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l it eratura­‑mundo ­ comparada:

perspectivas ­ em ­ português

‑ i ‑ mundos ­ em ­ português (volume ­ i)

l it eratura­‑mundo ­ comparada perspectivas ­ em ­ português

coordenação ­ geral: ­ helena ­ carvalhão ­ buescu

coordenação ­ geral: ­ helena ­ carvalhão ­ buescu PARTE ­ I coordenação ­ científica: helena
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PARTE ­ I

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coordenação ­ científica:

helena ­ carvalhão ­ buescu inoc ê ncia ­ mata

lisboa

t inta­‑da­‑ ch ina

MMXVII

Apoios:

Apoios: Parceiros­ institucionais: Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para
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Parceiros­ institucionais:

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Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UID/ELT/0509/2013

© 2017, Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa e Edições tinta‑da‑china, Lda. Rua Francisco Ferrer, 6 A | 1500‑461 Lisboa 21 726 90 28/29 | info@tintadachina.pt

www.tintadachina.pt

Este volume reproduz os textos fixados nas edições consultadas, e identificadas junto a cada texto.

Título:

Literatura­‑Mundo ­Comparada: ­Perspectivas­ em ­ português

I ­ —­ Mundos­ em ­ português (Volume 1)

Coordenação ­Geral:

Helena Carvalhão Buescu

Coordenação ­Científica­de ­I — Mundos em português :

Helena Carvalhão Buescu e Inocência Mata

Coordenação ­Executiva­de I — Mundos em português:

Ariadne Nunes, Flávia Ba, Francisco Carlos Marques, Gonçalo Cordeiro, Miriam de Sousa, Patrícia Infante da Câmara e Rafael Esteves Martins

Composição : Tinta‑da‑china Capa: Tinta‑da‑china

1.ª edição: Dezembro de 2017

isbn 978‑989‑671‑392‑8 Depósito Legal n.º 436113/18

COLABORADORES

( Parte ­ I, ­ vols. ­ 1 ­ e ­ 2 )

Coordenação ­ Científica­de Mundos em português:

Helena Carvalhão Buescu Inocência Mata

Coordenação ­ Executiva­ de Mundos em português:

Ariadne­Nunes Flávia Ba Francisco Carlos Marques Gonçalo Cordeiro Miriam de Sousa Patrícia Infante da Câmara Rafael Esteves Martins

Colaboradores ­de Mundos em português:

Adauto Clemente Alcir Pécora Alva Martínez Teixeiro Amândio Reis Ana Filipa Prata Ana Maria Martinho Anna M. Klobucka António Apolinário Lourenço Antonio Carlos Secchin Arnaldo Saraiva Benjamin Abdlah Júnior Bruno Henriques Camila Seixas e Sousa Carina Infante do Carmo Carlos Mendes de Sousa Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco Clara Rocha Clara Rowland Conceição Siopa

Cristina Almeida Ribeiro Davi Arrigucci Júnior David Jackson Duarte Drummond Braga Ellen W. Sapega Enrique Rodrigues‑Moura Everton V. Machado Fátima Morna Felipe Cammaert Fernanda Gil Costa Fernando Cabral Martins Fernando Pinto do Amaral Francisco Noa Gian Luigi de Rosa Gil dos Santos Inês Forjaz de Lacerda Isabel Almeida Isabel Rocheta Jane Tutikian Joana Castagna Joana Matos Frias João Barrento João Dionísio João Hansen João Minhoto Marques José Augusto Cardoso Bernardes José Manuel da Costa Esteves Juva Batella Kathrine H. Rosenfield Laura Padilha Ligia Chiappini Lola Geraldes Xavier Luandino Vieira Lúcia Mucznik Luís Kandjimbo Luiz Roncari

Manuel Muanza Manuel Muariza Margarida Gil dos Reis Maria Alzira Seixo Maria Aparecida Ribeiro Maria de Fátima Marinho Maria Graciete Silva Maria Helena Santana Maria João Brilhante Marie‑Reine de Sá Mário Lugarinho Marisa C. Gaspar Marta Pacheco Pinto Marta Teixeira Anacleto Mónica Simas Odete Costa Semedo Patrícia Franco Patricio Ferrari Paula Morão

Pedro Ferré Pedro Meira Monteiro Piero Cecucci Roberto Vecchi Rosa Goulart Rosa Maria Martelo Rosário Andorinha Sara Ramos Pinto Sílvia Renato Jorge Teresa Amado Teresa Mendes Thomas Earle Ungulani Ba Ka Khosa Valeria Tocco Vanda Anastácio Vânia Chaves Vera Duarte Violante Magalhães Vítor Aguiar e Silva

PARTE I MUNDOS EM PORTUGUÊS

(VOLME 1)

ÍNDICE GERAL

Palavras Prévias

23

Introdução Geral

25

Introdução:: Mundos ­ em ­ português ­

31

(1) CONFLITO E VIOLÊNCIA

AFONSO X, Rei de Castela e Leão [Nom me posso pagar tanto], in A­ Lírica ­ Galego­‑Portuguesa ­

39

José Eduardo AGUALUSA «Carta a Madame de Jouarre — Olinda, Dezembro de 1876», in Nação ­ Crioula —­A­ correspondência­ secreta ­ de ­ Fradique­ Mendes

41

Manuel ALEGRE «Nambuangongo meu amor», in Praça ­ da ­ Canção

47

José de ALENCAR «Terceira parte — Os Aimorés», in O ­ Guarani

48

Castro ALVES «O navio negreiro (tragédia no mar)», in Os ­ Escravos

64

António Lobo ANTUNES «Relato», in O ­ Manual­ dos ­ Inquisidores

72

Aluísio AZEVEDO Excerto de «Capítulo I», in O Cortiço

82

Maria Isabel BARRENO, Maria Teresa HORTA e Maria Velho da COSTA «Extractos do diário de D. Maria Ana, descendente directa de D. Mariana sobrinha de D. Mariana Alcoforado, e nascida por volta de 1800», in Novas­ Cartas ­ Portuguesas

86

Camilo Castelo BRANCO «Capítulo XIX», in Amor ­ de ­ Perdição ­

90

Luís de CAMÕES «Canto III — Estâncias 118‑137», in Os ­ Lusíadas

95

António CARDOSO «Pela calçada da Maria da Fonte», in­ Poemas ­ de­ Circunstância

100

Paulina CHIZIANE Ventos ­ do­Apocalipse

101

João DIAS «Godido (extra)», in Godido ­ e ­ Outros ­ Contos

108

António FERREIRA «Acto IV — Cena I», in Castro

111

Vergílio FERREIRA «A galinha», in Contos

118

Rubem FONSECA «Passeio noturno I» e «Passeio noturno II», in Feliz ­Ano ­Novo

124

Herberto HELDER «Teorema», in Os ­ Passos ­ em ­Volta

130

Alexandre HERCULANO «Conclusão», in Eurico, ­ o­ Presbítero

133

António JACINTO «Monangamba», in Poemas

137

Lídia JORGE A­ Costa ­ dos ­Murmúrios

139

Fernão LOPES «Prólogo», in Crónica ­ de­ D.­ João ­ I Primeira ­ parte

147

«Capítulo XII», in Crónica ­ de ­ D. ­ João ­ I Primeira ­ parte

149

Gregório de MATOS «Aos principais da Bahia chamados os Caramurus», in Crônica ­ do ­Viver­ Baiano ­Seiscentista

152

Nito MESQUINHO «Epitáfio», in­ O ­ Parnaso ­Timorense

153

Lília MOMPLÉ «Os mortos e os vivos», in Neighbours

154

Agostinho NETO «Adeus à hora da largada», in A­ Sagrada ­ Esperança ­

159

Carlos OLIVEIRA «Descrição da guerra em Guernica», in Trabalho ­ Poético

161

Graciliano RAMOS «Baleia», in Vidas ­Secas ­

166

Nelson RODRIGUES «Capítulo 23», in O ­ Casamento

170

­

Luiz RUFFATO «Ratos», in Eles ­Eram ­ Muitos ­ Cavalos

173

Bernardo SANTARENO «Acto I», in­ O ­ Judeu

175

Moacyr SCLIAR «Marrocos, 18 de Julho de 1972 a 15 de Setembro de 1972», in­ O ­Centauro no ­ Jardim

181

Jorge de SENA «Parte segunda — Capítulo V», in­ Sinais ­ de ­ Fogo

187

(2) MEMÓRIA E VIDA

Germano ALMEIDA O­Testamento ­do ­Senhor ­Napumoceno ­ da ­ Silva­Araújo ­

195

Marquesa de ALORNA «Ao tempo», in­Sonetos ­ de ­ Marquesa ­ de­Alorna

197

Ana Luísa AMARAL «Um Pouco só de Goya: Carta a minha filha», in Inversos ­(Poesia ­ 1990~2010)

198

Carlos Drummond de ANDRADE «Poema de sete faces», in­Alguma ­ Poesia

200

Eugénio de ANDRADE «Casa na chuva», in Ostinato ­ Rigore: ­­ Escrita ­ da ­ terra ­ e ­outros ­epitáfios

202

Francisco de ANDRADE Cancioneiro­ Fernandes­Tomás

203

Mário de ANDRADE «O peru de Natal», in Contos ­ Novos

204

Augusto dos ANJOS «Psicologia de um vencido», in As ­Aves ­ Que ­ aqui­ Gorjeiam

209

António Lobo ANTUNES «Retratos», in Quarto ­ Livro ­ de­ Crónicas

210

Manuel BANDEIRA «Evocação do Recife», in Libertinagem

212

Lima BARRETO «O homem que sabia javanês», in­ Novas ­ Seletas ­ — ­ Lima ­Barreto

215

Ruy BELO «Ácidos e óxidos», in Todos ­ os ­ Poemas ­ I

223

Fernanda BOTELHO Xerazade ­ e ­ os ­Outros

226

Albertino BRAGANÇA «Solidão», in Rosa ­do ­ Riboque­ e­ Outros ­ Contos

228

Camilo Castelo BRANCO «O Cego de Landim — III», in­ Novelas ­ do ­ Minho

233

Luís de CAMÕES «Canto VII —Estâncias 77‑87», in Os ­ Lusíadas

237

«Canção IX», in Rimas

240

[Erros meus, má fortuna, amor ardente], in Rimas

244

Luís CARDOSO Crónica ­ de ­ Uma ­Travessia

245

Armando Silva CARVALHO «Le Beau Séjour», in Lisboas

248

Maria Judite de CARVALHO «George», in­ Seta ­Despedida

250

Mia COUTO «Quarto Capítulo», in Terra ­ Sonâmbula

256

Vimala DEVI «Ocaso», in Monção

273

Almeida FARIA «21 — Tiago», in A­ Paixão

276

Yao FENG «Peixe salgado», in­Palavras ­ Cansadas­ da ­ Gramática

279

Henrique de Senna FERNANDES «Capítulo 3», in Amor ­ e ­ Dedinhos ­ de ­ Pés

280

José Gomes FERREIRA «Café 1945‑1946‑1947‑1948», in Poeta ­­ Militante­ II. ­Viagem­do ­ século ­xx­ em­ mim

286

Vergílio FERREIRA «Capítulo XXXVII», in­ Para ­ Sempre

288

Almeida GARRETT «Solidão», in Flores ­sem ­ Fruto

292

Teolinda GERSÃO A­Árvore ­das ­Palavras

295

Alexandre HERCULANO «Tristezas do desterro», in­ Poesias

299

Alda LARA «Testamento», in Poemas

301

Ângelo de LIMA «Pára‑me de repente o pensamento», in Poesias ­ Completas

303

Irene LISBOA Solidão ­— ­ Notas ­ do­punho ­ de­ uma­ mulher

304

Baltasar LOPES

Chiquinho

309

Gregório de MATOS «Soneto», in Crônica ­ de ­Viver ­ Baiano ­ Seiscentista

317

José Rodrigues MIGUÉIS Léah ­e ­Outras ­Histórias

318

António NOBRE «Viagens na minha terra», in

322

Eça de QUEIRÓS A­Cidade ­e ­ as ­Serras

327

Antero de QUENTAL «Despondency», in­ Sonetos

331

Vasco Mousinho de QUEVEDO «Soneto XXX», in Discurso ­ sobre­ a­Vida, ­ e ­ Morte, ­ de­ Santa ­ Isabel ­ Rainha ­ de ­ Portugal,­ & ­ Outras­Varias ­ Rimas

332

José RÉGIO «Cântico negro», in Poesia­ I

333

João Guimarães ROSA «A terceira margem do rio», in­ Primeiras ­ estórias

335

Miguel TORGA

Diários IX­‑XVI

340

Alfredo TRONI Nga ­ Mutúri

344

Cesário VERDE «Carta 14», in­ Cânticos ­ do ­ Realismo ­e ­ Outros ­ Poemas

349

José Luandino VIEIRA «A fronteira de asfalto», in A­ Cidade­ e­ a ­ Infância

351

(3) HUMOR, SÁTIRA E IRONIA

Onésimo Teotónio ALMEIDA «Acto III», in No ­Seio ­ desse ­Amargo ­ Mar

357

Jorge AMADO A­Morte ­ e ­ a ­ Morte ­ de­Quincas ­ Berro­ D’Agua

364

António Lobo ANTUNES As­ Naus

372

Manuel Maria Barbosa du BOCAGE «O macaco declamando», in­ Obra ­ Completa

377

Nuno BRAGANÇA A­Noite ­e ­o ­ Riso

378

Camilo Castelo BRANCO Coração, ­ Cabeça ­e ­Estômago

382

Luís de CAMÕES Auto­ dos ­Anfitriões

385

Suleiman CASSAMO «Avó versus ­televisor», in­Amor ­ de ­ Baobá

396

José CRAVEIRINHA «Ninguém», in Karingana ­ ua ­ Karingana

398

Reinaldo FERREIRA [Deixai os doidos governar entre comparsas!], in O ­ Chão ­ da ­Palavra/Poemas

399

Luís Bernardo HONWANA «As mãos dos pretos», in­ Nós ­ Matámos ­ o ­ Cão­Tinhoso

400

Manuel LARANJEIRA «Carta a Unamuno sobre a vocação suicida dos portugueses III», in Obras de ­ Manuel ­Laranjeira

403

Joaquim Dias Cordeiro da MATTA «Libelo a Portugal», in Delírios

406

Francisco Manuel de MELO O­ Fidalgo­Aprendiz ­

407

José Luís MENDONÇA «Subpoesia», in Quero ­Acordar ­ a­Alva

433

José de Almada NEGREIROS O­ Manifesto ­Anti­‑Dantas ­e ­ por­ extenso­ por ­José­ de ­Almada ­ Negreiros­ poeta ­ de Orpheu ­ futurista ­e ­tudo!

434

Carmo NETO

Degravata

436

Nélida PIÑON «I love my husband», in O ­ Calor ­ das ­ Coisas ­ e ­ Outros ­ Contos

438

Fernão Mendes PINTO «Capítulos LIV e LV», in Peregrinação

444

Eça de QUEIRÓS «Singularidades de uma Rapariga Loura», in Contos ­ I

450

João Ubaldo RIBEIRO «Capítulo I», in Viva ­ o ­ povo ­ brasileiro

456

Manuel RUI Quem ­ Me ­Dera ­Ser­ Onda

466

Mário de SÁ‑CARNEIRO «Fim», in Poemas ­Completos

471

Dina SALÚSTIO A­Louca ­de ­Serrano

472

José SARAMAGO O­Ano ­ da ­ Morte ­de ­Ricardo ­ Reis

479

António José da SILVA [at.] Obras ­do ­Fradinho ­da ­ Mão ­ Furada

484

Nicolau TOLENTINO «A Guerra», in­ Memoriais­ e­ Sátiras ­

489

Jorge Ferreira de VASCONCELOS «Acto III — Cena 1», in Comedia ­ Eufrosina

498

Gil VICENTE «Cena I», in Auto­ da­ Barca ­ do ­ Inferno

505

Arménio VIEIRA «O Escriba explica a Ramósis quem são os unicórnios e bicórnios», in O ­ Eleito­ do ­ Sol­

516

Padre António VIEIRA «Sermão de S. António aos peixes», in Sermões ­ do ­ Padre­António ­Vieira

521

(4) POESIA SOBRE POESIA

Oswald de ANDRADE «Manifesto antropófago», in A­ Utopia­Antropofágica

531

Sophia de Mello Breyner ANDRESEN «Para Arpad Szènes», in O ­ Nome­ das ­ Coisas

536

Machado de ASSIS «Um homem célebre», in Um ­ Homem ­ Célebre ­ — ­Antologia ­ de ­contos

537

Manuel Maria Barbosa du BOCAGE «Camões, grande Camões, quão semelhante», in­ Opera ­ Omnia

545

Fiama Hasse Pais BRANDÃO «Quando eu vir vaguear por dentro da casa», in­ Obra ­Breve

546

Luís de CAMÕES «Canto I — Estâncias 1‑83», in Os ­ Lusíadas

548

«Canção X», in Rimas

553

Ruy Duarte de CARVALHO «Aprendizagem do dizer festivo», in Hábito ­ da ­Terra

560

Mário CESARINY «Louvor e simplificação de Álvaro de Campos», in­ Nobilíssima ­Visão

564

Natália CORREIA «No túmulo de Florbela», in Poesia­ Completa

570

Maria Velho da COSTA Missa ­ in­Albis

571

Dom DINIS, Rei de Portugal «Proençaes soem mui bem trobar», in­­A­ Lírica ­ Galego­‑Portuguesa

575

Mário DIONÍSIO [Só tintas claras Delicadas], in Poesia­ Incompleta

576

Florbela ESPANCA «Ser Poeta», in­ Obras ­ Completas­ de­ Florbela ­ Espanca­ —­ Poesia: ­ 1918­‑1930

578

Daniel FILIPE «Pequena ode marítima», in Pátria, ­ Lugar ­ de ­ Exílio

579

Almeida GARRETT «Canto décimo», in Camões ­ de ­Almeida­ Garrett

580

Ferreira GULLAR «Traduzir‑se», in Toda ­ Poesia

585

Manuel GUSMÃO «Canção por que (não) morres», in Migrações ­ de ­ Fogo

587

Herberto HELDER [tão fortes eram que sobreviveram à língua morta], in A­ Morte ­ sem ­ Mestre

589

Luiza Neto JORGE «A Magnólia», in Poesia­ 1960­‑1989

590

Nuno JÚDICE «Arte poética com melancolia», in­Teoria­ Geral ­ do­ Sentimento

591

Clarice LISPECTOR A­Hora ­ da ­Estrela

592

David MOURÃO‑FERREIRA «Teia», in Obra­ Poética

600

João Cabral de Melo NETO «A educação pela pedra», in A­ educação ­ pela ­ Pedra ­

601

Alberto Estima de OLIVEIRA [mirante: janela exposta], in O ­ Rosto

602

Teixeira de PASCOAES «Poema 1 — Senhora da Noite. Verbo Escuro», in Obras­ Completas de ­Teixeira­ de­ Pascoaes

603

Infante Dom PEDRO e Frei João VERBA «Parte VI, capítulo IX», in­ Livro ­ da­Vertuosa ­ Benfeitoria

611

Fernando PESSOA «Autopsicografia», in Poesias

614

Adélia PRADO «Com licença poética», in Bagagem

615

Odete Costa SEMEDO «Em que língua escrever», in­ Entre ­ o ­ Ser­ e ­ o ­Amar

616

Pedro TAMEN «7», in O ­Aparelho ­Circulatório

618

José Luiz TAVARES «Limiar», in Paraíso ­Apagado ­ por ­Um ­Trovão

619

Cesário VERDE «Num bairro moderno», in­ Cânticos ­ do­ Realismo­ e ­Outros ­ Poemas ­

620

 

(5) VIAGENS E (DES)CONHECIMENTO DO OUTRO

ANÓNIMO

«Nau Catrineta», in O Romanceiro­ Português ­ e ­ Brasileiro: ­ Índice­Temático

 

e

­ Bibliográfico­

627

João de BARROS «Década I, Livro VIII», in Décadas ­ da­ Ásia

630

Raúl BRANDÃO «O corvo», in As ­Ilhas ­ Desconhecidas. Notas ­ e ­ paisagens

634

Bernardo Gomes de BRITO (org.) «Relação da mui notável perda do Galeão Grande S. João», in História Trágico­‑marítima

637

Pêro Vaz de CAMINHA A­carta ­ de­ Pêro­Vaz ­ de­ Caminha­ ao ­ Rei­ D. ­ Manuel­I

640

Luís de CAMÕES «Canto VIII — Estâncias 6‑11», in Os ­ Lusíadas ­

646

Bernardo CARVALHO Mongólia

648

Ruy Duarte de CARVALHO «Namibe», in Vou ­lá ­Visitar ­ Pastores

650

Ferreira de CASTRO «Capítulo IV», in A­ Selva

658

Fernanda DIAS «Rua de Jorge Álvares», in­ Horas ­ de­ papel­ (Poemas ­ para­ Macau)

662

Gonçalves DIAS «Canção do exílio», in­As ­Aves ­ Que ­ aqui ­ Gorjeiam

663

Corsino FORTES «Emigrante», in­A­Cabeça ­ Calva­ de­ Deus

664

Luís FRÓIS «Prólogo», in História ­ de ­ Japam

667

Gaspar FRUTUOSO «Capítulo IV — Da história mais verdadeira e particular como o inglês Machim achou a ilha da Madeira», in­ Saudades ­ da ­Terra ­ — ­ Livro ­ Segundo

671

Pero de Magalhães GÂNDAVO «Das aves que há nesta província», in A­ Primeira­ História ­ do ­Brasil ­ — ­ História ­da ­Província ­de ­ Santa ­ Cruz ­ a­que ­vulgarmente ­chamamos ­ Brasil 675

Almeida GARRETT Viagens ­ na ­ Minha­Terra

679

Luís KANDJIMBO «Lisboa», in­Antologia­ da­ Nova ­ Poesia ­Angolana­ (1985­‑2000)

683

António Gomes LEAL «As aldeias», in­Claridades ­ do ­ Sul

684

José LOPES «Nas margens do Lucala», ­in­ 50 ­ Poetas ­Africanos

685

João MAIMONA «As fontes e as cidades os rios e os países», in­ Memória ­de ­Sombra

687

Luís Filipe Castro MENDES «Os Ghats», in­Lendas ­ da­ Índia

688

Wenceslau de MORAES O­ Culto ­do ­Chá

689

António NOBRE «Lusitânia no Bairro Latino», in

694

Manuel Botelho de OLIVEIRA «À ilha de Maré termo desta cidade da Bahia Silva», in­ Poesia ­Barroca

704

Fernando PESSOA «Ulisses», in A­Mensagem

713

Manuel João RAMOS «O exótico sou eu», in­ Histórias ­ Etíopes

714

José SARAMAGO Memorial ­ do­ Convento

717

Miguel TORGA

Diários ­XIII­‑XVI

724

João VÁRIO Excerto de «Exemplo próprio — Canto terceiro», in­ Exemplos

726

Álvaro VELHO Roteiro ­ da ­ Primeira ­Viagem ­ de ­Vasco ­da ­ Gama ­(1497­‑1499)

729

Eduardo WHITE «Viagens e (des)conhecimento do outro», in Janela­ para ­Oriente

731

Gomes Eanes de ZURARA «Capítulo LXXXIX — Do grande pranto que os mouros faziam sobre a perdição da sua cidade», in­ Crónica ­ da ­Tomada ­ de­Ceuta

732

PALAVRAS PRÉVIAS

Quero, na qualidade de coordenadora geral deste projecto, deixar uma pa‑ lavra pessoal de reconhecimento, apreço e admiração a todos os membros da equipa organizadora. Os seus membros variaram de acordo com os ob‑ jectivos de cada um dos subgrupos adiante mencionados. A dedicação, o en‑ tusiasmo, a colaboração generosa de todos foram, nos vários anos ao longo dos quais este projecto decorreu, uma das mais compensadoras experiências académicas que pessoalmente tive, bem como a confirmação de que a Uni‑ versidade tem muito a fazer, quando conta com pessoas que acreditam nos seus projectos e na possibilidade de os partilhar com uma comunidade que, aqui, é tanto científica como, mais latamente, a de todos quantos lêem em português. A Literatura‑Mundo em português sob uma perspectiva compa‑ ratista é uma área que esta antologia aborda e de que mostra apenas uma pequena parte.

Helena­ Carvalhão ­ Buescu Centro ­ de­ Estudos ­ Comparatistas Faculdade ­ de ­ Letras­ da ­ Universidade ­ de­ Lisboa

INTRODUÇÃO GERAL

Este conjunto de antologias corresponde a um projecto desenvolvido no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa, relativo ao

campo de estudos da Literatura‑Mundo (World Literature, Weltliteratur),

a que por razões científicas chamamos Literatura‑Mundo Comparada. A vi‑

são que aqui se propõe para esse campo é, pois, uma visão comparatista, sem

a qual não nos parece que a Literatura‑Mundo possa realmente existir. É o

enfoque comparatista que permite a leitura destes textos, de variadíssimas proveniências mundiais (geográficas e históricas), simultaneamente como objectos singulares (cada texto em si mesmo considerado) e como objectos em diálogo e por essa razão entre si comparáveis, dando assim conta da pers‑ pectiva diferenciada, nas suas diversas semelhanças, paralelos e contrastes, que a Literatura‑Mundo Comparada tem de saber reconhecer e sustentar. Diga‑se desde já que este conjunto de antologias exprime o ponto de vista de uma equipa organizadora historicamente situada em Portugal, e são por isso as categorias estéticas e histórico‑sociais mais operativas no con‑

texto português, a partir do qual este projecto foi concebido e realizado, que aqui se encontram plasmadas. É nossa convicção que este tipo de antologias dá a ler não apenas o objecto por si constituído (os textos seleccionados), mas também o ponto de vista de quem constitui o objecto — neste caso, uma equipa de professores de literatura da FLUL e do seu CEC, que olha para o mundo, no início do século xxi, a partir de um ângulo de visão que é

o seu. É interessante, por exemplo, considerar que uma semelhante antolo‑

gia, se realizada dentro de um século, ou a partir de um outro lugar de visão, daria certamente resultados muito diferentes. A consciência desta situação fez parte integrante de todos quantos colaboraram nesta antologia, sendo aliás, do nosso ponto de vista, a confirmação de uma riqueza epistemoló‑ gica. Trata‑se, por isso, de uma leitura historicamente e comparativamente situada no quadro das literaturas do mundo. Tal leitura deverá também deixar ler aquilo que ocupa principalmen‑ te o olhar comparatista: as tensões entre local, regional e mundial, por um

26

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

lado; as relações entre língua(s) e diversidade intra e extralinguística, por outro; a convicção de que as fronteiras nacionais não esgotam (antes pelo

contrário) a possibilidade de ler textos literários entre si muito diferentes;

e a consciência de quem se vai cada vez mais apercebendo, à medida que o

trabalho avança, de quantas zonas de silêncio, e mesmo de silenciamento, têm restringido a possibilidade de ler, em português, textos maiores de ou‑ tras línguas, literaturas e culturas, em especial os mais afastados geográfica e historicamente. Foi esta consciência que norteou o entusiasmo de todos os

elementos desta equipa na sua tentativa sistemática, não apenas de revisitar de forma regular traduções já existentes em português de textos de outras literaturas, mas sobretudo de encontrar colaboradores que, a maior parte das vezes ad­ hoc e de forma generosa, se prestassem a verter textos nunca até agora passíveis de ser lidos em português, mormente em tradução di‑ recta (por exemplo, excertos da saga islandesa, textos em bengali, ou contos de autores chineses contemporâneos). Talvez estas apresentações permitam aos leitores continuar a procurar, a ler, quem sabe a traduzir para português ainda outras obras, de forma a tornar mais dialogante a leitura que pode‑ mos fazer dos textos que já conhecemos na área da literatura portuguesa, ao cruzá‑los com outros e assim permitir encontros desconhecidos e muitas vezes surpreendentes. Contámos com mais de uma centena de colaborado‑ res, cujos nomes são indicados na respectiva lista, a quem gostaríamos de deixar, desde já, o nosso profundo reconhecimento. É por este conjunto de razões que a nossa antologia, em vários volumes, apresenta uma organização diferenciada, de acordo com as três grandes partes em que se subdivide. A primeira parte reúne as literaturas escritas originalmente em português, ou seja, a literatura portuguesa (desde a Idade

Média até ao presente), a literatura brasileira, as cinco literaturas africanas de língua portuguesa e as outras com origem em diversos pontos do planeta, como Goa, Macau ou Timor‑Leste. O gesto de a todas reunir representa uma afirmação simbólica de alcance simultaneamente estético e político:

o passado colonial pode e deve ser reconhecido como história que atravessa

todos os corpos nacionais, na sua espessura cultural e simbólica, a fim de que a realidade pós‑colonial possa ser encarada, tanto nos países que são ex‑ ‑colónias como na antiga potência colonizadora, na projecção do futuro das relações entre essas comunidades e o mundo. Assim, a literatura portuguesa é integrada na primeira parte desta an‑ tologia, e nela ocupa um lugar que, reconhecendo a sua mais extensa densi‑ dade histórica no quadro das literaturas em português, com todas as outras literaturas dialoga de forma privilegiada, não como parcelas de um hipoté‑

introdução ­ geral

27

tico «feudo», porém na perspectiva de um colectivo que não se esboroa face às diferentes singularidades. A organização deste subgrupo é, como se verá, temática. As razões para tal ficarão claras da diversidade de leituras que esta estrutura permite e potencia, e serão mencionadas na breve introdução es‑ pecífica que antecede cada um dos subgrupos. Assinalemos entretanto a ex‑ cepção que Os ­Lusíadas de Luís de Camões constituem, no âmbito de todo o projecto e, por isso, no âmbito deste primeiro subgrupo. Apenas desta obra encontramos excertos em todas as secções temáticas que constituem esta primeira parte da antologia. Reconhecemos com este diferente tratamento

a convicção, consensual entre todos os membros da equipa, de que existe

um ponto nodal na literatura‑mundo comparada, escrita em português, que reenvia, de uma forma ou de outra, a este texto matricial da literatura por‑ tuguesa — que se torna, assim, texto matricial também da literatura‑mundo escrita em português. Aqui está, por exemplo, a forma como a perspectiva situada deste projecto permite uma aproximação, por um lado, criteriosa e, por outro, reveladora da posição que qualquer antologia perpetua e constrói. A segunda parte é constituída pelas literaturas da Europa, lugar geopolí‑

tico e histórico em que Portugal se situa e com o qual, por essa razão, dialoga de forma também histórica e simbolicamente. Dentro deste segundo grupo, são de notar as heterogeneidades de leitura e de conhecimento das dife‑ rentes literaturas que aqui são representadas: a realidade textual de áreas mais distantes (do ponto a partir do qual esta antologia é concebida), como por exemplo a Roménia ou a Islândia, não tem paralelo, por exemplo, com

a do território que conhecemos pelo nome de Espanha. Tivemos sempre

em mente tais heterogeneidades, bem como a preocupação de, na medida

do possível, as corrigir ou pelo menos matizar. Embora estejamos conscien‑ tes de que nem sempre foi possível encontrar soluções para garantir uma presença mais significativa em particular das literaturas europeias menos conhecidas, porque menos representadas, em português, fizemos um esfor‑ ço real para não nos limitarmos ao já anteriormente traduzido, de forma

a que esta antologia pudesse também corresponder a um incremento da

leitura literária de tradições cujo conhecimento só pode, afinal, enriquecer aquelas com que já pudemos contactar. Nesta segunda parte considerámos também como consensual a organização temática, fazendo dialogar textos das mais diferentes tradições europeias, antigas e modernas. Também os te‑ mas escolhidos são análogos aos da primeira parte acima mencionada, com

a excepção de uma das categorias («Língua e Variação») que, no quadro das

literaturas europeias, não nos pareceu ter semelhante pertinência à que re‑ conhecemos na primeira parte.

28

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Finalmente, a terceira e última parte abrange as tradições literárias mundiais que não são recobertas pelos volumes anteriores — mas que, en‑ tretanto, permitem à literatura escrita em português «olhar para o mundo» («pelo Tejo vai‑se para o mundo», como reconhecia o caeiriano Fernando Pessoa): tudo aquilo que está fora quer do quadro «escrito em português» quer do quadro «europeu» é aqui equacionado. O escopo histórico é tam‑ bém ele gradualmente maior, da primeira parte acima mencionada (desde

a Idade Média) à segunda parte (a civilização greco‑latina) e à terceira (as

civilizações pré‑clássicas). Por esta razão, pela diversidade estruturalmente mais densa que caracteriza as várias tradições e culturas aqui aproximadas,

e ainda pela consciência de que elas exigem uma capacidade mais sistema‑

tizada de enquadrar a sua profundidade e até a sua divergência histórica, optámos nesta terceira parte por combinar relação temática e ordenação cronológica. Assim, a organização dos tomos desta parte é de ordem pre‑ dominantemente histórica, visível não apenas na ordenação das grandes secções que os organizam mas, também, no conjunto de outros materiais (linhas temporais, mapas) que figuram como complemento para uma leitura mais informada dos respectivos textos literários. Ainda pela mesma razão,

as notas críticas que existem em todas as partes que constituem a antologia,

e que pretendem tornar possível uma leitura historicamente mais situada,

mas também cruzada, dos textos antologiados, são na sua maioria substan‑ cialmente mais extensas nesta terceira parte, de forma a permitir uma lei‑ tura mais integrada das «zonas de silêncio ou silenciamento» que o projecto tentou tornar visíveis. Por um lado, todos os tomos das três partes referidas, ao optarem por, de uma forma ou de outra, apresentar categorias temáticas como modo de integração textual, propõem na verdade uma articulação comparatista entre os textos que as compõem, e um consequente diálogo entre eles — melhor diríamos, diferentes formas de diálogo, que contam com a participação in‑ terpretativa do leitor para serem activadas. Por outro lado, a opção por pe‑ ríodos latos, na Parte III da antologia, é subsumida pela lógica inclusiva do gesto antológico. Certamente, qualquer inclusão é também uma exclusão. Mas isso não deve impedir‑nos de conhecer, na medida do possível, aquilo que podemos almejar a conhecer. Nada é pior do que o fechamento ao que nos é exterior, seja qual for o pretexto usado para o justificar. Aquilo que cada leitor fará com esta antologia abre possibilidades imensas e aliás im‑ possíveis de prever: foi isso que também dirigiu o nosso entusiasmo. Vemos as leituras possíveis como construtivas e múltiplas, concebendo a estrutura da antologia como uma estrutura de cruzamento comparatista, uma produ‑

introdução ­ geral

29

ção de questionamentos vários a partir do conjunto proposto, que seriam impossíveis a partir dos textos isolados. Não ignorámos que os riscos de cruzamentos imprevistos podem dar azo ao choque entre tempos históri‑ cos diferenciados (e variados até no mesmo tempo, haja em vista as várias Idades Médias). Parece‑nos isto, entretanto, uma vantagem de leitura que quisemos arriscar.

Para terminar, alguns brevíssimos critérios fundamentais na apresentação dos textos: 1) foi definido como terminus ­ ad ­ quem para a nossa escolha o ano de 2000, não tendo sido considerado para esta antologia nenhum autor que tenha começado a publicar apenas depois dessa data; 2) a estrutura dos vo‑ lumes é obtida a partir do corpo de textos e de categorias que os constituem (Partes I e II), ou da articulação entre os grandes períodos históricos e as ca‑ tegorias temáticas (Parte III); 3) foram actualizadas as grafias, em particular de textos medievais (por exemplo, o de Fernão Lopes, que generosamente a nossa colaboradora Teresa Amado se prestou a trabalhar); 4) foram aceites textos traduzidos a quatro mãos, nomeadamente aquelas traduções produ‑ zidas no âmbito dos vários leitorados de Português espalhados pelo mundo inteiro (pelo que estamos muito reconhecidos em particular ao Camões — Instituto da Cooperação e da Língua); 5) sempre que possível, foram utili‑ zadas traduções directas, depois de cuidadoso escrutínio, nomeadamente em casos em que existiam várias traduções; as raras traduções indirectas pu‑ blicadas vão sempre indicadas como tal no próprio texto; 6) foram também integradas experiências de tradução poética (como no caso de Herberto Helder); 7) finalmente, cada parte apresenta, no final, breves notas críticas relativas ao autor e/ou aos textos publicados, de modo a permitir um melhor enquadramento das obras e dos respectivos excertos escolhidos.

Nota editorial: De modo a aplicar um critério uniforme e coerente para referir o nome de cada autor nos respectivos textos antologiados, e ainda que haja casos em que o nome de determinados autores é mais reconhecível de outra forma, estabeleceu‑se como norma usar apenas o último apelido como referência (com excepção dos apelidos compostos e do nome artístico Al Berto). Nas notas críticas finais, a ordenação é feita pelo primeiro nome de cada autor.

A­ equipa, Centro ­ de­ Estudos ­ Comparatistas Faculdade ­ de ­ Letras­ da ­ Universidade ­ de­ Lisboa

INTRODUÇÃO:

Mundos ­ em ­ português

Primeira das três partes que compõem o projecto Literatura‑Mundo Com‑ parada: Perspectivas em Português, esta antologia tem como objectivo ofe‑ recer ao leitor um conjunto significativo de textos escritos nas várias litera‑ turas de língua portuguesa, em Angola, no Brasil, em Cabo Verde, na Guiné‑ ‑Bissau, em Goa, em Macau, em Moçambique, em Portugal, em São Tomé e Príncipe e em Timor‑Leste. Conjugando a interrogação activa do conceito de «Literatura‑Mundo Comparada» com a reunião de literaturas dos países representados, a antologia explora, tanto na identificação do corpus como na sua organização, a articulação entre a perspectiva comparatista que informa o projecto de que nasce e a dimensão produtiva e concreta do gesto antoló‑ gico. A escolha deste volume para iniciar a série Literatura‑Mundo Compa‑ rada não é, a ­priori , óbvia, se pensarmos que estamos perante uma antologia que encontra numa língua comum e nas suas variações o seu eixo de selec‑ ção e organização; mas é justamente porque permite questionar o que se entende por «mesma língua», e porque admite a persistência, no quadro só aparentemente homogéneo de uma língua, de algumas tensões fundadoras do Comparatismo, que a antologia propõe uma leitura da dimensão plural dos textos que coloca em diálogo e da articulação «mundial» dos problemas que a sua reunião suscita. É assim da articulação produtiva da unidade e da diversidade que se faz este livro. O objectivo primeiro deste duplo esforço — a afirmação teórica de um entendimento «mundial» e plural das literaturas em português e a proposta concreta de uma articulação, no corpo da antologia, entre textos e literatu‑ ras diferentes — é oferecer ao leitor uma publicação que possa ser entendi‑ da como um lugar de encontro. E a primeira consequência do que foi dito é que a organização da antologia não reflecte nem uma estruturação por país, nem uma organização cronológica de base. Efectivamente, a sua leitura per‑ mite a construção de diálogos entre os textos individuais que a compõem fora das delimitações tradicionalmente atribuídas às literaturas nacionais, porém, sem nunca omitir a sua historicidade. Optou‑se, no entanto, por

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

razões de ordem científica, por não incluir autores cuja obra começou a ser publicada depois do ano 2000. É, assim, no espaço da antologia, enquanto plataforma de cruzamentos, que estes textos se encontram, enquadrados pelas dez categorias que propomos e que reflectem já um momento prévio de leitura, por parte da equipa, de possíveis afinidades e mútuas iluminações entre os diferentes textos seleccionados. As dez categorias escolhidas — 1) Conflito e Violência; 2) Memó‑ ria e Vida; 3) Humor, Sátira e Ironia; 4) Poesia sobre Poesia; 5) Viagens e (Des)Conhecimento do Outro; 6) Amor e Experiência; 7) História e Iden‑ tidade; 8) Cartografias da Tradição; 9) Literatura e Condição Humana; 10) Língua e Variação — organizam o corpus da antologia, que foi constituído pela equipa a partir de uma consulta alargada a mais de 60 colaboradores, especialistas das literaturas convocadas, permitindo‑nos ao mesmo tempo assumir o gesto antológico (de acordo com o que já foi dito na Introdução Geral) e enquadrar as escolhas propostas no diálogo com especialistas das áreas em causa. Correspondem a secções temáticas amplas, permitindo, por um lado, uma variedade significativa nos textos que as compõem, e por outro uma porosidade constante entre categorias que, embora não sobre‑ poníveis, se intersectam e complementam de forma produtiva. Esta estru‑ tura dinâmica activa, ao mesmo tempo, uma leitura cruzada dos textos por nós reunidos em cada categoria e o diálogo entre os diferentes conjuntos que compõem o volume. A porosidade que quisemos incutir na antologia —

e a variedade dos seus efeitos de leitura sobre conjuntos aparentemente ho‑

mogéneos — é acrescida pelo facto de que, em muitos casos, textos de um mesmo autor são distribuídos e organizados por categorias distintas, am‑ pliando as linhas de fuga dos diálogos possíveis a partir de uma mesma obra:

enquanto grelha ampla de leitura, as categorias estruturam o volume, mais uma vez, a partir da sua diversidade interna. Por outro lado, a diversidade não é apenas interna: o leitor desta sé‑

rie de antologias reconhecerá na segunda parte ( O ­ Mundo ­ Lido: ­ Europa ) uma grelha de categorias quase coincidente com a que aqui se descreveu. Pretendemos deste modo ampliar à escala do projecto as possibilidades de cruzamento, e a iluminação recíproca dos diferentes grupos que com‑ põem esta leitura da Literatura‑Mundo Comparada em português. Procu‑ rámos também reforçar a especificidade de cada volume, e é nesse sentido que a proposta de partilha de categorias entre as duas primeiras antologias

é apenas parcial: a categoria «Língua e Variação», determinante numa an‑

tologia que escolhe a língua como eixo problematizador, é própria apenas deste volume.

introdução: ­ mundos ­ em ­ português­

33

É também própria apenas deste volume a atribuição a um texto — Os­ Lusíadas — de um estatuto transversal articulador: presente em todas as categorias da presente antologia, o texto de Camões ocupa aqui um lugar estrutural que nos parece reflectir a sua posição fundadora numa visão das literaturas em português enquanto literatura‑mundo. Completa a antologia a extensa secção das notas críticas, organiza‑ das por autor, para a qual foi fundamental, mais uma vez, o contributo dos colaboradores do volume, que elaboraram os seus textos a partir de uma proposta‑base aberta a variações e nos permitiram generosamente reforçar a pluralidade de vozes e perspectivas destas antologias.

As antologias, como as enciclopédias, estiveram entre as minhas primeiras paixões de leitor, desde quando era rapaz, e — como todas as paixões, para mim nunca arquiváveis — continuam a estar. Naquelas páginas encontrava

as coisas, os rostos, as vozes, os sentimentos, as cores, as histórias do mundo

e parecia‑me que o seu autor era a própria realidade, o coro de quem a vive,

a constrói, a sofre ou a ama. Não sabia que compor uma antologia podia ser

uma criação literária e intelectual não menos original e pessoal do que um romance ou um ensaio; ignorava, por exemplo que Americana, a antologia de Vittorini, fora mais importante, para a cultura italiana, do que muitos textos de ficção. Também na escola apreciei as antologias — algumas até por serem más, banais e atamancadas — que me abriram mundos e me fizeram com‑ preender a importância cultural, crítica e fantástica desse verdadeiro géne‑ ro literário, que pode contribuir fortemente para a formação dum indivíduo, duma geração e portanto da sociedade em que aquela vive e actua.

Claudio ­ Magris. «A antologia esquecida», in Alfabetos, trad. Antonio Sabler. 2013. Lisboa: Quetzal. 384.

(1)

CONFLITO E VIOLÊNCIA

AFONSO X, Rei de Castela e Leão. [Nom me posso pagar tanto], in A­ Lírica ­ Galego­‑Portuguesa. 1983. Lisboa: Comunicação. 193‑194.

Nom me posso pagar tanto do canto das aves nem de seu som, nem d’amor nem d’ambiçom

nem d’armas — ca ei espanto, por quanto mui perigo[o]sas som — come dum bom galeom, que mi alongue muit’aginha d’este demo da campinha,

u os alacrães som;

ca dentro no coraçom senti deles a espinha!

E juro par Deus lo Santo

que manto nom tragerei nem granhom, nem terrei d’amor razom

nem d’armas, por que quebranto

e chanto

vem d’elas toda sazom;

mais tragerei um dormom,

e irei pela marinha

vendend’azeit’e farinha;

e fugirei do poçom

do alacram, ca eu nom lhi sei outra meezinha.

40

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Nem de lançar a tavolado

pagado

nom sõo, se Deus m’ampar, aqui, nem de bafordar;

e andar de noute armado, sem grado

o faço, e a roldar;

ca mais me pago do mar que de seer cavaleiro;

ca eu foi ja marinheiro

e quero‑m’oimais guardar

do alacram, e tornar ao que me foi primeiro.

E direi‑vos um recado:

pecado

nunca me pod’enganar que me faça ja falar em armas, ca nom m’é dado (doado m’é de as eu razõar,

pois‑las nom ei a provar); ante quer’andar sinlheiro

e ir come mercadeiro

alg a terra buscar,

u me nom possam culpar

alacram negro nem veiro.

ante quer’andar sinlheiro e ir come mercadeiro alg a terra buscar, u me nom possam culpar

josé ­ eduardo ­agualusa

41

José Eduardo AGUALUSA. «Carta a Madame de Jouarre — Olinda, Dezembro de 1876», in Nação ­ Crioula — ­A­ correspondência ­ secreta ­ de­ Fradique ­ Mendes . 1997. Lisboa: Dom Quixote. 67‑75.

­

manuel­alegre

47

Manuel ALEGRE. «Nambuangongo meu amor», in Praça ­ da­ Canção. [1965] 1999. Lisboa: Dom Quixote. 125‑126.

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

José de ALENCAR. «Terceira parte — Os Aimorés», in O ­ Guarani. [1857] 1973. Lisboa: Círculo de Leitores. 241‑260.

V

— DEUS DISPÕE

O

braço de Loredano estendeu‑se sobre o leito, porém a mão que se adian‑

tava e ia tocar o corpo de Cecília estacou no meio do movimento, e subita‑ mente impelida foi bater de encontro à parede. Uma seta, que não se podia saber de onde vinha, atravessara o espaço

com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibilo forte e agudo pre‑ gara a mão do italiano ao muro do aposento.

O aventureiro vacilou e abateu‑se por detrás da cama; era tempo, por‑

que uma segunda seta, despedida com a mesma força e a mesma rapidez, cravava‑se no lugar onde há pouco se projetava a sombra de sua cabeça. Passou‑se então, em redor da inocente menina adormecida na isenção de sua alma pura, uma cena horrível, porém silenciosa. Loredano, nos transes da dor por que passava, compreendera o que su‑ cedia; tinha adivinhado naquela seta que o ferira a mão de Peri; e sem ver,

sentia o índio aproximar‑se terrível de ódio, de vingança, de cólera e deses‑ pero pela ofensa que acabava de sofrer sua senhora. Então o réprobo teve medo; erguendo‑se sobre os joelhos arran‑ cou convulsivamente com os dentes a seta que pregava sua mão à parede, e precipitou‑se para o jardim, cego, louco e delirante. Nesse mesmo instante, dois segundos talvez depois que a última flecha caíra no aposento, a folhagem do óleo que ficava fronteiro à janela de Cecí‑ lia agitou‑se e um vulto embalançando‑se sobre o abismo, suspenso por um frágil galho da árvore, veio cair sobre o peitoril. Aí agarrando‑se à ombreira saltou dentro do aposento com uma agili‑ dade extraordinária; a luz dando em cheio sobre ele desenhou o seu corpo flexível e as suas formas esbeltas. Era Peri.

O índio avançou‑se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou;

com efeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de Loredano, voltara‑se do outro lado e continuara o sono forte e reparador como é sem‑ pre o sono da juventude e da inocência.

josé ­ de ­alencar

49

Peri quis seguir o italiano e matá‑lo, como já tinha feito aos seus dois cúmplices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo insulto,

como o que acabava de sofrer, e tratou antes de velar sobre sua segurança e sossego.

O primeiro cuidado do índio foi apagar a vela, depois fechando os olhos

aproximou‑se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de da‑ masco azul até ao colo da menina. Parecia‑lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os en‑ cantos que o pudor de Cecília trazia sempre vendados; pensava que o homem que uma vez tivesse visto tanta beleza, nunca mais devia ver a luz do dia. Depois desse primeiro desvelo, o índio restabeleceu a ordem no apo‑ sento; deitou a roupa na cômoda, fechou a gelosia e as abas da janela, lavou as nódoas de sangue que ficaram impressas na parede e no soalho; e tudo isto com tanta solicitude, tão sutilmente, que não perturbou o sono da menina. Quando acabou o seu trabalho, aproximou‑se de novo do leito, e à luz frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de Cecília. Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salvá‑la de uma ofensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê‑la tranqüila e risonha sem ter sofrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentiu a necessidade de exprimir‑lhe por algum modo a sua ventura. Nisto seus olhos abaixando‑se descobriram sobre o tapete da cama dois pantufos mimosos forrados de cetim e tão pequeninos que pareciam feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou‑os com respeito, como se fo‑ ram relíquia sagrada. Eram então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as

estrelas já iam se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder o silên‑ cio profundo da natureza quando dorme.

O índio fechou por fora a porta do quarto que dava para o jardim, e me‑

tendo a chave na cintura, sentou‑se na soleira como cão fiel que guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguém aproximar‑se. Aí refletiu sobre o que acabava de passar; e acusava‑se a si mesmo de ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora: Peri porém caluniava‑se, porque só a Providência podia ter feito nessa noite mais do que ele; porque tudo quanto era possível à inteligência, à coragem, à sagaci‑ dade e à força do homem, o índio havia realizado. Depois da partida de Loredano e da conversa que teve com Álvaro, cer‑ to de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dois cúmplices do ita‑ liano iam ser expulsos como ele, o índio não pensando mais senão no ataque dos Aimorés, partiu imediatamente.

50

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

O seu pensamento era ver se descobria pelas vizinhanças do Paquequer

indícios da passagem de alguma tribo da grande raça Guarani a que ele per‑ tencia; seria um amigo e um aliado para D. Antônio de Mariz.

O ódio inveterado que havia entre as tribos da grande raça e a nação

degenerada dos Aimorés, justificava a esperança de Peri; mas infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o menor vestígio do que procurava.

O fidalgo estava pois reduzido às suas próprias forças: mas embora fos‑

sem estas pequenas, o índio não desanimou; tinha consciência de si; e sabia que na última extremidade a sua dedicação por Cecília lhe inspiraria meios de salvar a ela e a tudo que ela amava. Voltou à casa já noite fechada; foi ter com Álvaro; perguntou‑lhe o que era feito dos dois aventureiros; o cavalheiro disse‑lhe que D. Antônio de Mariz recusara crer na acusação. De fato, o fidalgo leal, habituado ao respeito e à fidelidade de seus ho‑ mens, não admitia que se concebesse uma suspeita sem provas; entretanto como a palavra de Peri tinha para ele toda a valia, ficara de ouvir de sua boca a narração do que presenciara, para conhecer o peso que devia dar a seme‑ lhante acusação. Peri retirou‑se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu pri‑ meiro projeto; enquanto esses dois homens que ele supunha já expulsos es‑ tivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa. Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou‑se na porta de sua cabana; apesar de possuir a clavina que lhe dera D. Antônio, o arco era a arma favorita de Peri; não demandava tempo para carregar; não fazia o me‑ nor estrépito; lançava quase instantaneamente dois, três tiros: e a sua flecha era tão terrível e tão certeira como a bala. Passado muito tempo o índio ouviu cantar uma coruja do lado da esca‑ da; esse canto causou‑lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque era mais sonoro do que é o cacarejar daquela ave agoureira; a segunda porque em vez de partir do cimo de uma árvore saía do chão. Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha hábitos diferentes de suas companheiras; quis conhecer a razão desta singulari‑ dade. Viu do outro lado da esplanada três vultos que atravessavam ligeiramen‑ te; isto aumentou a sua desconfiança; os homens de vigia eram ordinaria‑ mente dois e não três. Seguiu‑os de longe; mas quando chegou ao pátio, não viu senão um dos homens que entrava na alpendrada; os outros tinham desaparecido.

josé ­ de ­alencar

51

Peri procurou‑os por toda a parte e não os viu; estavam ocultos pelo

pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possível descobri‑los. Supondo que tivessem também entrado no alpendre, o índio agachou‑ ‑se e penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lâmina fria que conheceu imediatamente ser a folha de um punhal.

— És tu, Rui? — perguntou uma voz sumida.

Peri emudeceu; mas de chofre aquele nome de Rui lembrou‑lhe Loredano

e o seu projeto; percebeu que se tramava alguma coisa: e tomou um partido.

— Sim! — respondeu com a voz quase imperceptível. — Já é hora?

— Não.

— Todos dormem.

Enquanto trocavam estas duas perguntas, a mão de Peri correndo pela

lâmina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.

O índio saiu do alpendre e dirigiu‑se ao quarto de Aires Gomes; a porta

estava fechada, e junto dela tinham colocado um grande montão de palha. Tudo isto denunciava um plano prestes a realizar‑se; Peri compreendia,

e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos. Que fazia aquele homem deitado que fingia dormir, e que tinha o pu‑ nhal desembainhado na mão como se estivesse pronto a ferir? Que signi‑ ficava aquela pergunta da hora e aquele aviso de que todos dormiam? Que queria dizer a palha encostada à porta do escudeiro? Não restava dúvida; havia ali homens que esperavam um sinal para ma‑

tarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo à casa; tudo estava perdido se o plano não fosse imediatamente destruído. Cumpria acordar os que dormiam, preveni‑los do perigo que corriam, ou ao menos prepará‑los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e inevitável.

O índio agarrou convulsivamente a cabeça com as duas mãos como se

quisesse arrancar à força de seu espírito agitado e em desordem um pensa‑ mento salvador. Seu largo peito dilatou‑se; uma idéia feliz luzira de repente na confusão de tantos pensamentos desencontrados que fermentavam no cérebro, e reanimara sua coragem e força. Era uma idéia original. Peri lembrara‑se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos enormes contendo água potável, vinhos fermentados, licores selvagens, de que os aventureiros faziam sempre uma ampla provisão. Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a tor‑ neira; o líquido começou a derramar‑se pelo chão; ia passar à segunda quan‑ do a voz, que já lhe tinha falado, soou de novo, baixa mas ameaçadora.

52

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— Quem vai lá?

Peri compreendeu que a sua idéia ia ficar sem efeito, e talvez não servis‑ se senão de apressar o que ele queria evitar. Não hesitou pois; e quando o aventureiro que falava erguia‑se, sentiu duas tenazes vivas que caíam sobre o seu pescoço e o estrangulavam como uma golilha de ferro, antes que pudesse soltar um grito.

O índio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor,

e consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvaziaram‑se a pouco e

pouco e inundavam o chão. Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adorme‑ cidos, e os obrigaria a sair do alpendre; era o que Peri esperava. Livre do maior perigo, o índio rodeou a casa para ver se tudo estava em sossego; e teve então ocasião de notar que por todo o edifício tinham dis‑ posto feixes de palha para atear um incêndio. Peri inutilizando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava

defronte de sua cabana; parecia procurar alguém. Aí ouviu a respiração ofe‑ gante de um homem cosido com a parede junto do jardim de Cecília.

O índio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossível

descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas. Mas ele conheceu Rui Soeiro. Peri tinha o ouvido sutil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa a vista; o som da respiração servia‑lhe de alvo; escutou um momento, ergueu o braço, e a faca enterrando‑se na boca da vítima cortou‑lhe a garganta. Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento

e quedou de encontro ao muro. Peri apanhou o arco que encostara à parede, e voltando‑se para lançar um olhar sobre o quarto de Cecília, estremeceu. Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo depois sobre a folhagem do óleo um clarão que indicava estar a janela aberta. Ergueu os braços com um desespero e uma angústia inexprimível; esta‑ va a dois passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separa‑ vam dela, que talvez àquela hora corria um perigo iminente. Que ia fazer? Precipitar‑se de encontro a essa porta, quebrá‑la, espedaçá‑la? Mas podia aquela luz não significar coisa alguma, e a janela ter sido aberta por Cecília. Este último pensamento tranqüilizou‑o, tanto mais quando nada reve‑ lava a existência de um perigo, quando tudo estava em sossego no jardim e no quarto da menina.

josé ­ de ­alencar

53

Lançou‑se para a cabana, e segurando‑se às folhas da palmeira galgou o

ramo do óleo, e aproximou‑se para ver por que sua senhora estava acordada àquela hora.

O espetáculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr‑lhe um

calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou‑lhe ver a menina adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia‑se ao leito. Um grito de desespero e de agonia ia romper‑lhe do seio; mas o índio mordendo os lábios com força, reprimiu a voz, que se escapou apenas num

som rouco e plangente. Então prendendo‑se à árvore com as pernas, o índio estendeu‑se ao longo do galho e esticou a corda do arco.

O coração batia‑lhe violentamente; e por um momento o seu braço tre‑

meu só com a idéia de que a sua flecha tinha de passar perto de Cecília. Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da me‑ nina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a mancharem com o seu contato o corpo de sua senhora, não se lembrou senão dessa hor‑ rível profanação. A flecha partiu rápida, pronta e veloz como o seu pensamento; a mão do italiano estava pregada ao muro. Foi só então que Peri refletiu que teria sido mais acertado ferir essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que pertencia esse braço;

a segunda seta partiu sobre a primeira, e o italiano teria deixado de existir se

a dor não o obrigara a curvar‑se.

VI — REVOLTA

Quando Peri acabou de refletir sobre o que passara, ergueu‑se, abriu de novo a porta, fechou‑a por dentro e seguiu pelo corredor que ia do quarto de Cecília ao interior da casa. Estava tranqüilo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Rui Soeiro

não o incomodariam mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que àque‑ la hora todos os aventureiros deviam estar acordados; mas julgou prudente prevenir D. Antônio de Mariz do que ocorria.

A esse tempo Loredano já tinha chegado à alpendrada, onde o esperava

uma nova e terrível surpresa, uma última decepção. Largando‑se do quarto de Cecília, sua intenção era ganhar o fundo da casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com seus cúmplices, raptar a menina, e vingar‑se de Peri. Mal sabia porém que o índio tinha destruído toda a sua maquinação;

54

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

chegando ao pátio viu o alpendre iluminado por fachos, e todos os aventu‑ reiros de pé cercando um objeto que não pôde distinguir. Aproximou‑se e descobriu o corpo de seu cúmplice Bento Simões, que jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos saltados das órbitas, a língua saída da boca, o pescoço cheio de contusões; todos os sinais enfim de uma estrangulação violenta. De lívido que estava o italiano tornou‑se verde; procurou com os olhos a Rui Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providência caía sobre as suas cabeças; conheceu que estava irremediavelmente perdido, e que só a audácia e o desespero o podiam salvar. A extremidade em que se achava inspirou‑lhe uma idéia digna dele: ia tirar partido para seus fins daquele mesmo fato que parecia destruí‑los; ia fazer do castigo uma arma de vingança. Os aventureiros espantados sem compreenderem o que viam, olhavam‑ ‑se e murmuravam em voz baixa fazendo suposições sobre a morte do seu companheiro. Uns, despertados de sobressalto pela água que corria das ta‑ lhas, outros que não dormiam, apenas admirados, se haviam erguido, e no meio de um coro de imprecações e blasfêmias acenderam fachos para ver a causa daquela inundação. Foi então que descobriram o corpo de Bento Simões e ficaram ainda mais surpreendidos: os cúmplices, temendo que aquilo não fosse um come‑ ço de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu companheiro. Loredano percebeu o que passava no espírito dos aventureiros:

— Não sabeis o que significa isto? — disse ele.

— Oh! não! Explicai‑nos! — exclamaram os aventureiros.

— Isto significa — continuou o italiano — que há nesta casa uma víbo‑

ra, uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a todos com o seu dente envenenado.

— Como?

Que quereis dizer?

Falai!

— Olhai — disse o frade apontando para o cadáver e mostrando a sua

mão ferida —, eis a primeira vítima, e a segunda que escapou por um mila‑

gre; a terceira

Quem sabe o que é feito de Rui Soeiro?

— É verdade!

— Talvez morto também?

Onde está Rui? — disse Martim Vaz.

— Depois dele virá outro e outro até que sejamos exterminados um por um; até que todos os cristãos tenham sido sacrificados.

Dizei o nome do vil assassino. É preciso um exem‑

plo! O nome!

— E não adivinhais? — respondeu o italiano. — Não adivinhais? Quem

— Mas por quem?

josé ­ de ­alencar

55

nesta casa pode desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa reli‑ gião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame?

Peri?

— exclamaram os aventureiros.

Sim, esse índio que conta assassinar‑nos a todos para saciar a sua vin‑

gança!

— Não há‑de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! — exclamou Vasco Afonso.

— Bofé! — gritou outro. — Deixai isto por minha conta. Não vos dê

cuidado!

— E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça.

— E justiça será feita.

— Neste mesmo instante.

— Sim, agora mesmo. Eia! Segui‑me.

Loredano ouvia estas exclamações rápidas que denunciavam como a exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros quiseram lançar‑se em procura do índio, ele os conteve com um gesto.

Não lhe convinha isto; a morte de Peri era coisa acidental para ele; o seu fim principal era outro, e esperava consegui‑lo facilmente.

— O que ides fazer? — perguntou imperativamente aos seus compa‑

nheiros. Os aventureiros ficaram pasmados com semelhante pergunta.

— Ides matá‑lo?

— Mas decerto!

— E não sabeis que não podereis fazê‑lo? Que ele é protegido, amado,

estimado por aqueles que pouco se importam se morremos ou vivemos?

— Seja embora protegido, quando é criminoso

— Como vos iludis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros

julgarão inocente e o defenderão; e não tereis remédio senão curvar a cabeça

e calar‑vos.

— Oh! isso é demais!

— Julgais que somos alimárias que se podem matar impunemente? — retrucou Martim Vaz.

— Sois piores que alimárias; sois escravos!

— Por São Brás, tendes razão, Loredano.

vossos companheiros assassinados infamemente,

e não podereis vingá‑los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas,

porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repito.

— Vereis

morrer

— Pois bem; eu vo‑lo mostrarei!

— E eu! — gritou toda a banda.

— Qual é vossa tenção? — perguntou o italiano.

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— A nossa tenção é pedirmos a D. Antônio de Mariz que nos entregue

o assassino de Bento.

— Justo! E se ele recusar, estamos desligados do nosso juramento e fare‑ mos justiça pelas nossas mãos.

— Procedeis como homens de brio e pundonor; liguemo‑nos todos e

vereis que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade. Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentário

a D. Antônio?

Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda ofereceu‑se; chamava‑se João Feio.

— Serei eu!

— Sabeis o que lhe deveis dizer?

— Oh! ficai descansado. Ouvirá boas.

— Ides já?

— Neste instante.

Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estreme‑ cer todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre:

— Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.

D. Antônio de Mariz, calmo e impassível, adiantou‑se até o meio do

grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos aventu‑ reiros o seu olhar severo.

O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua fisio‑

nomia venerável, a firmeza de sua voz e altivez de seu gesto nobre bastaram para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que ameaçavam. Advertido por Peri dos acontecimentos que tinham tido lugar naquela noite, D. Antônio de Mariz ia sair, quando apareceram Álvaro e Aires Go‑ mes.

O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha ador‑

mecido, fora despertado de repente pelas imprecações e gritos que soltavam os aventureiros quando a água começou a invadir as esteiras em que estavam deitados. Admirado desse rumor extraordinário, Aires bateu o fuzil, acendeu a vela, e dirigiu‑se para a porta para conhecer o que perturbava o seu sono:

a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.

O escudeiro esfregou os olhos para certificar‑se do que via, e acordando

Nunes, perguntou‑lhe quem tomara aquela medida de precaução; seu amigo ignorava como ele. Nesse momento ouvia‑se a voz do italiano que excitava os aventureiros

à revolta; Aires Gomes percebeu então do que se tratava.

josé ­ de ­alencar

57

Agarrou mestre Nunes, encostou‑o à parede como se fosse uma escada, e sem dizer palavra trepou do catre sobre seus ombros, e levantando as te‑ lhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros. Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e as‑ sentou que o verdadeiro era dar parte a Álvaro e ao fidalgo, a quem cabia tomar as providências que o acaso pedia. D. Antônio de Mariz sem se perturbar ouviu a narração do escudeiro, como tinha ouvido a do índio.

— Bem, meus amigos! Sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não

perturbemos o sossego da casa; estou certo que isto passará. Esperai‑me aqui.

— Não posso deixar que vos arrisqueis só —, disse Álvaro dando um

passo para segui‑lo.

— Ficai: vós e estes dois amigos dedicados velareis sobre minha mulher,

Cecília e Isabel. Nas circunstâncias em que nos achamos, assim é preciso.

— Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe.

— Não, basta a minha presença; enquanto que aqui todo o vosso valor e fidelidade não bastam para o tesouro que confio à vossa guarda.

O fidalgo tomou o seu chapéu, e poucos momentos depois aparecia im‑

previstamente no meio dos aventureiros, que trêmulos, cabisbaixos, corri‑ dos de vergonha, não ousavam proferir uma palavra.

— Aqui me tendes! — repetiu o cavalheiro. — Dizei o que quereis de

D. Antônio de Mariz, e dizei‑o claro e breve. Se for de justiça, sereis satisfei‑ tos; se for uma falta, tereis a punição que merecerdes. Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emudeceram.

Passa‑se então aqui alguma coisa que não vos atreveis a

revelar? Acaso ver‑me‑ei obrigado a castigar severamente um primeiro exem‑ plo de revolta e desobediência? Falai! Quero saber o nome dos culpados!

O mesmo silêncio respondeu às palavras firmes e graves do velho fidalgo.

Loredano hesitava desde o princípio desta cena; não tinha a coragem necessária para apresentar‑se em face de D. Antônio; mas também sentia

que, se ele deixasse as coisas marcharem pela maneira por que iam, estava infalivelmente perdido.

— Calais‑vos?

Adiantou‑se:

— Não há aqui culpados, Sr. D. Antônio de Mariz — disse o italiano

animando‑se progressivamente —, há homens que são tratados como cães;

que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a reivindi‑ carem os seus foros de homens e de cristãos!

— Sim! — gritaram os aventureiros reanimando‑se. — Queremos que se respeite a nossa vida!

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— Não somos escravos!

— Obedecemos, mas não nos cativamos!

— Valemos mais que um herege!

— Temos arriscado a nossa existência para defender‑vos!

D. Antônio ouviu impassível todas estas exclamações que iam subindo gradualmente ao tom da ameaça.

— Silêncio, vilões! Esqueceis que D. Antônio de Mariz ainda tem bas‑

tante força para arrancar a língua que o pretendesse insultar? Miseráveis,

que lembrais o dever como um benefício! Arriscastes a vossa vida para

defender‑me?

E qual era a vossa obrigação, homens que vendeis o vosso

braço e sangue ao que melhor paga? Sim! Sois menos que escravos, menos

Mereceis mais

que cães, menos que feras! Sois traidores infames e refeces! do que a morte; mereceis o desprezo.

Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiveram mais; das palavras de ameaça passaram ao gesto.

— Amigos! — gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. —

Deixareis que vos insultem atrozmente, que vos cuspam o desprezo na cara? E por que motivo!

— Não! Nunca! — vociferaram os aventureiros furiosos.

Desembainhando as adagas estreitaram o círculo ao redor de D. Antô‑ nio de Mariz, era uma confusão de gritos, injúrias, ameaças, que corriam por todas as bocas, enquanto os braços suspensos hesitavam ainda em lançar o golpe. D. Antônio de Mariz, sereno, majestoso, calmo, olhava todas essas fi‑ sionomias decompostas com um sorriso de escárnio; e sempre altivo e so‑ branceiro, parecia sob os punhais que o ameaçavam, não a vítima que ia ser imolada, mas o senhor que mandava.

VII

— OS SELVAGENS

Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavam; mas não se animavam a romper o estreito círculo que os separava de D. Antônio de Mariz.

O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma da‑

queles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavam que o primeiro ferisse; e nenhum tinha a coragem de ser o primeiro. Loredano conheceu que era necessário um exemplo; o desespero de sua posição, as paixões ardentes que tumultuavam em seu coração, deram‑lhe o delírio que supre o valor nas circunstâncias extremas.

josé ­ de ­alencar

59

O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando

os olhos e dando um passo às cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe.

O fidalgo com um gesto nobre afastou o seio do gibão, e descobriu o

peito; nem um tremor imperceptível agitou os músculos de seu rosto; sua fronte alta conservou a mesma serenidade; o seu olhar límpido e brilhante não se turvou. Tal era a influência magnética que exercia essa coragem nobre e altiva, que o braço do italiano tremeu, e a ponta do ferro tocando a véstia do fidal‑

go paralisou os dedos hirtos do assassino. D. Antônio sorriu com desdém; e abaixando a sua mão fechada sobre o

alto da cabeça de Loredano, abateu‑o a suas plantas como uma massa bruta

e inerte: então erguendo a ponta do pé à fronte do italiano, o estendeu de costas sobre o pavimento.

O baque do corpo no chão ecoou no meio de um silêncio profundo; to‑

dos os aventureiros, mudos e estáticos, pareciam querer sumir‑se pelo seio da terra. — Abaixai as armas, miseráveis! O ferro que há‑de ferir o peito de D. Antônio de Mariz não será manchado pela mão cobarde e traiçoeira de

vis assassinos! Deus reserva uma morte justa e gloriosa àqueles que viveram uma vida honrada! Os aventureiros aturdidos embainharam maquinalmente os punhais; aquela palavra sonora, calma e firme, tinha um acento tão imperativo, uma tal força de vontade, que era impossível resistir.

— O castigo que vos espera há‑de ser rigoroso; não deveis contar com a

clemência nem com o perdão: quatro dentre vós à sorte, sofrerão a pena de

homizio; os outros farão o ofício dos executores da alta justiça. Bem vedes que tanto a pena como o ofício são dignos de vós!

O fidalgo pronunciou estas palavras com um soberano desprezo, e en‑

carou os aventureiros como para ver se dentre eles partia alguma reclama‑ ção, algum murmúrio de desobediência; mas todos esses homens, há pouco furiosos, estavam agora humildes e cabisbaixos. — Dentro de uma hora — continuou o cavalheiro apontando para o corpo de Loredano —, este homem será justiçado à frente da banda; para ele não há julgamento; eu o condeno como pai, como chefe, como um homem que mata o cão ingrato que o morde. É ignóbil demais para que o toque com as minhas armas; entrego‑o ao baraço e ao cutelo. Com a mesma impassibilidade e o mesmo sossego que conservava desde

o momento em que aparecera imprevistamente, o velho fidalgo atravessou por entre os aventureiros imóveis e respeitosos, e caminhou para a saída.

60

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Aí voltou‑se; e levando a mão ao chapéu descobriu a sua bela cabeça

encanecida, que destacava sobre o fundo negro da noite e no meio do clarão avermelhado das tochas com um vigor de colorido admirável.

— Se algum de vós der o menor sinal de desobediência; se uma das mi‑

nhas ordens não for cumprida pronta e fielmente; eu, D. Antônio de Mariz, vos juro por Deus e pela minha honra que desta casa não sairá um homem vivo. Sois trinta; mas a vossa vida, de todos vós, tenho‑a na minha mão; basta‑ ‑me um movimento para exterminar‑vos, e livrar a terra de trinta assassinos.

No momento em que o fidalgo ia retirar‑se apareceu Álvaro pálido de emoção, mas brilhante de coragem e indignação.

— Quem se animou aqui a erguer a voz para D. Antônio de Mariz? —

exclamou o moço. O velho fidalgo sorrindo com orgulho pôs a mão no braço do cavalheiro.

— Não vos ocupeis disto, Álvaro; sois bastante nobre para vingar uma

afronta desta natureza, e eu, bastante superior para não ser ofendido por ela.

— Mas, senhor, cumpre que se dê um exemplo!

— O exemplo vai ser dado, e como cumpre. Aqui não há senão culpados e executores da pena. O lugar não vos compete. Vinde!

O moço não resistiu e acompanhou D. Antônio de Mariz, que se dirigiu

lentamente à sala, onde achou Aires Gomes.

Quanto a Peri, voltara ao jardim de Cecília, decidido a defender sua se‑ nhora contra o mundo inteiro.

O

dia vinha rompendo.

O

fidalgo chamou Aires Gomes e entrou com ele no seu gabinete de

armas, onde tiveram uma longa conferência de meia hora.

O que aí se passou ficou em segredo entre Deus e estes dois homens;

apenas Álvaro notou, quando a porta do gabinete se abriu, que D. Antônio estava pensativo, e o escudeiro lívido como um morto. Neste momento ouviu‑se um pequeno rumor na entrada da sala; qua‑ tro aventureiros parados, imóveis, esperavam uma ordem do fidalgo para se aproximarem. D. Antônio fez‑lhes um sinal; e eles vieram ajoelhar‑se a seus pés;

as lágrimas rolavam por essas faces queimadas pelo sol; e a palavra tremia balbuciante nesses lábios pálidos que há instantes vomitavam ameaças.

— Que significa isto? — perguntou o cavalheiro com severidade.

Um dos aventureiros respondeu:

— Viemo‑nos entregar em vossas mãos; preferimos apelar para o vosso

coração do que recorrer às armas para escaparmos à punição de nossa falta.

— E vossos companheiros? — replicou o fidalgo.

josé ­ de ­alencar

61

— Deus lhes perdoe, senhor, a enormidade do crime que vão cometer.

Depois que vos retirastes tudo mudou; preparam‑se para atacar‑vos!

— Que venham — disse D. Antônio —, eu os receberei. Mas vós por

que não os acompanhais? Não sabeis que D. Antônio de Mariz perdoa uma falta, mas nunca uma desobediência?

— Embora — disse o aventureiro que falava em nome de seus camara‑

das —; aceitaremos de bom grado o castigo que nos impuserdes. Mandai, que obedeceremos. Somos quatro contra vinte e tantos; dai‑nos essa puni‑

ção de morrer defendendo‑vos, de reparar pela nossa morte um momento

de alucinação!

D. Antônio olhou admirado os homens que estavam ajoelhados a seus pés; e reconheceu neles os restos dos seus antigos companheiros de armas do tempo em que o velho fidalgo combatia os inimigos de Portugal. Sentiu‑se comovido; sua alma grande, e inabalável no meio do perigo, orgulhosa em face da ameaça, deixava‑se facilmente dominar pelos senti‑ mentos nobres e generosos. Essa prova de fidelidade que davam aqueles quatro homens na ocasião da revolta geral dos seus companheiros; a ação que acabavam de praticar, e o sa‑

crifício com que desejavam expiar a sua falta, elevou‑os no espírito do fidalgo.

Já não sois os traidores que há pouco

repreendi; sois os bravos companheiros que pelejastes a meu lado; o que

Mereceis que mor‑

ramos juntos, combatendo ainda uma vez na mesma fileira. D. Antônio de Mariz vos perdoa. Podeis levantar a cabeça e trazê‑la alta! Os aventureiros ergueram‑se radiantes do perdão que o nobre fidalgo tinha lançado sobre suas cabeças; todos eles estavam prontos a dar sua vida para salvarem o seu chefe. O que tinha ocorrido depois da saída de D. Antônio do alpendre, seria longo de escrever. Loredano tornando a si da vertigem que lhe causara o atordoamento e a violência da queda, soube da ordem que havia a seu respeito. Não era pre‑ ciso tanto para que o audaz aventureiro recorresse à sua eloqüência a fim de excitar de novo à revolta. Pintou a posição de todos como desesperada, atribuiu o seu castigo e as desgraças que iam suceder ao fanatismo que havia por Peri; esgotou enfim os recursos da sua inteligência. D. Antônio não estava mais aí para conter com a sua presença a cólera que ia fermentando, a excitação que começava a lavrar, a princípio surda‑ mente, as queixas e os murmúrios que afinal fizeram coro.

fazeis agora, esquece o que fizestes há uma hora. Sim!

É a graça que vos pedimos!

— Erguei‑vos. Reconheço‑vos!

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Um incidente veio atear a chama que lastrava; Peri, apenas começou

a

romper o dia, viu a alguma distância do jardim o cadáver de Rui Soeiro;

e

temendo que sua senhora acordando presenciasse esse triste espetáculo

tomou o corpo, e atravessando a esplanada, veio atirá‑lo no meio do pátio. Os aventureiros empalideceram e ficaram estupefatos; depois rompeu

a indignação feroz, raivosa, delirante; estavam como possessos de furor e

vingança. Não houve mais hesitação; a revolta pronunciou‑se; apenas o pe‑ queno grupo de quatro homens que desde a saída de D. Antônio se conser‑ vava em distância não tomou parte na insubordinação. Ao contrário, quando viram que seus companheiros, com Loredano à frente, se preparavam para atacar o fidalgo, foram, como vimos, oferecer‑se

voluntariamente ao castigo, e reunir‑se ao seu chefe para partilharem a sua sorte. Pouco tardou para que João Feio não se apresentasse como parlamentá‑ rio da parte dos revoltosos; o fidalgo não o deixou falar.

— Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antônio de Mariz manda

e não discute condições: que eles estão condenados; e verão se sei ou não cumprir o meu juramento. O fidalgo tratou então de dispor os seus meios de defesa; apenas podia contar com quatorze combatentes: ele, Álvaro, Peri, Aires Gomes, mestre Nunes com os seus companheiros, e os quatro homens que se haviam con‑ servado fiéis; os inimigos eram em número de vinte e tantos.

Toda a sua família já então despertada recebeu a triste notícia de tantos acontecimentos passados durante aquela noite fatal; D. Lauriana, Cecília

e Isabel recolheram‑se ao oratório, e rezavam enquanto se preparava tudo para uma resistência desesperada. Os aventureiros comandados por Loredano arregimentaram‑se e mar‑

charam para a casa dispostos a dar um assalto terrível; o seu furor redobrava tanto mais, quanto o remorso no fundo da consciência começava a mostrar‑ ‑lhes toda a hediondez de sua ação. No momento em que dobravam o canto, ouviu‑se um som rouco que se prolongou pelo espaço, como o eco surdo de um trovão em distância. Peri estremeceu, e lançando‑se para a beira da esplanada estendeu os olhos pelo campo que costeava a floresta. Quase ao mesmo tempo um dos aventureiros que estava ao lado de Loredano caiu traspassado por uma flecha.

— Os Aimorés!

Apenas soltou Peri esta exclamação, uma linha movediça, longo arco de cores vivas e brilhantes, agitou‑se ao longe da planície irradiando à luz do sol nascente.

josé ­ de ­alencar

63

Homens quase nus, de estatura gigantesca e aspecto feroz; cobertos de peles de animais e penas amarelas e escarlates, armados de grossas clavas e arcos enormes, avançavam soltando gritos medonhos. A inúbia retroava; o som dos instrumentos de guerra misturado com os brados e alaridos formavam um concerto horrível, harmonia sinistra que

revelava os instintos dessa horda selvagem reduzida à brutalidade das feras.

— Os Aimorés!

— repetiram os aventureiros empalidecendo.

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Castro ALVES. «O navio negreiro (tragédia no mar)», in Os­ Escravos. [1884] 1997. Lisboa: Printer Portuguesa. 9‑28.

‘Stamos em pleno mar

Brinca o luar — dourada borboleta;

E as vagas após ele, correm… dançam

Como turbas de infantes inquieta!

Doudo no espaço

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento…

Os astros saltam como espumas de ouro…

O mar em troca acende as ardentias,

— Constelações do líquido tesouro!

‘Stamos em pleno mar

Ali se estreitam num abraço insano, Azuis, dourados, plácidos, sublimes… Qual dos dous é o céu? qual o oceano?

Dois infinitos

‘Stamos em pleno mar… abrindo as velas Ao quente arfar das virações marinhas, Veleiro brigue corre à flor dos mares, Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? Onde vae? Das náos errantes Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço! Neste Saara os corcéis o pó levantam, Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora Sentir deste painel a majestade!

Embaixo — o mar… em cima — o firmamento…

E no mar e no céu — a imensidade!

castro ­alves

65

Oh! Que doce harmonia traz‑me a brisa! Que música suave ao longe soa! Meu Deus! como é sublime um canto ardente Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! Ó rudes marinheiros, Tostados pelo sol dos quatro mundos! Crianças que a procela acalentara No berço d’estes pélagos profundos!

Esperai!… esperai!

Esta selvagem, livre poesia… Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, E o vento que nas cordas assobia ………………………………………….

deixai que eu beba

Por que foges assim, barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! quem me dera acompanhar‑te a esteira Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano, Tu que dormes das nuvens entre as gazas, Sacode as penas, Leviathan do espaço, Albatroz! Albatroz! dá‑me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço, Donde é filho, qual seu lar? Ama a cadência do verso Que lhe ensina o velho mar! Cantai! que a morte é divina! Resvala o brigue à bolina Como golfinho veloz. Presa ao mastro da mezena Saudosa bandeira acena Às vagas que deixa após.

66

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Do Espanhol as cantilenas Requebradas de langor, Lembram as moças morenas, As andaluzas em flor!

Da Itália o filho indolente Canta Veneza dormente,

— Terra de amor e traição,

Ou do golfo no regaço Relembra os versos de Tasso, Junto às lavras do vulcão!

(O Inglês — marinheiro frio, Que ao nascer no mar se achou,)

(Porque a Inglaterra é um navio, Que Deus na Mancha ancorou), Rijo entoa pátrias glórias, Lembrando, orgulhoso, histórias De Nelson e de Aboukir…

O Francês — predestinado —

Canta os louros do passado

E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos, Que a vaga iónia criou, Belos piratas morenos Do mar que Ulisses cortou, Homens que Fídias talhara, Vão cantando em noite clara Versos que Homero gemeu… Nautas de todas as plagas, Vós sabeis achar nas vagas As melodias do céu!

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! Desce mais… inda mais… não pode olhar humano, Como o teu mergulhar no brigue voador! Mas, que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!

castro ­alves

67

É canto funeral!

Que cena infame e vil… Meu Deus! meu Deus! Que horror!

Que tétricas figuras!

IV

Era um sonho dantesco

Que das luzernas avermelha o brilho, Em sangue a se banhar. Tinir de ferros… estalar de açoite… Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar…

o tombadilho,

Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães:

Outras, moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs!

E

ri‑se a orquestra irónica, estridente…

E

da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais…

Se o velho arque, se no chão resvala, Ouvem‑se gritos… o chicote estala.

E voam mais e mais

Presa nos elos de uma só cadeira,

A

multidão faminta cambaleia,

E

chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece, Outro, que de martírios embrutece, Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu, que se desdobra

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

«Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei‑os mais dançar!

»

68

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

E

ri‑se a orquestra irónica, estridente

E

da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais… Qual um sonho dantesco as sombras voam!

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E

ri‑se Satanás!

V

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei‑me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noute confusa… Dize‑o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto

Onde a terra esposa a luz, Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus.

São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão.

castro ­alves

69

Ontem simples, fortes, bravos… Hoje míseros escravos, Sem ar, sem luz, sem razão

São mulheres desgraçadas, Como Agar o foi também. Que sedentas, alquebradas, De longe… bem longe vêm… Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos braços, N’alma — lágrimas e fel… Como Agar sofrendo tanto, Que nem o leite de pranto Têm que dar para Ismael.

Lá… nas areias infindas, Das palmeiras no país,

Nasceram — crianças lindas, Viveram — moças gentis… Passa um dia a caravana, Quando a virgem na cabana Cisma da noite nos véus…

… Adeus, ó choça do monte,

… Adeus, palmeiras da fonte!

… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso… Depois, o oceano de pó.

Depois — no horizonte imenso Desertos… desertos só…

E a fome, o cansaço, a sede…

Ai! quanto infeliz que cede,

E cai p’ra não mais s’erguer!…

Vaga um lugar na cadeia, Mas o chacal sobre a areia Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

70

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

O sono dormido à toa

Sob as tendas d’amplidão!

Hoje… o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar…

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,

A vontade por poder…

Hoje… cúm’lo de maldade,

Nem são livres p’ra morrer… Prende‑os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente — Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte

Dança a lúgubre coorte Ao som do açoute… Irrisão!

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei‑me vós, Senhor Deus,

Se eu deliro… ou se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, porque não apagas

Co’a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!

VI

Existe um povo que a bandeira empresta P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!

E deixa‑a transformar‑se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria! Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, Que impudente na gávea tripudia?

castro ­alves

71

Silêncio. Musa… chora, e chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto!

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança…

Tu que, da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança, Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!

Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia de mais!

Levantai‑vos, heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Da etérea plaga

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

António Lobo ANTUNES. «Relato», in O ­ Manual ­ dos­ Inquisidores. 2005. Lisboa: Dom Quixote. 163‑175.

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Aluísio AZEVEDO. Excerto de «Capítulo I», in O Cortiço. [1890] 2012. São Paulo: Ateliê Editorial. 77‑82.

Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente para

essa ideia; sonhava com ela todas as noites; comparecia a todos os leilões de ma‑ teriais de construção; arrematava madeiramentos já servidos; comprava telha em segunda mão; fazia pechinchas de cal e tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso chão vazio, cujo aspecto tomava em breve o carácter estranho de uma enorme barricada tal era a variedade dos objetos que ali se apinhavam acu‑ mulados: tábuas e sarrafos, troncos de árvore, mastros de navio, caibros, restos de carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de areia e terra ver‑ melha, aglomerações de telhas velhas, escadas partidas, depósitos de cal, o dia‑ bo enfim; ao que ele, que sabia perfeitamente como essas coisas se furtavam, resguardava, soltando à noite um formidável cão de fila. Este cão era pretexto de eternas rezingas com a gente do Miranda,

a cujo quintal ninguém de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem correr o risco de ser assaltado pela fera.

— É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os ombros.

— Não faço! replicava o outro. Se ele é questão de capricho, eu também tenho capricho! Em compensação, não caía no quintal do Miranda galinha ou frango,

fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse imediato sumiço. João Ro‑ mão protestava contra roubo em termos violentos, jurando vinganças terrí‑ veis, falando em dar tiros.

— Pois é fazer um muro no galinheiro! repontava o marido de Estela.

Daí a alguns meses, João Romão, depois de tentar um derradeiro esfor‑

ço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu principiar as obras da estalagem.

— Deixa estar, conversava ele na cama com a Bertoleza; deixa estar que

ainda lhe hei‑de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre pela fren‑ te! Mais cedo ou mais tarde como‑lhe, não duas braças, mas seis, oito, todo

o quintal e até o próprio sobrado talvez!

aluísio ­azevedo

83

E dizia isto com uma convicção de quem tudo pode e tudo espera da sua perseverança, do seu esforço inquebrantável e da fecundidade prodi‑ giosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe saía das unhas para voltar mul‑ tiplicado. Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus

atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para

a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém com‑

praria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que

no entanto gostava imenso; vendia‑os todos e contentava‑se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda.

E

seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer,

ia

e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre

em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando‑se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar‑se logo com as unhas. Entretanto, a rua lá fora povoava‑se de um modo admirável. Construía‑ ‑se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara‑se uma fábrica de massas italianas e outra de velas, e os trabalhadores passavam de manhã as ave‑marias, e a maior parte deles ia comer à casa de pasto que João Romão arranjara aos fundos da sua venda. Abriram‑se novas tavernas; nenhuma, po‑ rém, conseguia ser tão afreguesada como a dele. Nunca o seu negócio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos anos anteriores. Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe

paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais gasto.

E o dinheiro a pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a escorrer da

gaveta para a burra, aos cinquenta e aos cem mil‑réis, e da burra para o ban‑ co, aos contos e aos contos. Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazéns fornecedores; começou a receber alguns gêneros diretamente da Europa: o vinho, por exemplo, que ele dantes comprava aos quintos nas casas de ataca‑ do, vinha‑lhe agora de Portugal às pipas, e de cada uma fazia três com água e cachaça; e despachava faturas de barris de manteiga, de caixas de conserva, caixões de fósforos, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias. Criou armazéns para depósito, aboliu a quitanda e transferiu o dormi‑ tório, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de tamanho

e ganhou mais duas portas.

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de

tudo, objetos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensílios de escritório, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa de mulher, cha‑ péus de palha próprios para o serviço ao sol, perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e anéis e brincos de metal ordinário.

E toda a gentalha daquelas redondezas ia cair lá, ou então ali ao lado, na

casa de pasto, onde os operários das fábricas e os trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam bebendo e conversando até às dez

horas da noite, entre o espesso fumo dos cachimbos, do peixe frito em azei‑ te e dos lampiões de querosene. Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordena‑ do não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco. E sobre este cobre, quase sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por cento ao mês, um pouco mais do que levava aos que garantiam a dívida com penhores de ouro ou prata. Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam, enchiam‑se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia

grande avidez em alugá‑las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação.

O Miranda rebentava de raiva.

— Um cortiço! exclamava ele, possesso. Um cortiço! Maldito seja aque‑

le vendeiro de todos os diabos! Fazer‑me um cortiço debaixo das janelas! Estragou‑me a casa, o malvado!

E vomitava pragas, jurando que havia de vingar‑se, e protestando aos

berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o infernal ba‑ rulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martelar de sol a sol.

O que aliás não impediu que as casinhas continuassem a surgir, uma

após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem‑se unidas por ali afora, desde a venda até quase ao morro, e depois dobrassem para o lado do Mi‑ randa e avançassem sobre o quintal deste, que parecia ameaçado por aquela serpente de pedra e cal.

O Miranda mandou logo levantar o muro.

Nada! aquele demónio era capaz de invadir‑lhe a casa até à sala de visitas!

E os quartos do cortiço pararam enfim de encontro ao muro do nego‑

ciante, formando com a continuação da casa deste um grande quadrilongo, espécie de pátio de quartel, onde podia formar um batalhão. Noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem.

aluísio ­azevedo

85

Prontas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças que separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de altura, coroado de tacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças vermelhas, por cima de uma tabuleta amarela, em que se lia o seguinte, escrito a tinta encarnada e sem ortografia:

«Estalagem de São Romão. Alugam‑se casinhas e tinas para lavadeiras». As casinhas eram alugadas por mês e as tinas por dia; tudo pago adian‑

tado. O preço de cada tina, metendo a água, quinhentos réis; sabão à parte. As moradoras do cortiço tinham preferência e não pagavam nada para lavar. Graças à abundância de água que lá havia, como em nenhuma outra par‑ te, e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender a roupa, a concorrência às tinas não se fez esperar; acudiram lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre elas algumas vindas de bem longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde coubesse um col‑ chão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputá‑los.

E aquilo se foi constituindo numa grande lavanderia, agitada e baru‑

lhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes e os seus jardinzinhos de três e quatro palmos, que apareciam como manchas alegres

por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o reverbero das claras barracas de algodão cru, armadas sobre os lustrosos bancos de lavar. E os gotejantes jiraus, cobertos de roupa molhada, cintilavam ao sol, que nem lagos de metal branco.

E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lo‑

dosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lamei‑ ro, e multiplicar‑se como larvas no esterco.

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Maria Isabel BARRENO, Maria Teresa HORTA e Maria Velho da COSTA. «Extractos do diário de D. Maria Ana, descendente directa de D. Mariana sobrinha de D. Mariana Alcoforado, e nascida por volta de 1800», in Novas­Cartas­Portuguesas. [1972] 1998. Lisboa: Dom Quixote. 151‑155.

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Camilo Castelo BRANCO. «Capítulo XIX», in Amor ­ de ­ Perdição. [1861] 2007. Lisboa: Imprensa Nacional — Casa da Moeda. 431‑441 (só páginas ímpares).

A verdade é algumas vezes o escolho de um romance. Na vida real, recebemo‑la como ela sai dos encontrados casos, ou da

lógica implacável das coisas; mas na novela, custa‑nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte. Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é im‑ pertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatru‑ zes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo.

A verdade! se ela é feia, para que oferecê‑la em painéis ao público!?

A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de

ferro, que o prendem ao barro donde saiu, ou pesam nele e o submergem no

charco da culpa primitiva, para que é emergi‑lo, retratá‑lo, e pô‑lo à venda!? Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi

o

meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá‑la como ela

é,

feia e repugnante.

A desgraça afervora ou quebranta o amor?

Isso é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Factos e não teses

é o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não explica as fun‑ ções ópticas do aparelho visual. Ao cabo de dezanove meses de cárcere, Simão Botelho almejava um

raio de sol, uma lufada de ar não coada pelos ferros, o pavimento do céu, que

o da abóbada do seu cubículo pesava‑lhe sobre o peito. Ânsia de viver era a sua; não era já ânsia de amar. Seis meses de sobressaltos diante da forca deviam distender‑lhe as fi‑ bras do coração; e o coração para o amor quer‑se forte e tenso de uma cer‑ ta rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anseios das esperanças,

e com as alegrias que o enchem e reforçam para os revezes. Caiu a forca pavorosa aos olhos de Simão; mas os pulsos ficaram em ferros, o pulmão ao ar mortal das cadeias, o espírito intanguido na glacial estupidez de umas paredes salitrosas, e dum pavimento, que ressoa os der‑

camilo ­ castelo ­ branco

91

radeiros passos do último padecente, e dum tecto que filtra a morte a gotas de água.

O que é o coração, o coração dos dezoito anos, o coração sem remorsos,

o espírito anelante de glórias, ao cabo de dezoito meses de estagnação da

vida?

O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada

pelas rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para as quais a saudade da

ventura extinta é um cautério em brasa; e o amor, que leva ao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigério. Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora

de desafogo, como que sentia o patíbulo lascar entre os seus braços, e então convidou o coração da mulher, que o perdera, a assistir às segundas núpcias da sua vida com a esperança. Depois, a passo igual, a esperança fugia‑lhe para as areias da Ásia, e o coração entumecia‑se de fel, o amor afogava‑se nele, morte inevitável, quan‑ do não há abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão íntima. Esperança para Simão Botelho, qual?

A

Índia, a humilhação, a miséria, a indigência.

E

os anelos daquela alma tinham mirado a ambições de um nome. Para

a felicidade do amor invidava as forças do talento; mas, além do amor, estava

a glória, o renome e a vã imortalidade, que só não é demência nas grandes

almas, e nos génios que se sentem previver nas gerações vindouras. Mas grinaldas de amor a escorrerem sangue dos espinhos, essas infil‑ tram veneno corrosivo no pensamento, apagam no seio a faísca das nobres afoitezas, apoucam a ideia que abrangera mundos, e paralisam de mortal espasmo os estos do coração. Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito meses de cárcere, com o

patíbulo ou degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor da alma.

A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o coração, se ousava res‑

ponder, retraía‑se recriminado pelos ditames da razão. Dalém, daquele convento onde outra existência agonizava, gementes queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que não sabias, nem podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixão para ela, e recebias as do demónio do desespero para ti. Os dez anos de ferros, em que lhe quiseram minorar a pena, eram‑lhe mais horrorosos que o patíbulo. E aceitá‑los‑ia, por ventura, se amasse o céu, onde Teresa bebia o ar, que nos pulmões se lhe formava em peçonha?

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literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Creio: antes a masmorra, onde pode ouvir‑se o som abafado de uma voz ami‑ ga; antes os paroxismos de dez anos sobre as lajes húmidas duma enxovia, se, na hora extrema, a última faísca da paixão, ao bruxulear para morrer, nos alumia o caminho do céu por onde o anjo do amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do que ficou. Teresa pedira a Simão Botelho que aceitasse dez anos de cadeia, e espe‑ rasse aí a sua redenção por ela. «Dez anos! — dizia‑lhe a inclausurada de Monchique — Em dez anos terá morrido meu pai e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te per‑ doe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vais ao degredo, para sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memória de mim, quando voltares.» Como a pobre se iludia nas horas em que as débeis forças de vida se lhe concentravam no coração! As ânsias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que criara novo, já lhe saía em golfadas com a tosse. Se por amor ou piedade o condenado aceitasse os ferrolhos três mil seiscentas e cinquenta vezes corridos sobre as suas longas noites solitárias, nem assim Teresa susteria a pedra sepulcral que a vergava d’hora a hora. «Não esperes nada, mártir — escrevia‑lhe ele. — A luta com a desgraça

é inútil, e eu não posso já lutar. Foi um atroz engano o nosso encontro. Não

temos nada neste mundo. Caminhemos ao encontro da morte

Há um se‑

gredo que só no sepulcro se sabe. Ver‑nos‑emos? «Vou. Abomino a pátria, abomino a minha família; todo este solo está aos meus olhos coberto de forcas, e quantos homens falam a minha língua, creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a

liberdade com a opulência; nem já agora a realização das esperanças que me dava o teu amor, Teresa! «Esquece‑te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não aqui. Apague‑se a luz de meus olhos; mas a luz do céu, quero‑a! Quero ver o céu no meu último olhar. «Não me peças que aceite dez anos de prisão. Tu não sabes o que é a li‑ berdade cativa dez anos! Não compreendes a tortura dos meus vinte meses.

A voz única que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola o pão de

cada dia, e a do aguazil que veio dar‑me a sarcástica boa‑nova de uma graça real, que me comuta o morrer instantâneo da forca pelas agonias de dez anos de cárcere. «Salva‑te, se podes, Teresa. Renuncia ao prestígio dum grande desgraça‑ do. Se teu pai te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma aurora de paz,

camilo ­ castelo ­ branco

93

vive para a felicidade desse dia. E se não, morre, Teresa, que a felicidade é a morte, é o desfazerem‑se em pó as fibras laceradas pela dor, é o esquecimen‑ to que salva das injúrias a memória dos padecentes.» As palavras únicas de Teresa, em resposta àquela carta, significativa da turvação do infeliz, foram estas: «Morrerei, Simão, morrerei. Perdoa tu ao

meu destino

porque não posso, nem poderei jamais resgatar‑te. Se podes, vive; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar‑te‑á

Adeus até ao céu,

Simão.» Seguiram‑se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão Botelho não respondia às perguntas de Mariana. Di‑lo‑íeis arroubado nas voluptuosas angústias do seu próprio aniquilamento. A criatura, posta por Deus ao lado daqueles dezoito anos tão atribulados, chorava; mas as lágri‑ mas, se Simão as via, tiravam‑no da mudez sossegada para ímpetos de afli‑ ção, que afinal o extenuavam. Decorreram seis meses ainda. E Teresa vivia, dizendo às suas consternadas companheiras que sabia ao certo o dia do seu trespasse. Duas primaveras vira Simão Botelho pelas grades do seu cárcere. A ter‑ ceira já inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal. Era em Março de 1807. No dia 10 desse mês, recebeu o condenado intimação para sair na pri‑ meira embarcação que levava âncora do Douro para a Índia. Nesse tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa os que tinham igual destino. Nenhum estorvo impedia o embarque de Mariana, que se apresentou ao corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu amo. — E a passagem vale‑a bem! — disse o galhofeiro magistrado. Simão assistiu ao encaixotar de sua bagagem, numa quietação terrível, como se ig‑ norasse o seu destino. Quis muitas vezes escrever a derradeira carta à moribunda Teresa,

o meu espírito

e morro,

Perdi‑te

Bem sabes que sorte eu queria dar‑te

Vejo a aurora da paz

Estou tranquila

e nem sinais de lágrimas podia já enviar‑lhe no papel. — Que trevas, meu Deus! — exclamava ele, e arrancava a mãos cheias os cabelos — Dai‑me lágrimas, Senhor! deixai‑me chorar ou matai‑me, que este sofrimento é insuportável! Mariana contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os não menos medonhos da letargia.

94

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— E Teresa! — bradava ele, surgindo subitamente do seu espasmo — E aquela infeliz menina, que eu matei! Não hei‑de vê‑la mais, nunca mais! Ninguém me levará ao degredo a notícia da sua morte! E quando a eu cha‑ mar para que me veja morrer digno dela, quem te dirá que eu morri, ó mártir!

luís ­ de ­ camões

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Luís de CAMÕES. «Canto III — Estâncias 118‑137», in Os­ Lusíadas. [1572] 1992. Lisboa: Ministério da Educação e Instituto Camões. 88‑93.

«Passada esta tão próspera vitória, Tornado Afonso à Lusitana terra,

A se lograr da paz com tanta glória

Quanta soube ganhar na dura guerra,

O caso triste, e dino da memória

Que do sepulcro os homens desenterra, Aconteceu da mísera e mesquinha Que despois de ser morta foi Rainha.

«Tu só, tu, puro Amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga. Se dizem, fero Amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.

«Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruto, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito, Nos saüdosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuto, Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas,

96

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

«Do teu Príncipe ali te respondiam

As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante seus olhos te traziam, Quando dos teus fermosos se apartavam; De noite, em doces sonhos que mentiam, De dia, em pensamentos que voavam;

E quanto, enfim, cuidava e quanto via

Eram tudo memórias de alegria.

«De outras belas senhoras e Princesas Os desejados tálamos enjeita,

Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas Quando um gesto suave te sujeita. Vendo estas namoradas estranhezas,

O

velho pai sesudo, que respeita

O

murmurar do povo e a fantasia

Do filho, que casar‑se não queria,

«Tirar Inês ao mundo determina, Por lhe tirar o filho que tem preso, Crendo co sangue só da morte inclina Matar do firme amor o fogo aceso.

Que furor consentiu que a espada fina Que pôde sustentar o grande peso Do furor Mauro, fosse alevantada

Contra

o grande peso Do furor Mauro, fosse alevantada Contra a fraca dama delicada? «Traziam‑a os horríficos

a fraca dama delicada?

«Traziam‑a os horríficos algozes Ante o Rei, já movido a piedade; Mas o povo, com falsas e ferozes Razões, à morte crua o persuade. Ela, com tristes e piedosas vozes, Saídas só da mágoa e saüdade Do seu Príncipe e filhos, que deixava, Que mais que a própria morte a magoava,

«Pera o céu cristalino alevantando, Com lágrimas, os olhos piedosos (Os olhos, porque as mãos lhe estava atando

luís ­ de ­ camões

97

Um dos duros ministros rigorosos);

E despois nos mininos atentando,

Que tão queridos tinha e tão mimosos, Cuja orfindade como mãe temia, Pera o avô cruel assi dizia:

— «Se já nas brutas feras, cuja mente Natura fez cruel de nascimento,

E nas aves agrestes, que sòmente

Nas rapinas aéreas têm o intento, Com pequenas crianças viu a gente Terem tão piadoso sentimento

Como co a mãe de Nino já mostraram,

E cos irmãos que Roma edificaram:

«Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito

(Se de humano é matar

Fraca e sem força, só por ter subjeito

O coração a quem soube vencê‑la),

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens à morte escura dela; Mova‑te a piedade sua e minha, Pois te não move a culpa que não tinha.

sua e minha, Pois te não move a culpa que não tinha. a donzela, «E se,

a donzela,

«E se, vencendo a Maura resistência,

A morte sabes dar com fogo e ferro,

Sabe também dar vida com demência

A quem pera perdê‑la não fez erro.

Mas, se to assi merece esta inocência, Põe‑me em perpétuo e mísero desterro, Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente, Onde em lágrimas viva eternamente.

«Põe‑me onde se use toda a feridade, Entre liões e tigres, e verei Se neles achar posso a piedade Que entre peitos humanos não achei. Ali, co amor intrínseco e vontade Naquele por quem mouro, criarei

98

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Estas relíquias suas, que aqui viste, Que refrigério sejam da mãe triste.»

«Queria perdoar‑lhe o Rei benino, Movido das palavras que o magoam; Mas o pertinaz povo e seu destino (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam. Arrancam das espadas de aço fino Os que por bom tal feito ali apregoam.

Contra

Feros vos amostrais — e cavaleiros?

ali apregoam. Contra Feros vos amostrais — e cavaleiros? a dama, ó peitos carniceiros, «Qual contra

a dama, ó peitos carniceiros,

«Qual contra a linda moça Policena, Consolação extrema da mãe velha, Porque a sombra de Aquiles a condena, Co ferro o duro Pirro se aparelha; Mas ela, os olhos com que o ar serena (Bem como paciente e mansa ovelha) Na mísera mãe postos, que endoudece, Ao duro sacrifício se oferece:

«Tais contra Inês os brutos matadores, No colo de alabastro, que sustinha As obras com que Amor matou de amores Aquele que despois a fez Rainha,

As espadas banhando, e as brancas flores, Que ela dos olhos seus regadas tinha,

Se encarniçavam, férvidos e irosos,

No futuro castigo não cuidosos.

«Bem puderas, ó Sol, da vista destes, Teus raios apartar aquele dia, Como da seva mesa de Tiestes,

Quando os filhos por mão de Atreu comia! Vós, ó côncavos vales, que pudestes A voz extrema ouvir da boca fria,

O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,

Por muito grande espaço repetistes!

luís ­ de ­ camões

99

«Assi como a bonina, que cortada

Antes do tempo foi, cândida e bela, Sendo das mãos lacivas maltratada Da minina que a trouxe na capela,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

Tal está, morta, a pálida donzela, Secas do rosto as rosas e perdida

A branca e viva cor, co a doce vida.

«As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram,

E, por memória eterna, em fonte pura

As lágrimas choradas transformaram.

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês, que ali passaram. Vede que fresca fonte rega as flores, Que lágrimas são a água e o nome Amores!

«Não correu muito tempo que a vingança Não visse Pedro das mortais feridas, Que, em tomando do Reino a governança,

A tomou dos fugidos homicidas;

Do outro Pedro cruíssimo os alcança,

Que ambos, imigos das humanas vidas,

O concerto fizeram, duro e injusto,

Que com Lépido e António fez Augusto.

«Este, castigador foi rigoroso De latrocínios, mortes e adultérios; Fazer nos maus cruezas, fero e iroso, Eram os seus mais certos refrigérios. As cidades guardando, justiçoso, De todos os soberbos vitupérios, Mais ladrões, castigando, à morte deu, Que o vagabundo Alcides ou Teseu.

100

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

António CARDOSO. «Pela calçada da Maria da Fonte», in­Poemas­de ­ Circunstância. [1961] 2014. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império — Colecção de Autores Ultramarinos — reprodução integral da 1.ª edição. 21‑22.

paulina­ chiziane

101

Paulina CHIZIANE. Ventos ­do ­Apocalipse. [1993] 1999. Lisboa: Caminho.

57‑67.

108

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

João DIAS. «Godido (extra)», in Godido­ e ­ Outros­ Contos. [1952] 2014. Lisboa:

Casa dos Estudantes do Império — África Nova. Secção de Moçambique — reprodução integral da 1.ª edição. 41‑45.

antónio ­ ferreira

111

António FERREIRA. «Acto IV, Cena I», in Castro, in Poemas ­Lusitanos. [1587] 2000. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 435‑443.

Pacheco. El‑rei. Coro. Castro Coelho [Filhos de Castro]

Pacheco A presteza em tal caso é bom seguro, e piedade, senhor, será crueza. Cerra os olhos a lágrimas, e mágoas, que to podem mover dessa constância.

Rei Esta é, que a mim se vem: o rosto dino de mais ditosos fados!

Coro Eis a morte vem. Vai‑te entregar a ela: vai depressa, terás que chorar menos.

Castro Vou, amigas. Acompanhai‑me vós, amigas minhas, ajudai‑me a pedir misericórdia. Chorai o desemparo destes filhos tão tenros, e inocentes. Filhos tristes, vedes aqui o pai de vosso pai. Eis aqui vosso avô, nosso senhor:

beijai‑lhe a mão, pedi‑lhe piedade de vós, desta mãe vossa, cuja vida vos vem, filhos, roubar.

Coro Quem pode ver‑te que não chore, e s’abrande?

112

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Castro Meu senhor, esta é a mãe de teus netos. Estes são filhos daquele filho que tanto amas. Esta é aquela coitada molher fraca, contra quem vens armado de crueza. Aqui me tens. Bastava teu mandado pera eu segura, e livre t’esperar, em ti, e em minh’inocência confiada.

Escusaras, senhor, todo este estrondo d’armas e cavaleiros: que não foge, nem se teme a inocência da justiça. quando meus pecados me acusaram

a ti fora buscar: a ti tomara

por vida em minha morte. Agora vejo que tu me vens buscar. Beijo estas mãos reais tão piadosas, pois quiseste por ti vir‑te informar de minhas culpas. Conhece‑mas, senhor, como bom rei, como clemente, e justo, e como pai de teus vassalos todos, a quem nunca negaste piedade com justiça. Que vês em mim, senhor? Que vês em quem em tuas mãos se mete tão segura?

Que fúria, que ira esta e, com que me buscas? Mais contra imigos vens, que cruelmente t’andassem tuas terras destruindo

a ferro, e fogo. Eu tremo, senhor, tremo

de me ver ante ti como me vejo, molher, moça, inocente, serva tua, tão só, sem por mim ter quem me defenda, que a língua não s’atreve, o esprito treme ante tua presença; porém, possam estes moços, teus netos defender‑me. Eles falem por mim, eles sós ouve. Mas não te falarão, senhor, com língua, que inda não podem. Falam‑te co’ as almas, com suas idades tenras; com seu sangue, que é teu, te falarão. Seu desemparo

antónio ­ ferreira

113

t’está pedindo vida: não lha negues. Teus netos são, que nunca téqui viste:

e vê‑los em tal tempo, que lhes tolhes

a glória, e o prazer, qu’em seus espritos lhe está Deus revelando de te verem.

Rei Tristes foram teus fados, Dona Inês, triste ventura a tua.

Castro Antes ditosa, senhor, pois que me vejo ante teus olhos em tempo tão estreito: põe‑nos ora, como nos outros sois, nesta coitada, enche‑os de piedade com justiça. Vens‑me, senhor, matar? Porque me matas?

Rei Teus pecados te matam: cuida neles.

Castro Pecados meus! Ao menos contra ti nenhum, meu rei, me acusa. Contra Deus me podem acusar muitos: mas ele ouve as vozes d’alma triste, em que lhe pede piedade, o Deus justo, Deus benino, Que não mata, podendo‑o com justiça, mas dá tempo de vida, e espera tempo só pera perdoar. Assi o fazes, assi o fizeste sempre: pois não mudes agora contra mim teu bom costume.

Rei Tua morte m’estão outras muitas vidas pedindo com clamores.

Pacheco Foge o tempo.

114

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Castro

Ó triste, triste! Meu senhor, não me ouves?

Sossega tua fúria, não a sigas.

Nunca conselhou bem: nunca deu tempo

de remédio a algum mal a ira. Sempre

traz arrependimento sem remédio. Ouve minha razão, minh’inocência. Culpa é, senhor, guardar amor constante

a quem mo tem? Se por amor me matas, que farás ao imigo? Amei teu filho, não o matei. Amor amor merece. Estas são minhas culpas: estas queres com morte castigar? Em que a mereço?

Pacheco Dona Inês, contra ti é a sentença dada. Despide essa tu’alma desse corpo em bom estado, e seja prestesmente. Não tenhas que chorar mais, que só a morte.

Castro

Ó meus amigos, porque não tirais

el‑Rei de ira tamanha? A vós me vou, em vós busco socorro: ajudai‑me ora pedir‑lhe piedade. Ó cavaleiros,

que as tristes prometestes defender, defendei‑me, que mouro injustamente.

Se me vós não defendeis, vós me matais.

Coelho Por mágoa dessas lágrimas te rogo

que este tempo, que tens, inda que estreito, tomes pera remédio da tu’alma.

O que el‑rei em ti faz, faz com justiça.

Nós o trazemos cá, não com tenção de sermos em ti crus, mas de salvarmos este reino, que pede esta tua morte. (Que nunca, ó Deus, quisera que tal meio nos fora necessário!) A el‑rei perdoa,

antónio ­ ferreira

115

que crueza não faz. Se a nós fazemos, por ti ante o grã Deus será pedida vingança justa, se te não parece que perdão merecemos nas tenções,

com que el‑rei conselhamos. Ó ditosa, Dona Inês, tua morte: pois só nela

se ganha

Bem vês por tua causa como estava,

além desse pecado, em que te tinha

o ifante forçada (que assi o cremos). Mas pois para remédio é necessária

a morte sua, ou tua, é necessário

que tu sofras a tua com paciência, que isso te ficará por maior glória

que aquela que esperavas cá do mundo.

E quanto mais injusta te parece,

tanto mais justa glória lá terás, onde tudo se paga por medida.

Nós, que a teu parecer mal te matamos, não viviremos muito: lá nos tens, antes de muito tempo, ant’esse trono do grã juiz, onde daremos conta do mal que te fazemos. Não ouviste

já das romãs e gregas com que esforço

morreram muitas, só por glória sua? Morre pois, Castro, morre de vontade, pois não pode deixar de ser tua morte.

morre de vontade, pois não pode deixar de ser tua morte. a geral vida a todo

a geral vida a todo o reino.

Castro Triste prática, triste! Cru conselho

me dás. Quem o ouvira? Mas pois já mouro, ouve‑me, Rei senhor: ouve primeiro

a derradeira voz dest’alma triste.

Co estes teus pés me abraço, que não fujo. Aqui me tens segura.

Rei Que me queres?

116

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Castro Que te posso querer que tu não vejas?

Pergunta‑te a ti mesmo o que me fazes,

a causa que te move a tal rigor.

Dou tua consciência em minha prova. S’os olhos de teu filho s’enganaram com o que viram em mim, que culpa tenho? Paguei‑lhe aquele amor com outro amor,

fraqueza costumada em todo estado.

Se contra Deus pequei, contra ti não. Não soube defender‑me, dei‑me toda, não a imigos teus, não a traidores,

a que alguns teus segredos descobrisse

confiados a mim, mas a teu filho, príncipe deste reino. Vê que forças podia eu ter contra tamanhas forças. Não cuidava, senhor, que t’ofendia:

defenderas‑mo tu, e obedecera, inda que o grand’amor nunca se força. Igualmente foi sempre entre nós ambos:

igualmente trocámos nossas almas. Esta que te ora fala, é de teu filho, em mim matas a ele: ele pede vida par’estes filhos concebidos em tanto amor. Não vês como parecem aquele filho teu? Senhor meu, matas todos, a mim matando: todos morrem. Não sinto já, nem choro minha morte, inda que injustamente assi me busca, inda que estes meus dias assi corta, na sua flor indina de tal golpe:

mas sinto aquela morte triste e dura pera ti, e pera o reino, que tão certa vejo naquele amor que esta me causa. Não vivirá teu filho, dá‑lhe vida, senhor, dando‑ma a mim: que eu me irei logo onde nunca apareça, mas levando estes penhores seus, que não conhecem outros mimos, e tetas senão estas,

antónio ­ ferreira

117

que cortar‑lh’ora queres. Ai, meus filhos, chorai, pedi justiça aos altos céus. Pedi misericórdia a vosso avô contra vós tão cruel, meus inocentes. Ficareis cá sem mim, sem vosso pai, que não poderá ver‑vos, sem me ver. Abraçai‑me, meus filhos, abraçai‑me. Despedi‑vos dos peitos que mamastes. Estes sós foram sempre, já vos deixam. Ah, já vos desempara esta mãe vossa. Que achará vosso pai, quando vier? Achar‑vos‑á tão sós, sem vossa mãe; não verá quem buscava; verá cheias as casas, e paredes de meu sangue. Ah, vejo‑te morrer, senhor, por mim. Meu senhor, já que eu mouro, vive tu. Isto te peço, e rogo: vive, vive, empara estes teus filhos que tant’amas, e pague minha morte seus desastres, se alguns os esperavam. Rei senhor, pois podes socorrer a tantos males, socorre‑me, perdoa‑me. Não posso falar mais. Não me mates, não me mates. Senhor, não to mereço.

Rei Ó molher forte! Venceste‑me, abrandaste‑me. Eu te deixo. Vive, enquanto Deus quer.

Coro Rei piadoso, vive tu, pois perdoas: moura aquele que sua dura tenção leva adiante.

118

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Vergílio FERREIRA. «A galinha», in Contos. 1982. Amadora: Livraria Bertrand. 175‑183.

124

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Rubem FONSECA. «Passeio noturno I» e «Passeio noturno II», in Feliz ­ Ano ­ Novo . [1975] 1990. São Paulo: Companhia das Letras. 61‑71.

130

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Herberto HELDER. «Teorema», in Os ­ Passos ­ em ­Volta. [1963] 2015. Porto:

Porto Editora. 114‑119.

alexandre ­ herculano

133

Alexandre HERCULANO. «Conclusão», in Eurico, ­ o ­Presbítero. [1844] 1979. Amadora: Bertrand. 269‑275.

Da morte às trevas, Imortal, te diriges! Merobaude: Poema ­ de ­Cristo

A ventura das armas muçulmanas tinha chegado ao apogeu, e a sua decli‑

nação começava, finalmente. E na verdade, a ira celeste contra os Godos parecia dever estar satisfeita. O solo da Espanha era como uma ara imensa, onde as chamas das cidades incendiadas serviam de fogo sagrado para con‑ sumir aos milhares as vítimas humanas. O silêncio do desalento reinava por

toda a parte, e os cristãos viam com aparente indiferença os seus vencedores poluírem as últimas cousas que, até sem esperança, ainda defende uma na‑ ção conquistada — as mulheres e os templos. Teodemiro pagava bem caro

o

procedimento que o desejo de salvar os seus súbditos o movera a seguir.

O

pacto feito por ele com os árabes não tardou a ser por mil modos violado,

e o ilustre guerreiro teve de se arrepender, mas já debalde, por haver deposto

a espada aos pés dos infiéis, em vez de pelejar até a morte pela liberdade.

Fora isto o que Pelágio preferira, e a vitória coroou o seu confiar no esforço dos verdadeiros godos e na piedade de Deus. Os que têm lido a história daquela época sabem que a batalha de Cangas de Onis foi o primeiro elo dessa cadeia de combates que, prolongando‑se através de quase oito séculos, fez recuar o Corão para as praias de África e restituiu ao Evangelho esta boa terra de Espanha, terra, mais que nenhuma, de mártires. Na batalha de junto de Auseba foram vingados os valentes que pereceram nas margens do Chrysus; porque mais de vinte mil sarracenos viram pela última vez a luz do Sol naquelas tristes solidões. Mas, nesse dia de punição, esta devia abranger assim os infiéis, como os que lhes haviam vendido a pátria e que ainda vinham disputar a seus irmãos a dura liberdade de que gozavam nas brenhas intratáveis das Astúrias. O ardil de Pelágio para resistir com vantagem aos muçulmanos, cem vezes mais numerosos que os cristãos, surtira o desejado efeito. Ainda que

134

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

muito a custo, os cavaleiros enviados em cilada para a floresta à esquerda das gargantas de Covadonga puderam chegar aí sem serem sentidos dos árabes, que se haviam aproximado mais cedo do que o fizera crer a narração do ve‑ lho Velido. Os infiéis pararam nas bordas do Deva, no sítio em que rompia do vale, os seus almogaures tinham ousado penetrar avante. Os cavaleiros da cilada, que a pouca distância passavam manso e manso, ouviram distinta‑ mente o tropear dos ginetes inimigos. Mas, quando, ao primeiro alvor da manhã, Pelágio se encaminhava com

o seu pequeno esquadrão para a garganta das serras, já os árabes rompiam por ela e começavam a espraiar‑se, como ribeira que, saindo de leito aperta‑ do, se dilata pela campina. Os cristãos recuaram, e os infiéis, atribuindo ao temor esta fuga simulada, precipitaram‑se após eles. Pouco a pouco, o du‑ que de Cantábria atraiu‑os para a entrada da gruta de Covadonga. Chegado ali, pondo à boca a sua buzina, tirou um som prolongado. Imediatamente os cimos dos rochedos, que pareciam inacessíveis, cobriram‑se de fundi‑ bulários frecheiros, e uma nuvem de tiros choveu de toda a parte sobre os africanos e sobre os renegados godos. Vacilaram, mas o desejo da vingança levou‑os a apinharem‑se, esquadrões após esquadrões, à entrada da caver‑ na, onde, finalmente, encontravam desesperada resistência. Então, como se despegassem do céu, grandes rochedos começaram a rolar sobre eles dos ci‑ mos do precipício que lhes ficava sobranceiro. Mãos invisíveis os impeliam. Cada rocha traçava no meio daquele vulto informe que oscilava, naquela vasta planície de alvos turbantes e de capacetes reluzentes, uma escura man‑ cha, semelhante a chaga horrível. Eram dez ou vinte guerreiros, cujos mem‑ bros esmagados, cujos ossos triturados, cujo sangue confundido espirravam por cima das frontes dos seus companheiros. Era medonho!, porque a esse espectáculo se ajuntava o grito de raiva e desesperação dos pelejadores, grito feroz e agudo, só comparável ao bramido de cem leoas a quem os caçadores do Atlas houvessem, na ausência delas, roubado os seus cachorrinhos. Pela volta da tarde, apenas do numeroso e brilhante exército dos árabes alguns milhares de cavaleiros fugiam desalentados diante dos foragidos das Astúrias, que os perseguiam incansáveis além de Cangas de Onis. Fora no momento em que Pelágio penetrava, na sua fingida fuga, sob o vasto portal da gruta que o cavaleiro negro saía. O jovem guerreiro viu‑o e estremeceu. Eurico tinha as faces encovadas, o rosto pálido e transtornado,

e havia em todo o seu gesto uma tão singular expressão de tranquilidade

que fazia terror. Enquanto os cristãos defendiam a entrada ele esteve que‑ do, como indiferente ao combate; mas, logo que os árabes, acometidos já pelas costas, principiaram a recuar, e que Pelágio pôde combater na planície,

alexandre ­ herculano

135

o cavaleiro, abrindo caminho com o franquisque, desapareceu no meio dos

inimigos. Desde esse momento, debalde o duque de Cantábria o buscou:

nem ele, nem ninguém mais o viu. Era quase ao pôr do Sol. Seguindo a corrente do Deva, a pouco mais de duas milhas das encostas do Auseba, dilatava‑se nessa época denso bosque de carvalhos, no meio do qual se abria vasta clareira, onde sobre dois roche‑ dos aprumados assentava um terceiro. Era, provavelmente, uma ara céltica. Em frente de tosca ponte de pedras brutas lançada sobre o rio, uma senda

estreita e tortuosa atravessava a selva e, passando pela clareira, continua‑

va por meio dos outeiros vizinhos, dirigindo‑se, nas suas mil voltas, para as bandas da Galécia. Quatro cavaleiros, a pé e em fio, caminhavam por aquele apertado carreiro. Pelos trajos e armas, conhecia‑se que eram três cristãos

e um sarraceno. Chegados à clareira, este parou de repente e, voltando‑se com aspecto carregado para um dos três, disse‑lhe:

— Nazareno, ofereceste‑nos a salvação, se te seguíssemos: fiámo‑nos

em ti, porque não precisavas de trair‑nos. Estávamos nas mãos dos soldados

de Pelágio, e foi a um aceno teu que eles cessaram de perseguir‑nos. Porém o silêncio tenaz que tens guardado gera em mim graves suspeitas. Quem és tu? Cumpre que sejas sincero, como nós. Sabe que tens diante de ti Mugueiz,

o amir da cavalaria árabe, Juliano, o conde de Septum, e Opas, o bispo de Híspalis.

— Sabia‑o — respondeu o cavaleiro —, por isso vos trouxe aqui. Queres saber quem sou? Um soldado e um sacerdote de Cristo!

atalhou o amir, levando a mão ao punho da espada e lan‑

çando os olhos em roda. — Para que fim?

— A ti, que não eras nosso irmão pelo berço; que tens combatido leal‑

mente connosco, inimigos da tua fé; a ti, que nos oprimes, porque nos ven‑

ceste com esforço e à luz do dia, foi para te ensinar um caminho que te con‑

A estes, que venderam

a terra da pátria, que cuspiram no altar do seu Deus, sem ousarem franca‑

mente renegá‑lo, que ganharam nas trevas a vitória maldita da sua perfídia,

é para lhes ensinar o caminho do inferno

E quase a um tempo dois pesados golpes de franquisque assinalaram profundamente os elmos de Opas e Juliano. No mesmo momento mais três ferros reluziam. Um contra três! Era um combate calado e temeroso. O cavaleiro da Cruz parecia desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dois godos. Primeiro o velho Opas, depois Juliano caíram. Então, recuando, o guerreiro cristão exclamou:

duza em salvo às tendas dos teus soldados. É por ali!

Aqui!?

Ide, miseráveis, segui‑o!

136

literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— Meu Deus! Meu Deus! Possa o sangue do mártir remir o crime do presbítero! E, largando o franquisque, levou as mãos ao capacete de bronze e arrojou‑o para longe de si. Mugueiz, cego de cólera, vibrara a espada: o crânio do seu adversário rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno. Como tomba o abeto solitário da encosta ao passar do furacão, assim o guerreiro misterioso do Chrysus caía para não mais se erguer! Nessa noite, quando Pelágio voltou à caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo‑a tranqui‑ la, o mancebo adormeceu, também, perto dela, sobre o duro pavimento da gruta. Ao romper da manhã, acordou ao som de cântico suavíssimo. Era sua irmã que cantava um dos hinos sagrados que muitas vezes ele ouvira entoar na Catedral de Tárraco. Dizia‑se que o seu autor fora um presbítero da dio‑ cese de Híspalis, chamado Eurico. Quando Hermengarda acabou de cantar ficou um momento pensan‑ do. Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem erriçar os cabelos, tão tristes, soturnas e dolorosas são elas: tão completamente expri‑ mem irremediável alienação de espírito. A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.

antónio ­ jacinto

137

António JACINTO. «Monangamba», in Poemas. [1950] 1985. Luanda:

Instituto Nacional do Livro e do Disco. 32‑33.

lídia­ jorge

139

Lídia JORGE. A­ Costa ­ dos ­ Murmúrios. [1988] 2008. Lisboa: Dom Quixote.

249‑258.

­

­

fernão ­ lopes

147

Fernão LOPES. «Prólogo», in Crónica ­ de ­ D. ­João ­ I Primeira ­ parte. (Edição

de Teresa Amado). [1443] 2017. Lisboa: Imprensa Nacional — Casa da

Moeda. 1‑3.

Grande licença deu a afeiçom a muitos que teverom carrego de ordenar es‑ torias, mormente dos senhores em cuja mercê e terra viviam e hu forom nados seus antigos avós, sendo‑lhe muito favoravees no recontamento de

seus feitos. E tal favoreza como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom

é

salvo conformidade dalg a cousa ao entendimento do homem. Assi que

salvo conformidade dalg a cousa ao entendimento do homem. Assi que

a

terra em que os homens per longo costume e tempo forom criados, gera

h

a tal conformidade antre o seu entendimento e ela, que havendo de julgar

alg a sua cousa, assi em louvor como per contrairo, nunca per eles é derei‑

alg a sua cousa, assi em louvor como per contrairo, nunca per eles é derei‑ tamente recontada. Porque louvando‑a dizem sempre mais daquelo que é,

e se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como

acontecerom. Outra cousa gera ainda esta conformidade e natural inclinaçom segun‑ do sentença dalg s, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fame, rece‑ bendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritus gerados de taes viandas tem h a tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Alg s outros teverom que esto decia na semente, no tempo da geraçom. A qual despõe per tal guisa aquelo que dela é gerado, que lhe fica esta conformidade tam‑

bém acerca da terra, como de seus dívidos. E assi parece que o sentio Tulio quando veo a dizer: «Nós nom somos nados a nós mesmos, porque h a parte

de nós tem a terra e outra os parentes.» E porém o joizo do homem acerca de

tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre sopega. Esta mundanal afeiçom fez a alg s estoriadores que os feitos de Castela com os de Portugal escreverom, posto que homens de boa autoridade fos‑

sem, desviar da dereita estrada e correr per semideiros escusos por as min‑ guas das terras de que eram, em certos passos claramente nom serem vistas.

E espicialmente no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memoria

dom Joam, cujo regimento e reinado se segue, houve com o nobre e podero‑

so Rei dom Joam de Castela, poendo parte de seus bons feitos fora do louvor

que mereciam, e adendo em alg s outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo‑se a pubricar esto, em vida de taes que lhe forom companheiros,

em alg s outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo‑se a pubricar esto, em vida de
em alg s outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo‑se a pubricar esto, em vida de
em alg s outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo‑se a pubricar esto, em vida de
em alg s outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo‑se a pubricar esto, em vida de
em alg s outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo‑se a pubricar esto, em vida de
em alg s outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo‑se a pubricar esto, em vida de
em alg s outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo‑se a pubricar esto, em vida de

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bem sabedores de todo o contrairo. Nós certamente levando outro modo, posta adeparte toda afeiçom que por azo das ditas razões haver podiamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade sem outra mestura leixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor e nuamente mostrar ao pobo quaesquer contrairas cousas da guisa que aveerom. E se o senhor Deus a nós outorgasse o que a alg s escrevendo nom negou, scilicet em suas obras clara certidom da verdade, sem dúvida nom somente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom quiriamos dizer. Como assi seja que outra cousa nom é errar, salvo cuidar que é verdade aquelo que é falso, e nós engando per ignorancia de velhas escripturas e des‑ vairados autores, bem podiamos ditando errar. Porque escrevendo homem do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve. Mas mentira em este volume, é muito afastada da nossa vonta‑ de. Ó com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguagens e terras! E isso mesmo púbricas escrituras de mui‑ tos cartários e outros logares, nas quaes depois de longas vegilias e grandes trabalhos mais certidom haver nom podemos, da conteúda em esta obra. E sendo achado em alg s livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas. Se outros per ventuira em esta cronica buscam fremosura e novidade de palavras e nom a certidom das estorias, desprazer‑lhe‑á de nosso razoado, muito ligeiro a eles de ouvir, e nom sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós nom curando de seu juizo, leixados os compostos e afeitados razoamen‑ tos que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que certeficamos cousa sal‑ vo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé. Doutra guisa ante nos calariamos que escrever cousas falsas. Que logar nos ficaria pera a fremosura e afeitamento das palavras, pois todo nosso cuidado em isto despeso nom abasta pera ordenar a nua ver‑ dade? Porém apegando‑nos a ela firme, os claros feitos dignos de grande renembrança do mui famoso Rei dom Joam sendo Mestre, de que guisa ma‑ tou o conde Joam Fernandez, e como o pobo de Lixboa o tomou primeiro por seu regedor e defensor e depois outros alg s do regno e de hi em deante como regnou e em que tempo, breve e sãmente contados, poemos em praça na seguinte ordem.

s do regno e de hi em deante como regnou e em que tempo, breve e
s do regno e de hi em deante como regnou e em que tempo, breve e
s do regno e de hi em deante como regnou e em que tempo, breve e

fernão ­ lopes

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Fernão LOPES. «Capítulo XII», in Crónica ­de ­ D. ­ João­ I Primeira ­ parte. (Edição de Teresa Amado). [1443] 2017. Lisboa: Imprensa Nacional — Casa da Moeda. 23‑26.

Como ­ o ­ bispo ­de ­ Lixboa­ e ­outros ­ forom­ mortos e­ lançados ­ da­ torre ­ da ­ Sé ­afundo

Sendo toda a cidade ocupada em este alvoroço, e vindo com o Mestre per junto com a Sé, forom alg s nembrados que indo per ali com Alvoro Paez, que bradarom aos de cima que repicassem; e que repicando em Sam Marti‑ nho e nas outras egrejas, que na Sé nom quiserom repicar. E souberom que o bispo era em cima, e que mandara sarrar as portas sobre si. E porque era castelão, disserom logo que era da parte da Rainha e do conde, e que el fora sabedor da treiçom e morte que quiserom dar ao Mestre e que por aquelo nom repicarom, assacando contra ele estas e outras muitas sospeitas, que nom minguava quem as afirmar. E ficou logo ali gram parte do pobo, aceso com brava sanha, por haver à pressa entrada a Sé, e filharem logo do bispo vingança. O bispo era natural de Samora e havia nome dom Martinho. E sendo bispo do Algarve, houvera o bispado de Lixboa per Gonçalo Vasquez, lecen‑ ceado em Degredos, que lho ganhou do papa Clemente por haver o priorado de Guimarães. Este bispo era grande leterado e bom eclesiastico, e regia mui bem sua egreja, morando em cima da claustra dela por continuadamente vir às horas e devinaes oficios. E ali tinha em vontade de mandar fazer casas pera morarem todolos cónigos por haverem azo de melhor servir. E sendo el comendo aquel dia, e o priol de Guimarães com ele, que ha‑ via h ano e mais que o nom vira senom entom, ouvirom gram volta no paço da Rainha que era hi acerca, e carpinhas de molheres com grandes vozes de gentes pelas ruas darredor, bradando todos que matavom o Mestre. O bispo ouvindo tamanha volta e que cada vez era maior, bem cuidou que nom era feito leve. E por segurança de qualquer cousa que avir podesse, leixou a mesa a que estava e deceu‑se per h a escada afundo à claustra, el e o priol de Guimarães e h tabaliam de Silves que esse dia chegara por recadar com ele. Com estes dous convidados e alg s seus se foi o bispo à mais alta torre da Sé onde estam os sinos, mandando primeiro fechar à de dentro to‑ dalas portas da egreja. E quando Alvoro Paez per ali passou à ida, bradarom aos de cima como dissemos que repicassem.

dalas portas da egreja. E quando Alvoro Paez per ali passou à ida, bradarom aos de
dalas portas da egreja. E quando Alvoro Paez per ali passou à ida, bradarom aos de
dalas portas da egreja. E quando Alvoro Paez per ali passou à ida, bradarom aos de
dalas portas da egreja. E quando Alvoro Paez per ali passou à ida, bradarom aos de
dalas portas da egreja. E quando Alvoro Paez per ali passou à ida, bradarom aos de

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O homem bom nom sabia que volta era aquela, desi porque o dar da campam

em tal egreja era azo de grande alvoroço da cidade, dovidou muito de o fazer. Eles quando virom que nom repicarom na Sé e que o bispo daquela guisa estava na torre, as portas da egreja fortemente fechadas e as nom podiam tam asinha que‑ brar, houverom escadas e entrarom per h a fresta e forom mui à pressa abertas. Entrarom estonce quantos quiserom, porém muito poucos, em respei‑ to dos que estavom fora. E a comum voz de todos era que fossem acima ver quem estava na torre e porque nom repicara como nas outras egrejas, e se

fosse o bispo que o deitassem afundo. Silvestre Estevez, homem honrado, procurador da cidade, e o alcaide pequeno dela, e outros sobirom per h

a

estreita escada que anda arredor, per que nom ia mais que h ante outro

nem podia nenguém entrar à torre em quanto a de cima defender quises‑ sem. O bispo vendo como era castelão, e de naçom a eles contraira, receava muito em tal uniom, o que todo sesudo deve de recear, e nom lhe dava lo‑

gar que entrassem. Porém vendo‑se sem culpa, desi tal pessoa e eclesiastica, segurando‑o eles porém primeiro e os que com el estavom, houveram en‑ trada acima. E preguntando‑lhe por que nom mandara dar à campam, pois aquelas gentes bradavom que repicassem, el se escusou per suas mansas e boas razões, de geito que todos forom contentos.

cega sanha que em taes feitos neh a cousa esguarda, começou tanto

de arder nos entendimentos do pobo que à porta principal da egreja estava, que começarom de bradar altas vozes aos de cima, que estavom fazendo, que nom deitavom o bispo afundo, dizendo: «Guardae‑vos, nom vamos nós lá; ca se nós la imos, todos vós havees de vir afundo com ele.» Os de cima, que vontade nom tinham de lhe fazer mal nem nojo, era‑lhe muito grave de

fazer; a h a por ser bispo, de mais seu prelado, desi por a segurança que lhe haviam feita e nom sabiam que fezessem.

A sanha trigava os corações de todos e com menencoria grande começa‑

rom de bradar, olhando todos pera cima e dizendo: «Que tardada é essa que vós lá fazees, que nom deitaes esse tredor afundo? E como? Já vos tornastes

castelãos come ele? E demais se vos peitou que o nom deitassees e soes já to‑ dos dh acordo?» Entom começarom todos de jurar que se o nom deitavom,

e iam acima, que todos veessem afundo com ele. E porquanto todo temor é

justo per que homem pode vir a morte ou acerca dela, houveram disto tam grande receo, que logo o bispo foi morto com feridas e lançado à pressa afundo, onde lhe forom dadas outras muitas, como se gançassem perdoança que sua carne já pouco sentia. Ali o desnuarom de toda vestidura, dando‑lhe pedradas com muitos e feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s e os cachopos e foi rou‑

vestidura, dando‑lhe pedradas com muitos e feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s
vestidura, dando‑lhe pedradas com muitos e feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s
vestidura, dando‑lhe pedradas com muitos e feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s

A

vestidura, dando‑lhe pedradas com muitos e feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s
vestidura, dando‑lhe pedradas com muitos e feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s
vestidura, dando‑lhe pedradas com muitos e feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s
vestidura, dando‑lhe pedradas com muitos e feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s

fernão ­ lopes

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bado de quanto havia. Semelhavelmente foi lançado afundo aquel priol de Guimarães seu convidado, porque h escudeiro que lhe mal queria, sobin‑ do acima com os do concelho, vio tempo azado pera o matar, e buscando‑o pela torre, achou‑o escondido e matou‑o. E nom tendo nenguém sentido da morte dele porque estava com o bispo, nem havendo quem o levar dali, deitarom‑no da torre afundo. O coitado do tabaliam que tam pouca culpa havia come os outros, co‑ meçarom de o trager afundo e de o doestar e empuxar dizendo que ele, que com o bispo estava, bem sabia parte daquela treiçom. E tantas lhe derom de punhadas atá que lhe começarom de dar feridas e matarom‑no. E assi

morrerom todos três, e outros fugirom. E jouverom ali aquel dia e a noite o priol e o tabaliam. E em esse dia logo alg as refeces pessoas lançarom ao bispo onde jazia nu, h baraço nas pernas, e chamando muitos cachopos que o arrastassem, ia h rustico bradando deante: «Justiça que manda fazer nosso senhor o Papa Urbano Sexto, neste tredor cismatico castelão, porque nom tinha com

a santa Egreja.» E assi o arrastarom pela cidade, com as vergonhosas partes descubertas e o levarom ao Ressio onde o começarom de comer os cães, que

nom ousava neh soterrar. E sendo já dele muito comesto, soterrarom‑no