Вы находитесь на странице: 1из 4

O Estudo da obra de Gil Vicente na escola de hoje: Por que as obras do português do século XVI continuam relevantes para a sociedade atual?

Fernando da Silva Heleno Letras Português S91 - Origens das Literaturas Portuguesas e Brasileiras

Algumas obras se tornam datadas e, mesmo as que se mantém válidas conforme o passar dos séculos, acabam sendo substituídas por outras mais recentes. Não é o caso das obras do português Gil Vicente, principalmente tratando de seus autos. Para compreender melhor a atualidade e validade do estudo de suas obras no ensino, é necessário entender o poder da literatura e sua atemporalidade, além do poder da comédia ao fazer críticas sociais, uma das principais, se não a principal característica das obras do português. A literatura tem papel fundamental na sociedade, podendo agir de maneiras e níveis diferentes, como entretenimento, crítica social ou uma mistura dos dois, realizada através de manifestação artística. Ela é um retrato da sociedade em que é produzida, ou seja, sua forma, sentido e tema são reflexos da sociedade em que o autor vive ou viveu. Através desse “retrato”, ela pode e tem o papel de conscientizar, fazendo com que o leitor observe e questione, gerando um senso crítico, seja através de uma linguagem simples com uma mensagem mais escancarada, ou com uma escrita mais rebuscada, que gere desconforto no leitor, o tirando da zona de conforto e exprimindo os problemas sociais. Além de servir como agente conscientizador, a Literatura tem uma outra característica importante, a de registro histórico, mesmo que involuntário e indireto. Ambas as características estão visivelmente presentes na obra de Gil Vicente, que abordava questões da sociedade de seu tempo ao mesmo tempo que discute conceitos universais e atemporais, como a moral e ética. Como destacam SARAIVA e LOPES (1966), os mais de 40 textos dramaturgos, entre autos e farsas, escritos por Gil Vicente fazem crítica a todos os níveis da sociedade, desde as classes mais baixas até os nobres e clero, fazendo desta maneira críticas a instituição da Igreja Católica, apesar de respeitar o cristianismo.

Apesar da crítica social estar presente em praticamente todas as obras de Gil Vicente, são, provavelmente, seus autos as suas obras mais famosas, como a trilogia das Barcas: Auto da Barca do Inferno (1527), Auto da Barca do Purgatório (1518) e do auto da barca da Glória (1519), nas quais o autor trabalha com uma estrutura semelhante, a moral e a hipocrisia: depois da morte, os personagens se deparam com um rio e duas barcas, uma leva para o inferno e a outra para o céu. Através dos personagens e suas características o autor faz uma clara alusão às classes de Portugal do século XVI, pois os personagem como Frade, Fidalgo, Onzeneiro e o Sapateiro presentes no Auto da Barca do Inferno tem suas características como a vaidade e avareza expostas e julgadas, sendo enviados a barca do Inferno, enquanto o Parvo, personagem simples e honesto, apesar de extremamente satírico, vai para a barca do céu. Gil Vicente não escrevia apenas peças de temática religiosa, o autor também escreveu farsas, entre elas a mais famosa Farsa de Inês Pereira (1523), que retrata a ambição de uma mulher por ascensão social, concretizada através do casamento, mas que não acaba tão bem como o planejado, pois a Inês acaba casando novamente com alguém menos importante, dando origem ao ditado popular “mais vale um asno que me carregue que um cavalo que me derrube”. O teatro vicentino vai do côrtes ao popular, da nobreza até o camponês, tanto na temática e enredo quanto ao destinatário da crítica, como destacam SARAIVA e LOPES (1966): “ É portanto difícil uma distinção absoluta entre o que há de cortesanesco e o que há de popular na obra de Gil Vicente. O seu caso compara-se ao de Lope de Vega, que simultaneamente consegue exprimir os ideais da monarquia espanhola e os da tradição popular.” Mas como pode a comédia, elemento presente nas obras de Gil Vicente, ter o poder de criticar e conscientizar? Essa resposta está nas próprias obras do autor, que através do humor, exalta e expõe os defeitos dos personagens, que é justamente o que causa o riso, que tem como por definição, dada pelo estruturalista russo Vladimir Propp em seu estudo Comicidade e Riso (1976), uma reação frente a um objeto ou situação ridícula, moral, física ou intelectualmente. Essa exposição dos defeitos que muitas vezes é comparada com outros personagens é a causa do riso, afinal “rimos quando em nossa consciência os princípios positivos do homem

são obscurecidos pela descoberta repentina de defeitos ocultos que se revelam por

trás do invólucro dos dados exteriores” (PROPP, 1976). Ou seja, rimos da contradição, da hipocrisia, ou da exposição de defeitos de uma sociedade, conceitos ou personalidades, e é através desse riso que percebemos os defeitos de certos costumes e os corrigimos, “Castigat ridendo mores”, fazendo do riso um forte agente crítico e conscientizador, tanto para quem é alvo do riso, quanto para quem ri. Essa relação de humor com crítica social está fortemente presente nos dias de hoje, pois as mensagens de crítica e conscientização que mais circulam são justamente os vídeos e esquetes humorísticas. São esses elementos que tornam a obra de Gil Vicente válida e passível de estudo no ensino atual. A mensagem e a crítica feitas pelo autor cabe, e muito, na sociedade atual. Mesmo em uma sociedade cética, desprendida de religiões e com as classes diferentes das da época em que o autor publicou suas obras, o que não é o caso, a crítica a moral se mantém para o ser humano de forma atemporal.

A validade do estudo da obra do português não se dá apenas pelo apelo às

críticas feitas pelo autor. Além das críticas e do registro histórico resgatado conforme estudamos, os gêneros trabalhados por Gil Vicente englobam todos esses

elementos com harmonia, o que o torna mais relevante que outras obras atuais que abordam apenas a crítica, o registro histórico ou a forma.

A metodologia em que um gênero é ensinado nas escolas é o que determina

a sua validade para o ensino. Não basta o professor ensinar um gênero considerado

“atual”, de acordo com a realidade de seus alunos, pois esse mesmo gênero pode ser alterado ou se tornar obsoleto com o tempo. Além disso os alunos muitas vezes

já conhecem os gêneros atuais. Cabe ao professor identificar o que estimula o aluno

a

aprender e levantar reflexões, de como as escolhas desses gêneros, as palavras

e

o sentido criado por elas causam efeito na sociedade, muito além da forma e

estrutura do gênero. Com base nessas considerações, o teatro vicentino pode e deve ser trabalhado nas escolas, mesmo após cinco séculos de seu auge, mas de uma maneira que estimule o aprendizado, como a prática teatral, e levante discussões que vão para além da estrutura. Obras que tiveram e ainda tem, um papel de crítica social, além de elementos históricos, tem um grande peso e valor para a Educação.

REFERÊNCIAS:

PROPP, Vladimir. Comicidade e Riso. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Ática, 1992. SARAIVA e LOPES. História da Literatura Portuguesa. 1966. MARCUSCHI, Luiz Antônio.Produção Textual, Análise de Gêneros e Compreensão. Parábola, 2008.