriu.
- Jantar pra nós dois? O que você está aprontando?
Leandro respondeu com apenas três palavras.
- Eu te amo!
Ele sentou-se na cadeira ao lado de Malu, pegou um anel de
compromisso e perguntou:
- Malu, quer ser minha namorada?
Ele fechou os olhos, com medo da resposta.
- Seu bobo, pode abrir os olhos. Por que tem medo da minha
resposta? Você sabe que o meu sentimento por você é o mais sincero
possível.
- Então, qual é a resposta?
- Sim! Claro que eu quero ser sua namorada! E eu também te
amo!
Eles se beijaram. Estavam muito felizes. Malu amava Leandro
de verdade, talvez até mais do que um dia já amou Erick. Ela agora
estava mais madura, tinha plena certeza de seus sentimentos.
Gostava muito da companhia de Leandro e ele demonstrava seu amor
por ela sempre que podia.
A noite foi longa. Assim que terminaram o jantar, foram para o
jardim e passaram o resto da noite abraçados, curtindo o ventinho e
olhando para o céu. Era sexta-feira, e no dia seguinte ninguém
precisaria acordar cedo. Dona Carmem preparou o quarto de
hóspedes para que Leandro pudesse dormir.
Dias depois, o avô de Clara havia falecido. Erick a acompanhou
no velório. Ela estava abalada e, mais carente do que nunca. Agora só
tinha o Erick para acolhê-la. Clara passou a morar no apartamento
dele, até que toda a situação da casa do avô, que seria vendida, se
resolvesse. O casarão rendou um bom dinheiro.
Clara e Erick resolveram viajar por alguns meses, para
esfriarem a cabeça, já que Erick precisava esquecer de vez a Malu e
Clara precisava esquecer a morte do avô. Eles conheceram vários
países da Europa.
Durante a viagem, Clara ficou grávida. Eles decidiram voltar
logo para o Brasil, antes que o bebê nascesse.
Leandro e Malu souberam da gravidez e, marcaram um almoço
na casa de Malu, para comemorarem. Aproveitariam para conversar.
Eles precisavam daquele momento, só dos quatro.
Na noite anterior ao almoço, Clara preparou a lasanha de
berinjela para Erick. Ele ficou muito feliz.
- Amor, você quer ser minha noiva?
- É sério isso?
- Sim, eu te amo e sei que isso é o que você mais quer! É o
que sempre quis, na verdade. E me desculpe se não te dei muita
atenção, quando você mais precisou de mim.
Depois do jantar, eles foram para o quarto e comemoraram o
noivado.
No dia seguinte, durante o almoço, Erick contou as novidades à
Leandro e Malu. Leandro comentou:
- Nossa, como você é rápido! Fico feliz que vocês tenham se
acertado de vez! E feliz também pela gravidez. Meus parabéns!
Malu ficara feliz também por eles, já que Erick finalmente teria
resolvido sua vida. Enquanto almoçavam, os quatro conversaram
sobre tudo, inclusive sobre algumas lembranças antigas. Lembrar de
tudo aquilo já não chateava mais Malu, que agora estava mais feliz do
que nunca.
No final do dia, Clara e Erick se despediram e, antes de voltar
para casa, eles pararam na praça para conversar. Erick passou a mão
na barriga de Clara.
- Estou sentindo nosso bebê chutar – e sorriu.
- Pois é, até ele está feliz que estamos juntos. Ele comemora
isso todos os dias, me dando cada chute! Você já percebeu que a
Malu e você nunca deram certo de verdade?
- Do que você está falando?
- Foi só uma coisa que pensei agora.
- Então me conta mais. O que pensou?
- Por mais que vocês tenham vivido uma linda história de
amor... a nossa história é muito melhor! Tem até um bebê! – Clara riu
e continuou - Eu acho que o Leandro e a Malu formam um belo casal.
Já achava isso antes, quando você e ela ainda estavam juntos.
- Sim, Clara, você tem razão. A minha vida é com você, a nova
vida que eu escolhi. E te prometo que nosso futuro será incrível!
- Eu sei disso. Não foi fácil conseguir ficar com você, mas valeu
a pena. Eu realizei meu sonho.
Eles se beijaram. Por mais que Erick não tivesse se
acostumado totalmente com o jeito de Clara, ele tinha feito sua
escolha, logo após o acidente. Ele estava vivendo uma nova vida ao
lado de Clara, aprendendo a lidar com os obstáculos a cada dia.
Erick voltou a trabalhar normalmente, apesar de não se lembrar
de tudo, mas isso não afetava seu desempenho.
Certo dia, Dona Carmem foi até o quarto de Malu para
conversar.
- Filha, eu pensei em me mudar para o Canadá.
- Mas mãe, você vai me largar aqui? Já não basta o papai ir
embora, e agora você?
- Ah, filha, esse tempo que eu passei fora me fez ver que lá
pode ser um lugar melhor para morar e trabalhar. Seu pai está
gostando muito de lá, e ele sente a minha falta.
- E essa casa grande, vai ficar só pra mim?
- Não, filha. O Leandro pode vir morar com você, e daqui a
pouco a casa vai encher de novo com meus netinhos...
- Mãe, não me faz chorar... você sabe que eu choro à toa. Tá
sabendo de alguma coisa que eu não sei?
Dona Carmem não conseguia esconder nada da filha. Mas
desta vez ficou de boca fechada.
Naquela mesma noite, Leandro pediu Malu em casamento.
Algumas semanas depois, dona Lúcia fez uma visita ao filho.
- Filho, vem cá me dar um abraço!
- Oi mãe, que bom que voltou!
Eles sentaram no sofá e sua mãe continuou:
- Como estão as coisas por aqui?
- Tá tudo bem, mas eu preciso te contar muita coisa que você
ainda não sabia.
Erick contou à mãe sobre seu namoro com a Malu no passado
e suas visões e lembranças. A mãe de Erick ficou chocada ao saber
que Clara havia enganado o filho e que a namorada dele era mesmo a
Malu.
- Eu não quero essas imagens na minha cabeça, mãe. Isso me
incomoda, porque eu estou com a Clara e... nós nos amamos. Vamos
nos casar.
- Verdade?
- Sim, e você vai ser vovó!
Dona Lúcia abraçou Erick, parabenizando-o. Depois, explicou:
- Filho, essas imagens que você vê é normal. É sinal de que
você está voltando ao normal. Todo mundo tem lembranças boas e
aquelas que queremos esquecer também. E você, querendo ou não,
deve entender que isso faz parte do seu passado, é a sua história,
filho. É algo que você já viveu.
Após uma longa conversa, Clara chegou no apartamento.
- Oi amor, voltei e trouxe a sua torta favorita!
Clara cumprimentou a mãe de Erick, que olhou séria para ela.
Clara não estava entendendo nada e perguntou:
- O que foi, gente?
- O Erick me contou sobre você ter enganado ele. E você teve
muita sorte dele não te odiar. Se ele não se apaixonasse por você, do
jeito que eu conheço o meu filho, ele ficaria com muita raiva de você.
Teve mesmo muita sorte! Ah, a propósito, meus parabéns pela
gravidez!
Malu e Leandro foram convidados para a festa de noivado de
Erick e Clara. Durante a festa, Erick foi até Malu e a abraçou.
- Malu, você me perdoa por não ter escolhido você? Eu só
poderei prosseguir a minha vida com a Clara se você me perdoar,
senão passarei o resto da vida me sentindo mal por deixar você mal
também.
- Ô Erick, eu quero que saiba que não tenho nenhum
ressentimento, estou feliz com o Leandro e, apesar de tudo o que eu e
você passamos juntos, foi bom enquanto durou e eu não posso te
culpar de nada. Se o destino quis assim, é porque era o melhor para
todos nós. Mas saiba que eu vou levar para sempre dentro do meu
coração tudo o que vivemos, porque foi especial e, mesmo que a
gente não fique junto, você foi meu primeiro amor.
EPÍLOGO

Dias depois da festa de noivado, Erick e Clara visitaram Malu e


Leandro e, juntos, foram até o casarão onde Erick crescera, para que
ele relembrasse. Ele realmente se lembrou de tudo, e as lembranças
ficaram cada vez mais claras em sua mente. Ele estava feliz por saber
que passara aqueles últimos anos ao lado de alguém tão especial
como Malu e, agora, poderia seguir sua nova vida adiante. Clara
também pediu perdão à amiga e elas se entenderam novamente.
Dois meses depois, Clara e Erick se casaram, antes que a
barriga de Clara ficasse grande demais para caber no vestido.
Malu e Leandro eram seus padrinhos e, na festa tocou a
música “Be With You”, que acabou se tornando tema do namoro deles.
Dois anos depois, assim que Malu terminou a faculdade, ela se
casou com Leandro e foi morar no Canadá, com seus pais.
Eles tiveram dois filhos, e dona Carmem estava muito feliz com
os netinhos, que alegravam a casa.
Erick e Clara também foram seus padrinhos.
E assim, a nova vida deles foi resolvida.
A amizade entre eles continuou como antigamente. O que
havia mudado era que agora estavam casados, eram adultos
responsáveis, tinham uma vida profissional bem agitada e se
encontravam sempre que dava. Às vezes Erick e Clara iam para o
Canadá, outra vezes era Malu e Leandro que vinham para o Brasil.
Não era fácil viajar com as crianças, mas em comemorações especiais
eles davam um jeito de se encontrarem.
E por mais que Erick tivesse algumas lembranças dele com
Malu, aquilo eram apenas lembranças, e faziam parte do passado e de
sua história. Sua pré-adolescência e início da adolescência tinham
sido tão intensos quanto de qualquer outra pessoa. Mas agora sua
vida havia mudado e muito, e ele estava feliz e realizado com Clara e
seu filho. E Malu e Leandro se amavam cada vez mais.

FIM
Sobre a autora:

Maria Rachel Lins Brandão, nascida em


11/05/1984, em Belo Horizonte/MG, é
formada em Pedagogia e sempre
gostou de escrever. Há alguns anos
passou a gostar mais de Romances,
escrevendo algumas novelas curtinhas,
mas com histórias bem marcantes, tais
como “Tudo Por Amor”, “Gêmeas”,
“Quando é Amor” e “A Escolha”, que
ainda não foram publicadas. Hoje, aos
35 anos, conseguiu publicar seu
primeiro livro e e-book, realizando um
de seus vários sonhos.

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