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MÍSTICA CIDADE DE DEUS

M A R I A DL
ÁQRCDA

TERCEIRO TOMO
MARIA NO MISTÉRIO DA REDENÇÃO
(na vida pública de Jesus)
5o LIVRO
Maria, primeira discípula de Cristo
714. Determinou o Altíssimo que a divina Senhora fosse a
primeira discípula de sua escola, a primogênita da nova lei da
graça, o retrato fiel de sua idéia, a matéria dócil, a cera
branda onde se imprimisse a marca de sua doutrina e
santidade. Filho e Mãe seriam as duas tábuas (Ex 31,18)
verdadeiras da nova lei que vinha ensinar ao mundo.

6o LIVRO
Ultimas recomendações de Jesus
1505. Meus amados filhos, Eu subo para o Pai de cujo seio
desci para salvar e redimir os homens. Por amparo, mãe,
consoladora e advogada, vos deixo em meu lugar a minha
Mãe, a quem deveis ouvir e obedecer em tudo. Assim como
tenho dito que, quem vê a Mim vê a meu Pai (Jo 14,9), e
quem me conhece, conhecerá a Ele também; agora vos
asseguro que, quem conhecer minha Mãe, conhecerá a Mim;
ofender-me-á quem a Ela ofender, e me honrará, quem a Ela
honrar. Todos vós, e vossos sucessores, a tereis por mãe,
superior e chefe. Ela esclarecerá vossas dúvidas e resolverá
vossas dificuldades; n'Ela me encontrareis sempre que me
procurardes, porque n Ela estarei até o fim do mundo.

Pedidos ao:
MOSTEIRO PORTACELI
Caixa Postal, 595
84001-970 - Ponta Grossa - Paraná - Brasil
Impressão e Acabamento:
Gráfica Lagoa Dourada
Av. Monteiro Lobato, 1265 - Jardim Carvalho
mail: graficalagoa@uol.com.br - Fone/Fax: (42) 3223-8259
Ponta Grossa - Paraná
Registro: 284.420 Livro: 514 Folha: 80 da Fundação BIBLIOTECA NACIONAL/RJ
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central - UEPG/Pr.

Ágreda, Soror Maria de


A277 Mística cidade de Deus (Obra clássica do séc.XVII) : 1655-
I660./Soror Maria de Ágreda; tradução de Irmã Edwiges Caleffi.
2.ed. Ponta Grossa, Mosteiro Portaceli, 2000.
4v. ÍL
Conteúdo : v. 1. Maria no Mistério da Criação, v. 2. Maria no
Mistério de Cristo, v.3. Maria no Mistério da Redenção.
v.4 Maria no Mistério da Igreja.
1 - Religião. 2- Maria - mãe de Jesus. 3- Maria - Mistérios.

CDD: 232.91

Direitos reservados ao Mosteiro Portaceli

MÍSTICA CIDADE DE DEUS

^STElTO|pRTAÇ|U
SOROR MARIA DE ÁGREDA

MÍSTICA CIDADE
DE DEUS
(Obra clássica do sóc. XVII)
VIDA DA VIRGEM MÃE
1655- 1660
DE DEUS

TERCEIRO T O M O
4 a Edição

Maria no Mistério da Redenção


(na vida pública de Jesus)

Edição brasileira em 4 Tomos


Tradução de Irmã Edwiges Caleffi
da Ordem da Imaculada Conceição

Mosteiro Portaceli
Ano 2012

III
MÍSTICA
CiuaacL deDios.Tvíil^id
der: íu Ommpotenciajy^Eífj
mo de; gtacta^c&z^ <
HISTOÊ4DIV1NA,
d e J JÍos.Rey t*â»y S a i o r a ^
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â eLRu.n do.aleo'ria áe 1 a"Y§efi a Catol!
l i c a ycc o n '

Primeira página do manuscrito original, até hoje conservado


no Mosteiro Concepcionista de Ágreda - Espanha.

IV
MÍSTICA CIDADE DE DEUS

MILAGRE DE SUA ONIPOTEN-


CIA E ABISMO DA GRAÇA.
HISTÓRIA DIVINA E VIDA DA
VIRGEM MÃE DE DEUS, RAINHA E
SENHORA NOSSA MARIA SANTÍS-
SIMA RESTAURADORA DA CULPA
DE EVA E MEDIANEIRA DA GRAÇA.

Ditada e manifestada nestes últimos


séculos pela mesma Senhora à sua escrava
Soror Maria de Jesus, humilde Abadessa
deste Convento da Imaculada Conceição
da Vila de Ágreda, para nova luz do
mundo, alegria da Igreja Católica e confi-
ança dos mortais.

v
Ilustrações:
desenhos das Irmãs Servas do Espírito Santo,
extraídas da edição alemã, 1954.
Outras gravuras e fotos.

Capa:
Nossa Senhora da Piedade
por Michelângelo.

Agradecimentos da Tradutora:
às minhas co-irmãs que colaboraram na impressão deste 3o Tomo,
com sua fraterna e dedicada laboriosidade.
- aos estimados amigos Paulo Schiniegoski e sua esposa Verônica
que transcreveram os originais em computador e forneceram
o disquete, e a todos quantos, de qualquer modo, colaboraram,
e cujos nomes estão escritos no livro de Deus.

Direitos reservados ao Mosteiro Portaceli


Av. Gal Carlos Cavalcanti, s/n°- Caixa Postal 595
CEP 84001-970 - Ponta Grossa - PR - Brasil
VI
Venerável Madre Maria de Jesus de Agreda

VII
QUINTO LIVRO

CONTÉM: A perfeição com que Maria Santíssima copiava e


imitava as operações da alma de seu Filho amantíssimo.
Como Ele a informava sobre a lei da graça, artigos da fé,
sacramentos e dez mandamentos. A prontidão e perfeição
com que a Virgem tudo praticava. A morte de São José.
A pregação de São João Batista. O jejum e batismo de
nosso Redentor. A vocação dos primeiros discípulos e o batismo
da Virgem Maria Senhora Nossa.

VIII
CAPÍTULO 1
EM NAZARÉ, O SENHOR PREPARA MARIA SANTÍSSIMA
COM SOFRIMENTO ESPIRITUAL. OBJETIVO DESSAS
PROVAÇÕES.
Convivência entre Jesus e Maria. formar uma discípula tão sábia e ex-
celente, que depois fosse mestra consu-
712. Estabelecidos em Nazaré, Je- mada e vivo exemplar da doutrina de seu
sus, Maria c José fizeram da humilde casa Mestre. Assim o foi Maria Santíssima de-
em que moravam um outro céu. pois da Ascensão de seu Filho e Senhor
Para descrever os mistérios que se nosso ao céu, conforme se tratará na ter-
passaram entre o Menino Deus e sua Mãe ceira parte(2^. Era também conveniente e
puríssima, até Jesus completar doze anos, necessário, para a honra de Cristo nosso
e depois ao começar sua pregação, seriam Redentor, que a doutrina evangélica, com
necessários muitos livros e capítulos. e na qual seria fundada a nova lei da graça,
Ainda seria pouco, pela inefável grandeza tão santa sem mácula e sem ruga (Ef 5,
do assunto e pela minha pequenez de mu- 27), ficasse autorizada em sua eficácia e
lher ignorante.Com a luz que me deu esta virtude.
grande Senhora, direi um pouco, e sempre Deveria existir alguma pura cria-
ficará oculto o mais que se poderia dizer. tura, nela formada cabalmente, e em quem
Nesta vida, não é possível nem conve- se encontrassem seus frutos de modo per-
niente conhecer tudo, ficando reservado feito. Em seu gênero, seria o modelo para
para a futura que esperamos. as demais criaturas seguir e imitar. Era ra-
zoável que esta criatura fosse a bem-aven-
turada Maria, por ser a mais próxima do
Maria, perfeita discípula de Cristo. Mestre e Senhor da santidade, sua própria
Mãe.
713. Após alguns dias da volta do
Egito aNazaré, determinou o Senhor exer-
citar sua Mãe Santíssima, do modo que o Maria, primeira discípula de Cristo
fez em sua infância ' a i n d a que agora
Ela estava mais forte no amor e na pleni- 714. Determinou o Altíssimo que
tude da sabedoria. Sendo infinito o poder a divina Senhora fosse a primeira dis-
de Deus, imensa a matéria de seu divino cípula de sua escola, a primogênita da
amor, e a capacidade da Rainha superior nova lei da graça, o retrato fiel de sua idéia,
a todas as criaturas, ordenou o Senhor a matéria dócil, a cera branda onde se im-
elevá-la a mais alto estado de méritos e primisse a marca de sua doutrina e santi-
santidade. dade. Filho e Mãe seriam as duas tábuas
Verdadeiro mestre do espírito, quis (Ex 31, 18) verdadeiras da nova lei que
1 - está descrito no 2 o hvro, capítulo 27. 2-n°106, 183, 209.
1
Quinto Livro - Capítulo 1

e gozo espiritual. Não digo qUe o Scnh


vinha ensinar ao mundo. a deixou, porém, estando com Ela e r?&
Para conseguir este altíssimo fim, por inefável modo e graça, ocultou-;* l
previsto pela divina sabedoria, mani- sua vista interior e suspendeu os efcit !
festou-lhe todos os mistérios da lei suavíssimos que essa visto lhe produzia,
evangélica e sua doutrina. Tudo tratou e ignorando a Senhora o modo e a causada
conferiu com Ela, desde que voltaram do tal mudança, pois Deus nada lhe mani^
Egito até que o Redentor do mundo festou.
começou sua pregação, como adiante Além disso, o Menino Deus, sem
veremos. nada lhe explicar, mostrou-se mais sério
Nestes ocultos sacramentos, em- do que costumava, e ficava menos em sua
pregaram o Verbo humanado e sua Mãe companhia. Retirava-se muitas vezes a
Santíssima, os vinte três anos que pas- sós e lhe dirigia poucas palavras, com
saram em Nazaré, antes da pregação. grande sisudez e majestade.
Como tudo isto referia-se à divina Mãe, O que mais a afligiu foi ver eclip-
cuja vida os Evangelistas não escreveram, sar-se aquele sol que se refletia no cris-
também o passaram em silêncio. São Lu- talino espelho da humanidade santíssima
cas narra apenas o que sucedeu quando e no qual via as operações de sua alma.
Jesus, aos 12 anos, ficou em Jerusalém Agora, já não as podia ver, para ir
sem conhecimento dos pais (Lc 2,42), e copiando aquela viva imagem, como fazia
vou escrever adiante ®\ antes.
Durante todo este tempo, Maria
Santíssima foi a única discípula de seu
Filho Unigênito. Além dos inefáveis dons
de santidade e graça que até aquela hora Receios de Maria
lhe havia comunicado, infundiu-lhe nova 716. Esta novidade, sem ser
luz e a fez participante de sua divina ciên- preparada
cia. N*Ela depositou, gravando em seu co- em que o por qualquer aviso, foi o crisol
ouro puríssimo do santo amor
ração, toda a lei da graça e doutrina que de nossa Rainha renovou-se e cresceu em
até ofimdo mundo seria ensinada em sua quilates.
Igreja. Tudo se realizou por modo tão ele-
vado, que não se pode explicar com ra- venida,Admirada do que, sem ser pre-
lhe acontecia, logo recorreu ao hu-
ciocínios e palavras. Ficou a grande Se- milde conceito que tinha de Si, julgando-
nhora tão douta e sábia, que seu magistério se indigna da visão que o Senhor lhe havia
bastaria para instruir muitos mundos, se concedido. Tudo atribuiu à ingratidão e
os houvera. pouca correspondência que teria dado ao
Altíssimo e Pai das misericórdias, em re-
Deus oculta-se ao interior de Maria. tribuição dos benefícios que recebera de
sua generosidade.
715. Para levantar no coração Não sentia a prudentíssima Rainha
puríssimo de sua Mãe Santíssima este que lhe faltassem os carinhos ordinários
edifício, cuja altura ultrapassava tudo o do Senhor, mas o receio de o ter des-
que nâo era Deus, o mesmo Senhor gostado, ou de haver cometido alguma
lançou-lhe os fundamentos, provando-a falta em seu serviço e prazer, traspassava-
na fortaleza do amor e de todas as virtudes. lhe o candidíssimo coração com uma
Para estefim,ausentou-se inte- flecha de dor.
riormente, retirando-lhe aquela visão de Não sabe pensar de outro modo o
costume que lhe produzia contínuo júbilo verdadeiro e nobre amor. Dedica-se todo
3-n°747.

2
Quinto Livro - Capítulo 1

ao gosto e bem do amado, e quando o sabedoria e bondade, incompreensível no


imagina sem este gosto, ou receia que o ser e perfeição: sei que meu gemido não
descontentou, não sabe descansar fora do se esconde á vossa sabedoria (SI 37,10) c
agrado e satisfação do amado. conheceis, bem meu, a ferida que tran-
Estas amorosas angústias da divina passa meu coração.
Mãe eram de suma complacência para seu Se, como inútil serva faltei a vosso
Filho santíssimo que se enamorava sempre serviço e gosto, porque, vida de minha
mais de sua única e dileta, cujos temos afetos alma, não me afligis e castigais com todas
lhe feriam o coração (Cant 4,9). Não obs- as dores e penas da vida mortal em que
tante com amoroso artifício, quando a doce encontro, em vez de me mostrardes vossa
Mãe o procurava (Cant 3,1) e lhe queria face com a severidade merecida por quem
falar, mostrava-se sempre severo e esquivo. vos ofendeu? Quaisquer outros sofrimen-
Este misterioso retraimento fazia o incêndio tos seriam menos penosos para mim. Meu
do castíssimo coração da Mãe levantar a coração, porém, não pode suportar ver-
chama, como a labareda da fogueira rea- vos contristado, porque só vós, Senhor,
gindo ao frio do orvalho. sois minha vida, meu bem, minha glória
e meu tesouro.
De tudo o que criastes (SI 72,25),
Virtudes de Maria meu coração estima e minha alma guarda
a lembrança, só para enaltecer vossa gran-
717. A cândida pomba faziaherói- deza e vos reconhecer por Senhor, e Cria-
cos atos de todas as virtudes: humilhava- dor de tudo. Que farei então, meu bem e
se mais que o pó; venerava seu Filho San- meu Senhor, se me falta a luz de meus
tíssimo com profunda adoração; bendizia olhos (SI 37,11), o alvo de meus desejos,
ao Pai e lhe dava graças por suas ad- o norte de minha peregrinação, a vida que
miráveis obras e benefícios, confor- me dá existência, e o ser que me alimenta e
mando-se com sua divina disposição e sustenta? Quem abrirá fontes em meus
beneplácito; procurava conhecer sua von- olhos (Jer 9,1), para chorarem o não me haver
tade santa e perfeita para cumpri-la em aproveitado de tantos bens recebidos, e de ter
tudo; abrasava-se no amor, fé e esperança. sido tão ingrata na retribuição que devia?
Em todos estes atos, aquele nardo Senhor meu, minha luz, meu guia,
fragantíssimo exalava suave perfume para meu caminho e meu mestre, que com vos-
o Rei dos reis (Cant 1,11) que descansava sas obras excelentes e perfeitíssimas go-
no coração de Maria santíssima, como em vernais as minhas, frágeis e tíbias: se me
seu tálamo florido e perfumado (Cant escondeis este modelo, como regularei
1,16). Ela persistia em contínuas súplicas, minha vida a vosso gosto? Quem me con-
com gemidos e repetidos suspiros do íntimo duzirá com segurança neste obscuro
do coração. Derramava sua oração na pre- desterro? Que farei? A quem irei se me
sença do Senhor, e expunha sua tribulação recusais vosso amparo?
ante o divino acatamento (SI 141,3). Muitas
vezes, vocalmente, lhe dizia palavras de in-
comparável meiguice e amorosa dor.* Diálogo com os Anjos
719. Com este desabafo ainda não
Desolação de Maria descansava a serva ferida, mas sedenta (SI
41, 2) das fontes puríssimas da graça,
718. Dizia: Criador de todo o uni- dirigia-se também aos seus santos anjos,
verso, Deus eterno e poderoso, infinito em tendo com eles prolongados colóquios.

3
4
Quinto Livro - Capítulo 1

Dizia-lhes: Príncipes soberanos, estas respostas de sentido vago, expres-


íntimos cortesãos do supremo Rei, amigos sando o singular amor e agrado do Altís-
seus e custódios meus, peço-vos pela simo por suas afetuosas tristezas. Não lhe
vossa segura felicidade de estar sempre davam maiores explicações, porque o
contemplando seu divino rosto (Mt mesmo Senhor queria nela ter suas
18,10) na luz inacessível (Job 10, 9): delícias (Prov8,31).
dizei-me a razão de seu desgosto, caso a Sendo verdadeiro homem, seu
tenha. Clamai por mim em sua real pre- Filho santíssimo, chegava a enternecer-
sença, para que por vossos rogos me per- se pela natural compaixão de a ver tão
doe, se por ventura o ofendi. aflita e chorosa. Era o efeito do natural
Lembrai-vos, amigos, que sou pó amor que lhe dedicava como a Mãe, uni-
(Job 10, 9), ainda que formada por suas camente, sem Pai. Apesar disso, escon-
mãos e marcada por sua imagem: que Ele dia a compaixão sob a seriedade do sem-
não se esqueça para sempre desta pobre blante. Às vezes, quando a amantíssima
(SI 73,19), pois humildemente o confessa Senhora o chamava para a refeição, de-
e enaltece. Pedi que dê alento a meu temor, morava-se, ou ia sem a olhar nem lhe
e vida a quem não a tem fora de seu amor. dizer palavras.
Dizei-me de que modo, e com que lhe Nestas ocasiões, a grande Senhora
darei gosto e poderei merecer a alegria de derramava muitas lágrimas e representava
sua face. a seu Filho santíssimo as amorosas angús-
Responderam-lhe os anjos: Rai- tias de seu coração. Procedia, porém, com
nha e Senhora nossa, grande é vosso co- tanta medida e peso, com atos de tanta
ração para não se deixar vencer pela tribu- prudência e sabedoria que, se Deus pu-
lação (SI 4, 2), e ninguém como vós tem desse se admirar (como é certo que não
certeza de quão perto se encontra o Se- pode), ficaria encantado por encontrar
nhor do aflito que o chama (SI 90, 15). numa pura criatura tal plenitude de santi-
Sem dúvida, está atento a vosso afeto e dade e perfeição.
não despreza vossos amorosos gemidos O infante Jesus, enquanto ho-
(SI 37, 10). Sempre o achareis como mem, recebia especial gozo e com-
piedoso Pai, e a vosso Unigênito, como placência, ao ver tão bem aproveitados
afetuoso filho aceitando vossas lágrimas. em sua Virgem Mãe, os efeitos de seu
Será, porventura, atrevimento - divino amor e graça. Por sua vez, os san-
replicava a amorosa Mãe - ir à sua pre- tos anjos o glorificavam com cânticos
sença? Será muita ousadia pedir-lhe, pros- de louvor, por este admirável e inaudito
trada, que me perdoe, se o desgostei com prodígio de virtude.
alguma falta? Que farei? Que remédio
acharei para meus receios? Não desagrada
a vosso Rei - respondiam os santos prín- Exercícios de Maria, pela manhã e à
cipes - o coração humilde (SI 50,19); nele noite
descansa seu olhar de amor (SI 101,18) e
nunca se desgosta com os clamores de 721. Para o infante Jesus repousar
quem tudo faz com amor. e dormir, sua amorosa Mãe pedira ao pa-
triarca São José lhe fizesse umatarima ^4),
sobre a qual havia apenas uma coberta
Deus se compraz no amor de sua Mãe grossa. Desde que o Menino Deus deixou
o berço, quando ainda se encontravam no
720. Os santos anjos entretinham Egito, não quis outro leito, nem mais
e consolavam sua Rainha e Senhora com agasalho. Naquele tarima não se deitava,
4 - Tarima - estrado cm forma de cama
5
Quinto Uvro - Capítulo 1

nem sempre a usava Às vezes, sentava-se com Ela. Examinava a divina Senhora
naquele áspero leito e se recostava num seu interior, esquadrinhava a ordem,
travesseiro simples, de 19, que a Senhora condições e circunstâncias de seus atos;
lhe havia feito. dava muitas voltas com a atenção e
Quando Ela lhe quis preparar mais memória pela celestial oficina de sua
confortável cama, disse-lhe o Filho san- alma e potências. Não podia encontrar
tíssimo que só na cruz se deitaria. Com nenhuma treva porque tudo era luz, san-
seu exemplo, ensinaria ao mundo (1 Ped) tidade, pureza e graça. Não obstante,
que não se entrará no eterno descanso sabia que aos olhos de Deus nem os
através dos deleites de Babilônia, e que na céus, nem as estrelas são puros como
vida mortal, o padecer é alívio. Desde esta disse Job (Job 15, 25: 4, 15, 5 e 18) e
ocasião, a divina Senhora, com nova encontram o que repreender ainda nos
atenção, imitou-o neste modo de descan- espíritos angélicos. Temia, portanto, a
sar. grande Rainha se, por acaso, ignorava al-
Ao chegar a hora de se recolher, gum defeito que a Deus era conhecido.
costumava a Mestra da humildade pros- Com este receio sofria delíquios
trar-se diante de seu Filho santíssimo sen- de amor, o qual sendo forte como a morte
tado em sua tarima. Todas as noites pedia- (Cant 8,6), nesta nobilíssima emulação
lhe perdão, por não o ter servido naquele causa dores de inextinguível pena. Durou
dia com mais cuidado, nem de ser tão muitos dias para nossa Rainha, este exer-
agradecida a seus benefícios como devia. cício, com que seu Filho santíssimo, com
Agradecia-lhe novamente por tudo e, com incomparável gozo, a provou e elevou ao
muitas lágrimas, o confessava por ver- estado de Mestra universal das criaturas.
dadeiro Deus e Redentor do mundo. Não Remunerou a lealdade e fineza de seu
se levantava do solo, até, que seu Filho a amor com abundante e copiosa graça,
mandasse e lhe desse a bênção. além da muita que já possuía. Depois
O mesmo exercício fazia pela ma- aconteceu o que direi no capítulo se-
nhã, para que o divino Mestre lhe orde- guinte.
nasse o que devia fazer naquele dia em seu
serviço. Com muito amor, Jesus a atendia. DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU,
MARIA SANTÍSSIMA.
Sofrimento e receios de Maria
Cristo é Mestre, sempre e para todos
722. Nesta ocasião em que pro-
vava sua Mãe, mudou o estilo e o sem- 723. Minha filha, vejo-te com de¬
blante. Quando a inocente Mãe chegava sejo de ser discípula de meu Filho san-
para adorá-lo, conforme costumava, ainda tíssimo, assim como eu o fui, segundo
que acrescentasse suas lágrimas e íntimos entendeste e escreveste. Para teu con-
gemidos, Jesus não lhe respondia palavra solo, digo-te que o Senhor não exercitou
e depois de ouvi-la, muito sério, mandava- seu ofício de Mestre só no tempo que,
a retirar-se. em forma humana, ensinou sua doutrina
Não há ponderação que chegue a conservada nos Evangelhos (Mt 28,20)
manifestar o que sentia o puríssimo co- e em sua Igreja.'Desempenha o mesmo
ração da amorosa Mãe ao ver seu Filho, ofício com as almas sempre, até o fim
Deus e homem verdadeiro, tão mudado no do mundo, admoestando e inspirando o
semblante, tão grave e parco nas palavras, melhor e mais santo para o praticarem.
tão diferente do que costumava se mostrar Isto faz com todas, absolutamente, ainda

6
Quinto Livro - Capítulo 1

que conforme sua divina vontade e a esconder (Heb 4,13) e quando a criatura
atenção e disposição de cada uma, rece- é ingrata e negligente em obedecer-lhe
bam maior ou menor ensinamento (Mt e ser reconhecida a tão alto favor, retira-
11, 15). Se desta verdade sempre te se com desgosto. Não devem as almas
tivesses aproveitado, sabes por longa pensar que, sempre que o Senhor delas
experiência que o Altíssimo Senhor se esquiva, lhes acontece o mesmo que
não se dedigna ser mestre do pobre, e aconteceu a mim. Comigo foi sem culpa
ensinar ao desprezado e pecador, se de minha parte, e com excessivo amor,
quiserem ouvir sua doutrina interior. enquanto nas demais criaturas com
Como agora desejas saber quais as dis- tanto pecados, grosserias, ingratidões e
posições que Deus requer de tua parte, negligências, costuma ser pena e mere-
para fazer contigo o ofício de Mestre, cido castigo.
no grau que teu coração ambiciona, em
nome do mesmo Senhor quero dize-lo
e te garantir: se te encontrar disposta, Sinais da verdadeira doutrina
comunicará à tua alma, como ver-
dadeiro e sábio artífice e mestre, sua 725. Atende, pois, minha filha, e
sabedoria, luz e doutrina com grande adverte tuas omissões e faltas em fazer
plenitude. digna estimação da doutrina e luz que em
particular, tens recebido do divino Mestre
e de minhas admoestações. Modera teus
Disposições para ser discípulo de infundados temores, e não duvides mais se
Cristo é o Senhor quem te fala e instrui, pois a
própria doutrina dá testemunho de sua ver-
724 Em primeiro lugar, deves ter dade e te assegura quem é seu autor. Ela é
a consciência limpa e tranqüila, com in- santa, pura e perfeita; ensina o melhor e
cessante cuidado para não cair em culpa repreende qualquer defeito, por mínimo
ou imperfeição, por sucesso algum deste que seja. Além de tudo isto, é aprovada por
mundo. Junto com isto, deves abstrair-te teus mestres e pais espirituais.
de todas as coisas terrenas, de modo que Quero também que tenhas o cui-
(como em outras vezes tenho admo- dado imitando-me no que escreveste, de
estado) não fique em ti imagem e memó- vir a mim todas as noites e manhãs, sem
ria de coisa alguma visível, mas apenas o falta, já que sou tua mestra. Humilde-
coração simples, sereno e claro. mente me dirás tuas culpas, reconhe-
Quando tiveres o interior as- cendo-as, contrita, para que Eu seja tua
sim despojado e livre de espécies terre- intercessora junto ao Senhor, e como-Mãe
nas, e das trevas que produzem, então te alcance o seu perdão. Além disso, logo
ouvirás o Senhor. Quando inclinares o que cometes alguma falta ou imperfeição,
ouvido, (SI 44,11) como filha caríssima reconhece-a prontamente, chora-a e pede
que esquece seu povo da vã Babilônia, perdão ao Senhor, com desejo de te emen-
e a casa de seu pai Adão, e de todos os dares. Se fores atenta e fiel nisto que te
vestígios de culpa, afirmo-te que então mando, serás discípula do Altíssimo e
Deus te falará palavras de vida eterna minha, como desejas. A pureza da alma e
(Jo 6, 69). Importa que imediatamente a graça são a mais eminente e adequada
o escutes com reverência e humilde gra- disposição, para receber as influências da
tidão, e ponhas sua palavra em prática, luz divina e ciência infusa que o Redentor
com exatidão e diligência. A este grande do mundo comunica aos que são seus ver-
Senhor e Mestre das almas, nada se pode dadeiros discípulos.
Maria, a primeira discípula de J e s u s

8
CAPÍTULO 2
MARIA RECEBE NOVAMENTE A VISÃO DA ALMA DE SEU
FILHO* ESTE COMEÇA INSTRUI-LA NA LEI DA GRAÇA.
O amor divino bondade e quer ser amado não só com
doçura, mas também com sabedoria e
726. Grandes e longas exposições ciência do que se ama.
têm sido feitas pela inteligência humana,
sobre a natureza, os predicados do amor,
suas causas e efeitos. Para eu explicar o Causas e efeitos do amor
santo e divino amor de Maria Santíssima
Senhora nossa, seria necessário acrescen- 727. Estes amores têm alguma se-
tar muito a tudo o que já foi dito e escrito melhança, mais nos efeitos do que nas
em matéria de amor. causas. Se alguma vez vencem o coração
Depois do amor que a alma santís- e dele se apoderam, saem com di-
sima de Cristo, nosso Senhor possui, ne- ficuldade. Daqui nasce a dor que sente o
nhum houve tão nobre e excelente, quer coração humano quando encontra frieza,
nas criaturas humanas, quer nas angélicas, indiferença e fuga em quem ama, pois, tais
como aquele que teve e tem a divina Se- atitudes obrigam-no a se despojar do
nhora, merecendo o título de Mãe do amor amor. Como este se apodera tanto do co-
formoso (Ecli 24,24). Para todos, o único ração, e não se conforma facilmente em o
objeto do amor santo é Deus, em si mesmo deixar, mesmo que se lhe proponha as
e nas demais coisas por Ele criadas. Em razões, este duro conflito vem a lhe causar
cada pessoa, porém, as causas que geram dores de morte.
este amor e os efeitos que produzem, são No amor cego e mundano, isto é
muito diferentes. insânia e loucura. No amor divino, porém,
Em nossa Rainha alcançou o su- é grande sabedoria. Onde não se podem
premo grau possível em pura criatura. encontrar motivos para deixar de amar, a
Nela foram sem medida a pureza de co- maior prudência é procurá-los para mais
ração, a fé, a esperança, o temor santo e intimamente amar e atrair o Amado.
filial, a ciência, a sabedoria, as graças, a Como nesta busca a vontade emprega toda
memória e apreço delas, e todas as demais sua liberdade, quanto mais livremente
causas que pode ter o amor divino. ama ao sumo Bem, tanto menos livre fica
Esta chama não se ateia ao modo para o deixar de amar. Nesta gloriosa por-
do amor tolo e cego que entra pela estul- fia, sendo a vontade a senhora e rainha da
tice dos sentidos e depois não encontra sua alma, vem a se tornar feliz escrava de seu
razão e sentido. O amor santo e puro, entra amor, sem querer, e sem quase poder fugir
pelo conhecimento nobilissimo, pela a esta livre sujeição.
força de sua bondade infinita e inex- Nesta voluntária e forte doação de
plicável suavidade. Deus é sabedoria e si, quando vê o sumo Bem se esquivar»

9
Quinto Livro Capítulo 2

sofre dores e delíquios de morte, como a Certo dia, entrou a humilde e so-
quem lhe falta a fonte da vida, pois só vive berana Rainha à presença do Menino Deus
de amar e saber-se amada. e lançando-se a seus pés, com íntimos sus-
piros e lágrimas, lhe disse: Dulcíssimo
amor e bem meu, que valor tem a insigni-
O martírio de amor ficância deste pó e cinza, comparada ao
vosso imenso poder? Que representa toda
728. Daqui se entenderá algo do a miséria da criatura para a vossa bondade
muito que padeceu o ardente e puríssimo sem fim? Em tudo, ultrapassais nossa
coração de nossa Rainha com a ausência baixeza, e no imenso pélago de vossa mi-
do Senhor, velando-se o objeto de seu sericórdia afogam-se nossas imperfeições
amor e deixando-a sofrer tantos dias com e defeitos. Se não acertei a vos servir como
o receio de O haver desgostado. reconheço que devo, castigai minhas ne-
Sendo Ela um compêndio quase gligências e perdoai-as, porém, veja eu,
imenso de humildade e amor divino, e não Filho e Senhor meu, a alegria de vossa face
sabendo a causa daquela severidade e que é minha salvação e aquela suspirada
afastamento de seu Amado, veio a sofrer luz que me dava vida. Aqui está a pobre
o martírio mais doce e mais doloroso, apegada ao pó, e não me levantarei de vos-
jamais compreendido por inteligência hu- sos pés até que veja o claro espelho em
mana ou angélica. Só Maria santíssima, a que minha alma se contemplava.
Mãe do santo amor (Ecli 24,24), chegou
ao máximo que pode caber em pura
criatura. Só Ela pôde sofrer este martírio Fim da provação
que ultrapassou a todos os tormentos dos
mártires e penitências dos confessores. 730. Estas e outras razões cheias
Nesta ocasião, Maria esqueceu e de sabedoria e de ardentíssimo amor, ex-
considerou como nada todas as coisas pôs nossa grande Rainha humilhada di-
criadas e visíveis, até encontrar a graça e ante de seu Filho santíssimo.
o amor de seu santíssimo Filho e Deus, Jesus que, mais do que a mesma
que temia ter perdido, embora sempre o Senhora, desejava restituí-la a suas
possuísse. Não se pode explicar com delícias, com muito agrado, lhe disse:
palavras o cuidado, solicitude, desvelo e Minha Mãe, levantai-vos. Estas palavras,
diligências que empregou para comover pronunciadas por quem é a Palavra do
seu querido Filho e o eterno Pai. Eterno Pai, teve tanta eficácia que, instan-
taneamente, transformou e elevou a divina
Mãe em altíssimo êxtase no qual viu a
Oração de Maria divindade abstrativamente.
Nesta visão, o Senhor a recebeu
729. Passaram-se trinta dias nesta com dulcíssimos abraços e palavras de Pai
prova, e pareciam muitos séculos, para e Esposo, transportando-adas lágrimas ao
quem não podia viver um só momento júbilo, do sofrimento ao gozo e da amar-
sem a satisfação de seu amor e do seu gura à suavíssima doçura. Manifestou-lhe
Amado. Deus grandes mistérios de seus altos
A nosso modo de entender, o co- desígnios sobre a nova lei evangélica.
ração do infante Jesus já não podia resistir Para escreve-la toda em seu puríssimo co-
à força do amor por sua querida Mãe, pois ração, destinou-a a santíssima Trindade
Ele também sofria suave violência em como primogênita e primeira discípula do
mantê-la tão aflita e suspensa. Verbo humanado. Ela tomar-se-ia o pa-

io
Quinto Livro - Capítulo 2

drão por onde seriam modelados todos os pousei na cidade santa, e em Jerusalém
santos: Apóstolos, Mártires, Doutores, está o meu poder. Tomei raízes no meio
Confessores, Virgens e os demais justos de um povo glorioso, e nesta porção do
da nova Igreja e lei da graça que o Verbo meu Deus, que é a sua herança, e na as-
estabeleceria pela redenção humana. sembléia dos santos, estabeleci a minha
assistência."
Maria descrita no livro Eclesiástico
731. A este mistério corresponde Maria, reservatório da sabedoria
tudo o que a divina Senhora disse de Si 732. Continua o Eclesiástico ou-
mesma, como a santa Igreja lhe aplica, no tras excelências de Maria santíssima, e
capítulo 24 do Eclesiástico, sob o tipo da volta a dizer (Ecli 24, 22): "Estendi os
sabedoria divina. meus ramos como o terebinto, e os meus
Não me detenho em explicar este ramos são ramos de honra e de graça.
capítulo, pois conhecido o fato que vou Como a vide lancei flores dum agradável
descrevendo, pode-se compreender como perfume e as minhas flores dão frutos de
se aplica à nossa grande Rainha, tudo honra e de honestidade. Eu sou a Mãe do
quanto o Espírito Santo diz ali em nome amor formoso, e do temor, e da ciência, e
d*Ela. Basta referir um pouco do texto, da santa esperança. Em mim há toda a
para que todos entendam parte de tão ad- graça do caminho e da verdade, em mim
mirável mistério (Ecli 24 desde o v. 5). toda a esperança da vida e da virtude.
"Eu saí (diz esta Senhora), da boca do Vinde a mim todos os que me desejais, e
Altíssimo, a primogênita antes de todas as
criaturas. Eu fiz com que nascesse nos
céus uma luz inextinguível, e como uma
névoa cobri toda a terra. Eu habitei nos
lugares mais altos, e o meu trono é sobre
uma coluna de nuvem. Eu sozinha fiz o
giro do céu, e penetrei a profundidade do
abismo, andei sobre as ondas do mar, e
percorri toda a terra; e em todos os povos,
e entre todas as nações tive a primazia. E
sujeitei com o meu poder os corações de
todos os grandes e pequenos; e entre todos
estes povos busquei um lugar de repouso,
e uma habitação na herança do Senhor.
Então o Criador de tudo deu-me os seus
preceitos, e falou-me; aquele que mé criou
descansou no meu tabemáculo, e disse-
me: habita em Jacó, e possui a tua herança
em Israel, e lança raízes entre os meus
escolhidos.
Eu fui criada desde o princípio, e
antes dos séculos, e não deixarei de existir enchei-vos dos meus frutos; porque o meu
em toda a sucessão das idades, e exerci espírito é mais doce do que o mel, e t
diante dele o meu ministério na morada minha herança mais suave que o favo dt
santa. Eu fui assim firmada em Sião, e re- mel. A minha memória durará por toda a
Quinto Livro - Capitulo 2

série dos séculos. Aqueles que me comem


terão mais fome; e os que me bebem terão
mais sede. Aquele que me ouve não será
confundido; e os que se guiam por mim
não pecarão. Aqueles que me tomam co-
nhecida terão a vida eterna."
Até aqui, basta esta parte do
capítulo do Eclesiástico. O coração
piedoso sentirá logo tanta abundância de
mistérios em Maria santíssima, que a
força oculta deles atrairá seu coração para
esta senhora e Mãe da graça Descobrirá
nessas palavras, a inexplicável grandeza
e excelência a que a elevou a doutrina e
magistério de seu Filho santíssimo, por
decreto da beatíssima Trindade.
Esta Princesa foi a verdadeira arca
do Novo Testamento (Apoc 11, 19). Da
enchente de sua sabedoria e graça, como
de um mar imenso, transbordou tudo festado de novo à grande Senhora, todo o
quanto receberam e receberão os demais interior da alma santíssima de Cristo, com
santos, até o fim do mundo. suas operações.
Desde esta ocasião, este favor
cresceu, quer da parte do sujeito que era a
Frutos da provação divina discípula, como da parte do objeto
que lhe comunicou mais clara e elevada
733. Voltando de seu êxtase, a luz. Em seu Filho santíssimo contemplou
divina Mãe adorou novamente seu Filho toda a nova lei evangélica, com seus
santíssimo e lhe pediu a perdoasse se, no mistérios, sacramentos e doutrina, con-
seu serviço, cometera alguma negligên- forme o divino arquiteto a tinha planejado
cia. Jesus fê-la levantar-se donde se en- na mente, e determinado em sua vontade
contrava prostrada, e lhe disse: Minha de redentor e mestre dos homens
Mãe, estou muito satisfeito com vosso co- Além deste magistério especial
ração e quero que o dilateis e prepareis para Ela, acrescentou-lhe outro: através da
novamente para receber meus testemu- palavra, ensinava-lhe o oculto de sua sa-
nhos. Em cumprimento da vontade de bedoria (SI 50,8) e tudo quanto não con-
meu Pai, escreverei em vosso peito a dou- seguiram compreender os anjos e os
trina evangélica que vim ensinar ao homens. Esta sabedoria que Maria purís-
mundo. E vós, Mãe a poreis em prática sima aprendeu sem ficção (Sab 7, 13)
como eu desejo. comunicou sem ciúme, em toda a luz que
Respondeu a Rainha puríssima: espargiu antes da ascensão de Cristo nosso
Filho e Senhor meu, ache eu graça a vos- Senhor e ainda mais depois.
sos olhos; dirigi minhas potências pelos
retos caminhos (SI 26,11) de vosso bene-
plácito. Falai, Senhor meu, que vossa Conhecimento de Maria
serva ouve (1 Rs 3,10), e vos seguirá até
a morte. Nesta conferência entre o Menino 734. Bem vejo que pertenceria a
Deus e sua Mãe santíssima, foi mani- esta história, manifestar aqui os oeultissi-

12
Quinto Livro - Capítulo 2

mos mistérios vividos entre Cristo Senhor fôra natural. O Menino Deus obedecia-lhe
nosso e sua Mãe, nestes anos de sua infân- e passava muitos momentos com S. José
cia e juventude até a pregação, pois todas durante seu trabalho que era contínuo,
estas coisas se realizaram para a instrução para poder sustentar, com o suor de seu
da divina Mãe. Confesso, porém, de novo, rosto, ao Filho do Eterno Pai e à sua Mãe.
como nos números acima (712,713) a in- Quando o Menino Deus foi cres-
capacidade minha e de todas as criaturas cendo, ajudava S. José no que lhe permitia
para tão elevado argumento. Além disso, a idade. Outras vezes, fazia alguns mila-
tal exposição exigiria explicação de todos gres acima das leis naturais, para animar
os mistérios e segredos da Sagrada Escri- o santo esposo e lhe facilitar o trabalho,
tura, de toda a doutrina cristã, das virtudes, pois estes prodígios eram apenas para os
tradições da Santa Igreja, refutação dos er- três.
ros e seitas falsas, e tudo o que sustenta a
Igreja e a conservará até o fim do mundo. DOUTRINA QUE ME DEU A
Dever-se-ia acrescentar ainda, grandes RAINHA DO CÉU.
mistérios da vida e glória dos santos, por-
que tudo foi escrito no coração puríssimo
de nossa grande Rainha.
As obras realizadas pelo Redentor Amor à palavra de Deus
e Mestre, a fim de que a redenção e a dou- 736. Minha filha, chamo-te hoje
trina da Igreja fosse copiosa (SI 119, 7); novamente para minha discípula e com-
quanto escreveram os Evangelistas e panheira, na prática da doutrina celestial
Apóstolos, os Profetas e Antigos Padres; que meu Filho santíssimo ensinou à sua
o que depois fizeram todos os santos; a luz Igreja, através dos santos Evangelhos e
que receberam os doutores; o sofrimento Escrituras. Quero que prepares teu co-
dos mártires e das virgens; a graça que re- ração com nova diligência e atenção, e se-
ceberam. Tudo isso, e muito mais que não jas terra escolhida para receber a semente
se pode explicar, Maria santíssima conhe- viva e santa da palavra do Senhor, produ-
ceu individualmente, com grande pene- zindo fruto cem por ura (Lc 8,8). Mantém
tração e certeza. Quanto era possível à o coração atento a minhas palavras; ao
pura criatura, praticou concretamente, e mesmo tempo, lê assiduamente os Evan-
agradeceu ao Eterno Pai, autor de tudo, e gelhos e medita interiormente os mistérios
a seu Filho unigênito, cabeça da Igreja. A que neles entenderes. Ouve a voz de teu
respeito de toda esta matéria, falarei adi- Esposo e Mestre que a todos convida e
ante o que me for possível. chama, para ouvir suas palavras de vida
eterna (Jo 6,69). Tão grande é a perigosa
ilusão da vida mortal, que são poucas as
Maria e as obrigações do lar almas que desejam ouvir e entender o
caminho da luz (Mt 7,14).
735. Ocupada em atos tão impor- Muitos seguem o deleitável ofere-
tantes, atendendo a seu Filho e mestre, cido pelo príncipe das trevas, e quem
nem por isso faltava ao serviço de sua pes- nestas caminha não sabe onde acabará (Jo
soa e ao de São José. A tudo acudia sem 12, 35). A ti, o Altíssimo chama para o
falta nem imperfeição, servindo-lhes as caminho e as sendas da verdadeira luz; se-
refeições. A seu Filho santíssimo servia gue-as, imitando-me, e realizarás meu de-
de joelhos, com incomparável reverência. sejo. Renuncia a todo visível e terreno;
Cuidava também que o infante Jesus fosse não o conheças nem olhes; não o procures
o consolo de seu pai putativo, como se o nem lhe prestes atenção; foge de ser co-
Quinto Livro-Capítulo 2

nhecida; não tenham as criaturas parte al- Finalidade das graças especiais,
guma contigo; protege teu segredo (Is 24, recebidas pela escritora
16) e teu tesouro (Mt 13,44) da fascinação 736.b. A destra divina te con-
humana e diabólica. Tudo isto con- cedeu estas graças para te preparar e tor-
seguirás se, como discípula do meu Filho nar idônea e capaz de receber o ensino,
santíssimo e minha, praticares com a per- inteligência e luz de minha vida, obras,
feição que deves, a doutrina do Evangelho virtudes, mistérios, e escrevê-los. Dig-
que te ensinamos. nou-se o Senhor altíssimo te conceder
esta liberal misericórdia que não mere-
Noviciados de perfeição ces, por meus rogos e intercessào. As-
sim o fiz em recompensa de teres sub-
736.a. Para te incitares a tão alto metido teu juízo tímido e covarde à von-
desígnio, lembra o favor que te fez a dis- tade do Altíssimo, e à obediência de teus
posição divina, chamando-te para noviça prelados que muitas vezes te ordenaram
e professa da imitação de minha vida, dou- escrever minha História. O prêmio mais
trina e virtudes, no seguimento de meus favorável e útil para tua alma, foram
passos. Deste estado passarás ao mais ele- estes estados ou caminhos místicos,
vado do noviciado e profissão perfeita da altíssimos e misteriosos, ocultos à pru-
religião católica. Ajustar-te-ás à doutrina dência carnal (Mt 11, 25), mas agra-
evangélica do Redentor do mundo, cor- dáveis à aceitação divina. Eles contêm
rendo após seus perfumes, pelas sendas copiosas doutrinas, como as que tens re-
retas de sua vontade. cebido e experimentado e te levam a al-
O primeiro estado de discípula cançar sua finalidade. Escreve-as sepa-
minha será disposição para o ser de meu rado, num tratado, pois assim o quer
Filho santíssimo, e ambos para alcançar o meu Filho santíssimo. Seu título será
último da união com o ser imutável de como prometeste na introdução desta
Deus. Os três são favores de incomparável História: "Leis da Esposa, ápice de seu
valor, que te põem na obrigação de ser casto amor, fruto colhido da árvore da
mais perfeita que os elevados serafins. vida desta Obra."
CAPÍTULO 3
PEREGRINAÇÃO ANUAL J)A SAGRADA FAMÍLIA A
JERUSALÉM EM OBEDIÊNCIA A LEI DE MOISÉS.
Peregrinações anuais a Jerusalém São José ia às vezes sozinho
737. Alguns dias após a chegada 738. Nas duas vezes em que o
de Jesus, Maria e José em Nazaré, chegou santo esposo José subia a Jerusalém so-
a época em que os israelitas deviam se zinho, fazia a peregrinação por si e por sua
apresentar ao Senhor, em Jerusalém, con- Esposa, em nome do Verbo humanado.
forme o preceito da lei de Moisés. Esta Com sua doutrina e favores, ia o Santo
obrigação era três vezes ao ano, segundo cheio de graça, devoção e dons celestiais,
se lê no Êxodo (34,14) e no Deuteronômio oferecer ao eterno Pai a oferta que deixava
(16, 1). O preceito obrigava apenas aos reservada para o tempo oportuno.
homens e não às mulheres, mas tampouco Neste ínterim, como representante
proibia a estas. Deste modo, elas ficavam do Filho e Mãe que ficavam orando por
livres de ir por devoção, ou não ir. ele, fazia no templo de Jerusalém miste-
A divina Senhora e seu Esposo riosas orações, oferecendo o sacrifício de
pensaram como fazer nessas ocasiões. O seu louvor. Apresentando como oferenda
Santo inclinava-se a levar consigo sua a Jesus e Maria, sua oblação era mais
Esposa e o Filho santíssimo para oferecê- aceitável ao eterno Pai, do que todas quan-
lo no templo ao eterno Pai, como sempre tas oferecia o resto do povo israelita.
fazia. A Mãe puríssima era também Quando, porém, pela festa daPáscoa
atraída pela piedade e culto dó Senhor, ia o Verbo humanado e a Virgem Mãe com
mas como em coisas semelhantes não agia São José, a viagem era mais admirável para
sem conselho de seu mestre, o Verbo hu- ele e para os cortesãos do céu. Sempre se
manado, consultou-o sobre o caso. formava aquela procissão soleníssima de
Resolveram que São José fosse nas que já falei em outras ocasiões semelhan-
duas primeiras vezes sozinho, e na terceira tes^: os três caminhantes, Jesus, Maria e
iriam os três juntos. Estas peregrinações José e os dez mil anjos que os acompa-
a Jerusalém eram feitas nas solenidades nhavam em forma visível. Refulgentes de
'dos Tabernáculos (Dt 16,13); na das se- beleza, iam com a profunda reverência que
manas (Dt 16,9) que é pelo Pentecostes; costumavam, servindo a seu Criador e à sua
e na dos Ázimos (Dt 16, 8) que era a Rainha, como de outras viagens tenho escrito.
Páscoa de Parasceve. Nesta última, Esta era de quase trinta léguas,
subiam Jesus, Maria e José juntos. Durava distância entre Nazaré e Jerusalém. Tanto
sete dias, e nela aconteceu o que direi no na ida como na volta, os santos anjos ob-
capítulo seguinte. Nas outras duas festas, servavam a mesma
subia apenas São José sem o Menino e a nhar e obsequiar oordem em acompa-
Verbo humanado,
Mãe. segundo sua vontade e precisão.
1 -n°456, 589,619.
15
Quinto Livro - Capítulo 3

rações pelas quais ia manifestando sua


O Menino Jesus viaja à pé divina graça. Observava que, no ser e no
739, Relativamente às outras agir, ia crescendo como verdadeiro
viagens, estas demoravam mais, porque homem. Tudo meditando em seu coração
desde que voltaram do Egito à Nazaré, o (Lc 2,19), fazia heróicos atos de todas as
menino Jesus quis faze-las a pé. Deste virtudes e se inflamava no divino amor
modo, caminhavam os três mais devagar, Olhava também o Menino como a Filho
porque o infante Jesus, começando a se do eterno Pai, verdadeiro Deus, e sem fal-
cansar por amor de seu eterno Pai e de tar ao amor de mãe natural e verdadeira,
nossa salvação, não queria usar de seu não esquecia da reverência que lhe devia
poder para evitar o cansaço do caminho. como a seu Deus e Criador. Tudo isto
Procedendo como homem passível, per- cabia juntamente naquele cândido co-
mitia às causas naturais produzirem seus ração.
efeitos próprios, como era a fadiga do Enquanto o Menino caminhava, o
caminhar. vento esvoaçava-lhe os cabelos. Estes
No primeiro ano em que fizeram iam-lhe crescendo normalmente e nào
esta viagem, a divina Mãe e seu Esposo perdeu um só fio, até quando os verdugos
procuraram aliviar o Menino Deus car- lhos arrancaram. Ao vê-lo, a afetuosa Mãe
regando-o nos braços. Este repouso, era possuída por afetos e efeitos de suavi-
porém, era breve, e daí em diante foi dade e sabedoria. E, em tudo que fazia,
sempre andando. A carinhosa Mãe não interior e exteriormente, era admiração
lhe impedia este sacrifício, porque co- para os anjos, e agradável a seu Filho e
nhecia seu desejo de sofrer. Levava-o Criador.
pela mão, e outras vezes era o Santo pa-
triarca José quem o fazia. Ao ver o Me-
nino cansado pelo andar e afogueado Benefícios espirituais ao próximo
pelo calor, a amorosa Mãe enternecia-se
de natural compaixão e chorava. Per- 741. Todas as vezes que assim via-
guntava-lhe se estava cansado, e de joe- javam para o templo, Filho e Mãe ope-
lhos, com incomparável reverência, en- ravam grandes prodígios em benefício das
xugava-lhe o divino rosto mais belo que almas: convertiam muitas ao conhe-
os céus e seus astros. O divino Menino cimento do Senhor, tiravam-nas do pe-
lhe respondia, com afabilidade, e lhe cado e as justificavam, introduzindo-as no
manifestava o prazer que sentia por caminho da vida eterna. Tudo era reali-
aqueles sacrifícios pela glória de seu zado invisivelmente, pois não era chegado
eterno Pai e bem dos homens. o tempo do Mestre da verdade (Jo 12,49)
Nestas conversas e cânticos de lou- se manifestar.
vor divino, preenchiam grande parte do Como a divina Mãe conhecia que
tempo, como das outras viagens fica essas obras faziam parte da missão que
ditot2). o eterno Pai encomendara a seu Filho
santíssimo, mas por enquanto seriam
feitas em segredo, também colaborava
Maria contempla Jesus nelas como instrumento do Reparador
do mundo, mas de igual modo, ocul-
740. A grande Rainha e Senhora ia tamente.
contemplando tanto as ações interiores de Para em tudo se orientar com pleni-
seu Filjio santíssimo, como a perfeição da tude de sabedoria, a prudente Mestra sem-
humanidade deificada, sua beleza e ope- pre consultava o Menino Deus sobre tudo
2 - n° 627, 637!

16
Quinto Livro - Capítulo 3

o que deveriam fazer naquelas peregri- do-se de nova luz e sabedoria. Seu purís-
nações, e em que lugarese pousadas iriam. simo coração abrasava-se no divino amor,
Conhecia a celestial Princesa que nessas e o Altíssimo lhe comunicava novos dons
circunstâncias, seu Filho santíssimo dis- e favores, impossíveis de serem expli-
punha os meios oportunos para as ad- cados com minhas inadequadas palavras.
miráveis obras que sua sabedoria tinha Estes dons tinham o fim de preveni-la e
previstas e determinadas. prepará-la para os sofrimentos que havia
de passar.
Muitas vezes, depois de tão ad-
Maria reza com Jesus no Templo miráveis graças, se lhe representavam
como num mapa, todas as afrontas, ig-
742. Daqui procedia que pas- nomínias e dores que naquela cidade,
savam algumas noites nos pousos, Jerusalém, seu Filho santíssimo pade-
outras permaneciam no campo. O Me- ceria. E, para que, com maior dor, tudo
nino Deus e sua Mãe puríssima nunca se visse n'Ele próprio, costumava Jesus vir
separavam. A grande Senhora sempre orar na presença de sua doce Mãe. Con-
gozava de sua presença, atendendo a templando-o na luz da divina sabedoria,
seus atos para em tudo imitá-los e segui- amando-o juntamente como a seu Deus e
los. seu Filho verdadeiro, sentia-se traspas-
O mesmo fazia no templo. Via e sada pelo penetrante gládio de que falara
entendia as orações e pedidos que o Verbo Simeão (Lc 2,35).
humanado fazia ao eterno Pai e como, Derramava muitas lágrimas, pre-
vendo-se inferior pela sua natureza hu- vendo as injúrias que seu dulcíssimo
mana, humilhava-se e reconhecia, com Filho receberia (Is 53,3 em diante), as
profunda reverência, os dons que recebia penas e a morte ignominiosa que lhe
da divindade. As vezes, a Mãe santíssima dariam (Sab 2, 20); que aquela formo-
ouvia a voz do Pai dizendo: Este é meu sura maior que a de todos os filhos dos
diletíssimo Filho em quem me deleito e homens (SI 44,3) seria desfeita e redu-
ponho minha complacência (Mt 17,5). zida a aparência de um leproso (Is 53,
Outras vezes, a grande Senhora via 4). e que tudo veria com seus olhos. Para
que seu Filho rezava por Ela ao eterno Pai mitigar um pouco sua dor, costumava o
e a oferecia como verdadeira Mãe. Isto lhe Menino Deus voltar-se para Ela, di-
causava incomparável júbilo. Quando zendo-lhe que dilatasse o coração com
conhecia que Jesus rezava pela espécie a caridade que tinha pelo gênero hu-
humana, e por essa intenção oferecia seus mano, e oferecesse ao eterno Pai aquelas
trabalhos, ela o acompanhava nessas penas de ambos pela salvação dos ho-
súplicas. mens.
Filho e Mãe faziam juntos este
oferecimento de grande agrado à San-
Atos de Jesus e Maria na tíssima Trindade. Aplicavam-no espe-
peregrinação cialmente aos fiéis, e mais particular-
mente pelos predestinados que ha-
743. Acontecia que, tanto durante veriam de aproveitar os merecimentos
o trajeto, como quando entravam no tem- e Redenção do Verbo encarnado. Estas
plo, os santos anjos entoavam cânticos eram as principais ocupações que
com música suavíssima ao Verbo hu- preenchiam os dias que Jesus e Maria
manado. A feliz Mae via-os, ouvia-os e gastavam na peregrinação ao templo de
entendia todos aqueles mistérios, enchen- Jerusalém.
Quinto Livro - Capítulo 3

DOUTRINA QUE ME DEU A Tudo isto torna a viagem incerta e cheia


RAINHA SANTÍSSIMA. de perigos e dificuldades.

Armas espirituais
A lei de Deus é fardo leve
744. Minha filha, se com atenta e 745. Entre estes perigos, o da carne
profunda consideração ponderas ruas não é o menor, por causa da fragilidade
obrigações, muito leve te parecerá o tra- humana. Por esta razão, e por ser o mais
balho de que sempre te encarrego (Mt 11, freqüente e doméstico, leva muitos a
30): o cumprimento dos mandamentos do caírem e perderem a graça. O modo mais
Senhor e de sua santa lei. Este há de ser o direto e seguro de vence-la, para ti e para
primeiro passo de tua peregrinação, todos, é envolver a vida em sacrifício e
princípio e fundamento de toda perfeição mortificaçào. Não procurar descanso,
cristã. nem deleite dos sentidos. Fazer com eles
Os preceitos do Senhor devem inviolável pacto, para não se desorde-
ser cumpridos, como muitas vezes te narem nem exigirem mais do que a regra
ensinei; não com tibieza e frouxidão, da razão permite. A este cuidado, acres-
mas com todo fervor e devoção. Esta de- centa o de aspirar sempre ao maior agrado
voção te constrangerá a não te conten- do Senhor e ao último fim onde queres
tares apenas com a virtude comum, mas chegar.
a progredires acrescentando, livre- Para tudo isto, tem sempre em
mente, muitas obras, fazendo por amor vista imitar-me como te convido com o
o que Deus não te impõe por obrigação. desejo de que alcances a plenitude da vir-
E isto artifício de sua sabedoria, para tude e santidade. Lembra da pontualidade
mais se dar a seus verdadeiros servos e e fervor com que Eu fazia tantas coisas,
amigos, como Ele te quer. não por que o Senhor as ordenava, mas
porque eu conhecia serem de seu maior
agrado. Multiplica tu os atos fervorosos,
Perigo da vida mortal as devoções, os exercícios espirituais, e
neles as súplicas e ofertas ao Eterno Pai
744-a. Considera, caríssima, que o pela salvação dos mortais.
caminho da vida mortal à eterna é longo Ajuda-os também, com o exemplo
(3 Rs 19, 7), penoso e perigoso (Mt 7, e admoestações que puderes. Consola aos
14). Longo pela distância, penoso por tristes, anima osfracos,auxilia os caídos, e
causa da fragilidade humana e astúcia de por todos oferece, se for necessário, tua
seus inimigos. Além de tudo isto, o tempo própria vida e sangue. Agradece a meu Filho
é breve (1 Cor 7,29), ofimincerto (Ecle santíssimo a benignidade com que suporta
11,3). Depois do pecado de Adão, a vida a grosseira ingratidão dos homens, sem lhes
animal e terrena dos mortais escraviza recusar benefícios e a conservaçào^da vida.
quem a segue (Jó 7, 20); as cadeias das Observa o invicto amor que lhes teve e tem,
paixões são fortes, a guerra contínua (Jó e como eu o acompanhei e ainda o acom-
5,1). O deleitável aos sentidos fascina fa- panho nesta caridade. Quero que também
cilmente (Sab 4, 12). A virtude é mais tu sigas a teu doce Esposo, e a mim. tua
oculta em seus efeitos e conhecimento. mestra, em tão excelente virtude.

18
CAPÍTULO 4
VIAGEM DE JESUS, AOS DOZE ANOS, COM SEUS PAIS A
JERUSALÉM. FICA NO TEMPLO, SEM ELES SABEREM.
Jesus aos doze anos valeu-se o Senhor do costume e da aglo-
meração dos peregrinos nessas soleni-
746. Continuavam, como fica dito, dades. Sendo muita gente, agrupavam-se
Jesus, Maria e José a fazer todos os anos separadamente os homens e as mulheres,
a peregrinação ao templo, pela festa da para maior recato. Os meninos acompa-
Páscoa dos Ázimos (Lc 23,6). nhavam a mãe ou o pai, indiferentemente,
Chegando o Menino Deus aos pois nisso não havia inconveniência.
doze anos de idade, quando convinha Isto levou São José a pensar que o
começar a raiar os esplendores de sua Menino Jesus ia na companhia de sua Mãe
inacessível luz divina, subiram a Jerusa- santíssima (Lc 2, 44), com quem ordi-
lém, segundo costumavam (Lc 2,42). nariamente sempre ficava. Não pôde
A solenidade dos Ázimos durava imaginar que Ela estaria sem Ele, pois a
sete dias (Dt 16, 8), conforme determi- divina Rainha amava e conhecia seu
nava a lei, sendo o primeiro e o último os Filho, mais do que toda criatura humana
mais festivos. Por este motivo, nossos e angélica.
divinos peregrinos permaneciam aquele A grande Senhora não teve tantas
septenário em Jerusalém, celebrando a razões para julgar que Jesus ia com o pa-
festa com o culto do Senhor e orações triarca São José, porém, foi o próprio Se-
como costumavam os demais israelitas, se nhor que a distraiu com outros divinos e
bem que, no mistério que os envolvia, santos pensamentos. Isto impediu-a que,
fossem tão singulares e diferentes dos de- a princípio, percebesse sua ausência, e de-
mais. Nestes dias, a feliz Mãe e seu santo pois quando a notou, pensou que se en-
Esposo, respectivamente, recebiam do contrasse com o glorioso São José, a quem
Senhor dons e favores que ultrapassam o Senhor das alturas queria consolar com
todo pensamento humano. sua presença.

Jesus separa-se de seus pais A perda do Menino Jesus


747. Passado o sétimo dia da so- 748. Nesta suposição, caminha-
lenidade, voltaram para Nazaré (Lc 2,43). ram Maria e José um dia inteiro, como re-
Ao sair da cidade de Jerusalém, o Menino fere São Lucas (44).
Deus separou-se de seus pais, sem que eles Como, ao sair da cidade, os
o advertissem. Escondeu-se, enquanto forasteiros partiam de pontos diversos,
eles prosseguiram a viagem, ignorando o depois iam se reunindo as famílias, Maria
que estava a acontecer. Para agir assim, santíssima e seu Esposo encontraram-se
Quinto Livro - Capítulo 4

no lugar onde passariam a primeira noite, aquela ocasião tão meritória, e que não era
depois que partiram de Jerusalém. Vendo tempo de lhe manifestar o mistério. Ainda
a grande Senhora que o Menino Deus não que não perdiam a visão de seu Criador e
vinha com São José, como pensava, e este nosso Redentor, responderam-lhe conso-
que tampouco estava com a Mãe, ficaram lando-a com outras razões, mas não lhe
mudos de susto e admiração sem poder disseram onde se encontrava seu Filho
falar por alguns momentos. santíssimo e o que fazia.
Seguindo o juízo de sua profundís- Esta resposta que criou novas
sima humildade, cada qual atribuía ao dúvidas à prudentíssima Senhora, aumen-
próprio descuido haver perdido de vista tou sua dor e cuidado, lágrimas ê suspiros
ao Filho santíssimo. Ignoravam o mistério para procurar deligentemente, não a
e o modo como o Senhor procedera. Co- dracma perdida como a mulher do Evan-
brando algum alento, os divinos Esposos, gelho (Lc 15,8), mas a todo o tesouro do
namaior aflição, indagaram-se o que fazer céu e da terra.
(Lc 2,45).
Disse a amorosa Mãe a São José:
Esposo e Senhor meu, meu coração não Angústias de Maria
sossegará se não voltarmos com toda a
diligência à procura de meu Filho santís- 750. Cogitava a Mãe da sabedoria
simo. Assim o fizeram, começando a pes- consigo mesma, e no coração lhe nasciam
quisa entre parentes e conhecidos. Nin- diversas suposições. O primeiro pen-
guém lhes pôde dar qualquer notícia samento que lhe ocorria era que Arquelau,
d'Ele, nem aliviar-lhes a dor. Pelo con- imitando a crueldade de seu pai Heródes,
trário, aumentaram-na dizendo que não o teria tido notícia do infante Jesus e o pren-
tinham visto desde a saída de Jerusalém. dera. Sabia pela sagrada escritura^ pelas
revelações e pelo ensinamento de seu
Filho e mestre divino, que não era chegado
Maria põe-se a procurá-lo o tempo da paixão e morte do Redentor.
Temeu, contudo, que o tivessem apri-
749. Dirigiu-se a aflita Mãe a seus sionado e o maltratassem.
santos anjos. Os que levavam os dísticos Com profundíssima humildade,
do santíssimo nome de Jesus (referidos suspeitava também que talvez Ela o
ao se falar da Circuncisão, n° 523) tivesse desgostado no seu serviço e as-
haviam ficado com o Menino, e os outros sistência, e Ele se retirara ao deserto com
acompanhavam sua Mãe puríssima, como seu futuro precursor João. Outras vezes,
costumava acontecer quando se sepa- falando com seu Bem ausente, dizia-lhe:
ravam. A estes, que eram dez mil, disse a Doce amor e glória de minha alma, com
Rainha: Amigos e companheiros meus, o desejo que tendes de padecer pelos
bem conheceis ajusta causa de minha dor. homens (Heb 10, 5), nenhum trabalho e
Peço-vos que em tão amarga aflição sejais penalidade evitareis na vossa imensa cari-
meu consolo, dando-me notícia de meu dade. Antes, receio, Senhor meu que as
Amado para que eu O procure e encontre buscareis de propósito (Is 53, 7). Onde
(Cant 3,2 e 3). Dai algum alento a meu irei? Onde vos acharei, luz de meus olhos?
angustiado coração que longe de seu bem (Tob 10,4). Quereis que perca minha vida
e sua vida, arranca-se donde está para pro- pela espada que a separou de vossa pre-
curá-lo. sença? porém, não me admiro, bem meu,
Os santos anjos sabiam ser von- que castigueis com vossa ausência a quem
tade do Senhor dar à sua Mãe santíssima não soube aproveitar o benefício de vossa
t - Sab 2,13, h 53,2; Jer 11,18, Dan 9,26; Jo 7,3U

20
Quinto Livro - Capítulo 4

companhia. Por que, Senhor meu, me en- João estava. Inclinava-se a pensar que seu
riquecestes com os doces carinhos de Filho santíssimo estaria com ele, já que
vossa amável presença e doutrina? não havia indícios de que Arquelau o
Ài de mim! Se não pude merecer tivesse aprisionado. Quando já queriapôr-
ter-vos por Filho e gozar de vós este se a caminho, os santos anjos a detiveram,
tempo, confesso que devo agradecer ao dizendo-lhe que não fosse ao deserto por-
que vossa dignação me quis aceitar por que o divino Verbo humanado não estava
escrava (Lc 1, 48). Se apesar de indigna lá. Decidiu ir também a Belém, e ver se
Mãe vossa, posso valer-me desse título por acaso não estaria na gruta do nas-
para vos procurar como meu Deus e meu cimento, mas também desta resolução a
bem, dai-me, Senhor, licença para isso e fizeram desistir os anjos, dizendo que o
concedei-me o que me falta para ser digna Senhor não estava tão longe.
de vos encontrar. Convosco viverei no de- A divina Mãe ouvia essas ad-
serto, no sofrimento, nos trabalhos, nas vertências e sabia que os espíritos angéli-
tribulações, e em qualquer parte. Senhor cos não ignoravam onde se encontrava o
meu, minha alma deseja que, com dores e infante Jesus. Não obstante, foi tão adver-
tormentos me façais merecer: ou morrer tida, humilde e reservada por sua rara
se não vos encontro, ou viver em vosso prudência, que não lhes replicou nem lhes
serviço e companhia. perguntou onde o acharia. Compreendeu
Quando vosso ser divino se escon- que lho ocultavam por vontade do Senhor.
deu ao meu interior, ficou-me a presença de Com tanta magnificência e veneração
vossa amável humanidade. Ainda que se tratava a Rainha dos anjos os mistérios do
mostrasse severa e menos carinhosa do que Altíssimo e a seus ministros e em-
costumava, eu encontrava vossos pés, ante baixadores (2 Mc 2,9). Esta circunstância
os quais podia-me prostrar. Agora, entre- foi uma das ocasiões em que teve opor-
tanto, falta me essa felicidade, e comple- tunidade de revelar a grandeza de seu real
tamente se escondeu o sol que me ilumi- e magnânimo coração.
nava, só me restando angústias e gemidos.
Oh! Vida de minha alma, que suspiros do
fundo do coração vos posso dirigir! Mas, Perfeição de Maria no sofrimento
não são dignos de vossa grande clemência,
pois não me chega notícia donde vos en- 752. A dor que Maria santíssima
contrarão meus olhos. sofreu nesta ocasião ultrapassou a que to-
dos os mártires padeceram. Sua paciência
e conformidade não teve nem podem ter
Assistência dos anjos igual, porque a perda de seu Filho santís-
simo era maior do que a perda de toda a
751. Persistiu a cândida pomba nas criação. O conhecimento, o amor e estima,
lágrimas e gemidos, sem descansar, sem que tinha por Ele, supera qualquer imagi-
sossegar, sem dormir nem comer, três dias nação. A incerteza e a possibilidade de en-
contínuos. contrar a razão foram muito grandes,
Os dez mil anjos a acompanhavam como se disse.
corporalmente, em forma humana. Apesar Além disto, naqueles três dias
de a verem tão aflita e dolorosa, não lhe deixou-a o Senhor no estado comum em
manifestavam onde acharia o Menino per- que costumava ficar, quando lhe faltavam
dido. os favores especiais, quase no estado or-
No terceiro dia, a grande Rainha dinário da graça. Fora da visão e comuni-
resolveu ir procurá-lo no deserto onde São cação com os santos anjos, suspendeu
Quinto Livro - Capítulo 4

outras graças que freqüentemente comu-


nicava à sua alma santíssima. Daqui se
colige um pouco, qual seria a dor da divina
e amorosa Mãe.
Mas, oh! prodígio de santidade,
prudência, fortaleza e perfeição! Com tão
inaudita tribulação e excessiva pena, não
se pertubou, não perdeu a paz interior e
exterior, não teve pensamento de ira ou
despeito, nenhum movimento ou palavra
descomposta, nem desordenada tristeza e
irritação, como ordinariamente acontece
às demais filhas de Adão. Nestas, as gran-
des provações e mesmo sem elas, facil-
mente se desordenam as paixões e potên-
cias.
A Senhora das virtudes, entre-
tanto, praticou-as todas com celestial con-
sonância. Ainda que tinha o coração
ferido por uma dor sem medida, não al-
terou a harmonia de todas suas ações. Não
faltou à reverência pelo Senhor, não ces- tivou o coração (Mc 5,9). Quando lhe en-
sou seus louvores, não interrompeu sua treguei a oferta, senti em meu íntimo doce
oração e súplicas pelo gênero humano e compaixão de ver uma criança, tão gra-
para alcançar a graça de encontrar seu san- ciosa (Mc 5,10), assim pobre e desam-
tíssimo Filho. parada.
Estas foram as primeiras notícias
Maria, a Esposa dos Cânticos de seu Unigênito que a dolorosa Mãe re-
cebeu em Jerusalém. Respirando um
753. Com esta divina sabedoria e pouco, continuou nas pesquisas e algumas
suma diligência, procurou-o três dias con- outras pessoas lhe disseram quase o
tínuos, indagando a diferentes pessoas, in- mesmo. Com estes indícios, dirigiu-se ao
formando e dando os sinais de seu Amado hospital da cidade, julgando encontrar o
às filhas de Jerusalém, percorrendo as ruas Esposo e Artífice da pobreza (Mt 25,40),
e praças da cidade. Cumpriu-se nesta entre os pobres, seus legítimos irmãos e
ocasião, o que desta grande Senhora amigos. Perguntando por Ele, respon-
escreveu Salomão nos Cânticos (Cant 3, deram-lhe que o Menino que Ela descre-
2; 5,10 e 11). Perguntaram-lhe algumas via, tinha-os visitado naqueles três dias,
mulheres quais eram os característicos de levando-lhes algumas esmolas e dei-
seu único e desaparecido Menino. Ela res- xando-os muito confortados em seus
pondeu como dissera a esposa em nome sofrimentos.
d*Ela: Meu querido é alvo e rosado, e se
distingue entre milhares.
Ouviu-a certa mulher e lhe disse: Maria e José vão ao templo
Esse Menino que descreveis, passou on-
tem por minha casa e pediu-me esmola. 754. Estes indícios produziram na
Dei-lha, e sua beleza e simpatia me ca- divina Senhora terníssimos afetos que, do

22
Quinto Livro - Capítulo 4

fundo do coração, enviava a seu Filho esta perda, porque nunca mereceram amá-
ausente. Logo supôs que, j á que não estava lo e possuí-lo pela graça. Como não lhes
com os pobres, estaria sem dúvida no tem- dói perder o bem que não amam e nem
plo como na casa de Deus e da oração. A possuíram, depois de perdido não cuidam
este pensamento, disseram-lhe os santos em recuperá-lo. Há, porém, grandes dife-
anjos: Rainha e Senhora nossa, vosso con- renças nestas perdas ou ausências do ver-
solo se aproxima e logo vereis a luz de dadeiro Bem.
vossos olhos. Apressai o passo ide ao tem- Não é a mesma coisa Deus escon-
plo. der-se da alma para provar seu amor e lhe
O glorioso São José encontrou-se aumentar as virtudes, ou afastar-se dela
neste momento com sua Esposa. Para du- por castigo de suas culpas. O primeiro
plicar as diligências, tomara outra direção caso é artifício do amor divino, e meio
à procura do Menino Deus, e fôra também para mais se dar à criatura que o deseja e
avisado por outro anjo, que se dirigisse ao merece. 0 segundo, é justo castigo da in-
templo. Padeceu nesses três dias incom- dignação divina. Na primeira ausência a
parável e excessiva aflição, indo de um alma se humilha pelo temor santo e filial
lado para outro, às vezes com sua divina e por não saber a causa. Ainda que a cons-
Esposa, outras sem Ela, mas com pro- ciência não o acuse, o coração sensível e
funda pena. Teria chegado a perder a vida, amoroso conhece o perigo, sente a perda
se o poder do Senhor não o confortasse, e e assim como diz o Sábio (Prov 28,14),
se a prudentíssima Senhora não o conso- será bem-aventurado. Vive sempre com
lasse. Cuidava que tomasse algum ali- temor dessa perda, porque o homem não
mento, e descansasse por momentos de sabe se é digno do amor ou do ódio de
sua grande fadiga. Seu verdadeiro e dedi- Deus (Ecli 9,1), e tudo é reservado para
cado amor pelo Menino Deus, levava-o a ofim(Ecii 9,2). E, no decorrer desta vida
procurá-lo com veemente ansiedade, sem mortal, comumente sucedem as coisas ao
se lembrar de alimentar a vida, nem justo e ao pecador, sem diferença.
sustentar a natureza.
Com o aviso dos santos anjos,
foram Maria puríssima e São José ao tem- Perigosa indiferença
plo, onde aconteceu o que direi no capítulo
seguinte. 756. Diz o Sábio, que este perigo
é o maior e péssimo entre todas as coisas
DOUTRINA QUE ME DEU A que acontecem debaixo do sol (Ecli 9,3),
RAINHA DO CÉU, MARIA porque leva os ímpios e réprobos a se
SANTÍSSIMA. encherem de malícia e dureza de coração.
Vivem em falsa e perigosa segurança,
vendo que, sem diferença, sucedem as
coisas a eles como aos demais (Ecli 9,12)
O temor santo e que não se pode saber, com certeza,
755. Minha filha, sabem os mor- quem é escolhido ou reprovado, amigo ou
tais, por freqüentes experiências, que não inimigo de Deus, justo ou pecador, quem
se perde sem dor, aquilo que se ama com merece o ódio e quem o amor. Se os
deleite. Esta verdade tão conhecida e homens, porém, recorressem, sem paixão
provada, devia ensinar e argüir os mun- e falsidade, à consciência, ela responderia
danos, do desamor que mostram por seu a cada um o que lhe convém saber (Lc 12,
Deus e Criador. Sendo tantos os que o per- 58). Quando ela acusa pecados cometidos,
dem, poucos são os que se afligem com é estultíssima ignorância não atribuir-se os
Quinto Livro - Capítulo 4

amor e a incerteza da causa de sua ausên-


males
r a j a dque
a dapadece,
presençeanão se reconhecer
da graça, epnvada cia não me deram repouso até tomar a
achá-lo. Quero que me imites nisso, carís-
sima seja que o percas por tua culpa ou
d ° ^ a T a z a o estivesse livre, a maior por disposição dele. Para que não venha a

prova seria sentir, com íntima dor, a perda acontecer isso por castigo, deves procurá-
lo com tanta energia que nem a tributação,
S gozo espiritual e efeitos da ~ A
faltadestasensibüidadenumaalmacnada nem a angústia, nem a necessidade, nem
para a eterna felic.dade, é forte mdicio <le o perigo, nem a perseguição, nem a es-
que não a deseja nem ama. Dai não busca cada nem o alto, nem o profundo, possam
la com solicitude (Lc 15,8) e não chegar criar separação entre ti e teu Senhor (Rom
a ter alguma certeza e WguWçapjjgj 8,35).
possíveis nesta vida mortal, de não ter per
dido por sua culpa, o sumo Bem. Se tu fores fiel como deves, e nao
O quiseres perder, nem os anjos, nem os
nrincipados, nem as potestades, nem outra
Só o pecado faz perder a Deus qualquer criatura, serão capazes para
fS-teperdê-lo (Rom 8,38). Tão fortes
757. Eu perdi meu Filho Santís- são o vínculo e as cadeias de seu amor,
simo apenas quanto à presença corporal e que ninguém as pode quebrar, a não ser
com esperança de O encontrar. Todavia, o a própria vontade da criatura.

24
CAPÍTULO 5
DEPOIS DE TRES DIAS O MENINO JESUS É ENCONTRADO
NO TEMPLO, DISCUTINDO COM OS DOUTORES.
Razões da perda do Menino Deus modo ausentou-se deles, ficando em
Jerusalém. Quando, depois de certo prazo,
758. No capítulo passado, fica em a Rainha se viu sozinha, supôs que Ele
parte resolvida a dúvida que alguns estivesse com o Pai adotivo (Lc 2,44).
poderi am ter, ao pensar como nossa divina
Senhora, sendo tão cuidadosa e atenta no
acompanhar e servir seu Filho santíssimo, O Menino em Jerusalém
poderia tê-lo perdido de vista, ficando Ele
em Jerusalém. 759. Isto aconteceu próximo às
Bastaria saber que assim o pode
*
portas da cidade, donde o Menino Jesus
dispor o mesmo Senhor. Contudo, expli- voltou,' pondo-se a andar pelas ruas.
carei aqui melhor como aconteceu, sem Vendo em sua ciência divina o que nelas
descuido ou voluntária inadvertência da lhe haveria de suceder, tudo ofereceu a seu
amorosa Mãe. Além de valer-se da aglo- eterno Pai pela salvação das almas.
meração de gente, o Menino Deus usou Naqueles três dias pediu esmolas
outro meio sobrenatural, quase necessário para, daí em diante, enobrecer a humilde
para distrair a atenção da sua cuidadosa mendicância como primogênita da santa
Mãe e companheira. Sem isto, não pobreza. Visitou os hospitais dos pobres,
deixaria Ela de notar que se escondia o Sol e consolando a todos, repartiu com eles as
esmolas que recebeu. Ocultamente deu
que a guiava em todos os caminhos. saúde a alguns enfermos no corpo, e a mui-
Aconteceu que ao se separarem os tos na alma, pondo-os no caminho da vida
homens das mulheres, como ficou dito, o eterna.
poderoso Senhor infundiu em sua divina A alguns dos benfeitores que lhe
Mãe uma visão intelectual da divindade. deram esmola, concedeu graças em maior
A força deste altíssimo objeto atraiu-a abundância, cumprindo a promessa que
toda ao interior. Ficou tão abstraída, depois faria à sua Igreja: quem recebe o
abrasada e alheia aos sentidos, que, por justo ou o profeta, receberá recompensa de
grande espaço, só pode usar deles para justo ou de profeta (cf.Mt 10,41).
prosseguir o caminho. No mais, ficou toda
inebriada na suavidade e divina conso-
lação da vista do Senhor (Cant 5,1). Jesus vai ao templo
São José teve o motivo que já disse
* a i n d a que também foi arrebatado inte- 760. Tendo-se ocupado nesta e
riormente em altíssima contemplação, o que noutras obras da vontade do eterno Pai,
lhe tomoumais crível o misterioso equívoco foi ao Templo. No dia, do qual fala o evan-
de que o Menino ia com a sua Mãe. Deste
1 - acima, n° 747.
Quinto Livro - Capitulo 5

gelista São Lucas (2,46), reuniram-se os Esta opinião tinha grande influência
rabinos que eram os doutores e mestres da sobre aquele povo cego e carnal. Entendiam
lei, num lugar onde discutiam algumas ser só para eles a Redenção que o Messias
dúvidas e passagens das Escrituras. viria operar para seu povo, com o poder
Naquela ocasião, disputavam so- divino de sua majestade e grandeza. Esta
bre a vinda do Messias. Pelas novidades redenção seria temporal e terrena, como
e prodígios que se tinham visto naqueles ainda hoje esperam os judeus obcecados
anos, desde o nascimento do Batista e a pelo véu que obscurece seus corações (Is
vinda dos Reis orientais, crescera o rumor 6,10).
entre os judeus, de que chegara o tempo Ainda não se convenceram que a
do Messias e que já se encontrava no glória, majestade e poder de nosso Reden-
mundo, embora ainda não fosse conhe- tor e a liberdade que veio trazer ao mundo,
cido. não é terrena e perecível mas sim celeste,
Estavam todos assentados em seus espiritual e eterna. E, não só para os judeus
lugares, com a autoridade que costumam - ainda que foi oferecida a eles em
assumir os mestres e os que se têm por primeiro lugar - mas para toda a raça hu-
doutos. Aproximou-se o infante Jesus da mana de Adão, sem exceção (2 Cor 3,15).
reunião daqueles magnatas. Rei dos Reis
e Senhor dos senhores (Tim 6,15; Àpoc
19,16), Sabedoria infinita (1 Cor 1, 24),
aquele que emenda os sábios (Sab 7,15),
apresentou-se ante os mestres da terra como
discípulo humilde. Declarou que se aproxi-
mava para ouvir o que discutiam e se inteirar
da matéria que tratavam: se o Messias
prometido já viera, e se chegara o tempo de
sua vinda ao mundo.

Erro dos rabinos


761. As opiniões dos letrados
variavam muito sobre este ponto, afir-
mado por uns e negado por outros. Os do
lado negativo alegavam algumas pas-
sagens e profecias das Escrituras, inter-
pretadas errada e materialmente, como
disse o Apóstolo: Entendida sem espírito,
a letra mata (2 Cor 3,6). Estes sábios en-
fatuados afirmavam que o Messias viria
com majestade e grandeza de rei. Com seu O Menino no meio dos doutores
grande poder libertaria seu povo da 762. Viu o mestre da verdade, Je-
servidão temporal que os mantinha sujei- sus, que a disputa ia se encerrar com esse
tos aos gentios. erro, pois os poucos que discordavam
Ora, deste poder e libertação não dessa opinião, eram vencidos pela autori-
havia indícios na atual condição dos he- dade e argumentos dos outros.
breus, impossibilitados de sacudir do Como o Senhor viera ao mundo
pescoço o jugo do império romano. dar testemunho da verdade (Jo 18, 37),

26
Quinto Livro - Capítulo 5

que era Ele mesmo, não quis consentir Assim, como entenderemos o que diz o
nessa ocasião - quando importava tanto mesmo Isaías? Virá da terra dos viventes,
manifestá-la - que, pela autoridade dos e quem contará sua geração? (Is 53, 8).
sábios, ficasse estabelecido o erro con- Foi saciado de oprobios (Is 53,11); será
trário. Sua caridade imensa não tolerou conduzido á morte como a ovelha ao
ver aquela ignorância de suas obras e altís- matadouro, sem abrir a boca
simos fins, nos mestres que deviam ser Jeremias afirma que os inimigos
idôneos ministros da verdadeira doutrina do Messias se unirão para persegui-lo,
para instruir o povo no caminho da vida e para por veneno em seu pão e apagar seu
de seu autor, nosso Redentor. nome da terra (Jer 11,19), ainda que não
O Menino Deus aproximou-se prevalecerão. David diz que será o
mais do grupo em discussão, para mani- opróbrio dos homens qual verme pisado e
festar a graça que se derramava de seus desprezado (SI 21,7 e 8). Zacarias anuncia
lábios (SI 44, 3). Com rara majestade e que virá manso e singelo, montado num
formosura, pôs-se no meio deles, como humilde animal (Zac 9, 9). E, todos os
quem deseja expôr alguma dúvida. Seu Profetas apresentam os mesmos sinais do
aprazível semblante despertou naqueles Messias prometido.
sábios o desejo de ouvi-lo atentamente.
As duas vindas do Messias
As profecias sobre o Messias
764. Pois, como será possível -
763- Disse o Menino Deus: ouvi e acrescentou o Menino Deus - aceitar estas
entendi perfeitamente vossa conferência profecias, se supomos que o Messias virá
sobre a vinda do Messias e a conclusão a com majestade e poder, armado para vencer
que chegastes. Concordo que os Profetas todos os reis e monarcas, pela violência e
dizem que sua vinda será com grande derramamento de sangue alheio?
poder e majestade, como aqui se referiu Não podemos negar que virá duas
citando seus testemunhos. Isaías diz que vezes: a primeira para remir o mundo e a
será nosso Legislador e Rei que salvará segunda para julgá-lo. Sendo assim, as pro-
seu povo (Is 33, 22). Em outro lugar fecias devem ser aplicadas a estas duas vin-
afirma que virá com grande cólera (Is 30, das, dando a cada uma o que lhe compete.
27). David também assegurou que Como o fim destas duas vindas serão dife-
abrasará todos seus inimigos (SI 96, 3). rentes, também o serão suas circunstâncias,
Daniel afirma que todas as tribos e nações pois o papel desempenhado numa, será
o servirão (Dan 7,14). O Eclesiástico de- muito diferente do da outra. Na primeira
clara que com Ele virá grande multidão de vencerá o demônio, derrubando-o do poder
Santos (Ecli 24,3). Os Profetas e as Escri- que adquiriu sobre as almas com o primeiro
turas estão cheios de semelhantes promes- pecado.
sas, para manifestar sua vinda com sinais Para isto, em primeiro lugar, há de
muito claros e visíveis, se forem olhados oferecer a Deus reparação por todo o
com atenção e luz. gênero humano. Em seguida, ensinará aos
A dúvida, porém, se levanta, homens, pela palavra e pelo exemplo, o
quando estas e outras passagens dos Pro- caminho da vida eterna: como vencer os
fetas, parecem se contradizer. Uma vez inimigos, como servir e adorar seu
que todos são igualmente verdadeiros, é Criador e Redentor, como corresponder e
forçoso que se lhe dê o verdadeiro sentido bem usar dos benefícios e dons recebidos
que permita concordarem mutuamente. de sua mão.
2 - ídem v8.

27
Quinto Livro - Capítulo 5

A estes fins, o Messias ajustará sua Dentro de pouco tempo vieram do Oriente
vida e doutrina na primeira vinda. A alguns reis, guiados por uma estrela, a pro-
segunda, será para pedir contas a todos no cura do Rei dos judeus para adorá-lo (Mt
juízo universal, e dar a cada um a recom- 2 a v. 1). Tudo isso estava profetizado
pensa de suas obras, boas ou más, casti- (Miq 5 a v. 2; SI 71,10; Is 60,6).
gando a seus inimigos com furor e indig- O rei Herodes, pai de Arquelau,
nação. Isto é o que dizem os Profetas de acreditou sem duvidar, e mandou tirar a vida
sua segunda vinda. a tantos meninos (Mt 2,16) para, entreeles,
tirar a daquele rei recém-nascido, temendo
que o sucedesse no reino de Israel.
Correta interpretação das profecias
765. De acordo com isto, se quiser- Maria e José encontram Jesus
mos entender que a primeira vinda será
com poder e majestade, e como disse 766. Outros argumentos apresen-
David, que reinará de mar a mar (SI 71, tou o Menino Jesus, e sob forma de per-
8): que seu reino será glorioso, como guntas ensinava com poder divino. Os
dizem outros Profetas (Is 52,6; Jer 30, escribas e letrados ouviam-no mudos (Lc
9; Ez 37,22; Zac 9,10): tudo isto não se 4,32), e olhando uns para os outros, com
pode interpretar materialmente, de um rei- grande admiração perguntaram: que ma-
no e aparato majestoso, sensível e corpo- ravilha é esta? Que rapazinho prodi-
ral. gioso! Donde e de quem é este Menino?
Deve-se entender do novo reino Não foram além desta admiração,
espiritual que fundará numa nova Igreja e e não conheceram, nem suspeitaram que
se estenderá por sobre todo o orbe, com era aquele que os instruía e iluminava so-
majestade, poder e riquezas da graça e das bre tão importante verdade.
virtudes contra o demônio. Esta interpre- Neste momento, antes que o Me-
tação permite que as Escrituras concor- nino Deus terminasse sua explanação,
dem entre si, e não é possível dar-lhes ou- chegaram sua Mãe e o castíssimo esposo
tro sentido. São José, com tempo para ouvir as últimas
O fato do povo de Deus estar sob frases. Terminada a preleção, levantaram-
o império romano sem poder libertar-se, se todos os mestres da lei (Lc 2, 47)
não constitui sinal para negar a chegada tomados de espanto e admiração. Arre-
do Messias, mas, pelo contrário é prova batada pela alegria, a divina Senhora
infalível que já veio ao mundo. Nosso pa- aproximou-se de seu Filho amantíssimo,
triarca Jacó deixou este sinal para seus e em presença de todos os circunstantes
descendentes o saberem, ao ver a tribo de disse o que refere São Lucas (2,48): Filho,
Judá sem o cerro e o governo de Israel (Gn por que procedeste assim? Vede como
49,10). E agora confessais que nem esta vosso pai e Eu vos procurávamos cheios
tribo nem qualquer outra, tem esperança de aflição.
de o recuperar. Tudo isto é provado tam- Esta amorosa queixa foi feita pela
bém pelas semanas de Daniel (Dan 9,25) divina Mãe com tanta reverência quanto
que já se completaram. afeição, adorando-o como Deus, e repre-
Quem tiver memória há de se lem- sentando-lhe sua aflição como a filho.
brar do que ouviu contar. Há poucos anos Respondeu Ele: Por que me pro-
foi visto em Belém, à meia-noite, um grande curáveis? Não sabíeis que devo cuidar das
resplendor (Lc 2 a v. 9); e a alguns pobres coisas que se referem a meu Pai? (Lc 2,
pastores foi dito que o Redentor nascera. 49).

28
Quinto Livro - Capítulo 5

Queixa de Mana
767, Diz o Evangelista que eles
não entenderam o mistério destas palavras
(Lc 2, 50), porque então lhes foi oculto.
Isto procedeu de duas causas: o gozo in-
terior que colheram do que haviam se-
meado com tantas lágrimas, e a presença
do seu rico tesouro encontrado os ab-
sorveu, tirando-lhes qualquer outra
atenção. Também não tinham chegado a
tempo de se inteirar do assunto tratado
naquela disputa. Além de tudo isto, para
nossa advertidíssima Rainha havia a razão
de lhe estar encoberto o interior de seu
Filho santíssimo, onde poderia tudo co-
nhecer e que só depois lhe foi novamente
descoberto.
Despediram-se os doutores, co-*
mentando o assombro de terem ouvido a
Sabedoria eterna, embora ainda não a co-
nhecessem. Ficando quase sozinhos, disse prostrou em terra, adorou seu Filho san-
a Mãe santíssima a seu divino Filho, esten- tíssimo, e lhe pediu a bênção. Não o havia
dendo-lhe os braços com matemal afeto: feito, exteriormente, antes, por estarem no
Dai licença, meu Filho, a meu desfalecido templo entre estranhos. Assim advertida
coração para manifestar sua pena. Que e atenta era em não perder oportunidade
nela não perca a vida, se for de proveito de proceder com a plenitude de sua santi-
para vos servir; não me expulseis de vossa dade.
presença e aceitai-me como vossa escra- O infante Jesus levantou-a do solo
va. Se foi descuido meu perder-vos de e lhe falou com aprazível semblante e
vista, perdoai-me, tomai-me digna de vós carinhosas palavras. Ao mesmo tempo
e não me castigueis com vossa ausência. afastou o véu e lhe manifestou novamente
O Menino Deus recebeu-a com sua alma santíssima com todas suas ope-
agrado e se ofereceu para ser seu mestre e rações, com maior clareza e profundidade
companheiro até o tempo conveniente. que antes. No interior de seu Filho Deus
Com isto, sossegou o inocente e abrasado conheceu a divina Mãe todos os mistérios
coração da grande Senhora e partiram para e atos que Ele realizara naqueles três dias
Nazaré. de ausência. Entendeu tudo quanto se pas-
sara na discussão com os doutores: o que
o Menino Jesus lhes disse, as razões que
Maria goza de novo a visão da alma teve para não se revelar mais claramente
de Jesus como o Messias verdadeiro. Outros mui-
tos segredos ocultos manifestou á sua Vir-
gem Mãe, sendo Ela o arquivo onde se
768, Afastando-se um pouco de depositavam
Jerusalém, quando se encontraram a sós humanado paratodos os tesouros do Verbo
que em todos e por todos,
no caminho, a prudentíssima Senhora se

29
Ela lhe desse o tributo de glória e louvor Noutras viagens que deixo escri-
divino, como ao Autor de tantas maravi- tas, já falei sobre alguns destes prodígios
lhas. Assim o fez a Virgem Mãe, com sa- ®% e assim não me alongo a referir outros
tisfação do mesmo Senhor. Seriam necessários muitos capítulos e
Depois, pediu ao divino Filho que tempo para descrevê-los, quando outros
descansasse um pouco no campo e tomas- fatos mais importantes desta História
sem algum sustento. Ele aceitou, rece- pedem a atenção.
bendo-o da mão da grande Senhora que
de tudo cuidava como Mãe da Sabedoria
(Ecli 24,24). Jesus submisso à Maria e José
770. Chegaram a Nazaré, e mais
Durante a viagem fazem muitos adiante falarei sobre sua vivência ali. O
milagres Evangelista São Lucas resumiu os mis-
térios desta época em poucas palavras,
769. No decurso do caminho, a dizendo que o Menino Jesus era sujeito a
divina Mãe ia falando com seu querido seu Pai, a Maria santíssima e a São José, e
Filho sobre os mistérios que lhe mani- que sua divina Mãe meditava em todas
festara no seu interior, a respeito da dis-estas coisas guardando-as no coração: que
cussão com os doutores. O celestial mes- Jesus crescia em sabedoria, idade e graça
tre a instruiu vocalmente do que lhe diante de Deus e dos Homens (Lc 2,51-52).
mostrara intelectualmente. Adiante direi o que entendi sobre
Declarou-lhe, em particular, que isto. Agora, refiro apenas que a humildade
aqueles letrados e escribas não chegaram e obediência de nosso Deus e Mestre a
a conhecê-lo por Messias, por causa da seus Pais foi nova admiração para os an-
presunção e arrogância que tinham da jos. Igualmente, a dignidade e excelência
própria ciência. Seus entendimentos en- de sua Mãe santíssima a quem se entregou
contravam-se obscurecidos pelas trevas e submeteu o próprio Deus feito homem,
da soberba, e não puderam perceber a luz, para que sob o amparo de São José, O go-
ainda que foi tão intensa a que o Menino vernasse e d 'Ele dispusesse como sua pro-
Deus lhes propôs. priedade.
Suas razões os teriam convencido Ainda que esta sujeição e obediên-
suficientemente, se tivessem a vontade cia era conseqüente àmaternidade natural,
bem disposta pela humildade e desejo da foi necessária especial graça para a Se-
verdade, mas o obstáculo que opuseram nhora usar do direito de Mãe no governar
impediu-lhes de a encontrar, apesar de seu Filho, diferente da graça que tivera
estar tão clara ante seus olhos. para O conceber e dar à luz. Estas graças
Durante esta viagem, nosso Reden- convenientes teve Maria santíssima ple-
tor converteu muitas almas ao caminho da namente para todos estes ofícios. De sua
salvação, servindo-se de sua Mãe santís- plenitude transbordava-se em São José,
smiacomoinstrumentodessas maravilhas. para que também fosse digno pai adotivo
Com palavras prudentíssimas e santas ad- de Jesus e chefe da sagrada família.
moestações, esclarecia o coração de todos
com quem a divina Senhora falava. Deram
saúde a muitos enfermos; consolaram os Vivência espiritual entre Jtfãe e Filho
tristes e aflitos, e por toda parte iam der-
ramando graça e misericórdia, sem perder 771. A obediência e submissão do
oportunidade para isso. Filho santíssimo por sua Mãe, era por esta
3-n°624, 645, 669, 704
Quinto Livro - Capítulo 5

correspondida com virtudes heróicas. En- puríssimo de sua Mãe, era forçoso que o
tre outras excelências, teve uma quase in- fogo do divino amor, que ardia no peito
compreensível humildade e devotíssima de nosso Redentor e que viera acender na
gratidão de que Jesus se houvesse di gnado terra (Lc 12,49), operasse com suma ativi-
voltar a permanecer com Ela. Julgava-se dade, efeitos sem limites que só o Senhor
indigna de favor tão especial, e aumentou que os produziu conheceu.
em seu fiel coração o amor e solicitude no Advirto apenas uma coisa da qual
serviço de seu Filho Deus. Era tão inces- recebi inteligência. As demostrações ex-
sante em lho agradecer, tão pontual, atenta teriores do amor por sua Mãe santíssima,
e cuidadosa em servi-lo, sempre de joe- o Verbo humanado media-as, não pela
lhos e apegada ao pó, que admirava aos natural afeição e inclinação filial, mas sim
supremos serafins. pelo estado de viadora no qual a grande
Além de tudo, era oficiosíssima em Rainha deveria conquistar merecimentos.
imitar as ações do Filho, pondo toda a Reconheceu o Senhor que se, com
atenção em copiá-las e cuidado em prati- tais demonstrações a acarinhasse tanto
cá-las. Esta plenitude de santidade feria o como lhe pedia a natural inclinação de
coração de Cristo nosso Senhor (Cant 4,9) Filho por tal Mãe, o contínuo gozo das
e a nosso modo de entender, prendia-o com doçuras de seu Amado a impediria de
cadeias de invencível amor (Os 11, 4), merecer quanto convinha. Por este mo-
Entre a divina Princesa e seu Deus tivo, o Senhor deteve parte desta natural
e Filho verdadeiro, produzia-se uma cir- propensão de sua humanidade. Deu opor-
culação de amor e obras que excedem a tunidade para que sua Mãe, ainda que tão
qualquer entendimento criado. No oceano santa, pudesse padecer e merecer, sem
de Maria entravam todas as caudalosas gozar o contínuo e doce prazer dos cari-
correntes das graças do Verbo humanado, nhos sensíveis de seu Filho santíssimo.
sem que esse mar transbordasse (Ecli 1, Por esta razão, no convívio or-
7), porque tinha capacidade para contê- dinário, o Menino Deus guardava mais
las. A feliz Mãe da Sabedoria fazia-as gravidade. Não obstante a diligentíssima
voltar a seu princípio, atribuindo-as a Senhora ser tão cuidadosa em servi-lo e pre-
Ele, que as devolvia novamente para venir, com incomparável reverência, tudo o
Ela. Assim, estes fluxos e refluxos da que necessitava, o Filho santíssimo não lhe
divindade pareciam existir apenas para fazia tantas demonstrações de agrado, quan-
Filho e Mãe. to merecia a solicitude de sua Mãe.
Este é o mistério encerrado naque-
las humildes e reconhecidas palavras da DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU
Esposa nos Cânticos (2, 16 e 17): Meu MARIA SANTÍSSIMA.
amado é para mim e eu para ele que se
apascenta entre os lírios, enquanto se
aproxima o dia e se afastam as sombras. Esperança e solicitude
E noutra passagem: Eu sou de meu Amado
e ele é meu. Sou para meu dileto e ele se 773. Minha filha, todas as obras de
volta para mim (Cânt 7,10). meu Filho Santíssimo e as minhas estão
cheias de misteriosa doutrina e ensinamento
para os mortais que a considerem com atenta
Vivência exterior entre Filho e Mãe reverência. O Senhor ausentou-se de mim
para que, procurando-o com aflição e lágri-
772. Encontrando matéria tão mas (SI 125,5) o encontrasse com alegria
próxima e bem disposta como o coração e fruto para meu espírito.
Quinto Livro - Capítulo 5

Quero que tu me imites neste criaturas que se apoderam dos bens ter-
mistério, buscando-o com amargura que restres e se entregam aos falsos deleites
te desperte incessante solicitude. Du- como se fossem sua felicidade e último
rante toda a vida não descanses em coisa destino.
alguma, até possui-lo para não mais Esta suma perversidade vai de en-
perdê-lo (Cant 3, 4), Para entenderes o contro à ordem estabelecida pelo Criador
desígnio do Senhor, adverte que sua in- querem os mortais, na vida transitória e
finita sabedoria cria as criaturas com ca-breve, gozar das coisas visíveis como se
pacidade para a eterna felicidade. Colo- fossem seu destino, quando deveriam de-
ca-as no caminho para alcançá-la, mas las usar só para alcançar e não perder o
na ausência e incerteza (Ecle 9, 2) para sumo Bem. Adverte, pois, caríssima, este
que, enquanto não chega a possuí-la, vi- risco da estultícia humana, e tem por falso
vam sempre solícitas e dolorosas. todo deleitável ao seu gozo e prazer (Ecle
Esta solicitude gera na criatura 2,2). Diz à satisfação sensível que se en-
contínuo temor e aversão ao pecado, a gana, que é mãe da estultice, que embriaga
única coisa que a pode fazer perder aquelao coração, que impede e destrói a ver-
felicidade eterna. Nesta disposição, não dadeira sabedoria. Vive sempre com
se deixa enredar pelas coisas visíveis e temor santo de perder a vida eterna, e não
terrenas, no meio do bulício da con- te alegres fora do Senhor até possuí-la.
vivência humana. O Criador vem am- Teme os perigos das relações hu-
pará-la neste cuidado, acrescentando à manas. Se Deus, por meio da obediência,
razão natural as virtudes da fé e espe- e para sua glória, te colocar nesta situação,
rança, estímulos do amor que procura e ainda que deves confiar na sua proteção,
encontra o destino final da criatura. nem por isso sejas remissa em te cuidares.
Além destas virtudes, e outras queNão te entregues à amizade e trato de
infunde no batismo, envia inspirações e criatura, o maior dos perigos para ti. O
auxílios para despertar a alma a não Senhor te deu temperamento reconhecido
esquecê-lo e a não se descuidar, enquanto e afetivo, para que tivesses facilidade em
carece de sua amável presença. Assim corresponder-lhe, e empregasses no seu
prossegue sua carreira até chegar ao alme- amor esse beneficio.
jado fim, onde encontrará a plena Se, porém, deres entrada ao amor
saciedade de sua aspiração e desejo (SI das criaturas, sem dúvida, te levarão longe
16, 15). do sumo Bem. Deste modo, perverterás a
ordem e as obras de sua infinita sabedoria,
e é indigno empregar o maior dom da
Engano das coisas visíveis natureza em objeto que não seja o mais
nobre que nela existe. Eleva-te acima da
774. Daqui entenderás a toipe ig- criação e de ti mesma (Tren 3,38); valo-
norância dos mortais. Poucos são os que riza as operações de tuas potências. Apre-
se detêm a considerar a ordem misteriosa senta-lhe o objeto nobilíssimo do Ser
de sua criação e justificação, e o sublime divino, o meu dileto Filho, teu esposo, o
desígnio das obras do Altíssimo. mais belo entre os filhos dos homens (SI
Deste esquecimento seguem-se 44,3), e ama-o de toda tua mente, alma e
tantos males como os que sofrem as coração.

32
CAPÍTULO 6
JESUS CONTINUA FORMANDO EM MARIA A IMAGEM E
DOUTRINA DA LEI EVANGÉLICA. VISÃO QUE MARIA
RECEBEU.
Protesto da Escritora Filho santíssimo. Foi escolhida, entre to-
das as criaturas, para imagem perfeita da
nova lei do Evangelho e de seu Autor. Se-
775. Nos capítulos 1 e 2 deste livro,
ria, em a nova Igreja, o padrão e único
comecei a tratar do assunto que neste e nos
seguintes continuarei. Faço-o com justo modelo por onde se formariam os demais
receio de minha balbuciante e pobre lin- Santos, frutos da redenção humana.
guagem e ainda mais da tibieza de meu Nesta obra, o Verbo humanado
procedeu como excelente artista que
coração, para tratar dos ocultos mistérios
que se realizaram entre o Verbo humanado domina a pintura em todas suas técnicas e
e sua Mãe santíssima, durante os dezoito modalidades. Entre todas suas obras, pro-
anos que estiveram em Nazaré. Foi o cura aprimorar uma com toda habilidade,
tempo desde a volta de Jerusalém, onde para servir de prova de seu mérito e ca-
disputara com os doutores, até os trinta pacidade, e ser o modelo de todas as que
anos da idade do Senhor, quando começou houver de executar. Não há dúvida que
sua pregação. toda santidade e glória dos santos foi obra
A margem deste pélago de mis- do amor de Cristo e de seus merecimentos
térios, sinto-me confusa e tímida, supli-(Ef 1,3; Jo 1,16). Todos foram obras per-
cando ao excelso Senhor, com íntimo feitíssimas de suas mãos, mas comparadas
afeto da alma, envie um anjo tomar a com a grandeza de Maria santíssima, pare-
pena, a fim de que o assunto não seja cem pequenas e borrões da arte, pois todos
prejudicado. Ou então, que Deus, pode- os santos tiveram alguns destes borrões
roso e sábio, fale por mim e me ilumine; (Jo 1,8).
encaminhe minhas potências, gover- Só esta viva imagem de seu
nando-as por sua divina luz; sejam elas Unigênito não os teve. A primeira
instrumento só de sua vontade e ver- pincelada em sua formação, foi mais pri-
dade, e nelas não tenham parte a fragili-morosa que os últimos retoques dos su-
dade humana e a limitação de uma igno- premos anjos e santos. Ela é o padrão de
rante mulher. toda a santidade e virtudes dos demais, e
o máximo onde pôde chegar o amor de
Cristo em pura criatura. A nenhum foi
Maria obra-prima de Cristo dada a graça e glória que Maria santíssima
não pôde receber, e Ela recebeu toda a que
776. Já disse acima ^ nos citados às outras não foi possível dar. Seu bendito
capítulos, como nossa grande Senhora foi Filho deu-lhe toda a que Ela pôde receber
a singular e primeira discípula de seu e que Ele pôde lhe comunicar.
Nn°714.

33
Quinto Li\ - Capítulo 6

A santidade da Virgem O livro dos sete selos


777. A diversidade dos santos e os 778. Cristo, nosso Redentor, co-
graus de sua santidade, em silêncio enal- meçou a realizar esta doutrinação à sua
tecem ao Artífice da santidade (SI 18,2). divina Mãe, depois que voltaram do Egito
Os menores realçam a grandeza dos a Nazaré, como fica dito (n° 713). Con-
maiores, e todos juntos gloríficam Maria tinuou sempre no ofício de mestre instru-
santíssima, ao serem imensamente su- indo-a, e seu poder divino iluminava-a
perados pela incomparável santidade da com novas inteligências sobre os mis-
Senhora. São bem-aventurados na medida térios da Encarnação e Redenção.
em que a refletem e participam de sua per- Depois que voltaram de Jerusa-
feição. lém, quando o Menino Deus tinha doze
Se Maria puríssima é a suprema anos, recebeu a grande Rainha uma visão
criatura em que foi sublimada a cate- da divindade. Não foi visão intuitiva
goria dos justos, pela mesma razão Ela senão por espécies, mas muito elevada e
veio a ser como o instrumento e o motivo cheia de novas influências da divindade e
da glória que, desta elevação, recebem segredos do Altíssimo. Conheceu, em par-
todos os Santos. Compare-se o tempo ticular, os decretos da mente e vontade do
que Cristo nosso Senhor empregou, en- Senhor, referentes à lei da graça que seria
tre formar sua Igrej a e este retrato de sua fundada pelo Verbo humanado (Ef 2,14
santidade, cujo primor só de muito longe e 15; Mt 4, 17), e o poder que para isto
podemos vislumbrar. Para fundar e en- lhe era dado (Mt 28,18) no consistório da
riquecer a Igreja, chamar os apóstolos, beatíssima Trindade.
pregar ao seu povo, estabelecer a nova Viu que, para este fim, o eterno
lei do Evangelho, bastou a pregação de Pai entregava a seu Filho feito homem
três anos. Nesse prazo cumpriu, su- aquele livro a que se refere São João
perabundantemente, a obra que lhe en- (Ap 5,1). Fechado com sete selos, não
comendara o Pai eterno (Jo 6 a v.38), havia no céu e na terra quem o abrisse
justificou e santificou todos os cren- soltando os selos, até que o Cordeiro o
tes. abriu com sua paixão, morte, doutrina
Para gravar na Mãe santíssima a e merecimentos. Assim descobriu aos
imagem de sua santidade, não só empre- homens o segredo daquele livro que
gou três anos, mas três vezes dez. Em consistia em toda a nova lei do Evan-
todo esse tempo trabalhou-a com o gelho e na Igreja que Ele estabeleceria
poder de seu divino amor, sem inter- no mundo.
rupção. Cada hora acrescentava-lhe
graças a mais graças, favores a outros
favores, benefícios a benefícios, santi-
dade a santidade. Maria, a primeira cristã
Passado esse tempo Ela ainda pôde 779. Conheceu a divina Senhora
ser retocada com o que recebeu depois da como a Santíssima Trindade decretava
subida de seu Filho santíssimo ao céu, que, de toda raça humana, Ela fosse a
como direi na terceira parte. primeira a ler e entender aquele livro.
Turba-se a razão, desfalece a in- Seu Unigênito lho abriria e explicaria in-
teligência á vista desta grande Senhora. teiramente, para Ela praticar quanto nele
Foi escolhida como o sol (Cânt 6,9) e sua se continha. Acompanhando o Verbo, a
refulgência não pode ser captada por olhos quem dera a natureza, ocuparia o
terrenos, nem de outra criatura. legítimo lugar imediato a Ele. Seria a

34
Quinto Livro - Capítulo 6

placência, por se tratar


de sua Mãe, enquanto o
eterno Pai se dirigia à
puríssima Senhora, di-
zendo-lhe;

Maria, a mais
perfeita imagem de
Cristo

780. Esposa e
pomba minha, prepara
teu coração para que,
conforme nosso bene-
plácito, te façamos par-
ticipante da plenitude
de nossa ciência, e para
que seja escrito em tua
alma o Novo Testa-
mento e lei santa de
meu Unigênito.
Afervora teus
desejos e aplica tua
mente no conheci-
mento e execução de
nossa doutrina e pre-
ceitos. Recebe os dons
de nosso liberal poder
e amor por ti.
Para nos ofere-
cer digna retribuição
adverte que, por dis-
posição de nossa infi-
J e s u s instrue sua Mãe Ssma. nita sabedoria, deter-
minamos que meu Uni-
gênito, na humanidade
pnmeira a palmilhar as sendas que, que de Ti recebeu, tenha numa pura cria-
descendo do céu, seu Filho revelara tura a sua imagem e semelhança no mais
naquele livro, sendas pelas quais osmor- perfeito grau possível. Seja como o fruto
taisdevenamsubirdaterraaDeus.N^la, proporcionado de seus merecimentos e,
sua verdadeira Mãe, seria depositado neste fruto seu santo nome seja glorificado
aqueleTestamento. e exaltado com digna correspondência.
Viu como o Filho do eterno Pai e Atende, pois, filha e eleita minha,
seu, aceitava aquele decreto com grande que se pede grande disposição de tua
beneplácito e agrado. A humanidade san- parte. Prepara-te para as obras e mistérios
tíssima o acolheu, com indizível com- de nossa poderosa destra.

35
Quinto Livro - Capítulo 6

simo arquivo de Maria Santíssima Se


Oração de Maria nhoranossa.
781. Respondeu a humilíssima
Senhora: Senhor eterno e Deus imenso,
em vossa divina e real presença estou Maria oferece-se como discípula e
prostrada, conhecendo na visão de vosso serva
ser infinito, o meu ser que é o mesmo nada.
Reconheço vossa grandeza e minha 782. Saindo toda renovada desta
pequenez. Vejo-me indigna do nome de visão estática, dirigiu-se à presença de seu
vossa escrava, e pela benignidade com Filho santíssimo, e prostrada a seus pés,
que vossa clemência me olhou, ofereço o lhe disse: Senhor meu, minha luz e meu
fruto de meu ventre, vosso Unigênito. Su- Mestre, eis aqui vossa indigna Mãe
plico-lhe que responda por sua indigna preparada para o cumprimento de vossa
Mãe e serva. santa vontade. Recebei-me de novo por
Preparado está meu coração (SI discípula e serva, e tomai em vossa
56,8) que desfalece de gratidão por vos- poderosa mão o instrumento de vossa sa-
sas misericórdias e se desfaz em afetos bedoria e querer. Executai em Mim o
(SI 72, 26) por não poder satisfazer a beneplácito do eterno Pai e vosso.
veemência de seus anelos. Se achei Recebeu o Filho santíssimo a sua
graça a vossos olhos (Est 7,3), falarei, Mãe com majestade e autoridade de mes-
Senhor meu, em vossa presença só para tre fazendo-lhe uma admoestação altís-
pedir e suplicar à vossa real Majestade sima. Com grande ponderação e sólidos
que realizeis em vossa escrava tudo o argumentos, instruiu-a sobre o valor e pro-
que pedis e ordenais, pois ninguém o fundidade que continham as misteriosas
pode fazer, senão vós mesmo, Senhor e obras que o Pai eterno lhe encomendara
Pai altíssimo. Se, de minha parte pedis sobre a redenção humana e a fundação da
o coração livre e submisso, Eu vô-lo nova Igreja e lei evangélica que na divina
ofereço para padecer e obedecer à vossa mente estava determinada.
vontade até a morte. Declarou-lhe de novo como, na re-
A divina Princesa foi logo re- alização de tão altos e ocultos mistérios,
pleta de novas influências da divin- Ela seria sua companheira e coadjutora,
dade, iluminada, purificada, espiritu- estreando as primícias da Igreja. Para isto,
alizada e preparada com maior pleni- a puríssima Senhora deveria acompanhá-
tude do Espírito Santo, do que até lo em seus trabalhos, até a morte de cruz,
aquele dia. seguindo-o com ânimo preparado, cora-
Este favor foi muito memorável joso, constante, invencível e generoso.
para a Imperatriz das alturas. Todos Deu-lhe celestial doutrina preparatória
eram elevados, sem semelhantes nas de- para depois receber toda a lei evangélica,
mais criaturas, parecendo que cada um compreendê-la, penetrá-la, e praticar com
atingia o insuperável. Não obstante, na altíssima perfeição todos seus preceitos e
participação das divinas perfeições não conselhos.
há limites, se não faltar capacidade na Outros grandes mistérios revelou
criatura. Como esta era tão grande na o Infante Jesus, nesta ocasião, à sua Mãe
Rainha do céu, e crescia com os mesmos santíssima, sobre as obras que realizana
favores, cada um a dispunha para outro no mundo. Para tudo se ofereceu a divina
maior. Não encontrando óbice, o poder Senhora com profunda humildade, obe-
divino derramava todos seus tesouros diência, reverência, gratidão e veementís-
para depositá-los no seguro e fidelís- simo amor.

36
Quinto Livro - Capítulo 6
DOUTRINA QUE ME DEU A Disposições para imitar Maria
DIVINA SENHORA.
784. Vem, pois, minha filha, vem
em meu seguimento. Para me imitares
Maria, síntese da perfeição conforme desejo, e seres iluminada no en-
tendimento, elevada no espírito, prepa-
783. Minha filha, muitas vezes no rada no coração, afervorada na vontade,
decurso de tua vida, e ainda mais agora, dispõe-te com a liberdade que teu Esposo
enquanto escreves a minha, tenho te pede. Abstrai-te das coisas terrenas e
chamado e convidado para me seguires visíveis, deixa todo gênero de criaturas,
pela maior imitação que te for possível, renuncia a ti mesma (Mt 16,24),fecha os
com o auxílio da divina graça. Encarrego- sentidos às falsas fabulações do mundo e
te novamente desta obrigação, depois que do demônio (SI 39,5). Nas suas tentações
a dignaçâo do Altíssimo te concedeu tão advirto-te a não te embaraçares nem te
clara luz e inteligência sobre o que seu afligires muito, porque se ele consegue
poder operou em meu coração, nele fazer-te parar no caminho, já terá obtido
gravando toda a lei da graça e doutrina de grande vitória, e não chegarás a ser forte
seu Evangelho. na perfeição. Atende, pois, ao Senhor,
Conheceste também o efeito que cobiçoso da beleza de tua alma (SI 44,
este benefício produziu em mim e o modo 12). Ele é liberal para concedê-la, pode-
como agradeci e correspondi, na perfeitís- roso para te confiar os tesouros de sua
sima imitação de meu Santíssimo Filho e sabedoria, e solícito para levar-te a re-
Mestre. Deves considerar esta ciência cebê-los.
como um dos maiores favores que o Se- Deixa-o gravar em teu peito sua
nhor te concedeu. Nela encontrarás, como divina lei evangélica. Nela estuda con-
num claríssimo espelho, a síntese da maior tinuamente, medita-a dia e noite (SI 1,
santidade e elevada perfeição. Serão mani- 2), seja alimento para tua memória, vida
festas á tua mente as sendas da divina luz de tua alma, néctar de teu gosto espiri-
(Prov 4, 18) para caminhares com segu- tual. Assim conseguirás o que o Altís-
rança, livre das trevas da ignorância (Jo' simo e eu queremos de ti, e que tu tam-
12,35) que envolve os mortais. bém desejas.

37
Quinto Livro - Capítulo 6
CAPITULO 7
EXPLICAÇÃO MAIS EXPRESSA SOBRE O MODO E A
FINALIDADE DO SENHOR AO INSTRUIR MARIA
SANTÍSSIMA.
A ordem das obras de Deus comunicação e privilégio, parecia outro
Cristo (Gal 4,4).
785. Qualquer causa que age com Entre Filho e Mãe realizou-se
liberdade e conhecimento de seus atos, divino e singular comércio: Ela lhe deu a
deve ter para eles algum fim, razão ou mo- forma e o ser da natureza, e o Senhor deu
tivo. Ao conhecimento da finalidade se- a Ela outro ser espiritual de graça, com
gue-se a consulta e escolha dos meios para semelhança ao de sua humanidade. Os
alcançá-la. Esta ordem não pode faltar nas fins que o Altíssimo teve em vista foram
obras de Deus (SI 103, 24), suprema e dignos de tão rara maravilha, a maior de
primeira causa de infinita sabedoria, com suas obras em pura criatura.
a qual dispõe e executa todas as coisas, de Já falei > ' um pouco sobre a con-
uma extremidade a outra, com fortaleza e veniência da grandeza de Maria para a
suavidade, como diz o Sábio (SI 8,1). Não honra de Cristo nosso Redentor e para o
criou nenhuma para a morte, mas para que crédito da eficácia de sua doutrina e mere-
todos tenham vida (Sab 1,13 e 14). cimentos. Era como necessário que em
Quanto mais admiráveis as obras sua Mãe santíssima se visse a santidade e
do Altíssimo, tanto mais singulares e ele- pureza da doutrina de Cristo nosso Se-
vados são os fins que nelas pretende a¬ nhor, seu autor e mestre; a eficácia de sua
tingir (Prov 16,4). Ultimo fim de todas é lei evangélica e do fruto da Redenção. E
a glória de Si mesmo e sua manifestação. tudo devia reverter na suma glória, devida
Isto, porém, é ordenado, por sua infinita ao Senhor. Tudo isto achou-se em sua
ciência, como por uma cadeia de inúmeros Mãe, com maior intensidade e perfeição
anéis que, sucedendo-se uns aos outros, do que em todo o resto da santa Igreja e
chegam da ínfima criatura até à suprema seus predestinados.
e mais imediata a Deus, autor e fim uni-
versal de todas (Apoc 22,13).
Cristo novo Adão, Maria nova Eva
Maria, imagem de Cristo 787. O segundo fim que o Senhor
visou nesta obra, refere-se também aos
786. Toda a excelência da santi- seus mistérios de Redentor. Nossa repa-
dade de nossa grande Senhora se encerra ração deveria corresponder à criação do
em tê-la Deus feito retrato ou imagem viva mundo, e o remédio do pecado à origem
de seu Filho santíssimo. Era-lhe tão se- deste.
melhante na graça e operações que, por O primeiro Adão (1 Cor 15, 47)
1 - Nos capítulos primeiro, segundo e sexto rf 713, 730, 782.

39
Quinto Livro - Capítulo 7

teve por companheira na culpa a nossa de todos, e o fim imediato ao qual todos
mãe Eva que o induziu e ajudou a cometê- os outros fatos deveriam se referir.
la. Nele se perdeu todo o gênero humano Para seguir esta ordem e pro-
do qual era a cabeça. porção, era conveniente que a divina Sa-
Convinha, portanto, que na bedoria, entre todas as criaturas, encon-
reparação de tão grande ruína, o segundo trasse alguma adequada a preencher seu
e celestial Adão, Cristo nosso Senhor, propósito de vir a ser nosso mestre e nos
tivesse por companheira e coadjutora na conferir a dignidade de filhos de sua dou-
Redenção a sua Mãe puríssima. Ela iria trina e graça (Gai 4,5).
concorrer e cooperar no remédio, ainda Se Deus não houvesse criado Ma-
que só em Cristo, nossa cabeça (Col 1,18; ria santíssima, predestinada entre todas as
1 Tim 2, 5) estivesse a virtude e a ade- criaturas com a máxima santidade e se-
quada causa da geral redenção. melhança da humanidade de seu Filho
Para que este mistério se realizasse santíssimo, faltaria a Deus, no mundo, a
com a dignidade e proporção que con- justificativa para, a nosso grosseiro modo
vinha, foi necessário que se cumprisse en-
tre Cristo nosso Senhor e Maria santís-
sima, o que disse o Altíssimo na criação
dos primeiros pais: Não é bom que o
homem fique só; façamos-lhe alguém se-
melhante que o ajude (Gn 2,18).
Assim o fez o Senhor com seu
poder, de tal modo que falando já pelo
segundo Adão, Cristo, pôde dizer: Eis o
osso de meus ossos, e a carne de minha
carne; chamar-se-á varonil porque foi for-
mada do varão (Gn 2, 23). Não me de-
tenho em dar maior explicação deste sa-
cramento, pois salta aos olhos da razão ilu-
minada com a luz divina da fé, a seme-
lhança entre Cristo e sua Mãe santíssima.

Cristo e Maria, as duas tábuas da


nova Lei
788. Houve ainda outro motivo
para este mistério, e apesar de o citar aqui de falar, dar razão à sua determinação de
como terceiro foi o primeiro na intenção, se fazer homem, pela ordem e modo que
porque se refere á etema predestinação de sua onipotência demonstrou.
Cristo, Senhor nosso, conforme foi dito Pode-se comparar este fato com o
na Ia parte®. que aconteceu a Moisés e às tábuas da lei
O Verbo eterno se encarnaria e escritas pelo dedo de Deus (Ex 31, 18).
viria ao mundo para ser modelo e mestre Ao ver o povo idolatrar, quebrou-as (Ex
das criaturas. Este foi o primeiro fim do 32, 19) julgando os desleais, indignos
prodígio da encarnação,fimque deveria daquele benefício. Depois, porém, a lei foi
encontrar correspondência proporcionada escrita em outras tábuas fabricadas por
à sua grandeza. Tal prodígio era o maior mãos humanas (Ex 34. 1), e estas per-
2-n°39

40
Quinto Livro - Capítulo 7

maneceram no mundo. Assim também, as compensa correspondente que rece-


primeiras tábuas formadas pela mão do beriam.
Senhor (Adão e Eva), quebraram-se com
o primeiro pecado. Nao teríamos a lei
evangélica se não houvesse outras tábuas, Conhecimento de Maria sobre os
Cristo e Maria (Lc 1, 38), formadas por Sacramentos, a doutrina e a Sagrada
outro modo: Ela, pelo comum e ordinário, Escritura
e Ele pela cooperação da vontade e subs-
tância de Maria. Se esta grande Senhora 790, Conheceu também os Sacra-
não tivesse cooperado com sua dignidade mentos que seu Filho santíssimo queria
a preencher a finalidade desta lei, nós, os instituir em sua santa Igreja; a eficácia
demais mortais, teríamos ficado sem ela. que teriam, os efeitos que produziriam
em quem os recebesse, segundo as di-
versas disposições de cada um (Jo 1,16),
Conhecimento de Maria sobre a e como tudo procedia da santidade e
Igreja méritos de seu Filho santíssimo, nosso
reparador.
789. Todos estes sublimes fins, Recebeu ainda, clara notícia de
Cristo nosso bem, tinha presentes, na toda a doutrina que Cristo iria pregar e
plenitude de sua divina ciência e graça, ensinar; das antigas e novas Escrituras
enquanto instruía sua Mãe beatíssima nos com todos os mistérios que contém sob
mistérios da lei evangélica. os quatro sentidos: literal, moral,
Para que não só compreendesse a alegórico e anagógico; de tudo quanto i
todos, mas também os diferentes modos os expositores escreveriam, e ainda
de entender a lei, usava o Senhor diferen- muito mais, entendeu a divina dis-
tes modos de ensinar. Assim a discípula cípula.
ficava tão sábia que poderia mais tarde, Conheceu que esta ciência lhe era
ser consumada mestra e mãe da sabedoria dada para que fosse mestra da santa I grej a,
(Ecli 24, 24). Umas vezes instruía-a por como realmente o foi na ausência de seu
meio de visão abstrativa da divindade que, Filho santíssimo após sua ascensão aos
nesta época, recebeu mais freqüente- céus. Aqueles fiéis, filhos recém-nascidos
mente. Outras vezes, por visão intelectual, (1 Ped 2,2) e regenerados na graça, teriam
que lhe permanecia mais habitualmente, na divina Senhora mãe amorosa que os
embora menos clara. criaria com o leite suavíssimo de sua dou-
Tanto numa como noutra, conhe- trina, alimento apropriado aos pequeni-
cia expressamente toda Igreja militante, nos.
com a ordem e sucessão que teve, desde Foi assim que a beatíssima Se-
o princípio do mundo até a Encarnação. nhora, nestes dezoito anos que esteve com
Depois, a que teria, desde esse tempo até seu Filho, recebeu e como assimilou a
o fim do mundo e na futura bem-aven- substância evangélica, a doutrina de
turança. Nesta notícia tão clara, distinta e Cristo nosso Salvador, recebendo-a dire-
vasta conhecia todos os santos e justos; os tamente do próprio Senhor. Tendo-a sa-
que mais se distinguiam na Igreja: os boreado e experimentado sua negociação
Apóstolos, Mártires, Patriarcas dos insti- (Prov 31, 18),. dela extraiu o doce ali-
tutos religiosos, Doutores, Confessores e mento com que criar a primitiva Igreja que
Virgens. Nossa Rainha conhecia-os cada era, em seus fiéis, recém-nascida e inca-
um em particular, com suas obras, seus paz do manjar sólido e forte da doutrina,
méritos, a graça que alcançariam e a re- das Escrituras e da perfeita imitação de

41
Quinto Livro - Capítulo 7

seu Mestre e Redentor. Como sobre este DOUTRINA QUE ME DEU A


ponto falarei mais na terceira parte®, seu DIVINA MÃE E SENHORA NOSSA.
lugar próprio, não me alongo mais agora.
Deus quer que todos se salvem
Imensa a sabedoria da Virgem
792. Minha filha, a bondade e
791. Além deste ensinamento clemência do Altíssimo que, por si
através de visões, tinha a grande Senhora mesma, deu e dá o ser a todas as criaturas,
o de seu Filho santíssimo em sua humani- e a nenhuma nega sua grande providência,
dade, nos dois modos de que já tenho é fidelíssima em conceder sua luz a todas
falado muitas vezes. as almas (Jo 1,9). Por ela podem chegar
O primeiro era a visão do espelho a conhecê-lo e se colocar no caminho da
de sua alma santíssima e de suas ope- eterna vida, a não ser que a própria alma
rações interiores, que vinha a ser de certo crie impedimento e obscureça esta luz por
modo, a mesma ciência que Ele possuía suas culpas, abandonando a conquista do
de todas as coisas. Neste espelho era in- reino dos céus (Mt 11,12).
formada dos desígnios do Redentor, Com as almas, porém, que por se-
artífice da santidade, e dos decretos de cretos desígnios chama à sua Igreja,
quanto realizaria na Igreja, pessoalmente mostra-se mais liberal. No batismo in-
e por seus ministros. funde-lhes a graça com outras virtudes
O outro modo era pela instrução chamadas essencialmente infusas e que a
oral, pois o Senhor conferia com sua digna criatura não pode adquirir por si mesma.
Mãe todas as coisas que n 'Ele e na divindade Outras são infusas acidentalmente, por-
lhe havia manifestado. Tudo quanto se que poderiam ser adquiridas com obras.
referia à Igreja, desde o mais insignificante O Senhor, porém, as antecipa para que a
até o mais importante, comunicava a Ela. E alma se encontre mais pronta e devota em
não apenas isto, mas também os fatos que guardar sua lei.
atingiriam a lei evangélica na sucessão dos A outras almas, além desta luz da
tempos e no contato com a gentilidade e sei- fé comum, acrescenta sua benignidade
tas falsas. De tudo tomou ciente a sua divina especiais dons sobrenaturais de maior in-
discípula e nossa mestra. Antes que o Se- teligência e virtude, para conhecer e prati-
nhor começasse sua pregação, Maria santís- car os mistérios da lei evangélica. Neste
sima já estava treinada em sua doutrina, favor Ele se mostrou contigo mais liberal
praticando-a com suma perfeição. que a muitas gerações, o que te obriga a
A plenitude das obras de nossa te distinguires no devido amor e corres-
grande Rainha correspondia a de sua pondência, permanecendo sempre humi-
imensa sabedoria e ciência. Esta foi tão lhada e apegada ao pó.
profunda e com espécies tão claras que,
assim como nada ignorava, tão pouco se
enganou nem nas espécies, nem nas pala- O demônio quer a perdição do homem
vras. Jamais lhe faltaram as expressões
necessárias; não empregou uma só supér- 793. Para que em tudo fiques ins-
flua; não trocou uma por outra; nem teve truída, quero te mostrar, com cuidado e
necessidade de pensar e recordar, para amor de Mãe e mestra, a astúcia de Satanás
falar e explicar os mistérios mais arcanos para impedir esta ação do Senhor.
das Escrituras, nas ocasiões em que foi ne- Desde a hora em que as criaturas
cessário fazê-lo na primitiva Igreja. começam a ter uso de razão, cada uma e
3 - n° 106 c seguintes.
42
Quinto Livro - Capitulo 7

seguida por muitos demônios. Eles per- sobre a alma. Tendo-se ela sujeitado
manecem atentos e vigilantes, e no mo- quando tinha menos c menores culpas, de-
mento em que as almas deviam elevar sua duzem eles que o fará mais facilmente
mente ao conhecimento de Deus e começai* quando, sem temor, vai cometendo outras
a produzir os atos das virtudes infusas no mais numerosas e mais graves. Incitam-na
batismo, os demônios, com incrível furor e à louca ousadia de as cometer, porque cada
astúcia, procuram arrancar-lhes esta divina pecado diminui as forças espirituais da
semente. Se não o conseguem, procuram criatura e a vai sujeitando ao demônio.
impedir que dê fruto, inclinando-as a atos Este a subjuga na maldade e miséria de tal
viciosos, inúteis ou pueris. Com tal iniqüi- modo, que acaba por oprimi-la sob os pés
dade, distraem as criaturas para não exerci- de sua iniqüidade, e a leva onde quer, de
tarem a fé, esperança e outras virtudes. Não precipícios a despenhadeiros, de abismo
se lembrando que são cristãos, não cogitam a abismo (SI 41,8). Merecido castigo de
de conhecer a Deus, os mistérios da re- quem se lhe sujeitou pelo primeiro pe-
denção e a vida eterna. cado. Por este sistema, Lúcifer tem der-
Além disto, o mesmo inimigo ins- rubado inúmeras almas, e todos os dias as
pira aos pais grosseira negligência, cego leva ao abismo, para ostentação de sua so-
amor carnal pelos filhos, e incita os mes- berba contra Deus (SI 73,23).
tres a outros descuidos. Uns e outros não
advertem na má educação que ministram
a seus filhos e educandos. Deixam que se Memória dos novíssimos
depravem com a aquisição de muitos hábi-
tos viciosos, perdendo as virtudes e boas 794.b. Pelo mesmo processo, o
inclinações. Deste modo, vão trilhando o demônio estabeleceu no mundo sua tira-
caminho da perdição. nia e o esquecimento dos novíssimos do
homem: morte, juízo, inferno, paraíso.
Tal juventude, tal velhice Precipitou tantos povos de abismo em
abismo, até fazê-los cair nos erros tão ce-
794. Todavia, o piedosíssimo Se- gos e bestiais, como os de tantas heresias
nhor não se esquece de acudir a este perigo. e falsas seitas dos infiéis.
Renova a luz interior com novos auxílios e Cuidado, pois, minha filha, com
santas inspirações, com a doutrina da Santa tão formidável perigo, e nunca saiam de
Igreja, através de seus pregadores e minis- tua memória a lei de Deus (SI 118, 92),
tros, com o uso e eficaz remédio dos Sacra- seus preceitos e mandamentos, as ver-
mentos. Com estes e outros meios, procura dades católicas e doutrinas evangélicas.
fazê-los voltar ao caminho da salvação. Não passe dia algum sem neles meditares
Se, com tantos remédios, poucos longamente, e aconselha o mesmo a tuas
voltam à saúde espiritual, a causamais grave religiosas e a todos que te ouvirem.
para não recuperá-la é a tirania dos vícios e Seu adversário, o demônio (1
depravados costumes adquiridos na infân- Ped 5, 8), trabalha e se esforça por
cia. E o que afirma a verdadeira sentença do obscurecer o entendimento e fazê-lo
Deuteronômio (33,25): "Conforme os dias esquecer a divina lei. Sem o con-
da juventude, assim será a velhice." curso do entendimento, a vontade,
potência cega, não produzirá os atos da
O progresso da iniqüidade justificação que é alcançada com o exer-
cício de fé viva, esperança firme, amor
794.a. Com isto os demônios vão fervoroso e coração contrito e humilha-
cobrando mais ânimo e tirânico domínio do (SI 50,19).

43
Quinto Livro - Capitulo 7

44
CAPITULO 8
EXPLICAÇÃO DO MODO COMO A GRANDE RAINHA
PRATICAVA A DOUTRINA DO EVANGELHO ENSINADA
POR SEU FILHO SANTÍSSIMO.
Atos de Jesus adolescente Preenchia-o com oração, em instruí-la e
em conversar com Ela sobre a solicitude
795, Crescendo em anos e obras, que, como bom pastor (Jo 10,14), devo-
nosso Salvador já ia transpondo a idade in- tava a seu querido rebanho. Falava tam-
fantil, e sempre realizando o que o eterno Pai bém dos méritos que desejava conquistar
lhe encomendara em benefício dos homens. para salvá-lo e dos meios que determinara
Não pregava publicamente, nem realizava, na aplicar para isso.
Galiléia, tão claros milagres como faria de- A prudentíssima Senhora tudo ou-
pois, e como fizera antes no Egito. Todavia, via e cooperava com sua divina sabedoria
oculta e dissimuladamente, sempre operava e amor. Acompanhava-o nos ofícios de
grandes influências na alma e no corpo de pai, irmão, amigo, mestre, advogado, pro-
muitos. Visitava os pobres e enfermos; con- tetor e redentor do gênero humano. En-
solava os tristes e aflitos; a estes e a outros trelinham estas conferências por meio da
muitos, conduzia à salvação eterna de suas palavra ou pelos atos interiores, mediante
almas. Esclarecia-os com conselhos, movia- os quais Filho e Mãe também se falavam
os com interiores inspirações e favores para e entendiam.
que se convertessem a seu Criador, afas- Dizia-lhe o Filho santíssimo: Mi-
tando-se do demônio e da morte. nha Mãe, quero fundar a Igreja sobre o
Estes benefícios eram contínuos e fruto de minha vida e obras. Este fruto será
para fazê-los saía muitas vezes de casa. uma doutrina e ciência que, pela fé e a
Ainda que os favorecidos sentissem que prática, se tornará vida e salvação para os
eram renovados pela presença e palavras de homens. Será uma lei santa, fecunda, e
Jesus, ignorando o mistério, calavam-se, poderosa para extinguir o. mortal veneno
não sabendo a que atribuir o fato, a não ser que Lúcifer derramou no coração humano
ao próprio Deus. A grande Senhora do pelo primeiro pecado.
mundo conhecia estes prodígios no espelho - Quero que, por meio de meus pre-
da alma santíssima de seu Filho, eporoutros ceitos e conselhos, os homens se espiritu-
meios. Quando estavam juntos, prostrada a alizem e se elevem à minha participação
seus pés, adorava-o e lhe agradecia por tudo. e semelhança; sejam depositários de meus
tesouros enquanto viverem nà terra, é de-
pois cheguem à participação de minha
Conferências entre Jesus e Maria eterna glória. Quero entregar ao mundo a
lei que dei a Moisés, renovada e aper-
796. O resto do tempo, o Menino feiçoada com nova luz e eficácia, consti-
santíssimo permanecia com sua Mãe. tuída por preceitos e conselhos.

45
Quinto Livro - Capítulo 8

Maria, arquivo da graça mestra expondo a mesma doutrina sem


usar as palavras que eles empregaram.
797. Todas estas intenções do Conheceu também que esta ciên-
Mestre da vida, sua divina Mãe conhecia cia era a cópia da ciência de Cristo pela
com profundíssima ciência, e com igual qual os Evangelhos seriam escritos, e fi-
amor as acolhia, venerava e agradecia em cariam depositados em sua alma, como as
nome de toda a raça humana. tábuas da lei na arca do testamento (Heb
À medida que o Senhor ia mani- 9,4).
festando cada um destes grandes sacra- Seriam os legítimos originais para

mentos, a Virgem ia conhecendo a eficácia todos os santos e justos da lei da graça


que Jesus daria a eles, à lei e à doutrina do copiarem a santidade, e ficariam deposi-
Evangelho. Sabia os efeitos que produ- tados no arquivo da graça, Maria santís-
ziriam nas almas que guardassem essa sima.
doutrina e o prêmio que lhes correspon-
deria. E, antecipadamente, agiu como se
tudo praticasse no lugar de cada criatura. A samidade da Virgem ultrapassou a
Conheceu, expressamente, os qua- de todos os santos
tro Evangelhos com as próprias palavras
e mistérios com que os Evangelistas os 798. Seu divino Mestre fez-lhe
escreveriam. Entendeu pessoalmente a compreender também que tão raros fa-
doutrina de todos, porque sua ciência ex- vores lhe acarretava a obrigação de prati-
cedia a dos escritores. Poderia ser sua car toda a doutrina com suma perfeição,

46
Quinto Livro - Capítulo 8

em vista dos altíssimos fins que Ele pre- nenhuma criatura é capaz de compreender
tendia. até onde chegava a ciência e inteligência'-
Se fôssemos aqui narrar quão da Mãe da sabedoria, sobre a doutrina de
adequada e plenamente assim o cum- Cristo. E o que se chega a compreender
priu nossa grande Rainha e Senhora, ultrapassa, os termos e palavras que
seria necessário contar neste capítulo usamos.
toda sua vida, pois ela foi a suma do Dêmos o exemplo da doutrina da-
Evangelho, copiada de seu próprio quele primeiro sermão que o Mestre da
Filho e Mestre. vida fez a seus discípulos, na montanha
Lembremo-nos de quanto esta (Mt 6, 1). Nele encerrou a suma da per-
doutrina produziu nos Apóstolos, Már- feição evangélica na qual fundava sua
tires, Confessores, Virgens e demais San- Igreja, declarando bem-aventurados os
tos e justos que existiram e existirão até o que a seguirem.
fim do mundo. A não ser Deus, ninguém
o poderia descrever e muito menos com-
preender. Bem-aventurados os pobres
Consideremos, agora, que todos os
santos e justos foram concebidos em pe- 800. Bem-aventurados - disse o
cado, apresentaram algum óbice à santi- Mestre e Senhor (Mt 4,3) - os pobres de
dade. Não obstante terem crescido na vir-espírito, porque deles é o reino dos céus.
tude, santidade e graça, sempre tiveram Este foi o primeiro e sólido fundamento
alguma falha. Em nossa divina Senhora, de toda a vida evangélica. Os apóstolos e
porém, nunca houve estas lacunas e min- nosso Pai São Francisco a compreen-
guantes da santidade (Rm 5, 12; Uo 1, deram altamente, mas só Maria santíssima
8). Só Ela foi matéria plenamente ade- chegou a penetrar e avaliar a grandeza da
quada, sem resistência à atividade do pobreza de espírito. E, assim como a en-
poder divino e de seus dons. Sem impedi- tendeu, a praticou.
mento nem oposição, recebeu a impetuosa Não entrou em seu coração ima-
torrente da divindade (SI 45,5) comuni- gem de riquezas temporais, nem sentiu
cada por seu próprio Filho e Deus ver- tal inclinação. Amando as coisas como
dadeiro. obras de Deus, afastava-as quando
Daqui entenderemos, que só na serviam de embaraço ao amor divino.
Usou-as parcamente e só enquanto a
clara visão do Senhor na felicidade eterna,
chegaremos a conhecer, o quanto nos for auxiliavam a glorificar o Criador. Sendo
possível, a santidade e excelência desta Rainha de toda a criação, admirável e
maravilha de sua onipotência. perfeitíssima foi sua pobreza. Tudo isto
é verdade, mas ainda é muito pouco para
expressar o quanto compreendeu, apre-
Incompreensível a ciência de Maria ciou, e praticou nossa grande Senhora a
pobreza de espírito, primeira das bem-
799. E agora, ao querer explicar, aventuranças.
mesmo em geral sem descer a por-
menores, um pouco do que me foi mani-
festado, não encontro termos para o Bem-aventurados os mansos,
dizer. Nossa grande Rainha e Mestra bem-aventurados os que choram
guardava os preceitos e conselhos
evangélicos de acordo com a profunda 801. Segunda bem-aventurança: -
inteligência que deles recebera. Ora, Bem-aventurados os mansos, porque ele$

47
Quinto Livro - Capitulo h
possuirSo a terra, Nesta doutrina c sua Bem-aventurado* os que tem fome e
prática, com sua mansidão amcnissima, sede de justiça. Bem-aventurados os
excedeu Maria santíssima não só a todos misericordiosos.
os mortais, como se di/. de Moisés (Nm
12,3) em relação a seus contemporâneos, 802. Conheceu nossa divina Se-
mas aos mesmos anjos e serafins. Na nhora 0 mistério da fome c da sede de
carne mortal, esta inocentíssima pomba, justiça (Mt 5, 6). Sentiu-a mais inten-
teve seu interior e potências mais invul- samente do que 0 fastio que dela tiveram
neráveis à ira e perturbação, do que os e terão todos os inimigos dc Deus.
espíritos que não têm sensibilidade como Chegando ao cume da justiça c santidade,
nós. Foi, em grau inexplicável, senhora sempre esteve sedenta dc fazer mais por
de suas faculdades espirituais c corporais ela. A esta sede correspondia a plenitude
e também do coração de todos com quem da graça com que a saciava o Senhor,
tratava. De todos os modos, possuía a dirigindo-lhe a torrente dos tesouros c
terra que se sujeitava à seu amável suavidade da divindade.
domínio. A quinta bem-aventurança dos
Terceira bem-aventurança: (Mt 5, misericordiosos que alcançarão dc Deus
5) - Bem-aventurados os que choram, por- misericórdia (Mt 5,7), teve-a em grau tão
que serão consolados. Entendeu Maria nobre c excelente, que só Ela pode mere-
santíssima, mais do que qualquer língua cer o nome dc Mãe de misericórdia, assim
possa explicar, a excelência das lágrimas, como Deus é chamado Pai das mi-
seu valor, como também a estultice e sericórdias (Cor 1,3). Sendo Ela inocen-
perigo do riso e alegria mundana (Prov tíssima, sem culpa alguma para suplicar
14,13). Quando os filhos de Adão, con- misericórdia, teve-a em supremo grau por
cebidos no pecado original e depois man- todo o gênero humano e com ela o socor-
chados pelos pecados atuais, se entregam reu (Is 30,18). Conhecendo, com altís-
ao riso e deleite, esta divina Mãe, sem sima ciência, a excelência desta virtude,
culpa alguma, sentiu que a vida mortal era jamais a negou nem negará a quem lha
para chorar a ausência do santíssimo Bem, pedir. Nisto, imita perfeitissimamente a
e os pecados que contra Ele foram e são Deus, como também em se antecipar (Si
cometidos. 58,11) ao encontro dos pobres e necessi-
Sentidamente chorou por todos, tados para lhes oferecer amparo.
e suas lágrimas inocentíssimas mere-
ceram as consolações e favores que re-
cebeu do Senhor. Seu puríssimo co- Bem-aventurados os puros de
ração vivia contristado à vista das coração, os pacíficos, os perseguidos
ofensas feitas a seu amado Senhor e
Deus eterno. Seus olhos eram duas 803. A sexta bem-aventurança que
fontes (Jer9,1), e seu pão dia e noite se refere aos puros de coração para ver a
era chorar (SI 41, 4) as ingratidões dos Deus (Mt 5, 8), foi sem semelhante em
pecadores a seu Criador e Redentor. Maria santíssima. Escolhida como o sol
Nenhuma pura criatura, nem todas (Cant 6,9), imitava o verdadeiro Sol da
juntas, choraram mais do que a justiça e ao astro material que nos ilumina
Rainha dos Anjos, não obstante estar e cuja luz não se mancha nas coisas inferi-
naquelas a culpa, causa do pranto e das ores e sórdidas. Jamais entrou no coração
lágrimas, enquanto em Maria santíssima e potências de nossa puríssima Princesa
se encontrava a graça, fonte do gozo e espécie ou imagem de coisa impura. Era-
da alegria. lhe isto impossível, pois sempre a ocu-
Quinto Livro - Capítulo 8

pavam puríssimos pensamentos, desde preceito de amar os inimigos, de perdoar


seu primeiro instante de existência. as ofensas, de fazer as boas obras ocul-
Decorriam da visão da divindade que en- tamente sem vanglória, de fugir da
tão recebeu, e depois noutras muitas hipocrisia. Os conselhos de perfeição (Mt
vezes, como se refere nesta História, ainda 5,44;Mt6,3-15) contidos nas parábolas
que, pelo seu estado de viadora, era de pas- do tesouro, da pérola (Mt 13,44), das vir-
sagem e não permanente. gens (Mt 25,1), da semente e dos talentos
A sétima bem-aventurança dos pa- (Mt 5, 15; Lc 14, 13), e quantas foram
cíficos que serão chamados filhos de Deus escritas pelos quatro Evangelistas.
(Mt 5, 9), foi concedida à nossa Rainha Entendeu a todas, com a doutrina
com admirável sabedoria, como iria ne- que continham, os fins altíssimos para os
cessitar. Deveria conservar a paz do co- quais o divino Mestre as narrava. Todo o
ração e das potências entre os sobressaltos mais santo e de acordo com sua divina
e tribulações da vida, paixão e morte de vontade, Ela entendeu como deveria prati-
seu Filho santíssimo. Nestas ocasiões e car, e assim o fez sem omitir um só til ou
em todas as demais, foi vivo retrato de sua letra (Mt 5,18; 17). Desta Senhora, pode-
pacificação. Nunca se perturbou desorde- se dizer o mesmo que disse Cristo, nosso
nadamente e soube aceitar as maiores bem; não vim abolir a lei, mas sim cum-
penas em suprema paz, como perfeita filha pri-la.
do Pai celestial, título que merecia espe-
cialmente por essa excelência. DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU,
A oitava-bem-aventurança dos MARIA SANTÍSSIMA.
perseguidos por causa da justiça (Mt 5,
10), alcançou em Maria santíssima os
supremos cumes. Tirar a honra e a vida Evangelho: vida de Cristo e Maria
de seu Filho santíssimo, Senhor do
mundo, por ter pregado e ensinado a 805. Minha filha, convém que o
justiça ao mundo, nas circunstâncias em verdadeiro mestre da virtude ensine o que
que foi feita tal injuria, - só Maria e o pratica e pratique o que ensina (Mt 5,19).
próprio Deus a padeceram com certa O dizer e o fazer são duas partes do
igualdade, pois Ela era verdadeira Mãe, magistério, para que as palavras ensinem
como o Senhor era Pai de seu Unigêriito. e o exemplo acredite e mova a ser aceito
Só esta Senhora imitou o Senhor no so- e executado o ensino.
frer esta perseguição, e entendeu que até Tudo isto fez meu Filho santíssimo
este ponto deveria praticar a doutrina que (Jo 12, 36) e eu, à sua imitação. Como
seu divino Mestre ensinaria no Evan- nem sempre estaríamos no mundo, quis
gelho. Ele deixar os sagrados Evangelhos como
cópias de nossa vida. Assim, os filhos da
luz ajustariam suas vidas à de seu Mestre
Maria, perfeita observante da lei e à minha, pela observância da doutrina
evangélica que lhes deixava e que ensi-
804. Declarei um pouco do que nara para ser imitado.
entendi da ciência de nossa grande Se- Tanto quanto isso valem os sagra-
nhora em compreender e praticar a dou- dos Evangelhos, e nessa medida deves es-
trina do Evangelho. O que falei das timá-los e os ter em extrema veneração.
bem-aventuranças, poderia dizer dos Advirto-te que, para meu Filho santíssimo
demais preceitos e conselhos do Evan- e para mim, é grande glória e complacên-
gelho e de suas parábolas, tais como: o cia ver que suas divinas palavras, e as que

49
Quinto Livro - Capítulo 8

narram sua vida, são respeitadas e digna- contigo. Atende, pois, com grande cui-
mente estimadas pelos homens. Ao con- dado, como lhe deves corresponder e não
trário, considera o Senhor grande injuria deixar ocioso o amor que concebeste pelas
que os Evangelhos e sua doutrina sejam divinas Escrituras, principalmente pelos
esquecidos pelos filhos da Igreja. Há mui- Evangelhos e sua altíssima doutrina. Esta
tos que não entendem, não advertem, não há de ser a lâmpada acesa em teu coração
agradecem este benefício, nem fazem dele (SI 118,105), e minha vida o retrato para
mais memória do que se fossem pagãos modelares a tua.
sem a luz da fé. Pondera quanto vale e te importa
empregar nisso toda diligência, pelo
prazer que darás a meu Filho e Senhor e
pelo empenho que novamente sentirei
A palavra de Deus de exercitar contigo o ofício de mãe e
806, Tua dívida neste ponto é mestra. Teme o perigo de não responder
grande. Recebeste conhecimento da aos divinos apelos, pois, por este
veneração e apreço que tive pela dou- esquecimento perdem-se inúmeras al-
trina evangélica, e de quanto trabalhei mas. Sendo tão freqüentes e admiráveis
para pô-la em prática. Se não pudeste os que recebes da liberal misericórdia
entender tudo quanto eu fazia e com- do Todo poderoso, se não correspon-
preendia, por ser impossível à tua ca- deres a eles, mostrarás ingratidão muito
pacidade, pelo menos, neste favor, censurável ao Senhor, a mim e aos seus
nunca mostrei tanta benignidade como santos.

50
CAPITULO 9
MARIA E OS ARTIGOS DE FÉ QUE
A SANTA IGREJA IRIA CRER.
A fé, fundamento da Igreja trina Evangélica e lei da graça. Era ne-
cessário que do oceano destas maravilhas
807, O fundamento imutável de e graças,fizesseparte o conhecimento de
nossa justificação e a raiz de toda santi-
todas as verdades católicas que no tempo
dade é a fé nas verdades que Deus reveloudo Evangelho seriam cridas pelos fiéis,
à sua santa Igreja. Fundou-a sobre esta fir-
em particular os Artigos que lhes servem
meza, como arquiteto prudentíssimo que de princípios e bases.
edifica sua casa sobre pedra inabalável, De tudo isto Maria santíssima era
contra a qual nada podem os ímpetos das capaz e pôde ser confiado à sua admirável
chuvas e enxurradas (Lc 6,48). sabedoria, até os artigos e verdades católi-
Esta é a estabilidade invencível da
cas referentes a Ela e que deveriam ser
Igreja evangélica que é única, católica eensinados na Igreja. Tudo conheceu,
romana. Una pela unidade da fé (ITim 3, como direi adiante, com as circunstâncias
15), esperança e caridade que nela se fun-
dos tempos e lugares, meios e modos pelos
dam. Una sem divisões (ICor 1,13) nem quais, nos séculos futuros, tudo iria se de-
contradições, como existem em todas as senvolvendo conforme a necessidade e
sinagogas de Satanás (Apoc 2, 9). Estas oportunidade.
são as falsas seitas, erros, heresias tão Para informar a Mãe beatíssima,
tenebrosas que não só se contradizem principalmente nestes artigos, concedeu-
umas às outras e todas à razão, mas aindalhe ò Senhor uma visão da divindade, de
contradizem-se consigo mesmas, afir- modo abstrativo como falei noutras vezes.
mando e crendo coisas contrárias entre siNesta visão foram-lhe manifestados
e que se anulam mutuamente. ocultíssimos mistérios sobre os impers-
Contra todas, permanece sempre in-
crutáveis desígnios do Altíssimo e de sua
victa nossa santa fé, sem que as portas do
providência. Conheceu a clemência de sua
inferno prevaleçam um ápice contra ela (Mt
infinita bondade em estabelecer a graça da
16, 18), por mais que hajam pretendido santa fé infusa. Com esta, as criaturas
atacá-la para peneirá-la como o trigo. Assim
ausentes da visão da divindade, poderiam
o disse o Mestre da vida, a seu vigário Pedro
conhecê-la breve e facilmente, sem dife-
(Lc 22,31) e a todos seus sucessores. rença, sem esperar e procurar esta notícia
pela ciência natural que é muito limitada
e por poucos alcançada.
O dom da fé A fé católica, ao invés, desde o
primeiro uso da razão, nos leva logo ao
808. Cabia à nossa divina Senhora conhecimento, não só da divindade em
receber adequada notícia de toda a dou- três Pessoas, como também da humani-

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Quinto Livro - Capítulo 9

dade de Cristo Senhor nosso, e dos meios oposição fez grandiosos atos de fé e re-
para conseguir a vida eterna. Tudo isto não verênciaaoDeusúnicoeverdadeiro,eou-
é descoberto pelas ciências humanas, trosmuitosdas virtudes exigidasporeste
estéreis se não as fecunda a força e a vir- conhecimento.
tude da divina.
A Santíssima Trindade
Maria e os 7 artigos da fé referentes à
divindade 810. Creu no segundo artigo, Deus
é pai. Conheceu que assim era revelado
809. Naquela visão, conheceu pro- aos mortais para que eles passassem, do
fundamente nossa grande Rainha todos conhecimento da Divindade ao da sua
estes mistérios e quanto neles se contêm: Trindade de Pessoas. Este conhecimento
que a santa Igreja teria, desde seu prin- seria conexão para entenderem os outros
cípio, os catorze Artigos da fé católica; artigos que explicam ou supõem a trin-
que depois, em épocas diversas, determi- dade das Pessoas. Chegariam, assim, a
naria muitas proposições e verdades que conhecer perfeitamente seu último fim,
estes artigos e as divinas Escrituras encer- como o haveriam de gozar e os meios para
ravam como raiz, cuja cultura produzia consegui-lo.
aqueles frutos. Entendeu que a pessoa do Pai não
Depois de conhecer tudo isto em podia nascer, nem proceder de outra. Era
Deus, na visão que referi, viu-o também a origem de tudo, e por isto se lhe atribui
na visão, que sempre gozava, da alma san- a criação do céu, da terra e de todas suas
tíssima de Cristo, e conheceu como toda criaturas. Sendo sem princípio, o é de tudo
esta estrutura estava ideada na mente do quanto existe. Por este artigo, nossa divina
divino Artífice. Em seguida, conferiu tudo Senhora agradeceu, em nome de todo
com o Senhor, e este lhe revelou como se- gênero humano, e fez todos os atos que
ria realizada, sendo a divina Princesa a esta verdade pedia.
primeira a crer nos Artigos, distinta e per- O terceiro artigo, crer que é Filho,
feitamente. creu-o a Mãe da graça, com especialíssima
Assim Ela o fez. O primeiro dos luz e conhecimento das processões ad in-
sete que se refere à divindade, conhe- tra. Desta, a primeira, na ordem de origem,
ceu e acreditou que o verdadeiro Deus é a eterna geração do Filho. Por obra do
é um só, independente, necessário, in- entendimento é e sempre será gerado só
finito, imenso em seus atributos e per- do Pai, não lhe sendo posterior, mas igual
feições, imutável e eterno. E, quão na divindade, eternidade, infinidade e
devido, justo e necessário era, para as atributos.
criaturas, crer e confessar esta verdade. O quarto artigo, crer que é Espírito
Agradeceu pela revelação deste artigo Santo, creu-o e entendeu que a terceira
e pediu a seu Filho santíssimo con- pessoa, o Espírito Santo, procedia do Pai
tinuasse a conceder este favor aos e do Filho como de um único princípio,
homens, dando-lhes graça para que o por ato da vontade. Igual às outras duas
aceitassem, recebendo o conhecimento Pessoas, sem outra diferença senão a
da verdadeira divindade. distinção pessoal que resulta das pro-
Nesta luz da fé, infalível e obs- cessões do entendimento e da vontade in-
cura, conheceu a culpa da idolatria que finitos.
ignora esta verdade e a chorou com dor Deste mistério recebera Maria san-
e amargura incomparável. Em sua tíssima notícias e visões noutras ocasiões

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Quinto Livro - Capítulo 9

que já deixo descritas w . Desta vez se lhe todos os sacramentos e mistérios que a
acrescentaram as circunstâncias de virem santa Igreja havia de receber e crer, e na
a ser artigos de fé na futura Igreja, e a in- inteligência de todos fazia heróicos atos
teligência das heresias que, contra estes de muitas virtudes.
artigos Lúcifer semearia, como as tinha No sétimo artigo, que é glorifi-
forjado em sua idéia desde que caíra do cador, entendeu a felicidade preparada
céu ao lhe ser revelada a Encamação do para as criaturas mortais na fruição da
Verbo. Contra todos estes erros, fez a visão beatífica. Compreendeu quanto lhes
beatíssima Senhora grandes atos no modo importa crer nesta verdade para se dispor
que já descrevi. a consegui-la, considerando-se peregri-
nos na terra e cidadãos do céu (Ef 2,19).
Esta fé e esperança seriam seu consolo no
Deus criador, salvador e glorificador desterro.
811. No quinto artigo, o Senhor é
criador, creu Maria santíssima, conhe- Os sete artigos referentes à
cendo como a criação de todas as coisas, humanidade de Cristo
ainda que se atribui ao Pair^ é comum às
três Pessoas, enquanto são um só Deus in- 812. Dos sete artigos que per-
finito e poderoso; que dele dependem a tencem a humanidade, teve nossa grande
existência e conservação das criaturas e Rainha igual conhecimento, com novos
que nenhuma tem poder para criar outra afetos de seu puríssimo e humilde co-
produzindo-a do nada. Nem mesmo um ração.
anjo poderia criar um bichinho, porque só O primeiro seria que seu Filho san-
Deus que é independente em seu ser, pode tíssimo fora concebido, enquanto homem,
agir sem dependência de outra causa, in- por obra do Espírito Santo; que este
ferior ou superior. Maria santíssima en- mistério se realizara em seu virginal tála-
tendeu como este artigo seria necessário mo. Ao entender que estas verdades se-
á santa Igreja, para se apor aos erros de riam artigo de fé na Igreja militante, foram
Lúcifer, e para Deus ser conhecido e res- inexplicáveis os sentimentos da pruden-
peitado como autor de todas as criaturas. tíssima Senhora. Humilhou-se até o ín-
O sexto artigo, que é salvador, en- fimo das criaturas da terra; aprofundou a
tendeu-o novamente, com todos os consciência de que fôra criada do nada:
mistérios que encerra sobre a predesti- cavou alicerces e colocou-lhes o cimento
nação, vocação e justificação final. Com- da humildade, para o elevado edifício de
preendeu também a reprovação dos pres- ciência infusa e excelente perfeição que a
citos que, por não se aproveitarem dos destra do Altíssimo ia nela edificando.
meios oportunos que a misericórdia Louvou o Todo-poderoso e deu-
divina lhes oferecia, perderiam a felici- lhe graças por Si e por toda a raça humana,
dade eterna. Conheceu também a fidelís- por ter escolhido meio tão admirável e efi-
sima Senhora, como o atributo de Salva- ciente para atrair os corações, e mantê-los
dor convinha às três divinas Pessoas, e em sua lembrança mediante a fé cristã.
especialmente à do Verbo, enquanto Fez o mesmo quanto ao segundo
homem. Ele se entregaria como preço de artigo: Cristo Senhor nosso nasceu de Ma-
resgate, e Deus o aceitaria, dando-se por ria, virgem antes e depois do parto. A
satisfeito com essa reparação do pecado divina Rainha estimava grandemente o
original e dos atuais. mistério de sua intacta virgindade e de tê-
Contemplava esta grande Rainha la escolhido o Senhor por Mãe entre todas
2-l'parte,nM23,229,312. • 3-n°810.
53
Quinto Livro - Capítulo 9

as criaturas, em condições que empres- de Adão. Foi a Mestra da divina fé; foi
tavam tanto decoro e dignidade a este quem, à vista dos cortesãos do céu, ar-
privilégio, tanto para a glória do Senhor vorou o estandarte dos crentes na terra.
como para a dela. Tudo isto seria reco- Foi a primeira Rainha católica do orbe, e
nhecido e crido pela Igreja com a certeza não haverá outra que a iguale.
da fé católica. Os católicos a terão por verdadeira
Ao conhecer estas disposições Mãe, se a Ela recorrerem, pois aquele
divinas, não é possível manifestar com título os faz filhos seus. Não há dúvida
palavras a elevação de seus atos, dando a que esta piedosa Mãe e Capitã da fé
cada um destes mistérios a plenitude de católica olha com especial amor aos que
exaltação, culto, fé, louvor e agrade- a seguem nesta grande virtude, traba-
cimento que pediam, enquanto Ela mais lhando por sua propagação e defesa.
profundamente se humilhava. Na medida
em que era exaltada, aniquilava-se
apegando-se ao pó. Maria, depositária do Novo
Testamento
Maria, Mestra da fé 814, Esta exposição tomar-se-ia
muito prolixa, se eu quisesse manifestar
813. Terceiro artigo: Cristo nosso tudo o que me foi declarado sobre a fé da
Senhor sofre paixão e morte. nossa grande Senhora, seus predicados e
Quarto: desceu à mansão dos mor- as circunstâncias com que penetrava cada
tos e de lá tirou os santos Pais que no limbo um dos catorze Artigos, com as verdades
esperavam sua vinda. que eles encerram.
Quinto: ressuscitou dos mortos. As conferências que, sobre este
Sexto: subiu aos céus e se assentou assunto, mantinha com seu divino mes-
à direita do Pai eterno. tre Jesus; as perguntas que lhe fazia com
Sétimo: de lá virá julgar vivos e inaudita humildade e prudência; as res-
mortos no juízo universal, para dar a cada postas do seu querido Filho; os profun-
um a recompensa das obras que houver dos segredos que amorosamente lhe re-
praticado. velava, e outros sacramentos compre-
Estes artigos, como todos os de- endidos só por Filho e Mãe: não tenho
mais, Maria santíssima conheceu e creu, palavras para explicar tão divinos mis-
quanto à substância, ordem, conveniên- térios.
cias, e a necessidade de sua fé para os mor- Além disso, foi-me dado a enten-
tais. Ela sozinha preencheu as falhas e der, não ser conveniente que todos sejam
supriu os defeitos de todos os que não manifestados nesta vida mortal. Todo este
creram nem crerão, e compensou a es- novo e divino testamento ficou depositado
cassez de nossa tibieza em crer nas divinas em Maria santíssima que o guardou fide-
verdades, em dar-lhes a importância, a lissimamente, para em tempo oportuno ir
veneração e o agradecimento que mere- distribuindo aquele tesouro, conforme o
cem. pedissem as necessidades da Santa Igreja.
Que toda a Igreja proclame nossa Feliz e bem-aventurada Mãe! Se
Rainha felicíssima e bem-aventurada por- o filho sábio é a alegria do pai (Prov 10,
que acreditou (Lc 1, 45) não só no em- 1), quem poderá explicar a que recebeu
baixador do céu, mas também nos Artigos esta grande Rainha? Sua alegria era par-
que resultaram do fruto de seu tálamo vir- ticipação da glória que o Pai eterno re-
ginal. Creu-os por Ela e por todos os filhos cebera de seu Filho unigênito, de quem

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Quinto Livro - Capítulo 9

Ela era Mãe. E essa glória resultava dos dissipam como os raios do sol a incon-
mistérios que o filho veio realizar, e que sistentes nuvens. Além disso, consti-
Ela conheceu nas verdades da fé da santa tuem alimento e substância espiritual
Igreja. que torna as almas fortes para os com-
bates do Senhor.
DOUTRINA QUE ME DEU A
DIVINA SENHORA MARIA
SANTÍSSIMA. Fazer frutificar a fé
816. Se os fiéis não sentem estes e
Defender a fé outros maiores efeitos da fé, não é porque
lhe falte eficácia e virtude para isso. A
815. Filha, o estado da vida mortal falta encontra-se nos" crentes: uns esqueci-
não tem capacidade para conhecer o que dos e negligentes, outros cegamente en-
eu senti e minhas potências realizaram tregues à vida carnal e animal (1 Cor 2,
com a fé e conhecimento infuso dos seus 14). Assim malogram a graça da fé e lem-
artigos, segundo meu Filho santíssimo bram-se tão pouco de usá-la, quase como
dispunha para a santa Igreja. se não a houvessem recebido. Vêm a in-
E forçoso que te faltem palavras felicidade dos infiéis que não gozam da
para declarar o que entendeste, porque to- fé, mas são piores que estes, pela de-
das são insuficientes para abranger e ex- testável ingratidão e desprezo que fazem
primir o conceito deste mistério. Desejo e por dom tão alto e soberano.
te ordeno o que, com o auxílio divino, Quanto a ti, minha caríssima filha,
podes fazer: guardar com toda reverência quero que o agradeças, com profunda hu-
e cuidado, o tesouro (Mt 13, 44) que mildade e fervoroso afeto; que a exercites
achaste na doutrina e na ciência de tão com incessantes atos heróicos; que
veneráveis sacramentos. medites sempre os mistérios que a fé te
Aviso-te, maternalmente, da cru- ensina e, sem embaraços terrenos, gozes
eldade tão sagaz com que teus inimigos os divinos e deliciosos frutos que produz.
se desvelam para o roubar. Sê atenta e cui- Eles serão tanto mais eficazes, quanto
dadosa, para que te encontrem vestida de mais vivo e penetrante for o conhecimento
fortaleza (Prov 31,17), e teus domésticos que a fé te comunica. Colaborando de tua
- as faculdades e sentidos - com as vestes parte com o esforço que deves, crescerá a
duplas (idem, 31, 21) da vigilância inte- luz e a inteligência dos sublimes e ad-
rior e exterior, a fim de poderes resistir ao miráveis mistérios do ser de Deus uno e
ataque de suas tentações (1 Ped 5,9). Para trino: da união hipostática das duas
vencer, porém, os que te fazem guerra, naturezas, divina e humana: da vida,
serão armas ofensivas e poderosas os Ar- morte e ressurreição de meu Filho santís-
tigos da fé católica (Rom 1,17). Seu con- simo e de todos os mais que realizou.
tínuo exercício e firme crença, sua' medi- Deste modo, saborearás sua suavi-
tação e lembrança, afastam os erros, dade (SI 33, 9) e colherás fruto copioso e
descobrem os embustes de satanás e os digno do descanso e felicidade eterna.

55
Quinto Livro - Capitulo 9

56
CAPÍTULO 10

MARIA SANTÍSSIMA RECEBE NOVA LUZ SOBRE OS DEZ


Os atos da fé MANDAMENTOS.
817, Os artigos da fé católica per-
tencem aos atos do entendimento dos
quais são objeto, enquanto os mandamen-
tos pertencem aos atos da vontade. Ainda
que todos os atos livres dependem da von-
tade, quer nas virtudes infusas, quer nas
adquiridas, nem todos dela partem igual-
mente. Os atos de fé livre nascem ime-
diatamente do entendimento que o pro-
duz, e só dependem da vontade enquanto
ela os autoriza com afeto puro, santo e
reverenciai. Os objetos e verdades obs-
curas não podem ser cridos pelo entendi-
mento independente da vontade, e por
isto ele aguarda o que a vontade lhe de-
termina.
Nas demais virtudes, porém, a
vontade age por si, e ao entendimento
pede somente que lhe proponha o que
deve fazer, como quem caminha com a luz
que vai à frente. A vontade é tão livre e
senhora que não admite coação do en- cia dos dez preceitos do Decálogo, teve
tendimento ou de qualquer outra coisa. outra visão da Divindade, pelo mesmo
Assim ordenou o Altíssimo para que nin- modo que disse no capítulo passado w .
guém o sirva contrariado e forçado, mas Nesta visão, foram-lhe mani-
sim espontaneamente, com alegria, como festados com maior plenitude e clareza to-
ensina o Apóstolo (2 Cor 9,7). dos os mistérios dos divinos Mandamen-
tos: como estavam decretados na mente
divina para guiar os mortais à vida eterna;
Maria e o Decálogo como tinham sido entregues a Moisés em
duas tábuas (Ex 31, 18; Dt 5, 22); na
818. Estava Maria santíssima divi- primeira, encontram-se os três que se re-
namente instruída nos Artigos e verdades ferem à honra de Deus, e na segunda os
da fé católica. Para se aperfeiçoar na ciên- que se praticam em relação ao próximo.
1 -N°808.
57
Quinto Livro - Capítulo 10

Compreendeu que o Redentor do nito onde estender a vista de seu


mundo, seu Filho santíssimo, iria renová- e conhecer novos segredos e mistéri^
los no coração dos homens (2 Ped 1,4), Nesta ocasião, eram muitos oT
começando pela Rainha e Senhora a ob- lhe ensinava o divino Mestre, propondo]!*
servância de todos e de quanto eles encer- sua santa lei e preceitos, com a ordem
ram. Conheceu sua ordem e necessidade, modoconvenientíssimoqueteriamnaior i*
para os homens chegarem à participação militante de seu Evangelho. De cada uirf ^
da divindade. Teve clara inteligência da particular, dava-lhe copiosa e singular co^
equidade, sabedoria e justiça com que preensão com novas circunstâncias
estes mandamentos estavam ordenados Nossa limitada capacidade nào
pela vontade divina. Era lei santa (Rom poderia alcançar tão elevados e soberanos
7, 12), imaculada (SI 18, 8), leve, suave mistérios, mas à divina Senhora nada se ocul-
(Mtll,30),pura, verdadeira (SI 118,142) tou, nem sua profundíssima ciência deve ser
e acrisolada para as criaturas (SI 118,9). medida pela de nosso curto entendimento
Era tão justa e conforme a natureza ra-
cional (Jer 31,33; Rom 7,22), que podia
ser abraçada com estima e prazer, além de Maria, viva imagem da lei divina
que, seu Autor daria a graça para ajudar a
observá-la. 820. Ofereceu-se a seu Filho san-
Outros muitos e elevados segredos tíssimo humildemente e de coração dis-
e mistérios conheceu, nesta visão, nossa posto para obedecer-lhe na guarda dos
grande Rainha, sobre o estado da santa seus mandamentos; pediu-lhe que a ins-
Igreja, os que nela guardariam seus divinos truísse e lhe desse seu divino favor para
preceitos, como também os que os despre- executar tudo o que neles mandava.
zariam, transgredindo-os enão os aceitando. Respondeu-lhe Jesus: Minha Mãe,
eleita e predestinada por minha eterna von-
tade e sabedoria para o maior agrado e bene-
A ciência imensa de Maria plácito de meu Pai que, quanto à divindade
é igual a mim. Nosso amor eterno que nos
819. Saiu desta visão a cândida obriga a comunicar nossa divindade às
pomba, abrasada e transformada no amor criaturas, elevando-as à participação de
e zelo da lei divina e voltou-se a seu Filho nossa glória e felicidade, ordenou esta lei
santíssimo, em cujo interior a conheceu santa e pura (Ez 20,11), mediante a qual os
novamente, como também os decretos de mortais chegassem a conseguir o fim para
sua sabedoria e vontade em aperfeiçoar o qual foram criados por nossa clemência.
essa lei pela da graça (Mt 5,17). Conhe- Nosso desejo será satisfeito em Ti,
ceu também, com abundante luz, o bene- pomba e amiga minha, gravando nossa lei
plácito e desejo do Senhor de que Elafosse divina em teu coração, com tanta eficiência
a estampa viva de todos os preceitos que e clareza que, por toda a eternidade ela não
a lei continha. possa ser obscurecida nem apagada de teu
E verdade, que a grande Senhora - ser. Sua eficácia não será impedida (SI 18,
como repeti muitas vezes - possuía ciência 8), nem em coisa alguma ficará lesada, como
habitual e perpétua de todos estes mistérios, acontece nos demais filhos de Adão.
para usar dela continuamente. Apesar disso, Adverte, caríssima Sunamite, qpt
eram-lhe renovados esses hábitos, e cada dia esta lei é toda pura e imaculada. Queremos
recebia-os em maior intensidade. Como a ex- depositá-la em criatura imaculada e purís-
tensão e profundidade da matéria era quase sima, em quem serão glorifícados nosso*
imensa,ficavasempre um campo quase infi- pensamentos e obras.

58
Quinto Livro - Capitulo 10

O primeiro mandamento vão ; e o terceiro - honrá-lo guardando c


santificando suas festas.
821. Estas palavras, que na divina A Mãe da sabedoria os compreen-
Mãe, operaram o que significavam, a deu profundamente, gravou-os no seu
renovaram e deificaram com a inteligên-piedoso e humilde coração para dar a
cia e a prática dos dez preceitos e de cada
Deus, culto e veneração em supremo grau.
um de seus mistérios. Dirigiu sua atenção
Ponderou dignamente a injúria que a
à luz celestial, e a vontade à obediência de
criatura comete contra o ser imutável de
seu divino Mestre. Deus e sua bondade infinita, jurando por
O primeiro e maior dos preceitos
Ele em vão ou falsamente, ou blasfe-
(Mt 22,37; Mc 20,29; Lc 10,27): Amarás mando contra a veneração devida a Deus,
a Deus sobre todas a coisas, de todo o teu
diretamente, ou nos seus Santos. Sentiu
coração, de toda tua mente e com todas grande dor ao conhecer os pecados que,
tuas forças. Entendeu-o como o escre- atrevidamente, cometeriam os homens
veriam os Evangelistas, e como antes, ocontra este mandamento.
havia escrito Moisés no Deuteronômio (6, Pediu aos santos anjos que a
5-6-7-8), com as condições que o Senhorserviam que, em nome d'Ela, encarregas-
lhe anexou: os pais deveriam ensiná-lo aos
sem os demais custódios dos filhos da
filhos; todos deveriam meditá-lo, em casa
santa Igreja, impedir seus protegidos de
e fora dela, sentados ou caminhando, cometerem este desacato a Deus. Que lhes
dormindo ou velando, e sempre deveriam dessem inspirações, luzes e por outros
tê-lo diante do olhar interior da alma.meios os transpassasse com o temor de
Como o entendeu, nossa Rainha Deus, (SI 118,120) para não jurarem nem
cumpriu este mandamento do amor de blasfemarem seu santo nome. Por outro
Deus, com todas as condições e eficácialado, pedissem ao Altíssimo muitas bênçãos
que Deus ordenou. Se nenhum dos filhos para os que se abstivessem de jurar em vão
dos homens, nesta vida, chegou a cumpri-
e reverenciassem seu ser imutável. Com
lo plenamente, Maria, em carne mortal, o
grande fervor, a puríssima Senhora também
cumpriu mais perfeitamente que os supre-
fazia esta mesma súplica.
mos e ardentes serafins, santos e bem- Quanto ao terceiro mandamento, a
aventurados do céu. santificação das festas, a grande Rainha dos
Aqui não me alongo mais nesse anjos, nestas visões, teve conhecimento de
assunto, pois na primeira parte*2* todas as festividades que seriam de preceito
falando das virtudes da grande Rainha, na santa I grej a, e do modo como seriam cele-
falei alguma coisa sobre sua caridade. bradas e guardadas. Desde que estiveram no
Na ocasião de que falo, em particular, Egito, como disse em seu lugar*3*, havia
chorou com amargura os pecados que começado a celebrar as dos mistérios já re-
seriam cometidos no mundo contra este alizados até então. Depois desta notícia,
grande mandamento, e tomou por sua porém, celebrou outras festas, como a da
conta compensar, com seu amor, as fa- Santíssima Trindade, as de seu Filho e a dos
lhas e defeitos que nele haviam de in- anjos. A estes convidava para estas soleni-
correr os mortais. dades e para as demais que a santa igreja
ordenaria. Por todas fazia cânticos de louvor
e agradecimento ao Senhor.
O segundo e terceiro mandamento Estes dias, especialmente mar-
cados para o culto divino, Ela os enchia
822. O segundo mandamento da inteiramente d'ele. Não quer dizer que as
lei de Deus - não desonrá-lo jurando em ocupações corporais embaraçassem ou
2 - n° 521 e seguintes. 3 - acima n0 687.

59
Quinto Livro - Capítulo 10

impedissem a atenção interior de seu essa matéria sem a perturbação do fomes


espírito, mas desej ava fazer o que entendi a que não contraíra por preservação. Foram
que seria praticado futuramente na lei da tais os sentimentos desta grande amante
graça. Assim santificava as festas do Se- da castidade, honrando-a e chorando os
nhor, e com santa competição e pronta pecados dos mortais contra esta virtude,
obediência, antecipava-se na prática de que novamente feriu o coração do Altís-
tudo o que continha essa lei, como pri- simo (Cant 4,9). A nosso modo de enten-
meira discípula do Redentor do mundo. der, consolou seu Filho santíssimo das
ofensas dos mortais contra este preceito.
Quarto e quinto mandamento Conheceu que na lei do Evan-
gelho, sua observância levaria a instituir
823. Recebeu Maria santíssima a congregações de virgens e religiosos que
mesma ciência e compreensão dos outros prometeriam a guarda da castidade. Pediu
sete mandamentos, respectivamente, os ao Senhor que lhes vinculasse sua bênção,
quais se referem aos nossos deveres para e a instâncias de sua Mãe puríssima, de-
com o próximo. terminou especial recompensa à virgin-
No quarto mandamento, honrar aos dade, porque nesta virtude imitariam a
pais, conheceu tudo quanto se subentendia Virgem Mãe do Cordeiro (SI 44, 15).
pelo nome de pais; como se lhes deve res- Como esta virtude, â sua imitação, seria
peito e ajuda, do mesmo modo como eles abraçada por muitos na lei do Evangelho,
têm obrigações para com os filhos. ofereceu ao Senhor incomparáveis agra-
Sobre o quinto mandamento, não decimentos com afetuosa alegria.
matar, conheceu a Mãe clementíssima a Não me detenho mais em referir sua
justiça deste preceito. O Senhor é o autor da estima por esta virtude, porque já falei um
vida do homem. Se não lhes quis dar direito pouco na primeira parte, e em outras ocasiões.
de dispor da própria vida, muito menos di-
reito tem de ofender ou tirar a do próximo. Sétimo, oitavo, nono e décimo
Como a vida é o primeiro dos bens mandamento
da natureza e fundamento da graça, nossa
Rainha louvou ao Senhor por ordenar este 825. Os demais preceitos; sétimo,
mandamento ao bem dos mortais. Olhava não furtar, oitavo, não levantar falso teste-
a estes como obras de Deus (Sab 2, 23; munho; nono, não cobiçar a mulher alheia;
Ecli 15,14), capazes de sua graça e glória, décimo, não desejar os bens e coisas
preço do sangue que seu Filho ofereceria alheias. De cada um teve Maria santíssima
por eles (1 Pd 1,19). Por esta razão, fez particular inteligência, como nos demais.
grandes súplicas, para que na Igreja fosse Para cada um fazia grandes atos,
bem observado este preceito. de acordo com o que ordenavam cumprir.
Por todo o gênero humano louvava e
Sexto mandamento agradecia ao Senhor, por lhe ter dado uma
lei tão bem ordenada, para encaminhar os
824. Nossa puríssima Senhora en- homens à eterna felicidade.
tendeu a matéria do sexto mandamento, Observando-a, não só asseguravam a
ao modo dos bem-aventurados que con- recompensa que se lhes prometia na eterni-
sideram o perigo da humana fraqueza não dade, mas também na vida presente lhes per-
em si mesmos, mas nos mortais, sem mitiria gozar da paz e tranqüilidade que, de
serem por ela atingidos. certo modo, já os faria bem-aventurados.
Colocada em mais elevado estado Se todas as criaturas racionais se
de graça, Maria santíssima via e conhecia ajustassem à equidade da lei divina e se re-

60
Quinto Livro - Capítulo 10

solvessem guardá-la observando seus por Cristo nosso Senhor com um Sacra-
mandamentos, gozariam de felicidade mento (Mt 19, 4), tem produzido e pro-
deliciosa e do agradável testemunho da duzem imensos males, ocultos ou públi-
boa consciência. cos, entre os católicos.
Todos os gostos humanos não se Se pensamos que, muitos não
podem comparar à consolação de ser fiel aparecem aos olhos do mundo, aos olhos
no pouco e no muito da lei (Mt 25, 21), de Deus, justíssimo e reto juiz (SI 7,12),
Este benefício devêmo-lo principalmente não ficam sem castigo já nesta vida. Na
a Cristo, nosso Redentor, que ao reto pro- outra será ainda maisrigoroso,na medida
ceder vinculou a satisfação, a paz, o con- em que Deus os suportou (Rom 2,5), pois
solo e muitas felicidades na vida presente. se fosse castigar agora, segundo merecem,
Se nem todos gozamos esses efeitos, é por- destruiria o povo cristão.
que não guardamos seus mandamentos.
As tribulações, as calamidades e Os dois preceitos do amor a Deus e ao
desgraças do povo são efeitos inevitáveis próximo
das desordens das pessoas. Se damos o mo-
tivo, somos insensatos que, em chegando o 827. Nossa grande Rainha via to-
contratempo, logo vamos procurar a quem das estas verdades comtemplando-as no
atribui-lo, esquecendo que a sua causa se Senhor. Conhecia a vileza dos homens
encontra dentro de cada um de nós. que, tão levianamente, e por coisas insig-
nificantes perdem o decoro e respeito a
Transgressão da lei divina Deus que, tão benignamente, deu-lhes a
proteção de suas leis e preceitos.
826. Quem poderá medir os danos Apesar de tudo, a prudentíssima
que, na vida presente, procedem de furtar Senhora não se escandalizou da humana
o alheio, transgredindo o mandamento fragilidade, nem se espantou com nossas
que o proíbe? Porque não se contenta cada ingratidões. Como piedosa mãe se com-
qual com sua sorte, esperando o socorro padecia dos mortais. Amava-os com ar-
do Senhor que não despreza as aves do céu dentíssimo amor, por eles, agradecia os
(Mt 6, 26), nem se esquece dos mais benefícios do Altíssimo. Reparava as
pequenos bichinhos? transgressões que cometeriam contra a lei
Que misérias e aflições não estão evangélica e pedia para todos a perfeição
sofrendo os cristãos, por não se conten- de sua observância.
tarem os príncipes com os reinos que lhes Profundamente, compreendeu Ma-
deu o sumo Rei? A ambição de aumentar ria santíssima, que os dez preceitos se re-
o poder e seus domínios tiram ao mundo sumem nos dois de amar a Deus e ao
o sossego, a paz, as propriedades, as vidas, próximo como a si mesmo (Mt 22, 40;
e ao Criador, as almas. Rom 13,10). Entendeu que nestes dois
Os falsos testemunhos e mentiras amores bem compreendidos e prati-
que ofendam à suma Verdade e ás relações cados, se encerra toda a sabedoria, e
humanas, não causam menos prejuízos e quem chega a executá-los não está longe
discórdias. Destroem a paz e tranqüilidade do reino dos céus, como disse o Senhor
dos corações e os indispõem a serem habi- no Evangelho (Mc 12,34). E ainda, que
tação do Criador (1 Cor 3,17), única coisa a guarda destes preceitos se antepõe e
que deles desejava. vale mais que os sacrifícios e holocaus-
Cobiçar a mulher do próximo, tos (Mc 12,33).
adulterar contra a justiça, violar a lei santa Na medida de sua ciência, nossa
do matrimônio confirmado e santificado grande Mestra pôs em prática esta santa
Quinto Livro - Capítulo 10

lei, como se encontra nos Evangelhos, santa lei, assim como fez a mim. Afasta-te
sem faltar à observância de todos seus pre- e esquece todo o visível, de tal modo que
ceitos e conselhos até o menor deles. tuas potências fiquem livres e vazias de
Esta divina Princesa, sozinha, rea- outras imagens, fora daquelas que o dedo
lizou a melhor doutrina do Redentor do do Senhor lhes imprimir: sua doutrina e
mundo, seu Filho santíssimo, do que todo beneplácito, contidos nas verdades do
o resto dos santos e fiéis da santa Igreja. Evangelho.
Para que teus desejos não fiquem
DOUTRINA QUE ME DEU A frustrados ou estéreis, pede continua-
DIVINA SENHORA E RAINHA DO mente, de dia e de noite, ao Senhor que te
CÉU, tome digna desta graça prometida por meu
Filho santíssimo. Considera atentamente
Felizes os que amam tua lei, Senhor que teu descuido nisso seria mais repreen-
sível que em todos os demais viventes.
828. Minha filha, o Verbo baixou do Nenhum foi chamado e atraído a seu amor
seio do eterno Pai, e no meu assumiu a hu- com semelhante energia e graça, como a
manidade, para redimir a linhagem humana. que recebeste.
A fim de iluminar os que estavam nas trevas Durante o dia desta abundância e
e sombras da morte (Lc 1,79) e levá-los à durante a noite da tentação e tribulação,
felicidade que tinham perdido, era ne- não te esqueças desta dívida e do zelo do
cessário que o Salvador viesse, para ser sua Senhor, para que nem os favores te desva-
luz, caminho, verdade e vida (Jo 14,5). De- neçam, nem as penas e aflições te depri-
veria dar-lhes uma lei tão santa que os jus- mam. Conseguirás isso se, tanto em uma
tificasse; tão clara que os iluminasse; tão como em outra situação, atenderes à
segura que lhes desse confiança; tão forte divina lei gravada em teu coração, para
que os movesse; tão eficiente que os auxi- guardá-la fielmente, sem remissão e des-
liasse, e tão verdadeira que a todos que a cuido, com toda perfeição e advertência.
observassem desse alegria e sabedoria.
Este, e outros efeitos tão admiráveis, Amor ao próximo
são produzidos pela virtude da imaculada
lei evangélica, em seus preceitos e conse- 829.a. Quanto à prática do amor ao
lhos. Ordena e conforma de tal modo as próximo, aplica-lhe sempre aquela pri-
criaturas racionais, que sua observância é a
meira regra: faze aos outros o que desejas
única fonte de toda felicidade espiritual e
que te façam (Mt 22,39).
corporal, temporal e eterna (Prov 29,18). Se tu desejas que pensem e falem
Por aqui entenderás que a cega ig-bem de ti, isso também deverás fazer a
norância dos mortais os engana e faz cair na
teus irmãos. Se sentes quando te ofendem,
fascinação dos seus mortais inimigos (Gal ainda em ninharias, evita dar-lhes esse pe-
3,1). Desejando tanto a felicidade, são tão
sar. Se não achas certo quando os outros
poucos os que atinam com ela porque não a desgostam o próximo, não faças o mesmo,
procuram na lei divina (Jer 31, 33), onde pois já sabes que contradiz à regra e
unicamente a podem encontrar. medida da caridade ordenada pelo Altís-
simo. Chora também tuas culpas e as de
teu próximo, por serem ofensas a Deus e
Quem me ama, guarda meus preceitos à sua santa lei. Este sentimento é boa cari-
dade para com eles e o Senhor. Sofre com
829. Prepara teu coração com esta as dores alheias como com as tuas, imi-
ciência, para que o Senhor grave nele sua tando-me neste amor.

62
CAPÍTULO 11
DA INTELIGÊNCIA QUE TEVE MARIA SANTÍSSIMA,
SOBRE OS SETE SACRAMENTOS QUE CRISTO IRIA
INSTITUIR E OS CINCO PRECEITOS DA IGREJA.
Os Sacramentos da Igreja Sobre o primeiro Sacramento, co-
nheceu como a penosa lei da Circuncisão
830. Para complemento da for- seria honrosamente cancelada, entrando
mosura e riqueza da santa Igreja, foi em seu lugar o suavíssimo e admirável
conveniente que -seu artífice, Cristo sacramento do Batismo.
nosso Redentor, nela instituísse os sete Teve inteligência que a matéria
Sacramentos que seriam como o erário deste sacramento seria água pura e natu-
dos tesouros infinitos de seus mere- ral; que em sua forma seriam nomeadas
cimentos. Ele próprio neles estaria, por expressamente as três divinas Pessoas,
inefável modo de presença, mas real e Pai, Filho e Espírito Santo, para que os
verdadeiramente. Seus filhosfiéisali- fiéis professassem a fé explícita na santís-
mentar-se-iam com seus bens e se con- sima Trindade.
solariam com sua presença, penhor da
que esperam gozar eternamente, face a
face.
Era também necessário, para a
plenitude da ciência e graça de Maria san-
tíssima, que todos estes mistérios fossem
copiados em seu ardente e vastíssimo co-
ração, e no modo possível, nele ficasse
gravada e depositada toda a lei da graça,
como o estava em seu Filho santíssimo.
Na ausência d'Ele, Ela iria ser a Mestra
da Igrej a e iria ensinar a seus primogênitos
a fidelidade e exatidão com que estes Sa-
cramentos deveriam ser recebidos e ve-
nerados.

O Batismo
831. Tudo isto foi manifestado à
grande Senhora, no interior de seu Filho
santíssimo, com nova e distinta luz para
cada mistério.

63
Quinto Livro - Capítulo 11

Conheceu a virtude que Cristo dadeiro Deus e Redentor.


comunicaria ao Batismo para, perfeitissi- Chorava amargamente a lamen-
mamente, perdoar todos os pecados e apagar tável perda de tantos que, agraciados pelo
suas penas. Viu os admiráveis efeitos que Evangelho, seriam privados, por seus pe-
produzia em todos os que o recebessem, re- cados, de tão eficazes medicações.
generando-os e recriando-os no ser de filhos
adotivos, herdeiros do reino de seu Pai; in--
fundindo-ihes as virtudes da fé, esperança, A Penitência
caridade e muitas outras; imprimindo-lhes 833. A respeito do terceiro Sacra-
o caráter sobrenatural e espiritual que, como
selo real, ficaria impresso na alma dos filhos mento, a Penitência, conheceu a divina
da santa Igreja. Senhora a conveniência e necessidade
Tudo mais que respeita a este deste meio para devolver as almas à graça
sagrado Sacramento e seus efeitos, foi e amizade de Deus, suposta a fragilidade
conhecido por Maria santíssima e, com ar- humana com que tantas vezes a perde. En-
dente desejo, pediu a seu Filho santíssimo tendeu as condições e ministros deste Sa-
a graça de o receber. Jesus prometeu-lho cramento e a felicidade que teriam os fi-
e assim o fez, como direi em seu lugar ' * lhos da Igreja para recebê-lo com tão ad-
miráveis efeitos.
Como verdadeira Mãe de mise-
Á Confirmação ricórdia e dos fiéis, rendeu ao Senhor es-
pecial ação de graças, com imenso júbilo
832, Sobre o segundo Sacramento, de ver tão fácil remédio para tão freqüente
a Confirmação, teve a grande Senhora o enfermidade, como são as freqüentes cul-
mesmo conhecimento, e de como seria ad- pas dos homens. Prostrada em terra, em
ministrado pela Igreja, depois do Batismo. nome da Igreja, acolheu e reverenciou o
Este gera os filhos da graça, que depois a santo tribunal da confissão. Com inefável
Confirmação robustece e toma aptos a clemência, dispôs o Senhor que nele se
testemunhar a fé recebida no Batismo. decidisse o negócio de tanta importância
Além disso, aumenta a primeira graça e para as almas, como é a justificação e vida
acrescenta a que lhe é própria. eterna, ou a morte e condenação, reme-
Conheceu a matéria, forma e mi- tendo ao árbitro dos sacerdotes absolvei-
nistros deste Sacramento; os efeitos da os pecados ou negar-lhes a absolvição (Mt
graça, o caráter que imprime na alma. En- 18,18).
tendeu que a unção do bálsamo e azeite,
matéria deste Sacramento, representa a
luz das boas obras e o odor de Cristo (2 O Sacramento da Eucaristia
Cor 2,15) que osfiéisdevem espalhar por
seu testemunho, conforme indicam as 834. Chegou a prudentíssima Se-
palavras da forma deste Sacramento. nhora a particular inteligência do sobe-
Ao receber estas inteligências, rano mistério e sacramento da Eucaristia.
nossa grande Rainha, do fundo do co- Conheceu esta maravilha, mais profunda-
ração, fazia heróicos atos de louvor, mente que os supremos serafins. Foi-lhe
agradecimento e fervorosas súplicas. Al- revelado o modo sobrenatural com que
mejava que todos os homens viessem tirar estariam a humanidade e divindade de seu
égua destas fontes do Salvador (Is 12,3), Filho santíssimo sob as espécies do pão e
e gozassem de tão mcomparáveis do vinho; a virtude das palavras para con-
tesouros, reconhecendo-o por seu ver- sagrar o corpo e sangue, convertendo uma
1 -n°I030

64
Quinto Livro - Capítulo 11
substância em outra e permanecendo os tado quando chegasse a hora de se con-
acidentes sem sujeito. Entendeu como sagrar.
estaria, ao mesmo tempo, em tantas e di- Disse-lhe a divina Rainha: Altís-
versas partes; comove ordenaria o sacros- simo Senhor meu, e vida Verdadeira de
santo mistério da missa, para consagrá-lo minha alma. Por ventura, merecerá este
e oferecê-lo em sacrifício ao eterno Pai até vil bichinho e opróbrio dos homens rece-
o fim dos séculos; como seria adorado e ber-vos em seu peito? Serei tão ditosa de
venerado nos numerosos templos da santa voltar a receber-vos em meu corpo e em
Igreja católica, em todo o mundo; os efei- minha alm a? Meu peito será vossa morada
tos que sua recepção produzia, de acordo e tabemáculo onde descansareis? Possuir-
com as disposições de cada comungante, vos-ei gozando de vossos abraços, e vós,
e as fatais conseqüências para os que o meu amado, gozareis dos de vossa serva?
recebessem indignamente.
Teve inteligência da fé dos católi-
cos neste Sacramento, e dos erros dos Maria começa a se preparar para a
hereges contra este inefável benefício, e Comunhão
principalmente contra o amor imenso com
que seu Filho santíssimo determinara dar- 836. Respondeu-lhe o divino Mes-
se em alimento de vida eterna a cada um tre: Minha pomba e minha Mãe, muitas
dos mortais. vezes me recebereis sacramentado, e de-
pois de minha morte e subida aos céus,
gozareis deste consolo. Minha contínua
Maria pede a graça da comunhão habitação será no vosso puríssimo e
amoroso peito que Eu escolhi para morada
835. Ao receber estas e outras in- de meu agrado e beneplácito.
teligências sobre este augustíssimo Sacra- Ao ouvir esta promessa do Senhor,
mento, inflamou-se o coração de Maria humilhou-se novamente a grande Rainha
santíssima em novos incêndios de amor, e apegada ao pó lhe deu graças, admirando
incompreensíveis ao entendimento hu- o céu. Desde aquela hora, dirigiu todos
mano. Ainda que para todos os Artigos da seus atos e afetos na intenção de se
fé e sacramentos dedicou cânticos espe- preparar para receber a sagrada comunhão
ciais, neste grande mistério desdobrou seu de seu Filho sacramentado.
coração, e prostrada em terra fez novas Durante todos os anos que se pas-
demonstrações de amor, culto, louvor e saram depois desta ocasião, nunca se
agradecimento por tão alto benefício. Ex- esqueceu, nem interrompeu os atos da
primiu dor e sentimento pelos que o vontade. Sua memória era firme e cons-
haviam de usar mal e convertê-lo em sua tante como de anjo ®, e sua ciência mais
. própria condenação. elevada que a de todos eles. Como sempre
Abrasou-seem ardentes desejosde se lembrava deste mistério e de outros,
ver este Sacramento instituído, e se a força sempre agia conforme a memória e ciên-
do Altíssimo não a confortasse, os seus cia que possuía. Daí em diante, fez tam-
afetos lhe teriam arrebatado a vida, apesar bém grandes súplicas ao Senhor, para que
de se encontrar na presença de seu Filho desse luz aos mortais a fim de conhecerem
santíssimo que, ao mesmo tempo lhe e venerarem este altíssimo sacramento e
saciava e entretinha a sede, até chegar o o receberem dignamente.
tempo da instituição. Desde essa ocasião, Se, algumas vezes chegamos a re-
porém, começou a se preparar, pedindo a cebê-lo com esta disposição (queira Deus
Jesus a comunhão de seu corpo sacramen- que seja sempre), fora dos merecimentos
2-1'parte, if 537,604.

65
Quinto Livro - Capítulo 11

do Senhor, devêmo-lo às lágrimas e protegido por este Sacramento, voltará a


orações desta divina Mãe que no-lo mere- unir-se à própria alma para gozar de Deus.
ceu. Quando, ousadamente, alguém se NossafidelíssimaSenhora e Mãe, conhe-
atreve a recebê-lo em pecado, lembre-se ceu tudo isto e, em nome dos fiéis, o
que além da sacrílega mjúria que comete agradeceu.
contra seu Deus e Redentor, ofende tam-
bém a sua Mãe santíssima, pois despreza
e inutiliza seu amor, piedosos desejos, O Sacramento da Ordem
orações, lágrimas e suspiros. Esforcêmo-
nos por fugir de tão horrendo delito. 838. Sobre o Sacramento da Or-
dem sacerdotal, entendeu Maria santís-
sima como a providência de seu Filho san-
A Extrema-unção ® tíssimo, prudente artífice da graça e da
Igreja, criava-lhe ministros adequados aos
837. Quanto ao quinto Sacra- Sacramentos que instituía. Administran-
mento, a Extrema-unção, teve Maria san- do-os e consagrando o corpo e sangue do
tíssima inteligência de sua admirável fi- Senhor, santificariam o corpo místico dos
nalidade, matéria, forma e ministro. Co- fiéis.
nheceu que a matéria seria óleo bento de Para conferir-lhes esta dignidade,
oliva, por simbolizar a misericórdia. A que supera a tudo que é humano e até
forma, as palavras deprecatórias, a unção angélico, instituiu outro novo Sacramento
dos sentidos com os quais pecamos, e o de ordem e consagração. Este conheci-
ministro, o sacerdote. Os efeitos deste mento suscitou em Maria tal reverência à
Sacramento seriam confortar os fiéis en- dignidade dos sacerdotes que, desde esse
fermos, e em perigo de vida, contra as momento, com profunda humildade, co-
ciladas e tentações do inimigo que, meçou a respeitá-los e venerá-los. Pediu
naquela última hora, são muitas e ter- ao Altíssimo faze-los dignos e idôneos
ríveis. ministros para tal ofício, e que desse aos
Por este Sacramento se dá a quem demais fiéis conhecimento para os vene-
o recebe dignamente, graça para recobrar rarem. Chorou as ofensas que uns e outros
as forças espirituais debilitadas pelos pe- cometeriam, transgredindo os próprios
cados cometidos. Se a melhora da saúde deveres relativos ao Sacramento.
do corpo contribuir para a da alma, tam- Como em outros lugares já disse,
bém será concedida. Desperta-se íntima e ainda direi mais sobre o grande respeito
devoção, desejos de ver a Deus, perdoam- que nossa grande Rainha votava aos sa-
se os pecados veniais e os restos e con- cerdotes, não me detenho agora nisto* *.
seqüências dos mortais. O corpo do en- Tudo o mais que pertence a matéria e
fermo fica marcado, embora este Sacra- forma deste Sacramento, Maria santís-
mento não confira caráter. Fica, porém, sima conheceu, como também seus efeitos
como assinalado para que o demônio tema e os ministros que o conferem.
chegar onde, por graça e sacramental-
mente, esteve o Senhor como em seu
tabernáculo. O Matrimônio
Pelos privilégios do Sacramento
da Extrema-unção arrebata-se a Lúcifer o 839. Nossa divina Senhora foi
direito que adquirira sobre nós pelo pe- também informada no que respeita ao
cado original e pelos atuais. O corpo do último dos sacramentos, o Matrimônio.
justo que há de ressuscitar, assinalado e Entendeu os grandes fins que o Redentor
3 - atualmente "Unçâo dos Enfermos." (N.T.). 4 - l 1 parto n° 467, 2* partotf532, 602, 1455; 3'parte n°
92, ISt.etc
Quinto Livro - Capítulo 11

do mundo tinha em vista, ao instituir um Conheceu também, quão neces-


Sacramento para abençoar e santificar a sário era coagir nossa deslealdade e des-
propagação dos fiéis na lei evangélica, e cuido em não prorrogar muito o tempo
vir a significar o mistério do matrimônio para voltar à graça e amizade de Deus, por
espiritual de Cristo com a santa Igreja (Ef meio da confissão sacramentai, e con-
5, 32), mais expressamente que antes firmá-la com a sagrada Comunhão. Além
dela. do perigo a que se arriscam os que esque-
Entendeu como seria continuado cem e negligenciam o uso destes dois sa-
este Sacramento; sua forma e matéria, cramentos, ofendem a seu Autor, frus-
quão grandes bens dele proveriam aos fi- trando seus desejos e o amor com que os
lhos da santa Igreja e tudo o mais que per- instituiu para nossa salvação. Tudo isto
tence a seus efeitos, necessidade e virtude. procede de grande desprezo, tácito ou ex-
Por tudo, fez cânticos de louvor e ação de presso, e vem a ser grave injúria para quem
graças em nome dos católicos que rece- a comete.
beriam este benefício.
Em seguida, foram-lhe mani-
festadas as cerimonias e ritos que, nos Jejum e dízimos
tempos futuros, a Igrej a usaria para o culto
divino e os bons costumes. Conheceu as 841. Sobre os dois últimos precei-
leis que estabeleceriam para isso, em par- tos, jejuar e pagar dízimos, teve Maria a
ticular seus cinco Mandamentos: ouvir mesma inteligência. Compreendeu a ne-
missa nos dias santifícados; os tempos cessidade para os filhos da santa Igrej a de
para confessar e receber o santíssimo procurar vencer os inimigos que lhes
corpo de Cristo sacramentado; jejuar nos podem impedir a salvação. A muitos in-
dias determinados; pagar ao Senhor os felizes e negligentes isso acontece por não
dízimos e primícias dos frutos da terra. mortificarem e dominarem as paixões
que, ordinariamente são fomentadas pelo
vício carnal. Este é mortifícado pelo je-
Os Mandamentos da Igreja jum, do qual nos deu singular exemplo o
Mestre da vida, apesar de não possuir,
840. Nos preceitos da Igreja, co- como nós, o fomes pecati para vencer.
nheceu Maria santíssima altíssimos Quanto a pagar dízimos, entendeu
mistérios referentes à justificação; sua Maria santíssima ser especial ordem do
razão de ser; os efeitos que produziriam Senhor que os filhos da santa Igreja lhe
nosfiéise a necessidade que deles tinha a pagassem aquele tributo dos bens tempo-
nova e santa Igreja. rais. Deste modo, reconheciam-no como
Para guardar o primeiro, teriam Senhore Criador de tudoelhe agradeciam
dias marcados para encontros com Deus aqueles frutos que sua providência lhes
na assistência ao sagrado mistério e sa- dava para a conservação da vida.
crifício da Missa, oferecidos por vivos e Oferecidos ao Senhor, estes dízi-
defuntos. Nele renovariam a profissão de mos seriam aplicados ao sustento dos sa-
fé e a memória da Paixão e Morte de Cristo cerdotes e ministros da Igrej a, os quais por
com que foram redimidos. No modo sua vez seriam ainda mais agradecidos ao
possível, cooperariam na grandeza e na Senhor que, tão generosamente, os provia
oferta de tão supremo sacrifício, e dele de sua própria mesa. Ao mesmo tempo,
haveriam de haurir tantos frutos e bens compreenderiam sua obrigação de cuidar
como os que recebe a santa Igreja do sempre da saúde espiritual e das necessi-
sacrossanto mistério da Missa. dades dosfiéis.O suor destes provia o

67 •
Quinto Livro - Capítulo 11

sustento dos ministros sagrados, para que o memorial das maravilhas que desejava
eles empregassem toda a vida no culto realizar.
divino e serviço da santa Igreja.
DOUTRINA QUE ME DEU A
RAINHA DO CÉU.
Maria, letra promissória de Deus
842, Fui muito breve na sucinta ex- Ingratidão humana
posição de tão ocultos e grandiosos
mistérios, como os que se passaram no in- 843. Minha filha, muitas vezes
flamado e generoso coração de nossa tenho te mostrado quão injurioso é ao
divina Imperatriz, ao receber do Altíssimo Altíssimo, e perigoso aos mortais, o es-
a noticia da lei e nova Igrej a do Evangelho. quecimento e descuido com que despre-
O temor de errar, constrangeu meu co- zam as misteriosas e tão admiráveis
ração a não ser muito prolixo, em mani- obras que sua divina clemência ordenou
festar o que ele recebeu e conheceu através para a salvação. O materno amor me so-
da inteligência. licita a renovar em ti algo desta lem-
A luz da santa fé que professamos, brança e da dor por dano tão lastimável.
governada pelaprudência epiedade cristã, Onde está o juízo dos homens, que tão
esclarecerão o coração católico que aten- perigosamente desprezam sua salvação
tamente se aplicar na veneração de tão ele- eterna e a glória de seu Criador e Reden-
vados mistérios. Considere, com viva fé, tor?
a maravilhosa harmonia das leis e sacra- As portas da graça e da glória estão
mentos, doutrinas e tantos mistérios como abertas, e eles não só não querem entrar
encerra a Igreja católica, pelos quais ad- por elas, mas fecham as suas, quando a
miravelmente se regeu desde o princípio, mesma vida e luz lhes vai ao encontro,
e se regerá até o fim do mundo. recusando que entrem em seus corações
Tudo isto esteve reunido, por ad- cheios de trevas e de morte.
mirável modo, no íntimo de nossa Ó pecador, que crueldade mais de-
Rainha e Senhora. N*ele, a nosso enten- sumana a tua! Sendo tua enfermidade
der, ensaiou Cristo Redentor do mundo, perigosa e mortal, não queres aceitar o
a construção da santa Igreja. Anteci- remédio que te oferecem gratuitamente!
padamente, depositou-a toda em sua Qual seria o defunto, que não sentiria
Mãe puríssima, para que fosse a grande reconhecimento por quem lhe res-
primeira a gozar superabundantemente tituísse a vida? Qual o enfermo, que não
de seus tesouros. Quis que, gozando os agradeceria o médico que o curasse de sua
praticasse, amasse, cresse, esperasse e dolência?
agradecesse por todos os demais mor- Os filhos dos homens entendem
tais; que chorasse também os pecados isto e sabem ser agradecidos a quem lhes
deles, para que não impedissem a tor- dá a vida e saúde que logo hão de perder,
rente de tantas misericórdias para o e só serve para devolvê-los a novos
gênero humano. perigos e trabalhos. Porque, então,
Maria santíssima foi a escritura serem tão estultos e duros de coração
pública onde se registrou tudo quanto para não reconhecer e agradecer a quem
Deus havia de operar pela redenção hu- lhes dá a saúde, a vida do eterno des-
mana, ficando como que empenhado a canso, e o resgate das penas que não
cumprí-la. A virgem seria sua coad- terão fim nem podem ser suficiente-
jutora e em seu coração deixava escrito mente ponderados?

68
Quinto Livro - Capítulo 11

O sacramento da Penitência A recepção indigna dos sacramentos


844. Ó minha caríssima, como 845. Quero que entendas, em par-
posso eu reconhecer por filhos e me con- ticular, a indignação do Onipotente Deus,
siderar Mãe dos que assim desprezam ainda que não poderás conhecê-la inteira
meu único e amantíssimo Filho e Senhor, e dignamente, contra os que, com louca
e sua liberal clemência? Os anjos e santos ousadia e atrevimento recebem indigna-
que no céu a vêem, admiram-se da mente os santos sacramentos, especial-
grosseira ingratidão e perigo dos viventes, mente a augustíssima Eucaristia.
e reco-nhecem a retidão da justiça divina. O alma, quão grave é esta culpa
Muito te dei a conhecer destes segredos diante do Senhor e dos santos! E, não só
nesta História. recebê-lo indignamente, mas ainda as ir-
Agora te explico mais, para me reverências que se cometem nas Igrejas
imitares e me acompanhares em chorar e em sua real presença! Como podem
amargamente esta infeliz calamidade, na dizer osfiéisque têm fé nesta verdade
qual Deus tem sido e é muito ofendido. e a respeitam? Estando Cristo sacramen-
Chorando suas ofensas, procura de tua tado em tantos lugares, não só não o visi-
parte emendá-las. Quero que não deixes, tam e reverenciam, mas cometem em
um só dia, de render humildes ações de sua presença tais sacrilégios, que nem
graças à sua grandeza que ordenou os san- os pagãos, em suas falsas crenças, se
tos sacramentos e suporta o indigno uso atreveriam. Este mal pediria muitos av-
que deles fazem os maus fiéis. Recebe-os isos e livros.
com profunda reverência, fé e esperança Advirto-te, minha filha, que os
firme. homens do século atual desmerecem, pela
Pelo amor que tens ao santo sacra- equidade do Senhor, conhecer o que
mento da Penitência, deves procurar minha piedade deseja para seu remédio.
chegar a ele com as disposições que a O que agora hão de saber é, que seu juízo
santa Igreja e seus doutores ensinam, a fim será tremendo e sem misericórdia, como
de recebê-lo frutuosamente. Freqüenta-o o de servos maus e infiéis condenados por
todos os dias com humildade e agradecido sua própria boca (Lc 19,22). Isto poderás
coração, e sempre que caíres em culpa, advertir a quantos quiserem te ouvir.
não adies o remédio deste Sacramento. Aconselha-os que, pelo menos, cheguem
Lava e purifica tua alma, pois se é torpís- cada dia aos templos onde se encontra
simo descuido saber-se manchada pelo Deus sacramentado, paia lhe darem culto
pecado e ficar nessa fealdade um só ins- de adoração e reverência. De igual modo,
tante, quanto não o seráficarassim muito procurem assistir a missa, pois não sabem
tempo? quanto perdem por essa negligência.
CAPITULO 12
ORAÇÃO DE CRISTO E MARIA PELOS HOMENS.
A vivência espiritual entre Jesus e santa Igreja, individualmente, por suas
Maria pessoas e nomes. Assim aconteceu com
os que viu e tratou em sua vida. Quando
846. Por mais que se procure apli- chegavam à sua presença, começava a
car nosso limitado entendimento, a fim de conhecê-los apenas por outro modo, cor-
manifestar e glorificar as misteriosas respondente à notícia interior de que já
obras de Cristo nosso Redentor e de sua estava informada.
Mãe santíssima, sempre se ficará vencido
e muito longe de atingir a grandeza destes
mistérios. São maiores, diz o Eclesiástico A visão de Maria era inferior a de
(43,33), que todo nosso louvor. Nunca os Cristo
vimos, nem os compreenderemos e sem-
pre ficarão ocultas coisas maiores de 847. Quando a Mãe da sabedoria
quantas dissermos. São muito poucas as via e entendia estes mistérios no inte-
que alcançamos e nem destas merecemos rior e nos atos das potências de seu
entender ou explicar o que entendemos. Filho santíssimo, não os penetrava
O entendimento do supremo tanto como a alma de Cristo unida à
Serafim é insuficiente para avaliar e divindade hipostática e beatificante. A
penetrar os segredos que se passaram en- grande Senhora era pura criatura e
tre Jesus e Maria santíssima nos anos em ainda não era bem-aventurada por
que viveram juntos, estes de que vou visão contínua. Também não via sem-
falando. Ainda mais, quando o Mestre da pre as espécies e luz beatífica daquela
luz a instruía de tudo o que havia de fazer alma santíssima, a não ser nas ocasiões
na lei da graça, e quanto esta encerraria na em que Ela também gozava da clara
sexta idade do mundo, a época do Evan- visão da divindade.
gelho que durará até os fins dos tempos. Nas demais visões, porém, dos
O que aconteceu em mais de mil mistérios da Igreja militante, conhecia
as espécies imaginárias das potências
(D interiores de Cristo Senhor nosso. Com-
seiscentosecinqüentae sete anos w , e o preendia que tudo dependia de sua von-
que ignoramos que irá acontecer até o dia tade santíssima que decretava e orde-
do juízo, nossa divina Senhora tudo co- nava aquelas obras, para seus devidos
nheceu na escola de seu Filho santíssimo. tempos, lugares e ocasiões. Por outro
Revelou e conferiu com Ela tudo o que modo, conhecia ainda, como a vontade
aconteceria nos tempos da Igreja em cada humana do Salvador se conformava com
época, lugar, reinos e províncias. a divina, e era por esta regida em tudo
Isto foi com tal clareza que, se esta quanto determinava.
Senhora continuasse a viver em carne
mortal, conheceria todos os membros da
1 -1657 - ano em que a Escritora se encontrava 71
Quinto Livro - Capítulo 12

Esta harmonia agia sobre a von- Oração de Cristo


tade e potências da Senhora para que co-
operasse com a vontade de seu Filho san- 849. A posição em que oravanosso
tíssimo, e por esta, com a divina. Deste Mestre, às vezes era de joelhos, outras
modo, estabelecia-se inefável semelhança prostrado, em forma de cruz, outras ele-
entre Cristo e Maria santíssima, coope- vado do solo, na mesma forma de cruz que
rando Ela, como coadjutora, na edificação muito estimava.
da lei evangélica e da santa Igreja. Na presença de sua Mãe, costu-
mava dizer, orando; Oh! cruz felicíssima,
quando estarei em teus braços e feceberás
O oratório de Maria os meus, para que em ti cravados, estejam
abertos para receber todos os pecadores ?
848. Estes ocultíssimos sacramen- (Mt9,13). Se desci do céu para chamá-los
tos passavam-se, ordinariamente, no hu- ao eminho de minha imitação e partici-
milde oratório da Rainha, onde celebrou pação, sempre estão abertas para abraçar
o maior dos mistérios, a Encarnação do e enriquecer a todos. Vinde, pois, cegos à
Verbo em seu virginal seio. Embora pobre claridade; vinde, pobres aos tesouros de
e estreito, de paredes nuas e baixas, con- "minha graça; pequeninos, aos carinhos de
teve a grandeza infinita de quem é imenso. vosso verdadeiro Pai; vinde, aflitos e fa-
Daí saiu quanto de majestoso e divino pos- tigados que eu vos aliviarei e consolarei
suem hoje os ricos e inumeráveis san- (Mt 11, 23); vinde, justos, minha pro-
tuários do mundo (Lv 16,12). priedade e herança; vinde, todos filhos de
Neste saneia sanetorum orava Adão, que a todos chamo. (ITim 2,4). Eu
comumente o sumo sacerdote da nova lei, sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,
Cristo Senhor nosso. Sua contínua oração 6), e para ninguém a recusarei se a quiser
consistia em dirigir ao Pai fervorosas receber. Eterno Pai meu, não os despre-
súplicas pelos homens e em conferir com zeis, pois são obras de vossas mãos (SI
137, 8). Por eles me ofereço a morrer na
sua Virgem Mãe as obras da redenção, os cruz, a fim de os entregar justificados e
ricos dons e tesouros de graça que pre- libertos, se assim aceitarem, devolvendo-
parava para deixar em o novo testamento, os ao grêmio de vossos eleitos no reino
para os filhos da luz e da santa Igreja, sua celestial, onde o vosso nome seja glorifi-
depositária. cado.
Pedia, muitas vezes, ao eterno Pai
que os pecados dos homens e sua durís-
sima ingratidão não fossem causa para im-
pedir-lhes a Redenção. Em sua ciência Sentimentos de Maria
conhecia as culpas, presentes e previstas,
do gênero humano, e a condenação de tan- 850. A tudo se encontrava presente
tas almas ingratas a este beneficio. Saber a piedosa Mãe e na pureza de sua alma
que havia de morrer por elas, muitas vezes como em cristal sem mácula, refletia-se a
fê-lo agonizar e suar sangue. Os Evange- luz de seu Unigênito. Eco de suas palavras
listas mencionam apenas uma vez (Ec 22, interiores e exteriores, as repetia e imitava
44), antes da Paixão, porque não escre- em tudo, acompanhando-o nas orações e
veram todos os sucessos de sua vida san- súplicas, nas mesmas posições em que as
tíssima, mas é certo que muitas vezes so- fazia o Salvador.
freu igual sudação, sendo presenciada por Quando a grande Senhora o viu,
sua Mãe santíssima*2*. Assim me tem sido pela primeira vez, suar sangue, seu mater-
manifestado em algumas inteligências. nal e amoroso coração ficou traspassado
Quinto Livro - Capítulo 12

de dor. Admirou-se do efeito que produ- Sejam abençoados por sua destra, os jus-
ziam em Cristo Senhor nosso os pecados tos e agradecidos que serão filhos de seu
e ingratidões dos homens, previstos pelo Pai! Sejam repletos de sua luz e dos
Senhor. tesouros de sua graça, os que hão de cor-
responder aos arden-
tes desejos de meu
Senhor, em lhes dar
eterna salvação.
Oh! quem
fôra humilde escrava
dos filhos de Adão,
que por seus serviços,
os obrigasse a por
termo a suas culpas e
à própria perdição!
Senhor meu, vida e
luz de minha alma,
quem terá coração tão
duro e vil, quem será
tão inimigo de si mes-
mo que não se reco-
nheça devedor em-
penhado de vossos
benefícios?
Quem tão in-
grato e indiferente,
que ignore vosso
amor ardentíssimo?
Como suportará meu
coração que os ho-
mens, tão beneficia-
dos por vossas mãos,
sejam tão rebeldes e
grosseiros?
Oh! filhos de
Adão, voltai contra
Mim vossa desumana
impiedade. Afligi-
Oração de Cristo e Maria pelos
homens. me, desprezai-me,
Com dolorosa angústia, a divina Mãe contanto que deis a
dirigia-se aos mortais dizendo; Oh! filhos meu querido Senhor o amor e reverência
dos homens, quase não compreendeis que deveis a suas finezas.
quanto o Criador estimava em vós sua Vós, Filho e Senhor meu, sois luz
imagem e semelhança! Em preço de vosso da luz, Filho do eterno Pai, figura de sua
resgate oferece seu próprio sangue, dando substância (Heb 1,3), eterno e tão infinito
preferência à vossa salvação! Oh! como quanto Ele, igual na essência e atributos,
quisera ser dona de vossa vontade para enquanto sois com Ele um só Deus e Ma-
converter-vos a seu amor e obediência! jestade suprema (Jo 10, 30). Sois esco-

Ti
Quinto Livro - Capitulo 12

lhido entre milhares (Cant 5, 10), mais Resposta do eterno Pai a seu Filho
formoso que todos os filhos dos homens,
santo, inocente e sem defeito algum (Heb 852. Acontecia muitas vezes que,
7,26). Como, Bem eterno, desconhecem estando seu Filho santíssimo nestas dis-
os mortais o objeto nobilíssimo de seu posições de sofrimento ou gozo, orando
amor, o princípio que lhes deu existên- ao eterno Pai, conferindo os mistérios
cia, o fim que consiste sua verdadeira altíssimos da Redenção, respondia-lhe a
felicidade? Oh! se me fôra possível dar pessoa do Pai, aprovando e concedendo o
a vida, para que todos saíssem de tal ig- que lhe pedia o Filho para a salvação dos
norância! homens. Representava também a humani-
dade santíssima os decretos da predesti-
nação ou reprovação de alguns.
Participação de Maria Nossa grande Rainha e Senhora
ouvia e entendia tudo isso. Humilhava-se
851. Outras muitas razões como até o solo, e com incomparável temor
estas, dizia a divina Senhora. Meu co- reverenciai adorava o Todo-poderoso.
ração e minha língua são incapazes de Acompanhava seu Unigênito nas orações,
explicar os ardentes afetos daquela ino- súplicas e ações de graças que oferecia ao
centíssima pomba que, com este amor e Pai por suas grandes obras e benignidade
profundíssima reverência, enxugava o a favor dos homens, e no louvor de seus
sangue que seu Filho querido suava. imperscrutáveis juízos.
Outras vezes, ao contrário o encontrava Todos estes segredos e mistérios,
cheio de glória e resplendor, transfigu- a prudentíssima Virgem meditava no seu
rado, como mais tarde apareceria no Ta- íntimo e guardava no arquivo de seu
bor (Mt 17,2). imenso coração. De tudo se servia como
Acompanhavam-no grande mul- de matéria e alimento, para mais acender
tidão de anjos, em forma humana, que o e conservar o fogo que ardia no santuário
adoravam e com sonora e melodiosa voz de seu interior. Nenhum destes favores
cantavam hinos de louvor ao Unigênito do permaneciam nela sem fruto.
Pai feito homem. Ouvia nossa Senhora A todos correspondia segundo o
estas músicas celestiais, e outras vezes as- maior agrado e gosto do Senhor. A tudo
sistia a elas, embora não estivesse Cristo dava a plena correspondência que con-
Senhor nosso transfigurado. A divina vinha, para que se realizassem os planos
vontade ordenava, em algumas ocasiões, do Altíssimo e todas suas obras se tomas-
que a humanidade do Verbo recebesse sem conhecidas e agradecidas, o quanto
aquele conforto. Em outras recebia-o era possível numa pura criatura.
quando transfigurado, pela redundância
da glória da alma sobre o corpo. Isto, DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU,
porém, foi poucas vezes. MARIA SANTÍSSIMA.
Quando a divina Mãe o via naquela
forma gloriosa, ou quando ouvia a música
dos anjos, participava com tanta abundân- Mãe de misericórdia
cia daquele júbilo e deleite celeste que, se
não fôra a fortaleza de seu espírito e o 853. Minha filha, uma das razões
auxílio de seu Filho e Senhor, desfale- por que os homens me dão o nome de Mãe
'ceria. Os santos anjos também a susten- de misericórdia, é o piedoso amor com que
tavam nos delíquios corporais que em tais intimamente desejo que todos cheguem a
ocasiões costumava sentir. se saciar nas torrentes da graça, e experi-

74
Quinto Livro - Capitulo 12

mentem a suavidade do Senhor (SI 33,9) coração esta advertência: antes de execu-
como eu. A todos os que têm sede, tar qualquer ato, interior ou exterior, per-
chamo e convido para comigo chegarem gunta a ti mesma, se meu Filho santíssimo
as águas da divindade. Venham os mais e eu faríamos ou diríamos o mesmo que
pobres e ailitos que, se me responderem vais dizer ou fazer, e com que reta intenção
e seguirem, ofereço-lhes minha pode- o ordenaríamos à glória do Altíssimo e ao
rosa proteção c amparo, e intercederei bem do próximo. Se achares que o
junto a meu Filho, pedindo o maná diríamos e faríamos com esse fim, exe-
escondido (Apoc 2,17) que lhes dará ali- cuta-o. Se, porém, entenderes o contrário,
mento e vida. Vem tu, minha amiga. Vem suspende e não o faças. Eu usava esta
e receberás o nome novo, conhecido só atenção com meu Senhor e Mestre, apesar
por quem o trás. Levanta-te do pó, sa- de não ter contradição para o bem, como
code e rejeita todo d terrestre e tran- tu, mas porque desejava imitá-lo perfei-
sitório e aproxima-te do celestial. Nega tamente. Nesta imitação consiste a partici-
a ti mesma e a todo o proceder da fragili- pação frutuosa de sua santidade, porque
dade humana. Contempla, na verdadeira ensina e conduz ao mais perfeito e
luz que recebeste, as ações de meu Filho, agradável a Deus.
as minhas que as imitaram, e sejam Além disto, advirto-te que, de hoje
exemplar e espelho por onde compor a em diante, nada faças, nem fales, nem
beleza que o sumo Rei deseja encontrar penses, sem pedir-me licença antes, con-
em ti (SI 44,12). sultando-me como tua Mãe e mestra. Se
eu te responder agradecerás ao Senhor, e
se não te responder, mas perseverares
Reproduzir a vida de Cristo e Maria nesta fidelidade, garanto e prometo da
parte do Senhor, que Ele te dará luz do que
854. O meio mais eficiente para for mais conforme à sua perfeitíssima
conseguires a perfeição que desejas, e dar vontade. Não obstante, faz tudo com a
plena eficácia a tuas obras, é o seguinte: obediência de teu pai espiritual, sem
Regula todas tuas ações, gravando no teu nunca esquecer este exercício.

75
Quinto Livro - Capítulo 12
Quinto Livro - Capítulo 13

CAPÍTULO 13
MARIA AOS TRINJA E TRÊS ANOS DE IDADE. SUSTENTA
A FAMÍLIA COM SEU TRABALHO.
A idade perfeita por nós sua humanidade santíssima, com
todos os dons da natureza e graça. Não que
855, Ocupava-se nossa grande Ele crescesse na graça, mas para que a
Rainha e Senhora nos santos exercícios e natureza fosse a ela correspondente, e
mistérios que até agora mais balbuciei do nada ficasse por sacrificar e doar ao
que expliquei, principalmente depois que gênero humano.
seu Filho santíssimo passou dos doze Por esta mesma razão, dizem que
anos. o Altíssimo criou nossos primeiros pais,
Correu o tempo, e ao completar Adão e Eva, na perfeição dos trinta e três
nosso Salvador dezoito anos de sua ado- anos. Deve-se, porém, pensar que na-
lescência, segundo o cômputo de sua En- quela primeira e segunda idade do mundo,
carnação e nascimento acima citado ^ \ a vida era muito mais longa. Dividindo a
atingiu sua Mãe santíssima os trinta e três idade dos homens em mais ou menos seis
anos da idade perfeita e juvenil. Chamo-a ou sete partes, cada uma seria composta
assim porque, segundo a comum divisão de muito mais anos do que agora, quando,
da idade humana, seja em seis ou sete par- depois de David a senetude chega aos
tes, a de trinta e três anos é o término de setenta anos (SI 89,10).
seu desenvolvimento natural. Segundo
uns, pertence aofimda juventude, ou ao
princípio dela segundo a contagem de ou- Maria aos trinta e três anos
tros.
Seja qual for a divisão das idades, 856. Ao completar trinta e três
o término da perfeição natural é comum anos, o virginal corpo da Imperatriz do
aos trinta e três anos. A permanência nesse céu, chegou à completa perfeição natural.
estado é pequena, pois a natureza corrup- Tornou-se tão bem proporcionada e bela
tível logo começa a declinar, como a lua que era admiração, não só para a natureza
depois de atingir sua plenitude. Neste de- humana, mas também para os próprios
clínio da idade mediana em diante, o corpo espíritos angélicos.
não cresce mais em altura. Se aumenta em Na altura, nos membros e em todo
espessura, isto não é perfeição, mas de- o porte, desenvolvera-se tão harmoni-
feito da natureza. camente que chegou â suma perfeição de
Por esta razão, Cristo Senhor uma criatura humana. Assemelhava-se à
nosso morreu na idade de trinta e três anos. humanidade santíssima de seu Filho,
Seu amor ardentíssimo quis esperar que quando Ele alcançou essa idade. Na cor e
seu sagrado corpo chegasse ao término de na fisionomia eram extremamente pareci-
sua natural perfeição e vigor, para oferecer dos, embora permanecessem os traços
r-n°I38, 475

77
característicos do sexo: Cristo, perfeitís- cia e de outras virtudes, permitiu que so-
simo homem, e sua Mãe perfeitíssima fresse algumas enfermidades e dores,
mulher. (como direi no capítulo seguinte), o que
Para todos os outros mortais, nessa lhe dificultava muito o trabalho corporal.
idade, geralmente, começa o declínio da Notou-o a prudentíssima Esposa que sem-
perfeição física. Diminui a umidade radi- pre o havia estimado e servido mais que
cal e o calor inato; descontrolam-se os hu- nenhuma outra do mundo a seu marido.
mores, prevalecendo os terrestres; o ca- Disse-lhe: Meu esposo e senhor,
belo começa a branquear, as rugas surgem sinto-me muito obrigada pela fideli-
no rosto, o sangue esfria, as forças en- dade, trabalho e desvelo que sempre
fraquecem. Todo o organismo começa a tiveste. Até agora, com o suor de vosso
declinar para a senetude e destruição, sem rosto, alimentaste a vossa serva e a meu
que indústria alguma consiga detê-la com- santíssimo Filho e Deus verdadeiro.
pletamente. Nesta solicitude gastaste vossas forças
Com Maria santíssima não aconte- e o melhor de vossa vida e saúde para
ceu assim. Seu admirável organismo e cuidar da minha. Da mão do Altíssimo
vigor conservaram a perfeição que al- recebereis a recompensa e as bênçãos
cançaram aos trinta e três anos, sem en- que mereceis (SI 20,4). Agora, suplico-
fraquecer e declinar. Quando atingiu os vos, senhor meu, que descanseis do tra-
setenta anos, término de sua vida, como balho, pois está acima de vossas fracas
direi em seu lugar ™\ possuía o mesmo forças. Quero ser agradecida, e trabalhar
físico que aos trinta e três, com as mesmas agora para vos servir no resto de vida
energias e aparências exteriores. que o Senhor nos conceder.

São José em seus últimos anos São José servido por Jesus e Maria
857. A grande Senhora teve 858. Ouviu o Santo as razões de
consciência deste benefício e sua amorosa Esposa, derramando mui-
privilégio que lhe concedeu o Altís- tas lágrimas de humilde gratidão e con-
simo, e lho agradeceu. Entendeu que a solo, Fez alguma insistência pedindo-
razão dele era para nela sempre se con- lhe que lhe permitisse continuar no tra-
servar a semelhança com a humanidade balho, mas por fim cedeu aos rogos de
de seu Filho santíssimo, mesmo na per- sua Esposa e Senhora do mundo. Daí em
feição natural, não obstante a diferença diante deixou o trabalho manual com
da duração da existência terrestre de que ganhava o alimento para os três. As
ambos: o Senhor daria a vida nessa ferramentas de seu ofício de carpinteiro
idade, enquanto a divina Senhora vive- foram dadas como esmola, para que
ria mais tempo. nada ficasse inútil e supérfluo naquela
Quando, pois, aSenhorado mundo família.
chegou aos trinta e três anos, São José, Livre desta preocupação, José en-
embora não fosse muito velho, sentia-se tregou-se inteiramente à contemplação
já muito alquebrado fisicamente. Suas dos mistérios de que era depositário e ao
viagens, os cuidados e contínuo trabalho exercício das virtudes. Sendo nisso tão fe-
para sustentar a sua Esposa e ao Senhor liz e bem-aventurado, por gozar da pre-
do mundo, o haviam enfraquecido, mais sença e convívio com a divina Sabedoria
do que a idade. O mesmo Senhor que o humana e sua Mãe, chegou o homem de
queria aperfeiçoar no exercício da paciên- Deus a tão elevada santidade que, depois
Quinto Livro - Capítulo 13
de sua divina Esposa, excedeu a todos os Laboriosidade da Virgem
outros santos.
A Senhora do céu e seu Filho san- 860. Não faltavam ao Senhor
tíssimo o assistiam nas suas enfermi- meios para sustentar sua vida humana com
dades, o serviam, consolavam e anima- a de sua Mãe santíssima e a de São José,
vam com a maior atenção. Nãohápalavras pois não só de pão se sustenta e vive o
para traduzir a reverência, humildade e
amor que estes favores produziam no
singelo e agradecido coração de José.
Seus sentimentos foram, sem dúvida, ad-
miração e gozo para os espíritos angéli-
cos, e de sumo agrado e beneplácito para
o Altíssimo.

O trabalho de Maria
859. Desde essa ocasião, encarre-
gou-se a Senhora do mundo de sustentar
com seu trabalho ao Filho santíssimo e
ao Esposo. Assim o dispôs a eterna Sa-
bedoria para plenificá-la em todo gênero
de virtudes e méritos e para exemplo e
confusão das filhas de Adão e Eva.
Apresentou-nos por modelo esta mulher
forte (Prov 31,10 seg.), revestida de for-
mosura e fortaleza, cingida com a ener-
gia que lhe tinha conferido naquela
idade. Fortificou seu braço para esten-
der as mãos aos pobres, comprar o homem (Mt 4,4). Como Ele mesmo disse,
campo e plantar a vinha com o fruto de poderia fazê-lo só com sua palavra;
suas mãos. Nela confiou, conforme diz " poderia também, milagrosamente, ofere-
o livro dos Provérbios, o coração de seu cer a alimentação de cada dia;
consorte, não apenas o de seu esposo O mundo, porém, não teria visto o
José, mas ainda o de seu Filho, Deus e exemplo de sua Mãe santíssima e Senhora
homem verdadeiro, mestre da pobreza, da criação, trabalhando para ganhar o sus-
pobre dos pobres. Nessa confiança não tento. A Virgem também ficava sem esse
foram decepcionados. prêmio, se não houvesse adquirido aque-
Começou a grande Rainha a traba- les merecimentos.
lhar mais, íiando e tecendo linho e lã e Tudo foi ordenado pelo Mestre de
realizando o que misteriosamente dela nossa salvação, com admirável providên-
falou Salomão nos Provérbios, capítulo cia, para glória da grande Rainha e nossa
31. Como expliquei este capítulo no fim instrução.
da primeira parte, não o repito aqui, ainda Não se podem explicar com
que muitas das coisas que lá disse, palavras a diligência e cuidado com que
referiam-se a esta ocasião, quando as acudia a tudo. Trabalhava muito, e porque
praticou nossa Rainha em atos mais exter- se conservava sempre recolhida em casa,
nos e materiais. acudia-lhe aquela feliz vizinha de quem
Quinto Liv - Capítulo 13

falei outras vezes (4) . Levava os trabalhos pouco: a prudência, a caridade e a justiça.
que a grande Rainha fazia, trazendo-lhe Com a prudência deves prevenir as neces-
as coisas necessárias. Quando a Senhora sidades do próximo e socorrê-las no modo
lhe dizia o que devia fazer ou trazer, nunca possível a teu estado. A caridade te levará
era mandando, mas sim pedindo-lhe com a remediá-las, amorosa e diligentemente.
suma humildade. Para reconhecer-lhe a A justiça te ensinará que é obrigação pro-
disposição, perguntava se tinha gosto e ceder assim com os necessitados, como o
desejo de o fazer desejarias para ti.
Ela e seu Filho santíssimo não Teus olhos devem servir a quem
comiam carne. Sua alimentação consistia não os tem (Jo 24,15); a quem não tem
só em peixe, frutas e verduras, com ad- ouvidos, deves ensinar, tuas mãos de-
mirável temperança e abstinência. Para verão trabalhar para aquele que não as
São José preparava carne, procurando pode usar. Ainda que sempre deves prati-
compensar a simplicidade e pobreza do car esta doutrina espiritualmente, de
cardápio, com o alinho e sabor que lhe em- acordo com teu estado, quero que a exer-
prestava, e o carinho e dedicação no servi- cites também no temporal, e em tudo sej as
lo. Dormia pouco a diligente Senhora, fidelíssima em me imitar.
ocupando grande parte da noite no tra- Quando vi meu Esposo em neces-
balho. Permitia-lhe o Senhor, mais do que sidade, dispus-me a servi-lo e sustentá-lo,
quando estavam no Egito, como descrevi como achei que era minha obrigação, e
então (5) . com ardente caridade assim o fiz por meu
Acontecia, algumas vezes, que seu trabalho, até sua morte. O Senhor mo
trabalho não bastava para comutar com havia dado.para que ele me sustentasse,
tudo o que necessitavam, pois São José, como o fez com suma fidelidade, en-
agora, mais do que antes, precisava de quanto teve forças. Quando, porém, elas
melhor alimentação e roupa. Nestes casos, lhe faltaram e o Senhor mas dava, era
intervinha o poder de Cristo nosso Senhor, minha aquela obrigação. Teria sido grande
multiplicando o que tinham em casa, ou falta deixar de lhe retribuir com dedicação
mandando aos anjos que o trouxessem. As e fidelidade.
mais das vezes, porém, fazia estes
prodígios através de sua própria Mãe, dis-
pondo que seu trabalho se multiplicasse Injustiça social. Opressão aos pobres
em suas mãos. e humildes
DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU 862. Não seguem este exemplo os
MARIA SANTÍSSIMA. filhos da Igreja. Por isto introduziu-se en-
tre eles uma ímpia perversidade, que cons-
trange o justo Juiz a castigá-los severa-
Prudência, caridade e justiça mente. Todos os mortais nasceram para
trabalhar (Jó 5, 7) não só depois do pe-
861. Minha filha, o que escreveste cado, como pena merecida, mas desde a
sobre meu trabalho, constitui altíssima criação do primeiro homem (Gn 2,15).
doutrina para tua orientação e parame imi- Apesar disso, o trabalho não é
tares. Afimde não a esqueceres, vou re- repartido com todos, mas os mais pode-
sumi-la em três pontos. rosos e ricos, os que o mundo chama se-
Quero que me imites nas três vir- nhores e nobres, procuram eximir-se desta
tudes que me vistes praticar no que escre- lei geral, e lançam todo o trabalho sobre
veste, e nas quais os mortais reparam os humildes e pobres da sociedade. O suor
4 - À c i m â i f 277, n° 423 - 5 - Acima tf 658
Quinto Livro - Capítulo 13

destes sustentam o fausto e a soberba dos bem porque são tuas irmãs, filhas de teu
ricos, e o fraco e pequeno serve ao forte e Pai celestial, obras do Senhor, teu Esposo.
poderoso. Em muitos soberbos, pode Havendo tu, sem merecer, recebido mais
tanto esta perversidade, que chegam a do que todas, também estás obrigada a tra-
pensar que lhes é devido este obséquio, e balhar mais do que qualquer outra. Alivia
nessa convicção oprimem, humilham' e as enfennas e fracas do trabalho corporal
desprezam os pobres (Tg 2, 6). Pre- e faze-os por elas. Quero que não encar-
sumem que só têm que viver para si e para regues outra de fazer o trabalho que te per-
gozar do ócio e das delícias e bens do tence e podes desempenhar, mas ainda
mundo, e aos que os servem nem sequer ponhas sobre teus ombros, quanto for
pagam o pequeno estipêndio de seu tra- possível, o das outras, sendo a serva e
balho. menor de todas, como desejo que enten-
Sobre o ponto de não remunerar os das e te consideres.
pobres trabalhadores, e no mais que en- Não podendo fazer tudo, convém
tendeste, poderias citar gravíssimas ofen- distribuir os trabalhos corporais a tuas
sas que se praticam contra a ordem e von- súditas. Nesta distribuição, adverte em
tade do Altíssimo. Basta, porém, saber guardai" imparcialidade e ordem. Não so-
que assim como eles pervertem a justiça brecarregues aquela que é mais humilde
e a razão, e não querem participar do tra- e disponível, ou a mais fraca fisicamente.
balho dos homens, assim também se in- Antes faço questão que humilhes a altiva
verterá para com eles a ordem da mi- e soberba que se aplica de má vontade ao
sericórdia concedida aos pequenos e trabalho. Faze isto, porém, sem irritá-las
desprezados (Sab 6, 7). Os que foram com muita aspereza, e com humilde man-
dominados pela soberba e sua malvada sidão e severidade obriga às tíbias e de
ociosidade, serão castigados com os caráter difícil a se porem sob o jugo da
demônios a quem imitaram. santa obediência. Nisto lhes fazes o maior
benefício que podes, e de tua parte cum-
pres tua obrigação de consciência, o que
também deves fazê-las compreender.
O trabalho conventual Conseguirás tudo isso, se não fi-
863. Tu, caríssima,atende em co- zeres acepção de pessoas, e se a cada uma
nheceres tal erro. O meu trabalho e exem- deres o trabalho segundo as próprias for-
plo estejam sempre diante de ti. Afasta-te ças, e as demais coisas que necessitarem.
dos filhos de Belial (2 Par 13, 7) que, na Com esta justiça e igualdade, sendo a
ociosidade, procuram o aplauso da vai- primeira em trabalhar e fazer o mais
dade (SI 4,3), e assim trabalham em vão. difícil, constrange-as a detestarem a ocio-
Não te consideres prelada e superiora, sidade e frouxidão. Procedendo assim,
mas sim escrava de tuas súditas, a menor, terás humilde liberdade paia mandá-las.
a mais humilde e serva de todas, sem dife- O que, porém, podes fazer, não o mandes
rença. Socorre-as, se for preciso, traba- a nenhuma, para não perderes o fruto e
lhando para alimentá-las, pois é teu de- recompensa do trabalho, e para me imitar
ver não apenas por ser prelada, mas tam- e obedecer ao que te admoesto e ordeno.
CAPÍTULO 14
OS ÚLTIMOS ANOS DE SÃO JOSÉ. SEUS SOFRIMENTOS,
ENFERMIDADES E COJVIO ERA SERVIDO PELA RAINHA
DO CEU, SUA ESPOSA.
Pela cruz à luz tico, e convençamo-nos que o padecer não
foi só para Cristo nosso Senhor, mas
864. Todos nós, chamados à luz e
também para nós. Se padeceu trabalhos
profissão da santa fé, à escola e se-
e morte como Redentor do mundo, foi
guimento de Cristo, nosso bem, incorre-
também, como Mestre, que nos ensinou
mos nesta geral inadvertência: pro- e convidou a carregar a cruz. Dela fez
curâmo-lo, como Redentor de nossas cul-
participantes os seus amigos, de modo
pas, e quase nunca como Mestre do sofri-
que o mais íntimo receberá parte maior,
mento (Lc 24, 26). Queremos gozar doe nenhum deles entrou no céu sem o
fruto da redenção humana, de nos ter aber-
merecer por suas obras. Desde sua Mãe
to as portas da graça e da glória, mas não
santíssima, os Apóstolos, Mártires,
atendemos tanto em seguir a Cristo noConfessores e Virgens, todos cami-
caminho da cruz, por onde Ele chegou à
nharam na estrada da cruz, e o que mais
sua glória e nos convida a procurar a nossa
sofreu, mais copiosa recompensa e
(Mtl6,24). coroa possui.
Nós os católicos, procedemos as- O exemplo do Senhor é o mais
sim, não por errar na fé como os hereges,
vivo e admirável, mas poderemos ter a
pois confessamos que sem obras e sem ousadia de dizer que, se Ele padeceu
trabalhos não há prêmios nem coroa (2como homem, também era Deus po-
Tim 2,5). Concordamos que é sacrílegaderoso, e a fraqueza humana só pode ad-
blasfêmia valer-nos dos méritos de mirar, mas não imitar seu exemplo. A
Cristo nosso Senhor, para pecar sem esta desculpa, o Senhor nos apresenta o
freio e sem temor. Não obstante estas exemplo de sua Mãe e nossa Rainha ino-
verdades, na prática das obras corres-centíssima, o de seu esposo São José e
pondentes à fé, alguns filhos da santao de tantos outros homens e mulheres.
Igreja pouco se diferenciam dos que Fracos como nós, e com menos culpas
vivem nas trevas; fogem do sacrifício,do que nós, o imitaram e seguiram pelo
como se acreditassem que, sem ele, caminho da cruz. Não foi só para nossa
podem seguir seu Mestre e chegar à par-
admiração que o Senhor sofreu,, mas
ticipação de sua glória. para ser exemplo admirável à nossa imi-
tação. O fato de ser verdadeiro Deus,
não impediu d'Ele sentir o sofrimento,
Seguir a Cristo sofredor antes, por ser impecável e inocente, foi
maior sua dor e mais sensíveis foram
865. Deixemos este engano prá- suas penas.
Quinto Livro - Capítulo 14

Sofrimentos de São José. divinos pensamentos; a paciência e man-


sidão columbina de seu coração, nas suas
866. Por este caminho real, o Se- graves e dolorosas enfermidades, das
nhor levou o esposo de sua Mãe santís- quais nunca se queixava nem pedia alívio.
sima, José, a quem amava mais do que a O grande Patriarca tudo sofria, com in-
qualquer outro homem. Para aumentar comparável resignação e grandeza de
seus méritos e enriquecer sua coroa, antes alma.
que terminasse o tempo de merecê-la, en- A prudentíssima Esposa que tudo
viou-lhe nos últimos anos de vida algumas via e estimava no seu justo valor, veio a
enfermidades: febres, veementes dores de sentir por São José uma veneração im-
cabeça e muito agudas nas articulações, possível de se explicar. Com grande sa-
as quais muito o afligiram e esgotaram. tisfação trabalhava para sustentá-lo e lhe
Além destas enfermidades, teve proporcionar prazer. O maior que lhe fazia
outra espécie de sofrimento, ao mesmo era preparar e servir-lhe, com suas virgi-
tempo doce e doloroso, proveniente do nais mãos, a alimentação. Tudo parecia
seu ardentíssimo amor. Era este tão in- pouco à divina Senhora, para acudir as ne-
tenso, que muitas vezes o arrebatava em cessidades do Esposo que tanto amava.
vôos ou êxtases extremamente
impetuosos. Seu espírito purís-
simo teria quebrado as cadeias
do corpo, se o mesmo Senhor
que os produzia não o assistisse,
dando-lhe forças para não des-
falecer de dor.
Deixava-o o Senhornesta
doce violência, até seu tempo.
Pela fraqueza natural de um
corpo tão extenuado e enfra-
quecido, este exercício vinha a
ser de incomparável mérito para
o feliz Santo. Isto, não só pelos
efeitos de dor que padecia, mas
também pelo amor donde pro-
cediam.

Virtudes de São José


867. Nossa grande Rai-
nha, sua esposa, era testemunha
de todos estes mistérios. Como
em outros lugares já disse ^ \ Ela
conhecia o interior de São José,
para sentir o consolo de ter es-
poso tão santo e amado do Se-
nhor. Via e penetrava a simplici-
dade daquela alma, seus infla-
mados afetos, seus elevados e
Quinto Livro - Capítulo 14

Por isto, costumava usar do seu poder Caridade de Maria para com São José
de Senhora e Rainha da criação. Aos
manjares que preparava para seu santo 869. A piedade da divina Senhora
enfermo, ordenava que dessem espe- não ficava satisfeita servindo a São José
cial virtude e força para o corpo e sabor como fica dito. Procurava ainda outros
para o gosto, pois era para conservar a meios para seu alívio e conforto. As vezes,
vida do santo, justo e eleito do Altís- com ardentíssima caridade, pedia ao Se-
simo. nhor que desse a Ela as dores que seu
Esposo sofria, pois se considerava mere-
Maria, divina enfermeira
868. Obedeciam as criaturas, e
assim como ordenava a grande Senhora
acontecia. Quando São José comia esse
alimento abençoado, costumava dizer
à Rainha: Senhora, esposa minha, que
alimento e manjar é este que assim me
reanima, deleita o gosto, restaura mi-
nhas forças e enche de júbilo meu espí-
rito?
A Imperatriz do céu servia-lhe as
refeições de joelhos. Quando ele se encon-
trava mais tolhido e indisposto, des-
calçava-o na mesma posição, e o am-
parava pelo braço. O humilde Santo pro-
curava reanimar-se para evitar à sua
Esposa esses trabalhos, mas não con-
seguia impedi-los. Conhecendo Ela as
dores e fraqueza do feliz doente, as horas
e ocasiões para socorrê-lo, acudia pron-
tamente a divina enfermeira, servindo-o
no que precisava.
Dizia-lhe também muitas palavras
de singular consolo, como Mestra da sa- cedora de todos os padecimentos das
bedoria e das virtudes. Nos últimos três criaturas, como a menor de todas. Assim
anos da vida do Santo, quando suas enfer- o alegava na presença do Altíssimo, a Mãe
midades se agravaram, a Rainha assistia-o e Mestra da santidade, representando-lhe
dia e noite, e só o deixava quando devia que era mais devedora do que todos os
servir seuFilho santíssimo. O Senhortam- nascidos e que não lhe dava a retribuição
bém a ajudava na assistência a São José, devida. Oferecia o coração para todo o
salvo quando era preciso cuidar de outra gênero de aflições e dores.
coisa. Alegava também a santidade de
Jamais houve, nem haverá outro São José, sua pureza e as delícias que o
enfermo tão bem tratado e servido como Senhor sentia naquele coração tão seme-
o homem de Deus, José. Só ele mereceu lhante ao Seu. Pedia-lhe muitas bênçãos
ter por Esposa Aquela que também o foi para o Santo, e dava-lhe reconhecidas
do Espírito Santo. ações de graças por ter criado um homem
Quinto Livro - Capítulo 14

tão digno de seus favores, cheio de santi- dias descansava, até que voltava a pade-
dade e retidão. Convidava aos anjos para cer, quando o Altíssimo assim ordenava
louvarem e exaltarem a Deus por esse fa- Noutras ocasiões, mandava aos
vor. Ponderava a glória e sabedoria do santos anjos, não com autoridade, mas
Altíssimo em suas obras e o bendizia com pedindo, que consolassem e animassem
novos cânticos. São José em suas dores e sacrifícios, corno
Por um lado, considerava as penas necessitava a frágil condição da natureza
e dores de seu amado Esposo, compade- Por esta ordem, os anjos se manifestavam
cendo-se delas; por outro, conhecendo ao feliz enfermo, em forma humana
seus méritos, a complacência do Senhor visível. Cheios de beleza e refulgênciai
por eles e pela paciência do Santo, ale- falavam-lhe da Divindade e de suas infi¬
grava-se e engrandecia o Senhor. nitas perfeições.
A respeito de todas estas obras, Às vezes, em coro de suave e ce-
praticava a divina Senhora muitos atos lestial harmonia, cantavam-lhe hinos e
das virtudes que se referiam àqueles fa- cânticos divinos, com que lhe confor-
tos, em grau tão eminente que admirava tavam o corpo e inflamavam-lhe de amor
os próprios anjos. Maior admiração a alma puríssima. Para cúmulo da santi-
ainda deveria causar à ignorância dos dade e gozo do felicíssimo Santo, recebia
mortais, ver que uma criatura humana especial compreensão e luz, tanto destes
atendesse plenamente a tantas coisas ao favores divinos como da santidade de sua
mesmo tempo, sem que a solicitude de virginal Esposa, do amor que Ela lhe de-
Marta estorvasse o lazer de Maria (Lc votava, da íntima caridade com que o
10, 41, 42). Nisto assemelhava-se aos servia e de outras excelências e prerroga-
anjos que nos assistem e guardam, sem tivas da grande Senhora do mundo.
perder a visão do Altíssimo (Mt 18, Tudo isto reunido, produzia tais
10). efeitos em São José e o colocava em tal
Na atenção a Deus, Maria purís- grau de merecimentos, que nenhuma
sima os excedia, além de, ao mesmo língua o pode explicar, nem entendi-
tempo, trabalhar com os sentidos corpo- mento humano compreender na vida
rais, que os anjos não têm. Sendo filha de mortal.
Adão, terrestre, era também espírito ce-
leste, estando com a parte superior da alma DOUTRINA QUE ME DEU A
nas alturas do amor, e com a parte inferior RAINHA DO CÉU MARIA
exercitando a caridade com seu santo SANTÍSSIMA.
Esposo.

Os anjos consolam São José Caridade pelos enfermos


871. Minha filha, uma das virtudes
870. Nas ocasiões em que a mais agradáveis ao Senhor e de maior
piedosa Rainha percebia a agudeza das fruto para as almas, é o exercício da cari¬
acerbas dores de seu esposo São José, dade com os enfermos. Nela se cumpre
movida de terna compaixão, mandava às grande parte daquela lei natural que
causas e acidentes dessas dores que sus- manda cada qual fazer a seu irmão o que
pendessem sua atividade e não afligissem deseja receber para si.
tanto ao justo e amado Senhor. Obede- O Evangelho faz dela um dos ar-
cendo as criaturàs à sua Senhora, aliviava- gumentos que o Senhor alegará para dar
se o sofrimento do Santo. Por um, ou mais o eterno prêmio aos justos (Mt 25,34 e
Quinto Livro - Capítulo 14

seguintes), e da transgressão dessa lei Exemplo da Virgem


uma das causas da condenação dos
réprobos. 872. Por tudo isto, e para acertares
na prática desta doutrina, servir-te-á de
Ali mesmo é explicada a razão: estímulo e modelo, a caridade que tive com
como todos os homens são filhos do meu Esposo José em suas enfermidades.
mesmo Pai celestial, Ele recebe por Muito imperfeita é a caridade, a até a ur-
benefício ou ofensa, o que se faz a seus banidade, que espera o necessitado pedir o
filhos que o representam, segundo acon- que lhe falta. Eu não esperava isso, porque
tece entre os próprios homens. Além acudia antes que ele precisasse me pedir.
deste vínculo de fraternidade, tens ou- Com meu afeto e conhecimento,
tros com as religiosas, por seres Madre, antecipava sua petição e assim o conso-
e elas também esposas de Cristo, meu lava, não só com o benefício, mas também
Filho santíssimo, de quem não rece- com a atenção amável e cuidadosa. Sentia
beram tantos benefícios como tu. Deste suas dores e sofrimentos com íntima com-
modo, por maiores títulos, estás obri- paixão, mas ao mesmo tempo louvava o
gada a cuidar delas e servi-las em suas Altíssimo e dava-lhe graças pelo favor
enfermidades. que concedia a seu servo. Se procurava
Em outra parte já mandei que te aliviá-lo, não era para o privar da ocasião
consideres enfermeira de todas, como a de padecer, senão para que se animasse a
menor e mais obrigada. Quero que sejas so-frer mais, para a glória do Autor de
muito agradecida por este mandato, pois tudo o que é bom e santo. Exortava-o e
por ele te confiro um ofício muito es- animava-o a estas virtudes. Com semel-
timável e grande na casa do Senhor. Para hante delicadeza se há de exercitar a nobre
cumpri-lo, não encarregues outras do que virtude da caridade; prover, quanto
podes pessoalmente fazer no serviço das possível, a necessidade do enfermo fraco
enfennas. O que não puderes, por causa e animá-lo com a compassiva exortação,
das outras ocupações de teu ofício de pre- desej ando-lhe o bem da fortaleza, sem
lada, recomenda-o com instância às que, perder o maior, do padecer.
por obediência, receberam esse minis- Não te perturbe a afeição sensível,
tério. quando ruas innãs ficarem doentes, ainda
Além do motivo da caridade que sejam as que mais necessitas e esti-
comum, há outra razão para acudir as re- mas. Nisto muitas almas perdem o mérito
ligiosas enfermas com todo cuidado e do sacrifício, tanto no mundo como na
pontualidade possível. E para não aconte- vida religiosa. Quando vêm enfermos os
cer que, entristecidas e necessitadas, amigos e' íntimos, o sentimento, com
voltem os olhos e o coração ao mundo e pretexto de compaixão, os descontrola e
se lembrem da casa de seus pais. Acredita de algum modo querem desaprovar as dis-
que, por este caminho, entram grandes posições do Senhor, não se conformando
prejuízos na vida religiosa. A naturezahu- com elas. Paia tudo dei-lhes exemplo, e
mana é tão impaciente quando achacada, de ti quero que o imites perfeitamente,
que, se lhe falta o necessário, atira-se aos seguindo meus passos.
maiores perigos.
2 - n ° 671.

87
CAPÍTULO 15
O FELIZ TRANSITO DE SAO JOSE
ASSISTIDO POR JESUS E MARIA.
Maria reza por São José delidade e solicitude por mim, e de como
alimentou a vós, Senhor, e a Mim vossa
873. Já fazia oito anos que as en- serva, com o suor de seu rosto.
fermidades vinham purificando, no
crisol da paciência e do amor divino, o
generoso espírito do feliz São José. Resposta de Jesus
Agravando-se com os anos, iam di-
minuindo suas forças, desfalecendo o 874. Respondeu-lhe nosso Salva-
corpo e aproximando-se o inevitável dor: Minha Mãe, vossos pedidos me são
termo da vida, pagamento do estipêndio agradáveis, e em minha presença se en-
da morte, dívida comum de todos os fi- contram os merecimentos de José. Eu o
lhos de Adão (Heb 9, 27). Aumentava assistirei agora, e a seu tempo, lhe darei
também o cuidado e solicitude de sua lugar entre os príncipes de meu povo (SI
divina Esposa, nossa Rainha, na sua as- 115,15). Será tão eminente que admirará
sistência e pontualíssimo serviço. aos anj os e dará motivo de louvor para eles
Conhecendo a amantíssima Se- e os homens. Com nenhuma geração farei
nhora, com sua rara sabedoria, que estava o mesmo que para vosso Esposo.
próximo o dia de seu castíssimo Esposo Agradeceu a grande Senhora esta
deixar este pesado desterro, foi à presença promessa a seu querido Filho. Durante nove
de seu Filho santíssimo e lhe disse: Senhor dias antes da morte de São José, Filho e Mãe
e Deus altíssimo, Filho do Eterno Pai e santíssimos o assistiram dia e noite sem o
Salvador do mundo, em vossa divina luz deixarem só. Nestes nove dias, por ordem
vejo que está a chegar o tempo determi- do Senhor, os anjos vinham três vezes por
nado por vossa vontade eterna, para a dia, cantar ao feliz enfermo, louvando ao
morte de vosso servo José. Suplico-vos, Altíssimo e celebrando as graças do próprio
por vossas antigas misericórdias e infinita José. Naquela humilde, porém riquíssim
bondade, que o braço poderoso de vossa casa, sentia-se suavíssima fragrância de per-
majestade o assista nesta hora. Que sua fumes tão agradáveis, que confortava não
morte sejapreciosa a vossos olhos (SI 115, só o santo homem, como a muitos que o
15), como foi agradável a retidão de sua sentiam de fora, até onde se difundia.
vida. Parta em paz, com a certeza de rece-
ber a eterna recompensa, no dia em que
vossa dignação abrir as portas do céu para São José, precursor de Cristo no Limbo
todos os crentes. Lembrai-vos, meu Filho,
do amor e humildade de vosso servo, de 875. Um dia antes da morte, todo
seus grandes méritos e virtudes, de sua fi- inflamado no divino amor, teve um êxtase

89
Quinto Livro - Capítulo 15

altíssimo que lhe durou vinte e quatro reno. Suplicou-lhe que, naquela hora, não
horas. Milagrosamente conservou-lhe o lhe faltasse a assistência e a intercessão de
Senhor as forças e a vida, e neste sublime seus rogos. A seu Filho santíssimo o santo
arrebatamento viu claramente a divina Esposo agradeceu também os benefícios
essência. Nela lhe foram manifestados, que, durante toda a vida, recebera de sua
sem véu, tudo quanto crera pela fé: a in- liberalidade, cm particular naquela enfer-
compreensível Divindade, os mistérios da midade.
Encamação e da Redenção e a Igreja mili- As últimas palavras que São José
tante com todos os sagrados bens que a dirigiu à Maria, foram: Bendita sejais en-
ela pertencem. tre todas as mulheres, escolhida entre to-
A Santíssima Trindade nomeou-o das as criaturas. Os anjos, os homens e
precursor de Cristo, nosso Salvador, junto todas as gerações conheçam, exaltem e en-
aos santos Pais e Profetas que se encon- gradeçam vossa dignidade. Por vós, seja
travam, no Limbo. Ordenou que lhes par- conhecido, adorado e exaltado o nome do
ticipasse novamente sua redenção e os Altíssimo em todos os futuros séculos.
preparasse para esperar a visita que o Se- Seja eternamente louvado por vos ter
nhor lhes faria, a fim de tirá-los do seio de criado tão agradável a seus olhos e dos de
Abraão e levá-los à eterna felicidade. todos os espíritos bem-aventurados. Es-
Maria santíssima conheceu estes pero gozar de vossa vista na pátria celes-
fatos no interior da alma de seu Filho, na tial.
mesma forma de outros mistérios e como
tinham sido concedidos a São José. Por
tudo, a grande Princesa deu dignas graças São José despede-se de Jesus e expira
ao Senhor.
877. Voltou-se o Homem de Deus
para Cristo, Senhor nosso, e para lhe falar
São José despede-se de Maria com profunda reverência, tentou por-se de
joelhos no chão. O amoroso Jesus, porém,
876. Saiu São José deste rapto, amparou-o nos braços. Com a cabeça ne-
com o rosto banhado de admirável les reclinada, disse-lhe o Santo: Senhor
resplendor e beleza, e com a mente toda meu e Deus altíssimo, Filho do eterno Pai,
deificada pela visão do Ser divino. Pediu Criador e Redentor do mundo, abençoai a
a bênção de sua Esposa santíssima, mas vosso escravo e obra de vossas mãos. Per-
Ela pediu ao Filho que lha desse, o que doai, Rei piedosíssimo, as faltas que, in-
Ele o fez. Em seguida, de joelhos, a mestra digno, cometi em vosso serviço e compa-
da humildade pediu a São José que tam- nhia. Eu vos reconheço, exalto e com sub-
bém a abençoasse como seu esposo e su- misso coração vos dou eternas graças por
perior. Por divino impulso, e para consolo terdes vos dignado escolher-me, entre to-
da prudentíssima Esposa, o homem de dos os homens, para esposo de vossa ver-
Deus abençôou-a e d'Ela se despediu. Ela dadeira Mãe. Vossa própria grandeza e
beijou-lhe a mão com que a abençoou, e glória sejam meu agradecimento por toda
pediu-lhe que, em nome dela, saudasse os a eternidade.
santos Pais do limbo. O Redentor do mundo lhe deu a
Para que o humilíssimo José cer- bênção e disse: Meu pai, descansai em
iasse o testamento de sua vida com o selo paz, na graça de meu Pai celeste e minha.
desta virtude, pediu perdão à sua divina Aos profetas e Santos que vos esperam no
Esposa do que em seu serviço e estima Limbo, dareis feliz notícia de que se
havia faltado, como homem fraco e ter- aproxima sua redenção. A estas palavras

90
Quinto Livro - Capítulo 15

de Jesus, e nos seus braços, expirou o fe- impedindo que fossem vencidas pela
licíssimo José, e o Senhor lhe cerrou os violência do amor. Faltando aquele apoio-
olhos. a natureza se rendeu, e soltou o laço que
A multidão dos anjos que assis- detinha aquela alma santíssima nas
tiam com sua Rainha e Rei supremo, en- prisões da mortalidade do corpo,
toaram com voz celestial cânticos de lou- separação na qual consiste nossa morte.
vor. A mandado de Jesus, levaram a alma Deste modo, o amor foi a última enfermi-
santíssima de José ao limbo dos Pais e Pro- dade, a maior e mais feliz, pois a morte
fetas. Todos o reconheceram como Pai pu- que ela produz é sono para o corpo e
tativo do Redentor do mundo, cheio de princípio de verdadeira vida.
resplendores de incomparável graça, ín-
timo do Senhor, digno de singular ve-
neração. Sepultamente de São José
Participando-lhes, conforme a or-
dem do Senhor, a proximidade de sua 879. Vendo que seu Esposo fale-
libertação, causou grande alegria àquela cera, a grande Senhora dos céus preparou
inumerável congregação de santos. seu corpo para o sepultamento. Vestiu-o

Morte de São José.

São José morreu de amor conforme o costume, sem que outras mãos
o tocassem, a não ser os santos anjos que,
878. Não se deve passar em silên- em forma humana, a ajudaram. Em atenção
cio que a preciosa morte de São José, ainda ao honestíssimo recato da Virgem Mãe, o
que precedida por enfermidade e dores tão Senhor revestiu o corpo de São José com
prolongadas, não foi conseqüência delas. admirável resplendor, deixando à vista ape-
Sua vida poderia, naturalmente, ter se pro- nas o rosto. Assim, a puríssima Esposa não
longado, não fossem os efeitos do arden- o viu, ainda que o vestiu para o enterro.
tíssimo fogo de amor que ardia em seu A fragrância que dele se despren-
retíssimo coração. Para que esta morte fe- dia atraiu algumas pessoas que, vendo-o
licíssima fosse mais triunfo do amor, do tão belo e flexível como se fora vivo,
que pena de culpas, o Senhor suspendeu encheram-se de grande admiração. "Vie-
a ação especial e milagrosa com que con- ram os conhecidos, parentes e muitas
servava as forças naturais do seu servo, outras pessoas. Reunindo-se ao Redentor

91
Quinto Livro - Capítulo 15

do mundo, à Mãe santíssima e à grande natureza e dos objetos visíveis. Aquele


multidão de anjos, levaram o glorioso instante é o termo do processo da vida que
corpo de São José à sepultura. receberá a última sentença: de morte ou
Em todas estas ações, a prudentís- de vida eterna, de pena ou glória perpétua.
sima Rainha conservava sua compostura O Altíssimo, que te inspirou
e gravidade, sem se alterar com trejeitos aquele desejo, quer aceitá-lo para que o
mulheris. A dor não a impediu de provi- executes. De minha parte, te confirmo o
denciar a tudo o que era necessário, ao mesmo e te admoesto a colaborares com
serviço de seu falecido Esposo e de seu todo esforço possível para nos obedecer.
Filho santíssimo. Tudo cabia no real e Adverte, pois, amiga: quando Lúcifer e
magnânimo coração da Senhora das gen- seus ministros das trevas reconhecem,
tes. pelos acidentes e causas naturais, que a
De novo a sós com seu Filho e pessoa está com perigosa e mortal enfer-
Deus verdadeiro, agradeceu-lhe por todos midade, imediatamente preparam toda
os favores concedidos a seu santo Esposo. sua malícia e astúcia, para investir con-
Em sublime ato de humildade, prostrada tra o pobre e ignorante enfermo, e tentar
na presença de seu Filho, disse-lhe estas derrubá-lo com diversas tentações. Co-
palavras: Senhor de todo meu ser, meu mo a esses inimigos está a terminar o
verdadeiro Filho e Mestre, a santidade de prazo de perseguir a alma, querem suprir
a falta de tempo pela violência da ira e
José, meu esposo, pôde deter-vos até ago- maldade.
rai fazendo-nos merecer vossa desejável
presença. Com a morte de vosso amado
servo, posso recear perder o bem que não
mereço. Obrigai-vos, Senhor, por vossa Os últimos combates
mesma bondade, a não me desamparar.
Recebei-me de novo por vossa serva, acei- 881. Para isto, reunem-se como lo-
tando os humildes desejos e ânsias do co- bos carniceiros, e examinam de novo o
ração que vos ama. Aceitou o Salvador do estado do enfermo: seu temperamento
mundo este novo oferecimento de sua natural ou adquirido, suas inclinações,
Mãe santíssima, e prometeu-lhe que não hábitos e costumes, e qual seu lado fraco
a deixaria só, até chegar o tempo de por onde atacá-lo mais. Aos que têm
começar a pregar, em obediência ao eterno desordenado apego ávida, persuadem que
Pai. o perigo não é tanto e impedem que outros
o avisem. Aos que foram remissos e ne-
DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU gligentes no uso dos sacramentos, re-
MARIA SANTÍSSIMA. forçam-lhe a tibieza, sugerem-lhes maio-
res dificuldades e adiamentos, para que
morram sem eles ou os recebam sem fruto
A hora da morte e com más disposições. A outros, pro-
põem sugestões de vergonha, para não
880. Minha caríssima filha, não é abrirem suas consciências e declararem
sem motivo que teu coração sentiu par- seus pecados. A estes, embaraçam e retar-
ticular compaixão pelos que se acham em dam, para não manifestarem seus com-
perigo de morte, desejando ajudá-los promissos e não desenredarem a cons-
nessa hora. Realmente, conforme enten- ciência. Àqueles que amam a vaidade,
deste, naqueles momentos sofrem as al- lhes propõem ordenar, naquela última
mas" incríveis e perigosos trabalhos por hora, muitas coisas vãs e soberbas, para
parte das ciladas do demônio, da própria serem cumpridas depois de sua morte.
Quinto Livro - Capítulo 15

Aos avarentos e sensuais inclinam com para desmerecer a graça e favor divino €
muita força ao que cegamente amaram. não possuem as obras que os possam de-
De todos os maus hábitos e cos- fender contra o inimigo?
tumes, vale-se o cruel inimigo para ar- Meu santo esposo José foi um dos
rastá-los atrás de objetos e assim lhes di- que gozaram o privilégio de não ver nem
ficultar ou impossibilitar a salvação. Cada sentir o demônio naquele transe. Quando
ato pecaminoso praticado durante a vida, os malignos tentaram se aproximar, sen-
e que contribui à aquisição de hábitos vi- tiram que uma força poderosa os mantinha
ciosos, constitui penhor e arma para o distantes, e foram pelos santos anjos, re-
comum inimigo lhes fazer guerra naquela pelidos e precipitados no abismo. Ao se
tremenda hora da morte. Cada apetite sa- sentirem tão oprimidos e aterrados - a teu
tisfeito, abre-lhe o caminho para penetrar modo de entender - ficaram confusos, so-
na fortaleza da alma. Uma vez dentro dela, bressaltados e aturdidos. Isto deu motivo
lança-lhe seu depravado hálito e levanta para Lúcifer reunir no inferno uma junta
densas trevas que são seu efeito. Tudo isto ou conciliábulo, investigando se, por
para que não acolham as divinas inspi- acaso, nele já se encontrava o Messias.
rações, não tenham verdadeira contrição
de seus pecados e não façam reparação de
sua má vida. Tal vida, tal morte
883, Daqui compreenderás o
Desprezo dos meios de salvação grande perigo da morte, e quantas almas
perecem naquela hora, quando começam
882, Geralmente fazem estes ini- a frutificar os méritos e os pecados.
migos grande estrago naquela hora, suge- Não te declaro os muitos que se
rindo a ilusória esperança de que os enfer- condenam, para não morreres de pena, se
mos ainda viverão, e com o tempo poderão tens verdadeiro amor ao Senhor. A regra
executar o que, no momento, Deus lhes geral, porém, é que à virtuosa vida segue-
inspira por seus anjos. Com esta ilusão se se boa morte; o resto é duvidoso, raro e
enganam e perdem. Grande é também, contingente. O remédio e segurança é pre-
naquela hora, o perigo dos que durante a venir-se muito antes. Por isto, advirto-te
vida desprezam o socorro dos santos sa- que, ao veres a luz no amanhecer de cada
cramentos. dia, penses ser aquele o último de tua vida.
Este desprezo, muito ofensivo ao E, como se de fato fosse, pois não sabes
Senhor e aos santos, a divina justiça cos- se o será, ordenes tua alma de modo a re-
tuma castigar abandonando estas almas ao ceber alegremente a morte, se el a vier. Não
próprio conselho, pois não quiseram se demores um instante em te arrependeres
aproveitar do remédio no tempo oportuno. dos pecados, com propósito de os confes-
Tendo-o desprezado, merecem, por justos sar se os tiveres, e emendar até a mínima
juízos, serem desprezados na última hora, imperfeição.
para a qual prorrogaram com louca Não deixes em tua consciência
ousadia, a busca da salvação eterna. Pou- falta alguma repreensível, sem te doeres e
cos são os justos a quem no último com- te lavares com o sangue de Cristo, meu
bate, a antiga serpente não ataca com in- Filho santíssimo. Põe-te no estado em que
crível sanha. Se aos grandes santos pre- possas aparecer na presença do justo Juiz,
tendem então derribar, que podem esperar que te examinará e julgará até o mínimo
os viciosos, negligentes e cheios de pe- pensamento e movimento de tuas potên-
cados? Estes, que empregam toda a vida cias.

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Quinto Livro - Capítulo 15
ocasiões, esclarece no que devem fazer,
Orar pelos agonizantes sem perturbá-las. Admoesta-as para que
884. Para ajudares, como desejas, recebam os santos sacramentos e sempre
aos que estão naquele perigoso fim, em os freqüentem. Procura animá-las e con-
primeiro lugar aconselha a todos o mesmo solá-las falando-lhes das coisas de Deus,
que te advirto: cuidem da alma durante a de seus mistérios e Escrituras. Que seus
vida e assim terão feliz morte. Além disso, bons desejos e afetos despertem e as dis-
rezarás nessa intenção todos os dias, sem ponham para receber a luz e influência do
falta. Fervorosamente, suplica ao Todo- alto. Fortalece-lhes a esperança, encoraja-
poderoso que aniquile os enganos do de- as contra as tentações e ensina-lhes como
mônio, quebre os laços e ciladas que armam deverão resistir a elas e vencê-las. Procura
aos agonizantes, e sejam humilhados por conhecê-las, e mesmo que a paciente não
sua destra divina. Sabes que eu fazia tal as revelar, o Altíssimo te dará luz para as
oração pelos mortais, e quero que me imites entenderes e aplicar a cada uma o conve-
nisso. Do mesmo modo te ordeno que, para niente remédio, porque as enfermidades
mais ajudá-los, mandes aos demônios que espirituais são difíceis de se conhecer e
deles se afastem e não os oprimam. Bem curar.
podes usar deste poder, mesmo que não este¬ Tudo o que te admoesto deverás
jas presente, pois o está o Senhor em cujo praticar, como filha caríssima, em ob-
nome hás de subjugá-los, para maior honra séquio do Senhor, e eu alcançarei de sua
e glória de Deus. grandeza alguns privilégios para ti e
para os que desejares ajudar naquela
temível hora. Não sejas escassa na cari-
A morte das religiosas dade, pois não agirás pelo que és, mas
sim pelo que o Altíssimo quiser fazer
885. Às tuas religiosas, em tais por meio de ti.
CAPÍTULO 16
PRIVILÉGIOSDE SÃO JOSÉ.
Idade de Maria, ao morrer São José Experimentou, porém, natural sentimento
pela morte de São José, pois o amava
886. São José, o mais feliz dos como esposo, como santo tão excelente na
homens, viveu sessentaanos e alguns dias. perfeição e como seu amparo e benfeitor.
Aos trinta e três desposou Maria santís- Esta dor da prudentíssima Senhora foi
sima e em sua companhia viveu pouco bem ordenada e perfeita, mas nem por isto
mais de vinte e sete. Quando o Santo mor- foi pequena. Seu amor era grande, princi-
reu, a grande Senhora contava quarenta e palmente porque conhecia o grau de san-
um anos e meio. Aos catorze desposou-se tidade de seu Esposo, colocado entre os
com São José' % acrescentando-se os vin- maiores santos escritos no livro da vida e
te e sete que viveram juntos, somam qua- na mente do Altíssimo. Se, o que se ama
renta e um, mais o prazo que vai de 8 de não se perde sem dor, maior será a dor de
setembro até a feliz morte do santo se perder o que muito se ama.
Esposo.
Nesta idade, continuava a Rainha
do céu, na mesma perfeição natural que As excelências de São José
atingiu aos trinta e três anos. Não enve-
lheceu, nem perdeu nada daquele per- 887. Não pertence à finalidade
feitíssimo estado que expliquei no desta História escrever, de propósito, as
capítulo 13 deste livro * A excelências da santidade de São José.
Tampouco tenho ordem para isso a não ser
de passagem, o quanto basta para mais re-
alçar a dignidade de sua Esposa e nossa
Rainha, a cujos merecimentos, depois dos
de seu Filho santíssimo, devem-se atribuir
os dons e graças concedidos pelo Altís-
simo ao glorioso Patriarca.
Mesmo que a Senhora não tenha
sido a causa meritória da santidade de seu
Esposo, foi pelo menos ofimimediato
para o qual essa santidade era ordenada.
O cúmulo de virtudes e graças que o Se-
nhor comunicou a São José, tinha a finali-
dade de o tornar digno esposo e guafda
daquela que ele escolhera por Mãe. Por
esta regra e pelo amor e apreço que Deus
teve por sua Mãe santíssima, deve-se
1 - 1 ' parte -2-n°856

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1
Quinto Livro - Capítulo 16

medir a santidade de São José. Penso que, lhe atado o fontes pecati para o resto da
se no mundo existisse outro homem mais vida, e jamais sentiu movimento impuro
perfeito e de melhores qualidades, o Se- ou desordenado. Nesta primeira santifí-
nhor tê-lo-ia dado por esposo à sua Mãe. cação não lhe foi dado o uso da razão, mas
Já que lhe deu o patriarca São José, é por- só foi justificado do pecado original. Sua
que, fora de qualquer dúvida, era o melhor mãe, todavia, sentiu particular alegria do
que havia na terra. Espírito Santo, e mesmo sem entender
Tendo-o criado e preparado para todo o mistério, fez grandes atos de vir-
tão elevada missão, é certo que seu poder tudes e julgou que seu filho seria ad-
o tornaria idôneo e proporcionado a ela. mirável aos olhos de Deus e dos homens.
Esta proporção, segundo entendemos na
luz divina, deveria consistir nas virtudes,
dons, graças e inclinações infusas e Nascimento e vida de São José até
naturais. desposar Maria
889. 0 santo menino nasceu per-
São José milagre de santidade feitíssimo e muito belo, dando a seus pais
extraordinária alegria, como a que houve
888. Entre este grande Patriarca e " ao nascer o Batista, embora o motivo
os demais Santos, noto diferença a res- daquela fosse mais oculto. Apressou-lhe
peito dos dons com que foram agraciados. o Senhor o uso da razão, dando-a perfeita
A muitos Santos foram concedidos fa- aos três anos, dotada de ciência infusa e
vores e privilégios que não visavam dire- novo aumento de graça e virtudes. Desde
tamente à sua santidade pessoal, mas lhes esse momento começou o menino a co-
eram dados para outros fins a serviço do nhecer a Deus, tanto pela fé como pela
Altíssimo na pessoa do próximo. Eram inteligência natural, como causa primeira
dons ou graças grátis datas, remotas à san- e autor de todas as coisas. Compreendia
tidade. perfeitamente tudo o que se dizia sobre
Em nosso abençoado Patriarca, Deus e suas obras, e desde aquela idade
porém, todos os dons visavam o cres- teve elevada oração, contemplação e ad-
cimento de suas virtudes e santidade, mirável exercício das virtudes, o quanto
pois o ministério para o qual se desti- permitia sua idade infantil,
navam era expressar sua santidade e Aos sete anos, quando os outros
suas obras. Sendo mais santo e angélico, chegam ao uso da razão, São José já era
era mais idôneo para esposo de Maria homem perfeito, nela e na santidade. Pos-
santíssima e depositário do tesouro e suía temperamento manso, caritativo,
sacramento do céu. Devia ser um mila- afável, sincero e em tudo manifestava in-
gre de santidade, como realmente foi. clinações, não apenas santas, mas angéli-
Este prodígio começou com a for- cas. Crescendo em virtude e perfeição,
mação de seu corpo no ventre materno, levou vida irrepreensível até a idade em
Deus teve por ele particular providência, que desposou Maria santíssima,
e foi composto com proporcionados hu-
mores, excelentes qualidades, compleição
e temperamento. Foi terra abençoada que A santidade de São José: por Maria e
mereceu uma boa alma (Sab 8, 19) e para Maria
retidão de inclinações.
Aos sete meses de sua concepção 890. Nesta ocasião, intervieram as
foi santificado no ventre de sua mãe. Foi- súplicas da divina Senhora para o aumento

96
Quinto Livro - Capítulo 16

e confirmação dos seus dons de graça. Ela Senhor nosso e sua Mãe, que lhe perten-
pediu ao Altíssimo que, se Ele lhe orde- ciam mais do que qualquer outra criatura
nava tornar estado de matrimônio, santi- os pôde possuir. Era inevitável que aquele
ficasse José para que este sintonizasse fiel e puríssimo coração se dissolvesse nos
com seus castíssimos pensamentos e de- afetos e efeitos de tão peregrina caridade.
sejos. A divina Rainha compreendeu que Bendito seja o Autor de tantos
o Senhor a atendia, e com seu poder agia prodígios e bendito seja o mais feliz dos
copiosamente sobre o espírito e potências mortais, José que os recebeu. É digno de
de São José". Infundiu-lhe perfeitíssimos que todas as gerações e povos o conheçam
hábitos de todas as virtudes e dons, cujos e bendigam, pois com nenhum outro fez
efeitos não se podem traduzir em palavras. tais coisas o Senhor, nem manifestou tanto
Retificou novamente suas potên- o seu amor.
cias, encheu-o de graça, confirmando-a
nela por admirável modo. Na virtude e
dom da castidade, ficou o santo mais ele- Privilégios de São José
vado do que o supremo serafim, porque a
pureza que eles possuem sem corpo, foi 892. Das visões e revelações divi-
concedida a São José, em corpo terreno e nas com as quais foi favorecido São José,
carne mortal. Jamais entrou em suas disse alguma coisa no decurso desta
potências imagens nem espécie de coisa História ™ e muito mais se poderia dizer.
impura da natureza animal e sensível. O principal, porém, fica subentendido
Com esta abstração e com uma sin- pelo fato do Santo ter conhecido os
ceridade columbina e angélica, ficou em mistérios de Cristo Senhor nosso e de sua
condições de permanecer na presença e Mãe santíssima; de ter vivido na compa-
companhia da puríssima entre todas as nhia de ambos tantos anos, como ver-
criaturas. Sem tal privilégio, não seria dadeiro Esposo da Rainha e considerado
idôneo para tão grande dignidade e rara pai do mesmo Senhor.
excelência.

A caridade de São José


891. Nas demais virtudes foi ad-
mirável, e especialmente na caridade, pois
se encontrava na fonte onde podia saciar-
se daquela água que jorra para a vida
eterna (Jo 4,14), e junto ao fogo, como
matéria propícia, para nele se inflamar
sem resistência.
O maior encarecimento desta vir-
tude do amante Esposo, foi o que disse no
capítulo passado ®: o amor de Deus foi a
enfermidade e o instrumento que lhe cor-
tou o fio da vida e o fez privilegiado na
morte. As doces ânsias do amor ultrapas-
saram e como que absorveram as da na-
tureza que agiram menos que aquelas.
Tinha presente ao objeto do amor, Cristo
3^n»878T 4-n°433,471.875.
97
Quinto Liv Capítulo 16
Tenho entendido que, por sua grande san- Deus, poderão compreendê-la. No dia do
tidade, concedeu-lhe o Altíssimo certos juízo final, quando todos os homens
privilégios em favor dos que, nas devidas forem julgados, os infelizes condenados
condições, invocarem sua intercessão. chorarão amargamente por não terem, por
Primeiro: alcançar a virtude da causa de seus pecados, conhecido e
castidade e vencer os perigos da sensuali- aproveitado este meio tão poderoso e efi-
dade carnal. caz, para adquirir a amizade do justo Juiz
Segundo: obter grandes auxílios e a salvação. Os mundanos têm se desin-
para sair do pecado e voltar à amizade de teressado muito pelos privilégios e prer-
Deus. rogativas que o Altíssimo Senhor con-
Terceiro: alcançar por seu inter- cedeu a meu santo esposo, e de quanto
médio, devoção a Maria santíssima. pode sua intercessão junto ao Senhor e a
Quarto: ter uma boa morte e pro- mim. Asseguro-te, caríssima, que na pre-
teção contra os demônios naquela hora. sença da divina justiça, é um dos grandes
Quinto: privilégio do nome São validos para apaziguá-la a favor dos pe-
José para afugentar os demônios. cadores.
Sexto: alcançar saúde corporal e
auxílio noutros sofrimentos.
Sétimo: paia os casais terem fi- Devoção a São José
lhos.
Estes, e outros muitos favores, são 894. Por esta notícia e luz que re-
concedidos por Deus àqueles que, como cebeste, quero que sejas muito agradecida
convém, lhos pedem pela intercessão de ao Senhor, assim como ao favor que nisto
São José. De minha parte, peço a todos os te faço.
fiéis da santa Igreja que lhe tenham grande De agora em diante, no que te res-
devoção, e farão a experiência, se se dis- ta de vida, procura progredir na devoção
puserem como é preciso, para merecer al- e cordial afeto por meu santo Esposo.
cançar seus favores. Bendize ao Senhor por se ter mostrado tão
liberal com ele, e pelo gozo que eu senti
DOUTRINA QUE ME DEU A em conhecer sua santidade. Em todas tuas
RAINHA DO CÉU MARIA necessidades recorre à sua intercessão, in-
SANTÍSSIMA. centiva sua devoção, e que tuas religiosas
se distinguam muito nela. O que meu
Esposo pede no céu, concede o Altíssimo
Excelência de São José na terra, e a suas petições tem vinculado
grandes e extraordinárias graças para os
893. Minha filha, escreveste que homens, se não se fazem indignos de as
meu esposo São José é nobilíssimo entre receber. Estes privilégios correspondem à
os santos e príncipes da celestial Jeru- perfeição columbina e grandiosas vir-
salém. Não obstante, agora não podes tudes deste admirável Santo. A divina
manifestar completamente sua eminente clemência inclinou-se para elas e o olhou
santidade, nem os mortais são capazes de liberalissimamente paia conceder ad-
a conhecer, antes de chegarem à visão da miráveis misericórdias para ele e para os
Divindade. Ali, na admiração e louvor de que se valerem de sua intercessão.

98
CAPÍTULO 17
VIDA DE MARIA DEPOIS DA MORTE DE SÃO JOSÉ.
Vida ativa e vida contemplativa A vida contemplativa é belíssima,
ainda que a princípio não se note sua
895. Toda a perfeição da vida cristã fecundidade. Seu fruto é mais tardio, pro-
se reduz às duas modalidades de vida, cede da oração e de méritos que supõem
como a Igreja ensina: a vida ativa e a vida grande perfeição e amizade com Deus.
contemplativa. Eles inclinam o Senhor a expandir sua li-
A ativa pertencem as operações beralidade com outras almas, e por isto,
corporais e sensitivas, praticadas com o seus frutos costumam ser de ricas e
próximo em coisas humanas, as quais são copiosas bênçãos.
muito diversas. Os atos da vida ativa pro-
cedem das virtudes morais e delas rece-
bem a perfeição que lhes é própria.
A vida contemplativa pertencem
as operações interiores do entendimento e
da vontade, cujo objeto é nobilíssimo,
espiritual e específico da criatura intelec-
tual e racional. Por este motivo, a vida
contemplativa é mais excelente que a vida
ativa. Por si mesma é mais amável, por ser
mais tranqüila, deleitável e bela; apro-
xima-se mais do fim último que é Deus,
em cujo altíssimo conhecimento e amor
consiste. Deste modo, participa mais da
vida eterna que é totalmente contempla-
tiva.
São as duas irmãs Marta e Maria
(Lc 10, 41 e 42); uma tranqüila e acari-
ciada, a outra solícita e agitada. Ou então,
às outras duas irmãs e esposas, Lia e
Raquel (Gn 29,17); a primeira fecunda,
porém feia e de olhos doentes; a segunda
formosa, agraciada, mas a princípio
estéril. A vida ativa, concretamente pro-
duz mais, ainda que se disperse e perturbe
em muitas e diversas ocupações. Mas,
daqui lhe vem olhos pouco claros para
penetrar as coisas elevadas e divinas.

99
Quinto Livro - Capítulo 17

União das duas vidas Só Maria uniu perfeitamente a ação à


contemplação
896. A união destas duas vidas é o
ápice da perfeição cristã. Contudo, rea- 897. Só Maria santíssima reuniu
lizá-la é tão difícil, como aconteceu com estas duas vidas, em supremo grau, sem
Marta e Maria, Lia e Raquel. que a altíssima contemplação e a ardentís-
Estas, distintas uma da outra, sima atividade, se estorvassem mu-
cada qual representava uma só daquelas tuamente. N*Ela se encontrava a solici-
vidas. Em nenhuma dessas represen- tude de Marta sem a sua perturbação, com
tantes, as duas vidas estavam reunidas, o repouso e tranqüilidade de Maria sem se
pela dificuldade de subsistirem num imobilizar na inatividade corporal. Pos-
mesmo sujeito, ao mesmo tempo, em suiu a beleza de Raquel e a fecundidade
grau perfeito. de Lia. Só nossa prudentíssima e grande
Os Santos esforçaram-se muito Rainha viveu, verdadeiramente, o que
nesse ponto, e a doutrina dos mestres simbolizaram essas diferentes irmãs.
espirituais visa alcançar esta união. Deste modo, servindo seu Esposo
Diga-se o mesmo de tantas instruções de enfermo, sustentando a ele e a seu Filho
homens doutos e apostólicos; dos exem- santíssimo com o trabalho, como se dis-
plos dos Apóstolos e fundadores dos s e ^ , estas ocupações não lhe interrom-
institutos religiosos. Todos procuraram piam nem embaraçavam sua divina con-
conciliar a contemplação com a ação, templação. Não necessitava procurar tem-
quanto lhes era concedido pela divina pos de solidão e retiro para serenar seu
graça. Sempre, porém, verificaram que coração repleto de paz, e se elevar acima
a vida ativa, pela multidão de suas ações dos supremos serafins.
em objetos inferiores, dissipa e perturba Apesar disso, quando ficou só,
o coração, como o Senhor disse a Marta. sem a companhia do Esposo e do cuidado
Por mais que se esforce por se recolher do seu tratamento, ordenou sua vida e
à quietude e poder elevar-se aos altíssi- exercícios para só se ocupar na vida inte-
mos objetos da contemplação, não o rior. Conheceu no interior de seu Filho
pode conseguir na vida ativa, senão com santíssimo que essa também, era vontade
grande dificuldade e por breve tempo, dele: que moderasse o trabalho corporal
salvo especial privilégio do poder do que havia tido em assistir, dia e noite, a
Altíssimo. seu santo enfermo, e passasse a assistir a
Por esta razão, os Santos que se Ele Jesus, acompanhando-o nas orações e
dedicaram â contemplação, procura- em outros altíssimos atos.
ram, de propósito, os desertos e a
solidão apropriados para cultivá-la. Os
outros que também praticavam a vida Abstinência de Jesus e Maria
ativa na salvação das almas pela pre-
gação, reservaram parte do tempo para 898. Manifestou-lhe também o
se retirarem das ocupações exteriores. Senhor que, para a frugal alimentação de
Nos demais dias, repartiam as horas, ambos, bastava empregar pouco tempo
dando umas á contemplação e outras às cada dia. Daí em diante comeriam apenas
tarefas ativas. Fazendo tudo do melhor uma vez, pela tarde. Até então, tinham
modo, alcançaram o mérito e recom- seguido horário em atenção a São José,
pensa de ambas as vidas, que têm um dando-lhe o consolo de o acompanharem
único fundamento e causa principal: o nas horas das refeições. Depois de sua
amor e a graça. morte, Filho e Mãe comeram apenas uma
1 -n°S5í.
100
Quinto Livro - Capítulo 17

vez, pela seis da tarde. Muitas vezes para alcançar deles e graça que deseja.
comiam apenas pão, em outras, a divina Não é possível a nenhum pen-
Senhora acrescentava frutas, ervas ou samento humano, compreender a ciência
peixe, sendo este o mais lauto cardápio que teve nossa Rainha para entender e
dos Reis do céu e terra. praticar tantas e tão divinas ações, como
A abstinência de ambos sempre as que praticou em companhia do Verbo
fôra admirável, mas quando ficaram sós humanado, durante estes anos em que
foi maior, reduzindo a qualidade e o viveram a sós. Só os anjos que os acom-
número das refeições. Quando eram con- panhavam e serviam, foram testemunhas
vidados, comiam sobriamente do que lhes oculares, admirados de se verem tão in-
serviam, sem recusar, começando a prati- feriores á sabedoria e pureza de uma
car o conselho que mais tarde Cristo daria criatura digna de tanta santidade. Só Ela
a seus discípulos, para quando fossem pre- correspondeu plenamente às obras da
gar (Lc 10,8). graça.
A grande Senhora servia seu Filho
santíssimo de joelhos, pedindo-lhe per-
missão para o fazer. As vezes preparava o Competição com os anjos
alimento com a mesma reverência, pois se
destinava ao Filho de Deus verdadeiro. 900. Nesta época, teve a Rainha do
céu encantadoras contendas e com-
petições com os anjos, a respeito dos tra-
Reverência de Maria por Jesus balhos caseiros, necessários ao serviço do
Verbo humanado e do seu humilde lar.
899. A presença de José não tinha Não havia outra pessoa para desempenhá-
sido impedimento para que a prudentís- los, senão a divina Senhora, e os angélicos
sima Senhora tratasse seu Filho santís- e fiéis vassalos que, para isto, assistiam
simo com toda a reverência, sem faltar o em forma humana, estavam prontos e
mínimo neste ponto. Contudo, depois que solícitos para acudir a tudo.
o Santo morreu, a grande Senhora fazia A grande Rainha queria, com suas
com mais freqüência as prostrações e próprias mãos, desempenhar os humildes
genuflexões que costumava^. Para tanto, afazeres de varrer, por em ordem os
sentia mais liberdade estando só na pre- singelos utensílios, lavar os pratos e
sença dos anjos, do que na de seu Esposo panelas, dispor todo o necessário. Os
que era homem. Muitas vezes permanecia cortesãos do Altíssimo, porém, verdadei-
prostrada em terra, até que o Senhor a ramente corteses e mais rápidos nas ope-
mandasse levantar. Com muita freqüência rações, ainda que não mais humildes, cos-
beijava-lhe os pés, as mãos, com lágrimas tumavam adiantar-se, fazendo esses tra-
de profundíssima humildade e reverência. balhos antes que a Rainha. Muitas vezes
Sempre permanecia na presença do Se- a Senhora os encontrava desempenhando
nhor em atitude de adoração e de arden- o que Ela desejava fazer. Imediatamente
tíssimo amor, suspensa ao seu divino obedeciam à sua palavra, e deixavam-na
beneplácito, atenta a seu interior para o satisfazer sua humildade e amor.
imitar. Apesar de não ter culpa, nem a Para não lhe impedirem os desejos,
mínima negligência ou imperfeição no dizia aos santos anjos: Ministros do Altís-
serviço e amor de seu divino Filho, estava simo, espíritos puríssimos, em quem se re-
sempre, melhor do que o disse o Profeta, flete a luz com que sua Divindade me ilu-
salmo 112,2, como o servo e a escrava, de mina; estes humildes trabalhos servis não
olhos atentos nas mãos de seus senhores, convém à vossa natureza e estado, mas
2-in8ã

101
Quinto Livro - Capítulo 17

sim á minha que, além de ser da terra, O mundo e a humildade


sou a menor de todos os mortais e a mais
obrigada escrava de meu Filho e Senhor. 902. Estas e outras semelhantes
Deixai-me, amigos, desempenhar os de- eram as comovedoras e admiráveis dispu-
veres que me competem, pois Eu posso tas entre Maria santíssima e seus anjos. A
encontrá-los no serviço do Altíssimo, palma da humildade sempre ficava para
com o mérito que vossa dignidade e sua Rainha e Mestra. Ignore o mundo tão
estado impedem de lucrardes. Conheço ocultos sacramentos, pois sua vaidade e
o valor destas obras servis que o mundo soberba deles o fazem indigno. Que a es-
despreza, e o Altíssimo deu-me esta luz, tulta arrogância tenha por insignificantes
para faze-las pessoalmente e não confiá- e desprezíveis estes trabalhos humildes e
las a outros. servis, enquanto são apreciados pelos
cortesãos do céu que lhes conhecem o
valor. Procurou-os a própria Rainha dos
Diálogo entre Maria e os Anjos céus e terra que soube estimá-los.
Deixemos porém, o mundo com
901. Rainha e Senhora nossa - res- suas desculpas, ignorância, ou seja o que
pondiam os anjos - é verdade que aos vos- for. A humildade não é para os altivos de
sos olhos e na aceitação do Altíssimo estes coração, nem o servir nos ofícios hu-
atos são estimáveis, como vós sabeis. mildes se coaduna com a púrpura e as ho-
Mas, se ao faze-los conseguis o precioso landas *3^. O varrer e lavar pratos não se
fruto de vossa incomparável humildade, ajusta às custosas jóias e brocados. Não
adverti também que nós faltaremos à obe- são para todos as preciosas pérolas destas
diência do Senhor, se não vos servirmos virtudes.
como Ele nos mandou. Sendo Vós nossa Se na vida religiosa, porém, escola
legítima Senhora, faltaríamos também à da humildade e desprendimento, pegasse a
justiça, omitindo qualquer obséquio pelo peste da soberba mundana; se considerasse
qual nos fosse permitido assim vos reco- rebaixamento e desonra esta humilhação,
nhecer. O mérito que não alcançardes não podemos negar que seria vergonhosa e
deixando de praticar estas obras servis, fa- repreensível soberba. Se nós, religiosas ou
cilmente, Senhora, o compensareis com a religiosos, desprezamos estas ocupações
mortifícação de não satisfazerdes o arden- servis, e temos por baixeza, de acordo com
tíssimo desejo de as fazer. o mundo, o fazê-los: com que coragem
A estas razões, replicava a pruden- estaremos na presença dos anjos e de sua e
tíssima Mãe: Não, senhores, espíritos so- nossa Rainha, que tiveram por inestimável
beranos, se vós julgais grande obrigação honra os trabalhos que nós julgamos
servir a Mim como à Mãe do grande Se- desprezíveis, baixos e desonrosos?
nhor cujas mãos vos criaram, adverti que
a Mim, do pó elevou a essa dignidade.
Minha dívida vem a ser maior do que a Exortação às religiosas
vossa, pelo que deve ser maior a minha
retribuição. Se vós quereis servir a meu 903. Falo para vós, minhas irmãs,
Filho, por serdes obras de suas Mãos, Eu filhas desta grande Rainha, chamadas
devo servi-lo por igual título, além do de após Ela a serem conduzidas ao tálamo do
Mãe sua, com o dever de servi-lo como a Rei, com exultação e verdadeira alegria
Filho. Sempre me vereis com maior direi- (SI 44,16).
to que vós, para ser agradecida, humilde Não queirais degenerar do título
e apegada ao pó. honorifico.de tal Mãe. Ela, Rainha dos an-
3 - Holanda - linho finíssimo.

102
Quinto Livro - Capitulo 17

satisfazermo-nos com consolações espiri-


tuais sensíveis e pouco garantidas, e ter a
louca ousadia de apetece-las. Olhemos
para nossa divina Mestra, exemplo consu-
mado da vida santa e perfeita. Os favores
e carícias do céu que Ela recebia, alter-
navam-se com os seus atos humildes e ser-
vis. Quando se retirava para orar com seu
Filho santíssimo, os santos anjos can-
tavam com suave harmonia os hinose cân-
ticos que a divina Mãe compusera em lou-
vor do ser de Deus, e do mistério da união
hipostática da natureza humana com a
pessoa divina do Verbo.
Costumava a Rainha pedir aos an-
jos que, alternando com Ela, compu-
sessem outros novos cânticos. Obede-
ciam-lhe e se admiravam da profunda sa-
bedoria com que sua grande Rainha im-
provisava as novas composições. Quando
seu Filho santíssimo recolhia-se para re-
pousar, ou enquanto comia, mandava-lhes
como Mãe de seu Criador, que em seu
nome, lhe tocassem música. O Senhor o
jos e dos homens, humilhava-se a estes permitia, quando a Mãe prudentíssima o
trabalhos humildes, varria e servia. Que ordenava, para satisfazer a ardentíssima
parecerá a seus olhos e aos de Deus, que caridade e veneração com que o servia
a escrava seja altiva, soberba e pre- nestes últimos anos.
sunçosa, desprezando a humildade? Para explicar o quanto me foi
Para fora de nossa comunidade manifestado sobre este assunto, seria ne-
este erro! Deixemo-lo para Babilônia e cessário longo discurso e maior capaci-
seus moradores. Honremo-nos com o que dade que a minha. Pelo que insinuei, pode-
a divina Princesa teve por coroa, e seja se conhecer um pouco de tão profundos
vergonhosa confusão e severa repreensão sacramentos, e encontrar motivo para
para nós, não termos com os anjos as mes- bendizer e exaltar esta grande Senhora e
mas competições de humildade. Por- Rainha, a quem todas as nações conheçam
fiemos em nos avantajar nestes trabalhos e proclamem bendita entre todas as
humildes e causemos aos santos anjos, criaturas (Lc 1, 48), Mãe digníssima do
nossosfiéiscompanheiros, esta inveja tão Criador e Redentor do mundo.
agradável à nossa grande Rainha e a seu
Filho santíssimo, nosso Esposo. DOUTRINA QUE ME DEU A
RAINHA DO CÉU.
Humildade, seguro fundamento da
verdade A reta hierarquia
904. Entendamos que, sem hu- 905. Minha filha, antes de pros-
mildade sólida e verdadeira, é temeridade seguir na exposição de outros mistérios,

103
Quinto Livro - Capítulo 17

quero que compreendas a razão de todas as mãs e súditas sem cerimônias e maneiras
coisas que o Altíssimo dispôs para mim, re- pretenciosas, mas trata a todas com
lativamente a meu santo esposo José. lhaneza e sinceridade columbina. Reza
Quando me desposei com ele, o quando elas rezarem. Come e trabalha
Senhor me ordenou mudar o modo de me quando elas o fazem, e acompanha-as na
alimentar e de outras coisas exteriores, recreação.
para acomodar-me ao seu proceder, pois A maior perfeição das religiosas
ele era o chefe e eu, na ordem comum, está em seguir a vida comum, e se o fizeres
inferior. O mesmo fez meu Filho santís- serás dirigida pelo Espírito Santo que rege
simo, apesar de ser verdadeiro Deus, por as comunidades bem ordenadas. Isto não
estar sujeito (Lc 2, 51) exteriormente a impedirá que te adiantes na abstinência,
quemomundojulgavaporseupai. Depois comendo menos que todas, ainda que te
da morte de meu esposo, ficando sós, vol- sirvam o mesmo que às demais. Com jeito,
tamos ao antigo costume no comer e em sem te tomares singular, priva-te do que
outras ações. quiseres, pelo amor de teu Esposo e meu.
Não quis o Senhor que S. José se Se não fores impedida por grave enfermi-
acomodasse a nós, mas nós a ele, como dade, não faltes jamais às comunidades, a
pedia a ordem comum de nosso estado. não ser quando, por obediência a teus pre-
Tampouco fez Deus milagres para ele lados, estiveres ocupada noutra coisa. As-
poder passar sem a alimentação que cos- siste aos atos comuns com especial re-
tumava tomar. O Senhor agia em tudo verência, atenção e devoção, que neles o
como mestre das virtudes, para a todos Senhor te visitará muitas vezes.
ensinar o mais perfeito: aos pais e aos fi-
lhos, aos superiores e superioras, e aos
súditos e inferiores. Atos só vistos por Deus
Aos pais ensinou que amem, aju-
dem, sustentem, admoestem e corrijam os 907. Quero também que deste
filhos, encaminhando-os à salvação, sem capítulo aprendas a seguir meu exemplo,
negligência ou descuido. Aos filhos ensi- no cuidado em ocultar os atos que puderes
nou a amarem e honrarem os pais, como fazer em segredo. Ainda que não havia
instrumentos, dos quais receberam a vida reparo nem prejuízo, fazê-los todos na
e o ser, e a obedecer-lhes com submissão. presença de meu santo esposo José, quis
Assim, cumpre que todos guardem o que dar-lhes o retoque de perfeição e prudên-
a lei natural e divina lhes ensina, pois violá- cia, fazendo-os só na presença de Deus.
las é horrenda monstruosidade. Os pre- Isto, porém, não é necessário nas coisas
lados e superiores devem amar e governar comuns e obrigatórias que devem difundir
aos súditos como a filhos. Estes devem a luz do bom exemplo, e faltar nelas
obedecer-lhes sem oposição, ainda que poderia ser escândalo digno de repreen-
possuam melhores dotes que os prelados. são. Outros muitos atos que se podem
Pela dignidade de representantes de Deus, ocultar aos olhos das criaturas, não devem
o prelado sempre é maior, ainda que a ver- ser levianamente expostos ao perigo da
dadeira caridade, de todos faça um só. publicidade e ostentação.
Entre estes, podes fazer muitas
genuflexões como eu as fazia. Prostrada e
Vida comum apegada ao pó, poder-te-ás humilhar,
adorando a majestade suprema do Altís-
906. Para adquirires esta grande simo, para que o corpo mortal, que agrava
virtude, quero que te acomodes a tuas ir- a alma (Sab 9, 15), lhe seja oferecido

104
Quinto Livro - Capitulo 17

como sacrifício aceitável. Isto servirá de Ordeno-te que não desprezes ne-
reparação pelos seus desordenados movi- nhum, nem o julgues sem importância,
mentos contra a razão e a justiça, e para mas em tua estima considera-o ines-
que em ti não fique coisa alguma, sem ser timável tesouro, e procura conquistá-lo
oferecida e dedicada ao serviço de teu para ti. Nisto, mostra-te cobiçosa e ava-
Criador e Esposo. Com estes exercícios o renta. Adianta-te nos trabalhos manuais
corpo compensará, de algum modo, o de varrer e limpar a casa, faze os mais hu-
muito que estorva e faz a alma perder com mildes de toda ela e serve às doentes e
suas paixões e terrenas imperfeições. necessitadas, como em outras ocasiões te
mandei. Em tudo, olharás para meu exem-
Humildade e mortificação plo: minha humilde solicitude servir-te-á
de estímulo, de alegria a minha imitação
908» Para este fim, procura man- e de confusão o descuido em praticares o
tê-lo sempre muito submisso. Os bene- que viste.
fícios que se lhe faz sirvam só para Para mim foi necessária esta fun-
sustentá-lo no serviço da alma, e não damental virtude, afim de achar graça e
para se deleitar em seus caprichos e ape- agrado aos olhos do Senhor, apesar de
tites. Mortifica-o e domina-o, morrendo nunca o haver desagradado e ofendido
a tudo o que deleita os sentidos, até que desde que tive o ser. Se para sua destra
os atos comuns necessários à vida, antes divina me elevar precisei me humilhar,
lhe causem pena do que gosto, e mais muito mais necessitas tu de apegar-te com
amargura do que perigosa deleitação. o pó e te aniquilar, já que foste concebida
Não obstante, em outras ocasiões eu te em pecado (SI 50,7) e o ofendeste tantas
haver mostrado o valor desta humil- vezes. Humilha-te até ó nada e reconhece
dade e mortificação, agora, com meu que empregaste mal o ser que o Altíssimo
exemplo, ficarás mais convencida do te deu. O fato de existir, portanto, deve te
apreço que deves ter a qualquer ato servir para mais te humilhares, e assim en-
destas virtudes. contrar o tesouro da graça.

105
CAPÍTULO 18
VIVÊNCIA ENTRE JESyS E MARIA
ANTES DA VIDA PUBLICA.
Jesus e Maria a sós durante quatro Cristo, nosso bem, durante toda a vida que
anos passou neste mundo. À medida em que se
aproximava do seu fim e da realização de
909. Muitos dos ocultos e ve- tão elevado sacramento, ia agindo com
neráveis mistérios passados entre Jesus e maior intensidade e eficácia de seu poder e
Maria, sua Mãe santíssima, estão reser- sabedoria. De todos estes mistérios, era fiel
vados para o gozo acidental dos predesti- arquivo e testemunha o coração de nossa
nados na vida eterna, como outras vezes grande Rainha e Senhora. Em tudo coope-
tenho dito. Os mais elevados e inefáveis rava com seu Filho santíssimo, como sua
realizaram-se durante os quatro anos que coadjutora nas obras da redenção humana.
permaneceram a sós em casa, desde a feliz De acordo com isto, para se com-
morte de São José até a pregação do Se- preender perfeitamente a sabedoria da
nhor. Impossível que alguma criatura divina Mãe, e sua cooperação nos mis-
mortal possa dignamente penetrar tão pro- térios da redenção, seria necessário enten-
fundos segredos. Quanto menos poderei der também quanto encerrava a ciência de
eu manifestar o que deles entendeu minha Cristo, nosso Salvador, e as obras de seu
rudeza! Pelo que disser, se verá a prova amor e prudência, pelas quais ia encami-
disso. nhando os meios oportunos e convenien-
Era a alma de Cristo, Senhor nos- tes, para os altíssimos fins que tinha em
so, espelho claríssimo e sem manchas, on- vista. No pouco que eu disser sobre os atos
de, como já disse' % sua Mãe santíssima de sua Mãe santíssima, sempre se há de
via todos os mistérios e sacramentos que subentender os de seu Filho santíssimo
o mesmo Senhor dispunha. Cabeça e artí- com quem Ela cooperava, imitando-o
fice da santa Igreja, reparador de toda a como seu modelo.
linhagem humana, mestre da salvação
eterna, anjo do grande conselho, cumpria
o que já estava predestinado no con- A redenção recusada
sistório da beatíssima Trindade.
911. Encontrava-se o Salvador do
mundo na idade de vinte e seis anos. Sua
Maria, coadjutora de Cristo humanidade santíssima agia acompa-
nhando a natural evolução dos tempos e
910. Para organizar e construir esta dos fatos. Ao passo que se aproximava
obra que seu eterno Pai lhe confiou, com nossa redenção, ia realizando maiores
a suma perfeição que lhe pôde dar como obras, como quem se avizinhava do cum-
homem e Deus verdadeiro, ocupou-se primento final de sua missão.
Quinto Livro - Capitulo 18

O evangelista São Lucas encerrou ficaria satisfeita a justiça divina e reparada


este mistério, naquelas breves palavras a ofensa à Divindade. A equidade e retidão
com que terminou o capítulo 2 o de seu da justiça divina ficaria justificada para o
Evangelho: "e Jesus crescia em sabedoria, tempo do castigo preparado, desde a
idade e graça diante de Deus e dos homens eternidade, para os incrédulos e ingratos.
(v. 52)." Entre estes, estava sua Mãe san- Na visão de tão profundos segre-
tíssima. Ela conhecia e colaborava neste dos, a grande Senhora participava da an-
progresso de seu Filho santíssimo que gustiante meditação de seu Filho santís-
nada lhe ocultava de tudo quanto, como a simo, na medida de sua ciência e sabe-
pura criatura, lhe pôde comunicar com seu doria. A estas acrescentava a dolorosa
poder de Homem-Deus. compaixão de mãe, vendo o fruto de seu
Conheceu a grande Senhora, virginal ventre em tão grande aflição.
nestes anos, este divino e oculto mistério: Quando o Salvador suava sangue, a mansa
via seu Filho e Deus verdadeiro, do trono pomba muitas vezes chegava a chorar
de sua sabedoria, estender sua visão, tanto lágrimas sangüíneas, traspassada de in-
a da Divindade como também a de sua comparável dor.
alma santíssima, sobre todos os mortais e Só esta prudentíssima Senhora e
que, para todos, a Redenção seria sufi- seu Filho Deus e homem verdadeiro,
ciente. Refletia sobre o valor de seu sa- chegaram a avaliar adequadamente o peso
crifício, e sobre a estima e importância que do santuário. Compreenderam o que sig-
lhe daria o etemo Pai. Viera para fechar as nifica num dos pratos da balança, a morte
portas do inferno aos homens; e para de um Deus para fechar o inferno, e no
chamá-los novamente à eterna vida, des- outro o duro e cego coração dos mortais
cera do céu para sofrer duríssima paixão forcejando por se precipitar na eterna
e morte. morte.
Apesar de tudo isto, a estultice e
obstinação, dos que nasceriam depois de
haver morrido na cruz por sua salvação, Delíquios da Virgem
forcejariam para alargar as portas da
morte, e tomar a abrir ainda mais o in- 913. Nestas angústias, acontecia à
ferno, com a cega ignorância do que são amorosa Mãe chegar a padecer des-
aqueles infelicíssimos e horríveis tormen- falecimentos quase mortais. Tê-lo-iam
tos. sido sem dúvida, se a virtude divina não
a fortalecesse impedindo-lhe a morte.
O amável Filho e Senhor, em re-
Agonia de Cristo e sua Mãe compensa deste fidelíssimo amor e com-
paixão, mandava aos anjos que a susten-
912. Nesta ciência e reflexão, a hu- tassem e consolassem. Às vezes, man-
manidade de Cristo Senhor nosso foi pos- dava-lhes cantar hinos de louvor que Ela
suída de grande angústia e chegou a suar mesma compusera à glória de sua Divin-
sangue, como outras vezes aconteceu ®\ dade e humanidade.
Nesta agonia espiritual, não cessava o Muitas vezes, o próprio Senhor a
divino Mestre de orar por todos os que amparava em seus braços e lhe dava novas
seriam redimidos. Para obedecer ao eterno inteligências de que Ela não estava in-
Pai, com ardente amor desejava oferecer- cluída na lei do pecado e suas conseqüên-
se em sacrifício para o resgate dos cias. Em outras ocasiões, estando assim
homens. Se nem todos aproveitassem de reclinada, ao canto dos anjos admirados,
seus méritos e de seu sangue, pelo menos era arrebatada em divino êxtase, no qual
2-n°695, 848.
Quinto Livro - Capítulo 18

recebia grandes e novas influências da dentor, para operar a conquista do mundo


Divindade. e despojar o demônio de seu tirânico
Aqui, a eleita, singular e perfeita, domínio.
reclinava-se na esquerda da humani- Das alturas da pessoa do Verbo, or-
dade, enquanto era abraçada e acariciada ganizava o novo exército que havia de mo-
pela direita da Divindade (Cânt 2, 6) bilizar, destinando os ofícios, graus, dig-
Aqui, seu amantíssimo Filho e Esposo nidades e postos de seus valorosos chefes.
conjurava às filhas de Jerusalém a não Toda a preparação e armamento desta
despertar sua amada (Cânt 3, 5; 2, 7), guerra era previsto em sua sabedoria e
enquanto ela não quisesse, daquele sono vontade santíssima.
que lhe curava as mágoas e a enfermi-
dade do amor. Ali, os espíritos angélicos
admiravam-se ao vê-la elevar-se acima Oração pelos discípulos e fiéis
de todos eles, apoiada em seu diletís-
simo Filho (Cânt 8,5); vestida com esta 915. Tudo era revelado claramente
variedade à sua direita (SI 44, 10), a á mãe prudentíssima. Foram-lhe dadas
bendiziam e exaltavam entre todas as espécies infusas de muitos predestinados,
criaturas. especialmente dos Apóstolos e discípulos,
além de grande número dos fiéis cha-
mados à primitiva Igreja, e no decurso de
A milícia de Cristo sua existência. Quando via os Apóstolos
e os outros, já os conhecia sobrenatural-
914. Nestas ocasiões, conhecia a mente em Deus. E, assim como o divino
grande Rainha altíssimos segredos so- Mestre, antes de os chamar, havia orado e
bre a predestinação dos escolhidos, pedido para eles a graça da vocação, tam-
pelos méritos da Redenção: como bém a grande Senhora fizera a mesma
estavam gravados na memória eterna de oração.
seu Filho santíssimo, e de que modo Ele Deste modo, a Mãe da graça par-
lhes aplicava seus méritos, orando por ticipava na obtenção dos auxílios e fa-
eles para que lhes fosse eficaz o valor de vores que os Apóstolos receberam antes
seu resgate. Entendia a divina Mãe, de conhecer o divino Mestre, para
como o amor e a graça, de que os estarem preparados a receber a graça da
réprobos se faziam indignos, revertiam vocação ao apostolado. Como estes anos
para os predestinados conforme as dis- estavam próximos da pregação, nosso
posições de cada um. Salvador fazia preces por eles com mais
Entre todos os escolhidos, via instância, enviando-lhes maiores e mais
como o Senhor aplicava sua sabedoria e fortes inspirações. As súplicas da divina
solicitude aos que chamaria a seu aposto- Senhora também foram mais fervorosas
lado e seguimento; aos que ia alistando, e eficazes.
por sua determinação e ciência impene- Quando depois chegavam à sua
trável, sob o estandarte de sua cruz que presença e se agregavam aos seguidores
deveriam conduzir através do mundo. Um de seu Filho, costumava dizer-lhes: Filho
bom general, que em sua mente planeja e Senhor meu, eis os frutos de vossas
alguma conquista ou batalha muito difícil, orações e santa vontade. E, fazia cânticos
distribui os cargos e ofícios militares aos de louvor e agradecimento, porque via
soldados mais corajosos e idôneos, dando- cumpridos os desejos do Senhor, ao en-
lhes postos de acordo com as capacidades trarem em sua escola os que Ele escolhera
de cada um. Assim fez Cristo nosso Re- do mundo (1 Jo 15,19).

109
Quinto Livro • Capitulo 18

Sentimentos de Maria veria desculpar as faltas dos Apóstolos, a


negação de São Pedro, a incredulidade de
916. Na prudente consideração Tomé, a perfídia de Judas e outros fatos
destas maravilhas, costumava nossa futuros.
grande Rainha ficar absorta c admirada, Desde esse momento, a dedicada
cheia de incomparáveis louvores e júbiloSenhora propôs esforçar-se ao máximo
espiritual Fazia heróicos atos de amor, para converter o discípulo traidor e assim
o fez, como direi em seu lugar }. O fato
adorava os secretos juízos do Altíssimo, e
toda inflamada naquele fogo que se irra- de Judas ter desprezado estes favores, e
diava da Divindade para se espalhar e haver concebido certa indevoção e de-
acender no mundo, costumava dizer, ás sagrado pela Mãe da graça, foi o começo
vezes intimamente, noutras em alta voz: de sua perdição. Assim, foi a divina Se-
Oh! amor infinito! Oh! vontade inefável nhora informada por seu Filho santíssimo
e imensamente boa! Como não te conhe- de tantos mistérios e sacramentos que,
cem os mortais? Como te desprezam e para encarecer a grandeza e ciência que a
esquecem? por que tua fineza há de ser tãoEla comunicou, todo o elogio é limitado.
mal correspondida? Oh! trabalhos, penas, Ela excedeu a todos os serafins e queru-
suspiros, clamores, desejos e súplicas de bins, sendo ultrapassada só pela ciência
meu Amado, mais estimáveis que as péro- do próprio Deus.
las, o ouro e todos os tesouros do mundo! Todos estes dons de ciência e graça,
Quem será tão ingrato e infeliz que os foram empregados por nosso Salvador e sua
queira desprezar? Oh! filhos de Adão, Mãe santíssima em beneficio dos mortais.
quem pudera morrer muitas vezes para Um único suspiro de Cristo nosso Senhor
cada um de vós, afimde esclarecer vossa era de inestimável valor para todas as
ignorância, abrandar vossa dureza e im- criaturas. Os de sua digna Mãe, apesar de
pedir vossa infelicidade! serem de pura criatura e não possuírem valor
Depois de tão prudentes afetos e igual, eram mais aceitos pelo Senhor do que
orações, a feliz Mãe falava de viva voz todo o resto da criação.
com seu Filho, sobre estes mistérios. O Calculemos agora o que Filho e
sumo Rei a consolava e lhe dilatava o co- Mãe fizeram por nós: nosso Salvador não
ração, renovando-lhe a memória da estima só morreu numa cruz, depois de inauditos
que tinha aos olhos do Altíssimo, a glóriatormentos, mas antes disso, contemos
dos predestinados com seus grandes suas orações, lágrimas e suor de sangue.
merecimentos. Isto compensava a ingra- E, em tudo isto, e no mais que ignoramos
tidão e dureza dos réprobos. Informava-a, foi sua coadjutora a Mãe de misericórdia.
especialmente, do seu amor divino e do Tudo por nós! Oh! ingratidão hu-
amor da Santíssima Trindade por Ela, e demana, Oh! dureza mais do que granítica
quanto se comprazia na sua correspondên- em coração de carne! Onde está nosso
cia e pureza imaculada. juízo? Onde a inteligência? Onde a com-
paixão e o agradecimento?
A natureza corrompida só se co-
Quanto devemos a Jesus e à Maria move pelos objetos sensíveis, lastima-se
de perder o que a precipita na morte eterna
917. Outras vezes o Senhor a in- e esquece a maior de suas riquezas, a Re-
formava do que faria ao começar a pre- denção. Não sente nenhuma compaixão e
gação, e como a divina Mãe iria cooperar dor pela Paixão do Senhor que lhe propor-
com Ele, ajudando-o nos trabalhos e di- cionou a vida e o repouso que há de durar
reção da nova Igreja. Dizia-lhe como de- para sempre.
3 - abaixo, n° 1086, 1089, 1093, 1112.
110
Quinto Livro - Capítulo 18

DOUTRINA QUE ME DEU A ticipar desta suavidade de favores que ele


RAINHA DO CÉU MARIA desejaria comunicar a todos.
SANTÍSSIMA.
Esquecimento e ingratidão humana
Deus deseja comunicar sua felicidade
919. Adverte também, em ser
918. Minha filha, se tu e todos os agradecida aos incessantes trabalhos de
mortais falassem com palavras de anjos, meu Filho pelos homens, e a colaboração
não chegariam a explicar os benefícios e que sempre lhe dei, como te foi mostrado.
favores que recebi da destra do Altíssimo, De sua paixão e morte os católicos
nos últimos anos que vivi com meu Filho têm mais lembrança porque a santa Igreja
santíssimo. Estas obras do Senhor tem sempre lhas recorda, ainda que poucos
uma espécie de incompreensibilidade in- cuidem de as agradecer. São menos ainda
dizível para ti e todos os mortais. os que consideram os outros atos de meu
Quero que o conhecimento espe- Filho e dos meus. O Senhor não deixou
cial que recebeste, sobre tão ocultos sa- passar sequer uma hora ou instante, sem
cramentos, te leve a louvar e bendizer o empregar sua graça e dons em benefício
Todo-poderoso pelo que fez comigo, e por do gênero humano, para resgatar a todos
me ter elevado assim do pó à dignidade e da eterna condenação, e fazê-los partici-
favores tão inefáveis Teu amor por meu pantes de sua glória. Estas obras de meu
Filho e Senhor deve ser livre, como de Senhor e Deus humanado serão teste-
filha fidelíssima e amorosa esposa, e não munhas contra o esquecimento e dureza
de escrava forçada ou interesseira. dos fiéis, principalmente no dia do juízo.
Apesar disso quero, para conforto Se tu, que tens esta luz e doutrina
da esperança e da humana fraqueza, que do Altíssimo e de meu ensinamento, não
te lembres da suavidade do amor divino, fores agradecida, será maior tua confusão,
e de quão doce é este Senhor (lPed 2,3) pois mais grave terá sido tua culpa. Deves
para os que o temem com filial amor. Oh! corresponder não só a tantos benefícios
filha minha caríssima, se os pecados dos gerais, como também aos especiais e par-
homens não impedissem e se opusessem ticulares que cada dia recebes. Evita desde
à inclinação daquela infinita bondade, já o perigo, sendo reconhecida como filha
como gozariam sem medida de seus fa- e discípula minha.
vores e delícias! Não demores um momento em
A teu modo de entender, deves praticar o bem è o melhor quanto o podes
imaginá-lo como constrangido e contris- fazer. Pai a tudo, atende à luz interior e à dou-
tado pela resistência dos mortais a este de- trina de teus prelados e ministros do Senhor.
sejo de sua imensa condescendência. De Se corresponderes a uns favores, fica certa
tal modo procedem, que não só se habi- que o Altíssimo alargará sua poderosa mão
tuam a ser indignos de saborear o Senhor, para te conceder outros maiores, e te encherá
como não crêem que outros possam par- de suas riquezas e tesouros.

111
CAPÍTULO 19
CRISTO COMEÇA A PREPARAR SUA PREGAÇÃO, DANDO
ALGUMA NOTICIA DA VINDA DO MESSIAS. SUA MÃE
SANTÍSSIMA O ASSISTE. PERTURBA-SE O INFERNO.
A caridade de Cristo Jesus começa a percorrer as aldeias
920. O incêndio da divina caridade 921. Com estas saídas e ausências
que ardia no peito de nosso Redentor e de seu Filho santíssimo, a prudentíssima
Mestre, encontrava-se como aprisionado Senhora já começava a sentir os trabalhos
e coagido até o tempo marcado e oportuno e penas que se iam aproximando. Sua alma
para se manifestar. Quando este chegasse, e coração eram traspassados pelo gládio
seria revelado, ou quebrando o recep- previsto por sua devota piedade, transfor-
táculo de sua humanidade santíssima, ou mando-a toda em divino incêndio de ter-
ostentando seu amorpor meio da pregação nura por seu Amado. Nestas ausências do
e milagres visíveis aos homens. Filho, assistiam-na, em forma visível,
É verdade, como diz Salomão seus vassalos e santos anjos. A grande
(Prov 6, 27), que não se pode esconder Senhora lhes confiava sua dor e lhes pedia
fogo no peito sem queimar as vestes. Em trazer notícias de seu Filho e Senhor, de
todo tempo, nosso Salvador deixou enten- suas ocupações e exercícios. Obedeciam-
der o que trazia no coração, pelas cente- lhe os anjos como à sua Rainha, e com as
lhas e luzes que se refletiam em tudo o freqüentes notícias que lhe davam, do seu
que fez desde a Encamação. Contudo, em retiro Ela acompanhava ao sumo Rei,
comparação do que, a seu tempo, iria rea- Cristo, nas orações, súplicas e demais atos
lizar, e da imensa chama que ocultava, que realizava.
aquele fogo estava como que preso e Quando Jesus voltava, recebia-o
escondido. prostrada em terra, adorava-o e lhe agra-
Chegara o Senhor à idade da per- decia os benefícios que havia prodigali-
feita adolescência e entrara nos vinte e zado aos pecadores.
sete anos. A nosso modo de entender, . Servia-o, e como amorosa mãe,
parece que já não podia esperar mais, procurava repousá-lo e dar-lhe algum
nem deter o ímpeto de seu amor e o de- modesto repasto necessário à sua humani-
sejo de adiantar-se à obediência de seu dade verdadeira e passível, pois acontecia
eterno Pai, para santificar os homens. passar dois ou três dias sem descansar,
Afligia-se muito, orava, jejuava e per- sem dormir e sem comer.
corria as povoações para se por em con- A divina Mãe conhecia as solici-
tato com os mortais. Muitas vezes, pas- tudes do Salvador, pelo modo que já
sava as noites em oração nos montes, e disse*1*. Além disto, o Senhor a informava
costumava permanecer dois ou três dias sobre tudo o que fazia e sobre os ocultos
fora de casa. favores que comunicara a muitas almas,
1 -n° 911, 914, 915

113
Quinto Livi - Capítulo 19

dando-lhes conhecimento e luz da divin- dons fossem agradecidos, tanto os qUe


dade e da redenção humana. eram aceitos, como os que eram recusados
pelos homens.
Ocultos e admiráveis foram os
Ardentes desejos de Maria merecimentos que nossa grande Senhora
adquiriu nesse ponto. Em tudo quanto re-
922. Disse então a grande Rainha alizou Cristo Senhor nosso, Ela teve uma
a seu Filho santíssimo: Senhor meu, ver- espécie de participação altíssima. Não só
dadeiro e sumo bem das almas, luz de cooperava na caridade de seus atos, corno
meus olhos, vejo que o ardentíssimo amor também nos efeitos que produziam. A
que tendes aos homens não descansa nem grande Senhora procedia para cada urna
sossega sem lhes procurar a eterna sal- das almas, como se o benefício fosse para
vação, pois esse é ofício próprio de vossa Ela. Sobre isto falarei mais na terceira
caridade e a obra que vos confiou vosso parte (2) .
eterno Pai. Vossas palavras e obras de
inestimável valor, forçosamente deveriam
atrair os corações de muitos. Porém, dul- Maria missionária
císsimo amor meu, eu quisera que todos
os mortais correspondessem à vossa 923. Ao oferecimento da amorosa
solícita e terna caridade! Aqui está, Se- Mãe, respondeu seu Filho santíssimo:
nhor, vossa escrava de coração preparado Mãe e amiga, já está no tempo em que,
para se empregar toda ao vosso maior conforme a vontade de meu eterno Pai,
agrado, e oferecer a vida, se for necessário,
para que todas as criaturas correspondam
aos desejos de vosso ardentíssimo amor
que tanto se desdobra para atraí-las à vossa
graça e amizade.
Este oferecimento da Mãe de mi-
sericórdia a seu Filho santíssimo, procedia
da inflamada caridade que a constrangia a
desejar e procurar o fruto das obras e dou-
trinas de nosso verdadeiro Reparador e
Mestre. Como a prudentíssima Senhora
conhecia dignamente seu valor, quereria
que nenhuma alma os perdesse, e que tam-
bém não faltasse ao Senhor o agra-
decimento que seus benefícios mereciam.
Com esta inefável caridade, desejava
ajudar o Senhor, ou para melhor dizer, aos
homens que ouviriam suas divinas pala-
vras e seriam testemunhas de suas obras,
para que correspondessem a este favor e
não perdessem a oportunidade de se sal-
varem.
Desej ava também, e de fato o fazia,
render dignas graças e louvor ao Senhor
pelos maravilhosos dons que distribuía
aos homens. Queria que todos aqueles
2-n° 111, 163, etc
114
Quinto Livro Capítulo 19

convém que eu comece a preparar alguns com interiores inspirações e auxílios ao


corações para receber a luz de minha dou- coração dos que o ouviam. Deste modo os
trina e a notícia de haver chegado o tempo preparava, por meio da fé comum, para
marcado e oportuno para a salvação hu- que depois, com mais facilidade, a rece-
mana. bessem em particular.
Quero que me acompanheis nesta
obra. Pedi a meu Pai dirija com sua divina
luz o coração dos mortais e os desperte Pregação preparatória de Jesus
interiormente para que, com reta intenção,
acolham o conhecimento que agora lhes 925. Começava com os homens
darei sobre a vinda ao mundo de seu Re- que, em sua divina sabedoria, conhecia
dentor e Mestre. mais idôneos para aceitar a semente da
Com esta exortação de Cristo, verdade. Aos mais ignorantes despertava
nosso Senhor, dispos-se a divina Mãe para com lhes chamar a atenção para os sinais
acompanhá-lo em suas viagens, como de- de que todos tinham tido notícia: a vinda
sejava. Desde aquele dia, em quase todas do Messias pela chegada dos Reis orien-
as vezes que o divino Mestre saiu de Na- tais (Mt 2,1); a morte dos meninos ino-
zaré, foi acompanhado pela Mãe. centes (Mt 2,16) e outros fatos semelhan-
tes. Aos mais sábios, acrescentava o teste-
munho das profecias que já se haviam
Jesus anuncia a chegada do Messias cumprido, explicando-lhes esta verdade
com sua capacidade de singular e
924.0 Senhor começou este apos- inigualável Mestre. De quanto dizia, ti-
tolado mais freqüente, três anos antes de rava e afirmava a conclusão de que o Mes-
começar a pregação e receber o batismo. sias já se encontrava em Israel, para lhes
Em companhia de nossa grande Rainha, revelar o reino de Deus e o caminho para
percorria os lugares da comarca de Na- a ele chegar.
zaré, indo para os lados da tribo de Néftali, A graça e beleza de sua divina pes-
conforme a profecia de Isaías (Is 9,2), e soa, a mansidão e suavidade de suas
em outras partes. Comunicando-se com os palavras tão vivas e eficazes, apesar de ve-
homens, começou a dar-lhes notícia da ladas; a força de seu auxílio secreto, fa-
vinda do Messias, afirmando-lhes que já ziam o seu ensinamento produzir grande
se encontrava no mundo e no reino de Is- fruto. Muitas almas deixavam o pecado,
rael. Não se apresentava, porém, como outras melhoravam, e todas se instruíam
Aquele a quem esperavam, porque o em grandes mistérios, especialmente de
primeiro testemunho de ser Filho de Deus, que já estava em seu meio o Messias que
seria dado pelo eterno Pai quando, publi- esperavam.
camente, foi ouvido às margens do rio
Jordão: Este é meu Filho amado, de quem
e em quem tenho minhas complacências Obras de misericórdia
(Mt 3,17).
Sem manifestar sua dignidade, 926. A estas obras de grande mi-
começou o Unigênito feito homem a dar sericórdia, o divino Mestre acrescentava
notícia dela em geral, ao modo de anunciar outras muitas. Consolava os tristes, ali-
ou narrar o que sabia com certeza. Não viava os oprimidos, visitava os enfermos
fazia milagres públicos nem outras de- e aflitos, animava os abatidos, dava con-
monstrações, mas ocultamente acompa- selhos de vida aos ignorantes, assistia aos
nhava seus ensinamentos e declarações, agonizantes. A muitos dava saúde corpo-

115
Quinto Livro

ral e a todos guiava pelas sendas da vida


e da verdadeira paz. Quantos dele se
aproximavam e o ouviam com piedosa
atenção, sem prevenções, eram cheios de
luz e dons do poder de sua divindade. Não
é possível enumerar, nem dignamente
avaliar, as admiráveis obras que o Reden-
tor realizou nestes três anos antes de seu
batismo e pregação pública. Fazia-os
ocultamente, de modo que, sem se revelar
como o Autor da salvação, comunicou-a
a grande número de almas.
Em quase todos estes prodígios en-
contrava-se presente a grande Senhora,
Maria santíssima, como testemunha e co-
adjutorafidelíssimado Mestre da vida. A
tudo cooperava, e lhe agradecia em nome
dos beneficiados pela divina misericórdia.
Fazia cânticos de louvor ao Todo-
poderoso, pedia pelas almas, como quem
conhecia o interior e a necessidade de to-
das, e com suas orações lhes obtinha estes
favores. Pessoalmente, também exortava,
aconselhava e atraia muitos à doutrina de
seu Filho, dando-lhes notícia da vinda do
Messias. Tratava mais com as mulheres,
e por elas fazia as mesmas obras de mise- do tempo. Às vezes lhes traziam algum
ricórdia que seu Filho santíssimo dispen-alimento. Se isto não acontecia, o Senhor
sava aos homens. e sua Mãe santíssima o pediam de esmola,
e aceitavam apenas comida, enão dinheiro
ou outras dádivas.
Em certas ocasiões, separavam-se
Jesus e Maria pregadores ambulantes por algum tempo. Enquantoo Senhoria visi-
927. Poucas pessoas acompanha- tar os hospitais, a Rainha visitava outras en-
vam o Salvador e sua Mãe santíssima fermas. Era então acompanhada por inu-
nestes primeiros anos, porque não chegara meráveis anjos, em forma visível; por meio
o tempo de chamá-los ao seu seguimento. deles realizava algumas obras de caridade,
Assim, ficavam em suas casas, instruídas e eles sempre a mantinham ao par do que
e melhoradas pela divina luz. fazia seu Filho santíssimo. Não me alongo
a referir, em particular, as maravilhas que
Os acompanhantes assíduos de Je- realizavam,
sus e Maria eram os santos anjos que os que sofriam osnostrabalhos e descomodidades
caminhos, nas pousadas e
serviam como fidelíssimos vassalos e dili- na oposição do comum
gentes ministros, principalmente nos dias curava impedir o bem queinimigo que pro-
em que o Senhor e sua Mãe não voltavam ber que o Mestre da vida efaziam. Basta sa-
sua Mãe santís-
para sua casa em Nazaré. Quando pas- sima eram pobres, peregiinos e escolheram
savam a noite no campo em continua o caminho do sacrifício, sem recusar tra-
oração, os anjos lhes serviam de abrigo e balho algum pela nossa salvação.
tenda para os proteger das inclemências

116
Quinto Livro - Capítulo 19

Pregação aos pobres não podiam se aproximar do enfermo,


nem tinham parte em quem morria assim
928. O divino Mestre e sua Mãe protegido. Como o dragão sentia a virtude
santíssima transmitiam a toda espécie de e ignorava a causa, concebeu furiosa raiva
pessoas a luz de sua vinda ao mundo, de e procurou remediar este dano.
modo encoberto, como fica dito. Os po- Sobre isto, aconteceu o que direi
bres, porém, foram mais privilegiados por no capítulo seguinte para não prolongar
este favor, porque, em geral, são mais bem mais este.
dispostos. Têm menos pecados, e a mente
mais livre de preocupações para receber a DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU
luz e aceitar a doutrina. São também mais MARIA SANTÍSSIMA
humildes e prontos para submeter a von-
tade e o parecer, e mais aplicados a outras
obras honestas e virtuosas.
Como nestes três anos, Cristo Desprezo pelas graças da salvação
nosso Senhor não desempenhava um 930. Minha filha, a inteligência que
magistério publicamente oficial, nem te dou das misteriosas obras de meu Filho
ensinava com manifesto poder confir- santíssimo e minhas, deixou-te admirada
mando-o por milagres, dirigia-se mais aos de terem ficado, muitas delas, até agora
humildes e pobres que, com menos argu- ocultas, apesar de serem tão enérgicas para
mentos aceitam a verdade. conquistar o coração dos mortais. Deves-te
A antiga serpente observava aten- admirar, porém, não de que os homens te-
tamente muitas das obras de Jesus e Maria, nham ignorado estes mistérios, e sim de
pois nem todas lhe foram ocultas, embora que, tendo conhecido tantos da vida e obras
o fosse o poder que nelas empregavam. do Senhor, os esqueçam e desprezem.
Reconheceu que, com suas palavras e Se não fossem de coração tão duro,
exortações, muitos pecadores abraçavam se atendessem afetuosamente às verdades
a penitência, emendavam a vida e se liber- divinas, no que sabem da vida de meu
tavam de seu tirânico domínio. Outros Filho e minha, teriam fortes motivos para
progrediam muito na virtude, e em todos serem agradecidos. Pelos artigos da santa
quantos ouviam ao Mestre da vida, o ini- fé católica, e por tantas verdades divinas
migo notava grande mudança. ensinadas pela santa Igreja, poder-se-iam
converter muitos mundos. Por ela, conhe-
cem que o Unigênito do eterno Pai se re-
Desconfiança e raiva do demônio vestiu da forma de servo em carne mortal
(Fil 2,7) para nos redimir. Com a ignomi-
929. O que mais surpreendeu o niosa morte de cruz libertou-os da morte
demônio foi ver o que sucedia com muitos do inferno e lhes adquiriu a vida eterna,
moribundos que ele tencionava derrubar pelo preço de sua vida temporal.
na hora da morte, quando, besta cruel e Se esta graça fosse tomada a sério,
sagaz, ataca as almas com maior sanha. e os mortais não fossem tão ingratos a seu
Muitas vezes, se o dragão se aproximava Deus e Redentor, e tão cruéis para consigo
do enfermo e depois entravam Jesus e sua mesmos, nenhum perderia a oportunidade
Mãe santíssima, sentia o demônio uma de se salvar, nem se entregaria à eterna
força poderosa que o lançava, com todos condenação. Admira-te, pois, caríssima, e
seus ministros, até o fundo dos calabouços chora amargamente a tremenda perdição
eternos. Se antes deles, haviam chegado de tantos néscios, ingratos e esquecidos
os reis do céu Jesus e Maria, os demônios do que devem a Deus e a si mesmos.
Quinlo Livro - Capitulo 19

Origem das desgraças sociais gou a eles, permitindo a ação do poder das
trevas (Lc 22,53) que dominava os judeus
931. Outras vezes te falei que o em conseqüência de suas culpas.
número destes infelizes prescitos é tão Hoje, porém, os católicos não
grande e dos que se salvam tão pequeno, podem alegar esta ignorância, porque
que não convém te explicar melhor. estão envolvidos pela luz, e nela conhe-
Se és verdadeira filha da Igreja e cem e penetram os divinos mistérios da
esposa de Cristo, meu Filho e Senhor, Encarnação e Redenção. A santa Igreja
poderias morrer de dor, ao entender tal encontra-se estabelecida, propagada, ilus-
desgraça. Dir-te-ei o que podes saber. trada com prodígios, com santos, com as
Toda esta perdição e os males que padece Escrituras, conhecendo e professando
o povo cristão, no governo e em outras verdades que os outros não alcançaram.
coisas que afligem assim os chefes como Com todo este cúmulo de favores, bene-
os membros deste corpo místico, tanto fícios, ciência e luz, muitos vivem como
eclesiásticos como leigos, tudo se origina infiéis, ou como se não tivessem diante
e é conseqüência do esquecimento e des- dos olhos tantos motivos para os despertar
caso que fazem da vida de Cristo e das e tantos castigos para os atemorizar.
obras da redenção humana. Se fosse em- Em tais condições, como podem
pregado algum meio para despertar sua imaginar que outros pecados foram
memória e gratidão, se procedessem maiores e mais graves que os seus? E,
como filhos fiéis e reconhecidos a seu como não temem que seu castigo será
Criador e Redentor, e a mim sua interces- mais terrível? Oh! minha filha, pondera
sora, aplacar-se-ia a indignação do justo muito esta doutrina, e teme com santo
Juiz. A geral ruína e açoite para os católi- temor. Humilha-te até o pó, e diante do
cos teria algum remédio, e aplacar-se-ia o Altíssimo considera-te a menor das
eterno Pai que justamente zela pela honra criaturas. Contempla as obras de teu Re-
de seu Filho, e castiga com mais rigor aos dentor e Mestre, aproveita-as e aplica-as
servos que conhecem a vontade de seu à tua justificação, na contrição e penitên-
Senhor e não a cumprem. cia de tuas culpas. Imita-me e segue meus
caminhos, como na divina luz os conhe-
ces. Quero que trabalhes não só para ti,
Responsabilidade dos cristãos mas também para teus irmãos.
Farás isto rezando e sofrendo por
932. Osfiéisda santa Igreja re- eles, admoestando com caridade aos que
provam muito o pecado dos incrédulos puderes, e fazendo-lhes, por esta vir-
judeus em tirar a vida a seu Deus e Mestre. tude, o que não estarias obrigada. Sê
Realmente, foi gravíssimo e mereceu os mais solícita ainda em procurar o bem
castigos recebidos por aquele ingrato de quem te ofender, suportando a todos
povo. Os católicos, porém, não advertem e humilhando-te até aos menores. Aos
que seus pecados têm circunstâncias que necessitados na hora da morte, como
os tornam mais graves que o dos judeus. tens ordem de o fazer, sê diligente em
A ignorância destes, embora culpável, era auxiliá-los com fervorosa caridade e
real. Voluntariamente, o Senhor se entre- firme confiança.
CAPITULO 20
CONCILIÁBULO NO INFERNQ CONTRA CRISTO E SUA
MAE SANTÍSSIMA.
1

933.doDesde
Temores que se operou a Encar-
demônio Lúcifer934. Estando,
convoca pois, este inimigo
o conciliábulo
nação do Verbo, o tirânico império de desorientado com o que a ele e a seus mi-
Lúcifer no mundo já não se sentia tão nistros produzia a presença de Jesus e Ma-
seguro, como estivera nos séculos ante- ria, começou a inquirir consigo: por qual
riores. Desde a hora em que o Filho do virtude o expulsavam, quando tencionava
eterno Pai desceu do céu e tomou carne no perverter os agonizantes? Donde pro-
tálamo virginal de Maria santíssima, cediam os demais efeitos da presença da
aquele forte armado sentiu outra força Rainha do céu?
maior (Lc 11,21) que o oprimia e aterrava, Não conseguindo descobrir o se-
como já ficou dito. Sentira-a quando o gredo, resolveu consultar os seus primei-
Menino Jesus e sua Mãe entraram no ros ministros, os mais eminentes na
Egito, conforme referimos, e nas muitas astúcia e malícia. Fez ecoar no inferno tre-
ocasiões, em que este dragão se viu domi- mendo rugido, no modo em que se enten-
nado e vencido pela virtude divina, através dem os demônios, e convocou-os todos
de nossa grande Rainha. pela sujeição que eles lhe têm.
Acrescentando-se a estes fatos, a Estando reunidos, fez-lhes este ar-
novidade que sentiu com a atividade que razoado: Ministros e companheiros meus,
nosso Salvador começou a desenvolver,' que sempre tomastes meu justo partido:
descrita no capítulo passado, tudo isto pro- bem sabeis que no primeiro estado em que
duziu na antiga serpente, grandes suspeitas nos colocou o Criador de todas as coisas,
e receios de haver no mundo alguma outra reconhecêrrio-lo pela causa universal de
importante causa para tais alterações. nossa existência, e assim o respeitamos.
Como, porém, o mistério da re- Não demorou, porém, que ofendendo
denção humana era-lhe oculto,' andava nossa formosura e eminência de tanta dei-
alucinado em seu furor. Não atinava com dade, nos apresentou o preceito de adorar
a verdade, embora, desde sua queda do e servir a pessoa do Verbo na forma hu-
céu, andasse sempre sobressaltado e vigi- mana que desejava assumir. Resistimos à
lante, espreitando e investigando para sa- sua vontade porque, não obstante eu co-
ber quando e como o Verbo desceria para nhecer que lhe devia esta reverência como
assumir carne humana. Esta prodigiosa a Deus, sendo juntamente homem de
obra era a que sua arrogância e soberba natureza vil e tão inferior à minha, não
mais temia. Este medo obrigou-o a fazer pude aceitar sujeição a ele, e que não
conciliábulos, como já referi nesta coubesse a mim o que determinava fazer
História e para a frente ainda descreverei. com aquele Homem. Não sendo bastante

119
- Capitulo 20

mundo inteiro obedece a meu império e o


mantenho sujeito à minha vontade e
astúcia. De alguns anos para cá, entre-
tanto, em muitas ocasiões, vos tenho visto
oprimidos, repelidos e um tanto en-
fraquecidos. Quanto a mim, sinto urna
força superior que parece me amarra e me
amedronta. Percorri o mundo todo, muitas
vezes convosco, procurando alguma novi-
dade a que atribuir este dano e opressão
que sentimos.
Por acaso, já se encontraria nele
este Messias prometido ao povo escolhido
de Deus? Não o encontramos, nem desco-
brimos indícios certos de sua vinda e da
ostentação e ruído que fará entre os
homens. Apesar disso, receio que esteja
próximo o tempo dele vir do céu à terra,
pelo que convém que todos nos es-
forcemos, com grande sanha, para destruir
a Ele e à Mulher que escolher para sua
Mãe. A quem nisto mais trabalhar, darei
maior prêmio.
adorá-lo, mandou-nos ainda reconhecer Até agora, em todos os homens en-
por superior a nós a Mãe sua, uma mulher, contro culpas e seus efeitos. Nenhum os-
criatura pura e terrena. tenta a majestade e grandeza que o Verbo
Eu, e vós comigo, nos opusemos a humanado mostrará para se manifestar aos
tão injuriosos agravos e nos recusamos mortais, a fim de que todos o adorem, lhe
obedecer, sendo castigados com o infeliz ofereçam sacrifícios e reverência. Nisto
estado e penas que sofremos. Estas ver- consistirá o sinal infalível de sua vinda ao
dades que conhecemos, e com terror as mundo. Reconheceremos sua pessoa por
confessamos aqui entre nós (Tgo 2,19), este sinal e por não ser atingido pela culpa
não convém fazê-lo diante dos homens, e pelos efeitos que produzem os pecados
assim vos ordeno, para que não venham a nos mortais filhos de Adão.
conhecer nossa ignorância e fraqueza.
Lúcifer ignora a identidade de Jesus e
Reflexões de Lúcifer Maria
935. Se este homem-Deus e sua 936. Por estas razões, prosseguiu
Mãe causarem nossa ruína, claro está que Lúcifer, maior é a minha confusão. Se o
sua vinda ao mundo há de ser o nosso maior eterno Verbo não desceu ao mundo, não
tormento e despeito. Por isto, hei de traba- posso atinar com a causa destas novidades
lhar com todo meu poder para o impedir e que sentimos, nem saber donde procede
destruí-los, ainda que seja preciso per- esta virtude e força que nos enfraquece.
verter e convulsionar todo o orbe da terra. Quem nos expulsou de todo o
Até agora tendes visto quão in- Egito? Quem derribou aqueles templos e
vencível foi meu poder, pois quase o destruiu os ídolos daquela terra, cujos
Quinto Livro - Capítulo 20

habitantes nos adoravam? Quem agora Jesus e Maria impenetráveis ao


nos oprime na terra da Galiléia e seus arre- demônio
dores, impedindo-nos de perverter muitos
homens na hora da morte? Quem ergue do 937. Com esta recomendação,
pecado a tantos que escapam de nosso Lúcifer rematou seu longo arrazoado, no
domínio, melhoram sua vida e cuidam do qual propôs outros muitos conselhos de
reino de Deus? maldade, que não é necessário referir aqui.
Se este mal continuar para nós, Nesta História tratarei ainda destes segre-
grande ruína e tormento nos pode advir dos, além de tudo o que já tenho dito, para
desta causa que ignoramos. É necessário se conhecer a astúcia da venenosa ser-
extirpá-la e investigar, novamente, se há pente.
no mundo algum grande Profeta ou Santo Saiu do inferno este príncipe das
que nos começa a destruir. Entretanto, não trevas, seguido por inumeráveis legiões de
descobri algum ao qual atribuir tal virtude, demônios. Espalharam-se por todo o mun-
senão apenas aquela mulher, nossa ini- do, percorreram-no muitas vezes investi-
miga, a quem tenho ódio mortal, princi- gando, com sua malícia e astúcia, os justos
palmente depois que a perseguimos no que encontravam. Tentavam a eles e a ou-
templo e em sua casa de Nazaré. Ficamos tros às maldades forjadas pela malícia
sempre vencidos e aterrados pela força desses inimigos.
que a guarnece, e pela qual sempre nos Entretanto, a sabedoria de Cristo
resistiu, invencível e superior á nossa Senhor nosso, ocultou, durante muitos
malícia. Jamais pude sondar seu íntimo, dias, à soberba de Lúcifer, sua pessoa e a
nem tocá-la em sua pessoa. de sua Mãe santíssima. Não os viu até a
Ela tem um filho; ambos assistiram ocasião em que Jesus foi ao deserto, onde
à morte do pai e nenhum de nós pôde permitiu ser tentado depois de seu longo
chegar onde estavam. É gente pobre e jejum, como aconteceu e descreverei em
desprezada, uma mulherzinha escondida e seu lugar*1*.
desamparada, mas, sem dúvida, presumo
que filho e mãe são justos. Sempre me es-
forcei por incliná-los aos vícios comuns Oração de Jesus e Maria por nós,
dos homens, e jamais consegui neles a contra o demônio
menor desordem nem movimento vicioso,
tão naturais e ordinários nos demais. 938. Ao se reunir no inferno este
Conheço que o Deus poderoso conciliábulo, fez Cristo, nosso divino
me oculta o estado destas duas almas, e Mestre, especial oração ao Pai eterno, con-
o fato de me impedir saber se são justas tra a malícia do dragão. Entre outras roga-
ou pecadoras, contém algum mistério tivas suplicou: Eterno Deus altíssimo ePai
contra nós. Ainda que, em outras oca- meu, adoro e enalteço teu ser infinito e
siões, aconteceu não podermos penetrar imutável; confesso que és imenso e sumo
nas disposições de outras almas, foram bem, a cuja divina vontade me ofereço em
elas muito raras e não tanto como agora. sacrifício, para vencer e destruir as forças
Mesmo que este homem não seja infernais, e seus planos de maldade, contra
o Messias, ao menos serão justos, ini- minhas criaturas. Pelejarei por elas contra
migos nossos, e isto basta para os per- meus inimigos e seus, e com minhas obras
seguirmos, procurando derrubá-los e des- e vitórias sobre o dragão, lhes deixarei
cobrir quem são. Segui-me todos nesta força e exemplo para o combater. Sua
empresa com grande esforço, e eu serei o malíciaficarámuito enfraquecida contra
primeiro a combatê-los. os que me servirem de coração.
1 - tbuxo, if 995.

121
Quinto Livro - Capitulo 20

Defende, Pai meu, as almas dos en- auxílios que o Senhor nos deixou em sua
ganos e crueldades da serpente e seus se- santa Igreja, não temos nenhuma desculpa
quazes, e concede aos justos a virtude se não pelejamos legítima e corajosa-
poderosa de tua destra para que, por minha mente para vencer o demônio, inimigo do
intercessão e morte, alcancem vitória de Deus eterno e nosso, a fim de seguir nosso
suas tentações e perigos. Salvador e imitar seu exemplo.
Nossa grande Rainha e Senhora
teve, na mesma ocasião, conhecimento da DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU,
maldade e dos projetos de Lúcifer, e viu MARIA SANTÍSSIMA,

O amor de Deus e o ódio do demônio


939. Minha filha, chora amar-
gamente a dura obstinação e cegueira dos
mortais, para entenderem a amorosa pro-
teção que podem encontrar em meu Filho
e em mim, para todas suas dificuldades e
necessidades, Não deixou meu Senhor
diligência alguma, nem perdeu oportuni-
dade de lhes conquistar inestimáveis
tesouros. Depositou na santa Igreja o valor
infinito de seus merecimentos, frutos de
suas dores e morte. Deixou-lhes seguros
penhores de seu amor e glória, fáceis e efi-
cacíssimos meios para gozarem de todos
estes bens, aplicando-os para seu bem e
salvação eterna. A mais de tudo isto,
ofereceu-lhes sua proteção e minha, ama-
os como a filhos e afaga-os com benefícios
e verdadeiras riquezas. Espera-os como
pai piedosíssimo, procura-os como pastor,
ajuda-os com sua onipotência. Recom-
em seu Filho santíssimo tudo quanto se pensa-os com infinitas riquezas, governa-
passava. Como coadjutora de seus triun- os como poderoso rei. Todos estes e ou-
fos, acompanhou-o na oração que fez ao tros inumeráveis favores são-lhes ensi-
eterno Pai. Recebeu-a o Altíssimo, e nesta nados pela fé, propostos pela Igreja, e os
ocasião, alcançaram Jesus e Maria gran- têm diante dos olhos. Apesar de tudo, os
des auxílios e recompensas para os que esquecem e desprezam. Cegos, amam as
lutarem contra o demônio, invocando seus trevas, e se entregam ao furor e ódio de
sagrados Nomes. Quem os pronunciar tão cruéis inimigos, os demônios. Dão ou-
com fé e reverência, oprimirá os inimigos vidos a suas mentiras, obedecem à sua
infernais, afugenta-los-á e os afastará de maldade, dão crédito a seus erros. Con-
si, em virtude da oração e das vitórias al- fiam e se entregam à insaciável e furiosa
cançadas por Jesus, nosso Salvador, e sua indignação, com que estes maus espíritos
Mãe santíssima. os odeiam, procurando sua eterna morte,
Por esta proteção contra o soberbo por serem obras do Altíssimo que venceu
gigante infernal, e por outros tantos e subjugou a este crudelíssimo dragão.

122
Quinto Livro - Capítulo 20

Cristo c Belial indignação do Altíssimo não se volta tanto


contra eles, como contra osfiéisda santa
940. Atende, pois, caríssima, a este Igreja que receberam a luz desta verdade.
lamentável erro dos filhos dos homens, e Se, no presente século, esta luz se encontra
aplica tuas potências para considerar a di- tão fraca e esquecida, saibam que é por
ferença entre Cristo e Belial. Ela é maior culpa sua. Entregam-se a Lúcifer, que com
que a distância entre o céu e a terra. Cristo infatigável malícia, não procura outra
é luz, verdade, caminho e vida eterna (Jo coisa senão arrancar-lhes o freio, para
14,6). Ama aos seus seguidores com amor esquecerem os novíssimos e os tormentos
indestrutível e lhes oferece sua visão e eternos que os aguardam. Deste modo
companhia no eterno descanso que nem leva-os a se entregarem como irracionais
olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem aos deleites sensíveis. Esquecidos de si
pode passar pelo coração humano (Is 44, mesmos, gastam a vida nos bens aparentes
4). Lúcifer é a própria treva, erro, mentira, e de repente caem no inferno, como diz Jó
infelicidade e morte. Odeia seus segui- (21,13).
dores, impele-os quanto pode a todo mal, Assim realmente acontece a inu-
para acabarem no fogo sempitemo e penas meráveis néscios que desprezam esta
cruéis. ciência e disciplina. Tu, porém, minha
Digam agora os mortais, se igno- filha, deixa-te instruir por minha dou-
ram estas verdades que todos os dias a trina, e afasta-te de tão pernicioso en-
santa Igreja lhes recorda e ensina? Se gano, e do comum esquecimento dos
nelas acreditam, onde está seu juízo? mundanos. Sôe sempre a teus ouvidos
Quem os transtornou? Quem lhes faz aquele triste despeito dos condenados
esquecer o amor que devem ter a si nofimde sua vida, princípio de sua
próprios? Quem os transforma em tão cruéis eterna morte: "Oh! loucos que fomos,
inimigos de si mesmos? Oh! insânia dos fi-julgando insensatez a vida dos justos!
lhos de Adão, nunca suficientemente pon- Nós é que erramos o caminho da verdade
derada e chorada! Que assim trabalhem e se e da justiça (Sab 5,4-6). O sol não nasceu
afanem toda a vida, para se enredar nas para nós.
paixões, e se afundar no engano! Cansamo-nos no caminho da
Assim se entregam ao fogo inex- maldade e perdição e procuramos sen-
tinguível, à morte e perdição eterna, como das difíceis, ignorando, por nossa culpa,
se fossem imaginárias; como se não os caminhos do Senhor. De que nos
tivesse descido do céu meu Filho santís- aproveitou a soberba? De que nos valeu
simo, para morrer na cruz e lhes merecer a jatância das riquezas? Tudo se acabou
a salvação! Considerem o preço, e com- para nós como uma sombra! Oxalá
preenderão o valor e estima do que tanto nunca houvéramos nascido!" Tudo isto
custou ao mesmo Deus que perfeitamente hás de temer, minha filha, e meditar in-
o conhece. timamente, antes que vás e não voltes
daquela terra tenebrosa, como diz Jó
(10,21), das cavernas eternas. Cuida em
Os cristãos são indesculpáveis fugir do mal e praticar o bem. Enquanto
és viadora, faz por amor o que os con-
941. Este infelicíssimo erro é denados confessam forçados pelo cas-
menos culpável nos idolatras e gentios. A tigo e despeito.

123

CAPÍTULO 21
POR ORDEM DO ESPIRITO SANTO, SÃO JOÃO COMEÇA A
PREGAR E ENVIA A DIVINA SENHORA UMA CRUZ QUE
POSSUÍA.
São João Batista Santidade do Batista
942. Nesta segunda parte*1*, come- 943. Os favores que, em sua
cei a descrever alguns grandes favores que solidão e retiro, São João recebeu da
Maria santíssima prodigalizou à sua prima divina destra excedem ao humano pen-
Santa Isabel e a São João, tanto na ocasião samento. Só quando se chegar à visão do
em que Herodes tirou a vida dos meninos Senhor, conhecer-se-á sua excelente san-
inocentes, como depois, estando a Rainha tidade, merecimentos e a recompensa que
no Egito. O futuro precursor de Cristo, alcançou.
falecida sua mãe, permaneceu na solidão Não pertence a esta História falar
do deserto, sem sair dela, até o tempo de- sobre os mistérios que a esse respeito co-
terminado pela divina sabedoria. Sua vida nheci, sem repetiro que os santos doutores
foi mais angélica do que humana, mais de e outros autores escreveram sobre as gran-
serafim do que homem terreno. Sua con- des prerrogativas do santo Precursor. Só
versação era com os anjos e com o Senhor direi o que é forçoso para meu assunto, e
da criação. tiver relação com a divina Senhora, por
Sendo esta sua única ocupação, cuja intercessão o solitário João recebeu
jamais esteve ocioso, prosseguindo o grandiosos favores. Destes, não foi o
amor e o exercício das virtudes heróicas menor enviar-lhe alimentação por mãos
que começara no seio de sua mãe. Nunca dos anjos, até o menino João chegar à
recebeu a graça em vão, mas preencheu-a idade de sete anos, conforme disse
com a máxima perfeição que pôde comu- acima*2^
nicar aos seus atos. Estando afastado das Desta idade até os nove anos, en-
coisas terrenas, não sentiu o estorvo dos viou-lhe apenas pão, e daí em diante a
sentidos que costumam ser as janelas por Rainha cessou este favor, porque conhe-
onde entra na alma a morte, encoberta nas ceu que era vontade do Senhor e desejo
imagens da beleza enganadora das do mesmo Santo, alimentar-se só de
criaturas. raízes, mel silvestre e gafanhotos, (Mt
Neste feliz Santo a luz divina se 34) como aconteceu até começar sua pre-
antecipou a do sol material, e com a gação. Não obstante faltar-lhe o ali-
primeira relegou ao esquecimento tudo mento das mãos da Senhora, Ela con-
quanto a segunda lhe oferecia, fixando tinuou a enviar seus anjos para visitá-lo,
sua vista interior no objeto nobilíssimo cada oito dias. Iam consolá-lo com a
do ser divino e de suas infinitas per- notícia dos trabalhos e mistérios que o
feiçòes. Verbo humanado realizava.
í - n°6?6 2-n°676

125
Quinto Livro - Capítulo 21

Comunicações entre Jesus, Maria e a idade perfeita de trinta anos, sendo assim
São João preparado pelo poder divino, para o mi-
nistério para o qual fora escolhido.
944, Uma das finalidades desta
graça, era tornar suportável a solidão de
São João. Não quer dizer que seu peso e Deus envia São João Batista
austeridade lhe causasse fastio. Bastava
para torná-la desejável e muito doce, sua 945. Chegou o tempo marcado
admirável graça e santidade. pela eterna Sabedoria, para que a voz do
Foi conveniente, entretanto, pelo Verbo humanado, o Batista, fosse ou-
amor ardentíssimo que tinha a Cristo, vida a clamar no deserto, como diz Isaías
nosso Senhor, e a sua Mãe santíssima, a (40,3) e o referem os Evangelistas (Mt
fim de sentir menos a ausência do con- 3,3).
vívio e presença de ambos
que, como santo e agrade-
cido, muito desejava.
Não há dúvida que a
insatisfação deste desejo, lhe
seria de maior mortificação
do que sofrer as intempéries,
os jejuns, as penitências e a
solidão dos montes, se a
divina Senhora, sua amorosa
tia, não lhe compensasse esta
privação, com o freqüente
consolo de lhe enviar os anjos
com notícias de seu Amado.
Com as amorosas ân-
sias da esposa (Cânt 1, 6), o
grande solitário interroga-
va-os sobre o Filho e Mãe.
De seu coração ferido por
seu amor e ausência envia-
va-lhes lembranças e sauda-
des. Por meio dos angélicos
embaixadores, pedia à divi-
na Princesa, que por ele, su-
plicasse a bênção de Jesus e
o adorasse humildemente
em seu nome; enquanto isso,
o mesmo João o adorava, em
espírito e verdade, da soli-
dão em que vivia. Fazia o
mesmo pedido aos santos
Anjos que o visitavam e aos
demais que o assistiam.
Nestas ocupações,
passou o grande Precursor até

126
Quinto Livro - Capítulo 21

No décimo quinto ano do império digno de ser instrumento do Verbo hu-


de Tibério César, sendo príncipes dos sa- manado, e como necessitava aquele povo
cerdotes Anás e Caifás, veio a palavra de hebreu duro, ingrato e pertinaz, com go-
peus sobre João, filho de Zacarias, no de- vernadores idólatras, com sacerdotes
serto (Lc 3). Dirigiu-se para a margem do avarentos e soberbos; sem luz, sem pro-
Jordão, pregando o batismo de penitência fetas, sem piedade, sem temor de Deus,
para alcançar a remissão dos pecados, e depois de tantos castigos e calamidades
dispor os corações a receberem o Messias atraídas pelos seus pecados.
prometido por tantos séculos. Mostrá-lo- Em tão miserável estado, o Precur-
ia com o dedo, para que todos pudessem sor lhe deveria abrir os olhos e o coração
conhecê-lo. Esta palavra e ordem do Se- para receber seu Reparador e Mestre.
nhor foi entendida por São João num êx-
tase, onde, por especial influência do poder
divino, foi iluminado e preparado com Devoção de São João à cruz
plenitude de novos dons de luz, graça e
ciência do Espírito Santo. 947. Muitos anos antes, o santo
Neste rapto conheceu, com mais anacoreta fizera uma grande cruz que con-
copiosa sabedoria, os mistérios da Reden- servava em sua cabeceira. Nela fazia al-
ção, e teve uma visão abstrativa da Divin- guns exercícios de penitência, e freqüen-
dade, tão admirável que o transformou em temente rezava na posição de crucificado.
novo ser de santidade e graça. Nesta visão, Não quis deixar este tesouro naquele
mandou-lhe o Senhor que deixasse a soli- êrmo, e antes de sair dele, enviou-o à
dão, para preparar os caminhos da própria Rainha do céu pelos mesmos anjos que,
pregação e da do Verbo humanado; que em nome d'Ela, o visitavam. Mandou-lhe
exercitasse o ofício de precursor em tudo dizer que aquela cruz lhe fôra a companhia
quanto lhe competia, conforme fôra ins- mais amável e querida em sua prolongada
truído, e para o qual recebeu abundantís- solidão; que lhe enviava como rica jóia
sima graça. pelo que nela iria se realizar.
Por esta mesma razão a fizera, pois
os anjos lhe haviam dito que também seu
Os judeus no tempo do Batista Filho santíssimo orava muitas vezes numa
cruz que possuía em seu oratório. Esta
946. O novo pregador saiu da cruz de São João tinha sido feita, a seu
solidão. Vestia-se de pele de camelo, com pedido, pelos anjos, de uma árvore
um cinto de couro; pés descalços, rosto daquele deserto, pois o Santo não tinha
macerado, mas de expressão grave e ad- para esse trabalho nem força nem instru-
mirável, com incomparável modéstia e mento, enquanto os anjos nada disso pre-
severa humildade, ânimo invencível e cisavam, pelo poder que possuem sobre
generoso, o coração inflamado na cari- as coisas corporais.
dade por Deus e pelos homens. Suas Com este presente e mensagem,
palavras eram vivas, fortes e ardentes voltaram os santos príncipes à sua Rainha
como centelhas de um raio lançado pelo e Senhora. Ela o recebeu com grande
poder do imutável ser divino. emoção e amorosa dor de seu castíssimo
Aprazível com os mansos, amável coração, considerando os mistérios que
logo seriam operados naquele duríssimo
com os humildes, terrível para os sober- madeiro. Conversando carinhosamente
bos. Era admirável espetáculo para os an- com ele, guardou-o
jos e os homens, temível aos pecadores, com a outra cruz quedurante toda a vida,
o Salvador possuía.
horripilante para os demônios. Pregador
Quinto Livro - Capítulo 21

Mais tarde, a prudentíssima Senhora dei- ficado por sua Paixão e morte. Por este
xou estas prendas, e outras, aos Apóstolos motivo é que, agora, se lhe deve adoração
como preciosa herança, e eles as levaram e reverência altíssima, como pratica n
para as regiões onde pregaram o Evan- Igreja. Se alguém, desconhecendo os mis-
gelho. térios e razões que eu e São João sabíamos
pretendesse dar culto e reverência à cruz
antes de redenção humana, teria cometido
Dúvida da Escritora idolatria e erro, porque adorava o que não
sabia ser digno de adoração verdadeira.
948. Sobre este misterioso acon- Em nós, porém, havia motivos di-
tecimento, veio-me uma dúvida que ferentes: tínhamos infalível certeza do que
propus à Mãe da sabedoria, dizendo-lhe: nosso Redentor realizaria na cruz; sabía-
santíssima entre os santos e escolhida en- mos que, antes disso, já começara a santi-
tre todas as criaturas para Mãe de Deus. ficar aquele sagrado sinal com seu con-
No que terminei de escrever, se me oferece tacto, pondo-se nela a orar e oferecendo-se
uma dificuldade, como à mulher ignorante livremente; e que o eterno Pai aceitara, por
e rude. Se me derdes licença, desejo pro- Imutável decreto, estas obras e morte de
pô-la a vós, Senhora, mestra da sabedoria, meu Filho santíssimo.
que vos dignastes fazer comigo ofício de Qualquer ação e contacto do Verbo
esclarecer minhas trevas e ensinar-me humanado era de infinito valor, e com ele
doutrina de vida eterna. santificou e tomou digno de reverência
Minha dúvida é a seguinte: entendi aquele sagrado madeiro.
que, não apenas São João, mas também Quando eu e São João o vene-
vós, Rainha minha, tínheis reverência à rávamos, tínhamos presente este mis-
cruz, ainda antes que vosso Filho santís- tério. Não adorávamos a cruz por si mes-
simo nela morresse. Sempre acreditei que ma e por sua matéria, pois não lhe era
até a hora de nossa redenção no sagrado devido culto de adoração até que nela se
madeiro, este servia de patíbulo para cas- operasse a Redenção. Atendíamos e
tigar criminosos, e por esta causa a cruz respeitávamos a representação formal do
era consi-derada ignominiosa e maldita que nela faria o Verbo humanado, a quem
(Ofício da Sta Cruz). A santa Igreja nos se dirigia a reverência e adoração que
ensina que todo seu valor e dignidade, pro- dávamos à cruz. A mesma intenção a
cedeu do contacto com nosso Redentor e Igreja tem agora em vista, quando cultua
do mistério da redenção humana que nela a cruz.
realizou.
RESPOSTA E DOUTRINA DA Devoção à cruz
RAINHA DO CÉU MARIA
SANTÍSSIMA. - 950. De acordo com esta verdade,
deves agora ponderar a tua obrigação, e a
de todos os mortais, cm reverenciar e es-
Razão do culto à cruz timar a santa Cruz. Antes de nela morrer
meu Filho santíssimo, eu e o Precursor 0
949. Minha filha, com gosto satis- imitamos, tanto no amor e reverência,
farei teu desejo e responderei à tua dúvida. como nos exercícios que fazíamos
E verdade o que disseste: a cruz era naquele santo sinal. Que devem fazer en-
ignominiosa (Dcut 21,23), antes que meu tão, os fiéis filhos da Igreja, depois que,
Filho e Senhor a tivesse honrado e santi- pela fé, nela vê crucificado seu Criador e

128
Quinto Livro - Capítulo 21

Redentor, e diante dos olhos corporais tem criaturas. Quando o Senhor te der obri-
suas imagens? gação de tratar com elas, procura sempre
Quero, pois, minha filha, que teu próprio mérito, e a edificação do
abraces a cruz com incomparável estima, próximo. De tuas conversações transpire
e a consideres preciosíssima jóia de teu o zelo e o espírito que vive em teu coração.
Esposo. Acostuma-te aos exercícios que As eminentíssimas virtudes que conheces,
nela fazes, sem jamais, voluntariamente sirvam-te de estímulo e exemplo a imitar.
os deixares e'esqueceres, a não ser que a Delas e de outras que souberes pela vida
obediência te impeça. dos santos, procura, qual diligente abelha,
Quando fores praticar estas ve- fabricar o favo dulcíssimo da santidade e
neráveis devoções, faze-as com profunda pureza que de ti quer meu Filho santís-
reverência e meditação da paixão e morte simo.
de teu amado Senhor. Procura introduzir Vê a diferença entre este inseto e a
esta devoção entre tuas religiosas, porque aranha: a primeira transforma seu ali-
nenhuma é mais legítima para as esposas mento em suavidade e utilidade para os
de Cristo, e feita com dignareverêncialhe vivos e até para os defuntos, e a segunda
será de sumo agrado. Além disto, quero em veneno maléfico. Colhe as flores e vir-
que, à semelhança do Batista, prepares teu tudes dos santos, no j ardim da santa Igrej a,
coração para o que o Espírito Santo nele e procura imitá-las, quanto puderem tuas
quiser fazer para sua glória e bem de ou- forças, auxiliadas pela graça. Industriosa,
tros. procura que tudo resulte em benefício dos
Quanto puderes, ama a solidão e vivos e defuntos e foge do veneno da culpa
retira tuas potências da confusão das prejudicial a todos.
Quinto Livro - Capítulo 21

130
CAPITULO 22
MARIA SANTÍSSIMA OFERECE AO ETERNO PAI SEU
FILHO PARA A REDENÇÃO HUMANA. RECEBE UMA
VISÃO CLARA DA DIVINDADE. JESUS D'ELA SE DESPEDE
PARA IR AO DESERTO.
Amor dc Maria por Jesus Os cumes do amor
951. O amor de nossa grande 952. Estas razões e estímulos de
Rainhae Senhora por seu Filho santíssimo amor, com outros muitos que só sua altís-
era a razão e a medida das outras opera- sima ciência penetrava, encontravam-se
ções da divina Mãe, inclusive dos efeitos depositados e como que incluídos na sa-
da paixão do gozo e da dor, segundo as bedoria da divina Senhora. Em seu co-
diferentes causas e motivos que os pro- ração não havia impedimento, pois era
duziam. inocente e puríssimo. Não era ingrata, mas
Para avaliar, porém, este ardente prudentíssima na humildade e fidelíssima
amor, nossa capacidade não encontra em corresponder. Não era remissa, mas
medida, e os anjos só a conhecem na clara veemente em colaborar com a graça em
visão do ser divino. Fora disto, tudo toda sua eficácia. Não era lenta, mas deli-
quanto se pode dizer por circunlóquios e gentíssima. Não era descuidada, mas
comparações, é muito menos do que este atentíssima e solícita. Não era esquecida,
divino incêndio encerra. porque de memória constante e fixa em
Amava-o como a Filho do eterno guardar os benefícios, razões e leis do
Pai, igual a Ele na natureza divina e em suas amor.
infinitas perfeições e atributos. Amava-o Encontrava-se mergulhada no
comofilhonatural, somente seu na natureza próprio fogo, em presença do divino ob-
humana, formado de sua própria carne e jeto e na escola do verdadeiro Deus de
sangue. Amava-o porque, neste ser humano, amor, na companhia de seu Filho santís-
era o Santo dos Santos (Dan 9,24), causa simo, contemplando seus atos e opera-
meritória de toda santidade. ções, copiando aquele vivo modelo. Nada
Era o mais belo entre os filhos dos faltava a esta excelente amante, para
homens (SI 44/3). O mais obediente (Lc chegar àquele modo de amor que consiste
2» 51) filho para sua Mãe, o que mais a em amar sem medida e modo.
honrou e beneficiou, pois fazendo-se seu Achava-se, pois, esta formosa lua
Filho elevou-a à suprema dignidade entre em sua plenitude, depois de contemplar o
as criaturas; sublimou-a entre todas e sol da justiça, face a face, durante quase
acima de todas, com os tesouros da Divin- trinta anos. Levantara-se como divina
dade, com o senhorio de toda a criação, aurora à suprema claridade, ao ardente e
com favores, benefícios e graças que ne- amoroso incêndio do luminoso dia da
nhuma outra poderia dignamente receber. graça. Abstraída de todo o visível, trans-

131
Quinto Livi - Capítulo 22

formada em seu querido Filho, era por Ele deu ao Altíssimo: rei eterno e Deus onip0,
correspondida na dileção, favores e cari- tente, de sabedoria e bondade infinita
nhos. tudo o que tem ser fora de vós, recebeu-0
Nesta culminante época, ouviu a de vossa liberal misericórdia e grandeza
voz do Pai eterno que a chamava, como é de tudo sois Dono e Senhor absoluto
chamara o patriarca Abraão, para lhe pedir Como, a Mim, vil bichinho, da terra, man>
em sacrifício o seu querido Isaac, penhor dais que sacrifique e entregue à vossa dis-
de seu amor e esperança (Gn 22,1). posição divina o Filho que de vossa ine-
fável dignação recebi? Ele vos pertence
etemo Deus e Pai, pois em vossa etemj!
O Pai eterno pede a Maria o dade o gerastes antes da aurora, (SI 109,
sacrifício de seu Filho 3; 2,7) e o continuais a gerar sempre e por
todos os séculos.
953. Não ignorava a Mãe pruden- Se Eu o revesti com a forma de
tíssima que o tempo ia passando. Seu servo (Filip 2, 7) em minhas entranhas,
amado Filho entrara nos trinta anos e se com meu próprio sangue; se O alimentei
aproximava o fim do prazo para o pa- e servi como Mãe, aquela santíssima hu-
gamento da dívida contraída pelos ho- manidade é toda vossa, pois de vós recebi
mens. Contudo, a posse da felicidade que tudo o que sou e lhe pude dar. Que me resta
a fazia tão bem-aventurada, fazia-lhe pa- senão oferecer-vos quem é mais vosso do
recer distante a privação ainda não experi- que meu?
mentada. Confesso, entretanto, Rei altís-
A hora, porém, chegou. Estando, simo, que ao enriquecerdes as criaturas
certo dia, em altíssimo êxtase, sentiu que com vossos infinitos tesouros, usais tão
era chamada á presença do trono real da liberal grandeza e benignidade que,
santíssima Trindade,, e do qual saiu uma ainda ao vosso próprio Unigênito,
voz que, com admirável força, lhe disse: engendrado de vossa substância, a pró-
Maria, Filha e Esposa minha, oferece-me pria luz de vossa divindade, o pedis
teu Unigênito em sacrifício. Juntamente como livre oferenda, para vos conside-
com a voz, recebeu luz e inteligência da rardes devedor por ela.
vontade do Altíssimo. Nela conheceu o Com Ele me vieram todos os bens,
decreto da redenção humana, por meio da e de sua mão recebi imensos dons e hones-
paixão e morte de seu Filho santíssimo, e tidade (Sab 7,11). É virtude de minha vir-
tudo o que deveria precedê-la com a pre- tude, substância de meu espírito, vida de
gação e magistério do mesmo Senhor. minha alma e alma de minha vida, toda a
A renovação deste conhecimento alegria de meu coração. Agradável ofe-
na amorosa Mãe, produziu diversos efei- renda seria entregá-lo só a Vós que co-
tos em seu espírito: aceitação, humildade, nheceis quanto é estimável.
caridade para com Deus e os homens; Entregá-lo, porém, à disposição de
compaixão, ternura e natural sentimento vossa justiça para ser executada pela mão
pelo que seu Filho santíssimo teria de de seus cruéis inimigos, à custa de sua vida
padecer. mais valiosa que toda a criação! Grande
é, altíssimo Senhor, a oferta que pedis,
para o amor de Mãe! Não se faça, contudo
Resposta de Maria a minha vontade, mas a vossa; opere-se a
libertação da linhagem humana;fiquesa-
954, Não obstante, sem pertur- tisfeita vossa equidade e justiça; mau1'
bação e com magnânimo coração, respon- feste-se vosso infinito amor, seja conhe-

132
Quinto Livro - Capítulo 22
cjdo e exaltado vosso nome por todas as humana por aquele decreto, cuja execução
criaturas. dependia do consentimento da Mãe à von-
Entrego meu querido Isaac para ser tade do Pai eterno. Assim devedores nos
realmente imolado; ofereço o Filho de tomamos a Maria santíssima, nós os filhos
minhas entranhas para que, segundo o de Adão.
imutável decreto de vossa vontade, pague
a dívida contraída, não por Ele, mas pelos
filhos de Adão. Que n'Ele seja cumprido Maria é fortalecida por Deus
tudo o que vossos Profetas escreveram e
disseram por vossa inspiração. 956. Aceita a oferenda desta grande
Senhora pela beatíssima Trindade, foi con-
veniente que Deus remunerasse à vista, com
Sublimidade do sacrifício de Maria algum favor que a confortasse em sua dor.
Seria também fortalecida para as outras
955. Este sacrifício de Maria san- dores que a aguardavam, e conheceria com
tíssima, com as condições que o acompa- maior clareza a vontade do Pai e as razões
nharam, foi o maior e mais aceitável ao do que lhe havia sido ordenado.
eterno Pai, de quantos haviam sido feitos Estando a divina Senhora no
desde o princípio do mundo, e que se farão mesmo êxtase, foi elevada a outro estado
até o fim. Excedeu-o somente o sacrifício superior, preparada pelas iluminações e
de seu Filho, nosso Salvador, que afinal disposições que noutras ocasiões tenho
foi o mesmo da Mãe, na medida e forma explicado*1*. A divindade manifestou-se
possível a ela. lhe com a visão clara e intuitiva. Na serena
Se a suprema caridade se mani- luz do Ser divino, conheceu de novo a in-
festa em dar a vida por quem se ama (Jo clinação do sumo Bem em comunicar seus
15,13), Maria santíssima ultrapassou, sem infinitos tesouros às criaturas racionais,
dúvida, esta fronteira do amor pelos por meio da Redenção que o Verbo hu-
homens, tanto mais, quanto amava a vida de manado realizaria, e a glória que deste
seu Filho santíssimo sem medida e mais do prodígio resultaria, entre as mesmas
que a sua própria vida. Para conservar a vidacriaturas, para o nome do Altíssimo.
do Filho, teria morrido tantas vezes quantos Com esta nova ciência de ocultos
são os homens e ainda muitas mais. mistérios, a divina Mãe, alegremente, tor-
Não existe, entre as criaturas, pa- nou a oferecer ao Pai o sacrifício de seu
drão algum por onde medir o amor desta Filho unigênito. O poder infinito do Se-
divina Senhora pelos homens. Só pode ser nhor fortaleceu-a com aquele verdadeiro
comparado ao amor do Pai eterno, pois pão da vida e entendimento, para com in-
como disse Cristo, Senhor nosso, a Ni- vencível fortaleza acompanhar o Verbo
codemos (Jo 3,16): de tal maneira Deus humanado nas obras da Redenção. Seria
amou o mundo que deu seu Filho sua coadjutora na forma que dispunha a
unigênito, para que todos que n'Ele infinita sabedoria, como o fez a grande
cressem não perecessem. Senhora, em tudo o que adiante direi.
Parece que, na devida proporção,
fez o mesmo nossa Mãe de misericórdia,
a quem, na mesma proporção, devemos Jesus pede licença à Maria para
nosso resgate. Tanto nos amou que deu partir
seu Unigênito para nossa salvação. Se não
o desse, nesta ocasião em que o Pai eterno 957. Cessou este rapto e visão, e
lhe pediu, não se teria realizado a redenção não me detenho mais a explicar seu modo
1 - 1* parte, rfô^eseg.
Quinto Livro - Capitulo 22

e condições, pois foi semelhante a ouUas Chamou-a Jesus, e falou-lhe


visões intuitivas que descrevi. Com a vir- como filho amantíssimo, cheio de carinho
tude e efeitos desta, ficou Mana santís- e compaixão. Disse-lhe: Minha Mãe, o ser
sima preparada, para se despedir de seu de verdadeiro homem, recebi-o só de
Filho santíssimo que determinara ir logo vossa substância e sangue, e destes tomei
receber o batismo, e retirar-se ao deserto a forma de servo (Filip 2,7) em vosso vir-
para o jejum. ginal seio. Criastes-me a vossos peitos,

134
Quinto Livro - Capítulo 22

i mentando-me com vosso trabalho e mãe vos peço, em retribuição da forma hu-
or. Por e s t a s r a z õ e s ' reconheço-me por mana que vos dei e na qual ides sofrer.
vossofilho,mais do que qualquer outro o Pediu-lhe também a divina Mãe
foi ou será, de sua mãe. que levasse algum alimento de casa, ou
Dai-me licença para ir cumprir a que lhe permitisse enviá-lo para onde se
vontade de meu eterno Pai. Chegou a hora encontrasse. Por então, nada aceitou o
de me separar de vossa carinhosa e doce Salvador, fazendo-lhe compreender que
companhia e dar princípio à obra da re- assim convinha. Foram juntos até aporta
denção humana. Termina o descanso e da pobre morada, onde pela segunda
começa a hora de sofrer pelo resgate de vez, de joelhos Ela lhe pediu a bênção e
m eus irmãos, os filhos de Adão. lhe beijou os pés. Deu-lha o divino Mes-
Esta missão que meu Pai me confiou tre e partiu. Dirigiu-se para o Jordão,
quero, porém, realizá-la com vossa assistên- como o bom pastor que sai em busca da
cia. Nela sereis minha companheira e coad- ovelha perdida, para a trazer de volta so-
jutora, participante de minha paixão e cruz. bre os ombros (Lc 15,5), ao caminho da
Ainda que agora é forçoso vos deixar só, eterna vida, do qual se havia desgarrado
ficará convosco minha eterna bênção, (SI 118,176).
rainha solícita, amorosa e invicta proteção.
Depois voltarei para me acompanhardes e
ajudardes em meus trabalhos, pois vou Dor da separação
padece-los na forma humana que me deste.
959. No começo do ano em que
nosso Redentor saiu de casa para ser bati-
Jesus e Maria se despedem zado por São João, já havia entrado nos
trinta anos de idade. Dirigiu-se dire-
958. Com estas palavras, Jesus tamente para as margens do Jordão, onde
abraçou sua Mãe temíssima, e ambos der- João batizava (Mt 3,13). Dele recebeu o
ramaram abundantes lágrimas, sem per- batismo, treze dias depois de haver cum-
derem a admirável majestade e doce gravi- prido vinte e nove anos, o mesmo dia em
dade como mestres na ciência do padecer. que a Igreja celebra seu batismo.
Ajoelhou-se a divina Mãe e, com Sou incapaz de ponderar ade-
indizível dor e reverência, respondeu a seu quadamente a dor de Maria santíssima
Filho santíssimo: Senhor meu e Deus nesta despedida, e a compaixão do Salva-
eterno, sois meu verdadeiro Filho e a Vós dor. Todo encarecimento e razões são
dedicarei todas as forças e amor que de muito insuficientes e inadequadas para
vós recebi. O íntimo de minha alma é co- dizer o que se passou no coração de Mãe
nhecido á vossa sabedoria, e minha vida e Filho. E, como esta ocorrência fazia
nada seria se pudesse dá-la em lugar da parte de suas penas, não foi conveniente
vossa; estaria pronta, se fosse conve- moderar os efeitos do recíproco amor
niente, a morrer muitas vezes para isso. A natural entre os Senhores do mundo.
vontade do Pai, porém, e a vossa se hão Permitiu o Altíssimo que eles o
de cumprir, e para isto sacrifico a minha. sentissem na maior medida possível e
Recebei-a, meu Filho e Senhor, como compatível com a suma e respectiva san-
aceitável oferenda, e não me falte vossa tidade de cada um. Nem serviu de conforto
divina proteção. Maior tormento seria para esta dor a pressa de nosso divino
para mim, ver-vos sofrer sem vos acom- Mestre em procurar nossa salvação, le-
panhar no sofrimento e na cruz. Mereça vado por sua imensa caridade; nem para
eu> Filno» este favor, que como verdadeira
sua amorosa Mãe conhecer este motivo.

135
Quinto Livro - Capítulo 22 1
Tudo isto, só tornava maior a certeza dos inspirada pelo amor, e pelo Senhor que a$,
tormentos que os esperavam. sim o queria.
Oh! meu doce amor! Como não Estas ânsias de padecer, e o amor
vos detém a ingratidão e dureza de nossos que Ele me tinha como Filho e como Deus
corações? Como não vos impede o fato me inclinavam a desejar o sofrimento
dos homens serem inúteis para vós, além Porque me amou com ternura mo cou!
de grosseiros em vos corresponder? Oh! cedeu, pois aos que ama corrige a aílige
etemobem,evidaminha! Sem nós, serieis (Prov 3, 12). Quis que a mim, sua Mae,
tão bem-aventurado como conosco: infi- não faltasse a excelência da perfeita se-
nito em perfeições, santidade e glória, pois melhança com Ele, naquilo que mais esti-
nada podemos acrescentar a esta glória mava na vida humana. Logo se cumpriu
que tendes em vós mesmo, sem dependên- em mim esta vontade do Altíssimo e
cia e necessidade de criaturas. minha, e me vi sem os favores e conso-
Pois, porque, amor meu, nos pro- lações que costumava gozar. Desde essa
curais com tanta solicitude? Porque, à ocasião, não me tratou com tanto carinho.
custa de tantas dores e da cruz, desejais o Foi esta uma das razões por que
bem dos outros? Sem dúvida, vosso in- não me chamou de Mãe e sim mulher, nas
comparável amor e bondade considera-o bodas de Caná, aos pés da Cruz (Jo 2,4;
como próprio, e só nós o tratamos como 19,26) e ainda em outras ocasiões em que
estranho para vós e para nós mesmos. me tratou com igual gravidade, deixando
de usar palavras afetuosas. Muito longe
DOUTRINA QUE ME DEU A estava isso de ser desamor. Pelo contrário,
RAINHA DO CÉU MARIA era a maior delicadeza tornar-me sua se-
SANTÍSSIMA. melhante, nas penas que escolhia para Si
como inestimável tesouro e herança.

Sofrimento, prova de amor A ciência da cruz


960. Minha filha, quero que pon-
deres e penetres mais os mistérios que des- 961. Daqui entenderás a ignorân-
creveste e os faças crescer em tua estima, cia e erro dos mortais, e quão longe andam
para o bem de tua alma e para me imitares do caminho da luz, quando geralmente
em alguma coisa. Adverte, pois, que na quase todos trabalham por não trabalhar,
visão da divindade que eu recebi nesta padecem por não padecer, e detestam o
ocasião, conheci no Senhor a estimação caminho real e seguro da cruz e mortifi-
que sua vontade santíssima faziados sofri- cação. Com este perigoso engano, aborre-
mentos, paixão e morte de meu Filho, e de cem a semelhança de Cristo, seu modelo,
todos aqueles que o imitarem em seguir o e a minha, e dela se privam, sendo esta
caminho da cruz. Nesta ciência, não só o semelhança o verdadeiro e sumo bem da
ofereci, de boa vontade, para entregá-lo à vida humana.
paixão e morte, como também supliquei Além disso se indispõem para o
ao Altíssimo me fizesse companheira e remédio, pois estando todos enfermos
participante de todas suas dores, penas e de muitas culpas, a medicação é o sofri-
paixão, o que me foi concedido pelo eterno mento. O pecado que as comete com
Pai. Depois pedi a meu Filho e Senhor que torpe deleite, repara-se com a dor da
me privasse de suas doçuras interiores, punição, e na tribulação o justo Juiz o
para começar a seguir seus passos no perdoa. O padecimento de amarguras e
caminho da amargura. Esta petição me foi aflições refreia o fontes do pecado, en-

136
Quinto Livro - Capítulo 22

fraquece os desordenados brios das caridade. Não querem confessar e reco-


aixões irascível e concupiscível; hu- nhecer que a culpa consiste em sua pouca
milha a soberba e altivez; submete a carne, mortificação e conformidade ao que Deus
desvia do prazer do mal e das coisas sen- ordena, por estarem apegadas à própria
síveis e terrenas; esclarece o julgamento; satisfação. O demônio lhes esconde todo
modera a vontade, todas as potências da este engano, sob a aparência do bom de-
criatura se ajustam à razão, e os excessos sejo da própria quietude, retiro e con-
e desequilíbrios das paixões se ordenam. vivência com o Senhor na solidão. Parece-
Acima de tudo, inclina o amor divino à lhes que nisto não há o que temer, que tudo
compaixão do aflito que abraça os traba- é bom e santo, e o mal está em estorvá-las
lhos com paciência, e ainda os procura no que desejam.
com desejo de imitar meu Filho santís-
simo.
Nesta ciência está resumida toda aDeixar Deus por Deus
felicidade da criatura. Os que fogem desta
verdade são loucos, e os que a desconhe- 963. Algumas vezes incorreste
cem estultos. nesta culpa, e desde hoje quero que
fiques advertida. Para tudo há tempo,
como diz o Sábio (Ecle 3,5): para gozar
Tropeços espirituais dos abraços e para deles se abster. Deter-
minar tempos para o trato íntimo do Se-
962, Trabalha, pois, minha filha nhor, segundo o gosto da criatura, sentir
caríssima, para nela progredir, sê fer- muito, quando lhe faltam os afagos divi-
vorosa para ir ao encontro da cruz, e re- nos, é ignorância de imperfeitos e prin-
nuncia às consolações humanas. Para cipiantes na virtude. Não te digo com isto
que nas espirituais não tropeces e cáias, que procures, voluntariamente, as dis-
advirto-te que nelas também o demônio trações e ocupações, e nelas ponhas com-
esconde um laço que não deves ignorar. placência, pois isto é perigoso. Digo, sim,
Doce e apetecível é o gosto da contem- que quando os superiores te ordenarem,
plação e presença do Senhor. De seus obedeças com serenidade e deixes o Se-
carinhos, pode redundar tanto deleite e nhor onde sentias satisfação, para o en-
consolo para a alma, e talvez para os sen- contrares no trabalho e no bem de teu
tidos, que algumas pessoas costumam próximo. Isto deves antepor à tua
apegar-se a esse gosto de tal modo, que soledade e às consolações que nela rece-
ficam inábeis para outras ocupações ne- bes, e não quero que a ames tanto, só por
cessárias à vida humana, até às de cari- causa disso.
dade e conveniente trato com as cria- Na solicitude conveniente de pre-
turas. lada, deves saber crer, esperar e amar
Quando têm obrigação de acudir com fidelidade. Por este meio encon-
a elas, afligem-se desordenadamente. trarás o Senhor em todo tempo, lugar e
Alteram-se com impaciência, perdem a ocupações, como tens experimentado.
paz e gozo interior, ficam tristes, in- Quero que nunca te julgues ausente de
tratáveis, cheias de fastio pelo próximo, sua doce presença e suavíssima conver-
sem verdadeira humildade e caridade. sação, e não esqueças, infantilmente,
Quando chegam a perceber a própria in- que fora do retiro também podes achar
quietação e faltas, logo põem a culpa nas e gozar o Senhor. Tudo está cheio de sua
ocupações exteriores de que o próprio glória (Ecli 42, 16), sem existir espaço
Senhor as encarregou, por obediência ou vazio. No Senhor tens a vida, o ser e o

137
Quinto Livro Capitulo 22
movimento (At 17,28). Quando Ele não me sigas, segundo puderem tuas fracas
te der ocupações, então gozarás de tua forças, auxiliadas pela graça. Parafazê-10
desejada solidão. deves primeiro morrer a todas as inclil
nações de filha de Adão, sem dizer quero
ou não quero, aceito ou recuso, por este
A suma perfeição e santidade ou aquele motivo. Tu ignoras o que te con-
vém, e teu Senhor e Esposo que o sabe e
964. Tudo entenderás melhor na te ama mais do que tu a ti mesma, quer
consideração da nobreza do amor que de cuidar disso, se te entregas toda à sua von-
ti quero, à imitação de meu Filho santís- tade. Só para ama-lo e imitá-lo no padecer
simo, e minha. Umas vezes te recrear ás te dou licença, pois no mais arriscas a te
com Ele em sua infância, noutras acom- separares do seu e meu gosto.
panhando-o em procurar a salvação eterna Isto acontecerá, quando seguires
dos homens ou imitando-o no retiro de sua tua vontade e as inclinações de teus dese-
solidão. Ora, transfigurando-te com Ele jos e apetites. Degola-os e sacrifica-os to-
em nova criatura, ora abraçando as tribu- dos, eleva-te acima de ti mesma, para
lações e a cruz e seguindo seus caminhos habitar com teu Senhor. Atende à luz de
e a doutrina que, como divino Mestre, nela suas influências e à verdade de suas
ensinou. Numa palavra, quero que enten- palavras de vida eterna (Jo 6,69). Para o
das que o meu mais elevado exercício e conseguires, toma tua cruz (Mt 16,24) e
propósito foi imitá-lo sempre, em todas as segue seus passos, após afragrânciade
seus perfumes (Cânt í, 3). Esforça-te em
suas obras. procurá-lo e achando-o não o deixes mais
Nisto consistiu a minha maior (Cânt 3,4).
perfeição e santidade, e nisto quero que
CAPÍTULO 23
MARIA NA AUSÊNCIA DE SEU FILHO. SUAS OCUPAÇÕES
Solidão de Maria COM OS SANTOS ANJOS.
Atos de Maria
965. Com a falta da presença cor- 966. Nestes exercícios ocupou-se
poral do Redentor do mundo, ficaram os a divina Senhora, sozinha em sua casa, du-
sentidos de sua amorosa Mãe como rante os dias em que seu Filho santíssimo
imersos em obscura sombra, por se permaneceu fora.
haver eclipsado o claro sol de justiça que Suas orações eram tão ardentes que
os iluminava e enchia de alegria. Não derramava lágrimas de sangue chorando os
perdeu porém a visão interior de sua pecados dos homens. Fazia todos os dias mais
alma santíssima, nem um só grau da de duzentas genuflexões e prostrações em
divina luz que a envolvia toda, ele- terra. Estimava muito este exercício, e o prati-
vando-a acima do supremo amor dos cou durante toda a vida, como expressão de
mais abrasados serafins. humildade, caridade e de incomparável re-
Na ausência da humanidade san- verência e culto a Deus. Sobre isto falarei
tíssima, suas potências aplicar-se-iam muitas vezes no decurso desta História.
unicamente no incomparável objeto da Com estes atos, ajudava seu Filho
divindade. Por isto, organizou suas tarefas santíssimo e nosso Redentor, quando Ele
de modo que, retirada em sua casa, sem estava ausente.
contato com as criaturas, pudesse entre- Tiveram estas súplicas tanta força e
gar-se ao lazer da contemplação e louvor eficácia junto ao eterno Pai, que pelos méri-
do Senhor. tos desta piedosa Mãe, e por estar Ela no
Completamente entregue a este mundo - a nosso modo de entender - o Se-
exercício, oferecia orações e súplicas para nhor esqueceu os pecados de todos os mor-
que a doutrina e semente da palavra que o tais que então não mereciam a pregação e
Mestre da vida ia semear nos corações hu- doutrina de seu Filho santíssimo. Este obs-
manos, não se perdesse pela dureza da in- táculo foi removido pelos ardentes clamores
gratidão, mas produzisse copioso fruto de e fervorosa caridade de Maria santíssima.
vida eterna e salvação das almas. Foi a medianeira que nos mereceu a graça
Pela ciência que possuía das in- de sermos instruídos por nosso Salvador e
tenções do Verbo humanado, a prudentís- Mestre, e que nos fosse dada a lei do Evan-
sima Senhora abstraiu-se de tratar com gelho pela própria boca do Redentor.
qualquer criatura humana, para o imitar
no jejum e solidão do deserto, conforme Maria e a saudade de Jesus
direi adiante(1). Em tudo, foi vivo retrato
de suas obras, tanto estando Ele presente 967.0 tempo que sobrava à grande
como ausente. Rainha, depois que saía da mais eminente

139
Quinto Livro - Capitulo 23

contemplação e súplica, Ela o preenchia trapassa a de todos os filhos dos homens


em palestras e colóquios com seus santos (SI 44,3)? Onde descansareis vossa ca,
anjos. O Salvador lhes havia ordenado a beça? Onde repousará de suas fadigas
assistirem em forma corporal, todo o vossa delicadíssima e santa humani.
tempo em que Ele estivesse ausente. Deste dade? Quem vos serve agora, luz de
modo, deveriam servir seu tabernáculo e meus olhos? E, como cessarão minhas
guardar a cidade santa de sua habitação. lágrimas, sem o claro sol que os ilumi-
Obedientes em tudo, os diligentes minis- nava? Onde, meu Filho, tomareis algum
tros do Senhor serviam à sua Rainha, com repouso? Onde o encontrará esta pobre
admirável e digna reverência. e solitária avezinha? Que porto esco-
Sendo o amor tão ativo e pouco lherá este barquinho combatido na
paciente na ausência do objeto que o atrai, solidão pelas vagas do amor? Onde en-
não tem maior alívio do que falar de sua contrarei tranqüilidade? Oh! Amado de
dor e justas razões, relembrar o amado, meus desejos, esquecer vossa presença
suas qualidades e excelências. Com estas que me dava a vida, não é possível! Pois,
palestras entretém suas penas, distrai sua como o será viver com sua memória,
dor, substituindo o original do bem-ama- mas sem sua posse? Que farei? Oh!
do pelas imagens que lhe ficam na me- quem me consolará e me fará companhia
mória. em minha amarga soledade? Que pro-
O mesmo acontecia à Mãe aman- curo, porém, entre as criaturas, e que
tíssima do sumo e verdadeiro Bem, seu acharei entre elas, se somente Vós me
Filho santíssimo. Enquanto suas potên- faltais, o único e o tudo que meu coração
cias estavam mergulhadas no imenso ama? Espíritos soberanos, dizei-me o
oceano da Divindade, não sentia a falta que faz meu Senhor e meu Amado. Con-
corporal de seu Filho e Senhor. Voltando, tai-me suas ocupações exteriores, e
porém, ao uso dos sentidos acostumados das interiores não me oculteis nada do
a tão amável presença, sua falta desper- que vos for revelado no divino espelho
tava imediatamente a força impaciente do de sua face. Referi-me todos seus passos
amor mais intenso, casto e verdadeiro que para que eu os siga e imite.
nenhuma criatura pode calcular. Se não
fosse divinamente fortalecida, a natureza
não teria podido conservar a vida em tão É consolada pelos anjos
violenta saudade.
969. Obedeceram os santos anjos
à sua Rainha e Senhora e a consolaram na
Amorosas queixas de Maria dor de suas amorosas queixas, falando-lhe
do Altíssimo e tecendo grandiosos lou-
968. Para dar algum desafogo ao vores da santíssima humanidade de seu
natural sentimento do coração, dirigia- Filho e suas perfeições.
se aos santos anjos, dizendo-lhes: Dili- Em seguida, davam-lhe notícias de
gentes ministros do Altíssimo, obras das todos os seus atos e dos lugares onde se
mãos de meu Amado, amigos e compa- encontrava. Faziam isso iluminando-lheo
nheiros meus, dai-me notícias de meu entendimento, do modo como faz um anjo
querido Filho e Senhor. Dizei-me onde superior a outro inferior.
se encontra e dizei-lhe também que Esta era a forma espiritual com que
morro com a ausência de quem é minha Ela se comunicava interiormente com os
vida. Oh! doce bem e amor de minha anjos, sem embaraço do corpo e sem uso
alma, onde está vossa formosura que ul- dos sentidos.

140
Quinto Livro - Capítulo 23

Desta maneira, informavam-na Maria, coadjutora na redenção


os divinos espíritos quando o Verbo hu-
manado orava sozinho, quando ensinava 971. Ocupava-se, outras vezes, a
aos homens, quando visitava os pobres grande Senhora em fazer cânticos de
e hospitais, e outras ações que a divina louvor ao Altíssimo. Fazia-os sozinha
Senhora reproduzia na forma que lhe era na oração, ou em companhia dos santos
possível. Assim, praticava magníficas e anjos, alternando com eles. Estes cânti-
excelentes obras, como direi adiante^, cos eram todos sublimes no estilo e pro-
ecom isto consolava-se um pouco de sua fundíssimos no sentido. Outras vezes,
pena. acudia ás necessidades do próximo, à
imitação de seu Filho. Visitava os enfer-
mos, consolava os tristes e aflitos, es-
Maria envia seus anjos ao Senhor clarecia os ignorantes e a todos aper-
feiçoava enchendo de graça e bens divi-
970. Alguma vezes enviava os nos.
mesmos anjos para, em seu nome, visi- Só durante os dias de jejum do Se-
tarem seu dulcíssimo Filho. Dizia-lhes nhor, esteve encerrada sem se comunicar
prudentíssimas palavras de grande peso e com ninguém, como direi adiante(4). Nes-
reverenciai amor, e costumava dar-lhes al- te retiro e solidão, em que nossa divina
guma toalha, preparada por suas mãos, Rainha e Mestra não tinha companhia de
para enxugarem o venerável rosto do Sal- criatura humana, foram seus êxtases mais
vador quando, na oração, o viam cansado freqüentes e contínuos. Neles recebeu in-
a suar sangue. Sabia a divina Mãe que esta comparáveis dons e favores da divindade.
agonia lhe ia sendo mais freqüente, na A mão do Senhor n'Ela gravava, como em
medida em que mais se ia dedicando às tela bem preparada, admiráveis cópias de
obras da Redenção. suas infinitas perfeições.
Os anjos obedeciam sua Rainha Com estes dons e graça, Ela traba-
com incrível reverência, porque enten- lhava pela salvação dos mortais, e tudo
diam que o Senhor aceitava o amoroso de- aplicava na mais perfeita imitação de seu
sejo de sua Mãe santíssima. Filho santíssimo, ajudando-o como coad-
Outras vezes, por aviso dos mes- jutora nas obras da Redenção.
mos anjos, ou por especial visão e reve- Ainda que estes benefícios e
lação do Senhor, conhecia que Jesus comunicações íntimas com o Senhor não
orava nos montes, fazendo súplicas podiam ser desacompanhados de grande
pelos homens. Em sua casa, acompa- júbilo do Espírito Santo, na parte sensitiva
nhava-o a misericordiosa Senhora, Ela padecia, conforme havia pedido^,
orando na mesma posição e pelas mes- • para imitar Cristo, nosso Senhor, e partici-
mas intenções. par de seus sofrimentos.
Em algumas ocasiões mandava- Neste desejo de o seguir no pade-
lhe, pelos anjos, algum alimento, quando cer era insaciável e, com incessante e ar-
sabia que não havia quem o desse ao Se- dentíssimo amor, o suplicava ao Pai eter-
nhor da criação. no, renovando o sacrifício tão agradável
Isto foi poucas vezes porque como que lhe fizera da vida de seu Filho e da
üsse no capítulo passado* % Jesus não sua, conforme a vontade do mesmo Se-
quis que sua Mãe lho mandasse, tanto nhor.
quanto Ela o desejava. Nos quarenta dias Vivia abrasada pelo incessante de-
de jejum nada mandou, porque assim era sejo e ânsias de sofrer pelo amado, de
vontade do mesmo Senhor. modo que padecia por não padecer.
4 - 990 - 5 - 960

141
Quinto Livro - Capitulo 23

DOUTRINA QUE ME DEU A penses que este tão alto conhecimento dc


RAINHA DO CÉU MARIA minhas obras te foi dado sem finalidade
SANTÍSSIMA. O meu desejo é que esta lembrança fiqUe
gravada em teu coração e esteja sempre
diante de teus olhos, e por ela regules tua
Sabedoria carnal vida e tuas obras durante o resto de tua
vida, que não pode ser muito longa.
972. Minha filha caríssima, a sabe- O convívio com as criaturas não
doria carnal tomou os homens ignorantes, te embarace, nem te retarde no meu
estultos e inimigos de Deus, porque é di- seguimento. Deixa-as, afasta-as, des-
abólica, enganadora, terrena (Tg 3,15) e preza-as quando te forem impedimento.
não se sujeita à divina lei (Rom 8, 7). Para progredires em minha escola que-
Quanto mais estudam e trabalham os fi- ro-te pobre, humilde, desprezada, e em
lhos de Adão por penetrar os maus fins de tudo de cara e coração alegre. Não aco-
suas paixões carnais e animais, e os meios lhas a recompensa dos aplausos e afetos
para consegui-los, tanto mais ignoram as de ninguém, nem sigas querer humano.
coisas divinas para chegarem a seu ver- Não quer o Altíssimo que te ocupes com
dadeiro e último destino. Nos filhos da atenções tão inúteis e preocupações tão
Igreja, esta ignorância e prudência carnal baixas e incompatíveis com o estado a
é mais odiosa aos olhos do Altíssimo. que te chama.
Com que direito, os filhos deste Considera, com humilde atenção,
século querem chamar-se filhos de Deus, as demonstrações de amor que dele rece-
irmãos de Cristo e herdeiros de seus bens? beste, e o grande tesouro dos dons com
O filho adotivo tem que ser, em todo o que te enriqueceu. Não ignora isto Lúcifer
possível, semelhante ao natural. Um ir- e seus ministros, e armam-se de indig-
mão não é de linhagem, nem de qualidades nação e astúcia contra ti, não deixando pe-
opostas às do outro. O herdeiro não tem dra sem mover, para te destruir. Seu maior
este nome por receber uma parte qualquer ataque será ao teu interior, alvo de sua
dos bens do pai, mas sim quando goza dos astúcia e sagacidade.
bens e herança principal. Vive prevenida e vigilante, fecha
De acordo com isto, como serão as portas dos sentidos, guarda tua vontade
herdeiros com Cristo os que só amam, de- sem fazer-lhe concessões em coisa hu-
sejam e procuram os bens terrenos e neles mana, por boa e honesta que pareça. Se
se comprazem? Como serão seus irmãos tirares qualquer coisa do amor que deves
os que degeneram tanto de sua índole, a Deus, no modo como Ele o deseja, esta
doutrina e santa lei? Como serão seme- falha abrirá a porta a teus inimigos. Todo
lhantes e conformes à sua imagem os que o reino de Deus está dentro de ti (Lc 17,
a apagam tantas vezes, e se deixam marcar 21) e aí acharás o bem que desejas.
outras tantas com a figura da besta infer- Não esqueças o meu ensinamento,
nal? (Apoc 13,4) guarda-o no coração, e adverte que é gran-
de o perigo e prejuízo que te quero evitar.
Participar de minha semelhança e imitação
Sabedoria espiritual é o maior bem que podes desejar. Com
grande clemência, inclino-me a concede-
973. Na divina luz conheces, lo se te dispões com pensamentos ele-
minha filha, estas verdades e quanto tra- vados, palavras santas e ações perfeitas,
balhei para me assemelhar à imagem do que te conduzem ao estado no qual o Todo-
Altíssimo, meu Filho e meu Senhor Não poderoso e eu te queremos estabelecer.

142
CAPÍTULO 24
JESUS É BATIZADO POR SÃO JOÃO NAS MARGENS DO
JORDÃO. SAO JOÃO PEDE SER BATIZADO PELO SENHOR.
Jesus dirige-se ao rio Jordão dor e suas circunstâncias tão dignas de
atenção. Não obstante, sucederam real-
974. Deixando nosso Redentor sua mente. Nosso grosseiro esquecimento, tão
amorosa Mãe na pobre casa de Nazaré, mal acostumado a não agradecer os que
sem companhia de criaturas humanas, nos deixaram escritos, menos ainda nos
mas ocupada nos exercícios de ardente leva a meditarmos na imensidade dos fa-
vores que recebemos e naquele amor, sem
caridade, conforme referi(1), prosseguiu o
Senhor em direção ao Jordão. João, o seu falha e sem medida, com que tão copio-
precursor, ali estava pregando (Mt 3,1 e samente nos enriqueceu e que, com tantos
seg.) próximo a Betânia na outra margem vínculos de oficiosa caridade nos quis
dorio,também chamada Betabara. atrair a Si. (Os 11.4).
Saindo de casa, aos primeiros pas- Oh! amor eterno do Unigênito do
Pai! Oh! bem meu e vida de minha alma!
sos, nosso divino Redentor elevou os olhos
Quão mal conhecida e menos agradecida
ao eterno Pai, e com sua ardentíssima cari-
esta vossa ardentíssima caridade! Porque,
dade lhe ofereceu tudo o que novamente em-
preendia a favor dos homens: os trabalhos,Senhor, meu doce amor, tanta fineza, des-
velo e sacrifício por quem não vos faz falta
dores, paixão e morte de cruz que por eles
queria sofrer, em obediência à vontade e ainda não há de corresponder nem aten-
der a favores, como se fossem imaginários
eterna do mesmo Pai; a natural dor que sen-
ou de comédia? Oh! coração humano,
tiu, como verdadeiro e obediente Filho, em
deixar sua Mãe, privando-se da sua doce mais rude e cruel que o das feras! Quem
companhia que gozara por vinte anos. te endurece tanto? Quem te impede, tira-
Caminhava o Senhor das criaturas niza e te faz tão pesado e inerte para não
sozinho, sem aparato, nem comitiva. O su-caminhar ao agradecimento de teu Benfei-
premo Rei dos reis e Senhor dos senhores tor?
(Apoc 19,16) ia desconhecido, sem a es- Oh! triste cegueira do entendi-
tima dos vassalos, tão seus, que só por sua
mento dos homens! Que letargo mortal
vontade tinham recebido a existência e a sofreis! Quem apagou de vossa memória
conservação (Apoc 4,11). Porequipagem verdades tão infalíveis, benefícios tão
levava extrema e suma pobreza. memoráveis e vossa verdadeira felici-
dade? Se somos de carne, e tão sensíveis,
quem nos tornou mais insensíveis e duros
Consideração da Escritora que as pedras inanimadas? Como não des-
pertamos e não recuperamos algum sen-
975. Os sagrados Evangelistas tido, com os clamores dos benefícios de
Passaram em silêncio estes atos do Salva- nossa Redenção? A palavra de um Profeta
1-971

143
Quinto Livro - Capítulo 24

(Ez 37,10), ossos ressequidos reviveram e antigas misericórdias, em graças para o


se movimentaram, enquanto nós resistimos corpo e alma, de muitos necessitados
às palavras e às obras d*Aquele que a tudo Fazia-o porém, de modo oculto, porque
dá vida e existência. Tanto pode o amor às até o Batismo não fôra dado testemunho
coisas da terra, e o nosso esquecimento. público de seu poder divino e grande ex-
celência.
Antes de chegar à presença do Ba-
Afetos da Escritora tista, enviou ao coração do Santo nova
luz e júbilo que elevou seu espírito,
976. Recebei, pois, agora, Senhor Sentindo São João estes efeitos, admi-
meu e luz de minha alma, a este vil bichinho rado, perguntava-se: Que mistério é
que, se arrastando pela terra, sai ao encontro este? Será presságio feliz? Pois desde
dos formosos passos que dais em sua pro- que, no seio de minha mãe, senti a pre-
cura, Eles são a esperança certa de achar em sença do meu Senhor, não mais experi-
vós a verdade, o caminho, a benignidade e mentei tais efeitos como agora. Será
a vida eterna Nada tenho, meu amado, para que, por felicidade, o Salvador do mun-
vos .oferecer como agradecimento, senão do vem a meu encontro?
vossa própria bondade e amor e o ser que de A esta ilustração, seguiu-se para o
vós recebi, pois só vós podeis ser a paga do Batista uma visão intelectual, na qual co-
infinito que por mim fizeste. nheceu, com maior clareza, o mistério da
Sedenta de vosso amor, saio ao união hipostática na pessoa do Verbo, e
caminho. Não queirais, Senhor, vos des- outros da redenção humana. Em virtude
viar nem afastar os olhos de vossa real desta nova luz é que deu os testemunhos
clemência desta pobre que buscais com referidos pelo evangelista São João, en-
solícita e amorosa diligência. Vida de quanto Cristo estava no deserto, e depois
minha alma e alma de minha vida, já que que dele saiu e voltou ao Jordão. Um deles
não tive a grande felicidade de merecer foi como resposta às perguntas dos judeus,
gozar de vossa presença corporal naque- e o outro quando declarou: Eis o Cordeiro
les ditosíssimos dias, pelo menos sou filha de (2) Deus, etc v(Jo 1,13),
9 '*
como adiante di-
de vossa santa Igreja, parte deste corpo rer \
místico e desta santa congregação de fiéis. O Batista já conhecera estes
Nesta perigosa existência, de natu- mistérios ao receber do Senhor a ordem
reza frágil, vivendo em tempos de calami- para pregar e batizar, mas nesta visão, este
dade e tribulações, clamo do fundo do co- conhecimento foi renovado com maior
ração por vossos infinitos merecimentos. clareza e profundidade, ficando ciente de
Para ter parte neles, a santa fé mos garante, que o Salvador do mundo vinha lhe pedir
a esperança mos assegura e a caridade me o batismo.
dá direito a eles. Olhai, pois a esta humilde
escrava para me fazer agradecida a tantos
benefícios, sensível de coração, perseve-
rante no amor e toda do vosso agrado e Testemunho de João Batista
maior beneplácito. 978. Chegou, pois, Jesus entre os
demais, e pediu a São João que o batizasse
como aos outros. Conheceu-o o Batista e
São João Batista aguarda o Salvador prostrando-se a seus pés, lhe disse: Eu e
que devo ser por vós batizado, e vindes
977. Prosseguiu nosso Salvador pedir-me o batismo? Como refere o evan-
em direção ao Jordão, derramando suas gelista S. Mateus (3,14).
2 -rfs 1010 -1017

144
Quinto Livro - Capítulo 24

Respondeu o Salvador: Deixa-me prostrou-se aos pés do Redentor, pedindo-


agora fazer o que desejo, pois assim con- lhe o batismo.
vém cumprir toda a justiça (Mt 3,15). A •

atitude do Batista, recusando-se a batizar


Cristo nosso Senhor, e pedindo-lhe o ba- Revelação da Santíssima Trindade
tismo, deu a entender que o reconheceu
por verdadeiro Messias. 979. Acabando São João de batizar
Isto não contradiz as palavras que Cristo nosso Senhor, abriu-se o céu e des-
São João evangelista (Jo 1,33) refere do ceu o Espírito Santo visivelmente na for-
Batista, quando disse aos Judeus: Eu não ma de pomba sobre sua cabeça. Ao mesmo
o conhecia; O que porém, me enviou a ba- tempo, ouviu-se a voz do Pai que disse
tizar em água, me disse: Aquele sobre (Mt 3, 17): Este é meu Filho amado em
quem vires descer o Espírito Santo, esse quem tenho meu agrado e complacência.
é que batiza no Espírito Santo. Eu o vi e Esta voz do céu foi ouvida por mui-
dei testemunho de que este é o Filho de tos dos circunstantes que não desmere-
Deus. y\ ceram tão admirável favor, e viram tam-
bém o Espírito Santo na forma que veio
sobre o Salvador. Este foi o maior teste-
munho da divindade de nosso Redentor,
que poderia ser dado, tanto por parte do
Pai que o declarava seu Filho, como por
parte das demais cucunstâncias. Em tudo
se manifestava que Cristo era Deus ver-
dadeiro, igual a seu eterno Pai na substân-
cia e perfeição infinitas.
Quis o Pai ser o primeiro a testifi-
car, do céu, a divindade de Cristo, para que
em virtude de seu testemunho, ficassem
autorizados todos quantos depois seriam
dados no mundo.
Teve ainda outro mistério esta voz
do Pai. Foi como defesa do crédito de seu
Filho, recompensando-lhe a humilhação
de receber o batismo que servia para
remédio do pecado que o Verbo humanado
não tinha, pois era impecável (Heb 7,26).

A razão de não haver contradição Os méritos da humildade de Cristo


nestas palavras de João com as de Mateus, 980.0 ato de humilhar-se na forma
é porque o testemunho do céu, a que o Ba- de pecador, recebendo o batismo com os
tista se refere foi na visão e conhecimento que eram pecadores, Cristo ofereceu ao
que fica á\tor\ e até então ele não vira a Pai, por obediência, e para se reconhecer
Cristo ocularmente. Era este conheci- inferior quanto à sua natureza humana,
mento ocular que o Batista declarou não comum aos demais filhos de Adão Quis,
ter tido, até que viu Jesus corporalmente. por este modo, instituir o sacramento do
Ao vê-lo, e instruído pela luz da revelação,
Quinto Livro - Capítulo 24

Batismo que, em virtude de seus méritos, tismo; ouviu e entendeu a voz do Pai) e
havia de tirar os pecados do mundo. conheceu outros mistérios dessa visão e
Humilhando-se a receber, antes de revelação.
todos, o Batismo das culpas, pediu e al- Além de tudo isto, foi batizado
cançou do eterno Pai, o perdão total para pelo Redentor. O Evangelho só diz qUe 0
todos os que o recebessem (1 Ped 3, 21). Batista o pediu (Mt 3,14), mas não nega
Seriam libertados da tirania do demônio e que o recebeu.
do pecado, sendo regenerados em novo ser Cristo, nosso Senhor, depois de ter
espiritual e sobrenatural, como filhos ado- recebido o batismo, conferiu-o a seu P re .
tivos do Altíssimo e irmãos de seu Reden- cursor. Ainda que o tivesse instituído nes-
tor, Cristo Senhor nosso. ta ocasião, só promulgou e ordenou seu
Os pecados dos homens, passados, uso geral mais tarde, após sua ressurreição
presentes e futuros, todos conhecidos pela (Mt 28,19; Mc 16,15).
sabedoria do eterno Pai, desmereciam este Como adiante direi1 batizou tam-
remédio tão suave e fácil, mas Cristo nos- bém sua Mãe santíssima antes dessa
so Senhor o mereceu por justiça, para que promulgação, na qual ordenou a forma
a equidade do Pai o aceitasse e se desse desse Sacramento.
por satisfeito. Isto, não obstante, saber que Assim, entendi que São João foi o
muitos dos mortais não se aproveitariam primogênito do Batismo de Cristo nosso
do Batismo recebido, e outros inumerá- Senhor e da nova Igreja que fundava sob
veis não o aceitariam. este Sacramento. Por ele, o Batista rece-
Todos estes impedimentos e óbi- beu o caráter de cristão e grande graça,
ces dos que iam desmerecer tal sacra- ainda que não tivesse pecado original a ser
mento, Cristo nosso Senhor removeu e perdoado, pois dele já fora justificado pelo
satisfez pelo mérito de se humilhar a re- Redentor antes de nascer, como fica dito
ceber o Batismo na aparência de pecador, em seu lugar^.
(Rom 8,3) sendo inocente. Por aquelas palavras que lhe disse o
Todos estes mistérios estavam en- Senhor - deixa agora, que convém cumprir
cerrados naquelas palavras que disse ao toda a justiça - não lhe negou o batismo, mas
Batista (Mt 3,15): Deixa agora, pois as- adiou-o para depois que o próprio Redentor
sim convém cumprir toda a justiça. fosse batizado em primeiro lugar e assim se
Para acreditar o Verbo humanado, cumprisse toda a justiça. Depois que o bati-
recompensar sua humildade e aprovar o Ba- zou, Jesus deu-lhe a bênção, e em seguida
tismo e seus efeitos, desceu a voz do Pai, e retirou-se ao deserto.
a pessoa do Espírito Santo (Mt 16,17), e
Cristo foi declarado Filho de Deus ver-
dadeiro. Assim se manifestaram as três Pes- Atos de Maria na ocasião do Batismo
soas em cujo nome seria conferido o Batismo. de Cristo
982. Volto agora a falar de nossa
Cristo batiza o Precursor grande Rainha e Senhora. Logo que seu
Filho santíssimo foi batizado, ainda que
981. O grande João Batista foi o tinha luz divina de suas ações, foi infor-
mais agraciado por esses prodígios e seus mada pelos santos anjos que assistiam o
efeitos. Batizou seu Redentor e Mestre; Senhor, de tudo quanto acontecera no
viu o Espírito Santo; o globo da luz celeste Jordão. Estes anjos eram daqueles que le-
que desceu sobre Jesus com inumerável vavam os distintivos da paixão do Salva-
multidão de anjos que assistiam seu ba- dor, conforme disse na primeira parte
4-n°1030eseg - 5 - n° 218, visitação - 6 - 1 ' p "* 3

146
Quinto Livro - Capítulo 24

Por estes mistérios do Batismo que Estiveste presente em sua memória,


Ele havia recebido e ordenado, e pelo teste- quando Ele fundou a lei evangélica e os sa-
munho de sua divindade, fez a prudente Mãe cramentos, e no amor com que te escolheu
novos hinos e cânticos de louvor e incom- e chamou para filha de sua Igreja, onde te
parável agradecimento ao Altíssimo e ao alimenta com o fruto de seu sangue.
Verbo humanado. Imitou os atos de hu-
mildade e súplica do divino Mestre, fazendo
outros muitos e acompanhando-o em todos. Humildade
Com fervorosíssima caridade, pediu para
que todos os homens se aproveitassem do 984. O autor da graça, meu Filho
sacramento do Batismo e que ele fosse santíssimo, para fundar, como prudente e
propagado em todo o mundo. Além dos atos sábio artífice, sua Igrej a evangélica e assen-
que fez pessoalmente, a Senhora convidou tar a primeira base deste edifício com o sa-
os cortesãos celestiais para a ajudarem a cramento do Batismo, humilhou-se, rezou,
enaltecer seu Filho santíssimo, por se haver procurou e cumpriu toda a justiça. Reco-
humilhado a receber o batismo. nheceu a inferioridade de sua humanidade
santíssima, e sendo Deus, não se dedignou,
DOUTRINA QUE ME DEU A enquanto homem, humilhar-se até o nada de
RAINHA DO CÉU MARIA que foi criada sua alma puríssima e formado
SANTÍSSIMA. seu ser humano. Como não deveras te hu-
milhar, tu que cometeste culpas e és menos
Gratidão que o pó e a cinza desprezível? Confessa
que, por justiça, só mereces o castigo e a
983. Minha filha, mostrando-te aversão de todas as criaturas.
repetidas vezes as obras que meu Filho re- Nenhum dos mortais que ofenderam
alizou pelos homens, e quanto eu as seu Criador e Redentor pode dizer que se
agradecia e estimava, entenderás como é lhes faz agravo e injustiça quando sofrem
agradável ao Altíssimo esta fiel atenção e aflições, ainda que fossem todas as tribu-
correspondência, e os ocultos e grandes bens lações que houve desde o princípio até o fim
que nela se encerram. Na casa do Senhor és do mundo. Já que, em Adão, todos pecaram
pobre, pecadora, pequena e sem valor como (1 Co r 15,22), devem humilhar-se e se con-
o pó. Apesar disso, quero que tomes por tua formar quando os tocar a mão do Senhor (Jó
conta dar incessantes graças ao Verbo hu- 19,21). Se tu padecesses todas as penas do
manado pelo amor que teve aos filhos de mundo com humilde coração, e ainda prati-
Adão e pela lei santa, imaculada, eficiente e casses perfeitamente tudo quanto te ad-
perfeita que lhes deu para se salvarem. moesto, ensino e ordeno, sempre te deves
Em particular, agradece a insti- considerar serva inútil (Lc 17,10).
tuição do santo Batismo, pelo qual são Quanto, então, não te deves humi-
libertos do demônio, recriados como fi- lhar de todo o coração, pois que faltas em
lhos do Senhor (Jo 3,5), com graça que cumprir o que deves e correspondes tão
justifica e auxilia a não pecarem. Esta pouco ao muito que recebes? Se eu quero
obrigação é de todos, mas quando muitos que retribuas por ti e pelos outros, consi-
a esquecem, imponho-a a ti para que à dera bem tua obrigação e prepara teu
minha imitação procures agradecer por ânimo humilhando-te até o pó. Assim não
todos, como se fosses a única devedora. serás remissa e não te sentirás satisfeita,
De fato o és em outros benefícios do Se- senão quando o Altíssimo te receber por
nhor, porque com ninguém Ele se mostrou filha na sua presença e na visão eterna da
mais liberal do que contigo. celestial e triunfante Jerusalém.

147
CAPÍTULO 25
DEPOIS DO BATISMO, CJRISTO DIRIGE-SE AO DESERTO,
ONDE VENCE NOSSOS VÍCIOS COM SUAS VIRTUDES. SUA
MÃE SSMA. O IMITA PERFEITAMENTE,
Cristo combate para nos obter vitória tíssima ao combate da tentação e dissimu-
lando, para isto, a superioridade que pos-
985. Com o testemunho que a suía sobre os inimigos invisíveis.
suma Verdade apresentara no Jordão, so-
bre a divindade de Cristo, nosso Senhor e
Mestre, ficou tão credenciada sua pessoa Cristo vence o mundo, a carne e o
e a doutrina que havia de pregar, que logo demônio
pôde começar a ensiná-la e a se dar a co-
nhecer. Confirmada pelos seus milagres, 986. Pelo seu retiro, Cristo nosso
obras e vida, todos poderiam reconhece-lo Senhor venceu e nos ensinou a vencer o
como Filho, por natureza, do eterno Pai, mundo. É verdade, que este costuma ig-
pelo Messias de Israel e Salvador do norar aos que não necessita para fins ter-
mundo. renos, e se não o procuram, também não
Com tudo isso, não quis o Mestre vai atrás deles. Contudo, aquele que ver-
da santidade começar a pregação, nem ser dadeiramente despreza o mundo há de de-
reconhecido por nosso Redentor, sem an- monstrar, afastando-se dele, o quanto for
tes triunfar de nossos inimigos - mundo, possível, pelos afetos e pelos atos.
carne, demônio - a fim de que pudéssemos Cristo venceu também a came, e
vencer os enganos por eles sempre for- ensinou-nos a vencê-la pela penitência de
jados. Com suas heróicas virtudes, Jesus tão prolongado jejum, com que afligiu seu
nos daria as primeiras lições da vida cristã corpo inocentíssimo que não oferecia
e espiritual, enviando-nos a combater e a oposição ao bem, nem tinha paixões incli-
vencer por suas vitórias. Com estas, foi o nadas ao mal.
primeiro a quebrantar a força destes co- Ao demônio venceu com a dou-
muns inimigos, a fim de que nossa fra- trina da verdade, como direi adiante^,
queza os encontrasse debilitados, anão ser pois todas as tentações deste pai da men-
que por nossa própria vontade quisés- tira, costumam vir disfarçadas e encober-
semos restituir-lhes a força. tas com falsidades.
Enquanto Deus, Jesus era infini- Em começar a pregação e se dar a
tamente superior ao demônio. Enquanto conhecer ao mundo, não antes e sim de-
homem, não tinha pecado (1 Ped 2, 22), pois destas vitórias, nosso Redentor nos
nias suma santidade e domínio sobre todas ofereceu outro ensinamento: alertou-nos
as criaturas. Não obstante, quis como do perigo que corre nossa fragilidade, em
homem santo e justo, vencer os vícios e acolher as honras do mundo, ainda que
s e u aut°r, expondo sua humanidade san- seja por favores recebidos do céu, quando
1 -n°997
Quinto Livro - Capitulo 25

ainda não estamos mortos às paixões e não mas vezes, nestas súplicas suava sangue
vencemos ainda nossos comuns inimigos. pela razão que direi quando falar de sua
Se o aplauso dos homens nos encontra oração no jardim das oliveiras.
imortificados, vivos, abrigando no íntimo
os inimigos domésticos, pouca segurança
terão os favores e benefícios do Senhor. Saudação dos animais
Até os mais pesados montes podem ser
abalados pela vangloria do mundo. 988. Muitos animais silvestres vi¬
A nós compete convencer-nos de nham ao encontro de seu Criador, quando
que levamos o tesouro em recipientes que- andava por aqueles campos. Com ad-
bradiços (2 Cor 4,7). Quando Deus quiser mirável instinto o reconheciam e corno
exaltar a força de sua graça em nossa que o saudavam com seus bramidos e
fraqueza, Ele saberá com que meios há de movimentos. Muito mais expansivas fo-
assegurar e ostentar suas obras. A nós in- ram as aves que vieram em grandes ban-
cumbe e pertence unicamente a sombra e dos. Com belos gorjeios o festejavam e, a
o apagamento. seu modo, agradeciam-lhe por te-las fa-
vorecido com sua companhia, santifi-
cando aquele êrmo com sua real e divina
Cristo chega ao deserto presença.
Começou Jesus o jejum, sem co-
987. Depois que se despediu do mer coisa alguma nos quarenta dias que
Batista no Jordão, Cristo prosseguiu em ali esteve. Ofereceu-o ao Pai em reparação
direção ao deserto sem deter-se no dos vícios e desordens que os homens
caminho. Ia acompanhado apenas pelos cometem pela gula, vício tão baixo mas
anjos que o serviam como a Rei e Senhor, tão aceito e até exaltado no mundo, sem
louvando-o com cânticos, pelo que ia re- nenhum acanhamento. Do mesmo modo,
alizando a favor da salvação da natureza Cristo nosso Senhor venceu todos os ou-
humana. tros vícios e compensou as injúrias feitas
Chegou ao lugar que havia esco- ao supremo Legislador e Juiz dos homens.
lhido (Lc 4,1). Era uma região desabitada Segundo compreendi, nosso Sal-
entre penhascos áridos. Entre estes havia vador assumiu o ofício de pregador e mes-
uma gruta escondida que Ele escolheu tre, tomou-se redentor e mediador junto
para pousar, nos dias de seu santo jejum. ao Pai, venceu todos os vícios dos mortais
Prostrou-se em terra e apegou-se a ela com e reparou suas ofensas, com o exercício
prudentíssima humildade. Era sempre das virtudes opostas ao mundo. Pelo jejum
esta a introdução que Ele e sua Mãe san- reparou nossa gula, e ainda que o praticou
tíssima usavam para começar a orar. durante toda sua vida santíssima com ar-
Adorou o eterno Pai; deu-lhe dente caridade, destinou para este fim,
graças pelas obras de seu poder, e por lhe especialmente, os atos de infinito valor
ter proporcionado aquele lugar e solidão deste jejum no deserto.
apropriada para seu retiro. Ao deserto
agradeceu por recebe-lo e escondê-lo do
mundo, durante o tempo que convinha Pelas virtudes, Cristo reparou nossos
estar assim. vícios
Continuou Jesus sua oração em
posição de cruz, e esta foi a sua mais fre- 989. Semelhante a bondoso pai de
qüente ocupação no deserto, pedindo ap muitos filhos delinqüentes, merecedores
eterno Pai pela salvação humana. Algu- de horrendos castigos, que vai oferecendo
Quinto Livro - Capítulo 25

seus bens para satisfazer por todos e livrá- Logo que a grande Senhora soube
los das penas que deveriam sofrer, assim, que nosso amado Salvador dirigia-se para
nosso amoroso Pai e Irmão Jesus, pagava o deserto e a intenção que o levava, fe-
nossas dividas: em desagravo de nossa so- chou-se em casa. Foi tal o seu retiro, que
berba, ofereceu sua profundíssima hu- até os vizinhos pensaram que se havia
mildade; para compensar nossa avareza, a ausentado como seu Filho santíssimo.
nobreza voluntária e o despojamento de Recolheu-se ao seu oratório e ali permane-
qualquer propriedade; pelos torpes praze- ceu quarenta dias e quarenta noites, sem
res humanos, ofereceu sua penitência e sair e sem comer coisa alguma, como sabia
austeridade; pela ira e vingança, sua man- estar fazendo seu Filho santíssimo. Am-
sidão e caridade com os inimigos; por bos guardaram o jejum na mesma forma
nossa preguiça e lentidão, sua diligentís- e rigor.
sima solicitude; e pelas falsidades e inve- Acompanhou o Senhor nos demais
jas dos homens, oferecia sua leal e cândida atos, sem deixar nenhum: orações, súpli-
sinceridade, veracidade, doçura e amor no
trato com o próximo.
Deste modo, ia aplacando o justo
Juiz e solicitando o perdão para os filhos
desnaturados e desobedientes. Não só al-
cançou-lhes perdão, mas ainda mereceu-
lhes nova graça, dons e auxílios para nos
conquistar sua eterna companhia, a visão
do Pai e a participação na herança de sua
glória por toda a eternidade.
Teria podido conseguir tudo isto
com o menor de seus atos, como nós
teríamos feito em seu lugar. Ele, porém,
transbordou seu amor em tantas provas,
para que nossa ingratidão e dureza não
tivessem desculpa nenhuma.

O jejum de Maria santíssima


990. Para ter notícia de tudo o que
o Salvador fazia, poderia bastar à sua
divina Mãe, as contínuas visões e reve-
lações que recebia. Mas, além destas, sua
maternal solicitude enviava a seu Filho cas, prostrações, genuflexões. Fazia-os ao
santíssimo mensagens pelos santos anjos. mesmo tempo que Ele, pois para tanto
Assim dispunha o Senhor para, por deixara qualquer outra ocupação.
meio de tão fiéis embaixadores, os senti- Fora dos avisos que lhes davam os
dos recebessem as mesmas impressões anjos, usava ainda aquele privilégio de
formadas em seus corações. Os anjos as que falei outras vezes: o de conhecer todas
comunicavam nas mesmas palavras que as operações da alma de seu Filho santís-
saiam da boca de Jesus para Maria e desta simo, quer estivesse Ele presente, quer
Para Jesus, embora ambos já as hou- ausente. Suas orações corporais que antes
vessem conhecido por outro modo. conhecia pelos sentidos, quando estavam
Quinto Livro Capítulo 25

juntos, depois conhecia por visão intelec- propensão, arrastam a alma de um víCl
tual ou por informação dos santos anjos. para outro. Se, porém, refreia-se esta fer
com o freio da mortificação e penalidades
tira-se-lhe a tirania, enquanto a razào e
Maria, corredentora e medianeira luz da verdade passam a ser superiores
O segundo motivo é porque ne-
991. Enquanto esteve no deserto, nhum dos mortais deixou de pecar contra
nosso Salvador fazia trezentas genu- Deus. A culpa, necessariamente, exige a
flexões e prostrações por dia, e em seu pena e castigo, nesta ou na outra vida
oratório a Rainha Mãe as repetia. O tempo Visto que corpo e alma pecam juntos, p 0r
que lhe sobrava, preenchia-o ordinaria- retajustiça ambosdevem serpunidos, Não
mente em fazer cânticos com os anjos, basta a dor íntima, se a carne foge de pade-
como disse no capítulo passado^. cer a pena que lhe compete. Como a dívida
Nesta imitação de Cristo, nosso é grande, e limitada é a satisfação do réu
Senhor, a divina Rainha cooperou em to- ainda que faça muito durante toda a vida
das as orações do Salvador. Alcançou as não deve descansar até o fim dela, pois
mesmas vitórias sobre os vícios e, na res- não sabe se já terá satisfeito o juiz.
pectiva medida, os reparou com suas he-
róicas virtudes.
Visto isso, se Cristo, como nosso Exemplo de Cristo e Maria
Redentor nos mereceu tantos bens e pagou
nossas dívidas condignissimamente, Ma- 993. Imensamente liberal é a
ria santíssima, sua coadjutora e Mãe divina clemência com os homens. Se se
nossa, interpôs sua misericordiosa inter- prontificam a reparar seus pecados com a
cessão junto a ele, e foi medianeira, na pouca penitência que podem, o Senhor se
medida possível a uma pura criatura. dá por satisfeito das ofensas recebidas, e
ainda obriga-se, por sua palavra, a lhes dar
DOUTRINA QUE ME DEU A novos dons e recompensas.
MESMA RAINHA E SENHORA Apesar disto, os servos prudentes
NOSSA. efiéisque verdadeiramente amam a seu
Senhor, devem procurar acrescentar livre-
mente outras obras. O devedor que só
Pecado e reparação cuida em saldar as dívidas, ficará pobre e
sem bens, se nada sobrar e se não tratar de
992. Minha filha, as obras de mor- fazer novas aquisições. Assim sendo, que
tificação corporal são próprias e legítimas deverão esperar os que nem pagam, nem
das criaturas mortais. A ignorância desta fazem nada para isso?
verdade, o esquecimento e desprezo da O terceiro motivo que deveria es-
obrigação de abraçar a cruz, têm perdido timular mais as almas, é a imitação e
a muitas almas, e a outras põem no mesmo seguimento de seu divino Mestre e Se-
perigo. O primeiro motivo que obriga os nhor. Sem termos culpas e paixões, Ele e
homens a afligir e mortificar a carne, é eu nos sacrificamos ao trabalho, e toda
terem sido concebidos em pecado (SI 50, nossa vida foi contínua mortificação da
7). carne. Convinha que, por este caminho, o
Por este, toda a natureza humana Senhor entrasse na glória (Lc 24,26) de
ficou depravada, as paixões rebeldes à seu corpo e de seu nome, e que eu o
razão, inclinadas ao mal e opostas ao seguisse em tudo. Se houve razão pai*8
espírito (Rom 7, 23). Deixadas à sua agirmos assim, qual é a dos homens em
2-tf 982
Quinto Livro - Capítulo 25

procurar outro caminho, em vida suave, Deus, se não o recebessem das de meu
cômoda, de prazer e deleite? Porque de- Filho santíssimo. Se isto é verdade a res-
testam e fogem de todas as penas, afron- peito das obras inteiramente virtuosas e
tas, ignomínias, jejuns e mortificações? perfeitas, que será das que levam consigo
Foram elas só para Cristo e para mim, tantas falhas e imperfeições? Mesmo em
enquanto os réus, devedores e merece- matéria de virtude, os mais espirituais e
dores das penas ficam no descanso, en- justos têm muito que suprir e emendar em
tregues às feias inclinações da carne? As suas obras.
capacidades que receberam para empre- Que se dirá das demais que levam
gar no serviço de Cristo, meu Senhor, consigo tantas falhas e defeitos? Todas
deverão ser aplicadas no obséquio de estas lacunas foram preenchidas pelas
seus deleites e do demônio que as sus- ações de Cristo, meu Senhor, para que o
cita? Este absurdo, tão comum entre os Pai as recebesse como se fossem de seu
filhos de Adão, irritam muito a indig- Filho. Quem não procura fazer algumas,
nação do justo Juiz. mas vive ocioso, tampouco pode aplicar-
se as de seu Redentor, pois estas não terão
o que completar e aperfeiçoar, mas sim
Os atos de Cristo conferem valor aos muito para condenar.
nossos Não te falo agora, minha filha, do
execrável erro de alguns fiéis que fazem
994. Verdade é, minha filha, que penitência por sensualidade e vaidade
as penas e aflições de meu santíssimo mundana. Estes merecem maior castigo
Filho compensaram a deficiência dos pela penitência do que por outros pecados,
méritos humanos. De minha parte, como pois ligam às obras penais fins vãos e im-
pura criatura e como que substituindo to- perfeitos, esquecendo os sobrenaturais,
das as demais, também cooperei com Ele, que são os que dão méritos à penitência e
pela imitação perfeita em suas penas e ex- vida da graça à alma.
ercícios. Isto, porém, não teve a finalidade Noutra ocasião, se for necessário,
de dispensar os homens da penitência, an- falar-te-ei sobre isto. Agora, fica adver-
tes foi para encorajá-los a ela. Não seria tida para chorar tal cegueira, e instruída
necessário padecer tanto, só para satis- para trabalhar, mesmo que fosse o tanto
fazer por eles. Como verdadeiro pai e ir- que trabalharam os Apóstolos, mártires e
mão, quis também meu Filho santíssimo confessores. Castiga teu corpo, progre-
conferir valor às obras e penitências dos dindo sempre, e adhando que ainda falta
que o seguissem, pois as ações das cria- muito, pois a vida é breve e tu muito in-
turas seriam de pouco valor aos olhos de capaz de pagar o que deves.

153
Quinto Livro - Capítulo 25
CAPÍTULO 26
f RISTO PERMITE SER TENTADO POR LÚCIFER, DEPOIS
DO JEJUM. O SENHOR O VENCE, E SUA MAE SSMA. TEM
v NOTICIA DO QUE SE PASSOU.
Lúcifer aproxima-se de Cristo disse Lúcifer: Que homem é este, tão
severo para com os vícios dos quais nos
995. No capítulo 20 deste livro^, valemos para tentar os outros? Se está tão
foi dito como Lúcifer saiu das cavernas alheio ao mundo, tão mortificado e senhor
infernais à procura de nosso divino Mestre de sua carne, por onde entraremos a tentá-
para tentá-lo, e que o Senhor dele se ocul- lo? Como esperar vitória, se nos privou
tou até ir ao deserto onde, pelo fim do je- das armas com que fazemos guerra aos
jum de quarenta dias, permitiu que o ten- homens? Desconfio muito desta batalha.
tador se aproximasse, como diz o Evan- Tanto assim vale e tanta força tem
gelho (Mt 4,2). o desprezo das coisas terrenas e o domínio
Chegou ao deserto o Maligno e da carne, que aterroriza ao demônio e a
vendo sozinho a quem procurava, alvo- todo o inferno. Sua soberba não cresceria
roçou-se muito ao verificar que estava tanto, se antes de chegar a tentá-los não
sem sua Mãe santíssima, a quem Ele e seus encontrasse os homens já sujeitos a estes
ministros das trevas, chamavam "ini- infelizes tiranos.
miga" pelas derrotas que d'Ela haviam
sofrido. Como não haviam entrado em
combate com nosso Salvador, presumia a Oração de Cristo
soberba do dragão que, ausente a Mãe san-
tíssima, a vitória sobre o Filho seria certa. 996. Cristo, nosso Salvador, quis
Chegando, porém, a conhecer de deixar Lúcifer no engano de O julgar puro
perto o combatente, sentiram grande homem, ainda que justo e muito santo,
temor e covardia. Não o reconheceram para que reforçasse sua astúcia e malícia
como Deus verdadeiro, nem disso suspei- para a batalha, como costuma fazer
tavam, vendo-o tão só e humilde. Também quando reconhece tais vantagens nos que
não tinham ainda medido forças com Ele, deseja tentar.
mas só com a. divina Senhora. Apesar de Encoraj ando-se o dragão com a
tudo, ao vê-lo tão tranqüilo, com sem- própria arrogância, começou o mais forte
blante tão cheio de majestade, praticando duelo que jamais se vira nem será visto no
atos tão perfeitos e heróicos, foram toma- mundo, entre homens e demônio. Enfure-
dos de grande medo. cidos pela virtude superior que reco-
Aquele proceder e virtude não nheciam em Cristo, nosso Senhor, Lúcifer
eram como os dos outros homens a quem e seus aliados empregaram todo seu poder
tentavam e venciam tão facilmente. Con- e malícia, não obstante Jesus ter moderado
ferindo a situação com seus ministros, seus atos com suma sabedoria, ocultando

155
Quinto Livro - Capítulo 26

a origem de seu poder infinito. Só mani- Fez a proposta sob a condição de


festou a santidade humana, bastante para ser Filho de Deus, porque isto era o nUe
vencer seus inimigos. mais o preocupava, desejando algUl!
Para entrar, como homem, no com- indício para se certificar. O Salvador d0
bate, orou ao Pai na parte superior do Mundo, porém, só lhe respondeu ^
espírito onde não chega o conhecimento 4); Não só de pão vive o homem, mas tair/
do demônio. Disse: Meu Pai e Deus bém da palavra que procede da boca de
eterno, entro em luta com meu inimigo Deus. - Verso 3 do capítulo 8 do Deu
para abater sua força e soberba contra vós teronômio.
e contra minhas queridas almas. Para a O demônio não penetrou o sentido
vossa glória e o bem delas, quero sujeitar- em que as disse o Senhor. Entendeu ape-
me a sofrer a ousadia de Lúcifer e esmagar nas que, sem pão ou qualquer alimento
a cabeça de sua arrogância. corporal, poderia Deus sustentar a vida do
Assim, os mortais o encontrarão homem. Ainda que isto sej a verdade e seja
vencido, quando esta serpente os tentar, a
menos que eles se entreguem por própria
culpa. Suplico-vos, meu Pai, que vos lem-
breis de minha peleja e vitória, quando os
mortais forem afligidos pelo inimigo.
Confortai sua fraqueza para que, em vir-
tude de meu triunfo, eles vençam, ani-
mem-se com meu exemplo e aprendam o
modo de resistir e vencer seus inimigos.

Primeira tentação: gula •

997. Os espíritos celestes presen-


ciavam a luta, mas, por disposição divi-
na, ocultos a Lúcifer, para este não sus-
peitar o poder divino de Cristo, Senhor
nosso. Os anjos louvavam e glorifi-
cavam o Pai e o Espírito Santo que se
compraziam nas admiráveis obras do um dos sentidos daquelas palavras, o
Verbo humanado. De seu oratório, tam- divino Mestre quis dizer muito mais: Este
bém Maria, Senhora nossa, tudo assistia, homem com quem falas, vive na Palavra
como logo direi* A de Deus, o Verbo divino a quem está hi-
A tentação começou no trigésimo postaticamente unido.
quinto dia do jejum de nosso Salvador, e Sendo exatamente o que o demô-
durou até terminarem os quarenta dias que nio desejava saber, não mereceu com-
o Evangelho refere. Mostrou-se Lúcifer, preender por se ter recusado a adorá-lo.
tomando a aparência de forma humana
muito refulgente, como anjo de luz, como
se Cristo não o conhecesse. Segunda tentação: vangloria
Julgando que o Senhor, depois de tão
longo jejum estivesse com fome, lhe disse 998. Repelido pela força e virtude
<Mt4,3): Se ésoFilho de Deus, transforma, desta resposta, Lúcifer não quis ainda
com tua palavra, estas pedras em pão. mostrar fraqueza nem desistir do comba^-
2-n°1001

156
Permitiu-lhe o Senhor que prosseguisse e Lúcifer nunca pôde* oferecer bem
o levasse a Jerusalém, onde o colocou so- algum que lhe pertencesse, ainda dos bens
bre o pináculo do templo, donde se avis- terrenos e temporais, pelo que são falsas
tava grande número de pessoas, sem ser todas as suas promessas.
visto por elas. A esta que fez a nosso Rei, respon-
Propôs-lhe Lúcifer que se o vissem deu o Senhor com império e força: Retira-
cair de tão alto, sem sofrer lesão alguma, te, Satanás, pois está escrito: A teu Deus
o teriam por extraordinário e santo. E, va- e Senhor adorarás e só a Ele servirás (Dt
lendo-se também da Escritura, disse: Se 6,31).
és o Filho de Deus, lança-te daqui para Ao dizer, retira-te Satanás, Cristo
baixo, pois está escrito (SI 90,11): os anjos nosso Redentor tirou ao demônio a per-.
te levarão nas mãos, como lhes ordenou missão que lhe dera para o tentar, e com
Deus, para nada sofreres. seu poder precipitou Lúcifer e suas
Acompanhavam seu Rei os santos quadrilhas no mais profundo do inferno.
anjos, admirados da permissão divina em Ali ficaram como que colados e amarra-
se deixar levar corporalmente por Lúcifer, dos nas mais profundas cavernas, por
só pelo bem que disso resultaria para os espaço de três dias, sem se poderem
homens. Com o príncipe das trevas foram mover.
inúmeros demônios, e nesse dia o inferno Quando lhes foi permitido se le-
ficou quase sem nenhum. vantar, sentiram-se tão abatidos que
Respondeu o Autor da sabedoria começaram a suspeitar se Aquele que os
(Mt 4,7): Também está escrito: Não ten- vencera não seria o Filho de Deus feito
tarás ao Senhor teu Deus (Dt 6, 16). O homem. Continuaram com estes receios e
Redentor do mundo dava essas res- dúvidas, sem atinar com a verdade, até a
postas com incomparável mansidão, morte do Salvador. Despeitado com o mau
profundíssima humildade e inalterável êxito da demanda, Lúcifer se consumia no
majestade. Esta grandeza e serenidade próprio furor.
perturbou a feroz soberba de Lúcifer e
lhe serviu de novo tormento e opressão.
Jesus volta ao deserto e é servido
pelos anjos
Terceira tentação: ambição
1000. Nosso divino triunfador,
999. Apesar disso, forjou outro Cristo, enalteceu o eterno Pai com cânti-
novo expediente para atacar o Senhor do cos de louvores e ação de graças, pela
mundo pela ambição, oferecendo-lhe al- vitória que lhe havia concedido sobre o
guma parte do seu domínio. Levou-o a um comum inimigo do gênero humano.
alto monte donde se avistavam muitas ter- Grande multidão de espíritos ce-
ras, e com pérfido atrevimento, lhe disse: lestes cantaram-lhe a vitória e foi trazido
Todas estas coisas te darei, se prostrado de volta ao deserto, nas mãos deles,
em terra me adorares (Mt 4,9). ainda que seu poder não tinha necessi-
Exorbitante arrogância, mentirosa dade disso. Era-lhe, porém, devido
insânia e traidora proposta! Ofereceu o aquele obséquio angélico, em reparação
que não possuía e não podia dar a nin- da audácia de Lúcifer, em levar ao
guém. A terra, as orbes, os reinos, princi- pináculo do templo e ao monte, aquela
pados, tesouros e riquezas, tudo é do Se- humanidade santíssima à qual estava
nhor que os dá e os tira a quem e quando ' unida a divindade, substancial e ver-
quer e convém. dadeiramente.

157
Se o Evangelho não o dissera, não tosos movimentos e bramidos em horne
poderia vir ao pensamento humano que nagem a seu Senhor.
Cristo nosso Senhor tivesse dado tal per-
missão a Satanás. Entretanto, não sei qual
seja a causa de maior admiração para nós: Participação de Maria no jejum de
ser levado de um lugar para outro por Cristo
Lúcifer, ou ser vendido por Judas, ou dei-
xar-se receber sacramentado por aquele 1001. Voltemos à Nazaré, ao
mau discípulo e por tantos cristãos pe- oratório da Princesa dos Anjos. Ali es-
cadores que, conhecendo-o por Deus e tivera atenta às lutas de seu Filho santís-
Senhor, o recebem tão injuriosamente. simo, vendo-as por divina luz, como tenho
O que certamente nos deve admi- dito, e recebendo ao mesmo tempo con-
rar é que tenha permitido, e continue a per- tínuas embaixadas pelos seus anjos que
mitir, tanto uma como outra coisa, tudo iam e voltavam de seu oratório ao seu
por amor de nosso bem, a fim de atrair-nos Filho no deserto.
a Si pela mansidão e paciência de seu Fez a divina Senhora as mesmas
amor. orações, e no mesmo tempo que o seu
Ohí dulcíssimo Senhor! Que Filho santíssimo, antes de entrar no com-
suave, benigno e misericordioso sois para bate da tentação. Pelejou também com o
as almas (Joel 2,13)! Descestes do céu à dragão, ainda que invisivelmente. Do seu
terra por amor a elas, pela sua salvação retiro anatimatizou Lúcifer e seus se-
sofrestes e destes a vida. Com mise- quazes, abateu-os e cooperou em tudo
ricórdia as esperais; tolerando-as as com os atos de Cristo Senhor a nosso fa-
chamais, procurais e recebeis; entrais em vor.
seu peito, sois todo para elas e as desejais Quando viu que o demônio levava
para Vós. O que me traspassa o coração é o Senhor de um lugar para outro, chorou
que, atraindo-nos com verdadeiro afeto, amargamente por causa da malícia do pe-
fugimos de vós e a tão grande fineza, cor- cado, que obrigava ao Rei dos reis e Se-
respondemos com ingratidões! nhor dos senhores a permitir tal coisa. A
Oh! imenso amor de meu suave todas as vitórias que ele obtinha sobre o
Senhor, tão mal pago e agradecido! Dai, demônio, fazia novos cânticos de louvor
Senhor, lágrimas a meus olhos para chorar à divindade e humanidade santíssima.
coisa tão merecedora de ser lamentada, e Foram estes cânticos que os Anjos
nisto ajudem-me todos os justos da terra. cantaram ao Senhor. Pelos mesmos anjos,
Jesus, voltando ao deserto, diz o a grande Rainha enviou parabéns ao Filho,
Evangelho (Mt 4, 11), foi servido pelos pelo triunfo obtido e pelo benefício que
anjos. fazia a todo gênero humano. Por meio dos
Terminado o jejum e as tentações, celestes embaixadores, Jesus também a
serviram-lhe um manjar celestial, e tendo consolou e felicitou por haver participado
comido este milagroso alimento, recobrou em suas lutas com Lúcifer.
as forças naturais de seu sagrado corpo.
Não só os anjos assistiram esta refeição,
felicitando-o, mas também as aves daque-
le deserto vieram recrear os sentidos de Recompensa da Virgem
seu Criador humanado, com harmoniosos 1002. Como fôra companheira fiel
cânticos e graciosos vôos. O mesmo fize- no sacrifício e no jejum, era justo que o
ram, a seu modo, os animais do monte, fosse na recompensa. Enviou-lhe o anian-
depondo sua ferocidade e fazendo amis- tíssimo Filho, da comida que os Anjos lhe
Quinto Livro - Capítulo 26

trouxeram, ordenando-lhes que lhe servis- Senhor, vos faltava o comum alimento ter-
sem- restre.
Coisa admirável: grande número Chamei-o manjar celestial, porque
das aves que festejavam o Senhor, segui- não achei outros termos para me explicar,
ram os Anjos a Nazaré, embora com vôo e não sei se estes são apropriados, pois não
menos rápido que o deles, chegaram e en- conheço a origem e espécie dessa comida.
traram na casa da grande Rainha e Senhora Julgo que no céu não existem manjares
do céu e da terra. Quando estava comendo para alimentar os corpos, pois lá não será
a refeição que o Filho lhe enviara pelos necessário este modo terreno de se susten-
anjos, apresentaram-se com os mesmos tar. Ainda que os bem-aventurados te-
gorjeios que haviam feito na presença do nham, pelos sentidos, o gozo de algum ob-
Salvador. jeto deleitável e sensível, e também o gos-
Comeu a divina Senhora aquele to sinta algum sabor, não será através de
manjar celeste, ainda melhorado por ter comida, mas da redundância da glória da
passado pelas mãos de Cristo, e abençoa- alma no corpo e seus sentidos. Por ad-
do por Ele. Com este alimento recuperou- mirável modo, cada um gozará segundo
se do longo jejum, e agradeceu ao Todo- sua capacidade sensitiva, sem a imper-
poderoso humilhando-se até a terra. feição e grosseria que tem agora nas ope-
Foram tais e tão numerosos os rações e objetos da vida mortal.
heróicos atos de virtude que praticou esta Em tudo isto, desejo, como igno-
grande Rainha, durante o jejum e as ten- rante, ser instruída por vossa piedosa e
tações de Cristo, que não é possível re- matemal dignação.
duzir a palavras o que excede nossa ca-
pacidade. Vê-lo-emos no Senhor quando
O gozarmos, e então lhe daremos a glória Resposta de Maria
e louvor que a hnhagem humana lhe deve 1004. Minha filha, tua dúvida é
por favores tão inefáveis. justa. É verdade, conforme disseste, que
no céu não há manjares materiais. O man-
PERGUNTA QUE FIZ À RAINHA jar que os anjos serviram a meu Filho san-
DO CÉU MARIA SANTÍSSIMA. tíssimo e a mim, na ocasião que descre-
veste, corretamente o chamas celestial. Eu
é que te inspirei esta expressão, porque as
Pergunta da Escritora propriedades daquele alimento eram do
céu e não da terra, onde tudo é grosseiro,
1003. Rainha dos céus e Senhora muito material e limitado. Vou explicar-te
do universo, a dignação de vossa clemên- a natureza daquele manjar e o modo como
cia inspira-me confiança para, como a o formava a divina Providência.
Mãe e mestra, vos propor uma dúvida que Quando sua dignação dispunha
me ocorreu, ao escrever este e outros alimentar-nos com esta comida, para su-
capítulos. prir a falta de outra, nô-la enviava mila-
Por vossa divina luz e ensina- grosamente pelos santos anjos. Para for-
mento, conheci o manjar celestial que os má-la, usava de alguma coisa material,
santos anjos serviram a nosso Salvador no mais comumente de água, por sua
deserto. Penso que seria igual a outros que, claridade e simplicidade, e porque para
conforme entendi e escrevi, foram servi- estes milagres o Senhor não quer coisas
dos ao Senhor e a vós em algumas muito complexas. Outras vezes, man-
ocasiões em que, por permissão do mesmo dava-nos pão e algumas frutas. A
Quinto Livro - Capítulo 26

qualquer destas coisas dava o poder divino Acabo de esclarecer tua dúvida
tal virtude e sabor que excedia, como o Agora presta atenção à doutrina perten,
céu da terra, a todos os manjares, regalos cente a este capítulo.
e sabores da terra. Nesta, nada se encontra
que sirva de comparação, pois tudo é sem
virtude e insípido, ao lado deste manjar do Cristo vence o demônio e o pecado
céu.
Para entenderes melhor, ajudarão 1006. Para melhor se entender 0
os exemplos seguintes: Primeiro, o pão que nele escreveste, quero que advirtas o$
subcinerício (3 Rs 19,6) dado a Elias, e três motivos que, entre outros, levaram
que possuía tal virtude que o fortaleceu meu Filho santíssimo a travar combate
para caminhar até o monte Horeb. Segun- com Lúcifer e seus ministros infernais.
do, o maná, chamado pão dos anjos (SI 77, Esta compreensão te dará maior luz e força
25), porque estes o preparavam do vapor contra eles. O primeiro motivo foi destruir
da terra (Ex 16,14; Num 11,7; Sab 16, o pecado e sua semente que, pela queda
20,21). Condensado, caía sob a forma de de Adão, o inimigo semeou na natureza
grãos, tinha toda a diversidade dos sabores humana. Esta semente consiste nos sete
e extraordinária propriedade para alimen- vícios capitais - soberba, avareza, luxúria
tar o corpo. O terceiro exemplo, é o mila- e os outros - que são como as sete cabeças
gre que meu Filho santíssimo realizou nas do dragão.
bodas de Caná: converteu a água em Como disseste na primeira par-
vinho, dando-lhe tão excelente sabor que te^,Lúcifer destinou, para cada um des-
provocou a admiração dos que o provaram tes pecados, um esquadrão de demônios
(Jo 2,10). com seu respectivo chefe. Assim, nesta
perversa ordem e com as armas desses
pecados, tentam e fazem guerra aos
Alimentos miraculosos homens. Em oposição, meu Filho san-
tíssimo, com o poder de suas virtudes,
1005. Deste modo, o poder divino entrou em combate, venceu e deixou en-
dava virtude sobrenatural à água, ou a fraquecidos todos os príncipes das tre-
transformava em licor suavíssimo; o vas. Ainda que o Evangelho mencione
mesmo fazia ao pão ou fruta, deixando-os apenas três tentações, por terem sido as
mais espiritualizados, Esta comida ali- mais visíveis, a batalha e o triunfo foram
mentava o corpo e deleitava os sentidos, muito mais longe. Cristo, meu Senhor,
deixando a fraca natureza humana for- derrotou a todos esses chefes diabólicos
talecida, ágil e pronta para os trabalhos e seus vícios.
penosos, e isto sem fastio nem gravame Venceu a soberba com sua humil-
do corpo. Desta espécie foi a comida que dade, a ira com sua mansidão, a avareza
os anjos serviram a meu Filho santíssimo com o desprezo das riquezas, e por este
depois do jejum, e que em outras ocasiões modo, os outros vícios e pecados capitais
recebemos, e da qual participava também Maior ainda foi a derrota e desalento
meu esposo José. desses inimigos quando, ao pé da cruz,
A alguns outros seus servos e ami- conheceram que era o Verbo humanado
gos o Senhor mostrou esta liberalidade, que os tinha vencido. Por isto, como dira>
deliciando-os com semelhantes manjares, adiante, duvidaram muito poder entrarem
ainda que não tão freqüentes, nem com combate com os homens, se estes sou-
tantas circunstâncias miraculosas como bessem aproveitar-se da força e vitonw
sucedia conosco. de meu Filho santíssimo.
3-n°l03

160
Quinto Livro - Capítulo 26

Outras razões que levaram Cristo a doutrina e do exemplo de meu filho. Em


combater com o demônio primeiro lugar deves manter vencidos o
mundo e a carne, esta mortificando-a com
1007. O segundo motivo de tal pe- prudente rigor, e ao inundo fugindo das
leja foi a obediência ao eterno Pai que, não criaturas paia o segredo de teu interior. A
só o mandou morrer pelos homens e ambos vencerás não saindo dele, não per-
redimi-los por sua paixão e morte, mas dendo de vista o bem e a luz que aí recebes,
também combater os demônios e vencê- e não amando coisa alguma visível mais
los, com a força espiritual de suas incom- do que permite a caridade bem ordenada.
paráveís virtudes. Neste ponto, relembro-te o rigoroso pre-
O terceiro motivo, conseqüência ceito que muitas vezes te impus.
dos dois primeiros, foi deixar aos homens O Senhor te deu temperamento
exemplo e instrução para triunfarem de para amar muito, e queremos que con-
seus inimigos, e que nenhum dos mortais sagres esta capacidade, toda e plena-
estranhasse ser tentado e perseguido por mente, a nosso amor. Voluntariamente,
eles. Em suas tentações e combates, todos não deverás consentir em nenhum
teriam o consolo de que seu Redentor e movimento do apetite, por mais leve que
Mestre foi o primeiro a sofi e-las, (Heb 4, pareça, se não for para a exaltação do
15). Altíssimo e para fazer ou padecer algo
Ainda que, no modo, as tentações por amor dele e pelo bem do próximo.
foram diferentes, na substância foram as Se, em tudo, me obedeceres, farei que
mesmas e com muito mais violência e sejas armada e fortalecida contra este
malícia de satanás. cruel dragão. Travarás as guerras do
Permitiu Cristo, meu Senhor, que Senhor (1 RS 25, 28) e de ti penderão mil
Lúcifer estreasse n*EIe o furor de suas escudos (Cânt 4, 4) para te defenderes.
forças, para as quebrantar com seu poder Fica sempre advertida em te valeres das
divino. Deste modo, ficaram mais fracas palavras sagradas da divina Escritura,
para a guerra que fariam aos homens, e não apresentando razões, nem muitas
estes os venceriam com mais facilidade, palavras com tão astuto inimigo.
se aproveitassem da graça que o Redentor As criaturas fracas não devem dis-
lhes proporcionou. cutir com seu mortal inimigo e mestre da
mentira, pois meu Filho santíssimo,
poderoso e de infinita sabedoria, não o fez.
Meios para vencer as tentações Por este exemplo, as almas devem aprender
a discrição e modo de proceder contra o
1008. Todos os mortais precisam demônio. Arma-te com fé viva, esperança
deste ensinamento para vencerem o firme, caridade fervorosa e profunda hu-
demô-nio. Tu, porém, minha filha, mais mildade. Estas virtudes aniquilam este
do que ninguém, porque grande é a raiva dragão que não ousa enfrentá-las e foge de-
deste dragão contra ti, e tua natureza fraca las, porque são armas poderosas contra sua
para resistir, se não te valeres de minha arrogância e soberba.

161
••*t<».

Monte da Quarentena, local do jejum do Salvador.


Atual mosteiro greco-ortodoxo.

162
CAPÍTULO 27
JESU§ DEIXA O DESERTO, VOJTA ONDE ESTAVA SÃO
JOÃO, TRABALHA NA JUDEIA ATÉ CHAMAR OS
PRIMEIROS DISCÍPULOS. MARIA SSMA. O IMITA EM
TUDO.
Cristo deixa o deserto Testemunho de São João Batista
1009. Cristo nosso Redentor pre- 1010. O divino Mestre dirigiu seus
enchera perfeitamente os ocultos e altos formosos passos para o Jordão, onde seu
fins de seu jejum e retiro no deserto: o tri- grande precursor João continuava a bati-
unfo sobre o demônio e sobre todos os zar e pregar, a fim de que, em sua presença,
vícios. o Batista desse novo testemunho de sua
Deixou, então, o deserto para divindade e de seu ministério de Redentor.
prosseguir a missão que seu eterno Pai Jesus quis também satisfazer o de-
lhe encomendara, a redenção humana. sejo de São João em vê-lo e falar-lhe no-
Para se despedir daquele êrmo, pros-
trou-se em terra, adorando e dando
graças a seu eterno Pai, por tudo o que
ali realizara em sua humanidade santís-
sima, para a glória da divindade e bem
da linhagem humana.
Fez fervorosa oração e súplica por
todos aqueles que, imitando-o se retiras-
sem por algum tempo ou por toda a vida
à solidão, para seguir seus passos, dedi-
cando-se à contemplação e exercícios de
devoção, afastados do mundo e de seus
embaraços.
O altíssimo Senhor prometeu fa-
vorece-los, falar-lhes ao coração (Os 2,
14) e conceder-lhes especiais graças e
bênçãos de doçura (SI 20,4) se eles, de
sua parte, se dispusessem para recebe-
las e a elas correspondessem. Feita esta
oração, como verdadeiro homem, pe-
diu licença ao Senhor, para deixar
aquele deserto e partir acompanhado
pelos anjos.

163
Quinto Livro - Capítulo 27

vãmente. Da primeira vez que o vira e ba- Em vista de tudo isto, quand
tizara, o coração do santo Precursor ficara nosso Salvador voltou do deserto e, pC]a
inflamado e cativo daquela oculta e divina segunda vez, se encontrou com o Batista
força que atraia a si todas as coisas. este o chamou Cordeiro de Deus. Referiü
Num coração tão bem disposto o testemunho que pouco antes dera aos
como o de São João, este fogo de amor se judeus, acrescentando que vira o Espírito
ateava com maior força e intensidade. Santo sobre sua cabeça, como lhe fôra
Chegou o Salvador à presença de revelado que veria.
São João, sendo a segunda vez que se viram. São Mateus (3,17) e São Lucas (3
Antes de qualquer palavra, vendo que o Se- 22) acrescentaram o que disse a voz do Paj
nhor se aproximava, o Batista disse o que vinda do céu. São João (Jo 1,32) só refere
refere o Evangelista (Jo 1,29): Eis o cor- o Espírito Santo na forma de pomba, p 0r .
deiro de Deus que tira o pecado do mundo. que foi só o que o Batista disse aos judeus
Deu este testemunho apontando
para Cristo nosso Senhor, fazendo-se ou-
vir por toda a gente que o cercava, vinda Exaltação do Batista
para ser batizada e assistir sua pregação.
Acrescentou ainda (Jo 1, 30): Este é 1012. A fidelidade do Precursor em
aquele de quem eu falei, que depois de confessar que não era o Cristo e em dar os
mim viria um homem maior que eu, por- testemunhos de sua divindade, conforme
que existia antes do que eu. Eu não o co- dissemos, foi conhecido pela Rainha do céu
nhecia e vim batizar em água para dar em seu retiro. Pediu ao Senhor que recom-
testemunho dele. pensasse a seu fídelissimo servo João. As-
sim o fez liberalmente o Todo-poderoso e,
em sua divina aceitação o Batista elevou-se
Concordância entre os Evangelhos acima de todos os nascidos de mulher. Por
não ter aceitado a honra de Messias que lhe
1011. O Batista disse estas pala- ofereciam, o Senhor lhe deu toda a que, fora
vras porque não tinha visto Jesus antes de desta, era capaz de receber entre os homens.
o batizar, nem tinha recebido a revelação Nesta ocasião, em que nosso Re-
de sua vinda, como fica explicado no dentor e São João se reencontraram, o
capítulo 24 deste livro, n° 978. grande Precursor foi repleto de novos
Em seguida, acrescentou o Batista, dons e graças do Espírito Santo.
que vira o Espírito Santo descer sobre Alguns dos circunstantes, quando
Cristo no batismo (Jo 1, 32), e que dera o ouviram dizer, "Eis o Cordeiro de Deus \
testemunho da verdade, de que Cristo era deram muita atenção às suas palavras, e
o Filho de Deus. lhe perguntaram quem era aquele de quem
Enquanto Jesus esteve no deserto, assim falava. Deixando-o a instruir os ou-
enviaram os judeus de Jerusalém a em- vintes da verdade, com as razões acima
baixada que refere São João evangelista referidas, o Salvador se afastou, dirigindo-
no capítulo Io, perguntando-lhe quem era, se à Jerusalém.
e o mais que diz o Evangelho. Respondeu Estivera muito pouco em presença
o Batista que ele batizava na água, e que do Batista. Não foi, porém, diretamente
no meio deles tinha estado quem não co- para a cidade santa. Durante muitos dias,
nheciam, pois Jesus estivera entre o povo andou percorrendo pequenas povoações
no Jordão. Deste, que vinha depois dele, e, sem se identificar, ensinava os habitan-
não era digno de desatar as correias do tes, participando-lhes que o "Messias ja
calçado. estava no mundo. Com sua doutrina en-

164
Quinto Livro - Capítulo 27

caminhava-os à vida eterna, e muitos ao sair do pecado e procurar o reino de Deus


batismo de São João, para se prepararem que já se aproximava, pela pregação e re-
pela penitência a receber a Redenção. denção que o Salvador ia realizar.

Atos de Jesus depois do jejum no Maria, missionária


deserto
1014. Nossa grande Rainha e Se-
1013. Não dizem os Evangelistas nhora continuava em Nazaré, onde tinha
onde esteve e o que fez nosso Salvador de- conhecimento de quanto fazia seu Filho
pois do jejum, nem quanto durou este prazo. santíssimo. Esta ciência lhe vinha, tanto
O que me foi declarado é que Jesus esteve através da divina luz que tenho referido,
quase dez meses na, Judéia, sem voltar à como pelas notícias que lhes traziam os
Nazaré para ver sua Mãe santíssima, nem seus mil anjos que sempre a assistiam, em
entrar na Galiléia. No fim desses meses, vol- forma visível, quando ausente o Redentor.
tou a se encontrar com o Batista que disse, Para imitá-lo com toda a perfeição,
pela segunda vez, Eis o Cordeiro de Deus deixou seu retiro, ao mesmo tempo em que
(Jo 1,36). Foi então seguido por Santo An- Cristo saiu do deserto. Ainda que não podia
dré e os primeiros discípulos que ouviram crescer no amor, nosso Salvador o mani-
essas palavras do Batista. Depois deles, festou com maior fervor, depois que venceu
Jesus chamou São Filipe, como refere o o demônio com o jejum e todas as virtudes.
Evangelho (Jo 1,43). De igual modo, a divina Mãe, com
O Senhor empregou estes meses em a nova graça que adquiriu, saiu mais ar-
mstruir as almas e prepará-las com auxílios, dente e solícita para imitar as obras de seu
doutrina e outros admiráveis favores, pro- Filho santíssimo, em benefício da sal-
curando despertá-las da indiferença em que vação humana. Retomou o ofício de pre-
jaziam. Quando, depois, começasse a pregar cursora da manifestação do Salvador.
e fazer milagres, estariam mais dispostas a Saiu a divina Mestra de sua casa em
receber a fé e seguir o Redentor, como acon- Nazaré para os lugares circunvizinhos,
teceu a muitos que instruiu e catequisou. acompanhada por seus anjos. Com a pleni-
É verdade que, nesse tempo, não tude de sua sabedoria, com o poder de
falou com os fariseus e doutores da lei, Rainha e Senhora das criaturas, fez grandes
porque estes não estavam tão dispostos maravilhas, ainda que de modo encoberto,
para dar crédito à notícia da vinda do Mes¬ como fazia o Verbo humanado na Judéia.
sias. Mesmo depois, não a aceitaram, ape- Deu notícia da vinda do Messias,
sar de confirmada com a pregação, mila- mas sem revelar quem era ele. Ensinou a
gres e testemunhos tão claros de Cristo, muitos o caminho da vida, tirando-os do
pecado. Expulsava os demônios, esclare-
nosso Senhor (Mt 11,5).
Os pobres e humildes, porém, me- cia as trevas dos ignorantes e dos que an-
receram ser os primeiros evangelizados (Lc davam no erro, preparando-os para acei-
4,18) e instruídos pelo Salvador, naqueles tarem a Redenção crendo no Salvador.
dez meses. Prodigalizou-lhes liberais mise- Além destes benefícios espirituais,
ricórdias na Judéia, não só com seu ensino fazia muitos coiporais, curando enfermos,
e ocultas graças, mas também com alguns consolando os aflitos, visitando os pobres.
discretos milagres. Consideravam-no gran- Estes favores eram mais para as mulheres,
de profeta e homem santo. mas fez muitos também para os homens.
Com esta chamada, despertou o Sendo pobres e desprezados, rece-
coração de inumeráveis pessoas. Deviam beram o privilégio de ser visitados e so-

165
Quinto Livro - Capitulo 27

corridos pela Senhora dos anjos e de toda quando não fores obrigada, pela obediên.
a criação. cia, a conversar com as criaturas. Neste
caso, saindo de tua soledade e recolhi,
mento leva-o em teu coração, de modo qUe
Maria imita Jesus os sentidos exteriores não te afastem dele
Tua presença nos negócios mate-
1015. Nestas saídas, preencheu a riais seja transitória, enquanto no retiro e
divina Rainha o tempo em que seu Filho deserto interior deve ser permanente. Para
santíssimo andava na Judéia, e sempre o que ali tenhas verdadeira solidão, não dês
imitou em todas as suas obras, até em andar entrada a imagens e lembranças de criatu-
a pé como Jesus. Às vezes voltava à Nazaré, ras que, às vezes, ocupam mais do que elas
mas logo continuava suas peregrinações. próprias, e sempre embaraçam e tiram a
Nestes dez meses comeu muito liberdade do coração. Seria indigno que o
pouco. Aquele manjar celeste que no de- pusesses em alguma criatura, ou que al-
serto lhe enviou seu Filho santíssimo, guma nela entrasse. Meu Filho o deseja
como disse no capítulo passado, deixou-a vazio e eu quero o mesmo.
tão fortalecida que, não só teve força para
percorrer á pé muitos lugares e caminhos,
como também para não sentir tanto a ne- Apostolado
cessidade de outro alimento.
Tinha também a beatíssima Se- 1016.a A segunda recomendação
nhora notícia de que São João ia pregando é que, em primeiro lugar, atendas ao
e batizando nas margens do Jordão. En- apreço de tua alma, para conservá-la em
viou-lhe, algumas vezes, muitos de seus toda pureza. A isto acrescenta o zelo pela
anjos para o consolar e agradecer a leal- salvação de todas as outtas como é minha
dade que mostrava a seu Deus e Senhor. vontade. Em particular, quero que imites
Em meio a tudo isto, sofria a a meu Filho santíssimo e a mim, no que
amorosa Mãe grandes delíquios de amor fizemos com os mais pobres e despre-
pelas saudades de seu Filho santíssimo, zados pelo mundo.
cujo coração era ferido por aqueles divi- Estes pequeninos pedem, muitas
nos e castíssimos anseios. Antes de Jesus vezes, o pão do conselho e doutrina
voltar a vê-la, consolá-la e dar princípio a (Trenós 4,4) e não encontram quem lhos
seus milagres e pregação pública, aconte- distribua, como os ricos e estimados do
ceu o que direi no capítulo seguinte. mundo que dispõem de muitos ministros
para os aconselhar.
DOUTRINA QUE ME DEU A Muitos destes pobres e despre-
RAINHA DO CÉU MARIA zados recorrem a ti. Recebe-os compassi-
SANTÍSSIMA. vamente, consola-os com cannho para
que, em sua simplicidade, aceitem a luze
Solidão conselho, pois aos mais argutos pode-se
tratar de outro modo.
1016. Minha filha, dar-te-ei a dou- Procura conquistar essas almas
trina deste capítulo em duas importantes que, apesar de sua miséria material, são
recomendações: primeiro, procura amar e preciosas aos olhos de Deus. Para que elas
praticar a soledade com singular apreço, e os demais não percam o fruto da re¬
para mereceres as bênçãos e graças que . denção, quero que trabalhes sem cessar, e
meu Filho mereceu e prometeu aos que não te dês por satisfeita até morrer nessa
nisto o imitarem. Procura sempre estar só causa, se for necessário.

166
\
'- CAPÍTULO 28

JESUS CHAMA OS PRIMEIROS DISCÍPULOS NA


PRESENÇA DO BATISTA E COMEÇA ~ PREGAÇÃO. O
ALTÍSSIMO ORDENA QUE A DIVINA MAE O ACOMPANHE.
Último testemunho de São João Esta foi a ˙ ltima vez que o Batista
Batista viu nosso Salvador pela ordem natural,
pois que, de outro modo, viu-o e gozou de
1017. Completados dez meses de- sua presença na hora da morte, como direi
pois do jejum de nosso Salvador, durante em seu lugar.
os quais Ele percorria as povoações da
Judéia operando, em segredo, grandes
prodígios, determinou revelar-se ao mun- Os cinco primeiros discípulos de
do. Não pregara ocultamente, mas não se Jesus Cristo
declarara Messias e Mestre. Agora chega-
ra o tempo determinado pela Sabedori a in- 1018. Ouviram o Batista dois dos
finita para essa revelação. primeiros discípulos que se achavam com
Para isto, voltou o Salvador para ele. Em virtude de sua declaração, com a
onde se achava o Batista. Mediante o teste- luz e graça que interiormente receberam
munho que este, por missão devia dar ao de Cristo, foram-no seguindo.
mundo, começaria a brilhar a luz nas tre-
vas (Jo 1,5).
Por revelação divina, recebeu o
Batista conhecimento da vinda de Jesus e
que chegara o momento d 'Ele se dar a co-
nhecer como Redentor do mundo e ver-
dadeiro Filho do eterno Pai. Preparado por
esta ilustração, vendo o Salvador que vi-
nha ao seu encontro, exclamou com ad-
mirável j˙ bilo espiritual, na presença de
seus discípulos (Jo 29,36) Eis o Cordeiro
de Deus, é este.
Este testemunho concordava com os
outros que já havia dado com as mesmas
palavras, e também com a doutrina que,
mais em particular, dera aos discípulos mais
assíduos ao seu ensinamento. Foi como se
lhes dissesse: Vede aí o Cordeiro de Deus
de quem vos tenho falado e que veio redimir
o mundo e abrir o caminho do céu.

167
Quinto Livro - Capítulo 28

Voltou-se Jesus para eles e, ama- fogo de amor divino, enchendo-os d


velmente, perguntou o que procuravam bênçãos singulares (SI 20,4). e
(Jo 1,38). Responderam que desejavam Não é possível encarecer digna
saber onde o Mestre morava. Jesus os mente, o muito que custou a nosso divi^
levou consigo, e ficaram com Ele aquele Mestre a vocação e formação destes e d0
dia, como refere o evangelista São João demais discípulos para fundar a Igreja
(1,39). Diz que um dos discípulos era An- Procurou-os com solicitude e grandes
dré, irmão de São Pedro, e não declara o diligências; chamou-os com fortes, fre
nome do outro. Compreendi, porém, que quentes e eficazes auxílios de sua graça
era o mesmo São João evangelista que, por esclareceu seus corações com dons e fa-
grande modéstia, não quis se nomear. vores incomparáveis; acolheu-os com ad-
Ele e Santo André foram as primí- mirável bondade; criou-os com o arnenís-
cias da vocação ao apostolado. Foram os simo leite de sua doutrina; suportou-os
primeiros a seguir o Salvador, só pelo com incansável paciência; afagou-os
testemunho exterior do Batista, de quem como pai amantíssimo a seus ternos fi.
eram discípulos, sem outro chamado ex- lhinhos.
presso do Senhor. A natureza é rude para as coisas
Logo Santo André procurou seu ir- elevadas e delicadas do espírito. Corno
mão Simão (Jo 1, 14), contou-lhe como nelas deveriam ser, não só perfeitos, mas
havia encontrado o Messias, chamado consumados mestres do mundo e da
Cristo, e o levou ao Mestre. Olhando-o, Igreja, tomava-se urgente o trabalho de
disse Jesus: Simão, filho de Jonas, teu transformá-los, do estado terreno ao ce-
nome será Cefas, que quer dizer Pedro. lestial e divino, onde os elevava com sua
Aconteceu tudo isto nas fronteiras doutrina e exemplo de Mestre.
da Judéia, e no dia seguinte o Senhor re-
solveu entrar na Galiléia. Ali encontrou
São Filipe e o chamou, dizendo-lhe que o
seguisse. Em seguida, Filipe narrou a
Natanael o que sucedera e como haviam
encontrado o Messias, Jesus de Nazaré,
levando-o à presença do Salvador.
No capítulo primeiro de seu Evan-
gelho, narra São João o diálogo de Filipe
com Natanael, o quinto discípulo chama-
do por Cristo nosso Senhor.

Cristo, mestre das almas


1019. Com estes cinco discípulos,
os primeiros fundamentos do edifício da
nova Igreja, entrou Cristo nosso Salvador,
pregando e batizando publicamente na
Galiléia. Este foi o primeiro chamado
destes Apóstolos em cujos corações,
desde que se aproximaram de seu ver-
dadeiro Mestre, acendeu-se nova luz e

168
Quinto Livro - Capítulo 28

Altíssimo exemplo de paciência, nhecer meu Filho humanado e segui-lo


mansidão e caridade para os prelados, como cabeça e guia, nos caminhos para a
príncipes e chefes que governam súditos, eterna felicidade que lhes tenho prepa-
e de como devem proceder com eles. rado.
Nem foi menor a confiança que Quero levantar do pó e enriquecer
inspira a nós, pecadores; sua patemal cle- os pobres, derrubar os soberbos e exaltar
mência não se esgotou com os apóstolos os humildes, iluminar os cegos que jazem
e discípulos, suportando suas faltas, im- nas trevas da morte (Is 9,2); quero enal-
perfeições, inclinações e paixões naturais. tecer meus amigos e escolhidos, e dar a
Estreou-se neles com tão admirável gene- conhecer meu grande e santo nome.
rosidade, para confortar nosso coração e Na execução desta minha vontade,
não nos desanimarmos com as inume- santa e eterna, quero que tu, minha querida
ráveis imperfeições de nossa condição ter- eleita, cooperes com teu amado Filho, o
rena e frágil acompanhes e imites. Eu estarei contigo
em tudo o que fizeres.
Maria, cooperadora de Cristo
Oração de Maria
1020. Tudo quanto nosso Salvador
fazia na pregação e na vocação dos Após- 1021. Supremo Rei de todo o uni-
tolos e discípulos, era conhecido pela verso - respondeu Maria santíssima - de
Rainha do céu, oelos modos de que já falei cuja mão todas as criaturas receberam a
diversas vezes* \ Agradecia ao eterno Pai existência e a conservação. Ainda que este
pelos primeiros discípulos; em, espírito os vil bichinho seja pó e cinza, por vossa dig-
conhecia e aceitava por filhos espirituais, nação, falarei em vossa real presença (Gn
como o eram de Cristo nosso Senhor. Com 18,27).
cânticos de louvor e alegria espiritual os Recebei, pois, ó altíssimo Senhor
oferecia novamente a Deus. e Deus eterno, o coração de vossa serva
Nesta ocasião do chamado dos que ofereço preparado para o cumpri-
primeiros discípulos, teve uma visão par- mento de vosso beneplácito. Recebei o
ticular. O Altíssimo lhe manifestou no- sacrifício e holocausto, não só de meus
vamente a determinação de sua vontade, lábios, mas do íntimo de minha alma, para
eterna e santa, sobre a redenção humana e obedecer à eterna sabedoria que mani-
como seria começada pela pregação de seu festais â vossa escrava. Aqui estou pros-
Filho santíssimo. trada ante vossa presença e majestade su-
Disse-lhe o Senhor: Minha filha, prema. Faça-se em Mim, inteiramente,
pomba escolhida entre milhares, é ne- vossa vontade e prazer.
cessário que acompanhes meu Unigênito Mas, se fosse possível, ó poder in-
e teu, nos trabalhos da redenção humana. finito, eu quisera sofrer e morrer, ou com
Aproxima-se o tempo de seu sofrimento vosso Filho e meu, ou no lugar dele. Esta
e de Eu abrir, por este meio, os tesouros seria a satisfação de todos os meus dese-
de minha sabedoria e bondade para enri- jos, a plenitude de meu gozo: que a espada
quecer os homens. de vossa justiça ferisse a Mim, pois fui
Por meio de seu Redentor e Mes- mais próxima da culpa, enquanto meu
tre, quero redimi-los da servidão do pe- Filho santíssimo é impecável por natureza
cado e do demônio; derramando a abun- e pelos dons de sua divindade.
dância de minha graça e dons no coração Compreendo, Rei justíssimo, que
dos mortais que se dispuserem para co- sendo vós o ofendido pela injúria da culpa,
Quinto Livro - Capítulo 28

vossa equidade exige satisfação de pessoa


que vos iguale, e todas as criaturas se dis-
Nestas disposições, saiu nos
Rainha da visão descrita. O Altíssimo ^
1
tanciam infinitamente desta dignidade. denou novamente aos anjos que a assjs
Entretanto, é também verdade que qual- tiam, para a servirem e guiarem em tud
quer uma das obras de vosso Unigênito o que iria fazer. Assim o executara^
humanado é super-abundante para a Re- como fidelíssimos ministros do Senhor
denção, e Ele já fez muitas. Se além delas, acompanhando-a e servindo-a por toda '
é possível que eu morra para poupar sua parte, comummente em forma visível
vida de inestimável preço, estou pronta
para morrer. DOUTRINA QUE ME DEU A
Mas, se vosso decreto é irrevo- MESMA RAINHA E SENHORA.
gável, concedei-me Pai e Deus altíssimo,
que eu empregue minha vida como a sua.
Nisto aceitarei vossas ordens, como obe- Amor divino e amor humano
deço em acompanhá-lo e participar de
seus trabalhos. Assista-me o vosso poder, 1023. Minha filha todas as obras
para eu acertar em imitá-lo e cumprir de meu Filho santíssimo manifestam seu
vosso beneplácito e meu desejo. amor divino pelas criaturas, e quão dife-
rente é do amor que elas têm entre si'
Sendo tão limitadas, estreitas, avarentase
Semelhança de Maria com Cristo ineficazes, em geral não se inclinam ao
amor, a menos que sejam atraídas por al-
1022. Não é possível explicar mais gum bem naquilo que amam. Deste modo,
sobre o que entendi dos atos admiráveis e o amor da criatura nasce do bem que en-
heróicos que nossa Rainha e Senhora fez contra em seu objeto.
nesta ocasião, e o fervor ardentíssimo com O amor divino, porém, como se
que desejou morrer e sofrer, ou para evitar origina em si mesmo, e é eficaz para fazer
a paixão e morte de seu Filho santíssimo, o que quer, não procura a criatura por
ou para morrer com Ele. supô-la digna, mas sim torna-a digna
Os atos de amor afetivo desejando amando-a. Por esta razão, nenhuma alma
coisas até impossíveis, agradam tanto a deve desconfiar da bondade divina.
Deus, que os aceita e os recompensa como Por outro lado, esta verdade não
realizados, quando nascem de um sincero deve levar a confiar vã e temerariamente,
coração. Que teria merecido a Mãe da esperando que o amor divino realize efei-
graça e do amor, nestes oferecimentos de tos de graça que se desmerece.
sua vida? Nem, o pensamento angélico, Neste amor e dons, guarda o Altís-
nem o humano chegam a compreender tão simo uma ordem dejustiça imperscrutável
alto mistério de amor. Ter-lhe-ia sido às criaturas. Ainda que a todas ama e quer
suave sofrer e morrer, enquanto lhe foi salvar (1 Tim 2, 4), os dons e efeitos de
muito mais doloroso ver seu Filho padecer seu amor, que a ninguém recusa, distribui
e morrer, ficando Ela com vida, como direi com certa medida e peso. Visto não poder
em seu lugar*2* a criatura investigar e conhecer este
Daqui, se depreende a semelhança segredo, deve procurar não perder a
que a glória de Maria santíssima tem com a primeira graça e vocação. Ela não sabe se,
de Cristo, e a que teve a graça e a santidade por esta ingratidão, desmerecera a
desta grande Senhora com as de seu modelo. segunda graça, enquanto pode tercertez3
Tudo era na medida do máximo amor que que não lhe será negada, se não se fizer
numa pura criatura se pode imaginar. indigna.
2 - tf 1376

170
Quinto Livro Capítulo 28

Estes efeitos do amor divino Ainda que foi especialíssima


começam na alma, por uma luz interior graça terem sido formados, com a pa-
que censura os pecados e manifesta seu ciência e constância como o Senhor o
mau estado e perigo de morte eterna. A fez, eles também corresponderam e pra-
soberba humana, porém, torna os homens ticaram a doutrina de seu Mestre. Ape-
tão insipientes e duros de coração (SI 4, sar de frágeis por natureza, não se indis-
3), que muitos resistem à esta luz. Outros punham para receber maiores auxílios
são lentos e nunca acabam por se resolver. divinos, e estendiam seus desejos a
Com isto, perdem o fruto da primeira in- muito mais do que podiam.
fluência do amor de Deus, e se indispõem Na prática deste verdadeiro e fiel
para outros efeitos. E, como sem o socorro amor, quero que me imites nos desejos que
da graça, a criatura não pode evitar o mal tive de morrer por meu Filho santíssimo
nem fazer o bem, nem conhece-lo, daqui e com ele, se me fora concedido. Prepara
procede ir se despenhando de um abismo teu coração para o que te mostrarei adiante
em outro (SI 41,8). sobre a morte do Senhor e o resto de minha
Não aproveitando a graça, afasta- vida, a fim de realizares o mais santo e
a, desmerece outros auxílios, e a ruína perfeito.
vem a ser inevitável, pelas sucessivas Advirto-te, minha filha, que tenho
quedas em abomináveis pecados. da espécie humana uma queixa, que em
outras vezes já referi: a pouca atenção e
A quem muito se deu, muito será esquecimento dos mortais, para consi-
pedido derar o quanto meu Filho e eu trabalhamos
por eles. Consolam-se em crer que foi
1024. Atende, pois, caríssima, à muito e, como ingratos, não pesam o bene-
luz que em tua alma o Altíssimo infundiu. fício que de cada ato nosso recebe, nem a
Quando não ti veras outra, a que re- correspondência que lhe devem.
cebeste com a notícia de minha vida te Não me dês tu este desgosto, pois
acarreta tal responsabilidade que, se não te faço capaz e participante de tão ve-
correspondes, serás aos olhos de Deus, neráveis segredos e magníficos sacramen-
dos meus, e na presença dos anjos e dos tos, nos quais encontrarás a luz, o ensina-
homens, mais repreensível do que qual- mento e a prática da mais sublime per-
quer dos nascidos. feição. Eleva-te acima de ti mesma, tra-
Sirva-te também de exemplo o que balha com diligência, para que te seja dada
fizeram os primeiros discípulos de meu graça sobre graça e, correspondendo a ela,
Filho santíssimo, e a prontidão com que o entesoures muitos merecimentos para a
seguiram e imitaram. eternidade.

171
Quinto Livro - Capítulo 28
CAPÍTULO 29
VOLTA DE CRISTQ A NAZARÉ COM OS CINCO
PRIMEIROS DISCÍPULOS. BATISMO DE MARIA
SANTÍSSIMA.
Jesus fala de sua Mãe aos primeiros fundíssima reverência e amor por Ela, de
discípulos modo que ansiavam por vê-la e conhecer
tão divina criatura.
1025.0 místico edifício da Igreja Assim procedeu o Senhor pelo
militante que se eleva até as misteriosas grande zelo da honra de sua Mãe, e pelo
alturas da divindade, tem por- funda- interesse dos próprios discípulos, em ter
mento a inabalável firmeza da santa fé por Ela conceito e veneração. Ainda que
católica, sobre a qual assentou-a nosso todos ficaram divinamente instruídos,
Redentor e Mestre, prudente e sábio ar- quem mais se distinguiu neste amor foi
quiteto. São João. Desde que ouviu o divino Mes-
Para estabelecer nesta firmeza as tre falar da dignidade e excelência de sua
primeiras pedras fundamentais, os primei- Mãe puríssima, foi crescendo no apreço e
ros discípulos que chamou, desde logo estima de sua santidade, como quem
começou a instrui-los nas verdades e estava destinado a gozar dos maiores
mistérios relacionados com sua divindade privilégios no serviço de sua Rainha,
e humanidade santíssima. Para se dar a como adiante direi e consta de seu Evan-
conhecer por verdadeiro Messias e Reden- gelho.
tor do mundo, por nossa salvação descido
do seio do Pai assumindo a natureza hu-
mana, era como necessário e conseqüente Os discípulos desejam conhecer Maria
declarar-lhes o modo de sua Encarnação
no seio virginal de sua Mãe santíssima. 1026. Estes cinco primeiros dis-
Convinha que a conhecessem e veneras- cípulos pediram ao Senhor dar-lhes a sa-
sem por verdadeira Mãe e Virgem e, as- tisfação de ver e venerar sua Mãe. Con-
sim, instruiu-os sobre este mistério e os cordou o Mestre e depois que entraram na
demais que dizem respeito à união Galiléia, encaminharam-se diretamente à
hipostática e à redenção. Nazaré. Ia pregando e ensinando publi-
Com esta doutrina celestial foram camente, apresentando-se como Mestre
alimentados estes novos filhos primo- da verdade e da vida etema.
gênitos do Salvador. Antes de chegarem à Muitos começaram a ouvi-lo e a
presença da grande Rainha e Senhora, já acompanhá-lo, atraídos pela força de sua
tinham concebido alto conceito de suas doutrina e pel a luz da graça que derramava
excelências, sabendo que era virgem antes nos corações que a acolhiam. Mas, por en-.
do parto, no parto e depois do parto. In- tão, não chamou outros, além dos cinco
fundiu-lhes Cristo, nosso Senhor, pro- discípulos que levava.

173
Quinto Livro • Capítulo 29
t

E digno de reparo que, tendo sido rava-se para recebê-lo com os discípul0s
tào ardente a devoção que eles conce- que trazia. De tudo tinha notícia a grande
beram pela divina Senhora, e tão evidente Senhora e preparou a hospedagem. Arru¬
para eles sua dignidade entre todas as mou sua pobre casinha e, solícita, apron-
criaturas, não divulgaram sua admiração. tou a refeição necessária, pois em tudo era
Pareciam ignorar estes mistérios e prudentíssima e atenciosa.
ficar mudos para deles falar. Assim dispôs
a Sabedoria do céu, porque não convinha,
que no princípio da pregação de Cristo, Maria recebe Jesus c os discípulos
fosse publicado entre os homens. Estava
a nascer o Sol de justiça para as almas 1028. Quando o Salvador do mun-
(Mal 4, 2), e era necessário que seu es- do chegou em casa, a divina Mãe estava â
plendor se estendesse por todas as nações. porta esperando-o. Prostrou-se adorando-
Ainda que a lua, sua Mãe santís- o, beijou-lhe os pés e depois as mãos pe-
sima, estava no plenilúnio da santidade, dindo-lhe a bênção. Fez uma confissão
era conveniente que se conservasse ocul- altíssima e admirável à santíssima Trin-
ta. Brilharia em a noite que desceria sobre dade e à humanidade de seu Filho, tudo
a Igreja, quando aquele Sol se retirasse em presença dos novos discípulos. Este
subindo ao Pai. procedimento não era sem razão. A sobe-
Assim aconteceu, e então refulgiu rana Rainha, além de prestar a seu Filho
a grande Senhora, como direi na terceira santíssimo o culto e adoração que lhe era
parte. Por enquanto, sua excelência e san- devido como verdadeiro Homem-Deus,
tidade foi revelada só aos apóstolos, para quis também retribuir a honra com que Ele
que a conhecessem, a venerassem e a ou- a exaltara ante os discípulos.
vissem, como digna Mãe do Redentor do O Filho ausente os instruíra sobre
mundo e Mestra de toda virtude e santi- a dignidade de sua Mãe, e da veneração
dade. com que deviam tratá-la e respeitá-la. A¬
gora, em sua presença, a prudente e fiel
Mãe quis ensinar aos discípulos o modo e
Jesus e os discípulos dirigem-se para veneração com que deviam tratar seu
Nazaré divino Mestre que era seu Deus e Reden-
tor.
1027. Prosseguiu seu caminho Os atos de tão profunda humildade
nosso Salvador para Nazaré, instruindo e culto com que a grande Senhora recebeu
seus novos filhos e discípulos, não só nos e tratou Cristo Salvador, realmente in-
mistérios da fé como em todas as virtudes, fundiu nos discípulos nova admiração, de-
com palavras e exemplos, como o fez du- voção e reverenciai temor pelo divino
rante todo o tempo de sua pregação evan- Mestre. Daí em diante serviu-lhes de
gélica. modelo na virtude da religião.
Visitava os pobres e aflitos, conso- Desde esse momento, Maria san-
lava os tristes e enfermos nos hospitais e tíssima começou a ser Mestra e Mãe
nos cárceres, e por todos fazia admiráveis espiritual dos discípulos de Cristo, no im-
obras de misericórdia corporal e espiri- portante exercício da intimidade com seu
tual. Só não manifestou seu poder de fazer Deus e Redentor. Essa atitude aumentou
milagres, até as bodas de Caná, como direi a devoção dos discípulos por sua Rainha,
no capítulo seguinte. e de joelhos diante dela, pediram-lhe que
Enquanto nosso Salvador fazia os recebesse por filhos e escravos. 0
esta viagem, sua Mãe santíssima prepa- primeiro a fazer esta reverência e ofere-

174
Quinto Livro - Capítulo 29

cimento foi São João que sempre se avan- Naquela noite, após se terem reco-
tajou aos outros apóstolos, na estima e lhido os hóspedes, o Salvador foi ao ora-
veneração de Maria santíssima. Por sua tório de sua Mãe puríssima, como costu-
vez, a divina Senhora lhe devotou especial mava, e a humilíssima entre os humildes
afeição, pois além de ser virgem, era prostrou-se a seus pés, como sempre fazia.
afável, manso e humilde. Ainda que não tinha culpa de que
se acusar, pediu ao Senhor perdoá-la de O
servir tão pouco e não corresponder me-
Humildade de Maria lhor a seus imensos benefícios. Em sua
humildade, tudo parecia pouco à grande
1029. A grande Senhora hospedou Rainha, em comparação do que devia ao
os discípulo, serviu-lhes a refeição, sem- amor infinito e aos dons que d'Ele rece-
pre atenta a todas as coisas, com a solici- bera. Confessava-se por inútil quanto o pó
tude de Mãe e majestade de Rainha que da terra.
unia em sua incomparável sabedoria, com O Senhor levantou-a do solo e lhe
admiração dos próprios anjos. A seu Filho falou palavras de vida eterna, porém, com
santíssimo servia de joelhos com pro- serena majestade. Nesta época tratava-a
funda reverência. com mais gravidade para lhe dar ocasião
Além destes atos de veneração, de padecer, como adverti acima^ na
dizia aos apóstolos palavras de grande despedida do Salvador, quando este se
peso sobre a majestade de seu Mestre e dirigiu ao deserto.
Redentor, para catequizá-los na doutrina
verdadeiramente cristã.
Maria é batizada por Jesus
1030. A beatíssima Senhora pediu
a seu Filho santíssimo o sacramento do
Batismo que havia instituído, como já lhe
tinha prometido^. Para celebrá-lo com
solenidade digna do Filho e da Mãe purís-
sima, por divina ordem desceu do céu inu-
merável multidão de anjos em forma
visível.
Com esta assistência, o próprio
Cristo batizou sua Mãe puríssima, ou-
vindo-se então a voz do eterno Pai
dizendo: Esta é minha filha querida em
quem eu me comprazo. - O Verbo hu-
manado disse: Esta é minha Mãe amadá
que eu escolhi e que me acompanhará em
todas minhas obras. - O Espírito Santo se
fez também ouvir com estas palavras: Esta
é minha Esposa escolhida entre milhares.
Sentiu e recebeu a puríssima Se-
nhora tantos e tão divinos efeitos em sua
alma que não cabem em palavras hu-
manas. Foi realçada na graça, retocada a
beleza de sua alma puríssima, e toda ele-
l-n°960 - 2-n°831

175
Quinto Livro

vada a mais altos graus de santidade. Com a caridade que Deus Q,


comunicou, recebo-os de braços abertos
Recebeu a iluminação do caráter e serei sua intercessora e advogada. TU
que este Sacramento produz, o sinal que que és a mais inútil, pobre e desvali^
marca os filhos de Cristo em sua Igreja e servirás de exemplo para mais se manii
todos os demais efeitos, fora da remissão festar minha liberalíssima piedade, e p 0r
do pecado que ela não tinha e nunca teve. isso te chamo e convido para minha carís-
Pela humildade em receber este Sacra- sima, destinguida na Igreja por minha es-
mento ordenado para a purificação da pecial devota.
culpa, Ela mereceu altíssimos graus de
graça.
O batismo da Senhora asseme- O exemplo de São João
lhou-se ao de Cristo no mérito, ainda que
só Ela recebeu aumento de graça, porque 1032. Esta promessa, todavia, se
Cristo não o podia receber Com os santos cumprirá com uma condição de tua parte.
anjos, entoou a humilde Mãe um cântico Se tens, verdadeiramente, santa inveja do
de louvor pelo Batismo que recebera, e amor que tive a meu filho João, e da afeição
prostrada ante seu Filho, lhe deu afetu- santa com que ele me correspondeu, então
osíssimas graças. deves imitá-lo com toda perfeição, con-
DOUTRINA QUE ME DEU A forme tuas forças. Isto me deves prometer
RAINHA DO CÉU. e cumprir, sem faltar ao que te ordeno.
Antes, porém, quero que te esforces
em morrer ao amor próprio e a todos os efei-
Mãe piedosíssima tos do primeiro pecado, e em extinguir as
inclinações terrenas que dele procedem. De-
1031. Minha filha, vejo-te com ves voltai* ao estado de pureza e simplici-
muita inveja da grande felicidade dos dade que destrói toda malícia e duplicidade
discípulos de meu Filho santíssimo, em Em todas tuas operações deves ser anjo, pois
particular de São João, meu servo a dignação do Altíssimo foi tão liberal con-
predileto. E certo que eu lhe tive amor es- tigo, que te deu luz e inteligência mais de
pecial, porque era puríssimo e cândido anjo do que de criatura humana.
como singela pomba. Por estas virtudes, Sou eu que te obtenho estes gran-
e pelo amor que me dedicava, era muito des benefícios, e é razão que lhes corres-
agradável aos olhos do Senhor. pondas no pensar e no agir Deveras ter
Quero que este exemplo te sirva de incessante afeto e amoroso cuidado em
estímulo no modo de procederes comigo servir-me e dar-me gosto, estando sempre
e com o Senhor. Não ignores, caríssima, atenta a meus conselhos, com os olhos fi-
que sou Mãe piedosíssima, e que acolho tos em minhas mãos, para saber o que te
com maternal coração a todos que, com ordeno e prontamente executá-lo. Deste
fervor e devoto afeto, querem ser meus modo, serás minha verdadeira filha, e eu
fi-lhos e servos de meu Senhor. tua protetora e amorosa Mãe.

FIM DO 5o LIVRO

176
LIVRO SEXTO E QUARTO DA
SEGUNDA PARTE

CONTÉM: as bodas de Caná na Galiléia; como a Mãe do


Redentor do mundo acompanhou-o na pregação; humildade da
divina Rainha por ocasião dos milagres de seu Filho santíssimo;
transfiguração de Cristo; sua entrada em Jerusalém; sua paixão e
morte; o triunfo que obteve na cruz sobre Lúcifer e seus
sequazes; a santíssima Ressurreição do Salvador e sua admirável
Ascensão ao céu.

177
CAPÍTULO 1
INICIO DA MANIFESTAÇÃO DO SALVADOR PELO
MILAGRE NAS BODAS DE CANÁ A PEDIDO DE SUA MÃE
SANTÍSSIMA.
Jesus e seus discípulos são lado de SanfAna. Estando a grande
convidados para as bodas de Caná Rainha em Caná, os noivos tiveram no-
tícia da vinda de Jesus com os discípulos.
1 0 3 3 . 0 evangelista São João que, Por intermédio de sua Mãe santíssima e
no fim do capítulo 1 refere a vocação de vontade do mesmo Senhor, que assim dis-
Natanael, quinto discípulo de Cristo, punha para seus altos fins, Ele foi convi-
começa o segundo capítulo da narração dado com seus discípulos para a festa.
evangélica, dizendo: Ao terceiro dia, rea-
lizaram-se umas bodas em Caná da Gali-
léia, e a Mãe de Jesus ali se encontrava. Concordância da narração da
Jesus e seus discípulos também foram Escritora com o Evangelho
convidados paia a festa. (Jo 2,1).
Daqui parece que a divina Senhora 1034. O terceiro dia referido pelo
já estava em Caná, antes de seu Filho ser Evangelista, foi o terceiro dia da semana
convidado. Para concordar esta passagem dos hebreus. Ainda que não o diga expres-
com o que deixo dito no capítulo passado, samente, tampouco diz que foi o terceiro
e saber qual seria este "terceiro dia" fiz al- depois da vocação dos discípulos e da en-
gumas perguntas por ordem da obediência. trada na Galiléia. Se se referisse a isto te-
Foi-me respondido que, não obs- lo-ia dito. Era, porém, naturalmente, im-
tante, as diversas opiniões dos exposi- possível que estas bodas fossem ao ter-
tores, a História da Rainha concorda com ceiro dia depois da vocação dos discípulos
o Evangelho, e o fato foi nesta forma: e da entrada na Galiléia, pois Caná está
Cristo, nosso Senhor, com seus cinco situada nas fronteiras da tribo de Zabulom
Apóstolos, ao entrar na Galiléia foi direto com a Fenícia, ao norte onde se encon-
a Nazaré, pregando e ensinando. trava a tribo de A ser em relação à Judéia.
Nesta viagem levou alguns dias, Distancia-se muito do ponto da
mais que três. Chegando a Nazaré, batizou fronteira que Jesus transpôs paia passai'
sua Mãe santíssima como fica dito, e da Judéia pai a a Galiléia. Se o terceiro dia
saiu pelos lugares vizinhos a pregar com tivesse sido o das bodas, só teriam dois
seus discípulos. Neste ínterim, a Divina dias para vir da Judéia à Caná, cuja distân-
Senhora foi convidada paia a festa de cia leva três dias de viagem. Estaria, então
casamento, da qual fala o Evangelista. Era próximo de Caná, antes de ser convidado,
de^uns^primos seus, em quarto grau, pelo e para isto era necessário mais tempo.
T-n° 1030"
179
""1
Sexto Livro - Capítulo 1

Além disto, para ir da Judéia à Sucedeu esta maravilha no


Caná da Galiléia teria que passar por Na- em que se completava um ano do ba.
zaré, porque Caná está situada mais para tismo de Cristo nosso Salvador, e ocor-
a frente na direção do Mar Mediterrâneo, ria no mesmo dia da adoração dos
vizinha da tribo de Aser, conforme falei. Magos, como o comemora a Santa
O Salvador do mundo teria ido Igreja, celebrando estes três mistérios a
primeiro visitar sua Mãe Santíssima que seis de Janeiro.
o esperava em sua casa, pois não ignorava Contava Cristo, nosso Senhor
sua vinda. trinta anos de idade completos, mais os
Se o Evangelista não narrou esta treze dias que há do Natal à Epifania.
visita nem o batismo da divina Senhora,
não foi por não terem aconteci do, mas por-
que falou só o que interessava à sua in- O matrimônio é elevado a sacramento
tenção. O mesmo São João confessa que
muitos milagres operados pelo divino 1036. Entrou o Mestre da vida na
Mestre não foram escritos (Jo 20,30), poj casa dos noivos e saudou seus moradores,
não ser necessário, referi-los todos. dizendo: A paz do Senhor e a luz esteja
Com esta explicação, fica en- convosco. Estava, realmente, na sua divi-
tendido o Evangelho e a concordância na pessoa.
dele com este ponto da História de sua Em seguida, fez uma exortação de
Mãe santíssima vida eterna ao noivo, instruindo-o nas
obrigações de seu estado, para nele ser
santo e perfeito. O mesmo fez a Rainha
Cristo santifica o matrimônio do céu com a neo-esposa, a quem, com
pala-vras ameníssimas e eficazes, ad-
1035. Estando, pois, a Rainha do moestou ao cumprimento de seus deveres.
mundo em Caná, seu Filho santíssimo Ambos corresponderam a esta graça e
com os primeiros discípulos foram convi- viveram com perfeição o estado que
dados para as bodas. tiveram a felicidade de abraçar na pre-
Sua benignidade, que tudo dis- sença dos Reis do céu e da terra.
punha, aceitou o convite. Foi com o fim Não vou demorar a explicar que
de santificare honrar o matrimônio, e para este noivo não era São João Evangelista.
começar a confinnar sua doutrina com um Basta saber que, como disse no capítulo
milagre público. passado, ele vinha como discípulo do Sal-
Apresentando-se como Mestre, re- vador, e nesta ocasião o Senhor não pre-
crutando discípulos, era necessário con- tendeu dissolver o matrimônio. Se veio as-
firmá-los na vocação, autorizando a credi-sistir às bodas, foi para autorizá-lo e san-
bilidade e aceitação de sua doutrina. Já tificá-loelevando-o a Sacramento. Seria,
operara o Senhor muitos prodígios, mas pois, uma contradição, dissolvê-lo nesse
ocultamente, sem se revelai" por autor próprio momento. O Evangelista, tam-
deles como nesta ocasião. Por isto, o pouco, jamais teve intenção de se casar.
Evangelista chama este milagre (Jo 2,11), Havendo exortado aos desposa-
primeiro dos sinais que fez Jesus em Caná dos, fez nosso Salvador fervorosa oração
da Galiléia. O mesmo Senhor disse a sua ao Pai eterno, suplicando-lhe que, na lei
Mãe santíssima que até então não chegara da graça, abençoasse a propagação hu-
sua hora. (Jo 2,4). mana e, daí em diante, desse ao ma"

180
Sexto Livro - Capítulo 1

trimônio graça para santificar aos que o e o retraimento que fecha a entrada de
abraçassem na Santa Igreja, e fosse um de muitos vícios e servem de coroa à mulher
seus sacramentos. casta e honesta.

Sociabiüdade de Jesus e Maria Maria percebe a falta de vinho


1037. A virgem santíssima, ciente 1038. À mesa, o Senhor e sua Mãe
da vontade e da oração de seu Filho san- santíssima comeram alguns manjares
tíssimo, acompanhou-o, cooperando nes- servidos, com grande temperança, mas
ta, como em todas as outras obras, que Ele sem que esta abstinência chamasse a
realizava a favor da linhagem humana. atenção.
Como tomara por sua conta o agrade- Quando estavam a sós, não co-
cimento que os homens deviam por estes miam tais alimentos, como antes tenho
benefícios, fez um cântico de louvor ao dito^. Sendo contudo mestres da per-
Senhor, convidando os anjos para nele feição que não pretendiam reprovar a vida
participarem. Tudo isto era manifesto comum dos homens, mas sim aperfeiçoá-
apenas ao Senhor e Salvador nosso que se la com seus exemplos, acomodavam-se
comprazia na sabedoria e nos atos de sua aos outros, sem exageros e singulari-
Mãe puríssima, do mesmo modo que ela dades, no que não era reprovável e se po-
nos de seu Filho. dia fazer com perfeição.
No mais, conversavam e se entre- Assim como ensinou pelo exem-
tinham com os demais convidados, po- plo, o Senhor deixou também como dou-
rém, com sabedoria e gravidade dignas de trina aos apóstolos, ordenando-lhes que
suas pessoas, e com a finalidade de tocar quando fossem pregar, comessem o que
os corações dos circunstantes. lhes fosse apresentado (Mt 10, 10; Lc
A prudentíssima Senhora falava 10,8). Não deveriam se fazer singulares,
muito pouco, só por necessidade ou quan- imperfeitos e pouco sábios no caminho
do interrogada. Tinha a atenção sempre da virtude, porque o verdadeiro pobre e
fixa nas palavras e atos de Jesus, para humilde não faz escolha de manjares.
guardá-los e meditá-los em seu santíssimo Permitiu Deus que faltasse o vinho
coração. Raro exemplo de prudência e para dar motivo ao milagre, e a piedosa
modéstia foram as palavras e todo o pro- Rainha disse ao Salvador (Jo 2,3-4): Se-
ceder desta grande Rainha no decurso de nhor, não há mais vinho para o banquete.
sua vida. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, que im-
Nesta ocasião, foi exemplo não só porta a mim e a Ti? Ainda não chegou
para as religiosas, mas especialmente para minha hora.
as mulheres do século. Se dele se lembras- Esta resposta de Cristo não foi de
sem, em circunstâncias seme-lhantes às repreensão, mas de mistério. A prudentís-
daquela festa de casamento, aprenderiam sima Senhora não pediu o milagre casual-
a calar, a se moderar, e a compor-se inte- mente. Com luz divina, conheceu que já
rior e exteriormente sem leviandade e de- era tempo oportuno para o poder de seu
senvoltura. A tempe-rança nunca é tão ne- Filho santíssimo se manifestar. Não podia
cessária como quando há maior perigo. ignorar isso, quem estava repleta de sabe-
Nas mulheres sempre é maior adorno, doria e da ciência das obras da Redenção,
beleza e atrativo, o silêncio, a moderação, com a respectiva ordem dos tempos e
2-n°898.
Soxto Livro - Capilulo 1
ocasiões em que o Salvador iria executá- lagres não recebi de ti, apesar de me te
las. dado a natureza humana com a qual S
É ainda paia se advertir, que Jesus farei. Só à minha divindade compete f*J
não pronunciou estas palavras com sem- los, e para ela não chegou a minha hora
blante de censura, mas com liberal e Nesta palavra deu a entender qUt
afável serenidade. Não deu à Virgem o determinar prodígios não pertencia à SUa
nome de Mãe, mas de mulher, porque en- Mãe santíssima, mas sim à vontade de
tão não a tratava com palavras de muito Deus, ainda que a prudentíssima Senhora
Í3) os pedisse em tempo oportuno. Que n'Ele
havia além da humana, outra vontade, a
carinho, como acima dissev ; . divina, superior à de sua Mãe. A vontade
Interpretação da resposta de Cristo divina não estava subordinada à da Màe
Pelo contrário, a da Mãe é que estava su-
1039. O mistério da resposta de jeita à divina que Ele possuía como ver¬
Cristo nosso Senhor, consistiu em confir- dadeiro Deus.
mar os discípulos na fé da sua Divindade, Para efeito de tudo isto, infundiu o
e começar a manifestá-la aos demais, Senhor, no interior de seus discípulos,
mostrando-se Deus verdadeiro, inde- nova luz para conhecerem a uniào
pendente de sua mãe no ser divino e no hipostática das duas naturezas na pessoa
poder de operar milagres. de Cristo: a humana que recebera de sua
Por este motivo chamou-a mu- Mãe, e a divina por geração eterna de seu
lher em vez de Mãe. Que te importa, ou Pai.
que temos a ver, Tu e Eu, com isto? Foi
o mesmo que dizer: o poder de fazer mi-
Cristo transforma água em vinho
1040. Conheceu a grande Senhora
todo o mistério das palavras de seu Filho,
e com afável gravidade, disse aos criados
que serviam à mesa (Jo 2, 5): Fazei tudo
o que meu Filho ordenar.
Estas palavras supõem que a pru-
dente Mãe conhecia a vontade de Cristo.
Mestra de toda a linhagem humana, ensinou
os mortais que, para remediar todas nossa
precisões e misérias, é necessário e sufi-
ciente de nossa parte, fazer tudo o que
manda o Senhor e os que estão em seu lugar
Tal doutrina só poderia vir desta
Mãe advogada, desejosa de nosso bem e
conhecedora da causa que impede o podei
divino de fazer muitos e grandes
prodígios. Quis nos ensinar o remédio de
nossa misérias e enfennidades, Ievando-
nos ao cumprimento da vontade do Altís-
simo, na qual consiste todo o nosso bem
n° 960.

182
Sexto Livro - Capítulo 1

O Redentor do mundo ordenou aos não negou que fez outros antes, de modo
serventes que enchessem de água as oculto, mas o subentendeu como se
hídrias (Jo 2, 7) ou talhas que os hebreus dissesse; neste milagre manifestou sua
usavam paia suas abluções. Tendo-as glória que não tinha manifestado em ou-
enchido, o Senhor mandou que tirassem tros anteriores, por não ser o tempo opor-
delas o vinho e o levassem ao arquitri- tuno determinado pela divina Sabedoria.
clínio que presidia a mesa e era um dos Só no Egito fizera muitos e admiráveis,
sacerdotes da lei. como a ruína dos templos e seus ídolos,
Tendo experimentado o milagroso conforme fica dito .
vinho, admirado, chamou o noivo e disse: Nestas ocasiões, Maria santíssima
(Jo 2,10) Qualquer homem bem avisado, fazia atos de insigne virtude em louvor do
serve primeiro o melhor vinho, e quando Altíssimo, e em ação de graças pela mani-
os convidados já estão satisfeitos, então festação de seu santo nome. Atendia ao
dá o pior. Tu, porém, fizeste o contrário, consolo dos novos crentes e ao serviço de
pois guardaste o mais generoso para o fimseu Filho santíssimo e a tudo acudia com
da refeição. incomparável sabedoria e prestimosa
caridade. Espiritualmente, exercitava-a
fervorosíssima, suplicando ao eterno Pai
Efeitos do milagre dispusesse o ânimo e o coração dos
homens a serem iluminados pela luz das
1041. Não sabia o arquitriclínio do palavras do Verbo Humanado, e arran-
milagre, quando provou o vinho, porque cados das trevas da ignorância.
estava na cabeceira da mesa, enquanto
Cristo Senhor nosso com sua Mãe santís- DOUTRINA QUE ME DEU A
sima e os discípulos estavam mais para GRANDE RAINHA E SENHORA
baixo. Praticavam o que depois ensi- DO CÉU.
nariam com a doutrina (Lc 14,8,10): que
nos banquetes não se cobice o melhor
lugar, mas voluntariamente escolha-se o A falta de zelo
último.
A maravilha de nosso Salvador ter 1042. Minha filha, não tem des-
convertido água em vinho, rapidamente culpa o esquecimento e descaso dos fi-
se propagou; manifestou-se sua glória e lhos da Igreja, em procurar que o santo
seus discípulos creram n'Ele, como diz o nome de Deus seja conhecido por todas
Evangelho (Jo 2,11), confirmando-se a fé as criaturas racionais, para manifestação
inicial que já tinham. Não só eles, mas ou- e aumento de sua glória.
tros muitos presentes, creram que era o Esta negligência é ainda mais
verdadeiro Messias e o seguiram, culpável, depois que o eterno Verbo se en-
acompa-nhando-o até a cidade de Cafar- carnou em meu seio, instruiu e redimiu o
naum (Mt4,13), para onde se dirigiu com mundo pai a o mesmo fim.
sua Mãe e os discípulos. Conforme diz o Paia isso estabeleceu a Santa
Evange-lista S. Mateus, nesta cidade Igreja, enriqueceu-a de bens e tesouros
começou a pregar, apresentando-se como espirituais, de ministros e outros bens
mestre. temporais. Tudo isto não deve servir ape-
Dizendo São João que, com este nas para conservação da Igreja e dos seus
milagre o Senhor manifestou sua glória, filhos atuais, mas ainda paia propagá-la e
4 -n° 643, 646, 665
183
Sexto Livro - Capítulo 1

lhe trazer outros novos na regeneração da Pedir operários para a messe


fé católica. Todos devem colaborar nisso
para que se aproveite mais ofioitoda morte 1043. Quero que sintas tod0
de seu Redentor. estes males e trabalhos quanto pudere$
Uns podem fazê-lo com orações, para que se manifeste a glória do Altís
súplicas e fervorosos desejos pela di- simo; que Ele se torne conhecido por t0,
latação do santo nome de Deus. Outros das as nações, e das pedras faça fi]h0s
com esmolas, estes com exortações, aque- de Abraão (Mt 3, 8) pois para tudo é
les com trabalho e solicitude. A negligên- poderoso.
cia nisto será menos culpável nos ignoran- Para trazê-las ao suave jugo do
tes e pobres que talvez não encontram Evangelho (Mt 11,30) pede-lhe que en¬
quem lhes recorde essa obrigação. vie operários (Lc 10, 2) ministros
Mais repreensíveis são os ricos e idôneos à sua Igreja, pois grande é a
poderosos, e principalmente os ministros e messe e poucos os fiéis e zelosos traba-
prelados da Igreja, a quem incumbe esta lhadores para conquistá-la. Seja para ti
grave obrigação. Esquecidos da temvel exemplo vivo o que te mostrei sobre a
justiça que os espera, muitos convertem a solicitude e maternal amor com que Eu
verdadeira glória de Cristo em própria van- trabalhava com meu Filho e Senhor para
gloria. Gastam o patrimônio do sangue do lhe conquistar almas, e ajudá-las a per-
Redentor em coisas efinsindignos de serem severar em sua doutrina e seguimento.
nomeados. Por culpa deles perecem inú- Que em teu coração nunca se apague a
meras almas que, com oportunos meios chama deste caridoso zelo. Também
poderiam entrar na santa Igreja. Pelo menos, quero que o silêncio e modéstia que pra-
teriam eles esse mérito, e o Senhor a glória tiquei naquela festa, seja padrão ri-
de possuirfiéisministros em sua Igreja goroso para ti e tuas religiosas medirem
As mesmas contas serão pedidas o recato, moderação e poucas palavras,
aos príncipes e poderosos do mundo que principalmente quando estiverdes na
receberam de Deus honra, riqueza e outros presença de homens. Estas virtudes, são
bens temporais, para empregá-los em sua as galas que adornam a esposa de Cristo,
glória, mas em nada advertem menos do para encontrarem graça a seus divinos
que nesta obrigação. olhos.

Caná da Galiléia (Kefar Kana) a 8 km de Nazaré. Provavelmente esta é a aldeia


onde Jesus começou sua vida pública operando o primeiro milagre.

184
CAPÍTULO 2
MARIA SANTÍSSIMA ACOMPANHA E COLABORA COM O
SALVADOR EM SUA PREGAÇÃO. CUIDA DAS MULHERES
QUE O SEGUIAM, E EM TUDO PROCEDE COM SUMA
PERFEIÇÃO.
Impossível escrever tudo quanto O mais, que não foi escrito pelos
Cristo realizou Evangelistas nos Evangelhos e nem eu
tenho ordem para escrever, fica reservado
1044. Não estaria fora do contexto para a visão beatifica onde, com especial
desta História, nela escrever as heróicas gozo para os Santos, será contemplado no
obras de Cristo, nosso Redentor e Mestre, Senhor, e ali O louvarão eternamente por
porque em quase todas sua Mãe santís- obras tão magníficas.
sima tomou alguma parte.
Não posso, contudo, empreender
tão árduo trabalho que excede as forças e Maria acompanha Jesus
capacidades humanas. O evangelista São
João, depois de haver escrito tantas ma- 1045. De Caná da Galiléia, nosso
ravilhas de seu Mestre divino, diz no fim Redentor se encaminhou para Cafarnaum,
de seu Evangelho, que Jesus fez muitas grande cidade, muito povoada, próxima
outras, e que se fossem todas escritas, os ao mar de Tiberíades. Ali esteve alguns
livros não poderiam caber em todo o dias, como diz o Evangelista São João (Jo
mundo. O que pareceu impossível ao 2,12), mas não muitos, porque chegando
Evangelista, como poderá presumir uma o tempo da Páscoa, foi se aproximando de
ignorante mulher, mais inútil que o pó da Jerusalém para celebrá-la no dia catorze
terra? da lua de Março.
O necessário e conveniente, o Tendo deixado sua casa de Nazaré,
suficiente e superabundante para fundar sua Mãe santíssima acompanhava-o, para
e conservar a Igreja, foi escrito pelos segui-lo na pregação até a cruz. Só em al-
quatro evangelistas e não é preciso gumas ocasiões se separavam por alguns
repetir nesta História. Todavia, para dias, como quando o Senhor foi ao Tabor
compô-la e não deixar em silêncio mui- (Mt 17,1), ou para cuidar de alguma con-
tos dos atos da grande Rainha que eles versão em particular, como a da Samaritana,
não escreveram, será forçoso referir al- ou porque a divina Senhora ficava termi-
gumas particularidades. Escrevê-las e nando de instruir e catequizar algumas pes-
guardá-las na memória, servirá de con- soas. Logo, porém, voltava para a compa-
solo e utilidade para meu aprovei- nhia de seu Filho e Mestre, seguindo o Sol
tamento. de justiça até o ocaso de sua morte.
Sexto Livro - Capitulo 2

Nestas peregrinações, tanto a dispostos e produzisse fruto de Vi(ja


Rainha do céu como seu Filho santíssimo, eterna. Fazia, então, a piedosa Mãe .
caminhavam a pé. Se Jesus se cansou mesma oração pelos ouvintes do divino
nestas caminhadas, como consta do Evan- Mestre, e lhes augurava os mesmos bens
gelho (Jo 4, 6) qual seria o sacrifício da com ardentíssima caridade e lágrimas'
puríssima Senhora, e quantas fadigas sen- Sua profunda reverência e atenção era
tiria em tantas viagens? Com este rigor ensinamento para todos aprenderem 0
tratou a Mãe de misericórdia o seu deli- apreço que deviam fazer das palavras do
cadíssimo corpo, e só neste ponto foi tanto Salvador do mundo.
o que trabalhou por nós, que todos os mor- Conheceu também o íntimo dos
tais jamais lhe poderão pagar o quantolhe que assistiam à pregação de seu Filho san¬
devem. tíssimo, o estado de graça ou de pecado
Algumas vezes, permitiu o Senhor de suas almas, os vícios ou virtudes que
que chegasse a ter tantas dores e falta de possuíam. A diversidade destas dis-
forças, que era necessário sustentá-la mi- posições, ocultos à comum capacidade
lagrosamente. Nestas ocasiões, mandava- humana, produzia na divina Mãe diferen-
a descansar em algum lugar durante al- tes e admiráveis efeitos, todos de altíssima
guns dias. Outras vezes tirava-lhe o peso caridade e de outras virtudes. Inflamava-
do corpo, de modo que andava com tanta se de zelo pela honra do Senhor, e para
facilidade como se voasse. que o fruto de suas obras redentoras não
se perdesse nas almas.
O perigo em que o pecado as colo-
Estima de Maria pela palavra de cava, movia-a a pedir sua salvação com
Cristo incomparável fervor. Sentia íntima e pro-
funda dor de que Deus não fosse co-
1046. A divina Mestra levava nhecido, adorado e servido por todas as
gravada em seu coração toda a doutrina e criaturas; esta pena era proporcionada ao
lei evangélica, como acima expliquer . conhecimento das razões que para isso
Apesar disso, era tão solícita e atenta em havia, e que Ela compreendia mais do que
ouvir a pregação de seu Filho santíssimo, qualquer criatura.
como se fora uma discípula novata. Tinha Pelas almas que não aceitavam a
ordenrdo a seus anjos que a ajudassem, e graça divina, sentia tanta amargura que
se fosse preciso a avisassem, para não per- chegava a chorar sangue. Nestas penas e
der a pregação do divino Mestre, a menos solicitudes, nossa grande Rainha ultrapas-
que estivesse ausente. sou, sem medida, os tormentos de todos
Sempre que Jesus pregava, a os Mártires do mundo.
grande Senhora o ouvia de joelhos e, no
máximo de sua capacidade, só Ela dava o
culto e reverência devidos à sua pessoa e Maria e os discípulos
doutrina.
Como tenho dito muitas vezes, Ela 1047. A grande Senhora tratava
sempre conhecia as operações da alma com incomparável sabedoria e prudência
santíssima de seu Filho. Via que, ao a todos os discípulos que seguiam ao Se-
mesmo tempo que Ele pregava, orava in- nhor, e aos escolhidos para apóstolos tinha
teriormente ao Pai para que, a semente de maior veneração e apreço. De todos,
sua santa doutrina caísse em corações bem porém, velava corno Mãe e socorria como
l-n°714, 776.
Sexto Livro - Capitulo 2

poderosa Rainha, cuidando por sua ali- doçura das palavras de sua Mãe; in-
mentação e outras coisas necessárias à struídos , por sua sabedoria; submissos,
por sua humildade; moderados, por sua
modéstia. Naquele receptáculo do
Espírito Santo encontraram reunidos to-
dos os seus dons e graças.
Por todos estes benefícios, pela vo-
cação dos discípulos, pela conversão de
qualquer alma, pela perseverança dos jus-
tos e por qualquer ato de virtude e graça,
a divina Senhora agradecia com novos
cânticos, e era para Ela como dia festivo.

As mulheres que seguiam Jesus


1048. Como dizem os Evangelis-
tas, algumas mulheres seguiam a Jesus,
durante sua pregação, desde a Galiléia.
São Mateus (27, 55), São Marcos
(15, 40) e São Lucas (8, 2) dizem que o
acompanhavam algumas mulheres, a
quem o Senhor havia curado de possessão
Quando não havia outro recurso, orde- diabólica e de outras enfermidades.
nava aos anjos que trouxessem alimento O Mestre da vida não excluiu o
para eles e para algumas mulheres que os sexo feminino de seu seguimento, imi-
acompanhavam, mas destes prodígios só tação e doutrina. Desde o princípio de sua
lhes dava a entender o que convinha, para pregação, foi seguido e servido por algu-
confirmar-lhes a fé no Senhor. mas mulheres. Assim dispôs sua divina
Para ajudá-los a progredir na vida sabedoria para que, entre outros fms, tam-
espiritual, trabalhou a grande Senhora, bém sua Mãe santíssima tivesse compa-
mais do que se pode compreender, não só nheiras e andasse com maior decoro.
com orações contínuas e fervorosas súpli- Destas santas e piedosas mulheres
cas por eles, mas também com o exemplo, tinha especial cuidado nossa Rainha. De-
conselho e advertências. Deste modo, os pois de as reunir, instruir e catequizar en-
nutriu e criou como Mãe e Mestra pruden- caminhava-as aos sermões de seu Filho
tíssima. santíssimo. Ainda que estivesse tão ilus-
Quando os apóstolos e discípulos trada na sabedoria e doutrina do Evan-
se encontravam com alguma dúvida - e gelho, escondia parte de seu grande
tiveram muitas no começo - ou sentiam privilégio, e para instruí-las se valia sem-
alguma oculta tentação, recorriam logo à pre do que todos tinham ouvido seu Filho
grande Senhora para serem esclarecidos e pregar. A partir de suas palavras fazia as
aliviados pela incomparável luz e cari- exortações e práticas para estas mulheres
dade que n'Ela resplandecia. Assim dis- e para outras muitas que, em diferentes
punha o Senhor que ficassem inteira¬ lugares, a Ela se dirigiam, quer antes, quer
mente satisfeitos e consolados, com a depois de ouvir o Salvador do mundo.
Sexto Livro - Capítulo 2

Nem todas a seguiam, mas a divina tesouros de sua onipotência e bondade in


Mãe deixava-as instruídas na fé e nos finita manifestadas através do Verbo fejt"
mistérios que era necessário conhecerem. homem e de sua digna Mãe.
Foram inumeráveis as mulheres que Ela A segunda razão é porque, ncstes
trouxe ao conhecimento de Cristo, ao prodígios foi glória para ambos haver ^
caminho da eterna salvação e da perfeição melhança entre Mãe e Filho, devendo Fja
evangélica. atingir o máximo das graças e méritos cor.
Os Evangelistas falam apenas que respondentes à sua dignidade e recompensa
algumas seguiam a Cristo, nosso Senhor, Seu poder taumaturgo servia tam-
porque os outros pormenores não eram bém de confirmação à doutrina e missão de
necessários a seu intento. seu Filho santíssimo, e assim auxiliava seu
A grande Senhora instruía estas ministério, domodomaisexcelenteecfkaz.
mulheres na fé e virtudes não só por O fato de terem ficado ocultas estas
palavras mas também com o exemplo. maravilhas de Maria santíssima, foi dis-
Ensinava-lhes a praticar a misericórdia posição do Senhor e desejo da prudente
visitando enfermos, pobres, hospitais, en- Mãe, que as realizava com tanta discrição c
carcerados e aflitos, tratando com as sabedoria, que toda a glória era dirigida ao
próprias mãos os chagados, consolando os Redentor em cujo nome e poder eram feitas.
tristes, socorrendo os necessitados. Se No ensinar, seguia igual método:
fôssemos referir todos estes trabalhos não da pregava publicamente, em lugares
Mãe de Deus, teríamos que alongar muito próprios dos mestres e ministros da
esta História. palavra divina, pois não ignorava a Se-
nhora que tal ofício não pertencia às mu-
lheres (Cor 14, 34). Em palestras e con-
Os milagres de Maria santíssima versações privadas, transmitia seus ensi-
namentos com celestial sabedoria, pru-
1049. Também não foram escritos dência e êxito. Por este modo, e mais suas
nos Evangelhos e noutras obras eclesiásti- orações, fez mais conversões do que todos
cas, os inumeráveis e grandiosos milagres os pregadores do mundo.
que nossa grande Rainha realizou no tempo
da pregação de Cristo, nosso Senhor.
Só descreveram os de Jesus, que Maria, coadjutora de Cristo
convinham para a fé da Igreja e eram ne-
cessários para sua fundação e confir- 1050. Isto se entenderá melhor sa-
mação. Só mais tarde seriam manifestadas bendo que, além da virtude divina que
as grandezas pessoais de sua Mãe santís- possuíam suas palavras, conhecia o tem-
sima. peramento, as inclinações e costumes de
Entretanto, segundo me foi dado a todos; o tempo, disposições e momento
entender, é certo que, não só fez muitas mais oportuno para reduzi-los ao caminho
conversões milagrosas, como ressuscitou da luz. A tudo isto, ainda acrescentava
mortos, curou cegos e deu saúde a muitos. suas orações, súplicas e a doçura de suas
Isto era conveniente por muitas razões: prudentíssimas admoestações.
primeira, porque foi coadjutora da maior Todos estes dons, governados peIa
obra para a qual o Verbo do eterno Pai se ardentíssima caridade com que desejava
encarnou e veio ao mundo, a saber, a pre- levar todas as almas ao Senhor e ao
gação e redenção; por essa obra, abriu os caminho da salvação, logicamente pr0*

188
Sexto Livro - Capítulo 2

duziam atos grandiosos para iluminar, mortais. E, depois de sua morte não foram
atrair e resgatar inumeráveis almas. Nada menores meus cuidados, como entenderás
do que pedia ao Senhor lhe era negado, e ao escrever a terceira parte de minha vida.
nenhum de seus atos era inútil e com Entre a fadiga de meus trabalhos, porém,
menor santidade do que lhe competia. era de incomparável gozo para meu
Sendo a Redenção a principal de espírito, ver o Verbo encarnado operando
todas as obras, sem dúvida cooperou nela a salvação dos homens. Ia abrindo o livro
mais do que, na vida mortal, podemos (Apoc 5,8) fechado com os sete selos, dos
compreender. mistérios ocultos de sua divindade e hu-
Procedia a divina Senhora com manidade santíssima.
rara mansidão, qual pomba singelíssima, O gênero humano não me deve
com extrema paciência e-tolerância. So- menos pela alegria que eu sentia pelo bem
brelevava as imperfeições e rudeza dos de cada um, como pelo cuidado com que
novosfiéis,esclarecendo suas ignorân- lhes procurava esse bem, pois tudo pro-
cias, pois era grande a multidão dos que a cedia de um mesmo amor Neste amor
Ela recorriam, quando decidiam abraçar a quero que me imites, como freqüente-
fé do Redentor. mente te admoesto.
Mantinha sempre a serena gran- Ainda que não ouves corporal-
deza de Rainha, mas aliada a tão suave mente a voz, pregação e doutrina de meu
humildade, que só Ela foi capaz de unir Filho santíssimo, podes imitar-me na re-
estas perfeições, em sumo grau, à seme- verência com que eu o ouvia. Ele te fala
lhança do mesmo Senhor. Ambos trata- ao coração a mesma verdade e doutrina, e
vam a todos com tanta humanidade e sim- assim te ordeno que, ao reconheceres a
plicidade de perfeitíssima caridade, que voz de teu Esposo e Pastor, te ajoelhes
ninguém pôde ter desculpa de não ter sido com reverência para ouvi-la. Adora-o
ensinado por tais mestres. Falavam, con- com ação de graças e grava suas palavras
viviam e comiam com os discípulos e as em teu peito. Se estiveres entre outras pes-
mulheres que os seguiam, (Mt 9, 10; Jo soas, onde não possas fazer atos externos,
12, 2; Lc 5, 29; 7,36) com a moderação fá-lo-as interiormente, e obedece a tudo
conveniente, para que ninguém pudesse que ouvires, como se estivesse presente à
pensar que o Senhor não era verdadeiro sua pregação.
homem, realmente Filho de Maria santís- Assim como não terias sido feliz,
sima. Pela mesma razão, aceitava o Se- se a tivesses ouvido corporalmente sem a
nhor participar em outros banquetes, com praticar, agora o serás se praticares o que
tanta afabilidade, como consta dos santos ouves espiritualmente. Grande é tua obri-
Evangelhos. gação, porque grande é contigo a liberalís-
sima piedade e misericórdia do Altíssimo
DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU e minha. Não sejas de coração moroso e
MARIA SANTÍSSIMA. não permaneças indigente entre tantas ri-
quezas da divina luz.

Reverência à palavra de Deus Naturalidade na virtude


1051. Minha filha, acompanhando
meu filho até a cruz, eu trabalhei real- 1052. Ouvirás com reverência
mente, mais do que pensam e sabem os não apenas a voz interior do Senhor, mas

189
Sexto Livro - Capitulo 2 1
também a seus ministros, sacerdotes ©pre- no pequeno, pois agir em tudo com pe
gadores. A vo/. deles c o eco da do Altís- feição sempre é coisa grande. Igualme ^
simo Deus e canais por onde cone a sã advirto a te mostrares igual com pobres 6
doutrina de vida, brotada da fonte pere-ne ricos, sem fazer diferença e acepçà0 ^
da verdade divina Neles Deus fala e faz pessoas. Esta é outra falta comum entre ^
ressoar a voz de sua divina lei. Ouve-os filhos de Adão, e meu filho e Eu a co/
com reverência, sem jamais julgá-los e denamos e reprovamos quando nos
reparar em seus defeitos. Para ti sejam to- mostramos a todos igualmente afáveis
dos sábios e eloqüentes e em cada um ou- dando preferência aos desprezados, afli-
virás a Cristo, meu Filho e Senhor. tos e necessitados (Tg 2,2).
Com isto ficarás advertida para A sabedoria humana considera a
não cair na louca ousadia dos mundanos pessoa, a ostentação mundana, e não ao
que. com vaidade e soberba odiosa aos ser das almas e de suas virtudes. A prudên-
olhos de Deus. desprezam seus ministros cia celeste, porém, olha em todas a ima-
e pregadores, porque não os acham con- gem de Deus. Tampouco deves estranhar
formes à sua satisfação e depravado gosto. de que teu próximo perceba que sofres as
Como não vão ouvir a verdade divina, só imperfeições da natureza, pena do
consideram as expressões e o estilo, como primeiro pecado, como são as enfermi-
se a palavra de Deus não fosse simples e dades, o cansaço, a fome e outras neces-
eficaz, (Heb 4, 12) sem o adorno e argu- sidades. Ocultar estas fragilidades, às
mentos apreciados pelo ouvido enfermo vezes pode ser hipocrisia e pouca hu-
dos que a escutam. mildade. Os amigos de Deus só devem te-
Não faças pouco caso deste aviso, mer o pecado e desejam antes morrer do
e atende a todos quantos eu te der nesta que o cometer. Todas as outras deficiên-
História. Sendo tua Mestra, quero ins- cias não mancham a consciência, nem e
truir-te no pouco e no muito, no grande e necessário escondê-las.

Paisagem da Galiléia. Ao fundo, Daburieh.

190
i
CAPÍTULO 3
HUMILDADE DE MARIA SANTÍSSIMA NOS MILAGRES DE
CRISTO. ENSINOU-A AOS APÓSTOLOS.
A humildade de Maria vence Deus e próprio Deus. Achou tanta graça a seus
os homens olhos (Ecli 3, 20-21) que nenhuma graça
lhe negou o Senhor, tanto para si como
1053. O principal argumento de para os outros, se ela a pedisse.
toda a História de Maria santíssima, se Na humildade, a humilíssima
bem se considera, é uma demonstração Senhora venceu a todas as criaturas. Em
claríssima da humildade desta grande sua casa - como fica dito na primeira
Rainha e Senhora dos humildes. Esta vir- parte - venceu sua Mãe SanfAna e os
tude foi n'Ela tão inefável, que não pode domésticos para lhe permitirem praticar
ser dignamente louvada, nem adequada- a humildade; no templo, venceu a todas
mente avaliada. Sua impenetrável pro-' suas colegas; no matrimônio venceu São
fundidade não foi suficientemente com- José; nos trabalhos humildes, aos anjos;
preendida, nem pelos homens, nem pelos nos próprios louvores, aos apóstolos e
anjos. evangelistas para que não os escre-
Assim como em todos os medi- vessem; ao Pai e ao Espírito Santo,
camentos entra a suavidade e a doçura, e venceu para que assim o ordenassem; e
a todos dá o seu sabor, ainda que seja de a seu Filho santíssimo, para que a
composição muito diversa, assim em to- tratasse de modo a não dar motivo para
dos os atos das virtudes de Maria santís- os homens a louvarem por seus milagres
sima entra a humildade, aperfeiçoando-as e ensinamentos.
e adaptando-as ao gosto de Deus e dos
homens. Por causa de sua humildade, o
altíssimo a olhou e escolheu, e pela A natureza humana e a humildade
mesma virtude, todas as nações a procla-
mam bem-aventurada (Lc 1, 48). 1054. Esta espécie de humildade,
Não perdeu a prudentíssima Se- tão generosa, foi apanágio da humilíssima
nhora, em toda sua vida, um só instante, entre os humildes. Nem os homens, nem
lugar ou ocasião, de praticar as virtudes os anjos podem atingi-la, quer pelas cir-
que podia. Maior prodígio, porém, foi unir cunstâncias pessoais diferentes, quer por
a todas elas sua rara humildade. sermos tão fracos nesta virtude.
Esta virtude elevou-a acima de Entenderemos esta verdade, ad-
todo quanto existiu, exceto Deus. E, assim vertindo que a mordedura da antiga ser-
como, na humildade, venceu a todas as pente deixou nos demais mortais o verme
criaturas, por esta virtude venceu até o da soberba. Para expeli-lo, ordenou a
191
Sexto Livro - Capítulo 3
divina sabedoria que os efeitos do próprio natureza terrena, têm os pecados pesSo
pecado servissem de remédio. O conhe- A humildade destes foi a conseqüência^
cimento dos defeitos pessoais nos fariam antes terem sido humilhados, e p e i a ^
conhecer a baixeza que pretenderíamos milhação entraram, como que à forç^
ignorar. humildade, e tiveram que confessar cc!!
É verdade que temos alma espiri- David (SI 118, 67. 71): Antes de me C
tual, mas nesta ordem ocupamos o mais milhar, errei, E outro verso: Foi bom, se*
baixo degrau, sendo que o supremo é de nhor, me terdes humilhado, para chegar a
Deus e o médio o dos anjos. conhecer as vossas justificações.
Quanto ao corpo, não somos ape- A Mãe da humildade, porém, não
nas do ínfimo elemento, a terra, mas de entrou nela pela humilhação e antes foi
terra suja, o barro (Gn 2,7). Tudo isto não humilde do que humilhada. Nunca humi-
foi ordenado pela sabedoria e poder lhada por culpas e paixões, mas sempre
divino sem finalidade, mas com grande generosamente humilde.
coerência. Deveria o barro conhecer sua Não se pode medir os homens
baixeza, procurar o último lugar e ali per- pelos anjos, porque estes são superiores
manecer, ainda que se visse bem moldado de natureza sem paixões e culpas. Apesar
e adornado de graças; saberia que estas se disto, não puderam estes soberanos espíri-
encontravam em recipientefrágile de pó tos alcançar a humildade de Maria santís-
(2, Cor 4,7). sima, apesar deles também se terem hu-
Contudo, todos nós perdemos o milhado ante o Criador, reconhecendo-se
juízo e desatinamos desta verdade e hu- criaturas d'Ele.
mildade tão própria do ser humano. Para Valeu-se Maria santíssima do fato
restituir-nos a ela é necessário que a con- de pertencer á natureza terrena e humana,
cupiscência, suas paixões e nossos erros para avantajar-se aos anjos nesta virtude.
nos façam experimentar quanto somos vis A natureza espiritual deles faltou aquela
e desprezíveis. Esta experiência de todos condição, para poderem se abater como a
os dias, ainda não basta para nos devolver divina Senhora.
o juízo e confessarmos que é iníqua per- Acrescente-se a dignidade de Mãe
versidade cobiçar honra e excelência hu- de Deus e Senhora das criaturas e dos mes-
mana, quem, por natureza é pó, e por suas mos anjos, excelência que nenhum anjo
obras indigno até do seu tão baixo e ter- possuiu e que sublimou tanto a virtude da
reno ser. humildade em nossa divina Mestra.

A humildade de Maria ultrapassou a A Virgem humilíssima


dos homens e dos anjos
1056. Em tal prerrogativa foi sin-
1055. Só Maria santíssima, sem gular e única. Era Mãe de Deus, Rainha
ser tocada pelo pecado de Adão, sem ex- da criação; não ignorava esta verdade,
perimentar seus perigosos e feios efeitos, nem os dons de graça que recebera para
conheceu a arte da maior humildade e su- ser digna Mãe de Deus; conhecia os
blimou-a ao máximo. prodígios que, por meio destes dons.
Apenas por conhecer sua natureza operava e que todos os tesouros do ccu,
de criatura, humilhou-se mais do que to- o Senhor depositava em suas mãos e a
dos os filhos de Adão que, além da sua disposição. Com tudo isso, nem p°r


192
Scxlo Li\ro - Capitulo 3

sermàe nem por ser inocente, poderosa traviemos seus benefícios e nào tramemos
e agraciada , nem por seus milagres e ocultamente alguma rapina da glória que
«elos de seu Filho santíssimo, jamais lhe pertence como autor de tudo.
se u coração se levantou do lugar em Entendamos, pois, como é falsa
que se colocara, abaixo de todas as e insegura nossa humildade, ainda
criaturas. quando acontece que a pratiquemos,
Oh! humildade rara! Oh! Fideli- pois o Senhor - digamo-lo a nosso modo
dade nunca vista entre os mortais! Oh! sa- - precisa usar de tantas cautelas ao nos
bedoria que nem os anjos puderam al- confiar algum favor ou virtude. E tão
cançar! Quem há que sendo de todos co- frágil nossa humildade que, poucas
nhecido como o maior, só ele se desco- vezes recebemos seus dons sem os con-
nheça e se considere o menor? Quem taminar com nossa ignorância, ou pelo
soube esconder a si mesmo, o que todos menos com auto-complacência e vai-
os outros dele publicam? Quem se esti- dosa satisfação.
mou por desprezível, quando admirado
por todos? Quem, na suma excelência e
grandeza, não perdeu de vista a pequenez, Os anjos admiram a humildade da
e convidado para o supremo lugar, esco- Virgem
lheu o ínfimo (Lc 14, 8)? E isto, não por
necessidade, com impaciência e coagido, 1057. Para os anjos de Maria san-
mas livremente, de todo o coração, sincera tíssima foi admiração ver o procedimento
e fielmente? da grande Senhora, nas ocasiões em que
Oh! filhos de Adão, que tardos e Cristo nosso Senhor operava milagres.
ignorantes somos nesta ciência divina! E Nào estavam acostumados a ver nos filhos
necessário que o Senhor, muitas vezes, de Adão, e nem entre os anjos, aquele
nos oculte nossos bens, ou lhes acrescente modo de se abater, entre tanta grandeza e
algum contrapeso, para que não ex- fatos tão gloriosos. Os divinos espíritos
admiravam-se, menos pelas maravilhas
do Senhor cuja onipotência já conheciam
e tinham experimentado, do que pela in-
comparável fidelidade da beatíssima Se-
nhora. Todas aquelas obras eram por Ela
dirigidas à glória de nosso Senhor, en-
quanto se reputava tão indigna, como se
sua presença no mundo fora obstáculo
para as obras de seu Filho santíssimo, e
que ele as fazia só por favor de sua mise-
ricórdia.
Ao contrário, por suas orações, Ela
era o instrumento que inclinava o Salva-
dor a fazê-las. Além disso, como outras
vezes já disse, se Maria santíssima não
interferisse entre os homens e Cristo, o
mundo nào teria merecido receber a dou-
trina do Evangelho.
1 -n°788
193
Sexto Livro - Capítulo 3
Maria pede a Cristo que afaste d*Ela tes, bem-aventurados os que ouvem
o louvor dos homens palavra de Deus e a põem em prática riu*
12, 5; Lc 11,28) '«»
1058. As obras e milagres de Com estas palavras, à margein ri
Cristo, nosso Senhor, eram tão surpreen- honra que davam a Maria puríssima
dentes para o mundo que, logicamente qualidade de Mãe, deu-lhe a honra da s ^
atraiam grande glória e admiração por tidade. De passagem, ensinou aos ouVjn*
sua Mãe santíssima. Tornava-se conhe- tes o essencial da virtude, comum a todos
cida, não só pelos discípulos e Após- no que sua Mãe era singular e aojninW
tolos, mas também pelos novos fiéis. embora na ocasião não o tivessem comi
Quase todos se dirigiam a Ela confes- preendido.
sando-a por Mãe do verdadeiro Messias,
e dando-lhe muitas felicitações pelas
maravilhas operadas por seu Filho san- Esclarecimento sobre passagens
tíssimo. evangélicas
Estes sucessos eram novo crisol
para sua humildade. Apegava-se ao pó 1059. A outra passagem é referida
e se aniquilava em sua própria estima, por São Lucas, (8,21): estando o Salvador
mais do que qualquer pensamento pregando, disseram-lhe que sua Mãe e
criado possa imaginar. Por se abater seus irmãos o procuravam e não podiam
deste modo, não negligenciava a gra- se aproximar por causa da multidão. A
tidão. Ao mesmo tempo que se humi- prudentíssima Virgem, prevendo algum
lhava, dava ao eterno Pai dignas graças aplauso por parte dos que a conheciam,
por todas e cada uma das admiráveis pediu ao Salvador que o dissimulasse. Ele
obras de Cristo, suprindo assim a hu- assim o fez, respondendo: Minha Màe,
mana ingratidão. meus irmãos são os que fazem a vontade
Através da invisível comunicação de meu Pai, ouvem sua palavra e a cum-
que sua alma puríssima tinha com a do prem.
Salvador pedia-lhe que desviasse a glória Nestas expressões, o Senhor não
que os ouvintes de sua divina palavra excluiu sua Mãe da honra que merecia por
queriam dar a Ela. sua santidade, antes a subentendeu mais
Assim acontecia, e os Evangelistas que a todos. Deu-lha, porém, de modo a
se referem a algumas destas ocasiões, por não ser aplaudida pelos circunstantes, sa-
exemplo, Lucas (9, 27): Quando Jesus tisfazendo o desejo d'Ela para que só o
curou o endemoninhado e os judeus quise- Se-nhor fosse conhecido e louvado por
ram atribuir a cura ao próprio demônio, o suas obras.
Senhor inspirou a uma fiel mulher a ex- Advirto que descrevo estas pas-
clamar em alta voz: bem-aventurado o sagens como sendo distintas, tendo-se
ventre que te trouxe e os peitos que te ama- verificado em lugares e ocasiões diferen-
mentaram. tes, como entendi e como refere São Lucas
Ouvindo estes elogios a humilde e no capítulo VIII e IX. São Mateus, (12,45
prudente Mãe pediu, interiormente, a - 46) refere o milagre da cura do endemo-
Cristo nosso Senhor que desviasse dele ninhado mudo e logo em seguida, diz que
aquele louvor. Condescendeu Jesus, mas avisaram o Salvador que sua Mãe e seus
de tal modo que lhe aumentou o louvor, irmãos estavam fora e lhe desejavam falar,
ainda que ocultamente. Respondeu: An- e o mais que acabo de referir. Foi por este
194
Sexto Livro - Capítulo 3

motivo que alguns expositores julgaram e nestas ocasiões disse as palavras referi-
qu e os dois fatos sucederam na mesma das por São Mateus e São Lucas. Não se
ocasião. deve admirar que os repetisse em diferen-
Tendo eu, por ordem da obediên- teslugaresetempos,poisháexemplosdes-
cia, perguntado outra vez, foi-me respon- sas repetições, como a daquela sentença:
dido terem sido casos distintos, conforme O que se exalta será humilhado; e o que se
se pode coligir dos outros capítulos de São humilha será exaltado. É citada por São
Lucas, anteriores a essa narração. Lucas na parábola do publicano e do far-
As palavras "Bem-aventurado o iseu (Lc 18,9 -14); na parábola dos con-
ventre que te trouxe etc", foram ditas de- vidados às bodas (Lc 14, 7 -11); por São
pois do milagre a favor do endemoni- Mateus em outra ocasião (Mt 23,12).
nhado. O outro sucesso da Mãe e dos ir-
mãos do Senhor, São Lucas refere no
capítulo VIII, depois que o Senhor pregou Maria, mestra da humildade
a parábola da semente. Foi esta a seqüên-
cia dos fatos. 1061. Maria santíssima foi hu-
milde nào só para Si, mas nesta virtude
tomou-se a grande Mestra dos Apóstolos
Explicação das passagens evangélicas e discípulos. Era necessário que eles se
fundassem na humildade, pelos dons que
1060. Para melhor se entender que haviam de receber e os prodígios que, me-
os Evangelistas não discordam entre si, e diante os mesmos, iriam realizar. E isto,
qual a razão que levou a santíssima Rainha não só futuramente na fundação da Igreja,
a procurar seu Filho nas ocasiões descri- mas desde já, na pregação (Mc 3,14).
tas, advirto que para duas finalidades a Os evangelistas contam que nosso
divina Mãe ia ordinariamente onde Cristo divino Mestre enviou à sua frente, pri-
nosso Senhor pregava. meiro os Apóstolos (Mt 1 0 , 1 - 2; Lc. 9,
Primeiro, para ouvi-lo, como disse 10), e depois os setenta e dois discípulos,
acima^. Segundo, para pedir-lhe graças dando-lhes poder de fazer milagres, ex-
para as almas, conversão de algumas, pulsar demônios e curar os enfermos. A
saúde para os enfermos e necessitados. A grande Mestra dos humildes exortou-os
piedosíssima Senhora tomava por sua com o exemplo e palavras de vida, como
conta estas necessidades, como aconteceu haviam de proceder na realização dessas
nas bodas de Caná. maravilhas.
Por estes e outros justos motivos Com seu ensino e orações, desper-
ia procurar Jesus, quer avisada pelos san- tou nos Apóstolos novo espírito de pro-
tos anjos, quer inspirada pela luz interior. funda humildade e sabedoria, para conhe-
Esta foi % razão de ter ido onde se encon- cerem, com mais clareza, que aqueles mi-
trava o divino Mestre, nas ocasiões referi- lagres se faziam em virtude do Senhor,
das pelos Evangelistas. Como isto acon- Somente a seu poder e bondade se devia
tecia muitas vezes, e o número de pessoas toda a glória daquelas obras, das quais eles
que seguiam a pregação do Salvador era eram apenas instrumentos. Como ao
tão grande, os Evangelistas referem só pincel nào sedeve a glória da pintura, nem
duas vezes, e outras muitas passaram em à espada a da vitória, mas tudo é atribuído
silêncio. O mestre teve que ser avisado de ao pintor e ao soldado que os moveu e
que sua Mãe e seus irmãos o procuravam, dirigiu; assim, a honra e o louvor dos
195
Sexto Livro - Capítulo 3

portentos que fariam, deveriam remeter a mistérios, e como coadjutora de seu Filk
seu Senhor e Mestre de quem procede santí ssimo cooperava na obra da funda^°
todo o bem. da lei da graça. a°
É para se advertir que, nos Evan- Nos três anos de sua pregaç^
gelhos, não se vê que o Senhor dissesse Cristo nosso Senhor subiu três vezes0,
algo desta doutrina aos Apóstolos quando Jerusalém para celebrar a Páscoa, sendo
os enviou à pregar, porque já os instruíra sempre acompanhado por sua Mãe santí$
a divina Mestra. sima. Ela se achou presente na primeira
Apesar disso, quando os discípu- vez em que Jesus, com um açoite, expU|,
los voltaram à presença de Cristo nosso sou do templo os que vendiam ovelhas
Senhor, e muito alegres lhe disseram que, pombas e bois (Jo 2, 15).
em seu nome, os demônios lhes haviam Nestes atos e no mais que fez o Sal¬
obedecido (Lc. 10, 17); então o Senhor vador, oferecendo-se ao Pai naquela ci¬
lhes àdvertiu que não se alegrassem por dade e lugares onde havia de padecer
aquele poder que lhes dera; mas sim por- sempre o acompanhou a grande Senhora
que seus nomes estavam escritos no céu Seguia-o fazendo atos de heróicas vir-
(LclO, 20). tudes e admiráveis afetos de sublime
Tãofrágilé nossa humildade, que amor, de acordo com as ocasiões, sem per-
até nos discípulos precisou de tantos avi- der nenhuma. A todos seus atos dava a
sos e preservativos da parte do Senhor. plenitude de perfeição que cada qual
pedia, exercitando principalmente, a ar-
dentíssima caridade que recebia da Divin-
Maria, cooperadora na fundação da dade (1 Jo 4,16). Estando Ela em Deus e
lei da graça Deus n'Ela, era a caridade do próprio Se-
nhor que lhe ardia no peito e a impelia a
1062. Mais tarde, na fundação da solicitar, com todas as suas forças e dese-
igreja, foi ainda mais importante esta ciên- jos, o bem do próximo.
cia da humildade que Cristo, nosso Mes-
tre, e sua Mãe santíssima ensinaram aos DOUTRINA QUE ME DEU A
Apóstolos. Para confirmar a fé e autorizar MESMA RAINHA DO CÉU.
a pregação do Evangelho, iriam operar
grandes prodígios em virtude do Senhor.
Os gentios, acostumados a cegamente Origem da humildade e da soberba
atribuir a divindade a qualquer coisa
grandiosa e insólita, vendo os milagres 1063. Minha filha, a antiga ser-
que os Apóstolos fa-ziam, queriam adorá- pente estreou toda sua maldade e astúcia
los como adeuses. Assim aconteceu a São em apagar do coração humano a ciência
Paulo e a São Barnabé na Licaônia, ao da humildade, sempre santa,'nele se-
curarem um entrevado de nascença. (At meada pela clemência de seu Criador. No
14, 6); a São Paulo chamavam Mercúrio lugar dela espalhou o inimigo a ímpia
e a São Barnabé Júpiter. Depois, na ilha cizânia da soberba (Mt 13, 25). Para esta
de Malta, quando São Paulo sobreviveu à ser arrancada e se restituir a alma o bem
picadura de uma víbora, tomaram-no por da humildade perdida, é necessário q«e
um Deus (At 28, 6). consinta e queira ser humilhada por outras
Com a plenitude de sua ciência, criaturas, e que, com incessantes desejos
Maria santíssima previa todos estes e sincero coração, peça ao Senhor esta vir-
196
Sexto Livro - Capítulo 3

mde e os meios para alcançá-la. Raras são soalmente. Se ninguém pode negar esta
as almas que se aplicam a esta sabedoria miséria de sua natureza, que razão há para
conseguem a humildade perfeita. Esta não se humilhar diante de Deus e dos
requer um vencimento pleno e total, a que homens? Abater-se até a terra e colocar-se
chegam muito poucos, mesmo entre os no último lugar, não é grande humildade
que professam a virtude. O contágio da para quem pecou, porque sempre lhe resta
soberba penetrou tanto as potências hu- mais honrado que merece. O verdadeiro
manas que se reflete em quase todos os humilde deve descer abaixo do que lhe
seus atos. Quase nenhum deles fica isento toca. Ser desprezado e ofendido por todas
de algum ressaibo de soberba, tal como a as criaturas; considerar-se digno do in-
rosa com espinhos e o grão com a palha. ferno; tudo isto será mais justiça do que
Por esta razão, o Altíssimo estima humildade, porque é o que merece. A hu-
tanto os verdadeiros humildes. Aos que mildade profunda, porém, vai até desejar
obtêm inteiro triunfo sobre a soberba, maior humilhação do que lhe cabe por
eleva-os e coloca-os entre os príncipes de justiça. Por este motivo, nenhum dos mor-
seu povo (SI 112, 8); tem-nos por filhos tais pode chegar ao gênero de humildade
prediletos e os exime, de certo modo, dos que eu tive, conforme entendeste e escre-
ataques do demônio. Este os teme, não se veste. Não obstante, o Altíssimo se dá por
atreve tanto a atacá-los, porque as derrotas satisfeito que se humilhem no que, por
que sofre dos humildes o atormentam justiça, podem e devem.
mais do que as chamas do fogo que
padece.
Monstruosidade da soberba

Justiça e humildade 1065. Vejam agora os soberbos sua


fealdade, e saibam que são monstros do
1064. Desejo, caríssima, que inferno, imitadores da soberba de Lúcifer.
chegues as possuir com plenitude o Quando este vício o acometeu, encontrou-
tesouro inestimável desta virtude. Entrega o formoso e com grandes dons de graça e
ao Altíssimo todo o teu coração, com do- natureza. Se desvaneceu com os bens re-
cilidade e brandura, para nele imprimir, cebidos possuía-os realmente como coisa
como em cera flexível e sem resistência, sua. O homem, porém, que além de ser de
a imagem de meu proceder humilde. barro, peca e está cheio de fealdade e
Tendo-te sido manifestados tantos segre- abominações, toma-se monstro quando
dos deste mistério, é grande tua obrigação quer se exaltar e ensoberbecer. Neste de-
de cumprir minha vontade. Não percas satino excede ao próprio demônio, pois
oportunidades em que possas te humilhar não tem a nobre natureza, nem a graça e
e progredir nesta virtude, como entendes formosura que Lúcifer possuía. Este ini-
que eu fiz, sendo Mãe de Deus toda cheia migo e seus sequazes desprezam e fazem
de pureza e graça. Quanto maiores eram caçoada dos homens que, com tão baixas
os dons que eu recebia, mais me humi- qualidades se ensoberbecem, pois enten-
lhava, porque em minha estima excediam dem sua loucura desprezível e estulta.
mais aos meus méritos e faziam crescer Atende, pois filha a este esclarecimento,
minha dívida por eles. Vós todos, filhos e humilha-te mais do que a terra, sem
de Adão, sois concebidos em pecado (SI mostrar mais sentimento do que ela,
50» 7), e nenhum há que não peque pes- quando o Senhor, por si, ou pelas

197
Scxio Livro - Capitu

criaturas, te humilhar. Não te julgues almente com estas nações, como fln
agravada ou ofendida por qualquer delas. mente deveriam compreender. Humii^
Se detestas o fingimento e mentira, ad- te na divina presença para lhe apl acar a *
verte que o maior deles é apetecer honra indignação, por ti e por todos teus i m ^
e alto conceito, aquele que por qualquer como se tu só fosses culpada e devedor'
pecado, ainda leve, merece estar abaixo pois, durante a vida, ninguém pode sabe*
de todas as coisas do mundo, ainda a mais se já pagou o que devia. Pelos dons e fa
ínfima. Não atribuas às criaturas as vores que recebeste e recebes, mostra-te
aflições e tribulações que Deus permite agradecida como quem menos merece e
para humilhar a ti e a elas. Isto vem a ser mais deve. Assim estimulada, humilha-te
queixar-se dos instrumentos e da ordem mais que todas e trabalha sem cessar para
que a divina misericórdia estabelece, satisfazer, ao menos em parte, a divina
afligindo com castigos os homens que de- piedade que tão liberal se mostrou con-
seja levar à humildade. Assim o faz atu- tigo.

Sebastes. Túmulo de S . João Batista, transformado hoje em mesquita. O s mussulmanos


têm uma grande veneração por aquele que J e s u s definiu como "o maior dos profetas."

]9S
PERTURBAÇÃO DO DEMÔNIO ANTE OS MILAGRES DE
CRISTO. HERODES PRENDE E MANDA DEGOLAR SÃO
JOÃO BATISTA.
O batismo de João e o de Cristo os estivesse recebendo, agradecia a seu
autor com cânticos de louvor e grandes
1066. Prosseguindo sua pregação atos de virtudes. Com estas maravilhas,
e milagres, o Redentor do mundo saiu de adquiria novos e incomparáveis mere-
Jerusalém e permaneceu na Judéia algum cimentos.
tempo. O Evangelista São João (3,22) diz,
simplesmente, que batizava, mas adiante
(4,2) explica que batizava por mão de seus Conciliábulo de Lúcifer
discípulos, na mesma ocasião em que seu
precursor João batizava em Enón, às mar- 1067. Quando a vontade divina
gens do Jordão, nas proximidades da ci- permitiu que Lúcifer e seus ministros se
dade de Salim. erguessem da derrota que sofreram pelo
Seus batismos não eram iguais. O triunfo de Cristo no deserto, voltou o
do Precursor era apenas com água e ba- dragão a investigar as obras daquela hu-
tismo de penitência. O do Salvador era seu manidade santíssima. Assim o permitiu
próprio Batismo, a justificação mediante sua providência divina para que, permane-
o eficaz perdão dos pecados, com infusão cendo sempre oculto a este inimigo o prin-
da graça e virtude, como acontece agora. cipal mistério, conhecesse alguma coisa
Além, destes invisíveis efeitos e do que convinha para ser inteiramente ven-
eficácia do Batismo de Cristo, acrescen- cido através de sua própria malícia.
tava-se a eficácia de suas palavras, de sua Conheceu o grande fruto da pre-
pregação e a força da confirmação por gação, milagres e batismo de Cristo Se-
seus milagres. Por estes motivos, acor- nhor nosso, e que por este meio inu-
reram a Ele mais discípulos e seguidores meráveis almas se libertavam de sua tira-
que ao Batista, cumprindo-se o que o nia, saindo do pecado e reformando suas
Santo dissera: convinha que Cristo vidas. O mesmo conheceu a respeito da
crescesse e que ele fosse diminuído (João pregação e batismo de São João, embora
3,30). sempre ignorasse a diferença entre ambos
Ordinariamente, Maria santíssima os mestres e seus respectivos batismos.
assistia à administração do batismo de Destes fatos, porém, conjecturou a ruína
Cristo, nosso Senhor, conhecendo os divi- de seu império, se os novos pregadores,
nos efeitos que produzia nas almas aquela Cristo e São João, continuassem suas
nova regeneração. Como se fôra Ela que atividades.

199
Sexto Livro - Capítulo 4
Esta novidade deixou Lúcifer per- absurdas e sem base. Estavam alucinacj0
turbado e perplexo. Reconhecia a fra- e confusos por ver, de um lado tant S
queza de seu poder, para resistir à força prodígios, e de outro indícios compi^
celeste que emanava daqueles novos tamente diferentes dos que eles supunh^
homens e sua doutrina. Inquieto, em sua para a vinda do Verbo Encarnado.
soberba, por estes receios, reuniu outro Lúcifer reuniu os demônios
conciliábulo com os demais ministros das instruí-los melhor em seus malicioSos
trevas, e lhes disse: Nestes últimos anos planos. Deveriam inquirir e descobrir
temos encontrado, pelo mundo, grandes causa do abatimento que sentia, ofere,
novidades. Cada dia vão aumentando, e cendo-lhes grandes prêmios de domíni0s
com elas os meus receios, de que o Verbo em sua república de maldade.
divino já tenha vindo, conforme prome- Para que a malícia destes infernais
teu. Mas, ainda que eu tenha examinado ministros mais se enredasse em sua con-
todo o orbe, não acabei por descobri-lo. fusa indignação, permitiu o Mestre da
Contudo, estes dois homens que vida que tivessem maior conhecimento da
pregam e todos os dias me tiram tantas santidade do Batista.
almas, me põem em suspeitas e preocu- Ainda que não fazia milagres
pação. A um, nunca pude vencer no de- como Cristo nosso Redentor, os sinais de
serto. O outro, nos venceu e arrasou sua santidade eram grandiosos e mui ad-
quando lá esteve, e deixando-nos ame- mirável nas virtudes exteriores. Por sua
drontados e enfraquecidos. Se continuam vez, o Salvador lhe ocultou muitos dos
como começaram, todos nossos triunfos prodígios que operava, e deste modo, pelo
se converterão em derrotas. que chegara a saber, o dragão via grande
Ambos não podem ser o Messias; semelhança entre Cristo e João. Neste en-
tampouco entendo se algum deles o é. To- gano, não sabia ao qual atribuir o ofício e
davia, arrancar tantas almas de pecado é dignidade de Messias.
façanha tão árdua, que ninguém até agora Ambos, dizia consigo, são grandes
a conseguiu como eles. Isto supõe espe- santos e profetas. A vida de um deles, em-
cial poder que precisamos investigar e sa- bora sem coisas maravilhosas, é extraor-
ber donde procede, para acabarmos com dinária e singular. O outro faz muitos mi-
estes dois homens. Para este fim, segui- lagres. A doutrina que pregam é quase a
me, ajudai-me com vossas forças, astúcia mesma. Ambos não podem ser o Messias,
e sagacidade. Do contrário, virão a se ani- mas sejam o que for, são santos, grandes
quilar os nossos projetos. inimigos para mim. Hei de persegui-los
até liquidar com eles.

Novas perseguições de Lúcifer


O Batista é interrogado pelos judeus
1068. Com este arrazoado, decidi-
ram aqueles ministros de maldade, 1069. Estes receios do demônio
perseguir novamente a Cristo, Salvador começaram desde que viu São João no de-
nosso, e a seu grande precursor João. Como, serto. Tão prodigioso modo de viver,
porém, não penetravam os mistérios desde a infância, pareceu-lhe superior as
escondidos na Sabedoria incriada, ainda forças de um puro homem.
que apresentassem muitos argumentos e Por outro lado, conhecendo algu-
tirassem grandes conclusões, eram todas mas obras e virtudes de Cristo nosso Se-
200
não menos admiráveis, punha-se a Todas as insistências destes em-
n rriparar 11171 c o m 0 o u t r o - Como, porém, baixadores foram sugeridas pelo inimigo,
c genhor vivia de modo mais comum, não pois lhe parecia que se São João era justo
° narado dos homens, Lúcifer se ocupava diria a verdade, e se não, descobriria clara-
S ais em descobrir quem seria São João. mente quem era. Quando, porém, ouviu-o
Para estefim,incitou os judeus e far- dar-se o nome de "voz" ficou perturbado,
iseus de Jerusalém a enviarem sacerdotes e suspeitando se, com tal denominação
levitas para interrogar o Batista (Jo 1,19), queria dizer que era o Verbo eterno.
se era o Cristo, como eles pensavam por Cresceu-lhe a dúvida, advertindo
sugestão do inimigo. Esta sujeição foi muito que São João não quisera revelar, com
forte, pois, sendo o Batista da tribo de Levi, clareza, aos judeus, quem era. Concebeu
logicamente não podia ser o Messias. As suspeitas de que o chamar-se "voz" havia
Escrituras declaravam ser da tribo de Judá, sido dissimulação. Se dissesse que era
eos sacerdotes, sábios na lei, não ignoravam palavra de Deus, manifestava que era o
estas verdades. "Verbo; para ocultar essa identidade, não
O demônio os obscureceu e os se chamava "palavra" e sim "voz".
obrigou a fazerem aquela pergunta que Assim confuso andava Lúcifer, a
encerrava uma dupla malícia de Lúcifer: respeito do mistério da Encarnação. Pen-
se João respondesse que era o Messias, o sando que os judeus tinham ficado en-
demônio alcançaria o que desejava saber; ganados, ele o ficou muito mais, com toda
se respondesse que não era, restaria a pos- a sua depravada teologia.
sibilidade do Batista se envaidecer no
conceito que dele faziam, comprazer-se
na estima dos homens e usurpar, de todo Herodes e Herodíades
ou em parte, a honra que lhe atribuíam,
Com esta malícia, Lúcifer esperou com 1071. Aquele fracasso enfureceu
grande atenção, a resposta de São João. ainda mais o demônio contra o Batista.
Lembrou-se quão mal havia saído das
batalhas que travara a sós com o Senhor,
Resposta do Batista e que também a São João não conseguira
derribar em culpa de alguma gravidade.
1070. O santo precursor, com ad- Resolveu fazer-Ihe guerra por outro
mirável sabedoria, respondeu confes- caminho, e logo o encontrou, muito a
sando a verdade, mas de tal modo que, propósito.
deixou o inimigo vencido e mais atrapa- O Santo repreendia Herodes pelo
lhado que antes. escandaloso adultério em que vivia com
Respondeu que não era o Cristo. Herodíades, mulher de seu irmão Felipe,
Tornaram os judeus a lhe perguntar se era de quem a tinha tirado, como dizem os
Elias. Estava escrito que Elias viria antes Evangelistas (Mt 14, 3, Mc 6, 17, Lc 3,
do Messias, e como os judeus não sabiam 19).
discernir entre sua primeira e segunda Conhecia Herodes a santidade e
v»nda,fizeramessa pergunta ao Batista. bom senso de São João, tinha-lhe respeito,
Ele respondeu (Jo 1, 20, 21) que temor e o ouvia de boa vontade. Esta boa
"ao era Elias, mas a voz que clamava no influência que a luz e a razão produziam
deserto, como disse Isaias (Is 40,3), para no mau rei, era pervertida pela execrável
preparassem os caminhos do Senhor. e desmedida ira da torpissima Herodíades

201
Sexto Livro - Capítulo 4

e de sua filha, semelhante â mãe nos cos- por Herodes. Na prisão, foi muito favore
tumes. cido por nosso Salvador e por sua divi
Fascinada pela paixão e sensuali- Mãe. A grande Senhora mandou seus san
dade, a adúltera estava bem disposta para tos anjos visitá-lo muitas vezes, e em a |
ser instrumento do demônio, em qualquer gumas ordenou-lhes que lhe levassem ali
maldade. Incitou o Rei para degolar o Ba- mento por eles preparado. Por sua vez õ
tista, sendo primeiro instigada pelo ini- Senhor da graça lhe concedeu grandes fa.
migo a conseguir tal intento, por qualquer vores espirituais.
meio. O demônio, porém, que desejava
Havendo aprisionado (Mc 6, 17) acabar com São João, não deixava o co-
quem era a voz de Deus, o maior entre os ração de Herodíades em paz até vê-lo
nascidos, chegou o dia em que Herodes morto. Aproveitou-se da oportunidade do
celebrava seus malfadados anos. Fez um sarau e inspirou ao rei Herodes aquele es-
banquete e sarau aos magistrados e gran- tulto juramento e promessa à filha de
des da Galiléia (Mc 6,21), de onde era rei. Herodíades. Em seguida, mais o obscure-
A desonesta Herodíades introduziu na festa ceu, para que impiamente julgasse
sua filha, para bailar diante dos convidados. desonra não cumprir o iníquo juramento
Agradou tanto ao adúltero e cego rei, que com que confirmara a promessa. O resul-
este se obrigou, com juramento, a dar à tado foi mandar cortar a cabeça do precur-
dançarina tudo quanto ela desejasse, ainda sor São João, como consta do Evangelho
que fosse a metade de seu reino. (Mc 6, 27)
Manejada pela mãe, e ambas pela Neste momento, Maria santíssima
astúcia da serpente, pediu mais do que conheceu no interior de seu Filho santís-
muitos reinos: a cabeça do Batista num simo, pelo modo que costumava, que se
prato. O rei acedeu por ter jurado e por se aproximava a hora do Batista morrer por
ter sujeitado a uma desonesta e vil mulher. causa da verdade que pregara.
Os homens reputam ignomínia e in- Prostrou-se a Mãe puríssima aos
sulto serem chamados mulher, porque este pés de Cristo nosso Senhor, e entre lágri-
nome os priva da superioridade e nobreza mas, pediu-lhe assistisse naquela hora seu
de seu sexo. Maior baixeza, porém, é ser servo e precursor João. Que o amparasse
menos que mulher, deixando-se governar e consolasse, para que, a seus olhos, fosse
por seus caprichos, porque menor e inferior mais preciosa a morte que sofreria por sua
é o que obedece e maior o que manda. Ape- glória e em defesa da verdade.
sar disso, há muitos que se sujeitam a esta
vileza, sem considerá-la rebaixamento,
tanto maior e mais indigno quanto é mais Jesus e Maria visitam o Batista
vil e execrável uma desonesta mulher. Per-
dida esta virtude, nada lhe fica que não seja 1073. Respondeu-lhe o Senhor
muito desprezível e detestável aos olhos de que se agradava de seu pedido e »na
Deus e dos homens. cumpri-lo plenamente, junto com Ela
Logo, por divina virtude, Cristo nosso
Senhor e Maria santíssima foram trans-
portados milagrosa e invisivelmente ao
O Batista na prisão cárcere, onde se encontrava o Batis*
1072. Por instigação de Hero- preso com cadeias e maltratado com
díades, o Batista já tinha sido encarcerado muita feridas.
202
Sexto Livro - Capítulo 4

A impuríssima adúltera, dese- em oferecer a vida pela glória de meu Pai,


jando liquidá-lo, havia mandado seis antes de Mim? Muito se adiantaram vos-
criados açoitá-lo, o que fizeram em três sos desejos, pois gozais tão depressa a re-
ocasiões, para comprazer a patroa. Por compensa de padecer tribulações, tais
este meio, pretendeu aquele tigre tirar a como as reservo para minha humanidade.
vida do Batista antes da festa de Herodes. Com isto meu eterno Pai remunera o zelo
0 demônio incitou aqueles cruéis servos com que desempenhastes o oficio de meu
para que, com grande raiva o maltratas- precursor. Cumpram-se vossas afetuosas
sem com palavras e atos. ânsias, e apresentai o pescoço ao cutelo,
Arremessaram grandes insultos e pois assim o quero para que recebais
blasfêmias contra sua pessoa e contra a minha bênção e a bem-aventurança de
doutrina que pregava, pois eram homens padecer e morrer por meu nome. Ofereço
extremamente perversos, dignos criados a meu Pai a vossa morte, enquanto se es-
e confidentes de tão infeliz mulher, pera a minha.
adúltera e escandalosa.
A presença corporal de Cristo e de
sua Mãe santíssima encheu de luz e san- Resposta de São João
tificou o cárcere do Batista. Acompa-
nhavam aos Reis do céu grande multidão 1075. A virtude e suavidade desta
de anjos, enquanto os palácios do adúltero palavras encheram o coração do Batista
Herodes eram habitados por imundos com tanta doçura de amor divino que, por
demônios e ministros mais criminosos, do alguns momentos, não pode pronunciar
que quantos estavam encarcerados pela palavra. Fortalecido, porém, pela graça
justiça. divina, entre muitas lágrimas, respondeu
a seu Senhor e Mestre, agradecendo
aquele inefável favor, incomparável entre
Palavras de Cristo ao Batista os maiores que recebera de sua liberali-
dade.
1074. O santo Precursor viu o Re- Disse-lhe do íntimo da alma:
dentor do mundo e sua Mae santíssima Eterno bem e Senhor meu, minhas penas
cheios de esplendor e acompanhados e tribulações jamais podiam merecer tal
pelos coros de anjos. No mesmo instante favor e consolo, como gozar da real pre-
caíram-lhe as cadeias, cicatrizaram-se sença vossa e de vossa digna Mãe, minha
suas chagas, e cheio de incomparável ale- Senhora. Sou indigno deste beneficio.
gria prostrou-se em terra, com profunda Para que fique mais exaltado vossa
humildade e admirável devoção. imensa misericórdia, dai-me, Senhor, li-
Pediu e recebeu a bênção do Verbo cença de morrer antes que Vós e para que
encarnado e de sua Mãe santíssima que vosso santo nome seja mais conhecido.
passaram com ele alguns momentos em Recebei o meu desejo de que por
divino colóquio. Não me detenho a referir vosso amor minha morte fosse mais
tudo, mas só o que mais tocou meu tíbio penosa e demorada. Triunfem de minha
coração. vida Herodes, os pecados e o mesmo in-
Com amável semblante e bondade, ferno, que eu a entrego com alegria por
disse o Senhor ao Batista: João, meu Vós, meu amado; recebei-a, Deus meu,
servo, como vos antecipais ao vosso Mes- com agradável sacrifício. E, vós, Mãe de
fre, em ser açoitado, preso, maltratado, e meu Salvador e Senhora minha, volvei a

203
vosso servo os clementíssimos olhos de recebeu em seus braços o corpo do maj0r
vossa amável piedade, e guardai-me sempre entre os nascidos, e sua Mãe santíssima
em vossa graça, como Mãe e causa de todo sustentou em suas mãos a cabeça. Ambos
nosso bem. Em toda minha vida desprezei ofereceram ao eterno Pai aquela hóstia no
a vaidade, amei a cruz que meu Redentor há sagrado altar de suas divinas mãos.
de santificar e desejai semear nas lágrimas Isto foi possível, não só por estarem
(SI 125,5). Apesar disso, jamais mereci esta os Reis supremos invisíveis para os circuns-
alegria que me tomaram doces os tormentos, tantes, como por haver surgido entre 0$
suaves minhas prisões e a própria morte criados de Herodes, a discussão sobre quai
apetecível e mais amável que a vida deles havia de lisonjear à infame dançarina
e à sua ímpia mãe, levando-lhes a cabeça de
São João. Nesta competição se emba-
Degolação do Batista raçaram tanto que, sem notar, um deles pe-
gou a cabeça que a Rainha tinha nas Mãos,
1076. Estava a dizer estas palavras, e seguido pelos outros foram entregá-la,
quando entraram no cárcere três criados de num prato, à filha de Herodíades.
Herodes e um carrasco, pois a implacável A santíssima alma do Batista foi
ira da tão cruel quanto adúltera mulher, enviada por nosso Redentor ao limbo,
tudo providenciara sem perda de tempo. conduzida por grande multidão de anjos.
A sua chegada renovou a alegria dos san-
tos pais que ali se achavam. Os Reis-do
céu, Jesus e Maria, voltaram ao lugar em
que estavam antes de ir visitar São João.
Sobre a santidade e excelência
deste grande Precursor, muito se escreveu
na santa Igreja. Ainda que faltem algumas
coisas das que entendi, não posso deter-
me a escrevê-las, para não me desviar de
minha finalidade nem alongar mais esta
divina História.
Digo apenas que o feliz Precursor
recebeu muitos e grandes favores de
Cristo, nosso Senhor e sua Mãe santís-
sima, durante toda sua vida: em seu ditoso
nascimento, no deserto, na pregação e em
sua santa morte. A nação alguma o poder
divino concedeu tantos benefícios.
DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU
MARIA SANTÍSSIMA.

Executaram a ímpia ordem de Herodes e O santo e o ímpio


degolaram o santo Precursor. No mo-
mento em que deram o golpe, o sumo sa- 1077. Minha filha, resumis»
cerdote Cristo, que assistia ao sacrifício, muito os mistérios deste capítulo, mas ne
Sexto L i v r o - C a p i t u l o 4

s se encerra grande ensinamento para ti ela, contra a vontade do homem. Quando


para todos os filhos da luz, conforme porem, este lha entrega por repetidos e
entendeste. Grava-o em teu coração e
6 para atentamente a grande distância que
graves pecados, chega a dominá-la de tal
modo, que a transforma num instrumento
havia entre a santidade e pureza do Batista que se sujeita a quantas maldades lhe
a fealdade abominável de Herodes. Um, propõe.
pobre, despojado, maltratado, perseguido Vendo tantos e tão lamentáveis
e encarcerado. O outro, rei poderoso, re- exemplos, nào acabam os homens de se
galado, servido e entregue a delícias e tor- convencer deste tremendo perigo. Não
pezas. Ambos tinham a mesma natureza, ponderam até onde podem chegar os jus-
mas em condições tão diferentes por um tos juízos do Senhor, como aconteceu a
haver usado bem o outro mal da própria Herodes e à sua adúltera, por causa de seus
liberdade e vontade, e das coisas visíveis. pecados.
A penitência e pobreza de São João, sua Para levar as almas a este abismo
humildade, despojamento, tribulações e de maldade, Lúcifer conduz os mortais
zelo pela glória de meu Filho santíssimo, pela vaidade, soberba, glória do mundo e
alcançaram-lhe a graça de morrer em suas seus torpes deleites. Apenas isto lhes
mãos e nas minhas, benefícios tão singular oferece e apresenta como grande e
que ultrapassa qualquer ponderação hu- apetecivel. Os ignorantes filhos da per-
mana. dição soltam o freio da razão, seguem as
Ao contrário, o fausto e soberba de inclinações e torpezas da carne e se fazem
Herodes, sua vaidade, tiranias e torpezas, escravos de seu mortal inimigo.
levaram-no à infeliz morte executada por Minha filha, o caminho da hu-
um ministro do Senhor (anjo), e depois mildade, do abatimento e das aflições é o
aos castigos das penas eternas. O mesmo que ensinamos, Cristo meu Filho santís-
acontece no mundo agora e sempre, ainda simo e Eu. Esta é a estrada real da vida
que os homens não o advirtam nem o te- que fomos os primeiros a trilhar, e nos
mem. Assim, enquanto uns amam, outros constituímos por especiais mestres e pro-
temem a vaidade, o poderio e a glória do tetores dos aflitos e atribulados. Quando
mundo, que se acaba e desvanece mais nos chamam em suas necessidades os as-
que a sombra e é mais corruptível do que sistimos de modo maravilhoso com espe-
a erva. ciais favores. Deste amparo se privam os
seguidores do mundo e de seus vãos
deleites, desprezadores do caminho da
Os caminhos da perdição e os da cruz. Para este foste chamada e atraída
santidade com a suavidade de meu amor e doutrina.
Segue-me e trabalha por imitar-me, pois
1078. Não se lembram os homens achaste o tesouro escondido (Mt 13, 44,
do seu principal fim, e do abismo em que 45) e a pérola preciosa, por cuja posse te
°s lançam os vícios, ainda na vida pre- deves privar de todas as coisas terrenas e
sente. Não pode o demônio tirar-lhes a de tua mesma vontade, no que for con-
trária à do Altíssimo Senhor.
liberdade, nem tem poder imediato sobre

205
CAPÍTULO 5
OS FAVORES QUE OS APÓSTOLOS DE CRISTO
RECEBERAM PELA DEVOÇÃO POR SUA MÃE
SANTÍSSIMA. POR NÃO A TER, JUDAS SE PERDEU.
Convívio de Maria santíssima muito pouco, mas suficiente para nossa
instrução.
1079. Milagre dos milagres da A todos os discípulos que recebia
Onipotência divina e maravilha de em sua divina escola, o Senhor infiindia-
prodígios era o procedimento da pruden- lhes no coração a devoção e reverência
tíssima Senhora nossa, no colégio dospor sua Mãe santíssima. Assim convinha,
pois iriam tratar com Ela e viver familiar-
mente em sua companhia. Esta semente
de luz divina não era igual para todos, por-
que o Senhor distribuía estes dons de
acordo com as disposições das pessoas e
os ministérios e ofícios a que eram desti-
nados.
O trato e convívio amabilíssimo e
admirável da grande Rainha e Senhora de-
senvolvia essa graça inicial, e iam cres-
cendo em seu reverenciai amor e vene-
ração. A todos Ela falava, amava, conso-
lava, ensinava e socorria em todas as ne-
cessidades, de modo que, de sua presença
e conversação, jamais alguém se retirava,
sem estar cheio de alegria interior e de
maior conforto do que tinha desejado. O
bom fruto, maior ou menor destes favores,
dependia das disposições do coração que
Apóstolos e discípulos de Cristo, nosso recebia esta semente do céu.
Senhor e seu Filho santíssimo. Esta sabe-
doria é indizível e se tentasse dizer tudo
quanto entendi sobre ela, ser-me-ia ne- Admiração dos Apóstolos por Maria
cessário escrever um grande volume só
sobre este assunto. Direi alguma coisa 1080. Todos ficavam cheios de ad-
ne$te capítulo, e nos demais, conforme miração e com altíssimo conceito desta
Su<"girem as oportunidades. Tudo será grande Senhora, de sua prudência e sabe-

207
dona, de sua santidade e pureza, de sua São João ficaria no lugar dQ
alta majestade unida à suavidade tão próprio Jesus, como filho da puríssima
aprazível e humilde, que ninguém encon- Senhora, para a acompanhar e assistir na
trava palavras para exprimir. terra.
Assim o dispunha o Altíssimo, Ao governo e guarda destes dois
pois como disse no livro 5o, capítulo 2$, Apóstolos seriam confiadas as duas igre.
não era tempo para ser manifestada ao jas: a Igreja mística Maria santíssima e a
mundo esta mística arca do Novo Testa- Igreja militante dos fiéis. Por esta razào
mento. E, como o que deseja muito falar foram particularmente agraciados pelà
e não pode manifestar seu conceito, mais grande Rainha do mundo.
o concentra no coração; assim os santos Não obstante, como São João era
Apóstolos, docemente constrangidos pelo o escolhido para servi-la e chegar à dig-
próprio silêncio, transformavam seus ar- nidade de seu filho adotivo, recebeu
dores de amor por Maria santíssima em dons particulares na devoção a Maria
louvores de seu Criador. santíssima e logo se distinguiu nisso.
Em sua incomparável ciência, co- Ainda que, em tal matéria, todos os
nhecia a grande Senhora as capacidades Apóstolos excederam nossa capacidade
de cada um, sua graça, disposição e minis- de compreensão, o Evangelista João
tério a que estava destinado. De acordo penetrou mais nos ocultos mistérios
com esta inteligência, em seus pedidos ao desta mística cidade do Senhor, e por Ela
Senhor, em seu ensinamento, palavras e recebeu tanta luz sobre a divindade que
favores, procedia com cada um deles, excedeu todos os Apóstolos, como
segundo convinha à vocação que tinham prova seu Evangelho (Jo 21, 20). Toda
recebido. aquela sabedoria lhe foi concedida por
Este modo de. proceder, numa pura meio da Rainha do céu e a prerrogativa
criatura, tão à medida do agrado do Se- de chamar-se apóstolo amado de Jesus,
nhor, foi nova e grande admiração para os também a alcançou pelo amor que devo-
santos anjos. Através de oculta providên- tou à sua Mãe santíssima.
cia, o Todo-poderoso inclinava os Após- Pela mesma razão, foi também
tolos a corresponderem aos benefícios e correspondido pela divina Senhora, vindo
favores recebidos de sua Mãe. Tudo isto a ser por excelência, o discípulo amado de
formava divina harmonia oculta aos Jesus e de Maria.
homens, e só dos espíritos celestiais co-
nhecida.
O Apóstolo predileto
São Pedro e São João 1082. Além da castidade evirginal
pureza, o santo Evangelista possuía algu-
1081. Nestes favores, foram privi- mas virtudes prediletas da Rainha. Entre
legiados os dois Apóstolos São Pedro e elas, sinceridade columbina que trans-
São João. O primeiro porque seria vigário parece também em seus escritos; hu-
de Cristo e cabeça da Igreja militante. Por mildade e serena mansidão que o tornava
causa desta excelência a que o Senhor o de trato aprazível.
elevaria, Maria santíssima tinha para com A divina Mãe chamava retratos de
São Pedro especial reverência, amor e res- seu Filho santíssimo, a todos os pacíficos
peito.
e humildes de coração.
Distinguindo-se, entre todos os santíssima de nossa grande Senhora, ele
Apóstolos, nestas virtudes, mereceu a produzia agradabilíssima harmonia. Na
predileção da Rainha e possuiu as dis- minha, desejo louvar com júbilo ao Se-
posições para se imprimir em seu coração, nhor, por que sem o merecer, sob este
reverenciai amor e desejo de servi-la. mesmo nome chamou-me à luz e fé da
Desde sua primeira vocação como santa Igreja e ao instituto religioso que
acima disse^, São João começou a dis- professo.
tinguir-se entre todos, na veneração a Ma- Os demais Apóstolos e discípulos
ria santíssima, dedicando-lhe reverente conheciam a graça que São João gozava
obediência de humilíssimo escravo. Mais junto a Maria santíssima, e muitas vezes
freqüentemente, quanto lhe era possível, recorriam a ele para que lhes servisse de
ficava com Ela e procurava ajudá-la em intercessor nas coisas que desejavam
trabalhos que a Senhora do mundo fazia pedir. Acedia o amável Apóstolo e inter-
por suas mãos. Algumas vezes, o feliz vinha com seus rogos junto à doce Mãe,
Apóstolo desempenhava estes serviços cuja amorosa piedade conhecia.
humildes, em santa porfia com os anjos A respeito deste assunto falarei
da Rainha, a qual vencia a todos, pois na mais, principalmente na terceira parte e
humildade jamais alguém pode superá-la poder-se-ia escrever uma extensa His-
ou igualá-la, ainda no menor de seus atos. tória, só dos favores que São João Evan-
O discípulo amado era também gelista recebeu da Rainha e Senhora do
muito diligente em referir à grande Se- mundo.
nhora todas as obras e maravilhas do Sal-
vador, quando Ela não se achava presente,
como também das pessoas que se conver- São Tiago, Santo André, as santas
tiam e abraçavam a sua doutrina. Cuidava, mulheres e demais discípulos
sempre atento, em saber no que mais a po-
dia agradar e servir, e como o entendia, 1084. Depois de São Pedro e São
assim o praticava. João, foi muito amado pela Mãe santís-
sima o apóstolo São Tiago, irmão do
Evangelista. Recebeu admiráveis favores
Veneração de São João por Maria da grande Senhora, como veremos na ter-
ceira parte.
1083. Distinguiu-se também São Santo André foi também caríssimo
João na reverência com que nomeava Ma- à Rainha, porque sabia que este grande
ria santíssima. Em sua presença tratava-a apóstolo seria especial devoto da Paixão
por Senhora, ou minha Senhora, e na e Cruz de seu Mestre e como este, nela
ausência chamava-a Mãe de nosso Mestre morreria.
Jesus. Depois da Ascensão, foi o primeiro Não me detenho a falar dos de-
a lhe dar o título de Mãe de Deus e do mais, mas a todos eles, pelas virtudes de
Redentor do mundo, e na sua presença, cada um, e por amor de seu Filho santís-
Mãe e Senhora. Dava-lhe também outros simo, amava e respeitava com rara
títulos; Restauradora do pecado, Senhora prudência, caridade e humildade.
dos povos, e foi ele que primeiro a chamou Deste grupo, fazia parte a Ma-
Maria de Jesus, como muitas vezes foi dalena a quem nossa Rainha olhava afetu-
nomeada na primitiva Igreja. Deu-lhe este osamente, por causa do amor que ela tinha
nome, porque compreendeu que na alma a seu Filho santíssimo, e porque viu que
o coração desta grande penitente era amou com seu amor infinito, sem reservas
idôneo para o Todo-poderoso ser nela glo- nem medida? Os anjos amam-na com to-
rifícado. Tratou-a Maria santíssima muito das suas forças espirituais. Os Apóstolos
familiarmente entre as demais mulheres, e Santos com íntimo e cordial afeto. Se
e a instruiu sobre altíssimos mistérios, todas as criaturas a amarem com entusi-
com que a enamorou ainda mais de seu asta porfia, ainda será menos do que Ela
Mestre e da mesma Senhora. merece.
A santa confiou à nossa Rainha A infelicidade de Judas começou
seus desejos de se retirar à solidão para por não se colocar neste caminho real
viver só para o Senhor, em contínua para chegar ao amor divino e seus dons
penitência e contemplação. A amorosa A inteligência que disso me foi dada para
Mestra lhe deu importantes instruções o escrever, é como segue.
para a vida que a Santa levou no êrmo,
onde a visitou pessoalmente, uma vez, e
muitas outras por meio dos anjos que en- História de Judas
viava para animá-la e consolá-la naquela
austeríssima solidão. 1086. Judas entrou na escola de
As outras mulheres que seguiam o Cristo, nosso Mestre, atraído exterior-
divino Mestre foram também muito fa- mente pela força de sua doutrina, e inte-
vorecidas por sua Mãe santíssima. A elas riormente, pelo bom espírito que movia a
e a todos os discípulos prodigalizou in- outros.
comparáveis benefícios, e todos foram in- Conduzido por estas graças,
tensamente afeiçoados e devotos desta pediu ao Salvador que o aceitasse entre
grande Senhora e Mãe da graça. Nela e seus discípulos, e o Senhor o recebeu
por Ela, todos encontraram copiosamente com sentimentos de amoroso pai que
esta graça, pois a Senhora era como que a não despreza ninguém que o procure
sua fonte e o reservatório, onde Deus a sinceramente.
depositava para o bem de todo o gênero A princípio, Judas recebeu outros
humano. favores da divina destra, de modo que se
Não me estendo mais sobre este as- distinguiu entre outros discípulos e foi
sunto. Além de não ser necessário, pelo nomeado um dos doze apóstolos. O Se-
conhecimento que existe na santa Igreja, nhor o amava realmente, conforme o
seria mister muito tempo para tratar desta estado de sua alma e boas obras que então
matéria. fazia.
A Mãe da graça também o olhou
com misericórdia, ainda que, por sua ciên-
Judas o apóstolo infiel cia infusa, logo conheceu a traição infame
que ele cometeria no fim de sua carreira.
1085. Somente do mau apóstolo Todavia, nem por isto lhe negou sua inter-
Judas direi algo do que compreendi, por cessão e caridade maternal. Pelo con-
ser menos conhecido. E exigido para esta trário, a divina Senhora tomou por sua
História, a fim de servir de lição aos pe- conta justificar, quanto lhe era possível
cadores, desengano aos obstinados e aviso a causa de seu Filho santíssimo com o in-
aos pouco devotos de Maria santíssima. feliz Apóstolo. A maldade do traidor não
Haverá alguém que o seja pouco, de deveria encontrar nenhuma desculpa»
criatura tão amável que o mesmo Deus mesmo aparente e humana.
Sexto Livro Capítulo 5

Conhecendo que, comrigor,aque- luntárias. Com plena advertência deixou


le temperamento não se dobraria, mas se- entrar a primeira, que foi a vã complacên-
ria levado mais depressa à obstinação, cui- cia; esta chamou a segunda, que foi de al-
dava a prudentíssima Senhora que nada guma inveja; daqui resultou a terceira, que
faltasse a Judas. Providenciava-lhe todo o foi condenar e julgar com pouca caridade
necessário e conveniente, e o tratava com as ações de seus irmãos. Estas abriram a
maior demonstração de carinho e suavi- porta para outras maiores, e em con-
dade do que aos outros, sendo isso muito seqüência se lhe foi esfriando o fervor da
notório. devoção e a caridade para com Deus e o
Quando os discípulos entravam em próximo. A luz interior foi-se enfraque-
competições para saber quem seria o cendo e apagando, e começou a sentir
preferido pela Rainha puríssima, - assim pelos Apóstolos e pela Mãe santíssima
como diz o Evangelho a respeito de Jesus certo aborrecimento com fastio de seu
(Lc 22»24), - Judas não precisou se preocu- convívio e atos santíssimos.
par com estes ciúmes, porque a Senhora
sempre o favoreceu muito nos princípios, e
ele também se mostrava agradecido. Judas perde a graça
1088. A prudentíssima Senhora
Primeiras falhas de Judas observava este extravio de Judas e pro-
curava curá-lo antes que se entregasse à
1087. O caráter de Judas, porém, morte do pecado, falando-lhe e ad-
o ajudava pouco. Entre os discípulos e moestando-o como a filho caríssimo, com
Apóstolos havia imperfeições de homens, extrema suavidade e enérgicas razões.
ainda não de todo conformados na per- A tempestade que começava a se le-
feição da graça. Começou o imprudente vantar no inquieto coração de Judas, as
discípulo a se preferir aos outros, trope- vezes se acalmava. A tranqüilidade, porém,
çando nos defeitos de seus irmãos, não durava muito, e logo se agitava no-
reparando mais nos alheios do que nos vamente. Dando entrada ao demônio, che-
próprios (Lc 22, 41). Consentindo neste gou a irritar-se contra a mansíssima pomba
erro, sem reparo nem emenda, a viga em e com afetada hipocrisia procurava escon-
seus olhos foi crescendo, na medida em der, negar ou desculpar suas faltas, como se
que, com indiscreta presunção, reparava pudera enganar seus divinos Mestres e ocul-
no argueiro dos de seus irmãos. Criticava- tar-lhes o segredo de seu íntimo.
os e pretendia, com mais presunção do que Com isto, perdeu a reverência in-
zelo, emendar em seus irmãos faltas muito terior à Mãe de misericórdia, desprezando
menores do que as que ele cometia. suas admoestações e atirando-lhe em
Entre os demais Apóstolos, impli- rosto a doçura de suas palavras e conse-
cou-se com São João, julgando-o presu- lhos. Este ingrato atrevimento arrebatou-
mido e intrometido junto de seu Mestre e lhe a graça. O Senhor se indignou grave-
da Mãe santíssima, apesar dele ser tam- mente e deixou-o entregue a seu próprio
bém tão favorecido por ambos. arbítrio (Ecli 15, 14), por culpa de seus
Até aqui, as desordens de Judas desmedidos desacatos. Desviando-se da
não passavam de culpas veniais, sem ter graça e intercessão de Maria santíssima,
perdido a graça justificante. Tais faltas, ele mesmo fechou as portas da mise-
porém, eram de má espécie e muito vo- ricórdia e de sua salvação. Depois desta

21!
Sexto Livro - Capítulo 5

má vontade pela amorosa Mãe, começou Cristo nosso Salvador e sua Mãe santís.
a aborrecer-se de seu Mestre, a desgostar- sima, a respeito de Judas, depois de sua
se de sua doutrina e a achar pesada a vida queda em pecado. De tal modo o toleraram
dos Apóstolos e a convivência com eles. em sua companhia, que jamais lhe
mostraram semblante carregado, nem
deixaram de o tratar com a mesma bon-
Judas não aceita correção dade como aos demais.
Esta foi a causa dos Outros
1089. Apesar de tudo, a divina Apóstolos nada suspeitarem do mal ín-
Providência não o abandonou logo, e sem- timo de Judas, ainda que seu procedi-
pre lhe enviava auxílios interiores. Ainda mento dava grandes indícios de sua má
que fossem menos especiais dos que re- consciência. Não é fácil, e quase im-
cebia antes, eram suficientes, se ele os possível, forçar sempre as inclinações
aproveitasse. para as dissimular. Não se estando muito
Além destas graças, não cessou a prevenido, sempre agimos conforme nos-
clementíssima Senhora de exortá-lo cari- sas tendências e costumes, e então, elas se
nhosamente para que se humilhasse, e revelam aos que convivem conosco.
pedisse perdão a seu divino Mestre e ver- O mesmo sucedia com Judas entre
dadeiro Deus. Em nome do Senhor, ofere- os Apóstolos, mas como todos viam a
ceu-lhe misericórdia, e de sua parte o afabilidade e amor com que Cristo, nosso
acompanharia, rogaria por ele e faria Redentor, e sua Mãe santíssima sempre o
penitência por seus pecados. D'ele só de- tratavam, julgavam enganar-se nas sus-
sejava que se arrependesse e se emen- peitas e maus indícios da queda do infiel
dasse. Apóstolo.
Todas estas oportunidades ofere- Por esta mesma razão, quando na
ceu-lhe a Mãe da gráça para remediar, no última ceia legal lhes disse o Senhor que
princípio a queda de Judas. Sabia que o um deles O havia de entregar (Mt 26,21;
maior mal não era cair, mas permanecer Mc 14, 18; Lc 22, 21; Jo 13, 18), senti¬
no pecado sem se levantar. ram-se todos assustados e duvidosos, e
O soberbo discípulo não podia cada um perguntava se iria ser o traidor.
negar o testemunho que sua consciência Gozando São João de maior in-
dava de seu mau estado. Não obstante, foi timidade com o Mestre, chegou a ter al-
se obstinando. Temendo a vergonha do guma luz sobre as maldades de Judas, e
que lhe podia conquistar glória, caiu na com isso se preocupava. Por este motivo
confusão que aumentou seu pecado. Com revelou-lhe o Senhor, por sinais, con-
tal soberba, não aceitou os salutares con- forme narra o Evangelho (Jo 13,26). Até
selhos da Mãe de Cristo, negou sua culpa, aquela hora, porém, o divino Mestre
protestando com fingidas palavras que nunca dera a perceber o que se passava
amava seu Mestre. E, quanto ao mais, em Judas.
nada tinha do que se emendar. Esta paciência é ainda mais ad-
mirável em Maria santíssima que, sendo
Mãe e pura criatura, via que já se aproxi-
Caridade e paciência de Jesus e Maria mava a traição que aquele desleal
discípulo cometeria contra seu Filho san-
1090. Foi admirável o exemplo de tíssimo, a quem amava como Mãe e nao
caridade e paciência que nos deixaram como serva.
212
.- — . , —,
Sexto Livro - Capítulo 5

A caridade minou o divino Mestre que algum deles


se encarregasse de receber e distribuir as
1091. Quanto somos ignorantes e esmolas, como síndico e administrador
estultos! Que diferente proceder o nosso,para as necessidades comuns e pagamento
filhos dos homens, se recebemos alguma dos tributos imperiais. Sem indicar nin-
pequena injúria, apesar de merecer tantas!
guém, Cristo nosso Senhor propôs a to-
Como somos impacientes para sofrer as dos. Temendo este ofício ninguém se
fraquezas alheias, querendo que todos to-ofereceu, enquanto Judas imediatamente
lerem as nossas! Como achamos difícil o cobiçou. Para consegui-lo, o ambicioso
perdoar uma ofensa, pedindo cada dia e a discípulo se humilhou a pedir a São João
cada hora que o Senhor perdoe as nossas falasse à Rainha santíssima, para que Ela
(Mt 6, 12)! Como somos prontos e o obtivesse do Senhor.
desapiedados em publicar as culpas de São João assim o fez, mas a pru-
nossos irmãos, e que ressentidos e irados,
dentíssima Senhora, conhecendo que o
se alguém fala das nossas! pedido não era justo nem conveniente,
A ninguém medimos com a procedente de cobiça, não quis propô-lo
medida com que desejamos ser medidos, ao divino Mestre.
e não queremos ser julgados com o juízo A mesma diligência fez Judas por
que fazemos dos outros (Lc 6,37). Tudo meio de São Pedro e outros Apóstolos, mas
tampouco o conseguia, porque a clemência
isto é perversidade, trevas e sopro da boca
do Altíssimo lho queria impedir, para justi-
do dragão infernal que quer se opor à ex-
celentíssima virtude da caridade, e per-ficar sua causa quando o permitisse. Esta
verter a ordem da razão humana e divina.resistência, em vez de sossegar o coração de
Como Deus é caridade (Uo 4,16) J udas, e de abrandar a avareza quej á o domi-
e quem a exercita perfeitamente está em nava, mais inflamou a infeliz chama que o
Deus e Deus nele, assim Lúcifer é ira e abrasava. Atiçava-a satanás com pen-
vingança. Quem a pratica está nele e elesamentos ambiciosos, feios até para
o maneja em todos os vícios que se opõemqualquer pessoa de outro estado.
ao bem do próximo. Se para outros seriam indecorosos e
Confesso que a beleza da virtudeculpáveis, muito mais o eram para Judas,
da caridade sempre me suscitou grandes discípulo da escola da maior perfeição, onde
desejos de a ter por amiga, mas também gozava da luz do sol da justiça Cristo, e da
vejo, no claro espelho desta maravilhosa lua Maria. No dia da abundância e da graça,
caridade com o ingratíssimo Apóstolo, ilurninado pelo sol de seu divino Mestre, não
podia deixar de conhecer o delito de con-
que ainda não cheguei sequer ao princípio
desta nobilíssima virtude. sentir em tais sugestões. Em a noite da ten-
tação tinha a influência da lua Maria para
livrar-se do veneno da serpente.
Judas cobiça o cargo de tesoureiro Como, porém, fugia da luz e se en-
tregava às trevas, corria para o precipício.
1092. Para que o Senhor não me Atreveu-se a pedir, pessoalmente, a Maria
repreenda por haver calado, ao que ficou santíssima o cargo que pretendia, per-
dito, falarei sobre mais outra causa da dendo o medo e encobrindo sua cobiça
ruína de Judas. com a côr da virtude. Dirigiu-se a Ela e
Desde que começou a crescer o lhe disse que o pedido que Pedro e João,
número de Apóstolos e discípulos, deter- seus irmãos, lhe haviam feito em seu
213
Sexto Livro - Capítulo 5

nome, procedia do desejo que ele tinha de interiormente da fé, resolveu dirigir.Se
servir a ela e a seu Filho, com toda a dedi- pessoalmente a Cristo, seu divino Mestre
cação, pois nem todos tinham nisso o cui- e Salvador.
dado que era justo. Portanto, suplicava- Como arguto pretendente, vestiu
lhe que o alcançasse de seu Mestre. sua maldade com pele de ovelha, aproxi-
mou-se de Jesus e lhe disse: Mestre, de-
sejo fazer vossa vontade e vos servir
Maria procura dissuadi-lo sendo administrador das esmolas que re-
cebemos. Acudirei aos pobres, praticando
1093. Com grande mansidão, res- vossa doutrina de fazer com o próximo o
pondeu-lhe a Senhora do mundo: Consi- mesmo que desejamos seja feito a nós.
dera bem, caríssimo, o que pedes, e examina Procurarei distribuir com ordem e con-
se é reta a intenção com que o desejas. Re- veniência, de acordo com vossa vontade,
flete se te convém apetecer o que teus ir- melhor do que se fez até agora.
mãos, os discípulos, temem e só aceitariam Estas e outras razões disse o
obrigados pela obediência a seu Mestre e hipócrita a seu Deus e Mestre, cometendo
Senhor. Ele te ama mais do que tu a ti de uma vez, muitos e enormes pecados.
mesmo, e sabe, sem se enganar, o que te Em primeiro lugar, mentia, porque tinha
convém. Entrega-te à sua santíssima von- outra intenção. Além disto, fingia o que
tade, muda teus planos e procura entesourar não era: ambicioso da honra que não
humildade e pobreza. Levanta-te donde merecia, não queria parecer o que era, nem
caíste que eu te darei a mão, e meu Filho ser o que desejava parecer. Murmurou de
usará contigo de sua amorosa misericórdia. seus irmãos desacreditando-os e louvando
A quem não dobrariam estas doces a si mesmo. Caminhos estes muito batidos
palavras e enérgicas razões, ouvidas de pelos ambiciosos.
tão divina e amável criatura como Maria O mais grave é que perdeu a fé in-
santíssima? Todavia, não se abrandou fusa, pretendendo enganar Cristo, seu ce-
nem comoveu aquele feroz coração, duro lestial Mestre, com fingimento e hipo-
como diamante. Pelo contrário, irritou-se crisia. Se cresse firmemente que Cristo era
interiormente, dando-se por ofendido pela verdadeiro Deus como verdadeiro ho-
divina Senhora que lhe oferecia o remédio mem, não poderia pensar em enganá-lo,
de sua mortal doença. pois como Deus, conhecia o íntimo de seu
Um ímpeto desenfreado de am- coração (Jo 6,65).
bição e cobiça da paixão concupiscível, Não só com sua ciência infinita,
irrita à irascível contra quem a estorva, e mas ainda como homem, pela ciência in-
reputa os bons conselhos por agravos. A fusa e beatíssima, o conhecia. Se Judas
amantíssima e amável pomba, porém, assim cresse, teria desistido de seu pro
deixou passar e, por então, não falou mais jeto. A todos os outros pecados, portanto,
com o obstinado Judas. acrescentou o da heresia.

Os pecados de Judas Avareza de Judas


1094. Nada alcançando de Maria 1095. Cumpriu-se neste desleal
santíssima, não sossegava Judas em sua discípulo, à letra, o que mais tarde diria o
avareza. Despindo-se do natural pejo, e Apóstolo (1 Tim 6, 9): Os que desejam
214
Sexto Livro - Capítulo 5

enriquecer vêm a cair na tentação e se en- Endurecimento de Judas


redam nos laços do demônio, e em desejos
inúteis e vãos que lançam os homens na 1096. Voltemos, porém, à resposta
perdição e eterna morte; porque a cobiça que o Mestre da vida deu a Judas, quando
é a raiz de todos os males, e muitos por este lhe pediu o ofício de ecônomo, para
segui-la, erraram na fé e se puseram em que se veja quão ocultos e grandiosos são
muitas aflições. os juízos do Altíssimo.
Tudo isto sucedeu ao avarento e Desejava o Salvador do mundo
pérfido apóstolo, cuja cobiça foi tanto afastá-lo do perigo que encerrava sua pre-
mais vil e culpada, quanto era mais vivo tensão, e onde o cobiçoso apóstolo encon-
e admirável o exemplo da alta pobreza de traria sua final perdição.
Cristo nosso Senhor, de sua Mãe santís- Para que não alegasse ignorância,
sima e de todo o grupo dos apóstolos, que disse-lhe o Senhor: Sabes, ó Judas, o que
possuía apenas algumas modestas esmo- desejas e pedes? Não sejas tão cruel contra
las. ti mesmo, procurando e pedindo o veneno
Imaginou, porém, o mau discípulo e as armas que podem te causar a morte.
que, com os grandes milagres de seu Mes- Replicou Judas: Eu, Mestre, de-
tre, e com tantas pessoas que o seguiam e sejo servi-vos, empregando minhas forças
procuravam, aumentariam as ofertas que ao bem de vossa congregação. Por este
ele saberia desviar para si. Como não o meio poderei fazê-lo melhor do que por
conseguia, os próprios donativos lhe outro qualquer, e para isso me ofereço.
serviam de tormento, como demonstrou Com esta porfia de Judas em pro-
na ocasião em que Madalena gastou os curar e amar o perigo, Deus justificou sua
preciosos aromas para ungir o Salvador causa para nele deixá-lo cair e perecer. O
(Mt 26, 6; Mc 14,-4; Jo 12,1). infeliz resistiu à luz e se endureceu.
A cobiça de os apanhar transfor- Sendo-lhe mostrado a água e o fogo (Ecli
mou-o em negociante: disse que valiam 15,17), a vida e a morte, escolheu a per-
mais de trezentos dinheiros e que eram dição.
subtraídos aos pobres, a quem poderiam Ficou demonstrada a justiça e en-
ser repartidos. Dizia isto, porque lhe doía grandecida a misericórdia do Altíssimo
muito não os ter tomado para si, pois com que tantas vezes se ofereceu para entrar
os pobres não se incomodava. Pelo con- em seu coração, donde Judas o expulsou
trário, indignava-se com a Mãe de mise- para acolher o demônio. Mais adiante, di-
ricórdia porque dava tantas esmolas; comrei outras coisas das maldades de Judas,
o Senhor porque não aceitava mais; com para exemplo dos mortais. Aqui não quero
os apóstolos e discípulos porque não alongar mais este capítulo, e porque os fa-
pediam. Com todos se enfadava e tos pertencem a outros lugares desta
mostrava-se ofendido. História.
Alguns meses antes da morte do Que homem, sujeito a pecar, não
Salvador, começou a se afastar muitas temerá com grande pavor? Alguém de sua
vezes dos demais apóstolos e do Senhor. mesma natureza; na escola de Cristo e de
Desgostava-lhe sua companhia e só vinha sua Mãe santíssima; formado por sua dou-
recolher as esmolas que podia. Nestas trina, testemunha de seus milagres; em tão
ausências, pôs-lhe o demônio no coração pouco tempo, do estado de apóstolo santo,
acabar de todo com seu Mestre, entre- justo, que fazia os mesmos milagres e
gando-o aos judeus, como aconteceu. prodígios que os outros, passou ao estado
215
Sexto Livro - Capítulo 5

de demônio! De singela ovelha, conver- Caríssima, a pureza que de ti de


teu-se em lobo sanguinário e carniceiro. sejo deve ser mais do que angélica. Se /
Judas começou por pecados ve- dispuseres para alcançá-la, conseguir-6
niais, e deles caiu nos mais graves e hor- também ser minha filha caríssima como
rendos. Entregou-se ao demônio que já João, e esposa querida e acariciada p0r
suspeitava que Cristo era Deus. A ira que meu Filho e Senhor. Este exemplo, e
nutria contra Ele, descarregou no infeliz ruína de Judas, sempre devem te servir de
apóstolo que se isolou do pequeno re- escarmento e estímulo para solicitares
banho. meu amor e agradeceres o que, sem o
Agora, é maior ainda o furor de mereceres, eu te manifesto.
Lúcifer, depois que, a seu pesar, conheceu
Cristo por verdadeiro Deus e Redentor..
Que poderá esperar a alma que se entrega Devoção aos amigos de Deus
a tão cruel inimigo, sedento de nossa con-
denação eterna? 1098. Quero também que entendas
outro segredo ignorado no mundo: um dos
DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU pecados mais feios e detestados pelo Se-
MARIA SANTÍSSIMA. nhor, é a pouca estima devotada aos justos
e amigos da Igreja, especialmente a mim
que fui escolhida para Mãe sua e protetora
Devoção à Virgem universal de todos. Se desprezar e não
amar os inimigos é tão odioso ao Senhor,
1097. Minha filha, tudo o que (Mt 18, 35) e aos santos do céu, como
escreveste neste capítulo é um dos mais suportará que se faça isto com seus amigos
importantes avisos para todos os que caríssimos, nos quais repousa seu olhar e
vivem em carne mortal, com perigo de seu amor? (SI 33,16).
perder o bem eterno. Solicitar a inter- Esta advertência é muito mais im-
cessão de meus rogos e clemência; temer portante do que podes calcular na vida
com discreção os juízos do Altíssimo (SI mortal, e o desamor pelos justos é um dos
118,120), são as condições para se salvar sinais de reprovação. Guarda-te deste
e aumentar a recompensa. perigo, e não julgues a ninguém (Mt 7,
Quero que novamente entendas: 1), ainda menos aos que te repreendem e
entre os divinos segredos que meu Filho ensinam. Não te deixes inclinar a coisa
santíssimo revelou ao nosso predileto alguma terrena, e ainda menos aos ofícios
João, em a noite da ceia, um deles foi de de governo, onde o sensível e humano ar-
que essa predileção era fruto do amor que rasta aos que só pensam nisso, perturba-
o Apóstolo me devotava, enquanto a lhes o julgamento e obscurece a razão.
queda de Judas fôra conseqüência de A ninguém invejes a honra, nem
haver desprezado a piedade que Eu lhe de- outras coisas aparentes, nem apeteças ou
monstrei. Então, compreendeu o Evangel- peças ao Senhor, senão seu amor e santa
ista grandes sacramentos que a divina amizade. A criatura é cheia de inclinações
destra realizara em mim, e os trabalhos e cegas, e se não as refreia, costuma desejar
sofrimentos que me pediria em sua e pedir o que virá a ser sua perdição. P°r
Paixão. Ao mesmo tempo, ordenou-lhe o castigo de outros pecados, e por ocultos
Senhor que tivesse especial cuidado por juízos, às vezes, Deus lhes concede o que
mim. tanto cobiçam, como aconteceu a Judas
Sexto Livro - Capítulo 5

Nestes bens temporais que tanto cobiçam satisfazer seus desejos em coisas tempo-
já recebem a recompensa de algum bem rais, para afastá-los do perigo. Para que
que hajam feito. Nisto entenderás a ilusão não caias nele, te admoesto e mando que
de muitos seguidores do mundo que sejul- jamais apeteças, nem te inclines a coisa
gam ditosos e felizes, quando conseguem humana.
tudo o que desejam para satisfazer suas Afasta tua vontade de tudo; con-
terrenas inclinações. Esta é a sua maior serva-a livre e senhora; liberta-a do ca-
infelicidade, porque nada lhes fica para tiveiro e escravidão a que conduzem as
ser premiado na vida eterna. inclinações. Nada queiras fora da vontade
Os justos, ao contrário, despreza- do Altíssimo, pois que o Senhor tem cui-
ram o mundo, nele sofreram adversi- dado (Mt 6,30) dos que se entregam à sua
dades, e o Senhor, muitas vezes, recusa divina Providência.

De uma das estradas que levam de Nazaré à Judéia está bem à vista o monte Tabor, em
cujo vértice é levantado este Santuário.

2i7
218
CAPÍTULO 6
TRANSFIGURAÇÃO DE CRISTO, NO TABOR, COM A
PRESENÇA DE SUA MÃE SANTÍSSIMA. SOBEM DA
GALILÉIA PARA JERUSALÉM. A UNÇAO FEITA POR
MADALENA EM BETANIA.
A transfiguração Cristo, nosso Senhor, os dois profetas
Moisés e Elias com ele falando sobre sua
1099. Decorrera mais de dois anos Paixão. Enquanto se achava transfigurado
e meio da pregação e milagres de nosso veio uma voz do céu que, em nome do
Redentor e Mestre Jesus. Aproximava-se eterno Pai, disse: Este é meu Filho muito
o tempo marcado pela eterna sabedoria amado em quem me comprazo; a Ele de-
para voltar ao Pai, por meio de sua paixão veis ouvir.
e morte, e com ela deixar satisfeita a divina
justiça e redimido o gênero humano.
Como todas as suas obras eram or- A transfiguração e Maria
denadas à nossa salvação e ensinamento,
cheias de divina sabedoria, determinou o 1100. Não dizem os Evangelistas
Senhor, preparar alguns de seus apóstolos que Maria santíssima estivesse presente
para o sobressalto que sua morte lhes iria ao prodígio da transfiguração, mas tam-
produzir (Mt 26, 31). Quis, antes, lhes pouco o negam. Isto não pertencia à sua
mostrar glorioso, aquele corpo passível finalidade, nem convinha manifestar nos
que depois veriam açoitado a crucificado. Evangelhos o oculto milagre com que se
Vê-lo-iam transfigurado pela glória, antes realizou.
de o ver desfigurado pelas dores. Para escrever esta história, a mim
Pouco antes ele fizera esta foi dado a compreender o seguinte: ao
promessa diante de todos, embora apenas mesmo tempo que alguns anjos trouxeram
para alguns, como refere o evangelista a alma de Moisés e Elias, a divina Senhora
São Mateus (Mttó,28). foi levada por seus santos anjos ao monte
Para isto escolheu um alto monte, Tabor, para ver seu Filho santíssimo trans-
o Tabor, situado no centro da Galiléia, a figurado, e realmente o viu.
duas léguas de Nazaré para o oriente, Ainda que não fosse necessário
subindo até seu cume. Com os três fortalecer a fé da Mãe santíssima como a
Apóstolos, Pedro, Tiago e seu irmão João, dos apóstolos, pois nela estava confir-
transfigurou-se diante deles, como nar- mada e seguríssima, teve o Senhor muitos
ram três evangelistas: Mateus (17, 1-4); fins no prodígio da Transfiguração.
Marcos (9,1); Lucas (9,28). Acharam-se Além disso, para sua Mãe santís-
também presentes na transfiguração de sima havia outras razões particulares, para
Sexto Livro Capítulo 6
Cristo nosso Redentor celebrar tão grande estar habituada a tantas e tão grandes
mistério em sua presença. O que para os graças, fôra repleta de novas disposiçòes
apóstolos era favor, para a Rainha e Mãe iluminação e fortaleza para ver a divinl
era como devido, sendo ela sua compa- dade. Assim, pôde ver o corpo transfigu^
nheira e coadjutora da Redenção até a rado sem se ofuscar e sem sofrer o temor
cruz. Convinha, por esta graça, confortar e desfalecimento que os apóstolos so-
sua alma santíssima para os tormentos que freram na parte sensitiva.
iria padecer. Ficando depois, por Mestra A Mãe santíssima já vira outras
da santa Igreja, daria testemunho deste vezes o corpo de seu Filho santíssimo
mistério. Seu Filho santíssimo não lhe iria transfigurado, como acima disse*1*. Nesta
ocultar o que, tão facilmente, lhe podia ocasião, porém, foi com novas circunstân-
manifestar, pois lhe mostrava todas as cias que lhe produziram maior admiração
operações de sua alma santíssima. inteligência e outros singulares favores
Seu amor filial pela Mãe não lhe Em igual proporção, foram os efeitos pro-
negaria este favor, quando não deixou de duzidos em sua alma puríssima, tendo
lhe fazer quantos lhe provavam seu ternís- saído desta visão, toda renovada, infla-
simo afeto. Pessoalmente, para a grande mada e deificada.
Rainha, resultava em maior excelência e Enquanto viveu em carne mortal,
dignidade. Por estas razões e outras mui- nunca perdeu as espécies desta visão da
tas, que não é necessário referir agora, foi-humanidade gloriosa de Cristo nosso
me dado a entender que Maria santíssima Senhor. Serviu-lhe de grande consolo na
assistiu a Transfiguração de seu Filho san- ausência de seu Filho, enquanto não lhe
tíssimo e Redentor nosso. foi renovada sua imagem gloriosa em
outras visões, como veremos na terceira
parte. Não obstante, foi também motivo
Visão da Virgem para sentir mais as afrontas de sua
Paixão, tendo-o visto como Senhor da
1101. Durante o tempo em que se glória.
realizou este mistério, a Virgem viu, não
apenas a humanidade de Cristo transfigu-
rada e gloriosa, mas também a divindade, Explicação da Transfiguração
clara e intuitivamente. A graça feita aos
Apóstolos, foi para ela muito maior e mais 1102. Os efeitos que em sua alma
perfeita. santíssima produziu esta visão de Cristo
Mesmo na visão da glória do glorioso, não se podem explicar humana-
corpo, a todos manifesta, houve grande mente. Ver, com tanto esplendor, aquela
diferença entre a divina Senhora e os substância que o Verbo tomara de seu
apóstolos. Eles, a princípio, quando o Sen- próprio sangue, que trouxera em seu vir-
hor se retirou a orar, ficaram sonolentos, ginal seio e alimentara com seu leite; ouvir
como diz São Lucas (9, 32). Depois, ao a voz do Pai reconhecendo por Filho
ouvir a voz do céu, com grande temor aquele que também era seu, dando-o por
caíram com o rosto por terra, até que o Mestre aos homens; a prudentíssima Mãe
Senhor lhes falou e os levantou, como penetrava, agradecia e louvava digna-
narra São Mateus (17, 6). mente ao Todo-poderoso por todos estes
A divina Mãe, porém, em tudo mistérios. Fez novos cânticos com seus
conservou-se inalterável, pois além de anjos, celebrando aquele dia tão festivo
l-n°69S.851.
Sexto Livro - Capítulo 6

para sua alma e para a humanidade de seu fervoroso desejo de sofrer, e voluntaria-
pilho santíssimo. mente oferecer-se pelo gênero humano.
Não me detenho em explicar Não voltaria mais à Galiléia onde re-
outras coisas deste mistério, e em que con- alizara tantos prodígios.
sistiu a transfiguração do sagrado corpo Ao sair de Nazaré, adorou ao
de Jesus. Basta saber, que seu rosto eterno Pai agradecendo-lhe, enquanto
resplandeceu como o sol e suas vestes fi- homem, por ter, naquela casa e lugar, re-
caram mais brancas que a neve (Mt 17, cebido a forma e ser humano que, pela sal-
2). Esta glória no corpo resultou da que o vação dos homens, ofereceria à paixão e
Salvador sempre possuiu em sua alma morte. Nesta oração que não posso expli-
divinizada e gloriosa. car com palavras, entre outras muitas,
Na Encarnação, fez o milagre de Cristo nosso Redentor disse estas:
suspender os efeitos de glória que ela, per-
manentemente, devia refletir sobre o
corpo. Agora, na transfiguração, cessou, Oração de Cristo
de passagem, aquele milagre, e o corpo
puríssimo participou da glória da alma, 1104. Meu eterno Pai, para vos
sendo isso o esplendor e claridade vistos obedecer vou, com alegria e boa vontade,
pelos que a assistiam. Terminada a Trans- satisfazer vossa justiça e padecer até mor-
figuração, continuou o milagre de se sus- rer para reconciliar convosco todos os fi-
pender os efeitos da alma gloriosa. Visto lhos de Adão (Rom 5, 10). Pagarei a
que esta era sempre beatificada, foi tam- dívida de seus pecados, e abrir-lhes-ei as
bém prodígio que o corpo recebesse ape- portas do céu que estes tinham fechado.
nas de passagem, o que, normalmente, Vou à procura das almas que, dei-
sempre deveria ter. xando-me se perderam (Lc 19, 10), e se
hão de salvar pela força de meu amor. Vou
reunir os dispersos da casa de Jacó (Is 56,
Última viagem de Jesus 8), erguer os caídos, enriquecer os pobres,
refrigerar os sedentos, derrubar os sober-
1103. Celebrada a Transfiguração, bos e exaltar os humildes.
a Mãe santíssima foi trazida de volta à sua Quero vencer o inferno e enaltecer
casa em Nazaré. Seu Filho santíssimo des- o triunfo de vossa glória contra Lúcifer
ceu do monte e veio encontrá-la, para se (Uo 3, 8) e os vícios que semeou no
despedir de sua terra, e dirigir-se a Jerusa- mundo. Quero arvorar o estandarte da
lém onde deveria padecer na Páscoa, a cruz, sob a qual hão de militar todas as
última para o Senhor. virtudes e quantos a seguirem (M116,24).
Passados alguns dias saiu de Na- Quero saciar a sede de meu coração pelos
zaré acompanhado de sua Mãe santíssima, opróbrios (Tren 3, 30) e afrontas, a vos-
dos apóstolos, discípulos e outras santas sos olhos tão estimáveis. Quero humi-
mulheres, percorrendo o centro da Gali- lhar-me até receber a morte da mão de
léia e Samaria até chegar em Jerusalém na meus inimigos, para que vossos amigos
Judéia. e escolhidos sejam honrados e conso-
O evangelista São Lucas descreve lados em suas tribulações, exaltados
esta viagem dizendo que o Senhor, resolu- com eminente e copiosa recompensa,
tamente, encaminhou-se para Jerusalém quando a meu exemplo se humilharem
(Lc 9,51). Partiu com alegre semblante e a padecê-las (FHp 28),
221
Sexto Livro - Capítulo 6

Oh! cruz suspirada, quando me re- xamos a vaidade (SI 4, 3). Tendo diante
ceberás em teus braços? Oh! doces dos olhos a vida e a verdade, sempre so
opróbrios e dolorosas afrontas, quando mos arrastados pelo deleite, avessos ao
me levareis à morte para deixá-la vencida que é penoso.
em minha carne (Heb 2,17) quç em tudo Oh! lamentável erro! Trabalhar
foi inocente? Dores, opróbrios, igno- tanto para fugir de pequeno trabalho, can-
mínias, açoites, espinhos, paixão, morte, sar-se demasiado por não aceitar pequeno
vinde a mim que estou à vossa procura; incômodo, preferir estultamente sofrer
deixai-vos logo encontrar por quem vos uma ignomínia e vergonha eterna, a pade-
ama e conhece vosso valor. cer uma insignificante, e mesmo por nào
Se o mundo vos aborrece eu vos se privar de uma honra vã e aparente!
cobiço. Se ele, ignorante, vos despreza, Quem dirá, se tiver são juízo, que
Eu que sou a verdade e sabedoria, vos pro- isto é amar-se a si mesmo? Ofendendo a
curo porque vos amo. Vinde, pois, a Mim, Deus, nos prejudicamos mais, do que nos
receber-vos-ei como homem, e como poderiam lesar as perseguições do ini-
Deus vos darei a honra que vos tirou o migo.
pecado e quem o comete. Consideramos inimigo aquele
Vinde a Mim e não frustreis meus que, debaixo de lisonjas e carícias, nos
desejos. Se não vos aproximais porque arma traição, e louco seria quem, sabendo,
sou todo-poderoso, dou-vos licença para se entregasse a esta, por causa do pequeno
que em minha humanidade empregueis deleite daqueles. Se isto é verdade, onde
toda vossa ação. Não sereis por Mim re- está o juízo dos seguidores do mundo?
pelidos, como fazem os mortais. Acabe-se Quem lho roubou? Quem lhes estorva o
o engano e ilusão dos filhos de Adão que uso da razão? Oh! quão grande é o número
servem à vaidade e à mentira (SI 4, 3), dos néscios (Ecle 1,15)!
julgando infelizes os pobres, aflitos e in-
juriados pelo mundo. Quando virem o seu
verdadeiro Deus, Criador, Mestre e Pai Oração de Maria
padecer opróbrios, açoites, ignomínias,
tormentos, desnudez e morte de cruz, 1106. Somente Maria santíssima,
acabará o erro e terão por grande honra imagem viva de seu Unigênito, foi a única
seguir seu Deus crucificado. entre os filhos de Adão que se ajustou per-
feitamente à sua vontade e vida, sem dis-
cordar um ponto de todas suas obras e dou-
Incoerência dos homens trina. Ela foi a prudentíssima, plena de
ciência e sabedoria, que pode compensar
1105. Estas são algumas das razões as falhas de nossa ignorância ou estultice,
que me foi dado a entender brotavam do alcançando-nos a luz da verdade, para ilu-
coração do Mestre da vida, nosso Salva- minar nossas densas trevas.
dor. A realidade dos fatos manifestaram o Na ocasião de que vamos falando,
que minhas palavras não conseguem ex- aconteceu que a divina Senhora viu no
primir: o valor que via nos sofrimentos, espelho da alma santíssima de seu Filho,
na paixão, na morte e na cruz e o amor todos os atos e afetos interiores que ele
com que as desejou. fazia. Como essa visão era a norma de suas
Mesmo assim, nós, criaturas terre- ações, acompanhou-o naquela oração ao
nas, não abrandamos o coração e não dei- eterno Pai, dizendo interionnente: Deus
222
Sexto Livro - Capítulo 6

altíssimo e Pai das misericórdias, adoro Oh! filhos de Adão, tão enganados
teu ser infinito e imutável. Louvo-te e glo- e esquecidos de vós mesmos! Despertai
rifico-te eternamente porque neste lugar, de tão pesado sono e conhecei o peso de
depois de me haver criado, tua benigni- vossas culpas, pelo que custaram ao vosso
dade se dignou elevar-me à Mãe de teu mesmo Deus e Criador. Olhai meu
Unigênito, com a plenitude de teu espírito. delíquio, dor e amargura. Acabai de vos
Comigo, tua humilde escrava, convencer do mal que é o pecado.
enalteceste tuas antigas misericórdias.
Sem Eu o merecer, teu unigênito e meu na
humanidade que recebeu de minha su- Partida de Nazaré para Jerusalém
bstância, dignou-se conservar-me em sua
companhia, tão desejável, por trinta e três 1107. Não posso dignamente
anos. Durante este tempo gozei das in- manifestar todos os atos e conceitos que
fluências de sua graça e magistério e de a grande Senhora do mundo fez nesta
sua doutrina que iluminou o coração de última despedida de Nazaré: suas súplicas
tua serva. e orações ao eterno Pai, os doces e dolo-
rosos diálogos com seu Filho santíssimo,
Hoje, Senhor e Pai eterno, deixo a grandeza de sua amargura, os incom-
minha terra e acompanho meu Filho e meu paráveis méritos que adquiriu.
Mestre para cumprir tua vontade e assistir Entre o amor santo e maternal de
ao sacrifício de sua vida pelo gênero hu- verdadeira mãe com que desejava a vida
mano. Não há dor que se iguale a minha de Jesus e evitar-lhe os tonnentos que
dor (Tre 1» 12), pois hei de ver entregue havia de padecer, e conformidade com a
aos lobos sanguinários o Cordeiro que tira vontade dele e a do eterno Pai - seu co-
os pecados do mundo (Jer 11,19); aquele ração era traspassado pela dor, daquela es-
que é a viva imagem de tua substância pada penetrante que lhe profetizou Si-
(Sab 7,26; Heb 1,3) gerado ab aeterno e meão (Lc 2,35).
por todas as eternidades igual a ela; Nesta aflição, dizia a seu Filho
aquele, a quem Eu dei o ser humano em palavras prudentíssimas, cheias de sabe-
meu seio, verei entregue aos opróbrios da doria, meigas e dolorosas, por nào poder
morte de cruz, e desfigurada pelos tor- lhe evitar a Paixão, nem acompanhá-lo
mentos a beleza daquele rosto (Is 53, 2) morrendo com Ele. Nestas penas ultrapas-
que é a luz de meus olhos e a alegria dos sou, sem comparação, a todos os Mártires
anjos. que existiram e existirão até o fim do
Oh! se fora possível eu sofrer as mundo.
penas e dores que o esperam, e me en- Nestas disposições e sentimento,
tregar à morte para poupar sua vida! Re- ignorados pelos homens, prosseguiram os
cebe, Pai altíssimo, o sacrifício que com Reis do céu e terra, a viagem de Nazaré a
teu amado te oferece meu doloroso sen- Jerusalém, através da Galiléia, onde não
timento, a fim de que se cumpra tua san- mais voltou o Salvador do mundo, em sua
tíssima vontade e beneplácito. Oh! que vida mortal.
rápidos correm os dias e as horas, Como estava a terminar o tempo
aproximando a noite de minha dor e de trabalhar pela salvação dos homens,
amargura! Para a linhagem humana será foram maiores os prodígios que fez nestes
dia feliz, mas noite de aflição para meu últimos meses, antes de sua paixão e
coração tão contristado com a ausência morte, conforme é narrado pelos Evange-
do sol que o iluminava.
223
Sexto Livi - Capítulo 6
listas (Mt 13; Mc 10; Lc 9; Jo 7), desde morava a voltar.
a partida da Galiléia até o dia de sua en- O Senhor, como Deus e Filho, via
trada triunfante em Jerusalém, como direi o que acontecia à sua Mãe queridíssima.
adiante(2). Correspondia-lhe com a mesma fideli-
dade, dizendo-lhe interiormente as
Até esta ocasião, depois da festa palavras dos Cânticos que aqui se re-
dos Tabernáculos, o Salvador esteve per- alizaram literalmente: Feris.te meu co-
correndo a Judéia, aguardando o tempo ração, minha irmã, feriste-o com um dos
marcado para se oferecer em sacrifício, teus olhos (Cânt 4, 9). Ferido e vencido
quando e como Ele mesmo queria. por seu amor ia logo a seu encontro.
Conforme entendi, Cristo, nosso
Amor entre Filho e Mãe Senhor, enquanto homem, não poderia fi-
car longe da presença de sua Mãe, se aten-
1108. Nesta viagem, a Mãe santís- desse à intensidade da afeição que lhe
sima acompanhou-o sempre, salvo o dedicava, como Mãe que tanto o amava.
tempo em que se separavam para acudir a Sua vista e presença O consolava; a beleza
diferentes obras em beneficio das almas. daquela alma puríssima dava-lhe prazer e
Nestas ocasiões, era acompanhada e tomava-lhe suaves os trabalhos e penali-
servida por São João. Desde esse tempo, dades, dos quais Ela era o fruto, entre to-
o santo Evangelista percebia grandes dos, único e singular. Sua amabilíssima
mistérios e segredos da puríssima Virgem presença era de grande alívio para as
Mãe, sendo ilustrado com altíssima luz penas sensíveis do Senhor.
para entendê-los.
Entre as maravilhas que a pruden-
tíssima e poderosa Rainha operava, as Volta de Cristo à Betânia
principais e de maior caridade, consistiam
em dirigir seus anseios e súplicas para a 1109. Continuava nosso Salvador
justificação das almas. Também Ela, a realizar maravilhas na Judéia, entre elas
como seu Filho santíssimo, fez maiores a ressurreição de Lázaro na Betânia (Jo
favores aos homens, trazendo muitos ao 11, 17), onde veio a chamado das irmãs
bom caminho, curando enfermos, visi- Marta e Maria. Muito próximo de
tando pobres, necessitados e desampara- Jerusalém, logo se divulgou ali o milagre,
dos. Ajudava-os a bem morrer, servia-os e os pontífices e fariseus, irritados com o
pessoalmente, principalmente aos mais prodígio, fizeram uma reunião para decre-
abandonados, doentes e chagados. tar a morte do Salvador (Jo 11,47). Orde-
De tudo era testemunha o Dis- naram que, se alguém tivesse notícia
cípulo amado que se encarregara de servi- d'Ele, o denunciasse, porque depois da
la. ressurreição de Lázaro, Jesus retirara-se à
A força do amor de Maria purís- cidade de Efren (Jo 11, 54) até a festa da
sima por seu Filho e Deus eterno crescera páscoa que não estava longe.
imensamente. Vendo-o agora prestes a se Ao chegar o tempò de voltar a cele-
despedir para voltar ao Pai, sofria a Mãe brá-la com a sua morte, abriu-se mais com
beatíssima tão contínuos ímpetos do co- os Apóstolos, dizendo-lhes que subiam a
ração no desejo de o ver, que chegava a Jerusalém, onde o Filho do Homem seria
sentir amorosos desfalecimentos quando entregue aos príncipes dos fariseus, pa*'a
fek se ausentava ou quando Ele se de- ser preso, açoitado e velipendiado ate a
Sexto Livro - Capitulo 6

morte de cruz (Mt20, 17; Mc 10,32; Lc de alabastro, cheio de precioso e fragran-


18,31; Jo 11,12). tíssimo perfume feito de nardo e outras
Neste Ínterim, andavam os fari- substâncias aromáticas. Limpou-lhe os
seus atentos, à espreita de o ver subir a pés com os cabelos, como fizera em sua
Jerusalém para celebrar a Páscoa. Seis conversão, na casa do fariseu, conforme
dias antes voltou a Betânia (Jo 12, l)onde conta São Lucas (Lc 7, 38).
ressuscitara Lázaro. Foi hospedado por Os outros três Evangelistas (Mt
suas duas irmãs que prepararam lauta ceia 26,6; Mc 14,3; Jo 12,3) descrevem esta
para Jesus e sua Mãe santíssima e todos segunda unção, feita por Madalena, com
os que os acompanhavam para a festivi- alguma diferença. Todavia, não entendi
dade da Páscoa. Um dos presentes à ceia que fossem duas unções, nem duas mu-
foi Lázaro, ressuscitado poucos dias an- lheres, mas só a Madalena, inspirada pelo
tes. divino Espírito e por seu inflamado amor
por Cristo nosso Salvador
A casa toda rescendeu com a fra-
A unção por Madalena grância desse unguento. Era bastante,
muito precioso e a liberai e amorosa
1110. Estando o Salvador recli- discípula quebrou o frasco para derramá-
nado à mesa, conforme o costume dos lo totalmente em honra de seu Mestre.
judeus, entrou Maria Madalena (Jo 12,3) O avarento apóstolo, Judas, que
repleta de luz divina e de elevados e no- desejava tê-lo vendido para ficar com o
bilíssimos pensamentos. Com ardentís- dinheiro, começou a criticar a misteriosa
simo amor por seu divino Mestre, derra- unção. (Jo 12,5), contagiando alguns dos
mou-lhe sobre a cabeça e os pés um frasco outros apóstolos, sob o pretexto de cari-
dade para com os pobres.
Dizia que se lesavam as esmolas,
gastando tão prodigamente e sem proveito
coisa de tanto valor. Na realidade, aquele
ato fôra inspirado por vontade divina, en-
quanto ele não passava de hipócrita, ava-
rento e insolente.

Revolta de Judas
1111. O Mestre da verdade defen-
deu Madalena a quem Judas repreendia de
pródiga e irrefletida. Disse o Senhor, a ele
e aos demais, que não a incomodassem
(M126,10) porque aquele ato não era feito
sem justa razão. Os pobres, por causa
disso, não seriam privados das esmolas
que lhes quisessem dar todos os dias, mas
à sua pessoa nem sempre poderiam fazer
aquele obséquio. Era a sua sepultura que
a generosa e enamorada Madalena, inspi-
225
Sexto Livro - Capítulo 6

rada pelo céu, estava prevenindo com chamou-o em particular e com palavr
aquela misteriosa unção. Testemunhava, de grande doçura, entre copiosas IágrjS
assim, que o Senhor iria se sacrificar pelo mas, lhe mostrou o tremendo perigo què
gênero humano, e sua morte e sepultura corria. Pediu-lhe que mudasse de re
estavam muito próximas. solução, e se nutria rancor por seu Mestre
Nada disso, porém, entendeu o que se vingasse n'Ela, pois seria menor
pérfido discípulo, encolerizando-se mal, sendo Ela pura criatura, e Ele seu
contra seu Mestre por ter justificado o Mestre e verdadeiro Deus.
ato de Madalena. Vendo Lúcifer a dis- Para saciar a cobiça daquele ava-
posição daquele depravado coração, rento coração, ofereceu-lhe algumas
lançou-lhe novas setas de cobiça, raiva coisas que para isso a divina Mãe recebera
e mortal ódio contra o Autor da vida. de Madalena. Nenhuma destas deligên-
Desde esse momento, Judas decidiu cias, entretanto, foram capazes de abran-
maquinar a morte do Mestre desacredi- dar o ânimo endurecido de Judas, nem tào
tando-o, junto aos fariseus de Jerusalém vivas e suaves razões puderam impres-
como realmente e com audácia o fez. sionar seu coração mais duro que o
As ocultas, procurou-os e lhes diamante.
disse que seu Mestre ensinava leis novas, Pelo contrário, não achando o que
contrárias às leis de Moisés e dos impera- responder às justas palavras da prudentís-
dores; que era amigo de banquetes, de sima Rainha, calou e se irritou ainda mais,
gente perdida e mundana; que acolhia mostrando-se ofendido. Mas, nem por isso,
muitos homens e mulheres de má vida e se envergonhou de aceitai* o que Ela lhe deu,
andava em sua companhia. Que os fari- pois era tão ambicioso quanto desleal.
seus tratassem de ver isso, não viesse Deixando-o, Maria santíssima
acontecer alguma tragédia que depois não dirigiu-se a seu Filho e Mestre, e cheia de
pudessem remediar. amargura e lágrimas atirou-se a seus pés.
Como os fariseus pensavam de Procurou consolá-lo com grande com-
igual modo, manejados, tanto eles como paixão, pois via que sua humanidade san-
Judas, pelo príncipe das trevas, aceitaram tíssima se entristecia pelas mesmas razões
o conselho, e combinaram a venda de que depois o fez dizer aos discípulos:
Cristo nosso Salvador. minha alma está triste até a morte (Mt 26,
38). Estas penas eram produzidas pelos
pecados dos homens que haviam de per-
Obstinação de Judas der o fruto de sua paixão e morte, como
adiante direi ,
1112. Todos os pensamentos de Ju-
das eram conhecidos, não só do divino DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU
Mestre, mas também de sua Mãe santís- MARIA SANTÍSSIMA.
sima. Nem por isto, o Senhor deixou de
lhe falar como amoroso pai, e de lhe enviar
ao obstinado coração santas inspirações. Pela cruz à glória
A estas, a Mãe de clemência acrescentou
novas exortações e diligências para im- 1113. Minha filha, continuando a
pedir o discípulo de cair no precipício. escrever a história de minha vida, cada dia
Naquela noite da ceia, que foi no vais compreendendo melhor o ardentís-
sábado antes do domingo de Ramos, simo amor com que meu Senhor e tu,
Sexto Livro - Capitulo 6

abraçamos o caminho da cruz e do sofri- Paciência com as almas


mento, o único que escolheu na vida mor-
tal. Já que recebes esta ciência que Eu 1114. Em virtude dos méritos infi-
sempre te repito, é razão que trabalhes por nitos que Ele interpôs nesta petição, esta
imitá-la. Esta dívida vai crescendo parati, glória é coroa de justiça para a criatura.
desde o dia que te escolheu por Esposa. Tem direito a ela como membro da cabeça
Aumentando sempre, não a podes solver que lha mereceu, Cristo (2Tim 4, 8). A
se não abraçares os trabalhos, e se não os união a Ele, porém, é efetuada pela graça
amares com tal afeto, que para ti a maior e pela imitação no padecer ao qual corres-
pena seja o não padecê-los. Cada dia, ponde o prêmio. Se qualquer sofrimento
renova em teu coração esta ciência igno- corporal terá sua coroa, muito maior será
rada e detestada pelo mundo. o de sofrer e perdoar as injúrias, re-
Ao mesmo tempo, adverte, porém, tribuindo-as com benefícios, como nós
que Deus não quer provar a criatura apenas fizemos com Judas. O Senhor não o ex-
para a afligir, mas sim para tomá-la capaz e cluiu do apostolado, não se mostrou in-
digna dos benefícios e tesouros que, por este dignado contra ele, e o esperou até o fim.
meio, lhe prepara e ultrapassam todo hu- Finalmente, pela própria malícia o infeliz
mano pensamento (ICor 2, 9). acabou por se entregar ao demônio e se
Em fé da referida verdade e como impossibilitar para o bem.
penhor dessa promessa, quis se transfigurar Na vida mortal o Senhor é muito
no Tabor, na presença minha e de alguns lento para se vingar, mas depois compen-
discípulos. Na oração que ali fez ao Pai, e sará a tardança com o rigor do castigo.
que só Eu conheci e entendi, adorou-o por Pois, se Deus suporta e espera tanto,
verdadeiro Deus, infinito em perfeições e quanto não deve um vil bichinho tolerar a
atributos, conforme costumava fazer outro de sua mesma natureza e condição?
quando queria lhe dirigir algum pedido. Por esta verdade, e com o zelo da caridade
Em seguida, suplicou que os cor- de teu Senhor e Esposo, deves regular tua
pos mortais, que por seu amor e à sua imi- „ paciência, tolerância e solicitude pela sal-
tação se mortificassem e sofressem, na vação das almas. Não te digo para tolerar
nova lei da graça, participassem depois da o que for contra a honra de Deus, pois isto
glória de seu corpo; e, para dela gozar no não seria verdadeiro zelo pelo bem do
grau que cada qual merecesse, fosse res- próximo.
suscitado no dia do juízo final e unido à Quero que aborreças o pecado,
própria alma. mas ames as criaturas do Senhor; que
Concedeu o eterno Pai este pedido. sofras e dissimules o que se referir a ti, e
Confirmou-o como por um contrato entre trabalhes para, o quanto for possível, to-
Ele e os homens, mediante a glória do das se salvarem. Não percas logo a confi-
corpo de seu Mestre e Salvador, penhor ança quando não vires o resultado, mas
da que pedia para todos seus seguidores. apresenta ao eterno Pai os méritos de meu
Tanto valor como este adquire o momen- Filho Santíssimo, a minha intercessão, a
tâneo trabalho (Cor 4,17) dos mortais ao dos anjos e santos. Deus é caridade, e
se privarem dos deleites terrenos, morti- estando nele, os bem-aventurados a exer-
ficando sua carne e padecendo por Cristo, citam a favor dos peregrinos na terra (Uo
meu Filho e Senhor. 4,16).

227
Sexto Livro - Capítulo f»
CAPITULO 7
OCULTO SACRAMENTO QUE PRECEDEU A ENTRADA
TRIUNFANTE DE JESUS EM JERUSALÉM E COMO FOI
RECEBIDO POR SEUS HABITANTES.
Os mistérios e sua revelação jecturas humanas. Assim, escrevo os que
me são declarados, entendendo que ainda
1115. Entre as obras de Deus ficam ocultos outros muitos, veneráveis e
chamadas ad extra, porque as fez fora de admiráveis.
Si mesmo, a maior foi assumir carne hu- Quero prevenir a piedade e a fé
mana, padecer e morrer pela salvação dos católica dosfiéis:tudo o que escrevi sobre
homens. esta matéria, principalmente a respeito da
Este mistério não poderia ter sido Paixão de nosso Redentor, são comple-
cogitado pela sabedoria humana (Mt 16, mentos colocados sobre a base e funda-
17), se o seu Autor não o revelara por tan- mento das verdades católicas. Crendo
tos argumentos e testemunhos. Apesar de nestas, osfiéisnão acharão dificuldade em
tudo, a muitos sábios segundo a carne, foi admitir aqueles complementos.
difícil acreditar no seu próprio bem e
remédio. Outros acreditaram, mas sem as
condições e as autênticas implicações do Jesus e Maria em oração
fato.
Quanto aos católicos, crêem, con- 1116. No sábado em que Madalena
fessam e conhecem este mistério no grau ungiu o Salvador em Betânia, terminada
da luz que dele recebeu a santa Igreja. Na a ceia, como disse no capítulo passado,
fé explicita dos mistérios revelados, con- nosso divino Mestre retirou-se a sós. Sua
fessamos implicitamente os outros que Mãe santíssima, depois de falar com o
em si encerram, e que não foram mani- obstinado Judas, foi à presença de seu
festados ao mundo. Filho amantíssimo acompanhando-o, co-
Deus não os revelou, ou por não mo costumava, em sua oração.
serem necessários, ou por não haver Estava o Senhor para entrar no
chegado o momento oportuno. Outros, maior combate do itinerário que, como diz
Ele os reserva para o último dia, quando David no salmo 18, 7, percorrera do su-
os corações forem desvendados na pre- premo céu à terra, onde venceu o
sença do justo juiz. A intenção do Senhor demônio, o pecado e a morte, para voltar
mandando-me escrever esta História - novamente ao céu.
como outras vezes disse, e em muitas o Ia livremente ao encontro da Pai-
entendi - é manifestar alguns destes ocul- xão e da Cruz, mas como Filho obedien-
tos mistérios, despidos de opiniões e con- tíssimo, ofereceu-se de novo ao eterno
Sexto Livro - Capítulo 7

Pai. Prostrado com a face em terra adorou- Logo elevou o Verbo humanado ao
o, louvou-o e fez profunda oração da altís- trono em que estava, e colocou-o à sua
sima conformidade com que aceitava as direita com a sua mesma supremacia e
ignomínias de sua Paixão, as penas, in- poder.
júrias e morte de cruz, pela glória de Deus
e resgate da linhagem humana.
Estava sua Mãe santíssima um O Salmo 109
pouco afastada, a um lado do feliz ora-
tório, acompanhando seu querido Filho e 1118. Permaneceu Maria santís-
Senhor na oração que ambos faziam, do sima em seu lugar, mas toda elevada e
íntimo de suas almas santíssimas e entre transformada em admirável júbilo e
muitas lágrimas. resplendor. Vendo seu Unigênito sentado
à destra de seu Pai pronunciou as primei-
ras palavras do Salmo 109, no qual David
O eterno Pai aceita o sacrifício de profetizou este oculto mistério: "Disse o
Cristo e Maria Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha
direita." (VI)
1117. Antes da meia-noite apare- Comentando estas palavras, fez a
ceu o eterno Pai em forma humana visível, divina Rainha misterioso cântico em louvor
com o Espírito Santo e multidão de anjos do eterno Pai e do Verbo humanado. Ces-
que assistiam ao ato. O Pai aceitou o sa- sando ela de falar, prosseguiu o eterno Pai
crifício de Cristo, seu amantíssimo Filho, o resto do salmo, como executando em seu
e que n*Ele se executasse o rigor de sua imutável decreto, tudo o que contêm aquelas
justiça, e o mundo fosse perdoado. misteriosas e profundas palavras.
Disse o Pai eterno à Mãe beatís- Muito difícil é traduzir, em meus
sima: Maria, filha e esposa nossa, quero limitados termos, a inteligência que tenho
que mais uma vez entregues teu Filho para de tão alto mistério. Direi alguma coisa,
que me seja sacrificado, pois eu o entrego como o Senhor me conceder, para que se
pela redenção humana. entenda parte de tão oculto sacramento do
Respondeu a humilde e cândida Todo-poderoso, e o que o Pai eterno quis
pomba: Aqui está, Senhor, o pó e a cinza, dizer a Maria santíssima e aos espíritos
indigna de que vosso Unigênito e Re- angélicos que ali assistiam.
dentor do mundo seja meu. Submissa,
porém, à vossa inefável dignação que
lhe deu forma humana em meu seio, Interpretação do Salmo 109
ofereço-o e, com Ele, a mim mesma para
cumprir vosso divino beneplácito. Su- 1119. Prosseguiu o Eterno Pai:
plico-vos, Senhor e Pai eterno, me "Até que eu ponha teus inimigos por es-
aceiteis para sofrer juntamente com cabelodeteupés."(Sl 109,1)
vosso e meu Filho. Como te humilhaste obedecendo à
Recebeu o eterno Pai a oblação minha eterna vontade (Filp 2, 8-9), mere-
de Maria santíssima, aceitou-a como ceste a exaltação que te dou sobre as
agradável sacrifício e levantando do criaturas. Em a natureza humana que rece-
solo a Filho e Mãe, disse: este é o ben- beste, reinarás eternamente à minha direi'
dito fruto da terra, que minha vontade ta. Para sempre, colocarei teus inimigos
deseja. sob teus pés e sob o domínio que possuis
230
Sexto Livro - Capítulo 7

como Deus e Redentor dos homens. cedes, por eterna geração, de meu fecundo
Aqueles que não te obedeceram nem acei- entendimento.
taram, verão rua humanidade que são os Esta geração precedeu o luzeiro da
teus pés, elevada e exaltada. graça, o decreto de nos manifestarmos às
Enquanto não o executo, pois é ne- criaturas, formado nos resplendores que
cessário que se complete a redenção hu- gozarão os Santos, quando forem beatifi-
mana, quero que meus cortesãos vejam cados com nossa glória.
agora, o que depois os demônios e os Também está contigo teu prin-
homens conhecerão: a posse de minha cípio, aquele que tiveste enquanto homem
destra, em troca de te haveres humilhado gerado no dia de teu poder. Desde o ins-
à morte ignominiosa de cruz. Se te entrego tante em que recebeste o ser humano pela
a ela e ao capricho da malícia deles, é para geração temporal em tua Mãe, começaste
minha glória, e para que depois, cheios de a adquirir o mérito que agora está contigo
confusão, sejam postos debaixo de teus e te faz digno da honra e glória que hão
pés. de coroar tua virtude, neste dia e no de
- Para isto, "o Senhor estenderá o minha eternidade.
cetro de teu poder desde Sião: dominarás - "O Senhor jurou e não se arrepen-
no meio de teus inimigos" (SI 109, 2). derá: tu és sacerdote para sempre, segundo
Eu, Deus onipotente, sou o que a ordem de Melquisedeque" (SI 109, 4)
sou, verdadeira e realmente (Ex 3, 14). Eu que sou o Senhor Todo-poderoso para
Estenderei e governarei o cetro de teu in- cumprir o que prometo, determinei firme-
vencível poder, não só depois que tenhas mente, com imutável juramento, que tu
triunfado da morte consumada pela re- fosses o sumo sacerdote da nova Igreja e
denção humana, quando te reconhecerem lei do Evangelho, segundo a antiga ordem
por seu Redentor, guia, Cabeça e Senhor do sacerdote Melquisedeque. Serás o ver-
de tudo. Quero que desde hoje, antes de dadeiro sacerdote que oferecerá pão e
padecer a morte, obtenhas admiravel- vinho, figurado na oblação de Mel-
mente este triunfo, enquanto os homens quisedeque (Gn 14,18). Não me arrepen-
te desprezam e tramam tua ruína. Quero derei deste decreto, porque essa oblação
que triunfes de sua maldade e da morte; será pura, aceitável, sacrifício de louvor
que na força de teu poder sejam compeli- para mim.
dos a honrar-te, te confessem e te adorem, - "O Senhor está á tua direita e es-
dando-te culto e veneração. Os demônios magará os reis no dia de sua ira" (SI 109,
sejam vencidos e confundidos pelo cetro 5). Pelas obras de tua humanidade, cuja
de teu poder, e os Profetas e justos que te destra é a divindade a ela unida, e em cuja
esperam no Limbo, reconheçam com virtude as realizarás: com o instrumento
meus anjos, esta maravilhosa exaltação de tua humanidade, Eu que sou um Con-
que mereceste em minha aceitação e bene- tigo (Jo 10, 30), esmagarei a tirania e
plácito. poder dos chefes e príncipes das trevas e
- "Contigo está o princípio, no dia do mundo, tanto anjos apóstatas como
de teu poder; nos resplendores dos Santos homens rebeldes que se recusaram
eu te gerei antes do luzeiro de minha adorar-te, reconhecer-te e servir-te, como
fecundidade" (SI 109,3). a seu Deus, Superior e Cabeça.
No dia desta virtude e poder que Executei esta punição, quando
tens para vencer teus inimigos, estou em Lúcifer e seus sequazes não te reconhe-
Ti e contigo, como princípio de quem pro- ceram. Para eles, esse foi o dia de minha
231
Sexto Livro - Capítulo 7

ira. Depois chegará aquele em que farei o salmo pronunciado pelo eterno Pai. \\ n ^
mesmo aos homens que não te houverem que algumas são ditas em terceira peSso 9
recebido e aceito tua santa lei. A todos hu- dizia-as de Si e do Verbo humanado
milharei e esmagarei com minha justa in-
dignação.
- "Julgará as nações, restaurará as
ruínas, e na terra esmagará a cabeça de
muitos." (SI 109,6),
Justificada tua causa contra to-
dos os filhos de Adão que não se
aproveitaram da misericórdia que usas
com eles, redimindo-os gratuitamente
do pecado e da eterna morte; Eu, o Se-
nhor, julgarei com equidade e justiça a
todas as nações. Separando os justos e
escolhidos, dos pecadores e réprobos,
encherei as vagas das ruínas deixadas
pelos anjos apóstatas que não conser-
varam sua graça e lugar. Com isto, es-
magarei na terra a cabeça dos soberbos,
que serão muitos, por sua depravada e
obstinada vontade.
- "Beberá da torrente no caminho;
por isso levantará a cabeça" (SI 109, 7).
O Senhor, Deus das vinganças, a
levantará para julgar a terra e retribuir aos
soberbos. Bebendo à torrente de sua in- Todos estes mistérios se referiam
dignação, embeberá suas flexas no sangue principalmente a dois pontos: primeiro, as
de seus inimigos (Dt 32,42), e com a es- ameaças contra os pecadores, infiéis e
pada de seu castigo os confundirá no maus cristãos, que não aceitaram o Reden-
caminho por onde deveriam ter chegado tor, ou não guardaram sua divina lei.
à sua felicidade. Deste modo, levantará Segundo, as promessas que o
tua cabeça e a exaltará sobre teus ini- eterno Pai fez a seu Filho humanado de
migos, desobedientes à tua lei, infiéis à glorificar seu santo nome vingando seus
tua verdade e doutrina. inimigos.
Isto será justificado pelo fato de Como penhor e garantia desta
teres bebido a torrente dos opróbrios e exaltação universal de Cristo depois da
afrontas, até a morte de cruz pela sua re- Ascensão, e ainda mais no juízofinal,or-
denção. denou o Pai que recebesse ao entrar em
Jerusalém, aquele aplauso e glória de seus
habitantes, no dia seguinte ao desta mis-
Exaltação universal de Cristo teriosa visão.
Terminada, desapareceu o Pai e o
1120. Estas e outras muitas ocultas Espírito Santo, com os anjos que admira-
e altíssimas inteligências, teve Maria san- dos, presenciaram este oculto sacra-
tíssima das misteriosas palavras deste mento.
Sexto Livro-Capitulo 7
Cristo, nosso Redentor, e sua Màe Narraram o que foi presenciado por todos
beatíssima permaneceram em divinos os circunstantes. Durante o caminho, eles
colóquios o resto daquela felicíssima noite. e todo o povo, pequenos e grandes, acla-
maram o Redentor como verdadeiro Rei.
Uns diziam: Paz no céu, glória nas
Entrada de Jesus em Jerusalém alturas, bendito O que vem como Rei em
nome do Senhor. Outros exclamavam:
1121. Chegado o dia correspondente Hosana ao Filho de David; salvai-nos,
ao domingo de Ramos, partiu Jesus para Filho de David, bendito seja o reino de
Jerusalém em companhia de seus discípulos nosso Pai David que está para vir.
e de muitos anjos que o louvavam, por vê-lo Uns e outros cortavam palmas e ra-
tão enamorado pelos homens e tão solícito mos de árvores, em sinal de triunfo e ale-
por sua eterna salvação. gria, e com suas vestes forravam o
Tendo caminhado duas léguas, mais caminho por onde passava o vencedor das
ou menos, chegando a Betfagé, enviou dois batalhas, Cristo nosso Senhor.
discípulos á casa próxima de um homem
abastado, para dali lhe trazerem dois
jumentinhos (M121,2), um dos quais ainda Cristo aclamado
não havia sido montado por ninguém.
Os discípulos estenderam suas ca- 1122. Todas estas nobres demons-
pas sobre os dois animais, e Nosso Senhor trações de culto e adoração que os homens
dirigiu-se para Jerusalém, servindo-se de prestavam ao Verbo divino humanado,
ambos no seu triunfo, conforme as pro- manifestavam o poder de sua divindade,
fecias de Isaias (62, 11) e Zacarias (9, 9). principalmente pelo momento em que
Muitos séculos antes as deixaram escritas, sucederam. Era a ocasião em que os sacer-
para que os sacerdotes e sábios da lei não dotes e os fariseus o esperavam, para ti-
alegassem ignorância. rar-lhe a vida nessa mesma cidade.
Os quatro Evangelistas escreve- Se não fossem movidos inte-
ram este maravilhoso triunfo de Cristo: riormente por sua virtude divina, superior
(Mt21,4Mc 11,1; Lc 19,30; Jo 12,13) a seus outros milagres, não seria possível
Sexto Livro - Capítulo 7

que tantos homens, muitos deles gentios, O poder divino moveu o coraçg
outros inimigos declarados, ao mesmo de outros muitos viventes em todo
tempo, o aclamassem por verdadeiro Rei, mundo. Os que tinham fé ou notícia rjç
Salvador e Messias. Cristo, Senhor nosso, não só na Palestin
Além disto, inclinavam-se a um e seus limites, como também no Egit0
homem pobre, humilde e perseguido, outros reinos, foram inspirados parae
apresentando-se sem o aparato de armas naquela hora, adorarem, em espírito, a seu
e poder humano: nem riquezas, nem car- e nosso Redentor. Assim o fizeram, com
ros de triunfo, nem soberbos cavalos. a especial consolação que lhes produziu a
Com exceção de seu semblante visita e influência da divina luz, embora
grave, sereno e cheio de majestade, cor- não conhecessem expressamente, nem a
respondente á sua oculta dignidade, tudo causa nem a finalidade daquela inspi-
lhe faltava. Chegava num humilde jumen- ração. Não foi, porém, sem proveito para
tinho, desprezível para o fausto e vaidade suas almas, pois seus efeitos as fizeram
mundana, e em tudo o mais, nada tinha do progredir muito na fé e na prática do bem
que o mundo aplaude e exalta. Para que o triunfo, que nessa
Deste modo, eram manifestos os ocasião, nosso Salvador obtinha sobre a
efeitos da força divina que movia a von- morte, fosse mais glorioso, ordenou o Altís-
tade e o coração dos homens a se renderem simo que naquele dia, ela não atingisse ne-
a seu Criador e Redentor. nhum dos mortais. Por isto, nesse dia não
morreu ninguém no mundo, ainda que, natu-
ralmente, deviam ter morrido muitos. Im-
Repercussão do triunfo no Limbo e pediu-o o poder divino, para que em tudo
noutras partes do mundo fosse adiriirável a vitória de Cristo.
1123. Além do movimento geral
produzido em Jerusalém, pela inspiração Triunfo sobre o inferno
que o Senhor enviou aos corações a fim
de que todos reconhecessem nosso Salva- 1124. A esta vitória sobre a morte,
dor, o triunfo se estendeu a todas, ou a seguiu-se a vitória sobre o inferno, ainda
muitas criaturas racionais. Assim se cum- mais gloriosa, embora oculta. No momento
pria o que o Pai eterno havia prometido a em que os homens começaram a aclamar
seu Unigênito, como fica dito , Cristo, por Salvador e Rei que vinha em
Quando Cristo, nosso Salvador, nome do Senhor, sentiram os demônios a
entrou em Jerusalém, o anjo São Miguel força de sua destra. Todos quantos estavam
foi enviado para anunciar este mistério pelo mundo, foram derrubados de seus lu-
aos santos Pais e Profetas do Limbo, que, gares e precipitados ao fundo dos cala-
ao mesmo tempo, tiveram particular visão bouços do inferno, e enquanto durou aquela
da entrada do Senhor e do mais que então recepção, nãoficounenhum demônio sobre
aconteceu. Daquela prisão onde se encon- a terra, mas todos caíram"*nos abismos com
travam, reconheceram e adoraram Cristo, grande raiva e terror.
nosso Mestre e Senhor, como verdadeiro Desde essa hora, suspeitaram com
Deus e Redentor do inundo. Fizeram-lhe maior probabilidade, que o Messias já se
novos cânticos de glória e louvor, pelo encontrava no mundo, e logo conferiram
seu admirável triunfo sobre a morte, o pe- entre si este receio, como direi no capi*u
cado e o inferno. seguinte.
Sexto Livro - Capítulo 7

Prosseguiu o Salvador do mundo assistiu tudo o que se passou no admirável


sUa triunfal caminhada, até entrar em triunfo de seu Filho e Mestre. Viu o que
Jerusalém. Os santos anjos que o acompa- faziam os anjos no céu, os homens na terra
nhavam, cantaram-lhe novos hinos de lou- e o que aconteceu aos demônios no in-
vores divinos, com admirável harmonia. ferno; que em todas estas maravilhas, o
Entrando na cidade, no meio da eterno Pai cumpria as promessas que fize-
alegria geral, apeou do jumentinho e ra a seu Unigênito, dando-lhe o império e
dirigiu seus formosos passos para o tem- domínio sobre todos os seus inimigos.
plo, onde, com espanto de todos, aconte- Viu também quanto fez nosso Sal-
ceu o que referem os Evangelistas (Mt vador no templo e entendeu aquela voz do
21,12; Lc 19,45). Derrubou as mesas dos Pai que veio do céu e foi ouvida por todos
que vendiam e compravam no templo, os circunstantes, em resposta ao que dis-
zelando pela honra da casa de seu Pai. Ex- sera Cristo nosso Salvador (Jo 12,28): Eu
pulsou dali os que a transformavam em te glorifiquei, e tornarei a glorificar.
casa de comércio e covil de ladrões. Nestas palavras deu a entender que, além
No momento, porém, em que ces- do triunfo e glória que o Pai dera ao Verbo
sou o triunfo, a destra do Senhor suspen- naguele dia, e nos outros referidos, o glo-
deu a sua influência sobre os corações dos rificaria e exaltaria no futuro, depois de
moradores de Jerusalém. Os justos fi- sua morte. Assim o entendeu e penetrou
caram melhores e muitos se justificaram; sua Mãe santíssima, com admirável gozo
outros voltaram a seus vícios, maus hábi- de seu puríssimo espírito.
tos e ações imperfeitas, porque não se
aproveitaram da luz e inspirações divinas. DOUTRINA DA RAINHA E
Em conseqüência, ainda que tantos SENHORA MARIA SANTÍSSIMA.
haviam aclamado e reconhecido a Cristo,
nosso Senhor, por Rei de Israel, não houve
quem o hospedasse em sua casa (Mc 11, A verdadeira e falsa glória
H) 1126. Minha filha, escreveste um
pouco do que entendeste, sobre os ocultos
Maria, em visão, assiste ao triunfo de mistérios do triunfo de meu Filho santís-
seu Filho simo, no dia que entrou em Jerusalém.
Muito mais conhecerás no Senhor, porque
1125. Ficou Jesus no templo ensi- na vida mortal é impossível aos viadores
nando e pregando até a tarde. Para teste- penetrá-los mais. Não obstante, do que
munhar a veneração e culto que se devia manifestaste, podem tirar suficiente dou-
àquele lugar santo e casa de oração, não trina, para saberem quão elevados são os
consentiu que lhe trouxessem nem um desígnios do Senhor e quão diferentes dos
copo d'água sequer. Sem este, nem outro pensamentos dos homens (Is 55, 9). O
qualquer refrigério, voltou à tarde para Altíssimo vê o coração das criaturas (IRs
Betânia (Mt 21, 17 e 18), e nos dias 16, 7), e seu íntimo, onde se encontra a
seguintes até sua Paixão, vinha a beleza da filha do rei (SI 44,14), enquanto
Jerusalém. os homens vêem o aparente e sensível. Por
A divina Mãe e Senhora Maria isto, aos olhos de sua sabedoria, os justos
santíssima, esteve naquele dia retirada a e escolhidos, quando se humilham, são es-
sós em Betânia. Dali, por especial visão, timados e elevados, ao passo que os so-
235
Sexto Livro - Capítulo 7

berbos, quando se enaltecem, são humi- Como estás querendo saber a razà
lhados e detestados. Esta ciência, minha por que Eu não estive presente ao triUnf°
filha, por poucos é compreendida, pelo de meu Filho santíssimo, vou satisfazer °
que os filhos das trevas não sabem apete- teu desejo. Deves lembrar-te do que mui°
cer e procurar outra honra e exaltação, tas vezes escreveste nesta história- n ò
além daquela que o mundo lhes dá. espelho puríssimo do interior de meu
Os filhos da santa Igreja sabem e amado Filho eu gozava da visão de todos
confessam que essa glória é vã, sem con- os seus atos. Por esta visão, eu conhecia
sistência e que não dura mais do que a flor sua vontade, quando e para que se ausen-
e o feno, mas não vivem essa verdade. taria de mim. Prostrada a seus pés, suplí.
Como a consciência não lhes dá teste- cavâ-lhe, então, me declarasse o que eu
munho das virtudes e graça que não pos- deveria fazer para cumprir sua vontade e
suem, procuram o crédito dos homens, prazer. Algumas vezes, Ele me dizia ex-
suas honras e aplausos, ainda que tudo pressamente, e noutras deixava à minha
seja falso e cheio de mentira. Só Deus é escolha, para eu fazer uso da divina luz e
que, sem engano, honra e exalta quem prudência que me dera.
merece. O mundo, ordinariamente, faz o Isto fez na ocasião em que deter-
contrário, dando suas honras a quem minou entrar em Jerusalém triunfando de
menos as merece, ou a quem, mais sagaz seus inimigos; deixou à minha escolha
e ambicioso, as procura e solicita. acompanhá-lo ou permanecer em
Betânia. Pedi-lhe licença para não me
achar presente naquele acontecimento e
Fugir dos louvores lhe supliquei me levasse depois, consigo,
quando fosse sofrer e morrer. Julguei mais
1127. Foge, minha filha, deste acertado e agradável a seus olhos, ofere-
erro, não te afeições ao gosto dos homens, cer-me a padecer as ignomínias de suas
nem aceites suas lisonjas e afagos. Dá a dores e paixão, do que participar da honra
cada coisa o nome e estima que merece, visível que lhe davam os homens, e da
pois nisto andam muito às cegas os filhos qual eu receberia parte como sua Mãe.
deste século. Nenhum dos mortais pôde Este aplauso, além de não me ser
merecer a honra e aplauso das criaturas apetecível, eu compreendia que era orde-
quanto meu Filho santíssimo. Apesar nado para demonstração de sua divindade e
disso, Ele não deu importância para a que poder infinito. Isto não se referia a Mim, e
lhe tributaram na entrada de Jerusalém, a honra que me tivessem dado então, não
pois sua finalidade era de só manifestar aumentaria a que lhe era devida como Sal-
seu poder divino, e assim tomar depois vador único do gênero humano. Para gozar
mais ignominiosa sua Paixão. a sós deste mistério e glorificar o Altíssimo
Quis ensinar aos homens, que em suas maravilhas tive, em meu retiro, a
ninguém deve aceitar as honras visíveis