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IGREJA DEFORMADA

Uma análise da aguda crise do movimento evangélico brasileiro

IGREJA DEFORMADA Uma análise da aguda crise do movimento evangélico brasileiro N I L S O

N I L S O N

G O M E S

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Editor Responsável

Bruno Andrade

Revisão Hugo Maciel de Carvalho

Capa

Welbert Lopes

Diagramação Breno Oliveira Alvarenga

Gomes, Nilson IGREJA DEFORMADA / Nilson Gomes

Santa Barbara D’oeste, SP: 2019

ISBN: 978-1076186300

Proibida a reprodução total ou parcial deste livro sem autorização escrita dos editores.

Índices para catálogo sistemático:

1. Cristianismo 2. Pentecostalismo 3. História

Apresentação

Nilson Gomes não é uma dessas pessoas que, por não ter conseguido se beneficiar do sistema, cinicamente critica o modelo ou debocha. Não é um típico juiz da humanidade religiosa, frustrado, cansado e crítico de um sistema do qual dependeu, usufruiu, beneficiou-se, mas agora, cinicamente, abandona. Ao contrário, pastor pentecostal de três gerações, Nilson Gomes é apaixonado pelo que faz, há anos dá a vida pela causa, usando suas habilidades em favor desse projeto. Portanto, fala do que entende, defende o que ama, luta pelo projeto. A Igreja é sua vida, pois ele, há anos, vive por e para ela. Ele tem esperança. Sua esperança também pode alimentar a nossa.

Gedeon Alencar Doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP, é membro da Rede Latino- americana de Estudos Pentecostais – RELEP

Apresentação

O tema escolhido pelo nobre amigo e pastor é de grande importância para este tempo. Para que uma Igreja se torne relevante neste tempo, o Reino de Deus deve ser a prioridade da sua missão. Foi para a sua Igreja que Jesus deixou as promessas e os mistérios do Reino dos Céus (Mateus 16:16-19). O pastor Nilson Gomes nos leva à compreensão de que, como parte integrante do Reinado Divino, o compromisso da Igreja é com as tarefas históricas e concretas do Reino na sociedade, devendo levar adiante a esperança revelada pelo Senhor do Reino e seus resultados espirituais e sociais na vida da sua comunidade. Nos evangelhos, Jesus foi definido como: “varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo” (Lucas 24:19). Semelhantemente também, assim deve ser reconhecida a Igreja, o Corpo de Cristo vivo na terra. Da mesma forma que Jesus, a Igreja, tanto na sua dimensão universal quanto nas suas mais diversas manifestações locais, deve ser reconhecida como poderosa em obras e em palavras, diante de Deus e de todo o povo. Isso traz implicações ministeriais de serviço tanto na esfera das disciplinas espirituais e de uma forte devoção (“diante de Deus”) quanto no serviço comunitário e no testemunho através da proclamação, sinais, atos de justiça e obras (“e de todo o povo”). Falando de Brasil, vivenciamos dias de uma completa degradação econômica, social, moral, ética, política e religiosa quando aos últimos acontecimentos temos vivenciado: protestos, vandalismo, corrupção, sucateamento dos bens públicos, superlotação carcerária, conflitos familiares, intolerância, preconceito, desigualdade social, etc. Neste panorama de aparente descontrole, aviltamento da moral e dos bons costumes, agressão à sã consciência e perda cada vez mais evidente dos ideais de fraternidade e compaixão mútua, penso que tudo isso é fruto do afastamento de Deus, do genuíno avivamento, cuja consequência é o distanciamento uns dos outros. Talvez sem percebermos fomos cada vez mais seduzidos pelas propostas das redes sociais, que vem a reboque do crescente avanço tecnológico que

nos circunda. Quando falamos de Facebook, Skype, WhatsApp, Instagram e outras ferramentas, que se apresentavam como ferramentas de aproximação, vemos que, na verdade, produziram profundo afastamento. Sei que não podemos colocar tudo isso na conta das redes sociais, mas elas revelaram uma realidade que cresce a olhos vistos, pois se você não pode estar perto do outro, não haverá compaixão pela dor do outro. Não falo da igreja da mídia, que patrocina campanhas de enriquecimento; não falo da igreja narcisista, que não é capaz de olhar para mais nada que não seja para si mesma; não falo da igreja empolgada e vibrante com um pseudo e utópico “Avivamento”; não falo da igreja dos artistas globais, que criam um “fake” de um cristianismo ineficaz — mas falo da Igreja com “I” maiúsculo. A Igreja formada e constituída a partir de um sentimento de íntima compaixão que somente aqueles que provam dele e que foram alcançados por tão grande sentimento (compaixão) são capazes de materializá-lo e levá-lo a outros. Falo da Igreja Relevante, que tem uma mão estendida e uma palavra de salvação que serve para todo homem e para o homem todo, o Evangelho integral! Uma pergunta que cabe a todos nós, especialmente aos líderes eclesiásticos, é: se a sua igreja, num piscar de olhos, desaparecesse da comunidade onde está inserida, o que a comunidade ao redor ia achar disso? Sentiriam a falta dessa igreja? Infelizmente, a resposta sincera a esta pergunta denunciaria a quase completa irrelevância de grande parte das comunidades cristãs, quando não um testemunho comunitário negativo. Será essa a nossa vocação? Devemos nos contentar com essa situação? Uma Igreja relevante é assim reconhecida pela comunidade onde está inserida. E é com alegria que apresento a você, querido leitor, A IGREJA DEFORMADA, por Nilson Gomes. Boa leitura!

Pastor Benhour Lopes Toronto, ON – Canadá

Dedicatória

À minha amada Dilaine, principal incentivadora que teimosamente insistia para que eu escrevesse.

Agradecimentos

Ouso me aventurar no universo da escrita. Óbvio que sou um aprendiz, eterno aprendiz. Há muito, venho escrevendo pequenos e curtos textos, mas sem a pretensão de os publicar. Com o advento do mundo virtual e das redes sociais, de alguma forma passei a tornar públicas algumas ideias — muitas das quais tem até me custado caro. “Escrever é expor as entranhas”, afirmou Frei Be-tto. Por outro lado, surgiram os incentivos de generosos amigos e amigas a fim de que encarasse o desafio de escrever um livro. Mas me questionava: por onde começar? Como pregador itinerante viajando por todo o Brasil, passei a observar o contexto e o cenário da Igreja evangélica brasileira. Em reuniões e encontros formais e informais, passei a discutir a Igreja na atualidade. Essas discussões transbordaram para os sermões pregados nos púlpitos e, então, os primeiros rabiscos começaram a surgir. Evidentemente que a formação de um livro é o conjunto de largas experiências, pesquisas, discussões, leitura e reflexão. Este livro que o leitor tem em mãos nasceu das minhas percepções e do diálogo com vários amigos que se prontificaram em dar o seu tempo para me ouvir, ler meus primeiros textos, opinar, dar ideias, sugerir, concordar e discordar. É com o coração cheio de alegria que quero manifestar minha gratidão à minha amada esposa, Dilaine, por dar-me o espaço necessário e tolerar meus isolamentos e dias de meditação e leitura. Aos meus filhos, Erik e Nícolas, por se privarem dos sons altos e das brincadeiras, e suportarem minha chatice. Aos amigos que não só me incentivaram como foram também fiéis colaboradores ao me ajudarem com suas ideias e sugestões. Não deixaria de citar aqui o meu amigo Lucas Medrado, o primeiro a ler a versão do texto original e me dar sugestões e ideias valiosíssimas. O Iranildo, amigo precioso pelas ideias e incentivo e por ser como aquele professor que cobra a lição de casa. Minha sincera gratidão ao amigo Gutierres Fernandes, por sua valiosa colaboração e sugestão no capítulo 2. Agradeço ao meu amigo, pastor e escritor da mesma editora, Márcio Santos, que, com um olhar apuradíssimo, buscou erros que eu não enxergaria. Sem sua parceria e contribuição essa obra não se concretizaria. Minha profunda gratidão ao amigo Bruno Andrade, diretor da Editora Alive, por acreditar neste singelo trabalho, tornando

possível a sua publicação. Aliás, as primeiras ideias e discussões surgiram em algumas de nossas viagens pelos Estados Unidos e pelo Brasil. Agradeço ainda ao meu nobre amigo e pastor José Wellington Bezerra da Costa Neto, por me dar a honra de prefaciar este livro. Aceitou o convite humildemente sem qualquer objeção. Ao amigo pastor Benhour Lopes, que também sem hesitar escreveu a apresentação. Minha sincera gratidão ao meu amigo e professor Dr. Gedeon Alencar, devo muito a ele, desde as aulas nos tempos de seminário até os dias de hoje. Muito do conteúdo do livro, especialmente nas abordagens sobre o pentecostalismo, vem das discussões e dos textos de Gedeon. O título do capítulo 3 e as sugestões passaram por ele. Procurei seguir suas orientações e acatar todas as sugestões. Quer dizer, nem todas. Ele vai identificar minha teimosia. Gratidão, amigo, pelas palavras de endosso na apresentação deste simples trabalho. Não deixaria de registrar minha gratidão ao meu pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente da AD Belém e da CONFRADESP (Convenção Fraternal e In-terestadual das Assembleias de Deus), por todo o apoio dado a mim, pelas oportunidades e portas que bondosamente me tem aberto. Obrigado pelo seu pastoreio e cuidado. Minha gratidão também se estende ao meu pastor convencional José Wellington Costa Jr., presidente da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), por me abrir espaço não só no campo da pregação, como também em nossa FAESP (Faculdade Evangélica de São Paulo). Grato a cada pastor, a cada líder e a cada igreja que me abriram as portas ao longo desses anos para discutirmos sobre o papel da Igreja no mundo. Que os corações transbordem em amor e paz por meio de Jesus. A Deus, a quem tudo pertence, por sua graça, bondade e misericórdia, seja dada toda honra e toda glória!

Nilson Gomes Outono de 2019

Sumário

Introdução

1. O desafio de continuar o que Jesus começou.

2. O revestimento de poder.

3. A Pentecostalidade como ação divina e os

pentecostalismos como ação humana

4. Resgatando a herança pentecostal

5. O perfil de uma Igreja relevante

6. Hora da decisão

Bibliografia

Prefácio

Honrado pelo convite, apresentamos à comunidade, cristã-evangélica ou

não, esta primorosa obra do Pastor Nilson Gomes: “Igreja deformada: uma análise da aguda crise do movimento evangélico brasileiro”.

O autor é um querido amigo, além de um prestigiado ministro da

Assembleia de Deus – Ministério do Belém, em São Paulo, atuando como

pastor auxiliar na igreja sede, no bairro do Belenzinho, igreja que tem sido privilegiada com sermões primorosos, inspirados pelo Espírito Santo e sempre convidativos à reflexão crítica. E esta obra segue na mesma toada. Antes de mais nada, é fruto de intrépida coragem do autor, que, ao invés de aderir à corrente volumosa dos que se beneficiam e lucram com as deturpações e desvios do movimento evangélico contemporâneo, decidiu-se por pôr o dedo na ferida e, talvez, arriscar a impopularidade em nome de uma fé cristã genuína e um desejo ardente de ver a obra primitiva de Cristo autenticamente honrada. Traz então um substancioso estudo, com amplos subsídios históricos e bíblicos, iniciando pelas obras dos “Atos dos Apóstolos”, o Pentecostes, o movimento da Reforma Protestante, chegando aos movimentos pentecostais e neopentecostais de nossos dias, traçando esclarecedor paralelo entre denominações diversas, perscrutando sua fundação e origem.

A seguir, submerge o autor nas profundezas da genuína definição e

características da “Pentecostalidade”, que distingue dos “pentecostalismos”, para daí extrair o perfil de uma Igreja Relevante. Com efeito, a partir do exemplo da Igreja de Jerusalém, o autor pontua os traços da igreja que desenvolve uma espiritualidade saudável e conforme a doutrina dos apóstolos: i) espiritualidade de disciplina; ii) espiritualidade focada na construção do Reino de Deus; iii) espiritualidade de partilha; e iv) espiritualidade discipuladora e hospitaleira. Cada item é, de forma fecunda, desenvolvido pelo autor com amplo respaldo nas Escrituras. Embora o ímpeto fosse de destrinchar ainda mais o belo texto que ora se nos apresenta, fazê-lo tiraria do leitor parte substancial da prazerosa leitura. Por isso, fica o convite e a recomendação de que o faça uma, duas, e quantas vezes forem necessárias, já que as reflexões propostas são daquelas que

vamos deglutindo aos poucos e, principalmente, deixando-as penetrarem o âmago de nossa própria espiritualidade. A conclusão sobrevém com uma constatação e um desafio: “momento de decisão”. Lembrando a conhecida fala de Elias aos profetas de Baal, o autor conclama os leitores, e a igreja pós-moderna, a deixarem de coxear entre dois pensamentos, abandonarem a mornidão, para recuperar a autêntica chama da espiritualidade e avivamentos primitivos. Desejamos a todos uma excelente leitura, e certamente esta obra será instrumento nas mãos do Espírito Santo para revolucionar caminhos que já iam poeirentos pela religiosidade.

São Paulo, fevereiro de 2019 José Wellington Bezerra da Costa Neto

Introdução

Há quinhentos anos, em 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero fixou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, suas 95 teses, confrontando normas e doutrinas da Igreja Católica. E isto a partir da leitura e compreensão do texto escrito pelo apóstolo Paulo na carta aos Romanos 1.17: “O justo viverá pela fé”. Assim deflagrou os processos do movimento da reforma protestante, que se espalhou

posteriormente pela Europa. O grito estava dado. A Igreja precisava voltar-se para Deus e Sua Palavra.

O mundo vivia as transições do medieval para o moderno. Ruíam os

paradigmas medievais. A força da Igreja entrava em colapso, e as teses de Lutero não só confrontaram a Igreja medieval, que estava desviada há mais de mil anos, como também provocaram um revolucionário movimento no campo científico, político e socioeconômico.

A data do dia 31 de outubro de 2017 foi comemorativa do ponto de vista

histórico; porém, temos que admitir: perdemos o fio da meada. Resta a pergunta: depois de quinhentos anos, a Igreja atual pode ser chamada de protestante? Se sim, contra o que ela tem protestado? As indulgências voltaram com mais força e maior ênfase. A idolatria continua a todo vapor: uma multidão enorme idolatra pastores, pregadores, cantores e cultua homens. As superstições continuam, pois há quem acredite em praga, mau-olhado, maldição, caixinha de promessa, sal grosso e orações

fortes de pastores e líderes evangélicos midiáticos. Eu diria que o movimento hoje conseguiu extrapolar todos os limites e tornar-se pior do que a Igreja Romana medieval.

O movimento atual apropriou-se de temas caríssimos da Reforma —

como, por exemplo, “a livre interpretação das Escrituras” —, e o que vemos é

o que está aí: cada um interpreta as Escrituras do jeito que bem entende, cada um fala o que quer. Por outro lado, temos um grupo que preza o legado da Reforma, mas não busca avançar na compreensão do Evangelho de Jesus Cristo.

A Reforma Protestante, na minha singela opinião, foi o maior movimento

espiritual depois do evento de Pentecostes em Atos, capítulo 2. A Reforma trouxe grandes benefícios para a sociedade. Graças a ela houve,

posteriormente, a separação entre Estado e Igreja; a separação entre ciência e fé; a autonomia do pensamento humano; além de haver contribuído muitíssimo com a educação. Todavia, vivemos hoje terríveis retrocessos. Esquecemos da mulher e o mundo ainda é machista. Esquecemos do papel e da importância delas na Reforma, na história do cristianismo e na sociedade. Não avançamos muito ou quase nada nas políticas de justiça, para o pobre, para o negro, para os marginalizados e excluídos. O grande lema da Reforma era: “Igreja reformada, sempre se reformando”. Pessoas sérias e honestas afirmam: precisamos de uma nova reforma. Entretanto, acredito que não seria bem esse o caso. Penso que não precisamos de uma nova reforma. Acredito que precisamos de uma revolução. Revolução de mente, coração, ação, luta e engajamento pela causa do Evangelho. Precisamos mesmo voltar ao Evangelho no seu mais puro e profundo significado. Precisamos nos voltar às palavras de Jesus. O Sermão do Monte, as bem-aventuranças, a mensagem de perdão, a mensagem do amor, tudo o que Jesus viveu e ensinou deve ser o mote da Igreja. Urge que a Igreja contemporânea abra mão do culto-show, do espetáculo, das invencionices que fogem das escrituras, e se apegue à mensagem “escandalosa” da cruz. Estamos vivendo tempos difíceis. Dias de crise. Crise política, econômica, social, institucional; crise na família; crise na nação; crise religiosa. O movimento religioso/evangélico também está em crise. Aliás, eu particularmente afirmo que grande parte das terríveis crises que enfrentamos são reflexos de uma crise religioso-evangélica e de avivamento na nação brasileira. Começando pelo púlpito, é perceptível a decadência espiritual que atravessamos. Estamos vendo uma pregação que só parece ser, mas definitivamente não é a mensagem de Jesus. Em alguns púlpitos está sendo destilada uma mensagem equivocada com a pregação do Evangelho, a ponto de estarem pregando outro evangelho que não é o de Cristo. Questionemos: onde estão os pregadores da cruz? Onde estão os fiéis mensageiros de Cristo, que saibam conciliar a profundeza da palavra com a simplicidade do Evangelho? Onde estão as mensagens focadas única e exclusivamente na pessoa maravilhosa de Jesus? Será que nós estamos perdendo Jesus de vista? Até quando o

movimento evangélico neste país dará voz aos mercenários e vendilhões da

fé? Até quando assistiremos a uma geração que ignora o Evangelho, e mesmo assim se acha a geração do “grande último avivamento?” Pior, ignora também o significado de avivamento. Faltam-nos pregadores que se valham apenas das escrituras, sem apelar para o emocionalismo. Faltam-nos pregadores que fiquem em pé atrás do púlpito para falarem o que o texto diz, não o que acham que combina com o texto. Faltam-nos pregadores dispostos a serem profetas, como foram Jeremias, Amós, Isaías; que falem a palavra de Deus sem temerem pela própria vida.

O cristianismo evangélico brasileiro está desacreditado. Longe de um

verdadeiro avivamento, o que temos visto no Brasil é descrédito. O mercado da fé está cada vez aumentando mais.

O cristianismo evangélico brasileiro está misturado com misticismo,

paganismo e superstições, crendices que vão desde o copo com água sobre a TV ou sobre o rádio até vassouras que varrem demônios de dentro de casa. O invencionismo nos cultos de campanha que ganham os mais variados e bizarros títulos ultrapassa todos os limites. Como se fosse pouco, igrejas estão abrindo as portas para o antropocentrismo. O culto gira em torno do homem. As igrejas evangélicas estão sendo transformadas em centros de autoajuda. O Evangelho está barateado, porque a teologia da prosperidade, com suas promessas irresponsáveis, tem barateado o Evangelho. Readaptaram o Evangelho. Passaram do escândalo da cruz para a promoção e satisfação dos desejos pessoais e egoístas. Entretanto, não obstante essas coisas, eu creio e acredito na Igreja. Arrisco-me a me aventurar no mundo da escrita e “expor sentimentos” porque sigo crendo nas palavras de Jesus quando disse: “…sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (Mt 16.18). Creio que há esperança. Creio piamente que nesse tempo de crise Deus pode mover homens e mulheres, moças e rapazes para um grande avivamento. Deus quer dar avivamento para o Brasil e para isso Ele conta com a Igreja. E o que Deus espera dessa Igreja não é que ela seja rica institucionalmente, nem que tenha arrolado no seu livro de membros o nome de gente famosa, tampouco que seja ela influente na política partidária, ou

ainda dona dos mais influentes canais de televisão do país. O que Deus quer é que o Seu povo, a Sua Igreja se volte para Ele em total confiança e dependência.

O cristianismo não necessita de que os pastores sejam artistas, e os

adoradores, estrelas do entretenimento. Jesus iniciou seu ministério com pescadores e donas de casa. Quanto mais bem produzidos comercialmente

se tornarem nossos cultos, mais distantes nos encontraremos das raízes judaicas de nossa fé. 1

O livro que o leitor tem as mãos não é um texto de críticas ácido de um coração entenebrecido e azedo, muito ao contrário, este é um texto que sai de um coração cheio de anseios pela Igreja de Jesus. O meu desejo é que o caro leitor caminhe página por página refletindo a Igreja ontem e hoje com o misto de sentimento entre a dor e a paixão, como os profetas da antiguidade. Acredito que podemos, sim, viver um grande avivamento em nosso tempo. É possível ver a Igreja voltando a ser a luz do mundo e o sal da terra.

Anseio pelo retorno da Bíblia como regra de fé e prática. Chega de chavões, frases de efeito e dos lugares comuns. Não, não precisamos que eruditos tomem conta dos nossos cultos, basta que pregadores íntegros se derramem com verdade por meio de seus sermões. Que voltem os tribunos que falam com autoridade. 2

Anseio por um genuíno avivamento cristão no Brasil. E que ele venha com novos paradigmas, novos pressupostos e novas atitudes. Precisamos de menos clareza racional e mais concretização da vida de Cristo. Não basta a repetição de palavras e credos; o mundo precisa testemunhar nossas boas obras para glorificar o Pai que está nos céus. 3

Capítulo 1 - O DESAFIO DE CONTINUAR O QUE JESUS COMEÇOU

Em meu livro anterior, Teófilo, escrevi a respeito de tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar. (Atos 1.1)

1.1 A importância de ler Atos dos Apóstolos hoje

Acredito ser de suma importância para todo cristão a leitura do livro dos Atos dos Apóstolos. Claro, a leitura de toda a Bíblia é indispensável na devoção diária. Refiro-me, contudo, ao estudo aplicado e sistemático deste que é considerado o primeiro livro de história da Igreja e que compõe a Bíblia sagrada. Acredito ser tarefa difícil compreender o sentido de Igreja, o significado de ser Igreja, o significado de ser cristão, sem nunca ter tido um contato mínimo que seja com o livro dos Atos dos Apóstolos. O livro dos Atos dos Apóstolos é daqueles textos bíblicos que todo cristão devia ler, pesquisar, fazer anotações, refletir e meditar. 4 Atos dos Apóstolos reconstrói para nós o conceito de Igreja, o que é ser Igreja. E, como afirmam Kenner e Mesquiati, “O texto de Atos dos Apóstolos se transformou em uma espécie de carta magna para as igrejas pentecostais” 5 — e eu diria: não só para “igrejas pentecostais”, mas um normativo para a Igreja cristã em geral. É neste livro e através dele que podemos ter acesso aos relatos de como se formou a primeira comunidade cristã do século primeiro, pois o livro dos Atos pode ser considerado — conforme já mencionado — a primeira obra ou tratado de história da Igreja. Atos dos Apóstolos reconstrói para nós o movimento de Jesus depois de sua ressurreição e antes da institucionalização das Igrejas (ocorrida depois do ano 70). Esse movimento possui, conforme os Atos, três características fundamentais 6 :

conforme os Atos, três características fundamentais 6 : É um movimento animado pelo Espírito Santo. Em

É um movimento animado pelo Espírito Santo. Em todo o livro dos Atos, é nítida e muito perceptível a ação do Espírito Santo. Chegou-se até a cogitar a possibilidade de o livro ser chamado de “Atos do Espírito Santo”. Embora fique absolutamente clara a atuação e a ação do Espírito

Santo a cada movimento da Igreja no primeiro século, conforme narrado

em toda obra lucana, 7 a Igreja decidiu, posteriormente, que o título do livro seria “Atos dos Apóstolos”, como está em nossa Bíblia.

É um movimento missionário. É bem possível que o termo “missão”,

É

um movimento missionário. É bem possível que o termo “missão”,

bem como a ação missionária em si, tenha maior frequência e maior ênfase no livro dos Atos do que em qualquer outro livro da Bíblia. É apaixonante, emocionante e vibrante a maneira como Lucas narra as frentes missionárias da Igreja em seus primeiros passos. O engajamento da Igreja e dos apóstolos foi espetacular. Esse movimento de

engajamento missionário da Igreja no primeiro século deveria ser a mola propulsora que impulsionasse e mobilizasse a Igreja atual; mas, infelizmente, isso não é mais o que acontece hoje.

É um movimento cuja estrutura básica é representada pelas pequenas

É

um movimento cuja estrutura básica é representada pelas pequenas

comunidades domésticas. Basicamente, a Igreja primitiva tem o seu início com um grupo de homens e mulheres que, num primeiro momento, não eram mais do que 120 pessoas (Atos 1.15); posteriormente, no evento de Pentecostes, após o sermão de Pedro, houve um acréscimo de quase três mil pessoas (Atos 2.41), de maneira que vemos crescentemente o avanço da Igreja não só na pregação do Evangelho, mas também em número. Voltaremos a falar desse crescimento numérico mais adiante.

É importante analisarmos aqui que a Igreja começa a crescer, vai se

multiplicando e começa a acontecer, mas esse movimento não se dá a partir de “grandes catedrais”. Não faço aqui nenhum juízo de valor e nem desprezo as obras de construções de mega e suntuosos templos construídos por inúmeros pastores de diferentes ministérios e denominações, mas é

importante que se diga que a Igreja de Jesus não é identificada pelos projetos megalomaníacos de líderes afortunados que, pelo simples prazer de ostentar e se perpetuar no poder, fazem construções enormes para competir quem tem o maior templo e o maior patrimônio. A Igreja não aconteceu no templo, embora, em Atos, capítulo 2.46, diga-se que: “[…] perseveravam unânimes no templo […]”.

A Igreja começou a acontecer nas casas. É de grande importância, como

pontua Pablo Richard quando escreve:

[…] este movimento de Jesus, posterior à sua ressurreição, possui sua estrutura fundamental nas pequenas comunidades domésticas. Os momentos decisivos dos Atos dos Apóstolos aconteceram nessas pequenas comunidades que se reuniam nas casas: a primeira comunidade apostólica reuniu-se em uma casa (1,12-14), e é nessa casa que se vive Pentecostes (2,1-4); a comunidade ideal posterior a Pentecostes possui seu centro nas casas, nas quais se celebra a Eucaristia 8 (2,42-47); é a pequena comunidade que se encontra em condições de resistir à perseguição (4,23- 31); a diakonía é organizada nas casas (6,1-6); a perseguição ao movimento de Jesus acontece pelas casas (8,3); a primeira comunidade de gentios convertida é a casa de Cornélio (10,1-48); há uma comunidade que se reúne na casa de Maria, a Mãe de João Marcos (12,12-17); Paulo funda pequenas comunidades nas casas: em Filipos (16,11-40), em Tessalônica (17,1-9) e em Corinto (18,1-11); numa casa em Trôade, a comunidade vive a experiência da palavra, da Eucaristia e da ressurreição (20,7-12); em Cesareia, encontramos uma comunidade de mulheres profetisas (21,8-14); Paulo chega a Jerusalém e é hospedado na casa- comunidade de Menásson (21,17-20); e a última comunidade de Paulo em Roma fica em uma casa (28,30-31).

A Igreja começou a acontecer com homens e mulheres simples, com

gente do campo, donas de casa, rústicos pescadores, pessoas que, conectadas

à mensagem do andarilho de Nazaré, optaram por fazer de sua filosofia de

vida seu objetivo, e de seus valores a sua mais celebre mensagem. Eis aqui um desafio urgente: que nós, discípulos no mundo pós-moderno, resgatemos

o conceito de Igreja.

1.2 Teófilo, o destinatário de Atos

Em meu livro anterior, Teófilo, escrevi a respeito de tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar. (Atos 1.1)

Atos dos Apóstolos foi escrito para uma única pessoa cujo nome era Teófilo. O autor do livro, Lucas, inicia sua obra, tanto no Evangelho como no

texto de Atos, citando ninguém mais do que Teófilo. No “livro anterior”, como o próprio Lucas se expressa, Teófilo é mencionado da seguinte maneira:

Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra. Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, ó excelentíssimo 9 Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas. (Lc 1.1-4)

O nome Teófilo aparece na introdução do Evangelho de Lucas e na introdução de Atos dos Apóstolos. Mas, afinal de contas, quem foi esse Teófilo? Quem foi esse homem a quem Lucas faz questão de dirigir-se no início de suas obras escritas? Quem é esse homem que tem a honra de ter um livro inteiro dedicado e escrito especificamente para si? Em se tratando de Teófilo, há divergência entre os mais renomados teólogos, pois de fato não sabemos quem era Teófilo nem mesmo se era cristão. A divergência, entretanto, está no fato de que alguns defendem que Teófilo talvez fosse um importante oficial romano, uma pessoa ilustre (era normal dedicar uma obra a personagens ilustres) (At 23.26; 24.3; 26.25). Outros, porém, defendem que Lucas usa o nome Teófilo apenas como um nome simbólico para designar os seus interlocutores. Todavia, o ponto em que devemos nos deter não é na defesa de um dos lados, e sim que há uma mensagem do Espírito Santo de Deus para o nosso proveito hoje. Então, eu diria que o ponto-chave reside no próprio nome, pois Teófilo significa “amigo de Deus”. Todos nós, que estudamos este livro, somos Teófilo. Para nós é que foi escrito o livro dos Atos dos Apóstolos. Aleluia! Você e eu somos “o Teófilo”, “amigos de Deus” levantando a bandeira do Evangelho e pelo Espírito de Deus continuando “o que Jesus começou a fazer e a ensinar”.

1.3 O que Jesus começou a fazer e a ensinar

O ministério terreno de Jesus foi relativamente de curta duração, não mais do que três anos. Entretanto, sua obra, sua missão foi completa. Ao longo da história, surgiram seitas que nasceram exatamente da pretensa ideia de alguns líderes que diziam ter recebido algum tipo de “revelação” de Deus onde

supostamente fora lhes dito que “Jesus não completou sua missão”. Logo,

aquele referido líder, detentor da suposta revelação, recebe então a missão de continuar e completar a “obra que Jesus não terminou”. Nenhum genuíno cristão tem dúvidas de que a obra de Jesus foi completa. Tudo o que precisava ser feito pela salvação da humanidade Jesus fez. Sua obra foi perfeita, completa e eterna. Não há nada mais a ser feito. Na cruz, Jesus bradou: “Está consumado”. Não há nada, nem na obra da cruz, nem na vida de Jesus, nem na missão de Jesus, nem na maneira como Jesus viveu, andou e se comportou que precise ou deva ser retocado. Então, o que Lucas quer dizer com a expressão: “[…] o que Jesus começou a fazer e a ensinar […]”?

É obvio que não se trata de uma possível insinuação de Lucas no sentido

de querer dizer que Jesus não completou sua missão. Ao contrário, trata-se da grande responsabilidade que cada Teófilo, cada amigo de Deus, cada cristão, cada seguidor, cada discípulo de Cristo tem em assumir o desafio da missão de Jesus hoje. Warren Wiersbe assim comenta: “O Evangelho de Lucas registra todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar em seu corpo

humano, e o livro dos Atos relata o que Jesus continuou a fazer e ensinar por meio de seu corpo espiritual, a Igreja.” 10

O texto aflora a ideia de que Jesus continua sua ação e seu ensinamento

depois de ser assunto ao Céu; Jesus ressuscitado continua atuando e ensinando na comunidade depois de sua ascensão. O Evangelho é apenas o começo; nós vivemos a continuação, iniciada pelo relato de Atos dos Apóstolos. Ao me deparar com esse texto, penso que estamos diante de uma grande oportunidade de nos questionarmos sobre: o que significa ser cristão? Claramente, esta palavra não existia ainda naquele contexto. Aliás, o próprio livro dos Atos nos informa no capítulo 11.26 que: “Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos”. Todavia, para nós que vivemos nesse contexto de pós-modernidade é necessário e até urgente que resgatemos esse conceito. Assim, quero afirmar que ser cristão é estar disposto a continuar o que Jesus começou a fazer e a ensinar. É assumir o compromisso com os valores de Jesus, com a causa de Jesus. Abre-se aqui um leque absolutamente vasto,

posto que existem desdobramentos que irão refletir por toda a vida da Igreja.

A primeira coisa a ser analisada aqui é que Lucas, de maneira muito clara,

afirma a Teófilo que, em seu primeiro livro, escreveu “a respeito de tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar”, ou seja, o discurso de Jesus não esteve desvinculado da vida prática. Ele fez e ensinou. Infelizmente temos visto uma Igreja hoje que muitas vezes tem ortodoxia, mas não tem ortopraxia. 11 Eis a razão de muitas igrejas mortas hoje em dia. Orlando Boyer, 12 em sua clássica obra intitulada “Espada cortante”, comenta:

A vida dos discípulos que fazem, mas não ensinam, é um enigma para o mundo. O exemplo dos crentes que ensinam, mas não praticam, é pedra

de tropeço diante do próximo. Mas os que combinam a prática e o ensino

seguem o exemplo frutífero de Cristo. 13

No livro do Apocalipse, capítulo 2, encontramos uma igreja que foi elogiada por Jesus, a igreja de Éfeso. Jesus destacou sua postura frente aos que se diziam serem apóstolos, mas não o eram; sua perseverança; sua resistência às provas por causa do seu nome; entretanto, foi repreendida pelo Senhor por ter abandonado seu primeiro amor. Esta é a típica igreja que tem doutrina, mas não tem vida; tem ortodoxia, mas não tem ortopraxia. Jesus não foi um mestre frio, insensível, um mestre da moral que tinha discurso irretocável, mas que era distante das pessoas. Antes, sua vida e seu ministério foram atrelados ao Reino de Deus na prática diária de alcançar

pessoas e lutar por elas. Em Mateus 9.35, o texto diz: “E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando a toda sorte de doenças e enfermidades”. O que Mateus quer dizer com “E percorria Jesus todas as cidades e povoados”? É literal, ou ele usa aqui uma hipérbole? 14 Creio que a ideia de Mateus no texto é dar uma ênfase tal, com tamanha intensidade, que expressasse a ação do trabalho árduo de Jesus a fim de alcançar vidas. Sua missão foi intensa. Seu trabalho foi pesado. Jesus enfrentou sim terríveis obstáculos; entretanto, ele jamais permitiu que esses obstáculos lhe roubassem a paixão de se dar, de se doar, de trabalhar pelas pessoas. Jesus fez e ensinou.

O texto destaca ainda que, antes de ser levado ao Céu, Jesus deu

“instruções por meio do Espírito Santo aos apóstolos que ele havia escolhido”. Os apóstolos garantem a continuidade entre o tempo do Evangelho e o começo da Igreja. É notório, portanto, que o texto acentue a

ação do Espírito Santo, tanto no ensinamento como na ação de Jesus.

1.4 O privilégio de continuar o que Jesus começou

Uma segunda coisa a ser analisada é que Lucas, como foi no primeiro século, comunica-se hoje conosco também mediante o relato dos Atos. Como já mencionamos anteriormente, nós somos o Teófilo para quem Lucas fala hoje e, por meio dele, o Espírito Santo comunica-se conosco. Isso nos empurra a assumir o nosso compromisso enquanto Igreja, enquanto cristãos. Teófilo é aquele que, no relato dos Atos, escuta diretamente Lucas e o próprio Espírito Santo. Somos, hoje, uma Igreja que escuta realmente a Palavra de Deus? Somos, como Igreja, esse Teófilo a quem Lucas se dirige? Se prestarmos bem a atenção, o versículo-chave desse capítulo primeiro de Atos é o de número três: “Depois do seu sofrimento, Jesus apresentou-se a eles e deu-lhes muitas provas indiscutíveis de que estava vivo. Apareceu-lhes por um período de quarenta dias falando-lhes acerca do Reino de Deus”. [grifo nosso]. A expressão “Reino de Deus” é o que dá o tom do versículo e norteia toda a narrativa. Jesus está passando os seus últimos dias aqui na terra, e ele tem urgência de que os discípulos compreendam mais do que nunca o que significa o conteúdo da expressão “Reino de Deus”. É a partir dessa compreensão que a Igreja do Cristo ressurreto vai começar a se movimentar. Sem a mínima compreensão do Reino de Deus, não se assume a responsabilidade de continuar o que Jesus começou a fazer e a ensinar. O povo de Deus passou quarenta anos no deserto; Jesus, antes de iniciar seu ministério, passou quarenta dias no deserto, onde foi também tentado pelo diabo; os discípulos, antes de darem início à sua missão como Igreja, e de participarem do maior evento que culminaria com o nascimento da mais nobre organização já vista entre os homens, a Igreja, ficaram também quarenta dias em uma experiência profunda com Jesus ressuscitado. É um tempo de tentação e é aí que está o problema, a Igreja tem estado um tanto quanto confusa. A Igreja tem substituído o Reino de Deus pela instituição, e Jesus, no dia de sua ascensão, há mais de dois mil anos passados, viveu um desencontro com seus discípulos. Apesar de Jesus ter-lhes aberto o entendimento conforme Lucas 24.45, eles ainda insistiam em pensar o Reino

de Deus numa perspectiva político-estatal; “[…] Senhor, é neste tempo que vais restaurar o reino a Israel?” (Atos 1.6). Infelizmente, existe hoje também um desencontro grosseiro entre Jesus, o

Cristo ressurreto, e sua Igreja. A Igreja atual insiste em continuar sonhando com projetos humanos de poder religioso e político. O espírito medieval que dominou a Igreja durante os séculos do obscurantismo, a sede pelo poder, o desejo e a ganância pelo lucro, usando a fé como meio para esse fim, é o mesmo espírito que tem dominado a Igreja pós-moderna.

A Igreja tem se afastado do projeto eterno e maravilhoso do Reino de

Deus, e tem se aliado às instâncias do poder político-religioso e massacrado

pessoas. Temos assistido de perto não só à substituição sacramental do servir pessoas pelo poder político que usa as pessoas, como também ao sincretismo religioso, à banalização do sagrado, e à fé mercadejada de um cristianismo pobre e rasteiro que mais parece uma fábrica de ídolos.

O Reino de Deus é a proposta de outra ordem, onde paz e justiça se

beijam, onde os cabelos brancos do ancião são respeitados, onde as pessoas são valorizadas acima de qualquer coisa. O tema único pregado por Jesus foi o Reino de Deus, e o cerne de sua mensagem foi justiça. Portanto, se a pergunta dos discípulos a respeito do Reino parte de uma perspectiva político-estatal, a resposta de Jesus é: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra.” Ser Igreja é continuar o que Jesus começou a fazer e a ensinar; é ser Teófilo, amigo de Deus; é encarnar os valores do Reino de Deus pregado e ensinado por Jesus.

Capítulo 2 - O REVESTIMENTO DE PODER

Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra. (Atos 1.8)

Nós, cristãos, não temos a menor dificuldade em compreender que o ministério de Jesus foi exercido debaixo do poder do Espírito Santo. Na narrativa de Lucas, capítulo 4, vemos claramente essa relação do início do ministério de Jesus e a atuação do Espírito Santo. Após o batismo nas águas, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado. Venceu a tentação e seguiu adiante na missão de seu ministério triunfante (Lucas 4.1-

2). Após a vitória sobre o diabo no deserto, o Espírito lhe conferiu poder para realizar grandes prodígios (Lucas 4.14-15). Em seguida, Lucas 4.16-20 nos mostra a afirmação do próprio Jesus de que seu ministério era movido pelo poder do Espírito ao declarar que a profecia do capítulo 61 do profeta Isaías se cumpria nele. Em Atos, capítulo 10.38, Lucas registra a declaração de Pedro na casa de Cornélio de que todo o ministério de Jesus foi desenvolvido no poder do Espírito Santo. Portanto, fica evidente que o ministério e a missão de Jesus não aconteceram aparte da ação do Espírito. A obra lucana (Lucas/Atos) desenvolve ao longo do texto toda essa dinâmica da ação missionária do Espírito. Lucas começa com Jesus e o seu ministério debaixo do poder do Espírito e se estende até a segunda parte de seu texto (Atos), nos mostrando claramente o cumprimento da promessa de Jesus em relação ao Espírito, que é quem os encheria de poder na dinâmica da pregação do Evangelho.

A tradição pentecostal clássica aceita que a experiência registrada por

Lucas em Atos 2 foi o cumprimento da promessa de Jesus de capacitar os

seus discípulos com um poder sobrenatural para que eles enfrentassem os desafios sobrenaturais da missão. 15

O livro dos Atos dá continuidade ao livro de Lucas, especialmente nesse

assunto, já que um dos grandes assuntos de Atos e do Evangelho de Lucas é

essa missão impulsionada pelo Espírito Santo.

O pastor e teólogo assembleiano José Gonçalves, comentarista das

revistas da Escola Dominical da CPAD – Casa Publicadora das Assembleias de Deus, em seu livro “Lucas: o Evangelho de Jesus, o Homem Perfeito”, assim escreve:

Já foi dito que Lucas escreveu uma obra em dois volumes e esse é um fato importante porque essa homogeneidade nos ajuda a compreender a ação

do Espírito Santo na teologia Lucas-Atos. No Evangelho, Lucas mostra o

Espírito atuando sobre o Messias e capacitando-o para realizar as obras de Deus, como havia sido prometido nas profecias (Lc 4.18; Is 61.1). Por outro lado, no livro de Atos está o cumprimento da promessa do Messias

de derramar esse mesmo Espírito sobre os seus seguidores (Lc 11.13;

24.49; At 1.8). Em outras palavras, o mesmo revestimento de poder que estava sobre Jesus Cristo e que o capacitou a curar os enfermos, ressuscitar os mortos e expulsar os demônios seria também dado a seus seguidores quando ele fosse glorificado.

Fica claro, então, que este não é um assunto isolado de um livro neotestamentário. Há uma sequência lógica dentro desses dois textos do Novo Testamento. Assim, identificamos o papel missionário do Espírito Santo e a missão da Igreja impulsionada pelo Espírito no Novo Testamento. Deus Pai enviou o Filho; o Filho enviou o Espírito; e Pai, Filho e Espírito enviam a Igreja. A trindade está em missão, assim como a Igreja deve estar em missão. 16

2.1 A sublime missão de ser testemunha de Jesus

Qual o segredo do cristianismo? Qual a grande força da mensagem cristã? Nenhum sistema religioso ou político, bem como nenhuma corrente filosófica foi tão longe como o cristianismo. Dois mil anos de história e não há nenhum sistema político com maior sucesso do que o cristianismo. Os mais sofisticados sistemas políticos, os mais impressionantes sistemas religiosos e as mais espetaculares correntes filosóficas não conseguiram influenciar a humanidade como o cristianismo influenciou. Nenhum sistema produziu

maior impacto na história das civilizações como o cristianismo. Por isso a pergunta: o que faz o cristianismo tão espetacular? Qual é o segredo da mensagem cristã? O que é que torna a mensagem do Evangelho tão bem- sucedida? Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o grande segredo do cristianismo é a pessoa de Jesus Cristo. Ouvindo um pregador discorrer de forma brilhante sobre a pessoa de Jesus, fiquei maravilhado quando ele se expressou:

O grande segredo do Evangelho não é o que o Evangelho prega, mas a pessoa de quem o Evangelho prega. Não é o que falamos, mas de quem nós falamos. O que torna o cristianismo fascinante, cativante, sem igual na história das religiões não é porque pregamos cura, salvação, milagres ou o alívio da culpa, mas sim porque o Evangelho é o anúncio da pessoa maravilhosa, magnífica e extraordinária de Jesus Cristo de Nazaré. Portanto, é a pessoa de Jesus. Ele é o foco da nossa atenção. Apesar de toda a comercialização que surgiu em torno do nascimento de Jesus — não somos tão ingênuos a ponto de não perceber que em volta das comemorações natalinas há muito mais comércio do que celebração em si —, o fato é que todo esse alvoroço comercial e o congestionamento que se dá no mês de dezembro em cidades como Nova York, Tóquio, São Paulo ou Rio de Janeiro só acontece por causa do nascimento do menino camponês em uma manjedoura em Belém há mais de dois mil anos. 17 É ele; a pessoa de Jesus. Se Jesus é o cerne do Evangelho, se Jesus é o ponto central no cristianismo, qual deve ser a nossa tarefa como discípulos seu? Reflitamos!

2.2 Nossa missão é testemunharmos dele, Jesus

[…] e serão minhas testemunhas […] Não há nada mais nobre dentro da fé cristã do que falar de Jesus. Ele é o astro, a estrela principal que brilha entre nós. Os mais célebres sermões pregados na história do cristianismo foram exatamente aqueles que testemunharam com veemência da pessoa de Jesus.

Não há nenhum outro personagem na história que se assemelhe a Jesus. Ele é incomparável. Ele é inigualável. Ele é o mais célebre personagem que andou por esta terra. A grandeza de seu viver, a nobreza dos seus mais amorosos gestos de compaixão pelas pessoas continua a ser o mais elevado nível de inspiração. Se na história temos uma Madre Teresa de Calcutá, um Nelson Mandela, um Martin Luther King Jr. ou um Mahatma Gandhi, que lutaram pela paz, pela igualdade, pelo bem da humanidade e por um mundo melhor, Jesus é a grande razão, a principal motivação e a grande inspiração que impeliu todas essas pessoas a lutarem por causas nobres. Toda a história está permeada de Cristo, ele é o centro de tudo. A grande mensagem é aquela cujo cerne é Cristo. Temos visto algumas reuniões ditas evangélicas neste país nas quais Jesus já não é mais o centro. O culto já não gira mais em torno de Jesus. Alguns cultos não são para a adoração ao Cristo ressurreto. Ao contrário disso, usam o nome de Jesus como se esse nome fosse uma palavra mágica para satisfazer seus desejos pessoais e egoístas. Mas, se de fato estamos pregando Jesus do púlpito da igreja, nós não podemos esquecer que Ele é o tema principal.

2.3 Nossa missão é testemunhar de Jesus a todo mundo

Não há limites, não há fronteiras. Cristo é para ser anunciado a todo o mundo. O texto diz: “[…] serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda Judéia e Samaria e até os confins da terra.” O poder do Espírito que foi derramado sobre a Igreja não tem outro objetivo senão o de capacitar e energizar a Igreja a fim de anunciar Jesus. E anunciá-lo a todo o mundo. Esta foi uma questão que nem os discípulos compreenderam direito, pois quando Jesus ordenou dizendo: “Ide fazei discípulos de todas as nações”, ou “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho”, ou ainda no texto de Atos: “sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra”, os discípulos entenderam que deveriam pregar só para os judeus, ou, no máximo, quando saíssem dos territórios de Israel, pregassem aos judeus que estivessem dispersos em outras nações. O apóstolo Paulo sofreu muito para que os judeus entendessem que o Evangelho devia ser anunciado também aos gentios. Pedro teve que se explicar perante os judeus de Jerusalém quando

souberam que estivera na casa de Cornélio, um gentio. Entretanto, Jesus deixa muito claro que o anúncio do Evangelho não se restringe a um povo específico. Ao contrário, tribos, povos, nações e línguas devem ser alcançados com o poder do Evangelho.

Este ponto é importante, pois, à semelhança dos discípulos, também corremos o perigo de limitarmos o Evangelho ao nosso microcosmo, à nossa própria paróquia. Mas a advertência de Cristo é à Igreja, que tem de assumir um compromisso desregionalizado. O escopo de ação da Igreja tem de ser o mundo inteiro, os confins da terra. 18

A fé pentecostal, como escreveu Roger Stronstad, “[…] identificou o ‘batismo no Espírito Santo’ como capacitação para o serviço”. 19 E afirma que “Atos dos Apóstolos é o registro de Lucas sobre a comunidade carismática em missão”. 20 O poder do Espírito Santo foi dado à Igreja a fim de servir o mundo com a pregação do Evangelho. Urge que a Igreja entenda esse conceito de missão; mais do que isso: que a Igreja cumpra a ordem do próprio mestre Jesus, ou seja, saia de suas zonas de conforto, deixe de olhar apenas o quintal de casa e erga os olhos para as nações da terra. É importante notar que avivamento, poder do Espírito Santo, ser cheio do Espírito Santo está sempre ligado ao fato de a Igreja avançar na obra evangelizadora mundo afora. Avivamento está intimamente ligado à pregação do Evangelho. É no poder do Espírito que a Igreja avança. O poder pentecostal energiza e empurra a Igreja para que ela avance na propagação do Evangelho. O pastor Antonio Gilberto, respeitadíssimo teólogo pentecostal, de saudosa memória, escreveu:

O avivamento promovido pelo Espírito Santo move e leva a igreja a evangelizar e a fazer missões entre os povos. Evangelização e missões são dois lados de um só assunto — de um mesmo trabalho para Deus (cf. At 1.8; 5.42; 8.4; 13.1-4). E este trabalho é a atividade principal de uma igreja avivada, um fato patente no livro de Atos dos Apóstolos, mas também na história subsequente da igreja, sempre que ela é reavivada. 21

Ou avançamos, no poder do Espírito, para o projeto da evangelização mundial, global, universal, ou não estamos falando do poder de Deus, tampouco de avivamento.

2.4 A missão é simultânea

Quando enfatizamos que devemos olhar para além do próprio quintal e enxergar as nações da terra, ir até os confins do mundo, não estamos afirmando que a nossa “Jerusalém” não deve ser evangelizada. Não afirmamos que devemos parar a pregação na nossa própria casa para avançar nas missões mundiais. Ao contrário, o texto é enfático: “[…] tanto em

Jerusalém como em Samaria e toda a Judéia e até os confins da terra”. O que

o texto está sugerindo? Que a obra evangelizadora, a pregação do Evangelho

deve acontecer simultaneamente, isto é, tanto em… como em… Ao passo que

a igreja local está envolvida com a missão urbana, dentro da própria cidade,

ao mesmo tempo ela também está envolvida com a pregação que se estende até os confins da terra. John Wesley, quando foi proibido de pregar nas igrejas da Inglaterra, afirmou com propriedade: “O mundo é a minha paróquia”. Portanto, a Igreja precisa se assumir pregadora, anunciadora das boas novas no bairro, na cidade, na vila, no sertão, na roça, no vilarejo, na metrópole, no estado, no país, até os confins da terra. Nossa missão começa no quintal de casa e se estende até os confins do mundo. A ordem de Jesus é para que a Igreja, em tempo e fora de tempo, pregue o Evangelho, comece por Jerusalém e se estenda a todas as nações. Deus quer nos dar as nações da terra.

2.5 Nossa missão é testemunhar dele, se necessário for

com a própria vida

[…] serão minhas testemunhas […] A palavra grega traduzida por “testemunhas” é a origem da palavra “mártir”. Quanto sangue já foi derramado pela causa do Evangelho! Quantas atrocidades! Quanta maldade já foi feita às pessoas que testemunharam sua fé

em Jesus. Há incontáveis exemplos na história do cristianismo dos milhares de cristãos que morreram não aceitando o próprio livramento, porque tinham um só objetivo: manter-se fiéis a Jesus. Se começarmos pela história dos apóstolos: Paulo foi decapitado; Pedro, crucificado de cabeça para baixo; Tomé, flechado pelas costas enquanto orava; Matias, arrastado por um animal até que seu corpo ficasse todo esfolado e sangrando. “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo”, para quê? “Para serem minhas testemunhas”, ou seja, uma vez cheios do poder do Espírito Santo, não haverá um Pedro negando a Jesus, mas sim preferindo ser crucificado de cabeça para baixo (um martírio cruel), por não se achar digno de morrer como o próprio Jesus, seu Senhor e mestre; não haverá um Saulo perseguindo, mas um Paulo convertido e cheio do Espírito disposto a enfrentar todo o Império Romano pela causa do Cristo, que abraçara. O poder do Espírito Santo é o revestimento, a armadura do cristão que não teme pela própria vida, pois a causa do Evangelho se torna maior. Esta causa é tão nobre que já não me importa o preço que terei de pagar por ela, pois o maior preço o meu Cristo já pagou no calvário. Se tivermos que selar o nosso testemunho em Jesus com a nossa própria vida, que venha a espada, que venham as feras famintas, que venha a fogueira, que venha todo o império com todo o seu ódio e truculência; revestidos do poder do alto nós daremos a nossa vida pela causa de Cristo. Caro leitor, você está disposto? Com qual intensidade abraçaste o Evangelho? Você está no Evangelho disposto a se dar, ou interessado em algum possível lucro ou vantagem que porventura podes obter com o Evangelho? Se o teu compromisso com o Evangelho não é suficiente o bastante para ir às últimas consequências, isto é, dar a própria vida, você precisa urgentemente rever o seu cristianismo. Será que estamos dispostos a ir até as últimas consequências pelo testemunho de Jesus? Infelizmente a decadência da Igreja atual tem sido gritante. Se compararmos a Igreja do primeiro século e os milhares de cristãos ao longo dos séculos que enfrentaram a fúria romana, os leões famintos, a espada imperial, o açoite brutal e cruel do carrasco, com a Igreja pós-moderna, veremos um abismo descomunal. É lamentável que os cristãos de hoje tenham assumido uma postura tão indigna. Temos visto o movimento evangélico zombar da cruz de Cristo. Não prega o Sangue de Cristo que purifica o homem, e ignoram e desonram o sangue derramado de nossos

irmãos pela causa de Cristo. Que o senhor tenha misericórdia de sua Igreja. Que a Igreja volte a ser Igreja. Que haja avivamento em nossos dias. Resgatemos o legado dos nossos antepassados, pois a mensagem na carta aos hebreus é que eles foram “homens dos quais o mundo não era digno” (Hebreus 11.38).

Capítulo 3 - A PENTECOSTALIDADE22 COMO AÇÃO DIVINA E OS PENTECOSTALISMOS COMO AÇÃO HUMANA

O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito. (João

3.8)

Não é necessário muito esforço para perceber que vários movimentos de euforia e histerismo na maioria dos cultos considerados pentecostais hoje nada têm a ver com o poder do Espírito Santo e com o movimento pentecostal das primeiras décadas do século XX, século em que se consolidou o fenômeno pentecostal brasileiro. 23 Sou pentecostal, mas é preciso admitir, há muita mistura. Sinceramente, me sinto envergonhado com reuniões tidas como pentecostais onde o paganismo e a superstição imperam. É preciso muito cuidado e discernimento, pois estão vulgarizando o púlpito e banalizando o poder pentecostal. Não tenho dificuldade alguma com as experiências carismáticas. Sou nascido em um lar cristão, filho e neto de pastores assembleianos. Tenho convivido desde sempre em um ambiente pentecostal. Lembro-me perfeitamente de ter vivido a minha experiência de batismo no Espírito Santo com evidências de falar em línguas — como nós, pentecostais, cremos — aos 11 anos de idade. Foi numa tarde de sábado, fazia muito calor, quando, em uma reunião de oração com os adolescentes da igreja, passei por aquela experiência maravilhosa. E, embora, eu me refira aqui a uma experiência pessoal, vale ressaltar que essa experiência do batismo não é exclusivista; é, antes de tudo, “estendida e possível a todos os crentes, como no texto bíblico de Atos 2.38,39”. 24 Como negar uma experiência vivida? Faço minhas as palavras do apóstolo Pedro quando, após ter ido à casa de Cornélio, um gentio que se converteu ao Evangelho, foi arguido pelos judeus em Jerusalém, que eram da circuncisão, por ter entrado na casa de um homem

incircunciso, e Pedro respondeu: “[…] se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?” (Atos 11.17). Quem era eu para que pudesse resistir ao poder do Espírito Santo que me visitou, me revestiu e me encheu de maneira tal naquela tarde? Como negar o que de fato vivi e experienciei? Então, não contradigo, tampouco menosprezo as experiências pentecostais. Creio na continuidade e na contemporaneidade dos dons. Creio no poder do Espírito Santo manifesto na Igreja energizando-a, capacitando-a e impelindo-a à pregação do Evangelho. Entretanto, não posso concordar que certos e determinados comportamentos estranhos em muitos ambientes pentecostais ganhem status de poder de Deus e manifestação sobrenatural do Espírito. Temos visto hoje um movimento grosseiro que acaba por descaracterizar e desfigurar o movimento pentecostal. Urge a necessidade de ressignificar o que é ser pentecostal. É importante citar, ainda que superficialmente, as maneiras como os estudiosos e pesquisadores do fenômeno pentecostal classificam os pentecostalismos surgidos especialmente no Brasil. Antes, porém, é digno de nota o fato de que, ao longo dos anos, sempre houve um tipo de preconceito dos tradicionais em relação aos pentecostais. Pentecostais foram sim destratados muitas vezes e tratados como um movimento de pobre, preto e periférico (da favela). Paulo Ferreira, em “A Reforma em quatro tempos”, ao citar o exemplo de homens como Fritz Machullat, Erich Nilsson, Gunnar Vingren e Daniel Berg, que criam e pregavam o batismo no Espírito Santo, comenta:

A essas manifestações iniciais, seguiram-se debates e controvérsias entre os evangélicos tradicionais, que já estavam instalados no Brasil desde o Império. Eles referiam-se ao movimento recém-chegado da Rua Azuza em Los Angeles como “Pentecostismo”, termo pejorativo que era usado com o sentido de erro, doença, desvio. Não era de causar espanto essa rejeição, pois, mesmo nos países onde teve suas manifestações mais antigas (Inglaterra, Alemanha, Holanda e Estados Unidos), o Movimento Pentecostal enfrentou preconceitos em virtude da rápida expansão entre as classes desfavorecidas e nas aéreas rurais. 25

Há uma diversidade vasta de estudos e classificações sobre a origem e o avanço do pentecostalismo brasileiro. Neste texto, não é nosso objetivo

trabalhar minuciosamente esse tema, mas apenas uma síntese muito delimitada de como os teóricos classificam o pentecostalismo brasileiro.

3.1 Igrejas pentecostais e neopentecostais 26

Os teóricos e pesquisadores do pentecostalismo brasileiro costumam classificar o movimento em fases ou ondas. Grosso modo, o objetivo dessas divisões é observar as mudanças surgidas ao longo do tempo desde o início do século XX. A primeira fase pode ser considerada desde 1910 até 1940; a

segunda fase, de 1950 a 1960; e a terceira fase, a partir das décadas de 1970 e

1980.

3.1.1 Igrejas pentecostais majoritárias da primeira fase

(1910-1940)

Congregação Cristã no Brasil. Fundada pelo italiano Luigi Francescon (1866-1964). Radicado em Chicago, Francescon foi membro da Igreja Presbiteriana Italiana e aderiu ao pentecostalismo em 1907. Em 1910, visitou o Brasil e iniciou as primeiras igrejas em Santo Antonio da Platina, Paraná, e em São Paulo entre imigrantes italianos.pentecostais majoritárias da primeira fase (1910-1940) Assembleias de Deus. Teve como fundadores os suecos Gustaf

Assembleias de Deus. Teve como fundadores os suecos Gustaf Daniel Berg (1884-1963) e Gunnar Vingren (1879-1933). Batistas de origem, ambos abraçaram o Pentecostalismo em 1909. Conheceram-se numa conferência pentecostal em Chicago. Assim como Luigi Francescon, Berg e Vingren receberam a influência do pastor batista William Howard Durham (1873-1912), que participou do avivamento de Los Angeles (1906). Chegaram a Belém em novembro de 1910. Seus primeiros adeptos foram membros de uma igreja batista com a qual colaboraram.Paraná, e em São Paulo entre imigrantes italianos. 3.1.2 Igrejas pentecostais da segunda fase (1950-1960)

3.1.2 Igrejas pentecostais da segunda fase (1950-1960)

Igreja do Evangelho Quadrangular. Foi fundada nos Estados Unidos pela evangelista Aimee Semple McPherson (1890-1944). O missionárioadeptos foram membros de uma igreja batista com a qual colaboraram. 3.1.2 Igrejas pentecostais da segunda

Harold Edwin Williams (1913-2002) fundou a primeira IEQ no Brasil em novembro de 1951 em São João da Boa Vista.

Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo. Fundada por Manoel de Mello, evangelista da Assembleia de Deus que se tornou pastor da IEQ. Após separar-se da Cruzada Nacional de Evangelização em 1956, organizou a campanha “O Brasil Para Cristo”, da qual surgiu a Igreja. Em 1979, inaugurou seu grande templo em São Paulo. Manoel de Mello morreu em 1990.no Brasil em novembro de 1951 em São João da Boa Vista. Igreja Pentecostal Deus é

Igreja Pentecostal Deus é Amor. Foi fundada por David Miranda (1936- 2015), filho de um agricultor do Paraná. Vindo para São Paulo, Miranda converteu-se numa pequena igreja pentecostal e, em 1962, fundou sua igreja na Vila Maria. Em 1979, foi adquirida a “sede mundial” na baixada do Glicério.grande templo em São Paulo. Manoel de Mello morreu em 1990. 3.1.3 Terceira fase, neopentecostalismo Igreja

3.1.3 Terceira fase, neopentecostalismo

Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Fundada por Edir Macedo Bezerra (nascido em 1945), filho de um comerciante fluminense. De origem católica, ele ingressou na Igreja de Nova Vida na adolescência. Deixou essa igreja para fundar a sua própria, inicial-mente denominada Igreja da Benção. Em 1977, deixou o emprego público para dedicar-se ao trabalho religioso. Nesse mesmo ano, surgiu o nome IURD e o primeiro programa de rádio. Macedo viveu nos Estados Unidos de 1986 a 1989. Quando voltou ao Brasil, transferiu a sede da igreja para São Paulo e adquiriu a Rede Record de Televisão.do Glicério. 3.1.3 Terceira fase, neopentecostalismo 3.2 Pentecostal para além da nomenclatura Conquanto haja

3.2 Pentecostal para além da nomenclatura

Conquanto haja essa classificação, que muito contribui para o estudo e a pesquisa do fenômeno pentecostal, questionemos ainda: o que é de fato uma igreja pentecostal? O que faz uma igreja pentecostal é a crença na contemporaneidade dos dons? Ou seria o barulho volumoso das expressões litúrgicas dos crentes? Ou ainda o bater das palmas no momento dos cânticos? Entendo perfeitamente a metodologia ou a didática dos estudiosos ao

pesquisarem o movimento pentecostal a partir das mudanças que vem sofrendo desde o início do século XX. Entretanto, numa leitura mais teológica e pastoral, sustento a ideia de que uma igreja verdadeiramente pentecostal é aquela que anuncia o Evangelho na sua mais pura simplicidade, enfatizando o nascimento, a vida, a obra, o sofrimento, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, tal como foi a primeira comunidade cristã em Pentecostes. Neste sentido, não faço distinção entre igrejas tradicional e pentecostal. Toda igreja comprometida absolutamente com a pregação do Evangelho é pentecostal. Sei que muitos classificados como tradicionais jamais concordarão com essa afirmação, bem como inúmeros irmãos classificados pentecostais. Parto do pressuposto — com que todos concordam — de que a Igreja de Cristo não é instituição, nem denominação, nem prédio ou catedral, nem número de CNPJ, nem estatuto, mas sim homens e mulheres comprometidos com os valores de Cristo e com o anúncio da boa nova, e esta Igreja foi energizada no poder do Espírito Santo, capacitando-a a levar o Evangelho até os confins do mundo. Portanto, entendo que o que determina uma igreja pentecostal não é a crença se os dons continuam ou não, se há batismo com evidências de línguas ou não. Acredito que os termos “pentecostal” e “tradicional” se tornaram nomenclaturas para classificar e distinguir as igrejas denominacionalmente falando. E a grande gravidade do problema é quando se usa esses termos pejorativamente, como rotulações. Mas, numa perspectiva mais pastoral e teológica, como já mencionei, na leitura que faço, pentecostal é, desde o primeiro século em Atos 2 até os dias de hoje, todo aquele que leva a sério o compromisso com o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo a todas as pessoas, nações, povos, tribos e línguas. Ser pentecostal é aceitar o desafio de ser cheio do Espírito e, se necessário for, entregar a própria vida pela causa do Evangelho. “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito e serão minhas testemunhas […]” (Atos 1.8). 27 Ser pentecostal é ser revestido do poder do Espírito Santo para falar na língua do outro sobre as grandezas de Deus (Atos 2.11). Não é intercalar a mensagem com “línguas estranhas” exibindo uma falsa espiritualidade para impressionar os ouvintes e converter o ambiente numa sessão de histerismo. Com isso, não estou aqui negando as experiências da glossolalia e o dom de línguas, é bom que fique claro isso. O pentecostalismo dito clássico defende

o batismo pentecostal com o Espírito Santo como uma doutrina central. 28 As línguas estranhas são muito importantes para o pentecostal que busca reviver os tempos apostólicos. 29 Reafirmo a minha crença no batismo com o Espírito Santo com evidência de línguas estranhas não só no período apostólico e da Igreja primitiva, mas também nos dias de hoje. Creio na contemporaneidade e na continuidade dos dons. Todavia, levanto críticas aqui em relação àqueles que querem se “apropriar dos dons espirituais” numa espécie de tentativa de legitimar seus exageros. Infelizmente, temos conhecimento de algumas práticas de treinamento para falar em línguas e profetizar e temos conhecimento de que muitos pregadores apelam a essas práticas. No contexto da Igreja primitiva, temos um relato (Atos 8.17-21) de um homem por nome Simão que queria comprar o dom do Espírito Santo, e Pedro o repreendeu. Ninguém tem o direito de querer usar o poder do Espírito nem línguas estranhas para brincar no púlpito e impressionar os ouvintes. Ser pentecostal é entender a fraqueza do outro. “Em cada alma havia temor […]” (Atos 2.43). É partilhar o pão (Atos 2.46). É despojar-se do egoísmo e egocentrismo. É desprover-se de vaidade. É ser solidário. É ser fraterno. É permitir-se ser o próprio milagre de Deus para servir o próximo (Atos 2.45). Ser pentecostal não é receber, é dar. Ser pentecostal é permitir-se ser

usado pelo Espírito. É deixar-se ser levado pelo Espírito. Ser pentecostal é libertar-se de si mesmo. Qualquer movimento que fuja minimamente do movimento original descrito no livro de Atos pode ser chamado de qualquer coisa, menos de Movimento Pentecostal.

O louvor NÃO é dos batistas (em Atos todos louvavam); a homilética

NÃO é dos presbiterianos (em Atos todos pregaram, cap. 2.7-11); o Espírito Santo não é dos assembleianos (em Atos todos foram cheios do Espírito Santo).

O Espírito Santo não é propriedade exclusiva de um grupo ou movimento

“privilegiado”. Nenhuma igreja, grupo ou movimento pode deter o Espírito Santo, menos ainda encaixotá-lo ou adaptá-lo às suas doutrinas e/ou teologias. Ninguém consegue ditar uma cartilha para que o Espírito Santo trabalhe a partir dela. “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (João 3.8).

Capítulo 4 - RESGATANDO A HERANÇA PENTECOSTAL

Quando ouviram isso, ficaram aflitos em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: Irmãos, que faremos? Então Pedro respondeu: Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão longe, para todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar. Com muitas outras palavras os advertia e insistia com eles: Salvem-se desta geração corrompida! Os que aceitaram a mensagem foram batizados, e naquele dia houve um acréscimo de cerca de três mil pessoas. (Atos 2.37-41)

Trago em minha memória algumas lembranças do passado, as quais, ao revisitá-las, tenho um sentimento nostálgico. Refiro-me aos antigos cultos de oração (hoje substituídos por campanhas das mais diversas em alguns lugares) em que nós, cristãos pentecostais assembleianos, nos reuníamos com o coração cheio de paixão, em total entrega para Deus, e em lágrimas cantávamos:

O Senhor da ceifa está chamando:

“Quem quer ir por mim a procurar Almas que, no mundo, vão chorando; Sem da salvação participar?”

Fala Deus! Fala Deus! Toca-me com brasa do altar; Fala Deus! Fala Deus! Sim, alegre, atendo ao Teu mandar.

O profeta a Deus se aproximando,

Considera-se um pecador,

Mas, o fogo santo o queimando, Torna-o útil para seu Senhor. 30

E também:

Eis que surge um povo forte, Revestido de poder;

E não teme nem a morte,

Quem a ele pertencer;

E terá sublime sorte,

Pois com Cristo ao céu vai, Podes tu dizer também. “Sou um dos tais”?

Um dos tais. Um dos tais. Podes tu também dizer: “Sou um dos tais”? Um dos tais, um dos tais. Podes tu também dizer: “Sou um dos tais”?

No Cenáculo reunidos,

O poder buscavam então,

Pelo amor de Deus unidos A clamar em oração;

Eis que um vento é descido

E o fogo do céu cai;

Podes tu dizer também:

“Sou um dos tais”?

Este povo destemido,

(São os discípulos de Jesus) Pelo mundo perseguido, Por levar a sua cruz,

E agora revestido

Com poder ao mundo sai; Podes tu dizer também:

“Sou um dos tais”?

Ó, não sejas descuidoso Para buscar o dom de Deus, Dom que te fará ditoso, Dar-te-á visões do céu. E Jesus maravilhoso Proclamando aos outros vais, Poderás então dizer:

“Sou um dos tais”? 31

Essas duas letras da harpa cristã 32 nos ajudam a fazer uma diferenciação entre o que foi o movimento pentecostal assembleiano de algumas décadas atrás e algumas inovações que vêm crescendo e ganhando espaço hoje. Tenho conversado com alguns líderes e pastores, muitos dos quais têm esboçado preocupação com os novos movimentos chamados pentecostais. É preocupante o fato de muitos dos nossos jovens e irmãos novos convertidos não terem conhecimento e não saberem o que foi o movimento pentecostal, comprometido com a pregação do Evangelho, de décadas atrás. Estamos vendo o movimento e o púlpito pentecostal ser banalizado. Nossos jovens estão sendo influenciados pela teologia da prosperidade, pelo evangelho de mercado, pelo evangelho de oba-oba, pela esquisitice “pentecostal”. Estão reduzindo a mensagem pentecostal à mera apelação ao emocionalismo. Pregadores têm se especializado em manipulações com palavras de sensacionalismo para gerar histerismo. Cantores têm apelado a letras musicais que andam de mãos dadas com as heresias. Estamos precisando de um verdadeiro reavivamento. Precisamos nos preocupar em passar o bastão para a próxima geração com a mesma dignidade e honra que nos passaram os nossos pais, nos deixando um legado de homens e mulheres dignos que viveram para a glória de Deus e foram fiéis testemunhas do Evangelho de Cristo. Quais as características de uma Igreja genuinamente pentecostal? Já fiz essa pergunta no capítulo anterior e a retomo aqui uma vez mais para que numa reflexão a partir do texto de Atos 2.37-41 possamos reafirmar e ampliar nossa compreensão.

4.1 Uma Igreja genuinamente pentecostal prioriza essencialmente a pregação do Evangelho

Ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o coração […] (Atos 2.37)

O texto nos diz: “Ouvindo eles estas coisas”. Que coisas seriam estas que foram ouvidas a ponto de deixar aquela multidão de homens e mulheres de coração rasgado? (A palavra grega para “compungido” significa “coração apunhalado”). Podemos pontuar dois fatos importantes: primeiro, o texto de Atos 2.6 diz: “Ouvindo-se o som, ajuntou-se uma multidão que ficou perplexa, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua.” Os versículos que se seguem detalham que, atônitos e maravilhados, perguntavam: “Acaso não são galileus todos estes homens que estão falando? Então, como os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua materna? […].” Nós os ouvimos declarar as maravilhas de Deus em nossa própria língua! Fica evidente, nos textos mencionados, que houve uma pregação coletiva do Evangelho. Toda a congregação dos discípulos — um grupo de cerca de 120 pessoas, conforme Atos 1.15 —, coletivamente, de uma só vez e simultaneamente, anunciou as grandezas de Deus no dia do Pentecostes. Está claro que aqui nasce uma Igreja que prega a Palavra, que anuncia Cristo. Foi exatamente para essa finalidade que o poder do Espírito Santo foi dado à Igreja, para fazer uso da palavra de Deus e pregar com intrepidez e na unção do Espírito o Evangelho de Cristo. Foi esta a mensagem. Tudo o que aqueles irmãos falaram no poder do Espírito Santo na língua materna de todos os que lá estavam penetrou o coração dos ouvintes. A Igreja de Cristo foi energizada no poder do Espírito para anunciar o Evangelho, e não para se fechar entre quatro paredes e viver de exibicionismo “espiritual” e disputas internas. Uma Igreja cheia do Espírito Santo tem a ver com a intensidade e a ênfase com as quais ela anuncia a mensagem do Evangelho.

É importante notar que ser cheio do Espírito Santo, em todo o livro dos Atos, está intimamente ligado à fala. Não há nenhuma referência ao enchimento do Espírito Santo que logo após não haja uma declaração de

que as pessoas pregaram e anunciaram com poder o evangelho. Atos 4:31 relata, por exemplo, que, certa vez, quando a perseguição contra a Igreja já começara a manifestar-se, os cristãos estavam reunidos em oração e “depois de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de Deus”. 33

“Ouvindo eles estas coisas…” A Igreja atual precisa entender que o que leva as pessoas à fé, ao arrependimento e à conversão não é show; não são

promessas de prosperidade; não são promessas de milagres mirabolantes; não

é o espetáculo de “pregadores” que brincam com seus auditórios, mas sim a

palavra pregada. A multidão dos que estavam reunidos no dia de Pentecostes ouviu nada mais, nada menos do que a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo pelos lábios de homens e mulheres que nunca fizeram um curso de

oratória, mas que, cheios do Espírito Santo, se tornaram gigantes na pregação das boas novas. Em segundo lugar (“ouvindo eles estas coisas…”), o que aquela multidão de homens e mulheres ouviu? A pregação de Pedro. Depois de ouvirem as declarações das maravilhas de Deus pela congregação dos discípulos, Pedro se colocou de pé. É interessante notar que, ao mesmo tempo em que ficaram maravilhados ao ouvir das grandezas de Deus, ficaram também sem entender como era possível que, sendo galileus todos os que falavam — a língua falada por eles era o aramaico, diga-se de passagem, muito pobre —, todavia,

a multidão os ouvia falar cada um em sua própria língua materna. E outros, ainda, em meio à multidão, zombavam deles e diziam: “Eles beberam vinho demais”. É nesse contexto que Pedro se levanta e começa a explicar, assegurando a

todos que o que ocorria ali era o cumprimento da profecia do profeta Joel. E é

a partir daí que se desenvolve o grande sermão de Pedro em Pentecostes. É impressionante a maneira como o Espírito Santo conduziu sua mensagem na boca de Pedro. O que começou apenas com um simples esclarecimento para explicar que não era vinho, era cumprimento de profecia, tornou-se o maior sermão de todos os tempos, pregado na inauguração da Igreja em Pentecostes. E o que foi que Pedro pregou? Qual foi a grande ênfase de sua mensagem? Pedro foi um pregador que usou as escrituras, discorreu sobre a profecia

de Joel e frisou com veemência o patriarca Davi, que creu na promessa de que Deus havia jurado que um de seus descendentes se assentaria no seu trono e referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte, nem o seu corpo experimentou corrupção. Pedro não brincou com a oportunidade que teve. Não perdeu tempo com invenções. Não desperdiçou o seu tempo com o irrelevante, ao contrário, centrou-se nas escrituras e com brilhantismo pregou a palavra.

4.2 Ressurreição, a ênfase do sermão

A grande ênfase do sermão de Pedro no Pentecostes foi a ressurreição. Nos versículos 23 e 24 do capítulo 2 ele diz:

[…] sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela.

Dos versículos 30 a 32 no mesmo capítulo, usando as escrituras para mencionar que o patriarca Davi se referiu a Jesus, Pedro continua:

Sendo, pois, profeta e sabendo que Deus lhe havia jurado que um de seus descendentes se assentaria no seu trono, prevendo isto, referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte, nem o seu corpo experimentou corrupção. A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas.

E ainda no versículo 36, que é posto como a última frase de seu sermão na Bíblia, Pedro afirma com contundência: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” Impressionante o fato de que foram estas palavras que acertaram os corações como uma flecha. O versículo 37 diz que, ouvindo estas palavras, compungiu-se-lhes o coração. A mensagem da cruz e da ressurreição foi capaz de rasgar corações. Eis aí o grande segredo da Igreja primitiva, a

mensagem era totalmente centrada na pessoa de Cristo e em sua ressurreição. Por qual motivo a Igreja atual anda tão fraca? A Igreja primitiva não tinha os recursos do rádio, da televisão, CDs, DVDs; não havia Internet para transmitir seus cultos ao vivo; não dispunha de nenhum meio de transporte como carro, avião, ônibus e trem, mas soube confiar no poder do Evangelho e, lançando mão do único e maior recurso que tinha, alvoroçaram o mundo de sua época. A Igreja atual é rica e tem a seu dispor todos os recursos possíveis; entretanto, sua presença na sociedade não causa tanto impacto mais. Por quê? Um dos mais graves problemas da Igreja atual está no seu afastamento da mensagem pura do Evangelho. Temos visto pregadores e pastores subirem nos púlpitos vazios da palavra. Suas mensagens são antropocêntricas, de autoajuda e cheias de chavões. Pobres de conteúdo, apelam para o emocionalismo. Faltam pregadores que combinem riqueza de conteúdo bíblico com unção do Espírito Santo. Vivemos dias em que a mensagem da cruz, do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus desapareceram completamente dos nossos púlpitos. A volta de Jesus já não é nem esperada e menos ainda pregada como outrora. A mensagem da santidade foi substituída pelos dogmas e doutrinas dos homens, e o verdadeiro caminhar com Deus já não nos cativa tanto. Há uma crise avassaladora em nossos púlpitos, simplesmente pela escassez do verdadeiro pão que alimenta. Tenho viajado por todo o Brasil, e minha percepção é que, em muitos lugares, assumir o púlpito para expor o Evangelho é como visitar um território devastado pela guerra, tamanha é a crise que enfrenta o púlpito brasileiro. Tenho chorado e clamado a Deus por um avivamento no púlpito. Fico feliz em ver e ouvir jovens interessados em pregar, mas infelizmente a grande motivação da maioria, hoje, é fama, hotel de luxo, passagem aérea em classe especial, ostentação de casas, ternos de grife importados, carros caros e milhares de seguidores nas redes sociais, como se o universo da pregação fosse uma plataforma de sucesso e de glamour. Alguns fazem da mídia um campo que apresenta uma vida absolutamente bem-sucedida e isso à custa do ministério, como se fosse esse o fim último da chamada ministerial. Toda essa ostentação é sedutora e incentiva nossos jovens pregadores a desejarem estar no ministério não pela causa do Reino, mas sim porque isso se tornou um negócio no qual o sujeito pode fazer uma carreira de fama e

sucesso, glamour, aquisição de bens materiais, acúmulo de riqueza e uma vida farta de brilho, semelhante à dos artistas no mundo das celebridades. Temos vivido esse terrível drama da crise de referenciais. Quem tem inspirado nossos jovens? Quais as intenções dos que aspiram pelo ministério da Palavra? O apóstolo Paulo chamou o jovem pastor Timóteo a sofrer com ele as aflições como bom soldado de Jesus Cristo. Não fomos chamados para uma carreira de fama, fomos chamados para no poder do Espírito Santo testemunhar de Jesus. Precisamos nos voltar para a velha mensagem da cruz. Precisamos de pregadores como Paulo, que inspirem jovens não ao sucesso nem à fama, mas a se gastarem pelo Evangelho de Jesus Cristo. O púlpito precisa voltar a ser o lugar onde os tribunos de Deus, com o coração em chamas, comportem-se como verdadeiros profetas e falem a Palavra com o sentimento de Deus, e não como um palhaço, um artista, um fanfarrão, um ludibriador ou mesmo um manipulador da fé alheia. Muitos pregadores querem comprar espaço e horário em eventos de projeção midiática, e assim terem o passaporte carimbado para o mundo da fama evangélica. Infelizmente muitos usam o “apelo” no final da pregação como um meio de provar para o público do mundo virtual que sua “chamada” está aprovada por Deus. Pedro, porém, permaneceu firme nas escrituras. Falou destemidamente da ressurreição, uma doutrina fundamental na fé cristã, num contexto que lhe era hostil, pois afirmar que Jesus crucificado havia ressuscitado era um grande absurdo naquele contexto. Ainda assim Pedro anunciou com poder a ressurreição de Jesus. E o resultado? Sem forçar, sem apelar, aquela multidão com o coração apunhalado pela Palavra se rendeu ao poder do Evangelho, e Lucas registra para nós o primeiro relato na história cristã de uma conversão em massa de quase três mil pessoas.

4.3 Uma Igreja verdadeiramente pentecostal convoca ao arrependimento, não ao histerismo

Arrependei-vos…

É preciso convocar o povo ao arrependimento. Essa é a mensagem que precisamos pregar nesses tempos difíceis.

Antonio Gilberto, em seu livro “Verdades pentecostais”, comenta o seguinte:

O avivamento espiritual, como no princípio, é uma necessidade em nossos

dias. Hoje, muitas igrejas pensam estar experimentando um reavivamento, quando, na verdade, tudo não passa de inovação, misticismo, falsificações e mudanças injustificáveis na liturgia do culto, etc. 34

Em Atos dos Apóstolos 19.18-20 temos o registro de um evento que ilustra perfeitamente o que significa de fato um verdadeiro avivamento e quais os seus desdobramentos. Mediante o temor (Atos 19.17) e o arrependimento daquele povo, o texto bíblico nos informa que os efésios confessaram os seus pecados publicamente e queimaram os seus livros de magia. Precisamos de pregadores e mensagens que nos confrontem. Precisamos de eventos (congressos) que nos façam refletir processos de mudança. Estamos viciados em eventos sofisticados de onde entramos e saímos, ano após ano e nada de conversão. E por quê? Porque os nossos pregadores estão substituindo a mensagem do arrependimento pelo entretenimento. Não há confronto, há sensacionalismo e falsa impressão de poder. O Brasil precisa de avivamento. Quais os critérios para convidar um pregador em alguns lugares? Se ele exibe fotos em grandes eventos e se tem um número significativo de curtidas de seus fãs e seguidores, então está habilitado e aprovado pelo crivo do evento. Não há nada de errado em um pastor ou pregador participar das redes sociais, ter legiões de seguidores e

milhares de curtidas em suas postagens. Não me refiro a isso, o que seria uma venenosa hipocrisia de minha parte, uma vez que também faço uso das redes sociais. O que afirmo aqui é que não deve ser esse o nosso critério. Em nossos púlpitos, o critério tem que continuar sendo o de convidar obreiros aprovados que manejam bem a Palavra da Verdade. O nosso critério precisa continuar sendo o de convidar homens que sejam conhecidos sim, no céu e no inferno. Homens que, ao falarem a Palavra de Deus, os ouvintes saiam falando o que os anciãos do Sinédrio falaram a respeito de Pedro e João: “Ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles estado com Jesus.”

A nossa mensagem precisa gerar arrependimento no coração das pessoas.

Os que nos ouvem precisam se dobrar não à nossa capacidade de falar, tampouco ao nosso desempenho, e sim à graça e ao poder do Espírito Santo em nossa vida. Em nossa mensagem, Jesus precisa ser percebido claramente como o foi na mensagem de Pedro. Sei que há uma forte pressão, pois as pessoas querem entretenimento, e muitos pregadores terminam cedendo, se vendem e falam o que o povo quer ouvir. Todavia, sigamos o exemplo de Pedro, bem que ele poderia ter se deixado levar pela empolgação de estar falando a uma enorme multidão e baratear o seu discurso. Sua postura, no entanto, foi firme, assumiu a palavra e disse: arrependei-vos. Precisamos sim de profetas do púlpito que tenham coragem de pregar arrependimento. Enquanto a Igreja brasileira continuar alimentando essa geração com milagres, mas sem fomentar uma mensagem de arrependimento e volta para Deus, estaremos longe de um genuíno avivamento. É necessário convocar o povo ao arrependimento. Avivamento é corrigir a rota da nossa jornada. É acertar a vida com Deus. Avivamento é converter, mudar de direção. Arrepender e converter são duas palavras intimamente ligadas. Deus pode e quer dar avivamento para a sua Igreja, para o seu povo, para o Brasil, mas precisamos abrir o nosso coração para a Palavra de Deus e permitir que ela nos conduza, que nos molde, que provoque em nós desejo de mudança.

4.4 Uma Igreja pentecostal assume impreterivelmente sua vocação profética

Salvai-vos desta geração perversa.

Aqui, antes de qualquer coisa, proponho que devemos resgatar o conceito

de profecia, pois, infelizmente, em muitos espaços pentecostais a profecia foi

reduzida ou colocada no mesmo nível do prognóstico do futuro, como fazem

os

videntes. Quando se fala em profecia, muitas vezes se pensa em adivinhar

o

futuro, revelar o que há lá na frente. Profetas, videntes, médiuns e

esotéricos têm sido colocados no mesmo pacote. Entretanto, cabe afirmar que a profecia bíblica veterotestamentária não passa pela adivinhação, nem pela revelação do futuro. O profetismo clássico não girou em torno do êxtase, mas de um profundo compromisso com Deus e com o povo. Em outras palavras, podemos afirmar que a profecia

veterotestamentária possui duas dimensões: anúncio e denúncia. Os profetas de Deus anunciavam a salvação ou o castigo, e denunciavam reis e sacerdotes, ricos e poderosos, uma vez que estes se achavam em total desvio de Deus e de Sua Palavra. Não nos faltam exemplos de profetas como Isaías, Amós, Miqueias, Jeremias, Oséias, Ezequiel, Malaquias — não importa se são classificados como profetas maiores ou menores 35 —, todos fizeram algum tipo de denúncia, que, diga-se de passagem, foram denúncias pesadas. Sem contar os profetas anônimos, aqueles de cujo nome sequer temos o registro, como foi o caso daquele homem que falou contra a casa do sacerdote Eli em I Samuel 2.27-36; os não literários, aqueles como Elias,

Elizeu, Micaías, Natã, etc., que eram profetas, mas não produziram literatura;

e ainda o caso da profetisa e juíza Débora, que, depois da vitória sobre Jabim

e Sísera, que oprimiam Israel, entoou um cântico e, com seu cântico poético, denunciou a sua própria geração, que estava confortável, alienada e totalmente alheia à situação de guerra, horror e opressão que acontecia ao norte de Israel (Jz 5. 15-17). No Novo Testamento a situação não é diferente. Começando por Jesus, ficam evidentes as críticas e denúncias que foram feitas por meio de seu ministério, especialmente contra a classe religiosa de seu tempo. Jesus desmontou a lógica religiosa com sua mensagem — através dos milagres por ele operados e no modo como acolheu os pobres, pecadores, publicanos e prostitutas. Chamou os fariseus de hipócritas e de serem semelhantes aos sepulcros caiados, por exibirem uma falsa santidade, quando na verdade a religiosidade deles estava doente. Virou as mesas dos cambistas no templo e falou para os sacerdotes que as prostitutas estavam entrando no Reino primeiro do que eles. Em todo o Novo Testamento, desde os Evangelhos até o Apocalipse, toda

a mensagem denuncia um sistema opressor e conclama homens e mulheres para uma nova vida, pois o Reino de Deus é chegado. Jesus deu testemunho de João Batista, que, aliás, foi uma “pedra no sapato” de Herodes, denunciando também o seu pecado — dos nascidos de mulher, nenhum profeta foi maior do que João. João foi o último dos profetas. Conquanto não exista hoje essa categoria dos profetas da antiguidade, a Igreja no Novo Testamento assume a vocação profética. Isto é, compete à Igreja ser essa voz profética na sociedade contemporânea, que denuncia o

pecado, a injustiça, a maldade e que se posiciona ao lado dos fracos, dos que não têm voz, das minorias desfavorecidas, e que acolhe o estrangeiro, o pobre, o órfão e a viúva. Infelizmente, ao invés disso, temos visto o movimento evangélico se especializando no irrelevante. A Igreja contemporânea precisa de verdadeiros profetas. Sim, precisamos de profetas da estirpe de:

Isaías e Jeremias, que levantaram o dedo em riste e denunciaram a opressão, a injustiça, o engano e a violência.profetas. Sim, precisamos de profetas da estirpe de: Amós, que denunciou a exploração do homem pelo

Amós, que denunciou a exploração do homem pelo homem.a opressão, a injustiça, o engano e a violência. Miquéias, que vociferou contra o abuso dos

Miquéias, que vociferou contra o abuso dos aristocratas de Jerusalém contra a maioria do povo campesino.Amós, que denunciou a exploração do homem pelo homem. João Batista, que repreendeu o vil Herodes.

João Batista, que repreendeu o vil Herodes.de Jerusalém contra a maioria do povo campesino. Martin Luther King Jr., que pregou o sermão

Martin Luther King Jr., que pregou o sermão em Atlanta e fez o discurso em Washington reivindicando igualdade e dignidade para os negros e colocou os norte-americanos de joelhos.povo campesino. João Batista, que repreendeu o vil Herodes. Wilberforce, que pastoreava uma igreja e ao

Wilberforce, que pastoreava uma igreja e ao mesmo tempo era membro do parlamento inglês e que jogou ao chão o regime escravagista.para os negros e colocou os norte-americanos de joelhos. Pastores anônimos nos morros do Rio de

Pastores anônimos nos morros do Rio de Janeiro, que pregam o Evangelho e promovem cursos de alfabetização.inglês e que jogou ao chão o regime escravagista. Pedro, no dia de Pentecostes, não hesitou

Pedro, no dia de Pentecostes, não hesitou em falar para aquela multidão:

“salvai-vos desta geração perversa”. A Igreja estava começando, era um momento de euforia, todos estavam extasiados com aquela enorme alegria. Pedro e os demais apóstolos poderiam ter se deixado levar pela emoção do momento; no entanto, Pedro entendeu que a porta de entrada da Igreja é a conversão, não a adesão. A Igreja não é um clube social. A Igreja é a vida de homens e mulheres que se entregam sem reservas à causa do Reino de Deus, convertidos à mensagem de Jesus Cristo e dispostos a profetizar contra toda e qualquer estrutura de injustiça e de pecado. E foi isso que Pedro fez. Levantou a sua voz e pregou o Evangelho. A Igreja não é uma brincadeira, não é um show, tampouco uma aventura. Ou a Igreja atual assume o seu compromisso e vocação profética, ou sequer pode ser chamada Igreja, pois a única agência de Deus na terra para continuar a tarefa de luta contra o pecado, contra a injustiça, a favor do bem, do perdão e do amor, é a Igreja de

Jesus Cristo, comprada e lavada no seu próprio sangue. Não podemos nos calar, pois foi para uma conjuntura como essa que o Senhor nos convocou.

Capítulo 5 - O PERFIL DE UMA IGREJA RELEVANTE

Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos. (Atos 2.42-47)

Não muito tempo atrás, participei de uma palestra cujo tema foi: “Por que a Igreja continua querendo dar respostas a perguntas que não são mais feitas?” O palestrante iniciou sua fala contando que um pastor numa cidade do Rio de Janeiro abriu uma igreja com o nome: “CRISTO É A RESPOSTA”; embaixo da placa os pichadores escreveram: “E QUAL É A PERGUNTA?”. Podemos ver na atitude dos pichadores, num primeiro momento, um ato de vandalismo, desrespeito ou mesmo deboche. Todavia, a pergunta em si nos leva a questionar a relevância da Igreja para a sociedade atual. Qual tem sido o envolvimento da Igreja com a cidade? Qual a importância ou a relevância da Igreja hoje, no meio em que ela está inserida? Nossas respostas satisfazem às questões contemporâneas dentro do tempo e do espaço, ou insistimos com repostas para perguntas que não são mais feitas? Entendemos que o Evangelho de Jesus Cristo é simples. Resta-nos então a pergunta: se o Evangelho de Jesus Cristo é simples, por que a Igreja, aquela que se diz portadora da mensagem desse Evangelho, ficou tão sofisticada a ponto de perder sua relevância? Um dos pontos fundamentais é exatamente este, a Igreja ficou sofisticada. Depois do evento de Pentecostes em Atos 2, os cristãos foram se multiplicando. Os anos foram passando, as décadas foram virando séculos e

milênios e, com o passar do tempo, os homens foram organizando Igrejas e denominações, criando instituições, tradições, formas e ritos; as instituições foram ganhando espaço, ganhando corpo, crescendo e transformaram-se num fim em si mesmas. O pastor Ricardo Barbosa afirma: “A simplicidade do Evangelho foi substituída pela complexidade institucional”. 36 Com a perda da simplicidade do Evangelho e a supervalorização institucional, a Igreja passou a cuidar de seus interesses políticos a ponto de perder a sua visão e a sua missão. A perda da relevância e da contribuição espiritual, social e cultural é resultado da perda da visão e da missão. Na verdade, o que houve foi uma substituição da visão e da missão da Igreja pelo institucionalismo e por políticas de poder. Ou seja, se a visão é o Reino de Deus e a missão é trabalhar para cuidar de vidas, com essa substituição a visão não mais é o Reino de Deus, e sim o lucro, o poder e a preservação desse poder institucional. E a missão é o fim em si mesmo de manutenção de suas políticas perversas internas. Quando a Igreja se fecha teologicamente, quando vive em torno de suas questões meramente institucionais, quando seu trabalho se limita única e exclusivamente às suas complexidades e sofisticação, ela perde totalmente sua capacidade de influência espiritual, social e cultural. Suas repostas são sempre fora de seu contexto histórico, isto é, a reposta que se quer dar hoje é para uma pergunta que se fez ontem. Entretanto, para dramas e problemas contemporâneos, precisamos também de uma Igreja contemporânea. Por que a Igreja de Atos teve um papel de destaque na história do primeiro século? Por causa da contemporaneidade de sua atuação. Um dos textos que julgo interessante neste sentido é o do capítulo 13, versículo 36, dos Atos dos Apóstolos. Em Antioquia da Pisídia, Paulo se colocou de pé. A partir do versículo 16 temos a narrativa do discurso que fora proferido por ele. No versículo 36, Paulo diz: “Tendo, pois, Davi servido ao propósito de Deus em sua geração […]”. Podemos perceber o quanto é importante e necessário que a Igreja assuma o seu papel histórico, no qual está inserida. Davi serviu ao propósito de Deus em sua geração, no seu tempo. Temos visto uma Igreja nos dias de hoje que, quando não está rodopiando em torno de sua agenda meramente institucional, está atolada até o pescoço em uma teologia que já não responde mais ao hoje. Algumas denominações têm se perdido teologicamente por perder o seu tempo discutindo uma

teologia que fez sentido e respondeu, sim, às realidades e às pessoas do século XVI, por exemplo. Ou a Igreja é atual, atenta aos dilemas e dramas da sua realidade e contemporaneidade, ou ela será sempre uma Igreja que até oferece respostas, mas a sociedade está sempre querendo saber qual é a pergunta, porque suas propostas de respostas não têm contato com as perguntas de seu tempo. Outro texto que nos ajuda a compreender melhor essa questão é o de Atos, capítulo 17.22-23, Paulo em Atenas.

Então Paulo levantou-se na reunião do Areópago e disse: “Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos, pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio.”

Gedeon Alencar, em sua obra “Protestantismo tupiniquim”, 37 acertou ao comentar o texto bíblico de Atos 17.16.

Paulo vê na religiosidade ateniense “devoção” e não superstição. E é a partir dela que ele prega a mensagem. Sua contextualização usa, inclusive, a poesia popular da época e da terra. Ele não prega uma mensagem fora do tempo e espaço.

Gedeon segue sua discussão apontando alguns questionamentos a partir dos quais ele mesmo nos apresenta algumas razões do insucesso da Igreja atual em sua proposta de evangelização, e assim continua:

Qual estratégia? (a palavra é traiçoeira). Se Cristo é a resposta, então qual é a pergunta? Ou seja, deveríamos estar nos perguntando sobre o que o mundo está perguntado para nós. Quais são os obstáculos à evangelização? Quais as razões de nossa incapacidade de influência cultural?

Em sua discussão, o autor oferece algumas possíveis respostas e pontua:

nós estamos presos às nossas instituições. Eis uma razão por que há uma longa lista de questões atuais sobre as quais não temos nada a dizer. Ou sobre as quais não sabemos dizer nada. 2) Nossa linguagem de gueto. O dialeto “evangeliquês” não é entendido nem pelos iniciados. “Tá amarrado” pode ter inúmeras significações. Inclusive nenhuma. Se quem ouve for um cliente ou um pai de santo, que também faz “amarração”, pode entender outra coisa. 3) Nossa (falsa) expectativa. Se estamos pregando a mensagem (verdadeira) da salvação em Cristo, por que as pessoas não a aceitam? E por que outras debocham? A teologia do domínio inventou uma ótima explicação para nossos fracassos evangelísticos: a falta de amarração dos demônios! Pois é, pelo visto, Paulo esqueceu desse detalhe quando foi pregar em Atenas. Nós esquecemos que a interrupção da mensagem pode acontecer tanto por “ação do Espírito” (no caso de Pedro), quanto por “questões filosóficas” (no caso de Paulo). 4) Nossa (conveniente) teologia. Pedro e Paulo saem de lugares distintos, têm perspectivas dispares, visões de mundo diferentes, mas a mensagem de ambos passa fundamentalmente pela pessoa de Cristo: encarnação, morte e ressurreição. O pressuposto básico é: o homem é pecador e precisa de um salvador, e somente Cristo é capaz de salvá-lo. Vai agradar (aos crentes amigos de Cornélio) ou desagradar (aos filósofos atenienses)? A mensagem do Evangelho não pode se adequar aos ouvidos e conveniências da plateia.

De fato, temos hoje que nos perguntar: será que temos uma Igreja relevante? Que tipo de espiritualidade a Igreja contemporânea tem gerado? Temos um movimento no Brasil que chamam de Igreja Evangélica, mas seu comportamento não tem sido bom. O testemunho evangélico brasileiro tem sido vergonhoso. Diante dessa realidade, nos perguntamos: vale a pena ainda acreditar na Igreja? É possível uma Igreja que sinalize o Reino de Deus com igual intensidade tal qual a Igreja primitiva? É possível uma espiritualidade sadia, saudável? É possível uma Igreja atuante e relevante? 38

5.1 O que é a Igreja?

Antes de avançarmos um pouco mais em nossa discussão, precisamos fazer uma distinção clara do conceito de “Igreja” como corpo místico de Cristo que não tem temporalidade nem espacialidade, e de “Igreja” como instituição. No grego, o vocábulo “igreja” é ekklesia. O termo, literalmente, refere-se à reunião de um povo em uma assembleia ou igreja local. A Igreja é um organismo místico composto por todos os que, pela fé, aceitaram o sacrifício vicário de Cristo. A Igreja é um organismo vivo. Em “A Igreja desviada”, de Charles Swindoll, o autor nos traz uma definição objetiva e clara.

A igreja é um corpo de pessoas chamadas dentre a humanidade para o propósito único e específico de glorificar o Salvador e Senhor Jesus Cristo. Quando Jesus afirmou em Mateus 16.18, “Eu edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”, Ele estava se referindo à igreja universal. Ele não estava se referindo a um edifício erigido em alguma propriedade, mas a um corpo de indivíduos que ama a Cristo acima de todas as coisas. Esse corpo não tem raízes políticas nem limites culturais; não possui barreiras linguísticas nem raciais; não tem laços denominacionais nem políticos. A igreja de Jesus Cristo não é uma corporação. […] A igreja local, portanto, não é um estabelecimento comercial com uma cruz fincada no telhado. Antes, a igreja que Jesus prometeu construir era uma entidade espiritual da qual somente ele seria o cabeça.

Esta Igreja, a Igreja de Jesus Cristo, marcha triunfante. A Igreja invisível, universal, clandestina, corpo místico de Cristo, plantada como carvalho de justiça para a manifestação da sua glória, composta por homens e mulheres de todas as raças, tribos, povos e línguas, continua empolgante, militante e atuante na causa do Evangelho e do Reino de Deus. É importante salientar que o nosso objetivo não é atacar a “Igreja instituição”, menos ainda a Igreja “organismo vivo”. Entretanto, afirmamos que a crítica e a denúncia são dirigidas sim à “Igreja instituição”. A instituição deve servir à Igreja e não o contrário. A Igreja de Cristo é a mais nobre de todas as organizações existentes entre os homens. Portanto, os

apontamentos que fazemos referem-se à institucionalização e à burocratização, com todos os seus inerentes males e confusões.

5.2 Os princípios e a relevância da Igreja primitiva

O que pretendo discorrer neste capítulo a partir da reflexão do texto de

Atos 2.42-47 é a relevância e a espiritualidade da primeira comunidade cristã que nós chamamos de “Igreja primitiva”. Em Atos dos Apóstolos, temos de fato a maior expressão daquilo que Jesus propôs para que sua Igreja fosse relevante. Não estamos, contudo, afirmando que não havia problemas internos no seio da comunidade ou mesmo que aquela comunidade era perfeita — não era. Diga-se de passagem, aquela foi uma comunidade formada por gente, pessoas como nós, cheias de dilemas, anseios, temores, crises, contradições e todas as variáveis humanas. Quero sim afirmar que ali estava verdadeiramente o modelo do que pode e deve ser a Igreja do Cristo vivo.

A fim de termos uma melhor compreensão, subdividi em quatro pontos a

forma como se desenvolveu a espiritualidade da Igreja em Jerusalém e de como foi capaz de, em seu chão, em sua realidade e em seu tempo, ser uma Igreja atuante e relevante.

1) Espiritualidade de disciplina: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos

e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (Atos 2.42)

2) Espiritualidade que visou à construção do reino de Deus: “Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos.” (Atos 2.43) 3) Espiritualidade de partilha: “Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade.” (Atos 2.44-45)

4) Espiritualidade discipuladora e hospitaleira: “Todos os dias continuavam

a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos.” (Atos 2.46-47)

Partindo desse resumo, vamos a cada um dos pontos.

5.3 Espiritualidade de disciplina

E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. (Atos 2.42)

Tudo na vida exige de nós disciplina. Precisamos de disciplina na alimentação, no horário de acordar, no exercício físico, no tempo para leitura. Enfim, precisamos ser pessoas disciplinadas na vida. Na vida da Igreja, no seu crescimento diário, não é diferente. Precisamos de uma Igreja disciplinada. O pastor Ricardo Barbosa, em seu livro “A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja”, diz que:

A prática das disciplinas espirituais é o processo por meio do qual readquirimos a autoridade sobre nós a partir do fortalecimento das convicções (revelação), do bom uso da razão e da resistência às paixões e seduções que há no mundo. 39

Ricardo Barbosa ainda afirma que a comunidade em Jerusalém: era uma comunidade de cristãos disciplinados. A graça não se opõe à disciplina; pelo contrário, é a disciplina espiritual que sinaliza nosso desejo espiritual. A igreja sofre quando tentamos viver sob a direção do Espírito, mas sem disciplina, como também sofre quando tentamos viver com disciplina, mas sem o Espírito Santo. 40

A Igreja de Jerusalém foi uma Igreja que, no seu nascedouro, sob total influência e capacitação do Espírito Santo, se autodisciplinou. E foi uma disciplina calcada em pelo menos quatro pilares fundamentais para a saúde espiritual de qualquer comunidade cristã:

a) disciplina no ensino dos apóstolos: foi uma comunidade que não abriu mão do estudo sério das escrituras;

b) comunhão, ou seja, desenvolveu-se uma koinonia, que resultou na

ausência de necessitados ou de pobres entre eles. Esse era, na realidade,

o objetivo e o espírito de toda a prática dessa koinonia, muito embora

não saibamos os detalhes concretos dessa organização: compartilhava-se tudo para que ninguém tivesse necessidade;

c) partir do pão: uma igreja genuinamente cristã é aquela que discerne bem

o corpo e o sangue do Senhor Jesus;

d) oração: foi uma comunidade que viveu a prática da oração. Entendeu oração não como um meio de converter Deus aos seus caprichos, isto é, conseguir coisas de Deus. Mas entendeu oração como um caminho de nos converter à vontade de Deus.

Com certeza você já se perguntou: qual o segredo da Igreja primitiva? Se você já leu os Atos dos Apóstolos e conhece os relatos de Lucas, que narrou a história da primeira comunidade cristã, certamente já se pegou questionando qual o segredo de seu crescimento e progresso. Hoje se fala muito em métodos de crescimento de igrejas. Seminários, congressos, encontro de pastores têm por demais abordado o tema “crescimento da igreja” ou “como fazer uma igreja crescer”. Entretanto, é necessário pensarmos que não há nenhum método eficaz se não o de conduzir a Igreja disciplinada na Palavra de Deus, na pregação, na exposição das escrituras, no estudo sério das sagradas escrituras. Se prestarmos atenção, o texto de Atos 2.42 diz que “perseveravam na doutrina dos apóstolos […]”. Ou seja, havia pregação, ensino, estudo aprofundado das escrituras e do Evangelho, dos ensinos de Jesus. Lucas chama de “doutrina dos apóstolos”.

5.4 Uma igreja genuinamente cristã

Quais as bases da Igreja primitiva? Quais os pressupostos que alicerçaram sua fé? O primeiro ponto a ser ressaltado é a Doutrina dos Apóstolos. O que Lucas quer dizer com “perseveravam na doutrina dos apóstolos” é que a Igreja primitiva se mantinha firmada na instrução dos apóstolos. A Igreja primitiva mantinha-se constantemente alicerçada pelo ensino apostólico. Podemos afirmar que uma Igreja legitimamente cristã é aquela que se firma

na doutrina dos apóstolos.

5.5 O que era a doutrina dos apóstolos?

É importante ressaltar que, até esse ponto da história, não existia um sistema doutrinário organizado. Não havia um credo prefixado. Os apóstolos não estavam preocupados em defender uma “doutrina” ou qualquer corrente teológica. Afinal de contas, tratava-se de uma recém-nascida Igreja. Tratava- se de um singelo movimento de homens e mulheres que se dispunham a anunciar nada mais, nada menos que a ressurreição do Cristo crucificado. Logo, vem a pergunta: do que se tratava então isto que Lucas, em sua narrativa, chama de “doutrina dos apóstolos”? Os versículos 22 a 24 do capítulo 2 de Atos nos dão um vislumbre do que poderia se tratar aquilo que levou a Igreja primitiva a permanecer. Vejamos:

Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela.

A partir desse trecho do discurso de Pedro em Pentecostes podemos enumerar alguns pontos que constituíram o que Lucas chama de “doutrina dos apóstolos”. O ensino apostólico, que será enfatizado em todo o livro dos Atos dos Apóstolos, passando pelas cartas paulinas e gerais até o Apocalipse, está sintetizado nestes versículos. Vejamos:

1) Jesus não está na conta da ficção, ele não é uma lenda. Ele é Jesus, o Nazareno, e, portanto, um personagem da história (Atos 2.22a). Ele nasceu em Belém; criou-se em Nazaré; viveu, trabalhou, comeu, bebeu como qualquer outra pessoa no mundo. Os apóstolos fincaram as estacas de seu ensino afirmando com contundência que Jesus viveu entre os homens. Eles haviam andado, conversado, aprendido, vivido com Jesus

experiência sem precedentes. Portanto, seu ensino, sua pregação, sua doutrina começa assim: Jesus, o Nazareno… Ele é, sim, um personagem da história. 2) Jesus viveu uma vida santa, aprovada por Deus e provada por sinais e maravilhas (Atos 2.22b). Ele é o cordeiro de Deus, sem mancha, sem mácula, que tira o pecado do mundo. Toda a pregação dos apóstolos deu testemunho da santidade de Jesus. Ele é santo, como o Pai santo é. Sua vida foi plenamente aprovada pelo Pai e provada por sinais e maravilhas. 3) Jesus não foi à cruz acidentalmente. Foi um desígnio eterno de Deus (Atos 2.23). 4) Jesus ressuscitou dentre os mortos corporalmente. Não foi um pensamento, sonho ou visão (Atos 2.24). 5) Jesus subiu aos céus e em breve de lá voltará para arrebatar a sua Igreja (Atos 1.10-11).

Esta era a disciplina da Igreja, doutrina dos apóstolos. Depois de dois mil anos, a Igreja pós-moderna precisa resgatar essa mensagem outra vez. A proposta não é querer voltar a ser como a Igreja primitiva, numa espécie de profundo saudosismo ou como se a Igreja de Jerusalém fosse perfeita — o que, aliás, não era. A proposta é revitalizar o nosso conteúdo. Rever o que estamos pregando. Reavaliar o conteúdo daquilo em que cremos e que pregamos. Qual deve ser o conteúdo do nosso ensino? Certamente o mesmo conteúdo exposto pelos apóstolos. Tudo o que os apóstolos ensinaram e que merece ser lembrado historicamente foi preservado pelo Espírito Santo até os dias de hoje, e todo esse material encontra-se nas Escrituras. Uma das grandes crises que a Igreja brasileira vem enfrentando nestes últimos dias é a crise de conteúdo. O povo está faminto pela Palavra, porém o que recebe do altar não é o alimento do Céu. Alguns pastores e pregadores querem exercer sua função oferecendo um pão embolorado e velho. A Igreja contemporânea está doente porque há escassez de pão. Pastores, pregadores e líderes têm se transformado em garotos-propaganda, celebridades e artistas, quando deveriam ser despenseiros dos mistérios de Deus. É notório que vivemos uma aguda crise de conteúdo. Um dos grandes segredos da Igreja primitiva é que o conteúdo, a base, o eixo, o cerne de sua mensagem era a

pessoa de Cristo.

5.6 Espiritualidade da construção do Reino versus a espetacularização do milagre

O versículo 43 do capítulo 2 de Atos (“Em cada alma havia temor; e

muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos”) tem sido muitas vezes mal interpretado. Já ouvi, inclusive, muita gente criticando alguns espaços onde teoricamente dizem não ver mais milagres. Temos vivido um tempo em que a busca desenfreada por milagres tem sido cada vez maior. Já virou até um tipo de “neurose espiritual” essa busca insaciável por milagres, e onde não se ouve falar de milagres cabe a crítica: “nesta igreja Deus não está, pois não há milagres”. Outros ainda afirmam: “na Igreja primitiva aconteciam milagres, por que na Igreja de hoje não?” Carlos Mesters, em seu livro “Deus, onde estás?”, numa linguagem simples e clara traz um conceito de milagres, apresentando de forma prática os objetivos de Jesus na realização de milagres. Vejamos:

O que é milagre? A palavra milagre provém de “miraculum”, isto é, algo

admirável, algo que causa admiração. Na Bíblia fala-se muito nas “coisas admiráveis” que Deus fez pelo seu povo. Não é, porém, qualquer coisa admirável. Um menino, por exemplo, de três anos de idade que pula cinco metros, é uma coisa admirável, mas não receberia o qualificativo de milagre. Milagre é aquele fato, acontecimento ou realidade, admiráveis, em que o homem percebe a presença de Deus que aí se revela. 41

Pode haver milagres “falsos” e “verdadeiros”. Não basta que apareça algo de maravilhoso ou prodigioso para que se possa dizer, sem mais, que “É de Deus!”. Jesus mesmo disse que viriam muitos a fazer milagres muito grandes, e Ele adverte: “Cuidado com eles!” (Mt 24.25). Diz ainda que, no fim, haverá gente a dizer: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Não expulsamos demônios em teu nome? Não fizemos milagres em teu nome? Então hei de declarar: Nunca vos conheci! Apartai-vos de mim, vós que operais a iniquidade!” (Mt 7.22-23). 42 Diante disso, questionemos: quais os objetivos de Jesus na realização de

milagres durante seu ministério terreno? Jesus não faz milagres só por fazer. Não os faz para satisfazer a curiosidade humana, nem para autopromoção. Nunca fez milagres por brincadeira, como sugerem os apócrifos. Mesters prossegue: os milagres são sinais. Sinais do quê?

1) Sinais do tempo messiânico (Mt 11.3-5; Is 35.5). Portanto, Jesus fazia esses milagres para que os outros pudessem perceber que tinha chegado o tempo messiânico.

2)

Seus milagres eram sinais de que o Reino tinha chegado (Lc 11.20).

3)

O milagre é um sinal do poder que Jesus “possuía” de cortar a raiz dos

males, que é o pecado (Mc 2.10-12). 4) O milagre não é um fato em si, mas chama a atenção sobre Jesus, de quem o milagre pretende revelar algum aspecto da personalidade:

“quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4.41). 5) O milagre era uma demonstração de que Jesus estava acima do sábado (Mc 3.1-5; 2.27-28). 6) Os milagres são feitos para acreditar junto aos outros as palavras e a mensagem que Ele lhes dirige (Jo 12.37; Lc 10.13-14). 7) Os milagres são sinais para mostrar que Jesus está no Pai e o Pai n’Ele (Jo 10.38; 14.11). 43

Jesus nunca ofereceu milagres em troca de adoração. Jesus nunca fez milagres quando foi desafiado a fazer: negou-os a Herodes (Lc 23.8). Negou-os ao diabo na tentação no deserto (Lc 4.3-12). Negou-os a Si mesmo quando estava na cruz e diziam a Ele: “desça agora da cruz e creremos em ti!” (Mt 27.42). A partir deste panorama geral do significado do milagre e a relação do próprio Jesus com os milagres, podemos notar que essa comunidade, que se inicia com a Igreja primitiva, seguiu a diretriz de Jesus em relação aos sinais miraculosos. Assim, podemos afirmar que os milagres, na Igreja primitiva, eram postos na perspectiva do Reino de Deus. Jamais foram usados pelos apóstolos com a finalidade da espetacularização nem mesmo como propaganda de algum culto e/ou ministério. Observe-se, portanto, que “Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus” (Atos 4.33).

A comunidade acompanha os apóstolos: (Atos 2.46a – 5.12b-14) e o

contexto é o Templo, onde se reúne todo povo de Israel. Os apóstolos continuam, em Jerusalém e depois da ressurreição, a prática poderosa de Jesus. Deus está com eles assim como estava com Jesus. Trata-se de uma prática libertadora em vista da construção do Reino de Deus. 44

O importante aqui não é o caráter miraculoso da prática dos apóstolos,

mas o poder do Cristo ressuscitado e do Espírito, revelado pela prática dos apóstolos. Esse aspecto é elementar na primeira comunidade e normativo para a Igreja de todos os tempos. Se Cristo ressuscitou, a prática das comunidades cristãs deve ser uma prática poderosa e

libertadora, com sinais e prodígios, na construção do Reino de Deus aqui

na terra. 45

Os milagres continuam atuais. Deus continua, Ele quer e pode operar milagres. Todavia, a Igreja dos dias atuais precisa se desintoxicar desse vício milagreiro que faz de Deus um gênio da lâmpada, que existe para atender as suas demandas e exigências egoístas. Sinceramente, temo que o espírito do anticristo esteja operando seus grandes sinais (Ap. 13.13) e a Igreja esteja embarcando em seu falso discurso. Infelizmente temos visto uma multidão numerosa atraída por milagres sem ao menos se preocupar se o que está sendo pregado por esses milagreiros é o Evangelho ou não. A “propaganda” do Evangelho não são milagres. O que o mundo precisa ver é uma Igreja sinalizadora do Reino, produzindo homens e mulheres que brilham como luzeiros (Fp 2.15). Que seja sal e luz (Mt 5.13-16). E os milagres? Os milagres acontecerão.

Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre os enfermos, eles ficarão curados. (Mc 16.17-18)

5.7 Espiritualidade de partilha

Muito já se escreveu e muito já se falou sobre essa prática de koinonia nas

primeiras comunidades. Talvez seja impossível reconstruir a organização econômica e administrativa dessa vida comunitária, sobretudo se considerarmos o número da comunidade: primeiro três mil (Atos 2.41); depois, cinco mil (Atos 4.4); e, finalmente, “uma multidão de homens e mulheres” (Atos 5.14). Pablo Richard diz o seguinte:

O mais importante não é conhecer a organização concreta da koinonia,

mas o espírito dessa organização, que aparece com clareza no texto e que poderíamos resumir, usando as suas próprias palavras, deste modo: “Cada um dava segundo as suas possibilidades, cada um recebia segundo a sua necessidade, não havia nenhum necessitado entre eles.” 46

É importante refletir que koinonia — que é a palavra grega para

“comunhão” — se refere a relacionamentos íntimos e mútuos nos quais as pessoas compartilham coisas em comum e permanecem envolvidas umas com as outras. Swindoll nos leva a essa reflexão e comenta:

A palavra não se refere a reuniões para almoços, jantares especiais ou

cantatas de Natal. Antes, koinonia se refere a relacionamentos em que pessoas compartilham a vida umas com as outras, dividindo tanto as

dificuldades quanto as alegrias. Quem se envolve nessa comunhão cultiva uma harmonia íntima com os demais. Na igreja, a Palavra de Deus não é apenas aprendida por meio da pregação; também é vivenciada por meio

da comunhão. 47

5.8 Espiritualidade discipuladora e hospitaleira

Temos observado uma Igreja preocupada em fazer apelo, mas que não faz discípulos. Quer número e estatística, mas não quer compromisso pessoal. Apoia-se no antigo jargão: “a salvação é individual”, e daí vem a atitude de cada um por si. Ou seja, faz-se o apelo (convite), as pessoas vêm à frente do púlpito, e pronto. Mas e aí? E agora? Onde está o cuidado? E o discipulado? A tarefa da Igreja é anunciar o Reino, cuidar, acolher, amparar, discipular, e

não fazer um ritual onde se carimba o “passaporte espiritual” da pessoa para ir para o Céu. Jesus deixou claro: “Ide fazei discípulos de todas as nações […]” (Mateus

28.19).

Ou compreendemos o significado de “fazer discípulos”, que, aliás, foi o imperativo do mestre Jesus, ou “ganhar almas” não passa de mais um jargão vazio e sem sentido dentro do movimento evangélico. “Ganhar almas” não é pregar um sermão de quarenta minutos, fazer o “apelo” no final, contar os “números” e depois usá-los como um meio de mexer nas emoções dos crentes e impressionar pessoas pelo “método das redes sociais”. “Ganhar almas” é salvar vidas no seu contexto político, social, cultural, econômico e espiritual. Ou seja, é viabilizar caminhos para que o indivíduo todo seja salvo, não só a alma para depois de morrer ir para o céu. A vida acontece aqui e agora. Jesus disse: “quem crê em mim, TEM [não é “terá”] a vida eterna”. Não adianta culto no templo, nem discurso, nem apelo, se não apresentar “o evangelho todo para o homem todo”. Reduzir “salvação de almas” a um “apelo” é diminuir ou até limitar a mensagem e a proposta do Evangelho. Alguém pode até questionar: “mas sou um itinerante que apenas passa de cidade em cidade”. Contudo, isso não exclui o mandamento do Mestre: “ide e fazei discípulos”. Mais do que fazer apelo, é fazer discípulos. Atribui-se a ideia de fazer apelo a Charles Grandison Finney, nos Estados Unidos, e a John Wesley, na Inglaterra, o que foi copiado por Billy Graham no século XX. Ricardo Gondim, em sua obra “Missão integral: em busca de uma identidade evangélica”, faz uma abordagem histórica na primeira parte do livro e diz:

Finney foi um inovador para a época. Criou o “banco dos ansiosos”, um lugar reservado para as pessoas que, à medida que pregava, sentissem o coração “ansioso”. Obviamente trazia o conceito de Wesley que falava no coração ardente quando exposto à verdade do evangelho. Depois que terminava de pregar, Finney conduzia as pessoas que se sentavam no “banco dos ansiosos” para mais instruções, conduzindo-as assim à salvação. Finney foi copiado ferozmente por evangélicos e pentecostais em redor da terra e seu “banco dos ansiosos” tornou-se o

precursor do “apelo”. A esmagadora maioria dos pastores evangélicos faz apelo no final do culto, convidando as pessoas a aceitarem a Jesus. Salvar almas através do novo nascimento passaria a ser a marca mais característica dos evangélicos. Billy Graham tornou-se verdadeiro ícone dos evangélicos porque em suas famosas “Cruzadas de Evangelização” usava o mecanismo de Finney para salvar almas. Milhares de pessoas foram “à frente”, preencher um cartão de conversão, fizeram uma oração de entrega e foram pronunciadas salvas. 48

Tenho profunda admiração e respeito por todos estes homens, e não estou criticando-os, menos ainda invalidando seus trabalhos. Entretanto, uma coisa precisa ficar clara: se queremos mesmo levar o Evangelho a sério, precisamos urgentemente ressignificar o conceito de “salvar almas”; do contrário, veremos crescentemente no meio evangélico o “apelo” sendo usado para projeções pessoais e proselitismos, como já acontece frequentemente. Salvar almas é doar acompanhamento (leia-se “discipulado”). Fazer discípulos é transformar pessoas em seguidores de Cristo. Isso é um trabalho árduo, requer dedicação e doação de quem prega. Por esta razão, Paulo, o apóstolo, disse: “me gastarei e me deixarei gastar por vossas almas”. Paulo não era um artista que se apresentava, dava seu show, aglomerava as multidões ao redor da sua plataforma e depois tornava-se indiferente aos dramas e dilemas do povo. O apóstolo dos gentios teve a grandeza de não limitar seu trabalho apenas a uma apresentação de trinta minutos, ou uma hora, ou o tempo que fosse. Ele entendia que o Evangelho acontece não só no discurso, mas principalmente na vida das pessoas. Isto é, mais do que discursar, é acompanhar pessoas até que Cristo seja formado nelas. Não estou excluindo o convite que fazemos no final da pregação para convocar as pessoas a tomarem uma decisão por Cristo. Pelo contrário, que haja sim esse convite, mas sem permitir que a ordem do discipulado seja substituída. É preocupante o fato de que a Igreja atual tem substituído a ordem do discipulado pelo apelo. Eis a razão por que alguém já disse que “a Igreja moderna tem sido uma ótima parteira, porém uma péssima pediatra”. A Igreja não pode ser como a mãe irresponsável que gera, mas não cuida de seus filhos. Fazer discípulos significa impregnar a vida de Deus no próximo, inspirar outros a quererem a vida de Deus que temos.

A comunidade de Atos era discipuladora e hospitaleira. Era uma comunidade acolhedora. A Igreja atual precisa aprender essa lição, cumprir e exercer sua Grande Comissão no espírito da hospitalidade. Precisamos ser uma Igreja acolhedora. Amparar o aflito, o estrangeiro, o pobre e o necessitado deveria ser prática constante sem nenhum tipo de objeção, sem nenhuma discussão — como se

esse tipo de serviço significasse qualquer disposição para a política partidária esquerdista, como muitos afirmam. Infelizmente tem crescido o entendimento dentro das Igrejas evangélicas de que cuidar do pobre e necessitado, abordar

o tema do estrangeiro e da viúva é papo de marxista, esquerdista, socialista,

comunista. Entretanto, precisamos reconhecer urgentemente que essa é a missão da Igreja. Esse é o papel do Sal. No Sermão do Monte, Jesus afirmou:

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça […] Busquem em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça.” Tiago 1.27 diz: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.” Precisamos aprender de uma vez por todas que fomos plantados pelo Senhor como Carvalhos de Justiça para a Sua glória. Fazer discípulos e ser uma comunidade que acolhe independentemente da cor, da raça, da etnia, do sexo, da posição social ou econômica é o que justifica a existência da

Igreja. Se a Igreja não faz isso, torna-se irrelevante, e uma Igreja irrelevante é

o sal que perdeu o sabor. Para nada mais presta senão para ser jogado fora e pisado pelos homens. Que Deus nos ajude.

Capítulo 6 - HORA DA DECISÃO

Até quando vocês vão oscilar para um lado e para o outro? Se o SENHOR é Deus, sigam-no; mas se Baal é Deus, sigam-no. O povo, porém, nada respondeu. (I Reis 18.21).

Há quinhentos anos o mundo vivia as transições do medieval para o moderno. As teses de Lutero não só confrontaram a Igreja medieval, que estava desviada há mais de mil anos, como também provocaram um revolucionário movimento. O grito estava dado. A Igreja precisava voltar-se para Deus e Sua Palavra. Hoje vivemos um momento histórico semelhante: aquele via ruir o paradigma medieval e nascer o moderno; este está assistindo à transição do moderno para o pós-moderno. Os desafios são enormes. Precisamos de um grande avivamento. Como Igreja, precisamos ter uma atitude diante de Deus e diante dos homens. Quando Israel estava afundado em uma aguda e profunda apostasia, tendo como rei o covarde Acabe, que era conivente com toda sorte de idolatria introduzida em Israel por sua maligna esposa Jezabel, Deus usou poderosamente o seu profeta Elias, que desafiou Acabe, Jezabel, os falsos profetas, e confrontou todo o povo de Israel. O povo precisava tomar uma decisão: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o.” Nada responderam, pois na verdade queriam ver como ia ficar tudo aquilo. Ou seja, um povo sem convicções e sem ideais espirituais. Assim vive a “igreja” pós-moderna. Fala de “evangelho”, mas não sabe o que é o Evangelho. Ouve uma boa e verdadeira mensagem do Evangelho e até gosta e aplaude, mas ouve o falso evangelho e o charlatão que está a enganar e com disposição ainda maior o recebe e aceita. Estamos à beira de um precipício. Deus usa os seus servos nos dias de hoje, mas poucos dão ouvidos. As mensagens de Deus, que adverte e corrige, não têm espaço nos redutos ditos evangélicos. Todavia, é preciso entender com urgência que é a Palavra de Deus que pode nos colocar nos trilhos outra

vez. Só a Palavra de Deus e o poder do Espírito Santo podem trazer um genuíno avivamento. Nossa nação precisa de cura, mas para sarar a nação é preciso primeiro sarar a Igreja. A cura do povo é saúde para o país. Para isso urge que sejamos confrontados. Chega de coxear entre dois pensamentos. Chega de claudicar andando vacilante pelo caminho. Voltemo-nos para Deus. Renovemos nosso compromisso com a Palavra. Sejamos amantes das escrituras. Corramos para a oração mais do que para o show. Reverenciemos e adoremos a Jesus Cristo e não a homens famosos. Deus quer dar avivamento, quer derramar torrentes de águas sobre o Seu povo. Como nos dias de Elias, quer fazer descer o fogo do seu Espírito Santo sobre os nossos altares. Mas, para que isso aconteça, é preciso arrependimento e conversão, antes que seja tarde demais.

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2006.

1 GONDIM, Ricardo. O imperativo de viver. São Paulo: Doxa Produções, 2017, p. 17.

2 GONDIM, Ricardo. O imperativo de viver. Op. cit.

3 GONDIM, Ricardo. O imperativo de viver. Op. cit.

4 Devo mencionar, ainda que superficialmente, o fato de que diversos autores pentecostais indicam que a leitura pentecostal é mais lucana do que paulina. Sobre o tema, indico a obra: OLIVEIRA, David Mesquiati de; TERRA, Kenner R. C. Experiência e Hermenêutica Pentecostal: Reflexões e propostas para a construção de uma identidade teológica. Rio de Janeiro: CPAD, 2018.

5 OLIVEIRA, David Mesquiati de; TERRA, Kenner R. C. Experiência e Hermenêutica Pentecostal. Op. cit., p. 94.

6 Inspiro-me em RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. Tradução de José Afonso Beraldin. São Paulo:

Paulinas, 1999. [Coleção: Estudos Bíblicos].

7 Obra de ou escrita por Lucas, o médico. O mesmo que escreveu o evangelho que leva o seu nome. O evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos eram um texto só. Posteriormente foi feita a separação entre um texto e outro, ficando a primeira parte conhecida como o “Evangelho segundo S. Lucas” e a segunda parte, como o livro dos “Atos dos Apóstolos”.

8 Termo técnico para Santa Ceia ou Ceia do Senhor. Também chamada de Comunhão.

9 O termo cratistos, traduzido como “excelentíssimo”, é um pronome de tratamento usado para pessoas que desfrutavam de um elevado conceito social.

10 WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo: Novo Testamento: v. 1. Tradução de Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 520.

11 A ortodoxia é a ideia da crença ou religião correta, enquanto a ortopraxia seria a prática correta de uma crença. Etimologicamente, “ortopraxia” se originou a partir da junção dos termos órthos, que significa “reto”, e praxe, que quer dizer “prática”.

12 Orlando Boyer, missionário norte-americano que trabalhou no Brasil, foi considerado o apóstolo da literatura evangélica brasileira. Além de ter escrito o clássico “Heróis da fé”, escreveu também, entre outros, dois volumes de comentários bíblicos, intitulados “Espada cortante”. O primeiro volume contém os Evangelhos de Mateus, Marcos, Daniel e Apocalipse; e o segundo volume, os Evangelhos de Lucas, João e Atos dos Apóstolos.

13 BOYER, Orlando S. Espada cortante: v. 2: comentário sobre Lucas, João e Atos dos Apóstolos. Pindamonhangaba-SP: IBAD, p. 559.

14 Uma hipérbole é uma figura de linguagem que confere ênfase expressiva a partir do exagero da significação linguística; é uma auxese ou exageração (por exemplo: “morrer de medo”, “estourar de rir”).

15 GONDIM, Ricardo. Artesãos de uma nova história. 5ª ed. São Paulo: Arte Editorial, 2011, p. 66.

16 Para um estudo mais aprofundado sobre a temática da MISSIO DEI, sugiro a leitura da obra:

BOSCH, David J. Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão. Tradução de Geraldo Korndörfer; Luís Marcos Sander. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002. Esta obra é um tratado de teologia e de história da Igreja na perspectiva da missão.

17 WARREN, Rick. Celebrando uma vida com propósitos: a história fascinante da data mais importante do ano. Tradução de Emirson Justino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009, p. 14.

18 GONDIM, Ricardo. Artesãos de uma nova história. Op. cit., p. 26.

19 STRONSTAD, Roger. A teologia carismática de Lucas: trajetórias do antigo testamento a Lucas- Atos. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p. 14.

20 STRONSTAD, Roger. A teologia carismática de Lucas. Op. cit., p. 102.

21 GILBERTO, Antonio. Verdades pentecostais: como obter e manter um genuíno avivamento pentecostal nos dias de hoje. 2ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, p. 102.

22 “A Pentecostalidade não é a pentecostalização da igreja. Tem a ver com assumir a ação do Espírito de maneira ativa na igreja e na teologização, mais do que as formas clássicas de Espírito do Filho ou da força (energia) de Deus.” (OLIVEIRA, David Mesquiati de; TERRA, Kenner R. C. Experiência e Hermenêutica Pentecostal. Op. cit., p. 28).

23 Para uma pesquisa mais aprofundada sobre o fenômeno pentecostal brasileiro, indico a obra:

ALENCAR, Gedeon Freire. Matriz pentecostal brasileira: Assembleias de Deus, 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.

24

Pentecostal. Op. cit., p. 32.

OLIVEIRA,

David

Mesquiati

de;

TERRA,

Kenner

R.

C.

Experiência

e

Hermenêutica

25 FERREIRA, Paulo. A reforma em quatro tempos: desdobramentos na Europa e no Brasil. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 66.

26 As seções de 3.1 a 3.1.3 constituem uma síntese das páginas 68-70 da obra: FERREIRA, Paulo. A reforma em quatro tempos. Op. cit.

27 Conforme já mencionamos no capítulo anterior, “testemunhas” aqui quer dizer “mártir”.

28

Pentecostal. Op. cit., p. 112.

OLIVEIRA,

David

Mesquiati

29

Pentecostal. Op. cit., p. 113.

OLIVEIRA,

David

Mesquiati

30 Hino 127 da harpa cristã.

31 Hino 340 da harpa cristã.

de;

TERRA,

Kenner

R.

C.

Experiência

e

Hermenêutica

de;

TERRA,

Kenner

R.

C.

Experiência

e

Hermenêutica

32 Hinário oficial das Assembleias de Deus usado para os cânticos congregacionais.

33 GONDIM, Ricardo. Artesãos de uma nova história. Op. cit., p. 67.

34 GILBERTO, Antonio. Verdades pentecostais. Op. cit., p. 98.

35 Profetas maiores e menores: são assim classificados pela teologia bíblica a fim de identificar os livros proféticos em sua extensão. Logo, Isaías, por exemplo, é um profeta maior, por conter 66 capítulos, e Amós, outro exemplo, um profeta menor, por conter apenas 9 capítulos.

36 SOUZA, Ricardo Barbosa de. A espiritualidade, o Evangelho e a Igreja. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2013.

37 ALENCAR, Gedeon Freire. Protestantismo tupiniquim: hipóteses da (não) contribuição evangélica à cultura brasileira. 3ª ed. São Paulo: Arte Editorial, 2005, p. 126-127. Este texto, como o próprio autor destaca, é uma análise sociológica do protestantismo brasileiro. Vale muito a pena a leitura.

38 Sim, acredito que sim, e é o que pretendo neste capítulo (embora não exaustivamente, pois tanto me falta capacidade como também não é o meu objetivo esgotar o assunto), mas quero refletir um pouco sobre as características da espiritualidade de uma Igreja que deseja servir à sua geração e ao seu tempo.

39 SOUZA, Ricardo Barbosa de. A espiritualidade, o Evangelho e a Igreja. Op. cit.

40 SOUZA, Ricardo Barbosa de. A espiritualidade, o Evangelho e a Igreja. Op. cit.

41 MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Uma introdução prática à Bíblia. 17. ed. Petrópolis, RJ:

Vozes, 2014, p. 170.

42 MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Op. cit., p. 173.

43 MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Op. cit., p. 175-176.

44 RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição. Op. cit., p. 49.

45 RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição. Op. cit., p. 49

46 RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição. Op. cit., p. 47.

47 SWINDOLL, Charles R. A igreja desviada: um chamado urgente para uma nova reforma. Tradução de Vanderlei Ortigoza. São Paulo: Mundo Cristão, 2012, p. 31.

48 GONDIM, Ricardo. Missão integral: em busca de uma identidade evangélica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p. 38-39.