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Sobre o poder e o uso que ele faz de nossos desejos

Nos últimos dias tenho recebido centenas de panfletos virtuais (via correio eletrônico) de manifestações pró e contra os dois
candidatos à Presidência da República. Nas linhas abaixo, manifesto a minha experiência e juízo sobre esse fato, banal e
corriqueiro para alguns, mas indicador de como o poder se entranha em nosso modo de pensar e desejar.
As reflexões aqui apresentadas se fundam na minha experiência de vida, de trabalho (como professor de Psicologia da
Educação) e na educação para a fé e para a vida que recebo pertencendo ao Movimento Católico Comunhão e Libertação.
Começo contextualizando o fato: muitos de nós temos sido alvo do envio de mensagens pró e contra os dois candidatos e,
consciente ou inconscientemente, temos ajudado a manter o comportamento alarmista e/ou reducionista dessas mensagens.
Sou professor universitário em uma Universidade Federal do interior de Minas Gerais e, por ossos do oficio, meu trabalho me
exige que esteja diante do computador grande parte de meu expediente. Talvez então por essa minha característica eu tenha
recebido tantos manifestos, reportagens, vídeos e apresentações de caráter político. Gostaria, entretanto, de ousar retirar de
todas elas alguns princípios que, ao meu ver, todas comungam. Mas, primeiramente, terei de classificá-las:
1- várias mensagens possuem o mesmo formato em sua essência: escondem elementos positivos do “candidato inimigo”,
enaltecem e exaltam os valores do candidato “certo”;
2- várias, por sua vez, usam do recurso do “fulano, que é Doutor, Jornalista, Professor, Importante, disse isso sobre o
candidato, logo eu também deveria pensar assim”. Em lógica e retórica é o argumento à autoridade, recurso muito utilizado
em determinadas épocas e contextos da História, que tem como exigência um “abro mão de pensar por meus próprios
argumentos, para aceitar aqueles da Autoridade”.
A esse grupo de mensagens, classifico como “ênfase na omissão”. Mas há outras:
3- algumas mensagens, infelizmente, fazem pior. Deturpam e/ou fundem elementos, linguísticos ou visuais, que não são
necessariamente afins. Fazendo isso, tais mensagens enganam e prejudicam o acesso à verdade;
Esse tipo classifico como “ênfase na deturpação”.
Há, por fim, um último tipo:
4- mensagens que vem com a “assinatura digital”, ou lista, de diversos nomes, dos mais aos menos conhecidos, informando os
motivos e a adesão a determinado candidato.
Esse último, denomino “ênfase no coletivo”.
Eis, então, os princípios gerais:
1º- todas essas manifestações são feitas com o intuito, menos ou mais consciente, de subsidiar uma escolha, fundando uma
opinião;
2º- quando uma informação nos é enviada sem que a ela tenhamos solicitado, é de se supor que aquele que a enviou acredite
que não tenhamos ainda opinião formada e que nos faz um favor, evitando o desgaste físico e psicológico de meditarmos
sobre nossas próprias escolhas. A intenção pode até ser boa, mas o recado é claro: você não sabe pensar, deixe que eu – ou o
autor do texto - penso por você;
3º- todas essas mensagens querem, igualmente, produzir em nós um efeito, são portanto o exercício de um poder, limitado às
letras e imagens que ela acedem, efetuado por aqueles que nos enviam;
4º- todas elas, sem exceção alguma, mobilizam em nós a parte que nos é mais cara, nosso coração ou, como o compreende a
tradição, fonte dos desejos ou das exigências fundamentais: ser amado, ser respeitado (justiça), ter uma identidade, ter
condições de exercer essa identidade (liberdade) em um mundo estável e que não me traia (verdade).
5º- as mensagens com ênfase na deturpação fazem pior: mobilizam em nós sentimentos que “achatam” nosso coração,
provocam angústia, medo, raiva, desprezo, orgulho intelectual por acreditar possuir a verdade.
Faço notar, contudo, que o poder (atual ou em potência) assumido e entranhado em todos nós – não me excluo neste momento
– traz como consequência a necessária submissão do outro e a redução nele, e em mim que envio ou reenvio, dos nossos
desejos e, em última instância, da liberdade – esse dom mais precioso que é o de afirmar aquilo que mais e melhor me
corresponde.
O poder, em suas várias manifestações – e o envio de mensagens politiqueiras é uma delas – exige que eu abra mão dos meus
desejos, do meu coração; desejar o que todos desejam, agir e limitar meu desejo – “eu quero mais, mas como não posso, fico
com o menos pior”, como me disseram alguns caros amigos.
Declaro, deste modo, que vou tomar medidas diante desse acontecimento. Não vou reenviar mensagens de cunho político
recebidas, de quem quer que seja (a questão da certeza na identidade dos remetentes, autores e assinantes não foi aqui
discutida, mas sem dúvida deve ser igualmente pensada), a menos que fujam aos três tipos acima listados, que sejam o fruto
de um juízo pessoal e não generalizável e que se comprometam com a verdade (infelizmente, até o momento eu só recebi 2
entre centenas das outras!).
Quero convidar-te a exercer tua liberdade, a não esvaziar o teu desejo. É preciso manter o coração ardente, única possibilidade
para encontrar a verdadeira liberdade.
Ass.: Dener Luiz da Silva