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Discussão da noção de intersubjetividade à luz de contribuições da psicanálise

Discussão da noção de intersubjetividade


à luz de contribuições da psicanálise
Gabriela de Araujo
Rogério Lerner

Resumo
O presente trabalho propõe uma discussão sobre a noção de intersubjetividade e o conceito de
pulsão, ambos fundamentais para pensar o desenvolvimento e o processo de emergência psíqui-
ca do recém-nascido. Embora oriundos de perspectivas teórico-metodológicas distintas, a psico-
logia do desenvolvimento e a psicanálise, algumas articulações podem ser tecidas entre os mes-
mos, ensejando avanços no estudo sobre a construção do laço entre o bebê e seus cuidadores.
Como releitura da noção de apoio sugerida por Freud (1905), sustenta-se a tese de que a capaci-
dade intersubjetiva inata do bebê, experimentada no enlaçamento com seus cuidadores, serve
como plataforma de lançamento da pulsão, permitindo que esta se constitua como circuito (La-
znik, 2004, 2006, 2007).

Palavras-chave
Pulsão, Intersubjetividade, Psicanálise, Desenvolvimento.

Acerca da noção de intersubjetividade ções precoces entre os humanos fundam


Para que um bebê que acaba de nas- as bases para as outras capacidades soci-
cer se torne um sujeito, ele precisa esta- ais (ALVAREZ e LEE, 2004), há diver-
belecer um laço pulsional com Outro, re- gências na forma de pensar o estabeleci-
presentado no primeiro momento pelos mento da relação com o outro no proces-
cuidadores que dele se ocupam. A insta- so de desenvolvimento humano.
lação deste laço depende de diversos fa- A noção de intersubjetivade pode ser
tores, tanto orgânicos como subjetivos, utilizada como eixo condutor para pensar
que dizem respeito aos envolvidos. este processo. Sabe-se que tal noção assu-
As descobertas realizadas a partir dos me diferentes sentidos de acordo com os
anos 1960 sobre as competências do re- diversos contextos teórico-metodológicos
cém-nascido vieram enriquecer conside- considerados.
ravelmente as pesquisas relativas aos pro- Trevarthen (2003), psicólogo e pes-
cessos implicados nas trocas entre o bebê quisador do desenvolvimento humano, foi
e o seu entorno (HOUZEL, 2003). Segun- um dos primeiros a propor e investigar a
do Roussillon (2004a), atualmente nin- intersubjetividade como inata. Seus estu-
guém contestaria que o sujeito humano dos sobre as competências precoces do
só se constrói com a ação de outro sujeito. recém-nascido evidenciaram que este tem
Embora psicanalistas e psicólogos do um papel ativo no laço que estabelece com
desenvolvimento concordem que as rela- seus cuidadores.
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“Os recém-nascidos, com seus cérebros emocionais e de motivação se organizam


complexos, mas imaturos, com aptidões muito antes do nascimento, decorrendo
cognitivas limitadas e um corpo frágil, se da ação combinada e coordenada de par-
mostram motivados para comunicar-se tes do sistema nervoso em articulação com
com as formas expressivas e rítmicas de suas extensões aferentes (órgãos dos sen-
interesse e de emoção oriundas do outro, tidos) e eferentes (aparelho musculoes-
e o fazem através de um comportamento quelético).
diferente do comportamento instintivo, Trata-se de pensar que os recém-nas-
que atrai o cuidado parental para a sa- cidos apresentam uma predisposição para
tisfação de necessidades biológicas ime- rudimentos de capacidades sociais que
diatas” 1 (TREVARTHEN & AI- permite uma harmonização afetiva e a re-
TKEN, 2003, p. 309). gulação emocional, gerando uma sensa-
ção de estabilidade interna e levando a
Segundo Trevarthen (2005), a inter- uma comunicação precoce entre a crian-
subjetividade pode ser definida como a ça e seu cuidador (ALVAREZ e LEE,
capacidade psicológica de ter e partilhar 2004).
objetivos, interesses, emoções e de estar Se os diversos estudos de Trevarthen
pronto para comunicar os acontecimen- e colaboradores tendem a enfatizar o ina-
tos intrinsecamente psicológicos a outras tismo dos processos fundamentais reque-
pessoas. ridos pela intersubjetividade, outros auto-
res tendem a destacar as etapas pelas quais
“Para partilhar o controle mental com o processo de sua instalação tem que pas-
outras pessoas, o lactente deve possuir sar.
duas competências. De um lado, ele deve Stern (2004, 2005) afirma que a in-
ao menos mostrar que possui os rudimen- tersubjetividade pode ser definida como a
tos de uma consciência individual e in- partilha da experiência vivida entre duas
tencional. É o que eu chamo de subjeti- pessoas, decorrendo de um sistema fun-
vidade. De outro lado, para poder co- damental de motivação inata e essencial
municar, o lactente deve poder adaptar para a sobrevivência da espécie. O autor
ou ajustar seu papel subjetivo à subjeti- descreve a intersubjetividade como um
vidade dos outros: é a intersubjetivida- processo que deve ser definido em diver-
de”* (TREVARTHEN & AITKEN, sas etapas no qual o bebê e os pais têm um
2003, p. 315). papel a ocupar.

Os estudos de Trevarthen e de diver- “Primeiro, os pais devem ser capazes de


sos colaboradores evidenciam que esta ler o estado emocional do lactente no seu
cooperação expressiva e psíquica entre o comportamento manifesto. Em seguida,
bebê e o adulto pode ser observada nas eles devem apresentar um certo compor-
interações espontâneas desde o nascimen- tamento que, embora não se reduza a
to (GRATIER, 2007). As afirmações de uma imitação estrita, corresponda sob
Trevarthen (2004) sobre a capacidade ina- certos aspectos ao comportamento ma-
ta para a intersubjetividade se apoiam so- nifesto do lactente. Enfim, o bebê deve
bre a hipótese de que bases dos sistemas estar na medida de compreender que a
reação parental correspondente tem uma
relação com sua própria experiência emo-
cional inicial e não somente com a imi-
1. Texto traduzido livremente pelos autores. As cita-
ções traduzidas desta maneira serão marcadas por um tação do seu comportamento”*
asterisco (*). (STERN, 2003, p.182).
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A ideia de base é que a consciência jeto, que é também um outro sujeito, e que é
humana se constrói e se mantém graças também animado por uma vida pulsional de
às transformações da relação intersubjeti- onde uma parte é inconsciente”* (ROUSSI-
va entre o “eu e o outro” (STERN, 2005). LLON, 2004b, p.735). O conceito de pul-
Este processo de construção da intersub- são foi definido por Freud como
jetividade depende então da dupla adap-
tação entre os pais e a criança. “um conceito limite entre o somático e o
Segundo Golse (2004), o processo de psíquico, como o representante psíquico
acesso à intersubjetivdade pode ser com- dos estímulos oriundos do interior do cor-
preendido como um movimento de dife- po e que atingem a alma, como uma
renciação que vai permitir à criança ex- medida do trabalho imposto à psique por
perimentar, sentir e integrar que o eu não sua ligação com o corpo” (FREUD,
é o mesmo que o outro. 2010, p.57).
Sem querermos negar que a noção de
intersubjetividade representa um avanço Utilizando o conceito de pulsão de
nos estudos sobre o desenvolvimento do Freud, podemos melhor compreender a
bebê e que contribui para o trabalho clí- ideia de que o recém-nascido é mobiliza-
nico, parece-nos que seu estudo não leva do pela busca da relação. Quer dizer que
suficientemente em conta a existência do é em apoio e para além da satisfação das
inconsciente. É com este intuito que se necessidades biológicas imediatas que o bebê
pretende uma discussão desse conceito a procura entrar em contato com os outros
partir de um ponto de vista psicanalítico. (1905). De fato, as pulsões – diferente-
mente das necessidades – não são satisfei-
Inexorabilidade do inconsciente tas sempre do mesmo modo. Segundo
para a psicanálise Freud, já que a pulsão “não ataca de fora,
Para discutir a noção de intersubjeti- mas do interior do corpo, nenhuma fuga pode
vidade partindo da psicanálise é necessá- servir contra ela” (FREUD, 2010, p.54).
rio destacar a dimensão inconsciente da Aqui se situa uma diferença fundamental
subjetividade. Marcelli propõe que na in- da contribuição psicanalítica com relação
tersubjetividade “não se trata somente do às anteriormente citadas: não se conside-
fato de que dois sujeitos se interessem um pelo ra haver um processo de desenvolvimen-
outro. Pois se fosse assim, a intersubjetivida- to com etapas potenciais previamente de-
de se resumiria a uma troca consciente e se- finidas para o investimento pulsional; ou-
ria definida simplesmente como uma relação trossim, seu impacto sobre o humano de-
interpessoal”* (MARCELLI, 2004, p.55). corre justamente de um inacabamento e
Além disto, segundo Freud, torna-se de uma imperfeição quanto à satisfação,
difícil concordar com o postulado que es- condição fundamental de desamparo que
tipula a existência da diferenciação inata impõe uma construção constante do que
completa entre o eu e o outro, sendo ne- não está dado a priori. Todo o investimen-
cessário admitir que “uma unidade compa- to pulsional que ocorre ao longo da vida
rável ao Eu não existe desde o começo no in- guarda as marcas da especificidade da
divíduo; o Eu tem que ser desenvolvido” construção sempre imperfeita que engen-
(FREUD, 2010, p.18), para o que se re- drou a subjetividade.
quer uma nova ação psíquica (1914). Lacan propõe pensar a pulsão como
Assim, seguindo nesta forma de pen- algo que “não tem dia nem noite, não tem
sar a intersubjetividade, temos “o encon- primavera nem outono, que ela não tem su-
tro de um sujeito, animado de pulsões e de bida nem descida. É uma força constante”
uma vida psíquica inconsciente, com um ob- (LACAN, 1985b, p.157). Ou seja, segun-
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do Lacan, em função das pulsões, a vida Segundo Laznik (2007), a pulsão cum-
psíquica é de um outro registro que aque- pre sua meta de satisfação por meio do
le segundo a satisfação das necessidades estabelecimento de um circuito de três
(LACAN, 2001). tempos, ideia fundamental para entender
o processo de constituição subjetiva, quer
“A pulsão apreendendo seu objeto, apren- dizer, a forma como abandonamos o esta-
de de algum modo que não é justamente tuto de ser de necessidade para tornarmo-
por aí que ela se satisfaz. Pois se se dis- nos seres de desejo. No primeiro tempo o
tingue, no começo da dialética da pul- bebê vai em direção ao objeto oral para se
são, o Not e o Bedürfnis, a necessidade e satisfazer. Freud chamou este tempo de a
a exigência pulsional – é justamente por- busca ativa da parte do bebê (LAZNIK,
que nenhum objeto de nenhum Not, ne- 2006).
cessidade, pode satisfazer a pulsão.(...) O segundo tempo é reflexivo ou au-
essa boca que se abre no registro da pul- toerótico. É o que Freud descreveu como
são – não é pelo alimento que ela se sa- o retorno da pulsão sobre uma parte do
tisfaz...” (LACAN, 1985b, p.159). corpo próprio. É o tempo da capacidade
de se acalmar chupando o dedo, a mão...
Então, mais do que necessidades, é No terceiro tempo, o bebê se faz, ele mes-
preciso que o bebê tenha também deman- mo, objeto de um outro, colocando seu
das: que ele saia do registro da necessida- dedo na boca da mãe, que aproveita e,
de e possa entrar no campo do desejo. gozando, faz de conta que o está comen-
Pode-se dizer que mais do que fome, é pre- do. Porém, ao contrário de Freud que qua-
ciso que o bebê tenha apetite. Como diz lifica este terceiro tempo como passivo,
Lacan, “o desejo, função central em toda ex- Laznik o pensa como uma passividade ati-
periência humana, é desejo de nada que pos- va. “Com efeito, é muito ativamente que ele
sa ser nomeado” (LACAN, 1985a, p.281). vai se fazer comer por este outro, para o qual
Este aspecto radical do funcionamen- ele se faz, ele mesmo, objeto” (LAZNIK,
to psíquico humano “que entende as neces- 2004, p.28).
sidades como demandas que desejam ser sa-
tisfeitas faz com que o bebê, desde que ele “O bebê não é passivo na situação, cla-
entre em contato com o outro, deixe de ser ramente ele a procura. É ele que vai pro-
um ser de necessidade para se tornar um ser curar se fazer olhar, se fazer ouvir ou
do desejo”* (CRESPIN, 2007, p.22). bem, ao nível oral, se fazer ‘comer o pe-
zinho’. Este aspecto eminentemente ati-
Circuito pulsional: vo do terceiro tempo do circuito pulsio-
instalação de uma disjunção nal havia sido evidenciado por Lacan que
intersubjetiva o chamava o tempo do ‘se fazer’”*. (LA-
O trabalho de Laznik (2004, 2006, ZNIK, 2000, p.73).
2007) permite-nos estabelecer uma arti-
culação entre a concepção lacaniana das É somente depois do terceiro tempo
pulsões e a noção de intersubjetividade de que se pode falar em satisfação pulsional
Trevarthen. Retomando o conceito de (LAZNIK, 2000). Lacan coloca que é “no
pulsão proposto por Freud (1915) e revi- momento em que o fecho se fechou, quando é
sitado por Lacan no seu seminário “Os de um polo ao outro que houve reversão,
quatro conceitos fundamentais da psica- quando o outro entrou em jogo, que o sujeito
nálise”, Laznik nos convida a refletir so- tomou-se por termo terminal da pulsão” (LA-
bre o papel do circuito pulsional na emer- CAN, 1985b, p.173). E é aí que vemos que
gência psíquica do recém-nascido. o bebê procura o gozo do outro.
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“A pulsão se satisfaz pelo fato de que este tendo acedido à intersubjetividade, o infans
circuito gira e de que cada um dos tem- torna-se então capaz de se oferecer ele mes-
pos tornará a passar um infinito número mo como objeto da pulsão do outro”* (GOL-
de vezes. Nós só podemos estar certos do SE, 2004, p.449).
caráter verdadeiramente pulsional dos Quer dizer que o momento de fecha-
dois primeiros tempos na medida em que mento do circuito pulsional pode ser en-
tivermos constatado o terceiro” (LAZ- tão entendido como o momento de troca
NIK, 2004, p.29). intersubjetiva se esta é pensada de um
ponto de vista psicanalítico, ou seja, ori-
Falando de um outro modo, significa entada pelo desejo como decorrente da
que este ciclo se desenvolve diversas ve- construção do circuito pulsional.
zes na relação mãe-bebê, mas é somente
após a instauração do terceiro tempo que “Assim, quando a mãe coloca docemen-
os outros dois adquirem sentido. Como te os olhos sobre os olhos do seu bebê,
disse Lacan (1985b), este sujeito que existe este mantém seu olhar no de sua mãe e
graças ao outro, aparece quando o circui- parece literalmente animado de um so-
to da pulsão pode se fechar. É somente com pro de vida partilhado. (...) Rapidamen-
a dimensão do Outro que a função da pul- te, ele procura, por seu lado, fisgar o
são pode existir. olhar da sua mãe. (...) O olhar do outro
Assim, os movimentos do bebê de pro- se torna um atrativo potente, a partilha
cura do seio e de chupar o dedo para se do olhar um estabilizador comportamen-
acalmar podem enfim ser considerados tal que mantém esta propensão”*
como eróticos. Porque só podemos falar (MARCELLI, p. 61, 2004).
em registro pulsional no momento em que
o gozo do Outro está colocado em ques- Esta ilustração de Marcelli pode ca-
tão. É este momento de enganchamento ao racterizar o momento de troca intersubje-
desejo do outro que permite ao infans ace- tiva e pode ser utilizada da mesma forma
der ao status de sujeito. É neste sentido para descrever o circuito pulsional. Trata-
que Lacan afirma que o “desejo do homem se de destacar a dimensão desejante na
encontra seu sentido no desejo do outro, não articulação do conceito de pulsão com a
porque o outro tenha as chaves do objeto de- noção de intersubjetividade, reconhecen-
sejado, mas porque o seu primeiro objetivo é do, assim, o lugar do circuito pulsional nas
ser reconhecido pelo outro” (LACAN, 1998, comunicações humanas e nas trocas in-
p.132). tersubjetivas (ROUSSILLON, 2004b).
Como se vê, o estabelecimento do cir- A psicanálise permite que se destaque
cuito pulsional instaura o desejo do Ou- um aspecto importante na noção de in-
tro como meta da operação subjetiva de- tersubjetividade. Se os estudos de Trevar-
sejante, isto é, inconsciente. O destino de then e colaboradores evidenciaram a ocor-
tal estabelecimento não está dado previa- rência de uma sintonia rítmica multimo-
mente no desenvolvimento, necessitando dal (por envolver voz, movimentos de
da participação e do acionamento recípro- olhos e membros) que ocorre entre bebê e
co das operações psíquicas das funções cuidadores desde o nascimento, chamada
materna e paterna, tanto da parte do bebê por tais autores de simpatia, a psicanálise
como de seus pais ou cuidadores. introduz uma dimensão disjuntiva funda-
Golse, apoiando-se na revisão da te- mental na noção de intersubjetividade:
oria lacaniana feita por Laznik, diz que o ainda que haja mecanismos de desenvol-
terceiro tempo do circuito pulsional pode vimento responsáveis pelo engajamento
ser caracterizado como “o momento em que, recíproco coordenado entre bebê e seus
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cuidadores, a passagem da posição de- Duas ilustrações do que ora propo-


mandante para a desejante faz com que se mos podem ser consideradas à luz da pul-
parta de uma pretensão de completude são escópica (FREUD, 1996b; LACAN,
perfeita no campo do Outro para o alcan- 1985b) e da pulsão invocante (LACAN,
ce de, apenas, alguma satisfação substitu- 1985b). Os estudos acerca da intersub-
tiva e incompleta a partir do estabeleci- jetividade evidenciam haver uma coor-
mento de seu esvaziamento decorrente do denação entre o bebê e seus cuidadores
recalque. Essa disjunção na dimensão do quanto à frequência e ritmo dos olhares
Outro conquistada com a constituição entre si. Como vimos, caso haja desar-
subjetiva aponta para uma intersubjetivi- monia rítmica entre o que o bebê vê do
dade fundamentalmente dissonante. O outro e o que tenta provocar nele, o bebê
desejo torna necessário que nos endere- entra em ansiedade. Em termos de de-
cemos a um Outro que não tem como re- senvolvimento e especialização da área
cobrir nossa existência, ainda que faça de nervosa responsável pela visão por parte
conta. do bebê, tal coordenação intersubjetiva
é fundamental por servir de guia para as
Fundamentos da intersubjetividade vias neuronais envolvidas. É a partir do
como plataforma de lançamento engajamento intersubjetivo visual entre
da pulsão bebê e cuidadores, determinado pelo de-
As pesquisas acerca da intersubjeti- senvolvimento desde o nascimento do
vidade evidenciam haver uma base ner- primeiro, que a pulsão escópica se insta-
vosa inata para a ocorrência da coorde- la.
nação que envolve o bebê e o cuidador No tocante à voz, os estudos psicolin-
no compartilhamento de experiências. guísticos (BATESON, 1975; FERNALD
A partir da leitura das considerações de e SIMON, 1984; MASON e JUST, 2006)
Freud sobre o papel desempenhado pe- evidenciam que desde o nascimento ocor-
las zonas erógenas como polos da pul- re um engajamento do bebê com seus cui-
são, podemos supor que os mecanismos dadores em ritmos e frequências carrega-
corporais previamente determinados dos de significados capazes de deflagrar
pelo desenvolvimento para engajar-se respostas emocionais precisas e específi-
nas experiências de intersubjetividade cas. O bebê é capaz tanto de responder
servem como plataforma de lançamen- como de tomar a iniciativa de provocar
to da pulsão. Não se quer dizer com isso tais engajamentos. A partir de tal engaja-
que tais mecanismos determinam a pul- mento, a pulsão invocante, que segundo
são ou que ela e seu circuito estejam Lacan (1985b) é a mais próxima da expe-
previamente inscritos no desenvolvi- riência do inconsciente, instala-se como
mento. O que ora sustentamos é que tais circuito.
mecanismos podem ser considerados As considerações tecidas acima estão
análogos às funções vitais, em apoio às de acordo com a noção formulada por
quais Freud (1996b) propôs que as pul- Freud (1996b, 1996c, 1996d, 1996e) como
sões advêm: Embora não determinem o séries complementares, decorrentes da
destino das pulsões, o qual depende de definição da pulsão como um conceito que
operações psíquicas não previamente se situa no limite entre o somático e o psí-
inscritas no desenvolvimento, esses me- quico (FREUD, 1996a). Segundo tal no-
canismos corporais envolvidos nas ex- ção, a constituição subjetiva dá-se a par-
periências intersubjetivas iniciais servem tir de uma combinação sempre singular
como facilitadores da origem dos circui- entre constituição somática e constituição
tos que virão a se estabelecer. psíquica.
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Uma consequência possível do que


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42 Reverso • Belo Horizonte • ano 32 • n. 60 • p. 35 - 42 • Set. 2010