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UNIVERSIDADE​ ​FEDERAL​ ​DE​ ​SANTA​ ​MARIA

CENTRO​ ​DE​ ​CIÊNCIAS​ ​SOCIAIS​ ​E​ ​HUMANAS


CURSO​ ​DE​ ​CIÊNCIA​ ​SOCIAIS​ ​-​ ​BACHARELADO
DISCIPLINA​ ​DE​ ​POLÍTICA​ ​I

ESTADO​ ​E​ ​PODER​ ​NA​ ​VISÃO​ ​DE​ ​PLATÃO,​ ​ARISTÓTELES​ ​E​ ​MAQUIAVEL:​ ​UMA
ABORDAGEM​ ​POLÍTICA
Felipe​ ​Nunes

Platão e Aristóteles foram dois grandes pensadores gregos. Platão foi discípulo de
Sócrates - o qual, devido à sua condenação, fez com que Platão desacreditasse na democracia
- e Aristóteles foi discípulo de Platão. Em contrapartida, apesar de ser seu mestre, Sócrates
não concordou com todo o pensamento de Platão - um pensamento extremamente idealista -
expressando ideias divergentes e próprias. Maquiavel, um nome tão grande quantos os
anteriores, é responsável por muito da nossa filosofia e política moderna. Nesta dissertação
serão​ ​expostas,​ ​relacionadas​ ​e​ ​comparadas​ ​as​ ​ideias​ ​deles​ ​sobre​ ​Estado​ ​e​ ​poder.
Platão, para iniciar, escreveu sobre uma grande variedade de assuntos, sendo a política
uma das principais. A arte da política, para ele, é a arte de curar a alma, ou seja, a arte de
despertar os verdadeiros valores nas pessoas. Ele, como Aristóteles e Maquiavel, tinha a sua
própria noção de Estado (sociedade) ideal. Primeiramente, Platão dizia que a política só seria
de fato capaz de ser desenvolvida em sua totalidade se fosse governada pelos portadores dos
meios da razão, ou seja, os filósofos, ou reis-filósofos. Os regimes ideais seriam os da
monarquia, democracia e aristocracia - pois a anarquia, a oligarquia e a tirania são o que ele
considerava como deformas de Estado - formada por três classes: governantes, guardiões e
trabalhadores - dependendo das traduções livres -. O Estado, ao dar educação ao povo, seria
também o responsável por decidir a classe adequada para qual cada pessoa deveria ir. Como
parâmetro de escolha Platão usava de sua teoria dos dois mundos​, mais especificamente o
mundo sensível - que é o mundo em que vivemos e em que habitam os sentidos e a
materialidade, em contraposição com o ​mundo inteligível​, que é o mundo imutável e livre da
enganação dos sentidos -. A classe seria então escolhida de acordo com a disposição da alma
do​ ​indivíduo,​ ​independente​ ​de​ ​classe​ ​social​ ​ou​ ​gênero.
Aristóteles discordava da noção ​platoniana de que apenas os filósofos poderiam reinar.
Para ele não importava se o governante fosse ou não filósofo desde que fosse trabalhador e
tivesse posses, não no sentido de classes, e sim de posses que lhe permitissem um bom
sustento próprio para ser, pelo menos, bem instruído. Se assim fosse, poderia trabalhar
ativamente na política, tendo ele a noção de bem-comum. Aristóteles classificava os regimes
dos governos como formas ruins e boas de Estado - dependendo outra vez das traduções
livres -, sendo as formas ruins aquelas em que os governantes se preocupavam com interesses
particulares e as formas boas as que visavam à todos. Ele havia classificado tais formas a
partir de seu ​método indutivo​, onde estudara mais de uma centena de Constituições e
entendeu que cada forma de governo dependia de “n” fatores, como a preparação do povo
para tal regime e a ética do governante. Por exemplo: Se houvesse apenas um governante a
forma boa seria a monarquia e a ruim a tirania, se houvessem dois ou mais governantes,
poucos, a forma boa seria a aristocracia e a ruim a oligarquia e se houvessem muitos
governantes a forma boa seria a república e a ruim a democracia. O papel do estado - em sua
concepção - é satisfazer as necessidades materiais, a segurança e promover a virtude do
homem, pois é nele que o homem desenvolve todas as suas potencialidades. Ética é a
felicidade​ ​individual​ ​e​ ​política​ ​é​ ​a​ ​felicidade​ ​coletiva.
Maquiavel acreditava na verdade efetiva das coisas, ou seja, que as coisas deviam ser
vistas por aquilo que são e não por aquilo que queríamos que fosse - já rebatendo um pouco
da visão dos pensadores anteriores -. A regra vale para o Estado também. Em “O Príncipe”,
sua principal obra, ele deixa explícito os modos pelos quais um governante pode se manter no
poder, visto que existem duas forças de oposição; uma que quer dominar e outra que não quer
ser dominada e o governante deve criar um mecanismo que possibilite estabilidade entre as
forças. O governante, na visão de Maquiavel, não precisa ser um filósofo ou um homem de
posses ocioso. Ele deve ter a capacidade de saber fazer o povo confiar nele e ao mesmo
tempo temer a sua força, aí constando a relação entre ​virtú e ​fortuna - a virilidade e o dom,
respectivamente - e compara figurativamente tais valores com o leão (força) e a raposa
(astúcia) -. Ele também explica a relação de “principado” e “república” e como o soberano
deve agir nessas situações - a primeira é a necessidade do uso da força frente ao caos social e
a segunda é a sociedade em equilíbrio, estabilidade do povo e das instituições -; é papel do
governador agir como um educador do estado para conseguir o mérito desta transição.
Importante frisar que para Maquiavel a política não é ética, nem moral, nem religiosa e que a
natureza humana tem traços imutáveis; os homens são ingratos, volúveis, simuladores,
covardes​ ​antes​ ​os​ ​perigos​ ​e​ ​ávidos​ ​por​ ​lucro.
É interessante notar as diferentes noções de Estado e poder de um para o outro. Platão e
Aristóteles tinham uma visão bastante elitista e idealista para seus governadores - apesar de
Platão se sobressair nesta questão -, enquanto que para Maquiavel o importante para governar
tinha muito mais a ver com dom para manobra que com caráter e formação. Também existe
diferença nas formas de estado de cada um. Platão pensava num Estado com uma estrutura de
classes muito fixa, Aristóteles pensava em diversas formas de estado e em suas classificações
- se aproximando nesta parte com o pensamento de Platão -, que dependiam de diferentes
condições para ser/existir e Maquiavel não descartava nenhuma e nem outra, estabelecendo
que o governador deve fazer o necessário para se manter no poder em qualquer regime e/ou
situação. Todos estes pensadores - e pensamentos - são indispensáveis para nossa noção de
filosofia e política, ou filosofia política, sem conjunções. Sem eles não chegaríamos onde
chegamos. Os três deixaram um legado que é grande demais para transparecer por inteiro em
uma​ ​simples​ ​dissertação.