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Crianças Trans: Memórias e Desafios Teóricos

Conference Paper · January 2013


DOI: 10.13140/RG.2.1.4326.8888

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Jaqueline Gomes de Jesus


Federal Institute of Rio de Janeiro
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III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES
15 a 17 de Maio de 2013
Universidade do Estado da Bahia – Campus I
Salvador - BA

CRIANÇAS TRANS: MEMÓRIAS E DESAFIOS TEÓRICOS

Jaqueline Gomes de Jesus1

RESUMO

A literatura indica que um número significativo de adultos transgênero (homens e


mulheres transexuais, travestis e crossdressers) se lembra de vivências de gênero
divergentes das socialmente estabelecidas para os seus sexos biológicos, desde a
infância (Kennedy & Hellen, 2010; Kennedy, 2010). Essas lembranças geralmente são
acompanhadas de relatos de preconceito, discriminação e negação quanto à própria
identidade de gênero. O presente trabalho objetiva compreender as implicações
psicossociais, em jovens e adultos, da forma como crianças compreendem e reagem a
situações de reconhecimento e de conflito com o gênero com o qual se identificam, a
partir da análise de breves narrativas de 10 (dez) pessoas trans acerca de memórias de
suas infâncias, sob o aspecto da vivência de gênero.

Palavras-chave: Narrativa; Memória; Identidade; Transgeneridade; Infância.

Não fazia roupas de bonecas, nem tampouco convivia / com as


garotas do meu bairro, que era natural / vivia em postes, soltava
papagaio / até meus quatorze anos era esse o meu mal2.

Um ditado africano, do povo Zulu, ensina: umuntu ngmuntu ngabantu (uma


pessoa é uma pessoa por causa de outras pessoas). Nós nos tornamos quem somos
porque conhecemos pessoas diferentes de nós e refletimos sobre quem somos3. Ao
contrário do que sustenta o senso comum, o fato de termos identidades (sermos e nos
reconhecermos em nós mesmas/os) não é um fenômeno determinado ipsis litteris, de
maneira fixa e incontestável, por nossa natureza/constituição biológica, tantas vezes
confundida com anatomia.

1
Doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações. Universidade de Brasília – UnB.
E-mail: jaquelinejesus@unb.br / Site: http://lattes.cnpq.br/0121194567584126
2
Trecho da música “Teco-Teco”, composição de Pereira da Costa e Milton Vilela, conhecida na
voz de Gal Costa.
3
GALINKIN, 2003.

1
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Salvador - BA

Nós nos tornarmos alguém porque nos vemos dessa ou de outra forma, em um
contexto de semelhanças e dessemelhanças constituído por nossas relações sociais4.
A identidade das pessoas pode tanto ser pessoal quanto social, enquanto “parte
do autoconceito dos indivíduos que deriva do seu conhecimento de pertencimento a um
grupo social, associado à significância emocional desse pertencimento”5.
A diversidade humana não pode ser vista apenas como uma variável, um
mosaico composto por identidades estanques e independentes. As múltiplas dimensões
de nossa diversidade são estruturantes de nossa identidade como seres humanos: sem
diversidade não há identidade6. A diversidade humana é:
o conjunto de relações interpessoais e intergrupais explícitas ou
implícitas, em um determinado sistema social, que são
intermediadas pela relação entre as identidades sociais e a
dominância social presentes nesse sistema7.

As memórias de uma coletividade, ou memórias coletivas, são fatores de


identificação dos indivíduos com grupos, construídas por meio de processos de seleção
e reconstrução de memórias individuais, inseridas nas tramas inter-relacionais8.
A reconstrução de memórias, por meio da construção de narrativas, evoca uma
percepção atual acerca do passado, um passado reconstituído a partir de
posicionamentos individuais e coletivos9 que podem servir de estratégias para nos
mobilizar como pessoas que se identificam na posição de integrantes de um grupo que
vivencia/ou experiências de vida semelhantes.
Uma narrativa é uma forma encontrada pelas pessoas para organizar sua
compreensão do mundo por meio de um relato, dando sentido a suas experiências10,
configurando o que Ricoeur (1984) chama de “intriga”.
Há poucos estudos, fora do campo da psiquiatria e da saúde mental lato sensu,
sobre o desenvolvimento social de crianças que vivenciam papeis de gênero fora dos
modelos normativos predominantes na sociedade, as quais se pode denominar

4
ALLPORT, 1937; ROTTER, 1993; BANDURA, 1994.
5
TAJFEL, 1982, p. 24.
6
ALLPORT, 1954.
7
JESUS, 2013, p. 224.
8
HALBWACHS, 1990.
9
THOMPSON, 1992.
10
FLICK, 2009.

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genericamente como integrantes da população “transgênero”, ou simplesmente trans,


composta predominantemente por travestis e transexuais, mas também por quaisquer
outras pessoas que não se identificam com o gênero que lhe foi atribuído socialmente11.
Kennedy e Hellen (2010) apontam para a suspeita de que o silenciamento sobre
a realidade das crianças que vivenciam a transgeneridade seja uma estratégia de
supressão das vivências subjetivas dessas crianças, decorrente de visões estereotipadas
sobre gênero (cissexismo) e do preconceito contra a população transgênero (transfobia),
de tal modo que
o objetivo final de grande parte da pesquisa em “Desordem” de
Identidade de Gênero (AMERICAN PSYCHIATRIC
ASSOCIATION, 2000, p. 535) em crianças é legitimar a
“prevenção” ou “eliminação” do que é considerado socialmente
inaceitável, o comportamento de gênero transgressivo. Além
disso, uma vez que esses estudos foram aparentemente
realizados com crianças encaminhadas para tratamento pelos
pais, pode haver preocupações quanto à validez associada com a
seleção dos participantes12.

A autora afirma, ainda, que as crianças trans existem, que as experiências de


ocultação, supressão, estigmatização, medo, isolamento, dúvida e repressão que sofrem
podem “afetar suas vidas quando adultos”13, e que precisam ser analisadas para além do
âmbito terapêutico, considerando as pressões sociais e culturais envolvidas14.
O presente trabalho tem como objetivo apresentar parte dos resultados de uma
pesquisa realizada no meio virtual (internet), que por meio da adoção de metodologias
de pesquisa narrativa15 e para internet16, investigou narrativas de uma amostra de
pessoas trans (três travestis, três homens transexuais17, três mulheres transexuais18 e um
crossdresser19) sobre quando e como percebiam a sua vivência interna e social de
gênero na infância, e como essas memórias os afetam hoje.

11
JESUS, 2012.
12
KENNEDY, 2010, p. 22.
13
KENNEDY, 2010, P. 22.
14
KENNEDY, 2008.
15
GIBBS, 1993; CRESSWELL, 2007.
16
FRAGOSO, RECUERO & AMARAL, 2012.
17
Pessoas que reivindicam o reconhecimento social e legal como homens.
18
Pessoas que reivindicam o reconhecimento social e legal como mulheres.
19
Pessoa que se veste, usa acessórios e/ou se maquia diferentemente do que é socialmente
estabelecido para o seu gênero, sem se identificar como travesti ou transexual.

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Metodologia

Instrumento e procedimentos

Foi desenvolvido um questionário por meio do qual se buscaram coletar dos


respondentes dados quantitativos, de natureza demográfica (idade, cor/raça,
escolaridade e identidade de gênero), e dados qualitativos, referentes a perguntas abertas
sobre a primeira vez em que sentiram que se identificavam com um gênero diferente do
que lhe atribuíram socialmente, o que aconteceu nesse momento, e como se sentem hoje
lembrando desse episódio.
Foi disponibilizado espaço no instrumento para que os sujeitos pudessem narrar
esse momento, mesmo que brevemente, considerando o pressuposto de que “uma
narrativa é uma ilustração verbal de uma resposta a uma questão de pesquisa, não
necessariamente generalizável, às vezes, mordaz”20.
Esse tipo de momento decisivo na vida das pessoas, que deixa marcas e é
descrito com intensidade, foi denominado por Denzin (1989) como “epifania”.
O questionário foi disponibilizado em uma plataforma online (Google Docs), de
24 de agosto de 2012 a 24 de outubro de 2012. Um link para acesso de interessados em
responder foi divulgado por meio de grupos virtuais de pessoas trans na rede social
Facebook.

Sujeitos

Dos 48 (quarenta e oito) respondentes, da qual todos conseguem se lembrar da


primeira vez em que sentiram que se identificavam com um gênero diferente do que lhe
atribuíram quando socialmente, foi selecionada aleatoriamente, para fins de
desenvolvimento do presente estudo, uma amostra de 10 (dez) sujeitos, correspondente
a 21% do total, composta por 3 travestis, 3 mulheres transexuais, 3 homens transexuais
e um crossdresser.

20
STAKE, 2011, p. 189.

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Desses, 5 se identificaram como pessoas brancas, 4 como pardas (nenhum dos


respondentes se reconheceu como da cor “preta”, apesar de haver essa opção), e uma
indígena. Em termos de escolaridade, uma tinha apenas o ensino fundamental completo,
2 cursaram (de forma integral ou parcial) o ensino médio, 6 o ensino superior e um tinha
pós-graduação, conforme a identificação abaixo:
Respondente 1 – 24 anos, branca, ensino superior incompleto, mulher
transexual.
Respondente 2 – 21 anos, branca, ensino médio completo, travesti.
Respondente 3 – 47 anos, parda, ensino médio incompleto, travesti.
Respondente 4 – 24 anos, pardo, ensino superior incompleto, homem transexual.
Respondente 5 – 58 anos, branco, ensino superior incompleto, crossdresser.
Respondente 6 – 26 anos, indígena, ensino superior completo, mulher
transexual.
Respondente 7 – 30 anos, branco, ensino superior completo, homem transexual.
Respondente 8 – 28 anos, parda, ensino superior incompleto, mulher transexual.
Respondente 9 – 40 anos, pardo, pós-graduação, homem transexual.
Respondente 10 – 33 anos, branca, ensino fundamental completo, travesti.

Resultados

Com relação à lembrança de quantos anos tinham quando, pela primeira vez,
teriam sentido que a sua identidade de gênero estava em desacordo com a designada
socialmente, configurando-se assim a idade da epifania, os respondentes indicaram uma
idade média entre 6 e 7 anos (média igual a 6,75), com moda (valor mais frequente) de
5 anos, idade mínima de 4 e máxima de 12 (Tabela 1).

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Tabela 1: idade da epifania.


Respondente Idade (anos)
1 7
2 5
3 Entre 6 e 7
4 8
5 5
6 7
7 5
8 8
9 4
10 12

Os resultados etários dessa amostragem corroboram, com pouca discrepância, os


dados encontrados por Kennedy (2010), que identificou uma média para a idade da
epifania de 7,9 anos, com variação em idades inferiores aos 18 anos de idade para mais
de 96% dos respondentes.
Com relação a como foi esse momento, os sujeitos descreveram situações
pontuais, com discursos descrevendo-as de formas mais ou menos elaboradas
(importante ressaltar que trechos das falas transcritas que foram considerados
significativos foram grifados com subscrito, considerando que os temas por eles
abordados serão analisados posteriormente no sub-título Discussão), conforme
apresentado na Tabela 2.

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Tabela 2: descrição do momento da epifania.


Respondente Descrição
1 Foi um momento que eu me senti uma mulher, vesti uma saia e uma
blusinha.
2 Desde pequena sempre fui afeminada, sempre ficava no meio das
meninas, na escolinha meu lugar era na fila das meninas, banheiro só
feminino, me sentia uma menina, nunca me vi como um menino, e foi
ai que comecei a perceber que tinha algo estranho.
3 Comecei a me sentir estranha diante de outros coleguinhas, me sentia
muito menina, gostava de sentir a pele dos rapazes em mim, nossa,
penso que já era aquele tesão que você na idade não sabe identificar,
mas era super satisfatório.
4 Nesta idade eu acreditava que iria acordar e estar em outro corpo, eu me
escondia embaixo da cama pra brincar de carrinho, que montava com o
lego e também foi quando comecei a pedir roupas masculinas.
5 Pus roupas da minha irmã.
6 Desde bem pequena eu preferia me enturmar com meninas e brincar de
boneca e casinha com elas. Mas foi nessa idade que passei a me
identificar com as meninas. Aí começaram a acontecer coisas do tipo,
eu ver uma cena de casamento na televisão (ou pessoalmente), com a
noiva de branco e o noivo de terno, e me via como a noiva, não como o
noivo. Me imaginava como mulher. Quando me diziam que era homem,
eu não aceitava, e dizia que era criança – eu sabia que não podia dizer
que era mulher, mas podia dizer que não era homem.
Meus pais saíam e eu ficava as tardes sozinha. Entre outras
brincadeiras, eu calçava os sapatos da minha mãe, vestia as roupas dela,
e usava as tiaras, pulseiras, colares e anéis dela.
Na escola, nas brincadeirinhas, eu assumia os papéis femininos – tipo, a
Power Ranger Rosa, a Mulher Maravilha, e tal (naquela época o
pessoal aceitava numa boa, éramos todos inocentes).

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7 Tive uma convivência muito grande com meninos, na rua onde vivi,
todas as crianças da minha faixa etária, eram meninos. Isso facilitou
muito para que eu tivesse uma sociabilização com o mundo masculino,
o que me resultava bem mais natural, que o feminino.
8 Nossa, ainda pequeninha, acompanhava as chamadas da “Globeleza” na
Rede Globo, onde enfiava a cueca como se fosse uma calcinha e
colocava os saltos de minha mãe, ahhh, e ainda usava o lençol como
cabelo, sempre brinquei com bonecas da minha irmã, gostava de coisas
cor-de-rosa, e admirava os meninos, nunca até hoje quis saber de
menina!
9 Eu comecei a contar histórias para minha família que sempre
começavam com a frase “no tempo que eu era garoto...”. Da mesma
forma, comecei a me identificar cada vez mais com brinquedos
considerados masculinos e a sonhar em viver as mesmas coisas que
meus primos (garotos) viviam naquela época e a sonhar com um futuro
em que me tornasse um homem.
10 No momento em que eu percebi, foi na escola.

Com relação a como se sentem lembrando desses momentos, os respondentes


apresentaram respostas diferentes, conforme descrito na Tabela 3:

Tabela 3: sensações relacionadas à lembrança.


Respondente Descrição
1 Eu acho muito bacana ver que eu tive uma infância conturbada, mas
relevei tudo.
2 Aliviada.
3 Realizada.
4 Sinto pena de mim mesmo, porque foi quando eu comecei a sofrer por
isso e eu não tinha coragem de falar o que eu sentia.
5 É uma lembrança gostosa, gratificante.

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6 Na adolescência, eu enterrei fundo essas memórias, e quando cheguei


na fase adulta não me lembrava de nada disso. Não lembrava de nada da
infância. Eu sempre tive essa identificação com o feminino, mas
escondia de mim mesma. Aí tive essa depressão, porque queria muito
mudar, mas não me aceitava como transexual, e dizia que não era,
exatamente porque nunca tinha dado os sinais de transexualidade que
dizem que as crianças dão.
Levou muito tempo para eu ir lembrando dessas coisas, e fez parte do
meu processo de auto-aceitação. Eu me sinto bem, porque ao olhar para
trás, vejo como sempre fui uma mulher, e naquela época da infância, as
pessoas ainda arranjavam desculpas para meu comportamento, de forma
que era “aceita”, por assim dizer. Foi a época que tive uma certa
liberdade e as pessoas não enxergavam culpa em eu ser como era
porque me viam como criança inocente.
7 Tive uma infância muito tranquila e que me acrescentou muito! Tive
liberdade, e não questionamentos, tudo me resultava natural. Talvez a
adolescência, e tentar me enquadrar na sociedade como me era vendida
e que a família, amigos e entorno me faziam pensar ser o percurso
natural, é que foi o problema. Mas, nunca fui alguém propício ao
desespero, à depressão e nem nada do estilo. Me resguardei, era muito
calado, mas muito atento e observador. Então, fiquei algum tempo, no
distanciamento, na análise pessoal, do que acontecia comigo, ainda que
não tivesse real noção do que aquilo tudo significava! Então, fui
vivenciando experiências e através delas tirando conclusões de forma
mais fácil ou difícil. Até o dia em que me deparei com a informação
que me faltava e decidi com apoio da família e amigos traçar esse
(re)começo de vida!
8 (Risos). Acho que nos dias de hoje não seria tão assustador, mas quando
era pequena as pessoas ainda se pegavam muito a religião, então
“aquilo” que acontecia comigo era coisa do Satanás, lembro-me que

9
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minha mãe me levou a um centro de UMBANDA [grifo da


respondente] pra fazer um trabalho pra mim virar menino, onde tinha
que vestir roupas femininas. Acho que desde pequenos já sabemos sim
o que vamos ser, o problema é a sociedade que insiste em nos colocar
rótulos.
9 Feliz pela minha liberdade atual, ainda que tardia. Eu gostaria de
abraçar aquele menino incompreendido e auxiliar a ser um garoto como
todos os outros já naquele momento.
10 Me sinto feliz!! Hoje em dia, pois tudo que descobri serviu pra que hoje
eu fosse uma pessoa tão esclarecida hoje em dia.

Discussão

As breves histórias que foram contadas cumprem um papel: dar forma à epifania
da autodescoberta como pessoa trans; e apesar de virem de gente com vidas
independentes, elas se entrelaçam como subtramas, apresentam argumentos que se
encaixam mutuamente.
Uma leitura das narrativas sobre as memórias da infância como crianças trans, e
de alguns de seus fragmentos, aponta para experiências comuns da vivência da
transgeneridade entre os diferentes sujeitos, com aspectos negativos, como o sentimento
do “estranho”, remetendo a uma internalização, pelas crianças, do discurso binarista de
gênero que busca controlar e evitar que os limites atribuídos aos sexos biológicos sejam
rompidos, e que sua falibilidade seja evidenciada.
Aqui não é possível deixar de notar que funcionam os mesmos mecanismos da
performatividade, apontados por Butler (2003), que incorrem para as pessoas não-trans,
ou cisgênero: o gênero, como algo que é performado, “feito”, mais do que apenas
“sido”, precisa ser reiterado, para que a identidade não caia no campo da dúvida sobre a
fixidez dos gêneros.
Desse modo, identifica-se nos relatos que, apesar de, mais velhos, os
respondentes verem sua infância como ingênua ou inocente (tal qual as demais
infâncias), eles reiteram que as crianças trans reconhecem, desde a mais tenra idade, que

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enfrentam intensas ameaças e pressões sociais para que não performem o gênero da
forma que lhes soa mais “natural”, outro termo frequente nas falas.
Por outro lado, também se identifica a existência de sentimentos de satisfação e
realização decorrente de pequenos instantes de auto-reconhecimento quando crianças,
num toque que traz uma leitura afetiva ou no uso de uma vestimenta, os quais se
refletem no jovem e no adulto que deles se lembra.
A aparência é um aspecto fundamental de toda essa discussão, e se evidencia nos
relatos. Ela, como marcador físico de gênero, é considerada muito importante no
discurso das pessoas trans, que desde muito jovens são levadas, mais do que pessoas
que não são trans, a perceberem os paradoxos entre suas vivências e as noções
prevalecentes de masculinidade, feminilidade, masculino e feminino21.
Nesse sentido, questões de gênero se evidenciam: se para as mulheres
transexuais, as travestis e o crossdresser (que vivenciam feminilidade em diferentes
níveis, tanto quantitativos quanto qualitativos) a aparência se torna um elemento central
na constituição da própria identidade, remetendo à constatação de Sant’Anna (1995)
sobre embelezamento como prática historicamente associada à feminilização; já para os
homens transexuais pesam mais as questões relacionais, a convivência com outros
homens, a projeção da possibilidade de uma vivência masculina.
Também está presente, em algumas falas, a estereotipia de uma relação direta
entre gênero (ser mulher) e orientação sexual (ser heterossexual) que parece repetir
discursos normativos que visam controlar a transgeneridade, principalmente a
transexualidade, dentro de moldes heteronormativos que tentam negar a possibilidade
de vivências sexuais homoafetivas ou biafetivas para aquelas pessoas trans cujos afetos
as orientem para essas sexualidades.

Considerações finais

Este estudo, parte de uma pesquisa mais ampla sobre memórias sobre a infância
de pessoas trans, foi orientado por breves narrativas sobre momentos no tempo, que
apesar de contribuírem pouco para o entendimento da experiência da transgeneridade na

21
LEWINS, 1995.

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infância, dão “vida a um problema central para a pesquisa ou a um que mostre a


complexidade” (Stake, 2011, p. 188).
A bibliografia sobre constituição da identidade de gênero das pessoas em geral
aponta para o dado de que a percepção do gênero começa entre os 3 e 4 anos de idade, e
que até os 5 ou 6 anos de idade as crianças introjetam a forma como a sociedade em que
vivem interpreta os gêneros (Kessler & McKenna, 1978; Intons-Peterson, 1988).
Os resultados desta pesquisa vão ao encontro dessa constatação, e apontam para
o fato de que, como as demais crianças, as que vivenciam a transgeneridade também
reconhecem a sua “diferença”, porém, ante à dominância social de práticas e discursos
que negam a possibilidade de se borrar a suposta invariância na relação entre sexo
biológico e gênero22, essas crianças, patologizadas e invisibilizadas, vivenciam o
estranhamento de si como um obstáculo a ser enfrentado solitariamente, de maneira
silenciada, e podendo ser somente retomada, a partir de um doloroso processo de auto-
aceitação, ao longo de anos ou décadas de amadurecimento psicoafetivo e intelectual.
Será este sofrimento necessário, inevitável para as crianças trans?
Qualquer naturalização das questões sociais deve ser questionada, e nesse
aspecto, repensar e rediscutir a forma adultocêntrica como se trata atualmente o tema da
transgeneridade se mostra uma necessidade, a fim de que jovens e adultos trans tenham
de lidar com menos danos psicossociais, que ao contrário do senso comum, não
decorrem do fato de serem da população transgênero, mas, isso sim, de terem crescido
em grupos e comunidades, inclusive em escolas, nas quais, quando havia um discurso
inclusivo, este não as incluía como seres humanos possíveis, tendo igualmente a
possibilidade de serem felizes da forma como são.

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