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Bloqueador beta-adrenérgico

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Representação da molécula de propranolol, o primeiro beta-bloqueante disponível para tratamento


médico

Os bloqueadores beta-adrenérgicos ou betabloqueadores são uma classe de fármacos


que têm em comum a capacidade de bloquearos receptores β (beta) da noradrenalina.
Possuem diversas indicações, particularmente como antiarrítmicos, anti-hipertensores e na
protecção cardíaca após enfarte do miocárdio.

Índice

 1História
 2Betarreceptores adrenérgicos
 3Mecanismo de ação
o 3.1Bloqueio dos betarreceptores
o 3.2Cardiosseletividade
o 3.3Atividade simpaticomimética intrínseca
o 3.4Efeito estabilizador de membrana
o 3.5Efeito na produção de renina
o 3.6Ação sobre os canais de cálcio
o 3.7Efeito sobre os receptores alfa
o 3.8Em psiquiatria
 4Farmacocinética e metabolismo
 5Indicações clínicas
 6Efeitos colaterais e contraindicações
 7Intoxicação
 8Referências
 9Ver também

História[editar | editar código-fonte]


Os beta bloqueadores foram descobertos por Sir James Black (Imperial Chemical
Industries) no Reino Unido em 1962. O protótipo desta classe de medicamentos,
o propranolol, foi utilizado para o tratamento da hipertensão arterial em 1964 por Prichard
e Gillam. Desde então mais de 24 moléculas diferentes foram disponibilizadas.
Rapidamente esta classe de medicamentos ocupou o primeiro lugar na lista dos
medicamentos aconselhados para o tratamento da doença coronária, sendo considerados
como uma das mais importantes descobertas da farmacologia e da medicina do século
XX,[1] destronando os bloqueadores dos canais de cálcio perigosos nestes pacientes pois
diminuem o fluxo arterial das regiões subendocáricas do coração.[2]
Betarreceptores adrenérgicos[editar | editar código-fonte]
Até este momento conhecem-se bem dois tipos de receptores beta, estando ainda em
estudo os receptores beta3 que, segundo parece regulam o tecido adiposo promovendo a
lipólise e a neoglucogénese quando são estimulados. No contexto dos betabloqueadores
interessa falar neste momento dos

1. Receptores beta1 presentes sobretudo no coração, aparelho justa glomerular do


rim, intestino, nas regiões oculares responsáveis pela produção de humor aquoso,
tecido adiposo e em menor quantidade nos tecidos brônquicos.
2. Receptores beta2 existem predominantemente no tecido brônquico, no músculo liso
vascular, no pâncreas endócrino (produção de insulina), trato gastrointestinal e em
menor quantidade no coração e troncos principais das artérias coronárias
O número de receptores não é estático: diminui com a idade e aumenta com a tomada de
betabloqueadores em tratamento prolongado. Nenhum dos órgãos mencionados contém
exclusivamente um dos subgrupos. Também, em certas situações patológicas como a
insuficiência cardíaca, o número de receptores beta1 está reduzido, havendo uma
diminuição da resposta aos medicamentos inotrópicos.[2]

Mecanismo de ação[editar | editar código-fonte]


Bloqueio dos betarreceptores[editar | editar código-fonte]
Como o nome indica, todos os bloqueadores beta são bloqueadores dos receptores β-
adrenérgicos, parte do sistema nervoso simpático.
A sua estrutura molecular é semelhante à das catecolaminas endógenas
(epinefrina e norepinefrina), competindo com elas a nível dos receptores. A sua ação é
assim uma inibição por competição e depende da razão entre as concentrações
betabloqueador/catecolamina.
Este bloqueio simpático provoca uma diminuição da contractilidade e da velocidade
contração cardíacas, diminuição da frequência cardíaca, sobretudo no esforço ou
ansiedade. Estas ações levam a uma diminuição do consumo de oxigénio pelo miocárdio
(uma das razões do seu efeito benéfico na doença coronária). Diminuem a velocidade de
condução do estímulo eléctrico cardíaco e aumentam o tempo de condução no nódulo
auriculoventricular. São muito úteis no tratamento da taquicardia supraventricular. Porém
estão absolutamente contraindicados no síndrome de Wolff-Parkinson-White pois não
tendo efeito na via de condução acessória vão facilitar o aparecimento de uma reentrada
com frequência ventricular muito elevada que pode pôr a vida em perigo. A sua ação sobre
os receptores brônquicos provoca broncoconstrição contraindicando a sua ação nos
pacientes asmáticos. Verificou-se em diversos estudos que os bloqueadores beta
melhoram a esperança de vida de pacientes com insuficiência cardíaca. Contrariando a
estimulação simpática, evitam o remodelamento cardíaco associado à insuficiência, que
cria um círculo vicioso, diminuindo progressivamente a função miocárdica e tornando o
prognóstico reservado.[3]
Efeito do bloqueio beta1

 Redução de frequência cardíaca


 Atraso na velocidade de condução no nódulo A-V.
 Diminuição da força de contração (inotropismo negativo)
 Redução de pressão arterial
 Redução do volume sistólico
Efeito do bloqueio beta2

 Broncoconstrição
 Vasoconstrição coronária e muscular
 Glicogenólise e neoglicogénese diminuída
 Inibição da liberação de insulina
 Antagonismo do tremor induzido pelas catecolaminas
Cardiosseletividade[editar | editar código-fonte]
Por cardiosseletividade entende-se o predomínio de ação sobre os receptores
beta1 cardíacos, com pouca ação sobre os receptores beta2 pulmonares e vasculares. No
entanto a cardiosseletividade é relativa e dependente da dose, perdendo-se se a dose
aumenta. Fala-se assim de cardiosseletividade relativa. Estão incluídos neste grupo de
betabloquedores: atenolol, betaxolol, bisoprolol, metoprolol, bevantolol, esmolol , nebivolol
e em menor grau, o acebutolol.[2][4]
Não são cardiosseletivos o carvedilol, labetalol, nadolol, pindolol e propranolol.[4]
Atividade simpaticomimética intrínseca[editar | editar código-fonte]
A presença de uma atividade simpaticomimética intrínseca (ASI) significa que alguns
destes medicamentos possuem em si mesmos um efeito agonista que contraria a sua
ação bloqueadora e, quando importante, torna-os poucos úteis na prática clínica. São eles
o pindolol, alprenolol, acebutolol, celiprolol, cartelol, oxprenolol e practolol (este último
retirado do mercado)[2]
Efeito estabilizador de membrana[editar | editar código-fonte]
Este efeito, tipo anestésico ou quinidina-like, tem pouca importância na doença coronária
mas verificou-se ser muito útil nas crises taquicárdicas da tirotoxicose. O propranolol, um
exemplo deste subgrupo, é muito útil e mesmo o mais indicado nos casos de
hipertireoidismo. O timolol e o betaxolol são desprovidos de efeito estabilizador de
membrana e são os mais usados e eficazes nas situações de glaucoma quando aplicados
topicamente.[2]
Efeito na produção de renina[editar | editar código-fonte]
Ao bloquear os receptores beta1 presentes no aparelho justa-glomerular renal, reduzem a
formação de renina, com diminuição da formação de angiotensina II impedindo os efeitos
vasoconstrictores deste péptido. Por outro lado interferem diretamente com os efeitos
vasoconstrictores dos nervos simpáticos. Potencializam assim o efeito dos IECAs.[2]
Ação sobre os canais de cálcio[editar | editar código-fonte]
Os canais de cálcio do tipo L são dependentes da atividade das catecolaminas e serão
bloqueados por este grupo de medicamentos, com redução da quantidade de cálcio
intracelular. Potencializam deste modo a ação dos bloqueadores dos canais de cálcio.
O bevantolol é o beta bloqueador que evidencia melhor este efeito.[5]
Efeito sobre os receptores alfa[editar | editar código-fonte]
Alguns destes fármacos funcionam como drogas mistas bloqueando também os
receptores alfa1. São muito úteis na insuficiência cardíaca. O carvedilol tem um efeito
bloqueador alfa/beta 1:10; o labetalol 1:4, tendo este último efeitos colaterais importantes
relacionados com a hipotensão. Não estão disponíveis dados a respeito do bevantolol.[6]
Em psiquiatria[editar | editar código-fonte]
Os betabloqueadores reduzem os sintomas de ansiedade como a taquicardia, sudorese, tremor e
melhoram o desempenho

O aumento das catecolaminas está presente nos síndromes de ansiedade e nas


fobias,[7] se bem que haja sempre a dúvida se são a causa ou o efeito das referidas
patologias. O importante é que estas duas patologias benificiam do uso dos bloqueadores
beta-adrenérgicos. Tendo um efeito rápido, não provocando dependência e sem causarem
tanta sonolência quanto os benzodiazepínicos poder-se-ia pensar que seriam o tratamento
ideal para estes pacientes. Infelizmente não é assim. Não têm efeito sobre o
relacionamento interpessoal, não se diferenciando da resposta ao placebo. O fato de a
maioria terem efeito hipotensor limita o seu uso. Por outro lado, mesmo sem dar
dependência, o risco de vasoconstrição das artérias coronárias é grande se forem
suspensos subitamente. O mais fácil de usar será o propranolol que tem pouco efeito
hipotensor e em doses baixas controla bem a ansiedade e a taquicardia. Porém deverá
sempre ser testado uns dias antes do seu uso para controlar a ansiedade, por exemplo
antes de um concerto[8][9][10]

Farmacocinética e metabolismo[editar | editar código-fonte]


Os bloqueadores beta-adrenérgicos circulam ligados às proteínas. A dose eficaz, o
metabolismo hepático, a semivida, a excreção variam com o composto e são tratados na
página respetiva.[2]

Indicações clínicas[editar | editar código-fonte]

Beta bloqueadores não-seletivos

Apesar de terem sido indicados como medicamentos de primeira linha no tratamento da


hipertensão, o seu uso foi reduzido pelo aparecimento de novas moléculas mais eficazes,
em especial nas pessoas idosas com disfunção eréctil. São no entanto muito úteis
sobretudo nos pacientes que têm patologias associadas como é o caso da doença
coronária com hipertensão arterial, permitindo reduzir a frequência
de polimedicação nestes pacientes.
A principal indicação dos bloqueadores beta é na doença coronária, como estabilizadores
no caso da angina estável, como atuando como protetores cardíacos após infarto agudo
do miocárdio, sendo também utilizados como antiarrítmicos em determinadas situações.
São muito úteis nos casos de hipertiroidismo com taquicardia e/ou arritmias, na ansiedade,
em certas formas de tremor e enxaqueca a escolha do bloqueador beta depende da
patologia já que cada molécula tem as suas características.

 Esmolol e o sotalol são os que atuam melhor nas arritmias[2]


 Bisoprolol, metoprolol e carvedilol atuam bem na insuficiência cardíaca, sendo o
carvedilol um bloqueador misto beta e alfa[2]
 Atenolol, metoprolol e nebivolol são bons hipotensores[2]
 Atenolol, metoprolol, propranolol e nebivolol são muito usados após um infarto do
miocárdio se bem que a pressão arterial deverá de ser monitorizada sobretudo quando
se administra o Atenolol[2]
 Timolol, propranolol têm-se mostrado muitos úteis no tratamento da enxaqueca
 Betaxolol, carteolol, levobunolol, timolol no tratamento do glaucoma
 Propranolol é o beta-bloqueador de eleição no hipertiroidismo, no tremor, hipertensão
portal, hemorragia por varizes esofágicas e é usado juntamente com um bloqueador
α no feocromocitoma[11]
 Nebivolol é o mais Beta 1 seletivo, causando poucos efeitos colaterais Beta 2
como broncoespasmo e hipoglicemia.[12]

Efeitos colaterais e contraindicações[editar | editar código-fonte]


A distribuição dos receptores β no organismo é relativamente extensa, pelo que o leque de
efeitos colaterais observados ao bloquear esses receptores pode ser importante. Desta
forma, desenvolveram-se antagonistas com seletividade para o subtipo β1, que é o
predominante no coração.
A nível de efeito cardiovascular, podem verificar-se bradicardia sinusal, bloqueio
atrioventricular, tonturas (eventualmente síncope) por hipotensão e possível agravamento
da insuficiência cardíaca, sobretudo nos casos de insuficiência cardíaca dilatada.
As reacções adversas que podem ocorrer com os bloqueadores beta são variadas,
podendo ocorrer, se bem que raramente, náuseas, vómitos, alterações do trânsito
intestinal e dores abdominais.
Em alguns casos pode também verificar-se insónia, agravamento de uma depressão já
existente, e muito raramente alucinações.
Os pacientes com problemas urinários prévios podem ter incontinência urinária sobretudo
quando são administrados bloqueadores mistos. O bloqueio alfa1 a nível urinário causa
relaxamento do esfincter uretral.[13]
Mesmo com os cardiosseletivos (β1) pode ocorrer broncoespasmo, especialmente em
doentes com antecedentes de asma brônquica.
O receio de que os bloqueadores beta podem também estar implicados em alterações
metabólicas, tais como dislipidemias, podendo também verificar-se o surgimento
de diabetes mellitus tipo 2 vem do estudo JNC6 e está hoje provado que não têm
fundamento (Khan, G. "Cardiac Drug Therapy)AS alterações nas LDL, HDL, Triglicerídeos
são tão pequenas que não são estatisticamente significativas[2]
Estes medicamentos estão contraindicados nas situações de

 Insuficiência cardíaca descompensada


 Doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC)
 Asma brônquica
 Bradicardia sinusal
 Doença do nó sinusal
 Bloqueio auriculoventricular
 Acidose metabólica
 Choque
 depressão grave

Intoxicação[editar | editar código-fonte]


No tratamento de uma eventual hiperdosagem, acidental ou com fins suicidas, usa-se
o Glucagon,[14][15] que possui um efeito inotrópico positivo e diminui a resistência vascular
renal. É o antídoto específico na intoxicação pelos beta-bloqueadores porque aumenta
o AMPc intracelular e a contractilidade cardíaca.[16][17] Sempre que a situação o justificar
deve ser colocado um pace-maker provisório.
A intoxicação pode desencadear um broncoespasmo em grau variável que usualmente
responde ao tratamento com medicamentos anticolinérgicos tais como o ipratrópio, menos
perigosos que os beta agonistas nos pacientes cardiovasculares. O salbutamol e a
isoprenalina podem também ser usados para aliviar o espasmo brônquico.

Referências
1. ↑ Stapleton MP (1997). «Sir James Black and propranolol. The role of the basic sciences in
the history of cardiovascular pharmacology». Texas Heart Institute Journal / from the Texas
Heart Institute of St. Luke's Episcopal Hospital, Texas Children's Hospital. 24 (4): 336–
42. PMC 325477 . PMID 9456487
2. ↑ Ir para:a b c d e f g h i j k l M.I.Gabriel Khan. Cardiac Drug Therapy, 7th. [S.l.]: ed.Humana Press.,
2007,. ISBN 978-1-58829-904-8
3. ↑ «O paradoxo do tratamento da insuficiência cardíaca congestiva com bloqueadores beta».
Consultado em 27 de dezembro de 2012
4. ↑ Ir para:a b «betabloqueadores» (PDF)
5. ↑ Warltier DC, Gross GJ, Jesmok GJ, Brooks HL, Hardman HF (1980). «Protection of
Ischemic Myocardium: Comparison of Effects of Propranolol, Bevantolol and N-Dimethyl
Propranolol on Infarct Size Following Coronary Artery Occlusion in Anesthetized
Dogs». Cardiolog. 66
6. ↑ «Carvedilol na insuficiência cardíaca» (PDF). Consultado em 28 de dezembro de 2012
7. ↑ Liebowitz, M.R.; Scneier, F.; Campeas, R.; Hollander, E.; Hatterer, J.; Fyer, A; Gorman, J.;
Papp, L.; Davies, S.; Gully, R.; Klein, D.F. – Phenelzine versus atenolol in social phobia –
Arch Gen Psychiatry 49: 290-300, 1992.
8. ↑ Vera Tess; Márcio Bernik. «Tratamento farmacológico da fobia social». Consultado em 27
de dezembro de 2012
9. ↑ Liebowitz, M.R.; Gorman, J.M.; Fyer, A.J.; Klein, D.F. – Social phobia: a review of a
neglected anxiety disorder – Arch Gen Psychiatry 42: 729-36, 1985.
10. ↑ Bechelli, Luiz Paulo de C; Nardi, Antonio Egídio. Tratamento farmacológico da ansiedade.
J. bras. psiquiatr;37(3):121-6, maio-jun. 1988. Tab.
11. ↑ «Preparação do doente com feocromocitoma para a cirurgiaacessodata=27-12-
2012»(PDF)
12. ↑ «Nebivolol Sandoz - Folheto». www.diagnosia.com
13. ↑ «Incontinência urinária secundária ao carvedilol» (PDF). Consultado em 28 de dezembro
de 2012
14. ↑ «Beta blocker overdose with propranolol and with atenolol». Consultado em 28 de
dezembro de 2012
15. ↑ «Toxicity, Beta-blocker: Treatment & Medication - eMedicine Emergency Medicine».
Consultado em 28 de dezembro de 2012
16. ↑ «Beta-Adrenergic Blocker Poisoning» (PDF). Consultado em 28 de dezembro de 2012
17. ↑ USMLE WORLD 2009 Step1, Pharmacology, Q85