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Escola Politécnica – Fundações - 2014

Notas de Aula
Introdução ao Estudo das Fundações, 1o período de 2014
Prof. Fernando Artur Brasil Danziger

Capítulo 1 - INTRODUÇÃO

1.1 - Função e requisitos de uma fundação

Fundação é o elemento ou peça de uma estrutura responsável por transmitir as cargas da estrutura
para o terreno1. Portanto, a função de uma fundação é transmitir cargas ao terreno, devendo essa
transmissão ser feita de forma adequada, ou seja, sem gerar problemas para a estrutura, de qualquer
natureza.

A questão de conceituar fundação como um elemento de transferência de carga é fundamental, de


vez que vários alunos trazem a idéia, errada, de que a fundação deve aguentar ou reter a carga e,
não, transmiti-la ao terreno. A forma adequada de transmissão da carga ao terreno, pela fundação,
traduz-se por dois requisitos: (i) segurança com relação à ruptura e (ii) recalques compatíveis com a
estrutura2. O primeiro conceito significa que o solo de fundação não pode entrar em colapso, ou
ruptura. O segundo significa que, mesmo que as cargas a aplicar à fundação apresentem segurança
com relação à ruptura, os recalques para as cargas que irão atuar precisam ser compatíveis com
aqueles tolerados pela estrutura.

O gráfico abaixo (figura 1.1), que representaria uma prova de carga, ilustra os comentários do
parágrafo anterior.

Figura 1.1 - Representação de uma prova de carga numa dada fundação.

Esses dois requisitos devem ser atendidos por todas as fundações, e o assunto será bastante
enfatizado em vários pontos adiante. Cabe ainda lembrar que quando aqui se menciona colapso ou
1
O termo terreno abrange tanto solo quanto rocha.
2
O requisito de segurança com relação à ruptura corresponde à verificação do estado-limite último, enquanto o de
recalques compatíveis com a estrutura corresponde à verificação do estado-limite de serviço (NBR 6122:2010,
intitulada Projeto e Execução de Fundações).
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ruptura da fundação a referência diz respeito ao terreno de fundação e não à estrutura da fundação.
Naturalmente, a fundação deve atender às exigências de projetos de estruturas quanto ao seu
dimensionamento estrutural. Entretanto, vale lembrar que os problemas e acidentes relacionados a
fundações são muito mais relativos ao terreno de fundação do que à estrutura da fundação.

1.2 - Tipos de fundação

As fundações são geralmente divididas em dois grandes grupos: o primeiro relativo às fundações
superficiais e o segundo às fundações profundas.

As fundações superficiais - também chamadas diretas ou rasas - possuem duas características


principais: a primeira, a sua profundidade de assentamento, Df, que é limitada, segundo o critério de
Terzaghi (1943), à largura da fundação, B, ou ao dobro da largura da fundação, segundo o critério
da Norma de Fundações, a NBR 6122:2010. A figura 1.2 abaixo ilustra, para o caso de uma sapata -
um dos tipos de fundação superficial - o que foi mencionado. Cabe ainda salientar que ambos os
critérios devem servir apenas como referência, não devendo ser encarados de forma dogmática. Na
prática, Df é da mesma ordem de grandeza de B.

Figura 1.2 - Critérios de Terzaghi (1943) e da NBR 6122:2010 para a profundidade de assentamento
de fundações superficiais.

Uma segunda característica da fundação superficial diz respeito à forma de transferência da carga
ao terreno, que se dá pela sua base. A figura 1.3 ilustra o processo.

Figura 1.3 - Pressão transmitida pela base de uma sapata ao terreno e reação do terreno sobre a
sapata.

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Quanto às fundações profundas3, são geralmente peças de comprimento muito maior que a largura
ou diâmetro, embora a NBR6122:2010 especifique o critério de Df>2B, sendo Df não menor do que
3 metros.

Quanto ao modo de transferência de carga ao terreno, as fundações profundas o fazem através tanto
da base como da superfície lateral da fundação (figura 1.4). Na figura estão representadas as reações
do solo sobre a fundação profunda, no caso uma estaca.

Figura 1.4 - Reação do terreno sobre uma estaca.

As fundações superficiais são divididas em vários tipos, segundo a NBR6122:2010: as sapatas, os


blocos de fundação, os radiers, as sapatas associadas (ou radiers parciais) e as sapatas corridas. Tais
definições têm-se modificado ao longo de várias edições da norma. As sapatas e os blocos são
fundações para um pilar, enquanto os outros tipos de fundação superficial referem-se a mais de um
pilar ou outros tipos de carregamento, linear ou distribuído. Assim, tem-se as seguintes definições,
de acordo com a NBR 6122:2010.

sapata - elemento de fundação superficial, de concreto armado, dimensionado de modo que as


tensões de tração nele resultantes sejam resistidas pelo emprego de armadura especialmente
dispostas para esse fim. A menor dimensão (largura) da sapata deve ser de 60 cm (item 7.7.1 da
NBR 6122:2010). Quanto à profundidade de assentamento, é tipicamente da ordem de 1 a 3 metros.
A exigência de norma (item 7.7.2) é de que nas divisas com vizinhos, salvo quando a fundação for
assente em rocha, a profundidade mínima deve ser de 1,5 m.

A sapata pode possuir espessura constante ou variável, sendo sua base em planta normalmente
quadrada, retangular ou trapezoidal (figura 1.5)

3
Embora existam vários termos para denominar as fundações superficiais, o mesmo não acontece com as fundações
profundas, com apenas uma designação (NBR 6122:2010). O termo fundações indiretas é às vezes utilizado por alguns
colegas mais velhos, mas não é considerado correto pelo meio geotécnico no Brasil. Em Portugal, o termo fundações
indiretas é utilizado.

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Figura 1.5 - Elevação e planta de sapata típica.

A figura 1.5 mostra também a base de concreto magro (concreto de baixa resistência), de espessura
mínima de 5 cm, utilizada para regularização da superfície do terreno. A armadura inferior da
sapata deve manter um cobrimento mínimo em relação à base de concreto magro. A figura 1.6
mostra uma sapata em execução.

A sapata constitui o tipo mais comum de fundação superficial.

Figura 1.6 – Sapata em execução, observando-se o uso de desempenadeira para acerto de superfície
inclinada, na qual não se emprega forma.

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bloco - elemento de fundação superficial de concreto, dimensionado de modo que as tensões de


tração nele resultantes sejam resistidas pelo concreto, sem necessidade de armadura (NBR
6122:2010).

O bloco pode ter suas faces verticais, inclinadas ou escalonadas e apresentar normalmente em
planta seção quadrada ou retangular (figura 1.7). A menor dimensão (largura) do bloco, tal como da
sapata, deve ser de 60 cm (item 7.7.1 da NBR 6122:2010).

Da mesma forma que as sapatas, os blocos precisam ser assentes em camada de regularização de
concreto magro. Muito utilizados há algumas décadas, hoje em dia os blocos só são utilizados para
cargas muito pequenas.

Figura 1.7 - Elevação de bloco de fundação.

Figura 1.8 – Bloco de fundação do edifício Rochedo, reforçado com estacas raiz (cortesia Promon
engenharia).

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radier - elemento de fundação superficial que abrange parte ou todos os pilares de uma estrutura,
distribuindo os carregamentos (NBR 6122:2010). A versão de 1996 da NBR 6122 mencionava
também emprego de radier para o caso de carregamentos distribuídos (por exemplo tanques, silos,
etc.), o que ocorre muitas vezes. No caso de prédios, o uso corrente do radier é relativo a prédios
muito altos, em que as cargas muito elevadas por pilar conduzem à interferência entre as projeções
das sapatas.

sapata associada - sapata comum a mais de um pilar (NBR 6122:2010). Este tipo de fundação é
comum, no caso de prédios, nas fundações dos pilares do poço dos elevadores.

sapata corrida - sapata sujeita à ação de uma carga distribuída linearmente ou de pilares ao longo de
um mesmo alinhamento (NBR 6122:2010). A versão anterior da NBR 6122 denominava esta última
aplicação como viga de fundação. A versão de 2010 uniu a sapata corrida e a viga de fundação,
mantendo apenas a designação de sapata corrida.

Os tipos de fundação profunda serão vistos quando se abordar este tipo de fundação.

1.3 - Escolha do tipo de fundação - noções preliminares

A decisão final relativa à escolha do tipo de fundação é uma das que exige maior experiência por
parte do engenheiro. Dessa forma, o aluno de graduação - e mesmo o engenheiro de pouca
experiência - não deve se achar incompetente por não se sentir seguro para tomar esta importante
decisão. De fato, apenas com a maturidade advinda da experiência é que se adquire a necessária
segurança na tomada de tal decisão.

Em princípio, para qualquer tipo de estrutura, em qualquer tipo de terreno4, pode-se empregar tanto
fundações superficiais como fundações profundas. Ou seja, existe geralmente viabilidade técnica
tanto para um tipo de fundação como para outro. Em alguns casos extremos a escolha - que
naturalmente precisa contemplar a solução mais econômica dentre as alternativas técnicas possíveis
- é óbvia. É fundamental lembrar que o tipo de fundação é condicionado não apenas pelo terreno
como pela estrutura para a qual se pretende projetar as fundações, ou seja, pelos dois elementos
simultaneamente. Por exemplo, no caso de rocha aflorante ou a pequena profundidade empregam-se
fundações superficiais na quase totalidade dos casos. Da mesma forma, no caso de presença de solo
mole com grande espessura desde a superfície do terreno empregam-se fundações profundas, exceto
no caso de fundações de pequenas estruturas. Este assunto será detalhado em capítulos
subsequentes. Quanto ao aspecto econômico, a questão executiva deve ser encarada com muito
cuidado.

Mas a escolha do tipo de fundação não envolve apenas aspectos técnicos e econômicos. Envolve
uma série de outros fatores, entre eles aspectos psicológicos e da forma como são desenvolvidos os
projetos de fundação. Exemplificando, uma das maneiras - infelizmente bastante comum - de se
definir um determinado tipo de fundação segue o seguinte roteiro: um determinado construtor
deseja construir um prédio, e sabe que serão necessárias sondagens à percussão para o projeto das
fundações. Assim, ele manda realizar as sondagens, escolhendo muitas vezes a empresa pelo menor
preço, o que é lamentável, pois os problemas que advirão de sondagens mal executadas podem

4
As observações do presente item referem-se a fundações de estruturas em terra. Estruturas com lâmina d’água,
sobretudo offshore, estão relacionadas a uma filosofia de projeto de fundações completamente diferente (ver, por
exemplo, Mello e Bogossian, 1996).

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trazer-lhe muitos problemas e prejuízos. De posse dessas sondagens e da planta de locação e carga
dos pilares, ele solicita a algumas empresas de fundações que forneça os custos da fundação para a
sua obra. Assim, ele realiza uma pequena concorrência e toma a decisão final.

Dois problemas existem nesse processo. O primeiro problema diz respeito a que as empresas de
fundação não são propriamente empresas de fundações, mas empresas de estacas, ou eventualmente
estacas e tubulões. Ou seja, mesmo que tais empresas possam executar fundações superficiais
quando especialmente solicitadas para tal, o autor das presentes notas não conhece nenhum caso
onde fundações superficiais tenham sido consideradas uma alternativa por tais empresas. Isso por
razões lógicas: primeiro, porque os principais produtos dessas empresas são estacas, e segundo
porque para executar fundações superficiais o próprio construtor pode fazê-lo, sem a necessidade de
equipamentos especiais de que ele não dispõe - como o bate-estacas, por exemplo - ou com algum
equipamento especial auxiliar que ele pode alugar, como um sistema de rebaixamento do nível
d’água.

O segundo problema no processo mencionado acima diz respeito às propostas das empresas de
fundações, que nem sempre são uniformizadas. Ou seja, às vezes uma proposta estabelece preços
unitários enquanto outra estabelece preços globais (fechado, para a obra como um todo). Além
disso, o que se considera às vezes preço global pressupõe, pela empresa de estacas, um certo
comprimento que, ao ser ultrapassado, será cobrado à parte. Ou seja, há que estudar com detalhe as
diversas propostas para de fato se aquilatar acerca das assertivas de cada uma e de quem é a
responsabilidade das variações decorrentes entre previsão e obra de fato executada.

Na opinião do autor das presentes notas de aula, a melhor maneira de se proceder é estabelecer um
projeto - por engenheiro geotécnico experiente, ou estrutural com sólidos conhecimentos de
Mecânica dos Solos - que numa situação tradicional represente o menor custo. Pode ser necessário
realizar ante-projetos de mais de uma solução, em alguns casos. Uma vez definida a solução de
menor custo (pelo menos aparente), deve-se dar a oportunidade a empresas de fundações de
fornecerem alternativas à solução apresentada. É possível que certas circunstâncias - como por
exemplo a vontade de se ganhar um cliente novo, a ociosidade de equipamento e pessoal, a
disponibilidade de novas técnicas - consigam reduzir o custo da solução que seria a mais
econômica. Naturalmente, o cuidado mencionado no parágrafo anterior precisa ainda ser tomado.

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Capítulo 2 - CAPACIDADE DE CARGA DAS FUNDAÇÕES SUPERFICIAIS

2.1 - Algumas definições

Capacidade de carga de uma fundação ou carga de ruptura (Qrup): é a carga correspondente à ruptura
do terreno de fundação. Considerando o comportamento de uma fundação em uma dada prova de
carga, a carga de ruptura seria aquela para a qual o deslocamento cresce indefinidamente para um
dado valor de carga (figura 2.1). O conceito pode ser aplicado também não apenas em termos de
carga (carga de ruptura), mas igualmente em termos de pressão (pressão de ruptura). Vale salientar
que, embora a ilustração esteja sendo feita para uma sapata, o conceito é igualmente válido para
fundações profundas.

Figura 2.1 - Prova de carga em uma sapata num dado terreno.

Carga (pressão) de segurança (Qseg): é a carga (pressão) de ruptura dividida por um adequado fator
(ou coeficiente) de segurança, FS, não levando em conta os recalques que a estrutura possa vir a
sofrer.
Qseg = Qrup/FS

O fator de segurança depende de vários fatores, tais como:

(i) confiança na estimativa das solicitações


(ii) variação das solicitações em relação ao projeto
(iii) combinação (ocorrência simultânea) de solicitações
(iv) conseqüências do colapso
(v) conhecimento dos parâmetros geotécnicos
(vi) confiança no método de cálculo

A NBR 6122:2010 estabelece como fatores de segurança mínimos, no caso de emprego de fatores
de segurança globais e na ausência de realização de provas de carga realizadas na fase de projeto:

3 para o caso de fundações superficiais


2 para o caso de fundações profundas

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Carga (pressão) admissível (Qadm): é a carga de segurança que se permite aplicar à fundação
levando em conta o tipo e a grandeza dos recalques a ocorrer e a sensibilidade da estrutura para se
submeter a estes recalques.

Segundo um enfoque acadêmico, ter-se-ia a seguinte sequência: para uma dada fundação, seria
verificada a carga de ruptura correspondente. Em seguida, o fator de segurança apropriado seria
empregado, obtendo-se a carga de segurança. Seria então estimado o recalque para esta carga de
segurança. Uma vez tal recalque ser aceitável pela estrutura a ser suportada, esta carga de segurança
seria considerada como carga admissível. Caso contrário, ou seja, caso este recalque não fosse
tolerado pela estrutura, a carga admissível seria menor do que a carga de segurança.

Naturalmente, portanto ter-se-ia Qadm ≤ Qseg < Qrup

Na prática dos projetos de fundação, não é esta a sequência, uma vez que a carga dada pela estrutura
é um valor fixo, e o que se deve alterar são as dimensões da fundação de modo a que esta venha a
ser capaz de possuir segurança com relação à ruptura e recalques compatíveis com a estrutura.

Carga (pressão) de trabalho (Qtrab): é a carga que efetivamente atua na fundação. A diferença entre a
carga admissível e a carga de trabalho é que a primeira é aquela que se permite aplicar à fundação,
enquanto a segunda é aquela que realmente atua. Esta última é, em muitos tipos de obra - como no
caso de prédios -, raramente conhecida. De fato, sabe-se que as cargas calculadas no caso de prédios
são conservativas, e muitos engenheiros costumam dizer que uma tonelada de carga de prédio é
mais leve que uma tonelada de carga de silo ou de tanque. Tal frase ilustra o fato de que no caso de
silos ou tanques, em que o peso específico do material a estocar, bem como seu volume, são bem
conhecidos, portanto o são as cargas correspondentes. O mesmo não acontece no caso de prédios.
Nesses casos, é importante que se faça um esforço de pesquisa no sentido de se procurar ganhar
experiência e medir tais cargas (ver capítulo seguinte).

Após as reflexões acima, é importante salientar que na prática da engenharia não é incomum utilizar
ambos os termos - carga admissível e carga de trabalho - como a mesma coisa.

2.2 - Tipos de ruptura

2.2.1 Abordagem de Terzaghi (1943)

Segundo Terzaghi (1943), a curva carga versus recalque de uma prova de carga em uma fundação
superficial pode assumir uma forma situada entre as curvas c1 e c2 da figura 2.2.

Figura 2.2 - Tipos de ruptura segundo Terzaghi (1943).

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A curva c1 constitui o que se poderia denominar de ruptura verdadeira, às vezes também chamada
de ruptura franca, em inglês plunging. Nesta curva, a fundação apresenta um bom comportamento,
ou seja, os deslocamentos são pequenos à medida que se acresce o carregamento. Num determinado
valor de carga, a tangente à curva muda abruptamente de inclinação para uma tangente vertical, ou
seja, não se consegue mais fazer com que a fundação ganhe carga, e os recalques crescem
indefinidamente. É a ruptura clássica ou conceitual. Segundo Terzaghi (1943), este tipo de
comportamento é próprio de solos de alta resistência.

Por outro lado, se, como na curva c2 desde o início do carregamento a fundação já vai sofrendo
deslocamentos significativos, é definida a ruptura - nesse caso, portanto, convencional - no ponto
onde a curva se torna uma reta de elevada inclinação. Segundo Terzaghi (1943), este tipo de
comportamento é próprio de solos de baixa resistência.

Naturalmente, ainda segundo Terzaghi (1943), curvas de comportamento intermediário entre c1 e c2


terão valores de carga de ruptura entre os dois modos de ruptura.

Cabe lembrar que o estabelecimento da ruptura (convencional) pelo critério acima é muitas vezes
difícil na prática, uma vez que não é nítida (ou não existe a transição) entre um trecho curvilíneo e
um trecho retilíneo. A figura 2.3, correspondente a resultados de provas de carga em placas, ilustra
este comentário.

Figura 2.3 – Provas de carga em placas de 30, 60 e 80 cm de diâmetro em solo residual de gnaisse.
Localidade: Adrianópolis, RJ (Jardim, 1980).

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Vários outros critérios existem para definir a ruptura convencional, relacionados ao conceito de
grande deslocamento do solo, ou seja, a uma situação tal que os deslocamentos já seriam de ordem
a gerar sérios danos à edificação. Um destes critérios é considerar como carga de ruptura o valor
correspondente a um deslocamento igual a uma fração do diâmetro da placa ensaiada, por exemplo
D/10.

2.2.2 Abordagem de Vesic (1975)

Vesic (1975) amplia o conceito anterior, e menciona a existência de 3 modos de ruptura:

a) Ruptura generalizada - caracterizada pela existência de um padrão de ruptura sob a fundação bem
definido, consistindo de uma superfície de ruptura partindo de um bordo da fundação até o nível do
terreno (figuras 2.4.a e 2.5). A curva carga versus recalque apresenta um bom comportamento, ou
seja, pequenos deslocamentos para valores crescentes de carga, até que a ruptura acontece, de modo
brusco. Portanto, em havendo a ruptura de uma dada fundação, esta acontece sem aviso, de forma
repentina e catastrófica. A menos que a estrutura impeça de algum modo a rotação da fundação, a
ruptura é acompanhada de significativa inclinação (figura 2.6). Por ocasião da ruptura, o solo
adjacente sofre intumescimento.

b) Ruptura localizada - caracterizada pela existência de um padrão de ruptura sob a fundação bem
definido apenas imediatamente abaixo da fundação (figuras 2.4.b e 2.7). Há a tendência de
intumescimento na região adjacente à fundação. Mesmo a grandes valores de deslocamento não
ocorre a rotação da fundação. A ruptura localizada representa uma situação intermediária entre a
ruptura generalizada e a ruptura por puncionamento.

c) Ruptura por puncionamento - caracterizada por um padrão de ruptura que não é fácil de se
visualizar (figuras 2.4.c e 2.8). O solo em torno da fundação permanece relativamente inalterado.
Rotação da fundação também não acontece. Mais do que no caso da ruptura localizada, a fundação
ganha carga mesmo com grandes deslocamentos da fundação (ver gráfico da figura 2.4.c).

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Figura 2.4 - Modos de ruptura segundo Vesic (1975).

Figura 2.5 – Modo de ruptura generalizada em modelo reduzido de sapata em areia compacta
(Vesic, 1975).

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Figura 2.6 – Ruptura generalizada em conjunto de silos (Vesic, 1975).

Figura 2.7 - Modo de ruptura localizada em modelo reduzido de sapata em areia medianamente
compacta (Vesic, 1975).

Figura 2.8 - Modo de ruptura por puncionamento em modelo reduzido de sapata em areia fofa
(Vesic, 1975).

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Vesic (1975) amplia o conceito anterior de Terzaghi (1943) e mostra que não apenas o tipo de solo
condiciona o modo de ruptura, mas este depende da compressibilidade relativa do solo para uma
dada geometria da fundação e condições de carregamento. A figura 2.9, válida para o caso de areias,
ilustra o comentário anterior. A tabela 2.1, obtida de dados de Vesic (1975), contém exemplos de
outros materiais.

Figura 2.9 - Modos de ruptura para fundações em areia, conforme obtido em modelos reduzidos
(Vesic, 1975).

Tabela 2.1 - Modos de ruptura para diferentes tipos de solo e fundação (extraído de Vesic, 1975).
Tipo de solo Tipo de fundação Carregamento1 Modo de ruptura
areias compactas superficial qualquer generalizada
areias compactas profunda qualquer por puncionamento
areias fofas superficial qualquer por puncionamento
argilas moles saturadas superficial rápido generalizada
argilas moles saturadas superficial lento por puncionamento
camada de argila mole ou areia fofa
subjacente à camada suporte de areia superficial qualquer por puncionamento
compacta
1
Válido apenas para cargas estáticas.

Conclui-se da figura 2.9 (ver ainda tabela 2.1) que a ruptura de estacas em areias, mesmo
compactas, se dá segundo o modo por puncionamento, de modo diferente do que imaginaria a
princípio (figura 2.10).

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Figura 2.10 - Modo de ruptura por puncionamento em modelo reduzido de estaca em areia
compacta (Vesic, 1975).

Da mesma forma, a figura 2.11 representa uma situação em que se poderia imaginar que ocorreria
uma ruptura generalizada, em virtude da camada superior de areia compacta. Entretanto, a presença
de uma camada de argila mole logo abaixo da camada de areia compacta condiciona o processo de
ruptura por puncionamento.

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Figura 2.11 – Ruptura por puncionamento de modelo de sapata em areia compacta subjacente a
camada de argila mole.

2.3 - Avaliação da carga de ruptura (capacidade de carga)

As soluções para cálculo da carga de ruptura estão associadas à aplicação da Teoria da Plasticidade.
Na ruptura, as tensões existentes em certas regiões do solo de fundação encontram-se totalmente
mobilizadas, representando portanto uma condição limite da capacidade do solo.

2.3.1 - Teoria de Terzaghi (1943)

a) Para o caso de ruptura generalizada:

a.1) Fundações corridas (comprimento infinito)

qrup = c Nc + q Nq + ½ γ B Nγ (2.1)

sendo

qrup - pressão de ruptura


c - coesão do solo
γ - peso específico aparente do solo
B - largura da fundação
q - tensão vertical efetiva ao nível da base da fundação
Nc, Nq, Nγ - fatores de capacidade de carga, função exclusiva do ângulo de atrito do solo φ, e que
podem ser obtidos a partir da figura 2.12 ou da tabela 2.2.

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Vale salientar que, como o modelo de Terzaghi (1943) estabelece uma fundação assente no nível do
terreno no qual atua uma sobrecarga q, no caso da sapata estar assente num tipo de solo e acima da
base da fundação existir outro tipo de solo, o único parâmetro do solo acima da base a ser
empregado na expressão (2.1) é o peso específico γ, o qual é utilizado para o cálculo de q.

a.2) Fundações quadradas

No caso de fundações quadradas, deve-se utilizar a expressão (2.2) abaixo.

qrup = 1,3 c Nc + q Nq + 0,4 γ B Nγ (2.2)

Figura 2.12 - Fatores de capacidade de carga de Terzaghi (1943).

a.3) Fundações circulares

Neste caso, a expressão (2.3) é a indicada.

qrup = 1,3 c Nc + q Nq + 0,3 γ D Nγ (2.3)

sendo D o diâmetro da fundação.

b) Para o caso de ruptura localizada

Neste caso, Terzaghi (1943) recomenda que sejam empregadas as mesmas expressões acima.
Entretanto, os parâmetros de resistência do solo devem ser minorados. Ou seja, uma vez obtidos os
valores de c e φ deve-se obter os valores a serem empregados no cálculo c* e φ*, sendo

c* = 2/3 c (2.4)

tg φ* = 2/3 tg φ (2.5)

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Para a obtenção dos fatores de capacidade de carga a empregar nos cálculos, existem duas
alternativas possíveis. A primeira consiste em calcular o valor de φ* e entrar nos ábacos para
estimativa de Nc, Nq e Nγ a partir de φ*. De outra forma, pode-se entrar com o próprio valor de φ
diretamente nos ábacos de N’c, N’q e N’γ.

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Tabela 2.2 – Fatores de capacidade de carga de Terzaghi (obtidos em Bowles,1968).

2.3.2 - Teoria de Vesic (1975)

A teoria de Vesic tem muitas semelhanças com a teoria de Terzaghi, mas apresenta a possibilidade
de introdução de uma série de fatores que influenciam a capacidade de carga de uma fundação.
Alguns desses fatores são aqui introduzidos.

a) Para o caso de ruptura generalizada:

a.1) Fundações corridas (comprimento infinito)

qrup = c Nc + q Nq + ½ γ B Nγ (2.6)

A expressão (2.6) de Vesic (1975) é idêntica à expressão (2.1) de Terzaghi (1943). Entretanto, os
fatores de capacidade de carga de um e outro autores são ligeiramente diferentes. Os valores a
serem empregados para a teoria de Vesic (1975) constam da Tabela 2.3.

a.2) Para o caso de outras formas da base da fundação

Nestes casos, Vesic (1975) introduziu fatores de forma, de modo que a expressão (2.7) se aplica a
outras formas da base da fundação.

qrup = c Nc ζc + q Nq ζq + ½ γ B Nγ ζγ (2.7)

sendo

ζc, ζq e ζγ fatores de forma, podendo ser obtidos a partir da Tabela 2.4.

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Tabela 2.3 – Fatores de capacidade de carga de Vesic (1975).

Tabela 2.4 - Fatores de forma segundo Vesic (1975).

Forma da base ζc ζq ζγ
corrida 1,0 1,0 1,0
retangular 1 + (B/L) (Nq/Nc) 1 + (B/L) tg φ 1 - 0,4 B/L
quadrada 1 + (Nq/Nc) 1 + tg φ 0,6

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Até o presente momento as cargas aplicadas às fundações eram centradas, ou seja, não havia
excentricidade da carga em relação ao centro da fundação. Além disso, não havia componente de
carga horizontal atuando na fundação. Quando a carga é inclinada e/ou excêntrica (figura 2.13), a
capacidade de carga é reduzida em relação à carga vertical centrada, e portanto há que considerar os
efeitos correspondentes.

Figura 2.13 - Fundação com carga inclinada e excêntrica atuante.

As figuras 2.14 e 2.15 abaixo, de Meyerhof (1953), ilustram respectivamente os casos de carga de
ruptura com a carga (i) excêntrica e (ii) excêntrica e inclinada.

Figura 2.14 – Modelo reduzido de ruptura de sapata corrida com carga excêntrica em areia
(Meyerhof, 1953).

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Figura 2.15 – Modelo reduzido de ruptura de sapata corrida com carga inclinada e excêntrica em
argila saturada (Meyerhof, 1953).

Efeito da inclinação e excentricidade da carga

Se a carga aplicada à fundação for inclinada e excêntrica em relação ao centro da fundação, tal
como indicado na figura 2.13, a carga de ruptura deve ser obtida através da expressão (2.8)

Qrup = B’ L’ qrup = B’ L’ (c Nc ζc ζci + q Nq ζq ζqi + ½ γ B’ Nγ ζγ ζγi) (2.8)

sendo

B’e L’ respectivamente largura efetiva e comprimento efetivo da fundação,

B’ = B - 2 eB

L’ = L - 2 eL

eB e eL respectivamente as excentricidades em relação aos lados de dimensões B e L.

O conceito de largura efetiva e comprimento efetivo foram introduzidos por Meyerhof (1953).

ζci, ζqi e ζγi fatores de inclinação, devendo ser obtidos de acordo com as expressões abaixo.

ζci = ζqi - (1 - ζqi)/Nc tg φ (2.9)

m
 P 
ζ qi = 1 −  (2.10)
 Q + B ' L ' c cot g φ 

m+1
 P 
ζ γi = 1 −  (2.11)
 Q + B ' L ' c cot g φ 

22
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sendo

P e Q respectivamente cargas atuantes horizontal e vertical.

m = mB ou mL, dependendo da excentricidade ocorrer em relação ao lado menor (B) ou lado maior
(L) respectivamente.

mB = (2 + B/L)/(1 + B/L) (2.12)

mL = (2 + L/B)/(1 + L/B) (2.13)

Caso haja excentricidade em relação aos dois lados, m = mn, sendo

mn = mL cos2 θn + mB sen2 θn (2.14)

θn o ângulo que o lado maior faz com a projeção horizontal da carga.

Quando as cargas são inclinadas, há naturalmente componente horizontal de carga. Portanto, há que
se verificar também se, mesmo que o solo sob a fundação apresente suficiente segurança em relação
à ruptura (ao carregamento vertical), pode haver deslizamento da fundação. Assim, a verificação a
fazer consiste em estimar a carga que provoca o deslizamento da fundação Pmáx.

Pmáx. = Q tg φ + B’ L’ ca (2.15)

sendo ca a aderência entre o solo e a fundação. No caso de solos moles a adesão pode ser tomada
como a resistência não drenada su. Recomenda-se, para este caso, um fator de segurança mínimo de
1,5, ou seja, Pmáx ≥ 1,5 P.Vale salientar que, como a carga Q corresponde à carga vertical atuante, e
quanto maior o valor de Q maior o valor de Pmáx., é conveniente utilizar-se na expressão (2.15) o
menor valor possível de Q, pois caso contrário o dimensionamento será contra a segurança.

Parênteses em relação à Teoria de Vesic: Uma terceira verificação que precisa ser feita no caso de
cargas excêntricas diz respeito à posição da resultante das cargas em relação à base da fundação.
Nesse caso, entretanto, e diferentemente das verificações anteriores, não se determina a
condição de ruptura, mas estas verificações correspondem à condição de trabalho da fundação. A
figura 2.16 ilustra o caso de uma carga vertical, com excentricidade em relação a apenas um dos
lados da fundação, e. À medida que o valor de e cresce, cresce também o valor da tensão máxima de
bordo, e a forma trapezoidal do diagrama de tensões na base vai se acentuando. Quando a
excentricidade atinge 1/6 da largura da base, o diagrama passa a ser triangular. A partir deste
momento, se a excentricidade cresce, parte da base deixa de ser comprimida.

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Figura 2.16 - Fundação com carga vertical e excêntrica.

Para o dimensionamento das fundações de modo a levar em conta a posição da resultante, os


seguintes critérios devem ser utilizados:

i) Para as cargas permanentes: toda a base deve estar comprimida. Matematicamente, isto é
representado pela expressão

eB/B + eL/L ≤ 1/6 (2.16)

sendo eB e eL as excentricidades em relação aos lados de dimensões B e L, respectivamente.

No diagrama da página seguinte, esta condição corresponde à região em azul.

ii) Para as cargas resultantes mesmo na situação mais desfavorável a base deve ter o seu centro de
gravidade na região comprimida. Isto se traduz matematicamente pela expressão

(eB/B)2 + (eL/L)2 ≤ 1/9 (2.17)

No diagrama da página seguinte, esta condição corresponde à região em amarelo.

Para o cálculo da tensão máxima atuante no bordo da fundação, o gráfico da página seguinte pode
ser utilizado, e os valores para entrada são as excentricidades relativas eB/B e eL/L. O valor obtido
através do gráfico corresponde ao fator de majoração k da pressão média σméd = Q/(B L) de forma a
se obter a tensão máxima, ou seja,

σmáx = k Q/(B L) (2.18)

Esta pressão é usada para o cálculo estrutural da sapata.

Fim do parênteses em relação à Teoria de Vesic

b) Para o caso de rupturas localizada e por puncionamento:

Diferentemente de Terzaghi (1943), Vesic (1975) não emprega expressões distintas para o cálculo
da capacidade de carga de fundações que possam apresentar diferentes modos de ruptura. A

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proposta de Vesic (1975) consiste em utilizar fatores de compressibilidade, os quais são adicionados
à expressão (2.8). Entretanto, tais fatores dependem do valor do índice de rigidez Ir do solo,
extremamente difícil de se estimar através das sondagens à percussão, única ferramenta disponível
no caso normal de fundações de prédios. Assim, sugere-se que se empregue mesmo com a teoria de
Vesic (1975) o enfoque adotado por Terzaghi (1943) - de se reduzir os parâmetros do solo - quando
se estiver trabalhando com modos de ruptura que não o generalizado.

Efeito da posição do nível d’água

O nível d’água deve ser considerado sempre que estiver a uma distância menor do que a largura da
fundação em relação à profundidade da base da fundação. Seu efeito deve ser considerado de forma
ponderada através dos valores de γ, seja na parcela ½ γ B Nγ, caso o NA se situe entre a base da
fundação e a profundidade igual a Df + B, seja também na parcela qNq, caso o NA esteja ainda mais
acima, entre a base da fundação e o nível do terreno.

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Figura 2.16 – Valores de k da exprssão 2.18.

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Obs.: Recomendações quanto ao dimensionamento estrutural de sapatas, constantes da NBR


6122/96.

Caso de cargas centradas nas sapatas

item 6.3.2.1.b) para efeito de cálculo estrutural, as pressões na base da fundação podem ser
admitidas como uniformemente distribuídas, exceto no caso de fundações apoiadas sobre rocha;

item 6.3.2.1.c) para efeito de cálculo estrutural de fundações apoiadas sobre rocha, o elemento
estrutural deve ser calculado como peça rígida, adotando-se o diagrama de distribuição mostrado na
figura 2.17.

Obs.: σ é o dobro da tensão média

Figura 2.17 - Distribuição de pressões de fundações apoiadas em rocha (NBR 6122/96).

Caso de cargas excêntricas nas sapatas

O texto da norma antiga mencionava:

a) Nas sapatas dos pilares situados nas divisas do terreno, a excentricidade deve ser eliminada
mediante o emprego de artifícios estruturais como por exemplo as vigas de equilíbrio
(dimensionamento adiante na matéria).

b) Quando a sapata for submetida a cargas excêntricas pode-se, na falta de um processo mais
rigoroso, uniformizar a pressão adotando-se o maior dos seguintes valores:

2/3 do valor máximo


a média dos valores extremos

A norma atual não é muito clara a respeito, e portanto recomenda-se a manutenção das prescrições
da norma antiga.

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Capítulo 3 - RECALQUES DAS FUNDAÇÕES SUPERFICIAIS

3.1 - Conceitos gerais

Se o fator de segurança de uma massa de solo é maior do que algo em torno de 3 em relação
à sua plastificação (ruptura), o estado de tensões no interior do solo é provavelmente semelhante ao
estado de tensões computado segundo a asserção de que o solo é elástico. Assim, nessas condições
o estado de tensões no interior do solo pode ser estimado com base na Teoria da Elasticidade
(Terzaghi, 1943).

As teorias que abordam problemas de tensões são baseadas na hipótese de que o solo é
homogêneo e isotrópico ou que o afastamento em relação a essas condições pode ser descrito por
equações simples. Vale lembrar que o termo isotrópico denota propriedades, em um determinado
ponto, idênticas em todas as direções, e o termo homogêneo denota as mesmas propriedades em
todos os pontos de uma mesma massa de solo (Terzaghi, 1943). A grande maioria das teorias que
têm a finalidade de estimar recalques de fundações é baseada na hipótese de que o solo é
homogêneo e isotrópico.

Um conceito estudado em Mecânica dos Solos será brevemente revisto aqui, é o conceito de
bulbo de pressões. Quando é aplicada uma carga na superfície de um dado terreno, são geradas
tensões em seu interior. Se as tensões de igual valor forem unidas por curvas, tais curvas serão
designadas por isóbaras (mesma tensão). A figura 3.1 abaixo (Bowles, 1977) ilustra as isóbaras de
tensões verticais geradas por uma fundação quadrada (largura B) no terreno. Denomina-se de bulbo
de pressões a região limitada pela isóbara de 10% da pressão aplicada no nível do terreno, sendo
esta a região do terreno mais influenciada pelo carregamento aplicado.

Observa-se da figura 3.1 que o bulbo de pressões, no caso da sapata quadrada (ou circular),
atinge uma profundidade da ordem de 2B, sendo B a largura (ou diâmetro) da fundação. Entretanto,
à medida que a relação L/B (sendo L o comprimento da fundação) cresce, o bulbo atinge
profundidades maiores. A tabela 3.1 fornece os valores de α (segundo Barata, 1983), sendo αB a
profundidade atingida pelo bulbo de pressões.

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Figura 3.1 – Isóbaras sob ação do carregamento de uma sobrecarga uniformemente distribuída na
superfície de semi-espaço infinito, homogêneo e isotrópico, representando carregamento de uma
fundação atuando no nível de um dado terreno (Bowles, 1977).

Tabela 3.1 – Valores de α para a estimativa da profundidade atingida pelo bulbo de pressões (na
seção central) de uma fundação de comprimento L e largura B (extraído de Barata, 1984).
Relação L/B Valor aproximado de α
1
1 2,0
1,5 2,5
2 3,0
3 3,5
4 4,0
5 4,25
10 5,25
20 5,50
infinito 6,50
1
obs.: válido também para sapatas circulares

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3.2 - Considerações quanto aos tipos de recalques

Várias são as formas de se classificar os recalques das fundações (em princípio, válidas tanto
para fundações superficiais como para fundações profundas).

Antes de se iniciar a classificação propriamente dita, é bom lembrar que o termo recalque é
relativo a movimento vertical descendente da fundação, embora às vezes seja utilizado, de forma
inadequada, para outras modalidades de deslocamento.

Tem-se que:

a) recalque absoluto: é o recalque de uma fundação, ou ainda de um ponto de uma fundação (no
caso de fundação de grandes dimensões).

b) recalque diferencial: é a diferença entre dois recalques absolutos ( de duas fundações ou de dois
pontos de uma mesma fundação, no caso de fundações de grandes dimensões).

c) recalque distorcional, recalque diferencial específico ou distorção angular: é a relação entre o


recalque diferencial e distância correspondente, dado em geral em função de uma fração cujo
numerador é unitário (exemplo: 1/700).

Obs.: essa é a maneira tradicional, simplificada, de abordar o problema. Na disciplina Tópicos


Especiais de Fundações, que aborda a influência da rigidez da estrutura nos recalques, será
vista uma abordagem mais completa.

No que diz respeito aos danos que podem ser causados às estruturas, vale lembrar que tais
danos não são apenas estruturais, como se pensa às vezes, mas também funcionais e estéticos.

Os danos estruturais estão fundamentalmente relacionados ao recalque distorcional, uma vez


que estão associados à questão da flexão das peças da estrutura (figura 3.2).

Figura 3.2 – Dano estrutural em alvenaria decorrente de recalques distorcionais elevados.

Os recalques absolutos estão relacionados a danos funcionais e estéticos (ruptura de


tubulações, por exemplo), enquanto os recalques diferenciais podem estar associados tanto aos
danos estruturais (através dos recalques distorcionais) como funcionais e estéticos (modificação de

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caimentos, inclinação do prédio, mesmo se movimento for de corpo rígido, etc., ver figuras 3.3 a
3.5).

Figura 3.3 – Problema funcional e estético associado a recalque diferencial em edificação.

Figura 3.4 – Construção antiga muito inclinada (Polônia).

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Figura 3.5 – O mesmo, de outra vista.

Quanto ao tempo de ocorrência, os recalques podem ser rápidos (às vezes chamados de
imediatos) ou lentos.

Os recalques rápidos demoram horas ou dias para ocorrer. De uma maneira geral, quando
uma determinada obra é concluída, recalques desse tipo praticamente deixam de ocorrer ao final da
construção (para o peso próprio, naturalmente, restando ainda os recalques correspondentes à
ocupação do prédio). Já os recalques lentos demoram meses ou anos para ocorrer e ainda existe uma
parcela dos recalques para ocorrer quando a obra é concluída.

Muitas vezes há uma associação dos dois tipos. No caso de materiais argilosos saturados,
por exemplo, uma parcela se dá de forma rápida, não drenada (deformação a volume constante),
enquanto outra se dá de forma drenada, com saída de água dos vazios (processo de adensamento).

Quando há um perfil composto de camadas de areia e argila, por exemplo, há necessidade de


se calcular os recalques rápidos na areia, os quais se somarão aos recalques lentos por adensamento
na argila.

No presente texto tratar-se-á apenas de recalques do tipo rápido, uma vez que geralmente em
solos argilosos saturados moles são empregadas estacas.

Vale ainda lembrar que:

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a) Os recalques rápidos, quando predominantes, são característicos de solos arenosos (saturados ou


não) e solos argilosos não saturados, caso de muitos dos nossos solos residuais.

b) Muito pouco se conhece acerca de recalques devidos a fenômenos viscosos, sobretudo quanto à
possibilidade de previsão deste tipo de recalque, mesmo em solos argilosos moles saturados.
Vale lembrar o trabalho de Vargas (1989) que mostra a existência de recalques desse tipo em
solos arenosos de São Paulo.

Outras classificações existem, por exemplo quanto ao fato de serem elásticos ou


permanentes, etc.

3.3 – Histórico acerca do projeto das fundações

Terzaghi e Peck (1967) mencionam que antes do advento da Mecânica dos Solos as pressões
utilizadas como admissíveis eram obtidas através de observações. As estruturas que apresentavam
problemas forneciam indicações sobre pressões que não podiam ser utilizadas, enquanto aquelas
com bom comportamento sugeriam pressões admissíveis adequadas para aqueles tipos de terreno.
Os códigos de fundação foram assim estabelecidos, sem levar em conta aspectos relacionados às
dimensões da área carregada, características das fundações e da estrutura, etc.

O uso (e a própria existência) dos códigos conduziu, segundo aqueles autores, à crença
errônea de que, uma vez que a pressão aplicada às fundações fosse menor que a pressão admissível
dos códigos, nada aconteceria à estrutura. Terzaghi e Peck (1967) comentam ainda que muitos
engenheiros acreditavam mesmo que, nessas condições, o recalque era nulo, crença que, segundo
eles, “existe até hoje” (1967). Nós poderíamos certamente estender essa observação até a presente
data.

Naturalmente, o uso dos códigos conduziu a muitos sucessos, mas também a vários
insucessos. Estes foram atribuídos à inadequação da classificação dos solos, com relação à
classificação constante dos códigos5.

Para superar este problema, surgiram as primeiras provas de carga em placas, realizadas em
placas de 1ft x 1ft (30cm x 30cm), geralmente, e assentes à mesma profundidade onde se pretendia
assentar as fundações.

Em princípio, as pressões admissíveis obtidas a partir das provas de carga eram provenientes
da relação

1
p adm = p
2 0 ,5"

5
Vale lembrar, neste ponto, que a questão dos recalques pode ser dividida em dois problemas: o
primeiro relativo à previsão dos recalques, e o segundo relativo à verificação da sensibilidade da
estrutura aos recalques. De fato, Skempton e MacDonald (1955) comentam: “Não importa quão
acurada uma análise de recalques possa ser, ela é de limitado valor prático se o projetista não tem
conhecimento do valor do recalque que pode ser tolerado pela estrutura em consideração. Em outras
palavras o conhecimento dos recalques admissíveis é tão importante quanto a habilidade de se
efetuar o cálculo dos recalques”.

33
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sendo

p0,5” = pressão correspondente a um recalque de meia polegada (1,25cm)

Mesmo com a realização das provas de carga, houve vários insucessos. Terzaghi e Peck
(1967) lembram que a prova de carga influencia o terreno até uma profundidade da ordem de 2B,
sendo B a largura da placa, enquanto as fundações influenciarão regiões muito mais profundas (ver
conceitos de bulbos de pressões). Terzaghi e Peck (1967) sugerem o uso das provas de carga
relacionadas à realização do SPT, de forma a verificar a aplicabilidade dos dados das provas de
carga.

Terzaghi e Peck (1967) mencionam ainda que, no caso de areias, o critério de recalques deve
comandar o dimensionamento das fundações, exceção feita ao caso das areias fofas, com nível
d’água próximo à base da fundação, e fundação com largura de até 1,8 m.

Os autores, a partir de uma série de considerações teóricas e observações práticas, concluem


que as fundações devem ser dimensionadas para um recalque absoluto máximo de 1” (2,5 cm), pois
com esse recalque dever-se-á ter, no máximo, recalques diferenciais de no máximo 0,5 a 0,75 de 1”
(1,3 a 1,9 cm), recalques estes compatíveis com a grande maioria das estruturas.

Com base nesta observação, e em correlações entre resultados de sondagens e provas de


carga, Terzaghi e Peck (1967) sugerem um ábaco para determinação da pressão admissível a partir
de dados de SPT.

3.4 - Métodos de previsão de recalques em solos de compressibilidade rápida6

De uma maneira geral, os métodos de previsão de recalques podem ser de dois tipos:
racionais e semi-empíricos (ou empíricos).

Os racionais são aqueles em que um modelo teórico consistente é usado (Teoria da


Elasticidade, por exemplo, nos casos mais comuns) e em que os parâmetros empregados na análise
são provenientes de ensaios que representem de forma adequada o comportamento do solo
(inclusive quanto à simulação da trajetória de tensões). A principal dificuldade é a obtenção de
amostras de boa qualidade para ensaio. Uma segunda dificuldade é a correta simulação das
trajetórias de tensões.

Os métodos semi-empíricos são aqueles em que um modelo teórico consistente é


empregado, mas os parâmetros são obtidos através de correlações com ensaios in situ. A grande
maioria dos métodos enquadra-se nesta categoria.

Finalmente, os métodos empíricos são os que se utilizam diretamente de correlações entre


recalques de fundações e ensaios in situ.

A seguir, são descritos alguns métodos de previsão de recalques de fundações superficiais.

6
Terminologia adotada pelo Prof. Fernando Emmanuel Barata

34
Escola Politécnica – Fundações - 2014

i) Método de Terzaghi-Peck

Este método visa obter o recalque s de uma fundação superficial de largura B, conhecendo-
se o recalque s1 de uma placa de 1ft x 1ft (30cm x 30cm) assente à mesma profundidade da
fundação. É válido para areias medianamente compactas e compactas, e deve-se utilizar a seguinte
expressão:
2
 2B 
s = s1  
 B + 1

sendo B expresso em pés. Para B expresso em metros, deve-se substituir 1 na expressão acima por
0,3.

ii) Método de Housel

Este método toma como base os resultados de provas de carga em placas circulares de
diferentes diâmetros, 30cm, 60 cm e 80cm, assentes à mesma profundidade em que se pretende
instalar as fundações. A partir dos resultados das provas, determinam-se os valores de pressão
correspondentes ao recalque admissível desejado. (ver figura 3.6 abaixo).

Figura 3.6 – Prova de carga tríplice (método de Housel).

Plotam-se em seguida os valores de p1, p2 e p3 contra a relação perímetro/área de cada placa.


Obtém-se uma reta (ver figura 3.7 a seguir), cuja equação é

P
p ∆ =n + m
A

sendo P e A, respecivamente, o perímetro e a área da placa.

35
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Figura 3.7 – Pressão versus relação perímetro/área (método de Housel).

Os parâmetros n e m dependem do tipo de solo e do recalque admissível escolhido.


Entrando-se com a relação P/A da fundação, obtém-se a pressão correspondente.

O método de Housel foi muito empregado pelo Professor Fernando Emmanuel Barata como
parte do desenvolvimento de seu método de estimativa de recalques de fundações superficiais.

iii) O Método de Barata

Durante o projeto das fundações da Refinaria Duque de Caxias, da Petrobrás, ao final da


década de 50 e início da década de 60, o então engenheiro da Geotécnica Fernando E. Barata
executou várias provas tríplices de Housel, bem como vários ensaios de cone (CPT). Foi possível
então àquele pesquisador estabelecer uma metodologia de previsão de recalques associando Teoria
de Elasticidade, a interpretação da prova tríplice de Housel e o ensaio de cone. Tal metodologia
possibilita a previsão dos recalques mesmo na ausência da realização da prova de carga tríplice de
Housel. A expressão para o cálculo dos recalques, publicada pela primeira vez em Barata (1962), é
semelhante a outras expressões que também se baseiam na Teoria da Elasticidade. O recalque ∆h de
uma fundação (placa) assente à profundidade h (anteriormente designada Df) é dado por

p
∆h = λ c∆ B (1 − µ 2 )
Ez

sendo

λ = coeficiente de Mindlin, λ ≤ 1, que leva em consideração o fato da fundação estar assente a uma
profundidade h e não na superfície do terreno (figuras 3.8 e 3.9)
c∆ = fator de forma da fundação (tabela 3.2)

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Tabela 3.2 – Fatores de forma a serem empregados no método de Barata (1984) (admitiu-se que as
sapatas podem ser consideradas como fundações rígidas)
Forma da fundação Valores de c∆
Circular 0,88
Quadrada 0,82
L/B = 1,5 1,06
L/B = 2,0 1,20
Retangular L/B = 5,0 1,70
L/B = 10,0 2,10
L/B = 100 3,40

p = pressão aplicada à fundação


B = largura (menor dimensão) da fundação
µ = coeficiente de Poisson (tabela 3.3); deve-se notar que, na maioria dos casos, o valor de µ = 0,3 é
aceitável; além disso, um erro de avaliação em µ conduz a um erro praticamente desprezível na
estimativa dos recalques, uma vez que a parcela correspondente no cálculo é 1-µ2

Tabela 3.3 – Sugestão de valores de coeficiente de Poisson (Barata, 1983)


Tipo de solo Valor de µ
argilas saturadas 0,5
argilas não saturadas 0,1 – 0,3
areias argilosas 0,2 – 0,3
siltes 0,3 – 0,35
areias 0,2 – 0,4

Ez = módulo de deformação (ou módulo de placa), o cerne do método; Barata correlacionou o valor
de Ez com a resistência de ponta do ensaio de cone, qc, através da expressão

E z = a qc

e o valor do coeficiente a foi designado por Barata como coeficiente de Buisman, em homenagem
ao pesquisador holandês que utilizou expressão semelhante para a estimativa do módulo
edométrico; os valores do coeficiente de Buisman obtidos e relacionados por Barata (1983) constam
da tabela 3.4. Barata (1983) ressalta que a experiência até aqui existente mostra que o valor de a é
sempre maior que 1,0; as areias e solos arenosos têm os mais baixos valores de a, enquanto as
argilas e solos argilosos apresentam os mais altos.

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Figura 3.8 – Valores de λ para fundações circulares7 (Caquot e Kérisel, 1956, segundo Barata,
1962).

7
Valores correspondentes a coeficiente de Poisson igual a 0,3, podendo ser adotados nos casos da prática de projeto.

38
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Figura 3.9 - Valores de λ para fundações retangulares (Fox, 1948, segundo Barata, 1962).

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Tabela 3.4 - Valores do coeficiente de Buisman (Barata, 1984)


Coeficiente
Tipo de solo Referência
de Buisman
Silte arenoso, pouco argiloso (solo residual de gnaisse,
Barata
ao natural) (local - Refinaria Duque de Caxias, Caxias, 1,15
(1962)
RJ)
Areia siltosa (solo residual de gnaisse, ao natural)
1,20 Barata (1962)
(local - Refinaria Duque de Caxias, Caxias, RJ)
Silte argiloso (solo residual de gnaisse, ao natural) Barata
2,40
(local - Refinaria Duque de Caxias, Caxias, RJ) (1962)
Argila pouco arenosa (solo residual de gnaisse, ao Jardim
2,85
natural) (local - Adrianópolis, Nova Iguaçu, RJ) (1980)
de Mello e
Silte pouco argiloso (aterro compactado) (local - não
3,001 Cepollina
determinado)
(1978)
Solo residual argiloso (aterro compactado) (local – Barata
3,40
Refinaria Duque de Caxias, Caxias, RJ) (1962)
Argila pouco arenosa (solo residual de gnaisse, ao Jardim
3,60
natural) (local - Adrianópolis, Nova Iguaçu, RJ) (1980)
Solo residual argiloso (aterro compactado) (local – Barata
4,40
Refinaria Duque de Caxias, Caxias, RJ) (1962)
Argila areno-siltosa (solo residual de gnaisse, ao natural) (local - Jardim
Adrianópolis, Nova Iguaçu, RJ) 5,20
(1980)
Barata,
Argila areno-siltosa (porosa) (solo residual de basalto,
Côrtes e
ao natural) (local - Refinaria do Planalto, Campinas, 5,20-9,20
Santos
SP)
(1970)
não
Areias sedimentares 2,0
publicado
1
valor calculado por Jardim (1980)

Os valores de Ez devem ser calculados ao longo de todo o bulbo de pressões, cuja profundidade pode ser obtida através
da tabela 3.1. Caso não se disponha do ensaio de cone, pode-se empregar uma correlação entre os valores da resistência
de ponta do cone (qc) e o número de golpes (N) do SPT, através da correlação

qc = K N

podendo os valores de K ser obtidos na tabela 3.5.

40
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Tabela 3.5 – Valores de K para emprego na correlação entre o ensaio de cone e a sondagem à
percussão (Danziger, 1982)

Tipo de solo Sugestão para valores de K (em kgf/cm2)


areia 6,0
areia siltosa, areia argilosa, areia silto-
5,3
argilosa ou areia argilo-siltosa
silte, silte arenoso, argila arenosa 4,8
silte areno-argiloso, silte argilo-arenoso,
3,8
argila silto-arenosa, argila areno-siltosa
silte argiloso 3,0
argila, argila siltosa 2,5
Obs.: 1 kgf/cm2 ≈ 100 kN/m2

Assim, uma vez que se disponha apenas de resultados de sondagens à percussão, deve-se
calcular os valores de Ez de metro em metro (pois na sondagem N é fornecido a cada metro) e
definir uma reta cuja tendência de comportamento represente os pontos na região correspondente ao
bulbo. Pontos muito fora da tendência do conjunto podem ser eliminados da análise. Uma vez
definida esta reta, o valor de Ez a ser empregado na expressão para cálculo dos recalques
corresponde ao meio do bulbo. A figura 3.10 ilustra este procedimento.

Figura 3.10 – Representação esquemática da obtenção do valor de Ez a ser empregado na expressão


do cálculo de recalques.

41
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Concluindo o presente item, cabe salientar que o método de Barata – como todos os métodos
semi-empíricos – apresenta um banco de dados associado, o qual é relativo aos solos residuais.
Portanto, o método é particularmente indicado para aplicação em tais solos, que constituem uma
realidade tipicamente brasileira.

iv) O Método de Schmertmann

O método de Schmertmann (1970, 1978) é frequentemente citado em relatórios internacionais de


estado da arte (e.g. Lunne et al, 1989), e por vezes considerado inclusive o melhor método
disponível (De Ruiter, 1982). O método é baseado numa distribuição simplificada de deformações
verticais no centro da área carregada.

Segundo Schmertmann (1970), os engenheiros têm geralmente admitido que a distribuição de


deformações verticais sob o centro de uma sapata assente em areia uniforme é semelhante,
qualitativamente, à distribuição do acréscimo de tensões verticais. Se isso fosse verdade, as maiores
deformações ocorreriam imediatamente abaixo da sapata, a região de maior aumento de tensões.
Entretanto, isso não é verdade.

No caso de emprego da Teoria da Elasticidade para um carregamento circular, uniforme, de


intensidade p e raio r na superfície de um semi-espaço homogêneo e isotrópico, a deformação
vertical εz (Ahlvin e Ulery, 1962, segundo Schmertmann, 1970) tem a expressão

p
εz = (1 + ν ) [ (1 − 2ν ) A + F ]
E

sendo

A e F = fatores adimensionais que dependem apenas da locação geométrica do ponto considerado


E, ν = constantes elásticas do material

Para um dado carregamento, p é constante. Para um dado material com um determinado


valor de módulo de Elasticidade E, a deformação vertical depende do fator de influência da
deformação vertical, Iz, sendo Iz dado por

I z = ( 1 + ν ) [ ( 1 − 2ν ) A + F ]

A figura 3.11 abaixo mostra a distribuição do fator de influência Iz em função da


profundidade normalizada pela semi-largura (fundações retangulares) ou pelo raio (fundações
circulares). São apresentadas na figura 3.11 curvas correspondentes a ν = 0,4 e ν = 0,5. Vale
observar que a máxima deformação vertical não ocorre imediatamente abaixo da fundação
(carregamento), onde o acréscimo de tensão vertical é máximo, 1,0 p, mas a uma profundidade z/2B
ou z/r da ordem de 0,6 a 0,7, onde o acréscimo de tensão vertical segundo Boussinesq é da ordem
de 0,8 p. Cumpre também observar que a área entre as curvas e o eixo das profundidades relativas é
proporcional ao valor do recalque.

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Figura 3.11 – Fator de influência em função da profundidade normalizada (Schmertmann, 1970).

Segundo Schmertmann (1970), estudos em modelos em areias têm todos mostrado que a
profundidade correspondente à máxima deformação vertical é maior do que a fornecida pela Teoria
da Elasticidade. Na figura 3.11 acima estão incluídos resultados provenientes de ensaios em
modelos. Schmertmann (1970) apresenta resultados de aplicação do Método dos Elementos Finitos,
para uma análise não linear, igualmente apresentando a mesma tendência de comportamento.

Baseado nas conclusões acima, Schmertmann (1970) propõe para fins práticos uma
distribuição simplificada do fator de influência Iz em função da profundidade normalizada. Esta
distribuição tem a forma de um triângulo, sendo referida como distribuição 2B-0,6. A distribuição
simplificada está também apresentada na figura 3.11.

A sequência de utilização do método é apresentada abaixo.

1) Divida o perfil de qc (resistência de ponta do ensaio de cone, internacionalmente conhecido como


CPT) versus profundidade em um número conveniente de camadas, cada camada de espessura ∆z
correspondendo a um valor constante de qc. Este procedimento deve ser feito ao longo da
profundidade 0-2B abaixo da fundação.

2) Calcule, para cada camada, o módulo de compressibilidade Es como sendo

E s = 2 qc

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3) Plote a distribuição triangular simplificada 2B-0,6, do fator de influência Iz, ao longo da


profundidade normalizada relativa a 0-2B abaixo da fundação. Localize a profundidade do centro de
cada camada considerada anteriormente e determine o valor de Iz para o centro de cada camada.

4) Calcule o valor de (Iz/Es) ∆z e calcule a soma dos valores para as camadas consideradas.

5) Calcule os fatores de correção C1 e C2 de acordo com as expressões abaixo. O fator C1 é utilizado


para considerar o efeito de profundidade (alívio de tensões devido ao embutimento da fundação) e o
fator C2 o efeito do creep. A expressão relativa a C2 foi adaptada por Schmertmann (1970) de
Nonveiler (1963).

σ ' vb
C1 = 1 − 0,5
∆p

sendo
σ’vb = tensão vertical efetiva ao nível da base da fundação
∆p = p-σ’vb = tensão líquida na fundação

De acordo com a Teoria da Elasticidade, C1 ≥ 0,5.

t
C2 = 1 + 0,2 log  
 t o anos

sendo
t = tempo para avaliação dos recalques
to = tempo de referência, assumido como 0,1 ano

A avaliação dos recalques é feita então através da expressão

∞ 2B 2B
Iz I
ρ = ∫ ε z dz ≈ ∆p ∫ dz ≈ C1 C2 ∆p ∑ z ∆z
0 0 Es 0 Es

Posteriormente, Schmertmann (1978) propôs modificações no método, sobretudo para levar


em conta fundações longas (estado plano de deformações). As modificações sugeridas por
Schmertmann (1978) estão mostradas abaixo.

O módulo de compressibilidade deve ser calculado através da expressão

E s = x qc

sendo
x = 2,5 para fundações quadradas e x = 3,5 para fundações longas

A distribuição do fator de influência em função da profundidade normalizada foi


modificada, tal como mostrado na figura 3.12 a seguir. O valor máximo de Izp no gráfico de Iz
versus profundidade normalizada deve ser obtido, agora, através da expressão

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'
p − σvb
I zp = 0,5 + 0,1 '
σvp

sendo
σ’vp = tensão vertical efetiva a B/2 ou B abaixo da fundação, respectivamente para os casos de
simetria axial (fundações quadradas) e estado plano de deformações (fundações longas)

Finalizando, é importante ressaltar que o método de Schmertmann (1970, 1978) é, tal como o método de Barata
(1962, 1983), um método semi-empírico. Desse modo, seu banco de dados é associado a areias sedimentares e,
portanto, esse é seu universo de aplicação na prática da engenharia.

Figura 3.12 – Fator de influência em função da profundidade normalizada (Schmertmann, 1978).

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